Abra essa playlist e dê play quando eu avisar.

I told, I told, I told myself again
I'm never running back on what I said
Trying not to roam but you're so...
Far away, so far away

6 de Maio de 2014, Londres

e Anthony estavam deitados na enorme cama do garoto assistindo a um filme qualquer que passava na televisão. Ela não estava prestando atenção na história do filme em si, mas sim, na menina loira que aparecia toda hora jogando basquete.
Brittany era loira.
Brittany jogava basquete.
Brittany era mais linda que aquela atriz.
Brittany já não estava mais entre eles.
respirou fundo e Anthony a olhou de lado.
— O quê foi?
— Não é nada. — deu de ombros e se aninhou aos braços dele.
Anthony parecia outra pessoa. Estava frio, distante... E aquele comportamento foi notado por já fazia algum tempo.
— Seu rostinho diz o contrário. — sua mão foi até a face da namorada e a acariciou. — o quê quer que seja, eu sei uma ótima maneira para afastar isso.
Ele se desvencilhou do abraço e deu a volta por cima de , encaixando-se nela com as pernas ao redor de seu corpo. Com o indicador, puxou o queixo dela até que seus olhares estivessem alinhados. Ele sorriu e se inclinou para um beijo.
Encostou seus lábios por um breve instante e depois se abaixou para o pescoço de , onde ficou brincando com sua pele. Ela parecia alheia a tudo que ocorria, com o olhar perdido no teto.
A língua de Tony percorreu pela pele lisa da garota e seus lábios se selaram sob ela. Mordiscou a carne com certa força e suspirou.
A loira voltou a aparecer na tv, chamando a atenção de e a tirando de sua transe.
— Sai, Tony. Eu não quero.
escorregou suas mãos por debaixo do corpo dele, as espalmou em seu peitoral e o empurrou. Ele bufou em resposta e deixou seu corpo cair de volta onde esteve sentado. Olhou para a tv e a loira também chamou sua atenção.
— É por causa dela, não é? — apontou para a atriz.
— Não. Eu não quero e pronto. — deu de ombros.
— Fala sério... — rolou os olhos e bufou novamente. — , eu já não aguento mais, cara. Já se passaram praticamente dois meses desde que ela bateu as botas e desde então você se fechou completamente! Não aguento mais tanto drama, tanto choro!
afastou da cabeceira da cama subitamente e se sentou de frente para Anthony.
— Lave sua boca para falar da minha amiga. Eu não admito que você fale dela assim. — apontou o dedo no meio da cara do namorado e elevou a voz.
Brittany e eram melhores amigas desde quase sempre. E só porque uma havia morrido, não significava que ela perdia o posto de amiga. Seriam amigas até depois que a outra também morresse.
— E você tira esse dedo da minha cara! — ele gritou e se levantou, projetando seu corpo sobre o de , que assustada, caiu na cama. Anthony bufou e a segurou pelos pulsos, mantendo-a presa com a força do seu corpo. — quem você pensa que é? Há meses você praticamente me implorava para ser seu professor de sexo, aceitava tudo... Pra onde você mandou nossa relação aberta? Pro ralo abaixo. Você não presta. Nunca prestou. Só prestou pra ser uma bonequinha de luxo e...
Ela conseguiu desvencilhar sua mão de onde ele a mantinha presa e a ergueu rente ao rosto dele. Não mediu esforços para acertá-lo bem no seu perfil. O som do tapa ecoou pelo quarto.
— Você que não se passa de um playboyzinho metido à besta que se acha o meu donoe do mundo. Você não me respeita há algum tempo e ainda acha que manda em mim. Estou farta de você, Anthony!
Ele, ainda atordoado, se afastou e sentou-se ao lado. se levantou em um pinote, consertou suas roupas e calçou sua sapatilha.
— E caso você não tenha percebido, eu não sou de ninguém. Ninguém manda em mim. Sua máscara de namorado perfeito caiu junto com a morte da minha Brie. Você não entende a minha dor e não me ajuda nesse momento. Cansei de você. Como você disse, eu topava tudo porque queria aprender. Mas aposto que alguém lá fora vai entender minha dor.
, não faz isso... — ele esfregou o rosto com as mãos. Sua voz já estava um terço mais baixa. — volta aqui!
— “Volta aqui” porra nenhuma!
Olhou para sua mão e puxou a aliança de compromisso com toda a força e raiva que sentia. Seu dedo estralou e ela o sentiu ardendo, mas não voltou atrás. Mirou em Anthony e jogou o anel bem no meio do seu rosto.
...
— Tchau, Anthony. Nunca mais me chame por esse apelido que você criou pra mim. Ou pra bonequinha de luxo, o quê quer que seja. Aliás, me faça um favor e nunca mais me procure.
Passou a mão na sua bolsa e saiu da casa do ex pisando alto. Pegou o alarme do carro e destravou o Porsche. Quando já estava longe o suficiente, ligou para Oliver. Ah, sim, ele a entenderia melhor do que ninguém.
Enquanto chamava, pensava no que havia acabado de acontecer.
De onde saiu tanta força e vontade para enfrentar Anthony? Ultimamente ela andava um caco, tentando juntar as peças de si que se quebraram com a morte da amiga. Deus, devia ter tanta coisa presa dentro de si. Podia jurar que sentia-se até mais leve. Não havia pressão sob seus ombros.
Livrar-se de Anthony foi tão bom.
Olá, aqui é Oliver MacLeese, da Clínica Psicológica de Londres. Eu estou incapacitado de atender sua ligação no momento, mas retornarei o mais rápido possível. Por favor, deixe uma breve mensagem após o sinal com o seu nome e número. Obrigado pela ligação.
— Estarei te esperando n-no — fungou — apartamento. Traga chocolate. . Aliás, . — suspirou e encerrou a ligação. Não carregaria aquele apelido do seu ex babaca consigo.

