— O que você está fazendo aqui? — levantei sobressaltado ao ver sentada na beirada de minha cama. Ela balançava as pernas descontraidamente, como quem não queria nada.
Eu já estava acostumado em vê-la em meus sonhos, sempre conversávamos. Mas aquele sonho eu percebi de cara que estava diferente demais.
Bem, somente pelo fato que estávamos em meu quarto e ela me encarava tristemente, já era um alerta de que algo estava fora da normalidade.
Aliás, acho que sonhar com a namorada morta já era algo muito anormal.
Nossos sonhos juntos nunca aconteciam ali. Sempre se passavam em locais ao ar livre, locais felizes.
Seu semblante estava muito sério e rígido, e aquilo me fez pensar se realmente era um sonho, se eu não estava acordado. Ela sempre estava tão alegre e radiante em todos os nossos encontros pós morte, - até mesmo viva, ela vivia feliz - mas agora estava totalmente ao contrário.
— Vim me despedir de você. — engoliu em seco enquanto passava sua mão pela cama, fazendo desenhos aleatórios com os dedos. Ela queria disfarçar que estava prestes a chorar, enquanto eu nem sabia que ela era capaz daquilo. Almas choravam? Eu não fazia ideia, essa era minha primeira experiência.
Naquele momento meu coração se apertou e eu também quis chorar. Fui assolado por aquele clima pesado que estava em meu quarto, e tudo que eu mais quis foi que alguém me consolasse e dissesse que tudo ficaria bem.
Eu queria chorar como eu nunca chorei. Queria deixar minhas lágrimas caírem, e provavelmente seriam equivalentes ao tanto que chorei no último mês todo.
Eu entendi o que ela quis dizer com aquilo.
Ela estava definitivamente indo embora.
De novo.
E dessa vez, não voltaria mais, nem mesmo em meus sonhos.
— Não quero que você vá. — engoli em seco e percebi que não estava chorando, por mais que a tristeza estivesse presente no ambiente e em nossos corações, as lágrimas simplesmente ficaram presas.
— Eu também não quero ir. — ela suspirou, lutando contra aquilo. — Mas se formos encarar a realidade, eu parti há um mês...
— Exatamente no dia em que você morreu. — a interrompi, completando sua sentença. — É, eu sei disso, porém não precisa ficar me lembrando toda hora.
— Exatamente. — ela concordou, deixando seus ombros caírem, derrotada e ignorando a parte de me lembrar, porque o simples fato dela estar ali me lembrava de que na verdade, ela não estava.
— Não era para você ter falecido naquele acidente! — exclamei, mas aquilo não mudaria fato algum. — O outro motorista estava errado! — falei com raiva, esmurrando a cama.
— Ei, ei... Se acalma — ela subitamente se levantou e ficou de pé ao meu lado. Estendeu uma de suas mãos até meu rosto, mantendo-a apenas milímetros de distância. Ela nunca me tocava, mas o simples fato de tê-la perto de mim já me deixava mais tranquilo. — , — ela suspirou, levou a mão até seus cabelos, levando-a para longe de mim, e a passou por toda a extensão de seus fios. Olhei no fundo de seus olhos e pela primeira vez, eu não consegui interpretar o que passava em sua cabeça. — você precisa entender que aquele era o meu dia. Se não fosse naquele acidente, seria em outra situação e...
— Não acredito nas mesmas coisas que você. — novamente eu a impedi de continuasse a falar.
Mentira, eu acreditava naquilo sim... Só não me conformava em ver aquilo ser aplicado à uma pessoa tão jovem e tão especial para mim.
— E aquele foi o dia de duas pessoas, se formos encarar dessa maneira. — olhei para sua barriga e uma vontade incontrolável de socar a cara daquele caminhoneiro infeliz que tirou a vida delas se apoderou de mim.
Qual a necessidade de fazer uma ultrapassagem arriscada e proibida? Por que ele não ficou quieto em sua pista? Deste modo, ambas ainda estariam vivas.
