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09. Favorite Record






Capítulo 1


Balançava-me em minha cadeira enquanto escutava a um de meus discos preferidos, planejando acordes em minha mente. Essa era uma mania que nunca perderia. Batia os dedos no braço, com os olhos fechados apenas sentindo a música dominar meu corpo. Era uma sensação gostosa e uma das coisas que trazia comigo desde a infância. Foi então que um som mais alto se destoou das batidas ritmadas, a primeira vez, fez com que meus olhos se abrissem, procurando qualquer sinal de veracidade naquela cena. Mas logo as pálpebras se fecharam novamente, mais dois toques. Não podia ser um fruto de minha imaginação. Mesmo com o pesar da idade, a imaginação jamais me traíra. A não ser, é claro, no auge da juventude com amores platônicos, no qual me deleitava, entregava-me para depois ter o coração partido. Levantei-me praguejando sobre qualquer fosse a visita que interrompera o melhor rock que ecoava pela pequena casa.
Ao abrir a porta, pude sentir minhas pernas fraquejarem por um momento, apoiei-me no batente, apenas analisando cada detalhe do rosto da mulher. Os fios grisalhos esvoaçavam com o vento vindo da área externa. Eram aqueles traços que atormentaram meus pensamentos por tantos anos. Possuía em mãos, um papel e no rosto um, sorriso sutil. No mais intrínseco de meu peito, o coração disparou e pela primeira vez nesta década, soube que era de uma maneira boa. Senti um calor percorrer meu corpo enquanto continuava a examiná-la. Sua pele perfeita tinha dado lugar a rugas finas, o seu nariz bem desenhado, continuava da maneira que me lembrava. Ah, e a boca. Os mesmos lábios carnudos que não permitiriam esquecer de nenhum dos beijos que ali depositei. Continuava linda. Como provavelmente, nunca deixou de ser. Então permiti que um sorriso surgisse em minha face.
- Uau, , você continua exatamente igual. – Permiti-me dizer, enquanto fazia sinal para que entrasse. – Talvez um pouco crescida. – Adicionei.
- Você também não mudou tanto, . – Viu a porta bater atrás de si.
- E a que devo a honra de sua visita? – Perguntei fazendo sinal para que ela se sentasse.
- Saudades. – Respondeu simplesmente.
Trouxe da cozinha duas xícaras de café. Aconcheguei-me ao lado de , antes de responder qualquer coisa.
- Senti sua falta também.

Passamos algum tempo jogando conversa fora, em assuntos que iam desde relacionamentos até banalidades como jogos, sempre nos dispersando em meio a histórias divertidas que vivemos nestes anos afastados. Pude jurar me perder naqueles olhos cintilantes que mesmo tendo visto tantas coisas, não perderam o encanto.
- ... então ele morreu. – Concluiu um pouco menos empolgada.
Passou pela minha cabeça o dia que esbarrei com ela, no mercado. Estava acompanhada por um homem alto, bem vestido, então conversamos um pouco na fila, mas foi algo tão breve, que não pude matar a saudade.
- Sinto muito. – Respondi com a cabeça baixa, passando os dedos pelos nós de .
- Já faz tempo. – Explicou. – E quanto a você?
- Nada demais. – Ela direcionou o olhar ao quadro que continham um retrato meu ainda jovem, com dois garotos brincando com sorrisos estampados em seus rostos. – Ah, me separei dela. A maldita ainda está viva, acredito que esteja, não tenho notícias desde que parei de pagar a pensão. – Ri.
- E desde então... Não se relacionou nenhuma outra vez?
- Nenhum outro relacionamento deu certo. – Conclui.