I'm conscious but I'm lonely, halfway dead (Estou consciente mas estou sozinha, metade morta)
Tired of the things you never... (Cansada das coisas que você nunca...)
You never said, you never said (Você nunca disse, você nunca disse)

Anthony havia despedaçado a única parte de si que remanesceu inteira, seu coração.
A única coisa que esperava da parte dele, era compreensão com sua dor, com seu momento, com seu luto.
E ele não o fez. Ao contrário, foi o mais idiota possível.
Olhou para a sacola do supermercado em sua mão fazendo a última conferência dos materiais. Seu olhar se desviou até a fonte que decorava o ambiente debaixo da escada. A água que brotava dentre as pedras produzia um som calmo a medida em que caía na superfície da fonte. esticou o braço através do corrimão e mirou bem no meio do pequeno lago e soltou seu iPhone 5S novo. Não era o primeiro só daquela geração que ela estragava ou perdia. Talvez fosse o terceiro 5S sendo que não havia passado sequer um ano após o lançamento. Não aguardou pra ver o estrago, e nem quis pensar naquilo, só queria arrumar uma maneira para que não fosse bombardeada de ligações, pois sabia que elas viriam. Depois, se viesse a precisar de um novo, bastava avisar seu pai que ia comprar. Droga, mal via a hora de fazer dezoito anos e ganhar seu próprio cartão de crédito.
Chutou a porta branca de sua suíte, arremessou a sacola no chão do banheiro, caminhou desleixadamente até o rack e ligou o aparelho de som e deu play. Aquele pen-drive em especial só tinha músicas que momentos como aquele pediam; descontraídas, ótimas pra beber todo o álcool do planeta. Passou a mão na garrafa de whisky caro do Sullivans Cove que pegou da adega do seu pai, na outra casa, e voltou ao banheiro. Com o dedão, empurrou a tampa da garrafa e essa saiu voando ambiente afora. se sentou no chão debaixo da janela de teto e observou o céu impressionantemente azul límpido. Levou a garrafa à boca e derrubou uma porção do líquido, que desceu garganta abaixo queimando. Uma parte escorreu pelo seu queixo e ela sorriu após o primeiro gole. Ah, o doce sabor de beber whisky sem se preocupar com nada e ninguém. E a lei que se danasse. Da porta daquele apartamento pra dentro, eram as leis dela que se aplicavam. E na sua constituição constava que quem quisesse beber até chapar, que ficasse à vontade, independente da idade.
Ah, se a realeza e o ministério sonhassem com aquilo...
Engatinhou até a porta do banheiro e puxou a sacola do mercado e voltou para debaixo do sol azul. Aquela imensidão azul lhe lembrava da cor do leito hospitalar de Brittany.
Ela desejou ter poderes mágicos só para trazer a amiga de volta... Brie, Brie... Como lhe fazia falta. Talvez a lâmina suprisse seu vazio.
Um prestobarba nunca lhe pareceu tão convidativo antes.
Ela puxou a embalagem de dentro da sacola e abriu, pegando o gilete. O ergueu na altura dos olhos e girou o objeto, observando minimamente cada detalhe. O objeto era tão simples... Vazio...
Vazio como ela. Como ela se sentia há meses.
Sem um propósito.
Quebrada.
Patética.
Inútil.
Só.
Maldita doença que derrubou sua melhor amiga. Agora ela estava ali, tentando descarregar um pouco da dor emocional na física. Fora a raiva que ela sentia de Anthony... Era capaz de estrangulá-lo caso voltasse a vê-lo algum dia. A única coisa que ela queria, era respeito. Nem isso ele foi capaz de oferecer.
