Última atualização: 16/06/2017

Capítulo Único


Depois de quase um ano fazendo o possível e o impossível para passar despercebida aonde quer que fosse, aprendera uns truques e entrar de cabeça baixa, sentar-se no fundo do auditório, sem que ninguém lhe notasse, não foi difícil, especialmente quando a palestra já havia começado.
estava no palco, falando sobre o processo de criação do livro que escrevera em um mês e meio, o mesmo livro que tinha no colo naquele exato momento. o lera várias vezes.
Eram contos, cada um sobre uma ferida que o garoto nunca conseguira curar dentro de si e o livro fora um sucesso completamente inesperado, mas não era por isso que a garota estava ali. Ou porque comprara o livro.
Era por , pelo que conhecera dez meses atrás, antes de sua vida virar de cabeça para baixo, ainda mais. O no qual a garota não podia evitar pensar toda vez que deitava a cabeça no travesseiro, todas as noites.
Sentada ali, assistindo enquanto ele falava com o público com toda desenvoltura do mundo, ela não conseguiu evitar comparar o homem a sua frente com o garoto que conheceu, por quem se apaixonou. E olhar para ele trazia à tona cada uma das lembranças daquele tempo, desde as mais dolorosas, as melhores também.


DOIS ANOS ANTES


Na noite em que conheceu , era aniversário de , melhor amiga da garota. Não que ela tivesse muitas amigas, mas aquela era outra história.
Ela não costumava ir a festas dadas pelo pessoal do colégio, já que, embora fosse muito popular e todo mundo conhecesse ela, evitava a atenção a todo custo, se mantendo em seu próprio canto tanto quanto fosse possível.
Enfim, ela estava parada em frente ao espelho de corpo inteiro de seu quarto, analisando a própria aparência antes de sair para festa. Não vestia nada demais, calças jeans e uma blusa de mangas longas a fim de esconder as marcas que seu pai vivia deixando em seu corpo, marcas que ela odiava, mas não queria pensar no pai. Pensar no pai era sinônimo de se sentir deprimida e ela prometera a que faria todo o possível para não se sentir deprimida, respirando fundo e aprumando a postura antes de deixar o quarto, descendo as escadas de cabeça erguida, aliviada que seu pai não estivesse em casa. Tudo seria muito mais difícil se ele estivesse lá e ela sabia bem disso.
Sua mãe estava na cozinha, tomando um café e abriu um sorriso, um sorriso pequeno, quando viu aparecer.
- Vai sair? – Perguntou, como se a ideia lhe agradece e sabia que agradava. Ver dar qualquer indício de ter uma vida fora de casa, de ter amigos, alegrava a mãe simplesmente por fazê-la acreditar que seu pai não conseguira tirar aquilo dela também, depois de desestabilizar a família de maneira tão intensa quanto fizera. O homem tinha um problema com álcool, ficava violento quando bebia e descontava na família, mas não havia nada que elas podiam fazer. Os três não tinham muito, porém tudo que tinham vinha dele, então não era como se e a mãe pudessem pegar suas coisas e tentar a sorte em outro lugar. O homem quebrara a mão da esposa há alguns anos e desde então ela nunca conseguiu cozinhar como antes, que era o que fazia da vida, já , bem, ela era só uma adolescente sem a menor ideia do que fazer da vida. Estava no colegial, não tinha nada, não tinha como dar a mãe ou a si mesma o que precisavam para se livrar da presença abusiva do homem em suas vidas.
Por fim, balançou a cabeça, se obrigando a parar de pensar naquilo. Não podia ficar deprimida, prometera a .
- É aniversário da . – explicou. – Prometi a ela que iria.
- Claro. Divirta-se. – Sua mãe assentiu, abrindo um sorriso doce para a garota.
Honestamente, não tinha ideia de como aqueles sorrisos persistiam, sabendo tudo que ela passava, cada tapa, cada soco e cada chute que recebia, ela sempre conseguia resistir e sorrir.
nunca ia entender como.

