Finalizada em: 25/05/2017




Capítulo Único


- Ó fortuna; Velutluna; Statuvariabilis; Sempercrescis; Autdecrescis – As mulheres entonavam, todas num círculo, com no centro, rolando os olhos para aquela estupidez sem tamanho. Era tão obvio que aquilo não ia funcionar, como elas não viam? – Vita detestabilis – Quando elas entonaram o último verso do feitiço, baixando todas elas a mão esquerda com força na direção da garota, um relâmpago iluminou de maneira sombria o céu escuro acima das cabeças delas. manteve a mesma expressão cética, com as mãos de suas companheiras bruxas pendendo acima de sua cabeça.
- Não é um demônio. Não dá para exorcizar. – Ela resmungou, se sentindo no mínimo repetitiva depois de falar aquilo mais vezes do que podia contar. Era ridículo que elas realmente pensassem que podiam fazer o sentimento da garota por ir embora daquela forma, com um feitiço. – Podemos entrar agora? Vai chover. – Reclamou, vendo as nuvens parecerem cada vez mais tensas no céu, mesmo sem precisar de fato olhar para saber disso.
Como bruxa, ela tinha uma ligação muito forte com os quatro elementos, podia sentir cada um deles se pronunciar, do seu próprio jeito, quando uma tempestade estava chegando. Como a que aconteceria aquela noite, dali a muito pouco tempo. Não que suas companheiras de clã não soubessem daquilo tanto quanto ela.
- Nunca vai dar certo se você não acreditar. – Gal, uma das três fundadoras, lhe encarou séria, deixando claro que devia levar aquilo a sério, ou as consequências seriam graves. Não que aquilo fizesse a garota sentir receio ou medo, não fazia. Por sorte ou azar, ela era atrevida demais para que até mesmo Gal pudesse contê-la.
- É uma pena. – Retrucou, deixando claro, no entanto, que não achava nada uma pena com o tom irônico da voz. – Eu não acredito.
- Mas acredita que isso, com esse garoto, pode dar certo? – Gal insistiu, arqueando as sobrancelhas como se aquilo fosse, de alguma forma, fazer refletir e se dar conta da loucura que estava fazendo. Se envolver com um humano, desenvolver sentimentos por um humano, não era só mal visto, mas também era contra as regras no mundo das bruxas. O único contato que devia existir com eles era no momento da reprodução, para garantir a perpetuação da espécie, e nada mais. – Pouco inteligente. – Declarou no fim das contas e, novamente, rolou os olhos, se pondo de pé e saindo do meio do círculo que as mulheres ainda formavam a sua volta, deixando claro assim que não ia mais colaborar com aquela estupidez.
Ela não ligava para o que era contra as regras, não quando o assunto era . Sabia das consequências de seu relacionamento com o garoto e deixara claro para ele também desde o início e até tentou se afastar, tentou proteger a si mesma e ao seu clã do que aquilo poderia vir a significar caso fossem descobertos, mas ter encontrado a pessoa certa, algo que, aliás, ela tinha certeza que nunca acontecera para a maioria daquelas bruxas, e simplesmente não poder mantê-la por perto não era para . E a garota nem era romântica, ao contrário do que podia parecer. Ela era orgulhosa, era teimosa como o inferno e aquilo sempre lhe angariou muitos problemas, mas ela também era esperta. Sabia distinguir as batalhas que valiam a pena e valia. era o amor de sua vida.
- Você não dá as costas ao seu clã, . – Amélia repreendeu, fazendo um arrepio alcançar a espinha da garota que parou, de costas. Amélia, junto com Gal e Tracy, formaram aquele clã, foram aos poucos, acolhendo cada uma daquelas bruxas que moravam com elas, lhes dando todo o suporte de que podiam precisar para se tornarem as melhores bruxas possíveis.
Gal era severa, Tracy era seu oposto, doce como uma mãe, já Amélia era silenciosa, observadora de um jeito quase perigoso e, quando abria a boca, deixava as meninas tensas sem que fosse preciso muito mais que aquilo.
- E quanto ao meu clã? – Ela perguntou, baixo, girando nos calcanhares para encarar Amélia. Sua postura já não era mais tão confiante quanto antes, mas nem ela iria lhe fazer desistir, tirar dela aquilo em que acreditava, que sentia e por sentir sabia que era real. – O meu clã pode dar as costas para o que eu estou sentindo, Amélia? – Ela perguntou, arqueando as sobrancelhas em desafio, embora seus olhos imprimissem outra coisa. Ela estava decepcionada.
Amélia não falava muito, portanto era difícil saber qual era sua opinião na maior parte das coisas, mas definitivamente não esperava por aquilo, que ela fosse apoiar aquela loucura de suas irmãs, acreditar que o que ela sentia era tão frágil que um feitiço bobo e um pedido para a lua poderia fazer desaparecer. Droga, se fosse.... Se fosse fácil assim, já teria dado um jeito naquilo muito antes, será que não entediam?
- Seu clã nunca te abandonou. – Amélia insistiu, imponente. – Mas não podemos apoiar o que quer fazer. Sabe que é errado e sabe das consequências.
- Não quero fazer. – Ela sussurrou, balançando a cabeça, sentindo-se cansada. – É o que eu sinto e, por mais decepcionante que isso possa ser para vocês, não dá para controlar. Eu teria feito isso se pudesse.
- Sinto muito, , mas você se deixou envolver. Não há outra pessoa que possamos culpar e precisamos resolver isso. O quanto antes e de maneira definitiva. – Amélia retrucou, incisiva. não precisou de muito mais para entender o que ela estava insinuando e balançou a cabeça, rindo desacreditada.
- Você só pode estar louca. – Praticamente cuspiu. – Todas vocês.
E, sem esperar por uma nova tentativa de rebater, de qualquer uma delas, deu as costas, correndo para dentro da casa e, em seguida, para seus aposentos.

