10. Hey Girl

Fanfic Finalizada: 02/02/2018

Capítulo único

Diferente do que a maior parte das pessoas costuma achar, é complicado para o goleiro de um dos maiores clubes do país curtir noitadas, ainda mais quando se é também o goleiro da seleção. Existem regras a serem cumpridas e nunca havia sido dos que se arriscam a quebrá-las para só depois descobrir o que acontece, mas ele precisava admitir que sentia falta de passar a noite de sábado em um bar lotado de corpos suados, com bebidas em abundância e uma banda qualquer tocando algo que o álcool em seu organismo tornava incompreensível. Preferia mil vezes estar ali do que em qualquer evento de gala, o que já era sua realidade há alguns anos, mais precisamente desde quando assinara seu primeiro contrato como um jogador de futebol profissional.
Quando adentrou um dos bares que mais costumava frequentar no início de sua vida adulta, quase se sentiu um peixe fora d’água; entretanto, estando na companhia de seus amigos de longa data, ele precisou apenas de algumas garrafas de cerveja para encontrar o que há muito havia deixado para trás. Apesar de saberem muito bem quem ele era, ninguém ali se importava o suficiente com futebol para ir abordá-lo, e isso fez com que voltasse a se sentir como uma pessoa comum. Mesmo que fosse durar apenas por aquela noite, ele estava adorando.
- Cara, eu estou tão bêbado que estou vendo dois de você - Jack disse para , rindo abobadamente, e não se privou a dar mais uma golada generosa na bebida que segurava. - Acho melhor a gente ir embora.
- Finalmente o Jack deu uma boa ideia, uh? - Gary implicou e recebeu o dedo médio do amigo estendido no ar como resposta, o que o fez gargalhar. - Já deu por hoje. Acho que não tenho mais pique pra essas coisas.
- Eu até ficaria mais um pouco, mas prometi pra que voltaria cedo. Temos uma reunião com a cerimonialista amanhã de manhã pra decidir os últimos detalhes do casamento - explicou, deixando o copo vazio em cima da mesa.
- Você nem se casou e já é pau mandado, hein? - Gary debochou.
- Se eu namorasse a , também faria tudo que ela me mandasse fazer - Jack disse em um tom de voz que transbordava malícia e soltou um risinho safado. - Ô, se faria…
- Cala a boca, seu idiota - rebateu fingindo uma irritação maior do que a que realmente sentia e deu um soquinho no ombro do outro.
Não gostava que os amigos falassem daquele jeito de sua noiva, mas sabia que, no fundo, não passava de brincadeira. Se fosse o contrário e algum deles namorasse uma das integrantes gostosas da girlband famosa mundialmente, ele também não se furtaria a fazer piadinhas como aquela.
- Cadê o Steve? - questionou Gary, olhando de um lado para o outro, procurando pelo único dos quatro que estava disposto a só ir embora quando tivesse uma companhia para a madrugada.
- Vão procurar ele enquanto eu pago a conta - anunciou, sacando a carteira do bolso interno da jaqueta.
- Deixem o Steve pra lá - Jack falou, abanando o ar. - A última vez que o vi, ele estava se atracando com uma morena maravilhosa ali no canto. Ele é solteiro, tem que aproveitar mesmo.
e Gary se entreolharam, rindo.
- Eu já volto - disse e foi em direção ao balcão para acertar as pendências financeiras que ele e os amigos tinham com o bar depois de algumas horas muito bem aproveitadas.
Depois de pagar tudo o que devia e autografar um guardanapo para o garoto que o atendeu, ele deu meia volta e avistou Jack e Gary, que já o esperavam na metade do caminho até a porta. Conforme se aproximava dos dois, notou que eles debatiam sobre algo que observavam do outro lado do bar.
- O que os dois fofoqueiros tanto olham? Posso saber?
- Cara, aquela não é a ? - Jack falou e percorreu os olhos pela multidão, rumo à direção que o dedo dele apontava.
não precisou mais do que meio segundo para reconhecer o sorriso que tantas vezes o fizera sorrir junto. A mulher conversava animadamente com um grupo de amigos e, mesmo em meio à música e ao falatório que preenchiam o bar, quase podia escutar a gargalhada que estava gravada em sua mente e que ele acreditava ser impossível de esquecer. Ela não estava muito diferente da última vez que havia a visto, alguns meses antes, tirando as pontas do cabelo que anteriormente estavam tingidas de um verde bastante chamativo e agora estavam roxas.
Como se tivesse escutado os pensamentos de , virou a cabeça e seu sorriso não morreu quando ela reconheceu os três homens que a encaravam. Muito pelo contrário, o sorriso se alargou ainda mais. Ela arrastou a cadeira em que estava sentada para trás, pedindo licença para os amigos, e se levantou.
- Ela tá vindo pra cá - Jack anunciou o óbvio.
- Encontro vocês lá fora - falou, indicando a entrada do bar com a cabeça.
- Ah, cara, fala sério - Gary disse, soando aborrecido. - Estou morto, não vou esperar você bater papo com a ex-namoradinha.
- Podem ir embora, então. A gente se fala - o goleiro rebateu, impaciente por ter perdido de vista quando ela desviava das pessoas que lotavam o bar.
- Você vai se casar em duas semanas, . Vamos embora - o outro insistiu e o tom de alerta era evidente em sua voz.
fitou o amigo em silêncio, sem demonstrar concordar ou não com o que ele havia dito, e apenas deu as costas. Gary rolou os olhos diante daquela atitude e deu meia volta para deixar o bar, acompanhado por Jack, que preferiu não se envolver naquela história.
estava mais próxima quando a avistou novamente e ele apenas a observou caminhar graciosamente em seu vestido preto. As alças finas e fendas do vestido deixavam as tatuagens que ela tinha nos braços e pernas à mostra, tornando o visual bastante despojado, apesar de simples.
- Pensei que não te veria mais por essas bandas - disse e, conforme admirava o goleiro de cima a baixo, deixou um sorriso brincar em seus lábios -, .
- Não posso mais visitar o bairro onde morei minha vida inteira? - ele retrucou com diversão.
o observou cruzar os braços em uma intenção de parecer intimidador e não se importou em disfarçar quão deliciosa achou a visão dos braços fortes dele espremidos dentro da jaqueta de couro que ele vestia.
- Claro que não, só pensei que você tivesse coisas melhores pra fazer. Um show do Wonderland, talvez? - ela provocou. riu pelo nariz, balançando a cabeça de um lado para o outro. Sentiu certo desconforto ao ouvir a girlband de sua noiva sendo citada por em tom de ironia. - Não precisa ficar com essa cara, estou só brincando.
- Eu sei que está - rebateu, dando de ombros.
- A gente podia sair daqui. O que você acha? - a mulher questionou e mordeu o lábio inferior levemente, ação que não passou despercebida pelo goleiro.
se pegou ponderando o convite, havia saído de casa com a pretensão de se divertir com os amigos como nos velhos tempos e, apesar de saber que corria tal risco, não esperava encontrar a mulher que costumava tirar seu sono quando ambos eram mais jovens e se divertiam sem preocupações. As coisas estavam diferentes agora, ele tinha uma noiva e não podia mais se deixar levar por aqueles olhos verdes que o fitavam com tanto fervor. Foi exatamente por isso que, no final do ano anterior, ele havia cortado qualquer tipo de relação com . Não podia mais trair , ela não merecia aquilo.
Mas por que a possibilidade de ficarem a sós parecia tão atrativa?
- Me espera por dois minutos? Preciso ir ao banheiro - falou de uma vez, pois sabia que, se parasse para pensar duas vezes, acabaria se arrependendo depois.
- Estarei te esperando aqui.
O sorriso satisfeito de foi a última coisa que viu antes de caminhar apressado para um canto menos tumultuado do bar e sacar o celular do bolso traseiro da calça. Suspirou ao se deparar com três ligações perdidas de e, em seguida, iniciou a chamada. Colocou o aparelho no ouvido e, quatro toques depois, fechou os olhos quando escutou a voz doce que sempre o fazia sentir-se quente por dentro.
- , onde você está?

