10. Something That We're Not






Newport – Casa de

Joguei mais uma revista sobre a penteadeira, depois de analisá-la por tanto tempo. Meu celular apitava sem parar e eu já sabia o motivo para tanto desespero. Se não fosse tão irritante, essa situação seria hilária. “O cara que roubou o coração de !”, “ e : será que dá certo?“, mas a pior delas era, sem dúvidas, a capa da Celebs, que trazia o nosso ensaio fotográfico e vários depoimentos nossos sobre o quanto estávamos apaixonados. O problema não estava no namoro midiático, já fiz isso outras vezes. O problema estava nele. Quando vi que ele estava solteiro e comecei a conversar com , não sabia que as coisas chegariam a esse ponto. Se soubesse, o teria evitado ao máximo. Ele era lindo, isso eu não podia negar. Tinha os olhos um tanto quanto hipnotizantes, um abdômen definido... E, sim, era muito bom de cama. Mas nada disso me tirava da cabeça que eu não queria algemas, não queria alguém que me prendesse. Muito menos alguém que desrespeitasse as regras de um namoro midiático de sucesso.
1° Nunca fale à imprensa que um namoro é midiático. Isso é burrice e só compromete sua imagem.
2° Jamais deixe na cara que está saindo com essas pessoas. – Esta é uma regra muito importante. Assim você preserva a sua imagem e a imagem de seu parceiro. Sem vadias que partem corações e nem cornos. Todos felizes.
3° Se encontrar câmeras, tente parecer natural. Somos atores afinal, isso não é tão difícil.
4° Tome cuidado com as redes sociais! Nossas vidas são monitoradas praticamente 24h por dia nesses lugares. Se você se descuidar, bye, bye, namoro!
5° Nós não queremos ficar com fama de mentirosos, por isso temos que conhecer bem nosso parceiro. Saber algumas coisas essenciais para que possamos desviar de pegadinhas em programas com uma boa audiência e apresentadores tão espertos quanto nós.
6° O seu parceiro tem de ser uma pessoa minimamente suportável. Ou ser um namoro muito produtivo. Geralmente nossos produtores optam pela segunda opção.
7° A última, mas não menos importante: NUNCA, JAMAIS, EM HIPTÓSE NENHUMA, SE APAIXONE PELO SEU PARCEIRO. – Muito simples. Para ambos, o namoro começa como um contrato, onde as duas partes sairão beneficiadas. Basta saírem juntos, dar alguns beijos e coisas do tipo. Mas quando uma das partes se apaixona... Essa pessoa coloca em risco todo o contrato.
Ah, eu deveria ter imaginado que ele estava muito interessado em mim para ser apenas por um contrato. E eu tinha que encontrá-lo nos sets de gravação, nos coquetéis, nas festas de amigos, nos programas de televisão e ainda por cima... O telefone começou a tocar incansavelmente. Olhei pelo visor, nenhuma surpresa, era dele. Fiz uma careta qualquer e atendi por pura educação.
- Oi, amor. – Sua voz rouca se pronunciou.
- Olá, ... – Forcei um tom simpático.
- Já estava morrendo de saudades da minha namorada. – Eu podia não estar vendo seu rosto, mas tive certeza de que abriu um sorriso.
- Ér... Vamos nos ver amanhã! Você sobrevive até lá.
- Cada segundo sem você faz com que eu me sinta incompleto.
Eu deveria dizer alguma coisa, mas preferi ficar em silêncio a mandá-lo à merda e estragar todos os meses que passamos “juntos”.
- Quero falar com você amanhã. Pode ser durante o almoço? – perguntou, vendo que não teria resposta.
- Claro, Cacau. Eu também preciso falar com você. – Concordei, sabendo que, se negasse, só perderia tempo.
- Eu te amo, . – Ele cochichou, um pouco mais baixo.
- Até amanhã, . – Respondi.
Desliguei a ligação o mais rápido que pude. Coloquei o travesseiro na cara e comecei a gritar. Eu tinha nas minhas mãos o cara dos sonhos de qualquer garota e eu não o queria. Aliás, poderia fazer uma doação de a qualquer fã histérica que o quisesse. O único problema de é que ele era perfeito. Sabe aquele menino que todas as meninas do colégio desejam? Aquele homem que tem tudo aos seus pés, por ser lindo? Ele era do tipo que levava um buque de rosas para sua namorada, tinha um carro lindo, era atencioso e nós fomos muito amigos até isso passar da linha do suportável. Não era como se eu gostasse de sofrer, ou fosse uma vadia, mas sempre preferi aqueles bad boys, que vão deixar seu corpo pura adrenalina, invadir seus pensamentos, fazer com que corra atrás deles e ainda te torturar de prazer. Sempre fui tratada como uma princesa, desde pequena, quando eu ainda era Eliza Gardens, em Once Upon A Dream. Posso ter crescido, virado capa de vários jornais, me metido em mil e uma encrencas, mas eu continuo a ser “a princesinha da américa”. Não me julguem, eu valorizo isso, sempre foi meu sonho ser atriz e eu devo tudo a Eliza. Mas eu queria deixar claro que eu cresci e que não sou mais essa moça perfeita, que idealizaram.
