Fanfic finalizada

Capítulo 1

DIA 1


— Bom dia, galera que adora madrugar! Tudo bem com vocês?
null segurava o celular em frente ao seu rosto. O dedão pressionava a bola no meio da tela, enquanto a garota gravava os primeiros stories do dia.
— Eu estou morrendo de sono.
Aproximou a imagem para focar nos seu olhos, e continuou.
— Olhem isso! Olhem esse monte de olheiras!
A imagem voltou ao normal, de modo a pegar todo o rosto dela.
— Vocês devem estar perguntando, “mas null, o que você está fazendo acordada às quatro horas da manhã em um sábado?”, e eis que eu lhes respondo… É uma surpresa! Fiquem ligados nos próximos stories, galera!
A garota guardou o celular na bolsa, mas não sem antes postar uma foto sua, uma que ela havia tirado ao acordar, ainda com os cabelos bagunçados e a cara amassada. Essa foto, contudo, passou por algumas alterações antes de ser postada nos stories do seu Instagram, com a certeza de que ela sumiria em vinte e quatro horas.
Pegou as chaves do apartamento, ao mesmo tempo que segurava a bolsa e a câmera. Pegou a alça da mala de viagem, e seguiu para fora do apartamento. Como estava um pouco atrasada — já que precisou refazer várias vezes o coque frouxo, até que ele ficasse perfeitamente casual, no melhor estilo “fiz um coque frouxo às pressas e não me importo em ter alguns fios soltos” — decidiu que passaria a gravar o seu vídeo quando já estivesse dentro do elevador, já que seriam longos vinte e dois andares de descida.
Por sorte, ou simplesmente pelo horário, o elevador chegou rápido. E já dentro dele, null tratou de deixar a mala de viagem ao seu lado, colocar sua bolsa na frente do corpo, e posicionar uma das pernas na frente do corpo, de modo que o seu tênis aparecesse nas fotos que ela tirava em frente ao espelho.
A típica foto de quem iria viajar não podia contar apenas com o elemento da mala de viagem, mas também precisava deixava claro que null estava usando os produtos que a marca de tênis havia lhe dado, afinal uma boa youtuber e influencer digital não podia viver somente da monetização gerada no Youtube. A garota precisava fazer valer o patrocínio recebido pelas marcas.
Depois de algumas boas fotos, a garota ligou a câmera e passou a filmar a si mesma no espelho.
— Olha só, gente, o “tamanhozinho” da mala que eu fiz para passar uma semana viajando. — ela disse irônica, focando a filmagem na mala de viagem ao seu lado. — Quem vê pensa que eu vou me mudar para o Peru. — ela disse rindo.
Voltou a filmar a si mesma no espelho.
— Gente, ignora o cabelo bagunçado. — disse mexendo nos fios. — Eu nem tive tempo de arrumar o cabelo porque, adivinhem: eu estou atrasada! Para variar, o carro da empresa de viagens já está me esperando lá embaixo há um tempinho, e eu vou mostrar tudinho para vocês!
Nesse momento o elevador parou, mas não porque havia chego no térreo. Um garoto entrou, lhe dando bom dia, o que foi prontamente respondido por null. A garota se perguntou, por um momento, quem, em sã consciência, estaria acordado às cinco da manhã de um sábado, mas logo direcionou os seus pensamentos para o celular, quando escolhia a melhor das fotos para postar no seu Instagram.
E quando o elevador finalmente chegou no térreo, null avançou para fora, cumprimentando o porteiro antes de chegar à calçada, já procurando o carro da empresa. Não foi difícil encontrá-lo, contudo. O logo da empresa de viagens tomava toda a lateral do veículo, e null viu aí uma oportunidade de fazer mais alguns stories, já dando indícios de qual seria a grande surpresa anunciada mais cedo.
De dentro do carro, a garota filmou alguns trechos do caminho, apenas para colocar no vídeo que editaria mais tarde, com uma boa música de fundo. E quando chegou ao aeroporto, também não custou em encontrar as staffs da empresa, afinal, o uniforme laranja realmente chamava bastante atenção.
Já com o check-in feito e com a mala despachada, null puxou as duas staffs para perto, tendo a câmera firmemente segurada na frente delas.
— Bom, pessoal, como vocês já sabem, eu fui convidada pela empresa ABC Viagens para conhecer nada mais, nada menos, que o Peru! E essas duas staffs ma-ra-vi-lho-sas estão me ajudando com todo o processo de check-in e despacho da mala que, quem já viajou sabe, é uma cha-ti-ce.
null então mudou de posição, indo para a frente das duas funcionárias da empresa ABC, e passou a filmar apenas elas.
— Se apresentem pro pessoal, meninas. — ela pediu.
As staffs, meio encabuladas, deram oi para a câmera.
— Oi, gente, eu sou a Pâmela, gerente da ABC Viagens.
— E eu sou a Roberta. Eu trabalho com os roteiros das viagens feitas pela ABC.
null voltou a ficar no meio das duas funcionárias, e mudou a filmagem da câmera, para que pudesse enquadrar todas as três na tela.
— A ABC Viagens me convidou para viajar para o Peru e conhecer Machu Picchu. Não, isso não é uma brincadeira, acreditem, eu também achei que fosse quando recebi a proposta. — ela disse bem humorada. — Desse modo, a linda da Roberta, que está aqui do meu lado, planejou um roteiro babado, para sete dias de viagem. Isso não é demais?! E a melhor parte de tudo é que eu vou filmar tudinho para vocês!
null desligou a câmera e a guardou na bolsa que iria com ela dentro do avião, e sacou o celular.
Tirou algumas fotos com Pâmela e Roberta, postando nos stories. Depois tirou a clássica foto mostrando somente o passaporte e parte da passagem aérea, também a colocando nos stories. E então, com Pâmela e Roberta ao seu lado, ela fez novos stories falando do convite da ABC Viagens para conhecer o Peru, com o cuidado de marcar o @ da empresa e das duas staffs.
Feito o seu trabalho de divulgar a empresa, null então foi se sentar perto do portão de embarque, enquanto recebia as últimas instruções de Roberta e Pâmela. Enquanto esperava o seu vôo ser chamado, aproveitou para tirar mais algumas fotos de si mesma, copiando posições e cenários típicos de blogueiras e influencers digitais. E quando foi reconhecida por dois ou três fãs, ela não recusou tirar uma foto com cada uma das meninas.
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— Olha só, pessoal, eu já estou em Lima, que é a capital do Peru.
A imagem da câmera estava focada no rosto de null.
— Agora preciso pegar a minha mala e passar pela imigração, e logo mais vou para o hotel deixar as coisas e começar os passeios do dia. Então fiquem ligados para não perderem nada.
null mudou o modo de filmagem da câmera, para que pudesse filmar alguns segundo do aeroporto, momento este que ela pensava em acelerar, na hora da edição, e colocar alguma música de fundo.
Enquanto esperava para pegar as suas coisas, tirou uma selfie fazendo careta, colocando a localização: Aeroporto Internacional Jorge Chavez. E quando já estava dentro do táxi, seguindo para o hotel, fez um boomerang da paisagem, com outra localização: Lima - Peru.
Por sorte a gerência do hotel já estava esperando pela sua chegada, motivo pelo qual o check-in foi muito rápido. null foi para o seu quarto, no sétimo andar, e foi até a janela para apreciar a paisagem, sempre com o celular na mão, capturando cada detalhe do quarto e, principalmente, da vista privilegiada que tinha da janela.
— Olha isso, gente, que coisa mais linda! Imagina o pôr-do-sol visto daqui de cima? Deve ser incrível! — ela disse para seus seguidores, em mais um dos seus stories.
E ainda com o celular na mão — porque era onde ele ficava na maior parte do tempo, quase como se fosse uma extensão do seu braço — e com a câmera na outra, filmando o corredor do hotel, o elevador e até mesmo a recepção, ela voltou a sua atenção, dessa vez para a lente da câmera.
— Como vocês sabem, a ABC Viagens está patrocinando essa viagem incrível com o intuito de provar que nós, do Brasil, podemos viajar para qualquer país da América Latina gastando muito pouco! Porque sim, pessoal, dá para viajar e economizar dinheiro ao mesmo tempo, desde que você contrate uma empresa de viagens que seja comprometida com a satisfação do cliente, como a ABC Viagens é.
null continuava falando com a câmera, sem saber se os olhos curiosos, direcionados a ela, se davam pelo fato dela estar falando sozinha, ou falando em outra língua. De qualquer forma, ela não se importava, afinal, quando ligava a câmera e começava a trabalhar, nada mais podia a distrair. Nem mesmo o fato de ter uma pessoa atrás dela, a qual ela não viu por estar andando de costas.
O impacto foi certeiro. O desconhecido também estava distraído, motivo pelo qual ele não pôde impedir o encontro. E, por conta da mochila pesada que ele carregava nas costas, foi direto para o chão. null, por sua vez, na tentativa desesperada de proteger tanto o celular, quanto a câmera, não pôde amortecer sua queda.
— Ai! Ai, ai, ai.
A reclamação veio baixinho, quase acompanhado do choro pela dor na bunda e pela humilhação por cair em público.
— Fala sério, null! — mal teve tempo de esperar a dor passar. Ao ver o celular no chão, sentiu o coração disparar.
null correu até onde o celular estava e o puxou para si, preocupada. Ouviu um resmungo atrás de si e viu que o estranho ainda estava caído no chão, de costas, com dificuldade de se levantar devido o peso da mochila. Ela, então, foi até ele e estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar, não se importando com os olhares das pessoas.
— Desculpe. — ela pediu, mas não prestou atenção na resposta dele. Em suas mãos, seu fiel companheiro estava com a tela trincada e apagada. null bateu o dedo na tela, mas ela não acendeu. Apertou o botão de ligar, mas não funcionou.
Se seu coração já batia rápido, agora suas batidas até mesmo doíam no peito. A vergonha foi logo substituída pelo desespero.
— Não, não, não! — ela bateu o aparelho na palma da mão, os olhos em lágrimas. Tentou ligá-lo de novo, mas não conseguiu, e o medo começou a lhe deixar com falta de ar. — Meu deus, como isso aconteceu? — perguntou baixinho.
Ela nunca tinha quebrado nenhuma parte do corpo, nem mesmo quando criança. Como poderia ter quebrado o próprio celular?
— Hm… — o estranho chegou até perto dela e colocou a mão no seu braço. — Fique calma, vamos dar um jeito nisso.
Ele viu os olhos da garota, as lágrimas já escorrendo pelas suas bochechas muito vermelhas. Olhou para baixo, para onde ela ainda segurava o aparelho com ambas as mãos, com medo de que ele pudesse sair de lá novamente.
— Com licença. — ele puxou, delicadamente o celular da mão dela e tentou o ligar, mas sem sucesso. — É, está morto.
