Última atualização: 28/02/2019

Prólogo

Paris, França, meados de 2017.

— Sabe, … Eu me repreendi inúmeras vezes por ter estragado tudo, me fechei por semanas lembrando de como os anos que passamos juntos puderam acabar tão rápido. Joguei toda culpa nas minhas costas e carreguei, arrastei isso pra todo lado o quanto pude, carreguei tudo sozinha, afinal eu tinha escolhido ir embora, convivi com o fato de só fazer besteira e por ser egoísta por te deixar pra trás, por te fazer acreditar que não tinha um lugar junto aos meus sonhos. Eu aguentei firme pra não desistir deles na metade.
“Eu realmente espero que você esteja se cuidando bem, que se alimente direito e que a dor passe logo para que você possa sorrir daquele jeito que só você sabe. Eu sinto muito, sinto tanto que nem consigo expressar o quanto, que o que tivemos tenha tido um fim.
Você pode pensar o que quiser, eu não me importo mais. Senti suas falta por meses, pedi perdão mais vezes do que respirei, mas agora dói tanto que eu mal consigo pensar, mal consigo sentir. Eu passo horas olhando pro telefone esperando que você finalmente me atenda ou me retorne para que eu possa te falar o que sinto. Mas a gente não tem mais jeito, tem? Essa é a última mensagem que vai receber. Eu amo você, .”



Capítulo 1

fechou a última de suas malas, empilhou a bolsa em cima das rodinhas e saiu do apartamento que lhe abrigara nos últimos três anos, perguntou-se se iria sentir saudades da França e percebeu que não sentiria falta de um país onde não criara laços.
Desde que se mudara estava tão focada em ser a grande médica que sonhara ser, que esquecera que a vida não girava somente em torno disso, as dores do passado ao mesmo tempo que fizeram dela forte, a fizeram temerosa. Tinha medo de amar de novo e de se machucar, tinha medo de se aproximar das pessoas e machucá-las como fizera com ele. Sentia-se como um liquidificador velho: ou machucava tudo que se aproximava dela, ou tudo que se aproximava tendia machucá-la.
Seus dias mais felizes eram os dias que saia em missão com o MSF*, ajudar todas aquelas pessoas, vítimas de catástrofes ou simplesmente da exclusão social, ser agradecida por fazer o que amava e ajudar, os olhares agradecidos, as palavras de agradecimento muitas vezes em um idioma que não conhecia, o afeto daqueles pessoas fazia tudo valer a pena.
Não escolhera se isolar, não escolhera acordar em uma cama fria e se encontrar sozinha nela. Não escolhera ter apenas quatro paredes para contar seus problemas ou ter um enorme urso de pelúcia como porto seguro. Não escolhera a imensidão do vazio que se encontrava dentro dela para se acolher, ou chorar até a dor passar, tampouco escolhera sentir aquela dor ou o aperto do peito que já fazia parte de si e da sua rotina.
Ela escolhera seguir seu sonho, e aquilo tudo simplesmente aconteceu. Antes mesmo de poder se estabilizar, estava caindo no chão. Sozinha. E não sabia o que podia fazer para mudar isso.
suspirou, encarou o urso de pelúcia gigante que ganhara quando ele fora visitá-la em Paris, e deu as costas a ele, deixando o para trás também.

As grossas gotas de chuva caiam, e a moça se amaldiçoou por nunca lembrar de carregar um guarda-chuva consigo, correu pela calçada então e deu sinal a um táxi que se aproximava, torcendo para que não se molhasse tanto e pudesse chegar ao aeroporto logo. O motorista porém não parou o carro e a moça observou o veículo passando direto por ela, a deixando na chuva e submersa num dejavu indesejado.

— Dra. , você já pode ir — encarou Louis, o jovem médico que aceitara trocar de turno com ela e sorriu.
— Ah, muito obrigada, Dr. Louis! — Respondeu feliz por conseguir chegar em casa cedo naquele dia.
— Seu namorado ainda está te visitando? — O médico perguntou simpático e ela sorriu com alegria, assentindo. — Então, corre, garota! — riu, agradeceu novamente e se despediu, para poder finalmente ir para casa e encontrar o rapaz que amava com tanta intensidade.
Sabia que não vinha sendo a melhor das namoradas nos últimos dias, mas a rotina acabara desgastando-a, e cansando-a de forma imensa, estava fazendo tudo que estava ao seu alcance para não perder nenhuma oportunidade, trabalhava por horas na sede do Médecins Sans Frontières* e logo em seguida cumpria seus plantões no hospital local, como ainda era nova no local acabava pegando os turnos mais complicados, era difícil que alguém aceitasse trocar de horário com ela e aquilo dificultava muito sua vida.
Muitas vezes chegava no apartamento de madrugada e já estava dormindo, ela observava com imenso carinho o quão lindo ele era e sentia seu coração apertar no peito com tamanho amor que sentia por aquele homem. Logo, tomava um banho e simplesmente mergulhava nos braços dele, que lhe abraçava, sem abrir os olhos.
E como sentira falta daquele abraço, como era difícil acostumar dormir sem os braços dele ao seu redor, fora difícil em cada um dos dias que passara sem ele, e sabia que seria muito mais difícil quando ele tivesse que voltar para a Coréia.
Procurou não pensar nisso e logo correu para sua sala, para deixar seu jaleco e seus equipamentos, correndo para a saída em seguida, ansiosa para vê-lo. Deu sinal ao primeiro táxi que passou em sua direção e indicou ao moço o endereço do restaurante que frequentara em excesso nos seus primeiros dias em Paris.
Entrou no local e pediu a jovem recepcionista, pedindo um Rabokki bem caprichado para a viagem. O restaurante coreano, era gerido por uma família vinda da Coreia do Sul a anos e a comida de lá a fazia sentir-se em casa quando a saudade apertava. Alguns minutos depois quando a garota anunciou que seu pedido estava pronto, a jovem médica pagou e pegou sua sacola, ávida para chegar logo em casa.
A chuva começara a cair do lado de fora, de forma súbita e forte, correu para dar sinal a um táxi que passou direto por ela, encarou o veículo partir, e olhou o relógio em seu pulso, torcendo para que ainda não tivesse jantado e estivesse acordado para que pudessem passar aquela noite juntos de verdade.
Paris era sempre caótica durante a chuva, os táxis sempre estavam ocupados e o trânsito tornava-se infernal, amaldiçoou a cidade por cada segundo até finalmente conseguir entrar em um veículo e indicar ao motorista o endereço do seu apartamento.
Observou cada um dos prédios ansiosa para chegar logo, os dedos batucando no ritmo da música francesa que soava nos alto-falantes e quando o carro finalmente parou em frente ao seu prédio pagou ao motorista e desceu rapidamente, calculando a velocidade que seria necessária para que não se encharcasse antes de chegar ao prédio. Porém todos os seus cálculos foram em vão.

despertou de seus devaneios quando percebeu um novo táxi se aproximar, deu sinal e suspirou aliviada quando o motorista parou, guardou sua mala no porta-malas e correu para se abrigar no banco de trás do veículo, indicou ao moço o que iria ao aeroporto e recostou-se no banco, ouvindo a música francesa tranquila.
A moça não podia deixar de pensar em como seria sua vida agora que estava voltando para a Coreia, tanto tempo havia se passado, tanta coisa havia mudado, ela estava completamente diferente. Quem diria que a garota que sempre fora tão sorridente e cheia de amigos se tornaria tão fechada e solitária? Que perderia contato com todos eles, que perderia aquele que sempre pensou ser o amor de sua vida? Sem que pudesse evitar sentiu o aperto no peito lhe atingir e fechou os olhos deixando com que mais uma lembrança lhe assombrasse depois de longos dois anos.

— Adeus, . — Aquelas duas palavras ecoavam em seus ouvidos repetidamente, talvez na mesma intensidade das lágrimas que escorriam sem parar, se misturando a chuva que caía encharcando seu rosto e todo seu corpo.
não pudera aguentar-se em seus próprios joelhos, ao vê-lo soltar-se do seu abraço e entrar num táxi, eles falharam a deixando cair no chão, sem conseguir controlar os próprios sentimentos e segurar a dor que sentia dentro de sí.
Não havia ninguém na rua para presenciar uma moça parada, caída no chão em meio a tempestade que se formava, a sacola de comida jogada no chão, junto com sua bolsa. O corpo encharcado de chuva tremia e estremecia a cada vez que a moça puxava o ar para que o choro tomasse força.
Seus olhos não saiam do ponto em que o táxi se fora minutos antes, o beijo queimando em sua testa não a deixava sair do lugar. E ela se mantinha ali, imóvel, parada, estagnada em meio a calçada de uma rua qualquer da França, perdida numa tempestade de dor.