Os discos se esparramavam por cima de meu lençol branco, sem vida. Nós passávamos a mão por eles e cantarolávamos algumas canções. Estar com ela era com uma máquina do tempo, que me transportava para um passado distante. Mas foi quando toquei aquele disco, que senti borboletas se formarem em meu estômago. E, por Deus, há quanto tempo não sentia isso. Suas mãos entrelaçaram-se as minhas, sorriu em concordância.
Encaixei o disco na vitrola, então ele passou a girar. E ao soar da primeira nota, tive noção da efemeridade do tempo. Momentos como esses que dançavam pela minha mente, são o que me reavivam.
- Você se lembra, ?
Ganhara a pouco um carro de meu pai, um possante na cor rouge, obviamente já sabia dirigir devido aos anos de prática com o carro do velho. Então não hesitei em girar a chave, escutar o ronco alto do motor que começava a aquecer. E em alguns minutos já estava no asfalto, com o vento indo contra meu rosto. Tinha destino certo. Conhecia bem as curvas daquela cidade, seus detalhes e por isso cheguei em poucos minutos na bela casa. Buzinei alto, esperando que o carro fosse rápido o suficiente para que eu conseguisse fugir do pai de , no caso de ele tentar me perseguir. Ela olhou pela janela e em pouco tempo já estava ao meu lado, com suas bagagens mãos. Seus cabelos presos em um rabo de cavalo alto. Uma meia alta na cor branca cobria suas pernas, uma tiara se destoava dos fios da menina e seu vestido de corte reto, acentuava poucas de suas curvas.
- Ó, meu Deus! – Deixou o queixo cair, enquanto analisava o automóvel. – Qual é a desse carango?
- Presente. – Fez uma pausa - Não vai me desejar um feliz aniversário? – Curvei o canto de meu lábio de maneira mais explícita.
Ela atirou-se ao meu lado. Em silêncio.
Um completo silêncio.
O sorriso desformou-se, então girei a chave novamente, levando comigo uma expressão sisuda e todo o ressentimento pela sua indiferença. Passamos por uma lombada ou outra, nossos corpos balançavam e essa era a única agitação, durante aquele silêncio tão incomodo. não podia evitar um sorriso sapeca estampado em seu rosto, mas não via isso, não sentia isso. Aquelas palavras, ou melhor, a falta de palavras, me entorpeciam de tal maneira que assim que cheguei à estrada, em um ápice de lucidez, freei como pude.
gargalhou alto.
Alto demais.
Meu olhar expressava uma completa confusão e isso fazia com que seus olhos brilhassem ainda mais.
- Só dirige até o café, . – Concluiu um pouco mais séria.
Era isso.
Uma surpresa. Uma festa surpresa no café.
Sorri de um jeito malandro. Obedeci-a, mesmo ainda tendo a esperança que ela se viraria e preencheria meu corpo de beijos.
Assim que estacionei o carro, me preparei para fazer a melhor reação de surpresa que eu poderia. Era algo interno que dependi só de mim e que ela não poderia ver. Abri a porta do café. Nada.
- Já podem sair, pessoal, eu sei que estão aí.
- Ficou louco, ? – Riu colocando as mãos sobre a barriga.
- Esta não é uma festa surpresa? – Perguntei e então o riso baixo tornou-se uma gargalhada alta.
- Ora, não se valorize tanto, querido.
Meu sorriso sumiu. Dando lugar a uma expressão triste. Então era isso. Ela não se importava com o meu aniversário.
Indignado com a situação girei sobre o eixo de meus calcanhares e em passos nada suaves, caminhei em direção a porta de vidro, decidido a deixa-la ali. Foi aí que senti uma mão tocar meu braço.
- Você está bem? – Abaixou o olhar.
- Não, , eu achei que hoje fosse passar o melhor aniversário de toda minha vida e você sequer se importa.
- , presta atenção nesta cafeteria.
No tempo em que estive ali, não observei nenhum detalhe. Estava esperando por uma surpresa, esperava luzes apagadas, pessoas escondidas e todos comemorando o meu aniversário. Foi por isso que não percebi.
Os quadros estavam perfeitamente dispostos pelo salão, eram fotos de meus cantores preferidos. As letras de minhas músicas preferidas. Fotos e discos espalhados pelas mesas. E a música. Tocava a nossa música. Como não pude perceber aquilo? Não havia mais ninguém lá. Somente eu, ela e aquela meia-luz que iluminava apenas o necessário, a decoração e seu rosto fino.
- Realmente achou que eu não me importaria? – Envolveu meu pescoço com os braços.
Começamos a nos movimentar lentamente, olhando-nos fixamente. Cheguei a me perder em meus próprios pensamentos apenas admirando tamanha beleza. Mergulhado em seus olhos encantadores. Apreciando o sorriso tão lúdico que ela esbanjava.
curvou seus lábios, fitando a mim como se eu tivesse perdido uma parte importante da história que seus olhos contavam. Pedia que eu fizesse algo. Que eu dissesse algo. Mas essa era a vez de ela tomar uma atitude.
Afastou-se de meu corpo, andando em direção ao balcão, trocou meia dúzia de palavras com o único atendente que ali estava. Ele sumiu para voltar com um bolo em mãos.
- Fui eu quem fiz. – Comentou simplesmente.
- Deve estar ótimo, . – Permiti-me abraça-la de lado, enquanto cortava o bolo e fazia um pedido.
- Quando aprendeu a fazer isso? – Perguntei degustando um pedaço do bolo com o indicador. – Digo, cozinhar?
- Somos criadas para isso, . Eu cresci sabendo cozinhar. – Rolou os olhos.
Após alguns segundos trocando olhares vazios. Ela interrompeu:
- Agora cala a sua boca e faça um desejo.
Fechou os olhos e desejou. Desejou que aquela canção que ecoava em sua mente, saísse de sua boca. E que todos os seus esforços, fossem recompensados com um toque dos lábios macios de .
Quando levei uma garfada de bolo à boca, percebi como a menina me conhecia perfeitamente. Era de maracujá. Um delicioso bolo de maracujá. Sem chantilly, porque isso me dava ânsias. Era tão doce quanto seu sorriso e tão delicioso quanto suas curvas.
Sorri.
Há quanto tempo eu a conhecia? Três semanas. Pouco mais de três semanas. E já sentia por ela algo que ninguém conseguiu provocar em mim em tantos anos. Era diferente com ela. Era real. De verdade. Algo que fundia o desejo iminente e o sentimento durador.
Limpei seus lábios, que possuíam uma camada de cobertura não necessária. Em seguida depositei um beijo em sua testa.
Não costumava a gostar de viagens longas. Ir a fazenda era algo que preferia evitar, até conhecer ela. Podia passar anos dirigindo apenas para olhá-la pelo retrovisor. Escutá-la cantarolar e me divertir junto a ela. Aquilo poderia durar para sempre.
Passamos tempo demais no café. Á noite já caia e sequer havíamos nos afastado da cidade. Dirigir sob a escuridão não era a melhor ideia. Não queria que nada acontecesse conosco. Por isso estava decidido a andar poucos quilômetros, apenas o suficiente para podermos nos deitar em um lugar seguro e afastado, para descansar.