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bufou quando a ligação caiu na caixa postal pela terceira vez. Desistiu de tentar falar com , sabia que ele estava em um bar com os amigos da adolescência e provavelmente não estava ouvindo o celular tocar. O jeito seria esperá-lo retornar a ligação. Ela também não queria estragar sua noite com algo que ele nem tinha o poder de solucionar.
Depois de jogar o celular de volta na bolsa, ela voltou para a sala de espera do hospital e sentou-se no mesmo assento no qual estava sentada anteriormente. Sentiu um braço passar por seus ombros e pendeu a cabeça até encostá-la no ombro do homem que a colocou no mundo, se aconchegando junto a ele.
- Não conseguiu falar com o ? - a voz grave questionou.
- Não, mas não tem problema. Daqui a pouco ele me liga de volta - respondeu mais para confortar a si mesma do que qualquer outra coisa. Após soltar um longo suspiro, questionou: - Pai, você acha que o vovô vai ficar bem?
- O coração dele é forte, não vai ser um infarto que vai derrubá-lo - o homem disse, se utilizando do bom humor para mascarar sua própria incerteza.
- Se for necessário transferi-lo pra um hospital melhor, eu posso pagar. Você sabe disso, né? - disse e desencostou-se do pai, mantendo-se ereta na cadeira para poder fitá-lo.
- Claro, filha. Se for realmente preciso, você ficará sabendo - ele concordou. Mesmo que não gostasse de pedir ajuda financeira para a filha, jamais deixaria seu orgulho falar mais alto em uma situação como aquela.
meneou a cabeça positivamente e esboçou um sorriso fraco. Quando se recostou no encosto da cadeira, seus olhos pousaram no outro lado da sala de espera, onde estavam seu tio, suas duas tias e sua avó, que estava sentada de braços cruzados e uma seriedade nada comum no rosto. A cantora sequer conseguia imaginar o que se passava na cabeça dela, não devia estar sendo fácil ver o homem com quem havia construído uma vida passar por uma situação delicada como aquela. Ela admirava o casamento dos avós, que, mesmo depois de passarem por tantos problemas juntos, ainda se amavam tanto. E esperava que aquela fosse ser apenas mais uma dificuldade que seria superada e narrada na ceia de Natal pelos dois com bom humor dentre outras tantas.
Ela se levantou e caminhou até estar em frente à avó, onde se agachou e segurou as mãos enrugadas da mais velha.
- Você tá bem, vó? Quer alguma coisa? - questionou atenciosamente.
- Não, querida - a outra respondeu, apertando as mãos da neta, e sorriu docemente. - Estou bem. Obrigada.
- Vai dar tudo certo - a cantora rebateu ao sentir a necessidade de mostrar para avó que ela não estava sozinha.
Vendo o sorriso da neta diante de si, a Sra. finalmente deixou cair algumas lágrimas que ela tentava evitar que caíssem desde que viu o marido esparramado no chão da sala de estar e pensou que o pior de seus pesadelos estava prestes a acontecer. Ela não sabia o que seria de sua vida sem ele, mas, definitivamente, não estaria sozinha caso o pior acontecesse.
- , o está ligando.
A cantora entortou o pescoço e viu o pai com o seu celular em mãos.
- Não fica assim, vó. Vai dar tudo certo. Eu já volto - disse, voltando-se para a avó novamente, e beijou as mãos dela antes de se levantar e dar alguns passos apressados até o pai.
aceitou a ligação conforme se afastava para um corredor vazio, onde poderia falar com o noivo com mais privacidade e contar o que estava acontecendo.
- , onde você está? - ela disse ao colocar o celular no ouvido.
Era possível escutar a música misturada a diversas vozes ao fundo, mas estranhou ao não obter uma resposta de .
- Alô?
- Oi, sou eu. Como você tá, amor? - a voz dele finalmente saiu pelo aparelho, se sobressaindo em meio à confusão do bar. - Escuta. Eu vou chegar tarde hoje, então não fique acordada me esperando, ok?
- Calma, . Eu preciso falar com você.
- Você pode repetir? Tá uma confusão aqui.
- Alô? ? - disse, começando a se sentir aflita por não conseguir conversar com o noivo.
- Me desculpa, amor, eu não estou entendendo. Caso esteja me ouvindo, estamos indo num lugar aqui perto e vamos dormir na casa do Jack, ok?
- , espera! - ela exclamou antes mesmo que ele tivesse terminado de falar.
- Minha bateria tá acabando, mas pode ficar tranquila. Amanhã estarei em casa bem cedo. Te amo.
Quando a ligação foi finalizada, ficou alguns segundos encarando a tela do celular, sentindo o vazio em seu peito crescer cada vez mais. Ela não queria atrapalhar a diversão do noivo, sabia mais do que ninguém como era difícil ele conseguir se reunir com os amigos, mas precisava dele ali junto de si para abraçá-la e proferir algumas palavras de conforto. Tudo sempre parecia mais fácil quando estava por perto.