tragava seu cigarro nos fundos da casa de , longe de toda a agitação da festa, da música alta e das pessoas bêbadas, preferindo a tranquilidade da noite escura.
Por mais que conhecesse a maioria das pessoas naquela festa, que considerasse algumas delas amigas, não estava ali por nenhum motivo em especial além do fato de ter lhe obrigado, já que era aniversário dela e a garota se tornava especialmente egocêntrica quando envelhecia.
De qualquer forma, fumava quase que distraidamente, se deixando aproveitar a sensação entorpecente desligando pouco a pouco cada um de seus sentidos. Era inegavelmente relaxante e mais seguro que o álcool também, na opinião do garoto. A única coisa que ficava menor que o cérebro dos outros garotos quando bebiam era sua bexiga e não conseguia evitar imaginar como devia ser incomodo, preferindo, portanto, se ater ao fumo.
Não era a coisa mais saudável do mundo, mas ele nunca dissera aquilo, dissera?
Enfim, o garoto soltou a fumaça, soprando-a para cima da própria cabeça antes de se sentar recostado a árvore ali perto, respirando fundo e fechando os olhos por um instante, tentando se perder do som alto que vinha de dentro da casa, de tudo que era sua realidade naquele momento.
se sentia cansado e irremediavelmente perdido, pensando em todos os passos que vinha dando e ainda daria sob o controle de outras pessoas, como se não conseguisse fazer outra coisa além de ser um fantoche e obedecer. Todo o cansaço, toda a dor e todo o peso, no entanto, voltavam quando ele tinha qualquer chance de ficar sozinho e parecia que tudo dentro dele era tão denso quanto nunca imaginara ser possível.
Ao menos o cigarro lhe fazia sentir mais leve e, com o pensamento, o garoto abriu os olhos, trazendo o mesmo para mais perto dos lábios antes que seus olhos batessem na garota que acabava de adentrar o quintal.
Ele conhecia aquela garota.
Ela fazia inglês com ele, literatura clássica e geografia. Seu nome era e sabia daquilo, não só pelas aulas, mas por também, que era amiga da garota. Ela se empenhou em convencer a ficar longe de na única vez que ele comentou sobre a garota para ela, porém aquilo nunca cessou a curiosidade de , ainda que ele não soubesse explicar também porque fixava tanto o pensamento nela. Havia algo em seus olhos, algo que ninguém mais parecia notar, como se estivesse lá só para ele, algo com o qual se identificava, mesmo sem saber o que era.
Naquela noite, ele via aquilo de novo, mesmo que ela não estivesse olhando nos olhos dele. A garota, na verdade, ainda não o havia notado sentado ali, tirando o cabelo do rosto e mordendo o lábio enquanto trocava o peso do corpo de um pé para o outro só para, em seguida, olhar na direção de e vê-lo ali. Foi então que ele viu.
Ela era pura tensão.
Não era como se estivesse nervosa, como se apenas emanasse tensão, mas como se ela, inteira, fosse tensão. Só faltava tremer.
- Está tudo bem? – O garoto ergueu o tom de voz para se fazer ouvir, estreitando os olhos em sua direção e assentiu, desviando o olhar.
- Só vim tomar um ar. Ficar sozinha um pouco. – Ela murmurou, se explicando. Soava tão nervosa que tinha a impressão que podia se esticar e tocar o receio da garota se tentasse.
- Está me expulsando? – Perguntou, tentando aliviar com o clima, mesmo que não fosse completamente verdade tentar dizer que ele próprio estava com o humor exatamente bom para tal. – Eu meio que cheguei aqui primeiro, mas não sou de falar muito. Se fechar os olhos, vai ser como se eu nem estivesse aqui. – Acrescentou e estreitou os olhos, os desviando em seguida para o cigarro entre seus dedos.
- Você tem outro desses? – Perguntou, sem pensar. desviou o olhar para o próprio cigarro, levando um segundo para entender sua pergunta e então assentiu. se aproximou. Ela passara, no máximo, dez minutos do lado de dentro da casa e se sentira tão sufocada e perdida que lhe causava raiva. Nem sabia do que tinha mais raiva, mas era como se estivesse tão machucada, não só fisicamente, mas em seu interior também, que aquilo era tudo que podia fazer para se sentir pelo menos um pouco melhor. Não vingada, não achava que, um dia, fosse se sentir vingada por tudo que seu pai fizer a ela e sua mãe. Por cada lágrima, cada toque sujo e forçado no corpo da garota, cada golpe em sua mãe. – Obrigada. – Sussurrou para quando, por fim, se sentou ao seu lado, aceitando o cigarro que o garoto lhe estendia.
Ele apenas assentiu, observando em silêncio enquanto levava o cigarro para a boca, virando-se para ele num pedido silencioso para que o garoto acendesse para ela. Quando seus olhares se encontraram novamente, viu outra vez e se perguntou se ela também via ou se era coisa da sua cabeça. O que quer que havia em seus olhos que o fazia acreditar que se havia alguém no mundo com quem ele poderia passar o resto da vida conversando ou simplesmente lhe ouvindo, olhando em seus olhos, esse alguém era ela. Não que entendesse o que era aquilo. Não entendia.
De um jeito ou de outro, ele acendeu o cigarro da garota, assistindo enquanto ela se concentrava em tragar longamente em seguida, concentrando cada pequena centelha de energia de seu corpo em consumir aquele cigarro, com um tipo no mínimo triste de devoção. Como se aquilo fosse o quão bom a vida pudesse ficar para ela. se sentia daquele jeito as vezes e, naquele momento, só desejou que fosse em vão. Que fosse um sentimento sem qualquer fundamento, tanto para ele, quanto para ela.
Enfim, como prometeu a garota, ficou em silêncio, fechando os olhos outra vez e recostando a cabeça no tronco atrás de si, deixando a nicotina acalmar seus nervos e entorpecer seus sentidos como fazia tão bem.
Enquanto o garoto se distraia em esvaziar a mente, com os olhos fechados, olhou pelo canto do olho em sua direção, mordendo o lábio. Ela queria chorar. Se sentia melancólica demais e irremediavelmente perdida, queria apenas ficar sozinha e chorar, como se aquilo fosse, de alguma forma, aliviar a angustia que estava sempre em seu peito, o afundando como uma rocha pesada, mesmo no fundo sabendo que não ia. Nada ia.
- Essa festa foi uma péssima ideia. – Murmurou, para si mesma, imaginando que estivesse chapado demais para ouvir ou mesmo se importar e precisava falar, suspirar, fazer alguma coisa, qualquer coisa, para aliviar o aperto no peito como pudesse.
- Eu que o diga. – murmurou de repente, assustando a garota, que jurava que ele sequer havia lhe escutado. Ela estreitou os olhos em sua direção, mas ele não pareceu perceber nada. – Está frio para cacete. acabou rindo verdadeiramente ao ouvir suas palavras, surpreendendo não só a , mas a si mesma também.
- É, com certeza é isso. – Ironizou, mas não pareceu perceber nada, tragando seu cigarro tranquilamente.
- Quer sair daqui? – Ele perguntou, de repente, fazendo a garota estreitar os olhos de maneira desconfiada para ele, que deu de ombros, sem realmente se importar. estava fumando a mais tempo que ela, seria mentira dizer que estava pensando com clareza perfeita. – Meu carro tem aquecedor.
- Ah. – Foi tudo que conseguiu falar para responde-lo no primeiro instante, sem conseguir imaginar uma resposta melhor. Ele não esperava que ela fosse com ele para seu carro, assim, do nada, esperava?
Acabara de conhecer o cara e, definitivamente, não confiava nele.
- Tudo bem. – deu de ombros, entendendo a negativa e se levantou, sob o olhar da garota. – Eu vou.
encarou o garoto por um instante depois que ele falou, sem ter a menor ideia do motivo de estar de fato pensando em se levantar em ir com ele. Ela se sentia confusa, cansada, perdida e frustrada na maior parte do tempo, sempre como se estivesse tentando alcançar algo que estavam tirando dela, afastando mais e mais do alcance de suas mãos e lhe deixando sozinha com a dolorosa sensação do quase. Ela sempre ficaria no quase, quase superando as lágrimas que derrubava todas as noites pela família despedaçada, quase aprendendo como lidar consigo mesma, quase criando esperanças de se tornar uma jovem normal, quase...
- Eu também. – Ela murmurou de repente, se pondo de pé rápido demais para que tivesse tempo sequer de piscar, absorvendo muito devagar o que estava acontecendo ali.
- Anh... Tá. – Ele falou, incerto, antes de seguirem na direção do carro, na rua em frente à casa de .

Nenhum dos dois se importou muito que fumar num carro, com as janelas fechadas, muito provavelmente não fosse a melhor ideia do mundo, o fazendo mesmo assim e depois de mais um cigarro ou dois se sentia inegavelmente relaxada. Olhava para as pessoas vomitando pelos cantos no jardim de e ria, como se houvessem lhe contado a piada do ano. ria também quando a garota encostou a cabeça em seu ombro, sendo arrebatada pelo cheiro de banho, de sabonete, dele sem que ninguém esperasse. Por um instante, tudo que ela conseguiu fazer foi ficar naquela posição, sentir o cheiro.
O banho costumava ser o momento de paz da garota, seu ‘’lugar feliz’’, onde nada poderia lhe atingir. Ela fugia de tudo embaixo da água e até o fluxo de seus pensamentos parecia sumir. Aquele cheiro vindo de pareceu lhe arrebatar aquela sensação sem que ela pudesse evitar, erguendo lentamente o olhar para o garoto, sério outra vez.
se deixou inclinar na direção de , envolto por o que quer que fosse aquele momento, e ela fechou os olhos, como se sua proximidade pedisse aquilo. De fato, pedia, porém nem ela mesma imaginara que fosse atender ao pedido. Se deixar entregar ao momento, ao calor e ao cheiro, as sensações. Talvez fosse justamente aquilo, afinal de contas. conhecia tantas sensações ruins, podia usar um pouco daquilo. O que quer que fosse aquilo que ele fez com ela quando tocou sua nuca, tocando com cuidado os lábios da garota aos seus.
sentiu uma onda de energia de espalhar por seu corpo quando ele o fez, imiscuindo os dedos nos cabelos do garoto enquanto entreabria os lábios, permitindo que ele aprofundasse o beijo. De repente, ela se sentia capaz de fazer aquilo. De beijar um estranho numa festa e gostar, de gostar e se deixar agradar com cada pequena coisa banal da vida, sentindo-se perfeitamente motivada pelo calor quase viciante que se espalhava por seu corpo enquanto os lábios do garoto estavam em contato com os seus. O garoto conhecia a sensação, se sentia completamente entregue a ela naquele momento, juntando os cabelos de num bolo enquanto aproximava mais seus corpos e rostos, mesmo que aquela posição, sentados lado a lado no banco do carro dele não fosse exatamente a melhor do mundo para o que faziam.
Não que qualquer um dos dois soubesse o que exatamente estavam fazendo, era mais como se estivessem se descobrindo, no fim das contas. Dando a eles próprios a chance de experimentar e explorar cada pedaço da sensação, do coração martelando forte no peito, da pele formigando e esquentando, enfim, de tudo. Tudo que acontecia enquanto se beijavam.
Nenhum dos dois estava pensando com muita clareza quando puxou a garota para seu colo e talvez por isso ela tenha deixado, talvez por isso tenha sido capaz de sentir prazer com a atitude dele, com a sensação de calor e a proximidade de seus corpos, espalmando seu peito com uma das mãos enquanto com a outra segurava em sua nuca, sem parar de beijá-lo. Parecia que cada pequena parte do corpo dela tocava o dele e a sensação era boa demais para tudo que conhecia.
A garota terminou por suspirar contra a boca de quando ele subiu a mão por sua perna, apertando mais forte sua cintura ao alcançar a região e juntando mais seus corpos simultaneamente, fazendo com que um bolo de excitação se instalasse no estomago da garota que acabou por gemer baixo quando mordeu sua boca, desfazendo o contato de seus lábios para passar a distribuir beijos por seu pescoço, deixando que os lábios quentes passeassem por toda a região e se sentiu verdadeiramente quente, a região entre as pernas em especial parecia tremer, ansiando por atenção, sensação que, no entanto, não durou muito tempo, por mais nova e incrível que fosse para a garota.
Era como se ter os lábios de longe dos seus trouxesse de volta o oxigênio ao seu cérebro, fazendo com que os pensamentos lhe arrebatassem novamente e sob o toque firme e quente de , de repente, a garota se sentiu claustrofóbica e desesperada, tentando espalmar seu peito para afastá-lo, confundindo o cheiro de banho do garoto, que decidira gostar há tão pouco tempo com o cheiro forte de álcool que seu pai costumava carregar consigo quando rasgava suas roupas e lhe violava, noite após noite. Os olhos de passaram a arder e ela empurrou com mais força, soltando um gemido de dor dessa vez, com a sensação que estava presa e nada podia lhe desesperar mais.
- . – ergueu o olhar, confuso, para a garota, não ousando segurá-la, com a mais pura confusão exprimida no rosto e a garota pulou para longe dele rapidamente, sem notar nada daquilo.
- Preciso ir, eu.... Eu não posso ficar aqui. – A garota murmurou, fora de si enquanto forçava a maçaneta, o fluxo de suas lágrimas aumentando quando não conseguiu abrir a porta. – Preciso sair! – Gritou e piscou, como se despertasse.
- Tudo bem, fica calma. – Murmurou, se aproximando para abrir a porta para a garota, que se encolheu para longe dele. Verdadeiramente confuso, parou o que fazia, virando para lhe encarar. – , preciso que se acalme. O que você tem, o que foi? – Perguntou, demonstrando não só a confusão, como preocupação também, mas só balançou a cabeça, levando a mão para o rosto para limpar as lágrimas.
Ela não conseguia ser racional agora, sequer conseguia falar, se sentia assustada e claustrofóbica, queria sair dali. Precisava sair dali.
Suspirando, como se notasse que tentar falar com ela não ia adiantar, levou a mão girou a maçaneta, abrindo a porta do passageiro, banco no qual ela estava. Ele abriu a boca para se desculpar, mesmo sem saber o que fizera, mas assim que se viu livre, saiu às pressas do carro, batendo a porta atrás de si e deixando o garoto sozinho para tentar, sem sucesso algum, entender o que acabara de acontecer.
+++


