Fanfic finalizada

Prólogo - Um Corpo no Mississipi

Na década de 50, um dos estados mais populosos e mais importantes dos EUA era o estado de Louisiana, localizado no sul do país. Os maiores centros industriais estavam ali e o centro portuário recebia e exportava mais de 60 mil cargas por ano. Petróleo, café, cereal e carne eram os principais produtos produzidos pelo estado e vendidos a outros — emprego nunca faltava a ninguém e, em pouco tempo, a cidade já abrigava cerca de cem mil habitantes.

Por conta disso, muitos teatros e museus foram abertos na cidade, em especial na cidade de Nova Orleans que, por sua influência francesa, espanhola e afro-americana, abrigava um mar de diversidade cultural. Os turistas amavam a culinária espanhola, a arquitetura francesa e a herança musical trazida pelos antigos escravos, que logo se tornou um dos gêneros mais apreciados de todos: o jazz, que estava presente em todos os bares, restaurantes e residências.

Outra coisa que chamava a atenção dos turistas era o grande Rio Atchafalaya, que era parte de outro grande rio que cortava vários estados dos EUA, incluindo principalmente Louisiana, o Rio Mississipi. Nova Orleans era cheia de pontes para que o rio pudesse passar sem impedimento e, quem precisava passar por elas tinha uma visão extraordinária no fim da tarde: os raios de Sol repousavam sobre as águas, criando fios de luz que acentuavam ainda mais a beleza natural do Atchafalaya.

Mas poucos ali sabiam que também podia se ter um contato mais próximo com o rio. Andando por entre as gigantes árvores nas florestas densas que escondiam pântanos e pequenos riachos, era possível chegar a uma parte do rio onde era possível até nadar se quisesse. Parecia uma prainha. Na parte terrosa, ás margens do rio, poderia ser o lugar perfeito para um piquenique, um lual com fogueira e, para os mais ousados, um ótimo esconderijo amoroso.

As risadas que rompiam os lábios dela poderiam claramente ser ouvidas, mas como sabia que era impossível alguém estar por ali, ainda mais por causa das grandes comemorações á espera do novo ano que estava há duas horas de chegar, ela não se preocupava em conter-se.

Sem vontade de se largar eles iam, lentamente, mata adentro para as margens do Atchafalaya. Esse era o lugar marcado de suas constantes visitas, onde concretizavam seus planos de fim de tarde e noite, quando ela ia "dormir na casa de Mere", sua melhor amiga e cúmplice, e quando ele precisava "ficar na oficina até mais tarde", lugar onde ele ganhava uns trocados como ajudante de mecânico depois das aulas na escola.

Eram beijos e mais beijos, mãos em lugares que seus pais não podiam nem sonhar e tropeços nos próprios pés e na saia dela que, como recomendado a uma moça de respeito, estava sempre um palmo abaixo dos joelhos e, em algumas ocasiões, na altura das panturrilhas ou na altura dos tornozelos, como a que estava usando naquele fim de tarde.

Já chegando á beira do Rio, na falsa prainha que poucos conheciam, entre risos, trocas de sorrisos, declarações e murmúrios de amor, ela desatou o nó do laço que a enfeitava e marcava a cintura, para que a saia que ela estava usando finalmente pudesse parar de atrapalhar as mãos dele de sentir com mais fervor a suavidade da pele tão macia que ela tinha.

— Temos de ter cuidado com minha saia. Se sujá-la não terei como dar explicações a papai amanhã. — ela disse temerosa, com seus olhos presos nos dele. Ele assentiu e lhe sorriu.
— Não se preocupe, isso não irá acontecer. Sempre tenho tudo planejado, não tenho? — eles trocaram outro sorriso.

Ele a soltou e tirou do chão a sua bolsa, onde havia um lençol que havia pegado de sua mãe sem que ela soubesse, para que eles pudessem aproveitar seu momento juntos sem se preocupar com a sujeira que a terra poderia fazer. Daria um fim no lençol depois, sabia que sua mãe jamais daria falta — ela tinha milhares iguais àquele.

Esticou o pano no chão e, tirando do corpo dela a saia, colocou-a suavemente ali, livre de qualquer mancha. Ela, ao ver que ele realmente havia planejado tudo para matar a saudade de semanas sem se ver, abriu um sorriso travesso. Acariciou o rosto do rapaz, satisfeita.

— Vejo que realmente pensou em todos os detalhes. — ao ver o sorriso na afirmação dela, ele aproximou mais seus corpos, apertando a cintura desnuda dela com seu abraço.
— Tudo teria de ser perfeito. Não queria que nada nos atrapalhasse de matar essa saudade!

Sem hesitar mais nenhum segundo, ela o beijou com fervor e paixão, recebendo em troca a intensidade do desejo e da ternura. Em poucos minutos, seus corpos estavam já entrelaçados sob' o lençol, dividindo entre si a sensação de chamas que só o amor adolescente pode emanar.

Tudo parecia mais que perfeito para ele e para ela. Sabiam bem que não deviam estar ali, escondidos debaixo de mentiras, enquanto todos festejavam e esperavam os fogos que anunciariam a chegada de 1960. Mas o que sentiam um pelo outro, eles diziam, era algo incontrolável.

Desde que se viram pela primeira vez, sentiram que havia alguma coisa que os conectava e tiveram certeza disso quando passaram a se falar e, logo depois, se encontrar. Seus pais provavelmente os matariam se soubessem o que andavam fazendo, eles sabiam disso. Não deveriam estar ali.

E o que aconteceu em seguida os fez ter certeza de que não deveriam mesmo estar ali.

Estavam deitados em cima do lençol que ele trouxera. Como sempre, conversavam sobre as mais diversas coisas, olhando para as estrelas e tendo a lua como abajur particular. A água vinha de leve, de vez em quando, e lhes tocava os pés, o que trazia uma sensação de paz. Mas algo diferente, não sabia o que, havia tocado os pés dela.

O toque foi rápido, porém muito significativo. Num ato súbito, ela deu um pulo e se sentou, encolhendo as pernas e olhando assustada para a água tentando ver o que havia chegado tão perto. Ele, ao ver o susto dela, também se sentou e aproximou-se, preocupado.

— O que aconteceu? Por que está assustada? — ela ainda olhava para o Rio, mas não conseguia ver nada.
— Senti algo vindo do rio tocar os meus pés.
— Estamos bem próximos ao rio, poderia ter sido um peixe, não? — ele sugeriu, passando uma de suas mãos pelas costas dela para deixá-la mais tranquila.
— Não sei, não tenho como afirmar. — ela o encarava a meia-luz — Acho melhor irmos embora.
— Não, acalme-se! — ele respondeu rapidamente, sentindo seu coração apertar só de pensar em já deixá-la. — Temos algum tempo antes que precisemos ir.

Ela o encarava desconfiada. Algo dentro de si dizia que era melhor sair dali o quanto antes, mas sabia que ir embora significava mais alguns dias ou até mesmo semanas sem que pudesse vê-lo novamente. Estava dividida entre seu desejo e sua intuição.

— Tenho certeza de que era apenas um peixe. E posso te provar. — ele levantou-se ao ver que ela ainda não estava convencida em ficar. Estendeu-lhe a mão, para que ela se levantasse também. — Venha ver.

Ainda contra sua vontade, ela colocou sua mão sobre a dele e se levantou. O sorriso dele lhe passava segurança, mas algo gritava dentro de sua cabeça para que fosse embora. Mesmo assim, ela continuou segurando sua mão e o seguiu para mais perto do rio, até deixar os tornozelos submersos.

De dia, por natureza, as águas do rio estavam longe de ser claras. Era bem difícil ver o que havia no fundo. De noite já era de se imaginar que a visão era dez vezes pior. Sabia-se que o rio estava ali, mas mesmo de perto, só era possível ver um tapete negro com alguns fios de brilho pela luz da lua.

Ele esperava que o peixe que encostou-se aos pés dela poderia voltar e fazer o mesmo e assim ela se convencesse de que não era nada demais. Mas o que o vento trouxe, definitivamente, não era um peixe. Nem, bicho nenhum das águas. Era um bicho terrestre mesmo. De um metro e oitenta e três, mais ou menos. E desacordado.

De cara, ele não percebeu.

Algo chegou perto do casal e lhes tocou as canelas. Novamente ela se assustou pelo ato inesperado, mas ele começou a rir, achando que sua suposição anterior estava certa. Meteu a mão dentro do rio, tentando sentir o peixe, mas seus dedos foram direto de encontro com algo maior e mais plano. Diria ser uma pessoa, se não estivesse ficando doido.

Obviamente nenhum ser humano em sã consciência iria nadar durante a noite. Mas aquele ali, com certeza, já estava inconsciente o suficiente. Não que tenha sido uma escolha sua, na verdade.

— Vista-se. — ele dirigiu-se a ela, tentando esconder seu desconforto. Ela, sem nem pensar todas vezes, tirou os pés de dentro do rio e foi em direção a suas roupas, começando a vestir-se sentindo o coração mais acelerado.

Ele recuou alguns passos, vestiu as ceroulas e as calças, ao mesmo tempo em que procurava dentro da bolsa a lanterna que sempre carregava quando vinha para as margens do rio com ela. Ela já havia terminado de se vestir e estava parada e amedrontada, um pouco longe dele, com alguns fios de seu cabelo caindo pelo rosto e os braços ao redor do próprio corpo, num ato inconsciente de autodefesa. Prometeu a si mesma que não chegaria mais perto.

— O que ainda está fazendo aí? — ela o questionou angustiada. — Vamos embora, pode ser perigoso.
— Não se preocupe, eu só quero ver o que é isso aqui. Fique aí, está bem? — tentou passar calma e segurança em cada uma de suas palavras, mas o seu tom denunciou o medo do que poderia encontrar ali.

Como pedido, ela continuou onde estava, mas agora olhando de vez em quando ao redor, com medo de que algo (ou alguém, talvez) pudesse aparecer e tirar suas vidas sem que eles tivessem ao menos a chance de se defender. E ele, tirando coragem e onde não tinha, se aproximou novamente do rio ainda sem ligar a lanterna, tentando sentir aquele ser estranho perto novamente.

Levemente sentiu algo roçar suas pernas e, com o coração na boca de curiosidade e medo do desconhecido, apontou a lanterna para baixo onde havia sido tocado e a ligou.

Os olhos dela, mesmo de longe, puderam contemplar o que pensou jamais ver em sua vida. Seu coração, que já estava acelerado, disparou de vez. Seu corpo começou a tremer e seus olhos formaram poços de lágrimas. Seu cérebro não parecia querer processar aquela imagem.

