Capítulo único
Os lábios de Bia formavam um sorriso orgulhoso, enquanto a jovem encarava os quitutes que a havia feito acordar às cinco horas da manhã, não que tivesse algum impedimento para levantar tão cedo, já que até seu marido, sempre dormia no canto oposto da cama.
Ela e Beto haviam trocado alianças apenas algumas semanas antes, sem lua de mel, devido à rotina de trabalho do noivo .
Assim, como qualquer garota no final dos anos cinquenta, Bia teve sua mente moldada para não ter outro objetivo além do casamento e de agradar ao futuro marido, marido este que ela secretamente escolheu desde a primeira vez que colocou os olhos no garoto loiro de expressões alegres. Roberto Sobral, seu vizinho desde a pré adolescência, fez morada em seu coração, não deixando espaço para mais ninguém. Não restavam dúvidas, era com ele que a jovem queria passar o resto de sua vida e havia conseguido! Lá estava ela, dividindo o mesmo teto que o loiro sedutor e o chamando de seu marido!
Só havia um problema, o casamento não havia sido planejado nos conformes. Ao contrário do que Bia sempre sonhou, Beto não havia se ajoelhado, muito menos feito uma declaração apaixonada. As imagens do garoto exibindo um sorriso forçado, enquanto, de forma fria, colocava o anel em seu dedo, a assombrava. O que era para ter sido uma lembrança feliz se tornou uma eterna confirmação de um sonho realizado pela metade.
Apesar de tudo, Bia não iria desistir tão fácil de tornar seu casamento feliz. Não importava quantas vezes Beto chegasse em casa do trabalho e nem a olhasse nos olhos, ou adormecesse antes que ela pudesse se deitar e tivessem a chance de conversar ou fazer outras coisas, até marido e mulher deveriam fazer sobre quatro paredes. A jovem o desejava mais do que tudo, e agora que o tinha, faria tudo que estivesse ao seu alcance para tê-lo por completo, como o marido amoroso que, no fundo de seu coração, sentia que Beto poderia se tornar. Por isso havia se esforçado tanto, acordando mais cedo e passando horas mergulhada nos livros de receita de sua avó, a fim de fazer um café da manhã farto e romântico. Com certeza seu marido iria gostar da surpresa.
O coração da garota acelerou quando escutou passos vindos do quarto. Segundos depois, lá estava ele, os fios loiros bagunçados e as sardas vermelhas, como de costume devido ao sono. Apesar de Beto nunca prestar atenção quando, por exemplo, ela passava a tarde inteira fazendo um penteado diferente a fim de agradá-lo. Ela, ao contrário, estava atenta a cada detalhe sobre o amado e abriu um sorriso ao vê-lo.
— Bom dia, meu amor! — tentou disfarçar as mãos trêmulas.
Beto, por sua vez, passou as mãos nos fios loiros, enquanto fitava a mesa farta.
O coração de Bia se tornou uma bomba, e ela tentava pescar alguma reação na face do marido, mas sem sucesso.
— Você fez tudo isso? — A voz sonolenta de Beto soou desanimada.
— Sim! Decidi preparar um café da manhã especial para nós, meu amor! Deu muito trabalho, mas preparei tudo o que você mais gosta! Então, o que achou? — Ela juntou as mãos em ansiedade.
Beto fitou a mesa e depois a esposa por alguns segundos antes de levantar a voz:
— Você perdeu o juízo, Bia?
A garota arregalou os olhos.
— Como é?
— Eu estou começando a vida, acho que posso bancar essa fartura?
— Meu amor, já te disse mil vezes que nunca nos faltará nada... O meu pai…
— Eu sei muito bem que o grande empresário Juliano Alencar pode nos dar tudo que precisamos, mas eu também já te disse mil vezes, Bia, que não quero ser sustentado. Já não basta ele ter nos presenteado com essa casa. Quer saber? Sua irresponsabilidade me fez perder o apetite. Eu vou terminar de arrumar e vou direto para o trabalho. Licença. — De maneira fria, o jovem se virou em direção ao quarto, mas foi impedido por Bia.
— Espera, não vai me dar nem um beijo de bom dia? — Indagou, cheia de esperanças, esperanças essas que foram destroçadas quando Beto respondeu:
— Deixa de bobagem! Eu estou com pressa, além do mais, isso não tem importância.
— Claro que tem! — Bia se aproximou do marido a ponto de ouvir sua respiração. — Não se lembra da primeira vez que nos beijamos, e fizemos outras coisas mais… — Sua voz saiu em forma de sussurro.