+++


De madrugada, chovia intensa e initerruptamente.
estava deitada, adormecida, em sua cama, no quarto que dividia com mais três bruxas, presa numa realidade confusa e de certa forma pesada em seus sonhos.
O ruído da chuva parecia mais intenso, como se o volume de todo o resto houvesse sido posto no mínimo para que ela pudesse se concentrar nele. Mais baixo, quase como um sussurro, ela podia ouvir ainda as outras bruxas sussurrando o mesmo feitiço de antes. Ó fortuna; Velutluna; Statuvariabilis; Sempercrescis; Autdecrescis; Vita detestabilis. De novo e de novo.
Seu coração estava acelerado quando apareceu em sua mente, seus olhos lhe encarando gentilmente e sua voz serena cantando para seu coração, tornando a cabeça da garota uma confusão quando a imagem mudou e sumiu depois que ela sorriu para ele, esticando a mão para alcançar seu rosto quando ele se inclinou para beijá-la.
As vozes de suas irmãs ainda estavam lá, repetindo o feitiço incansavelmente, mas estava sozinha na floresta, com a cabeça erguida, conseguindo ver mesmo por entre as árvores mais altas o céu cinza, pesado. Com um beijo, o cinza tomou a imensidão de cima de sua cabeça e se sentia perdida, olhando para os lados, alarmada de um momento para o outro, como se estivesse em busca de algo. Seu coração se apertava cada vez mais, e, então, sem nenhum tipo de aviso prévio, a imagem em sua mente mudou de novo, um caldeirão apareceu por um breve período de tempo, de modo que mal o observou antes de ver jogado numa masmorra escura, com um machucado em sua testa, fazendo um filete de sangue descer pela lateral de seu rosto.
E então, num sobressalto, ela acordou.
Respirando com dificuldade, a garota levou a mão ao amuleto que queimava em seu peito, preso ali por um cordão que ela mesma fizera. tinha um igual e, de repente, ela sentiu o medo dominar cada pedaço de seu corpo e mente, lhe deixando paralisada por um segundo.
Alguma coisa devia ter acontecido com .
Passando a mão pelo rosto, como se o gesto fosse trazer alguma clareza aos seus pensamentos, se levantou, caminhando para fora do quarto, em direção ao banheiro.
Seu amuleto não parava de queimar.
A bruxa jogou um punhado de agua no rosto, respirando fundo mais vezes do que podia conter, com os olhos fechados. Seu peito ardia com o amuleto quente tocando a pele e, novamente, ela levou a mão até ele, o segurando longe da pele, apertando a mão ao redor do mesmo. Precisava pensar direito se queria ter certeza do que estava acontecendo, se queria garantir a segurança de .
Quando ela voltou para o quarto, mais uma cama além da dela estava vazia, mas presa no próprio nervosismo e tensão, a garota sequer notou, mexendo em suas coisas até encontrar, embaixo de tudo, o que estava procurando. Um aparelho pequeno, extremamente ultrapassado, de telefone. Aquilo, na verdade, não era algo que ela se quer podia ter, mas aquilo se quer era relevante no momento. Só mais um de seus segredos.
Por fim, depois de olhar em volta para garantir que todas as garotas estavam dormindo, ela voltou a se concentrar no telefone, discando o número que sabia de cabeça, do celular de . Depois de vários toques, a chamada foi para a caixa postal e ela tocou novamente o amuleto, mais quente do que nunca.
Alguma coisa definitivamente acontecera com .
Nervosa, a bruxa massageou as têmporas, escondendo novamente o celular. Precisava manter a calma, ter certeza que sabia o que estava fazendo quando finalmente agisse, mas, por outro lado, não podia demorar muito. Não sabia o que havia acontecido a e nem quanto tempo tinha.
Depois de respirar fundo pelo que lhe pareceu a milionésima vez, deixou novamente o quarto, seguindo até a cozinha, passando pelo corredor escuro e silencioso da casa, já que era madrugada e todas as outras bruxas dormiam. Ou, pelo menos, aquilo era o que a garota achava.
- . – Soltou, surpresa, quando viu a bruxa mais nova já na cozinha, sentada a mesa com uma xicara de algo quente em mãos. Pelo cheiro, devia ser chá.
ergueu o olhar para lhe encarar, se pondo rapidamente de pé.
- Eu...
- Está tomando um chá. – a interrompeu, dando de ombros. – Não tem que explicar tudo que faz.
era a mais nova das bruxas na casa e gostava dela, o que era novo, já que ela não gostava de muita gente, mas havia algo sobre ela. Sua aura, talvez. Não era como se soubesse explicar.
- Claro. – balançou a cabeça, como se aquilo fosse obvio, e voltou a se sentar, ainda um tanto inquieta. rolou os olhos, mas não falou nada, se ocupando de encher uma xicara com café. Café lhe acalmava, ia lhe ajudar a pensar. – Está tudo bem? – perguntou, cuidadosa, depois de um instante em silêncio e desviou o olhar para ela, estreitando os olhos como se perguntasse o motivo da pergunta. mordeu o lábio, sem jeito. – Você parece nervosa.
suspirou e virou para encará-la, se aproximando e sentando de frente para ela na mesa ao pousar os olhos nos seus, tentando decidir se confiava o suficiente na garota para contar. parecia inocente, inocente demais até e era aquilo que incomodava , que a fazia hesitar em falar. Não confiava mais em seu clã, por mais que aquilo doesse, já que, mesmo que nunca fosse admitir em voz alta, precisava de uma amiga, especialmente agora. Tinha medo de simplesmente falar para sobre o sonho, sobre o amuleto, e ela acabar contando para as outras, porém.... Tinha medo de tantas coisas agora, os pensamentos rumavam em direções tão opostas, o tempo inteiro, lhe deixando tão confusa quanto frustrada. Ela queria falar, queria que alguém lhe ajudasse, lhe dissesse o que fazer.
- Estou sempre nervosa. – murmurou por fim, no entanto. Era de sua natureza, afinal de contas, desconfiar. – Não é nada demais.
- Tem certeza? – insistiu e arqueou as sobrancelhas, sentindo a desconfiança aumentar, mas tudo que parecia demonstrar era preocupação. Talvez valesse a tentativa. Talvez.
- Tive um pesadelo. – Ela sussurrou, olhando em volta antes de continuar, tentando garantir que ninguém mais as ouvia. – Com o .
não disse nada e suspirou de maneira pesada, sabendo que não tinha mais como voltar atrás agora, começando em seguida a contar tudo, o pesadelo, o amuleto, o celular, tudo.
A bruxa mais nova não falou nada quando ela terminou, parecendo ainda estar absorvendo as palavras. esperou, ainda sem ter total certeza quanto ao que estava fazendo, aquela ideia de confiar na outra. Até onde sabia, ela podia estar cometendo um erro muito grande e logo todos os seus segredos estariam nas mãos do resto do clã, mesmo que algo dentro dela lhe dissesse que não era assim, que podia confiar nela.
Novamente, era sua reação natural desconfiar.
- Precisa encontrá-lo. – disse por fim, voltando a focar em , estendendo uma das mãos para tocar a sua em cima da mesa, como se tentasse lhe dar forças. suspirou, encarando suas mãos.
Odiava se sentir assustada e quase sempre conseguia evitar a sensação, mas quando se tratava de .... Não dava para fazer muita coisa. Ela só queria garantir que ele ficaria bem, o que precisava fazer para isso nem importava.
- Acho que ele foi sequestrado. – Ela murmurou. – O sonho... O amuleto.... Meu amuleto é enfeitiçado, eu o enfeiticei. Queria poder protegê-lo quando ele não estivesse perto e acho que o sonho foi isso, foi meu amuleto tentando me avisar. Avisar que precisava encontrar ele. – Contou e assentiu rapidamente.
- É, é, faz sentido. – Falou, mordendo o lábio antes de se levantar. – Vou te ajudar. – Decidiu, de súbito, fazendo a outra bruxa lhe encarar com um misto de surpresa e confusão.
- O que.... Como...?
- Com o que você precisar. – a interrompeu, dando de ombros. Ela parecia num meio de um surto, andando de um lado para o outro na cozinha enquanto falava. – Seu amuleto vai te guiar, então o caminho não será um problema, mas acho que a gente precisa preparar uma sacolinha para você. Você vai precisar de uns apetrechos. – virou para encarar , que estreitou os olhos, surpresa com o suporte. Aquela garota estava mesmo disposta a trair o próprio clã para ajudá-la?
- Por que está fazendo isso, ? – Perguntou, sem rodeios. Rodeios não eram o forte de também.
Parecendo precisar de um segundo para entender a pergunta, piscou, parando no meio da cozinha e virando em seguida para encarar , que sustentou seu olhar, esperando uma resposta. A mais nova engoliu em seco, parecendo só então se dar conta do que estava fazendo. Fazia sentido entrar naquela batalha, ela estava apaixonada, mas .... Aos olhos de qualquer outra pessoa, ela era simplesmente louca, além de mal-agradecida.
- Porque você precisa de ajuda. – Murmurou por fim, soando pouco convincente até para ela mesma. apenas arqueou as sobrancelhas em resposta, deixando claro que não acreditava e suspirou, se dando conta que não tinha como fugir. E talvez nem devesse. fora honesta com ela, ela devia pelo menos ter a decência de fazer o mesmo. – Eu sei como você se sente. – Confessou, fazendo estreitar os olhos, agora confusa. respirou fundo, continuando em seguida. – Antes de Tracy me trazer para viver com vocês, eu.... Eu me apaixonei. – Falou, cuidadosa. – Quebrei as regras, como você. Meu antigo clã... Bom, eu não gosto de falar disso, mas o fim foi feio. E elas conseguiram, sabe. Fizeram com o que acharam que precisavam fazer para salvar o clã, para me salvar, já que, na visão delas, era disso que eu precisava.
- Elas o mataram? – perguntou, vendo fechar os olhos, com algumas camadas de sombra caindo sob seu rosto e fechando completamente seu semblante. Era como se o peso do mundo inteiro caísse sob seus ombros.
- Nunca vou esquecê-lo. – confessou, num sussurro que fez praticamente sentir a dor dela, engolindo em seco quando ela abriu os olhos, agora vermelhos. – Estive correndo de sua sombra, tentando me curar, mas... Ele morreu. E não se passa um dia sem que eu pense em seu sorriso, seu olhar. – Confessou e mordeu o lábio, se sentindo mal com a tristeza quase palpável da garota, como se ela pudesse se esticar e tocar.
- As outras sabem? – Perguntou depois de um instante e lhe encarou sem aparentar entender a pergunta inicialmente – As outras bruxas daqui. Elas sabem sobre ? – Explicou e sentiu um aperto no peito com a menção do nome, não conseguindo evitar o bolo na garganta, como se fosse se debulhar em lágrimas a qualquer instante.
- Não. – Murmurou, se esforçando para se concentrar em e em suas perguntas. – Quando Tracy me encontrou, não perguntou muito, eu estava vivendo na floresta e ela me ofereceu abrigo. Foi só isso. – Explicou e assentiu, ponderando sobre o que ela dizia. respirou fundo. – O ponto é que eu sei o que você está sentindo, . Sei como é estar apaixonada e desejar não estar, mesmo que seja tão bom. Tudo que está em risco faz parecer que não vale a pena, você sente como se não tivesse ninguém do seu lado simplesmente por causa de quem você é e dessa regra estúpida sobre se apaixonar, como se fosse uma escolha. – soava triste, revoltada e angustiada. entendia, se identificava com cada uma de suas palavras, que pesavam sob ela como pedras presas aos seus pés enquanto se afogava.
- Não vou deixar ter o mesmo fim que , . – Prometeu, respirando fundo para conter as próprias lágrimas, com o bolo na garganta intenso demais para que ela tivesse certeza que aquilo daria certo. – Vou salvá-lo por nós duas, ok? – Murmurou, deslizando a mão pela mesa e tocando ela mesma a da mais nova dessa vez. fungou, sorrindo de maneira triste para suas mãos antes de erguer o olhar para .
- Você acha que foram elas? – Perguntou, fazendo piscar, sem entender o que ela dizia no primeiro instante – Acha que foi o seu clã que sequestrou o ?
Aquilo atingiu como um tapa na cara, a suspeita. Ela não havia realmente pensado na possibilidade, mas depois de elas terem tentado até mesmo um feitiço para exorcizar o sentimento de , aquilo bem que podia ser possível. Tão rápido quanto o pensamento veio, no entanto, o afastou. Havia muitas coisas que seu clã fazia para sobreviver, mas não eram capazes daquilo. Não achava que fossem.
- Não. – Respondeu, por fim, a . – Não acho que fariam isso.
assentiu, com a mesma expressão triste e apenas assumiu que ainda era por conta de , sem falar mais nada antes de respirar fundo e se pôr de pé.
- Vamos lá então. – Murmurou. – Preciso ir antes que as outras acordem.
- Vamos. – murmurou também. – Vou te ajudar a ficar pronta.

