Capítulo Único

Tudo começou duas semanas depois da chegada de Kate. Ambos já estavam certificados de que aquilo poderia acontecer, em alguns casos era até normal, mas não estava sendo para Hannah e Joe. A chegada de uma criança pode trazer muitos sentimentos, tanto para o pai quanto para a mãe, e, às vezes, esses sentimentos podem vir com uma carga grande ou uma carga pequena, dependendo da situação. O misto de todas essas sensações novas pode fazer com que alguém adoeça e simplesmente não entenda o porquê de estar acontecendo aquilo tudo, e, sem perceber, pode afetar o circulo familiar.
Hannah começou com uma simples crise de choro. Não entendia o motivo de todo aquele turbilhão de sentimentos. A cada momento de seu dia a vontade de chorar crescia e crescia, até que a mulher não aguentasse mais e colocasse tudo para fora o que estava sentindo. Era como se seu organismo quisesse a todo custo que ela colocasse lágrimas e mais lágrimas para fora, transformando o sentimento estranho dentro de si num choro em que era impossível de se conter.
Joe, por sua vez, acabava ficando sem saber o que fazer. Não entendia nada do que estava acontecendo. Às vezes sua cabeça ficava dividida entre: trabalho, Hannah e a pequena Kate em sua casa. A mulher necessitava de apoio, já que era perceptível que ela se encontrava em um estado emocional no qual um apoio era necessário, mas ele também precisava cuidar de sua filha recém-nascida, que necessitava de uma atenção bem maior em relação aos cuidados. Diante daquilo, Joe arranjava ‘’N’’ maneiras de se colocar a dispor dos trabalhos de casa da forma como podia. Cozinhava, arrumava todos os cômodos e ainda cuidava de sua pequena filha.
Passando-se mais uma semana, outro sintoma veio à tona na vida de Hannah: o sono excessivo. A mulher não saía da cama para nada. Dormia, acordava e voltava a dormir. Essa era praticamente sua rotina. Joe, escorado no batente da porta com a cabeça encostada no mesmo, se perguntava se estava fazendo a coisa certa. Às vezes entrava em conflito consigo mesmo questionando-se o que poderia estar acontecendo.
Hannah não tomava mais banho. Apenas ficava deitada na cama, às vezes dormindo, outrora chorando. Joe, certas vezes, com muito custo, conseguia fazer com que ela se levantasse para que pudesse tomar banho. O marido, agora fazendo o papel materno e paterno, a ajudava a todo custo no que precisava. A despia de suas roupas, a sentava em uma cadeira em baixo do chuveiro e dava banho na mulher abatida, cansada, melancólica.
As noites não estavam sendo fáceis para Joe. Hannah dormia profundamente e Kate também, mas aquilo para ele não era bom. O pai (e marido) agora não conseguia dormir de nenhuma forma. Apenas com a luz da pequena varanda de casa acessa do lado de fora estava ele, sentado em uma cadeira com um cigarro na mão enquanto observava a imensidão da cidade onde moravam sobre a luz da lua. A cada tragada em seu cigarro era um pensamento sobre o que poderia fazer. A cada tragada ele tentava buscar um alívio para o que estava sentindo. Tinha que ser forte. Tinha que aguentar aquilo. Acreditava que era passageiro, que aquilo estava perto de terminar, mas não. Não estava. Por um lado o homem tinha convicção de que era passageiro, mas havia algo em sua cabeça que dizia que era apenas o começo. O começo de quê?
A mulher agora não comia. Não fazia questão de comer. Para Hannah, qualquer coisa que ela colocasse em sua boca lhe dava ânsia de vômito. Vivia a base de água, mas,, mesmo assim, pouca quantidade. Enquanto Joe fazia de tudo para que ela pudesse comer, ela apenas ficava sentada em sua cama, sem ao menos ter vontade nenhuma para fazer algo de produtivo. Apenas queria ficar ali, sozinha, encarando o nada. Era como se seu corpo todo tivesse criado raízes no colchão de onde dormia e fosse impossível cortá-las. Em certos momentos, ela se estressava ao ouvir Kate chorar. Kate sentia fome. Kate tinha necessidades. Kate sentia sono. Kate era apenas um ser humano que acabara de chegar ao mundo e que sentia falta dos cuidados da mãe. Era apenas um bebê carente.