- Já falei, , ela não é pro seu bico. – murmurou pelo que pareceu a milionésima vez para , que rolou os olhos para a garota.
- Eu nunca disse que queria nada com ela. – Resmungou em resposta. Os dois estavam no refeitório do colégio onde faziam o último ano, almoçando enquanto tentava arrancar de alguma informação que fizesse a noite anterior ter algum sentido para ele. O garoto sabia que e eram amigas, portanto imaginava que o que quer que acontecesse com ela, a outra sabia, mas se recusava a contar e aquilo deixava o garoto, no mínimo, frustrado, levando em conta o modo como ela surtara na noite anterior.
não estava curioso, ao contrário do que podia parecer. Ele estava preocupado, queria descobrir se ela estava bem e o que ela tinha, levando em conta que ela não aparecera para a primeira aula, que os dois tinham juntos.
- Ah, tá. – ironizou, deixando claro que não acreditava, fazendo rolar os olhos, já perdendo as contas de quantas vezes o fizera. imitou sua atitude antes de soltar o ar de maneira pesada, jogando o cabelo para o lado. – Só fica longe dela, tá bom? Vai ser melhor para todo mundo.
- Por quê? – Ele insistiu e ela bufou, impaciente.
- Argh, eu desisto de você! – Resmungou, se pondo de pé e fazendo menção de deixá-lo sozinho, porém dando meia volta e se inclinando para que o rosto ficasse na altura do amigo quando falou. – Olha, não é o tipo de garota que vai te dar o que costuma ter, . Ela é mais complicada que isso, de verdade. – Murmurou e ele piscou, franzindo o cenho com certa confusão.
- O que quer dizer com isso? – Perguntou, sem ter certeza que entendia.
suspirou.
- Ela tem mais feridas do que você é capaz de curar, . – Falou, como se pesasse falar aquilo. – Eu queria que você fosse, na verdade, mas conheço aquela garota muito bem. O melhor que você pode fazer é ficar longe, tá bom? – Disse e suspirou, como se resmungasse, mas não disse mais nada, fazendo com que assentisse, satisfeita, antes de dar as costas a ele.
Ela não tinha certeza absoluta se aquilo era o suficiente, se ia lhe dar ouvidos e ficar longe da garota, mas bem, fizera tudo que podia. Agora era só torcer.

Esperar muito de , no entanto, não foi uma boa ideia.
No fim do dia, quando estavam todos deixando a escola, ele encontrou no estacionamento, caminhando em direção a saída e correu até ela, mesmo sem ter decidido ainda se devia.
- ! – O garoto exclamou ao pular em sua frente, fazendo com que ela parasse imediatamente de andar, sem opções, porém mais pelo susto do que por notar isso. Não chegara a realmente notar coisa alguma.
- . – Murmurou baixo, constrangida, enquanto segurava os livros com mais força contra o peito, como se fossem um escudo capaz de protegê-la da proximidade dele, ainda que, no fundo, soubesse que não o temia de verdade. não fizera nada para lhe assustar, ao contrário, fizera com que ela se sentisse melhor do que jamais algum outro fizera, com que, pelo menos por alguns instantes, esquecesse tudo que lhe martirizava diariamente, todos os problemas relacionados ao pai, tudo.
- Você está bem? – Ele perguntou, sem parecer ter certeza do que estava fazendo e a garota piscou, levando um instante para absorver a pergunta e então assentir para respondê-lo. mordeu o lábio, sem ficar totalmente convencido pela atitude. – Tem certeza?
- É claro, o que você quer comigo? – Ela retrucou, impaciente, mesmo que tudo fosse, na verdade, uma tentativa de se livrar de uma vez do garoto.
- Você surtou ontem, . Eu só estou tentando entender o que houve, o que eu fiz...
- Você não fez nada, tá legal?! – A garota retrucou, tentando fazê-lo calar a boca para poder ir embora e acabar com aquilo. trazia à tona tudo de pior e de melhor que ela já sentira e a garota, definitivamente, não gostava. Odiava, na verdade, especialmente por não saber administrar o que sentia. Quer dizer, com o pai era fácil, ela sabia lidar com a tristeza, estava acostumada, porém havia uma pontinha dela que se sentia diferente perto de , viva, bem de uma maneira que ela não estava acostumada a sentir e ela não conseguia evitar querer aquilo, ainda que lá no fundo, secretamente. Odiava a confusão que aquilo fazia em sua cabeça e mal trocara algumas frases com o garoto combinadas com alguns cigarros de brinde. Isso sem mencionar, é claro, a parte dos beijos. Fora o inicio e o fim de tudo. – Será que pode me deixar ir embora agora? Vou perder o ônibus.
- Eu te dou uma carona. – Ele retrucou prontamente e a garota rolou os olhos.
- Não quero uma carona. – Devolveu simplesmente, passando por ele para seguir em direção ao ônibus, onde os últimos alunos já entravam. Ela ia mesmo acabar perdendo o ônibus se continuasse a lhe importunar. – não falou para você ficar longe de mim?! – Ela resmungou, frustrada, quando ele entrou logo atrás dela no ônibus, como se fizesse aquilo diariamente, mesmo que tivesse um carro no estacionamento, o carro dele, esperando por ele.
- Ela falou que eu perguntei de você?! – perguntou, surpreso e a garota rolou os olhos, sentando-se no fundo do ônibus e bufando quando ele fez o mesmo, ficando ao seu lado.
- Quer parar de me seguir?! – Reclamou, frustrada – E, só para constar, você realmente não pode curar as minhas feridas, .
- Mas eu nunca disse que era isso que queria. – Ele retrucou, aproveitando que agora ela, finalmente, lhe encarava e continuando. – Eu queria entender o que você tem, , queria saber porque fugiu daquele jeito, se eu fiz algo que...
- Céus, eu afetei sua masculinidade tanto assim? Não tem nada com você, tá bom? Você é bom no que faz, fica tranquilo. – o interrompeu, frustrada de ainda estar falando com ele, especialmente sobre aquilo e agora, com o ônibus já em movimento, ela não poderia se livrar dele até chegar em sua parada, para seu azar. fazia suas mãos suarem e seu coração martelar forte demais, tudo que ela queria era que aquilo parasse.
- Obrigado. – Ele ironizou, soando, no mínimo, ofendido e a garota bufou, virando para lhe encarar como se perguntasse qual era o problema agora. – Pelo menos me dá uma chance de ser seu amigo. Eu meio que preciso de um amigo.
- Você tem a . – Ela retrucou, negando. – E eu também, aliás. Não precisamos um do outro.
- Reparo em você a dias. – Ele falou, como se ela não tivesse dito nada. – E tem algo que eu vejo em você, algo que eu não sei de verdade o que é, mas que me faz sentir quase melhor. Menos sozinho, pelo menos. Eu estou perdido para cacete e na maior parte do tempo parece que tudo vai dar errado, que eu sempre vou achar um jeito de estragar as coisas, mas, quando olho para você, passa. Eu não sei explicar e sei que soa, no mínimo, insano, mas é verdade. Quando olho para você, quando vejo você com os fones no ouvido, escutando uma música que sem dúvidas é uma das minhas favoritas e eu nem preciso checar para saber, eu sei. De algum jeito louco e pouco explicável, eu sei que não estou sozinho com essa sensação. E tudo que eu quero, todos os dias, é encontrar alguém que faça o peso parecer menor. – Ele soltou de uma vez, suspirando de maneira pesada ao terminar, como se houvesse se livrado de um peso grande demais, o pondo para baixo insistentemente.
ficou calada por vários instantes ao ouvir aquilo, sem conseguir reagir de outra forma. A ideia de o peso parecer menor sequer parecia real para ela, mas, bem, conseguiu aquilo. Duas vezes. Enquanto lhe tocava na noite anterior e agora, de novo, ao falar aquelas coisas.
- Droga. – Ela sussurrou, desviando o olhar para as mãos, depositadas em seu colo. – Um hambúrguer, . Podemos comer um hambúrguer e isso é tudo. – Ergueu o olhar e o dedo em sua direção ao anunciar e ele assentiu, satisfeito.
- Combinado. – Murmurou, sem precisar muito para saber que não haviam chances de ele conseguir algo melhor.