entrou em seu apartamento e largou a bolsa no sofá, sequer se lembrara da sacola com o jantar que havia comprado. As lágrimas haviam secado, e o frio das roupas molhadas pela chuva havia anestesiado seu corpo, não sentia mais nada.
A médica tirou as roupas molhadas do corpo e entrou no banho quente, sentia-se robótica, como se seu corpo estivesse sendo controlado por outra pessoa e ela sequer conseguia sentí-lo. Mas quando vestiu-se e se direcionou a cama de casal, vazia e gelada, tudo voltou, de supetão, como a dor de um corte profundo.
Começou pelo coração e, de repente, todo seu corpo passou a doer, a força que a mantinha de pé ao lado da cama se foi, deitou-se, sentindo-se sozinha, com frio e medo do que estava por vir. Ela temia que ele não voltasse, que se fosse para sempre e que daquela vez, o tal para sempre durasse mais do que aquele que prometeram um ao outro.
Ele sabia o quanto doeria nos dois se decidisse ir embora, e mesmo assim não hesitou em ir. Depois de tudo que viveram, ele decidira ir embora sem sequer se despedir. Quais eram os argumentos que ele tinha para dizer que era o amor dela que tinha acabado? Foi ela quem deixou o lado da corda cair? Ele tinha escolhido um “adeus” ao invés de um “até logo” e não tinha o direito de fazê-la sentir daquela forma.
estava só, num quarto escuro e frio, sem meia palavra solidária que fosse, algo que a fizesse sentir protegida. E, então, elas voltaram. As lágrimas caíram dos seus olhos, sem sequer pedirem licença, como se nunca tivessem secado. E ela chorou.
Chorou como se sua alma fosse sair pelos olhos, e sua garganta arranhou quando gritou como se sua dor pudesse sair pela boca. As lágrimas que estavam presas encharcando seu espírito banharam seu rosto, os soluços que estavam presos logo chegaram e sua garganta travou, calando-a, lembrando-a que aquela dor ela devia guardar.
Sentia que carregava um peso maior do que era capaz de suportar. No fundo do peito, sentia algo pedindo socorro, uma trégua, alguns minutos de paz, um pouco de calma, implorando por alívio.
Mas ele nunca veio.

entrou no antigo apartamento, acendeu as luzes e encarou tudo da mesma forma que deixou, o sofá cinza, os móveis brancos de madeira, o tapete felpudo da sala, cada mínimo detalhe daquele lugar trazia uma lembrança de uma época que não existia mais e que não poderia existir.
Lembranças de uma mulher que não existia mais e que dela só restara a casca vazia. Era assim que se encontrava, vazia, sem nada por dentro além de uma solidão gigantesca. Não sabia dizer quando chegara àquele ponto, mas quando o trabalho tornou-se mais importante que sua vida, quando se tornara seu único refúgio para toda aquela dor, ela apenas queria esquecer, e cortou tudo, não queria mais contato com nada que viesse do país de origem, pois tudo a fazia lembrar-se dele, até os próprios pais a faziam lembrar dele e essa foi a única coisa que manteve, que tinha que manter, apesar de toda dor. Seus pais sempre foram seu porto seguro e refúgio, mas sempre fora uma pessoa apegada aos próprios amigos, e largara todos eles. E como podia conseguir voltar depois de tanto tempo com a cara lavada para todos eles como se nada tivesse acontecido?
A médica tirou os sapatos na porta, costume que nunca perdera, e adentrou o local, não se deu ao trabalho de contemplar a antiga casa, pois já a conhecia como a palma da mão, direcionou-se ao quarto tentando ignorar cada lembrança que a atingia como um tapa, como podia após tanto tempo ainda sentir aquelas dores? Ainda ter aquelas lembranças tão vívidas em sua mente?

A jovem médica entrou em sua sala, fechou as persianas e ao trancar a porta se recostou na mesa, sentando-se no chão. Sentiu as lágrimas escorrerem, sem que pudesse contê-las mais.
Ele se foi, ela dissera a Dr. Louis quando ele perguntara se o namorado já tinha ido embora, já que ela nunca mais pedira para trocar de turno, ele sorriu triste e bondosamente e dissera “Ele volta logo, tenho certeza”. Mas ele não entendia que ele não se fora somente da França, ele se fora da sua vida. E ela não tinha certeza se ele voltaria.
Ela respirou fundo ao encarar o celular, as inúmeras ligações não atendidas marcadas nas ligações recentes, o aplicativo de mensagens repleto de mensagens enviadas e jamais respondidas. Os últimos dois meses haviam sido os mais difíceis que já tivera, naqueles dias até mesmo respirar era difícil, tudo doía, somente conseguiu encontrar consolo no trabalho, as horas que passava dentro de seu consultório, com diversos pacientes o dia inteiro não a deixavam tempo para pensar, para doer.
Mas quando chegava em casa e a cada minuto que tinha de descanso, tudo voltava.
Ela fechou os olhos, e abriu a conversa com ele, apertou o botão de gravação de novo, e deixou-se falar.
— Pra ser sincera, eu nem sei porquê estou gravando essa mensagem, eu tenho minhas desconfianças se você ainda vai voltar a querer ouvir qualquer coisa que eu tenha pra falar — sorriu tristemente, sentindo a dor daquele pensamento em seu peito — Mas eu preciso falar, porque você não atende a droga do telefone, , e você sempre atende a droga do telefone, eu não tentei uma ou duas vezes, eu estou te ligando a três semanas, por Deus, cada minuto que eu tenho pra respirar eu tento te ligar — Suspirou, sabendo que não era exagero, a moça se pegava a cada minuto esperando por uma ligação dele, que ele retornasse ao menos uma das inúmeras que fizera nas últimas semanas, até que naquela manhã, o telefone não chamara, estava na caixa postal. — Você tem noção de quantas vezes eu chorei me sentindo a pior pessoa do mundo por ter errado com você? Faz ideia de quantas vezes me peguei pensando em formas de te pedir perdão? Você acha que eu não sei o quanto sentia minha falta? Acha que eu não sentia o mesmo? Acha mesmo que meu coração estava em paz com você em outra parte do mundo? — As primeiras lágrimas caíram quando ela continuou. — Eu não entendo como você pode achar que eu ficava bem quando algum dos meninos me contava o quão mal você estava. Você não sabe como eu me senti o pior dos seres por te fazer sofrer assim, por você achar que eu não sentia sua falta, que eu não te amava. Mas eu estava… Eu estou sofrendo também, . E isso não é de hoje, não é só porque você se foi, eu estou assim a meses. — Suspirou se lembrando de quando chegou na França — Eu cheguei aqui sem conhecer ninguém, carregando uma mala com algumas roupas e um vazio no peito imenso por te deixar pra trás, eu tive problemas pra me adaptar, eu não tinha um amigo sequer e minha vida toda estava na Coreia. Você estava aí. Tudo que eu tinha aqui era um sonho e isso foi o suficiente para me fazer ficar. — Ambos sabiam que ela jamais desistiria dos sonho que tinha — Eu fingi que estava bem por que eu queria que você estivesse bem, mas me isolei do mundo por não ter a única pessoa que me importava como companhia. — O choro já tinha tomado conta de si — Sabe, … Eu me repreendi inúmeras vezes por ter estragado tudo, me fechei por semanas lembrando de como os anos que passamos juntos puderam acabar tão rápido. Joguei toda culpa nas minhas costas e carreguei, arrastei isso pra todo lado o quanto pude, carreguei tudo sozinha, afinal eu tinha escolhido ir embora, convivi com o fato de só fazer besteira e por ser egoísta por te deixar pra trás, por te fazer acreditar que não tinha um lugar junto aos meus sonhos. Eu aguentei firme pra não desistir deles na metade. — Ela suspirou, tentando controlar o choro para que pudesse ser clara. Era aquela a despedida, não podia continuar sua vida assim. — Eu realmente espero que você se cuide bem, que se alimente bem e que a dor passe logo para que você volte a dar aquele sorriso que só você sabe dar. Eu sinto muito, sinto tanto que nem consigo expressar o quanto, que o que tivemos tenha tido um fim.
“Quanto a mim, eu vou viver meu sonho. Você pode pensar o que quiser, eu não me importo mais. Você pode pensar que é um drama, que estou sendo grossa, rancorosa ou amarga, mas eu senti sua falta por meses, me culpei por tudo, senti dores que vinham de todos os lados, tentei preencher o vazio do meu peito com qualquer coisa. Pedi perdão mais vezes do que respirei, mas agora dói tanto que eu mal consigo pensar, mal consigo sentir.
Tá tudo tão vazio que só consigo sentir frio e dor, eu chego em casa e corro para o telefone, fico horas olhando pra ele, esperando que você finalmente me atenda ou me retorne para que eu possa te falar o que sinto. Mas a gente não tem mais jeito, tem?
Essa é a última mensagem que vai receber. Eu amo você, .” — Desligou o microfone, viu a mensagem ser enviada e bloqueou o celular, as lágrimas tomando conta de seu rosto, sem que ela impedisse, mesmo se tentasse não conseguiria, não tinha mais controle sobre os próprios canais lacrimais. Sentiu as mãos tremerem e se deixou levar, por mais uma das intensas crises de dor e choro que vinha tendo desde que ele se fora.

