Última atualização: 02/12/2017
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Capítulo Único

“But I found myself
(E então eu me encontrei)
The whole new myself
(O novo e melhorado eu)
나도 헷갈려 대체 어떤 게 진짜 난지
(Também estou confuso, qual meu verdadeiro eu, afinal?)
널 만나고 내가 책이란 걸 안 걸까
(Eu percebi que era um livro após te conhecer?)
아님 니가 내 책장을 넘긴 걸까
(Ou você apenas virou minha página?)”


Eu lembro exatamente de como nos conhecemos. Quando estou estável e minha mente não está trabalhando mais rápido que o necessário para meu metabolismo acompanhar, posso ser considerado alguém com uma boa memória. As lembranças vêm com uma facilidade ímpar quando se trata dela e eu quase posso sentir a brisa refrescante daquela tarde de primavera.
Naquela manhã eu xinguei que se gabava com seu óculos de sol estiloso enquanto caminhávamos pelo campus da Korea National University of Arts. O dia amanhecera como em um verão, limpo e claro, quente e acolhedor, como se tudo ao redor estivesse preparando o meu humor para encontrá-la. Hoje, sabendo o que ela pensa sobre energias, destino e tempo cíclico, penso que talvez fosse realmente esse o caso.
Eu estava bem há semanas, depois de uma última crise de hipomania que me fez voltar à psicoterapia, preocupado que aquele estágio pudesse me ferrar nos exames semestrais. Eu sempre fora um desastre em aderir integralmente o tratamento, especialmente porque antes disso eu era um desastre em identificar os meus próprios sintomas, então quando eles vinham mais leves, como um processo comum de irritabilidade cotidiana ou frustração típica de sobreviventes em um mundo tão complexo, eu achava que a medicação podia ser descartada. Felizmente, eu aprenderia a lidar melhor com isso e comigo mesmo.
Era o auge da primavera. As cerejeiras coloriam a cidade e as pessoas paravam a todo o momento para capturar uma imagem bonita daquele presente natural que recebíamos uma vez ao ano. Tudo o que eu ouvia meu amigo falar ao meu lado, no entanto, era sobre alguém que ele conhecera e que fazia comigo a disciplina de composição naquele período.
– Já disse que não sei quem é, – insisti em meu ponto, não muito interessado em seu novo caso amoroso.
– Por que não estou surpreso? – ele me olhou ao retirar os óculos, naquela pose dork que era sua marca registrada, assim que entramos no prédio da Escola de Música – Você vai conhecê-lo hoje de qualquer maneira – parou ao pé da escadaria, virando-se para mim ao arrumar a mochila em um dos ombros –, porque vamos almoçar juntos.

Ele apenas tocou meu ombro em um cumprimento rápido e seguiu pelo corredor à esquerda, onde as turmas de percussão faziam suas aulas, e eu segui escadas acima, rindo ao balançar a cabeça.
era em minha vida aquele tipo de pessoa que, quando se para pra pensar, não se sabe como foi parar ali, mas eu sempre fui muito grato por sua presença e sua amizade ao longo dos primeiros anos de universidade e em tudo que viria depois. Foi por sua causa, afinal, e pela sua busca incansável pelo amor que inspiraria sua carreira musical, que eu a conheci.
O instrumento de era a bateria, mas ele gostava de se aventurar compondo e sempre que tentávamos algo em conjunto ele criticava a falta de um eu-lírico apaixonado em meus versos.
Veja bem, não é que eu não acreditasse no amor ou fosse cego aos seus efeitos sobre as pessoas, mas em geral eu sempre fui guiado por um pragmatismo que racionalizava demais esse sentimento. Eu supostamente havia sido concebido por causa do amor e sabia que ele estava presente em algumas das minhas relações mais íntimas com as pessoas às quais eu recebia e dava zelo, mas aquele amor ao qual se referia quando lia minhas composições parecia distante demais para mim. Quase ficção. Parecia bom para se contar uma história e só.
Essas certezas se fragilizariam depois que ela entrasse em cena para contar a nossa história, mas ainda assim não estou sendo romântico. Também não estou sendo rabugento ou cético novamente, mas nada entre nós começou como um típico amor romântico. Esse amor é simples demais para ela, alguém tão transcendental.
Naquele dia, ao sair da sala de práticas de instrumentos de corda, após minha aula mais difícil da semana no Departamento de Tecnologia Musical, fiz meu caminho de volta para o clima agradável que fazia. apareceu ao meu lado logo depois e seguimos para o refeitório do campus de Seokgwandong.
– Ele já está aqui? – perguntei já na fila para pegar a comida, olhando por cima de meus ombros para o amplo salão onde ficavam as mesas.
– Não – meu amigo respondeu –, ele foi buscar uma amiga na Escola de Dança, mas já está vindo.
Ele sorriu e eu sorri de volta, sentindo-me bem por ele ter encontrado alguém por quem se interessasse e estivesse empolgado a ponto de querer que eu o conhecesse. Sentei-me ao seu lado em uma mesa vazia ao fundo, de onde podíamos ver quando eles chegassem. falava sobre o próximo módulo, com um professor norte-americano e eu o ouvia encarando a minha comida sem muito interesse. Os fármacos não interferiam no meu apetite normalmente, mas a última alteração na medicação, para estabilizar meu humor, surtiu alguns efeitos colaterais em meu estômago, dos quais eu ainda me recuperava naquela semana.
– Não quero fazer o teste para a banda de jazz, então eu estava pensando se a gente... – ele se interrompeu e eu levantei meus olhos para saber o porquê, ao ele verbalizou segundos depois – Ali, , eles chegaram! – apontou com a cabeça para a fila dos tickets.
Fui capaz de vê-los porque o rapaz acenou para nós e tive a sensação de já tê-lo visto em outras ocasiões, o que me fez pensar que com um pouco mais de esforço eu teria me lembrado dele quando meu amigo o descreveu. Não demorou para que os dois estivessem vindo em nossa direção. Foi quando eu a vi pela primeira vez.
Se eu soubesse metade das coisas que sei hoje, eu poderia estar falando sobre amor já naquele momento.
Algumas pessoas pelo mundo afora têm aquilo de alguns chamam de aura iluminada, mas eu ainda prefiro dizer que algumas pessoas emanam uma empatia tão grande, que fazem até aqueles mais fodidos se sentirem acolhidos. Foi o que eu senti enquanto ela se aproximava, segurando sua bandeja enquanto erguia um pouco mais o ombro direito para que a alça da bolsa de pano, que parecia um pouco pesada demais, não escorregasse por seu braço. Seus cabelos estavam presos para cima de um jeito que parecia ter sido feito às pressas e ela usava um blusão por dentro da calça de cintura alta. Se eu tivesse pensado nisso na época, teria recortado aquela cena e a nomeado uma das belezas cotidianas mais lindas que já vira. Para minha imensa sorte, ela ainda me presentearia com outras ainda mais belas.
e – meu amigo começou a nos apresentar depois de nos levantarmos e cumprimentá-los fazendo a mesura –, esse é meu amigo .
Sorri amigavelmente para os dois e voltei a me sentar, vendo os outros fazerem o mesmo. e sentaram-se frente a frente, o que fez com que ela, que no momento eu soube se chamar , sentasse a minha frente.
– Fazemos aula de composição juntos – começou o assunto – Guitarra, né? – ele perguntou, referindo-se ao meu instrumento base.
Assenti enquanto sugava a massa do macarrão com a ajuda do jeokkarak, soprando o vapor quente logo depois.