+++

e vinham passando tempo demais juntos e a garota tinha completa noção que aquilo tinha tudo para não acabar bem, porém ela evitava o pensamento o máximo que podia e, ao em vez disso, se ocupava em apreciar a sensação de tê-lo por perto, de poder admitir sem se sentir mal por isso, que tê-lo por perto era melhor do que imaginara que pudesse ser.
era um bom amigo.
Nada parecido com o que acontecera na festa chegou a acontecer de novo, embora os dois passassem tanto tempo juntos que as outras pessoas, principalmente na escola, estavam mesmo começando a pensar que tinham algo.
não ligava de verdade que pensassem, especialmente quando já pensavam todo tipo de coisa dela. Quem sabia de seus problemas em casa, então, nem conseguia imaginar o tamanho da lista de frases perturbadoras que devia se formar na mente dessas pessoas, honestamente.
Enfim, estava em casa agora, no único horário em que seu pai não estava e tanto ela quanto sua mãe tinham alguma paz, ainda que não fosse muita. Era só olhar uma para a outra para lembrar de tudo que estava errado, especialmente quando sua mãe sustentava um hematoma roxo bem abaixo do olho. sentia o sangue ferver de raiva e ódio toda vez que olhava para ela e via aquilo e se odiava quase tanto quanto odiava o pai por não poder tirá-las daquela situação.
Foi quando lhe mandou uma mensagem de texto.

Com vontade de fugir?


Aquilo era meio que um código não oficial entre eles, indicava que, bem, que precisavam um do outro, embora usar aquelas palavras fosse terminantemente proibido. gostava de e não tentava esconder, no fundo ela sabia, mas ignorava. Ela não podia simplesmente gostar dele, sua vida já era bagunçada o suficiente sem aquilo e, tentando desviar o rumo de pensamentos, ela pediu as coordenadas a , querendo saber onde devia encontrá-lo enquanto depositava um beijo na testa da mãe e avisava que ia dar uma saída.
Era final de dezembro, e, portanto, estava frio pra caramba quando a garota deixou sua casa, montando na bicicleta nos fundos da casa, que não tinha permissão para usar, mas pretendia estar de volta antes que seu pai estivesse, portanto não era como se ele fosse descobrir, de qualquer jeito.

fora parar na piscina pública da cidade, fechada naquela temporada, já que era inverno. A intenção daquela piscina e de toda aquela estrutura, pelo pouco que a garota sabia, era reabilitar ex presidiários ou ex usuários de drogas com possibilidades de emprego que podiam ainda vir a servir como treinamento para novos e melhores empregos no futuro.
A iniciativa era bonita, mas nada nunca ia tão bem na prática, para o azar da população e aquele lugar passava mais tempo fechado do que aberto, como, por exemplo, agora. A desculpa da vez era o inverno, mesmo que a piscina não fosse a única atividade lá dentro.
teve que escalar a cerca para conseguir entrar, mas se orgulhava de poder dizer que conseguiu. Encontrou sentado perto da piscina, em posição de índio e caminhou até ele, que só notou a garota lá quando ela se sentou ao seu lado, na mesma posição.
- Oi. – Murmurou, sem jeito e ele deu um sorriso fechado como resposta, não se sentindo exatamente animado para falar nada. estreitou os olhos, preocupada e tocou seu queixo, virando suavemente seu rosto para fazer com que ele lhe encarasse. O garoto parecia prestes a desabar, como se um sopro fosse o que faltava para destruí-lo e o peito de se apertou com a visão do medo em seus olhos. – O que você tem? – Ela perguntou, baixo.
balançou a cabeça, afastando sua mão de seu rosto e voltando a encarar a piscina. O ar em volta deles estava gelado e pequenas nuvens se formavam na frente da boca de toda vez que ela falava, graças ao vapor de sua respiração.
- Com vontade de fugir. – Ele murmurou, baixo também e ficou em silêncio, esperando que ele falasse mais. O garoto suspirou, massageando as pálpebras. Se sentia cansado e sem esperanças e odiava aquilo. – Briguei com meu pai outra vez depois de atender o telefone e, bem, era minha mãe. Ela tem ligado para minha casa, tem entrado em contato com ele.
Embora não houvesse contado sobre o inferno que vivia em sua casa para , ele não se importou de contar do dele. Seu pai era um homem rígido, fechado e que não demonstrava afeto, nunca, enquanto sua mãe partiu quando ele ainda era pequeno, deixando os dois. não conseguia imaginar como devia ser para ele descobrir que o pai ainda mantinha contato com aquela mulher, honestamente.
- Vontade de fugir deve ser mesmo uma boa definição. – A garota murmurou por fim, se sentindo péssima por ele. Aquilo era uma droga, tudo naquilo.
assentiu, suspirando pesadamente em seguida.
- Eu nem me importo em saber para onde estou indo, sabe? Só não quero ter que olhar para trás, ficar nesse buraco. – Ele resmungou, jogando o tronco para trás, no chão e fez o mesmo em seguida, virando a cabeça de lado para olhar para ele. – Deixar tudo isso para trás. – Ele murmurou mais baixo, mais suavemente como se o olhar da garota fizesse aquilo com ele. Ele não duvidava que fazia.
Por um longo instante, tudo que fizeram foi encarar um ao outro, deitados ali, como se aquilo pudesse lhes fazer esquecer tudo ao redor. Não anoitecera ainda, mas faltava pouco para o sol se pôr, mesmo que ele praticamente não aparecesse naquele dia frio e conseguia ver as cores refletindo nos olhos de , em sua pele. O dégradé lhe fazia querer ficar olhando até que os olhos queimassem cegos, porque era como se ele estivesse vendo pela primeira vez as duas coisas de que mais gostava juntas, combinadas, e nada poria ser mais bonito.
- A gente podia só fugir, como se estivéssemos no meio de um feriado romano. – A garota soltou, baixinho, com os olhos nos dele e quase sentiu o coração aquecer com suas palavras, assentindo para ela.
- A gente podia. – Murmurou, mas o tempo estava sempre errado e tudo estava sempre bagunçado para os dois. Havia coisa demais para arriscar e simplesmente deixar para trás.
Eles eram persistentes, mas os corações se despedaçavam mais a cada dia, tanto que um dia não estariam mais ali. Aquela era a certeza mais deprimente, porém mais certa, da vida de ambos.

