Última atualização: 28/10/2017

Capítulo Único

“우리의 추억이 마치 화석처럼
(Nossas memórias se solidificam como fósseis)
굳어져 나를 자꾸 괴롭혀 오늘도
(E isso continua a me torturar hoje)”


Sihanoukville, Reino do Camboja – Dezembro de 2015
– Você deveria tirar suas botas, soldado.
sugeriu enquanto caminhava ao lado dele pela praia de Serendipity. Os dedos de seus pés descalços aproveitavam a sensação gostosa do contato com a areia branquinha e fria, e ela se incomodava pelo fato dele ainda estar em suas botas do uniforme, mesmo quando já estava dispensado do serviço diário. soltou um riso anasalado, levantando seu rosto para encarar o dela, que tinha a expressão serena enquanto olhava ao redor.
A praia mais frequentada da pequena Sihanoukville – cidade ao sul do Camboja, localizada junto ao Golfo da Tailândia – era um achado gratificante do sudeste asiático, e mesmo que ficasse longe do luxo e da empolgação das praias tailandesas, achava que ela era uma graça. Barraquinhas coloridas de madeira tomavam conta da maior parte da orla e acolhiam principalmente mochileiros europeus em busca de um destino diferente e barato.
Mesmo que o país finalmente estivesse se reerguendo e abrindo suas portas para o turismo, a miséria e carência de políticas públicas eram uma realidade para grande parte da população, heranças da longa e dolorosa guerra civil. Era por isso que o exército sul-coreano trabalhava em missões de paz pela região costeira, uma das mais abaladas pelo conflito armado.
estava ali com outros colegas como médica voluntária, junto a uma equipe de médicos vietnamitas, para começar o tratamento dos recorrentes casos de malária. A epidemia que se concentrava nas regiões leste e norte estava chegando ao litoral e o governo cambojano se colocou em estado de alerta ao pedir ajuda internacional. Como a incidência vinha crescendo em crianças, era uma das pediatras responsáveis durante aquele período.
Ela só não esperava que um idol cumprindo serviço militar obrigatório como soldado ativo fosse interferir tanto em sua rotina de trabalho e em seus sentimentos.
– Não posso andar por aí com meu uniforme pela metade, Dra. . – ele soltou um riso novamente ao perceber a careta que se formou em seu rosto.
– E eu não sei porque você insiste em ser tão formal. – ela olhou ao redor por um instante até se virar para ele – Não tem mais ninguém aqui, ! – rolou os olhos, fazendo-o rir mais abertamente dessa vez.
– Foi você quem começou! – ele acusou, ainda rindo enquanto caminhava ao lado dela segurando as mãos para trás.
– Eu só estava implicando com você, soldado. – ela frisou a última palavra com certo desdém – Não pode mesmo ficar sem as botas? – olhou-o novamente, fazendo mais uma careta.
Com um aceno de cabeça negou e ela bufou, contrariada. Era por causa de regras sem sentido como aquela, e outras piores e mais degradantes, que era contra o militarismo.
O cheiro de camarão refogado, no entanto, fez sua breve irritação se dissipar de imediato. A médica puxou o ar com satisfação e segurou, com a mão que não carregava os sapatos, o braço do homem ao seu lado. riu, avistando a barraquinha vermelha onde uma mulher baixa, com o cabelos negros absurdamente compridos, mantinha acesso o fogo em um forno à lenha.
– Quanto tempo nós temos até o horário de recolhida? – se virou para ele, com a feição suplicante que o fez manter o riso.
– Tempo suficiente pra você comer o que quiser.
O suspiro exagerado da mulher e o modo como ela moveu os braços, como se estivesse agradecendo aos céus, fizeram o músico gargalhar ao se deixar puxar por ela em direção às mesas arrumadas debaixo da lona azul que se estendia ao lado da barraca. A médica imediatamente se sentou e acenou sorridente para a mulher que ainda atiçava o fogo. A comunicação fora um complicador enorme desde o início. Não pronunciava nenhuma consoante com vogal agregada sequer do khmer, língua oficial do país, e era uma sorte tremenda quando encontravam alguém capaz de falar chinês. Com um pouco de esforço, ela conseguiu dizer à mulher que queria exatamente o que ela cozinhava no momento, e que deixava todo o espaço ao redor com aquele aroma delicioso.
– Como eu amo a comida daqui! – ela exclamou, sorridente, assim que os pratos foram deixados na mesinha de madeira.
