Atualização: 16/01/2018
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Capítulo Único

What will you do on the weekends
When your best friends
Become your dead friends?


A vontade de gritar chegou, mas sua voz tinha sumido.
O rapaz fechou os olhos, respirando com dificuldade, sentindo a culpa que o consumia naquele momento.
Demorou mais do que gostaria para entender que tinham realmente passado dos limites naquela festa, que tudo tinha saído do controle.
Escorou-se na parede gelada do hospital, abraçando as pernas compridas enquanto escondia o próprio rosto entre elas, as lágrimas grossas descendo incontroláveis.
A enfermeira entrou no quarto alguns minutos depois, forçando-o a voltar para a cama, aplicando um sedativo leve, para que ele pudesse se acalmar, de forma que apagou minutos depois.

“A garota beijou-lhe por alguns instantes, antes de levantar-se do sofá com seu copo de cerveja, balançando-se no ritmo da música que tocava. Acenou para duas vezes, rindo dele, antes de virar-se para os dois rapazes mais ao canto da festa, jogados no chão sem saber exatamente o que faziam, perdidos em suas cabeças, balbuciando algo incompreensível.
Acompanhou com o olhar a seringa próxima ao irmão, que ainda passava a mão pelo nariz avermelhado, resmungando algo que só ele entendia, alucinando em sua própria mente.
Riu baixo ao notar que ele reclamava por estar de castigo, passando a mão por seus cabelos arrepiados, antes de pegar o material ao lado, voltando para perto de pouco depois. Virou o copo de cerveja, antes de empenhar-se em passar a droga pela seringa, puxando apenas a dose necessária.
a encarou por alguns instantes, um pouco sonolento devido ao número de cervejas e shots de vodka que tinha virado.
o olhou de volta, esperando por alguma reação favorável ou negativa a uma dose, a primeira da noite.
O passou a língua pelos lábios secos, esticando o braço e puxando a manga da camisa xadrez que vestia, não demorando para vê-la apertar com os dedos gelados seu antebraço, a procura da região correta para aplicar.
Ela o encarou por alguns instantes, assistindo com calma a reação dele com o efeito da droga, não demorando muito tempo para começar a rir, negando com a cabeça por qualquer motivo, sem nem mesmo saber o que negava.
A garota tornou a fazer o mesmo procedimento, agora para si mesma, não precisando de ajuda para encontrar o ponto de aplicação em seu braço esquerdo, já tão conhecido e marcado pelo uso contínuo de heroína...”

From all the sugar
And all the sweetness

encarava o teto branco do quarto em que estava, ouvindo o bipe fraco de seus batimentos cardíacos nos equipamentos ao lado, a agulha com soro ainda presa em seu braço, aos poucos sentia que voltava ao seu normal, e junto com isso, a dor em seu peito se intensificava. Poderia estar enfartando, mas achava que seria fácil demais para ele. provavelmente teria que sofrer mais um pouco antes de ter aquela paz de espírito que todos diziam que as pessoas encontravam ao morrer.
A culpa era sua no final das contas, e ele deveria pagar por isso.
Deveria ter prestado mais atenção no que acontecia, ao invés de virar para o lado e dormir.

“Voltou do banheiro cambaleante, jogando-se no sofá de qualquer jeito, ao tropeçar na perna de alguém que ele não reconhecia, mas estava jogado no tapete da casa.
Teve um leve vislumbre do número de garrafas vazias e copos amassados pelo local, antes de fechar os olhos por alguns instantes. Ouviu vozes ao fundo, mas demorou para identificá-las; seu ouvido parecia entupido, como quando pegava um avião nas férias, viajando para visitar parte da família que morava em outra cidade.
Sentiu o estômago revirar por um momento, e achou melhor levantar-se antes que vomitasse novamente, ainda sentindo o gosto azedo em sua boca.
Localizou a poucos passos de distância, sentada no chão em uma rodinha, rindo de algo que falavam, mas não entendia.
Por um momento pensou em como ela poderia estar tão bem quando ele sentia que estava no fundo do poço, implorando mentalmente para voltarem para seu apartamento e ele poder dormir várias horas. Sorriu de lado considerando o sexo rápido que poderiam ter, mas logo sentiu o mal estar o atingir de novo, e o sorriso se desfez; sexo era a última coisa que ele faria, ou poderia vomitar em cima da namorada, e ela claramente não gostaria de repetir a experiência.
tagarelava sobre algo incompreensível para ele, mexendo as mãos agitada.
estranhou por um instante; a euforia já deveria ter passado, já fazia algumas horas desde que tinham usado, mas ela parecia tão animada quanto nos primeiros minutos.
E então ele reparou no cigarro entre seus dedos, notando que o mesmo era passado de mão em mão na pequena roda. Quando chegou às suas narinas, sua vontade de vomitar ao reconhecer o cheiro doce de maconha aumentou.
Virou-se para o lado, levantando-se sem jeito e andando em direção a sacada, querendo um pouco de ar frio no rosto, de forma que pudesse espairecer um pouco e aquela sensação ruim deixar seu peito.
Respirou fundo quando o ar gelado bateu em seu corpo, arrepiando-o levemente, fazendo que cruzasse os braços, esfregando as mãos nos mesmos, tentando aquecer-se minimamente.
Olhou para a rua pouco movimentada aquele horário, as luzes alaranjadas estavam um tanto turvas e pareciam se mexer nos postes, aumentando sua vontade de vomitar.
ficou de costas, apoiando os cotovelos nas grades da sacada, olhando para dentro do apartamento, não vendo muita coisa devido à distância e pouca iluminação do local.
Fechou os olhos de novo, sentindo o coração bater devagar, a respiração sair calma.
Não saberia dizer o tempo que tinha ficado daquele jeito, talvez tivesse cochilado em pé, a calmaria envolvendo seu corpo, e o cansaço sua mente confusa.
Ouviu alguém o chamar duas vezes, e quando abriu os olhos, sonolento, encontrou os olhos castanhos da namorada o encarando.
- Você está ok?
Concordou com a cabeça, abrindo os braços quando ela se aproximou.
- Com sono. - murmurou, inclinando-se em sua direção, encostando o rosto na curva de seu pescoço, sentindo os dedos dela embrenharem-se em seus cabelos. - Como você está tão bem?
- Não parei por muito tempo, não deu pra baixar a adrenalina. - respondeu dando de ombros.
- Você está misturando? - questionou com a voz embolada, ainda abraçado a ela.
- Eu fumei um cigarro, nada demais…
resmungou algo, ouvindo-a responder, embora demorasse para processar o que dizia, seu cérebro trabalhando devagar.
- É melhor você deitar um pouco, está jogado em um dos quartos. - avisou, puxando-o pela mão, até conseguir que a seguisse, deixando-se ser guiado até o corredor, entrando em um quarto desconhecido e mais bagunçado que o seu próprio.
Escorou-se na parede, enquanto jogava as coisas que estavam na cama no chão, abrindo espaço para que ele pudesse deitar.
- Dorme um pouco, vai se sentir melhor.
- Você não vai ficar aqui? - perguntou enquanto encostava-se no travesseiro, o qual tinha um cheiro estranho, mas que ele não ligou muito.
A garota negou com um aceno, sorrindo de lado.
- Tenho que resolver algumas coisas.
arqueou a sobrancelha, estranhando a resposta.
- O que?
- Nada importante, agora durma um pouco.
- Hey, - chamou antes que ela deixasse o quarto, esticando a mão em sua direção - obrigado. - falou com a voz embolada, antes de virar para o lado, fechando os olhos e deixando o sono o envolver, distanciando-se daquele sentimento ruim que continuava presente em seu peito.”