+++


passara o dia inteiro andando e basicamente brincando de quente e frio com seu amuleto para saber em que direção seguir até não aguentar mais andar, parando perto de uma cachoeira no meio da floresta, mais a dentro do que ela estava acostumada a ir, embora ainda estivesse familiar com aquela região também.
Fora onde conhecera .
Ela se sentou, com um suspiro cansado, perto de uma rocha e encarou a água, a luz da lua refletindo o balançar suave dela de um jeito um tanto hipnotizante. Suspirando de maneira pesada, a garota fechou os olhos. Tinha tanta coisa na cabeça, tantas perguntas, tantos medos, mas, de alguma forma, quando fechou os olhos seu cérebro lhe levou para o passado, desligando a bruxa de tudo que a afligia naquele momento, deixando para ela apenas a lembrança da manhã em que conhecera .

Meses atrás

caminhava apressada e levemente frustrada também, certa que já havia vasculhado a floresta inteira em busca da maldita erva, sem a qual não podia, de maneira nenhuma, voltar para casa. Não se não quisesse ouvir um sermão gigantesco de Gal sobre responsabilidade e cumprir tarefas.
Não que a garota entendesse qual era a importância daquela tarefa em especial, que lhe parecia mais um jogo de caça ao tesouro sem propósito do que qualquer outra coisa.
Foi quando chegou a cachoeira que pensou em desistir e enfeitiçar alguma outra planta para fazê-la parecer com a erva que Gal queria, embora no fundo soubesse que tentar aquilo seria no mínimo estúpido, levando em conta que Gal era uma das fundadoras de seu clã. Ela saberia muito bem reconhecer uma planta enfeitiçada, para o azar de , que se apoiou, cansada, na rocha ali perto.
Céus, provar seu valor, cumprir tarefas, demonstrar responsabilidade.... Tudo aquilo era um saco. Ser uma bruxa era um saco, exceto pela parte dos poderes, é claro.
- Ei, você está bem? – Perguntaram, de repente, atrás dela, fazendo com que a garota pulasse de susto, vendo em seguida, com a mão no peito, um rapaz se aproximar, os olhos claros chamando a atenção de antes que qualquer outra coisa.
- É claro que estou. – Resmungou, obviamente soando mal-humorada no percurso, mas não se importou. Estava mesmo mal-humorada. – O que está fazendo aqui? Tão dentro da floresta? – Perguntou, desconfiada, ao desconhecido.
Aquela floresta era traiçoeira, mudava aos olhos de quem via, os caminhos nem sempre eram os mesmos e era preciso ter toda certeza do mundo para andar por ali, o que, por sorte, tinha. Ela só não sabia quanto ao garoto em sua frente, levando em conta que ele era claramente humano e humanos eram completamente atípicos naquela região. Bruxas eram comuns, semideuses as vezes e, nos dias mais loucos, náiades, porém humanos não. Humanos naquela região estavam sempre enrascados.
- Hm, eu.... Podia perguntar o mesmo de você. – O garoto retrucou, dando de ombros com um sorrisinho que achou, no mínimo, pretensioso, rolando os olhos para ele.
- Se for esperto, não vai. – Falou simplesmente, desviando por um breve instante o olhar para a garrafa de água presa a cintura dele. Céus, estava com sede. Não olhou muito, seu orgulho simplesmente não permitia, mas a boca já estava seca de uma forma ou de outra.
- É, eu nunca fui acusado disso. – Ele devolveu, de forma brincalhona e o encarou como se ele tivesse algum problema.
- Está tentando me dizer que é burro? – Quis saber, genuinamente curiosa e o garoto riu.
- É claro que não. – Falou. – Eu pareço burro para você?
- Honestamente? – Ela arqueou as sobrancelhas, como se aquilo fosse resposta o suficiente, mas o desconhecido apenas sustentou seu olhar, deixando claro que não era. rolou os olhos. – Sim, você parece burro para mim. – Falou, sem pesar, já que ele obviamente estava pedindo para ouvir aquilo.
Em resposta, o garoto fez uma careta.
- Outch. – Reclamou – Estou magoado de verdade agora.
- Eu não tinha como me importar menos. – Ela retrucou, dando as costas. Ia percorrer todo o caminho de volta checando a folhagem e se, ainda assim, não encontrasse a erva, Gal ia ter que lhe perdoar, mas não ia ousar ir nem um pouco mais a dentro naquela maldita floresta. – Ah, garoto. – Parou no meio do caminho, olhando por sob o ombro para o desconhecido. – Não ficaria por aqui se fosse você. Essa floresta não é segura.
- Para burros como eu? – Ele retrucou, aparentemente sem levá-la nenhum pouco a sério e a garota rolou os olhos, voltando a lhe dar as costas para seguir seu caminho. Ninguém podia dizer que ela não avisara. – Ei, espera, você não me disse seu nome. – O garoto correu apressado atrás dela e ponderou se dava para fingir que não o escutara, decidindo que sim, já que ainda estava alguns bons passos à frente dele, seguindo em silêncio seu caminho. – Ei! – O garoto chamou mais alto, praticamente correndo para alcançá-la e bufou, sem acreditar naquilo.
- O que é?! – Perguntou, impaciente, parando subitamente de andar e fazendo com que ele esbarrasse em suas costas, quase indo ao chão por isso. se perguntou se tinha como ele ser mais estúpido, girando nos calcanhares para encará-lo. – O que você quer?
- Achei que a gente estava socializando aqui, por que simplesmente saiu assim?
- Eu não socializo. – Ela retrucou como se fosse obvio e ele fez bico, o que, por algum motivo, irritou mais do que ela era capaz de explicar. – Nossa, qual é o seu problema?!
- Ei, eu não disse nada. – Ele riu, obviamente se divertindo muito em deixar a garota irritada. – Vai me dizer seu nome ou o quê?
- Ou o que. – Ela retrucou, sem entender porque ele estava insistindo naquilo. – Preciso ir. – Avisou, voltando a dar as costas ao garoto em seguida e ele bufou.
- O meu é ! – Gritou, e, novamente, a garota rolou os olhos, com a impressão que estava fazendo muito aquilo, mas, ei não dava para culpá-la. O estranho era, no mínimo, um saco. – Já ganhei o direito de saber o seu? – Insistiu e ela acabou rindo da insistência, surpreendendo até a si mesma, já que não foi um gesto voluntário. sorriu com a visão. – Olha, ela tem dentes. – Brincou e ela fechou a cara novamente, o encarando como se ele fosse um idiota, o que, bem, ele era.
- Ganhou o direito de calar a boca. – Devolveu, não dando novamente as costas apenas para poupar a si mesma ter que ouvir outra gracinha assim que o fizesse. – Estou indo agora. – Avisou e fez bico novamente.
- Sem nome? – Perguntou, como se estivesse muito magoado com o desfecho.
- Sem nome. – Ela respondeu de imediato e ele suspirou, decepcionado.
- Nem se eu te disser porque estou aqui, no meio do nada? – Ele insistiu e ela bufou, cruzando impaciente os braços.
- Por que diabos quer tanto saber o meu nome, afinal de contas? E eu, definitivamente, não ligo para porque você está aqui. – Acrescentou rapidamente.
deu de ombros.
- Preciso saber o nome da garota com quem vou sonhar essa noite. – Falou e acabou rindo outra vez, de maneira completamente involuntária e odiou por estar fazendo aquilo acontecer.
- Você é ridículo. – Resmungou, se esforçando para fechar novamente a cara.
- Sai comigo essa noite. – Ele pediu, como se ela não tivesse falado nada e a garota arqueou, surpresa, as sobrancelhas. Ele estava falando sério?! – Vamos, vai ser legal. – insistiu quando tudo que ela fez foi encará-lo daquela forma e a garota fez que não, rindo um tanto nervosa em seguida.
- Eu não.... Não saio. – Resmungou, odiando quão atrapalhada soou. – Definitivamente não. – Repetiu, se esforçando para demonstrar firmeza.
- Então não saímos – Ele pareceu ceder, deixando imediatamente desconfiada. Não tinha como ser fácil assim. – Me encontra aqui e pronto, só isso. Eu trago uns lanches e, prometo, vou divertir você. – Ele acrescentou, provando a que não tinha mesmo como ser fácil assim.
A garota sentiu ódio de si mesma por não conseguir simplesmente negar de imediato, mordendo, hesitante, o lábio ao em vez disso. Não queria mesmo sair com ele, queria?
- Eu nem te conheço. – Ela devolveu, embora aquilo não fosse um não e sorriu, notando isso também e dando um passo para mais perto dela.
- Eu é que não te conheço, você já sabe meu nome. – Retrucou, continuando antes que ela pudesse rolar os olhos, como ele imaginou que faria, ou falar qualquer outra coisa – Vamos, é completamente sem compromisso. Só uma coisa casual, comer e conversar, nada demais. – Murmurou e a garota suspirou pesadamente.
- Tá legal, tá legal. – Cedeu, convencendo a si mesma que era só para ele parar de lhe encher. – Posso ir agora?
- Pode, pode. – O garoto riu, obviamente muito animado por ela ter concordado em sair com ele. rolou os olhos e lhe deu as costas, querendo fugir dali antes que acabasse concordando com outra coisa sem querer, como aparentemente ele era capaz de fazê-la fazer.
- É , aliás. – Ela falou ao dar meia volta pela segunda vez. – Meu nome.
sorriu e assentiu, piscando para a garota que rolou os olhos para o gesto, dando novamente as costas.