A combinação simples de camarões enormes com curry, muitos legumes e arroz, acompanhados de uma sopa que ela ainda não sabia exatamente do quê era feita, era simplesmente perfeita para quem vinha comendo comida feita por soldados há algumas semanas. Em um segundo ela começou a devorar tudo com vigor.
sorriu, apoiando o rosto na mão direita e a admirando, deixando seu amok – peixe cozido na folha de bananeira com leite de coco – esfriar. era tão linda que o deixava disperso, e o fato dela não ter qualquer cerimônia em relação a ele era um diferencial perfeito. Lembrava-se exatamente de quando ela o cumprimentou pela primeira vez, no dia da chegada da equipe médica à base. As formalidades foram deixadas de lado muito rapidamente e ela se aproximou dele para falar, aos cochichos: “Disseram que tinha um idol aqui. Achei que era alguém famoso de verdade... Quem diabos é você?!”. Sua expressão de dúvida teatral se desfez em risos nada contidos quando a olhou espantado, primeiramente pelo tom formal que ela usara, e segundo que, como assim ela não o conhecia? Não que fosse um cara prepotente e com o ego formando uma redoma de um raio de dois metros ao seu redor, mas depois de tanto tempo ele já havia se acostumado em ser reconhecido. “Estou brincando!”, ela disse em seguida, tentando parar de rir. “Blow your mind ttaega watjanha duryeowo malgo...”, cantarolou de um jeito engraçado, fazendo-o rir mesmo que ele ainda estivesse acanhado para isso. “Quem não conhece vocês, não é?”.
Ele soube desde aquele momento que ela seria alguém que faria aquela experiência menos difícil, mas estava cada vez mais certo de que poderia se acostumar em tê-la sempre por perto, fazendo-o rir tanto quanto fazia e fazendo-o querer amar alguém como há tempos não queria.
– Ei! – chamou, com as bochechas cheias do arroz que tinha acabado de pôr na boca – Pare de me olhar com essa cara e coma seu amok antes que eu faça isso por você!
soltou um riso fraco, balançando a cabeça, e encarou o prato começando a comer em seguida.
– Cuidado para não se apaixonar, soldado... – ela implicou, rindo travessa e ainda mastigando, e ele a encarou por cima da tigela de sopa que levava à boca.
– Desculpe, Dra. . – ele continuou a olhá-la depois de pousar o recipiente de volta à mesa, com um sorrisinho divertido nos lábios – Você me advertiu tarde demais.

Seul, Coréia do Sul – Dezembro de 2017
acordou em um sobressalto e com o sorriso espertinho de ainda vívido em sua mente. Levou suas mãos até o rosto, esfregando-o de forma grosseira enquanto tentava fazer com que aquele sonho não o perturbasse tanto.
Não importava o que fizesse, as memórias de quando ela ainda estava ao seu lado lhe invadiam até quando ele achava que poderia ter alguma paz. Não bastava ser atormentado quando estava acordado, lembrando dela em cada detalhe do seu dia, quando comia seu prato favorito ou quando via na TV o ator que ela mais odiava, por meses até quando ele caía no sono seu cérebro tão saudoso dela quanto seu coração, fazia questão de misturar as lembranças e trazê-las à tona.
Com o rosto entre as mãos, sentado em meio à confusão de lençóis abaixo do edredom grosso e quente, soltou um suspiro pesado. Sentia-se exausto mesmo que tivesse passado o dia anterior inteiro na cama. Estava cansado de não superá-la, de não conseguir aceitar, mesmo de depois de alguns meses, que ela preferia seguir sua vida longe da dele.
Dois meses antes, as preparações e as promoções do comeback o distraíram da angústia pela falta dela, mas aquele tempo que os membros ganharam para um descanso estava sendo uma tortura. Era impossível que sua mente vazia não se enchesse dela, de seus sorrisos debochados, de seu tom mandão ou de sua voz divertida fazendo a piada mais sem graça do mundo parecer digna do melhor programa de comédia do país. não achava que muitas coisas eram insuperáveis na vida, mas sabia que era uma delas.
Era simplesmente tão injusto para ele que ela tivesse escolhido ir para Changwon sem manter contato, pondo fim ao que eles vinham construindo quando ele havia lhe dito inúmeras vezes que faria o possível para que dessem certo, para que encaixassem suas rotinas malucas e para que ela e sua carreira permanecessem ilesas diante dos comentários da imprensa e dos fãs. Ele sabia que seria difícil, mas já não tinha mais vinte anos e sabia que poderia lidar com as situações. , no entanto, preferiu aceitar o cargo de direção em um hospital do outro lado do país só para ficar longe dele, para privá-lo daquilo que o fazia se sentir vivo e completo. Sem ela, ele era como uma máquina em piloto automático.
