Postada em: 12/11/2017

Capítulo Único

Dallas, 13 de Dezembro de 2015.

Hoje faz exatamente cinco anos que você me deixou.
Por um tempo eu consegui reprimir a falta que você me faz. Quase nunca estava lúcido o suficiente para lembrar que você existiu, então assim eu tocava a minha vida. Pulando de bar em bar, virando copo por copo e nunca tocando no seu nome. Permaneço assim, quando a dor por ter perdido você tantas vezes me sufoca. Eu sei, a culpa foi minha. A culpa de tudo foi minha desde o início.
De tempos em tempos eu tento fingir que você não existiu, para que por um minuto eu possa sentir meu coração vivo novamente, mas sempre que tento te tirar da minha cabeça e dançar com alguém novo, eu me lembro de como seus lábios vermelhos brincavam com os meus nos permitindo ficar acordados a noite inteira. Eu me lembro de cada momento ao seu lado, me lembro de todas as coisas que você me disse quando eu te vi naquela noite pela última vez e é como se eu estivesse te matando. De novo.
Um dia, espero te encontrar novamente. Nesse dia irei te pedir perdão, te todas as maneiras que você quiser. Perdão por ter sido frio, quando você só queria calor. Perdão por ter te dado ódio quando você só queria amor. Perdão por ter agradado outras quando você era a única que merecia a minha atenção. Minha esposa, minha confidente, a mulher da minha vida. Perdão por ter notado isso só depois de te perder.
Que ironia, eu devia estar acostumado a te dizer adeus, .
Eu te disse adeus por mais vezes que consigo contar, mas você sempre voltou para mim. Você se lembra de quando nós nos conhecemos na escola? Aquela foi a primeira vez em que eu te magoei. Você estava usando um vestido marrom, sujo de tinta, os cabelos presos num rabo de cavalo e seus olhos estavam escondidos atrás dos óculos esquisitos que você gostava de usar. Você era toda esquisita, e se não fosse talvez não tivesse me conhecido. Miles me desafiou a te chamar para sair e se você aceitasse, eu ganharia 50 dólares. Melhor ainda, se você fosse eu iria faturar 100 dólares. Você foi e eu não fui, preferi ir à festa da Courtney, enquanto você ficou sozinha na chuva, onde tínhamos marcado. Eu me odeio tanto por ter feito isso que acordo todos os dias pensando no quanto eu deveria ter morrido aquela noite, não você. , você foi a melhor pessoa que eu conheci, a mais incrível.
No dia seguinte quando eu te vi, senti uma emoção diferente, culpa talvez? Não sei, senti como se meu corpo estivesse em choque. E mesmo assim você abriu seu melhor sorriso, me desejou bom dia e se foi, em passos suaves pelo corredor. Aquilo me intrigou profundamente, eu precisava falar com você de novo, perguntar qual era o seu jogo. Mas eu não te encontrei, era você quem sempre me encontrava e fazia de mim sua marionete.
Eu fiquei tão assustado com o poder que você tinha sobre mim, que mais uma vez te fiz chorar. Era para eu ter ido para aquele baile idiota com você e não com a Maya. Mas você apareceu com o Miles e eu fiquei tão irritado e com ciúmes, Deus, eu senti muito ciúmes! Eu te disse coisas horríveis, eu te fiz chorar, e mesmo assim você esteve lá quando eu precisei. Você foi a única com quem eu pude contar. Você tinha um brilho tão lindo que eu me encantei, continuei me encantando todos os dias até que você percebeu que era muito melhor do que eu e se foi para longe de mim. Você era boa demais para mim, . Eu tentei encontrar você, mas eu não te encontrei. Era você quem sempre me encontrava. E em um desses encontros eu finalmente consegui te fazer minha. E eu estava disposto a fazer tudo certo, eu quis mudar por você, quis ser alguém melhor por você. Eu te amava. Eu te amo. Ninguém um dia me inspirará mais do que você já inspirou.
Eu choro todos os dias quando me lembro de como a sua voz era sexy mesmo quando você estava envergonhada. Eu choro quando me lembro que nunca mais irei escutá-la. Eu não queria que tivesse sido assim, . Sabe, eu ainda me agarro a um fio fino de esperança, que está pronto para arrebentar todos os dias na minha cara, de que você vai voltar para mim. Eu te esperaria para sempre, mas para sempre é tempo demais para ficar sem te ver outra vez, sem olhar seu sorriso tão lindo. Fecho meus olhos com força quando me lembro daquela noite. A maldita noite em que eu te perdi para sempre.