Dias atuais

Fora daquele jeito que conhecera , da maneira mais inusitada possível e, céus, quando lembrava daquilo nem conseguia acreditar que se deixara levar pelo charme estúpido daquele garoto idiota. Só podia ser muito idiota também.
levou, por reflexo, a mão ao amuleto enquanto se perdia em devaneios sobre e tudo que passaram juntos, tudo que ele a fizera sentir e suspirou. Ele precisava estar bem.
- Vou encontrar você, . – Sussurrou, ainda com a mão em volta do amuleto.

+++


Na manhã seguinte, acordou com um susto, pulando para longe do desconhecido que lhe cutucava assim que seus olhos bateram nele.
- Quem diabos é você?! – Ela quase gritou, segurando por reflexo a bolsa que pendia em seu vestido, ofegando um pouco graças ao susto. Ela e haviam preparado juntas aquela bolsa, era pequena, mas tinha tudo que podia vir a precisar naquela jornada.
- Ei, ei, relaxe. Se quisesse te fazer algum mal, já teria feito. Você tem o sono bem pesado. – O garoto gesticulou, dando de ombros como se não fosse nada demais e conteve o ímpeto de rolar os olhos, sem ter certeza ainda quanto ao que era ou não era seguro. – Estou aqui para te ajudar.
- Me ajudar com o quê? – Ela retrucou, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Ele sabia quem ela era? Sabia o que estava fazendo? Mas como diabos...?
- Oras, a encontrar seu amado. – O garoto retrucou como se fosse óbvio, fazendo piscar, surpresa ao ouvir suas palavras. – , não é? – Ele perguntou, estreitando os olhos como se testasse a si mesmo quanto ao nome do outro. sentiu o coração pesar com a simples menção do nome. Toda vez que o ouvia tudo voltava, todo o prazer e toda a dor, lhe atingindo como uma avalanche.
- Quem é você? – Ela perguntou, ainda na defensiva e o garoto rolou os olhos ao notar isso, recostado displicentemente a uma árvore, quase como se zombasse de toda a postura defensiva de quando ele não parecia ter a mínima intenção de ataca-la.
- , meu nome é . – Falou, como se não entendesse a importância daquilo. – Afrodite me mandou aqui.
- Afrodite, a deusa? – riu, pouco crédula. – Nem ferrando.
deu de ombros.
- Pense bem. Você está lutando por amor. – Retrucou simplesmente, deixando uma pulga atrás da orelha da garota, que se odiou por, de fato, se deixar envolver por suas palavras.
- Isso ainda não responde a minha pergunta. – Insistiu. – Quem é você?
suspirou de maneira preguiçosa e se afastou da árvore, seguindo calmamente até a garota, que não conseguiu reagir quando ele tocou seu rosto, congelando onde estava, de repente completamente envolta pelo olhar intenso dele, pela cor misturada de seus olhos e os traços perfeitos.
- Sou filho de Afrodite. – Ele pareceu soprar as palavras, soltando delicadamente seu rosto e fazendo a garota sentir raiva assim que o fez, como se um feitiço fosse quebrado. Ele ousara mesmo usar a porra do charme de filho de Afrodite nela?!
No instante seguinte, graças ao impulso raivoso de , foi parar no chão, de volta perto da mesma árvore de antes, porém dessa vez havia sido jogado lá pela magia da garota.
- Não preciso da sua ajuda ou da ajuda da sua, deusa, mãe, o que for. – Declarou, se aprumando para sair de uma vez dali, sem a menor disposição para dar mais trela aquele semideus arrogante do que já havia dado.
- Eu sei onde ele está, . – murmurou de onde estava e prendeu o ar, girando nos calcanhares para voltar a encará-lo depois de ter dado as costas.
- Você.... Sabe? – A mudança no tom de voz, na expressão em seu rosto ou em sua postura não podiam ser simplesmente evitadas pela garota, que encarava com o coração martelando forte demais no peito.
assentiu, suspirando cansado enquanto apoiava uma das mãos no joelho, sem se dar ao trabalho de sentar.
- Afrodite me mandou aqui, não como um favor a ela, mas como uma missão. Eu não faria um favor a ela. – Ele explicou, não recebendo nenhuma resposta de . Ela lhe encarava de forma analítica, tentando decidir o quanto acreditava nele. – É minha missão te ajudar a encontrar e salvá-lo. Não, eu não sei qual o interesse dela em vocês dois, não sei se é simplesmente por conta do amor que sentem ou se tem outra coisa, tudo que sei estou te contando. Sei onde está e posso te levar até lá.
- Onde ele está, então? – Ela inquiriu, cruzando os braços de maneira teimosa. Não conhecia aquele garoto e não confiava nele. Desconfiar, desconfiar, desconfiar. Aquilo era tudo que ela sabia fazer.
- Isso eu não posso falar. – murmurou e lhe encarou de maneira irônica. Logo aquilo ele não podia falar. Ah, tá. – Se eu pudesse, falaria. Mas recebi ordens para não contar nada, só te guiar e ajudar. – Ele acrescentou, impaciente, sob o olhar da garota, que bufou, ainda de braços cruzados.
Não gostava nada daquilo.
- Afrodite te deu essas ordens? – Quis saber e deu de ombros.
- Gosto disso tanto quanto você. – Retrucou, entendendo sem dificuldades o que ela estava insinuando. Ele demonstrava hostilidade para com Afrodite, mas ali estava, cumprindo ordens dela.
- Não confio em você, . – Ela resmungou e ele deu de ombros.
- Não tem que confiar. – Retrucou. – Mas precisa admitir que sou uma opção melhor que o seu amuleto. Sua mágica pode falhar a qualquer instante e você sabe disso, afinal foi quem colocou o feitiço aí. E não é a bruxa mais poderosa do mundo para sustentar um feitiço assim por muito tempo.
sabia que aquilo era verdade, tudo aquilo, mas de forma alguma fez com que se sentisse melhor. Odiava e sua maldita capacidade de persuasão mesmo sem o charme. Ele que não ousasse usar o charme com ela outra vez, aliás.
A lógica do garoto, no entanto, não era questionável, para o azar de . Se tudo que ele estava falando fosse verdade, então ele era mesmo sua melhor opção. Se sabia onde estava.
sabia que não dava para confiar cem por cento no amuleto, especialmente quando ela era a fonte da mágica do mesmo. Logo estaria fraca demais para sequer andar se continuasse abusando assim dos próprios poderes.
- Então, para qual direção agora? – Ela perguntou por fim, frustrada por realmente estar perguntando aquilo. Queria poder fazer aquilo sozinha, mas, aparentemente aquela não era uma opção.
mordeu o lábio para conter um sorrisinho por convencê-la e se pôs de pé, limpando a parte de trás da calça.
- Para cá. – Falou, acenando com a cabeça e, sem esperar por ela, seguindo para mais dentro da floresta, passando pela arvore na qual estivera recostado e, bufando por sua atitude, apressou o passo para alcança-lo.

