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Capítulo Único

Reino de Inglaterra e Irlanda, 1588

ATO I


O coração de não lhe dera sossego desde que acordara naquela manhã acinzentada. O órgão tolo tamborilava em seu peito tornando sua respiração irregular e lhe deixando irritadiça, sem conseguir controlar os tremores de seus dedos e de suas pernas. Ao mínimo farfalhar de vestidos ou de passos fortes de botas de cavaleiros, a jovem mulher adiantava-se de seus aposentos até o alto da escadaria do palácio para espiar se a comitiva real que fora a Essex finalmente voltara. O sol já estava quase no alto do céu e ainda assim não havia nenhum sinal de que Sua Majestade Britânica estava de volta a Londres.
não era a única esbaforida pela chegada do cortejo. Arrastavam-se há anos uma guerra pelas rotas marítimas do Novo Mundo, desde o grandioso feito de Sir Francis Drake e sua heroica circunavegação pelo globo a bordo do The Golden Hind e seu audacioso saque aos galeões espanhóis no Pacífico. Felipe II, de Espanha, enfurecido com o suporte real à pirataria, cometeu a tolice de guerrear contra os ingleses e há alguns meses havia perdido seus cento e trinta e três navios em alto mar. A valorosa Invencível Armada – esquadra espanhola – estava destroçada e a força bélica britânica estava fortalecida como nunca antes desde o despontamento da exploração marítima. O reino estava em polvorosa e Sua Majestade, a rainha Elizabeth I, liderara uma comitiva até a cidade portuária para receber os valorosos súditos que com bravura e honras venceram em seu nome. Todos esperavam o retorno do cortejo que estava previsto para aquele dia, além do generoso banquete que a rainha ofereceria em ação de graças e comemoração.
Nenhum dos assuntos pertinentes aos feitos militares e políticos era o motivo da espera impaciente de . Sua angústia era por amor, o mais descabido deles, porém, o mais arrebatador, que lhe atingira até o último fio de cabelo desde que seus olhos pousaram na figura impassível e marcante de , capitão-tenente da Marinha e ex-corsário, cujo histórico sombrio não deveria encantar uma dama como .
Prima direta de Elizabeth, fora morar na corte assim que a rainha assumira o trono. Não possuía títulos, portanto, vivia à sombra dos demais nobres do palácio que esnobavam seu parentesco com Sua Majestade sempre que podiam, mas ainda assim, possuía grande instrução, gozava de bons aposentos e de boa circulação nos meios artísticos londrinos. Era devota das peças dramáticas – assim como a prima – e possuía grande talento para a pintura – incentivado pela rainha, que lhe presenteara com um atelier equipado com o que havia de melhor para artistas da renascença. Era esperado que Elizabeth lhe arranjasse casamento com algum nobre abastado para o próximo verão, porque o avançar de sua idade para além das duas décadas de vida já despontava o atraso de um matrimônio, mas já havia escolhido seu pretendente.
As opiniões acerca de eram controversas. Corsário desde a alta infância, havia se especializado em rapto de navios e tornara-se apto a conduzir grandes embarcações desde muito cedo. Tornara-se famoso na costa sul da Inglaterra, rota dos Países Baixos, e fora responsável por muitas baixas da Marinha da Holanda antes mesmo de completar década e meia de vida. Os burburinhos diziam que era impiedoso, um torturador nato cuja habilidade acabava por tornar marinheiros distintos em seus parceiros de espólio. Os mais alvoroçados diziam que mais de quinhentas mortes estavam em suas costas e que sua fortuna secreta estava escondida em algum lugar na rota para a Ásia, para onde ele pretendia fugir assim que conseguisse enganar a rainha e roubá-la.
