Postada em: 25/10/2017

Capítulo Único

“I could be more than I gotta be
Stole from me, lied to me, nation hypocrisy
(…)
And when they carve my name inside the concrete
I pray it forever reads”
Kendrick Lamar em Freedom



Sul do Bronx, 1985
Fred tinha toda sua concentração nos traços retorcidos que o spray de tinta fazia no aço velho e sujo do trem que cruzava o bairro durante todo o dia, levando os seus até a área mais nobre de Nova Iorque, em uma peregrinação repetitiva e diária. O jato vermelho preenchia o contorno azul para formar a letra F entre as portas do trem e tudo o que ele ouvia eram os barulhos característicos do spray e o som da épica batalha entre Cold Crush Brothers e The Fantastic Romantic 5, no World Harlem, que saía do pequeno aparelho de som de Tom, seu amigo de infância e companheiro nas missões noturnas de dar um pouco de colorido ao cinza aterrador da cidade.
O garoto ria ao ouvir o chiado dos gritos das pessoas na gravação que ele se orgulhava de ter conseguido de um vendedor suspeito na porta do colégio. Os dois grupos eram lendários e aquela batalha em si, que acontecera em uma noite de março de 1981 para uma multidão apaixonada, era uma das mais importantes do hip-hop até então. Ele ainda não sabia como Grandmaster Caz e seus companheiros não tinham ganhado o prêmio de mil dólares da noite, porque ouvindo aquela fita – como ele já fizera inúmeras vezes –, não tinha como negar que as rimas dos Cold Crush eram violentamente melhores.
– Cara, essa parte é dramática! – Tom riu, sacudindo a lata de spray antes de voltar a contornar a letra T – The Fantastic 5 tinham mesmo muitas fãs lá naquela noite.
– Joe diz que as garotas eram a maioria lá e que esses gritos eram todos delas. – ele secou um pouco do suor na testa antes de continuar a pintar – De qualquer forma, Cold Crush Bros ganham os deles lá com os estranhos do punk e fizeram o maior sucesso.
– Joe contou que foi numa dessas festas, ele fala sério? – Tom perguntou, virando para o amigo, arqueando uma sobrancelha.
Freddie riu ao dar de ombros.
– Você sabe como ele é cheio de histórias. Ele só não inventa que é o maior MC do Bronx porque a gente sabe que as rimas dele são horríveis. – os dois garotos gargalharam juntos – Então não dá pra saber se é verdade ou não.
O som da decisão final da batalha continuou ecoando através do rádio e os dois rapazes mantinham a atenção nisso e na frase que desejavam formar no trem. Foram interrompidos, no entanto, quando sirenes policiais começaram a soar irritantemente nas ruas do bairro. O som repetitivo e alto indicava que o número de viaturas não era pequeno e isso por si só os alarmou. Não era seguro para dois garotos negros estarem nas ruas àquela hora da noite, especialmente quando suas mochilas estavam cheias de latas de spray de tinta. A prefeitura vinha reprimindo violentamente aquele tipo de arte. Quando abaixaram as mãos e se olharam, os dois sabiam que era hora de irem para suas casas.
No mesmo instante ambos guardaram as latas e Tom desligou o aparelho de som, entregando a fita ao amigo, que a jogou dentro da mochila, fechando-a e colocando-a nas costas depois. Com um toque de mão, eles se despediram.
– Vai com cuidado, cara.
– Você também. Te vejo na escola.
Fred acenou e se equilibrou nos trilhos, caminhando na direção oposta do amigo, até a entrada da estação. Pulou habilmente as catracas e subiu pelas escadas rumo às saídas, passando seu corpo magro por entre as grades já retorcidas. Ganhou as ruas ainda movimentadas ouvindo o barulho das sirenes que não eram incomuns em sua vizinhança, mas ele estava tranquilo de que chegaria em casa bem rápido se mantivesse o ritmo, já que estava à oito quarteirões do pequeno prédio de cinco andares, onde morava com a mãe e a irmã mais velha.
