CAPÍTULOS: [1]





10. Sorry






Capítulo único


Ela vai embora, cara.
A voz de Greg dizendo a maldita frase não saía da cabeça de . Ela se repetia infinitamente o fazendo apertar os olhos e passar as mãos pelo rosto grosseiramente, como se pudesse fazer todo aquele cenário melancólico ao seu redor desaparecer. Revirou na cama novamente, bagunçando ainda mais os lençóis e por um segundo jurou sentir o perfume dela escapar da confusão de tecidos. Um urro descontrolado escapou da garganta e ele sentou no colchão, pressionando as pontas dos dedos nas têmporas, tentando inutilmente se acalmar.
Ela iria embora. Ele iria perdê-la. E o simples ato de confirmar isso em pensamento fazia uma dor ridícula lhe atingir bem no peito. Sentia a raiva se transformar em angústia e uma vontade de chorar parar na garganta, como um soluço entalado. A pior parte em toda aquela confusão de sentimentos era que tudo era culpa dele. Que todas as rachaduras foram provocadas por seus próprios punhos e havia sido ele o responsável pela destruição. Agora, todos os destroços caíam sobre sua cabeça e ele não conseguia achar nenhuma saída razoável.
O relógio no criado-mudo apontava quase três da madrugada e ele não conseguia dormir. Sua mente trabalhava avidamente em lhe lembrar cada momento bom que havia passado ao lado dela, de todas as vezes que, naquela mesma cama, eles passaram noites acordados, se amando ou emendando conversas aleatórias. Ele via, em flashes dolorosos, o sorriso dela e logo depois seu rosto molhado pelas lágrimas e seus olhos cheios de decepção.
Soltou um suspiro pesado, correndo os olhos pela penumbra do cômodo bagunçado. Havia um monte de roupas amontoadas na poltrona, louças com restos de comida na escrivaninha, mas foi só quando seus olhos capturaram o mural da parede oposta que parou. De onde estava não conseguia enxergar todas as fotos pregadas, mas ele se lembrava exatamente do dia que elas tinham sido colocadas ali, há aproximadamente dois anos atrás. Era fim do verão e ele estava prestes se mudar para o estado vizinho e começar a Faculdade de Artes Cênicas. ficaria. Ela não havia conseguido a bolsa que queria e trabalharia por mais um ano até conseguir se candidatar novamente. Juntos, eles decidiram manter o namoro. Nada mudaria. Ou pelo menos era o que eles pensavam.
No dia em questão, havia chegado à casa do namorado com uma caixinha de papel decorada. No interior, fotos tiradas em sua câmera analógica que ela havia revelado. Fotos dele e Greg em poses ridículas, fotos da família, do último ano do colegial e, sobretudo, fotos deles. Em situações engraçadas e românticas, espontâneas ou em poses ensaiadas. Lembranças em quadradinhos que queria deixar pelo quarto dele e algumas para que ele levasse consigo.
Lembrar daquele dia fez desabar no colchão novamente. Ele encarou o teto, lembrando de como eles haviam feito planos durante a tarde toda. Eles tinham se sentado na varanda do quarto e traçado metas, imaginando um futuro juntos e cantarolando suas músicas preferidas enquanto ele dedilhava o violão. E tudo poderia ter dado certo se não tivesse pisado em falso tantas vezes, se não tivesse a machucado e brincado com toda a confiança que sempre depositou nele.
virou o corpo em direção a porta de correr e sentiu a leve brisa de verão entrar pelo quarto. Suas lembranças foram embaralhadas novamente e ele ouviu a voz dela em sua mente, cantando como se nada nunca pudesse lhe abalar.
And then I'll swing you girl until you fall asleep – ele cantou junto com a da lembrança, sua voz falhando em algumas síbalas – And when you wake up you'll be lying next to me…
Aquela era uma das músicas favoritas dela e apenas desejou que pudesse tê-la ao seu lado novamente e pudesse niná-la como sempre fazia, cantando próximo a seu ouvido e vendo-a cair no sono com um sorriso no rosto.
We'll go to Hollywood make you a movie star. I want the world to know how beautiful you are…¹
Com a melodia da canção lhe distraindo, ele decidiu o que faria quando o sol voltasse a iluminar a cidade. Se não pudesse fazê-la o perdoar, que ao menos pudesse se despedir, dizer a ela tudo o que queria e não havia conseguido quando brigaram pela última vez.
Seria extremamente doloroso, mas apesar de desejar que toda aquela angústia sumisse, ele sabia que merecia aquela dor, e da mesma forma que conseguiu aguentar durante os meses em que ele a fez sofrer, ele aguentaria firme e aceitaria o curso das coisas.
Mas não sem antes dizer a ela tudo o que sentia.