Ele, com o impacto daquela imagem, deu um pulo pra trás sentindo seu corpo todo ficar fraco. Num ato automático, sua mão livre foi direto para sua boca e seus olhos, assim como os de sua amada, se esbugalharam, e seu cérebro pareceu entrar em pane total, tentando assimilar o que era aquilo. Em passos retrógrados, ele ficou parado lado a lado com ela, que já chorava pendurada em seu pescoço.

— Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

Ela exclamava sem parar, sem ter mais o que dizer. Ele ainda estava em silêncio, em choque, não sabia nem como respirar mais.

O corpo sem nenhum sinal de vida de um homem adulto estava boiando no rio Atchafalaya. A luz da lanterna mostrou que sua pele branca já estava começando a ficar num tom pálido, claramente anormal. Os lábios já estavam arroxeados. Não devia estar ali por muito tempo. E era bonito até morto, o danado — com certeza chamava muito a atenção das mulheres quando estava vivo.

Sua feição era bastante forte, mas também passava certa delicadeza. Os cabelos eram negros, mas quase não se dava para perceber, pois os fios se camuflavam nas cores do Rio. Nas mãos, não havia nenhum sinal de compromisso, não havia aliança. Ele parecia ser bem jovem para ser casado, de qualquer forma. Pelas roupas, claramente feitas sob' medida na melhor alfaiataria e o par de sapatos reluzentes mesmo no escuro, dava pra perceber que ele era um rapaz muito bem sucedido. Aparentemente, alguma família importante da cidade acabou de perder um ente querido.

Se observasse bem de perto, ele não demonstrava nenhum motivo escancarado para estar morto. Para qualquer pessoa ele facilmente seria dado como um pai de família, homem honesto trabalhador. Parecia até ser bem simpático e gentil. Talvez fosse um homem americano comum. Como um vizinho, pelo menos, dificilmente levantaria suspeita.

Mas quem vê cara, não vê coração, não é? Ou melhor, traição.

Então um pensamento ocorreu a ele. Aquele tapete sendo jogado no rio. Aquela mulher, aquele homem de bigode no parapeito. Seu coração acelerou de tal forma que ele pensou que lhe sairia pela boca.

— Meu amor, escute! Olhe bem para mim! — ainda assustado, ele colocou as mãos no rosto dela, fazendo-a encará-lo. — Nós vamos embora daqui, mas não pode dizer a ninguém o que vimos, entendeu?
— Como posso não contar a ninguém, tem uma pessoa morta...
— Shhh! — colocou seu dedo sob' os lábios dela, impedindo-a de terminar a frase. — Não vimos nada, não vimos ninguém! Se descobrirem que nós dois estávamos aqui, isso pode acabar virando contra nós. Você entende?

Ela assentiu, ainda chorando muito, e ele a tomou em seus braços num abraço apertado. Seus corações batiam em sincronia e, pela primeira vez não era por causa da paixão. Ele depositou um beijo no topo da cabeça dela e a soltou, beijando agora seus lábios rapidamente.

— Vou te levar para casa de Summer, mas tem que me prometer que não contará nada nem a ela nem a Mere. Promete? — ela apertou suas mãos contra as dele e olhou de relance para o rio, sentindo seu coração voltar a acelerar. — Meu amor, eu preciso que me prometa isso.
— Eu prometo. — ela afirmou — Esse assunto morre aqui.

Ele lhe sorriu, agradecendo pela cumplicidade. Rapidamente pegaram suas coisas, deram as mãos e saíram às pressas dali, ainda tentando assimilar o que seus olhos acabaram de testemunhar. Um homem morto, seguindo o curso do Rio Atchafalaya pelo Rio Mississipi, sem nenhum sinal de ataque. Sem marcas de tiros, facas ou qualquer outra coisa que pudesse lhe tirar a vida. E uma dúvida cruel pairava: O que poderia ter feito de tão ruim para acabar ali?

Ele percebeu que aquele ali, boiando no Rio, era o homem que mais cultivava sua admiração no mundo.


Capítulo 1 - Opostos

Os opostos se atraem.

Esse é um ditado de anos que sobreviveu á várias gerações, mas ninguém realmente soube se isso era uma verdade absoluta ou apenas algo que as pessoas gostavam de dizer. Muitos não acreditavam, mas quem conhecia e sabia que esse dito popular corria sérios riscos de ser verdade. Eles tinham uma personalidade completamente oposta ao do outro, mas ainda assim, ninguém podia negar que eles formavam um casal perfeito; de alguma forma, um completava o outro absolutamente.

era conhecido por todos na cidade antes mesmo de nascer. Ele levava o nome de seu bisavô, o grande empreendedor que fez seu negócio de família crescer e se tornar importante para todo o país, além de ser objeto de cobiça e demonstração de poder. A fama da confecção familiar havia corrido todo o país e não era incomum receber pessoas de outros lugares para encomendar um sapato na maior confecção de Louisiana. E não era todo mundo que tinha condições de calçar um 's — você precisava de um nome honrado e uma boa quantia em dólares.

Isso fez com que a fortuna da família aumentasse ainda mais e, buscando manter tudo entre os seus, o velho passou a direção de seu negócio para as mãos de seu filho, depois para seu neto e, logo após ele, a honra e a fama do sobrenome da família estaria nas mãos de seu bisneto.

O herdeiro da confecção e futuro dono de uma herança milionária cultivada há anos era aquele jovem rapaz alto, de riso fácil, comunicativo e olhar sedutor, que estava presente nos melhores sonhos das moças da cidade e nos olhares gentis lançados pelas mães dessas, que queriam mais do que tudo que suas filhas pudessem fazer parte daquela família e carregar o sobrenome mais conhecido e importante da cidade.

Mas digamos que ele tinha outros objetivos de vida.

Não era difícil ver lançando algumas piscadelas, sorrisos que deixavam as pernas de qualquer uma bambas e reverenciando, ao tirar seu chapéu por um segundo, alguma moça que achara interessante em alguma praça, padaria ou colégio para jovens moças (que era um de seus lugares preferidos a se passar em frente por coincidência). No fim da noite também não era difícil vê-lo em algum beco da cidade com pernas entrelaçadas em sua cintura e seus lábios marcados com algum batom que ele não fazia questão de limpar.

Todos sabiam o tipo de rapaz que ele era, mas ele não se importava com sua fama. Sabia que, graças a seus bons genes e o dinheiro, ele não precisava se preocupar com o que as mulheres pensavam ao seu respeito, até porque ele sabia bem o que se passava por suas cabeças. sempre seria , nada mudaria, não importava quantas bocas passassem pela sua.

Claro que as más línguas jamais iriam condenar um , mesmo que merecesse. Ele era galinha, mas era homem. Era da natureza dele. Mas as mocinhas que passavam pelas mãos dele, ah, essas sim, eram deploráveis. Moças sem honra, sem vergonha.

Era o que a mãe de dizia sempre que as vizinhas lhes contava o que seus filhos diziam sobre . Enquanto ela lavava e a filha secava a louça (um os poucos momentos em que estavam juntas), Mae orientava sua caçula para ficar longe dele e de qualquer outro rapaz que tivesse a mesma conduta e, claro, também frisava sua repulsa por mulheres que não sabiam se dar o respeito, ao contrário de suas duas filhas que ela criara com tantos valores.

fingia interesse, movendo sua cabeça para cima e para baixo mostrando concordância enquanto passava um pano pelos pratos, mas por dentro se questionava por que os homens podiam ficar até tarde da noite na rua acompanhados de quantas moças queriam e as mulheres eram mal vistas se fizessem o mesmo.

Mas gostava de engolir essas perguntas. Sabia que sua mãe iria lhe dar um sermão de horas explicando qual era o papel da mulher na sociedade e que seu pai provavelmente teria um ataque do coração se soubesse dos questionamentos dela. Seria o segundo.

Não era essa a única coisa que gostava de guardar para si.

Ela nunca foi uma pessoa falante. Desde muito pequena ela era considerada estranha pelas outras meninas pela falta de comunicação. Já na adolescência isso se tornou uma característica muito valorizada, pois aos olhos dos outros ela era uma moça que sabia como se portar, que tinha educação e sabia quando devia falar e quando devia ficar calada. Apesar de odiar todos esses adjetivos, não contestava. Era o orgulho de sua mãe e o trunfo de seu pai.

Para os rapazes, sua beleza combinada com sua personalidade fechada a tornava misteriosa. Um mistério que todos eles teriam prazer em desvendar, era o que comentavam uns com os outros. era sempre delicada, com gestos pequenos como os de uma princesa, postura ereta e penteados invejados que nem um vendaval tinha o poder de desmanchar. Seus olhos atentos e vivos contrastavam com seus lábios marcados de uma forma jovial, porém muito discreta. Ela era, com certeza, uma das moças mais bonitas da cidade. Isso era um fato unânime.

Seu pai sempre recebia elogios pela filha bem criada que tinha e ele nunca se cansava de ouvir. As fotos da família em seu consultório médico estavam sempre á vista e enchiam os olhos dos pacientes. "Suas filhas são lindas", "Parabéns, o senhor tem uma bela família" e coisas do gênero sempre atravessavam seus ouvidos e logo lhe causava um sorriso. Além de seu posto como o melhor médico da cidade (ou até mesmo de todo o estado de Nova Orleans), sua família era o seu maior orgulho.

Para sua mãe, seu maior orgulho era ter se casado com um homem bem sucedido e ter lhe dado duas filhas, mesmo tendo a frustração de não ter conseguido dar a luz a um menino como o companheiro desejava. Mesmo assim, sabia que tinha criado suas filhas para se tornarem boas esposas e mulheres sensatas para seus futuros esposos.

E a primeira a lhe encher o coração de alegria foi Holland, sua primogênita.

Ela anunciou o noivado num almoço de domingo com um Steven sorridente ao seu lado, ajeitando o paletó feito pelo pai, o melhor alfaiate da região. Mae mal podia se conter de felicidade, ele com certeza era o genro dos sonhos. Um rapaz inteligente, de boa família e que passou quatro anos fora da cidade estudando para abrir seu consultório odontológico. Holland com certeza tinha um futuro garantido com um rapaz como ele.

Se casaram quatro meses depois numa cerimônia intimista e passaram a lua de mel em Paris, presente dos pais da noiva. Quando voltaram, logo se mudaram para uma casa já toda mobiliada com os melhores móveis à algumas ruas de suas antigas, presente dos pais do noivo. Todos estavam radiantes com o novo casal, mal podiam esperar para ter netinhos ou netinhas — seria adorável, diziam.