A noite em questão estava gravada na mente de Bia. Celeste, sua amiga foi visitá-la depois da aula exalando empolgação.
— Bia, minha amiga, você não vai acreditar no que eu escutei. — Ela se jogou na cama como se estivesse em sua própria casa.
— O que foi? Me conta logo, porque agora estou curiosa! — Bia ajeitou o vestido antes de se sentar ao lado da amiga.
— Vai ter uma festa no Gente Fina hoje, e vão ter vários garotos lindos!!! Vai ser um chuá!
— Ah, Celeste, meus pais nunca iriam me deixar ir em um dia de semana. Além do mais, você sabe muito bem que eu só tenho olhos para o Beto…
Celeste suspirou desanimada.
— Sim, eu sei muito bem… inclusive já te falei para esquecer essa obsessão.
— Não é obsessão, é amor. Desde que nós éramos crianças e eu coloquei meus olhos naquelas sardas lindas, eu sinto que o Beto é o homem certo para mim. O homem com quem eu vou me casar…
— Quero ver quando vai contar isso para ele…
— Tenho certeza que ele já sabe.
— Aí Bia! O Beto não quer compromisso sério com ninguém acha mesmo que ele vai se casar com você? Se você quer se casar logo e não ficar pra titia, tem que começar a avaliar outras opções.
— Ai, Celeste, eu sei que devo me casar, mas eu também quero amor. Sabe, eu não quero implorar para ser amada…
— E acha até que o Beto vai te amar, dessa forma que você sonha?
— Eu sei que vai!
— Mas, mesmo assim amiga, que mal tem irmos dançar um pouco, tomar milk shake? Por favor, eu falo para os seus pais que nós vamos estudar. Por favor!
Bia suspirou, talvez sua amiga estivesse certa, afinal ela tinha dezoito anos e Beto nunca havia dado nenhum sinal de interesse em compromisso, nem com ela nem com ninguém. Então, quem sabe, realmente não fosse hora de buscar novas opções e novas experiências.
— Tem razão, minha amiga! Eu vou!
Celeste bateu palmas e gritou em comemoração.
A música advinda de uma máquina jukebox invadia o ambiente, enquanto vários jovens se apossaram da pista de dança ao som do cantor americano mais popular no momento: Elvis Presley.
Bia, particularmente, não se sentia à vontade naquele tipo de ambiente. Não que ela não gostasse da música, pelo contrário, na verdade, a parede de seu quarto era coberta por pôsteres do Rei do Rock e, quando estava sozinha, ela mesma adorava balançar ao som da vitrola que seu pai a havia lhe dado de presente. Mas com tudo na frente de tantas pessoas, era outra história. Afinal, o que iriam dizer?
— Isso aqui está mesmo supimpa! — Celeste já começava a caminhar para o centro da pista.
Bia sorriu, receosa em acompanhá-la, até que seus olhos encontraram um rosto conhecido em meio a tantos. Lá estava ele, com seus cabelos loiros cobertos de céu e suas sardas brilhando em meio ao suor do rosto.
— Celeste, olha só quem está ali!
A garota forçou os olhos e soltou um suspiro de desânimo ao se deparar com a obsessão da amiga.
— Ah, não Bia. Nós viemos aqui justamente para você esquecê-lo. Por favor, me diga que não está pensando…
— Eu preciso! – Bia segurou as mãos da amiga de forma a mostrar seu desespero.
Celeste suspirou mais uma vez derrotada, apesar de não concordar com as atitudes da amiga e de tê-la advertido, precisava apoiá-la, já que a mesma, pelo visto, não iria mudar de ideia.
— Tudo bem, então vai lá dançar com ele.
— O que? Está maluca? Eu sou muito tímida para isso, tenho certeza de que, quando eu chegar perto, vou congelar.
— Bom, nesse caso, acho que tenho algo que pode ajudar… Vem comigo.
Bia arregalou os olhos, intrigada e, ao mesmo tempo, receosa sobre o que aconteceria em seguida.
As duas se encaminharam para a parte de fora do clube que estava deserta. Celeste olhou a volta para ter certeza de que ninguém estava olhando, atitude essa que fez o coração começar a palpitar. Será que a amiga estaria planejando cometer algum crime?
Saciando a curiosidade da amiga, Celeste retirou da bolsa duas garrafas de uma bebida que Bia demorou a reconhecer.
— Nada como alguns copos dessa bebida para te deixar soltinha! É batata!