Isso vinha dando certo até começarmos a gravar “Who’s That Dude?”. Recebi um telefonema do meu produtor, dizendo que eu seria a atriz da série que prometia ser o sucesso do ano. Fiquei super empolgada. Até porque quem nunca quis ser dirigida por Jack Brooks? Aquele cara, cheira a audiência, tem um faro para sucessos, tudo em que ele toca ganha audiência. Eu topei na hora. Sem perguntar sobre o cachê, ou sobre meus parceiros de elenco.
Mas quem melhor que , o melhor partido do país, para contracenar com a princesinha da américa? Era isso que o público queria ver: um romance água com açúcar entre o casal já tão cogitado na imprensa. Todos os jornalistas já diziam que formaríamos o casal Angelina e Brad da nova geração. Inicialmente, também fiquei muito empolgada para conhecer o gato do momento. Não que nunca tivéssemos nos esbarrado anteriormente, mas passar tempo com me parecia uma proposta muito atraente. Ele era capa de todas as revistas adolescentes, cantava maravilhosamente bem, era lindo, estava solteiro, não estava envolvido em nenhuma polêmica assustadora, era atencioso com as fãs, considerado o garoto perfeito por toda ou qualquer garota que já tivesse namorado com ele. Sem defeitos aparentes. Seria ótimo contracenar com e poder tirar uma casquinha de vez em quando.
Então começamos a gravar. era galante, uma pessoa com que você poderia passar horas conversando sem se cansar. Então nós ficamos muito próximos, saímos juntos, o apresentei para minhas amigas e ele me apresentou seus amigos mais próximos. Não precisou de muito para que todos os jornais começassem a especular sobre nós. Afirmar para Deus e o mundo que éramos o casal do momento. E aquilo estava alavancando a série, as editoras ganhavam muito dinheiro com a nossa aproximação. Todos estavam querendo mais daquilo. Então Jack decidiu que daria exatamente o que queriam. O nosso namoro. Ele nos chamou, explicou a situação, passou e repassou o que deveríamos fazer. E deixou claro que aquilo poderia mudar nossas vidas.
Realmente mudou.
Nós éramos ótimos atores. Por isso nossa farsa era extremamente convincente. Não havia quem duvidasse que éramos um casal apaixonado. Exceto é claro as pessoas que me conheciam muito bem, como Sergey, meu melhor amigo e minha irmã. Os meus pais acreditavam naquilo tudo. E eu não os daria o desgosto de negar. era o genro dos sonhos de minha mãe. Ajudava ela, quando estava na casa de meus pais, conversava fácil, me tratava bem, tinha dinheiro e era “boa pinta”. E não tinha como, nem porque arrumar defeitos nele. Nos divertíamos tanto enganando a todos que eu acabei não percebendo quando ele caiu em sua própria mentira.
Eu recebi rosas. Nós passamos noites maravilhosas juntos, não posso negar que tem um poder de sedução que poucos homens têm. Ele te deixa com as pernas bambas e o corpo te implora por mais. É como uma droga viciante dentro de você. Realmente não posso reclamar dele neste quesito.
Mas às vezes a perfeição também cansa. era romântico demais. Ele deixava bilhetes em meu camarim. Me mandava flores. Mas eu sabia que o que ele sentia por mim não era amor. Estava longe disso. Era algo que envolvia carência. Acho que era tão perfeito que não conhecia o sentimento chamado rejeição. Ele precisava de atenção. E isso era algo que eu não poderia dar para ele. E nem queria. Eu não era apaixonada por ele. Ele realmente não fazia o meu “tipo”.
Sou mulher, é óbvio que gostava de ser paparicada às vezes, mas eu gostava ainda mais de sair, de ter no corpo a adrenalina de estar com o cara errado no momento errado e ter que driblar toda a mídia para ter uma noite de prazer com ele. Mas desde , eu não posso mais sair sozinha, não tenho um minuto de paz.