E quando ouviu a declaração de óbito do seu melhor amigo, null começou a chorar com mais intensidade, só parando quando o estranho pediu calma de novo e disse as palavras que acalmaram as batidas do seu coração:
— Podemos ir a uma assistência técnica para resolvermos isso.
null pensou por um segundo, querendo perguntar ao estranho se ele realmente achava que o seu aparelho poderia ser salvo, mas ela não conseguiu dizer uma palavra. Então apenas balançou a cabeça, em sinal de concordância, e passou a segui-lo pela rua.
Percebeu, então, que nem mesmo sabia o nome do estranho, e mesmo assim o estava seguindo pelas ruas de um país desconhecido, do qual ela sabia zero coisas. Mas sua preocupação foi logo deixada de lado quando, no final da rua, ela viu uma loja licenciada da Apple. A esperança tinha voltado.
Foi o estranho quem conversou com o atendente. Explicou que o celular caiu no chão e não estava ligando. O rapaz conversava em castelhano, e null conseguiu entender quase tudo o que ele falou, mas não se arriscou a tentar o idioma. O máximo que ela sabia de língua estrangeira, além do inglês, era o básico do espanhol.
O atendente, por outro lado, entendeu tudo o que o estranho dissera. E enquanto consultava o aparelho de null, a garota começou uma pequena oração para que ele fosse salvo. O diagnóstico, contudo, foi fatal: não havia conserto.
— Então fala para ele que eu vou comprar outro. — ela pediu ao estranho, já conformada de que iria ter que gastar um dinheiro não planejado.
O estranho fez o que ela pediu, mas o atendente lhe respondeu algo com um aceno negativo com a cabeça, e ela não gostou nadinha do que aquilo poderia ser.
— Como assim? O que ele disse? — ela tinha as mãos entrelaçadas na frente do peito.
— Ele só tem o modelo antigo. — o estranho respondeu.
— Mas eu não quero o modelo antigo. — afinal, ele já havia saído de moda dois meses atrás. null não podia comprá-lo.
Vendo a preocupação dela, o estranho logo traduziu o que o atendente falou em seguida.
— Ele está dizendo que tem o modelo novo na loja deles em Cusco.
— Cusco? — null pensou por um instante. — O meu roteiro de viagem me leva para Cusco. Mas só daqui dois dias.
Meu deus… Dois dias! null não poderia ficar dois dias sem celular!
— Então você pode comprar o modelo que a loja tem. Mesmo sendo o anterior, é quase igual ao modelo novo, não muda em nada.
— Muda tudo! Tudo! — null andou de um lado para o outro, nervosa, ansiosa. O que faria agora? — Por favor, peça para o vendedor reservar um aparelho para mim na loja de Cusco. Diga a ele que comprarei assim que chegar na cidade, depois de amanhã.
E mesmo sem entender o desespero dela, o estranho fez o que ela pediu. Ao final, ele indicou para null a saída da loja, e a garota apenas o seguiu, como se visse sua vida passar em câmera lenta. Nem mesmo estava prestando atenção no caminho que fazia.
Como null passaria dois dias inteiros sem o seu celular? O aparelho era muito mais do que uma simples distração para ela, era parte dela. Uma extensão do seu corpo. Era o seu trabalho, uma ferramenta essencial. null nem mesmo se lembrava de como era a vida antes de ter o seu primeiro celular.
O que os seus seguidores pensariam com o seu sumiço das redes sociais? Aquilo a deixou paralisada por um instante. E foi então que ela teve uma ideia.
— Ei, você pode me emprestar o seu celular?
— Desculpe? — o estranho não poderia estar mais surpreso.
A garota sorriu sem graça, dizendo que precisava do celular dele para fazer um comunicado aos seus seguidores. Em qualquer outra situação, null ignoraria o olhar confuso e questionador do estranho, mas ela não estava em posição de fazer isso.
Então ela apenas arrumou a sua postura, arrumou o cabelo atrás da orelha, e com a voz calma, explicou:
— Sou uma influencer digital. Também sou youtuber. Isso significa que o meu trabalho é feito todo nas redes sociais e…
— Eu sei quem você é. — ele a interrompeu.
null ficou muda, sem graça. Ambos ficaram em silêncio por um tempo, até que null, engolindo a vergonha, novamente pediu o celular dele. Dessa vez o estranho a entregou o celular sem esperar por mais explicações.
A garota não demorou em entrar na sua conta do Instagram para fazer um comunicado.
— Galera, vocês não vão acreditar no que aconteceu comigo! — ela passou a mão no rosto, com um olhar preocupado — Tive um pequeno acidente e, por conta disso, vou precisar ficar sem celular por dois dias. Sim, eu sei, é uma merda… Mas não se preocupem, eu estou bem. Só o meu aparelho que teve uma morte precoce. — ela disse com uma risadinha no final, mesmo que sua vontade real fosse de voltar a chorar. — Mas eu vou voltar aqui de tempos em tempos para atualizar vocês da situação, ok?
O estranho ergueu as sobrancelhas, surpreso com a última fala e desconfiado do que aquilo poderia significar para ele.
— Fiquem bem e não se preocupem, vai dar tudo certo. E para compensar a falta de stories todos os dias, vou filmar tudinho com a minha câmera que, graças a deus, está inteira e passa bem.
Ela terminou o vídeo e entrou na sua conta no Twitter para fazer o mesmo comunicado, mas escrito.
Enquanto isso, o estranho ficou por perto, fingindo não prestar atenção nela, preocupado em olhar a paisagem e tirar fotos. E quando null finalmente terminou de fazer os seus comunicados, ela saiu das suas redes sociais e devolveu o celular para ele, agradecendo a gentileza.
— Disponha.
Ainda parada na frente do estranho, null percebeu que, até aquele momento, não tinha perguntado o nome dele.
— Então… Qual o seu nome?
O estranho ergueu uma sobrancelha, surpreso.
— Você realmente não sabe?
— Eu deveria?
Ele riu debochado antes de responder.
null.
null estendeu a mão a ele.
— Muito prazer, null. Eu sou null.
— É, digo o mesmo. — ele respondeu, sem parecer realmente achar um prazer conhecê-la. E aquilo deixou null ainda mais desconfortável. Ela tentou quebrar o gelo, contudo.
— E então, o que você vai fazer ao longo do dia?
— Vou conhecer a cidade. — ele respondeu. — Tem muita coisa para se ver em Lima.
— E você não quer me acompanhar? Ou então, talvez, eu possa te acompanhar. — ela respondeu. — E então aproveito e te levo para almoçar.
— Wow! — null deu um passo para trás e colocou ambas as mãos na frente do corpo. — Isso está indo rápido demais. Eu sou um cara difícil.
null riu, divertindo-se com a fala dele, garantindo que não havia segundas intenções no convite, mas apenas o desejo de agradecê-lo por todo o apoio que ele havia lhe dado.
null deu de ombros.
— Não fiz nada demais.
— Na verdade você fez sim. Fez muito. — ela disse séria. null estava realmente agradecida pelo gesto e precisava deixar isso claro.
Ele deu de ombros de novo.
— E para onde vamos?
— Não faço ideia. — ela disse suspirando. — O roteiro da minha viagem estava todo no celular, e agora não faço ideia de onde devo ir.
null pensou por um instante.
— Podemos ir ao Museu Larco de Lima.
null não gostava muito de museus, mas não reclamou da sugestão, afinal, querendo ou não, a garota dependia de null para guiá-la pela cidade.
— Sabe, o museu fica em uma pitoresca mansão, construída no século XVIII, em cima de uma pirâmide pré-colombiana. — ele disse muitíssimo animado. — Há mais de cinco mil anos de história lá dentro, e os objetos são exibidos por ordem cronológica, o que ajuda a entender a história do Peru. Muito legal, não é?
null não conseguia achar tudo tão legal quanto null, mas a animação dele acabou a contagiando. Quando o rapaz começava a falar, ele não parava mais. E mesmo não entendendo nada do que ele dizia, null passou a filmá-lo enquanto null explicava alguns artefatos arqueológicos e sua importância para a cultura inca. A gravação, contudo, durou pouco, já que a garota foi avisada, por um segurança, de que não era permitido filmagens lá dentro.
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Na hora do almoço, como prometido, null levou null para um restaurante que ele mesmo escolheu, já que ela não conhecia nada na cidade. Novamente pediu o celular dele emprestado, dessa vez para fazer alguns stories mostrando ele, e explicando para os seus seguidores que ele era o cara que tinha salvado a sua vida e estava permitindo que ela tivesse contato com o mundo da internet.
— Eu não sei o que seria de mim sem ele, é sério, gente.
null revirou os olhos. Ignorando-o, null filmou o local rapidamente, e tirou uma ou duas selfies, sem se importar de que se tratava do celular de um estranho-já-não-tão-estranho-assim.
— Prometo devolver o celular assim que os nossos pratos chegarem. — e antes que ele ficasse com uma cara confusa, ela explicou. — Meus seguidores gostam de ver o que eu costumo comer quando viajo.
null deixou o queixo cair, incrédulo.
— Seus seguidores vêem o que você come?
— Sim. — ela respondeu dando de ombros. — E também o que eu visto e assisto, onde vou e com quem saio.
Ele soltou uma risada.
— Caramba, você vive em um big brother sem estar confinada em uma casa.
null também riu da fala dele, mas a risada de null não tinha um tom de diversão.
— A diferença é que sou livre para mostrar o que eu quiser.
Ele discordou.
— Acho que você abriu mão da liberdade já muito tempo.
Foi a vez de null ficar surpresa.
— Ei, você nem me conhece!
— Jura? — null colocou o copo em cima da mesa. E ante a falta de resposta dela, ele disse: — null, nós somos vizinhos.
Foi a vez de null de deixar o queixo cair.
— Como é que é?
— Há dois anos!
Aquilo era impossível. Completamente impossível. null conhecia os seus vizinhos, sendo que um se tratava de um casal de idosos, e o outro era um estudante de medicina que ficava enclausurado dentro de casa o dia todo e sempre reclamava do barulho quando ela resolvia gravar seus vídeos tarde da noite.
— Eu moro quatro andares abaixo do seu. Já te cumprimentei no elevador incontáveis vezes.
— Mas… Eu teria te reconhecido.
null, eu te cumprimentei hoje de manhã! Às cinco horas da manhã, enquanto você tirava fotos no espelho.
null, eu… — ela tentou falar alguma coisa, qualquer coisa. Fazer um pedido de desculpas ou algo do tipo, mas então null começou a rir e ela se perdeu nas palavras.
— Você é distraída demais.
— Me desculpa! Meu deus, que vergonha… — ela disse também rindo, mas sem deixar o constrangimento de lado.
— Você deveria observar mais a vida ao seu redor e ficar menos tempo olhando para a tela do celular.
Apesar de null já ter ouvido aquilo várias vezes, de pessoas diferentes, aquela foi a primeira vez que ela realmente parou para pensar no que ouvia.