Agora que a mais velha havia finalmente dado um passo importante em sua vida, toda a pressão caiu nos ombros de . Não teve nem tempo de respirar e sua mãe já pensava em encontrar algum bom pretendente para a filha, que segundo ela, já estava na idade de se casar. Mal sabia a mãe que casar era tudo o que menos queria no momento.

Perdeu as contas de quantas amigas de sua mãe foram as visitar em casa. Curiosamente, todas elas estavam acompanhadas de seus filhos solteiros. Ela quase riu da força de vontade de sua mãe. Não podia negar que, á primeira vista, todos eles pareciam ser muito interessantes, gentis, simpáticos, além de bons colírios aos olhos.

Mas Alexander, James, Peter e todos os outros não fizeram seu coração dar um pulinho se quer. Jason foi o único que conseguiu algo dela: uma risada de meio segundo depois de ele ter imitado a viúva June orando nos cultos de domingo. Ele daria um ótimo amigo, se isso lhe bastasse, ela chegou a pensar.

Sabia que sua mãe gastara a língua em lhe dar conselhos, mas não pôde deixar de notar um par de olhos arteiros lhe encarando do outro lado do salão, na festa que a dona do clube mais movimentado da cidade, onde os jovens sempre iam para tomar sol e nadar no verão, havia planejado. Era uma festa á fantasia cheia de glamour — a ocasião perfeita para que todos usassem suas roupas mais brilhosas e tivessem a liberdade de flertar através de máscaras carnavalescas.

Talvez por isso não sentiu vergonha alguma ao deixar escapar um sorriso ou dois. Não dava para ignorar seu coração acelerado ao ver os olhos de nela. E, para sua surpresa e alegria, eles se encontraram mais algumas vezes por coincidência em outros cantos da cidade. Por estar sempre acompanhada, nada nunca passava dos olhares, mesmo quando esses eram bem explícitos. Eles pareciam se entender dessa forma.

Mas ele se encontrou assustado várias noites seguidas quando acordava no meio da madrugada com o rosto dela gravado em mente.

Seus olhos inocentes e ao mesmo tempo luxuosos; seus lábios sempre contornados de forma desejosa; suas bochechas rosadas, que de vez em quando se erguiam e apertavam os olhos quando os dentes dela discretamente estavam á mostra para ele; seu corpo magricelo debaixo de tecidos fluídos; seu jeito delicado e misteriosamente firme ao mesmo tempo; sua falta de palavras que pareciam esconder algo enigmático.

Ele precisava vê-la novamente. Ele já não aguentava mais ficar idealizando como seria sua voz, qual era o cheiro do seu perfume, como seria a sensação de tocar os lábios dela com os seus. Depois de mais uma noite sonhando com ela, decidiu que precisava por um fim nessa agonia.

No dia seguinte, depois do almoço, ele estava encostado em um poste de luz em frente a escola de moças onde sabia que ela estudava. Manteve seu chapéu na cabeça, olhos no chão e mãos no bolso. Não queria chamar muita atenção.

Ouviu um som parecido com o que ouvia quando ainda estudava, dois anos antes. Era o sino. Sabia que ela sairia em instantes. Olhava discretamente para o portão, onde várias meninas passavam conversando, rindo e cochichando umas com as outras, dentro uniformes que mesclavam a cor rosa e o marrom. Até que a avistou. A reconheceria a quilômetros. Ela conversava com uma moça loira também muito bonita, mas que de forma alguma ofuscava a beleza dela.

Seus olhos se encontraram com os dela e, ao perceber o sorriso no rosto de , April, sua amiga, passou os olhos pela rua desconfiada. Ainda bem que escondeu os olhos debaixo do chapéu a tempo. apressou a despedida e abraçou a amiga, esperando até que ela virasse a esquina para ir cautelosamente em direção a . Sabia que sua mãe não iria gostar se soubesse que estavam juntos, mesmo que por alguns poucos segundos.

— Procurando por alguém? — ela perguntou com sua voz macia, num tom de satisfação. Não queria admitir, mas havia adorado a surpresa.
— Estava cansado de te olhar de longe. — ele não conseguiu conter o sorriso depois de responder baixo. Seus olhos sempre atentos a rua, mas não deixavam de apreciar os dela. — É um pouco difícil chegar mais perto da senhorita. Está sempre acompanhada.
— Minha mãe não quer que eu esteja entre más companhias.
— Eu sou uma má companhia?
— Receio que pra ela você seja o pior de todos. — respondeu risonha vendo o sorriso dele se alargar.
— Então a senhorita deve manter distância de mim?
— Sim. Mas talvez eu não queira.

Era exatamente isso o que ele queria ouvir. Passou os olhos pela rua mais uma vez e ajeitou o paletó se preparando para provavelmente ser rejeitado. Não conhecia , mas ela só parecia fazer o que queria. Torcia dentro de si para que ela gostasse da ideia.

— Acredito que esteja com fome.
— Muita. — ele sorriu de volta ao ouvir a resposta dela e sentir sua animação. Relaxou os ombros, mais confortável.
— Tomei a liberdade de nos preparar um lanche. Se me permitir levá-la para um piquenique, seria uma honra.
— Não sei se me faria muito bem ser vista com você. Acredito que saiba o que as pessoas falam sobre as moças que andam com você.
— Não se preocupe, eu a entendo. — se sentiu um idiota por ter aquela fama. Queria que ela se sentisse á vontade em sua companhia. — Estou de carro e, se ficar bem abaixada, ninguém a verá.

não conseguiu esconder o sorriso ao perceber os olhos suplicantes dele. Se sentia lisonjeada por ele tentar contornar a única coisa que os impediria de passar um tempo juntos. Ouvindo a voz de sua mãe repetir em sua mente todas aquelas recomendações para que ficasse longe dele, ela resolveu aceitar. Queria, mais do que tudo nesse mundo, fazer um piquenique com .

Ele fez suspense o caminho todo. Não queria dizer para onde iriam, mas afirmou ser um lugar especial. E era mesmo. Apesar de ser afastado da cidade, não demorou para que chegassem lá. Era um bosque de grama verde e vista para toda a cidade de Nova Orleans. Era possível ver tudo ali de cima. E para melhorar, uma grande árvore fazia uma enorme sombra, pronta para aliviar o calor daquele dia. não poderia estar mais encantada com ele.

Surpreendentemente, conversaram de tudo. Tudo mesmo. Dividiram histórias da infância, falaram sobre sua família, amigos e planos para o futuro. até mesmo se deixou discutir política com ele, coisa que jamais faria com qualquer outra pessoa. Ela estava surpresa consigo mesma. Estava conversando, com um homem que conhecia há tão pouco tempo, coisas que guardou durante sua vida inteira. Ele passava tanta tranquilidade e compreensão que ela se sentia segura em dividir com ele todos os dilemas de sua vida.

E eles riram. E sorriram. E comeram. Ele fez piada com o alface preso entre os dentes dela. E ela riu quando ele colocou um outro pedaço entre seus próprios dentes, para que ela não se sentisse desconfortável. Observaram a cidade, sentiram a brisa leve da tarde brincar com seus cabelos. E sei beijaram. Um beijo simples e delicado, porém muito significativo para os dois.

A intenção dele era a mesma que tivera com as outras, mas ele não podia negar que estava se sentindo diferente. Liberto. Era uma sensação estranha, mas ele gostava. Via nos olhos dela que não havia nenhum tipo de interesse e muito menos uma vontade exagerada de conquistá-lo, como todas pareciam ter. Pela primeira vez ele sentia que não precisava ser o conquistador inabalável e muito menos o futuro administrador da maior confecção de calçados de toda Louisiana. Ele poderia ser apenas ele.

Desejou que aquele momento durasse para sempre.
Ele não sabia, mas seu desejo se tornaria realidade.

Ele teve a oportunidade de beijá-la muitas outras vezes. Teve a chance de tomar café da manhã, almoçar e jantar com ela muitas outras vezes. E por muito tempo, os momentos juntos eram sua parte preferida do dia. Mas depois de quase uma década, toda essa animação e entusiasmo se tornou extremamente raro.

Já fazia tempo que não conversavam como conversaram aquele dia. Era sempre apenas o necessário. "Mais suco, querido?", "precisa que eu traga algo quando voltar a noite, querida?", "como estão as coisas no trabalho, querido?" e coisas que nunca fugiam desse tema.

Os olhos misteriosos dela agora eram apenas olhos frios; o toque energético dele agora era apenas um toque; os lábios dela já não continham mais nenhuma novidade; o sorriso dele já não a fazia tremer e o dela poucas vezes era genuíno; o corpo dela que antes era coberto por tecidos fluídos, agora estava sempre atrás de algum avental; a cumplicidade e companheirismo que era a principal característica de seu relacionamento agora pouco era visto.

Nenhum deles se arrependia.
Diziam se amar apesar de tudo.
E sabiam que é o que acontece com todo mundo.
Depois de um tempo, o que atraía passa a não atrair mais.


Capítulo 2 - Os Anos

De vez em quando, se pegava pensando no dia do seu casamento.

Nas preparações. No vestido branco que fora de sua mãe e usado por Holland. Nas lágrimas nos olhos de seu pai por estar casando sua caçula. No rosto alegre de April, sua amiga, que também planejava se casar com Jason, aquele que lhe arrancou um riso imitando a velha June nos cultos de domingo. E na sensação esquisita de que sua vida estava completa.

Aquilo a intrigou por muito tempo.

Estava feliz, é óbvio, foi escolha sua se casar com . Sentia que sim, havia encontrado sua alma gêmea, sua metade da laranja, o amor de sua vida. Dentro de si ela tinha essa certeza. Mas pensar que sua vida seria só isso a incomodava. Sabia que a pressão para se casar, depois de casada, se tornaria pressão para ter filhos e filhas. Mas ela tinha planos.

Queria viajar o mundo ao lado de , antes que ele ficasse responsável pelo negócio da família. Queria tirar fotos na Itália, Paris, Espanha e todos os lugares românticos do qual sempre ouviu falar. E conseguiu fazer tudo isso. Agora, folheando os álbuns de fotografia, se lembrava de todos os comentários que ouviam por todos os lugares onde passavam.

Na Espanha, o auxiliar do conciérge do hotel, um rapazinho de dezesseis anos, disse que queria se apaixonar da mesma forma que eles. Na Itália, a caminho de um restaurante, foram parados por uma jovem moça pedindo para tirar uma fotografia deles, pois pretendia lançar um livro com imagens de casais que irradiavam o amor que sentiam um pelo outro.