Ele resolveu pegar um atalho pela rua lateral no momento em que as viaturas ganharam a avenida em que estava. Por impulso, ele segurou mais firmemente nas alças da mochila e apertou o passo, não querendo cruzar com os policiais. Aos dezesseis anos já havia tido experiências humilhantes o suficiente com revistas e havia o adicional do que levava na mochila. Qualquer mínimo motivo era suficiente para que fosse detido ou espancado e, por Deus, ele não queria dar essa preocupação à sua mãe.
O garoto bufou e apertou os olhos quando ouviu os pneus derraparem na pista, cruzando a mesma rua que ele andava. Alarmado e tenso, Fred aumentou ainda mais a frequência dos passos, rapidamente cruzando a rua paralela à avenida anterior, mais estreita e escura, e continuou o caminho de cruzar os quarteirões até sua casa.
– Suspeito no primeiro trecho da Sedgwick. – o policial que conduzia a viatura avisou pelo rádio – Descrição bate. Negro, cabelo afro e mochila nas costas. Demais viaturas da patrulha, refaçam o caminho pra fechar o trecho.
No noticiário da meia-noite, a âncora anunciava que uma advogada havia sido assassinada após uma tentativa de roubo de carro na Avenida Jerome, no Bronx. Segundo testemunhas que assistiram toda a movimentação da janela de um prédio residencial da área, a vítima reagira ao assalto, gritando por socorro. Os tiros foram disparados segundos depois, matando-a instantaneamente. O suspeito fugira na direção sul do bairro, mas as testemunhas o perderam de vista antes do fim da rua.
Fred apertava os lábios enquanto continuava a andar e chegou a pensar em correr quando a viatura parou ao seu lado e ele ouviu o grito raivoso do policial que abria a porta do carro.
– Parado, garoto! – o barulho da arma engatilhada fez seu coração esmurrar o peito pelo medo – Mochila no chão e mãos pra cima!
Seus dedos apertaram ainda mais as alças e seus olhos se fecharam por um instante, a cabeça fervilhando na tentativa de encontrar uma solução para aquela enrascada. Independente do motivo daquela perseguição policial, ele não escaparia ileso da revista por causa do que levava na mochila. Em uma breve olhada para trás, em um milésimo de segundo, Fred chutou a lata de lixo que estava na calçada na direção do policial e correu em direção à esquina, num ato de puro desespero e medo.
O policial ainda efetuou dois disparos, mas a iluminação ruim e a velocidade do garoto o deixaram longe de acertar a mira. Ele rapidamente entrou no carro e enviou um alerta para as demais viaturas que faziam a busca.
– Assassino encontrado! Peço reforços!
O próximo quarteirão havia sido incendiado na semana passada e Fred rapidamente atravessou a rua em direção aos escombros que ainda estavam sendo retirados. Pulou por cima dos encanamentos expostos, mas não foi capaz de voltar à avenida. O policial que atirara nele já estava atrás e mais dois carros vinham à sua frente. Ele estava cercado.
Pavor e arrependimento tomaram conta de seu corpo. Ele não deveria ter corrido ou deveria ter corrido mais rápido.
As sirenes se tornaram ensurdecedoras e ele tremeu quando mais três viaturas pararam, jogando a luz branca dos faróis em sua direção. Sua mãe e sua irmã surgiram em sua mente e ele implorou a Deus e Nossa Senhora que o tirassem daquela situação. Sua família não tinha recursos para um bom advogado e sua mãe não tinha mais idade para passar por emoções tão fortes. Ele não queria que ela sofresse ao ver o filho vítima do encarceramento predatório americano.
– Mãos pra cima e mochila no chão! – um dos policiais gritou, mas ele não soube ao certo de qual direção – Você está cercado.