+++


Os dois passaram a maior parte do caminho em silêncio e, quando não estavam em silêncio, estavam brigando. O barulho que fazia ao andar irritava a garota, ao passo que ela irritava por parar o tempo todo, cada vez mais fraca por insistir em usar a magia do amuleto sem nenhum motivo especial além de não confiar em , mesmo que aparentemente estivessem indo pelo caminho certo.
Enfim, não havia sido obtido nenhum tipo de desenvolvimento na relação dos dois quando anoiteceu e, mesmo a contragosto, foram obrigados a parar. já não tinha forças sequer para manter os olhos abertos e se sentia quase tão cansado quanto a garota, então os dois acabaram sentados perto de uma rocha, tão a fundo na floresta que sentia medo apenas por olhar em volta.
Não fazia ideia de onde estava e o pensamento não era nem de longe acolhedor. Desesperador, na verdade, o definia melhor.
- Você devia pelo menos comer alguma coisa. – murmurou, sentado a extremidade oposta da rocha a que estava, mordiscando uma amora. A garota olhou por sob o ombro para ele, distraída com os próprios pensamentos e por consequência levando mais tempo que o normal para absorver suas palavras, fazendo que não quando o fez.
- Estou bem. – Mentiu
, na verdade, se sentia um tanto tonta, mas não queria admitir. Não queria nem ao menos pensar sobre estar deixando esvair não só todas suas forças, mas como sua mágica também e, céus, como ia se virar quando não conseguisse mais sentir através de seu amuleto? Ia simplesmente confiar cegamente em ?
Quando saiu de casa, não imaginou que ele estivesse tão longe e agora se sentia sem esperanças, cansada e deprimida. Não podia e sabia que não desistiria de , nunca, porém não podia evitar também aquela sensação que estava lutando uma batalha perdida.
- Come de uma vez. – jogou uma fruta para ela, sem qualquer tipo de aviso prévio e a agarrou no ar, olhando assustada para ele em seguida.
- Que porra foi essa?! – Reclamou e ele deu de ombros.
- Você está tensa demais e está me incomodando. Come que passa. – Falou e ela rolou os olhos, preferindo nem responder. Nem fudendo que comer ia magicamente resolver seus problemas, mas mordeu mesmo assim a amora que ele jogara em sua direção, aceitando aquilo como desculpa para não falar mais nada. não era de conversar e, por sorte, também não. Ela mal sabia qualquer coisa sobre o garoto além do fato de ele ser um semideus, filho de Afrodite, mas não se importava também. Ele já provara que sabia de fato o paradeiro de e aquilo era o suficiente para ela. Especialmente quando sabia o suficiente sobre os semideuses também.
- Viu, está comendo. – murmurou de repente, tirando-a de seus devaneios – Sabia que era disso que precisava.
- Claro, porque você sabe de tudo, não é? – A garota ironizou, rolando os olhos para ele, que deu de ombros.
- Quase tudo. – Retrucou, sorrindo de maneira convencida por um breve instante e rolou os olhos em resposta. – Não sei, por exemplo, o que diabos faz você largar o seu clã para ir atrás de um cara sem ter a menor ideia do paradeiro dele, só porque o seu amuleto diz para o fazer. Especialmente com alguém que você não conhece e obviamente não confia. – O garoto falou em seguida, surpreendendo a garota, que o olhou com certo deboche.
- Não sabe? Você? Filho de Afrodite? – Perguntou, deixando claro que não acreditava nele e deu de ombros.
- Eu já sou bonito, preciso acreditar no amor também? – Retrucou e riu verdadeiramente daquilo, mal podendo acreditar que alguém dissera tamanha bobagem, mesmo que ela nunca houvesse acreditado no amor antes de também. Era no mínimo irônico agora, parando para pensar, que ela realmente achasse aquilo uma bobagem quando já foi exatamente como ele.
- Sua mãe deve estar orgulhosa. –Ironizou e deu de ombros, deixando claro que não se importava.
- Não é da minha conta mesmo.
se sentiu mal ao ouvir suas palavras, embora aquilo não fosse surpresa. Ela própria não tinha os melhores pais do mundo, aliás.
- Deve ser algum pré-requisito. Se você for dar à luz a algum ser mágico então não pode ser um bom pai, sabe? Tipo, tem que assinar um contrato e tudo o mais. – A garota comentou e riu, concordando com a cabeça sem encará-la.
- E depois obriga-los a sair em missões em seu nome porque, ei, que filho não quer esse orgulho? – Comentou também e balançou a cabeça, sem conseguir não pensar no quão errado aquilo era. Tudo aquilo.
Normalmente, ela não dava muita atenção para o que era ou não errado, afinal o mundo estava cheio disso, porém era no mínimo revoltante pensar em como algumas pessoas tinham menos que outras. Claro, eles pelo menos tinham, hm, poderes, eles conheciam um mundo que ninguém mais conhecia, porém não tinha tanta certeza se valia a pena. Saber do que sabiam, viver como vivam, era tudo intenso demais e nenhuma frase clichê de consolação servia para reconfortar seus corações nos piores dias, especialmente porque o clichê não se aplicava ali.
- Bom, o amor é estranho, de qualquer forma. – Ela murmurou de repente, fazendo com que virasse outra vez para lhe encarar, esperando que ela continuasse. – É algo, alguma coisa, fazendo zigue-zagues no coração da gente, nos atingindo como um dardo, intenso, sabe? E letal também, de certa forma. Vivendo como nós vivemos, principalmente. Cada dia é uma provação. – Ela explicou, suspirando em seguida e fechando os olhos – Mas não é ruim. Apesar de tudo isso, é bom. Quer dizer, esse amor está me destruindo, mas, mesmo quando queima como gelo, queima tão bom. Não pareço estar fazendo sentido, mas é só... Bom. Faz todo o resto, tudo que devia fazer o sentimento parecer ruim, desaparecer. – Ela falou, fechando os olhos ao terminar, novamente com em sua mente. Seus olhos e o sorriso gentil, o esforço que ele vivia fazendo para arrancar uma risada dela, só para depois se gabar por conseguir aquilo tão fácil sempre. E, céus, ele conseguia. – Espero que você sinta isso um dia. – Murmurou, abrindo novamente os olhos para encarar que, por um instante, não fez nada além de lhe encarar também, assentindo minimamente depois de um instante.
- Eu também. – Sussurrou, num fio de voz.
Nenhum dos dois falou mais nada por algum tempo, desviando o olhar para pontos opostos da floresta, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. Ali, praticamente no escuro e no mais completo silencio, eles não notaram, mas notariam depois o presente que recebiam. Uma nova amizade, com sorte.
- Você devia dormir um pouco. Eu fico de guarda. – murmurou por fim, depois de balançar a cabeça e afastar os pensamentos, que seguiam num rumo do qual ele não gostava nada. – Já está fraca o suficiente e ainda temos que caminhar bastante amanhã para encontrar seu garoto.
só assentiu, mesmo duvidando que fosse dormir, mesmo se quisesse. Desconfiar ainda era seu reflexo para tudo, afinal de contas e não tinha certeza se ia, de fato, se permitir dormir enquanto ‘’ficava de guarda’’. Ainda não sabia se confiava nele, afinal de contas.