– Lembrei de você agora – respondi, rindo após rolar os olhos em minha direção – E sim, guitarra. Você é baixo, certo?
– Vocês têm quase uma banda completa! – sorriu, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo em sua mão direita – Falta o quê? Mais uma guitarra?
Algumas pessoas também têm um timing perfeito. Captam detalhes que passam despercebidos aos olhares e ouvidos mais atentos e conseguem ligar pontos e pessoas só com uma primeira impressão. Eu ainda não sabia, mas já me analisava por trás de seus cílios longos e com seus olhos tão expressivos e gentis.
– Algum de vocês canta? – ela apontou de para mim.
Abaixei a cabeça para a tigela de ramyeon para fugir da pergunta, que meu amigo respondeu por mim logo em seguida.
canta. Compõe também.
Subi o olhar para ver sua reação e uma sensação de acolhimento veio novamente ao vê-la sorrir para mim.
– Imaginei... Você tem cara de vocalista.
Uma risada escapou de meus lábios com sua suposição e fiquei curioso do por que ela achar aquilo.
– Por quê? – verbalizei, olhando-a e ficando surpreso sobre como ela não desviou o olhar em nenhum momento.
– Com certeza não é porque você é o mais bonito – implicou, rindo em seguida e a fazendo rir também.
– Não liga não, . acha que consegue “ler” as pessoas – fez aspas com os dedos – muito facilmente. Ela geralmente pode mesmo, mas ignora.
– Não acho que eu seja tão transparente assim – dei de ombros, continuando a comer.
Eu não estava errado dessa vez. Porém, algo em meu rosto pálido e em meu sorriso meio desconcertado chamou a atenção de , para a minha sorte.
Algumas pessoas percebem a aura das outras, ou como eu prefiro dizer, conseguem captar suas emoções, ou a falta delas, com uma facilidade ensaiada. era uma dessas pessoas e para ela, eu era uma incógnita que precisava ser desvendada. Não por qualquer pretensão para provar uma habilidade sua, mas porque ela sabia, capturando o meu interior de uma forma que eu nem eu jamais fizera, que eu precisava de ajuda.
Eu não sabia ainda, mas precisava dela.
– Eu estava falando justamente pro agora – meu amigo continuou a conversa –, que não quero me inscrever para a banda de jazz, mas queria participar ativamente de algo no Festival de Inverno.
– Montem uma banda! – ela voltou ao assunto, sorrindo novamente.
e eu já fazemos alguma coisa juntos – meu amigo falou e eu assenti, prestando atenção no andamento da conversa –, e o que eu ia sugerir é que fizéssemos algo com o .
Assenti, olhando de meu amigo para seu namorado.
é ótimo! – o elogiou, agarrando o braço do rapaz ao seu lado e apoiando a cabeça em seu ombro, como em um carinho – Também conhecemos duas pessoas que poderiam completar a banda...
– Quem? – e eu perguntamos ao mesmo tempo.
sorriu para nós antes de explicar.
– Lembra que eu te falei sobre dois amigos – ele olhou para o rapaz à sua frente ao começar –, que tocam à noite para arrumar uma grana? Eles vão tocar naquele bar famoso em Seochodong, na sexta à noite. Ia te convidar! – ele sorriu, mas logo virou para mim – Você também, .
A ideia da banda era algo que e eu discutíamos há algum tempo, então a possibilidade de poder colocar em prática era excitante e me fazia encher os pulmões de ar com satisfação. Algo que somente a música poderia me proporcionar. A única coisa que eu sabia fazer e que mantinha vivo até então. Sobrevivendo.
Por que viver, eu só viveria plenamente depois dela.
Naquele início de tarde de primavera eu não me apaixonei perdidamente por e nem ela por mim. Seria interessante e empolgante em uma história se isso tivesse acontecido, mas não seria verdade.
Durante o restante do tempo que passamos juntos naquele almoço e em um breve caminhar pelo campus, falamos sobre a possível banda, sobre nossas músicas favoritas e os covers que ela gostaria de ouvir um dia, quando fosse ao nosso primeiro show.
Quando nos despedimos, o que ficara comigo fora uma faísca. Eu estava longe de ser aquecido, mas ela estava lá, uma fagulha, um princípio de luz e calor que vinha diretamente daquele sorriso, dos seus gestos despreocupados e de sua fala acolhedora e de incentivo. Tudo envolta à sensação que eu tinha de que gostaria de vê-la novamente e que, como dificilmente acontecia, me sentiria à vontade em sua presença.
Não foi deliberado, mas eu quis acordar bem naquela sexta-feira. Só porque iria encontrá-la.
me diria que deu certo porque focalizei meus pensamentos naquilo, mas fato é que eu estava aliviado por ter levantado bem disposto. O efeito do estabilizador de humor estava finalmente de volta aos eixos depois de minha última crise e tudo estava encaixado.
À noite, passei no dormitório do campus para pegar e seguimos para o bar, onde e nos encontrariam. Eu não costumava visitar lugares como aquele, até porque não bebia. O consumo de álcool era totalmente contraindicado em meu caso clínico e ao menos aquela prescrição eu seguia. Quando eu precisava, descontava em outro vício que não afetava o funcionamento da minha medicação, mas que fodia meus pulmões lentamente.
O lugar tinha o teto baixo, era quente e propositalmente mal iluminado, mas a música me agradava. Sentamos em uma mesa próxima ao palco pequeno e meu amigo pediu uma garrafa de soju e eu, uma de água com gás.
Ela chegou cantando a música em inglês que tocava e meus lábios se repuxaram em um sorriso automaticamente. Lembro que ela vestia uma saia amarela florida, comprida até seus pés e que cobria suas sandálias baixas. A blusa jeans de botões, amarrada em sua cintura, tinha uma flor no bolso. Foi a primeira vez que o pensamento de que ela era absurdamente linda cruzou minha mente para nunca mais deixá-la.
recebeu um beijo carinhoso de seu namorado e nos cumprimentamos todos antes de nos acomodarmos. sentou ao meu lado no instante em que o atendente chegou com a comanda para os dois.
– Um suco de manga, por favor – ela sorriu ao pedir.
– Com o quê? – o rapaz perguntou, soando um pouco impaciente pela falta do complemento.
– Com nada! – ela riu – Só suco. Natural e fresco.
Não contive a risada pela cara do atendente ao que ela sorriu, assertiva.
– Você veio para um bar e não bebe? – perguntei verdadeiramente curioso, e ela baixou seus olhos para a garrafinha de água em minha frente.
– Pelo visto, nem você – ela apoiou o braço no estofado que contornava nossa mesa ao se virar para mim –, mas acho que nossos motivos são diferentes.
Seu olhar curioso também caiu sobre mim.
– Qual o seu? – fui rápido em perguntar.
Pancha sila – ela respondeu naturalmente depois de se curvar em agradecimento ao atendente que trouxera seu suco.
Franzi a testa com incompreensão e riu antes de me explicar.
é budista, .
Mais tarde eu descobriria que o termo ao qual ela usou para se explicar se referia aos cinco preceitos morais formulados no Caminho Óctuplo, doutrina budista. No final das contas, não era algo sobre pecado, mas sobre cuidados com o corpo e a mente, coisas que eu, uma completa bagunça mental ambulante, não compreendia em sua totalidade e profundidade.
– E você?
Troquei um breve olhar com antes de contar para ela minha primeira mentira.
– Não funciona comigo – levantei os ombros, como se não fosse nada demais –, então prefiro não gastar com isso.
Ela pareceu acreditar, porque entramos em um assunto sobre música logo em seguida e troquei mais um olhar com meu amigo antes de esquecer o assunto. Foi ali, no entanto, que tanto eu quanto percebemos algo.