DIA 2

— Dia dois, galera! — null falou para o celular, no qual gravava os primeiros stories do dia. — Mais um dia cheio de atividades e sim, eu vou filmar tu-do para vocês! O vídeo do dia um já está nas mãos do editor e, em breve, vai ser disponibilizado no canal, então fiquem de olho, hein!
null trocou o filtro que usava, e aproximou mais o celular do rosto.
— Gente, fiquei tão atordoada ontem, na loja da Apple, que não lembrei de filmar tudo o que aconteceu. Mas assim, resumindo, o vendedor falou para a gente que eles não tinham o celular que eu queria para vender, mas que ele iria encomendar um na loja de Cusco. Então amanhã, a essa hora, se tudo der certo, eu estarei com um celular novinho em folha! Yay!
null percebeu alguns olhares tortos para ela, e, segurando a risada e diminuindo o tom de voz, continuou:
— Isso significa que os stories vão acontecer com muito mais frequência, e então voltaremos com a programação normal. — disse rindo. — Agora estou tomando meu café da manhã, também conhecido como desayuno continental. Eu falei certo? Ei, null!
— Sim, sim, sua pronúncia está boa.
Com um sorriso satisfeito, ela voltou o foco do celular para si, e então para o seu prato.
— O café da manhã daqui consiste, basicamente, em café, leite, chá, um copo de suco de frutas, uma porção de geleia, uma porção de manteiga e dois pães. E tudo isso é por pessoa!
Ela virou o celular para a rua, para filmar a paisagem, já que estava tomando o café da manhã na parte externa do hotel. E quando voltou a câmera para o seu rosto, ela deu um último sorriso e uma piscadinha, antes de mandar um beijo para as pessoas que a assistiam.
Saiu da sua conta do Instagram e devolveu o aparelho a null, que a olhava com um ponto de interrogação.
— O quê?
— Nada. — null guardou o celular no bolso da calça, e então comentou rindo — Você deveria deixar as suas contas logadas, já que daqui quinze minutos vai pedir o celular de volta.
null revirou os olhos.
— Deixa de ser exagerado.
Mas então ela ligou a câmera e filmou o seu café da manhã, a paisagem ao seu redor e deixou a câmera em cima da mesa, no tripé, apontada para eles comendo. E antes que null reclamasse, ela garantiu que aquilo seria editado depois, e que as cenas seriam mostradas de uma forma bem acelerada e sem som.
— Então não se preocupe, pois não vai aparecer o seu rosto, somente dos nossos pescoços para baixo.
Ainda assim, null parecia ter mil e uma perguntas para fazer, mas as guardou para si.
null, então, percebeu que não sabia nada sobre o estranho-que-na-verdade-era-seu-vizinho.
null riu.
— Você só demorou dois anos para reparar em mim, e um dia inteiro para perceber que estava andando com um cara que você não conhece.
Ela sentiu as bochechas corarem.
— Estou fazendo a viagem dos meus sonhos. — ele respondeu. — Depois do Peru, vou encontrar com alguns amigos no Chile, e então vamos para a Argentina.
— Você já viajou sozinho antes?
— Nunca.
— Nunca?!
— Nunquinha. — ele confirmou. — E você?
— Eu já. — ela se arrumou na cadeira, pronta para contar as suas histórias. — Já fui para Las Vegas e para Ibiza. Meus vídeos de Las Vegas, inclusive, bateram dois milhões de visualizações no Youtube, acredita? São os mais vistos do meu canal. — ela disse orgulhosa.
null preferiu ignorar o último comentário.
— E você foi sozinha para esses lugares?
— Ah não… Fui com outras youtubers. Fomos convidadas por uma empresa de viagens. Como agora. Estou no Peru graças a uma permuta que fiz com uma empresa de turismo.
— Então você não foi sozinha. — ele apontou.
null pensou por um segundo no que ele dissera.
— Você também não está sozinho aqui.
— Estou sim, meus amigos ainda nem saíram do Brasil.
Ela foi rápida na resposta dessa vez:
— Mas você está comigo. — deu um sorrisinho convencido.
— Não, você está comigo, porque não faz ideia de para onde ir, e ontem, se não fosse por mim, você não saberia nem mesmo voltar para o hotel.
null fechou a cara.
— Você também não saberia voltar para o hotel se não tivesse isso aí. — apontou para o mapa que ele tinha no colo. — Parece um velho carregando esse pedaço de papel para cima e para baixo.
— Pelo menos eu prestei atenção nos lugares por onde passamos, enquanto você ficou mais preocupada com o foco da câmera.
null não gostou do que ele disse, mas não contestou. Era difícil, para pessoas que não trabalhavam no mesmo ramo que ela, entender o trabalho dela. Por isso, ela preferiu ignorar null. Até mesmo porque era ridículo o comentário dele, já que null via muito bem por detrás da lente da sua câmera — há seis anos era assim que ela enxergava o mundo, e ela estava muito bem, obrigada.
🔺🔻

Naquele dia null sugeriu que eles fossem conhecer o centro de Lima, indo ao Palácio Presidencial, também conhecido como Casa de Pizarro.
— É a residência oficial do presidente do Peru e sede do Poder Executivo do país. A construção é muito antiga, porque foi construída em 1937. — ele disse pausadamente, como se estivesse dando uma aula de história.
A visita à casa do presidente do Peru acabou rendendo à null boas fotos, uma vez que null, além de se virar muito bem como guia local, também se mostrou um ótimo fotógrafo — o que null agradeceu internamente, pois não havia levado consigo o seu tripé, e sabia que não conseguiria boas fotos para o seu feed se tirasse todas as fotos sozinha e sem suporte.
null, então, passou a acompanhar null sem se preocupar em perguntar onde seria o próximo ponto turístico que iriam visitar, já que ela tentava filmar um grupo de crianças que andava em fila, em uma excursão escolar. E quando se deu conta de onde estavam, quase deixou a câmera cair.
— O que você falou?
Catacumbas do Mosteiro de São Francisco.
null sentiu um arrepio passar pelo corpo.
— Você está de sacanagem com a minha cara?
null riu divertido, já esperando por essa reação.
— Não pense besteiras. Aqui é a Basílica e o Convento de São Francisco de Lima, e também tem o Museu do Mosteiro de São Francisco, que nada mais é que um complexo arquitetônico religioso. — ele explicou calmamente.
— Mas você disse catacumbas!
— Sim, as catacumbas são parte da atração.
null deu um gritinho nervoso e null riu de novo.
— São nada mais que os ossos dos sacerdotes e ricos limenhos de antigamente. — ele voltou a explicar. — É legal porque está aberto para visitação. Os ossos, antebraços, fêmures e crânios estão dispostos de forma organizada de forma a torná-los um pouco mais agradáveis aos olhos dos visitantes.
null tinha os olhos arregalados, então null parecia estar segurando uma gargalhada.
— E por que diabos eu iria querer ver pessoas mortas?!
— Porque é um ponto turístico, e faz parte da experiência de se visitar Lima. Agora vem. — ele a puxou pela mão, e quando null tentou resistir, firmando os dois pés no chão e quase se agarrando a um pilar ali perto, null perguntou: — Já pensou no quão incrível seria você apresentar tudo isso para os seus seguidores?
null pensou por um instante. Imaginou se teria seguidores estranhos o bastante para se animarem com um vídeo sobre ossos de pessoas mortas.
— É, acho que sim… É verdade.
— Então vamos.
null voltou a puxá-la pela mão, dessa vez sem que null resistisse. Seu único incentivo para entrar naquele lugar, contudo, foi por água abaixo, uma vez que, novamente, ela não foi autorizada a filmar e nem a fotografar as artes do museu e muito menos das catacumbas.
— Fala sério!
— Eles proibem para que os flashes das câmeras não prejudiquem as pinturas.
null fechou a cara na hora, enquanto null continuou com a explicação.
— As obras estavam sendo fotografadas e replicadas sem autorização, e então o museu resolveu proibir que fossem registradas imagens do seu interior.
null estreitou os olhos, desconfiada.
— E você sabia disso antes de entrarmos?
— Como assim?
— Eu só aceitei entrar aqui porque pensei que poderia filmar isso para os meus vídeos. Você prometeu!
— Eu não prometi nada não. Apenas dei uma sugestão. — ele se defendeu.
— Mesmo sabendo que não era permitido! — ela apontou o dedo no peito dele.
— Mas eu não sabia! O guia acabou de falar sobre isso, sobre serem proibidas fotos e filmagens. Se você estivesse prestando atenção no que ele fala, em vez de se preocupar em conseguir bons ângulos, também saberia e não teria levado uma bronca.
null fechou a cara de novo e bateu o pé no chão. Não só tinha levado bronca do guia, como também tinha levado bronca de null. Quem ele pensava que era, afinal?
— Ei, não se preocupe. O passeio que programei para depois do almoço vai te render boas imagens para os seus vídeos.
— Então não vamos mais ver o museu de gente morta?
Alguém mandou eles ficarem quietos, incomodado com o bate-papo do casal. null apenas fez uma careta pra pessoa e ficou de costas para ela, voltando a falar com null, mas em tom mais baixo.
— Ah, não, a gente vai sim. Mas vou compensar com um passeio de bicicleta, depois do almoço, pelos pontos turísticos entre Miraflores e Barranco, que são bairros de Lima.
null continuou andando com o grupo, e comentou que o único barranco que ela queria, naquele momento, era um para encostar e descansar. null riu alto, dessa vez, e, novamente, foram repreendidos e mandados ficarem quietos.
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No final da tarde, depois de null jurar para si mesma que nunca, nunquinha mais, iria assistir filmes de terror que envolvessem gente morta, comer um prato típico do Peru que ela não sabia pronunciar o nome, e ganhar um ralado no joelho ao cair da bicicleta — “Eu sei pedalar, só não faço isso há muito tempo!”, ela se defendeu — ela percebeu, ao retornarem para o hotel, que as filmagens daquele dia tinham sido completamente esquecidas. E que se não fosse por null sugerir tirar uma foto dela caída no chão, suja e ralada, ela não se lembraria de filmar o passeio de bicicleta — o qual foi gravado somente na volta.

