Última atualização: 20/12/2017

Capítulo Único

Havia apenas o som dos trovões quando, molhada e fria até os ossos, chegou ao apartamento. Lá fora, a fúria da natureza fustigava as janelas, criando uma cacofonia que a irritou. Ela abriu a porta de modo brusco e a madeira ressoou alto quando chocou-se com a parede. Ele tinha que estar ali. Não era justo que ele tivesse ido embora sem deixá-la se explicar. Cômodo por cômodo, foi acendendo as luzes e… Nada. Ele não estava ali. O apartamento estava perturbadoramente silencioso, excetuando o grave ribombar dos trovões.

Estava terrivelmente vazio, não? nunca tinha reparado como ali ficava vazio sem ele. Lembrava-se dele na cozinha, cantando algo que tocava no rádio, ou então o modo como suas meias estavam sempre inexplicavelmente ao lado da porta, onde ele tirava os sapatos. O quadro na parede que ele tinha escolhido, o lado do sofá onde uma pequena queimadura circular indicava que ele tivera um pequeno acidente com um cigarro, o tapete caro que ele tinha manchado de vinho na ponta e agora estava manchado para o resto da vida. Até o gato tinha ido com ele.

Sem ele, aquele apartamento era frio, vazio, assustador. Não era nem mesmo o seu lar. , como sempre, não chorou. Não, aquela não era . Ela tinha maneiras mais saudáveis de demonstrar sua dor: destruindo o que sobrou do apartamento. A primeira coisa a voar foi o maldito quadro que a mãe dele tinha dado de presente, os dois odiavam aquele quadro, mas a sua sogra era tão doce e tão gentil que nenhum dos dois conseguiu achar em seu coração a coragem de dizer que aquilo era horrendo. O quadro atravessou a sala e fez um baque contra a parede, caindo no chão e quebrando o vidro. Ela se sentiu um pouco melhor com a súbita alteração em seu nível de adrenalina. Continuou jogando objetos a esmo, mal se importando com o barulho que fazia. Ela estava sentindo dor, que os vizinhos se fodessem.

As batidas soaram na porta, como previra. Vizinhos, talvez, perguntando-se que diabos estava ocorrendo ali. lançou um copo contra a porta, gritou para que fossem embora, para o quinto dos infernos ou para onde quer que quisessem ir.

— Senhorita ? — O funcionário, do outro lado, pareceu não se acovardar com os gritos roucos que ela emitia, um som que se assemelhava ao de um animal ferido; gutural, primitivo e incrivelmente melancólico. Soava quase como arte. — Senhorita , recebemos reclamações sobre o barulho.

Uma hora inteira se passou. O apartamento estava quase completamente destruído. Pouquíssimas coisas permaneciam no lugar, apenas o que não tinha conseguido erguer ou mover. Seu peito subia e descia rapidamente, o suor, gelado e pegajoso, deixava sua pele brilhando. Sua maquiagem devia ter escorrido miseravelmente e ela apostava que se parecia com o pesadelo de alguém. Mesmo assim, ela se sentiu melhor. A raiva e a dor pareciam ter sido dominadas, seus instintos tinham sido saciados. Sentada no chão, encostada na parede, ela acendeu um cigarro do maço que ele tinha deixado para trás, como se ainda pudesse ter um pedaço dele consigo. E ela riu. Não riu porque estava feliz. Não riu porque achou graça de alguma coisa. Não. riu sem humor, de sua própria tragédia. Devia ter adivinhado que terminaria sozinha, não importasse as consequências, o sucesso, a fama ou o dinheiro. Devia saber que as coisas não ocorreriam tão perfeitamente. É impossível ter tudo. Sorte no amor, sorte na carreira, sorte no jogo. Isso era impossível. E, se por alguma razão, existisse alguém perfeitamente feliz em todas as áreas de sua vida, então aquela pessoa existia apenas para zombar da existência de todos os outros.

Quando o viu pela primeira vez, ele era um tanto estranho, como a maioria dos adolescentes passando pela puberdade. Ela era, também, um patinho feio. O aluno novo, deslocado, e era tudo tão clichê. Ela o viu chegar e olhou pela janela. Já naquela época, tinha uma quantidade palpável de cinismo, seu escudo para não se machucar. Ela não esperava nada de ninguém, tampouco queria que as pessoas esperassem algo dela. Tudo o que precisava era se formar e então aquele martírio acabaria. Ela tinha planos, não era apenas mais uma aluna comum.

A cadeira ao lado dela estava vazia por motivos bastante óbvios: não tinha amigos que quisessem se sentar perto dela. E não se importava. Mas, como esperado, foi lá que ele se sentou, tirou o material da mochila repleta de bottons e olhou ao redor, talvez tentando se acostumar com a mudança de cenário. tinha espinhas no rosto, braços e pernas longos demais, seu jeans era surrado e usava um relógio velho no pulso. As duas primeiras semanas se passaram sem que um olhasse a cara do outro por mais que alguns segundos. , especificamente, mal se importava com quem estava ali. Ele logo arranjaria amigos e trocaria de lugar, como todos os outros.

Foi ele, ela se lembrou com amargura, que fez o primeiro contato. O primeiro período era física. Enquanto a maioria deles lutava com os números, não se importava e ele parecia ter uma incrível facilidade com os exercícios do livro. Uma bolinha de papel aterrissou em sua mesa. E, quando ela fingiu não dar atenção, outra chegou. Irritada, a garota ergueu os olhos de seu desenho e procurou quem ousava interromper sua caricatura nada fiel do professor narigudo na frente da classe.

— O que é? — Ela perguntou quando o viu olhando para ela, um brilho de expectativa nos olhos verdes.
— The Clash? — Ele apontou a estampa de sua camisa. apenas anuiu, olhando-o com desconfiança. — Legal. — Ele a mostrou sua mochila, onde os bottons estavam presos. Um deles carregava a mesma estampa de sua camisa.

Sua reação foi olhar da mochila para ele e voltar a desenhar, como se nunca tivesse sido interrompida. jogou-lhe mais uma bolinha de papel, como se não tivesse ficado desencorajado pela falta de resposta.

— O que mais você ouve?
— Não me enche.
— Nervosa? — Ele riu. — Gosto disso.
— Eu não perguntei nada. — Franziu as sobrancelhas, olhando-o de cima abaixo pela ousadia de tê-la provocado. Idiota.

Mesmo nos anos seguintes, ela nunca deixou de achá-lo um idiota. a venceu pelo cansaço. Todos os dias ele tentava engatar uma conversa, algumas vezes ela o respondia, em outras ela o mandava pastar. Dias se tornaram semanas. Semanas se tornaram meses e, no ano seguinte, já era íntimo o suficiente para ir até a sua casa. Ele costumava tirar sarro de sua coleção de CDs, mas tinham o mesmo gosto musical.

— Você cresceu durante o verão. — Ela notou que ele estava, pelo menos, uma cabeça mais alto enquanto colocava o cachorro para fora do quarto antes que ele babasse em cima de todo o dever de casa, que eles tinham deixado para fazer em cima da hora.

Na verdade, não fosse a influência de , teria aparecido na escola sem fazer nada daquilo. Era o último dia do verão, a escola se iniciaria no dia de seguinte, quando ligou para a sua casa e perguntou se ela queria estudar com ele. Mesmo tendo dito não, lá estava – que tinha passado o verão na Flórida, na casa da avó – esparramado no carpete do quarto.