Só aulas de sexo.
Ela quem foi a tola que misturou aquilo com sentimentos... Desde o começo era para ter sido apenas sexo casual. Teriam um ao outro apenas para testarem novas áreas, novas maneiras... se sentia patética.
Patética por ter continuado ao lado dele enquanto Brittany a pediu para que não o fizesse. Agora ela nutria ódio pelo ex e falta da melhor amiga. Ia fazer uso da lâmina como sua nova melhor amiga... Quanto ao “namorado”, ele que se fodesse. Talvez ela se desse melhor sem a companhia masculina.
Suspirou e forçou o gilete nas laterais, quebrando a proteção das lâminas. gemeu quando sua pele entrou em contato com a superfície cortante. Soltou tudo e o objeto caiu no chão entre suas pernas, as peças se espalharam pelo piso branco, agora manchado com sangue.
encarava os dedões cortados. O sangue surgia entre sua pele e escorria por toda a palma de ambas as mãos e pingava no chão. Ah, merda, foi fundo. Estava doendo horrores. Ela olhou para o chão e tentou pegar a lâmina, mas seu dedo doeu tanto que não conseguiu segurá-la. Droga.
Colocou ambos os dedões dentro da boca e chupou o sangue. Não estava saindo nada como o esperado.
O sabor metálico preencheu seu paladar completamente. torceu o nariz. Eca.
Seus planos tinham ido ralo abaixo... Bufou e olhou para a garrafa de whisky. Pelo menos a parte em que ela enchia a cara ainda estava de pé. E também, se um corte causou aquela dor toda em um dedo, sua coragem para cortar os pulsos foi por ralo abaixo. Passou a mão no gargalo da garrafa e deu vários goles para voltar com a queimação do álcool e afastar o gosto do sangue. Onde estava com a cabeça pra chupar um machucado daquele tamanho? Se ao menos fosse pequeno...
Sangue não era uma boa coisa. Sangue demais lhe arremetia péssimas lembranças.
Gritos, dor... Manchas vermelhas nos lençóis egípcios brancos.

Our love was made to rule the world (Nosso amor foi feito pra dominar o mundo)
You came and broke the perfect girl (Você veio e quebrou a garota perfeita)

Ah, o azul do céu... Ué, mas desde quando o banheiro tinha duas janelas no teto? podia jurar que era apenas uma, por mais que visse duas. Será que reformaram ali sem ela saber? Impossível. Só ela, Oliver e Brittany tinham a chave dali...
Puxou a garrafa mais uma vez. achou que aquele líquido tinha um cheiro muito bom. O quê era mesmo? Será que seu sabor era tão bom quanto seu cheiro? Tinha uma cor de mel... Se fosse tão bom quanto mel, ela beberia o resto daquela garrafa.
Arrastou o gargalo até sua boca e tombou a garrafa. Sua boca ficou cheia daquele líquido. Tinha um ardor... Oh, céus, aquilo queimava como o inferno. E ela continuou entornando a garrafa, whisky derramou pela lateral de sua boca e escorreu por todo o seu pescoço, tronco... A mão que repousava no chão também se molhou com o líquido e pôde ver estrelas quando o álcool entrou em contato com a ferida. Soltou a garrafa que caiu em seu colo e com a mão seca, pegou a outra e ficou soprando. Oh, céus, aquilo doía pra caralho. Ardia. Queimava.
A garrafa continuou a entornar whisky pelo colo dela e inundou o chão do banheiro. O líquido estava numa coloração bem avermelhada, parecia uma poça de sangue.
achou que era uma bela cor. Sorriu.
Seus olhos se fecharam e seu corpo relaxou.