Naquela noite, tivera que crescer anos em uma única madrugada, tivera que se virar com o frio e com o silêncio, tivera que dar seu jeito para dormir, pois para ela uma noite mal dormida era pôr a vida de pessoas em risco. Se viu aos pedaços, literalmente aos pedaços, chorou o que devia e o que não devia, mas naquela manhã, podia sentir que passou.
Depois de se debulhar nas lágrimas mais amargas, de pensar nas coisas mais bonitas e ver que elas se foram, depois de toda aquela tortura usada para lavar a alma, pôde respirar.
olhou para si mesma e viu que tudo ainda estava uma merda, mas tinha força de vontade para se reinventar.
Passara então a aguentar de tudo, da dor que o sapato causava até ir dormir com o frio da solidão. Sorria para todos, desde o estranho que lhe desejara bom dia até a vadia competitiva que só queria seu mal. Estava sempre bem para todos, fosse com a gripe que pegara após tomar chuva ou com o coração partido, que doía até para bater. Ela ficava bem.
Optava sempre por respirar fundo, já que gritar lhe exigia muito esforço. Era sempre tão certa, perfeita e doce. Tão coerente, educada e sorridente, amada, querida e elogiada.
Mal sabiam os outros que a bela médica sorridente chorava de noite, mal sabiam das marcas que seu coração trazia, do esforço que tinha que fazer para sorrir e da coragem que tinha que ter para levantar.
Forte e aparentemente feliz. Feita de falsos sorrisos, aprendeu a conviver bem, mesmo dentro do ninho de cobras que era aquele hospital. Mas por mais que tentasse fingir que estava tudo na mais perfeita ordem, não estava. Sorrir não tornava seu dia mais feliz, e esconder seus problemas não era tão mais fácil quanto antes.
Era uma ferida aberta, que nunca melhorava. Um dia, ela sabia, que ia esquecer, mas o que fazer enquanto ainda a matava por dentro?
Doía desmoronar por dentro e sorrir por fora, querer e não poder, sentir e esconder. Doía encarar a verdade quando a mentira a abraçava, respirar fundo sendo que lhe faltava o ar, seguir em frente, deixando seu coração pra trás.
Dizia para si mesma "Respira, você é forte, vai ficar tudo bem". Procurava uma modo de virar a página, de acabar com a dor, de plantar alegria para que pudesse ser feliz. Mas como? Como podia apagar uma história? Como se jogava fora? Como se esquecia daquilo que era seu chão? Como?


* **Médecins sans Frontières: Médicos sem Fronteiras, é uma organização internacional, não governamental e sem fins lucrativos que oferece ajuda médica e humanitária a populações em situações de emergência, em casos como conflitos armados, catástrofes, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo, na área da saúde.
*Rabokki: prato coreano que mistura o tteokbokki (rolinhos de arroz macio e molho doce de pimenta vermelha) com ramyeon (versão coreana do lámen).


Capítulo 2

sentou-se no velho sofá, o estofado tão conhecido e confortável era o mesmo a anos, acariciou uma das almofadas familiares, aspirou o cheiro da sua comida caseira preferida e sentiu-se em casa. Pela primeira vez em anos sentia-se bem, estava em casa, rodeada de pessoas que gostavam dela de verdade e a conheciam com era realmente.
Naquele lugar, memórias da sua infância vinham, da sua adolescência, da sua vida inteira, amava aquela parte da Coreia com tamanha intensidade que perguntou a si mesma como conseguira se manter afastada tanto tempo. Como pudera deixar a França apagar quem era?
observou a mãe, feliz ao cozinhar seus pratos preferidos, observou o pai sentado na poltrona na lateral do sofá onde estava sentada, que fingia ler um jornal, mas passava mais tempo encarando a filha que havia finalmente retornado do que realmente lendo. Estavam todos felizes com sua volta, e ela não podia estar mais feliz em voltar.
Appa*, para de me encarar, não vou mais embora tão cedo — Brincou, sorrindo para ele que deu uma risada.
— Mas olha só, jagyia*, a garota passa dois anos na França e volta com um nariz empinado e mais convencida do que antes! — Ele falou para a esposa que riu, feliz com as brincadeiras estarem de volta dentro daquela casa.
— Não achava que isso era possível, yeobo.* — A mãe entrou na brincadeira — A garota já era convencida demais antes de ir. — fez uma cara de chocada, diante da traição da mãe e levantou-se do sofá onde estava para abraçá-la.
— Não esperava essa traição, omma*! — Choramingou e a mãe riu, virando e a abraçando. — Senti tanta falta de vocês. — suspirou, encaixando-se no pescoço da mãe e sentindo seu perfume doce e familiar.
— Também sentimos sua falta, . — A senhora beijou a testa da filha e a fez feliz por estar em casa de novo.

Ela olhou cada parte do seu apartamento e partiu para a casa dos pais, novamente analisou cada pedacinho da casa, daquela rua e daquele lugar. Andou dezenas de vezes de um lado para o outro, sem dar importância para a chuva que molhava seu corpo, se despediu das árvores, da vizinhança, das casas dos vizinhos, das brincadeiras que já havia sido motivo de muitas risadas, do esconderijo deles e partiu, sem olhar para trás. Sabia que em alguma parte de si , um simples incentivo a faria ficar, então não deixou que ele acontecesse. Seu corpo por algum motivo tornavam seus passos mais pesados e difíceis, sentiria saudades, mas era necessário. Nada a impediria.
Quando atravessou a sala da casa dos pais, olhou para a calçada onde passara horas conversando com e contando segredos, sentou-se nela, as lágrimas embaçando sua visão e chegou a conclusão que quando tudo é especial, se torna muito mais difícil de deixar para trás. E mesmo assim, limpou as lágrimas, deu as costas e seguiu para o aeroporto.

observou os olhos da mãe marejados e sentiu o coração apertar, analisou e mediu suas escolhas pela milésima vez, por que seus sonhos estavam tão longe de casa? Por que faziam com que todos que a amavam chorassem? A moça suspirou e abraçou a mãe.
— Omma, vai me fazer chorar. — Reclamou e a mãe acariciou sua cabeça.
— Minha menininha está indo para longe e me pede para controlar minhas emoções? — A senhora devolveu com tom rabugento, mas a voz embargada.
— Jagyia, vamos, têm outros querendo se despedir da garota. — O pai falou carinhosamente, encarando os amigos, e o genro, todos tinham ido se despedir da sua menina. sorriu, sabendo que sentiria falta do pai chamando-a de garota, afastou-se da mãe, deixando um beijo zeloso em sua testa e abraçando o senhor em seguida.
— Appa — Choramingou quando sentiu os braços dele ao seu redor — Cuide da mamãe, sim? — o abraçou ainda mais forte. — Volto logo, prometo. — Foi a vez dele deixar um cálido beijo em sua testa, calando-se para que sua pose forte não desabasse, sua esposa precisava dele firme naquele dia. E ele aguentou firme até onde pôde e voltou calado para casa ao lado da esposa, ambos com o coração apertado, o nó na garganta e lágrimas nos olhos.
A menina deles tinha criado asas e estava cumprindo seu destino de salvar vidas e se ela nascera com uma sina tão bonita quanto aquela, eles não poderiam guardá-la para si para sempre, como desejavam.

Em alguns dias o pronto-socorro do Hospital Central de Seoul era um caos, em outros era calmo e sossegado, sem emergências graves ou pacientes com risco imediato de vida. A Dra. estava escalada para o primeiro turno do dia, já estava quase no fim do seu trabalho quando pegou seu estetoscópio da mesa, colocando-o no pescoço e guardando suas outras ferramentas nos bolsos, junto com o celular.
Direcionou-se à sala espera e observou seus próximos pacientes, sorriu ao ver uma menininha feliz ao olhar a televisão da sala de espera e olhou para a televisão para saber o que prendia tanto sua atenção.
Ver o grupo inteiro na televisão fez seu coração disparar, seus olhos encheram de lágrimas, repletos de nostalgia de um coração cheio de saudades, foi tomada de lembranças, lembranças dos seus meninos, de como eles tinham crescido e tornado-se homens incríveis e consolidado-se em carreiras maravilhosas.
Ao mesmo tempo em que era bombardeada por sentimentos, perguntava a si mesma o que estava acontecendo, por que estava sentimental? Que sentimentos eram aqueles que haviam voltado após anos? Quando voltará a ter aqueles sentimentos que havia abandonado muito tempo atrás quando se afastara daqueles que amava?
A médica se sentia nostalgica, com um frio na barriga, uma incerteza que não lhe pertencia e uma cabeça confusa, como há muito tempo não ficava, ela se afundou em lembranças.

A jovem médica encarou a mensagem no celular e sorriu: “Posso te ligar?”, a pergunta do namorado brilhava na tela e o coração apertou com saudade da voz dele, “Sim, estou no meu intervalo aqui no hospital”, apertou o botão de envio e aguardou ansiosa.
— Dra. , temos uma emergência, o Dr. Louis está pedindo ajuda no pronto socorro. — A enfermeira colocou a cabeça para dentro da sala de descanso e levantou-se prontamente, deixando o celular em cima da mesa e correndo para ajudar o colega a salvar mais uma vida.
Quando finalmente conseguiu voltar, pegou o celular, encarou as mensagens e as ligações perdidas e amaldiçoou a si mesma por não lembrar de avisá-lo antes de sair da sala, olhou para o relógio e viu que as horas que passou dentro da sala de cirurgia tinham sido suficientes para dormir.
O contato com ele, com a família e os amigos tornara-se difícil, as oito horas de diferença entre o fuso horário dificultava ainda mais o contato com eles e a afastava cada vez mais quem amava, sentia muita falta de todos, mas havia dias em que estava tão cansada e a rotina do hospital a consumira tanto que sequer podia parar para sentir aquela dorzinha que incomodava.
“Desculpe, , tive uma cirurgia de emergência.” - Digitou e enviou a mensagem para o namorado, ciente que às 3h da manhã no seu país de origem a impossibilitaria de receber uma resposta.