Fred assistiu uma van do canal de notícias estacionar de qualquer jeito na rua já fechada e alguns policiais tentarem impedir a aproximação dos repórteres. Aquela atenção da TV o fazia suspeitar de que aquilo não era um simples caso de ronda rotineira. Algo havia acontecido e ele estava servindo de bode expiatório.
– Não sou quem vocês procuram! – ele gritou, reunindo toda a coragem que lhe restava, erguendo as mãos como sinal de que estava desarmado – Sou morador daqui e só estava voltando para casa.
– Mochila no chão e mãos para cima! – um dos policiais voltou a gritar, sem ter qualquer intenção de dialogar com o garoto.
Respirando fundo mais uma vez, Fred lentamente retirou as alças da mochila e as deslizou pelos braços trêmulos, mas ao invés de largá-la no chão imediatamente, ele ainda a segurou em frente ao corpo para abaixar e deixá-la no chão, pensando, de sua maneira confusa e tomada pelo medo, que aquele seria o modo mais cauteloso de se render. Um dos policiais, no entanto, entendeu errado.
– Ele vai retirar a arma da mochila!
E a permissão para atirar veio do rádio transmissor.
Na rua escura, onde a fiação elétrica havia sido completamente comprometida pelo incêndio anterior, os feixes de luz dos disparos das armas de fogo foram vistos e Fred sequer teve tempo de se jogar contra o chão. Alguns policiais se aproximaram atirando enquanto outros tentavam impedir a aproximação da equipe de reportagem, que recebeu a informação de que o acusado havia atirado primeiro e que o barulho era de uma troca de tiros, não de uma tentativa sumária de execução.
Em casa, Elaine terminava de dobrar as roupas enquanto olhava o relógio mais uma vez, começando a ficar preocupada com Fred. Ela estava carregando a cesta com as roupas para o quarto da filha quando socos fortes esmurraram a porta, fazendo-a se sobressaltar. Katherine imediatamente saiu do quarto, alarmada, e parou ao lado da porta.
– Quem é?
– Kathy, é o Joe!
Um pouco mais aliviada, mas ainda tensa, ela abriu para o amigo da família, que parecia pálido como nunca.
– Joe, o que houve, querido? – Elaine apareceu pelo corredor, sentiu um frio na espinha ao ver o olhar de pena e desespero do rapaz.
– Freddie foi baleado em uma perseguição policial. No canal de notícias dizem que ele está sendo levado para o Hospital Central.
A mulher de meia idade largou a cesta antes que Joe pudesse terminar a primeira frase, cambaleando para o lado e precisando ser aparada pela filha, que correu em sua direção.
As duas mulheres chegaram ao hospital público acompanhadas de Joe e correram em direção à ambulância que estacionava na entrada de emergências. Quando as portas traseiras se abriram, Elaine imediatamente reconheceu o filho e tentou se aproximar, sendo rudemente impedida por um policial.
– Ele é meu filho! – seu grito estrangulado fez o homem branco de nariz empinado se afastar – Freddie! Freddie, meu filho!
Suas mãos imediatamente seguraram a barra de ferro da maca e ela percorreu todo o corpo dele com os olhos, querendo retirar o pano manchado de sangue que o envolvia para ver como ele estava. Suas bochechas estavam muito pálidas e seus lábios estavam quase brancos, mas seus olhos permaneciam abertos, mesmo que quase se fechando.
– Mama... – a voz pareceu tão fraca que se não estivesse suficientemente perto, Elaine não ouviria, especialmente porque a equipe médica começou a se movimentar e movimentar a maca rapidamente em direção à entrada do hospital.
– Não diga nada, meu filho! Mama está aqui com você! Eu não vou deixar você!
– Não chore, mama...
Katherine correu ao lado da mãe, chorando tão vigorosamente quanto a mais velha. Por anos seus pais criaram os dois longe das agitações das ruas, com medo de que coisas como aquela acontecessem com algum dos dois, mas mesmo que não quisesse ver ela sabia que no mundo em que vivia não havia como se esconder da máquina que insistia em esmagar os seus todos os dias.