— Está reparando demais em mim. — Sua voz soou sarcástica e rolou os olhos.
— É difícil não reparar quando você parece um poste de tão grande, agora. — Ele sorriu, virando-se para ela. — Continua magrelo, mesmo assim.
— Ouch. Você sempre me machuca, .
— Cresça, . — Retrucou, jogando-se na cama. — Me passa a sua lição de física.

No segundo ano, percebeu que estava irremediavelmente apaixonada por seu melhor amigo quando ele começou a namorar Tracy Houston, uma líder de torcida loira e perfeita. Fumando juntos, escondidos no quarto dele, ela o perguntou se ele realmente gostava de Tracy. deu de ombros.

— Ela é bonita, acho.

tinha se tornado bastante atraente. Tinha arrumado um emprego de verão e carregava caixas e instrumentos para cima e para baixo, sendo o ajudante de palco de uma banda de garagem qualquer. Tinha ganhado algum dinheiro e músculos. As espinhas também tinham sumido e as pessoas na escola descobriram que ele era bastante talentoso com um violão nas mãos. tinha vencido a puberdade e agora parecia um astro do rock, mesmo que fosse apenas um estudante do colegial.

— Você ficou superficial. — Ela acusou, tragando o cigarro roubado da mãe.
— E por que você se importa com quem eu namoro ou não? — deu de ombros. Não queria pensar em uma resposta para aquela pergunta.

O namoro chegou ao fim, mas outros se seguiriam. Ele parecia ter um ímã para garotas. Também, pudera: tocava violão, era cheio de cantadas baratas e tinha feito uma tatuagem horrível de um tubarão com seu primo, que queria ser um tatuador. Ela detestava aquela tatuagem.

Ele foi o seu primeiro em quase todas as coisas, não fosse um beijo dado, por ter perdido uma aposta, em seu primo Todd. Fumaram, juntos, o primeiro baseado. ficou bastante paranoico e engatou em uma bad trip tão grande que precisou dar-lhe um banho gelado e deitar-se com ele na cama, segurando a sua mão e assegurando que, não, ele não ia morrer. E foi nesse momento de fraqueza que ele disse que a amava pela primeira vez. Não importava que ele tivesse namorada, sabia que ele nunca tinha dito que amava outra pessoa. Ela sabia de todas as coisas sobre ele.

Quando acordou, não negou o que disse. Ele tinha sido sempre bastante direto. Disse que terminaria com sua namorada se ela quisesse. , do alto de seus dezesseis anos e padecendo com um amor não correspondido, acabou concordando. Foi com ele sua primeira transa, sua primeira briga de casal e seu primeiro término (seguido de sexo de reconciliação, algo que ela também experimentou pela primeira vez). Ela o amava e contava a ele os segredos que costumava manter para si. Tinha o desejo de viver de música, como ele, de jamais ser como a sua mãe, de ter tudo o que tinha sido negado a ela. Nem um e nem outro tinha dinheiro ou vontade de frequentar uma faculdade. Quando fizeram dezoito anos e se formaram no colégio, e entraram em um carro e viajaram o país fazendo bicos como roadies para bandas famosas.

Aos dezenove anos, montaram uma banda, sob a tutelagem de um vocalista de uma banda underground de Nova York, e apresentaram-se pela primeira vez abrindo o show de seu tutor em um bar chamado Garage, bastante famoso na cidade. Quando acharam que iam decolar, o baixista morreu de overdose. admitia que estava mais chateada por perder a oportunidade do estrelato do que pela morte de Zeke. Tiveram outros dois baixistas, mas a banda acabou se desmantelando. Mesmo assim, permaneciam juntos. Tinham apenas um ao outro e sabiam disso.

Depois de mais algum tempo, conseguiu um emprego como segurança de uma boate. Parecia que acabavam ali as aventuras dos dois. , mesmo trabalhando como vendedora em uma loja de instrumentos musicais, ainda tentava lançar-se ao estrelato, ainda que tivesse sido atingido pela onda de responsabilidade. Afinal de contas, depois de seis anos naquela vida sem rotinas, ele precisava apenas de uma renda fixa. Era desgastante tentar pagar todas as contas que tinham quando nenhum dos dois tinha um trabalho fixo. Alugaram um apartamento, um quarto e sala, venderam o carro, assistiam ao jornal à noite. A normalidade da vida dos dois poderia ter levado à loucura. Naquela época, o Youtube estava em alta. via notícias de artistas que eram lançados ao estrelato por causa de vídeos postados ali. Ela criou um canal, relutou. Ele queria a paz de uma rotina e viver sua vida com a mulher que amava. o convenceu que ainda poderiam viver de música e ele acabou cedendo a entrar em um último mergulho musical com ela.

Em um ano, a vida dos dois mudou drasticamente. tinha razão quando afirmou que eles podiam viver de música. Depois de meses do canal criado, uma produtora entrou em contato com eles. Disse que se ela tivesse um milhão de views em um de seus vídeos em até dois meses, então o contrato para um artista revelação da gravadora seria dela. E porque era teimosa, ela conseguiu.

O primeiro CD, o plano dele, ao menos, era extremamente comercial, e reclamou, mas sabia que era o preço a pagar se quisesse fazer da música o seu meio de vida. Eles venderam a imagem da que queriam, uma rebelde que fugiu de casa com o namorado, uma bon vivant que morava em cima de uma loja de sapatos com roupas decotadas e uma voz potente, rouca, perfeita para cantar rock. Ela fazia shows em shoppings e estacionamentos, mas estava feliz. A rotina atarefada os afastou um pouco, mas, ainda assim, tinham noites juntos onde faziam amor e planos para o estrelato. Um iate? Uma mansão? Um jatinho? O céu era o limite. A primeira melhoria foi mudar de apartamento, alugaram um maior, melhor, mais perto do centro da cidade e perfeito para a nova vida.

Algumas vezes, ela chegava só quando o sol estava prestes a se por. Mal tinha coragem de acordar naquelas noites, ele acordava cedo para trabalhar agora, tinha trocado o trabalho de segurança por um mais estável como motorista em uma grande loja no centro da cidade.

— Você ainda está acordado. — Ela constatou, com alguma surpresa, quando chegou ao apartamento e a luz do quarto estava acesa. Já passava de quatro da manhã.
— Quis esperar por você. — Ele a olhou, desviando sua atenção do filme do Tarantino que passava na TV do quarto.
— Eu não esqueci o seu aniversário. — Ela afirmou com um sorriso sem jeito, tirando uma caixa das costas. — Só não consegui sair do estúdio mais cedo.

Era a época de gravação. costumava passar horas no estúdio, compondo melodias sob a pressão dos executivos da gravadora e de sua agente, embora, vez ou outra, a ajudasse a compor, mas só uma daquelas músicas que fizeram em conjunto acabou entrando no CD. Em algumas horas se tornava incomunicável até mesmo para o namorado, que sentia, já há algum tempo, o peso de ter a namorada sempre longe de si. Ele notou, então, que tinha tomado a companhia dela como algo garantido. Antes, ele era o rockstar. Estar em segundo lugar no relacionamento não era algo aprazível para ele ou seu ego, mas, ainda assim, ele tentou ficar feliz por ela. Era o seu sonho… E o dele.

