Capítulo Único
Para meus queridos amigos,
Se vocês estão lendo esta carta é porque algo deu errado. Muito errado. Nos últimos dias eu venho me sentindo fora de eixo, como se eu estivesse há tempo demais vivendo na Terra e já estivesse aproximando a minha hora. Já sentiram isso? É enlouquecedor! Acho que perceberam que eu não estava no meu estado normal, né? Também sei que são educados demais para dizer na minha cara que eu mudei. Me desculpem por isso, por favor! Não queria ter me afastado ou mudado tanto com vocês por causa dessa sensação que tomava conta de mim.
É estranho falar de mim no passado, mas eu sinto que eu não estou mais entre os vivos, eu sei disso. Como eu disse, é uma sensação enlouquecedora, de verdade. Eu queria ter aproveitado mais os meus últimos dias ao lado de vocês, as pessoas que eu tanto amo. Infelizmente, agora vocês terão que seguir com o quinteto, sem mim para o sexto membro.
Mais uma vez, me desculpem por isso.
Quero esclarecer que eu não queria morrer, foi algo que tirou a minha vida e não ao contrário, está bem? Não se culpem, não me culpem, não culpem o destino, simplesmente já estava na minha hora de ir.
Fiquem bem, tá? (nem eu estou bem, como posso pedir isso? Sou hipócrita, eu sei.)
[PARTE NÃO REVELADA]
Eu não quero me estender mais. Só quero dizer que eu amo vocês MUITO e que esse sentimento jamais morrerá em mim, mesmo que eu não exista mais.
Vivam para sempre.
É isso.
Com amor além da morte...
Xxxx”
Flashback On – Meses atrás
— Para, null! Que inferno! — berra null, irritado com o irmão.
null é o irmão quatro meses mais novo de null, ambos estão na casa deles, a casa dos null, localizada no fim de uma rua tranquila em um dos bairros de Kyoto, Japão. A briga deles se dá porque o mais velho encontrou uma cartinha de amor escrita pelo irmão para a namorada e agora está correndo pela casa com a carta em mãos caçoando da cara dele.
— Me devolve! — null berra novamente. — Não seja infantil, null! — null ri do irmão.
— Está irritado porque descobri que você é fofo? Awn, null! — zomba null em cima do sofá com o braço içado para o ar, esticando a carta para fora do alcance de null. — Demorou muito para você desenhar tantos corações? — ele zomba mais uma vez e ri, divertido.
— Que inferno, cara! Me devolve! — exige null também subindo no sofá e pulando para cima do irmão. — Eu vou contar para a null!
— Não envolva a null nessa história, meu irmão — diz null ainda rindo. — Ela também tem que saber que o cunhado dela é fofo.
— Eu não sou fofo! — grita ele, ficando emburrado.
null ri novamente.
— Fofo!!!
Antes de null empurrar o irmão para fora do sofá, a campainha da casa distrai a discussão.
— Parem de brigar e atendam a porta, por favor! — grita a mãe deles da área de serviço, onde está estendendo roupas.
null dá de ombros encarando null e ele salta do sofá para atender a porta. Ao abrir, as figuras das irmãs Mori aparecem para ele. Um lindo e genuíno sorriso é visto no rosto de null.
— Amor... — diz ele ao ver null, a moça dá uma pequena corrida e abraça o namorado pelo pescoço, beijando-o com carinho.
— Oi, meu amor — diz ela, carinhosa ao findar o beijo.
— Oi, null-kun — a voz de null é ouvida atrás da irmã mais nova e null estica o pescoço para olhar para ela.
— Oi null-chan — ele diz, sorridente. — null está lá dentro — anuncia ele e a moça sorri de leve, tímida.
— Com licença — pede ela e entra na casa à procura do namorado.
null adentra a casa e vai atrás de null na sala de estar, ao encontrá-lo a jovem lhe dá um beijo apaixonado e tímido.
— Oi, princesa — diz ele, carinhoso ainda abraçado a ela.
— Oi, amor — ela responde, tímida. — O que é isso na sua mão? É para mim? — indaga ela, curiosa.
— Ah, isso? — ele mostra a cartinha de null. — É do null para a null. Sabia que ele é fofo? — diz ele, divertido.
— Não — null dá risada e começa a ler a cartinha. Nesse momento, o outro casal entra na sala.
— null! — null grita ao ver que a cunhada está lendo a carta dele.
— Corre, amor, eu te protejo — avisa ele rindo e null se põe atrás do namorado.