¹No Worries – McFLY

[...]


achava que arrumar todas as suas coisas, ou pelo menos grande parte delas, seria uma tortura, mas felizmente aquela tarefa estava lhe servindo quase como uma terapia muda. As últimas peças de roupa estavam arrumadas sobre sua cama e ela as organizava na mala média sem pressa alguma. Agradecia mentalmente pela música baixa que saía da TV na sala. A melodia a impedia de se perder em recapitulações doloridas dos últimos meses.
Ela só queria seguir em frente. Precisava disso. Não imaginava sua ida para a capital como um recomeço, apenas como uma continuidade, algo que ela devia a si mesma, aos seus próprios planos e anseios. Seu pai sempre dizia que as regras da vida eram como as estratégias para se aprender a andar de bicicleta: você precisa manter seu equilíbrio, olhar para frente e, caso caia, é só se levantar e prestar atenção para não cometer os mesmos erros ou cair nas mesmas armadilhas.
estava se levantando e se preparando para seguir seu caminho. Havia passado por meses ruins, tristes, onde se decepcionara com a pessoa que ela amou com toda a sua força. era seu amor de menina, sua paixão platônica que saiu do mundo das ideias para se tornar real e fazê-la a mais realizada de todas as garotas. Tê-lo como namorado era como experimentar seu próprio romance literário, onde ele era o personagem mais encantador. Tinham descoberto tantas coisas juntos. O amor, o prazer. Tinham feitos planos grandiosos que envolviam a carreira brilhante dele como ator e a dela como cineasta. Seriam o casal perfeito. Ele em frente às câmeras, ela atrás. Os dois desempenhando papéis importantes e compartilhando o amor ao mesmo tempo.
Até que ponto fora uma boba iludida naquela história? Ela se perguntou quando tudo desabou. Mas havia chegado à conclusão que não havia nada mais natural do que ter imaginado toda uma vida ao lado de , afinal, ele compartilhava de seus sonhos. Mas isso havia se perdido quando ele foi para longe. O mundo e a nova vida na universidade lhe deram outras perspectivas e percebeu que ela e seus sonhos já não eram uma prioridade para ele.
Ela sentia que o estava perdendo a cada feriado que ele não voltava, a cada data esquecida ou a cada vez que ele falava por horas ao telefone e não fora capaz de parar por um segundo para ouvi-la. estava se tornando protagonista de sua própria vida e não havia espaço para ela. E ela não poderia se permitir viver uma vida de coadjuvante em função dele. Se o amor não era suficiente, ela tomaria seu próprio caminho e começaria a estrelar o próprio filme de sua vida. Seguindo sempre em frente e em função dela mesma.
– Acho que não é uma boa ideia, .
A voz de seu irmão mais velho dizendo o conhecido nome fez seu estômago revirar e ela interromper o que fazia.
– Eu não quero fazer uma cena, Daniel. Eu só – ele se interrompeu e ela se aproximou mais da porta aberta do quarto –, preciso falar com ela.
– Olha, – ela ouviu a voz irritada de Daniel dizer –, ela tá melhor agora. Não quero vê-la mal de novo, então, por favor...
Num impulso, cruzou o corredor em direção à sala.
– Tudo bem, Dan. – ela olhou para o irmão, tomando coragem para encarar o ex-namorado – Eu quero ouvir o que ele tem pra dizer.
Daniel soltou um suspiro cansado. Não queria ver a irmã voltar aos choros que revezavam entre a raiva e a tristeza. Pior ainda era ouvir lamuriar sobre algo que ele mesmo havia criado. Por fim, deu passagem para o rapaz e seguiu para o corredor.
– Qualquer coisa, estou no meu quarto. – ele avisou, dando a ela um sorriso de conforto, que ela retribuiu.
Ouviu a porta ser fechada e finalmente olhou para . Ele parou no centro da sala com as mãos dentro dos bolsos do casaco que tinha respingos d’água. Foi só então que ela percebeu, em uma rápida olhada pela janela, que uma fina chuva de verão caía. Quando voltou seu olhar para ele, percebeu o quando parecia cansado. Seu rosto sempre muito sorridente agora estava sério, com olheiras ser formando abaixo de seus olhos. Observou também, agora mais atentamente, como estava bonito com o novo corte de cabelo feito para um personagem em uma peça da faculdade. Apesar de tudo, não conseguia não se sentir feliz por ele estar seguindo o caminho que tanto queria.
não sabia por onde começar. Sua garganta parecia fechada e suas mãos estavam levemente trêmulas na proteção do tecido de seu casaco. parecia bem, apesar de seus olhos não apresentarem o brilho que ele tanto gostaria de ver. Seu coração esmurrava o peito com vigor por ele finalmente colocar os olhos nela depois de dias. Tudo o que queria, no entanto, ela poder abraçá-la.