Estacionei próximo a um morro com flores esvoaçantes. acomodou-se no banco traseiro. Peguei um cobertor grande o suficiente para aconchegar a mim e a . Tomei-a nos braços envolvendo-a em um abraço gostoso. Sua cabeça encaixada em meu peito, minhas mãos tratavam de fazer um cafuné em seus cabelos.
O céu se coloria em tons de roxo, em meio a madrugada gélida, as estrelas não eram tão visíveis quanto se esperava.
- Quando chegou a cidade imaginava que as coisas seriam assim? – Perguntei simplesmente.
- Nunca poderia imaginar. – Sorriu.
- E isso é bacana?
- Melhor que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. – Fez uma pausa para me encarar. – Sabe o que é engraçado?
- O quê? – Arqueei uma de minhas sobrancelhas.
- Que quando cheguei àquele colégio, tantas pessoas falavam de você. Eu esperava um cara deslumbrante, extrovertido... Então conheci você.
- Sou deslumbrante! – Forcei um arrependimento.
- E tímido. – Riu baixo. – Todo atrapalhado, com um sorriso que o mundo inteiro invejaria, divertido, sim, mas sem forçar a barra. É diferente, de qualquer um que eu pudesse imaginar.
- Pelo menos concorda com o deslumbrante. – Sorri.
- Besta. E você? O que achou de mim?
- Não sei. Primeiramente um rostinho bonito, mas uma estranha. Bem estranha. Aí nos esbarramos. Conheci uma menina que entende de música, de carros, mais estranha do que eu imaginava. – Ela me olhava com as sobrancelhas altas. – E foi por você que mudei o meu conceito de estranha.
- Qual é sua nova definição? – Voltou a me encarar.
- Estranha. É diferente. Única. Original. – Deslizei minha mão por sua bochecha. – Extraordinária.
- O que é isso? – Perguntou quase gritando.
- Algo que é diferente do ordinário. Anormal. Fora do normal. – Expliquei como se fosse óbvio.
- Não, seu otário. – Riu – Escuta.
Tocava aquela música que ecoava em minha mente por dias.
Aquela música que podia perdurar por anos a fios em minha mente. Arregalei os olhos. Como? Meu Deus. Ela me puxou para fora do carro.
Então a girei. Uma. Duas. Três vezes. Começamos a dançar. Mas eu só desejava que ela prestasse atenção naquela letra. Para que eu não precisasse dizer aquilo a ela. Eu não conseguiria e sabia disso.
- Acho que tenho uma nova música favorita. – Sorriu. – Quem é ela?
- Mais bonita do que em meus sonhos. – Sussurrei em seu ouvido.
“Sua presença aquecia meu ser,
Poderia dançar, amar e morrer,
Apenas tendo a honra de te conhecer,
Entrou em minha vida mais rápido que um furacão.
E virou de cabeça para baixo o meu coração,
Mas antes de minha amada, era minha melhor amiga.
Um alguém a quem devo a minha vida.”
- Sabe quem é ela? – Perguntei próximo demais de seu rosto, para continuar a me controlar. Nossos narizes se tocavam e nossas respirações se misturavam, sentia o ar quente em minha pele e a fragrância de seu perfume adentrar minhas narinas.
Então alcancei seus lábios voraz. Era o gosto de ter sua língua na minha. Seus lábios recostados nos meus. Podia congelar aquele momento para sempre. Eu guardaria aquele momento para sempre. Então sua língua girou, girou e girou. E com ela a sensação que percorreu meu corpo.
- Acho que sei. – Curvou os lábios novamente, daquela maneira que eu não resistia.
Quando o beijo acabou, eu não sabia o que fazer, era como se o que me completasse segundos atrás, não estivesse mais em mim. Nos afastamos por algum tempo.
- Acho que essa vai ser a melhor viagem do século. – Sorriu.
- Eu tenho que concordar. – Selei nossos lábios mais uma vez.
A música ainda ecoava no ambiente. Mas foi naquele segundo que eu tive a certeza que ela ecoaria para sempre em minha mente. Eu jamais esqueceria os detalhes daquela noite.
- , você ainda não dançou. – Não era mais a nossa música que tocava. Era qualquer outra.
Comecei a me balançar, travado demais, fazendo com que ela sorrisse. Pegou minhas mãos e então, foi ela quem me girou, girou e girou.