Percebi que menti porque me importava com o que ela iria achar. Menti porque não queria que ela me olhasse como o que eu realmente era: uma bomba-relógio que poderia explodir a qualquer momento. Menti porque gostava de como me sentia ao lado dela, mesmo com poucas experiências anteriores. Menti porque, pela primeira vez em muito tempo – e arriscaria dizer pela primeira vez absoluta –, tive medo de que a verdade a afastasse. Menti porque naquele momento eu descobri que a queria por perto e se eu precisasse mascarar quem eu era, então eu o faria.
A conversa, no entanto, fluía muito fácil entre nós. A música nos unia em paixão e mesmo que não fosse de nossa área, o que ela fazia estava muito íntimo e necessariamente ligado à música. Quando os amigos dela e de subiram ao palco, lembro-me de ter ficado genuinamente empolgado. A garota ao teclado e ele ao violão faziam uma combinação que me surpreendeu de um jeito muito bom.
Era um destrave que apenas a música conseguia fazer em minha mente. A sensação única de estar preenchido.
Quando a apresentação deles acabou, e , o casal de músicos, se juntou a nós à mesa e eu senti minha mente naturalmente trabalhar em arranjos e notas, articulando como nós cinco nos encaixaríamos como uma banda.
Fiquei feliz e grato pela empolgação de todos. Especialmente a dela.
– Agora que temos a banda – ela começou, sorrindo para mim de um jeito que aqueceu meu coração; a faísca então, tinha se acendido –, quando eu vou poder ver você cantar?
A partir dali as coisas se desenrolaram de uma maneira inesperada para mim, mas que se mostraria única, quase como um renascer.
Aproximamo-nos de um jeito que pode parecer gradual se for olhado de fora, mas eu sentia tudo acontecendo tão rápido que tinha medo de acabar. Eu prolongava os nossos momentos juntos ao máximo e quando sozinho, repassava-os todos em minha mente, que passara a ser toda tomada por ela.
Eu estava bem há muitas semanas e ela já atuava como minha cura.

“난 절대 가면을 벗지 못해
(Eu jamais poderei tirar essa máscara)
이 가면 속의 난 니가 아는 걔가 아니기에
(Pois quem sou por baixo dessa máscara não é exatamente quem você conhece)
[...]
이런 내가 이런 내가
(É assim que eu sou)
당신의 사랑 받을 자격 있을까
(Eu mereço o seu amor?)
언제나 당신의 최고가 되기 위해 노력을 해
(Eu sempre tento me tornar o melhor para você)
이런 모습은 몰랐음 해
(Espero que você nunca conheça esse meu lado)”


Lembro-me de nossos primeiros fins de tarde juntos quase como se pudesse revivê-los. , assim como eu, não morava nos dormitórios da K-Arts. Ela alugava os altos de uma livraria, no mesmo distrito de nosso campus. Era uma espécie de sótão bem amplo que ela conseguia usar como um bom espaço para treinar suas coreografias e viver confortavelmente.
Nas diversas vezes em que a acompanhei em casa, me deixava entrar e compartilhava comigo um pouco de seus dias, seus hábitos e seu pequeno lar.
– Siddhartha Gautama era o príncipe de uma tribo ao norte da Índia e ainda era uma criança quando um brahmin previu que ele se tornaria um sábio iluminado – ela contava depois de eu lhe indagar sobre os livrinhos que ela usava para fazer suas recitações.
Ela estava sentada em seu pequeno sofá azul e folheava as frágeis folhas secas de palmeira, aonde tradicionalmente eram escritos os ensinamentos budistas. Eu tinha minha cabeça em seu colo e recebia de seus dedos longos algum carinho vez ou outra, enquanto a ouvia.
– Como nessa época ser sábio significava ser um andarilho, quase um nômade, o pai de Siddhartha, achando que protegeria o filho dessa condição, o confinou em um palácio e o cercou de luxos.
– Como ele se tornou Buda, então? – perguntei, virando-me de barriga para cima e buscando seus olhos, que deixaram as folhas e se focaram em mim, risonhos.
– Quando ele cresceu, Siddhartha convenceu o pai a lhe deixar partir para viajar pelo mundo. Foi aí que ele conheceu o sofrimento, testemunhou à morte e tudo aquilo que adoecia o mundo. Algumas pessoas dizem que essas viagens foram aventuras espirituais, mas outras acreditam que foram mesmo reais.
– O que você acredita? – perguntei novamente, encantado pelo simples fato de vê-la contar àquelas histórias que eu sabia pela metade.
– Acredito que foram reais – deu de ombros –, e aquela pegada – ela apontou para um pequeno quadro em sua estante, onde um formato de pé, com um círculo no meio e vários outros desenhos, estava – simboliza o progresso dele em suas viagens.
– E depois?
– Depois de conhecer o sofrimento humano, Siddhartha resolveu abandonar tudo e se tornar um andarilho em busca da verdade e de formas de dominar a dor – ela continuou, e então seus olhos se voltaram para a pequena imagem no canto esquerdo de sua sala, direção onde ela meditava e recitava sempre – Um dia, já magro e exausto, ele se sentou sob uma árvore para meditar. Ficou assim até alcançar um estado de iluminação, ou nirvana, como chamam. Ali ele se tornou Buda, um ser capaz de compreender as verdades da existência, liberto do medo e do sofrimento e do ciclo interminável de morte e renascimento – seu sorriso me fez sorrir de volta – A partir disso ele passou a transmitir os ensinamentos que tentamos seguir até hoje.
Seus dedos passaram por entre meus cabelos e fechei os olhos com a sensação. Todo mínimo toque seu era responsável por despertar meus sentidos como nunca antes. Eu me sentia energizado.
– Agora eu entendo – voltei a abrir meus olhos ao que ela ainda me encarava, os olhos carinhosos sobre os meus –, quer dizer, vou entendendo melhor cada vez mais, o porquê de você ser como é.
Ela riu.
– Como assim?
– As coisas que você acredita e a forma como leva a sua vida. Você sabe – eu gesticulei, tentando encontrar as palavras certas –, as pessoas por aí na nossa idade estão mais perdidas do que nunca. Você parece uma ilha de serenidade e amor.
Foi a primeira vez que falei de amor com ela.
Ainda assim, não falava de amor romântico. Eu falava de amor em sua forma bruta, o amor que ela já me dava e que parecia distribuir com todos ao seu redor. Eu sabia que, baseado em suas crenças, ela não se equiparava ao ser iluminado que seguia, mas para mim, para aquele cara que ela conheceu com a mente bagunçada e o coração inerte, ela era o princípio da luz.
riu abertamente, segurando-me pelos ombros em um abraço desajeitado pela posição em que estávamos, e deixou um beijo em minha testa logo depois.
– Eu quero ser uma ilha de serenidade e amor – ela me olhou com ternura, como se começasse a explicar algo muito complexo a uma criança –, mas não sou. Eu faço o meu melhor, mas tenho meus dias ruins como todo mundo, .
Suspirei alto, virando-me de lado no sofá e encostando meu rosto em sua barriga, passando um de meus braços por sua cintura, agarrando-me a ela como se ela pudesse transferir para mim todas as coisas boas que tinha em si e torcendo para que a via reversa estivesse trancada, que eu não passasse para ela as coisas ruins que eu tinha em mim. Elas eram tantas. Reviravam-se em meu estômago e subiam para a superfície de minha pele, formigando meus sentidos. Àquela altura eu não achava que tinha algo de bom que pudesse compartilhar além de minha música.