Com mais um suspiro frustrado, seus olhos vagaram pelo quarto bagunçado até a janela à sua direita, por onde ele conseguia ver a neve caindo lentamente.
– Ah, claro! – resmungou para si mesmo, soando ácido como ele dificilmente era – Era mesmo o que faltava!
Jogou o corpo de volta ao colchão e apertou os olhos, sentindo-se irritado pelos meteorologistas da TV estarem certos sobre o rigor do inverno chegar mais cedo. Se seu inverno pessoal já se estendia por todo o verão e o outono, a chegada da neve deixava tudo ainda mais melancólico e ele temia se afundar naqueles sentimentos degradantes cada vez mais.

“나 사실 너의 바램처럼 지내지 못해
(Eu não estou vivendo minha vida como você gostaria)
현재 내 생활에 아무것도 만족할 수 없어
(Eu não consigo ficar satisfeito com nada em minha vida agora)
수 백 번 또 수 만 번
(Centenas e milhares de vezes)
널 미워하려고 노력도 했어
(Eu tentei te odiar)”


Chuncheon, Coréia do Sul – Maio de 2016
a encarava entediado enquanto envolvia seu braço esquerdo com o aparelho medidor de pressão. Ele não negaria que adorava como ela cuidava dele, sua preocupação era a maior prova de amor que ele poderia ter, mesmo que não precisasse de uma. No entanto, eles tinham pouco tempo e ele gostaria de aproveitá-lo de forma diferente.
– Isso é mesmo necessário? – ele perguntou, projetando um bico que ela achava muito fofo, mas apesar de saber o que ele queria, não iria ceder – Eu já disse que estou bem, meu amor!
permaneceu séria e cruzou os braços enquanto esperava a máquina portátil vibrar, de pé diante dele, que estava sentado na cama do hotel. A médica havia viajado até Chuncheon, na província de Gangwon e onde ficava a 102ª Força Reserva, base onde servia, para passarem a folga dele juntos e Dra. não via mal algum em checar se a saúde do namorado estava estável como ele dizia.
– Você perdeu peso desde a última vez que nos vimos, ! – ela se aproximou para verificar os números no painel do medidor assim que ele tremeu – Pelo menos sua pressão está normal. – anunciou em alívio, retirando o aparelho e se virando para guardá-lo em sua maleta de emergência, aquela que sempre carregava consigo.
– Por que estou ótimo! – ele se levantou para abraçá-la, por trás, envolvendo sua cintura com os braços e apoiando o queixo em seu ombro – Você não precisa se preocupar com isso. É minha namorada, não minha médica.
A mulher rolou os olhos e deslizou o zíper da mala que estava na poltrona. Virou para ele, ainda dentro de seu abraço, e se aproximou ainda mais ao levar as mãos aos seus cabelos, iniciando um carinho gostoso que quase o fez fechar os olhos.
– Sou sua namorada e sou médica. – ela frisou, falando de uma forma mais incisiva – As duas coisas não se excluem e nem existem separadas, mas se você não puder lidar com isso – deu de ombros e continuou como se não se importasse – está livre para arrumar outra pessoa.
Dizendo isso, ela juntou seus lábios aos dele rapidamente e se afastou, indo até a mala pequena que estava aberta ao lado da cama. arregalou os olhos.
– Nem brinque com isso, ! – ele levou a mão ao peito, sempre exagerado, o que a fez rir e balançar a cabeça – Não fale uma coisa dessas porque aí sim eu vou precisar de ajuda médica.
Ele se jogou na cama e virou para ela, apoiando a cabeça com o braço para olhá-la abaixada retirando do meio das roupas uma nécessaire com produtos de higiene. virou para ele também, voltando a deixar seus rostos bem próximos.
– Então não reclame, oras! Só quero seu bem... – ela argumentou no final, cravando seus olhos nos dele, sempre tão gentis – Você está mesmo se alimentando bem?
riu. Ela era impossível.
– Já disse que sim, amor! – levou uma das mãos até o rosto dela, fazendo carinho em sua bochecha e segurando o queixo em seguida, mantendo seus olhos alinhados – Você sabe como é minha rotina aqui e que não tenho lá muito acesso a banquetes diários, mas isso não quer dizer que eu esteja mal. Eu estou bem, ok? – olhou-a com carinho antes de se aproximar para beijar seus lábios com delicadeza – E senti muito a sua falta.
soltou um suspiro pesado por entre os lábios, sinal de que finalmente deixaria aquele assunto para trás.