— Não se preocupe. — ela disse serena. Era capaz de mudar seus sentimentos rapidamente para me ver feliz, e aquilo só aumentava a minha admiração por ela. — um dia você conhecerá uma garota que irá mudar a sua vida. — sorriu e eu rolei os olhos. Não queria outra garota, queria ela. — e com ela, você terá aquilo que tinha comigo e muito mais do que perdeu. — ela completou e se sentou na cama de novo, porém agora mais próximo e de frente para mim.
— Não quero outra garota, quero você, . — teimei. Não conseguia me ver na situação em que outra pessoa tomaria conta da minha vida.
— Você diz isso agora, mas um dia sua ficha cairá e então você perceberá que perdeu muito tempo de sua vida esperando por alguém que não podia voltar. Mas não faz mal, o destino sabe o que faz, se tiver que demorar, demorará e ponto. Siga em frente, .
Eu não conseguia compreender como ela era capaz de me mandar fazer tal coisa.
Ela queria que eu esquecesse todo o meu sentimento com ela para tê-lo com outra mulher. O que era impossível. Meu amor por ela era único.
Minha era mesmo tão única.
— É fácil para você dizer isso. Está morta! — me exaltei. Estava tomado pela raiva que sequer me dei conta de que aquela fala poderia ofendê-la ou deixá-la magoada.
— É claro, ! Preciso me desapegar! Tenho a consciência de que mantê-lo preso a mim será apenas pior para nós dois. Não posso deixar que você pare sua vida por minha causa! A vida que acabou foi a minha, não a sua! — rolei os olhos, cansado daquela mesma ladainha que não me convenceria de nada.
Será que ela não compreendia que ela era a minha vida? Eu a amava tanto que chegava a doer!
— Você não pode prever o futuro. — blefei. Bem, eu não sabia se ela era capaz... Talvez ela tivesse alguns informantes do além.
— Não estou prevendo. Não tenho tal habilidade. Mas te conheço muito bem, você passou o último mês todo praticamente vegetando nessa cama — ela me desafiou. — não passe sequer mais um dia aqui, ok? — ela pediu. Não tinha lugar algum na Terra que me fosse interessante se ela não estivesse lá comigo. Preferi ignorá-la a bater de frente com ela.
— Não me referi a essa parte. Mesmo porque se eu vegetar aqui eu morrerei... — minhas palavras se perderam. Se fosse para ficar junto a ela, até que era algo a ser considerado.
— Você não é tão burro a ponto de fazer algo assim — ela me provocou.
ainda não havia aprendido a não me desafiar... Eu já fiz tantas loucuras por aquela mulher...
— Desta forma você estará se matando, e você sabe para onde as pessoas que fazem isso vão.
— Não é para o mesmo lugar que você. — conclui derrotado.
Eu faria aquilo somente para ficar com ela, mas como isso não seria possível, o jeito era continuar vivo esperando a morte chegar.
— Eu conheço esse seu olhar, . Você está pensando em esperar pela morte natural. — porra, como era capaz uma pessoa conhecer outra tão bem a ponto de interpretá-la apenas pelo olhar? Às vezes aquilo não era bom, já que ela sempre descobria meus planos. — não vou me preocupar porque sei que você não vem me acompanhar. Pelo menos não por sua vontade... — ela completou, me deixando curioso. Mas ela estava certa, eu não era capaz de cometer suicídio. — mas minha vinda de hoje não tem este propósito. — ela resolveu me interromper, para que eu parasse de pensar naquilo e falar merda, claro. — eu já disse, é a minha despedida...
— Não precisa ficar me lembrando disso a cada momento, . — supliquei, com a voz arrastada.
— Cale a boca e pare de me interromper, . — ela falou daquele jeito mandão e único que ela tinha. E se fez isso, era porque sua paciência já se esgotava... Ela raramente deixava se afetar pelas coisas que eu dizia, então eu realmente devia estar falando muita coisa sem pé nem cabeça.
Mas valia de tudo para fazer com que ela ficasse mais tempo ali comigo, já que definitivamente eu não podia fazer companhia a ela.
Assenti, deixando-a prosseguir.