+++


No dia seguinte, não apareceu na escola.
Na verdade, já ia completar três dias que não a via lá, o que já era ruim o suficiente sem ela estar ignorando também suas mensagens de texto e ligações como fazia. Ele se sentia frustrado e irritado quando se sentou junto com para almoçar, ignorando completamente o olhar analítico da garota.
- Vocês fizeram alguma coisa? – Ela acabou por perguntar, ruindo o plano de de ignorá-la e levando o garoto a erguer o olhar para o seu, franzindo o cenho quando seus olhares se encontraram e ele entendeu a pergunta. Ela queria saber se ele transara com e, se queria saber aquilo, era porque sabia tanto quanto ele sobre o motivo de não estar no colégio e aquilo preocupou , que fez rapidamente que não para a pergunta da amiga.
- Nada. – Murmurou. – A gente só é amigo.
- Nem um beijo? – insistiu e rolou os olhos, fazendo que não outra vez de maneira impaciente. respirou fundo, mordendo o lábio diante da resposta.
Aquilo não podia ser bom.
era a única que sabia sobre os traumas de , sobre o que seu pai fazia, porém quando ela começou a faltar a escola, garantindo a por mensagem que estava tudo bem, que só não estava “no clima”, ela achou, preferiu achar, que algo acontecera entre ela e e a garota se arrependera. Aparentemente não fora esse o problema e constatar aquilo disparou vários alarmes na cabeça de , que balançou a cabeça enquanto estreitava os olhos, tentando acompanhar seu raciocínio mesmo que não soubesse metade do que ela sabia.
- O que foi? – Ele quis saber e balançou rapidamente a cabeça num não, prestes a dizer que não era nada, mas não deixou que ela fosse em frente. – Ela tem falado com você, não tem? – Adivinhou. – , precisa me dizer o que aconteceu.
- , eu não sei. – A garota retrucou, sincera e xingou baixo por saber que ela estava falando a verdade. Conhecia muito bem para não saber. – Eu tenho, sim, falado com ela, mas não sei porque não está vindo. Achei que algo tivesse acontecido entre vocês e ela tivesse se arrependido, que estivesse te evitando. – Confessou e piscou, sem entender a conclusão.
- Por que ela se arrependeria se algo acontecesse? – Quis saber e suspirou.
- Não por sua causa. – Garantiu, deixando ainda mais confuso e se sentiu péssima, certa que estava falando mais do que devia. – , esquece isso, tá legal? O importante é que ela está bem, logo vai aparecer aqui...
- Ela está me ignorando a dias, . E se for por minha causa? E se ela estiver mesmo faltando todas essas aulas por minha causa? – Ele insistiu antes que ela se levantasse como fez menção e a garota suspirou, se endireitando na cadeira.
- Não é. – Garantiu, parecendo certa do que dizia, embora achasse que devesse se sentir melhor por isso. Não diante da aparência deprimida da garota, pelo menos.
- O que ela tem? – perguntou, exprimindo nada além de preocupação e uma pontada de desespero, desespero para saber. Para entender tudo que estava acontecendo e ajudar.
balançou a cabeça diante da pergunta.
- , isso realmente não é da minha conta. – Ela falou. – É assunto da e só dela. Não cabe a mim falar.
- Você está vendo ela em algum lugar para falar? – Ele retrucou, impaciente. – Vamos, , eu estou preocupado de verdade.
- Eu sei que está. – Ela murmurou como se pedisse desculpas e bufou, frustrado, levando as mãos aos cabelos.
- Acha mesmo que ela está bem? – Perguntou, erguendo novamente o olhar para a amiga em seguida, odiando o silêncio que se seguiu, especialmente quando sabia o que o silêncio significava. – . – Praticamente implorou e a garota bufou, fazendo que não.
- Ela está viva. – Resmungou, dando de ombros como se aquilo fosse tudo e piscou, levando um instante para absorver suas palavras, fazendo que não em seguida.
- Isso era para me fazer sentir melhor? – Resmungou e suspirou, cansada.
- , eu estou fazendo o melhor que eu posso, ok? Não posso contar, mas estou tão preocupada quanto você, acredite, vou dar uma passada na casa dela, ou não sei, passar na obra em que o pai dela está trabalhando e confrontar aquele porco...
- Espera, o pai dela? – interrompeu a garota, que só então se deu conta ter falado demais. – Que diabos, . O pai dela fez alguma com ela? – Ele perguntou, sem acreditar no que estava acontecendo e, se sentindo de mãos atadas, engoliu em seco, assentindo minimamente ao mesmo tempo e parou, sem conseguir reagir a nova informação de imediato. Nervosa, suspirou. – A gente fica indignado, acredite, eu sei, mas não é como se ela tivesse escolhas. Ela e a mãe não têm nada e a única coisa garantindo o teto acima de suas cabeça e a comida na mesa é ele. – Explicou, embora aquilo soasse deprimente e doloroso para ela própria.
- Tenho que ir. – murmurou de repente, se pondo de pé antes que ela falasse e suspirou, deixando que a cabeça caísse na mesa enquanto o garoto se afastava, se perguntando se fora mesmo uma boa ideia contar a ele.
sabia que achava que ele ia atrás de e talvez ele próprio houvesse achado inicialmente, porém acabou por parar no meio do corredor mesmo, deixando o corpo deslizar ao chão enquanto respirava o mais fundo que podia, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo, com todos os tipos de sensações misturadas dentro dele.

Horas mais tarde, quando chegou em casa, encontrou seu pai falando ao telefone na sala de estar.
- É claro que vai te aceitar de volta, Janae. Você é mãe dele. – O homem murmurava e gelou quando ouviu aquilo, sem conseguir acreditar no contexto daquela conversa. Talvez se ele estivesse falando outra coisa, qualquer outra coisa, com sua mãe, nem teria ficado tão surpreso, mas logo aquilo?! Que ia aceitá-la de volta?! Ele?!
Porra, aquilo era loucura. Seu pai devia saber.
- Janae, vou precisar te ligar de volta. Ele está aqui. – O homem avisou, desligando o telefone depois de notar ali, sem realmente esperar uma resposta da mulher, com lhe encarando ainda completamente chocado. – , precisamos conversar. – Seu pai murmurou, cuidadoso e aquilo pareceu acordar , que fez de imediato que não com a cabeça.
- Se ela vir para cá, eu saio. – Avisou, dando as costas ao homem em seguida, sem esperar por uma resposta, ignorando completamente os chamados do homem, que, no entanto, o alcançou antes que ele conseguisse subir as escadas, o puxando de volta.
- E vai para onde, eu posso saber?! Acha que pode se sustentar sozinho agora?! – Aumentou o tom de voz e trincou os dentes, sabendo que não tinha como argumentar contra aquilo, mesmo que preferisse viver debaixo da ponte a ver aquela mulher outra vez. E ele definitivamente preferia. – Responde, porra! – O pai gritou. – Você é só um mimadinho de merda, , mas eu já disse mais de um milhão de vezes; quem manda nessa porra sou eu e você vai aceitar quem quer que eu decida trazer para essa casa, entendeu bem?!
não respondeu, empurrando seu braço para que ele lhe soltasse ao em vez disso e subindo a escada o mais rápido que lhe fora possível, batendo a porta do próprio quarto ao entrar e chutando as roupas jogadas de qualquer jeito no chão, furioso. Não dava para acreditar que seu pai estava mesmo prestes a fazer aquela merda, depois de tudo que Janae fizera aos dois. O que ele era, estúpido?!
Frustrado, se jogou na cama, puxando o celular do bolso e encarando o aplicativo de bate-papo, tentando pensar com clareza. Ele só queria sumir.
No fim, acabou abrindo a conversa com e encarando o teclado por vários instantes antes de digitar algo.