This little sweet tooth
It is your weakness

Virou-se na cama quando alguém entrou no quarto, reconhecendo assim que o melhor amigo fechou à porta. parecia tão abalado quanto ele mesmo, jogou-se na poltrona próxima a cama, esticando as pernas, o olhar perdido em qualquer canto, recusando-se a olhar para .
Para o aquele era um claro sinal de que a amizade estava destruída, nunca mais conseguiria olhar para , era tudo culpa dele.
Surpreendeu-se pelo melhor amigo não ter o esmurrado assim que entrou no quarto, era o que queria fazer consigo mesmo, apenas não tinha forças o suficiente.
No fundo desejava que fizesse aquilo por ele, arrancasse aquelas malditas agulhas de seus braço, esmurrasse sua cara e, talvez, sendo um pouco mais radical, até pegar o travesseiro e sufocá-lo, porque era exatamente aquele o sentimento de no momento; Ele estava sufocando, buscando por um ar que não mais encontrava, que nunca chegava aos seus pulmões desesperados.
Mas continuou olhando para o lado, em silêncio.
não sabia, mas no fundo culpava a si mesmo por tudo aquilo; nada teria acontecido se não tivesse comentado sobre aquela festa, se não tivesse insistido para que todos fossem, ”vai ser legal!”.

“O casal o encarou por alguns segundos, não parecendo tão animado quanto o moreno, mas acabou por dar de ombros, deixando claro que a decisão era toda de .
- Espero que seja boa, .
- Vai ser, - sorriu animado- soube que Brennan conseguiu algumas coisas boas para levar.
- Que coisas? - arqueou a sobrancelha - Ele ainda está nos devendo pela última vez, quase morri cheirando aquela merda.
- Ele garantiu que é da boa, e disse que não vai cobrar…
- O mínimo, - resmungou, rolando os olhos - passei dois dias na cama da outra vez, estava quase indo para o hospital.
- E o que você diria? - questionou, segurando a risada.
- Eu sei lá, que foi algum acidente…
- Claro, , aposto que todo dia tem alguém acidentalmente inalando coca. - riu irônica, fazendo-o dar de ombros.
- De qualquer forma, espero que seja bom mesmo, porque se Brennan aparecer com alguma porcaria de novo…
- Ele me garantiu que o pacote é bom, parece que experimentou antes, para ter certeza que está okay! Relaxa, vai ser legal!”

Xingava-se por ter deixado a situação chegar aquele ponto, deveria ter sabido antes que em algum momento tudo desmoronaria.
Ao invés, apenas seguiu em frente, ignorando a parte de si que gritava para que ele parasse, fingindo não perceber a sensação ruim que o envolvia sempre que usava alguma coisa.
Eram apenas alguns momentos conscientes, antes do efeito começar e a angústia sumir, levando-o para um lugar melhor, mesmo que por poucas horas.

tinha acabado de cheirar sua terceira carreira, passando a mão pelo nariz, sentindo o gosto amargo em seu paladar, piscou algumas vezes, levantando-se do chão e seguindo em direção a cozinha, procurando algo para beber. Seu coração batia acelerado, sua mão tremia de leve, mas não era nada que ele não estivesse acostumado. Becca estava ali, sentada sozinha, com uma garrafa de smirnoff pela metade em mãos, olhava para a parede branca, como se admirasse uma obra de arte, demorando alguns instantes para focar sua visão em , parado na entrada do cômodo.
- Você está desse jeito pela bebida, ou andou fazendo algo a mais?
- , se eu já sinto que vou morrer apenas com ressaca, você acha que eu tenho condições de investir em outras coisas?
O rapaz riu, concordando antes de encostar-se na mesa, pegando a garrafa por entre suas mãos, e dando um gole direto do gargalo. Becca acompanhou com o olhar as gotas que escorreram, fazendo o caminho pelo pescoço do amigo. passou as costas da mão na boca, limpando-a. Reparou no olhar abobado da outra, sorrindo de lado.
- Você está bêbada a ponto de amanhã não lembrar que queria transar comigo e chamar a polícia, ou apenas o suficiente para justificar amanhã que foi tudo por causa da bebida?
A ruiva piscou demoradamente, rindo ao entender o que ele dizia.
- Quem disse que eu quero transar com você?
agachou-se perto dela, sussurrando com a voz rouca em seu ouvido;
- Não quer?