Eu tinha medo do que o meu eu real poderia fazer com ela, mas tinha um medo maior do que eu faria a mim mesmo se ela se afastasse.
– Pra mim você já é – completei, por fim.
poderia ser tudo o que eu fantasiava em mim, mas ainda não era a minha cura.
Eu estava bem há meses, mas ainda era o mesmo por baixo da máscara que forjei para que pudesse receber dela o que ansiava.
Era um sábado bonito de verão, mas minha mente estava fechada como em um dia de inverno. Sentei à cama em meio aos lençóis bagunçados e enfiei os dedos por meus cabelos, massageando o couro cabeludo com força, como se assim pudesse acordar devidamente. Impaciente, sentindo a irritabilidade tremer em meus dedos, cancelei o ensaio da banda naquele dia.
A minha mente se embaralha um pouco nessas lembranças, então eu não consigo recordar ao certo quantos dias de medicação eu havia interrompido e por quantos dias eu havia abaixado a guarda sobre os sintomas que chegaram, mas naquele sábado, na penumbra do meu quarto, eu conseguia ver a redoma e a névoa que me envolviam. Eu sabia que não era uma boa companhia e aproveitei que eram férias de verão para me trancar em casa e remoer aquilo sozinho.
Eu deveria ter ligado para minha psiquiatra, mas passei a maior parte do meu tempo com um medo absurdo do que eu faria se aquilo não passasse logo. Era como se um buraco negro estivesse se aberto em meu peito e sugasse toda a minha energia. Eu era um ponto apagado e nem mesmo a luz dela estava mais ali. Parecia até como se nunca houvesse existido e eu sabia que era aquela merda toda acontecendo de novo.
Na segunda-feira, arrastei meus chinelos até a janela e abri uma pequena fresta, o suficiente para que eu pudesse expelir a fumaça do cigarro que acendi logo em seguida. Estava apenas na segunda tragada quando a campainha tocou, alarmando meus dois gatos que se enroscaram em meus pés antes de irem até o princípio do som.
Como os outros da banda e achavam que eu estava em minha cidade natal com meus pais, e meu irmão seriam os únicos que poderiam estar ali, mas eu não planejava atender nenhum deles.
Sugando lentamente a nicotina pelo filtro enquanto distraía meus olhos com as silhuetas que a fumaça formava, eu ouvi inerte a campainha soar e soar, até o momento que aquilo me irritou profundamente a ponto de me fazer marchar até a porta de entrada para expulsar qualquer um dos dois que estivesse lá.
– Eu disse que não queria visitas!
Apesar da crise depressiva em que estava, lembro exatamente de como senti meu corpo inteiro congelar ao puxar a maçaneta e vê-la ali.
Sua expressão séria não se abalou nenhum pouco com meu grito e seu rosto inclinado para olhar para o meu não se moveu um centímetro diante da expressão horrível com qual a olhei.
Já havia passado por crises o suficiente para saber exatamente como era e como eu afetava quem estava ao meu redor com elas. Quando eu fazia psicoeducação, uma forma de aumentar minha adesão ao tratamento e me fazer conhecer melhor a doença com qual fui diagnosticado, eu era incentivado a compreender que eu não tinha culpa do que acontecia, de que nada daquilo era deliberado. Nada daquilo, no entanto, me fazia esquecer como eu podia machucar quem estava por perto quando aquilo explodia e, por tudo que fosse de mais sagrado no mundo, a última pessoa que eu queria machucar era ela.
– minha garganta parecia seca como se eu não me hidratasse há dias –, você não deveria estar aqui – apertei meus olhos e levei a mão que ainda segurava o cigarro para esfregar minhas pálpebras.
– Mas estou – ela respondeu firme –, e vou entrar e vamos conversar.
Ela passou pelo pequeno espaço da porta e retirou as sapatilhas para adentrar minha casa. Parou no meio da pequena sala e virou para mim, esperando que eu fosse até ela.
Empurrei a porta com mais força que o necessário e senti uma raiva desmedida se apoderar de mim. Traguei o cigarro uma última vez e caminhei em sua direção, abaixando-me para a mesinha de centro a fim de apagá-lo no cinzeiro que mantinha ali. Virei o rosto de lado para soltar a fumaça antes de encará-la.
– Não é um bom dia para conversar, eu acabei de chegar em casa e-
– Não precisa mentir mais, . Sei que não estava com seus pais. me contou tudo.
A raiva parecia aumentar ainda mais e eu apertei os olhos novamente, sentindo minha cabeça zunir. A todo o tempo minha mente apitava: ela não deveria estar aqui, ela não deveria estar aqui.
– Ele o quê? – perguntei, me esforçando para soar raivoso, sentindo minha garganta arranhar.
, eu estava preocupada! – ela largou a pequena bolsa na mesinha e andou dois passos em minha direção, fazendo com que eu me afastasse para trás – Você sumiu! Você poderia simplesmente ter me-
não tinha esse direito! – virei de costas, não querendo olhar em seus olhos – A única coisa que eu pedi foi pra ele que ficasse com a porra da boca fechada!
– Por quê?! – ela passou a falar mais alto também – Achei que você confiasse em mim, !
– Não tem a ver com você, ! – gritei ainda mais alto, virando para ela e apontando em sua direção – Isso tem a ver comigo e só comigo! É o meu problema, é quem eu sou! – apontei para mim mesmo, tocando meu peito desnudo com o indicador – Sai daqui antes que sobre pra você – disse mais baixo, engolindo minha vontade de gritar e aceitando minha derrota.
Foi a primeira vez que brigamos, foi a primeira vez que gritei com ela e naquele momento nenhum tipo de arrependimento corria por minhas veias. Meus punhos fechados tremiam e eu precisava que ela saísse dali logo, mas sabia do que eu precisava mais do que eu.
– Isso não é o que você é! , por favor, você-
– Você não sabe de nada, ! – a interrompi novamente – O que o contou? Que eu sou um fodido maluco? Que a minha cabeça não funciona? Que você deveria-
– Cala a boca, porra!
Seu grito me fez tremer dos pés à cabeça e eu soube que nada daquilo acabaria bem. respirou fundo e voltou a se aproximar.
, você não precisa se isolar. Você deveria ter me contado! Eu estaria aqui desde o início!
– Jura? – eu soava debochado, querendo atingi-la – Você ia fazer o quê? Rezar por mim?
Estava sendo o mais filho da puta possível e não conseguia controlar. Tudo para que ela saísse da minha presença porque meu peito queimava em brasa com ela de frente para aquele que eu tentei a todo custo esconder.
– Se você quer tanto uma confissão... – dei-lhe um sorriso cínico – Bem, , eu tenho a droga de um transtorno do humor bipolar! Eu vivo na porra de uma corda bamba entre a euforia psicótica e a vontade de morrer! Você entende isso? – cuspi, hiperbolizando minha própria condição e soando ríspido.
Foi a primeira vez que eu me despi frente a ela. Sem máscaras, sem maquiagens, sem teatro algum. Só a crueza do fardo que era ser alguém com uma doença crônica.
Eu havia sido diagnosticado durante a transição da adolescência para a fase a adulta, um dos piores momentos para se jogar no colo de uma pessoa que ela viveria com algo sem cura para o resto da vida.
Desde criança meus pais sabiam que havia algo de errado. Na primeira fase de minha idade escolar fui diagnosticado com déficit de atenção e depois, antes de receber a sentença da bipolaridade, achavam que eu sofria de depressão. Isso porque a depressão bipolar sempre foi muito mais facilmente identificada e a maior responsável por levar pessoas como eu ao tratamento, diferente da mania, que era o outro lado da moeda e bem mais difícil de ser identificada.