Com vontade de fugir?


Depois que enviou a mensagem, ficou por vários instantes encarando o celular, imaginando se ia receber uma resposta ou algum sinal de que ela pelo menos visualizara a mensagem, mas nada aconteceu. A mensagem fora enviada, estava lá, a espera apenas que ela visse, o que, para o azar de , não parecia nem perto de acontecer.
O garoto terminou por jogar o celular de qualquer jeito na cama, fechando os olhos e respirando cansado.
Ele sabia que ele estava com vontade de sumir.

+++


estava quase pegando no sono outra vez quando ouviu o barulho na janela, se encolhendo na cama por reflexo. Os remédios lhe deixavam sonolenta e qualquer ruído lhe deixava aterrorizada, depois de tudo, depois de seu pai. Seu pai, de novo.
Ele devia ser a pessoa encarregada de lhe proteger, que faria tudo por ela, mas, ao em vez disso, era um monstro. Um monstro do qual ela precisava se proteger e sequer pensar naquilo fazia a garota se sentir mal, como se fosse vomitar. Ela tinha um hematoma embaixo do olho e machucados na costela por causa dele, estava há três dias sem assistir aula por causa dele, porque ele marcara seu rosto e lhe fizera sentir ainda mais envergonhada de si mesma e de sua vida do que já sentia diariamente, sem aquilo.
não odiava só a ele quando ele lhe tocava, quando tirava suas roupas, punha a mão em sua boca para impedir que ela gritasse e violava seu corpo. Ela odiava a si mesma também e quando tudo terminava só queria desaparecer.
Fazia dias que tudo que ela queria era desaparecer.
Ela se sentia presa em um pesadelo, que só parecia voltar e se repetir de novo e de novo a cada vez que ela abria os olhos, o que se tornava menos frequente conforme o tempo se passava, já que a dose de remédios para a aliviar a dor pela surra que o homem lhe dera era, no mínimo, generosa.
Enfim, o barulho na janela se fez ouvir de novo, mas ela queimava em febre e sentia o corpo inteiro doer, ignorando completamente o som enquanto se encolhia embaixo das cobertas, fechando os olhos com força e desejando apenas que tudo parasse, que ela pudesse dormir e esquecer de tudo que lhe atormentava pelo menos um pouco.
Não pareceu que essa era uma opção, no entanto, logo em seguida quando ouviu o ranger da janela soar alto e claro e soube que havia mesmo alguém ali, se movendo um pouco para ver quem era, sentindo o corpo reclamar por isso. Foi preciso certo esforço para ignorar, mas ela conseguiu, especialmente quando notou que era ali.
- . – O garoto sussurrou antes que ela fosse capaz de fazer ou falar alguma coisa, olhando totalmente chocado em sua direção antes de se aproximar. – Meu Deus, o que aconteceu? – Ele perguntou, sentando-se na ponta da cama, tentando enxergá-la melhor, mas a garota virou a cara.
- O que você está fazendo aqui? Não era para estar aqui. – Ela resmungou, nervosa, em resposta a sua pergunta, mas ignorou, tentando virar seu rosto para fazer com que ela olhasse para ele, ver direito os ferimentos, mas ela se encolheu para mais longe dele com as tentativas se esquivando.
- , me deixa te ajudar! – Ele pediu, aumentando minimamente o tom de voz, com medo que ela não estivesse sozinha. Que seu pai estivesse lá. Não conseguia imaginar como um pai fazia algo assim ao próprio filho e ver naquele estado fazia seu peito se apertar.
Céus, ele só queria que ela ficasse bem, era tudo que queria.
- Não, vai embora, vai embora! – Ela gritou, chorando enquanto tentava empurrá-lo, não obtendo nenhum sucesso, especialmente quando o garoto segurou seus pulsos, fazendo com que ela terminasse por esconder a cabeça em seu peito, chorando completamente sem forças.
O peito do garoto se apertou mais quando ele a envolveu em seus braços, balançando a cabeça enquanto tentava garantir que tudo ficaria bem, mesmo que, naquele momento, tudo parecesse bem longe de bem. Ele só queria tirá-la dali, de onde era tão perigoso e onde ela já se machucara tanto, levá-la para um lugar seguro. Qualquer lugar que ela pudesse chamar de casa e, de fato, se sentir em casa, se sentir segura.
queria com todas as suas forças poder fazer aquilo por ela.
- Senti sua falta na escola. – Ele murmurou, suavemente, depois de vários instantes em silêncio, com ela chorando em seus braços. Ele não sabia se desviar do assunto, do quão machucada ela estava, era o certo a fazer, mas foi o que conseguiu no momento. – Podia ter falado comigo. – Ele acrescentou baixinho e fez que não em seus braços, sem virar para lhe encarar ao executar o ato e ele pousou o queixo no topo de sua cabeça, se sentindo destruído em vê-la tão destruída. – Sobre qualquer coisa, . Podia ter falado comigo sobre qualquer coisa, eu senti sua falta. – Ele explicou e ela chorou mais, embora ele não tivesse notado isso.
havia sido o melhor presente que a garota recebera em meses, anos talvez, mas no instante em que seu pai fez aquilo ela desejou mais do que tudo poder esconder dele aquela parte de sua vida, a parte que lhe tornara a bagunça frágil que era.
- Senti sua falta também. – Ela murmurou ao finalmente erguer o olhar para ele, vários minutos depois e sorriu para ela, se esforçando ao máximo para ignorar o que ver seu rosto tão machucado estava fazendo com ele. Os hematomas pareciam doer no garoto. – Mas não é a hora certa. Você não pode me curar e eu com certeza não posso fazer isso sozinha. Não devia estar aqui, não devia estar insistindo em me manter por perto, o que quer que seja isso entre nós, não é...
- É tudo que eu tenho. – Ele a interrompeu, fazendo a garota engolir em seco diante de suas palavras. – E eu sei que é tudo que você tem também, . Posso ver agora e não vou a lugar nenhum, não pretendo deixar você, tá bom?
- Não posso te dar o que quer. – Ela retrucou, como se sentisse medo de deixá-lo acreditar que, um dia, no futuro, podiam ser algo. Ela não achava que podia ser algo sozinha, quanto mais com outra pessoa. Já estava quebrada demais, mas simplesmente balançou a cabeça, sem se deixar abalar.
- Você já me dá o que eu quero. – Ele falou. – Quero a sua amizade, . Não me importo com mais nada, o que quer que esteja passando pela sua cabeça paranóica nesse momento, esquece, tá bom? Eu já tenho o que quero de você e não vou perder, não posso. Não sei, de verdade, o que seria de mim se não tivesse você como amiga.
não conseguiu falar nada de imediato, embora sentisse o coração mais aquecido do que nunca com suas palavras e, no instante seguinte, quando começou a arriscar abrir a boca para responde-lo, a porta do quarto foi forçada e o pai da garota entrou.
- Mas que porra é essa aqui?! – Ele gritou, olhando furioso de um para o outro. – Quem é esse garoto, ?! – Ele perguntou a filha, que se encolheu sem conseguir encontrar a própria voz para respondê-lo. O homem avançou em sua direção, puxando lhe pelos cabelos para tentar arrancar uma resposta da garota, que gemeu de dor.
O som foi o suficiente para acordar , que se pôs entre eles, empurrando o homem para longe dela.
- Qual é a droga do seu problema?! Ela é sua filha, seu doente! – Gritou, tão indignado e assustado quanto realmente se sentia. Ver aquele homem em sua frente, sabendo que fora ele quem causara tanta dor a garota foi como uma injeção de adrenalina para o garoto, de repente completamente combinado pelo ódio.
- Sim, ela é minha filha e eu faço o que eu bem entender com ela, seu moleque estupido! – O homem gritou em resposta, empurrando para longe com força o suficiente para derrubá-lo no chão e ele não caiu por muito pouco, se apoiando na cama para não perder o equilíbrio.
- Pai, pelo amor de Deus, para. – pediu, baixinho, com lágrimas nos olhos. Ela já pedira aquilo a ele tantas vezes, em tantas outras ocasiões e fora tão brutalmente ignorada.
