10. Suffer

Postada em: 12/11/2017

Capítulo Único

A mulher bocejou, colocando uma mão na frente de sua boca para esconder seu cansaço. Se a festa não fosse de uma amiga querida, era muito provável que ela nem aparecesse no apartamento naquele dia. Foi só depois de muita insistência de Lauren que finalmente desistiu e cedeu aos pedidos da amiga de faculdade, que havia feito questão de ir buscá-la no aeroporto e de esconder sua mala de viagem em algum lugar que nenhum bêbado encontraria.
mal sabia o motivo da festa.
Ela encostou suas costas na parede da grande sala de TV, agora abarrotada das mais diversas pessoas que a mulher mal conhecia. Ela não conseguia entender como Lauren conseguia fazer amigos com tanta facilidade. A tomou um longo gole da cerveja barata que Lauren havia enfiado em suas mãos, logo antes de sumir pelo seu apartamento.
Foi quando ela notou um olhar curioso, brilhante, direcionado somente a ela. Um homem mais novo, do outro lado da sala, conversava com um grande grupo de amigos. Em intervalos pequenos de segundos, ele voltava a olhar para a mulher que estava sozinha, segurando o copo de cerveja quase intocado. Os dois sorriram ao mesmo tempo, de forma maliciosa. Era como se eles conversassem sem ao menos trocar uma palavra sequer. molhou os lábios, passando a língua por toda a sua extensão e finalmente largou o copo de cerveja no balcão da cozinha, indo em direção ao quarto de Lauren e seu marido. Não demorou muito, o homem entregou o copo do que quer que ele estivesse tomando e andou rapidamente atrás da mulher misteriosa.
Lauren não ia se importar se eles se divertissem um pouco lá, não é?


~*~


Os dois saíram do quarto, os rostos vermelhos tanto de vergonha quanto de cansaço pela atividade que tinham acabado de fazer no quarto. A conversa no resto do apartamento continuava a mesma, animada e banhada de álcool. Mesmo que e tentassem fazer o menor barulho e chamar o menos de atenção possível, no momento em que pisaram na sala de estar, todos os olhares voltaram para os dois.
“Você acha que eles ouviram alguma coisa?” O homem perguntou, passando a mão pelo cabelo, de forma nervosa. engoliu seco, procurando alguém conhecido no meio da multidão.
“Tenho quase certeza que sim.” sussurrou, e Lauren atravessou a sala, sorrindo de ponta a ponta para os dois.
“Ah! Eu queria mesmo apresentar vocês dois! , esse é . Ele é amigo de infância do Austin. E , essa é , ela foi minha colega de quarto na faculdade.”
“Nós meio que já nos conhecemos.” respondeu, sem jeito, enquanto fazia um coque com o cabelo.
“Que maravilha!“ Lauren continuou e parou por um tempo para olhar os dois. “Ah, meu Deus... vocês que estavam no meu quarto e... Meu Deus!” Ela começou a rir e os dois se entreolharam, cada um procurando uma forma de sair daquele lugar.
“Quer dar o fora daqui?” sussurrou no ouvido de , que sorriu ao ouvir o convite. Ela concordou, molhando os lábios enquanto Lauren corria atrás do marido para fofocar sobre o que tinha acabado de descobrir.
Quando a amiga voltou para onde estava com o casal, os dois já tinha ido embora. Para o apartamento dele, é claro.

~*~



O homem caiu ao lado da mulher, os dois sorrindo e respirando com dificuldade. Já era a terceira noite seguida que eles passavam juntos.
Os dois gostavam do que sentiam quando estavam juntos. Gostavam até demais.
Era fácil, era simples. Não havia cobranças nem satisfações para dar para ninguém. Era tudo que queria, mas que sempre dava errado.
Os homens com quem ela dormia sempre agiam assim no início, não se importavam, não tinha ciúmes e tudo era maravilhoso. Até que eles desenvolviam hábitos de homens das cavernas e criavam ciúmes sem sentido, brigas que vinham do nada e relacionamentos que não existiam. Isso sempre acontecia, era apenas questão de tempo.
Às vezes eram dois meses, quatro meses ou um semestre, mas isso sempre acontecia. Mesmo só conhecendo há um fim de semana, de uma coisa ela sabia: o que quer que ela tivesse com ele, seria completamente diferente. Isso era notável pelo jeito que ele fazia sua pele se arrepiar quando ele a tocava e como parecia que seus corpos combinavam perfeitamente quando estavam juntos.
Ela suspirou, enquanto olhava para o lado e admirava a beleza do homem ao seu lado. Ele sorriu para ela e lhe beijou rapidamente, antes de pular da cama, sua cueca em mãos. se vestiu, sem tirar os olhos da . Ele tinha medo de que, se tirasse os olhos dela por muito tempo, ela certamente desaparecia da sua vista. Era bom demais pra ser verdade.
"Quer alguma coisa? Cerveja, água, pizza de ontem...?" O homem ofereceu, jogando uma blusa xadrez dele para ela, que a vestiu sem cerimônia.
"Obrigada, . Mas eu preciso ir. Já são... duas da manhã. Eu trabalho amanhã." Ela sorriu, levantando seus dois ombros enquanto procurava suas roupas pelo estúdio.
"Você pode dormir aqui, se quiser." sorriu, e o convite soou extremamente chamativo para ela.
"Ah, é melhor não. Eu deveria voltar pra casa."
"Por que não?"
"Só é melhor. Pra mim." Ela respondeu, finalmente terminando de colocar o vestido que usava.
Uma das coisas mais estranhas sobre a mulher era que ela se tornava fria do nada. Em momentos aleatórios suas respostas engraçadas se tornavam em monossílabas secas e sem graça.
"A gente... a gente se vê?" coçou a cabeça, olhando esperançoso para a mulher. Tudo que ele recebeu de resposta foi um olhar enigmático, uma sobrancelha levantada e os movimentos da , que foi direto até sua porta, sua bolsa na mão, saindo de uma vez de lá.