I know, I know, I know we can't pretend (Eu sei, eu sei, eu sei que nós não podemos fingir
That we were never lovers in the end (Que nós nunca fomos amantes no final)
I try to tell myself this pain would… (Eu tento dizer a mim mesma que essa dor poderia)
Go away... just go away! (Ir embora... simplesmente ir embora!)

Oliver sentia seu coração apertado.
Desde que ouviu a mensagem de na caixa postal, um péssimo pressentimento lhe atingiu. Tentou ligar de volta, mas o celular estava fora de área. Ele estava assustado, com medo. Assim que teve sua primeira folga, após a desistência de um paciente, ele não perdeu a oportunidade de correr até o apartamento da amiga, que ficava na mesma rua da clínica psicológica onde trabalhava, no pequeno distrito de Victoria.
Ele usou a chave que a garota lhe deu há algum tempo e destrancou o apartamento. Quando entrou, olhou para todos os cantos, mas não viu nada anormal. Trancou a porta e colocou suas coisas no sofá, incluindo a sacola com a barra de chocolate meio amargo que pediu. Uma música tocava ao fundo.
?
Nenhuma resposta veio. Em compensação, ele sentiu um cheiro forte vindo do andar de cima e correu pelas escadas, com o coração praticamente saindo pela garganta. Tanto o cheiro quanto a música estavam mais intensos. Vinha da suíte master da garota. Oliver engoliu seco, tentou espantar o medo e correu até lá. Assim que entrou, avistou a amiga no chão do banheiro, inerte. Ele engasgou e soltou um grito abafado.
! — correu até ela. Estava rodeada por uma poça que cheirava álcool. Viu a garrafa e arregalou os olhos, mas voltou a atenção para a amiga. — fala comigo, . — murmurou.
A garota não respondia aos estímulos. Ele puxou o braço dela para conferir o pulso, e se assustou ao vê-la cortada. A lâmina no chão fez seu estômago embrulhar, mas ele se segurou. precisava dele.
Um leve pulso devolveu a Oliver um pingo de esperança. Ele sacou o celular no bolso e discou o número da emergência.

Forget you ever (Esquecer você para sempre)
Knew my name, my name, my name, my name (Sabia meu nome, meu nome, meu nome, meu nome)