- Eu preciso de ajuda. – Constatou Joe depois de desabafar o que sentia com sua amiga, encarando sua xícara de café.
- E de que ajuda você se refere? – Angelina, amiga de Joe, o encarou de forma paciente, querendo ajudar o amigo.
- Na verdade, não sou eu. É a Hannah. Ela... Ela anda diferente. Depois da chegada da Kate parece que toda alegria que ela tinha em ter um filho foi embora e, por mais que eu tente, isso está começando a me afetar.
- Entendo. – A mulher concordou com a cabeça e passou a mão no ombro do amigo. – Eu sei o que ela está sentindo. Aconteceu com minha irmã, e eu te entendo perfeitamente.
- Você sabe? - A encarou surpreso – Como assim aconteceu com sua irmã?
- Joe, acho que não chegaram a te contar isso, não é? Bom, eu posso te explicar o que eu sei, mas eu preciso que você depois converse e a leve num médico, tudo bem? Muitas mães novas às vezes passam por um período que se chama Baby Blues. Esse período é caracterizado por mudanças no humor, episódios de choro, ansiedade e dificuldade para dormir. Isso pode acontecer dois ou três dias depois do nascimento, podendo durar de uma a duas semanas, mas, quando esse quadro se estende, pode se transformar numa Depressão Pós-Parto. Nós não podemos sair assim falando o diagnóstico sem ter um médico, mas eu PRECISO – Frisou a última palavra, falando-a num tom mais alto com ele – que você não chegue falando isso para Hannah. Diga que vão ao médico para fazer exames de rotina. A leve para sair um pouco, tomar um ar. Eu posso conversar com ela também, se for preciso. – Sorriu a mulher, transmitindo toda confiança para o amigo.
A ajuda de Angel naquele momento veio na melhor hora possível. Com seus conhecimentos e por ter feito parte da vida de alguém que já vivenciou aquilo em questão só o deixava tranquilo. Não estava sozinho e era tudo o que precisava saber. Ao chegar à casa, algo estava diferente. Kate não parava de chorar. Seu choro era alto, forte e ao mesmo tempo em que ouvia a criança chorar, podia ouvir alguém mais chorar. Era Hannah.
- Hannah! HANNAH! – Joe a chamava pelos cantos da casa enquanto Angelina foi de encontro à criança. – Hannah, onde você tá? – O homem, agora desesperado, andava de um lado para o outro nos cômodos na esperança de encontrar sua esposa. Várias coisas se passaram por sua cabeça, fazendo com que seu desespero crescesse.
Ao parar e tentar descobrir de onde vinha o choro, o último lugar no qual a procurou foi no banheiro de seu quarto. A porta estava trancada. As batidas fortes e desesperadas, o homem passava a mão pelos cabelos, nervoso, com medo do que ela poderia ter feito.
- Hannah. Por favor. Abre a porta pra mim. Sou eu. Seu Joe. – Murmurou, agora passando a fala de forma suave para que ela pudesse se sentir melhor, e respirou aliviado quando ouviu a porta sendo destrancada.
Ao abrir a porta, deu de cara com sua mulher, sentada na tampa do vaso com uma expressão assustada. Seus cabelos estavam desarrumados, suas roupas estavam colocadas do jeito errado. Algo havia acontecido, mas ele não sabia o motivo. Aos passos curtos e lentos, ele caminhou até onde ela estava a abraçando de uma forma na qual ela aceitasse. E então ela desabou. Desabou em choro. Ela chorava como uma criança depois de se machucar pela primeira vez. Ou pior. Chorava como dez crianças machucadas. Seu soluço era alto, ecoando pelo banheiro. As lágrimas rolavam uma atrás da outra, fazendo com que o pano da camisa de Joe ficasse cada vez mais molhado, mas ele não ligava.
- Me desculpa. – Hannah murmurava entre os soluços.