Os dois se sentaram na cama e comeram os bolinhos que ela trouxe, bem confeitados e cheios de açúcar e recheio. Eles conversaram, se beijaram e dormiram juntos. Não tinha sido o melhor aniversário da vida de , mas ao menos ela não tinha se esquecido dele. Ainda. O CD ainda estava engatinhando, os shows eram feitos para um público pequeno, mas foi apenas quando abriu o show de uma famosa banda de rock que ela foi, verdadeiramente, reconhecida como alguém. E quando ela entrou em turnê com eles, sentiu-se abandonado à sua própria sorte. Ela o convidou a ir com eles na turnê, mas ele teria que passar um ano fora de seu trabalho. Era uma questão de princípios: não queria depender do dinheiro de sua namorada.

— Tem algum tempo desde que você ligou. — suspirou, passando a mão pela testa e afastando alguns fios de cabelo que tinha caído por cima de seus olhos. Ela sabia que ele reagiria assim.
— Eu não consegui tempo, .

Ela notou o silêncio dele. Ele se calou porque comentários passivo-agressivos não combinavam nem com ele e muito menos com ela. suspirou e fez o mesmo. Ela não se sentia bem deixando-o sozinho, mas era a sua carreira e ela não pediria desculpas por isso.

— Como está o gato?

O gato, ainda sem nome, tinha sido um vira-lata cinzento que achou quando voltava para casa, depois do trabalho. O gato estava revirando o lixo e era tão pequeno que coube no bolso de sua jaqueta. Ele devia ser ainda um tanto pequeno, ela calculou, estava há três meses em turnê, fazendo shows de cabo a rabo dos Estados Unidos. Passava um dia em uma cidade e, no outro, já estava na estrada novamente. Sua casa, nesse um ano, era um ônibus que dividia com os membros de sua banda e alguns hotéis pelo caminho. Era cansativo, era emocionalmente esgotador, era estressante, mas não gostava de reclamar. tinha escolhido aquela vida. Não era um trabalho como o de , mas era o seu trabalho.

Seguiu-se uma conversa morna sobre o gato, sobre o casamento da irmã de e ele a perguntou se ela conseguiria ir até a Flórida para prestigiar a cunhada. A resposta vaga não agradou um e nem outro. desligou o telefone dizendo que precisava dormir, mas a verdade é que aquela conversa não se parecia nada com as que eles costumavam ter. Ela preferia desligar o telefone a lidar com aquilo.

Dois meses depois, estava fazendo a passagem de som no palco. Ela murmurou algumas notas no microfone e fez um sinal afirmativo para o roadie, sinalizando que estava perfeito. Agora, estavam em Nova York, onde fariam dois shows. O guitarrista se virou para ela com um sorrisinho.

— Então… Tem uma festa hoje, é de uns caras que eu conheço. Vai ser legal. — Ela o olhou e rolou os olhos. O antigo guitarrista tinha se machucado há um mês e, desde então, o novato vivia chamando-a para sair.
— Não vem com essa. — Ela mencionava seu namorado com frequência e todos ali conheciam . Todos, menos o novo guitarrista, que ignorava a existência de , ela pensava, por pura teimosia.
— Você que sabe. — Ele deu de ombros.

Os rapazes saíram e a deixaram sozinha. detestava se sentir sozinha. Passar uma festa tampouco era do seu feitio. Ela frequentemente ia a festas e se divertia com , mas, sem ele, achava que estava sendo um tanto insensível. Além do mais, aquele ali era o seu trabalho. Ela deveria levar aquilo um pouco mais a sério.

? — O gato miou no fundo da ligação, como se desse o seu alô. Ela sorriu, ouvindo a familiar voz do namorado.
— Oi, . — Já podia ouvir a animação do público, logo além da cortina. Ela estava nervosa. Não era característico dela, mas tinha as mãos tremendo. Até então, aquele era o maior público que ela tinha enfrentado. — Eu estou um pouco nervosa. Me fale sobre o seu dia.

A risadinha de fez seu coração se apertar um pouco. Ela precisava vê-lo.

— Foi um dia de trabalho normal. Gillian me ligou para falar sobre o casamento. — O estômago da cantora pareceu afundar. — Nós conversamos por quase meia hora antes que ela notasse que eu não sei nada de casamentos.
— Eu gostaria de ir. — sussurrou, expirando com força.
— Eu sei. — ficou calado e ela também, sem saber o que dizer. Antes, não calavam a boca um instante. — Uma garota deu em cima de mim hoje.

era bonito. Bonito de um modo diferente, talvez, porque ele tinha uma voz grave e parecia um tanto sério, mas ele era meio gato, tinha tatuagens e já não era tão magrelo como na adolescência. Era claro que sabia que algumas garotas deviam dar em cima dele, mas ela não gostava de ouvir aquilo.

— Hm. — Foi a única coisa que ela respondeu. — E você gostou? — Pouco a pouco, ela se sentiu com raiva. Talvez ele quisesse chamá-la de volta. Talvez ele quisesse fazê-la notar que ele poderia deixá-la, se quisesse, mas aquilo apenas irritava . Ela também poderia ficar com outros caras, se quisesse. O que mais tinha naqueles shows eram caras que queriam levá-la para a cama.
— É bom saber que alguém me nota. — respirou fundo.
— Vai se foder, ! — Ela desligou o celular.

Estava ainda mais nervosa do que quando tinha começado a ligação, mas agora o motivo era completamente diferente. A baterista pôs a mão em seu ombro.

— Ei, tudo bem? — balançou a cabeça afirmativamente.
— Tudo ótimo.

O palco nunca tinha sentido tanta energia. O modo como cantava as notas, com aquela dor e raiva a motivando, fazia o público vibrar e pular. Era a música que tocava nas rádios, eles conheciam a letra, cantavam junto dela. Aquilo fez se sentir viva. Aquilo a fez se lembrar porque estava fazendo tantos sacrifícios. Quando saíram do palco, deixando o público aquecido para a atração principal, chamou o guitarrista. Ela iria para a festa.

Ela não ia para a festa por causa daquela briga e nem porque alguém deu em cima do seu namorado. Ela ia para a festa porque aquela não era a primeira briga do casal desde que ela tinha entrado em turnê. Ia para a festa porque não era de passar oportunidades para se divertir, para beber, para fumar, para tirar da cabeça aquelas preocupações.

envelhecera. Não era algo físico, era algo mental. Ele tinha amadurecido, mas ainda se agarrava à sua juventude evanescente. Ela ainda queria ter a vida que eles levavam antes, quando era apenas uma banda de garagem com na guitarra e ela nos vocais. As noites intermináveis, as festas sem fim, as madrugadas onde eles faziam sexo louco no banco traseiro do carro. sentia falta de tudo aquilo. E ela sentia falta de ali, aproveitando com ela. Ela o queria ali.

Por isso que, às quatro da manhã em Nova York, embora já fosse de manhã em LA, ligou para o seu namorado. O barulho no fundo era quase insuportável, mas tentou ouvi-la.

? Onde você está?
— Em uma festa. — Sua voz arrastou-se. Ela estava bêbada. — Escute, eu estava pensando em você…

não gostou do fato de estar em uma festa e bêbada, ainda, mas até ele entendia que ela estava trabalhando muito, longe dele. Talvez ela merecesse uma folga. Apesar disso, não foi isso que saiu de sua boca. Sua cabeça agia de uma forma, mas seu coração era outro assunto.

— Em uma festa? E se lembrou de mim? — Mas ignorou seu comentário ou talvez estava bêbada demais para notar o sarcasmo nas palavras dele.
— Eu quero você. — , quando estava bêbada, era brutalmente honesta. — Eu quero você aqui. Vá para Washington, eu vou te buscar no aeroporto quando chegar.