DIA 3

A distância de Lima para Cusco é de, aproximadamente, 1.110 quilômetros. Se uma pessoa viajar de carro ou de ônibus, seriam 21 horas de viagem, ou seja, um dia inteiro de turismo perdido. E como null não tinha tempo a perder, e a agência ABC Viagens cuidou de tudo para ela, a garota apenas precisou acordar cedo para ir ao aeroporto. Dividiu um táxi com null, e quando embarcaram no avião, ele convenceu um senhor a trocar de poltrona com ele, alegando que null e ele eram um casal muitíssimo apaixonado que apenas queriam poder sentar lado a lado.
— Não acredito que você mentiu para um senhor idoso!
— Preferia estar sentada ao lado do senhor idoso? — ele provocou.
— Eu não me importaria em viajar ao lado de um senhor idoso. — ela respondeu no mesmo tom.
Eles ficaram em silêncio por um momento. null ameaçou levantar, mas null segurou o braço dele.
— Estou brincando! Caramba!
Ele estreitou os olhos, desconfiado, mas riu junto dela. Ficaram em silêncio de novo, enquanto todos os outros passageiros se arrumavam nos seus lugares e ouviam as instruções.
— Ei, quer trocar de lugar comigo? — ele perguntou.
— Por que, você é um senhor idoso?
Ele riu da brincadeira e ela também, não sabendo de onde tinha vindo aquele bom humor matinal.
— Se você se sentar na janela do lado esquerdo, pode ser que tenha sorte e veja o avião fazendo a curva pertinho das montanhas no Valle Sagrado.
null sentiu os olhos brilharem.
— Sério?
— É sério. Imagino que deva ser uma bela visão do lado de fora.
— E deve dar uma foto melhor ainda! — ela disse empolgada.
null revirou os olhos e trocou de lugar com ela.
— Me empresta o… — mas ela mal acabou de falar e tinha o celular já estendido para ela. — Obrigada.
null tirou uma foto da janela, marcando a localização do Aeroporto Internacional Jorge Chávez. Assim que escutaram o aviso de que deveriam colocar os cintos, pois o avião iria decolar, null devolveu o aparelho a null.
— Em pouco mais de uma hora estaremos em Cusco, e então eu terei o meu próprio celular e não mais precisar encher a sua paciência. — ela comentou.
— Honestamente, eu não entendo essa sua obsessão pelas redes sociais.
null preferiu não responde a ele. Apesar de ser o seu instrumento de trabalho mais importante, algumas vezes, ela também não entendia a sua obsessão.
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Assim que pisaram no aeroporto, null sentiu a respiração ficar mais pesada, mas preferiu não comentar nada. Apenas depois de pegarem suas bagagens, e sentir o peso da mochila nas costas, foi que ela começou a reclamar da dificuldade para respirar.
— Eu estava respirando normalmente mais cedo. — comentou.
— É normal a dificuldade por conta da altitude e do ar rarefeito em Cusco. Mas não se preocupe, você vai se acostumar com o tempo, e mesmo que não se acostume, há remédios na farmácia para auxiliar na oxigenação.
null fez uma careta.
— Eu odeio remédios, então vou torcer para que os meus pulmões se acostumem logo.
Eles foram para o lado de fora, e antes de chamarem um táxi, null reclamou que estava com fome.
— Espero que o taxista conheça um bom restaurante para levar a gente.
— Eu vou direto para o shopping buscar o meu celular.
null parou de andar imediatamente e virou para trás, ficando de frente para null.
— Você ficou dois dias sem um o celular e sobreviveu. Pode ficar mais uma hora.
— E você pode, muito bem, almoçar no shopping depois de irmos na loja da Apple.
— Eu não viajei para outro país para comer no shopping. — ele disse como se fosse algo inimaginável.
null bufou e fechou a cara de novo, contrariada. Bateu o pé no chão e, ainda não satisfeita, aceitou almoçar com null antes de irem às compras, afinal, uma hora a mais de espera não a mataria, de qualquer forma.
— Mas você vai me entregar o seu celular para que eu atualize as minhas redes sociais.
— Ah, claro, como se eu não tivesse feito isso nos últimos dias. — falou debochado.
null estreitou os olhos e pegou a câmera, ligando-a. Levantou o eletrônico e focou no rosto de Sabastian, deixando a lente bem próxima do rosto dele.
— E então, null, para onde vamos agora? O pessoal quer saber.
Ele virou o rosto, dizendo que não gostava de ser filmado.
— Você foi filmado várias vezes nos últimos dois dias e sobreviveu, pode muito bem ser filmado mais uma vez. — ela disse em tom de pirraça, ainda o filmando.
Foi a vez dele de estreitar os olhos. Pegou a câmera da mão dela e passou a filmar null.
— Ei!
— E aí, null, que tal dizer para os seus seguidores para onde vamos agora?
Com as mãos na cintura, ela disse:
— Acabamos de chegar em Cusco e agora vamos ao shopping para comprar um celular para mim.
null não gostou da resposta, então virou a câmera para ele, dizendo:
— Isso é mentira, gente. Vamos comer primeiro, porque para chegarmos ao final dessa viagem, não podemos morrer de fome. E nós não vamos almoçar no shopping!
null, então, começou a rir e tirou a câmera da mão dele.
— Ok, você venceu! Agora chama logo um táxi para a gente.
E assim que todas as malas foram colocadas no porta-malas, e eles entraram no banco de trás, null passou a filmar a paisagem pela janela, enquanto null conversava sobre a história da cidade com o taxista.
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null digitava como se sua vida dependesse disso. Seus dedos se moviam rapidamente enquanto ela tinha a cabeça baixa e os olhos fixados na tela do seu mais novo celular. Ela segurava o aparelho com força, com medo de que ele pudesse deixá-la novamente.
— Acabei de avisar meus seguidores de que já estou com um novo celular e que, finalmente, vou poder voltar a fazer stories como antes. — ela pensou por um segundo, e então completou. — Quase me esqueci de como era carregar um celular na mão o tempo todo.
null não comentou nada. Desde que saíram da loja da Apple, null não havia trocado uma só palavra com ele, preocupada demais com o seu mais novo companheiro.
Eles pararam na porta do shopping com as malas ainda ao lado deles.
— Bom, acho que agora não preciso mais que você seja o meu guia. — ela disse mostrando a tela do seu celular, com o roteiro enviado pela empresa de viagens.
null estava com o mapa da cidade nas mãos. Levantou os olhos lentamente, compreendendo o que significava a fala dela. Agora que null tinha seu celular de volta, ela não precisaria da ajuda dele para atualizar as suas redes sociais, nem mesmo para não se perder na cidade.
— Ah, sim… Acho que você está certa.
Mas então ela começou a rir, e null sentiu um peso — que ele não sabia que estava ali — sair das suas costas.
— Eu estou brincando! — e depois de ver que ele começou a rir junto dela, null bateu o cotovelo no dele. — Ainda preciso das suas fotos.
null sorriu satisfeito. Checou mais uma vez o mapa nas suas mãos, e então disse que o hotel que ele iria ficar era bem próximo ao dela.
— Na mesma rua, mas no quarteirão da frente. Podemos até mesmo dividir mais um táxi.
null deu um sorriso esperto.
— Se você tivesse fechado o pacote de viagem com a ABC Viagens, nós estaríamos hospedados no mesmo hotel agora.
Ele fez uma careta.
— Acho que pacotes de viagens são muito caros. Prefiro planejar as minhas viagens por conta.
— Da próxima vez que você resolver viajar para fora do país, você vai poder contratar qualquer pacote com a ABC Viagens usando o meu cupom de desconto. — ela disse satisfeita.
null começou a rir.
— É sério isso?
— É claro que é sério.
O rapaz continuou rindo da fala dela até a chegada do táxi. E mesmo depois que colocaram suas malas no porta-malas e foram para onde ficariam hospedados, null ainda não entendia o motivo do riso.
Não que isso tenha ficado muito tempo ocupando a mente de null. Porque logo depois que deixaram as malas nos hotéis, eles partiram para um city tour pela antiga capital do Império Inca, com direito a uma excursão guiada, com duração de seis horas, por Cusco. Tiveram a chance de visitar os principais pontos turísticos da cidade, passando pelo antigo Templo do Sol, que foi transformado pelos espanhóis no Convento de Santo Domingo.
Dali, null e null seguiram de ônibus para fora da cidade, rumo aos antigos sítios de ocupação inca, que, nos dias de hoje, eram sítios arqueológicos que ficavam aos arredores da cidade.
Por se tratar de um passeio muito longo, null tratou de testar a sua nova câmera e de encher a galeria de fotos.
— Liberdadeeeeeeeeee! É isso que eu sinto por, finalmente, ter o meu celular de volta, gente!
null tinha um dos braços aberto, o celular esticado distante do rosto, com o objetivo de mostrar a vista atrás dela.
— Finalmente cheguei em Cusco. E vejam só, estou na companhia do meu fiel guia improvisado. Fala oi para o pessoal, null!
Ele levantou a mão e deu um sorriso fechado, tímido. null, que estava cheia de energia, voltou o foco da câmera para filmar uma montanha exatamente igual às demais que viram até então.
— Ele está muito ocupado tirando fotos da paisagem. — ela disse para a câmera. — Talvez eu peça algumas dessas fotos mais tarde para mostrar para vocês.
null chegou a chamar a atenção da garota para alguma coisa, mas null estava mais preocupada em arrumar o seu feed do Instagram — estava realmente bagunçado. A concentração da garota era tanta, que, ao final do passeio, quando o ônibus deixou os turistas no centro da cidade, ainda mexendo no celular e de cabeça baixa, null tropeçou e caiu. Desesperada, ela ainda tentou segurar o aparelho, mas ele foi para longe dela.
— Ei!