— Onde você conseguiu isso? — A voz de Bia saiu em forma de sussurro.
— Esqueceu que meu irmão tem uma boate? Às vezes, sem meus pais saberem, ele me dá algumas garrafas. Vamos lá! Você terá coragem de dizer ao seu tão querido Beto tudo que deseja… — Celeste exibe uma das garrafas como um troféu
Bia esticou os dedos trêmulos por alguns segundos antes de recuar.
— Eu não sei… Isso não é atitude de uma dama respeitável, e eu nunca bebi. E se meus pais descobrirem?
— Ai, minha amiga, ninguém vai ficar sabendo… E se você quiser ter uma chance com o Roberto, lembre-se que ele não gosta de garotas tímidas… E então, o que vai ser?
Bia suspirou, enquanto milhares de pensamentos invadiam sua mente. Tudo que ela queria era que Beto a olhasse de outra forma, não como amiga, mas sim como uma mulher, possível namorada e, quem sabe, futura esposa? Contudo, ele só tinha olhos para garotas extrovertidas, que sabiam se divertir, enquanto Bia gaguejava toda hora que ele chegava perto. Quem sabe aquela noite não seria sua chance de provar o contrário? E talvez conseguir o que tanto desejava.
— Me dê logo isso! — Ela ordenou, enquanto tentava convencer a si mesma de que estava fazendo o certo.
Celeste sorriu satisfeita antes de lhe servir um copo.
Bia sentiu que a bebida desceu queimando pela sua garganta, muito diferente dos milk shakes e sucos com os quais estava acostumada. O gosto também não era muito agradável, sua boca ardia como nunca antes. Todavia, ela precisava continuar, assim virou o copo de uma vez e logo em seguida pediu outro.
Depois de algumas doses, ela voltou ao salão e foi direto em direção ao seu alvo. De cara, Roberto percebeu que a menina tímida e certinha para quem nunca havia olhado, estava diferente. Logo, os dois começaram a dançar em perfeita sintonia. Mesmo um pouco tonta devido ao álcool que já havia se apossado de seu cérebro, Bia estava satisfeita.
O casal dançou a noite toda até que, em forma de sussurro, Beto sugeriu que fossem para um lugar mais reservado. Incapaz de resistir, Bia, obviamente, aceitou.
— Não sei como se lembra, estava tão bêbada. — A voz do marido trouxe de volta ao momento presente.
— É, e você, sabendo disso, se aproveitou e me chamou para aquele quarto maldito, sabendo que eu não poderia dizer não. — Acusou.
— Eu já disse que também tinha bebido uns goles a mais, porque antes daquela festa, meus colegas de trabalho e eu dividimos um lote inteiro de cerveja.
— Isso não é desculpa. Nós dois fomos responsáveis pelo que aconteceu em seguida, entre aqueles lençóis.
Na manhã seguinte à noite no clube, Bia acordou com uma enorme dor de cabeça, despida, em um quarto estranho, com Beto dormindo ao seu lado. À sua frente estavam seus pais, em choque. Sua mãe, Clarisse, com lágrimas nos olhos, sem acreditar no que presenciava.
— Minha filha… vocês…? — Em choque ela apontou para o casal.
— Desgrassado! — Juliano elevou o tom de voz, fazendo Beto abrir os olhos.
— Ah? O que aconteceu? — Sua voz saiu sonolenta enquanto tentava se situar.
— O que aconteceu, seu moleque, é que você desonrou a minha filha e agora vai ter que casar!
O casal se encarou, tentando assimilar as palavras que haviam acabado de escutar.
Tudo aconteceu de forma rápida. O noivado foi logo selado, a fim de que a história não vazasse e colocasse em risco a atuação das duas famílias, que eram bem conhecidas na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo as coisas não tendo acontecido da forma que ela sonhou, Bia estava feliz, pois, de uma maneira torta, se casaria com o homem que tanto desejava. Porém ao contrário daquela noite em que Beto se mostrou sedutor e atraído por ela, a partir daquele dia, ele mudou do vinho para a água. Mal lhe diria a palavra, e quando fazia, seu tom era sempre de frieza. Ele mesmo sugeriu que a lua de mel fosse adiada devido ao trabalho, atitude que Bia não questionou, mas que fez seu coração doer. Afinal, mal se lembrava da primeira noite dos dois juntos. Mesmo tendo sido com o homem que amava, não era dessa forma que ela queria ter deixado de ser donzela…
Beto suspirou ao constatar que a esposa tinha razão.