saiu da casa dos pais, mais uma vez sentindo-se leve. Era bom sair do trabalho e ter para onde ir, estar sempre ao alcance do abraço da mãe e dos carinhos do pai, decidiu caminhar até o seu apartamento, que apesar de não ser tão longe dali, ainda era em um bairro diferente, observou o bairro em que crescera, onde cada pequeno cantinho lhe trazia uma lembrança especial.
? — Ouviu uma voz feminina atrás de si e encarou a garota que estava parada lhe encarando com a sobrancelha cerrada.
— Suspirou, a ex-cunhada correu em sua direção e lhe abraçou antes que pudesse sequer pensar no que dizer, apenas afundou a cabeça em seus cabelos, tentando mantê-la perto de si. Vira aquela menina crescer, acompanhara cada segundo da sua vida e estava sempre por dentro de tudo que acontecia, era a irmã mais nova que nunca tinha tido e um presente que seu namoro com tinha lhe dado.
— Quando você voltou? — A garota perguntou, soltando-se do abraço e encarando-a, sorriu, olhando-a de cima a baixo, percebendo o quanto ela havia crescido e se tornado uma mulher em sua ausência.
— Faz um mês. — Respondeu e viu a mais nova a olhar com mágoa. — Eu estava um pouco corrida com as coisas do hospital e ainda estou me acostumando com estar de volta — Sorriu, como se pedisse para a mais nova que a entendesse e não a julgasse por isso.
— Senti sua falta, . — Ela sorriu e a abraçou novamente.
— Ah, minha menina, senti mais sua falta do que você poderia imaginar. — E era verdade, sentira mais falta até do que ela mesma pudera imaginar, sentia seu coração reavivar dentro do seu peito a cada vez que encontrava alguém que amava. — Aonde você está indo?
— Para casa. — Apontou na direção conhecida e a mais velha sorriu.
— Vamos, vou te levar pra casa. — Colocou o braço no ombro de e bagunçou seus cabelos. — Estou com saudades da sua mãe.
Andaram juntas até onde a família de morava, conversaram, deram risadas e relembraram os velhos tempos no caminho, a mais nova lhe contou sobre o colégio, sobre como sua mãe estava e, como se adivinhasse que não estava pronta, sequer tocou no nome do irmão.
Quando chegaram a casa da mais nova, ouviram risadas do lado de dentro e olhou para ela com os olhos arregalados.
— Não sabia que os meninos estavam aqui em casa. — sorriu com carinho, sentindo o peito pular por saber que eles estavam tão perto.
— Não tem problema, pequena. — Deu um beijinho na testa dela. — Fala pra sua mãe que mandei um beijo. — Ela sorriu e a outra lhe entregou seu celular.
— Anota seu número, não vou te deixar me largar de novo, sua desnaturada. — Elas riram e depois de pegar seu celular de volta deu tchau e partiu, sabendo que não era hora de rever quem estava dentro daquela casa.

Ela conhecera muito tempo antes de começarem a namorar, era engraçado como conseguiam se dar bem e se encaixar de forma tão fácil, estavam sempre rindo e se divertindo juntos, as famílias eram próximas e até mesmo costumavam passar feriados juntos.
— Unnie* — chamou e a garota a olhou — Por que você e o não namoram? — A menininha perguntou para com os olhos brilhando, era seis anos mais nova que ela, aos 9 anos era esperta e animada, estava sempre com um sorriso no rosto e adorava a mais velha como se fosse sua irmã de verdade.
— Não é assim que as coisas funcionam, . — Ela deu uma risada nervosa, observando o garoto do outro lado da sala, ajudando sua mãe com algo e a menininha rolou os olhos.
— Mamãe, você não acha que a e o deviam namorar? — arregalou os olhos, sentindo o rosto esquentar e tendo a certeza que parecia um tomate naquele momento, olhou para o outro lado da sala onde a mãe de e a olhava com um sorriso no rosto, e se encontrava tão vermelho quanto ela.
— Também acho. — a mãe respondeu com um sorriso no rosto.
— Omma! — ralhou, ficando ainda mais vermelho e gargalhou.
— Viu? Todo mundo acha, só vocês que são bobos e não entendem as coisas. — rolou os olhos, fazendo uma pose metida.
— Tá vendo, ? Todo mundo sabe da nossa vida melhor que nós mesmos. — sorriu em resposta, sem que soubessem que, no final, todos estavam certos.

As gotas do seu cabelo molhado pingavam no chão, mas mesmo assim não conseguia parar de encarar a mensagem que havia lhe enviado: “Me desculpa, ele me ouviu falando com mamãe que você tinha voltado e está indo aí”. Não estava pronta para encarar , não estava pronta para encarar o passado de forma tão brusca, logo de cara.
Mas estava menos pronta ainda para o que aconteceu.
Estava sentada no chão da sala, as pernas cruzadas balançavam ansiosamente, aguardando o interfone tocar para que ele pudesse subir, porém o que a assustou foi a batida na porta. A senha da portaria não tinha mudado, claro, ele poderia subir direto se quisesse. Levantou-se, quase tropeçando para chegar na porta, respirou fundo e a abriu.
Seu coração partiu em tantos pedaços que ela sentiu a dor como se fosse física. Não estava preparada para ver . Mas não era ele que estava parado em sua frente, com tanta dor nos olhos quanto ela aparentava estar sentindo. Também não estava preparada para ver .
— Você voltou. — Falou simplesmente e ela assentiu, sem encontrar a própria voz para falar o que fosse, deu um passo para o lado, dando espaço para que ele pudesse entrar. tirou seus sapatos na porta, e sentou-se no tapete da sala, local onde costumavam conversar sempre. Se não estivesse tão nervosa com o fato de estar vendo seu melhor amigo depois de tanto tempo, teria achado engraçado que ele parecia mais à vontade naquela casa do que ela.
— Vou fazer um chá. — Falou e entrou na cozinha, enquanto a água estava no fogo, podia ver o amigo sentado, preparando-se psicologicamente para a conversa que viria.
E mais uma vez estava enganada, quando o chá ficou pronto e ela voltou para sala com uma xícara de chá para cada, sentou-se na frente dele e ele não disse nada.
O silêncio tomou conta do apartamento, e fora a respiração de ambos, nada mais era dito em voz alta.
sabia que ela sentira sua falta, que ela também sofrera com tudo que se passou e que sabia que ele sentira saudades da sua amizade por cada minuto desde que ela se foi, ela nunca entendera por que ele chorou no aeroporto quando ela se foi, nem ele entendeu, já que nunca chorava. Mas ele sabia que seria difícil demais viver sem sua pessoa favorita no mundo. E doeu.
sabia que apesar de sentir falta dela, ele também a culpava por ter se afastado, que estava bravo por ela não ter tido, ao menos, a cara de pau de avisar que voltou e por afastá-lo dela.
queria de volta em sua vida, queria seu melhor amigo de volta ao seu lado, a fazendo rir e a apoiando sempre, mas não sabia como se reconectar a ele. Ele não era exatamente seu melhor amigo, não fora aquela que ele conheceu e apoiou por cada minuto, ela não tinha mais qualquer conexão com a garota que costumava ser. E se ela não era mais a mesma pessoa… ainda tinha o direito de chamar de melhor amigo?
Ela nunca mais seria a mesma pessoa que um dia fora, ele aceitaria a pessoa que ela tinha se tornado?
Como se lesse seus pensamentos, levantou-se de seu lugar, colocando sua xícara na mesa ao lado do sofá, sentou-se ao lado de e a abraçou.
A vontade de chorar a atingiu em cheio, o coração explodindo de uma mistura de sentimentos tão intensa que mal pôde se controlar, encaixou seus braços ao redor de e seu nariz na curva de seu pescoço e deixou-me respirar, como costumava fazer antigamente.
— Eu senti sua falta, pirralha. — encaixou sua mão nos cabelos dela e fez um carinho leve.
Era uma mensagem clara de que ele sempre a aceitaria de volta, como no conto do filho pródigo, ele a perdoava pelo que fizera e a recebia de braços abertos. sorriu com aquela certeza, aquele era , mostrando que a amava. Seu melhor amigo, seu irmão. Seu lar.

O relógio marcava as duas da manhã em Paris, naquele momento seu melhor amigo devia estar acordando no dia do seu aniversário. sabia que uma pessoa normal só desejaria os parabéns, mas por que ela não conseguia pegar o telefone e ligar para ele?
O que falaria? Só conseguia lembrar dos momentos em que passou ao lado dele e em como sentia falta de cada um deles.
Logo, veio em sua cabeça o dia em que ele se tornara seu melhor amigo de verdade, era uma das primeiras brigas que tivera em seu relacionamento com , todos estavam dentro do apartamento dela, comemorando o Debut incrível que tiveram e ela estava ali, na varanda, com lágrimas nos olhos, magoada com algo que o namorado dissera. tinha bebido demais e fizera alguma piada com o fato dela estar triste e depois se desculpou como se sua vida fosse ser salva com o perdão que receberia, quando finalmente foi desculpado ele lhe disse que ela era diferente, então deitou em seu colo e sorriu como se o mundo dependesse apenas da amizade que vinham cultivando desde que se conheceram enquanto ele era um trainee, mesmo ainda sendo pouca. E ela, mesmo sabendo que ele era tão idiota quanto todos os outros caras do universo, sorriu.
Era um sábado à noite, especial para todos presentes naquele apartamento, e mesmo que pudessem estar em qualquer lugar do mundo, com qualquer outra pessoa no mundo, estavam um ao lado do outro, e isso era importante. Por mais que tivesse deixado a paixonite inicial que tivera quando o conhecera de lado, ele nunca deixou de ser dela. E eram assim.
podia negar isso o ano inteiro, menos naquele dia, ela sentia falta de mais do que poderia ser calculada, era naquele dia que deixava baixar a guarda e admitir que - por mais que lhe dissesse o contrário, apenas por implicância - não odiava nadinha nele, mesmo que fosse capaz de listar toda a imensa lista com cada um dos seus defeitos.
Mas aquele era um segredo que não podia guardar para si.
A médica abriu o aplicativo de mensagens no celular, jamais seria capaz de dizer aquelas coisas em voz alta, e digitou: “Preciso te contar um segredo hoje, você sabe que eu gosto de segredos e te contarei um no seu aniversário: sinto sua falta o tempo todo. Escondo bem, porque sou muito boa nisso, mas sinto. Então hoje espero que você sorria do jeito que a gente treinou quando eu disse que achava seu sorriso esquisito, e que você não abrace ninguém como eu te ensinei, porque é meu abraço e isso eu não divido. , espero que todos seus desejos se realizem, e que você seja sempre que nem aquela minha blusa preferida: sem graça, fora de moda, cheio de defeitos. E sempre meu favorito.
Eu te amo, tenha um feliz aniversário e um ótimo dia.”
Sorriu relendo a mensagem e apertando a tecla de envio, era uma das poucas certezas que tinha na vida, e apesar de não manter o contato constante ou a amizade que sempre tiveram, uma coisa era clara: seriam sempre os melhores amigos um do outro. seria sempre dela.