O meu tratamento iniciou e manteve seus altos e baixos. Vivia entre a medicação com o estabilizador de humor em combinação com um antidepressivo, a psicoterapia e as sessões de psicoeducação com meus pais e meu irmão. chegou a participar algumas vezes também. Eu tentava viver um passo de cada vez, um dia de cada vez, mas não seria capaz de suportar o olhar de pena de . Por isso estava pronto para que ela fosse embora, saísse da minha vida e se afastasse da zona de perigo que eu acreditava estar ao meu redor.
era serenidade e amor, lembra?
Naquele momento eu não tinha nenhum dos dois.
Ela, no entanto, tinha a resposta para minhas perguntas erradas e guardava as verdades absolutas sobre as minhas verdades falsas.
– Como você não – ela respondeu e eu baixei meu olhar ao ver seus lábios tremerem – Posso não saber como é como você sabe, , mas minhas costas podem aguentar metade desse peso.
Eu fiquei atônito em como ela parecia irredutível ao se aproximar de mim novamente, sequer consegui me afastar.
– Eu não vou a lugar nenhum. Achei que me conhecesse o suficiente pra saber disso, mas não tem problema. Eu estou aqui por você.
Seus dedos quentes tocaram meu peito frio e deslizaram até meu ombro, mas quando senti que ela me puxaria para um abraço, senti uma repulsa que nunca havia estado entre nós.
– Não me toca, . Sai daqui, sério!
– Eu não vou sair!
– Eu tô falando pra sair! Sai, porra! – virei de costas para ela e bati no armário que estava ao lado, querendo descontar aquela sensação horrível em qualquer coisa.
Esperei que o barulho dos livros caindo a assustassem, mas ela não se moveu um centímetro. Apertei minhas mãos na madeira e respirei fundo.
– Qual o seu problema?! Você não vê que isso não tem como dar certo?!
, eu não vou fazer o que você espera que eu faça! – ela voltou a gritar e eu fechei meus olhos com força, querendo que ela fosse pra longe de mim de uma vez.
Eu teria falado mais alguma coisa para machucá-la, mas a porta se abriu em um rompante e entrou por ela, parecendo apreensivo.
– Satisfeito? – gritei pra ele de imediato – Satisfeito, ?!
Meu amigo respirou fundo. Parecia cansado também e se preocupou em analisar atentamente antes de olhar para mim. Hoje agradeço imensamente por ele ter aparecido.
– Não vamos brigar, .
– Não mesmo?! Então tira ela daqui. Sério, é a única coisa que eu te peço.
Eu me sentia pesado então não lembro exatamente o que ele disse para convencê-la a ir embora. Só me lembro dela pedir para ele não me deixar sozinho antes de se virar para mim.
– Não vou deixar de amar você por isso, .
Foi a primeira vez que ela disse que me amava e eu passei o resto dia querendo chorar por isso, mas não consegui.
Passei mais dois ou três dias trancado em casa com rondando entre a sala e o pequeno estúdio improvisado nos fundos, alimentando meus gatos e abrindo as janelas para arejar o ar. Como já havíamos passado por situações como aquela antes, ele sabia como lidar comigo e em algum pedaço escondido de mim havia alívio por ele não ter me deixado sozinho. Os ensaios com a banda estavam parados até que eu me sentisse melhor para voltar.
No terceiro ou quarto dia visitei minha psiquiatra. Fiz alguns exames para a avaliação dos níveis plasmáticos dos fármacos, que serviam para saber os desníveis da minha medicação por conta da minha negligência em pular alguns deles, e ganhei novos medicamentos.
Eu tinha um longo caminho para percorrer até compreender que a minha medicação não mudava quem eu era, muito pelo contrário, ela equilibrava as mudanças que não eram naturais. É um pensamento muito comum em pacientes com alguma patologia psicológica achar que somos nossa doença.
Isso não é o que você é!
A voz de gritou em minha mente durante toda a minha consulta e em um impulso fui atrás dela naquele fim de tarde.
A ajumma dona da livraria do térreo me cumprimentou com um aceno de cabeça e eu me curvei em sua direção antes de pegar a porta lateral para subir até as escadas. Parei em frente a sua porta apreensivo. tinha dois vasinhos com plantas pendurados em cada lado do batente e mantinha uma chave reserva em um deles sempre. Pegando-a, abri a porta com cuidado, esgueirando-me para dentro em silêncio, com receio de atrapalhá-la e com medo de que ela não me quisesse mais ali.
O cheiro de sândalo me abraçou logo na entrada, parcialmente relaxando meus sentidos. Retirei meus tênis velhos e arrastei meus pés ainda vestidos com as meias pelo chão frio de madeira até o centro de sua sala. De costas para mim, estava sentada sobre suas pernas, prosternada em direção à imagem de Buda, fazendo suas recitações diárias depois de meditar. Aquela imagem que eu já vira outras inúmeras vezes sempre me preenchia com uma pacífica sensação, assim como quando a via dançar e nossos olhares se cruzavam pelo enorme espelho que ela usava para treinar.
Eu senti meus dedos tremerem e formigarem nas pontas, mas de saudade, de abstinência dela, de sua luz e seu amor.
provavelmente já sabia que eu estava lá, porque ela nunca se assustava quando eu tentava fazer uma surpresa. Devagar, mas sentindo meu coração acordar em meu peito, caminhei para ela. Sentei sobre sua manta e me arrastei, abrindo minhas pernas para encaixá-la entre elas, minha envergadura quase cobrindo todo o seu corpo quando eu passei meus braços por sua cintura e a abracei, colando meu tronco em suas costas e encaixando meu rosto na curva entre seu pescoço e ombro esquerdo. Pude ouvir seu suspiro junto do meu, que saiu aliviado.
não disse nada e nem se moveu. Pelo que pareceram horas eu continuei lá, agarradinho a ela como se segurasse entre meus braços magros a personificação do meu único fio de esperança. Eu sentia seu coração bater sereno, em um ritmo lento e igualmente espaçado, produto de sua extrema concentração em momentos como aquele. O som que eu ouvia e sentia por trás de suas costelas, no entanto, contrastava com o que saía de meu peito, desesperado e irregular.
Foi a primeira vez que eu chorei em sua presença. No silêncio de sua sala, onde seus incensos queimavam aquela fragrância acolhedora e calmante, meus olhos derramaram as lágrimas que eu tentei libertar por dias desde que ela me confessara seu amor. Chorei porque percebi que a amava de todos os jeitos que se poderia amar alguém, mas não sabia como fazer aquilo. Chorei porque sabia que ela me amava e eu não sabia se era digno de tal sentimento.
Esta é a primeira vez que falo de amor romântico. Sem moldes, sem estruturas trovadoras, sem roteiros dramáticos, mas ainda assim, amor. O meu amor era um amor necessitado e eu percebi que o buscava como alguém busca por ar no fundo do mar. Era desesperado porque eu sentia que precisava dele para continuar vivo, mas não era egoísta porque eu sabia que a deixaria ir se fosse melhor para ela, se ela percebesse que mesmo que eu tentasse me tornar melhor por ela, talvez eu não conseguisse. Chorei principalmente porque estava preparado para viver meu inferno quando ela fizesse o que eu ainda queria que fizesse e me dissesse para ir para sempre.