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As unhas curtas e pintadas com um esmalte preto deslizavam suavemente pelo peito nu e definido. As pernas estavam entrelaçadas e as respirações ofegantes. O quarto estava silencioso e escuro, a única luz era a que adentrava pela janela, vinda dos postes da rua e, também, da lua.
O corpo de deitado junto ao seu fazia se perder em pensamentos e voltar no tempo, quando ele não tinha as responsabilidades de um dos melhores goleiros do mundo e era apenas um garoto cheio de sonhos.
ainda se lembrava da primeira vez que pousou os olhos em . Ele era novo no colégio, estava iniciando o Ensino Médio, e ela já estava no último ano. No recreio, ainda sem conhecer ninguém, estava caminhando pelo jardim quando a viu sentada sob uma árvore. Estava imersa em seu próprio mundo com fones de ouvido e uma de suas bandas favoritas tocando no iPod. Ele se pegou a admirando de longe até o sinal anunciar o fim do horário de intervalo e, no caminho de volta para a sala de aula, prometeu para si mesmo que iria puxar papo com aquela garota no dia seguinte.
E cumpriu a promessa.
costumava andar sozinha na escola, tinha sua própria turma fora dali, outros adolescentes que gostavam das mesmas coisas que ela: ouvir rock e andar de skate. De início, achou engraçado aquele novato tentando chamar sua atenção, mas acabou cedendo e se dando a oportunidade de conhecer alguém diferente. E , de fato, era bem diferente com todo seu fanatismo por futebol e sonho de ser goleiro. Futebol era tão entediante, na opinião de , e era bastante divertido zombar da cara de pelo mau gosto.
Depois de algumas semanas passando todos os recreios juntos, convidou para sair com ela e seus amigos numa sexta-feira. Naquela noite, tomou o primeiro porre de sua vida. Em meio à confusão de recordações que tinha, lembrava-se de dividir um baseado com uma das amigas de e, algum tempo depois, estar aos beijos com essa mesma garota. Quando estava animado para ir para um local mais reservado, entretanto, precisou colocar para fora tudo o que tinha bebido e comido no chão da praça onde eles estavam. Depois disso, só se lembrava de acordar em seu quarto no dia seguinte, fedendo a álcool e vômito.
Na segunda-feira, teve que encarar o péssimo humor de , que, mesmo depois de ele tentar de tudo para fazê-la rir, continuou dando respostas ácidas. Quando a aula acabou e ele tentou segui-la no caminho para casa, a garota berrou no meio da rua, chamando a atenção de todos que passavam:
- Me erra, ! Eu fiquei a noite toda te dando mole e você foi se atracar com a Ashley. Vai se foder!
ficou paralisado, jamais imaginou que pudesse ter se chateado por ele ter ficado com Ashley. Na verdade, se interessar justo por ele, que era tão sem graça, parecia algo impossível. De qualquer forma, meio minuto depois se viu correndo e segurando a garota pelo braço para virá-la em sua direção e beijá-la como se não houvesse amanhã.
Aquela foi a primeira vez que sentiu as tão famosas borboletas no estômago e sentiu-se um boiola por isso.
Eles continuaram ficando frequentemente depois disso, mesmo depois que se formou e começou a trabalhar em uma loja de discos de dia e a se apresentar com sua banda à noite, embora o que rolava entre eles nunca tenha sido algo maior do que isso. Não ter por completo matava por dentro, ele precisava fingir que não se importava em vê-la ficar com outros caras, a maioria deles mais velhos, integrantes de outras bandas e com quem ele achava que não podia competir. O fato de não se importar com a carreira dele de jogador de futebol e nunca aparecer em nenhum dos jogos que era convidada a assistir só o fazia ter cada vez mais certeza de que eles nunca dariam certo juntos.
O primeiro contrato com um time profissional veio, sua primeira convocação para a seleção sub-19 também, e ia dando um passo de cada vez para chegar aonde sempre sonhara. Ele e acabaram se afastando com o tempo, eles não tinham mais nada a ver um com o outro. Porém, ele sabia que a encontraria de novo, eventualmente, e mesmo depois de tanto tempo sem pensar nela, os mesmos sentimentos de antes vieram à tona. Estava começando a se relacionar com na época, mas não se lembrou desse detalhe quando se entregou às graças de e acabou a noite no apartamento dela. Diversas vezes tentou dar um ponto final àquilo, pois estava se apaixonando por e queria fazer o relacionamento com ela dar certo, mas sempre acabava caindo na mesma armadilha.
E era impressionante como, mesmo estando de casamento marcado, ali estava ele mais uma vez.
se esquivou dos braços de , atraindo a atenção dele, e saiu da cama. O goleiro observou a mulher desfilar sua nudez pelo quarto e ir até a janela antes de acender um cigarro. Ele ficou ali, deitado e admirando o belo corpo do qual só naquele momento percebeu que tanto sentia falta. Em meio aos beijos e carícias desesperadas, não havia tido oportunidade sequer de conhecer as tatuagens que ainda não existiam na última vez que viu nua.
- Faz muito tempo que você se mudou? - a voz rouca de quebrou o silêncio.
- Dois meses - respondeu depois de soltar a fumaça lentamente, fitando a rua pela janela. - A garota que dividia o apartamento comigo se mudou e eu precisei achar algo mais barato. Não conseguiria bancar aquele outro sozinha.
- Você está precisando de dinheiro?
apagou o cigarro no parapeito e arremessou o toco janela abaixo antes de se voltar para e analisar a quase imperceptível preocupação no rosto dele.
- Eu não preciso do seu dinheiro - ela rebateu em um tom levemente irônico, levemente divertido.
- Eu só quero te ajudar, . Não custa nada, não vai me fazer falta.
- Isso mesmo, . Joga na minha cara que você é podre de rico e eu não tenho nem onde cair morta - ela disse, a ironia bem clara dessa vez. - Se você pagar pela nossa transa eu vou ficar realmente ofendida.
não respondeu por falta do que responder. Não que ele achasse que se importava, mas ele já estava ali traindo a noiva, dar dinheiro para ela talvez tornasse as coisas ainda mais sujas.
subiu de volta na cama e passou uma perna por cima do goleiro, sentando-se nas coxas dele.
- Só tem uma coisa que eu gosto a respeito de futebol - ela disse com um sorriso malicioso nos lábios, passando as mãos pelo abdômen de . - Ele te deixou ainda mais gostoso.
A gargalhada de soou pelo quarto antes de ele puxar a mulher para um beijo. Os lábios de o faziam se sentir com 17 anos de novo.
Jovem, selvagem e livre.