A reclamação veio pelo fato de null ter corrido para socorrer… O celular. E só depois foi até ela estava, estendendo-lhe a mão para ajudá-la a se levantar.
null abriu os braços e deu de ombros.
— Até parece que a sua maior preocupação não é com esse pedaço de lata.
E apesar dele tê-la ajudado, e salvado o seu fiel companheiro, null fechou a cara. Porque ela não gostava quando ele, ou qualquer outra pessoa, falava assim com ela, como se a garota só se importasse com um aparelho eletrônico. Ela tinha outras preocupações também, caramba!
— Obrigada.
No instante que ficou de pé, sentiu uma fisgada. A reclamação pela dor foi automática.
— Consegue andar?
— Acho que sim.
null, então, ajudou-a a chegar em um banco próximo. null se sentou, e mal teve tempo de questioná-lo quando ele, simplesmente, se ajoelhou na frente dela, passando a alongar a sua perna e o tornozelo. Mexeu o pé da garota de um lado para o outro, e quando a ouviu reclamar de dor de novo, passou a massagear a região.
— Além de fotógrafo você também é massagista? — ela perguntou sem graça.
Quer dizer, fala sério! Não era todo dia que um cara gato como null — porque sim, ele era muito, muito gato — se ajoelhava na sua frente e passava a fazer massagem no seu tornozelo. Especialmente quando ele era um semi-desconhecido.
Somava-se, ainda, o fato de null estar suada e, provavelmente, com um cheiro não muito agradável. A garota apenas desejou que ele não tirasse o tênis que ela usava.
null riu da pergunta dela.
— Sou fisioterapeuta. Trabalho como fotógrafo nas horas vagas.
Três dias ao lado dele, conhecendo o Peru, e null não sabia dessa informação. O quão desligada ela era?
Ele colocou o pé dela no chão e sentou-se ao seu lado no banco. Devolveu o celular para ela e, no momento em que null esticou o braço, suas mãos se tocaram.
Diferentemente dos filmes, ela não tirou sua mão com pressa e null tampouco se afastou. E, igual aos filmes, null sentiu como se o tempo tivesse parado e, por um momento, só existissem eles dois.
O momento, contudo, foi interrompido como quem levava um susto ao acordar de manhã com o despertador.
— Hm… Desculpe. — ele disse antes de se afastar para atender o celular.
null não teve tempo de responder, já que null já estava longe com o celular no ouvido e a mão bagunçando os cabelos.

DIA 4

— Estamos chegando em Moray, um sítio arqueológico que fica nos arredores de Cusco. Aqui os terraços agrícolas são marcas registradas da cultura inca, e sempre impressionaram as pessoas porque demonstram como esse povo era evoluído para o seu tempo.
null virou a câmera para filmar a si mesma.
— Por que estamos indo a mais um sítio arqueológico mesmo?
E então voltou a câmera para null, que estava sorrindo, como se já tivesse ouvido aquela pergunta outras vezes.
— É parte da história e evolução cultural do Peru. É importante saber dessas coisas quando se visita um país diferente.
— Ok, ok… E o que mais vamos fazer hoje? — perguntou, mantendo o foco da câmera em null, que andava ao seu lado.
— Depois vamos seguir para Maras, onde vamos conhecer as Salineras de Maras que, acredito, vai ser o lugar mais impressionante do passeio.
— E por que você acha isso?
— Porque é um dos quatro lugares do mundo onde se extrai o sal rosa.
— Uau! — null virou a câmera para si. — Ouviram isso? As blogueiras fitness iriam amar conhecer esse lugar! — ela disse dando risada.
— São milhares de pequenas piscinas, escavadas nas montanhas até perder de vista. A água é extremamente salgada e quando acumula se evapora, daí o sal que sobra é extraído pelas famílias que vivem dessa renda.
null deixou o queixo cair, impressionada.
— Como você sabe de todas essas coisas?
— O guia falou sobre isso assim que entramos no ônibus hoje de manhã. — ele respondeu simplesmente. E diante do silêncio de null, ele completou: — Você deveria prestar mais atenção nas pessoas ao seu redor.
null não o contestou. Primeiro porque, de fato, ela conseguia ser bastante distraída às vezes e, segundo, porque null continuava falando animado sobre as informações que tinha lido sobre o lugar.
null, contudo, só errou em uma coisa: Salinas de Mara não foi o lugar mais impressionante que eles conheceram naquele dia. Isso porque, depois do almoço, eles foram à Montanha Colorida.
Todos os seis quilômetros caminhados, toda a dificuldade para respirar por conta do ar rarefeito, toda a dor no corpo e o peso nas pernas foram compensados quando chegaram ao topo da famosa Rainbow Mountain.
— Meu deus…
null estava impressionada. Toda aquela imensidão do relevo, tingida naturalmente por diversas cores, de fato, dava a impressão de ser algo surreal e, sinceramente, incomparável com qualquer outra paisagem do planeta.
A garota ficou bons minutos olhando para a paisagem, as montanhas tingidas de diversas cores, com o queixo caído. Ela, então, se lembrou que tinha um celular no bolso de trás da calça e uma câmera quase caindo da sua mão. Sacou o celular e passou a tirar fotos do local.
null estava tão impressionado quanto ela.
— Você sabe que nunca vai conseguir registrar, com uma câmera, tudo o que os seus olhos veem, não é? Não importa o quão boa seja a sua lente, nada se compara com as imagens que os nossos olhos captam.
null abaixou o celular e pensou no que ouviu.
— A verdade é que acho que não queria estar fotografando essas paisagens. Elas nunca vão refletir a realidade. Além disso, meus seguidores preferem quando eu publico fotos minhas. Mas sabe como é, eu preciso disso, assim como os vídeos, para fazer publicidade para a agência de viagem que me trouxe aqui.
E desta vez ambos ficaram em silêncio, admirando a paisagem mais incrível que já tinham visto na vida, ainda com a respiração muito pesada e difícil.
— Eu gostaria de poder ficar alguns minutos apenas observando tudo isso, só olhando, registrando na minha memória, com os meus próprios olhos, porque sei que, quando chegar em casa, as fotos e os vídeos não vão fazer jus a tudo isso.
— Então faça isso. — ele disse calmamente, quase sereno. — Nós temos uma hora para aproveitar.
null sorriu sem mostrar os dentes e suspirou. Guardou o celular de volta no bolso da calça e levantou a câmera, ligando-a.
— Preciso trabalhar. — ela disse dando de ombros. — Ah, depois você pode tirar algumas fotos minhas?
— Claro, mas… Essas fotos são para você ou para o seu Instagram? — ele perguntou. E vendo que a garota não entendeu a sua pergunta, a refez. — Quando foi a última vez que você fez algo por si mesma, sem se preocupar com o que os outros vão pensar?
E para essa pergunta, ela não tinha uma resposta.
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De noite, no seu quarto do hotel, enquanto secava os cabelos com a toalha, null precisou colocar as pernas para cima, usando para isso dois travesseiros extras que pediu na recepção. Deixou o notebook em cima do colo enquanto separava os vídeos gravados naquele dia para mandar para o seu editor.
— Olhem só a situação em que eu me encontro, gente. — ela disse para o celular, enquanto gravava alguns stories. Mostrou que estava de repouso, com as pernas para cima, e escreveu embaixo do vídeo “recomendações fisioterápicas”, colocando o @ de null.
Postou uma foto dela de mais cedo, e em menos de um minuto, teve mais de duzentos comentários.
Fez outro story, com o print do número de comentários, e escreveu embaixo “é realmente ótimo quando temos tanta gente com a gente todos os dias”.
Naquele momento, sua barra de notificações desceu, mostrando que havia recebido uma mensagem dele. E então null percebeu que, na verdade, a única pessoa que, realmente, a estava acompanhando todos os dias era ele, null. Enquanto seus seguidores lhe davam curtidas e comentários, null lhe dava conversas, risadas e companhia.
E, naquele momento, ela não se importou nadinha em constatar que ele era a única pessoa que verdadeiramente estava ao seu lado.
Savan se levantou, colocou um moletom por cima do pijama e desceu para jantar. Chegou a convidar null para jantar com ela, mas ele preferiu ficar no seu próprio hotel para a refeição
“Afinal, já está incluso na diária”, ele escreveu para ela.
Sevana riu, mas não contestou. No lugar dele, ela também não gastaria dinheiro a mais com algo que já estava pago.
Ao chegar no térreo, foi surpreendida por um grupinho de meninas próximo ao elevador, que logo se aproximou dela.
null!
null, eu sou muito sua fã!
— Podemos tirar uma foto?
— Você pode mandar um oi para a minha filha? Ela gosta muito de você.
Enquanto null atendia cada uma das suas seguidoras, uma delas lhe explicou que também estavam viajando por Cusco e resolveram ir visitá-la.
— E como vocês sabiam que eu estaria aqui? — ela perguntou curiosa, após sorrir para mais uma foto.
— Você colocou a localização do hotel hoje de manhã, quando postou a foto do seu café da manhã.
null mal conseguiu esconder o susto. Mas a surpresa vinha dela mesma, que estava tão acostumada a colocar as suas localizações, a dizer onde estava a todo momento do seu dia, que se assustou com o fato de perceber, somente naquele momento, que as pessoas, de fato, sabiam onde ela estava a cada momento.
Quer dizer, sua vida era inteira pública, mas só naquele momento ela se deu conta do que aquilo realmente significava.
E ela ficou assustada e surpresa com o quão insatisfeita se sentiu. Porque então parou para pensar no quão problemático, no quão perigoso, aquilo era. Perguntou quando tinha sido a última vez que tinha saído sem ser notada. E, mais do que isso, até que ponto ter a sua vida inteira exposta era algo positivo?