olhou para a garota sonolenta ao seu lado, vestindo sua boxer e andando cambaleante até a sala, encontrando Brennan e , jogados no chão, conversando sobre coisas aleatórias, e outro cara que ele não conhecia, o qual estava deitado no sofá, sem se mexer.
- , ninguém quer ver seu pau pequeno. - o amigo reclamou, tacando-lhe uma almofada.
- De repente é por isso que eu estou vestido, ein? - respondeu mostrando o dedo do meio. - Cadê o ?
- Foi deitar, não estava muito bem… - respondeu com a voz embolada, parecendo finalmente sentir a euforia passar.
jogou-se ao seu lado por um instante, beijando-lhe a bochecha enquanto pegava o papelote ao seu lado, arrumando a carreira em cima da mesa de centro, cheirando-a pouco depois. Esticou o canudo para a mais nova;
- Quer?
Brennan demorou alguns segundos para ver o que acontecia, dando um tapa na perda de quando percebeu;
- Caralho, ela já cheirou quatro!
virou-se para puxar a carreira, mas ela já tinha terminado, tornando a recostar-se na parede, os olhos fechados e o rosto levantado, fungando, antes de coçar o nariz.
- Você é retardada?
- Eu estou okay, relaxa.”

They've got american candy
You're sweet and sated, so sedated

Ouviram o grito desesperado no corredor do lado de fora do quarto, fechou os olhos no mesmo instante, reconhecendo a voz que gritava histérica, recusando-se a acreditar no que lhe era dito.
respirou fundo, baixando o rosto e cobrindo-o com as mãos, antes de esfregar as lágrimas e levantar-se, seguindo para fora do quarto.
desejou que ele não o fizesse, não queria ficar sozinho, por mais que estivessem em silêncio. A dor parecia aumentar, envolvendo-o com lentidão.
A mulher virou-se assim que avistou o filho saindo do quarto, dando passos desesperados em sua direção. Abraçou-o apertado por alguns instantes, aliviada por ele estar bem, antes de afastá-lo com um empurrão, esbofeteando-o na bochecha direita.
nada fez, apenas voltou a baixar o olhar, enquanto sua mãe chorava em silêncio, mal conseguindo completar uma frase;
- O que foi que você fez, ? O que vocês fizeram dessa vez?

acordou ao ouvir um barulho alto e um grito estranho, pulando na cama em que estava com Becca, levantando-se desajeitado, confuso. A ruiva puxou uma camisa para vestir, embora reclamasse da dor de cabeça, provida das bebidas que tinha ingerido mais cedo. abriu a porta, ainda sentindo como se tudo girasse, coçou os olhos por alguns instantes, antes de dar um passo para fora do quarto, entrando na sala, na qual Brennan gritava, chacoalhando , caída no chão.
- Para de brincadeira, garota! - bateu-lhe no rosto, esperando que ela começasse a rir, mas ela não se mexeu.
deu passos incertos em sua direção, ajoelhando-se ao seu lado, sua cabeça girando e uma vontade grande de vomitar. Passou a mão no nariz ao sentir que escorria algo, como se estivesse gripado, mas era mais espesso e de cor escura. Limpou o sangue de qualquer jeito, aos poucos focando no que acontecia. Becca gritou procurando por um telefone, e no instante seguinte sentiu um empurrão, caindo de lado, desajeitado.
puxou a namorada para seu colo, levantando sua cabeça e segurando entre as mãos trêmulas;
- O que aconteceu?
- Ela só caiu, cara, - Brennan dizia com a voz falha e embolada, esfregando o nariz de pouco em pouco. - estávamos conversando, eu fui ao banheiro, quando voltei ela estava caída…
começou a chamá-la pelo nome, soando desesperado enquanto tentava a fazer abrir os olhos, sem ter qualquer resposta.
foi apoiar-se nas mãos para levantar, começando a sentir a preocupação lhe atingir ao notar que a mais nova continuava desacordada. Sentiu uma leve dor ao apoiar a mão no chão, vendo a seringa caída próximo ao braço avermelhado da irmã.”

For the american kids
You're hooked and baited, annihilated

Não demorou para a mulher dar um passo para dentro do quarto, logo reconhecendo deitado, sedado. Andou em sua direção, encarando-o por alguns instantes, certificando-se de seu estado, antes de começar a gritar com a voz embargada;
- Eu disse para você ficar longe dos meus filhos. Eu falei para você ficar longe deles! É tudo culpa sua!
nem mesmo tentou se defender, apenas concordou com um aceno, incapaz de qualquer coisa, sentia como se aquilo fosse pouco, Elena poderia gritar por horas, e mesmo assim não pareceria o suficiente.
Naquele momento ele sentia que era tudo sua culpa, que sempre seria.
A mulher apenas o olhou por incontáveis segundos, as lágrimas rolando por seu rosto, seu olhar com um misto de sentimentos; tristeza, raiva, impotência.
Poderia passar a vida culpando aquele rapaz pelo o que tinha acontecido, mas parte daquilo era sua responsabilidade; era quem tinha a apresentado às drogas, mas foi por sua causa que ela começou a usá-las.