No fundo, a música ficava cada vez mais baixa. Ela parecia sair de perto de todos eles.

, eu tenho um trabalho.
— Eu sei, mas você pode ter um trabalho aqui. Eu quero o meu guitarrista de novo, . — bufou. Ele tinha que ir para o trabalho, tinha uma entrega para fazer.
— Vai dormir, .
, não desliga na minha cara. — Ela pediu. Odiava soar carente e odiava ainda mais como parecia-se com uma garota chata e grudenta.
— Você desligou na minha cara ontem.
— Você me disse que uma garota deu em cima de você! E que você gostou.
, vai dormir. — Ele insistiu.
— Não! Não, ! Merda! — Ele a ouviu suspirar. Provavelmente estava passando a mão no cabelo, como sempre fazia quando ficava frustrada. — Eu quero viver isso aqui com você.

Mas não podia viver aquilo. Ele já tinha amadurecido. Era quem precisava crescer. Era ela que precisava aprender a lidar com o que estava acontecendo com ela. não se sentia tentado àquela vida, não mais. Nem a fama e nem as festas enchiam os seus olhos. Sua irmã estava se casando, ela queria engravidar logo e notou que ele queria algo parecido. Um filho com . Uma vida normal. Sem fama, com música, mas sem festas. Apenas eles e a família que construiriam, mas quando ele mencionava esses planos, o deixava falando sozinho.

— Eu não posso ser o seu guitarrista, eu não toco guitarra há anos.
— Você não quer ficar perto de mim? — via além das desculpas.

insistiu que ela deveria dormir e eles poderiam conversar mais tarde. o xingou e se revoltou, voltando para a festa ao final da ligação, com ainda mais vontade de se divertir do que antes. Ela acabou dormindo com o guitarrista, bêbada e trocando as pernas, e se sentiu culpada, mas não contou a . Ela sabia que ele ficaria ainda mais chateado. E ela já tinha medo o suficiente de perdê-lo sem contar que o traíra. O sexo tinha sido algo para descartar a sua frustração, mas ele não entenderia isso. E aquilo a fazia se sentir ainda pior quando falava com ele.

Com o tempo, no entanto, ela pôs aquilo de lado. Ele não descobriria e ela jamais faria algo como aquilo de novo. Quando passaram pela Califórnia, dirigiu até o apartamento e viu o olhar surpreso de . O gato recuperou-se primeiro e miou alto, esfregando-se em suas canelas e deixando pelo cinzento em todo o seu jeans escuro.

— Não vai falar comigo?

Era a primeira vez em oito meses que se viam. a olhou e ela se parecia com outra pessoa. Seu cabelo estava diferente, mas as roupas eram as mesmas, embora ele soubesse que, no palco, ela sempre usava o que escolhiam para ela porque era parte da imagem que tentavam vender. Ela parecia com alguém que estava resistindo a mudar demais, mas ele podia ver o que queriam dela. Eles queriam uma versão melhor da , ao menos para eles, e aquela não a mulher que ele amava.

— Você cortou o cabelo. — Ele se surpreendeu e ela passou a mão nos fios, um sorriso irônico no rosto.
— Sério? Oito meses sem me ver pessoalmente e isso é a primeira coisa que fala pra mim? — riu, pegando o gato no colo.

O gato continuava sem nome. muitas vezes chamava-o de “rapaz” e ele parecia reagir a isso como se fosse seu nome. Funcionava, ele não via razão de mudar. acabou por se levantar e beijá-la nos lábios. O gato pulou de seu colo, incomodado, mas não ligou e apertou o namorado contra o corpo, dando um impulso do chão, o que a fez acabar nos braços dele. Talvez desse certo, ele queria que desse certo.

não mencionou as brigas pelo telefone e nem a idiotice que ele cometera ao dizer a ela que tinha gostado de ser notado por outra garota. Ela já tinha deixado para trás o sexo desastroso com o guitarrista. Era típico dela ignorar as coisas que não lhe interessava trazer a tona. E porque ele não queria mais brigar, fez o mesmo: ele não mencionou suas próprias frustrações e nem nada do que tinha ensaiado dizer a ela, quando ela chegasse.

Eles fizeram sexo no sofá, sem nem ao menos ter tempo para ir até o quarto. sentia a falta de sexo e sentia a falta dele. Ela o convidou para a festa da banda, ao final do show e ele disse que ia. Foi a primeira vez em meses que sentiu que não estava fazendo algo errado com ele, em todos aqueles meses separados, era a primeira vez que se falavam que não se perguntava se estava fazendo o certo para a sua vida. De repente, parecia natural: e a música, suas duas prioridades, fundidas em algo só.

Ela cantou com o coração, naquela noite, e não havia apenas dor e raiva para motivá-la, mas também a certeza de que as coisas voltariam a seu ritmo certo, exatamente como era antes. E depois do show, quando a banda se reuniu em um bar caro e cheio de outros músicos, ela apresentou seu namorado a cada um dos seus amigos de turnê, que, àquela altura, já eram como a sua família.

— Esse é o . — Alguns retrucaram sobre finalmente conhecer o “famoso ”, enquanto outros continuaram o que faziam antes.

O bar era abafado e o cheiro de cigarro, perfume, suor e maconha impregnava o ambiente. bebia, como sempre, como se não houvesse amanhã. Ele trabalhava no dia seguinte, fizera o esforço de socializar com os amigos dela porque se sentia culpado por ser um babaca.

Não que parecesse ter notado. Nunca foi uma namorada carente e nunca foi insegura. Ela não ficava agarrada a ele a todo momento e saía, esporadicamente, com um ou dois amigos, porque queria fumar um baseado e sabia que reclamaria (como se ele não fosse notar o cheiro da erva em seus cabelos). E entre a bebida e as drogas, parecia se comportar como uma festeira sem limites.

Ele, é claro, notou o seu comportamento, mas não era nada a que não estivesse acostumado. Os dois costumavam agir assim antes. Ultimamente, ele apenas agia como a babá dela. Mas era o seu momento, ele não tiraria isso de .

— Vamos embora. — Ela sussurrou em seu ouvido, visivelmente alterada. — Eu quero você.

Ela ia ficar mais quatro meses com eles na estrada. Mais quatro meses durante os quais não veria . Queria matar toda a saudade enquanto pudesse. Ele concordou. Pegaram o carro e dirigiram de volta ao apartamento. Ela entrou e sorriu, caindo deitada no sofá.

— Vamos viajar. — estava incrivelmente bêbada.
— Pensaremos nisso quando você estivar sóbria. — Ela discordou.
— Eu quero falar agora. — Ele se sentou no sofá e ela deitou a cabeça no colo dele. — Eu sempre quis ver a Muralha da China. Vamos lá quando eu voltar da turnê. Eu vou ter uma semana de descanso.
— Eu trabalho, . — ergueu o corpo para olhá-lo, ela não conseguia entender porque ele insistia naqueles subempregos.
— Você não pode tirar férias? É só por uma semana. — suspirou.
— Vamos dormir? — Ele a pegou pela mão.
— Eu não quero dormir, vou embora em um dia. Quero ficar com você. — Ela o puxou de volta para o sofá. — Ligue amanhã e diga que está doente. Vamos passar o dia juntos.

A proposta era tentadora. sorriu para ela, que o beijou de modo avassalador. era sempre tudo, nunca nada. Ele fez como ela pediu. Disse que estava passando mal e conseguiu uma folga no dia seguinte. Quando ele voltou para a cama, estava meio acordada, rolando na cama enquanto reclamava sobre a claridade no quarto.