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Da cozinha, pôde escutar o som da porta se destrancando seguido por alguns passos cautelosos. Ela não fez questão de olhar para trás ao sentir a presença de , preferiu fitar a quarta ou quinta xícara de café que tomava depois de uma noite inteira sem dormir.
- Bom dia - a voz dele disse baixa e rouca, como se tivesse acabado de acordar. E ela não duvidava que, de fato, ele tivesse acordado há poucos minutos. - Só vou tomar um banho e a gente vai encontrar a cerimonialista, tudo bem?
- Eu desmarquei - disse sem muita vontade, passando os dedos pelas laterais da xícara e se deliciando com a quentura que emanava dela.
- Desmarcou por quê? - questionou com surpresa.
A mulher largou a xícara e se afastou do balcão para, finalmente, encarar o noivo. Quando seus olhos pousaram na preocupação estampada no rosto de , ela não pôde evitar as lágrimas que borraram sua visão. Durante todo o tempo em que esteve no hospital, não havia se permitido chorar, mas ali, diante do homem que era seu porto seguro, era como se não pudesse mais controlar suas emoções. Ela sabia que só precisava de um abraço de para tudo parecer bem.
As lágrimas que escorriam pelas bochechas dela fizeram sentir um aperto no peito, o deixando sem reação. Ele não sabia o que estava acontecendo e a única coisa que lhe passava pela cabeça era que pudesse ter descoberto sobre . Sua consciência já começava a pesar toneladas.
- Meu avô sofreu um infarto - ela disse com a voz embargada e passou as mãos pelo rosto no intuito de secar as lágrimas e cessar o choro.
Os olhos de se arregalaram de perplexidade.
- Como assim? Quando foi isso? Ele tá bem?
- Foi ontem à noite. O médico disse que a situação dele tá estável e que logo ele deve se recuperar - respondeu e respirou fundo quando sentiu que voltaria a chorar. - Mas eu tive tanto medo, . Pensei que ele fosse morrer.
- Por que você não me avisou, amor? - ele questionou, mas logo depois soltou um suspiro frustrado ao se lembrar das chamadas não atendidas em seu celular.
- Eu tentei, mas também não queria te incomodar. Você tem direito de se divertir com seus amigos.
O goleiro observou a noiva dar de ombros e baixar os olhos com tristeza e sentiu-se ainda mais culpado. Enquanto ela estava precisando dele, ele estava com outra mulher. Aquilo era tão errado que chegava a ser ridículo.
se aproximou de e envolveu o corpo pequeno dela com seus braços, permitindo que ela enterrasse o rosto em seu peito. Os dedos dele se embrenharam nos fios de cabelo dela e ficaram por ali, fazendo um carinho que fez a cantora fechar os olhos enquanto inalava o perfume de .
- Quer tomar um banho? - ele perguntou, quebrando o silêncio que se instalou durante os minutos em que estiveram abraçados no meio da cozinha, como se ninguém mais no mundo existisse além deles. Não obteve resposta, apenas fungou. - Vou preparar a banheira pra gente.
Contra sua vontade, permitiu que o noivo a afastasse e o assistiu sumir pelo portal da cozinha. Bebeu o restante do café, que já estava morno naquela altura, e deixou a xícara dentro da pia. Em seguida, caminhou pelo apartamento até a suíte que eles dividiam e apoiou o ombro na porta do banheiro para observar encher a banheira e adicionar sais e aromatizantes na água. Depois de largar as embalagens em cima da pia, ele puxou a camisa polo preta que vestia para cima e se pegou admirando seu físico invejável de atleta.
Ela não podia negar que, quando se conheceram na festa de um apresentador de televisão famoso, seu interesse foi despertado pela aparência de . Seus 1,96 m de altura somados ao seu charme natural o faziam chamar a atenção por onde passava. Mesmo que não fosse a maior fã de futebol, sabia quem era e sempre o havia achado um cara atraente, jamais conseguiria desperdiçar a oportunidade de se aproximar dele naquela festa.
Em meio a sorrisos e flertes, ela não se surpreendeu quando recebeu um convite para jantar no fim de semana seguinte, além de uma carona para casa. A partir daí, não foi nada complicado se apaixonar por e engatar em um namoro que chamava a atenção do mundo todo. A integrante do Wonderland e o goleiro da Seleção formavam um casal que arrancava suspiros por onde passava, havia até mesmo quem os chamasse de os novos David e Victoria Beckham.
sentia-se a mulher mais sortuda do mundo por ter em sua vida. Não apenas pela beleza dele, mas pelo seu bom coração e por ele estar sempre ao seu lado a apoiando. Quando mais nova, ela sequer imaginava que, um dia, fosse capaz de amar alguém tanto quanto o amava.
foi pego de surpresa pelas mãos de espalmadas em seu peito nu e sentiu o estômago afundar ao ver a intensidade com que os olhos dela o fitavam. Ela mordeu o lábio inferior conforme deslizava os dedos pelos músculos dele até chegar em seu pescoço e, então, puxá-lo para um beijo. As bocas se chocaram com força e não precisaram de muito para, no segundo seguinte, estarem imersas em um beijo de tirar o fôlego.
Como se não a tocasse há séculos, as mãos de desceram firmes pelo corpo de e se enfiaram por baixo do vestido florido que ela vestia. Quando sentiu suas nádegas sendo apertadas com força, a mulher arfou durante o beijo e puxou os fios de cabelo da nuca de , o fazendo se arrepiar da cabeça aos pés.
Eles se separaram, ambos ofegantes, e sorriram um para o outro.
- Eu tinha a melhor das intenções quando sugeri esse banho - afirmou com divertimento.
- Eu sei - murmurou e riu baixo. - É só que, sei lá… Eu senti sua falta.
- Mas a gente se viu ontem, amor - o outro retrucou e passou o polegar pela bochecha dela carinhosamente.
- Sim, acho que isso que aconteceu com meu avô me deixou um pouco sentimental - ela explicou e mordeu o lábio inferior. - Eu te amo.
- Eu também te amo - respondeu, sorrindo, e grudou os lábios nos da noiva para um beijo rápido. - , não desiste de tentar falar comigo da próxima vez, ok? Não me importaria de largar tudo pra ir ficar com você, estou me sentindo péssimo por não ter estado ao seu lado ontem.
- Não se sinta. Está tudo bem.
Mesmo com toda a convicção de ao dizer aquilo, o goleiro não se sentiu nem um pouco melhor. Ele estava arrependido por ter aceitado o convite de , por mais que, encarando os olhos dela, parecesse irrecusável. só conseguia pensar que devia ter dito não, que ele tinha alguém o esperando em casa e não podia decepcioná-la. não merecia um homem infiel.
- Vem, . Vamos aproveitar o banho que você preparou e relaxar um pouquinho.
As mãos pequenas da cantora abriram a calça de com um pequeno sorriso malicioso nos lábios que deixava claro que aquele banho seria muito mais do que simplesmente relaxante.