Nem todas as histórias eram verídicas, mas os exageros acabavam por lhe criar uma reputação assustadora e era este o motivo dele estar entre os militares de Sua Majestade. Seu pai, o lendário pirata Owen , tornara-se um importante aliado da rainha no controle à expansão espanhola, mas morrera em um naufrágio no mar das Antilhas. Para honrá-lo em suas inúmeras contribuições para a Coroa, fora condecorado com três insígnias e elevado ao posto de capitão-tenente da Marinha, em memória ao seu pai e em consideração a sua extensa experiência em alto mar e em batalhas. Obviamente que sua inserção na Marinha Britânica gerou rebuliço, afinal, um corsário nunca seria de confiança, mas Elizabeth sabia mais sobre ele do que os demais e admirava sua bravura em fortalecer-se em um meio tão hostil quanto o dos mares ainda criança.
desconhecia sua reputação quando o viu pela primeira vez ao se cruzarem pelos largos corredores do Palácio de Whitehall. Apesar de seu cumprimento formal e de sua postura inflexível, algo em seus olhos trouxe uma brisa de inverno para seu corpo, arrepiando-lhe dos pés à cabeça, fazendo contraste ao calor que irradiou de seu coração, que formigou energia para seu peito, faiscando-lhe a superfície da pele.
– Quem é o cavalheiro? – havia perguntado à Isla, sua dama de companhia, assim que o homem lhe dera às costas, porque surgira nela uma urgência de vê-lo mais vezes, de conhecê-lo e de descobrir o que havia por trás de seus olhos nebulosos.
– Capitão-Tenente – Isla havia feito o sinal da cruz e colocado a mão direita no crucifixo que levava contra o peito, olhando assustada para a mulher a quem servia, continuando aos sussurros – Foi corsário e agora serve à Sua Majestade formalmente. Senhorita, por favor, retire esse olhar de interesse sobre este cavalheiro. Deus não se agrada das coisas que ele já fez.
Era tarde demais para , no entanto, porque ela soube que mergulharia em hábitos nada virtuosos caso pudesse receber o amor daquele homem. Poucas primaveras, porém, seriam necessárias até que o nevoeiro ao redor dele se dissipasse para que ela pudesse se aproximar como desejara, possuindo a oportunidade de ouro de conhecer o homem por trás da fama sombria. Quando não estava sob sua armadura impenetrável, era um homem formidável. Seu humor era espirituoso e ele contava anedotas como ninguém. Fazia-a rir tanto quanto as comédias encantadoras de John Lyly. Seus olhos reais eram como os de uma criança e eram os mais bonitos que ela já vira quando não estavam duros sob a ruga persistente em sua testa.
Não era de se espantar que estivesse submersa nas águas mais profundas do amor, deixando-se levar pelas ondas turbulentas do impetuoso alto mar. Seu desejo era o de se jogar sem chances de salvamento. , porém, dificultava seu nado livre e revirava-se em tempestade com a possibilidade de nascer entre eles um amor maior que o Pacífico, mesmo que ele já houvesse nascido. Porque o coração que escondia no peito já batia descompassado pela única dama que o olhara sem puro medo ou sem pura malícia, mas ainda assim, ele não enxergava para a bela um futuro promissor ao seu lado. achava que não sabia amar.
era bom em driblar as águas ferozes do Atlântico, em liderar homens sedentos de ouro e prata, em derrubar galeões espanhóis. Ele não saberia lidar com a aura artística de , não saberia tratá-la como ela merecia e ansiava. As pontas grosseiras de seus dedos não eram dignas de sua pele e sua boca desonrada jamais seria merecedora de seus lábios castos e intocáveis. Por mais que soubesse que não era o monstro sanguinário que toda Londres dizia conhecer, estava longe de ser um pretendente adequado a alguém da família de Sua Majestade, especialmente se esse alguém fosse a encantadora .