– Greg me disse que você está indo pra capital. – ele começou, limpando a garganta ao que sua voz falhou no final da frase – , eu não queria que as coisas tivessem chegado a esse extremo.
– Não estou indo por sua causa. – ela se manteve forte, mas precisou desviar o olhar quando ele começou a falar – Toda essa situação me deu o empurrão que eu precisava e eu tô fazendo o que é melhor pra mim.
– E o melhor pra você hoje é se manter longe de mim?
não podia acreditar naquela pergunta. O que ele queria? Ela havia se esforçado durante meses para mantê-lo por perto, para participar da vida dele. Era completamente injusto que ele quisesse reivindicar a presença dela agora.
– Você já está longe, . – ela olhou para ele, vendo dor em seus olhos e tendo quase certeza que era a mesma que ele via nos seus – Você se afastou, você construiu um muro entre a gente. Eu tentei, mas você não me ajudou!
– Eu estava deslumbrado! – o tom urgente em sua voz estrangulada a fez sentir dor – Eu comecei a viver coisas diferentes e quando eu chegava ao alojamento tudo o que eu queria era você ao meu lado pra compartilhar tudo, mas você não estava lá!
– Não fale como se fosse uma escolha minha não estar ao seu lado! Eu estive aqui trabalhando duro para garantir a vaga que você já tinha! – a vontade de chorar chegou, mas ela a engoliu.
– Eu sei. Eu sei que eu fui o culpado. Mas eu amo você. Ainda amo você, .
secou as lágrimas rapidamente, vendo-a inclinar a cabeça e respirar fundo, igualmente abalada. Era tão injusto que ele lhe dissesse essas palavras quando há meses ele as esquecia. Era ainda mais injusto como seu coração começou a bater fortemente em seu peito depois que ela as ouviu.
– Eu amei tanto você, . Dei o meu melhor mesmo quando você não veio para o nosso aniversário de namoro, mesmo quando você trouxe seus amigos para as primeiras férias e me esqueceu. Eu segurei a barra sozinha durante os últimos meses e eu não quero mais isso.
O fato dela dizer que o amava, no passado, fez uma dor imensa rasgar seu peito.
– Eu só – ele passou as mãos pelo cabelo, tentando encontrar as palavras certas –, queria poder consertar tudo. Você não é capaz de me perdoar?
Seu olhar triste a fez se sentir minúscula naquela sala.
– Não se trata disso, . Nós já estamos em caminhos diferentes. Você precisa aceitar isso.
– Me desculpe, . – ele parecia não ter ouvido nada do que ela falara – A última coisa que eu queria era te magoar. Eu nunca quis esquecer nossos planos ou colocar você em segundo lugar na minha vida. Mas eu me perdi. E agora estou perdendo você.
Falar aquilo em voz alta era ainda mais doloroso. Olhar para ela, se segurando para não chorar na sua frente de novo, o fazia se sentir o pior dos caras. Ele nunca achou que seria o homem que machucaria alguém que tanto ama. Porque ele ainda amava com todo o seu coração.
– E se eu te pedisse pra ficar? Se eu te dissesse que essa é a última vez? Se eu te pedisse uma última chance? É tarde demais para isso?
apenas moveu a cabeça, absorvendo as palavras dele e tentando se manter de pé.
– Eu já tomei minha decisão.
As lágrimas rolaram livremente pelo rosto do rapaz e dessa vez ele não fez o menor esforço para escondê-las. Então era isso. Ele perdera a garota que ele mais amou. E não havia qualquer pedido de desculpas que a impedisse de seguir em frente sem ele.
– ela suspirou, dando alguns passos na direção dele –, isso vai ser o melhor para nós. Tudo isso foi uma prova de que nós não conseguiríamos. Eu amei você e foram anos maravilhosos, mas acabou.
Quando ela lhe tocou o braço, em uma tentativa de fazer aquele fim ser menos desagradável, recuou o membro, como se seu toque o machucasse. E de fato o fazia. Se iriam viver separados dali em diante, era bom que ele se acostumasse a com o fato de não poder tocá-la mais.
– Me desculpe. – ele voltou a falar, agora enxugando as lágrimas com a manga do casaco – Me desculpe por tudo. E – ele tentou sorrir –, boa sorte com sua vida daqui pra frente. Vou sempre torcer para que você seja feliz.
Antes que ela pudesse responder, ele lhe deu as costas e seguiu até a porta, abrindo-a e cruzando o batente. suspirou, desabando no sofá logo em seguida. Antes de voltar a arrumar as malas ela se permitiu chorar por ele pela última vez. Depois disso, ela só seguiria em frente.