Era 13 de Dezembro e nós estávamos comemorando um ano de casados, você se lembra? Você estava esperando um bebê, nosso primeiro filho. Você estava tão linda, seu rosto estava tão iluminado. Nós dois brigamos naquela noite, porque Miles me pediu ajuda com o carro dele e eu me neguei a ir. Não estávamos nos falando, por que eu deveria ir? O homem de caráter, bom e íntegro que você me ajudou a construir deu lugar ao adolescente rancoroso que eu costumava ser. Você me lembrou que quando eu havia sido um babaca com você e precisei de ajuda, você estava lá, porque era isso o que amigos de verdade faziam uns pelos outros. Eu não gostei do ressentimento aparente no seu tom de voz e te confrontei, você não gostou da forma como eu gritei com você e gritou de volta para mim. Era para ter sido só uma briga. Só mais uma briga estúpida de casal, mas não foi. Mandei que entrasse no carro, mas você não entrou. Eu disse que ajudaria Miles, mas que te deixaria em casa antes, mas mesmo assim você me ignorou. E eu te deixei.
Te deixei sozinha na porta do restaurante e fui embora. Deixei a minha esposa, grávida, na porta de um restaurante à noite, sozinha, e fui embora. Porque ela se recusou a entrar comigo furioso dentro de um carro. Se eu pudesse fazer diferente eu faria, . Eu nunca teria te deixado lá, eu teria saído do carro e segurado a sua mão, te diria que iria por onde você fosse, porque o que importava era que ficássemos juntos, mesmo que sem falar um com o outro. Mas eu não fiz isso, eu a deixei lá, sozinha. E não demorou muito tempo até que aquele dia se tornasse o pior dia da sua vida, o pior da minha vida.
Você nunca mais voltou.
Assim que cheguei ao retorno, não continuei e voltei para trás. Liguei para você pelo menos umas doze vezes e deixei no mínimo uns oito recados. Mas você não retornou. Passei pelo restaurante, mas não havia sinal seu lá. Foi aí que a garoa fraca que caiu sobre a cidade durante todo o dia se intensificou de uma vez só, transformando-se em uma chuva forte, com gotas grossas e gigantescas, para combinar com a tempestade que crescia avassaladora dentro do meu peito.
Cheguei ao local onde Miles estava e a primeira coisa que ele fez quando me viu foi perguntar de você. Eu senti vontade de vomitar. Você não estava lá também. Você havia ligado há 40 minutos para Miles, dizendo que estava a caminho. A caminho junto comigo, ele pensou. O olhar no rosto dele foi de desprezo, não o julguei, eu merecia. Naquela noite, eu te procurei por cada cantinho daquela cidade, mas você simplesmente sumiu. Foi dada como desaparecida e depois como morta, graças aos vestígios do seu sangue encontrados num local de acidente onde o suspeito fugiu. Isso me matou todos os dias e está me matando agora, como vai continuar, para sempre.
Você era a única que fazia com que eu ficasse acordado a noite inteira, com seu riso, seu sorriso, sua calma, sua alma. Você era a única que fazia com que eu ficasse acordado a noite inteira, te beijando, te amando, conversando, te escutando. Você era a única que fazia com que eu ficasse acordado a noite inteira e ainda é. Não prego os olhos porque te vejo sendo arrancada de meus braços, e quando estou cansado o suficiente para dormir assim que caio na cama, sonho com você pedindo minha ajuda e eu não ajudo. Isso corta meu coração todas as noites, a culpa parece brasa em chamas descendo por minha garganta. E eu não peço há nenhum instante para que Deus pare a dor, é o que eu mereço por tudo o que fiz a você, a minha mesmo e a nós. Espero que um dia você possa me perdoar, espero que um dia eu possa te abraçar novamente e que possamos ser felizes no paraíso. Eu te amo para sempre, . Nunca duvide disso nem por um minuto, onde quer que você esteja, com toda a minha alma, .