Daquela vez, no entanto, desejou ter sido, desejou que ele houvesse lhe ignorado no instante em que ele lhe deu atenção, estapeando seu rosto com força o suficiente para fazer toda a pele de sua bochecha arder, o hematoma em especial dando a impressão de estar queimando.
- Eu cuido de você depois. – Ele murmurou entredentes para a garota, que se encolheu onde estava, com a mão protegendo o rosto machucado enquanto ele ia até , gritando para ele ir embora ou chamaria a polícia. acabou rindo daquilo, embora humor fosse a última palavra que ele ou qualquer outra pessoa fosse usar para descrever qualquer parte daquela situação.
- Chama então! Aproveita e explica para eles o que você fez com a sua filha! – Desafiou, arqueando as sobrancelhas quando o homem hesitou, como se desse conta da ameaça sem sentido. – Vai, chama, estou esperando. – insistiu, com raiva demais para não provocar.
Queria que aquele homem se explodisse, que sentisse um terço da dor que fizera sentir. Queria que o rosto de parecesse brincadeira de criança quando acabasse, era isso que ele queria e, céus, como seria prazeroso espancá-lo. Fazer aquele homem pagar por cada mal que fizera a própria família.
- Seu moleque! – O homem gritou, correndo para atacá-lo, mas foi mais rápido ao socar seu estomago, o empurrando para longe em seguida.
Atônita, balançou a cabeça num não, se pondo de pé no mesmo instante para ficar entre os dois antes que arruinasse a própria vida por causa daquele homem. Ele já estragara vidas demais, não ia deixar fazer aquilo com também.
- Pelo amor de Deus, parem! – Ela gritou, empurrando o pai para longe depois que ele conseguiu acertar um soco em , que tinha um corte pequeno no lábio agora. – Você não vai fazer isso com ele também, não vai! Eu não vou deixar! – Ela gritou, empurrando o pai, agora furiosa também, depois de ver o sangue no rosto de .
- Você não pode fazer nada contra mim, garota! – Ele praticamente cuspiu em sua cara enquanto ria, empurrando-a contra a parede, fechando uma das mãos contra a garganta da garota, que sentiu de imediato a respiração falhar, tossindo enquanto tentava se livrar do homem, tentando afundar os dedos em seus olhos ou chutá-lo, qualquer coisa, mas nada pareceu surtir efeito até empurrá-lo, derrubando o homem no chão e então, antes que ele pudesse sequer tentar levantar, indo por cima dele, desferindo soco após soco em seu rosto.
O homem sangrava quando puxou para longe dele, com medo que ele o matasse e acabasse com a vida destruída também. definitivamente não merecia e nem devia estar ali para início de conversa, mas, de uma forma ou de outra, a noite não parecia destinada a acabar bem e notou aquilo pelo olhar no rosto de seu pai quando ele conseguiu se levantar, cambaleando para trás com o rosto ensanguentado. O homem parecia raivoso como um touro, porém atordoado e ela sabia que mesmo que conseguisse se livrar, que ela o convencesse a ir embora, seu fim não seria nada bonito no que dependesse de seu pai.
olhou de lado para , mas ela não o encarou de volta. Seu olhar aterrorizado estava focado em seu pai, perto demais e de repente cada parte de seu corpo que ele já tocara doeu, sentiu todos os golpes de novo e se pôs a sua frente imediatamente, tentando protege-la.
- , preciso que vá embora. – Ela sussurrou, com lágrimas nos olhos.
- E deixar você? Ficou doida? – Ele virou para olhar para ela e o afastou, fazendo com que saísse de sua frente.
- Eu consigo lidar com ele, mas por favor, vai. Não posso deixar que ele estrague sua vida também. – Disse e o garoto rolou os olhos, sem acreditar.
- Estou vendo o quanto você consegue lidar com ele. – Gesticulou em direção ao rosto machucado da garota, que engoliu em seco, mas não respondeu. Meio que havia merecido mesmo aquela.
Graças a distração dos dois com aquela discussão, e acabaram por não perceber quando o homem se aproximou, conseguindo socar e o que sentiu ao ver o garoto cair no chão com o golpe pareceu reverberar em cada pequena parte de seu corpo. Antes que ela ou qualquer um pudesse prever, ela já avançava no pai, o empurrando para longe com toda sua força.
Ele acabou por cair no chão, no corredor, batendo a cabeça numa garrafa de cerveja que esquecera jogada ali antes de invadir o quarto da garota, por mais irônico que aquilo fosse. piscou, vendo uma poça de sangue se formar ao redor de sua cabeça e, de repente, tudo pareceu acontecer muito devagar, como se estivessem em câmera lenta.
passou por ela, correndo em direção ao seu pai, ou o corpo de seu pai e teve a sensação de que podia ver cada milímetro do movimento quando ele se abaixou para sentir seu pulso, aquela cena, o presente, se misturando com todos os outros momentos que tivera com seu pai ao longo da vida. Nenhum deles era bom.
- Ele morreu? – Ela se ouviu perguntar, mas não conseguiu lembrar de ter aberto a boca, não conseguiu sentir nenhuma de suas atitudes quando deu um passo à frente, buscando o olhar de , porém sem coragem nenhuma de encarar o corpo desacordado no chão. O corpo de seu pai. – , eu o matei? – Ela perguntou, urgente, quando o garoto não falou nada e ergueu rapidamente o olhar para ela, como se a pergunta lhe acordasse do choque, se levantando para ficar de frente para a garota.
- , não. – Falou, sério. – Você não tem culpa de nada, entendeu?! Só estava se defendendo.
- Ele morreu. – Ela sussurrou, a constatação sendo tudo que ela parecia ser capaz de absorver da fala de , que bufou e balançou a cabeça.
- Não importa. – Devolveu. – Você não fez nada de errado, .
- Preciso sair daqui. – Ela murmurou, balançando a cabeça, saindo de perto de e do corpo de seu pai, para o qual não tivera coragem de olhar e não achava que teria. – Preciso ir.... Preciso ir embora, não posso ficar, vão achá-lo e...
- , se acalma. – voltou a se aproximar, tentando fazê-la olhar em seus olhos, mas a garota não parava de balançar a cabeça, se sentindo nervosa demais, assustada demais. Ela já sentia como se a vida estivesse acabada há muito tempo, porém de repente estava aterrorizada que houvesse conseguido e tirado de si mesma ao mesmo tempo tudo que sempre quisera. A liberdade. – Escuta, está tudo bem, podemos resolver isso, é só contar a verdade, foi um acidente e vendo o seu rosto, não é difícil de acreditar...
- Não! Ninguém vai acreditar em mim, ! – Ela aumentou o tom de voz, quase gritando enquanto praticamente tremia com a tensão. – Você não entende, um pai não faria nada disso, um pai não machucaria a filha, não obrigaria a filha a mata-lo, um pai não faria isso! – Ela acabou por se debulhar em lágrimas em meio as palavras, pensando simultaneamente em cada ato de violência do pai direcionado a ela em toda sua vida e rapidamente lhe puxou para seus braços, envolvendo a garota no abraço mais aconchegante que pôde dar a ela, mesmo que aquilo não fosse muito diante do que estava acontecendo e no fundo ele sabia.
- Tudo bem, tudo bem, vamos embora. – Ele murmurou e quando ela balançou a cabeça, erguendo o olhar para ele, o garoto soube o que ela ia dizer antes mesmo que abrisse a boca, fazendo que não. – Não vou deixar você sair de perto de mim outra vez, , principalmente nesse estado. Vou com você.
olhou nos olhos do garoto, querendo se sentir corajosa o suficiente para dizer que não, que podia fazer aquilo sozinha, querendo ter a coragem que precisava para impedir que estragasse a própria vida também indo com ela, para onde quer que fosse, mas com os olhos nos seus ela não conseguia evitar querer que ele nunca se afastasse. Que estivesse por perto para sempre e que fosse, um dia, capaz de curar suas feridas.
Como aquilo seria bom.
- Obrigada. – Foi tudo que ela acabou por dizer, mesmo sabendo que se arrependeria mais tarde.
O tempo estava todo errado, mas, por ora, não ia se importar. Ia fugir com ele, como num feriado romano, torcendo para ser capaz de deixar para trás cada pequeno coisa ruim de sua vida.