– Também senti a sua. – um sorriso pequeno se formou em seus lábios e um maior apareceu no rosto dele – Vamos deixar esse assunto pra lá. – ela riu quando ele levantou as mãos para cima, como se agradecesse, mas levantou o indicador na direção dele ao se sentar ao seu lado na cama – Por hora. Vou te deixar uma lista de recomendações.
riu, mas não respondeu verbalmente, apenas assentiu, pois sabia que ela era teimosa o suficiente para fazer mesmo aquilo.
– O que vamos fazer hoje? – perguntou quando se deitou ao lado dele, alinhando seus corpos sobre o colchão macio da cama de casal.
O rosto bonito do rapaz se contorceu em uma feição de dúvida, como se ele estivesse fazendo um esforço para pensar, o que a fez rir abertamente. Era tão fácil estar com ele daquele jeito. Quase parecia que eram um casal comum, como os que poderiam ser encontrados passeando pelos parques naquela primavera. Exceto que não eram. empurrava para o fundo de sua mente quem ele também era quando estavam juntos e vinha fazendo isso desde que aceitara estar com ele como sua namorada. Sendo pragmática como era, aquele estava sendo um esforço tremendo, mas naquele momento ela queria apenas aproveitar a dormência de sua parte mais racional diante de como se sentia com ele, sendo amada por ele. Enquanto ele estivesse afastado dos holofotes talvez ela pudesse fingir que eles não existiam.
– Por mim nós ficamos por aqui e eu deixo você que você me examine por inteiro. – ele abriu os braços, lançando-lhe um olhar sugestivo que a fez gargalhar e jogar a cabeça sobre o travesseiro.
– É mesmo? – ela entrou na brincadeira, ainda tentando controlar o riso – Existe algum lugar em específico para examinar primeiro, Sr. ?
se deitou com as costas no colchão ao vê-la se levantar e se colocar sobre ele, deixando seu corpo entre suas pernas enquanto pairava sobre ele, mantendo seu olhos alinhados.
– Você pode começar pelos meus lábios, sabe? – a carinha inocente quase a fez rir de novo – Eles estão formigando de vontade de você.
ficou séria diante daquela declaração e aproveitou a sensação gostosa que os arrepios trouxeram ao seu corpo.
– Ok, vamos ver o que eu posso fazer aqui.
Lentamente ela se aproximou e ambos fecharam os olhos antecipando o alívio que era quando estavam juntos daquele jeito. Sem pressa, tocou os lábios dele com os seus e suspirou em sua boca quando as mãos de subiram por suas coxas até agarrarem sua cintura com delicadeza. Deixou que a língua dele tocasse a sua logo em seguida, deleitando-se em como suas bocas se encaixavam tão facilmente e em como seus corpos reagiam impulsionando os movimentos certos.
– Que tal? – ela perguntou em um sopro ao largar o lábio inferior dele – Melhor?
assentiu, descendo seus lábios pelo maxilar dela em direção ao seu pescoço perfumado. Deus, como ele sentira falta de cada pedacinho dela. Seu coração se exaltava e se agitava em alegria por tê-la por perto de novo.
– E agora? – voltou a perguntar, agarrando-se em seus cabelos ao senti-lo aumentar a intensidade dos carinhos.
– Agora você sabe... – ele beijou seu queixo antes de voltar a encará-la, muito mais desejoso do que antes – É só seguir em direção ao sul.

Seul, Coréia do Sul – Dezembro de 2017
passou pela porta automática em direção a área aberta e enfiou as mãos no casaco assim que o vento frio lhe atingiu em cheio. Bufou ao finalmente encontrar .
– Agora você fuma também? – ele arqueou uma sobrancelha em direção ao amigo, que soprava a fumaça por entre os lábios avermelhados e ressecados.
– Está frio. – Jae respondeu simplesmente, dando de ombros.
– E daí? – o outro rebateu, impaciente – Entre! Tome um chá, sei lá!
o ignorou solenemente e se virou para encarar as plantinhas sem folhas que resistiam ao inverno naquele pequeno jardim lateral da sede da rádio. Sentia-se impaciente, tenso e só queria voltar para casa. Em dias como aquele não era boa companhia para ninguém. Aliás, podia apostar que havia algum tempo que não era lá muito agradável para se estar ao lado.
vai te matar por estragar o programa dele com esse seu mau humor.
insistiu em manter uma conversa, principalmente porque achava que já estava passando da hora de encarar a realidade e deixar de agir como um adolescente birrento. Sabia que havia sido importante, o conhecia o suficiente para saber que ninguém nunca o havia atingido daquela maneira, mas ela estava seguindo a vida dela e ele precisava fazer o mesmo. Tinha uma carreira e inúmeros compromissos com que precisava lidar, em uma agenda lotada. Não tinha o luxo de viver aquela fossa por tanto tempo. Nenhum deles nunca tivera.