Os dois tomaram café da manhã juntos, conversaram sobre assuntos seguros, riram quando ligaram para a sogra e ela ralhou, de brincadeira, porque não foi ao casamento de sua cunhada. Eles não eram os mesmos. De alguma forma, os dois pisavam em ovos. Toda aquela paz parecia frágil demais. E era. Isso ficou óbvio quando foram almoçar. insistiu em levá-lo a um restaurante que tinha várias estrelas, enquanto queria pedir comida chinesa e sentar na frente da TV. bufou e insistiu, mas estava irredutível.

— O meu dinheiro não morde, . — Ela disse, encostada no batente da porta do banheiro, enquanto ele estava no banho.
— Isso não tem a ver com o seu dinheiro. — Ele fechou o chuveiro e puxou a cortina. — Eu não quero sair. Prefiro ficar no apartamento. E se algum paparazzi for atrás de você? Eu menti e disse que estou em casa, .

rolou os olhos, irritada, e jogou as mãos para o alto.

— E daí!?
— Eu posso ser demitido.
— Arranje outro emprego! — Ela lhe lançou um olhar furioso.

era um guitarrista talentoso. E não era porque ela o amava que tecia elogios desnecessários. tinha técnica e, além disso, ele tocava com o coração. Era algo fascinante ouvir os dedos de correrem pelas cordas da guitarra. Ela queria que ele seguisse a carreira musical. Era algo que ambos tinham conversado durante anos. não entendia o que havia mudado para que ele resolvesse ser apenas uma motorista medíocre com todo aquele talento dentro dele.

riu, cheio de sarcasmo, enrolando a toalha ao redor da cintura.

— Você diz isso como se fosse fácil.
— E é fácil. Eu preciso de um guitarrista. Você toca guitarra! — Mas ele saiu do banheiro de forma brusca, deixando-a para trás.

Só que estava cansada de ser ignorada sobre isso. Todas as vezes que mencionava aquele assunto, se esquivava.

— Qual é a porra do seu problema, ? — Ela gritou, sem se importar com o vizinho.
— Qual é a porra do meu problema? E a porra do seu problema? — Ele apontou para ela, virando-se rapidamente. — Você chega aqui e fala sobre uma viagem para o outro lado do mundo, quer me enfiar na sua bandinha ridícula, quer que eu saia com os seus amigos e fume maconha como um perdedor do colegial só porque você não cresceu!
— Ah, pelo amor de deus… Eu estava tensa, queria relaxar! — Ela se defendeu, olhando-o nos olhos. não gostava de brigar com ele, mas não fugiria mais daquilo. — Eu só quero que você faça parte da minha vida, não é pedir muito.
— E qual é a sua vida? Festinhas regadas a drogas com outros músicos? Beber como se fosse uma doida? Flertar com os caras por que você pode? Ah, sim, eu vi. — Ele a olhou de cima a baixo. — Se olhe no espelho, . Essa não é a mulher que eu amo. O que aconteceu com você? — franziu as sobrancelhas. — O seu cabelo, as suas roupas… O que aconteceu com você?
— Vai se foder, . Se você está com ciúmes isso é problema seu, eu sempre fui assim. — Ela abanou a cabeça, não queria ouvir aquilo dele.
— Você nunca foi como as outras pessoas, isso é certo. Foi isso que me atraiu em você. — Ela o olhava com atenção. Cada palavra dele doía, mas ela se encontrou parada. Não queria deixar de ouvi-lo. — Você queria sair daquela cidadezinha e isso era bom, porque eu também queria. Nós tínhamos sonhos, nós deixamos aquela vidinha medíocre para trás. E olhe para você, você conseguiu! , a estrela do rock!
— Você tem alguma coisa para dizer ou só quer ser um babaca e reclamar de qualquer merda? — Seu coração a advertia que ela poderia magoá-lo, mas ela não se importava em magoá-lo. Ele estava magoando-a, ele merecia.
— Eu tenho algo a dizer. — Ele se aproximou dela e tocou uma mecha do cabelo tingido. — Você está igual a todo mundo. — Ela estapeou sua mão, o rosto contraído em uma careta zangada, mas ele não se afastou. — Parabéns, você conseguiu se encaixar no molde que fizeram para você.
— Pelo menos eu estou seguindo os meus sonhos! — Ela gritou, lágrimas nos olhos e punhos fechados. — O que você está fazendo? Está aqui, nesse buraco, trabalhando de motorista e ganhando um salário de merda!

deu dois passos para trás. Ele sabia que, no fundo, ela poderia se sentir assim, mas, ainda assim, doía.

— Quem você pensa que é para me criticar? — Ela continuou, sentida, suas palavras carregando aquele tom rouco que ela usava quando fazia força para não chorar na frente dele, mesmo que os olhos dela brilhassem com as lágrimas não derramadas. Ela jamais chorava. — Você é medíocre. Você podia ser famoso, você podia ser como eu se pegasse aquela merda de guitarra e mexesse seus dedos, mas você prefere ser uma vítima do que lutar, como eu lutei. Você escolheu ser medíocre, , e isso é mais triste do que tudo. Você não é comum porque nasceu assim. Você é comum porque é um covarde.

Demorou até que ele a respondesse. Quando ele o fez, seu tom tinha perdido a agressividade.

— Você não entende.
— Eu não entendo porque você não me diz! — Ela estava exasperada.
— Eu quero fazer música, ! Eu não quero ser famoso! Você liga para música ainda ou só gosta de rebolar e cantar o que te pagam para cantar? — E lá estava, novamente, os verdadeiros sentimentos dele, borbulhando e fazendo-se presentes na discussão.

Aquilo a pegou de surpresa. arregalou os olhos.

— Você acha que eu não ligo para música? — A voz se elevou e ela não se importava com quem pudesse ouvir a gritaria. — Você acha que eu estou ali para ser famosa? Eu quero fazer a minha música, mas antes eu preciso fazer o que eles querem!
— Isso é uma desculpa de merda e você sabe disso. Você gostou da atenção, você está deslumbrada. Você não quer saber da sua música, você não tem o mínimo de compromisso com ela!
— E que compromisso você tem com a música, sentado nesse apartamento e se sentindo como um coitado? Você tem ciúmes do meu sucesso, ! Antes, você era o cara! O bonitão com o violão. Agora, eu sou a pessoa que está em destaque, pela primeira vez na minha vida, e você está com ciúmes!

Em silêncio, ambos se encararam por um momento. olhou para a toalha pendurada em seus quadris e suspirou. tinha as duas mãos apertadas ao lado do corpo. Ela estava se esforçando para não sair correndo, para não quebrar alguma coisa em cima dele.

— Vou embora. — Ele anunciou e se sentiu aliviado por dizer aquilo.
— Você não vai embora.

Ele a olhou, um tanto abismado. Então ela não entendia? Não havia volta. Eles estavam em épocas diferentes. Ela não via as coisas como ele? Ela não sentia que algo estava errado? sentia.


— Eu te amo, . — engoliu audivelmente. Ela parecia tão magoada quanto ele. — Eu te amo. E eu não estou mentindo para você não ir embora. Eu só queria que você fizesse uma força e se esquecesse desse seu orgulho por um momento.