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queria ser cantora desde que se entendia por gente. Aos 19 anos, teve a oportunidade de participar de audições para a formação de uma nova girlband e foi a partir daí que todos seus sonhos começaram a se realizar. Com uma fama mundial, Wonderland já tinha quase uma década de estrada, quatro álbuns, algumas turnês que passaram pelo mundo inteiro e vinte e três singles de sucesso. Era a maior girlband desde as Spice Girls.
Apesar de tudo que havia conquistado, tinha seus pés muito bem presos ao chão e estava constantemente trabalhando, pois sabia que jamais chegaria ao topo, sempre teria o que melhorar como cantora e dançarina. Portanto, mesmo que estivesse de férias durante aquelas semanas, seu foco não estava apenas nos preparativos para o casamento, mas também em cuidar de seu corpo; era por isso que, diariamente, ela ia à academia se exercitar.
Estava correndo na esteira enquanto escutava uma playlist dos anos 80 no Spotify. I Wanna Dance With Somebody, da Whitney Houston, soava em seus fones de ouvido até ser interrompida para dar espaço ao toque do celular e deslizou o dedo pela tela para aceitar a chamada ao ver que era sua prima, uma das poucas amigas da época em que não era famosa com quem ainda mantinha contato.
- Oi, Chelsea.
- , eu preciso conversar com você. Podemos almoçar juntas?
- Claro, pode ser. Sobre o quê?
- É melhor a gente falar sobre isso pessoalmente.
- Tá bom - respondeu um pouco desconfiada. - Estou na academia, podemos nos encontrar naquele restaurante vegetariano que tem aqui perto.
- Por mim, tá ótimo. Chego em meia hora.
As duas se despediram e finalizou seus exercícios do dia para tomar um banho e trocar de roupa antes de ir até o restaurante. Chegou lá alguns minutos atrasada e encontrou Chelsea já sentada em uma mesa, a esperando.
- O que tá rolando? - perguntou ao mesmo tempo em que a cumprimentava com um abraço.
Chelsea soltou um longo suspiro, mas apenas voltou a se sentar sem dizer nada e chamou o garçom. Mesmo que confusa, acabou fazendo seu pedido e, assim que o rapaz deu as costas para mesa, voltou a encarar a prima.
- Esse suspense todo tá começando a me deixar preocupada.
- Ai, , sei nem por onde começar…
- Pelo início seria interessante - respondeu em um tom divertido, rindo levemente.
A outra levou mais alguns segundos até, finalmente, voltar a se pronunciar.
- Eu vi o sábado à noite.
- Naquele bar que ele vai de vez em quando com os amigos? - questionou , estranhando que o papo tivesse ido parar em seu noivo. Quando a prima meneou a cabeça, concordando, continuou: - É, fazia tempo que eles não se viam. Ele aproveitou a folga de domingo.
- Achei estranho ele estar lá, já que você estava no hospital por causa do que aconteceu com seu avô.
- O já tinha saído quando tudo aconteceu e eu não consegui falar com ele - explicou, dando de ombros. - É só isso? Não precisava de todo esse mistério, doida.
Chelsea mordeu o lábio inferior enquanto fitava o semblante despreocupado da outra.
- Não é só isso - disse, recebendo um olhar curioso. - Eu vi ele indo embora com uma mulher. Perguntei pro pessoal e descobri que ela costuma se apresentar com a banda dela naquele bar, se chama .
Aquele nome desconhecido ficou ecoando na mente de durante todo o dia, assim como a ideia maluca que Chelsea deu de contratar um detetive para descobrir quem ela era, qual sua relação com e até mesmo segui-lo para saber se eles vinham se encontrando constantemente. Agradeceu por não estar em casa naquele dia, pois estava concentrado com o time na Itália para um jogo contra a Juventus pela fase de grupos da Champions League.
Antes de dormir, não se aguentou e acabou abrindo o Google para pesquisar sobre a tal .