– Dane-se o .
– É, dane-se o ! – o próprio passou pela porta de vidro no mesmo momento, aproximando-se dos dois com uma expressão nada amigável e avançando para tirar o cigarro das mãos do amigo e apagá-lo no cinzeiro ali disponível – Dane-se você também!
o encarou estupefato, mas antes que pudesse dar qualquer resposta mal educada ao mais velho, continuou.
– Se você quiser continuar agindo como um irresponsável deliberadamente, me avise para que eu pare de tentar ser paciente com você! – ele começou a bronca e deu um passo para trás, abaixando a cabeça – Já demos tempo demais a você, . Tentamos ajudar, mas você não se ajuda. É assim que quer -ssi de volta?
o olhou alarmado quando ele disse o nome da médica em alto e bom som, coisa que eles não faziam em solidariedade ao amigo. Os dois assistiram a expressão de piorar.
– Não diga... – ele mal conseguiu terminar, apertando os olhos com força e levando uma das mãos à testa, esfregando-a.
– Digo! Digo sim! Você acha que ela estaria feliz em ver como você está se afundando desse jeito? Você sequer se alimentou hoje?
soltou um riso sem humor algum.
– Como se ela se importasse comigo!
– Não diga besteiras. – se pronunciou novamente – Você sabe muito bem que ela não é assim e esse nunca foi o caso.
– Ela sempre demonstrou se importar com você, mas quando foi embora – apontou e viu o amigo engolir em seco –, ela estava se importando consigo mesma.
, você não devia se meter nisso...
– Você já fez o favor de enfiar todos nós nisso! – ele continuou a falar com o mesmo tom irritado – E em vez de gastar as suas energias provando para a mulher que ama que pode ter um relacionamento normal mesmo com uma vida incomum, você faz exatamente o contrário.
respirou fundo ao fim do discurso e vendo que não falaria mais nada, ele atenuou o tom de voz para finalizar o assunto.
– Agora vá comer alguma coisa e beber algo quente. Entramos no ar em quinze minutos e eu espero ver você com uma expressão melhor do que essa.
Assim que terminou, ele lançou um olhar para que dizia “cuide dele” sem que precisasse verbalizar. Por ser o único membro que conseguia falar mais duramente com os outros, às vezes ele precisava carregar aquele fardo de dizer as palavras que doíam e que não eram fáceis de serem ditas, mas eram necessárias. Ele sabia que no fundo entendia e esperava que ele ficasse bem o quanto antes. Todos precisavam de de volta.

“널 사해 널 사랑해 외치면
(Eu te amo, eu te amo. E se eu gritar?)
다시 돌아올까
(Você vai voltar?)”


Seul, Coréia do Sul – Agosto de 2017
sentia o coração apertar e se encolher em seu peito ao olhar para ele, que parecia perdido enquanto encarava um ponto qualquer do quarto dele.
Tinham passado dias maravilhosos juntos desde que ele havia finalmente recebido a dispensa do serviço militar, mas os recentes compromissos dele com o grupo, que se multiplicavam com o passar dos dias e que desencadeariam em breve no comeback, puxavam-na de volta para a realidade de uma forma visceral e impossível de ser ignorada. Aquele incômodo que crescia em seu peito era sinal de que seu cérebro estava em alerta e que piscava em sinal vermelho.
– Eu vou pra Changwon no início do mês que vem. – ela continuou a falar, engolindo o nó em sua garganta que só parecia aumentar – É uma oportunidade ótima para dirigir um excelente hospital. Você segue sua vida aqui e eu sigo a minha lá. É o melhor a ser feito.
Como se estivesse despertado, se levantou da cama em um pulo e percorreu o pequeno espaço entre os dois rapidamente, segurando os braços dela e movendo os polegares em sua pele desnuda, como se com aquele toque, com aquele carinho, ele pudesse despertar sua parte passional e fazê-la perceber que aquilo não precisava estar sendo dito, que ela não precisava deixá-lo, que ela não precisava abrir mão dos dois juntos.
– ele chamou, baixinho e suplicante, e só ela sabia o quanto estava lutando para se manter forte diante daquilo –, não faz assim, amor. – ela fechou os olhos e engoliu a saliva, controlando o tremor de seu corpo – Não faz isso com a gente.