27 de Março de 2015, Los Angeles

Eram cinco horas da manhã quando ela começou a mover-se inquietamente sobre a cama. se debatia e esperneava. Tudo estava muito fresco em sua mente.
Seus olhos abriram de uma vez e ela arfou. Com os lábios entreabertos, ela enchia os pulmões de ar até seu limite, pareciam balões prestes a estourar, e na mesma velocidade, os esvaziava. Estava ofegante. Sua respiração estava tão descompassada que poderia ser ouvida nos outros quartos, se o pessoal estivesse acordado.
Ela acendeu a luminária ao lado da cama e se sentou recostada na cabeceira. Puxou as pernas até encostarem em seu peitoral e apoiou o queixo nos joelhos. Seu coração trabalhava a mil por hora. Parecia estar sofrendo uma síncope.
Céus!
passou meses tentando se lembrar do quê aconteceu após o término com Anthony, para então sonhar com aquilo? Parecia tão real. Foi como reviver o momento... Era como se alguém tivesse estalado os dedos e ela se lembrava de tudo o quê fez.
“Não, era só um sonho. Uma teoria. Não seja boba. Você bebeu uma garrafa quase inteira de whisky e sofreu de coma alcoólico. Era impossível lembrar com tanta clareza” pensou.
Tudo que aconteceu no seu apartamento branco era um borrão em sua mente. Só se recordava até a ligação de Oliver e depois tudo sumia.
Será que havia sido daquela maneira? Ia morrer sem saber. Não confiava muito na parte inconsciente da mente, nos sonhos...
Virou-se de lado na cama e escorregou os pés para fora desta. Calçou sua pantufa, vestiu o quimono beje de seda da Victoria’s Secrets sobre o pijama pequeno, apagou o abajur e pegou seu iPhone 6 na cabeceira. Saiu cambaleando pelo quarto, fazendo o maior silêncio que conseguia. Não queria acordar ninguém. Acendeu a lanterna do celular e foi caminhando até a cozinha. Passou pelos seis quartos daquela mansão rezando para que nem os patrões, as crianças e as visitas percebessem o movimento pela fresta debaixo das portas.
Na cozinha, pegou um copo no armário e abriu a geladeira. Desligou a lanterna do aparelho e o pôs no balcão ao lado. A luz da geladeira já era o suficiente para ela. Pegou uma garrafa de água gelada e encheu o copo, depois pôs a garrafa no balcão. Quando levou o copo aos lábios e fechou a porta do balcão, engasgou-se com a água, sufocando um grito. O objeto de vidro escorregou de sua mão e espatifou no chão.
Ela deu um passo para trás e levou a mão ao coração. Sua respiração voltara a ficar desregulada e ela riu meio ao engasgo. Queria poder estrangulá-lo.
— Queria me matar de susto, ? — riu com escárnio. — vai ter que tentar de novo.
Morrer de susto.
Morte.
Seu sonho.
Morte de Brittany.
Ela arfou e sentiu seus olhos ficarem marejados.
— Ah, meu Deus. — exclamou, sem ar.
deu a volta pelo outro lado do balcão até alcançar e passou seu braço ao redor de sua cintura. A menina não relutou contra o toque, mas se virou e apoiou a cabeça no ombro do rapaz. As lágrimas foram mais forte que ela e logo a blusa do pijama dele estava molhada, enquanto ela soluçava fortemente.
— Vou arrumar uma água com açúcar pra você se acalmar... , me desculpa. Não foi a intenção assustá-la, ainda mais assim. Eu só estranhei o movimento no corredor e vim ver o quê era. — ela balançou a cabeça, assentindo repetidamente. — por favor, não chora por isso. Estou me sentindo péssimo. — riu fraquinho. — vou arrumar a água doce, ok? — ele pôs as mãos na cintura dela e a empurrou vagarosamente, mas quando ela afastou sua cabeça do ombro dele, suas mãos agarraram a camisa fina de e ela o puxou novamente ao seu encontro.
— Não! — gritou e ele levantou as mãos, assustado. — por favor...
— Certo.
voltou a abraçá-la. Uma mão nas costas e a outra em sua cabeça, acariciando seu cabelo longo e sedoso. Tinha um cheiro maravilhoso de baunilha. Ele virou o rosto e deu um beijo no topo da sua cabeça.
— Só deixa eu te abraçar.
— Ok.
Eles ficaram abraçados e em silêncio por vários minutos. O único som que ouviam era dos soluços de . Ela estava de olhos fechados, sua vida com Brie passava na frente de seus olhos.
Um ano.
27 de março de 2014.