“Elena encarou o olhar descrente da filha, a qual tinha a mão sobre a bochecha esquerda, que começava a avermelhar pelo tapa.
- Está na hora de você e seu irmão se acostumarem, é assim que as coisas são agora, gostem ou não.
deu-lhe as costas, subindo para seu quarto e trancando-se no mesmo.
A mulher respirou fundo, tentando acalmar-se.
Suas mãos tremiam e a raiva a consumia.
entrou em casa poucos minutos depois e, ao olhar para o filho, notou o hematoma próximo ao olho direito dele, as marcas avermelhadas entorno de seu pescoço e o lábio inchado.
- Brigando na rua de novo, ?
O mais novo a encarou sorrindo irônico, antes de deixar uma sacola de compras na mesa da cozinha e se afastar em silêncio. Queria poder respondê-la, mas sua garganta ainda doía sempre que falava, incomodava até para engolir a própria saliva.
Bateu na porta no final do corredor, logo ouvindo o clique quando a destrancou, entrando pelo cômodo, notou a bochecha vermelha e as marcas de dedo na irmã, respirou fundo, jogando-se de bruços na cama dela.
- O que você falou? - perguntou com a voz baixa, sentindo sua garganta arranhar pelo esforço.
- A verdade, Peter é um psicopata e ela não enxerga.
rolou os olhos, colocando as mãos atrás da cabeça.
- Pode falar todo dia, não vai fazer diferença.
o encarou por alguns instantes, negando com um aceno.
- Olha o que ele fez com você, ela é cega por acaso?
a encarou de canto, sorrindo fraco;
- Ela perguntou se eu briguei na rua, de novo.”

You're hooked and baited, annihilated

A mulher fechou os olhos depois de ver o corpo gelado da garota, confirmando que era mesmo , conforme solicitado pelo policial;
- Seu filho e os amigos estavam muito chapados para confiarmos em seu reconhecimento.
Cruzou os braços ao sair da sala, escorando-se na parede lateral, ouvindo-o falar algo sobre uma investigação que aconteceria, enquanto tentavam confirmar que a morte dela não tinha sido provocada por algum dos amigos, enquanto esperavam os exames para confirmar que tinha sido apenas overdose causada pela mistura de drogas fortes e bebida.
, e quem mais estivesse naquela festa precisaria depor, o policial só esperava o efeito dos entorpecentes passar por completo para poder levá-los à delegacia.
Elena apenas concordou com a cabeça, sem entender exatamente o que ele queria dizer, também não se importava. Sua filha estava morta.
Deveria tê-la protegido quando teve oportunidade, se tivesse feito a coisa certa desde o começo, tudo aquilo seria evitado; e não seriam dois viciados que tinham saído de casa há três meses.

“Peter só não terminou o movimento, porque a mais nova o puxou com força, afastando-o do irmão caído, com as mãos no estômago devido ao chute que tinha levado. Elena entrou em casa olhando para a cena, deixando suas coisas caírem no chão;
- O que está acontecendo? O que vocês fizeram?
- O que mais? O que esses dois sempre fazem? - o homem gritou, puxando o cabelo loiro da adolescente, fazendo-a gritar pela dor repentina - Pegam meu dinheiro para comprar maconha.
- Seu dinheiro? - a mais nova riu - Você é um bêbado desempregado e sem dinheiro, sustentado pela minha mãe.
Elena chegou a abrir a boca, mas olhou para o lado quando viu o marido bater na mais nova, jogando-a no chão. gritou, tentando levantar-se, mas logo sentiu um novo soco em seu rosto, fazendo com que caísse e batesse a cabeça no móvel próximo, apagando no mesmo instante.
gritou, aproximando-se do irmão desmaiado, notando o pequeno corte em seu supercílio, mas antes que pudesse tentar acordá-lo, foi puxada com força pelo braço, sendo arrastada pela casa, em direção as escadas;
- Eu vou te ensinar uma lição que você já deveria ter aprendido.

acordou com a cabeça dolorida, levando a mão até o machucado, limpando-o com a manga da blusa, sentando-se no chão, confuso. Demorou alguns instantes para lembrar o que tinha acontecido, e quando se recordou, levantou-se apressado.
Encontrou sua mãe sentada na cozinha, encarando uma xícara de café.
- O que aconteceu?
Elena nem mesmo o olhou, parecendo perdida em seus próprios pensamentos.
Seguir para o segundo andar da casa, sentindo a dor em seu corpo conforme se movia.
Entrou no quarto da irmã sem nem bater na porta, encontrando-a encolhida em um canto, abraçando as pernas, a cabeça baixa, os cabelos caídos por sobre seu rosto.
Sentiu um nó na garganta ao notar as roupas que ela usava mais cedo, jogadas perto da cama, sentou-se ao seu lado, reparando que usava uma camiseta comprida, deixando visível as marcas arroxeadas em seu corpo. Passou o braço por sobre seus ombros, puxando-a para mais perto.
respirou fundo, sentindo as próprias lágrimas embaçarem sua visão, sabendo o que tinha acontecido; Peter tinha passado de todos os limites com sua irmã.
- Pega suas coisas, vamos embora daqui, ok?