A mulher respirou fundo e contou mentalmente até três para abrir os olhos e encarar os dele. Nunca havia os visto tão tristes e queria se bater por ser o motivo para tal, mas precisava pensar em si mesma também, em sua carreira e em sua estabilidade e nada daquilo combinava com .
– Alguém precisa ser responsável aqui, . Estou sendo por nós dois.
– Você não precisa! – ele buscou os olhos dela novamente quando ela desviou para outro ponto qualquer, sabendo que aquele era seu maior trunfo.
Sabia que ela amava seus olhos, amava quando era observada por ele. Dizia sempre que eram os mais gentis e carinhosos que ela já vira e ele só queria que ela olhasse em seus olhos e desistisse daquilo, desistisse de terminar.
– Você não precisa fazer isso, . Eu protejo você! – sua voz beirava o desespero e ele sentia o coração bater na garganta – Seu trabalho e sua vida não serão afetados se mantermos segredo! – ele disse em um impulso, sequer pensando o quão degradante soava para ela se esconder pelos cantos para estar com quem se ama, como se estivesse fazendo algo de errado.
– Não quero me esconder, ! – ela se soltou dele e lhe deu as costas, incapaz de continuar a olhá-lo nos olhos – Tampouco quero ver minha vida virar de cabeça para baixo. Você não entende?
– Eu entendo! – ele respondeu de imediato, abraçando-a pela cintura e descansando a cabeça em seu ombro, sentindo-a tremer – O que você quer que eu faça? Me diga! , essa é minha vida. Você sabia desde o início.
– Sabia! – ela respondeu, encolhendo os braços e se abraçando ao senti-lo apertar-se contra si – Sabia também que ia acabar em algum momento. Por favor, não torne isso mais difícil pra mim.
se desvencilhou dele novamente, passando as mãos por seus braços tentando controlar seus tremores. largou os braços ao lado do corpo, derrotado. Seu coração batia tão desesperado que ela achou que entraria em colapso.
– Isso não precisa ser difícil. – ele mentiu.
Sabia que seria difícil, mas só queria fazê-la ficar e apelaria para o que quer que fosse.
– Isso já é difícil. – respondeu em um sopro, ainda de costas para ele, lutando contra o choro que já ameaçava vir.
– Eu amo você. – ele tentou um último recurso, levando uma das mãos até o rosto, limpando as lágrimas que já caiam com as costas dela – Eu amo você e não vou aguentar te ver ir.
– Eu amo você, . – ela respondeu, fechando os olhos e sentindo rastros quentes de lágrimas rolarem por suas bochechas – Mas minha mãe me ensinou que amor não é suficiente.
Paralisado e chorando como não fazia há tempos, a viu pegar a bolsa no divã e colocar a alça no ombro. Sem conseguir fazer nada diante daquilo, ele assistiu a mulher que amava caminhar até a porta de seu quarto sem olhar em seus olhos mais uma vez.
– Por favor, se cuide.
Foram suas últimas palavras para ele antes de passar pela porta e fechá-la, deixando-o sozinho para chorar pelo resto da noite.

Seul, Coréia do Sul – Janeiro de 2018
Enrolado nos lençóis e encolhido debaixo do edredom, ouviu o som de uma porta bater com força. Fechou os olhos e soltou um suspiro de frustração, imaginando que deveria ser de novo tentando o convencer a sair da cama.
Nevava há três dias, estava resfriado e ainda sentia sua garganta coçar um pouco, então já ensaiava sua pior cara de tédio para mostrar ao amigo assim que ele invadisse seu quarto. Só queria ficar ali trancado e aquecido até aquele inverno horroroso passar. Não somente aquele do lado de fora, mas especialmente aquele em sua mente.
Apertou os olhos quando sentiu as cobertas sendo puxadas e se encolheu ainda mais sobre o colchão.
– Levanta, ! – sua voz autoritária fez com que todos os pêlos de seu corpo se eriçassem e ele sequer ousou abrir os olhos, imaginando estar preso em mais um sonho com ela – Anda! Quero medir sua temperatura!
Assim que suas mãos tocaram seus ombros, puxando-o para cima, ele sentiu algo despencar em seu estômago.
– Você está horrível!
Mal podia acreditar no que viu assim que finalmente abriu os olhos. estava ali, diante dele em um blusão de frio verde musgo que a fazer parecer pequena, enquanto procurava o termômetro na maleta preta. Piscou algumas vezes e esfregou os olhos, como se para saber se estava sonhando ou não.