Na primeira foto, os dois apareceram sorrindo, lado a lado, radiantes. Na segunda, um beijo singelo misturado com um sorriso fez os olhos da moça brilhar. Vocês são uma inspiração, ela disse com um sorriso largo na boca.

Em Paris, enquanto tentava ensinar a dizer "pomme", com direito a beijinhos e uma risada da parte dele todas as vezes que ela fazia biquinho para tentar dizer que queria uma torta de maçã com canela como sobremesa, o garçom tinha um sorriso bonito nos lábios, vendo o carinho com que tratavam um ao outro.

Sua mente passava por todos esses momentos e não tinha como não pensar em como as coisas haviam mudado. Toda essa paixão que eles demonstravam para quem tivesse olhos pra ver parecia já nem existir mais. Ele não a beijava mais com tanto fervor, não a puxava mais para dançar quando uma música romântica passava no rádio, não sorria pra ela sem motivo durante o jantar, nem mesmo dormiam como antes.

Ela se lembrava vagamente das vezes em que precisava se levantar durante a madrugada para ir ao banheiro. Travava uma luta com o braço de , que se recusava a sair de sua cintura, o que causava uma crise de risos nos dois e olhares brincalhões, antes de ele finalmente deixá-la ir a tepo de não passar o constrangimento de molhar a cama — mas na volta lá estava ele de novo, a abraçando e se afogando nos cabelos dela.

Isso, sem contar todas as outras noites em que a madrugada era bem mais agitada do que uma ida ao banheiro e um ataque de risos.

Ela nunca se esqueceu dos corpos quentes e suados, das mãos dele desvendando os segredos escondidos durante anos, os beijos, o toque dele. Seu cabelo desgrenhado, os sorrisos cúmplices, a tensão do amor no ar. As respirações ofegantes, a eletricidade que um causava ao outro, a intimidade que apenas eles poderiam desfrutar.

Não podia negar, era a parte preferida de todo o seu dia.

Sabia que muitas outras mulheres puderam ter esse mesmo contato com ele, mas se sentia feliz por ser a única a poder fazer isso pelo resto de seus dias. Apesar da reputação ruim de seu marido, ela acreditava profundamente que ele havia mudado para a melhor em nome do amor que sentiam um pelo outro. Sentia pena daqueles que ainda duvidavam disso. Como sua mãe.

Quando voltaram da lua de mel, sua mãe disse que queria almoçar com toda a família no domingo, depois do culto. Estou com saudade das minhas meninas, ela disse ao telefone com um ar quase melancólico. Mesmo desejando ir embora de casa durante quase toda a sua adolescência, sentia muita falta de casa. Mal podia acreditar que ela menina que passava noites em claro conversando com a irmã mais velha no quarto em que dividiam estava finalmente casada.

O almoço correu bem, menos pelo fato de que sua mãe parecia ter mais interesse na vida de Holland do que na sua. "Como estão as coisas em casa, querida?", "Quer mais batata, Steven?", "Como vai aquela sua vizinha, Holland, a Donna?", "Precisa de ajuda com alguma coisa?", "Se precisar, me ligue, sabe que posso ajudar!", "Pegue mais um bife, Steven!". ? Nada.

Sabia que sua mãe nunca fez muito gosto de seu casamento. achou de se casar exatamente com aquele que sua mãe sempre lhe disse para manter distância. Não tinha culpa de ter se apaixonado por ele, era o que ela queria dizer, mas como sempre, preferia ficar calada. era um homem bom, carinhoso, respeitoso, não deixava faltar nada em casa. Não se importava se as pessoas não quisessem enxergar, ela se sentia plenamente feliz com ele.

Da cozinha, onde ajudava a irmã a lavar a louça depois do almoço, enquanto Steven e conversavam animados na sala de estar, conseguia ouvir as vozes de seus pais irem uma contra a outra na sala de jantar.

— Precisa ser mais gentil com ele, Mae!
— Não me peça isso, Billy. — ela dizia baixo, mas feroz — Você sabe bem como é esse rapaz. As coisas que ele fazia!
— Mas agora ele é esposo da nossa filha, nosso genro.
— Eu me recuso a chamá-lo de genro. Olhe para Steven! Um moço bom, de boa índole, boa família. Nunca esteve na boca de gente.
— Está certo que nunca fora um exemplo de rapaz, mas ele mudou, querida. Ele trata nossa filha como uma rainha.
— Ele passou pela mão de todas as vagabundas de Nova Orleans antes de chegar a ela. merecia mais do que isso, muito mais.
— Isso é escolha dela, Mae, não nossa. Se ela se apaixonou por ele e o escolheu como marido, então confio em sua decisão.
— Billy...
— Por favor, meu amor, só estou lhe pedindo um pouco de compreensão. — a voz dele estava mais baixa, mas ainda era possível ouvir — Não dirigiu uma palavra sequer ao rapaz desde que ele passou por essas portas. Não viu como parecia chateada? — depois de alguns segundos de silêncio, ela voltou a falar.
— Não sei se consigo fazer isso, Billy, não depois de todas as coisas que já ouvi a seu respeito. Você sabe.
— Ele sempre lhe tratou com respeito e gentileza, não? Hoje ele lhe trouxe um buquê de flores. Há quantos anos eu mesmo não lhe trago um buquê de flores?

ouviu a risada dos dois, mas permaneceu a fingir que ouvia o que Holland dizia. A voz de sua mãe agora estava abafada, o que significava que seu pai a havia abraçado. Agradeceu internamente por ter um pai tão incrível. Ele sabia como ela se sentia mesmo que ela não dissesse uma palavra.

Mais tarde, depois de secar toda a louça e a guardar, viu sua mãe entregar a uma xícara de café junto com um sorriso. Viu seu marido sorrir em troca, com os olhos mostrando a surpresa que todos ali tiveram. Do outro lado da sala, segurando sua própria xícara de café, viu seu pai lançar a esposa uma piscadela. Ela se lembrou novamente de como sentia falta de casa.

No mês seguinte, finalmente se tornou o principal responsável pela 's. Uma grande festa foi dada na antiga mansão dos e se viu completamente estarrecida quando sua mãe abraçou o genro com um sorriso genuíno no rosto, como se tivesse acabado de ver o próprio filho se tornar um homem de negócios. Aquilo a deixou aliviada por dentro. Saber que sua mãe agora apoiava seu casamento tirava um grande peso de suas costas.

A foto que foi tirada do casal nesse dia estava pendurada na parede da sala de estar de sua casa, com mais destaque até do que a própria foto do casamento.

Ambos estão sorrindo. Ela encostou suavemente sua cabeça no ombro dele e colocou sua mão direita na cintura, agarrando entre os dedos o tecido macio do paletó azul petróleo que ele usava aquela noite. A gravata vermelha, de algum jeito, fazia com que ele ficasse ainda mais bonito do que já era.

Na mão direita, ele segurava a taça cumprida com champanhe pela metade, mostrando que aquela era uma noite de festa. A esquerda estava na cintura dela e, com sua mão grande, ele quase cobriu todo o detalhe em dourado que dava o charme do vestido azul que ela usava.

guardava a foto porque sempre se lembrava do que aconteceu a seguir.

Depois que o fotógrafo bateu a foto, como nos filmes, ele a inclinou para trás em seus braços e a beijou apaixonadamente, fazendo com que todos os presentes batessem palmas animadas e surpresas pela cena romântica que estava bem diante de seus olhos. Todos concordavam que aquele casal era um dos mais bonitos e mais improváveis que Nova Orleans já viu. Pareciam ter saído direto das telas de cinema de Hollywood.

Ela chegava a suspirar sempre que se lembrava disso.

Agora, nove anos depois, aquilo tudo não passava de uma mera lembrança que ela guardava com carinho nas estantes de sua mente e no álbum que estava em seu colo naquele mesmo instante. Não se lembrava há quanto tempo havia recebido um beijo surpresa daqueles. Os seus lábios, de vez em quando, ainda encontravam os dele. Mas num mero beijo de boa noite ou quando o beijo antecedia os momentos em que ele era o marido e ela a esposa.

Pensar naquilo incomodava, então ela apenas se ajeitou na poltrona, pronta pra deixar seu cérebro viajar por outra coisa que não fosse o seu casamento fracassado e frio. Ouvindo as crianças brincando do lado de fora da rua onde morava, ela virou a página do álbum e se deparou com a foto tirada por seu pai no jantar de Ação de Graças de 1951, quando tinha um ano de casada.

Ela parecia ao lado de Holland, ambas sorrindo largamente, abraçadas, enquanto a mão da caçula está pousada cautelosamente sob' a barriga da mais velha. Ela se lembrou vividamente daquele dia.

A casa da família nunca acomodou tanta gente ao mesmo tempo. Além dos , os Dolan, a família de Steven, também estava presente. A árvore de natal estava imponente, toda iluminada e enfeitada ao lado do sofá, numa declaração formal de que o Natal estava chegando. Antes do jantar, Holland foi a escolhida para fazer a oração e, ao redor da grande mesa farta, todos deram as mãos e inclinaram suas cabeças para agradecer.

— Senhor meu Deus, Maravilhoso Pai, quero agradecer por esse momento, pelas pessoas presentes nessa mesa e pelo alimento que nunca nos faltou. Agradeço por ter nos cuidado, guardado e abençoado por mais um ano e por ter nos tornado uma só família, cheia de amor e comunhão. E peço, especialmente, que o Senhor esteja conosco nessa nova fase da nossa vida, onde mais um membro da família está a caminho. Em nome de Jesus. Amém.

Foi inevitável. Todos estavam de olhos arregalados assim que Holland terminou a oração, com um sorriso largo nos lábios e um olhar cúmplice com Steven. A primeira a pular foi a sogra, radiante com a notícia de que seria avó. Mae, por sua vez, estava estarrecida, segurando na cadeira a sua frente provavelmente para não cair. O sorriso no rosto de Billy, porém, era igual ao da filha.

— Jesus, minha filhinha está grávida!

Mae começou a chorar em meio a um sorriso, sendo abraçada pela primogênita. estava feliz, claro, seria titia. Mas, por algum motivo, a comida aquele dia tinha um gosto meio amargo. E aquele gosto amargo voltou a sua garganta no mesmo instante em que viu aquela foto.