— null, me devolve, por favor — pede null, aproximando-se.
— O que está havendo? — questiona null sem entender nada.
— Seu namorado escreveu uma cartinha de amor para você, null-chan — revela null risonho.
— Foi? Awn, amor — null abraça o pescoço de null e dá um beijinho nele. — Deixa eu ler?
— Eu ia fazer uma surpresa hoje no parque, mas o idiota do null — ele o fuzila com o olhar — estragou tudo.
— Amor! Que maldade — diz null e empurra o braço de null de leve segurando o riso.
— null, dá próxima vez você ficará sem namorado — diz null.
— Vai me matar, null?
— Vou! Seu idiota — ameaça ele, irritado.
— Tá, chega vocês dois... — diz null e puxa null para um canto da sala — Meu guaxinim, depois você me mostra a cartinha, ok? Eu finjo estar surpresa — diz ela, carinhosa. null a encara sorrindo.
— Você é a melhor, te amo — ele a beija profundamente, bem apaixonado.
— Cof cof — pigarreia null interrompendo o beijo.
— Vamos perder o dia no parque, gente, vamos logo — diz null sem graça por interromper o casal.
— Só porque é você quem está pedindo, cunhadinha — null ri com a frase de null.
Os quatro vão até a cozinha e pegam a cesta com as comidas que os irmãos null separaram antes das irmãs Mori chegarem e partem rumo ao parque, lá eles irão encontrar o casal null e null que, a essa hora, já deve esperar por eles no parque.
É um lindo dia de primavera, é a estação favorita das irmãs Mori. A mais velha, a null, é a mais alegre, para cima, gosta de curtir sua juventude sem medo de se arriscar. Ao contrário, tem sua irmã, a null, que é doce, meiga, fofa e muito na dela. null é a dita “furacão” da turma de amigos e é sem alvo de comparação com a irmã, no fundo, null queria ser como ela. null é a amiga delas desde o ensino fundamental e é muito parecida com a null. Já os rapazes temos o null que é bastante sério, estudioso, “certinho”, galã da escola e totalmente apaixonado por sua namorada. O mais novo dos null, null, também é o galã da escola, mas para por aí as semelhanças com o irmão. O jovem é muito marrento, tirado a engraçadinho e tem a personalidade bem parecida com a de sua namorada, por quem é perdidamente apaixonado. Já null é parecido com null, com um toque a mais de fofura e doçura, além da paixão pela null. Todos, com exceção da null que tem 16, têm 17 anos.
— O dia está magnífico! — diz null respirando fundo assim que chegam ao parque que está bastante cheio hoje, parece que todos tiveram a mesma ideia de virem ao parque curtir o dia.
— Vamos ficar mais para lá, aqui está cheio — sugere null que tem certo problema em ficar em locais com muitas pessoas.
— Não se preocupe, irmã, tenho o lugar perfeito — a mais velha pisca para a irmã que se assusta ao sentir o braço do namorado envolver sua cintura.
— Tá tudo bem, amor? — indaga null ao lado da mais nova que apenas acena que sim com a cabeça.
Eles caminham, seguindo null, que se afasta um pouco da multidão que há ali, logo eles acham um lugar bastante bonito, mas afastado da confusão.
— Esse lugar é perfeito, amor! — null dá um beijo nela, abraçando-a pela cintura.
— Eu sei — ela sorri, vitoriosa e estica o pano para poderem se sentar e colocar as cestas com as comidas. null a ajuda.
Após arrumarem tudo, os rapazes resolvem brincar com a bola que levaram para se distrair. As meninas não quiseram ir, então ficaram sentadas conversando enquanto observavam os meninos se exibirem para elas.
— Que bobo! — exclama null, rindo de null que acaba de saltar na grama para fugir do chute dado por null. A essa altura, eles não estão jogando nenhum esporte, apenas chutando a bola uns nos outros.
— null é muito engraçado — diz null também rindo.
— Ele é um idiota bobão — complementa null em tom apaixonado, porém sem transparecer muito.
— Bastante — confirma null.
— Está tudo bem, maninha? — indaga null ao ver a irmã bastante calada.
— Si-Sim…
— Ah, null, vamos lá, eu te conheço. Diz o que houve logo.
— Você já sabe, null — diz ela, tímida.
— Ah, aquilo ainda? — rebate a mais velha de maneira retórica.
— O quê? — diz null, confusa.