– Cante e viva por mim, mama...
Elaine balançou a cabeça repetidamente, enquanto seguia a maca pelo corredor lotado.
– Não deixem acabar aqui. Continue respirando por mim, mama... – seus lábios se repuxaram em uma tentativa de sorriso, mas ele não conseguia coordenar suas ações, já que a dor lancinante o tomava por completo – Não deixem que eles roubem e mintam pra você também, Kathy. – ele virou o olhar para a irmã, sentindo a dificuldade para falar aumentar – E digam ao Tom... – ele tossiu um pouco e sangue começou a manchar seus lábios, fazendo as duas se desesperarem ainda mais – Que ele não deixe meu nome se apagar...
As portas do bloco cirúrgico foram abertas e os médicos imediatamente anunciaram que elas não podiam passar dali. Elaine e Katherine aproximaram-se do rosto de Fred uma última vez antes que ele fosse levado.
– Eu vou esperar você aqui, Freddie. Você vai voltar pra mim, meu filho.
– Power to the people, não é? – Kathy tentou sorrir, secando as lágrimas da bochecha.
– Freedom to the people, Kathy.
O garoto foi levado para a sala de cirurgia, mas depois de quatro horas para a retirada de duas balas alojadas no tórax, dentre as três que o atingiram, ele não resistiu. No chão frio do hospital, Elaine chorou aos pés da filha, acalentada por Joe.
Os policiais não encontraram nada com Fred além de três ladas de tinta, fitas e um caderno de desenhos. A tentativa de plantar provas foram impedidas pela chegada de mais equipes de reportagens e de curiosos. O exame toxicológico deu negativo. O teste de pólvora deu negativo.
Freddie se foi sem saber o que eles tanto queriam dele. Por que, Deus? Por que quando ele ainda poderia ser muito mais do que era?
Ele só queria que Deus o ouvisse.

"Porque a máquina vai tratar de nos triturar de qualquer maneira, tenhamos falado ou não. Podemos nos sentar num canto e emudecer para sempre enquanto nossas irmãs e nossas iguais são desprezadas, enquanto nossos filhos são deformados e destruídos, enquanto nossa terra está sendo envenenada, podemos ficar quietas em nossos cantos seguros, caladas como se engarrafadas, e ainda assim seguiremos tendo medo."
Audre Lorde em Sister Outsider (1984)



Como um último adeus, Katherine leu mais uma vez o nome completo do irmão na lápide de pedra. Doía tanto em seu peito ver ali, cravado sobre o concreto, como ele havia tido tão pouco tempo. Ela sabia que o seu mundo não era um lugar bom de viver, mas Fred havia encontrado sua própria forma de suportar e de subverter a ordem injusta das coisas. Ele era mais novo, mas ainda assim havia sido muito mais corajoso do que ela, que se escondia nos livros para não encarar a realidade de sua comunidade e de seus iguais.
Katherine cursava Literatura em Fordham, com uma bolsa integral graças a seu currículo impecável e seus feitos no jornal escolar. Apesar de seu pai, Steve, ter sido ativista religioso na época do auge do Partido dos Panteras Negras, ele havia criado seus filhos longe da efervescência das ruas, especialmente porque ele sabia que o combate era perigoso e árduo. Por isso ele e Elaine se empenharam em proporcionar a melhor educação possível para os dois e fazê-los serem a própria resistência ao ocuparem espaços que antes não eram permitidos para afro-americanos.
Steve havia os deixado há três anos, por conta de um problema no coração, mas tanto Kathy como Fred ainda o conservavam como seu herói favorito.
Elaine e Katherine costumavam se preocupar com o entrosamento de Fred entre os grupos artísticos do bairro, mas ele sempre dizia que o pai o apoiaria e acharia que ele estava no caminho certo. Apesar de não concordar na frente dele, ela sabia que era verdade, que o pai ficaria orgulhoso por ele estar fazendo algo de concreto, coisa que ela achava que não fazia.