Algum tempo depois, quando a pequena Olivia já engatinhava pelo carpete da casa da avó, percebeu a forma com que olhava para o bebê. Via em seus lábios o sorriso que aparecia quando Steven começava a brincar com a filha e em como vibrava quando a pequenina conseguia dar alguns passos antes de bater a bundinha protegida pela fralda no chão e gargalhar como se aquela fosse a coisa mais engraçada do mundo.

queria ser pai.
Mas não podia ser mãe.

Foi o que ela descobriu depois de algumas tentativas fracassadas, fazendo exames com os melhores especialistas e tomando todo tipo de remédio possível.

era estéril.

Não poder dar um filho ao seu marido era o fardo mais pesado que ela já carregou. E, mesmo morando numa cidade enorme, as notícias se espalhavam mais rápido que fumaça. Sempre que colocava os pés na rua, era recebida com olhares de pena, compaixão. Odiava-os. Não queria ser vista como a coitada que não podia engravidar, ela era muito mais que isso.

Era uma boa filha, uma boa irmã, uma boa cunhada, uma boa tia, uma boa esposa. Cuidava de seu homem, lavava suas roupas, limpava seus sapatos, fazia suas comidas favoritas, cumpria seu papel como mulher dentro de casa. Só porque não podia ter um filho, não quer dizer que era uma mulher amargurada.

Mas não podia negar que a frase que lhe apunhalou pelas costas aquela manhã, quando voltava do mercado com alface, leite e verduras na sacola, ficou gravada em sua mente mais do que todas as lembranças que guardava:

— Não é atoa que o marido passa mais tempo com a secretária no trabalho do que com a esposa. Se não pode ser pai em casa, então vai ser pai fora dela.

Disse Theresa, a velha viúva na janela da casa da frente.


Capítulo 3 - A Descoberta

O cheiro dos biscoitos recém-saídos do forno o alertava de que estava chegando em casa. Era tão bom que, certa vez, um trio de crianças bateu na porta perguntando se vendiam. "Melhor, eles são de graça!", respondeu com um sorrisão já colocando os dois meninos e a menina para dentro.

assistiu a cena com o coração apertado e o choro travado na garganta. O jeito com que tratava aquelas crianças a machucava demais. Sabia que ele, no fundo, se sentia triste por não poder ter um filho, mas ele sempre tentava contornar os momentos de tristeza da esposa com um sorriso largo e um abraço que dizia "tudo bem", mesmo que nada estivesse bem.

Os quatro, e as três crianças, filhos dos vizinhos que estavam sempre brincando na frente de casa, devoraram os biscoitos em poucos minutos, claro, acompanhado pelo leite. Era o clássico biscoito com leite. se sentia feliz por dividir aquele momento com aquelas crianças. Era sua parte preferida do dia.

Ele chegava em casa sempre quando eles estavam saindo do forno. Dava um beijo na testa da esposa, corria para o banho, colocava uma das milhares de calças que tinha, uma camiseta branca e penteava seus cabelos para trás, como sempre usava. Voltava para a cozinha e, na mesa, seu prato com quatro biscoitos e um copo de leite já estavam lá. E então se sentavam. Ele com seus biscoitos e ela com uma revista qualquer em mãos.

— Como foi no trabalho hoje? — ela costumeiramente perguntava.
— Tudo correu bem, como sempre.

Neste tópico, de vez em quando, ele comentava alguma estática que mostrava o progresso da confecção, ao que ela sempre respondia com um sorriso singelo e um "isso é muito bom". Nos últimos tempos, ele começou a passar mais tempo no trabalho. Havia expandido os negócios e já havia aberto lojas em outros estados do país como Mississipi, Texas, Arkansas, Alabama, Oklahoma e outros. Por isso, pra evitar a solidão, ela sempre passava na casa de sua mãe ou de sua irmã. Sabendo disso, ele perguntava:

— Foi ver sua mãe hoje?
— Hoje não, mas pretendo ir essa semana.

E então se afundavam em um silêncio que, nos primeiros anos foi bastante incômodo, mas que agora também já fazia parte da rotina. Os olhos dele já não procurava mais os dela pra dizer quão bons estavam os biscoitos, da mesma forma que ela deixou de ficar feliz em ouvir isso. Hoje, porém, houve uma pequena quebra de protocolo.

— O que está lendo? — ele perguntou, parecendo genuinamente interessado.

Ela encarou a página do artigo e sentiu seu coração acelerar um pouco. "Como descobrir se seu marido está te traindo" era o que ela lia e, para o seu desgosto, descobriu que seu marido se encaixava em alguns exemplos listados ali. Sabia que não devia acreditar em algo publicado apenas para manter as donas de casa com a mente ocupada, mas não podia negar o que sentia ao ler aquilo ali e observar as atitudes de .

Ele se perfuma demais? , ultimamente, tem usado bastante perfume antes de sair pra trabalhar. Como sempre, não questionou. Ele demora mais que o normal pra chegar em casa depois do trabalho? Muitas reuniões andam acontecendo no trabalho, mas não questiona, afinal, ele sempre tem muito trabalho na confecção. De repente, ele não tem mais tanto interesse em você? Ela percebeu que, nos últimos tempos, ele já não a procurava mais com tanta frequência quanto antes. Estava sempre muito cansado por causa do trabalho. Ao mesmo tempo, demonstra afeto repentina e exageradamente? Bom, isso não estava acontecendo já há algum tempo. Não que isso tenha tirado a pulga detrás da orelha de .

— Só uma receita. — ela respondeu, fechando a revista. — Gosta de rosbife?
— Sim.

Fim de conversa e a revista foi parar na gaveta da penteadeira, por debaixo de vários itens de maquiagem e trancado com chave. Estava decidida a tirar aquela dúvida da cabeça, pois não conseguia viver desconfiando do marido por causa de uma fofoca qualquer de vizinhança. Sabia que Theresa falava demais, mas se ela falava é porque tinha motivos pra falar. nem dormiu aquela noite. Estava decidida a procurar um detetive assim que fosse trabalhar.

Ás dez da manhã, o barulho de seu salto já ecoava pelas ruas de Nova Orleans e, depois de fazer uma horinha no café de frente ao escritório do melhor detetive da cidade, quando ninguém estava olhando, ela abriu a porta e subiu rapidamente a escadaria, temendo ser vista por alguém.

O barulho da porta se abrindo de supetão assustou o pobre detetive, que estava concentrado em suas anotações. Mas ao ver a beleza daquela mulher por detrás de seu peito ofegante e o olhar suplicante, ele rapidamente se esqueceu do que estava fazendo antes. Nunca havia visto alguém com uma beleza tão estonteante como a dela, mas a aliança dourada em seu anelar dizia o que já era previsível: ela era mulher de outro homem.

— No que posso ajudar? — ele se levantou, ajeitando o paletó e o chapéu.
— Receio que meu marido esteja me traindo.

Claro que não era a primeira vez que Gustav ajudava mulheres traídas a descobrir os segredos de seus maridos, mas dessa vez se viu verdadeiramente indignado. , como descobriu ser o seu nome, não merecia ser trocada por qualquer outra. Além da beleza exterior, ele podia ver que ela também era muito bonita por dentro. Nos poucos minutos que permaneceu com ela, Gustav percebeu o quão gentil, dedicada e inteligente ela era.

— Ele trabalha na empresa da família. 's. Conhece? — ela o encarava sentada do outro lado da mesa dele enquanto eles conversavam sobre a situação.

Mas é claro que conhecia. Quem nunca ouviu falar de nessa cidade? Ele era conhecido por todos já há muitos anos atrás e, agora, não estava surpreso por estar ali. Conhecia muito bem as histórias que deixava espalhada pela cidade e sabia que, hora ou outra, iria acabar voltando as raízes. Como sua avó costumava lhe dizer, cachorro de rua nunca larga os velhos hábitos.

— E então, pode me ajudar? — ela o questionou depois de passar todas as informações sobre o marido para o detetive. Ele encarou bem fundo nos olhos dela e sabia que ela precisava disso.
— Sim, claro. Se seu marido estiver te traindo, eu vou descobrir.

voltou pra casa parecendo estar flutuando em nuvens. Só de saber que logo teria respostas para todas as suas perguntas, seu dia pareceu ficar mais leve. Mas teve uma surpresa inesperada quando abriu o portão. Viu debruçado sobre o carro na garagem, com as mangas da camisa arregaçadas e as mãos sujas de algo preto. Havia um rapaz com ele de, no máximo, dezessete anos.

— Ah, querida, aí está você!

Ele veio sorridente até ela, lhe dando um beijo como há muito tempo não dava, claro, com as mãos afastadas. Não queria fazer um desastre nas roupas de sua esposa. se lembrou do artigo da revista, onde dizia que a demonstração repentina de afeto e em excesso depois de um longo período de desinteresse era um dos sinais de traição. Check!

— Onde estava?
— Eu fui... Fui tomar café com, ahn, Holland. Estava com saudades de Olívia.
— Mas conseguiu vê-la? Olivia não deveria estar no colégio uma hora dessas? — ele olhou em seu relógio de pulso, com um sorriso confuso nos lábios. olhou ao redor, como se alguém pudesse aparecer do nada e revelar sua mentira descarada.
— Sim, claro. Eu havia me esquecido desse detalhe. Mas foi bom conversar um pouco com minha irmã, de qualquer forma.
— E Steven, como está? — ela se sentia péssima em mentir, mas era necessário. Havia se lembrado porque gostava de guardar as palavras dentro de si. Ele já estava debruçado sob' o carro de novo, mas ainda esperando uma resposta.
— Está ótimo. Mandou... Um abraço.
— Ótimo rapaz, esse Steven.

percebeu que agora ele falava com o rapaz ao seu lado, também debruçado em cima do carro, parecendo muito concentrado. Ao contrário de , não só as mãos dele estavam sujas de graxa, mas toda a sua roupa. Ao perceber ela encarando, o mocinho sorriu sem jeito e ficou de frente pra ela.

— Perdoe minha indelicadeza, senhora. Sou Carlo, ajudante do Sr. Mark. Ele não estava bem disposto, por isso vim ajudar o Sr. a concertar o carro. É um prazer conhecê-la. — ele tirou a boina e inclinou a cabeça levemente. Ela também inclinou a cabeça por um segundo, achando graça.
— Muito prazer, Carlo. Não devia estar estudando uma hora dessas? — ela se sentiu a vontade para perguntar, fazendo-o ficar um pouco vermelho.
— Sim, senhora. Mas na falta do Sr. Mark, tive que faltar a aula para ajudar o Sr. . Faço isso com o maior prazer, admiro muito seu esposo. E não se preocupe, eu posso repor a aula depois.
— Creio que irá lhe recompensar mais tarde por esse sacrifício, não é, querido? — ela pôs a mão no ombro do esposo, que sorriu largamente.
— Claro que sim. Carlo é um bom rapaz.