entrou em um rompante naquela casa, pouco se importando se era bem vindo ou não. Parecia um touro que só via vermelho, tamanho o ódio que sentia.
Naquele momento seria capaz de matar, e sabia que não sentiria remorso algum se o fizesse.
Peter levantou-se do sofá, jogando sua lata de cerveja longe quando viu o rapaz entrando pela sala, puxando-o pelo braço quando o fez menção de subir as escadas;
- O que você pensa que está fazendo na minha casa?
virou-se apenas o suficiente para acertar um soco bem dado na cara redonda do homem, pego de surpresa e bêbado, cambaleou alguns centímetros, apenas o suficiente para o conseguir afastar-se, subindo para o segundo andar.
Abraçou-a com força por longos minutos, garantindo que tudo ficaria bem, enquanto terminava de pegar tudo o que levariam embora.
Desceram os três, juntos, mas Peter bloqueava a passagem da sala.
- Onde vocês pensam que vão? Morar com esse drogadinho, é? - cuspiu rindo - Vai acabar na cadeia , sendo namorada de algum detento. E você, , não demora muito vai estar se vendendo por dez dólares nas esquinas, porque não vai conseguir muito mais do que isso, não é?
e foram para cima do homem no mesmo instante, derrubando-o no chão e socando-o em todas as áreas que podiam, pouco importando-se se o matariam.
- Parem, parem com isso! Eu vou chamar a polícia! - Elena entrou gritando, segurando uma vassoura e acertando-a nas costas de . - Eu já disse para você não entrar na minha casa. Para ficar longe dos meus filhos!
- Eu? - riu irônico, levantando-se com as mãos vermelhas, a raiva o dominando por completo - Eu tenho que ficar longe deles?
- Foi você que os fez ficarem assim, se drogando sempre que tem chance. - respondeu, culpando-o por todos os problemas que tinha.
gargalhou, ensandecido.
- Quem foi que trouxe um alcoólatra para dentro de casa? Que bate nos dois apenas porque está com vontade? Acho que não fui eu quem abusou da sua filha, não é?
- Como você ousa...
- Você acha mesmo que é por causa do ? - riu, negando com a cabeça. - Acha que é para nos enturmarmos? Você está louca. Você é completamente louca. Estamos indo embora.
- Se vocês passarem por essa porta, não vou aceitá-los de volta.
- E quem disse que queremos voltar pra esse inferno?”

Try to think back to back to a time when
You loved what you loved because you loved it
Before the sugar
And all the sweetness

terminava de dar o nó na gravata preta, encarando-se no espelho atrás da porta. As olheiras profundas pareciam cada dia mais visíveis, assim como seu rosto magrelo, resultado dos quilos que tinha perdido rapidamente, devido às drogas.
Escovou os cabelos claros de qualquer jeito, não preocupando-se em arrumá-los, antes de pegar o blazer escuro sobre sua cama, esbarrando nas coisas sobre seu criado-mudo, as derrubando no chão.
Respirou fundo, agachando-se para pegá-las, notando que o vidro do porta-retratos estava rachado. Passou os dedos sobre o mesmo, encarando a foto que ali estava;
A garota sorria para a câmera, abraçada ao namorado.
Fazia pouco mais de um ano que tinham tirado, logo na primeira semana que começaram a namorar, mas parecia uma outra vida.
Uma época calma que não voltaria mais, apenas dois adolescentes que tinham se beijado em uma festa e gostado do resultado de terem suas línguas juntas e as mãos no corpo um do outro.
Era tudo simples, fácil.
Jamais imaginaria que tudo mudaria tão rápido, estavam os dois tão felizes naquela imagem, sorrindo tranquilos, inocentes.

gargalhou, recebendo como resposta uma chuva de pipocas, jogadas em seu rosto.
- Cala boca, ! Para de rir de mim!
- Eu não acredito que você está com medo desse filme, porra, !
- É um filme de terror, eu disse que não queria ver! Seu ridículo!
- Eu duvido que Anaconda esteja enquadrado como terror, no máximo um suspense mais ou menos.
- As pessoas morrem, dá no mesmo! - resmungou cruzando os braços, afundando-se no sofá.
- Eu até acharia fofo você desse jeito, se você não tivesse me estapeado antes das pipocas, é bem agressivo. nunca me disse que você era assim!
rolou os olhos, rindo de lado.
- Ele também nunca me disse que você assiste essas porcarias de filme, achei que você fazia o tipo cult.
- Agora é porcaria, ne? Dois minutos atrás você estava gritando assustada quando o Ben morreu!
- Mas foi muito injusto, ele era legal!
- Não faz diferença, as pessoas legais também morrem, o recado do filme é esse.
A garota o encarou com a sobrancelha arqueada, gargalhando em seguida.
- Caralho, , você se superou muito nessa!
- Olha, poderia ser esse o recado nas entrelinhas, ok? - fez-se de ofendido, antes de acabar rindo junto com ela.
- É adorável a forma que você tenta colocar uma lição de vida nas coisas mais ridículas.
- Você acha ridículo uma cobra desse tamanho que mata pessoas? Caramba, isso é muito real! Você nunca viu aqueles documentários da Discovery?
- Ah, tá! - rolou os olhos, rindo leve - Termina logo esse filme que eu quero ver outra coisa.
- Mas você é bem chatinha, ein? - provocou, negando com a cabeça.
- Sou, deveria ter percebido antes de me pedir em namoro, agora é muito tarde pra reclamar!
fez um barulho com a boca, inclinando-se em sua direção, sorrindo de lado.
- Eu só não vou pedir esse anel de volta, porque apesar de tudo você beija bem!”

Sometimes I feel as though I'm going mad when
I get a touch of saccharine on my lips

tinha passado todas as horas do velório sentado do lado de fora da capela, sem coragem de entrar e encarar o olhar de todos, mas, principalmente, sem emocional de entrar e vê-la naquele estado. Tornaria tudo mais real, e aquilo acabava com seu psicológico.
Ainda acreditava que em algum momento acordaria daquele pesadelo, e descobriria que nem mesmo tinham saído para festa nenhuma.
Talvez conseguisse voltar no tempo o suficiente para nunca terem embarcado naquilo, para a época em que o máximo que faziam juntos com os amigos, era roubar uma garrafa de vodka da casa de algum deles e entornar durante algum drinking game. Pensando que eram rebeldes por fazerem aquilo, e disputando quem era o que estava pior na ressaca do dia seguinte.
Desejava que aquilo fosse tudo um sonho, uma premonição do que aconteceria se ele aceitasse ecstasy pela primeira vez, em uma balada qualquer.
Um sinal de alguma entidade, mostrando o que aconteceria se ele oferecesse para a namorada, dizendo que não era nada demais.
Talvez até um momento que ele estaria revivendo, como Harry Potter e seu Vira-tempo, e ele conseguiria retornar para a noite que tudo aquilo começou, e impedir que acontecesse; mais de uma vida pode ser salva, Dumbledore tinha dito algo assim no filme, de repente era um sinal para fazer o mesmo; salvar a namorada, e a ele mesmo.
Mas não era.
Aquela era a verdade que ele se recusava a aceitar; ela tinha o deixado, e a culpa era sua, desde o início.