Depois de deixar a mãe descansando no quarto, Kathy saiu do apartamento e subiu os três lances de escada restantes até o terraço. A noite caía lenta e fria para um início de verão escaldante, e ela precisou puxar as mangas da blusa de lã preta que vestia ao sentir o vento no momento em que empurrou a porta de ferro. À sua frente o sol sumia no horizonte para além dos trilhos do trem.
– Você disse que me traria aqui em algumas semanas para me mostrar algo. – ela falou, olhando para o céu e abraçando a si mesma – Dei seu recado ao Tom – ela começou a chorar ao lembrar as últimas palavras do irmão –, e ele me disse que vai fazer mais do que não deixar sua assinatura no trem se apagar com o tempo.
Kathy caminhou até o limite do terraço e apoiou os braços nos tijolos velhos e avermelhados, ainda apertando as mãos nos braços. As lágrimas corriam livremente pelo seu rosto e seus cabelos crespos bagunçavam ainda mais com o vento, mas ela não se moveu dali.
– Ele tem uma surpresa pra você e disse que vai honrar o grande amigo que você foi. – seus soluços se tornaram ainda mais audíveis e ela pôs uma das mãos sobre a boca, em uma tentativa falha de controlar o choro estrangulado de dor e saudade – Será que posso ser mais como você? Será se consigo ser corajosa como você foi?
Naquele instante o trem cruzou os trilhos e Kathy pôde ler a frase pintada em contorno azul, mas com o preenchimento vermelho ainda inacabado. Freedom to the people. E ela entendeu o recado.

[...]


Katherine achava que havia chegado a hora em que ela não poderia mais ignorar o que acontecia ao seu redor e o livro que lia no ônibus, em seu caminho de volta para casa, caía como uma luva naquele momento de redescoberta e luta pessoal.
Audre Lorde, escritora, mulher negra lésbica e ativista dos direitos civis, contava como a experiência de tão proximidade da morte a fez repensar seus silêncios e suas ações. O contexto era completamente diferente, mas Kathy achava que aquele texto, falado originalmente em uma conferência sobre Lesbianidade e Literatura, em 1977, conversava com ela muito intimamente.
Lorde dizia que de todas as suas ações, o que mais lhe trazia arrependimentos eram seus silêncios. Os silêncios não podiam a proteger porque eles não traziam mudança alguma. Era preciso, mais do que tudo, romper os silêncios e transformá-los em linguagem e ação.
Kathy sabia que havia muito para falar. Tantas pessoas que precisavam ser ouvidas e, por Deus, como ela também se arrependia de seus silêncios, de suas omissões. Não queria mais andar com uma venda nos olhos e se a vida era tão dura com ela e os seus, então ela faria como Freddie e encontraria seus próprios meios de resistir e lutar.
Quando desceu do ônibus ainda precisava caminhar por um quarteirão até chegar em casa, mas a igreja e o burburinho de vozes lá dentro a fizeram parar. Apertando os livros nos braços, ela girou o corpo em direção à entrada e seus passos hesitantes a levaram para dentro, para onde as pessoas conhecidas debatiam calorosamente. Joe logo a avistou e sorriu para ela, se aproximando.
– Estou feliz que você veio. – Kathy sorriu pequeno e se deixou ser guiada pelo amigo – Seu pai e Freddie ficariam orgulhosos.
Direcionou a ele um sorriso saudoso e se sentou nos bancos mais próximos do altar, onde os seus vizinhos e conhecidos estavam reunidos.
– Digamos que você está preso em um quarto, sem luz, sem água, sem comida. E nesse mesmo quarto existem dez portas. Você desesperadamente tenta abri-las, uma por uma. – Sylvia, uma admirável senhora de meia idade, que morava no conjunto em frente ao de Kathy, discursava – A frustração toma seu corpo porque todas estão trancadas. Menos duas. – ela continua, olhando para os mais jovens à sua frente.