Mais tarde, no almoço, se sentiu muito feliz ao ver Carlo se lambuzar com o rosbife, tecendo elogios a cada minuto. já havia falado muito daquele rapaz e só agora ela podia ver o por que. Ele era um menino muito gentil, educado, honesto e trabalhador. Apesar de saber que foi um erro ele ter faltado á aula só para ajudar , entendeu que esse era um sacrifício que só quem precisava tinha de fazer. Admirou o garoto ainda mais.

Enquanto lavava a louça, para se distrair, gostava de ligar o rádio e ouvir as músicas que estava fazendo sucesso no momento, mas naquele dia ela preferiu ouvir a conversa dos dois na sala de estar, que não era muito longe.

— E então, como estão as coisas com Tessa? — ouviu perguntar com um certo tom de malícia na voz. Carlo riu, meio nervoso.
— O senhor sabe como é complicado. Os pais dela jamais me aceitariam. Eu sou pobre, ajudante de mecânico, não tenho nada a oferecer a ela.
— Se vocês se amam de verdade, devem lutar por isso. — quase se permitiu sentir uma pontadinha de orgulho ao ouvir o marido falar. Só não sentia porque sabia que aquilo poderia não passar de uma frase encorajadora para o rapaz apaixonado e não servir de nada para ele. Manteve os ouvidos atentos.
— Nós temos nos encontrado em segredo. — Carlo confessou e sentiu medo na voz dele. Sentiu vontade de abraçar o garoto e proteger o garoto.
— Então seguiu o meu conselho? — parecia se divertir. — Naquele mesmo lugar que te falei?
— Sim, ás margens do Rio Atchafalaya, como o senhor me falou.

Se não segurasse bem, teria derrubado um prato no chão. Não se lembrava de nenhum momento em que foi levada ás margens do Rio Atchafalaya por , nem mesmo sabia que isso era possível. Sentiu uma pontada no coração e segurou a vontade de quebrar o prato, agora intencionalmente.

Se ele não foi lá comigo, só pode ter sido com outra. O que outra coisa ele teria que fazer num lugar secreto, onde um casal de adolescentes se encontra ás escondidas? Sua mente viajava para vários lugares e possibilidades diferentes e cada uma delas a machucava ainda mais.

Naquela noite, ficou de costas para o marido na cama, mas não pregou o olho.

Três dias depois, depois do café da manhã, junto com as correspondências, recebeu um bilhete escrito por uma mão apressada que quase não a deixou desvendar o que havia escrito nele. Pela assinatura no final do papel, era um bilhete de Gustav. Seu coração começou a querer pular para fora de seu peito. Segurou a respiração e deixou que seus olhos passassem por cada palavra e seu cérebro juntasse as frases.

"Já tenho a resposta que a senhora queria.
Estarei em meu escritório ás 14hrs dessa tarde.
Não se atrase.
Gustav."


Ao mesmo tempo em que queria ir, não queria. Sabia que seu encontro com Gustav daria um fim ao seu sofrimento ou seria apenas a ponta do iceberg. Mas quando percebeu, já estava abrindo a porta do escritório dele, escondida atrás de de seu pequeno chapéu. Subiu as escadas num fôlego só e, quando chegou, viu uma xícara de café esperando por ela. Não sabia se aquilo significava algo bom ou ruim. Na dúvida, sentou e golou tudo de primeira.

— Ele está me traindo, não está? — ela perguntou quase engasgando, sentindo o choro já na garganta. Mas não iria chorar. Pelo menos não na frente de um homem que conheceu há menos de uma semana.
— Acalme-se, Sra. . Eu trouxe o café para tentar relaxá-la, mas já acabou com ele. — ele tentou fazer graça, mas não obteve sucesso. Em silêncio, colocou seu café intocado na frente dela.
— Vamos, Gustav, me diga de uma vez. Esperei tempo demais pra isso.

De dentro de uma gaveta, ele pegou um envelope marrom e colocou na frente dela ao lado do café e ficou com os olhos presos nela. Ela odiava aquele suspense então, sem hesitar e sem olhar muito para o homem a sua frente, abriu o envelope e tirou lá de dentro várias fotos. Ela encarou Gustav, que a olhava preocupado, e voltou a encarar as fotos. Fotos que a fizeram desejar ser completamente cega.

Na primeira, parecia sorrir durante o beijo que dava em uma morena de cabelos longos e braços cumpridos. Reconheceu a secretária que havia conhecido nas poucas vezes que fora ao escritório do marido. reparou que ele agarrava a cintura dela da mesma forma que costumava agarrar a sua. As mãos dela enterradas no cabelo dele na foto seguinte a incomodou profundamente. E pior foi ver as mãos dele apertando uma coxa que não era a sua nas três fotos seguintes.

As últimas fotos foram a facada final. Ela já estava sem saia e ele parecia estar completamente inundado por aquele momento. também percebeu que o lugar parecia ser o que ele e Carlo haviam conversado outro dia. Dava pra ver o Rio, algumas árvores e a lama que apareceu nos sapatos dele, inexplicavelmente, dois dias atrás. Agora tudo fazia sentido.

As reuniões, as horas extras no trabalho, a falta de interesse por ela e, de repente, o mar de declarações de amor. sentia nojo só de pensar que a mesma boca que a desejou boa noite na noite anterior passou por outra e com o mesmo fervor que ela já não mais conhecia. Ela se sentia humilhada, rejeitada, suja, descartável, inútil e vazia. Completamente vazia.

Queria gritar. Abrir a boca e deixar que todos os sons dentro dela saíssem e tomassem vida fora dela. As lágrimas vinham e estava difícil segurar. Seu coração estava acelerado dentro do peito, as mãos tremiam dentro das luvas e o chapéu já não estava em sua cabeça, talvez depois de tanto balançar a cabeça em negação ao que seus olhos testemunharam aquela tarde.

Não se lembrava de Gustav até sentir os braços dele ao seu redor, num abraço reconfortante de alguém que já havia presenciado aquela cena milhares de vezes e sabia bem o que fazer. Ela não recuou. Jogou os braços ao redor do pescoço dele e chorou em seu ombro. Sem vergonha nenhuma, ela deixou que todos os sentimentos embaralhados dentro dela saíssem pelos olhos. Seu coração parecia uma bolinha de gude dentro de si de tão apertado que estava.

— Não deixe que isso defina quem você é, Sra. . A senhora é completamente encantadora, não merecia passar por isso.

A voz de Gustav passou por seus ouvidos e foram direto para o seu coração. Sentiu um grande afeto pelas palavras do rapaz e desejou profundamente tê-lo conhecido antes. Mas, claro, ela não lhe disse isso. Sorriu, antes de abrir a bolsa e tirar um bolo de dinheiro e entregar em sua mão. Seus olhos demonstravam a gratidão que sentia por seu trabalho.

Ainda em silêncio e com todos os pensamentos borbulhando em sua cabeça, nem se importou se seu delineador estava borrado. Levantou o queixo, estufou o peito e andou como se não estivesse completamente quebrada por dentro. Ninguém precisava saber o caos que havia se instalado em si. O olhar curioso de Theresa estava sobre si quando passou pelo portão, subindo os poucos degraus que separavam a rua do piso marrom de sua casa.

Ainda segurando o orgulho firmemente, fechou as janelas, trancou a porta da frente e se jogou no chão em prantos, agora sentindo todos aqueles sentimentos embolados tornarem-se vários do mesmo tipo: raiva, remorso e arrependimento.

Lembrou-se do dia do seu casamento. De como estava feliz, esperançosa, ansiosa por sua nova vida. Lembrou-se da noite de núpcias, da sua entrega, de se sentir apreciada, valorizada. Lembrou-se de ele lhe dizendo o quão linda ela era, que era viciado nela e que jamais iria trocar o amor que sentiam por qualquer coisa desse mundo. Agora se sentia apenas burra, burra, burra.

E então ouviu a voz de sua mãe na sua cabeça.

Sabia exatamente o que ela iria dizer quando soubesse daquilo. Sabia que seria uma grande decepção. Mae abriu mão do que acreditava para dar uma chance a de mostrar ser diferente de quem ela conhecia. Mas não poderia ouvir um "eu te avisei". Seria doloroso demais. Já bastava viver com a imagem daquelas fotos gravadas em sua mente pra sempre.

, querida, está em casa?

Foi então que ela percebeu que era real. Sua mãe estava batendo na porta.

Rapidamente correu para o quarto e tirou as luvas brancas manchadas de preto pela maquiagem. Jogou os saltos para o alto, jogou o chapéu em cima da cama e arrancou todos os grampos do cabelo. Jogou o roupão por cima da roupa e fez a melhor cara de sono que seu rosto inchado do choro permitia.

— Te acordei, meu amor? — Mae perguntou abrindo as janelas depois de ter abraçado brevemente a filha assim que entrou. se sentou no sofá, onde minutos atrás estava escorada, chorando. Era estranho como ela se sentia uma completa estranha dentro de seu próprio corpo.
— Eu já estava me levantando.
— Não dormiu bem essa noite? — a mãe perguntou com um olhar cúmplice, sentando-se em uma das poltronas. — Os primeiros anos são os mais cansativos. Depois tudo se acalma, prometo.

quis rir. Seria cômico se não fosse trágico. Menos de um ano de casamento e tudo já estava indo por água abaixo. Ela sonhava com um casamento como o de seus pais, que já durava firme e forte há trinta nos. A vida sexual deles provavelmente era mais ativa que a sua. balançou a cabeça levemente, para espantar os pensamentos. Abriu um sorriso para a mãe, engolindo as palavras e a vontade de chorar em seu colo.

— Ah, eu trouxe os acônitos! — a mais velha exclamou, colocando o pequeno vaso de barro com a planta em cima da mesa de centro, ao lado das revistas. — Se lembra que, quando criança, gostava de ouvir as histórias sobre eles?

No mesmo instante, sentiu uma lâmpada se acender acima de sua cabeça. Lembra que sua mãe lhe contava que sua avó, imigrante espanhola, gostava de cultivar acônitos. Não só pela beleza e pelas cores vivas das pétalas da planta, mas pelas duas facetas: apesar de transparecer delicadeza, os cônitos costumavam ser bem perigosos. Até mesmo fatais.