— Não posso ficar aqui por mais tempo. Meu prazo já acabou, é hora de partir. — pensei em interrompê-la novamente para pedir ao menos uma despedida decente, mas ela me olhou de cara feia e eu desisti. — Mas eu tenho um último pedido a lhe fazer, é claro, fora o de não ficar vegetando aqui.
— Claro, qualquer coisa! — me animei. Ao menos poderia fazer algo que a deixasse feliz, portanto me deixaria também.
— Canta pra eu dormir? — ela pediu me olhando ternamente. Se arrastou pela cama e se deitou ao meu lado, sob o travesseiro que costumava ser dela, onde eu enterrava meu rosto para sentir seu cheiro quando a saudade apertava. Se enfiou debaixo das cobertas e se aconchegou ali.
E eu não era capaz de negar aquilo a ela jamais.
— Claro. — voltei a me deitar. — o quê você quer que eu cante?
Quando ela ainda estava viva e tinha um dia difícil, assim que nos deitávamos, ela me pedia para cantar para que ela dormisse bem. Era sempre uma música aleatória de minha escolha. Eu não gostava muito de deixá-la escolher pois ela sempre pedia algo da Demi Lovato e eu não sabia música quase nenhuma dela.
Mas agora era uma ocasião especial, eu a deixaria escolher mesmo sabendo que seu pedido seria uma canção da Demi. E porque lá no fundo, eu sabia que era a última vez que a veria, por mais que eu não quisesse admitir.
Nightingale. E eu nem preciso dizer de quem é, certo? — ela confirmou minhas expectativas com um pequeno sorriso.
— Certo. — ri mecanicamente, pois a última coisa que eu daria em um momento triste como aquele, seria uma risada sincera. — Mas você sabe que eu prefiro a Taylor Swift.
— Mas eu prefiro a Demi Lovato. E você me deixou escolher. — ela fez um biquinho fofo, que eu até a morderia e lhe faria algumas cócegas, caso estivesse com minha consciência sã.
Mas aquilo era um sonho, e a responsável pelo sonho é a parte inconsciente da mente.
E eu não fazia a mínima ideia de que música era aquela.
Muito menos conhecer sua letra para cantar para minha namorada.
Eu tinha acabado de abrir a boca para lhe informar sobre aquilo, mas ela me interrompeu.
— Mas você está fazendo tudo errado! — ela exclamou, rindo. Depois eu ainda era obrigado a escutar que eu estava a interrompendo demais! Mulheres...
Tudo bem, tudo bem. Eu não estava achando ruim, apenas engraçado, porque mesmo morta ela continuava a mesma.
— Como assim? — ergui a sobrancelha.
— Cadê seu violão?
— Você me pediu para cantar, não para tocar.
— Mas eu quero os dois. — ela sorriu.
Ela sabia muito bem que eu iria pegá-lo. Meu Deus, o que eu faria com essa mulher? Como viverei sem ela?
Me levantei da cama e fui até a parede, pegando o violão que ficava no suporte preso a ela. Agora a questão era descobrir a letra daquela música. Eu não desapontaria minha garota em seu último pedido.
Me sentei na cama e suspirei. Comecei a dedilhar o instrumento para entrar no clima, e magicamente eu sabia a música toda.
Não existe nada no mundo melhor do que os sonhos.
Querida inconsciência, obrigado por prestar atenção em detalhes que minha consciência não percebe, como as letras das músicas que curtia.
I can't sleep tonight, wide awake and so confused, everything's in line, but I am bruised. I need a voice to echo, I need a light to take me home, I kinda need a hero, is it you? — comecei a cantar com os olhos fechados. Assim que os abri na última frase, vi que ela movimentava a boca cantando silenciosamente comigo. Tão linda, tão ela... — I never see the forest for the trees, I could really use your melody, baby I'm a little blind, I think it's time for you to find me. — continuei cantando, tentando me manter firme, mas eu quis chorar mais do que nunca. Aquela música era tão perfeita para aquele momento. A danada havia escolhido aquela música a dedo, não foi à toa, tinha certeza.