Minha respiração já estava mais regular e meu coração batia menos frenético, consequência de meu desabafo em forma de lágrimas, quando ela suspirou sonoramente mais uma vez e esticou as costas ao se preparar para voltar à postura ereta. levantou seu tronco e eu acompanhei seus movimentos, me descolando dela e deslizando meus braços para o lado de meu corpo. Como se eu não estivesse ali, fechou seu livrinho, amarrou-o com a fita vermelha e suspirou novamente, repetindo o processo três vezes antes de se alongar.
Assisti atento ela se virar para mim, como se estivesse vivendo tudo em câmera lenta. Ainda entre minhas pernas, se aproximou mais até passar as suas ao redor de minha cintura, me prendendo ali. Seus olhos, sempre tão gentis, tinham uma centelha de preocupação e ela analisou meu rosto com cuidado, antes de esquadrinhar meu corpo inteiro, como se checasse se eu estava inteiramente bem, ao menos por fora. Suas mãos vieram em minha direção e ela tocou meu rosto, fazendo meus olhos se fecharem automaticamente. O movimento de seus dedos sobre minhas bochechas, como se secassem as lágrimas já secas, fizeram com que eu me sentisse mole. Meu coração voltou a bater mais forte e meu estômago revirou, mas era bom.
Pelos próximos segundos foi como se ela estivesse matando as saudades de seu próprio jeito, tocando meus cabelos, arrumando-os com seus dedos, contornando minhas sobrancelhas e meus lábios. Eu aproveitava cada toque como se fosse o último e me desfiz em deleite quando ela me apertou a si, me abraçando e descansando a cabeça em meu ombro.
– Me perdoa – sussurrei, com medo de estragar aquele momento com minhas palavras.
A pontinha de seu nariz se pressionou ainda mais contra a pele sensível de meu pescoço, quando ela se apertou mais contra mim. Espalmei minhas mãos em suas costas e a segurei mais forte também.
– Eu não preciso perdoar você por nada – ela respondeu, afrouxando nosso abraço para que pudesse se afastar e olhar para mim.
Sentia-me inseguro, mas a forma como ela me olhava... Eu quis naquele momento que todas as pessoas no mundo pudessem ter alguém que as olhassem daquela forma. O carinho, o cuidado e o mais puro amor. Eu conseguia sentir fluir dela para mim muito facilmente.
– Disse coisas horríveis pra você, .
– Você não quis dizê-las.
– Eu quis sim.
Era doloroso de dizer, mas era a verdade. me olhou como se fosse rir.
– Naquele dia você quis. Você quer agora?
Neguei imediatamente com a cabeça. Sabia onde ela queria chegar com aquilo, mas não era como eu via as coisas.
, aquele que gritou com você é quem eu sou de verdade. Eu não quero te machucar, então não posso deixar que você-
– Você está errado – ela me interrompeu, voltando a tocar meu rosto com uma de suas mãos, deslizando seu polegar lentamente por minha bochecha – E você não precisa deixar ou não que eu faça qualquer coisa. Eu sei para que direção guiar meus passos. Você quer de verdade que eu vá pra longe de você?
Engoli minha saliva como se uma bola de gude estivesse em meu esôfago.
– Você longe de mim é a última coisa que eu quero, mas você viu como eu sou, – soei triste até para mim mesmo –, é melhor que você fique longe.
– Então vou ficar exatamente onde estou.
– Por que você não me ouve? – perguntei sério, porque achei que estava fazendo as coisas certas, pedindo desculpas e saindo de cena.
– Eu ouvi. Ouvi você dizer que me quer por perto, e o resto é por minha conta, .
Ela colocou suas duas mãos ao redor de minha cabeça e me manteve olhando em seus olhos.
– Eu amo você.
Suas palavras saíram pausadas, mas firmes. Nunca achei que uma frase tão simples faria tanto reboliço em mim. Quis me sentir feliz, mas me sentia angustiado.
– Em nenhum momento isso significou algo ruim pra mim, porque não é assim que o amor funciona.
Seu sorriso tentou me passar algum conforto e segurança, mas o medo se revirava em meu estômago. Como me amar poderia significar coisas boas?
– Você não é a sua doença, – uma de suas mãos foi até minha nuca e seus dedos agarraram meus cabelos gentilmente – Por favor, você não precisa passar por isso sozinho. Eu quero estar com você.
Eu quis negar, mas falava com tanta certeza que eu desejei também acreditar. Desejei ser aquele que ela achava que eu era, desejei ser o homem merecedor de seu amor e desejei amá-la como ela merecia.
– Eu amo você – respondi, mas não tenho certeza se soou como uma confissão de amor deve soar.
Não de amor romântico, pelo menos. Era, no entanto, a minha verdade mais pura. Eu a amava com cada pedacinho desordenado de mim.
– Mas ainda tenho medo.
Eu sabia que ela sentia minha angústia, porque a vi se refletir em seus olhos em uma centelha de compaixão.
– Está tudo bem em sentir medo – ela sorriu e foi cuidadosa com as palavras, como se estivesse explicando algo muito complexo –, você pode aprender a lidar com isso. Nenhum de nós é de ferro. Só confie em mim.
se aconchegou mais em nosso abraço, apoiando suas coxas nas minhas e passando seus braços ao redor de meu pescoço.
, nós não somos uma coincidência, você não está aqui pelo acaso desordenado – ela tentou explicar o modo como via as coisas e eu a observei atento – Nós não estivemos dividindo tantas coisas nos últimos meses? – assenti com a cabeça – Você pode dividir qualquer coisa comigo agora. Você não vai me machucar.
– Como você pode ter tanta certeza?
– Consigo sentir o seu amor – ela sorriu, fazendo se espalhar em meu peito um formigamento –, isso é o suficiente.
Ela continuou a sorrir e eu não quis mais recuar. Apertei novamente meus braços ao redor de sua cintura e a trouxe para mais perto, encaixando meu rosto em seu pescoço. O aroma de seu shampoo misturado ao de sândalo que preenchia toda a sala me inebriou e calou minha mente confusa.
– Eu te amo – verbalizei novamente e foi a primeira vez que o fiz tantas vezes, coisa que eu repetiria sempre que tivesse a oportunidade –, eu te amo muito, muito e muito.
Deixei meus beijos por suas bochechas, seu maxilar, nariz, olhos, pescoço, ombros. Cada pedacinho que pudesse ser alcançado até ser agraciado com aquele que se tornara o meu som favorito no mundo: sua risada. Sorri instantaneamente, aliviado por tê-la por perto e por ser capaz fazê-la rir. Talvez, se eu conseguisse enxergar o que ela via, eu poderia me tornar o melhor que pudesse para ela.
– Como você está se sentindo agora? – ela perguntou ao se afastar o suficiente para observar meu rosto.
– Melhor – me remexi ainda em seu abraço –, mas é complicado.
assentiu, se afastando e segurando minhas mãos.
– Eu ia preparar um banho terapêutico, você quer ficar e tentar?
Eu não sabia o que aquilo significava exatamente, mas aceitei. sorriu e juntou nossos lábios em um beijo rápido. Acompanhei-a até o banheiro, vendo-a encher a banheira enquanto me explicava cada ingrediente que adicionava à água quente, os sais e os óleos. Por fim, ela acendeu uma vela aromática junto ao cantinho onde colocava seus sabonetes e outros itens de higiene pessoal.
– Eu geralmente faço isso quando estou angustiada, nervosa ou com alguma outra preocupação – olhou para mim sentado na beirada oposta da banheira –, espero que te ajude.
Ela iria sair e me deixar aproveitar o banho, mas depois de tantos dias sem vê-la, eu não estava preparado para ficar sozinho.
– Você pode ficar? – pedi um tanto envergonhado, pois sabia o que aquilo poderia significar e nós ainda não estávamos naquele estágio – Não precisamos fazer nada e-
– Tudo bem. Eu sei.