– Você sabe que não me importo com o que a Corte diz, não sabe? – ela lhe dizia um dia antes de viajar para comandar mais uma leva de navios contra os espanhóis – Você me deixou conhecê-lo como o é, não pode mais negar isto.
O sorriso descrente de a irritava e a fez largar o pincel que segurava, deixando-o sobre a mesa para levar os dedos até o tecido pesado do vestido, torcendo-os ali para dissipar seu nervosismo e irritação. Estavam em seu atelier, no terceiro andar do palácio, onde costumavam se encontrar. Ele estaria longe por meses. Ela sequer gostava de ponderar a possibilidade dele não voltar, já que sua cabeça em um barril valeria muitas moedas de outro para qualquer espanhol. Tudo o que ansiava era poder sentir seus braços ao redor dela para tornar aquela despedida menos amarga, que ele dissesse que aceitava seu amor e que parasse de resistir quando ela podia ver em seus olhos claros que ele sentia o mesmo que ela. O mesmo frio na barriga, o mesmo formigamento, a mesma maresia no peito.
– Eu não sei fazer isso, .
Ela via a angustia em seus olhos ainda que ele tentasse mascarar com determinação. Queria poder apagar todas as suas dores antigas, as que o fizeram levar a vida que levava antes de servir Elizabeth, e dizer que o ensinaria o melhor do amor, mostraria a ele mesmo que ninguém antes houvesse tentado. Só precisava que ele despisse sua armadura diante dela, que a deixasse tocá-lo. Ela imaginava que para um homem como entregar seu coração fosse uma tarefa árdua, mas ele precisava entender que ela não era sua inimiga. Ela desejava ser seu mar tranquilo. Sem tempestades.
– Eu vou esperar você, – seus olhos cravaram nele, mas ela não ousou se aproximar, ainda que quisesse – Vou esperar a batalha terminar. Quando retornar aqui estarei e esperarei por sua resposta.
O homem nada disse e cruzou os portões do atelier em silêncio, deixando-a para trás com o peito apertado em angústia. Desejava vê-lo de volta e desejava que ele a aceitasse como sua quando a paz reinasse novamente. Para sempre sua, a primeira e única a amá-lo como ele merecia e como ela tão fortemente desejava.
– Senhorita! – a voz de Isla tremia de excitação e se levantou de sua cama de imediato. Havia desistido de gastar seus sapatos pelos corredores a espera dele – Eles chegaram! A comitiva de Sua Majestade adentra a Corte neste momento!
Seu coração deu um salto tão grande que seu peito doeu. As anáguas de suas vestes foram ligeiramente erguidas para que seus passos pudessem ser mais ligeiros e ela desceu as escadarias como se flutuasse, tamanha pressa. Todo Whitehall parecia já saber da novidade e nobres arrastavam fru-frus por todos os corredores. Assim que chegou à entrada principal, de frente para o enorme jardim, viu a figura imponente de Elizabeth sobre a carruagem real. Os cabelos ruivos parecendo ainda mais brilhantes sob o sol fraco do início de tarde e seu sorriso contido fazendo a alegria dos súditos da Corte, que a recebiam com coros.
Os servos ajudavam Sua Majestade a descer e Elizabeth fez a caminhada até a entrada do palácio sendo seguida pelos militares de alta patente. Após fazer a reverência à prima, os olhos ansiosos de procuraram pelos dele após o pelotão de generais oficiais e quando os encontrou, alívio rodopiou por todo o seu ser. Ele estava vivo e a salvo com honras. Seu sorriso foi inevitável e quando ele lhe sorriu de volta, ela soube que nada mais importaria a não ser receber o amor do homem que amava com todas as forças que tinha. Ela só precisava que ele dissesse o que ela mais sonhara em ouvir.

