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Enviada em: 20/06/2020

Capítulo Único

Para uma melhor experiência, escute a música até o final da história.


Apertei o volante com força, seguindo pela estrada que já conhecia bem demais, até mesmo com os olhos fechados. Instantaneamente memórias de dias que agora pareciam distantes demais começaram a me rondar, iniciando-se na forma de uma risada feminina extremamente contagiante que invadiu minha mente. Fechei os olhos com força tentando afastá-la e os abri rapidamente, chacoalhando a cabeça.

"Oi, sou " – ela sorria me estendendo uma mão.
Sorri de volta, contagiado pelo calor e beleza de seu sorriso e estendi minha mão para pegar a dela em um cumprimento.
"Sou "

"Você é meu melhor amigo, . Espero que eu também seja a sua."
"Pode contar com isso, mi lady".
Ambos demos um sorriso de lado e voltamos a olhar as estrelas que estavam no céu. Eventualmente eu desviava os olhos para observá-la. Parecia humanamente impossível que alguém pudesse ser tão bonita como ela, com seus cabelos caindo em cascata até o meio de suas costas e sua pele, que parecia tão delicada que algumas vezes me fazia imaginar se ela era feita de porcelana, podendo quebrar ao mínimo toque de meus dedos. E havia também seus olhos. Ah! Seus olhos castanhos que eram capazes de me ler como se eu fosse um livro, fazendo com que esconder algo dela fosse praticamente impossível.
Isso me deixava muito confuso, porque ela sabia quando eu estava escondendo algo, mas não conseguia perceber o quanto eu ansiava por ela, por um beijo seu. Ela parecia não se dar conta de quantas foram as noites que sonhei em finalmente poder tomá-la em meus braços e dizer o quanto a amava.
Desvencilhei-me desses pensamentos e voltei a olhá-la, parando meus olhos em sua boca. A vontade que possuía em senti-la tocando a minha era simplesmente indescritível. Sob meu olhar, aqueles lábios levemente rosados pareciam extremamente macios, e me questionei se algum dia saberia se de fato era tão bom quanto aparentava.


Lágrimas começavam a escorrer de meus olhos, assim como as lembranças que agora vinham como correnteza, me atingindo com tudo. Foram tantos anos, aos quais havia criado inúmeros sonhos e desejos que jamais se concretizaram. Agora, todos não passavam disso: memórias. Parei meu carro no meio fio quando uma repentina onda de lágrimas veio à tona, bloqueando a minha visão, então saí do veículo, parando na frente do mesmo, que ainda estava ligado e com os faróis acesos. Seria perigoso e também uma estupidez se já não fosse tão tarde e a estrada não estivesse tão deserta.
Passei os dedos pelo meu cabelo, relembrando dos últimos dias e imediatamente senti uma raiva crescendo dentro de mim. Não por causa dela e de tudo o que aconteceu, mas por minha própria culpa. Pelo grande e estúpido burro que eu era, pelo covarde que havia me tornado durante todos os anos desde que a conheci e, sobretudo por ter sido estúpido de mais e nunca ter dito as palavras que ela precisava ter ouvido e por nunca a ter levado aos lugares que tanto sonhava.
Queria poder voltar no tempo, contar à ela sobre meus sentimentos. Talvez ela não retribuísse, não sentisse o mesmo ou talvez ela também gostasse de mim no fundo, não tendo a coragem de assumir, assim como eu. Droga! Eu fui tão estúpido por não ter tomado uma atitude. Agora... bem, agora era realmente tarde demais para fazer qualquer coisa.

", precisamos te contar uma coisa. Por favor, se sente e seja forte acima de tudo". – a voz da mãe de soava triste no telefone.
Comecei a imaginar o que de fato poderia ter acontecido, o que poderia ter a deixado tão abalada. Minha mente estava tão confusa que nem parei para raciocinar, nem me dei conta de que poderia ser algo ligado à sua única filha. O pensamento de que eu poderia perdê-la nunca me ocorreu e talvez esse tenha sido o meu erro.
"É sobre ..."
Minha garganta automaticamente se fechou, impedindo o ar de entrar ou sair de meus pulmões, me causando a sensação de sufocamento. Eu já conseguia imaginar mil coisas que poderiam ter acontecido com ela, mas me recusava a acreditar em qualquer uma delas.
"O que..." – minha voz saiu em forma de um arrasto e precisei dar uma pigarreada para que voltasse ao normal. Meu coração estava praticamente saindo pelo peito, prestes a me deixar para trás – "O que tem ela, Sra. ?".
Um longo silêncio se instalou após minha pergunta e imaginei que ela poderia estar em um estado tão mal quanto eu, ou até mesmo pior.
"Ela estava indo viajar". – sua voz soou depois de alguns minutos, me fazendo prestar atenção demais no que diria – "Nos disse que queria conhecer novos lugares e que para isso precisava sair pelo mundo. Não concordamos no início, mas ela sempre foi uma garota tão boa, doce, educada e responsável..." – eu quase podia sentir seu sorriso se formando enquanto dizia aquelas palavras, o que também me fez dar um leve sorriso – "Claro que não negamos. O até deu a chave do carro para ela. Mas..." – sua voz embargou e ela não conseguiu finalizar a frase.
Imediatamente entendi o que ela queria me dizer e foi como se meu coração tivesse saído do meu peito, me deixando completamente perdido e sem saber o que fazer a seguir. Era como se eu tivesse perdido todo o meu chão naquele momento. O telefone que estava em minhas mãos simplesmente desabou no chão, quebrando em centenas de pedaços, já que eu havia perdido todas as forças para segurá-lo.