DIA 5

null precisou acordar muito cedo no dia seguinte para não perder o trem que a levaria para Aguas Calientes. null a esperava do lado de fora do hotel, impaciente com a demora dela.
— Torça para conseguirmos rápido um táxi.
Mas ela não tinha culpa. Mesmo acordado cedo, precisou trocar de roupa três vezes, não tendo gostado de nenhuma. Quer dizer, de que adiantava ter uma mala tão grande se ela não tinha nenhuma roupa de que gostava? Especialmente quando todas as suas roupas já tinham sido usadas?
— Desculpe, mas eu demorei para encontrar uma roupa legal para o dia de hoje.
null franziu a testa.
— Por quê?
— Porque eu não posso aparecer com a mesma roupa todos os dias nas filmagens.
null não tentou esconder a sua surpresa. E nem o seu julgamento. Ele piscou algumas vezes, abriu o fechou a boca, mas não falou nada. Já tinha desistido de tentar entender null e as coisas com as quais ela era preocupada.
O táxi parou próximo à calçada em que eles estavam. null a chamou para colocarem as malas no porta-malas. E antes de entrar no carro, ele comentou:
— Se serve de consolo, eu gostei da camiseta que você escolheu.
null sentiu as bochechas corarem, mas não disse nada.
Assim que o táxi deu partida, null começou a tagarelar sobre algum programa peruano que ele tinha assistido na noite passada. null pensou em filmar, pela janela do carro, o caminho até a estação de trem, mas a conversa com null estava mais interessante. Ela havia adquirido aquele hábito: o de prestar atenção no que ele falava e de se divertir muito com as besteiras dele.
Mal chegaram à estação e já precisaram embarcar. null tratou de guardar as malas deles, enquanto null arrumava suas coisas na cabine. E assim que o trem deu partida e começou a deixar a Estação Peroy, null pegou seu kit de maquiagem dentro da bolsa e começou a arrumar os utensílios na mesinha à frente.
null estava sentado à sua frente e a olhava com curiosidade.
— O que foi? — ela perguntou.
— O que você está fazendo?
— Estou me maquiando. — ela respondeu rindo.
Ele revirou os olhos, suspirando, mostrando que, claramente, queria comentar alguma coisa, mas tinha preferido se manter calado.
null deixou a base de lado e voltou sua atenção para null.
— Fala.
— Falar o quê?
— Sei lá, o que você quiser falar. — ela esperou por um segundo, e como ele não disse nada, completou. — Eu sei que você tem alguma coisa a dizer.
Mas null não respondeu de imediato. Tentou medir as palavras para que não soassem rudes ou julgadoras demais.
— Quando foi a última vez que você se deixou livre?
null franziu a testa. Como assim?
— Eu sou livre. — ela respondeu rindo.
— Digo… Quando foi a última vez que você saiu de casa sem se preocupar com que roupa estaria usando? Ou se teria lavado o cabelo na noite passada, ou se estaria com uma boa maquiagem? Quando foi a última vez que você ficou sem se retocar?
A garota ficou completamente sem palavras. De tudo o que ele poderia lhe falar, ela jamais esperaria por aquilo.
— Tudo o que você faz é pensado em como vai sair nas fotos e nos vídeos. Sua preocupação é se a sua foto ficará boa no perfil do Instagram… Quer dizer… Isso não é ser livre, null. Você está presa e nem mesmo percebe.
— É o meu trabalho. — ela respondeu de forma automática, como sempre fazia.
— Mas ninguém trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana. Além disso, o seu trabalho é ser você mesma e influenciar as pessoas por meio das suas condutas e experiências. Você pode fazer isso de várias formas. E você escolheu se prender, como a maioria dos influenciadores, youtubers e instagramers. — ele terminou dando um risinho no final. — Não sei pronunciar essas palavras direito. — riu de novo.
null sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. O impacto das palavras dele lhe atingiu em cheio, mas ela não deixou isso transparecer. Isso porque ela mesma já havia se questionado sobre a necessidade que ela tinha de postar tudo, a todo momento. De tornar tudo conhecido, acessível. Era bem verdade que o seu trabalho lhe exigia exposição nas redes sociais, mas até que ponto? Qual era o limite?
Mas como aquele não era o momento para se falar sobre isso e ter esse tipo de reflexão, null apenas riu de null.
— Você parece um senhor velho que não conhece as gírias dos jovens.
null riu junto dela, e então deixaram o assunto morrer.
A viagem durou pouco mais de três horas, e por mais cansada e com sono que null estivesse, ela mal conseguiu dormir no trem. Durante todo o trajeto, eles foram observando a paisagem do lado de fora, enquanto null fazia comentários culturais.
— Como você sabe de tudo isso? E não venha me dizer que algum guia te contou, porque eu sei que é mentira.
null riu divertido.
— Eu apenas li o panfleto que nos entregaram ao entrarmos no trem.
null se pegou pensando que não havia recebido nenhum panfleto ao adentrar no trem. Mas isto era porque… Bem, suas mãos estavam ocupadas demais com a câmera e seu kit de maquiagens.
O casal logo mudou de assunto e começaram a falar de banalidades, até que null se esqueceu de gravar o percurso da viagem. Estava se divertindo muito com null — desde o primeiro dia de viagem, quando ela esbarrou nele e ele a ajudou. O rapaz vinha sendo uma excelente companhia e há tempos ela não se sentia tão… livre para conversar com uma pessoa como ele.
Assim que chegaram em Aguas Calientes foram para o hotel reservado pela empresa de viagens.
— Onde você vai ficar? — ela perguntou.
— Em algum albergue. Ainda não sei qual. — ele deu de ombros.
— Você pode se hospedar aqui também. — ela disse. — Será que eles têm vaga?
null se mexeu meio desconfortável.
— Eu não posso gastar muito dinheiro, null. Vou me encontrar com os meus amigos em dois dias, e então seguir viagem.
A garota estava gostando tanto da companhia dele, estava tão acostumada com ele ao seu lado todos os dias, que nem mesmo se lembrava de que sua aventura com null terminaria dali dois dias, e então, cada um seguiria para um lado diferente.
— O que foi? — ele perguntou, percebendo a mudança de humor dela.
— Nada. — ela respondeu.
null iria embora e ela também. Cada um seguiria o seu caminho e eles…
— Apenas percebi que daqui dois dias vamos nos despedir. E talvez nunca mais iremos nos ver novamente.
null tinha o olhar baixo e os ombros caídos. null, por outro lado, tinha a testa franzida e a expressão confusa.
— O quê?! null, nós moramos no mesmo prédio, esqueceu?
A garota voltou o olhar para ele depressa.
— Caramba, é verdade!
Ambos começaram a rir, e null se sentiu muitíssimo mais leve. Eles não corriam o risco de nunca mais se verem, afinal de contas.
No final, null conseguiu um quarto mais barato no mesmo hotel em que null ficaria hospedada. Mas mal conseguiram conhecer os quartos em que passariam a noite, já que null ficava a apressando, pois estava com muita fome e não via a hora de encontrarem um restaurante para almoçarem.
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Curiosamente, não havia carros em Aguas Calientes, e a única forma de se locomover por lá era por meio do micro-ônibus que levava os visitantes até Machu Picchu. E como eles não estavam indo para Machu Picchu ainda, foram de um lugar para o outro a pé.
E por se tratar de um povoado, não havia muita coisa a ser vista na cidade. null, então, como o senhor idoso que era — nas palavras de null — quis visitar a praça central da cidade.
— A Plaza Manco Capac é perfeita para tirarmos a típica foto de todo turista: na frente da placa “Bienvenidos a Machu Picchu”.
null riu da ideia dele.
— Eu não vou tirar uma foto na frente dessa placa.
— E por que não? — ele perguntou. — É uma foto pouco “instagramável”?
A garota franziu a testa.
— Essa palavra nem existe!
Ele deu de ombros.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
null mordeu o lábio porque sim, ela tinha entendido perfeitamente. Ela apenas não queria admitir que ele estava certo.
— Eu não quero…
— Você quer. — ele a interrompeu com um sorriso divertido. — Todo mundo quer. Por mais cafona que seja, se você visita uma cidade e não tira foto na frente da placa de boas vindas, é como se você não tivesse visitado essa cidade.
null riu dele, achando engraçado a forma com que ele defendia o que queria.
— Ok, ok… Você venceu. — ela disse rindo de novo, dessa vez pela comemoração dele.
Ela foi até em frente à placa e, sem saber o que fazer, apenas sorriu para a foto.
— Vai ficar parada aí que nem um poste?
— O que você quer que eu faça? — ela perguntou colocando as mãos na cintura.
— Sei lá, quem tem o maior número de curtidas nas fotos é você, então você me diz.
null ficou um minuto em silêncio, pensativa. Pensou que não sabia o que fazer porque há muito tempo ela não tirava fotos despretensiosas, sem a necessidade de dar visibilidade a alguma marca patrocinadora ou sem pensar na pose que mais iria lhe favorecer. Não se lembrava da última vez que bateu uma foto sem se preocupar com o cenário, a iluminação e o tipo de roupa que estava usando.
E quando se deu conta dos pensamentos que estava tendo, ela ficou surpresa.
Quer dizer, há quanto tempo ela não tinha fotos suas simplesmente por ter? Ou fotos que apenas registraram momentos importantes da sua vida? Mesmo quando tirava fotos com a família ou amigos, mesmo quando participava de eventos da vida cotidiana, ela sempre se preocupava muito com que mensagem ela estaria passando para quem fosse ver a foto…
Deus… Aquilo era cansativo.
Deixar todas as preocupações de lado, esquecer-se das suas redes sociais por um período era libertador. E prova disso foi a forma com que ela se divertiu rindo de null tirando fotos suas e a ensinando a fazer poses comuns de pessoas comuns.
— Agora coloca a mão da cintura e fica de lado. Isso! Tomba o pescoço para o lado. Faz joinha com a mão agora.
null soltou uma gargalhada.
— Mas isso nunca!
Ele riu junto dela. E após null ter as suas próprias fotos na frente da placa de boas vindas — dentre elas, algumas fazendo joinha e um coração com os dedos — eles estavam prontos para conhecer o que o povoado tinha a oferecer.
— O que vamos fazer agora? — ele perguntou.
O impulso dela foi de falar que deveriam ir nas águas termais, pois sabia que lhe renderia uma boa história para o canal e excelentes fotos “instagramáveis”, como null costumava dizer. Mas não era isso que null realmente querida. A garota estava bastante cansada por ter acordado cedo, então ela só queria tirar um dia para se divertir.
No dia seguinte, quando finalmente fossem a Machu Picchu, ela teria um dia inteiro de fotos e vídeos. Mas naquele dia, ela só queria curtir o momento o null.
— Você decide. — ela disse dando de ombros. — Você é o guia improvisado aqui.
— Improvisado, hm?
— É, sabe como é… Não é como se eu tivesse tido muita escolha. Você esbarrou em mim no primeiro dia e então não descolou mais de mim.
null segurava a risada, e null apenas deixou o queixo cair, também rindo.
— Ok, essa frase está errada em tantos níveis que eu nem consigo contabilizar.
null riu alto. Correu até ele, abraçou o braço dele e apontou para a frente.
— Mostre-me o caminho da nossa próxima parada, ó, senhor guia improvisado!
null entrou na brincadeira. Estufou o peito e segurou sua câmera com ambas as mãos na frente do corpo, engrossou a voz e disse:
— Siga-me, minha pequena turista perdida. Vou levá-la para o nosso próprio destino.
O casal andou por quase meia hora, e null só percebeu o decorrer do tempo quando chegaram no mercado artesanal e null parou para tirar uma foto.
— Você me trouxe para fazer compras? — ela perguntou.
— Pensei que fosse algo que você gostasse de fazer. — ele respondeu simplesmente, ainda preocupado em capturar as tendas para a sua foto conceitual.
null soltou o braço dele — já que ainda o segurava — abriu a boca surpresa, e colocou ambas as mãos na cintura.
— Essa é uma péssima suposição sobre mim, null. — ela disse firme. — Não acredito que você reproduz estereótipos.
null parou o que estava fazendo e abaixou a câmera. Olhou para null com um ar preocupado e ficou alguns minutos em silêncio, analisando as palavras dela.
— É verdade. Foi um péssimo comentário. Eu não te conheço para saber se você gosta ou não de fazer compras. Fui infeliz na minha fala, me desculpe, null.
null estava sério, preocupado. Ficou surpreso com a fala dele, e ainda mais com o significado dela. Ofender null nunca foi a sua intenção, muito menos reproduzir algo que ele nem mesmo acreditava.
null ficou alguns segundos em silêncio, séria, analisando-o. E então ela sorriu, vendo verdade nas suas desculpas.
— Tudo bem, você está perdoado, desde que não volte a cometer o mesmo erro.
— Eu prometo.
E então, sem pensar no que estava fazendo, null pegou a mão dela e seguiu caminho. null não reclamou, tampouco se surpreendeu com o gesto. Era algo natural, como se ambos estivessem esperando por isso, como se fosse o certo, o óbvio.
Eles andaram em meio às barraquinhas e null se divertiu vendo ele pechinchar por uma camiseta, implorando por desconto. E, ao final, quando voltaram para o hotel em que passariam a noite, suas mãos não só estavam juntas, mas também tinham os dedos entrelaçados.