Ela estava tentando ser racional. Se fosse a sua antiga , ela já teria puxado sua toalha, feito sexo bruto e raivoso com ele ou então teria jogado algo em sua direção, quebrado alguma coisa, mas essa tentava se manter calma. Ele não sabia se gostava ou desgostava dessa mudança, em particular.

— Eu quero que você veja as coisas pelo meu lado, também. — Ele a olhou. Ela estava tentando dialogar.
— Sabe, os meus amigos chegam em casa e suas esposas conversam com eles sobre o dia delas. As crianças insistem para brincar com eles. Eles veem TV e tomam uma cerveja. Eu quero essa vida, . Eu quero filhos, futebol, cerveja, uma vida normal, como a da minha irmã.

mordeu o lábio. Aquela não era ela. Aquela vida não era para ela. Sua mãe tinha desistido de seus sonhos para ficar com o seu pai. Ela tinha deixado de lado uma bolsa de estudos na Europa por causa dele. Sua mãe tinha se casado e tido ela. E, quando seu pai se cansou dela, ele deixou as duas. sempre se prometeu que jamais desistiria dos seus sonhos por causa de um homem. Nem mesmo por causa de . Ela nunca amou outra pessoa. Fez sexo com outras pessoas, quando eles terminavam por dois ou três dias, mas nunca houve amor. Eles sempre voltavam, não se entendiam com outras pessoas como entendiam-se entre eles. Aquilo estava perdido? esteve sempre ali, antes como amigo, depois como amante. Ela estava acostumada a tê-lo ao seu lado. Mas nem poderia entrar no caminho de seus sonhos, os sonhos tinham vindo antes dele. Ela respirou fundo.

— Nós podemos ter isso. Mais tarde, eu posso pensar nisso. Eu quero me fincar na indústria musical primeiro. — suspirou. — Podemos resolver isso quando eu voltar da turnê.

Os meses restantes passaram como um borrão. e mal conversavam e, quando o faziam, era uma conversa genérica que não satisfazia nem um e nem outro. E talvez por isso tenha se afundado ainda mais nas festas com a banda, gerando todo o tipo de publicidade sobre ela. estava crescendo na indústria musical. Quando seu segundo single foi lançado, ela teve que balancear o final da turnê com a divulgação de sua música. Os jornais adoravam sua imagem, seu jeito despojado, as palavras escrachadas. E a única forma de vê-la era pela televisão. Os amigos mais próximos sempre o parabenizavam pela carreira dela, como se ele tivesse algo a ver com isso, e quando tomavam ciência de que ele não queria nada com a fama, se afastavam dele como se tivessem sido xingados.

tinha se voltado para Rose, a baterista. As duas conversavam sobre toda a sorte de assuntos, menos sobre seu relacionamento em frangalhos com . não queria encarar o que estava ruindo bem diante de seus olhos. Ela simplesmente preferia pensar que eles resolveriam tudo e logo estariam bem. A visão do futuro de era ridícula, mas eles podiam se casar, por que não? Um filho não soava tão mal. Ela se dignou a pensar no assunto. Se fosse fazê-lo feliz, talvez valesse a pena. Não agora, obviamente, mas quem sabe no futuro? Não era o seu sonho, mas ela podia ceder se ele fizesse o mesmo.

Ela voltou da turnê e embora o seu relacionamento estivesse prestes a se quebrar, os dois fingiam não ver. Ele sempre se negava a sair com ela e os seus amigos músicos, então parou de convidá-lo. Havia dias em que ele chegava em casa e só havia um bilhete dizendo que ela passaria alguns dias fora de casa, por causa do CD ou de algum show, qualquer coisa nesse sentido. E ele se sentia aliviado. Ultimamente, a presença dela o fazia se sentir apreensivo, como se uma bomba fosse estourar a qualquer momento.

As festas de fim de ano passaram, e foram para a Flórida, visitar a família dele durante o feriado de Ação de Graças, o Natal foi passado com a mãe de e os pais de . No Ano Novo, eles comemoraram junto de alguns executivos, em um grande jantar dado pela gravadora de . Os dois mal se falavam e as ações eram mecânicas, mas não se via longe dele. Talvez fosse o costume. Sempre que ela voltava, e o gato estavam ali. Eles eram a única constante que conhecia, todo o resto era imprevisível: alguma coisa surgia ou seu empresário conseguia algum trabalho para ela que deveria ser de outro artista. O fato era que havia pouquíssima estabilidade em sua vida.

Foi no final de janeiro que as coisas degringolaram de vez. O CD estava prestes a ser lançado, depois dos singles e de todo o trabalho de divulgação. E, por um desses milagres do destino, e também porque a festa era em honra de sua namorada e seu CD, acompanhou a uma de suas festas. A boate tinha sido alugada especialmente para o evento, outros artistas, contratados pela mesma gravadora, haviam comparecido, uma forma de gerar buzz tanto para a novata quanto para os veteranos.

Os dois sentaram lado a lado quando o carro da gravadora veio buscar a cantora, mas estavam em silêncio, cada um em seu celular. Durante a festa, os dois andaram juntos, mas ela logo foi separada dele. Havia pessoas que ela devia conhecer, conexões, contatos e todo o tipo de coisa que uma festa da indústria trazia como bagagem. É claro que aquilo seria relacionado a trabalho, pensou, olhando-a ir embora. Ele pegou uma taça de champanhe. Estava farto de tudo aquilo, de ser jogado de lado como um acessório. E quando retornou à mesa, ela o viu. Bêbado, como ela sempre estava, mas não daquela vez, e flertando com duas jovens garçonetes, o que também era um hábito dela. Estranhamente, não se sentiu raivosa. Ela viu, em primeira mão, que talvez seu comportamento o incomodasse daquela forma. Ela foi até ele, os dois voltaram para o apartamento uma vez que terminou seus afazeres. Os dois dormiram juntos, abraçados e foi apenas isso o que aconteceu.

Ela achou que tudo fosse dar certo uma vez que tinha entendido o lado dele. estava errada, ela só não sabia disso ainda. Na noite seguinte, viajou até Nova York, onde participaria de um programa matutino. Era o mesmo trabalho de sempre e ela ainda teria uma rápida entrevista. Era até leve se comparado ao que estava acostumada enquanto ainda estava em turnê, equilibrando o CD e os shows quase diários. Na primeira noite, a conversa ao telefone foi como sempre: superficial e insatisfatória. Então, na noite seguinte, ela não ligou para ele. Para dizer a verdade, aproveitou as suas duas noites em Nova York para fazer uma catarse. Ela tinha que trabalhar, é claro, mas quando não estava promovendo o CD, estava pensando sobre a sua vida, seu relacionamento, sua carreira. E ela queria se livrar de tudo isso por algum tempo, nem que fosse apenas um par de noites. Ela sabia que era egoísta, mas fora assim a vida toda. Supunha que estivesse acostumado. Ele sempre pareceu lidar muito bem com seu temperamento. E ela com o dele. Por mais que ele parecesse alguém tranquilo, sempre soube que havia algo espreitando por baixo de tudo aquilo. Antes, essa certeza era excitante. Agora, era excruciante. E isso era o suficiente para que precisasse de algum tempo sozinha.