+++


Os dois pararam numa pousada perto do Queens lá pela madrugada, quando já não conseguia mais manter os olhos abertos para continuar dirigindo.
A cabeça de estava uma bagunça gigantesca e ela não conseguia dormir, sentada em silêncio perto da janela do quarto que alugaram para a noite enquanto dormia, sentindo coisas demais para sequer começar a nomear elas. Tinha medo, medo do que aconteceria agora, do que fariam, de como ia ser sua vida, do que aconteceria com sua mãe, de tudo.
Ela deixara um bilhete para sua mãe que não dizia muito, apenas uma frase, para ser mais especifica. Eu sinto muito, dizia e ela sabia que escrever aquilo fora como assinar sua confissão, mas esperava que, ao menos, valesse de alguma coisa. Que sua mãe conseguisse se reerguer daquilo, pelo menos. Ela tinha a sensação que já era muito tarde para si mesma.
Depois de vários minutos observando a noite, o silêncio começou a enlouquecer , que ligou a TV baixinho. O que ela não esperava, no entanto, era ver sua mãe no noticiário, chorando e dizendo que tudo que queria era saber se sua filha estava bem enquanto carregavam um corpo coberto por um pano branco no fundo da tela. O corpo de seu pai.
- Céus. – A garota sussurrou, fazendo que não com a cabeça enquanto encarava a TV completamente chocada.
Aquilo não podia estar acontecendo.
se levantou, nervosa, e desligou a TV, massageando as têmporas, sentindo-se claustrofóbica e um tanto desesperada, enquanto pensava no que fizera e se lembrava da poça de sangue no chão de casa, lembrando-se também da sensação de ter a mão do pai em volta de seu pescoço, tirando-lhe o ar da maneira mais dolorosa possível, sentindo tudo aquilo de novo. Como se ele estivesse lhe enforcando outra vez.
Desesperada por ar, a garota abriu a janela, respirando fundo, porém não parecia sentir como se o ar estivesse chegando ao seu cérebro, oxigenando-o como devia e sentia vontade de se encolher e chorar, com o corpo formigando. Céus, céus, céus.
- ? – A voz sonolenta de chamou enquanto a garota andava de um lado para o outro do quarto, absorta no próprio desespero e, confuso, o garoto se levantou, se aproximando dela. – Ei, ei, o que foi? – Perguntou, tentando soar suave mesmo em meio à confusão e se tivesse consciência do que ele fazia, om certeza teria apreciado, mas estava fora de si para sequer pensar naquilo.
- Minha mãe está na TV. – Ela falou, balançando a cabeça atordoada. Céus, aquilo tudo estava mesmo acontecendo? Parecia tão surreal... –Acho que vão me encontrar logo, meu pai é amigo de alguns policiais e eles vão querer vingança, vão querer me pegar, meu Deus....
- , se acalma. – pediu, lhe interrompendo, segurando seu queixo com delicadeza para fazê-la lhe encarar. – Eu não vou deixar, ok? Não vou deixar ninguém te machucar mais, eu prometo. – E ali, olhando em seus olhos, quase se permitiu acreditar.
tinha mais poder sob ela do que ela gostaria de admitir, lhe fazia sentir segura de um jeito que ela nem sabia ser possível, não levando em conta a forma que vivia. O problema é que ela não podia se permitir deixar. Não quando aquilo significava ver arruinar suas chances, chances reais que ela jamais teria.
Ele era bom demais para ela e a garota sabia que precisava deixa-lo ir.
- Você não pode me prometer isso. – Ela sussurrou, com lágrimas nos olhos. Soava triste, melancólica e os dois sabiam porque. sabia que não podia prometer aquilo de verdade, que não podia viver em função da garota, de lhe proteger, porém, céus, como ele queria poder. Como ele queria poder garantir sua segurança e olhando em seus olhos enquanto as lágrimas escapavam, rolando por suas bochechas, ele sentiu o peito doer por saber que não podia.
- ... – Ele começou a falar, mas parou, sabendo que nada que dissesse tornaria aquele momento mais fácil, se inclinando em sua direção ao em vez disso, num reflexo. Embora soubesse que aquilo era uma despedida, embora ela já houvesse decidido em sua mente que precisava deixá-lo usar as chances que tinha de vencer na vida, por mais difícil que fosse, ele não sabia e só queria provar para ela o quanto gostava dela, o que desejava poder fazer por ela. balançou, porém, a cabeça num não, encostando a testa em seu peito enquanto as lágrimas caíam silenciosas. Não podia beijá-lo. Ela sabia muito bem que ir embora e deixá-lo para trás já seria difícil demais sem isso. – Vem, vamos dormir. – sussurrou suavemente, lhe puxando para deitar com ele na cama, mantendo os braços ao seu redor o tempo inteiro e ela ficou agradecida por isso, desejando que aquilo fosse o suficiente para que ela pudesse memorizá-lo, memorizar cada pedaço dele. Desde seu cheiro até o encaixe de seus corpos e tudo que ele lhe fazia sentir.
Ela sabia que ia embora imaginando o gosto daquele beijo que não trocaram, se perguntando se ele ia pensar naquilo também depois. Ia imaginar tudo que poderiam ter sido, o peso das costelas dele por sob seu corpo, o calor que não trocaram e se ele seria um dia capaz de curar suas feridas.
Imaginar, no fim das contas, era tudo que podia fazer.


DOIS ANOS DEPOIS


tinha lágrimas nos olhos por reviver tudo aquilo em sua cabeça enquanto falava sobre a dor, sobre o amor e sobre como tudo aquilo era vital. Sobre como fazia parte da vida.
Chegava a ser irônico ouvi-lo falar aquelas coisas, sabendo tudo que já passara, que ele já passara também. Ela não queria sentir mais porra de dor nenhuma, em nome da arte ou do que fosse.
Vendo ali, no entanto, ela quase se sentiu melhor por ter ido embora naquela noite, como se houvesse valido a pena e sorriu, limpando o rosto com as costas da mão enquanto, de cabeça baixa, dava um jeito de se levantar e sair sem que ninguém lhe notasse. Não podia reaparecer para depois de anos, não seria justo e ele não precisava de toda aquela confusão outra vez.
No fim das contas, o que quer que os dois poderiam ter tido ia ficar só na imaginação.


Fim.


Nota da autora: Nossa, o desespero e agonia que foi escrever essa história, vocês nem imaginam, mas estou feliz de poder dizer que estou orgulhosa do resultado! Por favor, me digam o que acharam, tá? Beijão e obrigada por ler!
Ah! Deixo aqui também um alerta contra a violência contra a mulher, essa é só uma faceta de todas as possibilidades de consequência, portanto, denunciem! Sororidade, manas! <3


Outras Fanfics:
I [GOT] All The Girls on TV
Nobody Does It Like You
Love à Tróis
Fabulous
Cheap Thrills
Once Upon a Time Hollywood
12. Solo Para Ti
02. Touch
18. FourFiveSeconds
04. Work
02. Love Me Like You
08. OMG
08. Rear View


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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