Com um sorriso, ela voltou para perto de mim e soltei o ar aliviado. Sem ela o aroma, os sais, os óleos, nada faria efeito.
prendeu os cabelos e começou a se despir. A princípio, meus olhos se arregalaram e eu senti meu coração dar um solavanco.
Foi a primeira vez que vi sua pele completamente exposta para mim, cada pedacinho, cada sinal, cada curva e a pequena tatuagem na lateral esquerda do corpo, na direção de suas costelas. Eu soube que nada nunca seria tão belo aos meus olhos.
– Tudo bem, – ela me encorajou – Sou só eu – seu riso leve fez com que eu relaxasse um pouco.
Seus ombros não se encolheram em nenhum momento e suas mãos não tentaram esconder nada. Além de serenidade e amor, eu descobri que era segurança e bravura.
Menos corajoso do que ela, eu me livrei de minhas roupas lentamente, me encolhendo e evitando seus olhos. Para me deixar mais à vontade, ela adentrou a banheira, sentando com as costas coladas a uma das extremidades.
– Venha até aqui – ela me chamou, calma, e eu enfiei meus pés na água morna e fui afundando nela aos poucos até apoiar minha nuca na beirada da banheira, vendo-a sorrir para mim do outro lado.
Nossas pernas dobradas se tocavam ao que eu emergia naquela atmosfera, sentindo minha respiração soar mais tranquila, assim como meu coração.
– Venha aqui, fique de costas pra mim.
Ela chamou de novo e eu me arrastei até ela, vendo-a recolher as pernas para que eu pudesse me virar e apoiar minhas costas ali. As nossas peles juntas deslizando por causa do óleo aromático sendo para mim o efeito tranquilizador mais eficaz do mundo.
fez uma concha com as mãos e despejou a água sobre meus ombros e bem próximo à minha nuca. Recolhi minhas próprias pernas e apoiei minha cabeça nos joelhos quando suas mãos começaram a massagear meus ombros, seus polegares iam e vinham na curva de meu pescoço, relaxando toda a minha musculatura. Todo o seu carinho e cuidado eram transmitidos para a forma como seus dedos desfaziam os nós de tensão e me agraciavam com o seu toque.
Eu ainda não conseguia compreender a dimensão daquele momento, de como compartilhávamos algo tão íntimo com aquela naturalidade, mas eu descobriria com o tempo que com toda e qualquer coisa poderia ser feita, desde que estivéssemos juntos.
Quando me sentiu completamente relaxado sob seu toque, quando meu coração batia tranquilo e me sentia quase sonolento, ela deixou um beijo em minha nuca e descansou a cabeça em minhas costas. Ficamos em um silêncio acolhedor até que ouvisse sua voz novamente.
– Eu também senti medo – confessou e passou seus braços por minha barriga, me abraçando –, tive medo que você pudesse se machucar naquele dia.
Engoli um desconforto diante de suas palavras. Eu sabia o que aquilo era, porque meus pais, meu irmão e conviviam com o mesmo sentimento, que infelizmente não era algo infundado. A taxa de suicídio entre pessoas com transtorno bipolar é alta de uma forma alarmante, chegando ao dado de que toda pessoa com a doença chega a atentar contra a própria vida pelo menos uma vez.
Eu já havia passado por minha tentativa e relembrá-la era extremamente doloroso porque minha mente se enchia dos olhos de minha mãe e do medo que vi neles por meses após o ato.
Eu queria acalmá-la, mas não sabia como mascarar aquela realidade.
– Eu sinto muito.
– Não, não – ela se apressou em dizer – Está tudo bem em sentir medo, lembra? – ela repetiu as palavras que disse para mim antes – É o meu instinto me fazendo lembrar que eu preciso dizer que você tem motivos para querer estar bem, porque se você se fosse – a sentir hesitar pela primeira vez em toda a nossa conversa daquele dia –, , eu iria junto.
Neguei com a cabeça imediatamente e me enchi da certeza de que nunca mais em toda minha vida eu iria querer ouvi-la dizer aquilo de novo. Virei para ela logo em seguida, encarando seus olhos hesitantes e peguei suas mãos, entrelaçando nas minhas.
– Nunca mais diga isso.
Ela apertou minhas mãos nas suas e levou até os lábios, beijou-as e descansou sua bochecha nela depois.
– Outro dia eu encontrei os versos de uma autora norte-americana – ela começou a contar –, e eu quero que eles sejam meus pra você sempre que você precisar ouvi-los.
Ali, com a água ainda morna nos envolvendo, com o meu coração cheio de um amor que eu nunca havia sentido antes, eu soube quem eu me tornaria por .
There’s going to be days when you don’t want to be here anymore – ela começou a declamar em inglês, se esforçando para fazer as palavras soarem como deveriam – You just stay. You fucking stay. Somewhere out there, somebody needs your voice. I promise. I swear to God – ela sorriu e seus olhos se fecharam de uma forma adorável –, your laughter is someone’s saving grace – beijou novamente minhas mãos antes de terminar – Hold on tight, baby. The sun is coming for your¹.
Só que ele já havia chegado. A minha luz, minha estrela absoluta, minha fonte de energia inesgotável. Dei meu primeiro e enorme sorriso em dias para ela, naquela banheira, sentindo meu coração bater forte, mas por amor, por gratidão, por venerá-la com vigor.
riu e pareceu emocionada com meu sorriso e eu vi lágrimas brotarem de seus olhos, mas não me alarmei, porque eles brilhavam para mim com os melhores sentimentos.
– Ok, eu fico – respondi, ainda sorrindo – Podemos comer sopa de kimchi enquanto isso?
Sua gargalhada reverberou em meu peito e foi como se nada estivesse fora do lugar. Meu coração estava no lugar e eu estava onde deveria estar.

¹Erin Van Vuren

“니 존재로 새로운 의미를 찾고
(Através de sua existência, encontro um novo significado)
빛을 내는 밤
(E a noite brilha)
난 알았어 어둠이 끝나도
(Agora eu sei, que mesmo depois da escuridão)
내겐 넌 아침이란 걸
(Pra mim, você é a manhã)
You woke me up
(Você me acordou)”


Eu aprendi que como dias ruins veem, eles também se vão. Não deixei de sentir medo, nem me livrei das crises, mas havia ela.
Havia eu também, um novo e revirado eu. Alguém que caminhava a passos lentos para uma maturação de seus próprios sentimentos, que encontrava uma nova perspectiva e que finalmente entendera que o eu são muitos e que um não prevalece sobre o outro.
Quando o inverno chegou, dirigimos até Busan, na costa sudoeste do país, onde os pais de tinham uma aconchegante casa de frente para o mar. Era o aniversário de nossa tecladista e eu afundava meus pés na areia enquanto ouvia meus amigos rindo ao correrem pela beira, gritando como crianças quando a espuma do mar atingia seus pés. Sorri na direção deles e me senti tranquilo.
Atrás de nós a segunda maior cidade da Coréia do Sul começava a acender suas luzes para iluminar aquele anoitecer nublado. A praia de Gwangalli ignorava sua agitação em luzes e neon e permanecia serena e quase deserta, consequência do frio que chegava. Éramos os únicos por ali e eu gostava da sensação de que eu tinha ao meu redor o que importava e no coração o que me manteria com eles. A música, a amizade e o amor.
O sorriso em meus lábios se alargou quando eu senti seus braços ao redor de minha cintura, apertando-me a ela com o mesmo carinho preciso de sempre.