Quando lembrou da história do pobre Imperador Cláudio, que quase morreu envenenado por sua própria esposa, Agripina, depois de ela despejar um acônito em um prato de cogumelos, teve de segurar um sorriso. Ah, Agripina, se você os triturasse e colocasse na massa de biscoitos, talvez ele não teria percebido.


Capítulo 4 - A Vingança

1960.
Um novo ano estava a poucas horas de chegar. Todos estavam muito animados e ansiosos para saber o que esse novo ano estava reservando.

Os estudantes estavam aproveitando os poucos dias do feriado, pois logo teriam de enfrentar mais um ano de estudos. Para as crianças, a festa de ano novo era uma ótima desculpa para a baderna. Para os solteiros, o maior desejo era finalmente se casar nesse novo ano. Para os casados, era mais um ano juntos que tinham pela frente, rumo ao pra sempre.

estava encaixada nesse último grupo, mas longe de qualquer entusiasmo.

Era o ano em que completaria dez anos de casamento — na nova década, a década mais importante da sua vida se constituiria. Mal podia acreditar que havia passado dez anos ao lado de alguém que ela sentia nem conhecer mais. passou de marido á estranho num piscar de olhos, naquele mesmo instante em que as fotos revelaram a ela que o homem a quem ela se entregou não era quem ela pensava. Mas não deixaria que soubessem disso.

havia feito um trato consigo mesma: precisava, mesmo contra toda a sua vontade e tentando engolir a repulsa que passou a sentir do marido, parecer normal. Não rejeitava seus abraços, beijos e declarações descabidas de amor. Mesmo sentindo no pescoço dele o cheiro de um perfume que não era o seu, ela fingia não sentir. Engolia o orgulho e se lembrava das plantinhas roxas sendo cultivadas no jardim.

No dia 31 de dezembro de 1959, numa quinta-feira gelada e branca de inverno e, para , alegre de um jeito meio bizarro, seus olhos não podiam acreditar na mesa enorme que sua mãe havia preparado. Tudo aquilo poderia alimentar um batalhão inteiro, mas não achou ruim. Alguém ali precisava saborear todas as comidas que lhe fosse possível. Afinal, nunca se sabe quando vai ser a última vez que você poderá comer uma salada de batatas ou um porco suculento.

— Tia, quer ver a boneca de pano que vovó fez pra mim? — Olivia, uma miniatura de Holland quando era criança, pegou na mão de com um sorriso largo nos lábios. A mais velha sorriu. Amava aquela menina de forma descomunal.
— Claro. Vamos lá!

Entraram no quarto que antes era dela e da irmã e se deparou com uma montanha de brinquedos que nunca na vida poderia ter. Achava engraçado como as crianças gostavam de colecionar bonecas, mesmo que todas elas fossem extremamente parecidas umas com as outras. Mas a boneca de pano era linda. Ruivinha como Olivia, tinha os lábios grossos que havia puxado da mãe e os olhos amendoados do pai. Até vestia uma jardineira vermelha, como a que Olivia gostava de usar. Sua mãe sempre teve muito talento com a agulha.

Por um segundo, se pegou pensando em como sua filha iria se parecer se tivesse o sorriso largo e encantador do pai e o nariz fino dela. Os cabelos ondulados como os do pai e os olhos redondinhos, como os de uma boneca, que lhe pertencia. Como sempre, quando pensava em filhos e se lembrava que não poderia tê-los, balançou a cabeça levemente, afastando aqueles pensamentos.

Sabia que iria sentir muito falta de sua sobrinha.

— Eu te amo, Liv. — disse baixinho quando puxou a menina para um abraço, segurando as lágrimas. A menina pareceu meio confusa, mas abraçou de volta.
— Também te amo, tia. E também gostei muito do seu perfume. Qual é?

Céus, Olivia já tem nove anos!, pensou alarmada, mas feliz. Ela estava se tornando uma mocinha. Era uma pena não poder presenciar isso.

Durante o jantar, como uma premonição, comia como se fosse o último dia de sua vida. Como sempre, não se envergonhava em elogiar a boa mão da sogra para a comida, que sempre o deixava estufado no sofá. Não se esqueça de deixar espaço para os biscoitos, pensou em dizer, mas resolveu guardar para si. Queria que aquele dia parecesse um dia normal.

Por isso abraçou a mãe, que estava sentada ao seu lado, quando Holland convidou os pais para uma viagem de uma semana para Veneza, lugar que sua mãe sempre quis conhecer, mas nunca pôde por conta da maternidade. Mae estava radiante com a surpresa, mal podia conter-se de tanta felicidade. A caçula sentiu-se um pouco frustrada por não poder ver as fotos depois e ouvir sua mãe tagarelar sobre como a comida de lá e incrível e as pessoas calorosas.

Era por um bem maior.

Ás dez da noite, mais ou menos, o casal se despediu da família porque, adivinha, ele teria de trabalhar no dia seguinte. Houve abraços, desejos de um bom ano novo, mas queria mais. Queria beijar o rosto do pai e agradecer por sempre incrível. Queria contar a mãe tudo o que sabia e receber seus conselhos (prometeria ouvir e acatar cada um deles dessa vez). Queria dizer a Holland que ela havia se tornado uma mulher maravilhosa, abraçar Liv e dizer que ela merecia o mudo e pedir a Steven que nunca trocasse sua família por prazeres passageiros. Mas sabia que não podia. Então contentou-se apenas a gravar aqueles rostos em sua mente. Era a única coisa que lhe restaria.

Enquanto passavam pelo portão de casa, pegou o vaso de barro que servia de casa aos acônitos e os levou rapidamente a cozinha, enquanto ia em direção ao banheiro, alegando estar cansado. Não se preocupe querido, você poderá descansar pelo resto da eternidade.

, como sempre, vestiu uma das milhares de calças que tinha, uma camiseta branca e penteou os cabelos para trás, como sempre usava. Ajeitou a gravata vinho por cima da camisa, colocou o paletó cinza escuro no mesmo tom da calça e calçou seu preferido e reluzente 's. Pretendia, assim como todos os vizinhos, sair na rua para ver os fogos de artifício á meia noite.

Enquanto se perfumava, uma música qualquer que havia escutado no rádio mais cedo tocava em sua cabeça, ao mesmo tempo em que pensava no par de pernas cumpridas e o sutiã rendado que veria no dia seguinte. Sorriu consigo mesmo, encarando seu reflexo no espelho. Mal podia esperar.

Abriu a gaveta do banheiro a procura do remédio que tem o ajudado a ajustar seus problemas com o sono e, percebendo que não estava ali, resolveu ir perguntar para a esposa que, como sempre, estava na cozinha. Mas se surpreendeu ao ver do corredor que a casa estava toda iluminada a luz de velas. Haviam pétalas de rosa vermelha pelo chão e, sentada a mesa com um prato repleto de biscoitos e dois copos de leite, estava .

— O que é tudo isso? — ele perguntou com um sorriso largo beirando os lábios, olhando ao seu redor e caminhando até ela.
— Daqui há alguns dias nós vamos completar dez anos de casados. Eu quis antecipar um pouco a comemoração. — ela usou um tom sensual que nunca mais havia usado para se dirigir a ele. — Gostou da surpresa?
— Mas é claro! Faz tempo que não temos uma noite assim.

Com um olhar malicioso, ele a tomou pela cintura e fez com que seus lábios se encontrassem quase da mesma forma desejosa da juventude. Ela precisava se manter dentro do personagem. Faltava muito pouco. E contava os segundos. Seu pensamento acelerado quase formava uma música.

One, two
Melatonin is coming for you
Three, four
Baby won't you lock the door?


— Que tal provarmos esses biscoitos? É uma receita nova. Fiz especialmente pra você. — os braços dela enlaçavam seu pescoço, um sorriso nos lábios.
— Mas é claro que sim! — ele estava animado ao se sentar a mesa — O que tem de novo aqui? Parece delicioso!
— Só um pouco mais de açúcar — e bastante veneno também... — E mirtilos.

Ela se sentou de frente para ele, pegando um dos biscoitos. É claro que ela sabia qual deles havia acabado de fazer e quais eram do dia anterior. Os olhos cheios de mistério da juventude pareciam ter voltado a vida, atentos, observando cada expressão do rosto de . Seu coração batia doentio dentro de si.

Five, six
I'm done with it
Seven, eight
It's getting late


— Uau, isso está... Querida, isso está realmente incrível. — ele elogiou com a boca meio cheia e sorriu sem mostrar os dentes, ainda vidrada nele, mastigando.
— Não vai tomar o leite, querido? — parecia ter se esquecido. Tomou um gole e encarou , com os olhos arregalados.
— O leite também está com um gosto diferente. — sorriu de lado — Vejo que hoje você está cheia de surpresas pra mim, huh? — o tom dele era explicitamente sexual, mas o dela tinha uma pitada de algo... Mortal.
— Você nem imagina.

Percebeu que ele afrouxou a gravata e tirou o chapéu, então sabia que era a hora certa de começar. Ajeitou-se na cadeira, se inclinando sobre a mesa para ver bem de perto o rosto dele. Ela sentia que cada lágrima derramada pelos cantos dessa casa seriam vingadas. A cada minuto que passava ela sentia mais vontade de continuar naquele jogo. Pena que ele só duraria alguns minutos.

— Meu amor, tenho um presente pra você. — ela disse o encarando. Ele levantou as sobrancelhas, surpreso. Há muito tempo eles não se presenteavam.
— Ah, querida, não precisava se incomodar com isso. Nem tive tempo de lhe comprar algo ainda!
— Não tem problema, querido. O meu presente chega em alguns minutos.

Tirou do colo aquele mesmo envelope que Gustav havia lhe entregado meses atrás, com o mesmo conteúdo que havia lhe desestabilizado completamente. pegou o envelope pensando em que tipo de presente era aquele, mas não hesitou em abrir para finalmente ver qual era o seu conteúdo. recostou na cadeira, a ironia escorrendo pelos lábios.

— Querido, não acha que meus seios parecem ser bem maiores nessas fotografias? Será que foi o ângulo?

Os olhos dela captaram a sombra negra que pairou sob' os deles e estava se deliciando com a cena. Principalmente ao perceber que o acônito já estava começando a fazer efeito. demonstrava dificuldades para engolir, era um dos sintomas de intoxicação da planta. Mal podia esperar pra ver o resto.

— O que... Como... — a voz dele quase havia sumido.
— É pra isso que servem os detetives. Desvendar os segredos de homens sujos e mulheres interesseiras. — disse ríspida, se inclicando sob' a mesa de novo.