ATO II


A madrugada caía fria após uma noite de comemorações calorosas, mas não conseguira ir para a cama. Passara toda a ceia com o coração inquieto por não conseguir um minuto da atenção de . Todos queriam cumprimentá-lo, ouvi-lo falar sobre a batalha e sobre a derrota da Invencível Armada. Barões o bajulavam apresentando suas filhas e elogiando seus feitos mesmo que outrora criticassem a rainha por condecorá-lo, enquanto só gostaria de conversar com ele, saber se ele estava bem e se estava pronto para ela.
Passara os últimos meses sonhando com aquele momento, criando em sua mente os mais diversos cenários que certamente dariam uma peça romântica. Imaginava-o chegando em suas deslumbrantes vestes da Marinha, abrindo os braços para ela, que correria em sua direção para roubar seu calor e misturar-se a ele enquanto ele a rodopiaria no ar, segurando seu tronco entre seus braços fortes, fazendo-a gargalhar. Sonhava com os dois de braços dados pelo salão real e ele a apresentando como sua para seus superiores e seus companheiros de combate. Fantasiava, sobretudo, sobre como seria quando estivessem a sós e ele a tocasse como por tantas luas ela desejara, quando seus dedos e lábios experientes resvalassem em sua pele, fazendo-a se desmanchar em queda d’água. Queria-o tanto que já não lhe bastavam os cenários hipotéticos, ela desejava a realidade viva de seu ser ou desfaleceria por amor.
Seus devaneios a levaram para seu lugar favorito no palácio e em minutos se viu em seu querido atelier iluminado apenas pela candeia que trazia consigo e pela luz brilhante da lua que entrava pelas janelas. Caminhou até uma delas e observou o jardim real pelas vidraças, constatando o pouco movimento de pessoas e guardas. Perguntava-se se estava com os demais oficiais ainda em comemoração, provavelmente em alguma casa de diversão para homens na Londres central. Não era ingênua em pensar que ele não estivera com outras tantas mulheres antes, provavelmente mais do que ela poderia imaginar, mas tampouco se importava. O que queria dele tinha certeza que ele não havia dado a alguém nunca antes.
Fora um susto quando o ranger lento das portas se fizeram ouvir, fazendo-a voltar-se alarmada para a direção do som. Quase não acreditara no que seus olhos lhe mostraram, levando a mão ao peito para acalmar o coração, que com um olhar apenas ficara esbaforido. Os olhos cautelosos de experimentaram sua figura, permitindo-se admirá-la a pouca luz e tendo a mais absoluta certeza de que era a criatura mais linda em que já colocara seus olhos, os quais já haviam visto de tudo e em todos os lugares da Terra. Nada, porém, poderia ser comparado a à forma como ela lhe olhava, como remanso acolhedor.
– Posso entrar? – os olhos da mulher quase se fecharam diante do deleite de ouvi-lo de tão perto novamente.
– seu nome saía de seus lábios como um suspiro de alívio e ela se adiantou para ele, querendo abraçá-lo sem saber se poderia –, claro que pode! Deus Santíssimo, como você está? Algum ferimento de batalha? Sua saúde está boa?
O riso leve desprendeu-se de sua garganta com facilidade e fechou a porta antes de se voltar para ela, sorrindo por sua preocupação e agraciado pelo som doce de sua voz fazendo música a seus ouvidos.
– Eu estou perfeitamente bem, – seus braços se abriram para provar-lhe e ela quis mais do que tudo correr para ficar entre eles –, você me viu mais cedo.
– Nunca é demais verificar.
Caminhou para perto dele com cautela, não querendo que mais uma vez ele a impedisse de se aproximar. Ela não sabia, porém, que não queria mais criar impedimentos entre eles. Por que enquanto estava em alto mar, vivendo de suprimentos escassos e rum, era apenas nela que ele pensava. estava acostumado a manter a cabeça vazia quando estava navegando ou em batalha, porque estava preenchido da única coisa que lhe provocava paixão intensa: o mar. Feroz ou plácido, fora o mar que lhe acolhera quando ele não tinha nada, quando fora obrigado a abrir mão de sua infância para aprender a ser cruel, porque somente um homem impenetrável domina as águas infinitas de um oceano. Ele aprendera a não sentir como os homens que viviam em terra firme, mas havia encontrado nela seu fraquejar.
Poderia uma mulher carregar o mar dentro de si?
Por que era o que via quando olhava seus olhos intensamente apaixonados. Havia tanto ali que o deixava tonto como a maresia de fim de tarde. Ao lado dela, a brisa parecia fresca como a do mar do Caribe e fazia seu coração palpitar como quando navegava pelos estreitos mais perigosos da Terra. Aquelas eram as sensações que ele conhecia, portanto, só poderia compará-la ao mar. Infinito e deslumbrante, capaz de provocar nos homens as mais intensas sensações.