– Você fica tão bonito de azul! – ela disse ao ficar de frente para mim, sorrindo ao entrelaçar nossos dedos – Born to be blue... – ela completou, sussurrando perto de meus lábios ante de beijá-los levemente.
Sorri.
– Você quer dizer triste? – referi-me a expressão em inglês que ela usara.
abanou uma de suas mãos em minha direção, negando, ao rolar os olhos.
– Por favor, pare de pensar no significado que os anglófonos dão às palavras.
Não contive o riso antes de retrucar.
– Foi você que usou a expressão estrangeira!
– Porque soa bonito... – ela deu de ombros – O significado é outro.
– E qual é? – perguntei, sem deixar de sorrir ao passar meus braços por sua cintura e puxá-la para mais perto.
O vento frio bagunçou sua franja e ela franziu o nariz antes de arrumar o cabelo. Eu olhava atento cada pedacinho de seu rosto lindo como se não bastasse venerá-lo durante todos os dias de minha vida. Parecia pouco para sua beleza inesgotável. tinha em si todos os tipos de beleza.
– Azul é profundidade – ela respondeu, olhando em meus olhos – Assim como o azul do céu, assim como o do mar... Que guardam em si tantos segredos não revelados, mas se mostram fascinantes a cada descoberta. Assim como você.
– Foi assim que você me viu desde o início? – perguntei curioso.
Nunca havíamos conversado sobre o que ela havia pensado de mim ao primeiro momento e rememorando-o, não achei que eu estivesse sequer perto de ser interessante aos olhos de quem quer que fosse. Eu já sabia, no entanto, que os olhos de não viam como os olhos comuns.
– Sim – ela respondeu simplesmente, sorrindo –, porque sua aura é azul, assim como a minha.
Senti meu coração se expandir em meu peito. De fato, a descrição que ela dera ao azul podia muito facilmente se encaixar nela mesma.
– Isso quer dizer que somos almas gêmeas?
riu, negando. Arqueei uma sobrancelha em sua direção, esperando que ela continuasse a explicar.
– Isso quer dizer que caso nos encontrássemos, jamais ficaríamos impassíveis um diante do outro.
– Você já sabia desde o início... – deixei que um riso se desprendesse de meus lábios e ela riu junto.
– Você não – ela deu de ombros –, mas tudo bem. Não acontece com todo mundo.
Sorri e beijei seus lábios rapidamente.
– Que sorte a minha, então.
– Não é sorte. Você nunca vai aprender... – ela rolou os olhos, falsamente pretensiosa e eu gargalhei.
– Que bom que tenho você pra me ensinar.
Toquei seu queixo com as mãos e trouxe seu rosto para perto, vendo-a fechar os olhos antes mesmo que nossos narizes geladinhos pelo frio se tocassem. Juntei nossas bocas com calma e beijei. A sensação de tê-la nunca sendo comum porque sempre fazia formigar o meu peito e a ponta dos meus dedos que a tocavam com carinho.
– Que bom que aprendemos juntos – ela sussurrou e sorriu sobre meus lábios, descansando sua cabeça em meu tronco logo em seguida.
O céu estava fechado, mas o mar estava tranquilo. A brisa fria nos atingia como um abraço amigável, nos envolvendo em uma atmosfera azul. Serena. tocava violão sentado sobre a manta que havia estendido na areia. Ela cantava com ele uma de nossas músicas novas, que havíamos escrito juntos em meu novo estúdio que eles ajudaram a construir.
e caminhavam de volta para mais perto de nós, suas mãos unidas e os sorrisos em seus lábios me fazendo sorrir também. Meu amigo me olhou e eu soube que ele se sentia como eu, que ele se sentia bem como eu e que faríamos o que estivesse ao nosso alcance para prolongar aquilo e caso os maus momentos viessem, os enfrentaríamos juntos.
Ainda assim continuou a procurar romance em minhas letras, sem o encontrar.
Eu havia ganhado alguém para amar daquele jeito, mas ainda não sabia contar uma história de amor. Por que entre e eu não havia prosa nem poesia, havia arte. Havia amor, mas em nosso amor eu havia encontrado um significado outro, o qual eu não conseguia colocar em palavras. Eu só o sentia, ali, com ela em meus braços e nossos corações batendo alinhados.
Eu havia aprendido muito sobre os não ditos, sobre capturar tudo aquilo que não fosse verbal porque sempre me dizia mil coisas sem sequer pronunciá-las. Não porque não quisesse, mas porque não precisava. Ela só precisava que eu sentisse.
Era assim que nos amávamos, ou como ela diria, descobrindo novas formas de conectar nossas almas. Eu ainda preferia dizer que nos amávamos em contemplação. Nunca achei que seria fácil, mas era. Sem dramas, lembra? Só a vida.
Amá-la era acordar em silêncio e gostar disso.
Eu estava bem há meses e mesmo que não estivesse no próximo, eu sabia que ficaria bem no seguinte, porque havia ela.




Fim



Nota da autora: Meu primeiro desafio com essa fanfic foi prosear os versos dessa música. Outro: Her me atingiu de um jeito muito especial desde a primeira ouvida e eu soube desde o início que a estória precisava ter uma intensidade, no mínimo, parecida. O segundo desafio foi narrar em primeira pessoa. Não é fácil pra mim, mas achei que a letra pedia isso.
Fui buscar a inspiração pro meu protagonista em um outro alguém muito especial, e pedacinhos dele também estão aqui, junto com o amor imenso que eu tenho por ele: Nam Taehyun. No ícone do Spotify aqui abaixo vocês podem ter acesso à playlist que eu criei pra ele e que acabou sendo base de apoio pra essa fic.
Essa fic também é sobre o que é amar alguém com alguma doença crônica, nesse caso específico, a doença psicológica. Eu sou o alguém que ama, então o que está escrito sobre bipolaridade aqui veio da minha necessidade de aprender sobre, sem qualquer conhecimento pessoal de vivência ou profissional.
Por último, queria dizer que eu morro de orgulho em poder criar algo tão especial baseado em uma música do BTS. Esse álbum e o que ele significa em um ano tão grandioso pra esses meninos só deixa tudo melhor. Que a gente ainda possa ser muito inspirada por eles.
Espero que vocês tenham gostado e, please, ARMY, remember what we say, love myself, love yourself.
Aproveitem as outras fics! <3
xx
Thainá M.





Outras Fanfics:
02. Transformer (Ficstape #062 – EXO: EXODUS)
02. We All Roll Along (Ficstape #057 – The Maine: Can’t Stop Won’t Stop)
03. Drunk In Love (Ficstape #020 – Beyoncé: Beyoncé)
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08. Emily (Ficstape #051 – Catfish And The Bottlemen: The Ride)
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11. Outside (Ficstape #051 – Catfish And The Bottlemen: The Ride)
12. Broken Home (Ficstape #067 – 5 Seconds Of Summer: Sounds Good Feels Good)
12. Don’t Stop Me Now (Ficstape #011– McFly: Memory Lane)
12. Foreigner’s God (Ficstape #033 – Hozier: Hozier)
14. You & I (Ficstape #023 – John Legend: Love In The Future)
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Calling in Love (BTS/Shortfics)
Can You Feel It? (Outros/Shortfics)
Date Night (EXO/Restritas/Shortfics)
Don’t Close The Book (Jonas Brothers/Shortfics)
Love Me Love Me (Winner/Em Andamento)
Love Affair (One Direction/Em Andamento)
Mixtape: Listen To Your Heart (Awesome Mix: Volume 1: “80/90’s”)
Thankful (Especial Extraordinário)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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