— É…
— A null quer transar com o null, mas não sabe como dizer a ele — null diz de maneira direta e null cobre a boca com as mãos.
— null! — grita a mais nova, muito envergonhada e já com o rosto vermelho.
— Ah, null, não é nada demais!
— Você diz como se fosse realmente uma besteira, null — null defende a amiga. — Não me diga que…
— Não sou mais virgem, se quer saber — revela null com o olhar no namorado, que continua fazendo algumas palhaçadas enquanto joga, vez ou outra soltando beijinhos para a namorada.
— Oh, meu Deus! — espanta-se null e null sente-se ainda mais acoada e tímida.
— null, sei o que está pensando e pode parar de pensar sobre.
— Não tem como você saber!
— Eu conheço você, Mori — rebate a mais velha.
— Eu queria ter a sua destreza e coragem para poder falar com ele do jeito que eu gostaria — o olhar tímido de null se direciona para null que, à luz do Sol brilhante, fica ainda mais bonito.
— Você não precisa nada — rebate null. — null gosta de você do jeito que você é, já te disse isso.
— Isso é verdade, null — concorda null.
— Obrigada, null! — agradece null. — Essa tonta aí fica se martirizando por algo que nem aconteceu ainda.
— Não sou tonta, null!
— O que podemos fazer para ajuda, null? — indaga null.
— Não sei…
— Ahh, pois eu sei — diz null com o olhar suspenso. — Semana que vem podemos ir à praia e aí você fala com ele sobre esse assunto — sugere.
— Será que é o melhor momento? — null demonstra insegurança.
— Vamos fazer com que seja, maninha. Não se preocupe.
null dá um sorriso brilhante e null se vê levemente inspirada pela confiança da irmã. No fundo, a mais nova gostaria de ser exatamente como a mais velha, talvez fosse mais fácil viver. Talvez fosse mais fácil dizer o que ela sente. Apenas suposições.
Na semana seguinte eles vão à praia, mas, apenas cinco deles retornam com vida.
Flashback Off
null sempre dizia que null deveria ser irmã da null e não ela. A jovem nunca se achou merecedora de ter uma irmã como ela, amigos como os que tinha e, muito menos, um namorado como o null.
null morreu afogada dias atrás enquanto todos estavam na praia se divertindo. Não deu tempo de fazer nada, ninguém viu ela se afogar. Quando perceberam, já era tarde demais e, quando null finalmente conseguiu tirá-la da água, null já estava sem vida em seus braços. Foi quando ele perdeu o chão.
Neste momento, estão todos reunidos na casa dos Mori, enquanto arrumava as próprias coisas, null achou uma carta escrita pela irmã endereçada a todos os amigos. Desde que null morreu, o clima entre todos anda estranho, principalmente entre null e null.
— Onde está a maldita carta? — indaga null com grosseria visível, após se jogar na cama que era de sua namorada.
— Não seja assim, null, por favor… — pede null em tom repreensivo.
— Está aqui — responde null, jogando a carta em cima do corpo do cunhado que apenas olha para o envelope com um nó na garganta, sem ao menos tocá-lo. — Não vai abrir? — provoca null que está em pé na frente da própria cama enquanto null está sentado nela.
— Abra você — rebate null, ríspido.
— null! — repreende o mais velho vendo o irmão suspender os ombros.
— Deixa que eu abro — sugere null, levantando-se da cadeira e pegando a carta em cima da barriga de null que a puxa de volta de maneira brusca.
— Eu abro! — ele diz, nervoso.
— Se vai ficar assim é melhor nem abrir essa carta, null! — brada null com a voz trêmula.
— Como você quer que eu fique, Mori? Hein?! — ele se levanta e encara a cunhada. — Ela morreu nos meus braços, foi culpa minha ela ter morrido!
— Não foi! A culpa foi minha! Se eu não fosse tão… — null se interrompe e abaixa a cabeça por um instante, pensando que, se ela não fosse tão covarde em expor suas vontades, talvez, só talvez, null não precisasse ter combinado um dia de praia e certamente ela estaria viva. — A culpa é minha!
— Ah, me poupe, Mori! — esbraveja null, gesticulando com as mãos para os lados. — Eu perdi minha namorada naquele dia…
— E EU PERDI A MINHA IRMÃ! — null grita, peidando o cunhado que é um pouco mais alto que ela. null não responde e apenas a encara com os olhos marejados. — Eu a perdi para sempre…
— Amor, calma, por favor — pede null que se levanta para ampará-la, abraçando-a pelas costas.