Para ele, era mar.
– Eu senti sua falta, – estavam a dois passos um do outro e ela já conseguia ver seu rosto nitidamente; o nariz alto, a boca onde uma charmosa cicatriz se desenhava no lábio superior; tão bonito quanto nenhuma pintura que já vira.
– Eu senti sua falta, .
Àquela altura, a mulher achou que ele já podia ouvir seu coração, de tão forte que era seu tamborilar. nunca se confessava para ela daquela maneira.
– Senti sua falta todos os dias. Senti tanto que achei que minha mente fosse começar a me trair – seus passos venceram a distância curta entre os olhos dois e ele já conseguia sentir o aroma delicioso dos óleos e perfumes que vinham da pele dela – Estou tão aliviado em colocar meus olhos em você.
arfou. Um arrepio intenso cruzou seu corpo e ela pensou estar presa em um de seus devaneios de amor.
– Por favor, me diga que ainda espera minha resposta – os olhos dele pareciam implorar com ingenuidade – Diga que esperou por mim e eu enfrento o que for preciso para que possamos ficar juntos.
Ela mal percebeu que chorava e foi somente quando os dedos grosseiros dele tocaram sua face, secando a lágrima que escapara de seus olhos, que concebeu a realidade que tanto sonhara. A sensação era tão nova quanto indescritível e seus olhos se fecharam quando ele deslizou o polegar sobre sua bochecha, descendo para o maxilar, contornando seu queixo e seus lábios, que automaticamente de abriram para ele. sentiu o coração esmurrar seu peito da mesma forma que quanto enfrentara uma baleia gigante no Atlântico Norte e pela primeira vez em muito tempo se sentiu fraco e indefeso.
– Eu esperaria por você mesmo que se passassem mil anos, – ela sorriu, emocionada – Ainda que você velejasse por todos os mares do mundo sem chance de volta, eu estaria aqui esperando por você. Por que o amo.
– Você não deveria – a angústia esteve em sua voz e temeu que ele fosse retornar aos discursos anteriores –, você merece mais do que um homem com o meu passado.
– Eu não me importo.
– Eu sei que não – sorriu, tomando seu rosto entre suas duas mãos –, porque somente alguém que não se importa cruzaria o nevoeiro para chegar até mim. Ninguém nunca havia chegado deste lado. Ninguém nunca havia chegado aqui.
Com cuidado, ele levou sua mão trêmula até seu peito, pousando-a no lado de seu coração, fazendo-a sentir como ele também batia forte como o seu.
– Você é a primeira a entrar, senhorita . Seu cavalheiro humildemente espera que não se atenha ao frio e ao cheiro de mar. Por que isso foi tudo que mantive em mim desde sempre.
riu, deixando que mais algumas lágrimas da mais pura satisfação tomassem seu rosto belo. Era tão bom vê-lo sorrindo para si e deixando-a tocá-lo que ela ainda não conseguia conceber tamanha dádiva.
– Não me importo com o cheiro de mar – ela se aproximou, fazendo com que seus narizes se tocassem levemente, inspirando a mistura de sal e vinho que emanava dele –, e quanto ao frio... Vou cuidar disso com a permissão do capitão.
– Eu sou inteiramente seu. Em meu coração você não precisa de permissão.
O sorriso já não deixava seus lábios e novamente tocou seu rosto para limpar as lágrimas teimosas que insistiam em torná-la ainda mais boba diante da situação. Vacilante, dedilhou a insígnia em seu peito, o brasão do reino, e subiu por seu tronco forte em direção a seus ombros. a assistiu experimentar tocá-lo, achando adorável como ela muito lentamente subia os dedos por sua musculatura coberta pela farda de honra, até que chegasse a seu rosto, resvalando em seu maxilar marcado.
– Sonhei tanto em ouvi-lo dizer tais coisas que temo estar sonhando outra vez – seu polegar dançou na bochecha dele, mas ela não resistiu em descê-lo até seus lábios, tocando sua cicatriz com carinho.
– Sinto muito por fazê-la esperar tanto – ele analisou sua expressão e seu peito tremeu diante da vontade que o tomou –, mas com a sua permissão posso lhe mostrar com prazer que nada aqui é irreal.
achou que fosse entrar em colapso.
, eu-
– Posso beijá-la?
Não havia modo de responder a seu pedido verbalmente, porque qualquer voz sumira de seu interior diante da real possibilidade de tê-lo a tocando como sempre desejou. Ele poderia beijá-la quando quisesse, por quanto tempo quisesse. Ainda que o mundo desabasse sobre suas cabeças, ainda que o ar lhe faltasse por completo, ainda que fosse a última coisa que ele faria nada vida. Ele poderia beijá-la para sempre. Poderia tê-la em seus braços pela eternidade.