se abaixou no túmulo de para deixar a carta que havia escrito, junto com a margarida que colocava ali todo dia 13 - margaridas eram as favoritas dela. Limpou a face molhada, se enrolou em seu próprio abraço, lendo as palavras esposa, mãe e amiga na lápide de e fechou os olhos com força ao se lembrar que não pôde fazer um túmulo para seu bebê, porque não havia comprovação de que existisse um.
A mesma garoa fina de cinco anos atrás caia sobre seu cabelo, se intensificando a cada hora que ele passava em frente à lápide, então ele respirou fundo e se pôs a andar até seu carro em passos rápidos. Quando adentrou o veículo, notou que a chave de seu carro havia ficado em algum lugar do percurso, devia ter caído enquanto ele corria para o carro. Ele acabou tendo que refazer seu caminho de volta em busca de seu molho de chaves e foi então que a notou. Observou-a e decidiu ir até ela. Estava parada em frente ao túmulo de sua esposa, uma mulher, com os cabelos tão dourados quanto os de sua , porém muito mais curtos. Ela segurava a carta com as mãos pequenas e lia atentamente cada palavra, ele notou enquanto se aproximava. Seu corpo pequeno tremeu, fosse pelo frio ou pelas palavras escritas, e ele pôde ver a folha molhada pela chuva, por cima dos ombros dela - ou seriam lágrimas?
- Oi - ele disse calmamente atrás dela - Você conhecia minha esposa?
Quando a mulher se virou, espantou-se como se estivesse vendo um fantasma. Sentiu-se eletrificado com o calor de um milhão de sóis, como há muito tempo não se sentia. Eram seus olhos castanhos molhados de choro misturados com chuva, seus cabelos dourados agora completamente curtos, seus lábios avermelhados totalmente trêmulos. Era seu rosto ali, seu corpo, sua alma. Era .

- Oi, .

“All the things that you said to me yesterday… Playing over in my mind.”


End.



Nota da autora: Tá. É claro que não é end de verdade né non mores? Esse é só um detalhe de toda a história desses personagens que eu juro para vocês, são maravilhosos. Será que é coisa de mãe? Trato eles dois como meus bebês! Trouxe mais uma vez atrasada essa fic –carta– como sempre porque eu só funciono (será que alguém sabe?) sob pressão. Meus agradecimentos de hoje vão para as lindas Bárbara Sotello, organizadora desse ficstape lindo e Anny, a nossa beta maravilhosa, pela PUTA paciência que tiveram comigo. Me senti em casa mesmo após mudar a história dez vezes, obrigada <3 Agora, obrigada a Você que chegou até essa nota de autora, espero que não queira me matar e que esteja ansiosa (o) para conhecer a obra por trás desse spin off que foi Up All Night. Até a próxima chuchus, pazzz!

Nota da beta: É O QUÊ, MULHER? COMO TU ACABA ASSIM?! Deus do céu, meu coração ficou apertadinho com essa carta, que sofrimento! E eu sentia no fundo que ela não tava morta é nada e que tava perdida ai na vida, mas quando ela apareceu ali eu fiquei passada! Quero só ver no que vai dar, manda isso aí logo, dona Letícia. Agradecida! Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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