Doze anos depois


– Chegou um novo roteiro.
Miles, seu agente, jogou o envelope na mesinha de centro da sala, acomodando-se no sofá logo em seguida. , que estava com a pequena filha no colo, deixou-a sentada ao seu lado, sacudindo o pequeno cubo de plástico, e apanhou o pacote, abrindo-o em seguida.
– Existem mais dois atores na disputa pelo papel principal e um deles é o marido da diretora. Mas não se preocupe. Ouvi dizer que ela é impecavelmente profissional.
Habituado a tarefas como aquelas, retirou o grosso roteiro do envelope e leu a capa. O selo da distribuidora e os nomes de seus presidentes estavam no topo da página. Mais abaixo, o título da película e o nome da diretora. Ele continuaria a ler os nomes dos roteiristas, mas não conseguiu desviar os olhos daquele nome tão conhecido. Um sorriso largo logo tomou conta de seus lábios.
– Gostou? Posso agendar seu teste?
voltou a segurar a filha no colo e só então direcionou seu olhar para Miles.
– Faça isso, meu amigo. Estive esperando para ser dirigido por essa mulher durante toda a minha carreira.



Fim.



Nota da autora: (05/02/2016) Fic curtinha, mas espero que vocês tenham gostado! Tentei me ater à música, mas não resisti a incrementar nesse final e mostrar que, eles não ficaram juntos, mas foram felizes. Nem tudo que parece é, de fato, o fim do mundo, não é?
Aproveitem as outras fics, a nostalgia e a saudade desses irmãos cantando juntos! <3
xx
Thainá M.
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OUTRAS FICS:
03. Drunk In Love (Ficstape #020 – Beyoncé) | 09. Long Way Home (Ficstape #30 – 5 Seconds Of Summer) | 12. Don’t Stop Me Now (Ficstape #011– McFly: Memory Lane) | 14. You & I (Ficstape #023 – John Legend: Love In The Future) | Amor em Irlandês (Especial Equinócio de Setembro) | Beside You (5SOS/Finalizada) | Can You Feel It? (Outros/Finalizada) | Don’t Close The Book (Jonas Brothers/Finalizada) | Love Affair (1D/Em Andamento) | Mixtape: Listen To Your Heart (Awesome Mix: Volume 1: “80/90’s”) | Thankful (Especial Extraordinário)



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