e haviam criado uma rotina desde que se reencontraram. Com os turnos matutinos do hospital, assim que saía do plantão, a médica ia para a casa dos pais, passava um tempo com eles e logo encontrava com em seu apartamento. O cantor, disposto a recuperar o máximo do tempo perdido com a melhor amiga, corria para a casa dela ao final de cada dia de ensaio e compromissos com o grupo e eles se divertiam, conversavam sobre os anos que se passaram, saiam para comer e se distrair e riam muito juntos.
Naquele dia quando entrou, sequer ouviu o som da fechadura eletrônica, logo o rapaz entrou confuso no quarto, encarando a bagunça em que a casa se encontrava, a sala estava repleta de roupas e móveis espalhados, além de itens de decoração, latas de tinta e caixas, os papéis de parede tinham sido arrancados e se espalhavam pelo chão.
? — Chamou receoso — Uma bomba estourou por aqui? — perguntou entrando no quarto e encontrando a garota sentada no chão, encarando o quarto, agora vazio e branco, sem os papéis de parede ou decorações que existiam ali antes.
estava afundada numa profunda reflexão, olhando para seu quarto vazio, percebendo que ele era um reflexo de como se encontrava por dentro: vazia.
— Eu tô vazia, . — Suspirou e o amigo a olhou, confuso, sentou-se de frente para ela e aguardou que ela continuasse, como sabia que ela iria. — Eu estou me sentindo vazia, sem nada por dentro, eu não quero me sentir assim. Mas não sei como voltar a ser o que eu era antes, como faço para que aquela garota volte? — a olhou, docemente, e tirou uma mecha de cabelo de seu rosto.
— Você nunca vai voltar a ser quem você era antes, . — Ela o encarou, sem entender se ele estava tentando consolá-la ou não — Sua vida mudou demais, você passou por muita coisa, muitas experiências e aprendeu muito para voltar a ser aquela menininha que saiu com uma mala e um sonho pra França, deixando tudo pra trás. — sorriu para ela quando completou — Mas eu posso te ajudar a descobrir quem você se tornou, quem você é agora e como vamos te preencher de novo. Topa? — sorriu, sabendo que não podia ter escolhido um amigo melhor que aquele e assentiu, preparando-se para se redescobrir.
Passaram o resto do dia tirando decorações da casa, encaixotando roupas e móveis para doação, decidiram não redecorar naquele momento, a médica precisava de um tempo para se redescobrir e reconectar com o local antes de fazer aquilo.
Mais tarde, quando terminaram de carregar o carro de com as caixas, que ele levaria para que sua mãe levasse até uma instituição, encarou as paredes brancas do seu apartamento. Entrou em seu quarto e sentou-se na cama, sentindo as lágrimas escorrerem de seus olhos.
Quando o quarto estava cheio, sentia-se vazia, foi quando decidira esvaziá-lo para ver se aquilo a preenchia ao menos um pouco. Mas não funcionou, pelo contrário, somente evidenciou e deixou mais claramente assustador o tamanho do vazio dentro de si. As paredes sem cor a fizeram perceber que não havia nada além dela naquele lugar, nem sentimentos, nem dor, nem esperanças, nada… Apenas seu corpo, as lágrimas frias que escorriam por seus olhos e um imenso vazio.

Cada dia em que passava na França se tornava mais difícil, sua rotina dupla entre o Hospital e o voluntariado no MSF consumira sua vida e tornara seu contato difícil até com seus pais. Não era exagero dizer que pensou em desistir por diversas vezes, sentia saudades de casa, estava cansada e não conseguia pensar em mais nada além de trabalho.
Um certo dia, após uma cirurgia bem sucedida, uma senhora insistiu em lhe agradecer por cuidar de sua filha, aceitou a caixa de biscoitos caseiros, lembrando-se da própria mãe e sorrindo para a senhora com todo carinho que conseguia transmitir. Quando chegou em casa naquele dia, percebeu que aqueles biscoitos era tudo que tinha para comer naquela noite, pois mais uma vez, não tivera tempo - nem disposição - o suficiente para ir ao mercado.
precisava dormir. E mais do que uma afirmação cansada ou desculpa para o que vinha acontecendo, aquilo era um fato. Sentia uma necessidade imensa de deitar-se em uma cama nova e quentinha, com uma coberta fofa que não tivesse o cheiro dele, coisa que provavelmente era fruto da sua imaginação, mas não saíra de lá desde que ele partira. Queria um quarto novo, redecorado, um travesseiro que não tivesse aquela foto que ele deixara dentro da fronha. Ela precisava descansar, apenas deitar, fechar os olhos e acordar no dia seguinte, sem todo aquele ritual que chegar em casa se tornara: deitar, sentir o cheiro dele, sentir o aperto no peito, se mexer até o sono sumir, sentar-se, pegar a foto da fronha com uma escrita torta e desengonçada de uma curta declaração de amor. Ler, reler, e ler mais uma vez, chorar, lavar o rosto, tomar um medicamento qualquer para insônia e desmaiar. Acordar mais cedo que o pretendido, preparar uma xícara de café amargo e sem açúcar, sentar-se na beirada da janela e deixar as horas passarem.
queria poder apagar aquela ideia que os músicos e poetas plantavam de que nunca se esquece o primeiro amor, queria apagar aquilo, passar por cima de tudo e deixar bem claro que iria sim esquecer. Poderia demorar, mas haveria um dia em que conseguiria deitar e dormir sem dificuldades, que aquela foto se estragaria e o cheiro de perfume dele saísse do seu quarto e de sua mente. E ela descansaria, conseguiria pela primeira vez em tempos dormir.

— Dra. , o que você acha de ir com a gente? — ouviu a voz do Dr. Louis e piscou, sabendo que estava totalmente alheia a conversa que ele estava tendo com um grupo de médicos do hospital. Ela o encarou, até que ele entendesse que não tinha escutado a conversa — Ao bar do outro lado da rua. — Explicou — Vamos, vai ser legal. — apenas assentiu, concordando, sabia que precisava de um pouco de interação humana.
O que não sabia, mais uma vez, era que não conseguia mais se envolver com as pessoas, quando menos esperava estava alheia às conversas que rodavam na mesa, ria quando seus colegas riam, para que eles não percebessem o quão aérea estava e bebia qualquer coisa que lhe serviam mesmo se o gosto fosse ruim.
Perguntou a si mesma quando deixou de ser dona de suas próprias ações e tornara-se vítima de um piloto automático do próprio corpo. Quando tornara-se aquela oca vazia, sem nada por dentro?

A médica não sabia dizer a quanto tempo não se divertia tanto, ter de volta a sua vida, estava fazendo com que soubesse voltar a sorrir e ser ela mesma, se conhecer e descobrir. Quando seus meninos subiram no palco e a Arena inteira pareceu balançar, os fãs ao seu redor gritavam e choravam e o peito de encheu-se de orgulho, lhe dera um ingresso da área vip, onde a quantidade de pessoas era bem menor que a de outros setores do local, mas quando olhou ela mesma pro palco, sua vontade foi de fazer o mesmo que todos que estavam ali.
Sentia-se alguns anos mais nova, a sensação de vê-los no palco era a mesma que sentira quando os vira pela primeira vez. Encarou cada um dos meninos, observando o quanto haviam mudado e amadurecido, como suas vozes haviam desenvolvido e suas coreografias aprimorado, sentia-se uma mãe orgulhosa pelos feitos dos filhos. Encarou , se demorando nele, deixando o coração se preencher com a presença do melhor amigo que havia se tornado parte essencial de seus dias.
Pela primeira vez em tempos, seus dias passaram a dar certo. O lámen tinha novamente gosto de comida, o chocolate quente de abraço no inverno e os filmes que ela amava, voltaram a ser os preferidos em dias chuvosos. Aquele dia, especialmente, vinha sendo um bom dia.
Pôde sentir que sua vida não era a colcha de retalhos que vinha parecendo, que ela não era o quarto vazio que estava em seu apartamento e pôde sentir que o chão estava ali, pronto para que ela caísse - pois, como dizia o ditado: “do chão não passa”, ela jamais iria mais fundo do que já fora, e o mesmo chão em que poderia cair era o que a mantinha de pé.
Pôde sentir que não havia mais medo, remorso ou sentimentos que a fizessem perder a fé, não fazia sentido se afastar de todos os sentimentos porque se machucara e machucara aqueles que amava. Após as longas noites de chuva que vinha vivendo, o sol aparecera, secando tudo aquilo que antes estava molhado demais. Sentia-se melhor. Sentia-se viva.
Depois de longos anos, estava viva. Pronta para o que estava por vir, e não havia nada que a fizesse parar, a derrubasse ou estragasse sua vontade de viver novamente. Desistira de si mesma inúmeras vezes, perdera-se no caminho, mas agora que havia se reencontrado, aquilo não iria mais acontecer.
Respirou fundo, confiante consigo mesma, com a mulher que havia se reconhecido e o encarou. Fazia tanto tempo que não pensava nele de coração aberto, que não o olhava, que mal sabia como se sentir, mas sentiu saudades.
Ver dançar, sorrir e brincar com o público e os outros membros a fez sentir saudade, saudades do velho urso de pelúcia que ganhara dele na adolescência e que se mantinha até hoje na casa dos seus pais, de pensar em seu sorriso, no seu cheiro e daquele cabelo macio, agora preto, que fazia sua pele parecer ainda mais branca do que já era. Deu saudades de quanto num jogo da verdade, ele admitira que gostava dela, e do dia que foram assistir filmes de madrugada e ele a abraçou porque estava frio, deu saudades do seu abraço. Como sentia falta do seu abraço, abraço que lhe acalmava, lhe tirava o chão, fazia todos os dias terem gosto de fim de semana e a deixava segura.
sentiu saudades de amá-lo, de pensar nele e de planejar a vida ao seu lado, o coração ficou pequeno em meio à tantos sentimentos. Não era esse o carma do primeiro amor? Maior do que tudo aquilo que poderia aguentar, mais forte que todas suas forças e o passado que pareceria sempre recente?
Riu de si mesma quando em meio a platéia podia jurar ter sentido seu perfume, mais forte do que quando ele passava o dia grudado nela, ou quando a abraçava por um longo tempo e depois lhe dava uma mordida, só para que ela o xingasse e risse em seguida.
Riu da tentativa injusta do universo de tentar ridicularizar suas tentativas de superar. E mal viu o tempo passar em meio a tantos sentimentos.