A leucemia foi mais forte do que Brittany. Ela se foi enquanto seus dedos apertavam as mãos de Oliver e , cada um de um lado de sua cama. O apito da máquina que monitorava os batimentos não os deixava enganar. Ela respirou pela última vez às nove e quarenta e seis da manhã de uma quinta feira nublada. O céu estava cinza, de luto. Acabavam de receber mais um anjo.
Brittany Faye MacLeese faleceu sem realizar seu maior sonho, ir para a faculdade com a melhor amiga. Oxford seria delas.
Mas nem o ensino médio ela pôde completar.
faltou de aula por duas semanas consecutivas, desde três dias antes dela partir, até dias depois. Mesmo assim, quando comparecia, ficava alheia à tudo. Já havia sido aprovada, só precisava honrar a frequência de aulas e tudo estaria terminado.
Sem Brittany.
Adeus, Oxford e a carreira médica.
Olá, emprego de babá.
Olá, família .
Família que lhe ajudou a ver cores na vida. Família que a abraçou como se fosse uma deles. Família que era mais família para ela do que a sua própria. Seus patrões eram melhores pais para ela do que os seus pais verdadeiros, que sequer acompanhavam sua vida ou sabiam sobre Brittany e toda a depressão que enfrentou e batalhou sozinha, contando apenas e exclusivamente com Oliver. O primo da irmã que ela não teve. O irmão que ela não teve.
Eram pessoas como essas que faziam a vida valer a pena.
Sonho verídico ou não, ela só sobreviveu graças a ele. Oliver MacLeese. Seu fiel escudeiro.
Não podia abraçá-lo, mas o filho mais velho da família já tinha ótimos braços para confortá-la. Odiava se mostrar tão frágil assim para ele, ainda mais depois do acordo que tinham... Aquilo era como se começassem a quebrar a regra contra o envolvimento sentimental da amizade com benefícios que possuíam. Oh, droga. Ela não podia entregar seu coração a mais ninguém. Ninguém era confiável, após tudo que passou com Anthony.
As lágrimas já estavam menos intensas quando a voz do garoto preencheu seus ouvidos.
— Me desculpe. — Brookyln sussurrou.
— Não foi você. — ela deslizou as mãos pelo colarinho da camisa dele. — tive um pesadelo e vim buscar água.
Ele assentiu.
era tão inocente, que era até indigno pensar que ele pudesse ser igual ao resto, igual à Anthony. Sempre se mostrava um ótimo ouvinte... Mas não estava disposta a pagar para ver. Aquilo era apenas uma amizade muito forte entre os dois, provida de ótimos benefícios. Nada de coração. Seu coração pertencia à ela. Apenas a si mesma e mais ninguém.
Talvez ela pudesse dividir o posto de Oliver com ele. Ter dois melhores amigos.
— Está tudo bem?
Uma terceira voz chegou à cozinha. desviou o rosto até o som, enquanto torceu o nariz e manteu-se quieta no ombro dele. As lágrimas secaram e seu sentimento mudou.
Será que ela nunca lhe daria paz? Céus, que menina chata.
— Está sim, Holly. e eu já vamos voltar para o quarto.
quis rolar os olhos, mas eles estavam fechados. Se afastou de e passou direto até a dispensa, indo atrás de uma pá e vassoura.
O quarto.
Um quarto para os dois. Ela quis rir no meio à tanto caos. também fazia o possível para tirar a mais nova do seu pé. Só que ao contrário de , sua paciência era praticamente infinita, se compara à dela.
— Bem... Nesse caso, também vou.
quis voltar correndo até a cozinha só para falar umas verdades para Holly. Tudo bem que ela gostava de , mas agora ficar vigiando o quê ele fazia durante a madrugada, era demais. Ainda mais quando infringia a privacidade alheia. Ela fechou os dedos ao redor do cabo da vassoura e respirou fundo.
Quando voltou à cozinha, ela já não estava mais ali. agradeceu aos céus. preparava a água com açúcar que havia prometido enquanto ela limpou os cacos de vidro do copo quebrado. Não trocavam uma palavra sequer e acabaram praticamente juntos.
Ele a entregou o calmante e agradeceu com um sorriso singelo. ficou de frente para ela, aguardando até que terminasse. Foram de volta juntos, ele passou o braço pelo ombro dela, que fingia não importar, mas agradecia pela demonstração de preocupação vinda do rapaz. Ela não sabia o quê exatamente achar daquilo.
— Entregue. — ele a deixou na porta de seu quarto.
Meio à tanta gente, os patrões haviam articulado uma maneira de conseguir um só pra ela.
Ela ficou paralisada de frente a porta, olhando para .
Alguma coisa estava faltando.