DIA 6

— Não acredito que você me fez acordar antes das seis da manhã de novo.
Ele riu de null.
— O que você queria? Ficar no hotel enquanto está a uma hora de uma das sete maravilhas do mundo?
A garota fechou a cara.
— Eu só queria poder dormir um pouquinho mais. — disse com a voz ainda grogue.
— Você vai poder dormir no ônibus, não se preocupe.
O ônibus para Machu Picchu saia às cinco horas da manhã em ponto, e null torcia para que eles chegassem a tempo de pegar o nascer do sol. null, por outro lado, apenas torcia para que o ônibus fosse silencioso o bastante para que ela dormisse mais um pouco.
Nem null e nem null tiveram os seus desejos atendidos. Mas isso não impediu que null conseguisse tirar um cochilo apoiada no ombro de null.
Ao descerem do ônibus, o casal se juntou a um grupo de turistas para, juntos, contratarem um guia local. Ambos tinham suas câmeras em mãos — null segurava sua câmera em uma mão, e o celular na outra — e seguiram para dentro do sítio arqueológico.
— Como você dá conta de usar os dois ao mesmo tempo? — ele perguntou apontando para os dois eletrônicos nas mãos da garota.
null deu um sorrisinho esperto, uma piscadinha, e respondeu:
— Me observe.
null ligou a câmera, e começou a gravar o seu vídeo:
— Penúltimo dia de viagem, pessoal, e adivinhem onde eu estou!
Ela virou a câmera para frente, para onde era possível ver os turistas do seu grupo. Por estar olhando para câmera, tropeçou, e só não caiu porque null a segurou pela cintura.
— Ops! — ela brincou, sabendo que ainda estava gravando, ainda que, por dentro, ela tivesse sentido as bochechas corarem pela aproximação.
— Cuidado. — ele sussurrou. — Olha por onde anda.
A garota não teve tempo de responder, contudo.
— Wow!
Logo na entrada do sítio havia uma montanha enorme, com construções em ruínas e escadas em pedra. A guia começou a falar e null direcionou sua atenção para ela.
Huayna Picchu é a montanha principal de Machu Picchu. É aquela mais famosa, e é conhecida por estar em todas as fotos de quem visita o Peru.
Todos do grupo expressaram contentamento com a visão, surpresos por sua beleza. O som que mais se ouvia era os das fotos sendo tiradas e dos flashes sendo batidos.
null ainda estava boquiaberta, sem ter notado que a mão que ainda segurava a câmera, estava caída ao lado do seu corpo.
— Machu Picchu foi, ao lado de Cusco, um dos mais importantes centros urbanos da antiga civilização inca. — explicou a guia. — Nessa montanha, a Huayna Picchu, é possível encontrar muitas ruínas. Ela tem, mais ou menos, 2.720 metros de altura, e sua subida leva em torno de duas horas.
— Legal! Vamos agora? — null se animou, ansiosa por chegar ao topo e ter a chance de ter uma visão privilegiada que somente aquela montanha poderia lhe dar.
— A subida à Huayna Picchu será a nossa última atividade. Antes, vamos conhecer um pouco mais da história de Machu Picchu, visitando outros lugares. — a guia respondeu com um sorriso, acostumada com turistas empolgados.
— Ah, mas eu quero ir agora… — ela reclamou baixinho. null foi o único que a ouviu.
— Mimada. — ele sussurrou no ouvido dela. null teve certeza que o arrepio que sentiu passar no corpo não tinha nada a ver com o clima fresco e o vento de Machu Picchu.
null não percebeu, contudo. Então apenas riu, foi para trás da garota, segurou nos braços dela, e a empurrou em direção ao restante do grupo.
Alguns minutos de caminhada depois, null se divertiu tirando fotos na Porta do Sol, “a qual foi construída em homenagem ao Deus do Sol, e está estrategicamente posicionada para que o solstício de inverno apareça”, segundo a guia da turma.
— Não faço ideia do que isso significa. — null sussurrou para null.
— Shiu, presta atenção na guia. — ele disse em tom bravo, mas null viu que ele segurava a risada.
— A Porta do Sol também servia de controle de entrada e saída do templo sagrado, já que acreditava-se que quem entrava na cidadela por esse caminho tinha o respeito dos outros habitantes.
— E por que isso? — alguém do grupo perguntou.
— Porque os incas eram muito seletivos com quem podia ou não conhecer a sua moradia. — a guia explicou. — Logo, quem chegava até aqui, tinha o respeito dos incas e de toda a população.
— Espera aí… Como é que é?
null tinha o celular em mãos e tentava anotar todas as informações no bloco de notas, mas perdeu parte da fala da guia.
Sua pergunta, contudo, não foi ouvida.
— Você terão alguns minutos para tirarem fotos antes de irmos para o próximo destino.
null bufou, frustrada por não ter anotado tudo o que queria.
— Ei, você deveria aproveitar mais o passeio e passar menos tempo no celular. — null disse para ela.
— Mas eu queria essas informações para falar no meu vídeo mais tarde. — ela disse chateada. Já que estava fazendo um passeio cultural, queria ter a chance de levar um pouco de cultura e história para os seus seguidores.
null, é só você procurar essas informações no google. — ele disse em tom óbvio.
A garota levou apenas um segundo para perceber que a sua preocupação não tinha sentido, e que procurar informações no google mais tarde era uma saída infinitamente melhor do que correr para anotar tudo o que a guia falava.
Eles, então, foram para o Templo das Três Janelas, “uma construção perfeitamente simétrica, com pedras que se encaixam perfeitamente umas sobre as outras” — nas palavras da guia.
null gostou de saber sobre o significado cósmico dos incas, que teriam dado significados a cada uma das três janelas, sendo que uma representava o mundo superior, outra a superfície terrena e a terceira o mundo inferior.
— Li que as janelas também eram usadas para marcar as estações do ano. — null comentou com null, mas foi ouvido pela guia.
— E a sua leitura estava correta. — a guia respondeu com um sorriso orgulhoso. — Vamos continuar a nossa caminhada.
E enquanto seguiam para o próximo ponto turístico, depois de terem tirado algumas fotos, null comentou com null:
— Acho que não vou precisar usar o google quando precisar de informações. Tenho uma enciclopédia improvisada bem do meu lado.
null riu do novo apelido.
O passeio, então, continuou. Passaram pelo Templo do Sol, onde ocorriam as cerimônias religiosas e pelo Relógio Solar e Astronômico — àquele ponto, null já se encontrava toda suada e ofegante, e não gostou nadinha da ideia de null de tirar uma foto em cima do relógio.
— Por que não? — ele perguntou rindo.
— Porque eu estou uma bagunça e parece que esqueci como que se respira.
Ele riu de novo.
— Isso é porque este é o ponto mais alto do sítio arqueológico. — ele explicou.
null apenas balançou a cabeça, concordando com o que ele dissera, já que fazia total sentido, quanto mais alto ficavam, mais difícil ficava a respiração.
— De qualquer forma, você continua linda. — ele disse. Assim, do nada. O que fez com que as bochechas de null corassem instantaneamente.
De todos os comentários possíveis vindos de null, um elogio como aquele era o mais inesperado.
— Além disso, os seus seguidores merecem ver como você é na vida real: descabelada e com o suor escorrendo na testa.
E esse comentário era muitíssimo mais a cara de null.
Mas antes que null pudesse reclamar, ele começou a rir e indicou que a garota fosse até a pedra para tirar uma foto.
— Aproxime as mãos da pedra do relógio.
Mesmo sem entender o motivo, null o fez.
— Agora tira uma foto minha.
null foi até onde ela estava, entregou a câmera fotográfica dele à ela e se posicionou onde antes null estava.
— Por que estamos tirando fotos assim mesmo? — ela perguntou enquanto arrumava o foco. Bateu duas ou três fotos, e esperou pela resposta dele.
— Porque é costume das pessoas fazerem isso para receber as energias do local. Sabe como é, boas energias.
— Enciclopédia ambulante… — ela disse cantando, em tom de brincadeira.
O grupo ainda teve a chance de ver as alpacas e as lhamas, e de tirarem fotos de longe. E no final, no percurso, quando finalmente chegaram ao topo da principal montanha de Machu Picchu, após duas horas de muito protetor solar, muita água e muito cansaço, null poupou as reclamações apenas para apreciar a vista de cima.
Era tão lindo, tão… Incrível.
— Agora eu entendo porque esse lugar é considerado uma das sete maravilhas do mundo.
A garota olhava em volta com olhar de admiração. Pescou o celular no bolso da calça e começou a tirar fotos e a fazer pequenos vídeos. null, por outro lado, apenas a observava.
null não conseguia encontrar palavras para descrever o que sentia naquele momento. Estava emocionada por se encontrar no topo de uma das montanhas mais famosas do mundo, tendo o privilégio de ter uma visão ampla de toda Machu Picchu, do sítio arqueológico, das construções incas e de toda a imensidão da natureza. Ela já nem sabia mais onde focar a câmera do celular para tirar as fotos.
— Qual foi a última vez que você deixou de fotografar alguma coisa? Algum acontecimento?
null ainda estava meio abobalhada, imersa na imensidão de Machu Picchu. Demorou alguns segundo para perceber que null falava com ela.
— Hm.. O quê?
null…
null se aproximou dela e abaixou o celular dela, que estava erguido no ar.
— Fotografe esse momento no seu olhar, nas suas memórias. A sua câmera nunca vai conseguir capturar tudo isso como os seus olhos, acredite.
E ela acreditava.
Ela acreditava porque há muito tempo não via o mundo da forma como tinha visto nos últimos dias. Há anos não enxergava as pessoas com seus próprios olhos, e não com a lente de uma câmera.
O mundo era colorido e brilhante. O cheiro era livre de qualquer elemento da cidade: não havia fumaça, não tinha poluição. Era um cheio limpo de interferências humanas, só tinha as montanhas e as pedras. O som era de liberdade. null olhava envolta de si, e tudo o que ela via era a imensidão de uma cidade, uma única cidade. O mundo era grande demais, e ela estava no topo do mundo — ou, pelo menos, era como ela se sentia.
Apesar de estar sempre rodeada de pessoas — seja na vida real, seja na internet — null nunca havia se sentido verdadeiramente acolhida. Quer dizer, os números, de inscritos e seguidores, eram importantes para o seu trabalho, mas eram insignificantes quando se tratava de carinho e afeto.
Isso não significava que a garota não recebia amor dos seus seguidores, mas… Isso não era o suficiente. Até mesmo porque, a maioria das pessoas que a seguiam, era completamente indiferente para quem null era de verdade, e para o que ela sentia. O papel de null era de fornecer uma vida agitada e interessante para que fosse consumida pelos seus seguidores. Seus sentimentos, inseguranças e defeitos, deveriam ficar escondidos, em off. E ela havia chego em determinado ponto da sua carreira, que já não sabia mais separar sua vida pública da via privada. Era como se tudo, absolutamente tudo o que ela fazia, fosse passível de consumo e, por isso, tudo o que ela fizesse devesse ser interessante, mesmo que o interessante para seus seguidores não fosse interessante para ela.
Deus… Quando foi que ela havia se perdido daquela forma?
Ao voltar sua atenção para null, ela também o viu diferente. Quer dizer, ele ainda era o garoto debochado que fazia graça das muitas fotos que ela tirava diariamente. Ainda era a enciclopédia ambulante e guia improvisado que ela tinha conhecido poucos dias atrás. Definitivamente, ainda era o garoto que morava no andar de baixo, o mesmo que ela cumprimentava quase todos os dias, mas nunca tinha, de fato, o visto.
E, bem, ela o via agora.
Via seus olhos brilhantes de excitação com o que o mundo podia lhe oferecer — null era um cara livre, ele não se prendia a nada — e o sorriso leve e despreocupado. Ele não ligava para o que as pessoas pensavam dele, nem para a impressão que iria causar em pessoas desconhecidas, afinal, como ele mesmo havia lhe dito uma vez, “não dá para a gente conhecer uma pessoa só por meio das fotos dela. O ser humano é muito complexo, e é loucura pensar que uma única conversa, uma frase, um vídeo ou uma foto seja suficiente para expressar tudo o que uma pessoa é por dentro”.
Mas null conhecia null. Ela o conheceu desde o dia um, quando ele se preocupou em ajudá-la a tentar conseguir um celular novo, e então passou a acompanhá-la na viagem.
— Na verdade é você quem está me acompanhando, lembre-se disso. — ele lhe dissera uma vez, em um dos almoços que tiveram juntos.
null era tudo o que null não era. Fazia tudo o que ela não fazia, mas, ironicamente, havia trocado de papel com ela. Enquanto a garota era uma influenciadora no mundo da internet, null passou a ser influenciada pelo jeito simples dele.
— O que foi? — ele perguntou.
null, então, percebeu que ainda o olhava. Não sabia o que poderia estar transmitindo com o seu olhar, mas o olhar encabulado dele era quase engraçado.
— Nada. — ela respondeu. Porque tinha tanta coisa se passando na sua mente, que ela não saberia como colocar tudo em palavras.
Mas… Talvez ela soubesse colocar em gestos.
E por isso, null deu alguns passos em direção a ele, segurou sua mão e voltou a olhar nos olhos de null.
— Obrigada.
— Pelo quê?
Nenhum dos dois perceberam, mas ambos estavam sussurrando, como se aquela conversa fosse um segredo que só poderia ser compartilhado por eles.
— Por me fazer perceber que, em um mar de tanta indiferença, era sol que me faltava.
null estava distraído demais com a boca dela próxima à sua para prestar atenção na conversa.
— Hm… Pois é… Tem bastante sol no Peru, né.
null soltou uma risadinha.
— Foi uma metáfora, null. Acredito que você saiba o que é…
Mas ela não pôde completar a sua fala. Isso porque os olhos dele, que antes estavam abertos, agora estavam fechados. E os lábios dele, que antes estavam a poucos centímetros dos dela, estavam colados nos de null. O beijo era tão esperado pelos dois, que eles mesmos ficaram surpresos com a receptividade do outro.
Quer dizer, é claro que null queria beijar null desde o primeiro dia que passaram juntos. Quem não gostaria? A garota era linda de morrer, e mesmo sendo meio desligada com algumas coisas, era uma das pessoas mais incríveis que ele já havia conhecido.
null, por outro lado, não tinha passado um só dia sem ficar nervosa com as piadinhas de null, da mesma forma que não passara um só minuto sem dar boas risadas com as mesmas piadinhas dele. Era totalmente compreensível a vontade da garota de ter um aproximação com ele — uma aproximação bem mais próxima da que tiveram nos últimos dias.
— Ainda bem que você me beijou primeiro, porque não sei se eu aguentaria o seu ego inflado caso eu tivesse te beijado.
null e null ainda estavam nos braços um do outro, ela o abraçando pelo pescoço, ele a segurando pela cintura e mantendo seus rostos próximos. A respiração estava falha, primeiro pela altitude, e segundo pelo beijo longo. Aquela era a primeira vez que null não reclamava da falta de ar.
— Eu não tenho um ego inflado. — ele se defendeu.
null riu.
— Ah, tem. Mas tem sim, com certeza.
Eles se afastaram, mas continuaram com os braços no corpo do outro.
— Só por que sou inteligente?
— Viu só? — ela provocou.
— E por que não preciso de um celular para me dizer onde ir?
— Ah, pronto!
— E porque sou ótimo com direções, história e cultura?
— Ok, acho que você está exagerando.
Eles começaram a rir, divertidos com a leveza da conversa, a mesma leveza que eles sempre tiveram, desde o dia um, quando eles nem se conheciam direito.
O casal voltou a se beijar, mas null se afastou logo em seguida:
— Ah, e sou um excelente fotógrafo também. Quantas curtidas você teve na última foto mesmo?
— Cala a boca! — ela disse rindo, e então foi a vez de null de puxá-lo para um beijo. Beijo este, que se repetiu várias e várias vezes ao longo do dia.