— Gente, acalmem-se, por favor — null diz já chorando e é abraçada por null.
null sente-se ainda mais sozinho agora.
— Vamos ler logo essa carta — diz o jovem, enxugando as próprias lágrimas.
O jovem null abre o envelope, as mãos tremendo e os pensamentos fervilhando por saber o que está escrito ali. O que será que sua amada null escreveu? Será que escreveu sobre ele? O que ela estava pensando para escrever uma carta assim tão de repente?
Então, ele começa a ler em voz alta.
“[...]
[PARTE AGORA REVELADA]
Agora, quero falar com cada um de vocês.
null, amiga eu te amo tanto que você nem sabe, né? Eu deveria ter externado mais os meus sentimentos. Só quero te dizer para continuar sendo essa menina doce e fofa que você é, você vai longe, meu passarinho. <3
null, o menino estudioso do colégio! Hahaha você é fofo, null, um cara muito doce, continue assim, de verdade, você é especial, meu querido. E é um excelente amigo. Amo você!
null, meu amado cunhado e amigo. null quero te dar apenas um conselho: não faça a minha irmã sofrer ou eu voltarei do além para te assombrar! Estou falando sério, estou de olho em você, null! Hahaha te amo, chato <3
null, minha querida irmã. Eu te dei trabalho, né? Me perdoe por ter sido uma irmã tão louca, tá? Eu deveria me espelhar mais em você, mas assim eu não seria eu, né? Hahahaha E você é tão única, tão engraçada, gentil e fofa. Você deveria ser irmã da null... Tá, eu vou parar de falar isso! Não grite comigo, sua chata! Haha 😊 Viva bem ao lado do null, tá? Talvez você se case com ele, gosta dessas coisas, né? Espero que tenha pensado em me chamar como madrinha, senão eu ficarei chateada. Ah, e não brigue com o null, certamente ele estará um pouco, digamos, desajustado sem mim. Conheço bem ele e sei que não será fácil, mas tenha paciência com o meu guaxinim, tá? Esse apelido é tosco? É, mas me deixe chamá-lo assim! Ele é meu guaxinim baby lindo. Bom, fica bem, minha irmã. Te amo pela eternidade! <3
Meu null... ah, amor, me perdoa, por favor, me perdoa por não estar aí com você em nossa formatura. Droga, eu já estou chorando... espera... pronto, já me controlei. Meu guaxinim, eu queria tanto estar com você agora e te beijar uma última vez, sentir seu calor de novo. Eu não sei como é a morte, mas certamente será uma tortura não poder estar com você. Mas, não morra ou eu te mato! Sério, null, fique bem vivo para seguir a vida sem mim. Me perdoe dizer isso também, mas é preciso continuar mesmo que eu não esteja mais viva, tá? E para de chorar, senão eu não conseguirei ir para o outro plano, null! Para! Eu sei que está chorando feito um bebezão que você se revelou ser desde que começamos a namorar. Manteiga derretida... seu bobo, eu te amo para sempre, tá? E, olha, eu queria ter me casado com você, formaríamos uma bela família. Te amo, te amo, te amo, meu null! <3
Eu não quero me estender mais. Só quero dizer que eu amo MUITO vocês e que esse sentimento jamais morrerá em mim, mesmo que eu não exista mais.
Vivam para sempre.
É isso.
Com amor além da morte...
null”
null conclui sua leitura e seus olhos são puramente tomados por lágrimas de saudade. Ele se pergunta se poderia ter feito algo para amenizar a dor de sua namorada, mas não consegue pensar em nada. Suas únicas lembranças são o sorriso dela. Ah, o sorriso de null que tanto o encantou e que o fez se apaixonar por ela.
null Mori era as quatro estações em uma pessoa. Ela era prática, quase fria como o inverno. Radiante como o verão. Amena quando precisava ser assim como o outono. E, assim como a estação favorita dela, tinha um ar de frescor como a primavera. Tudo isso nela. Tudo isso era a null.
Jamais será esquecida por nenhum dos cinco amigos que guardaram bem as últimas palavras escritas por ela direcionada a cada um deles e as processam agora enquanto se abraçam todos juntos. Juntos eles jamais estarão sozinhos. Ela sempre estará em cada um dos cinco.
E eles irão amá-la para sempre.
“Esse temporal é temporário amor,
mas o amor é força atemporal.”
O Sonho é a Senha, Fresno