Aproximei-me daquela caixa de madeira que apesar de realmente ser bonita, era um dos símbolos da morte, carregando um sentimento muito pesado. Imediatamente meus olhos se encheram d'água antes mesmo que eu pudesse vê-la. Respirei fundo ao me aproximar, controlando toda e qualquer emoção que surgia.
Porém, assim que a vi deitada ali, com o rosto completamente branco e olheiras roxas sob seus olhos agora fechados, não pude me controlar. Imediatamente todos os momentos que passei ao seu lado vieram à mim, principalmente os felizes e meu autocontrole me abandonou, permitindo que toda e qualquer lágrima rolasse sob meu rosto. Uma sequência de soluços fez meu corpo se estremecer, então precisei me curvar para frente para que as lágrimas caíssem no chão e não em cima de seu corpo sem vida.
Aquela imagem era demais para mim e eu não conseguia olhar muito tempo sem que ficasse observando o quão diferente ela estava. Em vida era o próprio sinônimo de vida e agora não conseguia nem reconhecê-la. Balancei a cabeça de um lado para o outro, me negando a aceitar que aquilo era verdade e me afastei do caixão, murmurando um "me desculpa, eu simplesmente não consigo" para a Sra. quando passei por ela.
Eram sentimentos demais me rondando, mas ela em breve seria enterrada e eu tinha que cuidar de uma pendência antes que isso acontecesse.

Ali, sentado no meio fio e com a frente da camisa totalmente molhada, deixei que todo e qualquer sentimento tomasse conta do meu corpo, exausto por conta dos tantos anos ao seu lado sem dizer tudo o que queria. Estava triste, cansado e acima de tudo frustrado. Porém, agora tudo estava fora de meu alcance e só havia uma coisa que ainda me restava a fazer.
Levantei-me sem me importar em limpar de minha calça a sujeira de onde havia me sentado segundos atrás. Segui até o porta-malas de meu carro e abri o mesmo, observando a rosa vermelha que ela havia me dado algum tempo atrás. Sorri de lado ao me lembrar desse momento e me curvando em sua direção, a pegando com cuidado para evitar que ela se desfizesse e segui de volta até o meio-fio onde estava antes.
Sem pensar duas vezes, me abaixei, colocando a rosa em cima da vegetação rasteira que havia ali, logo sob uma pequena mancha rubra que havia permanecido no local provavelmente por algum descuido dos profissionais ou devia ser algum tipo de mensagem para mim.
Foi nessa rodovia onde tudo aconteceu, onde a perdemos. Ela estava seguindo seu sonho, indo conhecer novos lugares, mas tudo isso foi interrompido quando um caminhão surgiu na estrada. O motorista dormia ao volante, resultado de horas em claro dirigindo à mando do chefe da empresa. Ele invadiu a outra mão onde estava com seu carro e o acertou em cheio, lançando para o outro lado da estrada. Ela não estava com o cinto de segurança e o impacto foi tão grande que a lançou para frente, fazendo com que ela voasse diretamente pelo vidro. Sua cabeça atingiu em cheio o meio-fio, lançando jatos de sangue em volta e a causando um traumatismo craniano que tirou sua vida na mesma hora. Era impossível que sobrevivesse.
Balancei a cabeça afastando esses pensamentos e me pus de pé, observando a rosa naquele local que estranhamente parecia ser feito para ela. Tão logo havia pensado nisso, uma brisa extremamente agradável passou pela rodovia, fazendo com que eu fechasse os olhos e tivesse a sensação de que Christine estava ali ao meu lado. O vento assobiava delicadamente em meus ouvidos e eu podia jurar que havia escutado um "obrigada" vindo dele.
Eu não tinha certeza, mas poderia dizer que seu corpo havia acabado de ser enterrado e esse meu ato de desapego com seu último presente fez com que ela estivesse livre.
Não pude evitar o sorriso de lado que se formou em meus lábios, muito menos as lágrimas grossas que agora escorriam livremente. Eu a amava mais do que tudo e qualquer um, mas ela precisava disso. Ela finalmente seria livre assim como sempre me disse que gostaria de ser, poderia ir à qualquer lugar e fazer qualquer coisa, o que me reconfortava.
Afinal, desde que ela estivesse feliz, então eu também estaria.


Cara, tem sido um longo dia
Estou preso, pensando nisso, enquanto dirijo pela rodovia
Me perguntando se eu realmente tentei tudo o que podia
Sem saber se eu deveria tentar um pouco mais
Oh, mas eu estou morrendo de medo
De que talvez não exista outro igual a esse
E eu confesso que estou só segurando em um fino, fino fio
E eu estou chutando o meio-fio porque você nunca ouviu
As palavras que você tanto precisava
E eu estou chutando a poeira porque eu nunca te dei
O lugar que você precisava ter
Eu estou tão triste, triste


FIM!



Nota da autora: Muito obrigada à quem chegou até aqui! Essa não é a primeira estória que eu escrevo, mas é a primeira que eu finalizei e postei aqui no FFOBS, então espero que seja a primeira de muitas hahaha! Peço desculpas se por acaso fiz alguém chorar, mas essa música é tão boa, intensa e triste que merecia uma estória à sua altura e eu preciso dizer que amei o resultado final, mesmo que possa ser inesperado e talvez revoltante para alguns. Ela passa um recado muito importante e eu espero que possa ter chegado até vocês. Muito obrigada pela sua atenção e até uma nova estória, eu espero :)





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