Quando tomou o pequeno aparelho em mãos, a médica se aproximou dele novamente e sem cerimônias levantou sua blusa para colocar o termômetro debaixo de seu braço direito. Cruzou os braços em seguida, analisando cada pedacinho dele e se sentindo triste por vê-lo tão mal. Estava visivelmente mais magro e pálido, além de apresentar olheiras profundas. Devia estar dando um trabalho enorme para sua equipe de maquiagem.
– O que você pensa que está fazendo consigo mesmo? – ela perguntou, realmente irritada – Há quantos dias você não come algo saudável?
tentou responder, mas sua voz parecia ter sumido e ele não era capaz de formar uma sílaba sequer. Seu coração, no entanto, parecia ter despertado de sua dormência de meses, porque batia tão frenético que ele sentia o peito doer.
Com o sinal do termômetro apitando, ela balançou a cabeça e se aproximou novamente, pegando o aparelho e checando a temperatura no visor digital. Respirou em alívio em seguida.
– Pelo menos você não tem febre. Está sentindo alguma coisa? – agarrou um de seus braços e sentiu seus batimentos através do pulso, não podendo conter o frio na barriga ao ter sua pele contra a dele novamente.
– Minha... – ele começou a dizer, mas vacilou ao que ela o encarou rapidamente, seus olhos nos dela sendo uma ação que não passaria sem efeitos para nenhum dos dois – Minha garganta dói um pouco. – ele finalmente respondeu, sentindo-se quase envergonhado diante dela, com medo de falar qualquer coisa que a fizesse ir embora novamente.
se afastou para pegar outro aparelho na maleta e voltou para ele segurando em seu queixo.
– Abra a boca. – ela orientou, jogando a luz daquela pequena lanterna diretamente em sua garganta quando ele fez o que a mandava – Você tem uma pequena inflamação, mas vamos resolver isso.
lhe deu as costas para ele e seguiu até a cozinha, notando pelo caminho como tudo estava uma bagunça. Pegou uma pequena garrafa de água na geladeira e voltou para o quarto, encontrando-o com o mesmo olhar perdido de quem ainda não acreditava que ela estava ali. Nem ela mesma acreditava, mas não podia mais fugir daquilo. Sua mãe não ficaria nada orgulhosa, mas ela estava sendo fraca por amor e não estava nada incomodada com isso.
– Tome isto. – ela lhe entregou a garrafa d’água e o comprimido que retirou do pequeno frasco que guardava na maleta – Vai precisar manter a medicação por três dias, a cada seis horas. – ele assentiu ainda atônito enquanto engolia com dificuldade por causa do desconforto da inflamação – Vou anotar em algum lugar pra você não esquecer. Amanhã preciso voltar porque tenho uma paciente em acompanhamento, mas espero encontrar você melhor no final de semana.
Aquela informação, que ela soltou como se fosse nada enquanto anotava suas prescrições médicas em um bloquinho, o fizeram despertar. Como assim? Ela havia voltado? Voltado para... Ele? não sabia que era possível que seu coração batesse ainda mais acelerado do que minutos atrás.
– Você vai voltar como médica? – ele perguntou em um fio de voz, reunindo toda a coragem por cima do medo de que a resposta dela fosse positiva, que só estivesse ali porque tinha pena dele.
tirou os olhos de sua caligrafia arrastada e olhou para ele, que a encarava em expectativa. Soltou um riso breve e largou a caneta e o bloco de notas sobre suas coisas para se aproximar.
– Vou voltar como médica e como a mulher que ama você e está preocupada e irritada com o modo como vem agindo.
não conseguia acreditar. Seu estômago gelou, ele não conseguiu mais responder e tudo o que conseguiu fazer foi envolver a cintura dela com os braços e puxá-la para si, sentindo cada pedacinho de seu corpo reagir em alívio. Mal conseguiu conter sua felicidade ao sentir os dedos dela em seus cabelos enquanto ela o abraçava de volta e soube que tudo aquilo era real quando sentiu o coração de batendo tão acelerado quanto o seu.
sorriu e se aconchegou no corpo quentinho dele, sentindo a pele formigar pela saudade que tanto reprimiu. Deslizou seus dedos por entre os cabelos lisinhos e macios dele e soltou um suspiro aliviado.
– Como isso aconteceu? – ela o ouviu perguntar baixinho, com o rosto ainda escondido em seu pescoço, fazendo-a se arrepiar.
Estava à flor da pele.