Como se compreendesse suas reações, se adiantou para ela, aproximando seus rostos até que suas respirações se misturassem, a dele sempre contida, a dela desesperada, ofegante em antecipação. Nada seria mais honroso para do que saber que ela o desejava a ponto de faltar-lhe o ar. Assim que suas bocas se uniram, o paraíso estava na terra e se parecia exatamente como a maciez dos lábios dela sob os ressecados dele. Com cautela, o capitão conduziu a si mesmo para dentro dela, sendo atingido pela maior onda de sua vida. Suas línguas unidas eram como o encontro entre o Atlântico e o Pacífico e assim como quando vira tal fenômeno divino, ele jamais esqueceria aquele beijo, nem como ele lhe pareceu a melhor sensação mundana que já provara. era definitivamente mar e desaguava nele naquele momento derramando-se em ondas de amor e intensidade.
Suas mãos o tocaram fazendo dele sua fortaleza ou ela desfaleceria em seu colo. Os braços de circularam sua cintura e o prenderam para ele como se sua vida dependesse disso. Era seu primeiro beijo – o primeiro de muitos, ela esperava –, mas soube que já não saberia viver sem o sabor único de sua língua e sem a forma como ele se movia sobre ela, fazendo maresia em seu ventre, domando seus sentidos como nem ela mesma era capaz.
Se era mar, era o único capitão capaz de domá-la em seus braços.
– Faça isso de novo – ela pediu, sôfrega, com o peito subindo e descendo de forma veloz – Faça isso para sempre.
não segurou a risada, unindo seus lábios em apenas alguns segundos, tocando seu rosto com carinho e cuidado.
– Você terá todos os meus beijos daqui em diante – ele a olhou, roçando seus narizes –, mas por agora, precisamos da permissão de sua prima.
bufou, fazendo-o gargalhar.
– Elizabeth não irá negar. A rainha o adora, querido. Todos na Corte sabem disso.
arrumou sua postura, adquirindo um olhar mais sério.
– Sempre pude contar com a benevolência de Sua Majestade, mas não posso ignorar o fato de que ela certamente irá querer o melhor para você – ele tocou seu rosto com carinho, o peito se apertando diante da possibilidade da rainha lhe negar seu amor.
Você é o melhor para mim, – ela foi firme, segurando em seus braços – Elizabeth sabe quem você é e sabe que sou apaixonada por você.
Capitão quase engasgou.
– Sabe?
sorriu, adiantando-se para beijá-lo rapidamente, já se sentindo a vontade para tal.
– Sua Majestade tudo sabe, querido. Video et taceo¹ é seu lema, esqueceu?
riu, tomando as mãos dela nas suas e as beijando delicadamente.
– De qualquer forma, vamos fazer conforme é o correto. Apresentar-me-ei à rainha para pedir sua mão. Ore para que ela não queira a minha cabeça depois disso.
– Deus, Nosso Senhor, não irá permitir tamanho absurdo. Não depois de ver sua serva tão feliz nos braços do homem que ama! – seu suspiro saiu sem controle e sorriu para ela, tendo a certeza de que era ser mais adorável sobre a terra.
– Eu amo você.
A confissão saiu baixa e séria, apesar de seu sorriso e fez congelar no lugar. Eram emoções demais para seu coração dramático.
– Eu amo somente você, .
As lágrimas voltaram a cintilar seus olhos e seus lábios tremeram em resposta.
– Eu amo você, . Mais do que tudo nesta vida. Sou sua para sempre.
lhe sorriu, beijando suas mãos novamente e sentindo-se feliz como nunca antes.
– Eu sou seu para sempre. Meu coração agora flutua em seu mar, por favor, cuide bem dele.
lhe sorriu de volta, deixando as lágrimas caírem como queria, já não se importava.
– Eu nasci para fazer isso, Capitão.

¹ Um dos lemas de Elizabeth I, “vejo e nada digo”.





Fim.



Nota da autora: Ufa! Eu me desafiei a escrever essa fic em um enredo que nunca trabalhei, com um cenário que nunca me atrevia a usar, mas espero de coração que tenha dado certo! Quando já temos uma lista um tanto extensa de fanfics, talvez seja a hora de começar alguns novos caminhos, não é? Essa é minha primeira de época e apesar de ter sido levada completamente por esse casal enquanto escrevia, não tenho certeza se ficou a altura da música, minha preferida do 21.
Espero que tenha sido uma leitura agradável, que tenham gostado e me deixem saber. Estou aberta a sugestões que me ajudem a melhorar nesse enredo tão novo pra mim!

Para terem acesso às minhas outras fics, basta clicar em minha página de autora aqui abaixo e no ícone do Facebook vocês podem ter acesso ao meu grupo de fics.

Obrigada por lerem e aproveitem as demais fanfics desse álbum esplêndido!
xx
Thainá M.







Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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