Vem aqui no camarim” — Encarou a mensagem de brilhar em sua tela, e respondeu que deixaria pra uma próxima vez. Nenhum dos meninos sabia que ela estava lá, exceto , não queria encarar mais sentimentos do que já encarara naquela noite, e decidiu que precisava de um tempo para si mesma no que restava da sua folga.
Dedicou o resto da sua noite a se conhecer de novo, frequentou locais que costumava gostar antes de se mudar, comeu seus aperitivos preferidos de barracas de rua do centro e sorriu para as crianças na rua.
Sentiu-se livre, mas não porque não estava presa a mais nada, sentiu-se livre simplesmente porque não queria mais se prender. Ficara tanto tempo concentrada em não amar e não se deixar amar, sem entender o porquê, sem entender o pra que, que agora queria só deixar-se livre para sentir o que fosse.
sabia que apesar de toda a experiência e sonho realizado, perdera muito quando viajou para Paris, mas a maior das perdas foi perder a si mesma. Naquele dia, depois de longos anos, quase inacabáveis, estava bem. De tanto esconder seus sentimentos do mundo, eles sumiram, e ela ficara vazia, e naquele dia, quase que como um milagre divino, ela se reencheu. E não precisava de mais nada.
E a melhor parte de se libertar de sentimentos que pesavam, que prendiam, era que não precisava de mais nada, pois naquela hora, olhou para dentro de si e viu tudo que precisava. Conseguia respirar sem querer chorar, conseguia dormir como a muito não dormia, conseguia dizer que havia se reencontrado e não se arrependia das decisões que tinha tomado, pois amava quem era muito mais do que amava quem fora um dia, era seu momento de olhar para o presente e para o futuro, parar de remoer lembranças e deixar o passado pra trás.

“Algumas coisas voltam, outras não. E, a única lição que eu tiro disso é que tudo teve seu motivo pra ter sido dessa maneira.”*



— Você sabe colocar papel de parede? — perguntou a olhando e ela gargalhou, segurando o pedaço de papel nas mãos.
— Não faço ideia. — Ambos gargalharam, sentindo-se feliz por ter sua melhor amiga ao seu lado, era uma nova mulher, mas ainda era sua .
— Isso vai ficar um desastre. — Murmurou, começando a procurar na internet algum tutorial que os ajudasse — Você devia saber, é a mais inteligente nessa casa.
— Eu fiz medicina, colocar um papel de parede não é nem de perto tão fácil quanto fazer uma sutura. — A médica cerrou os olhos, ainda olhando pro papel, como se ele fosse criar vida e colar-se sozinho na parede.
Após muitos vídeos e dicas da internet, perderam algumas horas colando papel de parede e pintando o restante do quarto, ao final, mesmo cheio dos defeitos da pintura e bolhas na parede, aquele era o ambiente mais bonito e acolhedor que pisara nos últimos tempos.
— Estou muito orgulhoso de você. — sorriu, bagunçando seus cabelos e a fazendo rir. Tinha sentido falta dos sorrisos sinceros e estava orgulhoso consigo mesmo por estar ao lado dela, conhecendo novamente, enquanto ela conhecia a si mesma.


* *Appa: pai em coreano.
*Jagyia: expressão utilizada entre casais, significa “querida”.
*Yeobo: como as mulheres se referem aos maridos.
*Omma: mãe em coreano.
*Unnie: forma como uma garota chama outra garota mais velha que ela.
*Frase de autoria de Kimberlly Cavalcante


Capítulo 3

A médica estava desacostumada com plantões noturnos, a muito tempo não era escalada para aquele período, mas acabou trocando de horário com uma colega naquele dia. O Hospital Central de Seoul estava estranhamente tranquilo naquela noite, sem emergências graves ou cirurgias.
Estava sossegado o suficiente para trocar mensagens com , que estava cada dia mais apegada com ela, sempre aparecendo em seu apartamento e a chamando para sair, gostava da ex-cunhada, e também se apegara a ela de forma enorme desde que havia retornado. O grupo do amigo estava fazendo um show naquela noite, e não falava com desde cedo. Seus pais estavam felizes com sua mudança, a filha estava muito mais feliz e animada, além da presença constante de e .
Estava tão distraída nos próprios pensamentos que quase não viu a ambulância chegar, levantou-se, pegando seu estetoscópio, conferindo se tinha tudo que precisava nos bolsos do jaleco e andou até a porta da ambulância que se abria.
— Qual o quadro? — Perguntou ao socorrista que travava a porta para que ela não se fechasse.
— Alerta amarelo, o paciente sente dores fortes, mas está fora de risco, provável entorse de tornozelo, mas o paciente também sente dores na perna. — A médica assentiu, virando-se para falar com o paciente e franziu o cenho ao ver um rosto conhecido no banco do acompanhante lhe encarar com uma expressão aturdida. Encarou com o mesmo nível de espanto e voltou-se para a maca, paralisando de vez ao ver o rosto de encará-la com uma expressão assustada e dolorida, os cabelos tinham voltado ao tom de castanho claro que ela adorava. Sentiu o coração parar e esqueceu-se de tudo ao redor e do que devia estar fazendo ali. — Doutora? — A voz do paramédico a despertou e respirou fundo antes de seguir com seu trabalho, evitando ao máximo olhar para a dupla dentro da ambulância.
— Levem o paciente para meu consultório. — Instruiu, olhando para como se ele fosse apenas mais um acompanhante qualquer — Vou solicitar alguns exames de imagem para ver a profundidade da lesão, preciso que o Senhor faça a ficha do paciente na recepção para que possamos encaminhá-lo para a sala de exames. — Observou os paramédicos levarem a maca para seu consultório, os seguindo enquanto ouviu reclamar que não havia a mínima necessidade de uma ambulância ou maca.
Tentou abstrair de si mesma a presença do homem e lembrou que ele era apenas mais um paciente que necessitava de seus cuidados. Entrou no consultório logo após os socorristas que ajudaram a trocar de maca e saíram em seguida, deixou a porta aberta para que entrasse assim que finalizasse a ficha e começou a avaliar seu paciente.
— Como ocorreu a fratura? — Perguntou, tentando não olhá-lo, aproximando-se da maca e analisando a perna do paciente, que se encontrava descoberta, com a calça que havia sido cortada na ambulância, podia apostar que o cantor estava mais irritado com aquilo do que com a lesão em si.
— Quando você voltou? — A médica foi surpreendida com a pergunta e levantou o rosto, o encarando e encontrando seus olhos em cima de si.
— Tem algum tempo — Respondeu curtamente, evitando pensar no efeito que sua voz fizera sobre ela, não pensaria naquilo agora. — Como você se lesionou? — Perguntou novamente e bufou, antes de finalmente se render e detalhar o modo como acabou pisando em falso durante a coreografia no show, enquanto a médica pressionava alguns pontos específicos de sua perna, fazendo-o perder o ar ocasionalmente. Logo entrou no consultório entregando para a ficha com detalhes de , a doutora anotou os procedimentos a serem seguidos e chamou uma enfermeira para que levasse o paciente, em uma cadeira de rodas, para a sala de exames de imagem, junto com uma solicitação de placas de raio-x.
Quando a enfermeira o levou, o melhor amigo dele a olhou, friamente como se ela fosse uma desconhecida e o olhar a fez encolher, levemente, logo foi substituído por preocupação.
— É grave? — Perguntou simplesmente e a médica sentou-se em sua cadeira, de frente para ele.
— Não posso confirmar nada até ver os exames, não me parece uma torção de terceiro grau, mas caso seja, vai ser necessário muita fisioterapia antes que ele possa voltar a rotina normal. — assentiu e antes que pudesse falar mais qualquer coisa a porta de seu consultório se abriu, dando espaço para o manager do grupo que entrou no escritório, questionando o idol sobre quem deu autoridade para que ele fosse acompanhante de e lhe dando uma lição de moral sobre como aquilo era irresponsável e poderia causar tumulto no hospital. — Senhor. — A médica interrompeu, olhando-o com sobrancelha arqueada, não conhecia aquele manager, provavelmente era alguém que fora contratado recentemente. — O paciente já está sendo cuidado, devo pedir que aguardem na sala de espera até que ele volte, por favor. — O homem a olhou, abriu a boca como se fosse respondê-la, e adquiriu a postura superior que mantinha sempre que lidava com pessoas arrogantes, o manager mexeu nos cabelos, irritado e saiu da sala, sendo seguido por .
fechou a porta atrás dos acompanhantes de e pôde se deixar sentar na cadeira e lidar com os próprios pensamentos antes que ele voltasse.
Dois anos depois e nada havia mudado, nem sua voz e nem o modo como seu corpo reagia a ela, era tão estranho voltar a sentir aquela dorzinha incômoda que começava na planta dos pés e subia até o fundo de sua alma. Diziam que era coisa do primeiro amor e logo passava, e realmente passou, mas muitas dores passavam e quando se lembrava doía de novo, fora assim que ficara quando viu seu sorriso de canto no palco, ou naquela noite quando ouviu sua voz cansada, sentiu seu cheiro a abraçar mesmo que ele não tivesse encostado nela. E odiava admitir que sentia falta dele.