Já era quase meia-noite quando ela entrou em seu quarto de hotel. Naquela noite, a última em outro estado, depois de horas e mais horas andando, falando, correndo e tudo o mais, ela afundou em uma banheira cheia de água quente, um óleo de banho que o hotel tinha providenciado, um pequeno mimo a si mesma, e uma garrafa de cerveja. O celular estava desligado, dentro da mala. Era exaustivo passar por tudo aquilo sozinha e não poder ligar para o próprio namorado. não era a melhor pessoa para conversar sobre o seu trabalho. Então, ela ligou para Rose do telefone do hotel. Quem melhor do que outra mulher na mesma (ou quase) situação que ela? E porque Rose era engraçada e realmente fácil de se conversar, , naquela noite, esqueceu tudo sobre o seu relacionamento em crise, sobre o seu trabalho e sobre tudo o que a incomodava. As duas noites passadas em Nova York não pareceram assim tão cansativas.

No final da manhã seguinte e de malas feitas, ela estava em um táxi a caminho do JFK. Quando ligou o celular, enquanto seu agente falava e falava sobre novas oportunidades, ela viu sete ligações de , alumas mensagens de texto e três correios de voz.

— Andy, cale a boca.

O homem a olhou de cara feia, mas relevou por dois motivos: o primeiro é que era uma fonte rentável de dinheiro. O segundo? Ele sabia que seu temperamento não era o melhor, provocá-la com vara curta era perigoso.

Mas não era por isso que estava nervosa. A cantora discou para o seu correio de voz, pronta para ouvir a primeira mensagem de .

Ei, , acabei de ver a entrevista. Você, hã… Você estava muito bem. Bastante natural. Eu estou no bar com uns amigos e todos querem falar com você, então…

O que se seguiu foi uma cacofonia de cumprimentos, gritos e outras exclamações. fechou o rosto. em um bar? Ela achava que ele era o adulto responsável agora. Bufando, ela seguiu para a mensagem seguinte.

, eeeei! Eu já cheguei em casa. Não que você se importe, você não atende essa droga de celular. Para que você levou isso se não ia atender?” Houve uma longa pausa, ela só podia ouvir a respiração dele. “Droga, , o que aconteceu com a gente? Quando eu virei esse cara desesperado pela sua atenção? Isso aqui não parece mais com a gente… Mas eu estou bêbado. Heh, eu estou bêbado e você não… Eu acho. Eu…” A mensagem foi cortada.

A essa altura, tinha medo de seguir para a próxima mensagem. Ela não sabia se queria ouvir o que mais ele tinha a dizer. Os murmúrios de um bêbado… Ela nunca soube que machucava tanto assim. Sua expressão a entregou e seu agente a chamou, pondo uma mão cheia de anéis em seu braço.

? Aconteceu alguma coisa?

negou com a cabeça, apertando a tela do celular para que passasse à próxima mensagem.

Ouça, , eu sinto muito. Muito mesmo. Eu te liguei ontem e disse umas coisas que… Eu não queria falar com você assim. Eu queria falar com você pessoalmente, mas acho que você não deve voltar tão cedo. Eu não sei quando você vai voltar, você não me disse… Eu não queria que isso soasse como uma acusação.” O longo suspiro de fez com que os olhos de se enchessem de lágrimas. Ele não podia… Não era justo. “Eu só não sei como falar com você. Não mais. Quando a gente se fala, a gente briga. Eu não consigo mais olhar para você e reconhecer a garota que fugiu do interior comigo. Eu vejo você e é a que está no outdoor, na televisão, na revista… Eu não sei mais quem você é. E eu também não sei mais quem eu sou. O que eu sempre quis foi uma vida com você, mas você não está pronta para isso e eu cansei de esperar. Isso não é o ideal, eu sei. Eu queria falar com você cara a cara, mas… Você não está aqui. Você nunca está aqui. E eu sei que você não deveria ter que escolher entre a sua carreira e eu, então estou fazendo essa escolha por você. estava chorando. E , ouvindo a mensagem, também. E não chorava. A velha não chorou nem quando tinha doze anos e seu pai a deixou. Ela não chorou quando quebrou a perna, aos catorze anos, pulando o muro da casa de Sandy Rogers, depois de ter pichado o portão dela. Ela jamais chorava.

Mas, aparentemente, a nova chorava. Ela concordava com . Ela estava diferente. “Eu prefiro ir embora. Seguir a minha vida. Eu sei que isso não vai ser fácil. Droga, , eu amo você, mas isso… Eu não consigo relaxar com você por perto. Nós somos dois estranhos. Acho que só duramos esse tempo todo porque nos apegamos ao passado, mas nós não somos mais aqueles garotos. Eu sei que estou magoando você. E, se você quiser, podemos conversar… Mas não agora. Nem amanhã. Eu quero um tempo. E eu espero que você fique bem. Eu te amo.

notou, quando abriu os olhos, firmemente fechados para se impedir de chorar, que tinha o punho apertado, os nós dos dedos esbranquiçados. Como ele podia achar que aquilo era o melhor para eles dois? Como ele podia ser tão egoísta a ponto de achar que poderia escolher por ela? Mas, se de um lado ela estava magoada e desapontada, por outro… Por outro lado, ela sabia exatamente o que ela escolheria, se fosse forçada a isso. Ela escolheria a sua carreira. E não era pessoal. Ela amava , mas não podia deixar que a história de sua mãe se repetisse com ela. Sua mãe era um caco. Sua mãe era alcoólatra, deprimida, pulando de um trabalho para o outro. jamais acabaria como a sua mãe, embora, talvez, bebesse demais e estivesse deprimida.

, está tudo bem?

Ela olhou seu agente e o motorista. Balançou a cabeça negativamente e afundou a cabeça entre os joelhos, tentando respirar fundo e não perder o seu parco controle. Andy pôs a mão em suas costas, esfregando o local de modo terno. Até mesmo Andy conseguia ser uma pessoa decente, vez ou outra. Ela achava que poderia, também. Ela poderia ser alguém decente, se quisesse. Ela poderia mostrar a que ainda era a garota que…

O problema é que não era mais essa garota. Para o bem ou para o mal, tinha mudado. E não estava prestes a deixar tudo de lado, tudo o que a formava. era uma coletânea de tudo que tinham feito a ela e de tudo que tinha feito a si mesma. Cada passo em seu caminho, errado ou não, a levara até ali. E cada passo de o levara até algum outro lugar, longe dela. Ela gritou para que o motorista corresse, mas seu avião tinha horário fixo. E o voo de NY a LA não durou menos porque ela tinha pressa.

Era o inverno em Los Angeles. Dificilmente era frio, mas quase sempre era chuvoso. O LAX estava repleto de taxistas, os pingos de água batiam com força no vidro do carro, mas ela seguiu até o apartamento. Não queria que fosse embora. E, de alguma forma, esperava que ele quisesse ficar com ela, que ele estivesse finalmente pronto para lutar por ela. Mesmo com as mensagens, esperava que ele tivesse colhões para lutar por eles, pelo relacionamento que sustentavam há tantos anos. Pela primeira vez, queria não ser a pessoa no comando. E o pensamento a deixava culpada. Quando seu pai vai embora de casa e você tem apenas doze anos, quando a sua mãe se afunda em bebida e te deixa sozinha a maior parte do tempo, você aprende que é a única pessoa com quem pode contar. Era isso que ela sabia.

Então, depois de se afundar em seus próprios pensamentos por horas, imaginando as viáveis (e as inviáveis, também) maneiras que poderia resolver aquilo com , abriu a porta com pressa, força e a esperança de que, talvez, ele ainda não tivesse partido.