+++


Chovia outra vez, o céu estava cinza e denso e o vento forte balançava todas as folhas de cada plantação, cada árvore, tudo, ao redor. A lua, no entanto, crescia cheia por cima da tempestade e qualquer um podia vê-la, de qualquer ângulo.
Um relâmpago. Dois relâmpagos.
sentiu um arrepio na espinha quando desviou o olhar para a lua cheia em seguida, levando uma das mãos para o rosto para limpar as lágrimas que não paravam de cair. O amor da sua vida estava morto, aos seus pés. Um corpo sem vida no chão, sem a alma da melhor pessoa que já conhecera. Toda sua vida se fora e não voltaria mais.
E as únicas que ela achava que, apesar de tudo, nunca cruzariam aquele limite e fariam algo assim eram as culpadas. Seu clã, suas irmãs.
O feitiço delas soava em sua cabeça, de novo e de novo, como se zombassem da garota. Do que ela estava sentindo. Ó Fortuna, a bruxa mais antiga, a original, a quem sempre todas as bruxas sempre pediam forças a cada novo feitiço. Velutluna, a menção a lua, o astro do qual as bruxas mais dependiam, de onde tiravam seu poder; Statuvariabilis, varíavel, varíavel, variável. Não era aquilo, afinal, que as outras bruxas achavam que era o sentimento de ? Que podia ir embora a qualquer momento? Mudar? Sempercrescis; Autdecrescis; Sempre crescer ou diminuir, crescer ou diminuir. Numa escola desproporcional. Se o sentimento de crescia, a força de seu clã diminuía. Ela os estava enfraquecendo. Vita detestabilis. Vida odiosa. Que incita o ódio; que causa indignação; que tende a ser execrável; detestável. Excessivamente desagradável; que não se consegue suportar; insuportável. Aquele trecho podia dizer muitas coisas, podia ser sobre ela, sobre suas companheiras ou até sobre . Sobre a vida odiosa que ela levava sem . Sobre o mesmo estar destinado a acontecer com agora.
Talvez as outras bruxas soubessem, talvez elas soubessem o tempo todo e nem desconfiava. Talvez esperassem outra coisa da garota quando a trouxeram para viver com o clã, já que já estava com na época. Provavelmente depositaram esperanças inúteis na pobre coitada, torcendo para que ela fosse capaz de fazer ver como tudo aquilo podia dar errado. Com sua história. Era uma pena que nem mesmo a própria acreditasse naquilo.
Com os olhos ardendo pelas lágrimas, fungou fortemente, ficando de joelhos para tocar o rosto de , admirando cada um dos traços do rosto do homem que amava e fazendo uma oração em silêncio para sua bruxa protetora para que o guardasse, acolhesse. Enquanto passava carinhosamente os dedos sob o rosto de , fechando os olhos abertos do garoto, exibindo de maneira assustadoramente dolorosa a falta de vida neles, se lembrou de seu clã tentando exorcizar o sentimento dela, tentando lhe fazer esquecer .
Não conseguiram, mas encontraram uma forma pior de tirá-lo dela, por mais que ela nunca fosse esquecê-lo. Aquilo, as lembranças, elas nunca tirariam dela, embora já o houvessem tirado.
E nada nunca doeria tanto.

acordou com falta de ar, respirando de maneira completamente descompassada enquanto dava um sobressalto, sentando-se e levando a mão ao peito, fechando os dedos em torno de seu amuleto enquanto as lágrimas escapavam, molhando seu rosto sem que ela conseguisse se conter.
Seu amuleto ainda estava quente, porém de maneira amena e aquilo fez o peito de doer. estava enfraquecendo.
Céus, fora tudo tão real. Ela ainda sentia a dor de achar ter perdido lhe consumir, passando vários minutos envolta na sensação que era, sem dúvidas, a pior que já tivera antes de se dar conta dos outros elementos do sonho. Era a segunda vez que sonhava com uma tempestade, o relâmpago incidindo duas vezes, exatamente como antes.
Era um aviso. Tempestades representavam sempre a ira dos céus, de Zeus. Alguma coisa no rumo que as coisas tomavam, nos prenúncios para o momento em que finalmente encontrasse , estava deixando o deus furioso.
E, por fim, veio seu clã.
quase pôde ouvir o feitiço de suas irmãs zunindo em seu ouvido outra vez ao pensar nas bruxas que achava ser sua família, que, erroneamente, se deixara confiar. Tudo nela queria negar a possibilidade, queria acreditar que não, não eram elas que estavam por trás daquilo, porém agora que sonhara com aquilo tudo parecia fazer tanto sentido. Se encaixar de maneira tão perfeita e dolorosa.
Sentindo-se indefesa, deprimida e completamente sem esperanças, abraçou as pernas, escondendo o rosto nos joelhos. Poderia aquilo ser verdade? Seu clã estar por trás daquilo tudo, tentando matar ?
- ? – A voz sonolenta de lhe arrancou de seus devaneios, fazendo com que ela desviasse o olhar para ele, piscando sob o olhar confuso dele. – Está tudo bem? – O semideus perguntou, se sentando ao notar os olhos vermelhos dela.
mordeu o lábio, sem falar nada por um instante, ponderando, ao em vez disso, se devia fazê-lo. Entrar no dilema sobre confiar ou não em , no entanto, parecia estúpido àquela altura. Seu sonho praticamente lhe dissera que dali a poucas horas perderia para sempre, que seu clã, suas irmãs, o tiraram dela.
- Tive um pesadelo. – Ela contou, num fôlego só e soltou o ar de maneira pesada, assentindo com a cabeça tentando não demonstrar a tensão óbvia que lhe invadira. Se havia alguém, afinal, que entendia o que pesadelos significavam era , ou semideuses em geral, e, bem, o significado nunca era bom.
- Conta. – Ele pediu, de maneira cuidadosa. Não queria deixar escapar em sua voz mais do que devia, sabendo a pilha de nervos que a garota já estava. Se precipitar podia não ser bom nem para ele também. Era melhor saber de tudo antes de pular para as conclusões.
Respirando fundo, começou a falar, contando todos os detalhes do sonho sob o olhar atento de , que, em outro universo, poderia muito bem ser confundido com um psicólogo observando sua paciente divagando em seu divã.
Depois que a garota terminou, ele passou longos instantes sem falar nada, mas não era preciso muito para saber que ele já chegara a uma conclusão. Parecia estar, na verdade, decidindo como falar o que tinha para falar e prendeu o ar com a constatação, sentindo-se nervosa com o pressentimento que aquilo não seria nada bom.
- Tenho que te mostrar uma coisa. – Ele disse, puxando algo do bolso em seguida, um papel que havia sido dobrado de vários jeitos e, por isso, estava todo amassado quando ele entregou a garota, que o pegou com cuidado, entendendo do que se tratava assim que seus olhos pousaram nas letras escritas ali.
Era a profecia de , para a missão.

Uma traição uma maldição irá criar
Ao lado do amor um herói deve lutar
Um sacrifício a selar o destino


- Uma traição uma maldição irá criar. – repetiu, depois de reler em silêncio a profecia várias vezes. – A minha traição? Me envolvendo com ? – Ela quis saber, erguendo o olhar para em busca de respostas, mas o garoto apenas deu de ombros.
- Nós semideuses aprendemos a não tentar demais quando o assunto é decifrar profecias. – Murmurou, deixando claro que não pensara muito sobre o assunto. – Mas tudo se encaixa muito bem, não é?
- Bem demais. – Ela respondeu, sem desviar o olhar das palavras no papel, incomodada. – Um sacrifico... – Repetiu o último verso, sentindo um arrepio de medo percorrer sua espinha, lembrando-se da sensação de ter o corpo sem vida de nos braços em seu sonho. – Não, não pode ser. – Ela murmurou, negando com a cabeça enquanto devolvia o papel a . – Ele não pode morrer, . – Ela ergueu o olhar para o semideus, negando várias vezes com a cabeça.
assentiu, sem pensar muito.
- Estou do seu lado aqui. – Garantiu. – Vamos salvá-lo.
Por algum motivo, naquele momento acreditou nele. De fato, confiou no garoto. Talvez estivesse apenas precisando daquilo, que alguém dissesse que uma profecia, que seu sonho, que tudo aquilo juntos não significavam nada. Que ela conseguiria salvar .
- Eu não traí meu clã. – Ela murmurou, contrariada, depois de um instante. – Eu me apaixonei.
- Talvez a traição seja delas. – deu de ombros. – Sabe, criando a maldição, sequestrando ...
- Acha que são mesmo elas então? – o cortou, sentindo o peito doer por ser obrigada a pensar na possibilidade. Aquelas bruxas, seu clã, eram sua família. Eram tudo que sempre teve e ela mal conseguia começar a explicar o que aquilo lhe fazia sentir.
não disse nada, mas seu olhar pesaroso era resposta o suficiente e suspirou, querendo voltar a chorar, querendo mais que tudo se entregar as lágrimas até pegar novamente no sono, porém sabia que não o faria com ali, olhando para ela e apenas engoliu o choro, levando novamente a mão para o amuleto em seu pescoço, envolvendo-o com os dedos e tentando se deixar reconfortar pela temperatura amena ali, pelo calor que representava a vida de , a proximidade dele.
Céus, como queria que aquilo acabasse. Encontrar e ir para o mais longe possível daquelas mulheres, de todas elas.