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desviou os olhos do trânsito para o celular que havia jogado no banco do carona umas cinco vezes até decidir pegá-lo. Mesmo sabendo que era errado falar ao telefone enquanto se está dirigindo, ele apertou os poucos botões necessários para iniciar uma ligação para a noiva.
- Alô.
- Oi, amor. Está ocupada?
- Estou na maquiagem. A gente vai começar a gravação da última parte do videoclipe daqui a pouco.
- Não é nada demais, só queria ouvir a sua voz - ele confessou e soltou um longo suspiro. - Você viu o jogo?
- Você sabe que eu não perco um jogo seu - respondeu e imaginou o sorriso doce nos lábios dela. - Já está em casa?
- Não, eu acabei de sair do estádio e estou indo encontrar o Jack e o Steve. Estou te ligando até por isso, minha bateria está acabando e não sei se vou conseguir carregar.
As palavras saíram apressadas pela boca de . Ele sabia que, caso hesitasse, não conseguiria parecer convincente.
Ele odiava mentir para .
- Tudo bem - a mulher respondeu e se calou por algum tempo. quase podia escutar o próprio coração bater forte. - Tenho que ir, . A gente se vê amanhã.
- Você quer que eu vá te buscar no aeroporto? - ele questionou, prestativo.
- Não, não. Não precisa - ela rebateu rapidamente. - Meu voo é bem cedo.
- Tudo bem, então. Até amanhã - disse e suspirou. - Eu te amo.
- Eu também.
O goleiro tentou não pensar muito quando desligou o celular para reforçar a mentira sobre a bateria estar no fim e dirigiu pelas ruas que levavam ao seu antigo bairro. Estacionou o carro próximo ao prédio de apenas quatro andares, onde esteve pouco mais de duas semanas antes, e avistou exatamente a pessoa que o fez ir até ali saindo lá de dentro.
Era impressionante como, por mais que os anos se passassem, ainda se pegava impressionado com a beleza de . Ela estava estilosa como sempre, vestindo um short jeans todo desfiado com uma blusa larga de ombro caído e uma bota de cano médio. A surpresa tomou conta de seu rosto ao reconhecer o goleiro, mas logo um sorriso singelo surgiu em seus lábios.
Sem dizer qualquer coisa, caminhou até ela e a beijou. Um beijo cheio de desejo que pegou a mulher desprevenida, mas que foi correspondido com a mesma intensidade. Os dois subiram as escadas estreitas do prédio aos tropeços e foram para o apartamento de .
As roupas não demoraram mais que poucos minutos para estarem todas espalhadas pelo chão e os dois jogados no sofá surrado e apertado da estreita sala de estar. As mãos grandes de passeavam pelas poucas curvas do corpo esguio de conforme ela deslizava os lábios pela pele dele.
- Eu vou me casar na próxima sexta-feira - soltou poucos minutos depois de uma exausta desabar por cima dele.
A mulher se afastou e se sentou no sofá, o fitando inexpressivamente.
- Se você vai mesmo se casar com essa garota, o que você está fazendo aqui? - ela questionou com acidez, para o espanto de .
- Eu não sei - ele respondeu honestamente.
- Não sabe? - disse com ironia e soltou uma risada. - Eu sou só um passatempo, né? Quando você está enjoado da , você vem atrás de mim.
estava tão confuso que não sabia o que dizer. A mulher mais desprendida com quem havia estado em toda sua vida parecia incomodada com o sexo casual que eles tinham de vez em quando. Ou o que eles tinham não era apenas sexo casual para ela?
- Não é isso, . Por mais idiota que isso possa soar, eu gosto de você desde a primeira vez que te vi - pontuou. - Mas você nunca pareceu se importar verdadeiramente comigo ou com o que rolava entre a gente. Eu preciso de companheirismo, alguém que vê um parceiro em mim e que vai me apoiar sempre que eu precisar. E eu tenho isso com a .
- Eu sempre te apoiei do meu jeito, . Sempre torci pelo seu sucesso como goleiro, mas eu não gosto de futebol e não nasci pra esse mundinho colorido que vocês vivem - a mulher disse com a voz repleta de mágoa.
deixou escapar um suspiro desamparado. Ele preferia lidar com a durona, aquela com um semblante triste e lágrimas nos olhos era algo completamente novo.
- Sempre que você ganha algum campeonato a tá lá no estádio pra te parabenizar com um beijo apaixonado. As fotos sempre estão por toda parte sendo esfregadas na minha cara - ela disse e soltou uma risada sem emoção. - Sei que nunca vou ser essa princesa de conto de fadas com quem você sonha e já me martirizei muito por isso. Você foi o único cara que eu realmente amei na minha vida e dói saber que não sou a mulher perfeita pra você, mas não me importo mais com isso. E sabe por quê? - questionou, fazendo o homem a fitar com curiosidade. - Porque o problema não sou eu, . É você. é a tal mulher perfeita, tudo o que você sempre sonhou, até canta aquelas musiquinhas bregas naquele grupo ridículo que ela faz parte, e, mesmo assim, você não tá feliz. Mesmo assim, você vem me procurar e me faz ter esperança de algo que nunca vai acontecer.
passou a mão nos rosto em sinal de derrota quando viu as lágrimas escorrerem pelo rosto de . Ele jamais havia imaginado que ela se sentisse daquela forma.
- Me desculpa. Eu queria poder consertar essa cagada, mas acho que é tarde demais.
- A única coisa que eu quero é que você nunca mais volte a me procurar depois que sair por aquela porta - ela declarou.
- Você foi uma parte boa da minha vida, . Não queria que tudo terminasse com você tão magoada assim comigo.
O goleiro se vestiu silenciosamente e foi embora depois de dizer um simples “tchau”.
sabia que, depois daquela noite, um vazio permanente se instalaria em seu peito. Ele sentiria falta do bom humor e do jeito tão despreocupado de , mas dar um ponto final àquilo tudo era o melhor para os dois. Jamais a obrigaria a ser quem ela não era. Os dois nunca seriam realmente um casal.
Além de tudo, tinha , a mulher que ele amava e com quem desejava continuar dividindo a vida até que a morte os separasse. Eles sim eram um casal.
E foi se apegando àquele pensamento que dirigiu de volta para casa disposto a ser o homem que sua noiva merecia ter como marido.