A médica analisou os exames em suas mãos e anunciou o diagnóstico para os três homens que lhe encaravam profundamente.
— Se trata de uma entorse de segundo grau, não é tão grave, mas existe uma lesão parcial do ligamento, vai ser necessário muito repouso e nada de ensaios pesados. — Alertou, encarando e sabendo o quanto ele se dedicava a dança — Demora em média 15 dias para a recuperação, desde que não force o ligamento, vai se curar rápido, vou fazer também um encaminhamento para fisioterapia, que vai ser muito indicada devido a natureza da sua profissão. — Falou diretamente para ele, que apenas assentiu.
Enquanto explicava que ele poderia sentir dores para andar, pôde sentir seu olhar pesar sobre ela, acompanhando cada um de seus movimentos, ele estava colocando seus próprios pensamentos em ordem, tentando entender ele mesmo de onde vinha aquele sentimento que havia enterrado o mais profundamente dentro de si e agora despertava.
Após todas as recomendações da médica, se despediram com um sorriso tímido e cheios de incertezas.

Eram 4:10 da manhã e ela ainda não tinha conseguido dormir, ficou pensando nele e fazia tempo que suas noites não eram tomadas assim. Sentia-se confusa quanto a ele, sobre o que havia acabado e o que ainda insistia em existir dentro dela. Já fazia tanto tempo que o certo seria ela sequer se lembrar daqueles detalhes, mas sua cabeça logo voltava a um tempo onde o abraço de era seu porto seguro.
Algumas vezes ainda se perguntava como tinha conseguido se perder, e o perder. E doía por saber exatamente onde tinha sido, e por saber que não existia concerto, doía por saber que já tinha superado o que passara, mas que isso não queria dizer que não iria mais sentir falta dele.
Por mais completa que se sentisse, ainda tinha um pedaço vazio dentro de si. Esse vazio tinha nome e solução, mas não sabia se tinha solução e se queria correr o risco.
Parou de evitar e deixou-se então pensar, como não fazia a muito tempo. Não queria ter que esquecer, deixar para lá, como se ele fosse só mais uma coisa que a vida tumultuada dela afastou. Ainda lembrava da primeira vez o que viu, a risada, os cabelos bagunçados e sotaque, lembrava-se dos moletons que ele usava, das músicas que cantava pra ela, dos planos que faziam e do seu péssimo senso de moda. E era fácil lembrar das coisas que revivera naquela noite: do olhar que a despedaçava, do sorriso que desequilibrava suas pernas e sua mente e o cheiro dele que tonteava seus pensamentos.
Não queria mais ver as coisas como lembranças distantes, era fácil manter a mente longe dele quando conseguia ocupar seus dias com coisas suficientes até para esquecer a si mesma, se cansar, não pensar. Mas ela estava de volta, com o coração apertado cheio de saudades.
Ele lhe devia um abraço de despedida que não fora correspondido e tudo que ela mais queria era cobrar aquela dívida. Talvez ele não se lembrasse, mas ele também lhe devia 843 beijos de boa noite, 137 corridas no parque de domingo de manhã, tardes de cinema e noite comendo algo que ele fizera ou pedira no restaurante preferido dela. Ele lhe devia tanta coisa, mas o que mais queria era que ele estivesse ali para que ela pudesse cobrar.
Sentia falta de como ele cantava para ela dormir, de como se referia a ela, e de como o silêncio fazia todo sentido quando ela não tinha nada a dizer e ele não queria a ouvir. Ela não podia esquecer. Estava cansada de lembranças vagas, de mal ouvir sua voz, e não saber mais qual era sua comida preferida, sua cor favorita e se a música que ele mais gostava ainda era a mesma.
Queria de volta porque, mesmo evitando pensar nisso, ficar sem ele ainda doía.

O cheiro de tinta estava espalhado pela casa, mas nem isso a incomodava, passara a tarde pintando o que havia faltado e terminando de decorar seu apartamento, sentia-se em casa e ele finalmente parecia um lar. Mas faltava algo, algo que talvez jamais voltasse.
Pegou seu celular, disposta a somente fazer um desabafo, abriu o número antigo dele e observou as diversas mensagens nunca entregues e começou a digitar uma nova, apagou por diversas vezes, quando por fim conseguiu por todos os pensamentos em palavras.
Apertou a tecla enviar e suspirou, finalmente admitindo as palavras para si mesma, seria para sempre dele. Mesmo que ele não fosse dela.
Mal percebeu quando sentou ao seu lado, quando sentiu sua presença, entregou o celular para ele, para que ele pudesse entender o que havia acabado de descobrir sem que ela precisasse dizer, deitou sua cabeça em seu ombro e aguardou.
— Você mandou pra ele? — Perguntou, a olhando e apertando sua mão com carinho.
— É um número antigo, ele não usa mais. — Explicou dando de ombros — Só queria tirar do meu peito. — assentiu, sentindo o coração ainda apertado com as dores da amiga. — — Ela chamou e ele a olhou.
— Oi.
— Como ele tá? — a olhou, confirmando que ela queria ouviu e suspirou antes de contar.
O tempo passou sem que qualquer um deles percebesse, enquanto lhe contava como seu ex-namorado tinha se tornado uma pessoa exigente e rigorosa consigo mesmo, sempre calado e quieto, observando o mundo ao seu redor, ao mesmo tempo em que era despreocupado e descontraído. E sorria, sentindo a saudade sendo cultivada no peito e aquela dorzinha conhecida despertar.

— Isso é pessoal, vou te deixar sozinho agora, mas pensa direito antes de fazer qualquer coisa ou de não fazer nada — falou como um alerta, olhando para que encarava o aparelho de celular antigo que acabara de receber diversas mensagens de um número que um dia lhe fora muito conhecido.
— Por que está fazendo isso? — Perguntou para , o rapaz entrara minutos antes no seu quarto no apartamento que ele dividia com , os rapazes sempre se reuniam lá, mas o amigo pedira pra falar com ele sozinho e o fez encontrar e ligar seu celular antigo.
— Ela é minha melhor amiga. — Deu de ombros, como se isso respondesse a pergunta que fizera e saiu do quarto, se juntando com os outros.
respirou fundo e se preparou para ver as mensagens que recebera algum tempo antes.