Newport – Brooks Studios

Desci do carro e fui caminhando em direção ao meu camarim. A maioria do pessoal do backstage de “Who’s That Dude?” não sabia que nosso namoro, na verdade, era uma farsa. Quanto menos pessoas souberem, menores serão as chances de dar merda. Caminhei sobre meus scarpins por mais alguns metros, apenas devolvendo cumprimentos. Juddy, minha assistente pessoal, grudou em mim, assim que me viu e foi me passando o horário do dia, as cenas, as externas. Nós iríamos gravar os capítulos 27 e 28. Quando o belíssimo Sr. Mackenzie finalmente iria conhecer os pais de Alli. Estes capítulos seriam entre a viagem a até a cidade do interior e o tão temido jantar, em que ele pediria a mão dela em casamento.
Entrei no camarim. Meu maquiador e melhor amigo, Sergey, me esperava. Sentei na poltrona em frente à penteadeira, pensando que ele teria muito trabalho a fazer. Fiquei desabafando sobre o meu falso-namorado e dei graças a Deus por ele me entender. Só parei de falar no momento em que a cabelereira entrou. Ela começou a mexer em meus cabelos e, por deus, como aquilo me dava sono. Juddy ficava repetindo as frases do meu roteiro, para que eu memorizasse, como se não fosse competente o suficiente para estudar minhas falas em casa. Quando já estava pronta, olhei para o espelho e me impressionei com o resultado. Estava maravilhosa.
- Você tem certeza que já decorou todas as falas? – Juddy perguntou no meu encalço.
- Tenho sim, Juddy. Muito obrigada pela assistência. – Curvei os lábios levemente e ela se afastou com sua clássica prancheta em mãos.
Cumprimentei todos os assistentes de produção. Enquanto via Jack gritar com alguém no telefone, fui tomar um café. Logo estava sentada na minha cadeira, esperando que o comandante voltasse.
O Sr. Brooks parecia arder de tanta raiva, quando colocou o telefone nos bolsos. Gritou com um dos temporários pedindo uma água e o garoto saiu correndo para buscar. Em poucos minutos, Jack se jogou na cadeira ao meu lado, passava a mão por seus cabelos. Eu não via motivos para que estivesse tão perturbado.
- Ei, Jack, tem algo a ver com a gente? – Perguntei me referindo a mim e ao
Foi aí que senti falta do príncipe encantado, passei os olhos por todo o estúdio e não o encontrei. Virei os olhos. Ele não costumava fazer isso, deveria ter acontecido algo muito sério.
- falou que precisa falar sério com você! – Jack estava puto, eu tinha certeza disso. – VÁ FALAR COM ELE, PORRA! ANTES QUE SE ATRASEM MAIS.
- Ah, então ele pode chegar atrasado, bater o pé que está tudo certo. Mas eu não posso nem terminar o namoro midiático! – Cuspi as palavras, já que tentava falar sobre isso com Brooks há semanas.
- Faça o que você quiser, ! – Ele falou.
Jack empurrou a cadeira de diretor e essa caiu, se espatifando, ele ficou xingando como podia. E eu apenas disquei o número de meu parceiro de cena.
- Sabia que ligaria. – atendeu.
- , pare com essa brincadeira de mau gosto!
- Eu não consegui me concentrar em minhas falas, , fiquei pensando em você. No que tinha a me falar. – Ele falou com um fundo de esperança em sua voz.
- Seu camarim, em dez minutos. – Finalizei.
- Estarei lá. – Dito isso ele desligou o telefone.