+++


A maldição.
A ficha sobre a maldição finalmente caiu para , sobre cada detalhe dela. A única coisa que podia dar poder as bruxas para tirar a vida de alguém era o trabalho mutuo, de várias delas, e a lua. A lua era o elemento mais energético para sua espécie, afinal de contas. Se não pudessem pedir forças aquele astro, seria inútil sequer tentar a maldição.
Elas pediram e, aparentemente, conseguiram.
O ritual era letal. Sofisticado.
O feitiço que fizeram com algumas noites atrás, em meio a uma tempestade em frente à casa onde viviam não era uma tentativa de exorcizar o sentimento dela como a garota achou. Ao menos, não por si só.
Era mais como se fosse apenas uma das etapas. Seu clã usara o feitiço, na verdade, para ligar o sentimento da garota diretamente a vida de , aos sinais vitais dele. Quando ele morresse, tudo ia embora e elas precisariam das forças da lua em cada uma das etapas, da lua cheia, a mais poderosa. Era lua cheia quando fizeram o feitiço com e agora a mesma lua cheia enchia o céu, a lua que elas pretendiam usar para matar .
se sentiu tola em subestimar tão cegamente suas irmãs, em acreditar mesmo que elas planejavam tentar simplesmente exorcizar seu sentimento com um feitiçozinho bobo. Ela entendia agora. Depois de uma incomoda visita da deusa Afrodite, que invadiu o corpo do filho para isso, aliás, ela entendia.
Seu clã não acreditava no amor e nem o desejava, como uma parte instalada no amago de fazia. Elas o repugnavam.
Afrodite foi quem juntou para cada peça faltante do quebra cabeça, mostrando tudo que ela não viu, toda a trama de seu clã já que era de conhecimento geral que não era facilmente convencida por simples palavras.
Afrodite dissera para a garota lutar em seu nome, por seu legado, junto com o filho dela, mas não era aquilo que faria. Ela não ia lutar por Afrodite, ia lutar por . era a única coisa que importava para ela agora.
- Pronta? – perguntou parado ao lado dela, encarando a caverna onde o clã da garota se escondia com , esperando apenas a lua atingir seu ápice para realizar seu feitiço. Tirar de uma vez por todas da vida de , que, com o pensamento, levou novamente a mão ao seu amuleto, fechando os dedos ao redor do mesmo enquanto sentia a presença de ali fraquíssima, como se ele já estivesse se esvaindo e o simples pensamento fez sentir como se uma rocha afundasse em seu peito.
- Tenho que estar. – Ela sussurrou em resposta à pergunta de , desviando o olhar para o semideus, que assentiu, como se lhe desse forças.
- Estou com você. – Garantiu e ela respirou fundo, assentindo também. – Como você quiser fazer isso, é só falar. – O semideus acrescentou e suspirou de maneira pesada, voltando a desviar o olhar para a caverna, pensando em coisas demais, sentindo coisas demais, mas no geral só queria acabar de uma vez com aquilo. Pegar e ir embora.
- Minha única prioridade é encontrar e tirá-lo de lá. – Ela falou. – Farei o que for preciso para isso.
- Vamos lá então. – murmurou, sentindo o coração martelar com força no peito, ela assentiu para suas palavras e os dois seguiram para dentro da caverna.