— … Mas a gente não tem mais jeito, tem? Essa é a última mensagem que vai receber. Eu amo você, . — O rapaz encarava o telefone, sem ação, o coração disparado como a muito não ficava, as mensagens recebidas, lhe dando uma visão que até então não estava ao seu alcance na época.
Por tanto tempo quis que ela precisasse dele, quis que ela o abraçasse e que estivesse ao seu lado mesmo que não fisicamente. Quis que o envolvesse com carinho, mostrasse seu amor e dissesse que estava ali para ele. E ela estava.
Sentia falta dela sempre, era impossível negar algo que já fazia parte de si. Nunca foi facil admitir que não a tinha mais, e que não voltaria a tê-la, doia saber que ela estava em algum lugar do mundo se ele. Sempre doeria, a sua ausência tendia a incomodar, incontáveis vezes tinha imaginado se voltaria a vê-la e como seria, criou roteiros, repletos de palavras aconchegantes que a fizessem voltar, mas ela estava certa… Eles não tinham mais jeito, tinham?
Não estava sendo fácil para ele ler aquelas mensagens e ouvir sua voz falando aquelas coisas, era bom em se fazer de inabalável, indestrutível e indiferente, mas só era bom em fingir. Desde que a vira novamente, não a conseguia tirar da cabeça, lhe dando ordens, cuidando da sua fratura e fazendo recomendações, que mesmo tentando disfarçar com uma postura profissional, bancando a médica incrível que ele sabia que era, a preocupação em seus olhos estava presente.
Seu peito estava cheio de uma saudade reprimida, escondida e camuflada. Guardar aquele celular antigo e trocar de número fora a forma que encontrou de deixá-lo longe das suas mãos, manter distância dela e ligar em desespero pedindo desculpas por ter ido embora.
Ali, vendo o que um dia ela sentiu, sentiu a necessidade de confessar a si mesmo que não tinha superado, que o lugar dela ainda estava ali, intacto, que necessitava da sua voz para se acalmar e dos seus braços ao seu redor.
Naquele instante, por mais injusto que fosse, voltou a sentir falta dela, somente quando descobriu que a tivera e a perdera de vez. E mais do que um lamento, a saudade o fez sentir tudo o que ele havia evitado encarar nos 844 dias que tinham se passado desde que a deixou.
Observou então a última mensagem que chegara daquele número e ofegou ao perceber que era uma mensagem do dia anterior, depois de todo aquele tempo?
Respirou fundo antes de ler o que recebeu:
“Dois anos atrás eu disse que era a última mensagem que eu te mandava, e realmente foi, eu precisei amadurecer muito, crescer muito e me reencontrar antes de perceber que eu ainda não consegui superar você. Eu sinto sua falta, como eu não sentiria se isso ainda dói? Ontem eu vi diante dos meus olhos todos os anos que te conheci, me lembrei de por que eu te amei, do seu sorriso, que com certeza foi o culpado de tudo. Me lembrei de por que eu adorava passar as tardes na sua casa, por que seu abraço era o melhor do mundo e por que o seu cheiro mexia tanto comigo, eu me esforçava tanto para ser suficiente, me lembrei do quanto te queria e percebi que te amava. O mais bonito de todos os amores. Percebi que era amor, é amor e vai ser amor. Meu primeiro amor, meu único amor e meu maior amor.”
A confusão de sentimentos dentro de si era grande, ela ainda o amava, ele ainda a amava, como o destino podia ser tão filho da puta para duas pessoas? Sofreram por tanto tempo e ficaram separados pelo mesmo tempo, como podiam ainda se amar?
Seus pensamentos foram interrompidos por um novo bip no celular, uma nova mensagem tinha chegado e seu coração disparou. Ela estava lhe mandando mensagens naquele momento.
Agora que não vivemos mais aqueles momentos e tudo que temos são as lembranças, eu me lembro de tudo com muita clareza, era bom te flagrar me olhando de canto enquanto eu falava e falava sem parar.” — sorriu, lembrando-se dos momentos conforme lia, lembrava-se de prestar mais atenção aos detalhes, aos lábios dela se movendo enquanto ela falava — “Me lembro também que seu sorriso, e melhor que isso, ser o motivo do seu sorriso, me tirava o fôlego todos os dias. Tenho muito tempo ainda para decifrar o resto da minha vida e para conhecer profundamente a pessoa que me tornei, mas hoje percebi que gostaria de fazer isso ao seu lado. Ainda te imagino em cada momento da minha vida e dói saber que você não está no meu futuro, do jeitinho que te imagino. Quero voltar a rir sem graça quando sou flagrada admirando sua mania de revirar os olhos, lembrar desses momentos me leva longe e me faz sentir bem.” — sorriu, sentindo a saudade lhe atingir e deixou uma lágrima escapar com as próximas frases. — “Talvez eu precisasse engolir o meu orgulho e falar com você de uma vez, admitir pra mim mesma e admitir pra você que nesse momento eu acredito que estar com você é o melhor pra mim. É verdade que eu consigo viver sem você, mas eu quero viver do seu lado.”
Sentiu seu coração querer explodir e sair do peito, levantou-se bruscamente e sentiu a dor do pé enfaixado impactando no chão, pegou a muleta e andou com dificuldades até a sala, encarando que estava sentado no sofá com o controle do videogame nas mãos.
— Decidiu? — O rapaz lhe perguntou simplesmente, e os outros membros os encaravam, sem entender.
— Ainda não, preciso pensar, me leva pra dar uma volta, por favor. — Ele odiava depender dos outros, mas não podia dirigir e andar com aquela muleta o irritava, de todos os membros o único que entenderia que naquele momento ele precisava de silêncio era , que não lhe questionaria sobre o que estava acontecendo.
Dentro do carro, com as janelas abertas deixando o frio entrar e bagunçar seus cabelos, terminou de ler a mensagem mais recente de .
Mas não posso e não vou ser egoísta mais uma vez com você, . Dizem que amar é muito mais do que estar ao lado da pessoa que ama, é querer vê-la feliz e bem. E eu quero isso. Tudo que eu mais desejo é isso.
Desejo que você seja feliz, até que encontre o amor em alguém, mas que antes disso você encontre a si mesmo. Que você saiba quem é, tenha amor próprio e se coloque em primeiro lugar. Toda forma de amor é linda, mas a gente só ama verdadeiramente alguém depois que aprende a se amar.
E posso te dizer por experiência própria que te amar, . É maravilhoso.
Me prometa que vai ter dias de sorrisos largos, mas entenda que também é preciso chorar, não é fraqueza, mas a gente não consegue nada ignorando a dor. Desejo que você sinta-se em paz, ouça menos os outros e mais o seu coração.
Desejo sinceramente que você seja feliz. Eu te amo.” — Ele podia sentir o gosto amargo de outra despedida naquela mensagem, ela o amava, mas desistiria dele, pois já o magoara demais. Mas não estava disposto a fazer mais aquele sacrifício, não ia perder ela de novo.

voltou ao seu consultório e conferiu o celular, leu a mensagem de dizendo que estava esperando por ela do lado de fora do hospital, pegou sua bolsa e estava para sair quando seu celular tocou. Atendeu o número desconhecido, imaginando quem poderia ser.
Alô. — Reconheceu a voz de imediato, a ouvira poucos dias antes.
— Caralho. — o palavrão saiu de sua boca de forma espontânea, logo cobriu a boca com a mão, amaldiçoando a si mesma pela falta de descrição, poderia ter dito “oi”, “alô”, mas não, quem não ama começar a conversa com “caralho”? Ótimo, o cara que amava ligava para ela após não se falarem a muito tempo e a primeira coisa que fazia era xingá-lo. Que ideia genial. Ouviu a risada de do outro lado da linha.
Você estava muito mais poética por mensagens. Achei ofensivo. — Brincou e arfou.
— Que mensagens? — Falou, torcendo para não ser o que estava pensando.
Você não sabe? — Silêncio. Silêncio. Silêncio. nunca tinha escutado algo tão barulhento quanto a falta de resposta dela afirmando que sabia. — Se não foi você e se não era pra mim, parece que alguém viveu algo muito parecido. — Numa fração de segundos um filme passou em sua cabeça e ela ainda não sabia o que dizer. Começou a andar em direção a saída do hospital, queria ao menos o apoio de naquele momento. — Tá ai ainda? — Perguntou após um suspiro, com a voz séria naquele momento.
— Sim. — Respondeu sem fôlego. — Estou cansada — admitiu a moça se dando por vencida, deu um leve aceno para a recepcionista e continuou seu caminho até o estacionamento.
De que?
— De tentar esquecer você. — Tomou a decisão de ser sincera, ele já sabia mesmo. — Cansei de dar um passo, deixando tudo que vivemos e sentimos pra trás, cansei de evitar te encontrar, de despedidas e de dizer pra mim mesma que esqueci você, de fingir que nada aconteceu e que parou de doer. — Levantou os olhos, procurando o carro de e o que encontrou foi algo diferente, paralisou o observando. estava encostado no carro, com a botinha ortopédica no pé, o par de muletas que recomendara e uma sacola em outra.
Quer ajuda? — Ela viu seus lábios se moverem em meio a um sorriso, seus olhos nela e sua voz ainda no telefone. — Para fazer parar de doer? — sentiu o coração parar por um momento e queria que alguém a beliscasse para ter certeza que não era um sonho.
— Quero. — Suspirou, sentindo as lágrimas chegarem aos olhos, com a felicidade que lhe atingia naquele momento.
Então vem aqui, trouxe aquele chocolate que você adora.
Jogo baixo — Brincou, e sem que pudesse dizer mais nada, sem que lhe desse tempo de dizer mais nada, atravessou o caminho que os separava um do outro, correndo o máximo que podia para acabar com sua agonia de vez.
Parou em frente a ele, sem saber o que fazer ou como reagir, tinha tanto a dizer, tanto a se desculpar, a conversar e pôr em pratos limpos, mas ele sorriu e ela sorriu. E ele a beijou, derrubando todas suas barreiras, a fazendo esquecer tudo que estava pensando, pretendendo, planejando, simplesmente esquecera.
Mas tudo que importava estava ali. Ela não precisava de mais nada além, sentia que era real, bastava respirar que o amor que sentiam estava ali. Pequeno, único, intenso e ali.



Fim...



Nota da autora: MEU. DEUS. Eu preciso gritar aqui que essa fic é minha neném e que dar continuação pra esse casal foi muito muito muito dificil? Pra quem não sabe, essa fic é continuação da minha bebê sofrende 09. Flower, que conta tudo que aconteceu >antes< de 08. Miss You. Eu amo esse casal de um jeito que nem sei explicar, todas as dificuldades que passaram para seguirem seus sonhos e a separação mais dolorosa que já escrevi, com certeza. Espero que você tenham gostado! Obrigada você que está lendo essa fic! Deixa seu comentário aqui embaixo para eu saber o que achou, me conta as coisas boas, as ruins, as fofocas, os babados, o que você curtiu na fic, o que acha que dá pra melhorar, tudo! Só pra finalizar essa N/A, queria deixar aqui um recadinho: criei um grupo para todas as minhas fics, com meus leitores e minhas autoras, se você quiser entrar e participar dessa bagunça, clica aqui que você vai ser muito bem recebida!
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