Estava girando, como seu disco preferido fazia. Em meus braços. Eu amava vê-la girar daquele modo.
- Eu jamais me esqueceria. – Sorri.
- Ainda é o meu disco favorito. – Ela completou, então nossas mãos se entrelaçaram.
Chega um ponto em sua vida, que os meses se assemelham as semanas, as semanas aos dias e os dias, passam tão rápido como os minutos. Então chega o momento em que percebe que deixou de fazer tantas coisas, mas não se sente vazio. Afinal, seus planos mudaram. Mas sempre terá em você algo dos bons tempos, da sua juventude, da sua casualidade.
Depositei um beijo em sua testa. Inalava seu perfume, algo além da essência que usava, estava em sua natureza, seu odor natural. Então nossos lábios se selaram como anos atrás e eu me senti jovem novamente, o calor percorreu meu corpo da mesma maneira. Eu me senti tão vivo.
- Amo te ver girar...


Fim.



Nota da autora: (07/12/2015)
Oi, oi, minhas lindinhas, espero que tenham gostado de Favorite Record, foi uma música bem gostosinha de trabalhar, ainda mais com a ajuda da Bella Fontaine e da Faith, que praticamente escreveram o roteiro dessa história, então nada mais justo que agradecer a elas. A ideia era mostrar um casal que se reencontra depois de anos, com toda uma história formada sem o outro, mas que nunca se esqueceu do relacionamento da juventude. Espero que tenham se divertido. Eu escrevi ela bem rapidinho, porque entrei atrasada no ficstape. E só tenho a agradecer a todas que estão aqui lendo, as que participaram do ficstape e a Polly por ter feito a capa. Aliás, muito obrigada por ter chegado até aqui. E se quiser/puder, deixar um comentário aqui em baixo, eu ficarei muito feliz. É sempre bom saber que alguém gostou do seu trabalho. – Ps.: Eu tenho uma fanfic no mesmo estilo, chamada Bem-Vinda a Graceland, quem sabe vocês não dão uma passadinha lá.
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Lavínia Mitiko
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