“O rapaz esperava pelas bebidas, quando Brennan aproximou-se rindo, agitado.
- ! Achei que não viesse mais, tá curtindo?
- Mais ou menos, tô meio cansado…- deu de ombros - Vim direto do trabalho, tô meio morto na real…
Brennan concordou, passando a língua pelos lábios antes de aproximar-se mais, passando um braço pelos ombros do colega.
- Quer ficar mais animado?
arqueou a sobrancelha, desconfiado;
- Eu não sei se você sabe, mas eu sou hétero, ok?
- Cala boca, - riu, negando com um aceno - quero saber se você quer alguma coisa para deixar a festa melhor, entendeu?
O pareceu confuso por alguns instantes, o cenho franzido, Brennan rolou os olhos, quase irritado com o lento raciocínio do outro.
- Você quer uma bala?
- Bala?
Smiley tornou a rolar os olhos, bufando.
- Drogas, . Ecstasy. Quer?
- Não sabia que você usava…
- Não é nada demais, só pra agitar, todo mundo usa em festas! E é só por poucas horas, amanhã você nem vai lembrar que usou.
- Não sei, cara… - olhou para o lado, vendo a namorada alguns metros de distância, conversando com alguns amigos que estavam junto. - Acho que não é uma boa...
- Sério, , você nem vai sentir nada demais, é quase o mesmo efeito de quando você está bebendo, saca?
- Tem certeza? - perguntou desconfiado, o outro concordou. mordeu o lábio inferior, dando de ombros - Bem, uma vez não vai fazer diferença, não é? Você tem dois?”

You're sweet and sated baby

O clichê do dia chuvoso para enfatizar seu estado de espírito era real.
A chuva era fina, mas suficiente para fazer estrago em alguns penteados elegantes dos familiares e amigos da família .
seguia o grupo afastado, ignorando o frio, e as gotas que se intensificaram nos últimos minutos, assim como o guarda-chuva oferecido. Manteve as mãos nos bolsos da calça, os passos lentos, quase cambaleantes, por todo o caminho no cemitério, que nem mesmo era tão grande, mas parecia uma eternidade em sua cabeça.
O padre dizia palavras incompreensíveis para ele; coisas sobre o paraíso que todos buscavam, como todos deveriam se unir, dizer mais vezes que amavam os familiares, deixarem as mágoas para trás. Perdoar a todos que os tenha ofendido, todos que o tenha ferido.
Notou quando deu um passo para trás, afastando-se daquilo, parecendo tão irritado quanto com toda aquela hipocrisia de amais e respeitais uns aos outros .
Elena chorava copiosamente, sendo consolada pela irmã, que dava-lhe tapinhas nas costas. olhou ao redor, reconhecendo boa parte da família , todos chorando em silêncio, mas poucos sentindo.
Podia apostar que a grande maioria deles sairia do enterro falando que já era esperado, que estavam surpresos que tenha demorado tanto tempo, ou que era ainda mais surpreendente que também não tivesse tido uma overdose, como a irmã.
Isso se já não tivessem comentado quando souberam do que tinha acontecido.
parou ao seu lado, atraindo sua atenção.
não disse nada, apenas cruzou os braços, fungando baixo.
por alguns instantes não soube como reagir, por fim esticou o braço, apertando-lhe o ombro;
- Eu sei que é minha culpa, eu nunca quis…
- Eu sei. - murmurou sem olhá-lo. - Você nunca nos forçou a nada, . A escolha sempre foi nossa.
- Mas se eu não tivesse começado…
- Então ela encontraria outro jeito - sorriu triste, encarando-o -, você não entendeu, não é? Ela sabia exatamente o que estava fazendo , não foi sem querer.
abriu a boca, incapaz de dizer uma única palavra, encarando o chão.
Sentiu-se pior do que antes, como não tinha percebido?
Parecia quase óbvio agora que tinha dito.
Preferia quando achava que tinha sido um descuido seu, por não estar presente para notar que ela já não tinha mais condições de saber o que estava fazendo.
Saber que ela tinha chego aquele ponto, achando que não tinha outra saída, pensando que ninguém poderia ajudá-la, aquilo matou por dentro.
Que merda de namorado ele tinha sido durante todo aquele tempo que não reparou no estado em que ela estava?
- Sabe o que é pior? - recomeçou, ainda em voz baixa - Todo esse discurso moralista, pedindo para perdoarmos quem nos fez mal. - riu irônico, negando com um aceno. - É uma merda, cara. Sempre vai ser uma merda.
abaixou a cabeça, sem saber o que dizer, manteve as mãos nos bolsos enquanto pensava sobre tudo aquilo.
Como as coisas podiam ter saído do controle tão rápido?
Como eles passaram de três adolescentes inconsequentes que gastavam seu dinheiro em cerveja e vodka, para três viciados em crack, cocaína e heroína?
Como podiam ter chego naquele ponto sem nem mesmo perceberem? Ou, pelo menos, sem se importarem?
tinha certeza que em nenhum momento passou por sua cabeça a possibilidade de ter uma overdose. Sempre achou que tinha controle do que fazia, mas era tão claro naquele momento que ele não tinha, que nunca teve, que pareceu ter um véu preto saindo da frente de seus olhos .
Uma faixa preta que ele não lembrava de tê-lo cegado, mas era provável que tivesse acontecido desde a primeira vez que injetou heroína em suas veias.
Notou quando fechou as mãos em punho, mudando sua postura para uma mais agressiva, encarando um ponto logo a frente.
Virou-se para olhar na mesma direção, não demorando para reconhecer Peter, parado ao lado de Elena, abraçando-a.
Sentiu o sangue ferver em suas veias, o coração bater acelerado, como se tivesse acabado de cheirar uma carreira de cocaína, sua respiração ficou descompassada, e quanto mais tentava respirar fundo, mas o ódio o consumia.
o viu dando passos largos até a direção de seu padrasto, mal tendo tempo de entender o que ele pretendia, até ouvir o grito de raiva do , que puxou Peter para o lado, afastando-o de Elena, antes de levar o braço em sua direção, socando-o no rosto.
As pessoas gritaram surpresas, criticando a atitude de , mas não parecendo chocadas com o acontecido, era de se esperar que o drogadinho iria querer chamar atenção.
Escutou alguns comentários maldosos, insinuando que ele deveria estar chapado, e por isso a reação exagerada. aproximou-se, vendo em cima do mais velho, socando-o com toda a raiva que sentia, seu tio tentou intervir, mas não deixou, empurrando-o para longe.
Elena gritou desesperada, pedindo, implorando para pararem com aquilo;
- Pensem na , vocês acham que ela gostaria que isso acontecesse? - gritou chorosa.
virou-se rindo irônico, segurando o homem pela gravata; Peter tinha parte do rosto manchada com o próprio sangue, pego desprevenido pela ação do outro, tentando empurrá-lo, mas parcialmente imobilizado por ;
- E você acha que ela gostou de passar meses apanhando dentro de casa? Acha que ela estava contente em ver no hospital com algum osso quebrado por causa desse cara? Acha que ela ficou feliz de ser abusada dentro do próprio quarto pelo padrasto?
Elena abriu e fechou a boca, sentindo o rosto avermelhar com os olhares horrorizados dos parentes e amigos.
- Eu… Não sei do que você está falando!
- Sério, mãe? - arqueou a sobrancelha. - Você não sabia? Nunca notou? Nem quando entrava em casa do trabalho e via ele me batendo por achar que eu sou gay? Não percebeu que ela nunca gostava de ficar sozinha em casa com ele, porque tinha medo?
Elena negou com a cabeça, incapaz de dizer qualquer coisa, os olhares acusadores em sua direção.
- Eu vou chamar a polícia se vocês não saírem. - um tio de avisou, segurando o celular em mãos.
tinha a mão fechada, tremendo na direção de Peter, o qual parecia quase inconsciente, parte de si querendo acabar com ele, querendo infligir o máximo de dor que podia naquele filho da puta, mas uma pequena parte gritava em sua cabeça, alertando-o de que, de fato, não iria querê-lo na cadeia por matar aquele cara.
”Não vale à pena, !”, ela tinha dito meses antes, no dia que estava deixando sua casa para morar com ele. “Ele nunca vai valer à pena”.
deixou-se arrastar por , que o puxou para fora do cemitério, deixando Peter ensanguentado, Elena chorando, e os demais presentes julgando toda a situação, cochichando entre si, ninguém parecendo lembrar o real motivo de estarem ali; era só mais um dia chuvoso.