Mas ele tinha. Ele tinha partido. E, agora, tudo o que tinha era um apartamento quebrado e vazio. Talvez como uma analogia ao seu coração, se o universo fosse assim tão cruel. estava cansada, cansada de nadar contra a corrente. Cansada de tentar fazer com que ficasse. Ele poderia posar como o herói trágico, se quisesse. Ele foi covarde. Ele desistiu. jamais quis que ela fosse bem sucedida. Tudo o que ele queria é que ela fosse uma Stepford Wife. Essa não era ela. E o namorado bem resolvido de uma rockstar não era ele.

Quando o conheceu, não o queria em sua vida. foi insistente, até que finalmente a conquistou. Ela tinha planos para sair dali, mas ele foi com ela. Ela nunca quis se apaixonar por ninguém, nunca quis nada daquilo. Era tudo culpa de . Era tudo culpa dele.

queria se levantar, rasgar as roupas dele, se ele tivesse deixado alguma para trás, mas ela se viu incapaz de fazer isso. Então, ela jogou a cabeça para trás e chorou. Mas apenas chorou porque estava sozinha e porque não havia ninguém para recriminá-la por chorar por um cara que a abandonou de modo tão… Covarde. Como descrever de outra forma?

Ela gritou, raivosa, mas o som de sua voz foi encoberto pelo trovão. De algum modo, o céu pareceu chorar com ela. E isso a deixou mais calma. Calma o suficiente para tomar um comprimido tranquilizante e dormir. ficaria bem. Ela sempre ficava. Não era fraca e nem se afundava em sua própria infelicidade por muito tempo. Ela só precisava de tempo. era o relâmpago antes do trovão. Tudo ficaria bem. Ela ficaria bem.

Três semanas depois

A voz de ecoava no rádio e levantou a cabeça, vendo sua irmã, grávida, cantarolar a música enquanto cozinhava. Ele deixou de lado o conserto da pia da cozinha e ela viu quando ele a encarou.

— Eu sei que é a sua ex e que a música provavelmente é sobre você… — Ecos de “Thunder” enchiam os seus ouvidos. — Mas a música é muito boa.

balançou a cabeça, abrindo um sorriso desanimado, mas ela pareceu não notar. Estava na casa de sua irmã, na Flórida, desde que deixara o apartamento. O gato, que ainda o acompanhava, o olhava da porta da cozinha.

— Ela é boa. — Foi a única coisa que disse, tomando um gole da cerveja, agora quente, que sua irmã tinha servido a ele. Gillian riu.
— Certo, só boa. Deve ser por isso que ela está em todo lugar agora, hein? — não respondeu, apenas insistiu no sorriso triste e tomou outro gole. — Ela devia te dar uma porcentagem, foi por sua causa que ela conseguiu fazer uma música de sucesso.
— Eu não vou pedir dinheiro a ela. — Gillian rolou os olhos.

— Eu não vou falar disso com você, Gil. — Ele pousou a cerveja na mesa e se levantou, limpando a testa com o antebraço. — Eu vou terminar a pia. E aí você e o Marcus podem parar de se desesperar com o orçamento do encanador.

terminou, como prometido, o conserto. Ele tomou um banho, se sentou na beira da cama e ligou a pequena TV do quarto de hóspedes. ia, a seu pedido, mandar o resto de seus pertences. Ele tinha achado um emprego, em breve sairia da casa da sua irmã. estava pronto para tomar as rédeas de sua vida. Gil tinha até arranjado um encontro para ele, mas ele achava que ainda era cedo.

Ele assistia as entrevistas dela. Era involuntário, como quando você tira a casca de um machucado, mesmo sabendo que dói. Doía, mas ele queria vê-la. Ela parecia bem. Parecia ter se acostumado a fingir. desligou a televisão. Ele tinha pedido um tempo a ela, mas insistia em suas próprias feridas.

sempre quis viver de música. Ela vivia o seu sonho. Era a vez de fazer o mesmo.

Na hora do jantar, ela ligou para dizer que tinha mandado os pertences dele. E que estava do lado de fora da casa de sua ex-cunhada. E mesmo que não esitvesse, ainda, completamente pronto para vê-la, ele foi até o portão do sobrado e o abriu. estava parada, encostada em algum carro alugado, jeans rasgados, botas de combate, um cigarro entre os lábios. Era quase a da qual ele se lembrava. Ela abriu um sorriso.

— Ei, estranho. Trouxe as suas coisas.
— Achei que fosse mandá-las pelo correio. — Ela deu de ombros.
— Eu devo uma visitar à Gillian. Perdi o casamento dela e isso tudo. — olhou da ex-namorada para a porta do sobrado, onde Gil estava apoiada.
— É, isso não é uma boa ideia.
— Ela não quer me ver nem pintada de ouro por ter quebrado o coração de seu irmãozinho? — não respondeu. — Tudo bem. Eu entendo. Queria ter uma irmã para se preocupar comigo. — deu um longo trago no cigarro e o apagou no solado da bota.
— Você está bem? — Ele perguntou enquanto ambos tiravam as malas do carro.
— Ocupada. — Ela respondeu, depois de alguns segundos de silêncio. — Trabalho tanto que quase não dá para perceber que meu namorado me largou. Ah, ok. Não me olhe assim, foi uma piada.
— Você está realmente bem, então? — Ela se virou para ele, olhando-o nos olhos.
— Eu não preciso de você para viver. — Então ela ainda estava magoada. Ele entendia. Ele até merecia aquelas palavras. — Você foi covarde. Foi para isso que eu vim hoje. Vim dizer que você foi um covarde. E se você quer realmente saber, hoje eu estou bem.

anuiu. Não havia o que dizer. Ele pegou as duas malas que ela tinha arrumado e a olhou. acendia outro cigarro, os dois trocaram um olhar longo e silencioso, desconfortável e acusador. No céu, um relâmpago cortou a noite. Era até irônico.

— Você devia ir antes que comece a chover.

riu. Ela olhou para cima, para o céu e depois voltou o seu olhar para ele. Não estava bem, como tinha afirmado, mas tampouco andava patética como antes. Mare ainda o amava, mas isso logo seria enterrado no passado. Ela não o respondeu, apenas entrou no carro. Cada um cuidaria de suas feridas. Ela tinha as suas cicatrizes. E cabia apenas a cuidar das dele. Ela seguiria a sua vida. Ela ficaria bem.




Fim



Nota da autora: Por um momento, achei que não fosse conseguir terminar essa história. Thunder é a minha música preferida do álbum e nenhuma ideia minha chegava a altura do que eu queria fazer com ela. Além disso, é uma música difícil de ser trabalhada. Ela não tem uma história óbvia ou elementos que pudessem ser usados de maneira mais evidente para formar uma trama boa o suficiente para o que eu queria. Acabei trabalhando com a busca pela fama, da letra, e o tom de arrogância que notei, muitas vezes, no decorrer da música. É uma música que nos desafia, que clama em alto e bom som a superioridade do cantor. Quis trazer, então, uma personagem feminina que não fosse a vítima do personagem masculino, mas quem perpetra, incosncientemente, os espinhos no relacionamento de ambos. Acabou que meus personagens tomaram vida própria e se distanciaram um pouco da minha ideia, mas, ainda assim, eu gostei. Acho que fiz um bom trabalho, embora não seja o meu melhor. Ademais, quero agradecer quem tenha lido tudo isso, até aqui, a todas as meninas que me ouviram reclamar por não ter ideias e a Anny por ter tido paciência com a doida que não consegue controlar os próprios prazos.

Beijo para todas e bom mixtape!


Outras Fanfics:
Fortune Teller (Outros - Em Andamento)
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