- Você não tem nada pelo o que se desculpar. – Joe afagou os cabelos dela de forma suave.
- Eu tentei. Eu tentei fazer algo, mas eu falhei. – Começou a tossir, já que havia se engasgado com a própria saliva. – Eu travei. Eu não consegui fazer nada pra ajudar ela. Eu fiquei travada. Aquilo me encheu, minha cabeça começou a doer, e eu só queria fazer parar.
- Amor... Hannah... Vai ficar tudo bem. – Joe tentou a tranquilizar, beijando sua testa.
- Não... Não vai ficar bem. Você deve estar cansado de mim. Todos estão cansados de mim. – Negou com a cabeça, não querendo acreditar no que o homem a sua frente estava dizendo, e passou a mão pelo rosto. – Minha cabeça dói tanto! QUE INFERNO! – Gritou, voltando a esconder seu rosto no peitoral do homem.
- Vem. Vamos deitar. – Caminhou com a mulher devagar até onde estava a cama, deitando-a ali e deitando ao seu lado, abraçando-a. – Tudo vai ficar bem. – Sussurrou o homem, começando a fazer carinho em seus cabelos para que ela relaxasse e se acalmasse aos poucos. – Tudo vai ficar bem. – Repetiu a última frase com a voz trêmula, permanecendo ali até a mulher cair no sono.
Aquilo havia sido a gota d’água para Joe. Não pensou que chegaria naquele ponto. Estava exausto. Fisicamente. Emocionalmente. Psicologicamente. E sabia que se não fizesse algo o quanto antes, aquilo só iria piorar. Angelina, com a garotinha em seus braços, a ninava tranquilamente. Kate parecia um pedacinho de bolo de tão fofa que era e era impossível não se derreter com as pequenas risadas que a criança dava ao encarar as pessoas.
Depois do ocorrido, Joe estava disposto a ir atrás de um profissional mesmo que fosse difícil, mesmo que ele tivesse que abrir mãos de alguma coisa. Com as malas prontas, tudo da pequena separado, deixou sua filha com a mãe, que o apoiou em toda decisão. Não seria para sempre, apenas enquanto o tratamento de Hannah estivesse no começo. Joe, que sempre foi cético quando o assunto era psicologia e psiquiatria, pela primeira vez estava vendo como tudo funcionava e como tais profissões podiam mudar a vida de uma pessoa. Principalmente de alguém com Depressão Pós-Parto.
Nos primeiros dias não acreditava muito que os remédios nos quais ela estava tomando iriam ajudar, já que a mulher parecia a mesma de antes. Às vezes até cogitava de reclamar com o médico, mas mesmo com esses pensamentos impacientes, sabia que precisava ter calma, já que não estava lidando com algo fácil. A rotina do homem era a mesma de antes. Cuidava de si, da casa e da mulher da forma como podia, sem deixar de faltar nada. A preocupação agora era dez vezes maior com medo de alguma coisa sair do controle novamente.
Aos poucos era notável a diferença em Hannah. A terapia e os remédios estavam realmente fazendo efeito, e aquilo só fazia com que a alegria novamente crescesse dentro do marido. Ela agora já fazia as coisas que antes precisava de auxílio sozinha, como tomar banho, arrumar seu quarto, vestir suas próprias roupas. As refeições que antes não existiam, agora eram feitas regularmente seguindo uma dieta de uma nutricionista. As horas livres eram tomadas por exercícios em uma academia ao lado de casa. Tudo estava sendo melhorado aos poucos.
E, pela primeira vez, Hannah encarou Kate como sua filha, não como uma criança indesejada. Tudo o que ela havia sentido antes, de uma forma ou de outra, a mulher sabia que nunca havia feito aquilo por mal. Depois de saber mais sobre o sentia, soube que estava doente e, agora, dando a volta por cima. Aos poucos estava se livrando daquele fardo que carregou consigo por quase um ano. Agora, já melhor, podia passar todo o tempo perdido junto da filha e de seu amado marido, que não a deixou na mão em nenhum momento, por mais que tudo aquilo tenha sido difícil para ambos, o amor e a união prevaleceram apesar de tudo.