I hate the taste on my tongue too damn sweet

Semanas depois…
Elena fechou os olhos, cansada de tudo aquilo, esgotada.
Sua vida tinha saído de seu controle, de uma forma que ela tinha medo de não conseguir recuperar; Tinha enterrado a filha e se continuasse daquela forma perderia o filho, porque já se recusava a vê-la.
A verdade correia seu coração, e o remorso não a deixava dormir.
O peso de saber que parte do que tinha acontecido era sua culpa, a fazia sentir-se o pior ser humano do mundo, a pior mãe do planeta.
Ela sabia o que acontecia, desde o começo, mas nada fez para evitá-lo por puro e simples medo.
Peter parecia um homem bom nas primeiras semanas, nos primeiros meses.
Ele era ótimo, até decidirem morar juntos, foi depois disso que sua vida virou de ponta cabeça; O homem ficou nervoso após perder o emprego e com isso começou a beber, e sempre que bebia ficava agressivo, principalmente com .
Depois arrependia-se, pedia desculpas e Elena o perdoava por achar que não se repetiria, mas no fundo ela sempre soube que aconteceria de novo, e sempre acontecia.
No começo eram apenas gritos e xingamentos, mas depois começou a ser algo físico.
Peter batia em , e quando Elena foi confrontá-lo, apanhou o dobro do que o filho.
Tinha esperanças que aquilo mudasse, porque no fundo achava Peter uma boa pessoa, mas tinha se enganado, e aquele ano juntos transformou-se em um inferno no qual era não queria fazer parte, mas também não conseguia fugir.
Tentou mandá-lo embora uma única vez, e como resultado, quando chegou do trabalho, descobriu que tinha sido internado com costelas fraturadas. Sabia o que aquilo significava, embora não tivesse contato para os filhos.
Preferiu olhar para o lado todas as vezes, do que questionar alguma marca roxa no corpo dos filhos, assim como deixou-se acreditar que o máximo que eles faziam era usar maconha, porque imaginar que eles já tinham passado para outro estágio era dolorido e fazia sua culpa aumentar. Era preferível jogar a culpa em , que mesmo sendo um drogadinho, ainda parecia cuidar dos dois mais do que ela, mesmo que de uma forma pouco ortodoxa.
Elena sabia o que precisava fazer para ter sua vida de volta, e agora parecia disposta aquilo. Levantou-se da cadeira, deixando seu café frio sobre a mesa, subindo as escadas em direção ao seu quarto. Abriu o guarda-roupa, retirando todas as roupas de Peter e jogando-as dentro de uma mala sobre a cama, pronto para tirá-lo de sua vida, custe o que custasse.