– Ouvi uma paciente lamentar por sua saúde. – sorriu ao lembrar-se da garota e do quão genuinamente preocupada ela parecia estar – Cometi o erro de pesquisar notícias suas e minutos depois estava no telefone obrigando a me contar como você estava. – ela sorriu novamente ao conseguir arrancar um riso dele.
se afastou minimamente para que pudesse colocar os olhos em seus olhos favoritos no mundo e se sentiu feliz por fazê-lo. – Fiquei tão preocupada, . – era o paraíso ouvi-la lhe chamar assim novamente – não queria me dizer nada, mas por sorte ele estava com , que arrancou o telefone e me contou como você tem se comportado.
Seu olhar repreensivo o fez abaixar a cabeça, envergonhado.
– Juro que não estava fazendo isso para chamar sua atenção, eu só-
– Eu sei. – ela não deixou que ele terminasse e deslizou seus dedos para o rosto dele, fazendo carinho em suas bochechas com os polegares, fazendo-o voltar a lhe encarar – Só, por favor, pare com isso já. Eu estou aqui e não pretendo ir a lugar nenhum. Quer dizer – ela se corrigiu, fazendo o coração dele dar um salto –, preciso voltar para Changwon, mas você entendeu a conotação romântica da frase, né? Isso é mais com você, não comigo.
Ele riu abertamente e um sorriso enorme tomou conta dos lábios da médica. Nunca mais ia querer ficar tanto tempo sem ver aquele sorriso.
– Não sei se vou conseguir deixar você voltar. – ele disse manhoso, voltando a abraçá-la.
riu.
– Você vai ter, querido. Preciso dirigir de volta amanhã bem cedo.
– Dirigir? – se afastou dela para lhe encarar com a expressão preocupada – Você veio dirigindo, ? Nesse tempo horrível?
A mulher bufou e riu, saindo do abraço dele para ir até as janelas, puxando a cordinha que afastavam as persianas.
– Há quanto tempo você não sai de casa? – ela virou para ele em seguida – Já não está mais nevando!
Ele riu, surpreso, e se levantou para espiar pela janela, vendo que quase toda a neve que se acumulava ali alguns dias atrás já estava derretida. Abraçou-a pela cintura e deixou um beijo demorado em sua bochecha antes de descansar o queixo em seu ombro.
– Acho que o inverno estava só esperando você voltar para deixar de ser tão rigoroso comigo.
sorriu ao encarar a vizinhança tranquila dele pela janela, sentindo-se em casa em seus braços.
– Você não precisa mais se preocupar. – ela se virou para beijar seu rosto por um momento, sem deixar de sorrir – Estou aqui e se for pra enfrentar o inverno rigoroso, que façamos isso juntos.


Fim.



Nota da autora: Eu amo como essa estória simplesmente brotou na minha mente assim que vi a postagem sobre esse ficstape no grupo do site. Espero que tenha feito jus a essa música tão gostosinha dos nossos legendary idols lindos e maravilhosos.
HyukJae, te dedico! Heenin, meu rei, não fique com ciúmes! <3
Um agradecimento especial a todas as meninas maravilhosas que estão enchendo esse site de KPOP com muito amor e amizade. <3
Obrigada por lerem e nos vemos nos muitos próximos ficstapes de KPOP!
xx
Thainá M.



Outras Fanfics:
02. Transformer (Ficstape #062 – EXO: EXODUS)
02. We All Roll Along (Ficstape #057 – The Maine: Can’t Stop Won’t Stop)
03. Drunk In Love (Ficstape #020 – Beyoncé: Beyoncé)
07. No Promisses (Ficstape#043 – Shawn Mendes: Illuminate)
08. Emily (Ficstape #51 – Catfish And The Bottlemen: The Ride)
09. Long Way Home (Ficstape #030 – 5 Seconds Of Summer)
10. Sorry (Ficstape #034 – Jonas Brothers: A Little Bit Longer)
11. Outside (Ficstape #51 – Catfish And The Bottlemen: The Ride)
12. Don’t Stop Me Now (Ficstape #011– McFly: Memory Lane)
12. Foreigner’s God (Ficstape #033 – Hozier)
14. You & I (Ficstape #023 – John Legend: Love In The Future)
Amor em Irlandês (Especial Equinócio de Setembro)
Beside You (5SOS/Shortfics)
Calling in Love (BTS/Shortfics)
Can You Feel It? (Outros/Shortfics)
Date Night (EXO/Restritas/Shortfics)
Don’t Close The Book (Jonas Brothers/Shortfics)
Love Me Love Me (Winner/Em Andamento)
Love Affair (One Direction/Em Andamento)
Mixtape: Listen To Your Heart (Awesome Mix: Volume 1: “80/90’s”)
Thankful (Especial Extraordinário)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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