A raiva estava quase lhe tomando e tinha de se segurar para não colocar as mãos ao redor do pescoço dele e acelerar sua morte. Mas essa estava cumprindo muito bem o seu papel. As mãos dele começaram a tremer e ela teve certeza que não era culpa do nervosismo.

— Entendo a mágoa que você sente por eu não poder te dar um filho, mas não precisava ter ido tão longe. Outra mulher? Poderíamos ter adotado um, querido. Você não era o único a sofrer com isso. — ele não conseguia fazer mais nada a não ser ficar sentado, olhando aquela mulher sádica que havia se apossado da sua — Mas sabe, tudo bem. Tudo bem mesmo. Eu menti pra você também.

estava suando muito e sua respiração parecia ter ficado um pouco mais difícil. se levantou, ficando de frente para ele, um sorriso sádico em seus lábios ao ver sua pele começar a ficar vermelha. Ele parecia atordoado.

— Sabe a receita nova sobre a qual te falei? Mentira. Não existem mirtilos algum nesses biscoitos. — ela se inclinou sobre ele e sussurrou, como se estivesse lhe contando um segredo — Eu tenho cultivado acônitos por meses, só pra ter o prazer de te ver salivar igual um cachorro.

Ele olhou para a pia da cozinha e viu a cor arroxeada da planta dentro do vaso de barro, ao lado do seu frasco de remédio. Agora havia entendido o porque de ele ter sumido do banheiro. Ele a encarava e a confusão em sua mente era quase palpável. Ela, por sua vez, parecia adorar a sensação de estar no poder pela primeira vez. Faltava pouco tempo para que ele conhecesse a morte face a face.

— Ah, você viu o frasco da melatonina ali, não é? — riu — Sabe onde ela foi parar? Dentro do seu copo de leite. Lembra-se quando seu médico disse que tomá-lo em excesso poderia ser fatal? Eu me lembro. — os olhos dele ameaçaram sair de sua órbita. Mal conseguia falar. — Não se preocupe, você não vai mais precisar deles, afinal, você vai dormir pra sempre em... — pegou o pulso dele e olhou para o relógio — Um minuto. Não acha que eu ficaria bem de preto?

Os tremores dele começaram a ficar mais severos e se espalhar pelo corpo todo. O paletó de já estava todo molhado de saliva e o rosto dele poderia explodir a qualquer momento de tão vermelho que estava. Os batimentos cardíacos dele estavam, claramente, mais acelerados que o normal.

deu a volta na cadeira e ficou atrás dele, massageando seus ombros. Colocou seus lábios bem perto de seu ouvido e sussurrou:

— Relaxa, querido. Quer que eu cante pra você dormir?
— Sua... Desgra... Çada...

caiu no chão, seu peito subindo e descendo rapidamente, demonstrando que seus pulmões já haviam entrado em pane. riu, se ajoelhando ao lado dele. Nem parecia aquele galã encantador que todas matariam para ter.

— Ué, o que aconteceu com todo o amor que você dizia sentir por mim? Você não me quer agora? — A mão grande dele agarrou o pulso dela, mas não tinha força para segurar. Ela riu novamente, se desvencilhando dele. — Espero que queime no fogo eterno do inferno.
— Espero-te...

Ele tentou formar a frase num fôlego só, mas não deu. Não conseguir respirar era uma agonia terrível e os olhos dela sobre o corpo desesperado dele se debulhando pelo chão piorava ainda mais a sensação. Havia sido assassinado pelos mesmos olhos que lhe causaram bons arrepios alguns anos antes. O único arrepio que sentia agora era do sopro da morte em seu cangote.

Quando seu corpo parou de se debater e seu olhar parecia perdido, sem direção, entendeu que ele já havia partido. Tirou a aliança de seu dedo e se levantou do chão e se apoiou na poltrona, sentindo os pelos do seu corpo se eriçarem sem motivo e sua cabeça girando sem parar. Tremia de nervosismo, mas sentia-se satisfeita. Muito satisfeita. Vingada.

estava morto. E o tapete já estava ali a sua espera.

So close your eyes
Sleep the days


Do outro lado da cidade, Mere e Tessa se abraçavam, enquanto Carlo esperava perto da trilha das árvores e da ponte que ligava um lado da cidade ao outro, acima do Rio Atchafalaya. O casal de adolescentes teria uma hora para matar a saudade que os assolava há quase um mês.

— Tessa, lembre-se. Temos uma hora. Estarei esperando na casa de Summer por você, assim podemos ir a minha casa com a desculpa de que fomos visitá-la antes dos fogos. — Mere recomendava encarando Tessa. — Não se atrase.
— Obrigada, Mere. Você é um anjo! — Tessa apertou as mãos da amiga contra as suas e ambas sorriram.
— Carlo, cuide bem de Tessa, certo?
— Com a minha vida.

Mere os deixou ali e correu pela rua até onde estava Summer, esperando para que pudessem ir a sua casa, enquanto Tessa iria aproveitar seu tempo com o rapaz que havia roubado seu coração. Mas algo prendeu a atenção de Carlo quando já estavam começando a caminhar mata adentro a caminho da margem do rio, lugar onde sempre se encontrava com sua amada. Aquela ali no parapeito da ponte não era a Sra. ?

Alguns segundos observando a cena confirmaram suas expectativas. Era mesmo ela. Mas estava acompanhada de um homem que usava um bigode que o Sr. nunca tivera. Estavam jogando um tapete no rio?

— Carlo, está se sentindo bem? — Tessa lhe perguntou, reparando no hipnotismo repentino dele. Ele a encarou e forçou um sorriso, sentindo um arrepio esquisito subir a espinha.
— Sim, sim. Está tudo bem, meu amor.
— Tem certeza?
— Claro que sim. E estar aqui com você vai fazer tudo ficar melhor.

Não tinha tempo a perder. A próxima hora era sagrada para ele.

estava com os olhos cheios de lágrimas, mágoas e ansiedade pelo futuro incerto que lhe esperava. Tudo já estava feito, agora não tinha volta. Tinha se livrado do homem que não soube valorizar toda uma vida dedicada a ele. A raiva de , todo o arrependimento por ter se casado com alguém a quem ela fechou os olhos para o passado, fez com que ela planejasse por meses o seu assassinato e de toda a humilhação que lhe assolava todos os dias.

Agora seu corpo estava seguindo o curso do Rio Mississipi e para muito longe, ela esperava. Logo encontrariam o seu corpo, mas não estaria ali para testemunhar. Iria embora para muito longe e ansiava por esse momento. Claro que ele estaria ali. Gustav. O homem que aceitou ser cúmplice de um crime. Estavam na estação, esperando pelo trem que a levaria até a Califórnia onde, com ajuda do detetive, havia conseguido um emprego como camareira num hotel de luxo — a única coisa que aquela vida presa dentro de casa lhe permitiria fazer.

Ele lhe entregou um envelope, parecido com aquele que havia acabado com ela.

— Aqui está tudo o que precisa. — ele abaixou o tom de voz, olhando ao redor — Todos os documentos falsos e um bocado de dinheiro.
— Gustav, eu não posso...
— Aceite, por favor. — suas mãos apertaram as dela contra o envelope.
— Já fez demais por mim. Foi meu cúmplice no assassinato do meu...
— Shhh! Agora já está feito. — ele a interrompeu, se aproximando mais. — Essa é sua nova vida. Seu nome agora é Susan Moore, 28 anos, viúva e vem de Iowa. Seu marido morreu de câncer. No envelope há um atestado de óbito. Nome falso.

O apito do trem avisava que estava chegando.

agarrou com mais força a alça de sua maleta, que não guardava nem metade das milhares de peças que o dinheiro do seu falecido marido podia comprar. Encarou os olhos de Gustav e admirou o fato de que, mesmo depois de jogar o corpo de um homem no rio, havia certo brilho neles. Queria ter o mesmo brilho.

Lentamente, o trem parava ao seu lado. Havia chegado a hora.

— Se você quiser, posso ir te visitar...
— Não, não se incomode. — ela interrompeu — Acredito que eu posso lidar com algumas camas. — seu riso era quase verdadeiro. Achou graça de pensar que sabia lidar melhor com objetos inanimados do que com pessoas.
— Mantenha contato. — os olhos dele pareciam suplicantes.
— Prometo avisar se eu tiver que me livrar de algum corpo.

Seus olhos estavam grudados, se encarando. Eram o espelho da alma, afinal. Dois pares de olhos que já viram de tudo nessa vida. Olhos que presenciaram mudanças trágicas e drásticas. Os dele desejavam profundamente encarar aquele outro par de olhos pelo resto de seus dias, mas ele tinha consciência de que eles guardavam mais do que os mistérios que eles deixavam explícitos. Eram olhos perigosos, os de .

Enquanto o trem se distanciava e Gustav encarava sua partida com o coração nas mãos e mãos no bolso, encarava o horizonte, cheio das luzes que anunciavam, em comemoração, a chegada do novo ano.

Encarou as mãos e, ao ver a aliança que havia estado em seu dedo por longos dez anos, sentiu um frio na barriga. A tirou de seu dedo e desejou que Susan Moore pudesse ter um destino melhor do que teve.

O que ela não sabia é que havia deixado uma testemunha em Nova Orleans.




Fim



Nota da autora: E esse é o fim! Espero que você tenha gostado de ler minha história tanto quanto eu gostei de escrevê-la. Eu sempre quis escrever algo puxado pra um lado mais misterioso, de época, principalmente envolvendo um crime passional, mas eu nunca soube muito por onde começar. Essa música pareceu ser a perfeita inspiração, então a escrita foi rápida e fácil.
Apesar disso, é importante ressaltar que a cantora e compositora dessa música, Melanie Martinez, antes alguém que tinha minha admiração, me deixou completamente enojada. É muito contraditório pensar que, ao mesmo tempo em que discursava sobre abuso, pedofilia e assuntos do tipo em seu álbum, ela era pivô do sofrimento de outra pessoa por ter feito exatamente o que dizia ser contra, mesmo tendo escutado não diversas vezes — quando se trata de um não querer e ser forçado pelo outro, é estupro. Este é o nome.
Mesmo estando completamente decepcionada e revoltada com a artista, espero que você possa apreciar essa e as outra histórias dessa Ficstape, pois ela foi toda planejada, feita e escrita com muito carinho e dedicação por muitos meses pra vocês! Obrigada por ter chegado até aqui!





Outras Fanfics:
Eu Sou Problema Meu - Mixtape "Girl Power"

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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