— Tudo bem, Bia. Olha só, eu não estou com tempo nem paciência para discutir isso agora. Eu vou para o trabalho. — Beto se encaminhou para a porta de maneira fria.
A garota de cabelos marrons ondulados deu um longo suspiro. Manter seu casamento estava cada vez mais difícil, pois, enquanto ela seria capaz de segui-lo até a lua ou morrer por ele, o mesmo não movia uma palha para demonstrar carinho, muito menos para manter a chama daquela noite, da qual os dois pouco se lembravam, acesa. Contudo, mesmo apesar das frustrações, Bia não iria desistir, pois tinha uma última cartada. Assim, ela foi até o quarto e, na última gaveta do armário, retirou uma camisola de alcinha amarela. Sua mãe havia explicado que aquele era o que as moças usavam quando estavam somente com o marido no quarto. Amarelo era a cor favorita de Beto, ela havia comprado o item com a ajuda de sua mãe de forma discreta. O guardando cuidadosamente para a lua de mel que nunca aconteceu. Porém, agora ele era sua cartada final para tentar salvar seu casamento e fazer o amor que Beto sentia por ela finalmente acordar. Enquanto seus dedos escorregavam pela seda, Bia tentava controlar a insegurança que crescia em seu peito. Afinal, será que Beto não a queria porque havia algo de errado? Será que ela era o bastante comparada às belas moças com quem ele já havia tido certas intimidades?
A garota passou a tarde se maquiando da maneira mais sexy que conhecia, enrolou os cabelos para que ficassem mais cheios e, lá pelo fim da tarde, vestiu a camisola antes de se sentar no sofá à espera do amado.
Ao escutar a batida da porta, seu coração saltou em seu peito. Beto a fitou de cima a baixo com as testas franzidas, porém, seus olhos, assim como seus lábios, não exibiam qualquer sinal de desejo.
— Surpresa! — Bia exclamou, levantando-se do sofá.
— O que significa isso? — Roberto indagou, cruzando os braços, parecendo mais incomodado do que curioso.
— Ora, como "o que é isso"? Uma surpresa para o meu maridinho, amarelo é sua cor favorita não é?
Bia se aproximou o abraçando antes de sussurrar em seu ouvido:
— Eu pensei em irmos para o quarto só nós dois, para termos uma noite de casal… — Ela encheu o garoto loiro de beijos tentando excitá-lo, mas o jovem não demonstrava qualquer emoção.
— Bia, por favor, hoje eu tive um dia super estressante. Só quero tomar banho e dormir, pode ser? — Sua voz era fria.
E, como um furacão, a tristeza invadia o coração da garota de cabelos castanhos. Tantas rejeições acumuladas a fizeram extravasar naquele momento, em forma de lágrimas.
— Ai, Bia, não é hora de drama… — Roberto reclamou impaciente.
As lágrimas continuaram.
— Drama? Eu passei a tarde inteira arrumando meu cabelo, me maquiando para você, e quando chegou, mal olhou para mim. Eu estou cansada, Beto, cansada de lutar sozinha, sabe? Eu preciso que você me ajude. Porque, pelos menos, eu estou tentando! — argumentou.
— Eu também Bia ou você acha que abrir mão do meu sonho de ser cineasta e aceitar o trabalho na empresa do meu pai foi uma decisão fácil?
— Eu não estou falando disso, eu estou falando de carinho. Poxa, desde que nos casamos você mal tocou em mim. Eu sempre sonhei com um marido amoroso, um casamento feliz e isso não me parece em nada com que eu imaginei. Não aguento mais implorar pelo seu amor. Cansei de tanta frieza. Então, se não começar a me tratar melhor, eu… vou embora. — A última frase saiu como um impulso, óbvio que Bia sabia do peso que era ser uma mulher desquitada naquela época, toda a sociedade a julgaria, mas os olhares tortos seria melhor do que lidar com a rejeição de Roberto, afinal ele era tudo que ela sempre quis, mas não desse jeito…
— Tudo bem. A porta é logo ali. — Foi tudo que o marido afirmou antes de subir.
Bia permitiu que as lágrimas continuassem escorrendo por alguns minutos. Depois, era hora de mudar sua vida, reunindo toda a coragem que lhe restava, ela trocou de roupa e arrumou as malas, deixando apenas o anel de compromisso para trás .
Suas mãos tremeram ao abrir a porta, já que quando pedisse o desquite, seria alvo de desprezo talvez até se sua própria família. Porém, estava pronta, pois agora entendia que sempre havia merecido mais do que implorar por amor.