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estava estática, encarando o volante do carro que havia alugado para seguir , desde que o viu adentrar um prédio aos beijos com . Tinha mentido sobre ter viajado para a gravação do novo videoclipe do Wonderland para que pudesse colocar seu plano em prática sem que o noivo desconfiasse e, para sua decepção, acabou por confirmar as suspeitas que vinham tirando seu sono.
Em suas buscas pela internet, descobrira que havia estudado na mesma escola que , o que a levou a crer que os dois se conheciam desde a adolescência e a deduzir que aquele casinho não era recente. Fora isso, não conseguiu achar muita coisa sobre ela, além de ser vocalista de uma banda de rock chamada Miracle, bastante conhecida na cena underground do país. Aquela história toda acabou a fazendo prestar uma atenção maior nas atitudes de e a desconfiar cada vez mais que ele, de fato, tinha outra mulher. Ela preferia não estar certa.
Dirigiu para bem longe dali em meio a muitas lágrimas. Por mais que desejasse que fosse possível, não conseguia ignorar o aperto no peito e a enxurrada de pensamentos que tomavam sua cabeça. Não entendia por que estava fazendo aquilo, pensava que o amor que os unia era verdadeiro e suficiente para ambos. temia que o homem por quem era apaixonada sequer existisse de verdade.
Naquela noite, dormiu na casa de Chelsea, que ofereceu seu ombro amigo e palavras de consolo, e, pela manhã, mandou uma mensagem para dizendo que não voltaria para casa naquele dia, pois as gravações para o videoclipe precisariam ser estendidas. Não falou nada para a prima, porque sabia que ela não aprovaria sua atitude, mas, à noite, decidiu ir até o tal bar onde sabia que poderia encontrar .
Adentrou o local discretamente, a calça jeans e agasalho com capuz a ajudavam a não se destacar em meio à multidão à qual se misturou. Estavam todos entretidos demais com a banda que se apresentava no palco para se importarem com sua presença. Seus olhos logo pousaram em e se pegou invejando não apenas a beleza da mulher, mas também sua energia em cima do palco. Ela não era apenas a vocalista da banda, era também quem liderava o grupo no palco chamando todas as atenções para si. A voz de era forte, levemente rouca e bastante envolvente. precisou admitir para si mesma que ela mandava muito bem, era uma verdadeira rockstar.
Quando a apresentação terminou e a banda desceu do palco, ficou observando a vocalista de longe. Ela estava sempre rodeada de pessoas, o que dificultava uma aproximação, mas, em certo momento, se afastou para ir até o bar pegar uma bebida e a integrante do Wonderland viu a oportunidade perfeita.
- O que rola entre você e o ? - perguntou ao parar ao lado dela e fez um sinal para o barman do outro lado do balcão. - Me vê uma cerveja, por favor.
ignorou os olhos do rapaz, que subiram e desceram por seu corpo ao reconhecê-la, e se voltou para a mulher ao seu lado, que a encarava, atônita.
- Por que você não pergunta pra ele?
- Porque ele vai me dar um monte de desculpinhas esfarrapadas e eu nunca vou saber a verdade - respondeu em um tom de obviedade.
- Não precisa perder seu tempo precioso aqui, já que eu fui chutada pra escanteio - rebateu, ironizando a expressão futebolística, e mostrou um sorriso debochado quando notou a confusão da outra.
- Quê?
- É isso aí. Não vamos voltar a nos ver, em breve ele será um homem casado - disse, dando de ombros. - Não tem necessidade de você me ameaçar ou seja lá qual é a sua intenção.
- Ei, eu não vim te ameaçar - retrucou, ofendida, e o barman voltou a se aproximar para deixar o copo de cerveja dela e o drinque que a outra havia pedido antes de se afastar para atender outras pessoas.
- Ah, não? Vai dizer que veio até aqui só pra beber essa cerveja barata enquanto podia tá bebendo um champanhe importado?
- Olha, eu só quero saber o que você tem com o meu noivo.
abriu a boca para dizer que quem devia dar satisfações era , pois era ele quem tinha um compromisso com ela, mas os olhos de a fizeram engolir as palavras antes de proferi-las. Eles estavam levemente marejados e não pareciam ameaçadores, mas sim magoados. Bufou, irritada consigo mesma por estar sentindo pena.
- Me segue.
Cada uma pegou a sua bebida e guiou até a saída de emergência do bar, por onde saíram para um beco. Algumas pessoas estavam por ali, mas bêbadas ou drogadas demais para se importarem com as duas mulheres que se sentaram em uma escadinha e ficaram fitando seus próprios pés por longos segundos.
- Vocês se conheceram na escola, né? - falou, quebrando o silêncio.
- É, eu já estava no último ano. Não queria dar papo, pensava que ele era babaca como os outros garotos que gostavam de futebol, mas ele não desistiu até a gente acabar virando amigos.
contou toda sua história com , como os dois se tornaram amigos, como começaram a ficar e, também, sobre as vezes em que se encontraram quando ele já estava com . Pela primeira vez, se viu falando abertamente sobre aquilo tudo com alguém, por mais estranha que a situação parecesse.
ouviu atentamente, pedindo detalhes a mais quando sentia necessidade, e as duas passaram um longo tempo ali, conversando, com apenas algumas interrupções para irem até o bar encher seus copos quando os mesmos ficavam completamente vazios.
- Eu nunca imaginei que o tivesse tido alguém como você na vida dele antes de a gente se conhecer - ela soltou o pensamento que martelava em sua cabeça.
- Alguém que o induziu a trair a própria noiva? - retrucou e soltou uma risada irônica.
- Alguém especial - a outra a corrigiu. - É claro que estou chateada e me sentindo um pouco perdida nessa história toda, não sei se vou conseguir desculpar o … Mas não precisamos ser inimigas.
a encarou por algum tempo, totalmente sem palavras para dizer em resposta. A verdade é que ela não esperava aquela atitude vinda de . Em sua cabeça, ela era mais uma entre tantas celebridades que pensavam ter o mundo aos seus pés. Esperava ser xingada, ameaçada… Jamais imaginaria vê-la tão compreensiva.
- Acho que, se o tem alguém realmente especial na vida dele, essa pessoa é você, - disse a vocalista da banda Miracle. - Quer dizer… Você deveria dar um tapa na minha cara, eu transei com seu noivo. Ei, garota! De que planeta você é?
Uma risada exagerada escapou pela garganta de uma um tanto alegre por conta do álcool que havia ingerido.
- Deve ser por isso que meu noivo pensa que pode me trair e se casar comigo como se nada tivesse acontecido - disse, fazendo uma careta. - Na verdade, eu só acho que podemos facilitar as coisas se uma entender o lado da outra. Pra mim, tá claro que eu não fui a única que acabou magoada aqui. O agiu como se você fosse descartável, isso também tá errado.
- É, você tá certa - falou em meio a um suspiro e esboçou um pequeno sorriso. - Não devemos competir uma com a outra se estamos do mesmo lado.
As duas se encararam, uma sorrindo para a outra, e levantaram os copos que seguravam para brindar e, em seguida, levá-los à boca.
- Você é uma ótima cantora, . O restante da sua banda também, vocês mandam muito bem.
- Valeu.
- Vocês teriam interesse em alguém pra patrocinar a gravação de um álbum? - perguntou e recebeu um olhar surpreso. - Eu realmente gostei do que vi lá dentro, acho que vocês têm um enorme potencial de fazer sucesso fora desse bar. E, pra mim, dinheiro e contatos pra fazer isso acontecer não é problema. Ficaria muito feliz de poder ajudar.
Os olhos de estavam arregalados e um silêncio se instalou entre as duas enquanto esperava por uma resposta positiva ou negativa. De repente, ela começou a rir.
- Eu jamais pensei que tudo que eu precisava na minha vida era conhecer - falou em um tom divertido que fez a outra sorrir. - Preciso ver com os caras, porque a decisão não é só minha, mas seria muito foda ter uma oportunidade dessa. Não sei nem o que fazer pra te retribuir o favor.
- Mas eu sei - a outra disse, piscando um olho. - Volta comigo pra dentro daquele bar e me faz companhia. Acho que beber e dançar é tudo o que eu preciso por hoje.