CENA BÔNUS

Rosas e mais rosas, era tudo o que se podia ver no pequeno salão. A festa não era grande, era apenas para amigos e família, mas mesmo assim não foi deixado de ter uma ornamentação digna de um aniversário de um ano. O tema? Princesas. A pequena Kate trajava um vestido rosa bebê, com várias pedras brilhantes, e uma pequena coroa, que não parava em sua cabeça de nenhum jeito, já que a mesma inventava sempre de puxá-la para enfiar em sua boca. A mesa com vários cupcakes enfeitados só deixavam aquilo mais lindo. De um lado piscinas de bolinhas em formato de castelos, crianças correndo de um lado pra o outro, príncipes e princesas interagindo com os mais novos, e de outro, um grande pula-pula, outra mesa com vários doces e outras coisas para comer e beber.
Joe, contra sua própria vontade, usava uma fantasia de rei, e Hannah trajava a roupa de uma rainha. Tudo isso havia sido ideia da mulher, já que para ter sua princesa os dois teriam que ser os reis da festa, e não deixaria aquilo passar. Com uma garrafa de cerveja em mãos, de longe Joe observava a felicidade que Hannah tinha em carregar a criança no colo de um lado para o outro, mostrando para os convidados o quanto ela estava linda. De fato, a criança estava linda, mas a mulher que a segurava estava ainda mais. Em meio aos goles que dava na bebida, sorria sem perceber, encarando a mulher. Ela parecia viva, mais alegre. Ela parecia como realmente era.
- Se você continuar assim, eu vou buscar um babador. – Angelina apareceu em seu lado, brincando com o homem.
- Pode buscar dois então, que hoje eu vou babar, e muito. – Deu uma risada, desviando o olhar para a amiga. – Obrigado. Por ter me ajudado.
- Não precisa me agradecer. – Angelina o abraçou com força – Você é meu amigo. Amigos são para essas coisas. – Deu dois tapinhas em seu ombro e encarou a mulher com ele. – Ela está ótima.
- Ela melhorou bastante. Não pensei que ela melhoraria tão rápido. Agora ela passa mais tempo com ela do que comigo. – Brincou, fazendo um bico, mas logo riu. – Eu sou muito grata por ela estar assim. Pelo relacionamento que as duas construíram desde que ela começou a melhorar.
- Cuidado com os ciúmes, viu? – A mulher riu, bebendo mais cerveja, e indicou com a cabeça para que ele fosse até onde elas estavam. – Vai lá aproveitar a festa.
Hannah o chamava com a mão, indicando que queria tirar uma foto. O homem deixou a garrafa em cima de uma das mesas e foi até onde ela e a filha estavam, parando ao lado das duas e olhando para câmera. DIGAM X falou o fotógrafo, registrando aquele momento de felicidade de ambos. O sorriso no rosto de Joe era enorme e o de Hannah era maior ainda, mas no momento em que olharam para a foto, ficaram mais fascinados ainda. Todos os três estavam sorrindo, demonstrando toda a felicidade que sentiam. A felicidade que sentiam não só agora, mas há algum tempo.

O amor pode mudar tudo. Mesmo que na maioria das vezes todos estejam desacreditados que ele exista.


Fim.



Nota da autora: Sem nota.


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