Can you be my nightingale? Sing to me, I know you're there, you could be my sanity, but bring me peace, sing me to sleep, say you'll be my nightingale. — ela cantou em voz alta, e eu deixei o refrão todo por conta dela, observando-a encantado. Como um homem era capaz de depender tanto de uma pessoa? Como eu consegui passar um mês inteiro acordando sem ela ao meu lado? Pior, como seria o resto da minha vida sem para me alegrar?
Somebody speak to me, cause I'm feeling like hell, need you to answer me, I'm overwhelmed, I need a voice to echo, I need a light to take me home, I need a star to follow, I don't know... I never see the forest for the trees, I could really use your melody, baby I'm a little blind, I think it's time for you to find me. — engoli em seco e voltei a cantar, com ela me acompanhando silenciosamente. Eu não queria que ela percebesse que eu estava por um triz de chorar, queria que aquele último momento entre nós fosse algo memorável, perfeito.
Can you be my nightingale? Sing to me, I know you're there, you could be my sanity, but bring me peace, sing me to sleep, say you'll be my nightingale. — ela repetiu o refrão enquanto eu dedilhava automaticamente o violão.
Por mim, já teria o largado há um tempo apenas para poder tocá-la. Mas se ela nunca tocou em mim nesse último mês nesses sonhos, por que eu seria ousado o suficiente a tocá-la? Se minha mão atravessasse seu corpo, eu entraria em pânico.
I don't know what I'd do without you, your words are like a whisper cutting through, as long as you are with me here tonight, I'm good. — deitei ao seu lado, deixando o violão sob meu peito. Não sei como eu consegui tocar daquele jeito. Devia ser apenas outra magia dos sonhos.
Can you be my nightingale? Feels so close, I know you're there. Oh, nightingale. You sing to me, I know you're there, cause baby you're my sanity, you bring me peace, sing me to sleep, say you'll be my nightingale... — cantamos o último refrão juntos, finalizando a música.
Fechei os olhos. Eu precisava eternizar aquilo.
Deveria ter usado alguma filmadora para gravar nosso último momento. Será que as câmeras capturavam imagens de almas?
Tão lindo, tão especial.
— Queria poder te colocar no meu colo, acariciar seus cabelos e dizer que não há nada com que você deva se preocupar, que tudo ficará bem, assim como eu sempre fazia com você. — suspirei. Aquela jamais seria minha realidade novamente.
Escutei sua risada fraquinha ao meu lado.
— Querido, não estou preocupada com nada. Tenho total ciência de que o lugar para o qual estou indo é muito melhor do que aqui. Eu quem deveria fazer isso com você, mas você sabe, você é pesado... — ela riu novamente, e eu também. Achei que não fosse possível dar uma risada sincera naquele momento, mas ali estava , me contagiando desde sempre com aquela risada gostosa que me preenchia de uma forma muito boa.
Aquele momento foi tão único e a nossa cara... Eu sentiria tanta falta daquilo.
Após algum tempo, eu percebi que ainda havia uma última coisa a lhe perguntar.
, e quanto àquela garota que você disse que aparecerá em minha vida? Você estava apenas torcendo pelo meu melhor, estava prevendo o futuro ou o quê? — minha voz estava hesitante, talvez não fosse um bom ponto a ser explorado. Abri meus olhos para poder encará-la quando obtivesse minha resposta, mas ela não estava mais ali.
Talvez eu estivesse acabado de acordar, dando fim ao nosso último sonho juntos.
Ou então, aquilo não foi um sonho. Ela veio me visitar e agora havia partido.


Fim!



Nota da autora: (06/08/2015) Sem nota bonitinha, grandinha e meiga sobre a fic dessa vez. Vou ficar caladinha aqui pra não estragar a surpresa/o segredo da fic, se não, eu acabo falando. Um dia eu conto, juro.

Aguardo vocês em Neon Lights e Who’s That Boy, que entraram junto com esse ficstape. E nas atuais (e futuras) fics. ;)

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Beijos mil,
Berrie.




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