Newport – Camarim do

Ele estava lá, sentado. Seus olhos brilhavam ainda mais. Bufei algumas vezes, cruzei os braços. Estava extremamente irritada com a criancice que ele fizera. Sentei à mesa de frente para ele.
- , eu preciso falar com você.
- Eu também. – Fiz sinal para que ele prosseguisse, já que tinha a certeza que ele me daria ainda mais argumentos, para acabar com qualquer tipo de relacionamento que tivéssemos, ou que ele achasse que nós tínhamos. – Eu sei que tudo começou como uma farsa, mas queria deixar claro que com a nossa convivência, nosso amor cresceu de uma maneira que eu não pude controlar. E por isso que eu estava tão ansioso para falar com você. Nós somos um casal lindo, saímos em todas as revistas, todos nos amam. Funcionamos tão bem juntos, . O que você acha de sermos assim para sempre? – Ele falou tirando um par de alianças do bolso.
- Ai, meu Deus. Você é louco! – Falei pausadamente, ainda indignada. – , presta atenção em tudo o que eu te disser agora. Não existe NÓS. Existiu um namoro midiático entre nós. Audiência, dinheiro, sabe? Não teve nada a ver com amor!
Seus olhos já estavam cheios de lágrimas. Eu o olhava incrédula.
- E nossas noites de amor? – Ele gritou.
- Ok, nós ficamos uma vez, - o olhei, ele tinha a sobrancelha arqueada em reprovação – talvez duas. – Tentei melhorar a situação. – Isso não importa! Não existe nós, ! Era uma brincadeira, um passatempo, uma maneira de fazer com que parecesse mais real.
- Me pareceu real o suficiente! – Falou batendo os pulsos na mesa.
- Parecer mais real para a mídia! – Soltei um suspiro. – Você quer ser mais que apenas meu amigo, eu não posso te prometer isso. Não vai acontecer mais nada entre nós. Essa situação está ficando estúpida!
- Você está de cabeça quente, . Vamos lá, eu sei que também sente o mesmo por mim! Você também me quer... EU SEI DISSO.
- Você sabe o que eu quero? – Revirei os olhos. – Eu quero que você pare com essa porra dessa briga e vá para o estúdio. Porque daqui a pouco o Jack vai querer nos cortar da série! E aí, , você vai ter um problema de verdade, nós vamos ter um problema de verdade.

Newport – Casa da

O dia passou lentamente. As gravações sempre acabavam com uma farpa ou outra. As cenas tão românticas acabaram sem química nenhuma. Eu podia atuar muito bem, mas meus olhos não mentiam. Eu sentia raiva dele. Jack nos convocou para mais uma de suas reuniões e ficamos um bom tempo ouvindo mais um de seus sermões, mas ele entendeu o meu lado. E disse que arrumaria uma desculpa para o fim de e .
Meu celular apitou. Era uma mensagem.
“Eu ainda te amo,
Taquei o celular na parede com força. Será que além de babaca, ele ainda era burro? Qual era a dificuldade de entender que acabou?
“Pare de jogar, . Você só está enganando a si mesmo! ”
“Você sabe o quanto nós dois combinamos! Fizemos juras de amor...”
“Eu nem posso falar que acabou...”
“Então ainda tenho uma chance? “
“Você não tem uma chance, porque não temos nada.“
“Nós somos o casal mais feliz da américa! “
“Aí é que está o problema, ,
Você acha que nós somos, algo que nós não somos.”
Fim



Nota da autora: Sem nota (20/08/2015)




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