respirou fundo, encarando o portão metálico.
Arrumou a alça da mochila que caía de seus ombros, olhando para baixo por alguns instantes, incerto do que estava fazendo.
- Vai dar certo, .
Virou-se para o homem, concordando com um aceno, antes de darem um passo, juntos, para dentro dos portões. faria aquilo, teria uma nova chance, uma que, infelizmente, a irmã não tinha dito. Precisava de um incentivo, um empurrão, e tinha o conseguido com seu pai, que tinha vindo de outro estado no mesmo momento que o filho ligou, contando tudo o que tinha acontecido.
Tim ficou surpreso por um momento, embasbacado com tudo o que tinha acontecido e ele não sabia. Não tinha tanto contato com os filhos desde que tinha se separado de Elena e se mudado para Califórnia, mas sempre que conversava com eles os dois pareciam bem, nunca imaginou que pudessem estar naquela situação.
Sentiu-se responsável por nunca ter sugerido que fossem morar com ele, deixando Nova York para trás e começando uma nova vida em São Francisco.
O que mais o deixou revoltado foi saber que em nenhum momento sua ex-esposa tinha considerado contar-lhe que os dois filhos estavam viciados em drogas pesadas, menos ainda que tinham saído de casa. Ninguém nem mesmo lembrou-se de ligá-lo para avisar sobre , Tim perdeu o enterro de sua própria filha.
Não pensou duas vezes antes de pedir alguns dias de licença no trabalho e voar para NY, para buscar , nem mesmo considerando deixá-lo daquele jeito.
conversou com o diretor da clínica por longos minutos, concordando em ficar internado por alguns meses, dando um passo de cada vez, até saber que estaria bem novamente, pronto para continuar sua vida de onde tinha parado.

tinha ficado feliz pelo amigo, achava que ele merecia uma segunda chance na vida, e Califórnia parecia um lugar adequado para aquilo, já imaginava-o bronzeado e com uma prancha de surf debaixo do braço. Conversavam por mensagens toda semana, e contava o essencial para não deixá-lo mais nervoso do que já estava, com a falta de cocaína que ele estava, era difícil, mas não impossível.
Dizia estar seguindo o mesmo passo, procurando ajuda e, aos poucos, deixando tudo de lado, mas era mentira.
A única coisa que lhe passava pela cabeça era vingança.
Não deixaria as coisas daquele jeito, não conseguiria seguir em frente sabendo que um dos maiores responsáveis pelo o que tinha acontecido com sua namorada estava livre, tranquilo.
soube que Elena tinha colocado Peter para fora de casa, e como resposta ganhou uma visita ao hospital, mas conseguiu, por fim, livrar-se dele após pedir uma ordem de restrição.
O problema era que agora ficava muito mais difícil para descobrir onde o homem estava morando e seus horários.
Demorou mais do que ele gostaria, semanas que pareceram meses, nos quais para conseguir favores, teve que fazer outros.
E foi depois de entregar alguns papelotes que descobriu que Peter tinha sido preso dias antes, por dirigir embriagado e causar um acidente.
Precisou de quase uma semana para decidir o que faria, era um plano arriscado, mas achava que valia à pena, merecia aquilo.

I don't fancy american candy

esperava por Brennan em uma praça deserta, sentado em um banco, relaxado.
As mãos nos bolsos da jaqueta escura, mexia a perna ansioso, incomodado com a demora do outro. Quando Smiley apareceu, quase quinze minutos após o combinado, entendeu o motivo; o amigo estava completamente chapado.
Rolou os olhos, pouco importando-se com o estado do outro, na verdade, até achou que facilitaria as coisas.
tinha tudo calculado, e agradeceu mentalmente por Brennan estar alto demais para perceber alguma coisa.
Um cara encostado em uma moto encarava os dois a pouca distância, fumando um cigarro enquanto parecia esperar alguém.
pegou o maço dentro da sacola que Brennan empurrava de qualquer jeito, demorando alguns segundos para guardá-lo embaixo da jaqueta, conversou por alguns instantes com o outro, vez ou outra olhando para o homem próximo à moto.
Virou-se para ir embora, e então o viu, pelo canto do olho, jogar o cigarro no chão, falando algo que ele não entendia com aquela distância, mas poucos segundos depois, mais dois homens apareceram, empunhando armas e apontando para e Brennan, os quais apenas levantaram os braços, sem dizer nada.

aproveitou a distração dos guardas no refeitório, levantando-se assim que terminou o almoço, carregando a bandeja junto com ele. Viu dois homens levantarem-se, olhando-o, antes de começarem uma briga com outro preso.
Ele só precisou de um minuto, no qual os guardas correram para separar a briga que começava, os outros presos levantando-se para ver melhor.
Peter virou-se para olhar, apoiando as mãos na mesa metálica para levantar, mas logo sentiu um aperto em seu ombro, olhou para cima em tempo de ver a o encarar com um sorriso sacana nos lábios finos;
- Como vai, Peter?
- Como você…?
Não terminou a frase, logo sentindo algo furar-lhe a garganta. Levou as duas mãos ao local, sufocando no próprio sangue.
Um preso gritou, um guarda virou-se, sentiu algo arder em suas costas, caindo de joelhos, enquanto outros tentavam socorrer Peter, caído ao chão com o sangue ao redor. ainda conseguiu vê-lo parar de se mexer, antes de ser empurrado pelo corredor, sendo arrastado até a solitária.
Sorriu sozinho ao notar que não importava-se, na verdade, até achava um bom lugar para se estar, sendo deixado com o peso de suas escolhas e a certeza que não sairia tão cedo daquele lugar.




FIM.





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