“Você abre as duas portas, mas nenhuma delas mostra um caminho muito promissor. Parecem igualmente sem luz, você pode ouvir gritos de desespero vindo de uma delas, e a outra tem o caminho coberto por uma neblina que não te deixa ver nada adiante. Você sente medo, não parecem bons caminhos. Mas o que você pode fazer? Se você permanecer na sala vai morrer em pouco tempo.”
Sylvia andou em frente ao altar, direcionando seu olhar para todos os pares de olhos jovens e curiosos que lhe encaravam da primeira fila.
– O problema é que para algumas pessoas todas as portas estão abertas. – ela continuou – Elas podem escolher o melhor caminho. Enquanto que para nós restam as portas com caminhos duvidosos. E o que você precisa fazer? Escolher uma porta para sobreviver. Mesmo que isso signifique morrer pelo caminho.
Aquela metáfora atingiu Katherine como um soco e ela permaneceu introspectiva até o debate começar.
– Eles acabaram com os programas sociais e estão deixando a gente queimar aqui enquanto colocam os porcos de farda pra patrulharem nossas ruas! – Jamal, pai de Joe, falava – Elaine precisa de nós nesse momento difícil! A comunidade precisa de nós! Eles não vão nos ajudar!
– As portas da igreja estão abertas. Vamos voltar a circular os jornais informativos e recrutar os mais novos para os trabalhos voluntários. – o pastor continuou o raciocínio.
– Joe pode recrutar os voluntários. – Sylvia tomou a palavra – Precisamos de alguém para escrever. Alguém se habilita?
De longe, Joe olhou para Katherine, e a jovem sentiu o coração acelerar um pouco, entre a ansiedade e o medo. Ela sabia que quando se envolvesse, não haveria volta. Ainda assim, pensando nos dois homens mais importantes de sua vida, ela ergueu a mão direita, decidida.
– Eu posso escrever.
Todos olharam em sua direção, alguns surpresos, outros orgulhosos, mas em alguns olhares ela ainda podia ver o pesar pela sua perda recente.
– Katherine! – Sylvia exclamou, sorrindo – Querida, você é a melhor pessoa para isso. Obrigada por querer ajudar.
Sorrindo brevemente, Kathy acenou com a cabeça e assistiu, em silêncio, a reunião continuar. No final, Sylvia a chamou para um conversa e a abraçou longa e fortemente.
– Fico muito feliz de vê-la aqui, Kathy. – ela segurou suas mãos quando ambas estavam sentadas uma de frente para a outra, nos primeiros bancos da igreja – Seu pai, Jamal e eu nos reunimos aqui por muitos anos. Patrulhávamos esse bairro muito antes de termos a sua idade. – ela suspirou – Não existe outro caminho para nós senão esse, querida.
– Acho que ignorei essa verdade por muito tempo, Sylvia. – Katherine sorriu, envergonhada – Posso estar na universidade, mas não sei muito sobre as coisas – ela abaixou a cabeça, encarando suas mãos unidas às da mais velha –, mas estou disposta a aprender com vocês.
Sylvia riu e afagou seus cabelos armados.
– O que você precisa aprender quando você já vive? – disse experiente – Os sistemas de dominação nessa sociedade não estão nomeados, é verdade, mas se eu disser a você o que é ser oprimido, você saberá do que estou falando porque você é como eu.
A mulher mais velha olhou para seu colo e puxou um dos livros que ela levava, dessa vez de Bell Hooks. Olhou para a capa e o folheou brevemente antes de continuar.
– A mulher que escreveu esse livro – ela olhou novamente para a capa que o nomeava: “Feminist theory: from margin to center” – diz que ser oprimida é ausência de opções. E você sabe o que é isso tanto quanto eu. Você não precisa estar aqui, ou ter estado nas ruas como Fred estava, para saber isso porque você vive isso na pele.