A caverna estava mal iluminada quando os dois entraram, mas aquilo não impediu que fossem vistos. Ou que vissem o que havia lá dentro também, já que o fogo do caldeirão iluminava, de maneira um tanto sombria aliás, tudo ao redor.
- . – Kate, uma bruxa que sempre fora muito quieta, mais antiga no clã do que , chamou, fazendo a garota girar nos calcanhares, buscando a dona da voz. – Você não deveria estar aqui.
- Como se vocês não esperassem exatamente por isso depois de eu ter fugido. – A garota rolou os olhos, desgostosa, e ergueu a mão, puxando energia da terra embaixo de seus pés para derrubar Kate, fazendo com que ela caísse na outra extremidade da caverna, gritando por socorro para chamar a atenção de suas irmãs.
trocou um olhar com e, num minuto de entendimento, os dois ficaram rapidamente de costas um para o outro, com os ombros alinhados, prontos para a batalha enquanto eram cercados pelas bruxas que costumavam ser a família de .
- Olhe o que está causando, querida. – Tracy balançou a cabeça em desaprovação ao olhar em volta, de maneira tão serena que era quase como se não notasse o que estava acontecendo. Ela provavelmente tinha motivos, afinal a garota não devia ter chances contra ela e o resto de seu clã com nenhuma ajuda além de um semideus arrogante. – Pode me dizer, honestamente, que acha mesmo que isso tudo vale a pena? – Perguntou, parecendo frustrada e rolou os olhos.
- Já tentei de todos os jeitos fazer vocês entenderem e, depois do que fizeram, todo respeito que eu tinha por vocês, toda e qualquer possibilidade de tentar essa conversa outra vez, não existe mais. – E , finalmente, se desligou da magia de seu amuleto, entoando baixo o mantra que as bruxas usavam para pedir forças a lua.
Sabia que suas irmãs já estavam usando a força do astro e as chances de aquilo dar errado eram ínfimas, porém era sua única esperança e a garota deu um solavanco para trás quando, de fato, funcionou e de repente seu corpo era preenchido por uma onda intensa de energia e força.
- . – chamou, fazendo menção de virar de frente para ela, mas antes que fosse realmente tão longe, a garota ergueu a mão e derrubou metade de seu clã, sentindo a força da lua correr no lugar do sangue em suas veias, tomando cada pedaço de seu corpo e ela quase flutuava com o tamanho do poder que penetrava cada um de seus poros, tomando-a completamente. – Caramba. – O semideus murmurou, surpreso com a cena, e o empurrou para baixo, desviando do feitiço que uma das outras bruxas lançou em sua direção, não conseguindo identificar qual delas o fez e, com um gesto da mão, a garota o redirecionou em direção a suas irmãs, não se preocupando em olhar qual delas seria atingida.
Levando em conta o tamanho da desvantagem em que estava, qualquer baixa era lucro.
- Isso não vai soar muito delicado ou, hm, correto, mas acho que preciso usar a força. – sussurrou quando os dois se puseram de pé e estreitou os olhos, virando para encarar o semideus.
- Acabe com elas. – Disse simplesmente, levando uma mão para o amuleto e voltando a usar a magia do mesmo apenas para achar dentro daquele lugar, olhando agoniada em volta.
O encontrou preso numa gaiola enorme, de aço, no alto do caldeirão e se perguntou quão ridícula seria aquela cena se não estivesse tão desesperada para tê-lo em seus braços novamente e dar aquilo como finalizado. O garoto estava desacordado e foi impossível para não pensar em seu sonho, em tê-lo morto aos seus pés, sentindo um aperto no peito com aquilo.
- ! – A garota se surpreendeu quando o grito urgente não veio de , olhando assustada em volta e dando de cara com correndo em sua direção, ofegante e assustada. , que mentira para ela, que dissera que seu clã não sabia sobre .
Optando por ignorá-la, empurrou o caldeirão com toda sua força, derramando qualquer que fosse a poção lá dentro no chão da caverna e a espalhando por todos os lados.
- Você ficou louca?! Isso vai matar todas nós! – Gal gritou ao notar o que acontecia, concentrando suas forças em resolver aquele problema, gritando coisas em latim, mas o liquido só se espalhava mais e mais, deixando a bruxa completamente apreensiva, mas não ligou, olhando pelo canto do olho para , em busca de ajuda. Precisava tirar dali de cima, porém sequer notou seu olhar, ocupado golpeando muitas bruxas ao mesmo tempo, fazendo o melhor que podia.
Ele era ótimo lutador e aquilo surpreendeu , já que não era assim que imaginava filhos de Afrodite até então, mas os movimentos do rápidos e ágeis do garoto, certeiros na maior parte do tempo, provavam que ela, aparentemente, estava errada. não ficou olhando por muito mais tempo, executando um feitiço de levitação para se erguer até a gaiola, se agarrando as grades quando sentiu que ia cair, com sua magia indo embora.
Estava fraca demais para esbanjar com tantos feitiços, depois de dias usando a magia de seu amuleto initerruptamente.
- ? – Ouviu chamar, atordoado, se arrastando em direção a garota – O que...?
- Não, não chega perto. – Ela pediu, urgente. – A gaiola vai virar. – Avisou. acabou rindo daquilo e a garota o olhou como se fosse louco, sem acreditar que depois de dias em cativeiro, preso na porra de uma gaiola ele estava rindo. Aquele garoto só podia ser louco. – , mas que porra…?!
- A gaiola vai virar, qual é. É engraçado. Seu universo todo é engraçado. – Ele falou e ela rolou os olhos, sem acreditar naquilo.
- Você sabe que elas estão tentando te matar, não é?
- Não vão conseguir. – Ele deu de ombros, como se fosse obvio e a garota piscou, confusa. Seus braços começavam a doer por estar pendurada daquele jeito, mas aquela era, de longe, a menor de suas preocupações. – Você está aqui.
sorriu, balançando a cabeça desacreditada ao ouvi-lo, embora suas palavras de alguma forma houvessem feito com que ela se sentisse extremamente bem, revigorada.
- Você é inacreditável. – Ela murmurou e sorriu, dando de ombros.
- Escuto muito isso. – Falou. – Agora vá, chute algumas bundas de bruxas por mim. – Piscou para a garota, que não teve tempo de responder antes de um feitiço que ela não esperava atingisse as cordas que prendiam a gaiola no alto, jogando num canto da caverna e no outro, fazendo subir poeira e água por todo canto, mas aquilo não foi o que preocupou . Nem de longe.
Ela sentiu a queimação fazer tudo nela arder e gritou alto, se pondo de pé com uma dor lancinante em dos braços. Havia caído por cima da droga do braço.
- , merda. – Ela reclamou baixo, tentando se arrastar em direção ao garoto, que estava desacordado novamente, do outro lado da caverna, porém o alcançou antes que o fizesse e a garota sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo, paralisando onde estava graças ao medo.
, no entanto, ajudou a levantar, com um ferimento na perna, provavelmente causado pelas grades da gaiola. Sangue escorria por suas roupas e ele xingou baixo, levando a mão para o ferimento e murmurou algo para ele, que estreitou confuso os olhos em sua direção, aparentemente sem entender o que ela queria dizer, mas a garota não se explicou novamente, estralando os dedos e fazendo com que ele desaparecesse. arregalou os olhos, levando uma das mãos para a boca, completamente assustada com a cena, mas antes que pudesse fazer ou falar o que quer que fosse, um outro feitiço a derrubou no chão ardente, fazendo com que ela sentisse o corpo todo queimar de maneira intensa, como gelo. Era uma tortura lenta e só piorou quando tiraram dela também seus sentidos, a impedindo de se mover.
- ! – A garota gritou, tentando enxergar o semideus, cada vez mais desesperada.
Não sabia onde estava, havia perdido os sentidos e não conseguia achar também. Ouvia novamente o feitiço de suas irmãs ecoar e se perguntou se estava perdendo a consciência, levando um segundo para se dar conta que aquilo, na verdade, era real. Elas estavam entoando o feitiço ali, bem ali, bem naquele momento. estava ao seu lado no chão, sangrando enquanto se arrastava até ela, tentando ajudar a garota, mas se a matéria que estava no caldeirão estava fazendo ela sentir como se tudo nela derretesse em fogo, sequer podia imaginar o que estaria fazendo com .
- . – Ele tocou seu braço, tentando fazê-la levantar, mas ela não sentiu o toque. O encarou fazendo várias vezes que não com a cabeça, ouvindo repetidamente o feitiço de suas irmãs entonar e entonar até que, sem que ninguém esperasse, uma outra bruxa quebrou o feitiço que elas usavam para manter no chão, correndo até ela em seguida.
.
- Estou com você, estou com você. – Ela garantiu, falando rápido demais, como se estivesse com medo de ataca-la antes que ela tivesse a chance de se explicar. – está lá fora, está a salvo. O estou bloqueando para que não possa voltar para cá, porque, se voltar, ele vai morrer. Você precisa sair e tirar ele daqui. Precisa fazer isso logo. Leve . – Ela puxou o semideus, que olhou para a garota como se ela fosse louca.
- Desculpe, mas você não está vendo esse exército de bruxas aqui? Porque, assim, de onde eu estou, não parece muito fácil fazer o que está dizendo. – Ele retrucou, com ironia e rolou os olhos.
- Odeio semideuses. – Reclamou, mas antes que qualquer um pudesse falar mais alguma coisa, os empurrou para longe, tentando fazer com que os três saírem da mira do próximo feitiço que via em sua direção, se surpreendendo quando lançou outro contra a bruxa que os atacara e os dois se misturaram, fazendo-a implodir em chamas.
- Uau. – sussurrou, piscando surpresa com a cena que via.
era muito poderosa, muito mais do que ela imaginara.
- , precisa ir! – gritou, urgente. – Vai explodir logo!
- Tá e quanto a você? – retrucou enquanto usava um pedaço da grade quebrada da gaiola para lutar com as três bruxas que tentavam encurralá-lo, chutando uma delas enquanto arremessava a barra de maneira certeira em outra, fazendo com que a mesma a atravessasse, só para que a terceira, furiosa pela perda, lançasse um feitiço no semideus e o lançasse perto da saída, com força demais para que ele não ganhasse um fermento na cabeça, sangrando.
- . – apenas lhe encarou, não precisando falar mais nada para que ela entendesse do que aquilo se tratava. estava dizendo adeus. Ia se sacrificar, ia encontrar .
- Deuses. – sussurrou em resposta, completamente abalada com a constatação mesmo depois de sorrir brevemente, como se tentasse mostrar que estava tudo bem. E estava mesmo. Ela estava pronta.
- Vá. – A garota sussurrou, puxando energia das terras, do mais profundo que conseguia alcançar embaixo delas, onde era mais quente.
ficou completamente atordoada com a cena por um instante, vendo-a se entregar ao que fazia, buscar , pronta para explodir tudo naquela caverna, mas acordou novamente quando gritou, sentindo a mais intensa onda de dor de sua vida enquanto uma bruxa lançava um feitiço contra ele, concentrada só e apenas nele, mesmo que de sua boca ainda saísse o feitiço que elas fizeram especialmente para e . Para matar e fazer esquecer completamente dele.
correu até lá, empurrando para longe a bruxa e, com um gesto da mão, fazendo com que ela fosse parar longe também, se abaixando em seguida para ajudar a se levantar, sentindo-se péssima pelo grito de dor que ele soltou nas primeiras tentativas.
- Desculpe por isso. – Ela sussurrou, fazendo com que ele passasse um braço por seus ombros. – Vou te tirar daqui agora. Está acabando. – Garantiu, fazendo o que podia para sair o mais rápido possível de dentro da caverna, por sorte no tempo exato que fora preciso para explodir tudo, inclusive a si mesma, o impacto da explosão derrubando os dois na grama do lado de fora e virou para olhar enquanto as chamas engoliam intensa e completamente a caverna.
estava morta.
Seu clã se fora.
A realidade pareceu atingir como um tapa na cara enquanto a garota encarava as chamas intensas subirem cada vez mais, fazendo espirais de fumaça subirem aos céus, se misturando as nuvens densas que o tornava cinza. Começou a chover em seguida, molhando , e , mas nenhum dos três se moveu. Nenhum dos três conseguiu parar de olhar a magnitude do feitiço que fizera, o tamanho do incêndio tomando completamente a caverna que, céus, devia ser imensa por dentro, nem conseguia imaginar.
- Céus. – sussurrou depois de um instante, sentindo os olhos arderem, tanto pela fumaça quanto pelas lágrimas. – Céus.
- Ei, tudo bem. – sussurrou, se aproximando com algum esforço dela e lhe abraçando, tentando confortar a garota, que, no entanto, se quer havia notado que chorava. Ela se sentia em choque e desviou o olhar para , tentando ver se era a única assim, mas ele estava bem também. Sério, encarando as chamas com certo respeito. Respeito pela jornada que cumprira, por e seu sentimento por e por . Talvez até respeito por Afrodite também. Pela dimensão do sentimento que Afrodite infiltrava no coração das pessoas.
Aquilo fora tudo por amor, afinal de contas.
- Acabou. – sussurrou, chamando a atenção do garoto, que olhou de lado para ela e assentiu.
- Acabou. – Concordou e umedeceu os lábios, sentindo-se mais destruída do que nunca, como jamais achou que se sentiria nos braços de , escondendo o rosto em seu peito enquanto voltava a chorar, se debulhando as lágrimas de maneira muito mais intensa agora.
Nunca imaginara a dimensão que aquilo tomaria, o quanto viver tudo o que vivera nos últimos dias lhe abalaria e agora só sobrara a constatação para ela, a mais completa surpresa por ter sido pega pela sensação como fora, por ter sido inevitavelmente derrubada por cada uma das coisas que passara por . Seu amor a estava destruindo, mas ela não podia parar. Não ia parar.
Sem abrigo da chuva, sem nada. Tudo que ela tinha era ele e, naquele momento, ela teve mais certeza daquilo do que nunca, se agarrando mais ao garoto enquanto chorava em seus braços.
Ás vezes, desejava não o amar, mas o fazia. Sempre o faria.



Fim.



Nota da autora: Mais um ficstape porque eu não me canso mexxxxxxxxxxxmo! Esse foi complicadíssimo porque eu gosto do toque, do beijo e da pegação e não teve. Mas espero que tenham gostado meio assim. Eu meio que gostei. Comentem para eu saber o que acharam!

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