DIA 7

— Pode me passar a manteiga, por favor?
Após o passeio por Machu Picchu, null e null pegaram o micro-ônibus para voltarem a Aguas Calientes para passarem a noite. Apesar de estarem de mãos dadas, nenhum dos dois se atreveu a repetir os beijos dados no topo da Huayna Picchu, mas ambos se desejaram boa noite — null com as bochechas meio coradas, e null com os olhos quase fechando pelo cansaço.
— Aqui está. — ele respondeu, lhe entregando a manteiga.
Ao acordarem no dia seguinte, pegaram o primeiro trem de volta a Cusco, e então foram direto para o Aeroporto Internacional Alejandro Valesco Astete. Deixaram as malas em um dos armários do aeroporto, e procuraram a padaria mais próxima para que pudessem tomar o café da manhã.
Durante todo o caminho, trocaram poucas palavras — nenhuma com relação aos beijos trocados no dia anterior. Eles preferiram acreditar na desculpa de estarem demasiado cansados para conversarem sobre qualquer coisa.
— O suco está bom. — ele comentou após tomar um gole do suco de uva. — Quer um gole?
— Sim, por favor.
O sono estava presente, mas já não podia ser usado como culpado por estarem pisando em ovos um com o outro. Quer dizer, eles estavam fingindo que nada tinha acontecido no dia anterior — mas aconteceu! Várias e várias vezes. Beijos rápidos e beijos lentos. Beijos fofos e beijos provocante. Não era possível que tudo não passasse de um delírio de null. O dia de ontem tinha sim acontecido, e ela tinha suas memórias muitíssimo vívidas para comprovar isso.
— Então, hm… — ela limpou a garganta. Se ele não iria dar o primeiro passo, que fosse null, então. — Você…
— Me passa o seu e-mail de novo, por favor. — ele pediu.
Seus olhos estavam concentrados no notebook à sua frente, e o rapaz quase não havia tocado no seu prato.
— Estou terminando de anexar todas as suas fotos que eu tirei.
null piscou os olhos confusa.
— Hm… O quê?
null levantou a cabeça, olhando para ela.
— As fotos que tirei de você da minha câmera… Editei quase todas ontem à noite, e terminei de editá-las agora. Já quero te mandar para que você possa usá-las nos seus vídeos e no seu Instagram, porque não sei quando vou ter tempo de mexer com o notebook de novo.
A garota piscou de novo, sem acreditar no que ouvia.
Estavam há mais de trinta minutos sentados frente a frente, sem trocar quase nenhuma palavra. Ela, null, estava ensaiando na sua mente como perguntar para ele o que achou do passeio de ontem, sem parecer desesperada demais para falar sobre os beijos — sim, no plural — porque ela estava perdidinha sobre como agir com o rapaz.
null, por outro lado, que parecia estar encabulado também, tímido até, com o passeio que eles deram ontem, estava, na realidade, preocupado em colocar um monte de fotos em um só arquivo e mandar tudo por e-mail para null, porque ele estaria indo embora dali a pouco tempo para o próximo destino da sua aventura.
Fala sério.
Não era possível que null fosse a única que ainda pensava no beijo.
Nos beijos. No plural! Caramba!
— Sabe como é, depois que eu encontrar os meninos, não vou ter tempo de mexer com isso. E vou demorar mais que você para voltar para o Brasil. — ele explicou.
Mas null não precisava de explicações. Ela tinha entendido muito bem. Só não gostou nadinha da explicação dele.
— O que foi?
null fechou a cara depois de passar o e-mail para ele, e então se concentrou em terminar de tomar o seu café da manhã.
— Nada. Apenas quero terminar de comer logo para aproveitar o meu último dia de viagem. Ainda tem muita coisa que eu quero fazer. — ela disse comendo depressa, para demonstrar que ela não queria ficar ali.
null franziu a testa.
— Ah é? Tipo o quê?
— Como assim?
— Que tipo de coisas você tem para fazer?
null abriu a boca para responder, mas a fechou em seguida. Pensou por um instante, e então soltou:
Coisas. — pausadamente.
O descontentamento era evidente na sua voz, mas null não entendeu o porquê daquilo. null, por outro lado, se sentia uma boba por ter passado a noite inteira pensando neles enquanto ele estava preocupado em mandar fotos para ela.
Fala sério! Ele nem curtia todas as fotos dela no Instagram!
O descontentamento dela, contudo, logo foi substituído. Isso porque o celular de null começou a tocar o alarme colocado mais cedo, para informar que era hora dele voltar ao aeroporto, pois o horário do vôo estava próximo.
null, então, foi tomada por uma onda de pesar. Não queria se separar de null. Não ainda. Eles mal haviam se conhecido, passaram tão pouco tempo juntos… Ainda tinham muita coisa para fazerem, tantos lugares para conhecer… Ela não queria se despedir dele. Porque apesar deles morarem no mesmo prédio, as chances de se verem de novo, de engatarem numa amizade ou, até mesmo, em algo a mais, eram mínimas. null e null eram extremamente diferentes, quase opostos. E ela temia que, no momento em que eles se separassem, eles nunca mais ficassem juntos de novo.
— Vamos pagar…
— Eu pago. — ela o interrompeu.
E enquanto null arrumava suas coisas na mochila, null foi até o caixa pagar a conta dos dois. Respirou fundo algumas vezes e então voltou para onde null a esperava, do lado da porta.
O caminho até o aeroporto foi lento e silencioso. Nenhum dos dois sabia exatamente o que falar. null, porque claramente tinha se enganado sobre o significado dos beijos. null, porque não entendia o motivo da mudança de humor da garota. De qualquer forma, eles não tinham tempo para aquilo. null tinha um avião para pegar em pouco tempo, e null ainda iria se encontrar com a equipe da ABC Viagens para gravar um vídeo final no Peru.
Ademais, ela não queria que seus últimos momentos juntos fossem em meio a discussões. Eles se deram maravilhosamente bem na última semana. Não queria correr o risco de discutir com ele no último dia.
— Então… — ela começou. Estavam parados do lado de fora do aeroporto, próximos dos armários. null já estava com sua mala do seu lado, e null segurava a sua na frente do corpo.
— Então… — ele repetiu.
“Então a gente se vê quando você voltar, ha-ha. Lembre-se que eu moro só alguns andares acima, ha-ha”, era o que ela pensou em dizer. Mas o que ouviu em seguida, foi:
— Então… Vou te mandar mensagem todos os dias com as fotos dos lugares em que eu estiver visitando.
E aquilo foi uma surpresa.
— Ah! É mesmo? Ok!
— E você me manda o link dos seus vídeos gravados no Peru. Não sei quando vou ter tempo de assistir eles, mas quero tê-los salvos no celular.
— Pode deixar…
— E…
A conversa estava sendo melhor do que ela esperava, isso era fato.
— E… — foi a vez dela repetir a fala dele.
— E… Por favor, tente ficar menos tempo no celular. Vai ver uma série, ler um livro, brigar com os vizinhos, qualquer coisa. — ele disse rindo, sendo acompanhado por ela. — É sério. Não fique muito tempo no celular. Juro que não vou achar ruim se você demorar para responder às minhas mensagens.
null começou a rir. Ah, null… Ele não tinha jeito mesmo.
— Prometo não demorar para responder as suas mensagens. O celular nunca sai de perto de mim, de qualquer forma.
Ele revirou os olhos, como se já esperasse essa resposta. E então eles ficaram em silêncio, um olhando para o outro, procurando a melhor forma de se despedirem da melhor semana da vida de ambos.
null olhou para o relógio. Ele estava atrasado. null resolveu, então, tomar a iniciativa.
— Foi realmente muito bom viajar com você, null.
Ele sorriu.
— Foi muito bom viajar com você também, null.
Ela retribuiu o sorriso.
— Espero que se divirta nos seus próximos destino. E espero que os seus amigos saibam usar a tecnologia a favor deles, porque ficar andando com um mapa para cima e para baixo é muito coisa de velho.
null jogou a cabeça para trás rindo.
— Boa viagem de volta ao Brasil. Se cuida. — ele desejou.
Eles, então, ficaram meio sem jeito, sem saber como se despedir. null deu um passo para frente, e null levou o braço para o pescoço dele, abraçando-o.
— Me dê notícias. — ela pediu.
— Pode deixar.
Cada um pegou a sua mala e virou para um lado, ele para a porta giratória do aeroporto, null para o ponto de táxi mais próximo.
Antes da dar o segundo passo, contudo, ela foi segurada por null.
— Espera. — ele pediu. A garota olhou para o rapaz. — A gente tá bem, né? Quer dizer… Eu senti um clima meio tenso entre a gente hoje de manhã.
null sentiu as bochechas corarem instantaneamente.
— Eu não faço ideia do que você está pensando, mas eu realmente queria te dar um beijo agora.
A surpresa veio em cheio.
— E eu achei que estaria tudo bem se a gente se beijasse hoje porque, bem, a gente se beijou ontem, e você pareceu ter gostado. Mas aí hoje cedo você começou a agir toda estranha, e parecia querer fugir do assunto, e eu já não sabia mais se você realmente gostou ou…
null não pôde terminar a sua frase.
null deu o único passo que os separava e colou seus lábios nos dele. O abraçou pelo pescoço e mal pôde conter um suspiro de satisfação. null a abraçou com força e retribuiu cada um dos segundos do beijo curto.
— Você é muito estranho, null. Não acredito que fiquei insegura a manhã inteira pensando que você não queria me beijar de novo.
null riu dela.
— Como é que eu não iria querer? Foi a melhor parte da viagem.
Eles riram, ainda abraçados.
— Quais as minhas chances de repetirmos esse beijo quando eu voltar para o Brasil?
null sentia como se várias borboletas tivessem invadido o seu estômago. Estava tão feliz, que mal conseguiu pensar em uma piadinha para responder a ele.
— Prefiro não responder a isso para não aumentar o seu ego.
null riu, voltando a beijá-la mais uma vez.
Aquele beijo podia ser o último do dia, mas ele esperava que não fosse o último da vida dele.
🔺🔻
12 HORAS DEPOIS

null terminou de arrumar o cabelo daquele jeito propositalmente desarrumado que ela gostava de deixar quando gravava stories de dentro de casa.
Sentou na cadeira, ligou o suporte de luz para a câmera frontal, encostou o celular em uma pilha de livros em cima da sua penteadeira, e iniciou a live nos stories do Instagram. Era a primeira vez que ela atualizava seus seguidores desde que chegara ao Brasil.
— Desculpe a demora para atualizar vocês, gente, mas é que o dia foi bastante corrido e cansativo. Mal tive tempo de desarrumar a mala ainda.
E para provar o que dizia, mostrou a enorme mala de roupas ainda fechada, do lado da cama, no chão. O que ela não diria, contudo, é que não pretendia desarrumar a mala tão cedo. Desde que se conhecia por gente, sempre que chegava de uma viagem, null ia usando as roupas de dentro da mala até que todas fossem tiradas de lá, uma a uma. Ela nunca desfazia uma mala de viagens, e por se envergonhar disso, preferia deixar em off.
— Eu tenho lido os comentários de vocês nas fotos e nos vídeos que já saíram no Youtube, e estava pensando em fazer um vídeo respondendo às perguntas sobre a viagem, sobre a empresa que me levou para lá e sobre curiosidades das cidades que eu visitei. Se vocês gostaram da ideia, comentem nos vídeos, ok?
Os comentários na live eram tantos, que ela mal conseguia ler todos. Alguns, contudo, eram bastante frequentes e repetitivos, então ela passou a comentar sobre eles primeiro.
— Eu tô vendo muita gente falando que tem o sonho viajar para o Peru e para outros países da América Latina… Gente, no vídeo que eu vou fazer respondendo às perguntas de vocês vou falar também do meu cupom de desconto que vocês poderão usar para qualquer destino que queiram fechar com a ABC Viagens, tá? Então aguardem e fiquem de olho.
Outras várias perguntas começaram a pipocar, e algumas, em especial, ela queria ignorar, mas sabia que não poderia fazê-lo por muito tempo. Era gente demais falando sobre isso.
— Outras pessoas estão perguntando sobre o null. Eu sei que muitos de você começaram a seguir ele no Instagram. — ela disse rindo. — E estão perguntando porque ele está na Argentina e eu não estou. Então, gente… Eu viajei com a empresa ABC Viagens, né, como vocês sabem. E null está viajando com os amigos dele. Não sei ao certo qual o roteiro de viagem dele.
Aquilo era uma grande mentira. A garota sabia muito bem o dia em que null chegaria no Brasil, qual o horário do seu vôo e já tinha, até mesmo, prometido que iria buscá-lo no aeroporto.
— Vem cá, eu estou vendo várias pessoas criando shipps para mim e null. — ela disse rindo de novo. — Gente, vocês não tem jeito mesmo, né? Ele é só meu amigo!
Internamente, entretanto, null já tinha até mesmo escolhido qual o shipp preferido. Mas guardaria aquele sentimento apenas para ela por enquanto.
null e eu viajamos juntos, mas é só isso. Somos bons amigos. E vizinhos. — acrescentou. E então começou a rir com a quantidade de coraçõeszinhos que seus seguidores começaram a mandar. — Então podem se acalmar aí e tirar o cavalinho da chuva, que isso aqui é a vida real e não uma fanfic de comédia romântica.
Sua atenção da live foi capturada no momento em que ela recebeu uma notificação de null. Ele tinha mandado apenas duas mensagens, mas foram o bastante para que null se esquecesse, por momento, que tinha milhares de pessoas a assistindo.
“Nenhum dos meus amigos precisa do meu celular emprestado. Isso deixa a viagem meio chata”
“Estou com saudades”
E aquilo foi o bastante pra ela rir sozinha porque, pela primeira vez, a sua vida real parecia sim uma fanfic de comédia romântica. E a garota não se importava nenhum pouco com isso, pelo contrário. Estava amando o rumo que as coisas estavam tomando, e mal via a hora de ver as cenas dos próximos capítulos.




Fim!



Nota da autora: Mais um ficstape entregue! Esse foi preparado com muito muito muito carinho. A ideia veio no instante que li a letra e eu espero que vocês tenham gostado. Deixem um comentário cheio de amor, e recomendem a fanfic para todas as suas amigas que também são lindas e perfeitas ❤️
Beijos de luz
Angel





Outras Fanfics:
Finalizadas:
Ainda Lembro de Você

Em andamento:
It’s Always Been You

Shortfics:
21 MonthsAccidentally in Love IAccidentally in Love IIAinda Lembro de NósBabá TemporáriaBeautifuly DeliciousBecause of the WarCafé com ChocolateElementalGive Love a TryO Amor da Minha VidaO Conto da SereiaO Garoto do MetrôReencontro de NatalRefrigerante de CerejaRumorShe Was PrettySorry SorrySuddenly Love ISuddenly Love IIWelcome to a new wordWhen We Met

Ficstapes:
02. Cool 05. Paradise 06. Every Road 07. Face 10. What If I 11. Woke Up in Japan 12. Epilogue: Young Forever 15. Does Your Mother Know

MVs:
MV: Change MV: Run & Run MV: Hola Hola

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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