Katherine suspirou e pensou em todas as dificuldades que passara, em todo o tormento de seus primeiros meses na universidade. Os professores, os alunos, a instituição em si. Ela havia chegado até ali com o dobro ou o triplo de esforço que a maioria de seus colegas de classe, então, refletindo, Sylvia tinha toda a razão.
– Eu sei como você se sente, Kathy. Sei como Elaine se sente. – ela apertou ainda mais suas mãos – Essa raiva, essa dor e toda essa circunstância social que nos ronda – ela sorriu – vão formar sua consciência de luta. E é só assim que construímos nossa liberdade.
Durante toda a volta para casa e durante toda a noite, Katherine sentia os ecos das palavras de Sylvia. Ainda pensando nelas, a jovem subiu as escadas novamente até o terraço. Suas visitas até lá vinham se tornando frequentes, principalmente porque dali ela poderia ver o trem e o progresso do trabalho de Tom e dos outros amigos de Fred.
Naquela noite, quando o trem passou, ela pôde ver a última frase de seu irmão completamente pintada sobre o aço. Freedom to the people. Sorriu.
As lágrimas vieram quando os vagões avançaram e ela pôde ver a surpresa de Tom. Peace to Freedie and all the world.
Colocou as mãos no peito e deixou que a dor viesse, mas fez uma promessa a si mesma: Ela buscaria sua liberdade e a liberdade de seus irmãos e irmãs. Ela não recuaria, não desistiria. Ela forjaria sua nova eu em luta e resistência. Por Freddie. Por si mesma. E por todos os seus iguais.


Fim!



Nota da autora: Escrever essa estória foi um desafio. Essa já era a minha música favorita do álbum antes mesmo de eu ouvir, porque ela conta com a participação do meu rapper favorito e foi inspirada nos versos dele que eu comecei.
Pra além das metáforas, Freedom é pra mim sobre um despertar para uma luta pela liberdade e não consegui pensar em um cenário melhor que o South Bronx da década de 70/80. Não resisti em inserir as referências ao hip-hop da época e às escritoras feministas que me inspiram ainda hoje.
Ainda assim, essa fic foi escrita por uma mulher branca, então essa foi a profundidade que me coube.
Espero que tenham gostado e tenha feito jus a musica!
Obrigada por lerem e aproveitem as outras fanfics inspiradas nesse álbum incrível!
xx
Thainá M.



Outras Fanfics:

02. We All Roll Along (Ficstape #057 – The Maine: Can’t Stop Won’t Stop)
03. Drunk In Love (Ficstape #020 – Beyoncé: Beyoncé)
07. No Promisses (Ficstape#043 – Shawn Mendes: Illuminate)
08. Emily (Ficstape #51 – Catfish And The Bottlemen: The Ride)
09. Long Way Home (Ficstape #030 – 5 Seconds Of Summer)
10. Sorry (Ficstape #034 – Jonas Brothers: A Little Bit Longer)
11. Outside (Ficstape #51 – Catfish And The Bottlemen: The Ride)
12. Don’t Stop Me Now (Ficstape #011– McFly: Memory Lane)
12. Foreigner’s God (Ficstape #033 – Hozier)
14. You & I (Ficstape #023 – John Legend: Love In The Future)
Amor em Irlandês (Especial Equinócio de Setembro)
Beside You (5SOS/Shortfics)
Calling in Love (BTS/Shortfics)
Can You Feel It? (Outros/Shortfics)
Date Night (EXO/Restritas/Shortfics)
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Love Me Love Me (Winner/EmAndamento)
Love Affair (One Direction/EmAndamento)
Mixtape: Listen To Your Heart (Awesome Mix: Volume 1: “80/90’s”)
Thankful (Especial Extraordinário)



Nota da beta: Meu Deus, Thainá, tu com certeza fez jus a música. Que história maravilhosa! Eu chorei quase de começo ao fim. É uma daquelas histórias que tu lê e fala “senti o impacto”. Maravilhosa! Meus parabéns, amore, tu arrasou. Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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