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- , não me deixa aqui sozinha.
- É claro que não vou te deixar aqui nesse estado, - a outra rebateu e soltou um longo suspiro enquanto tentava ajudar a outra a manter o equilíbrio sentada no meio-fio. - Onde você mora?
- Sabe qual é a pior parte disso tudo? - questionou com a voz mole e apenas soltou um murmúrio, pois sabia que era uma pergunta retórica e, além disso, a outra já nem parecia capaz de entender qualquer coisa. - Ele foi o único cara com quem eu nunca precisei fingir um orgasmo. Nunquinha, nem uma vez sequer. Acredita?
- É, o é mesmo muito bom de cama - disse em meio a risos. - Nem estou surpresa de você ter fingido orgasmo com aquele atorzinho com quem namorava antes dele, viu?
- Nossa. Noooossa! Nossa - disse , apoiando a cabeça na mão, e, em um tom indignado, continuou: - Ele tinha nojo de me chupar, .
- Que merda, hein? Homem que diz que gosta de mulher não pode ter medo de enfiar a cara lá não.
- Exatamente! - ela exclamou, levantando a cabeça, mas fez uma careta ao mesmo tempo que levava uma das mãos à barriga e a outra à boca. - Acho que vou vomitar.
- Ai, meu Deus!
rapidamente se levantou e puxou os fios de cabelo de para trás enquanto ela vomitava na calçada.
- Que merda. Se eu soubesse que você era tão fraca assim pra bebida, não tinha te deixado beber - disse e bufou. Ter que cuidar da noiva de bêbada era só o que faltava para aquela noite terminar ainda mais bizarra do que já havia sido até aquele momento. Dentre alguns bêbados que saíam do bar, viu um rapaz que andava em linha reta e gritou: - Ei, cara! Me ajuda a chamar um táxi e carregar ela.
- Ela não é do Wonderland? - o desconhecido questionou enquanto ajudava a pôr de pé.
- Não interessa, só me ajuda.
Os dois conseguiram chamar um Uber e colocar a mulher bêbada dentro do carro. a levou para casa, a ajudou a tomar um banho e a fez tomar uma xícara de café bem forte antes de deixá-la se deitar em sua cama. Quando pegou no sono, se viu novamente sem saber o que fazer, a única coisa que passou por sua cabeça foi ligar para .
Como não tinha o número dele, procurou pelo celular de na bolsa que havia sido largada no chão do quarto e usou a digital da cantora para desbloquear o aparelho. Após muitos toques, a voz do goleiro saiu sonolenta pelo alto-falante.
- Amor?
- Não, . É a .
- O que… - ele começou, confuso, mas se interrompeu e levou alguns segundos até se pronunciar novamente, dessa vez mais alerta. - Mas esse é o celular da .
- Você pode vir buscar ela na minha casa?
- Espera aí, o que você fez com ela?
- Não fiz nada, seu idiota - sussurrou em um tom indignado. - Não vou brigar com ninguém por sua causa. O seu pinto não é de ouro, não.
- O que você quer que eu pense?
- Tanto faz, só vem logo. Pelo visto sua noiva não é muito forte pra bebida.
- Ela tá bêbada?
- Sim, passou mal e tudo, mas tá dormindo agora.
- Eu espero que você tenha uma boa explicação pra isso.
- É bom que você tenha uma também se não quiser ser um homem solteiro - disse, debochada, e encerrou a ligação antes que questionasse sobre aquilo.

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Já tinha amanhecido e observava atentamente a noiva dormir ao seu lado na cama. Não tinha conseguido pregar os olhos depois de buscá-la na casa de , que contou tudo o que tinha acontecido e os expulsou de sua casa para que pudesse dormir. Seu coração estava apertado, temendo o que aconteceria quando despertasse.
Quando desistiu de tentar dormir, o homem se levantou, foi até a cozinha preparar um café da manhã reforçado para os dois e voltou para o quarto levando uma bandeja e um analgésico que sabia que precisaria, pois não era acostumada a beber daquela maneira.
Seu coração quase saiu pela garganta quando viu a mulher se remexer sobre o lençol e, lentamente, abrir os olhos. Ela fez uma careta de dor conforme se sentava e se aproximou com um copo d’água e o comprimido.
- Toma, vai aliviar a dor.
levantou os olhos para ele sem esboçar qualquer reação, pegou o remédio e o engoliu antes de devolver o copo.
Os dois se encararam por um longo e silencioso momento até a mulher soltar um longo suspiro.
- Por que, ?
- Eu pensava que ainda gostava dela - ele respondeu, sincero, encarando os próprios pés.
- E por que não terminou comigo? Seria muito mais bonito se você fosse honesto comigo e consigo mesmo. Eu estava que nem uma trouxa organizando a cerimônia de casamento dos sonhos de qualquer mulher enquanto meu noivo dormia com outra - ela disse e deixou uma risada sarcástica escapar. - É por que eu sou famosa e ela não? Quero um casamento de verdade, não um só pra estampar capa de revista.
- Não é nada disso, . Eu te amo de verdade - disse, a fitando, e ela sentiu um arrepio correr dos pés à cabeça tamanha a intensidade dos olhos dele. - O que eu tive com a faz parte de mim, da minha história, mas ficou no passado. Eu demorei pra perceber isso, mas agora tenho certeza.
desviou os olhos de . Sentia o coração bater forte ao mesmo tempo que uma confusão de sentimentos preenchia seu peito. Sentia raiva do noivo por tê-la enganado e estragado tudo, mas, ao mesmo tempo, parte de si queria acreditar que aqueles anos de relacionamento haviam sido reais o suficiente para que ele estivesse verdadeiramente arrependido.
- Eu quero que você arrume as suas coisas e vá embora - ela disse em um volume de voz baixo.
- Calma, meu amor. Vamos conversar… - o goleiro falou cautelosamente.
- Pra quê? Sei tudo o que você vai me falar e já tomei minha decisão - rebateu, dando de ombros. - Vou cancelar o casamento.
-
- Obrigada pelo café da manhã. Estou mesmo morrendo de fome - a cantora desconversou e se inclinou para pegar uma torrada na bandeja apoiada sobre o colchão. - Você pode comer antes de ir embora.
- , por favor.
- Não vou me casar com um cara em quem eu não confio.
- Prometo que vou reconquistar a sua confiança, mas não desiste da gente - suplicou.
- Então reconquista, . Me faz acreditar que você tá realmente arrependido e que me ama de verdade - disse olhando nos olhos do, até então, noivo. - Não vou implorar por isso, mas também não vou te impedir. Eu só peço que você me dê espaço, porque, nesse momento, estou muito magoada e não acredito em nada que você diz. Acho que é o mínimo que você pode fazer depois de ter aprontado uma dessa.
- Tudo bem - o outro disse, optando por aceitar a sentença daquele momento.
Sabia que ele próprio havia procurado por aquilo e, portanto, não tinha o direito de reclamar, mas estava disposto a conquistar uma segunda chance.

Foi bastante estranho, no meio desse novo caminho que percorria em busca da confiança e do amor de , vê-la se tornar empresária do Miracle, banda de , e, além disso, testemunhar uma grande amizade nascer entre as duas. Mesmo que nunca mais o quisesse como marido e como amigo, sua estupidez havia resultado em pelo menos uma coisa boa.





Fim



Nota da autora: Oi, gente! Mais uma short de ficstape minha por aqui. Espero que tenham gostado da história!
Um caso sério esse goleirão que demorou a perceber que já estava com a mulher da vida dele e estragou tudo, né? Se ele merece ser perdoado ou não, só o tempo vai dizer, mas fica a mensagem de que as mulheres não precisam se colocar umas contra as outras. Juntas somos mais fortes! 💜
Se quiser bater um papo, é só entrar no grupo do Facebook!
Fics da Babi

Beijos!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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