E uma estava sobrando.
O medo.
O medo de voltar para a cama e voltar também para o inferno em sua mente. Não queria ter mais pesadelos, não queria mais lembranças ruins do passado, não queria sentir dor ou sofrer.
Dormir sozinha exatamente no dia em que Brie morreu há um ano atrás era um desafio que seu psicológico ainda não estava apto a tentar.
— Quer que eu fique com você?
Após os poucos meses de convivência e o trato de “benefício”, havia começado a compreender com uma facilidade bem maior. A babá de sua família não era uma incógnita tão enorme quanto antes e algumas vezes ele a compreendia apenas por um olhar.
E aquela não havia sido tão difícil. Ninguém gostava de dormir sozinho após um pesadelo.
— Só como amigos, né?
riu baixinho.
— Sim, . Afinal, não é isso que somos?
assentiu. Era difícil para ela expressar aquela atitude em palavras ou demonstrar gratidão. Aquilo a deixava exposta.
Eles foram para a cama e escorregaram para debaixo do lençol. se virou para ficar de costas a ele. Já havia extrapolado uma enorme parte da barreira que ela gostava de impor, não precisava de mais.
Mas Brookyln era ousado. Ele percebia a dureza dela e sabia que aquele momento estava ao seu favor. Esticou a mão e fez cafuné na menina. fechou os olhos e permitiu o afeto. Era um dia especial. No dia seguinte, tudo voltaria ao normal. Ela só precisava lembrar que o seu normal de agora era agitado e mantinha sua cabeça ocupada.
Perfeito, do jeito que ela amava.
— Posso te contar um segredo?
Abriu os olhos. Ainda não ia se virar para olhá-lo. Não... Precisava acostumar-se em dividir uma cama.
— Quantos quiser.
Ah, . Você nunca colaborava. Nunca agia conforme ela queria.
Se virou e olhou no fundo dos olhos dele, conforme a pouca claridade permitia.
— Eu sonhei com minha irmã.
Ele assobiou.
— Não sabia que você tinha uma.
sorriu.
— Agora ela mora no céu. Hoje faz um ano que ela trocou de lar e, bem, não somos exatamente irmãs de sangue. Somos de amizade.
Ele ficou calado, respeitando os limites dela.
nunca o contou nada sobre sua vida.
Ela estava se abrindo.
Ele não era idiota de incitar sua curiosidade e freá-la.
— Ela era minha melhor amiga, teve leucemia. Prima de Oliver.
— Eu sinto muito.
Ele sussurrou e assentiu. Ela nunca usava a palavra “obrigada” em momentos difíceis. Quase todos eram difíceis para quem tinha dificuldade em aceitar ajuda.
Ela escorregou a mão sob o colchão até encontrar com a dele. olhou para aquilo sem acreditar no que via, mas entrelaçou seus dedos ao dela.
?
— Hmm?
Estava sonolenta. O sono estava voltando mais rápido do quê ela esperava.
Seu coração estava leve.
— Pode contar comigo quando precisar desabafar.
— Uhum. — bocejou. — obrigada.
Sua voz saiu fraca e praticamente inaudível.
arregalou os olhos, mas sorriu.
Ele sabia que aos poucos quebraria aquela casca dura que envolvia sua babá. Ou amiga com benefícios, como preferirem. Mas ele preferia pensar como “futura namorada” ou algo assim.
sonhou mais uma vez.
Agora, com a abraçando durante o dia inteiro enquanto ela se limitava a contá-lo a participação de Brie em sua vida. Com ele, seu sofrimento era ouvido e cuidado.
Ele não tinha nada a ver com Anthony.
E ainda um dia, ela perceberia que generalizar era totalmente equivocado em um mundo com sete bilhões de pessoas.

Forget forever (Esquecer para sempre)
Forget forever (Esquecer para sempre)


Fim


Nota da autora (29/04/16): Oi, gente! Então, eu sou apaixonada por essa música e tentei ser fiel à letra. Mas eu adoro fazer releituras e misturei o término com o ex + a morte da amiga para fazer o "esquecer você", porque ninguém merece homem babaca e pé no saco, né?
Se gostaram da minha escrita e quiserem dar uma chance à minha outra fic, ela se chama Best Nanny Ever, é restrita e está em andamento, mas eu atualizo muito ^^ e eu escrevi duas spinoffs dessa fic, 11. You're Not Alone e 08. Confetti Falling. Elas entram no próximo mês e são focadas na Brittany. Mas em CF ela que é a principal, hein! Se preferir, mantenha o nome dela e coloque o seu no da melhor amiga!
Se quiserem falar comigo, me procurem na ask. Beijos, Julie!






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