~*~


"Eu não namoro." quase cuspiu a informação para o homem que a encarava, agora atônito. molhou seus lábios, a confusão espalhada e clara em seu rosto. Os dois sentavam frente a frente, ela usando apenas lingerie e uma blusa de super-herói dele e o homem vestia-se de uma bermuda antiga. O mais novo colocou a pizza de volta do prato, piscando quatro vezes seguidas e rapidamente. "E nem vou."
"Não sei aonde você quer chegar, eu nem..."
"Me deixa falar, por favor." nunca tinha demorado tanto para falar as tais regras que ela carregava anotadas em seu celular e seguia como se fosse uma bíblia. Falar elas nunca havia sido tão difícil. "Eu não estou procurando por um relacionamento, . Nem estarei num futuro próximo. Eu preciso que você entenda isso, ok?"
"Entendido. Sem namoro." concordou com a cabeça, ainda bem confuso. "Mas eu não sei aonde você quer chegar com isso, ."
"Estou chegando lá. Calma." Ela soltou uma risada sem graça e arrumou seu cabelo num coque sem dificuldade alguma. respirou fundo e engoliu seco, dando uma mordida grande no seu pedaço de pizza. "Eu não namoro, nem quero namorar. Então, se você quer que isso entre nós dois dê certo, você precisa fazer o que eu vou te pedir agora, : não se apaixone. Não tenha ataques de ciúmes. Não ache que estamos num relacionamento quando isso não é nada mais que uma diversão entre dois adultos. Não pense demais sobre nós dois. Pelo amor de Deus, não ache que você vai me mudar milagrosamente, como nos filmes de comédia adolescentes que a menina magicamente transforma o maior galinha no melhor namorado do mundo, porque isso não vai acontecer."
"Então... tudo que você tá me pedindo é que a gente tenha um relacionamento sem compromisso? Só?"
"Isso é outro jeito de colocar o que acabei de falar." Ela sorriu, bebendo um longo gole do refrigerante à frente dela. "Acredite se quiser, alguns homens têm dificuldade em entender isso. Todos eles falam tanto de relacionamento sem compromisso, mas tem uma dificuldade enorme em conseguir fazer isso funcionar. Acha que consegue?"
"Claro." respondeu, fazendo um "pft" com sua boca logo antes. "Isso vai ser moleza." O homem comentou, tentando ignorar que o jeito que ela mexia com seu cabelo o fazia querer deitá-la naquela mesma mesa e beijar a mulher até eles dois perderem os sentidos e o juízo.
Se é que ele já não tivesse perdido o dele.

~*~


Ele tomou um longo gole da garrafa de cerveja que já não estava tão gelada, devido ao tempo que ele passou encarando o nada com a garrafa na mão, mesmo com o barulho alto da música dos seus amigos e da conversa deles.
Ele fez uma careta por causa da bebida quente e bufou, deixando seu corpo escorregar no sofá antigo de Austin. Os outros vários homens no apartamento gritaram alto e pularam dos seus lugares no sofá e no chão, comemorando o gol que o time deles havia feito, junto com Jess, a única das namoradas/mulheres do grupo de amigos que se interessava realmente pelo futebol.
Num dia normal, estaria gritando tanto quanto eles.
Mas tudo que passava pela sua cabeça era o sumiço da . Ela havia sumido completamente depois da ultima vez que tinha ido na casa dele, e isso já fazia mais de uma semana.
olhou para a tela do celular, apenas para se decepcionar mais uma vez por não ter nenhuma mensagem ou mensagem de voz da mulher que roubava seu sono.
"Cara, você viu aquele gol do Coutinho?" Austin abraçou pelo ombro, gritando no ouvido do amigo de infância. Austin era um verdadeiro viciado em futebol, desde quando ainda eram pirralhos no interior do país. Foi com o vício do melhor amigo que se apaixonou pelo futebol, e eles e mais alguns amigos tinham a tradição de se juntar para assistir todos os jogos do Liverpool, isso se não iam vê-los ao vivo. olhou para Austin assustado, arregalando os olhos e quase pulando do seu lugar, deixando um pouco de cerveja cair no chão.
"Sim, sim... Demais, né?" sorriu sem graça, fingindo ridiculamente estar prestando atenção no jogo, sem enganar o amigo por um mísero segundo. Os dois sabiam que mentia descaradamente, mas ignoravam a verdade.
O levantou-se do sofá e foi até o balcão, onde havia um grande balde com gelo e várias garrafas de cerveja, além de algumas garrafas de outras bebidas que eles com certeza beberiam assim que o jogo acabasse. Ele pegou uma garrafa de cerveja fechada e a abriu com a mão, largando a tampa no balcão e tomando dois longos goles da bebida de uma vez só.
As mulheres, que antes mantinham um murmurinho constante na cozinha de Austin e Lauren, entraram em um silêncio desconfortável, encarando descaradamente.
"Qual o nome dela?" Lauren perguntou de supetão, e todas as mulheres concordaram com as cabeças levemente, curiosas.
"Oi?" levantou as sobrancelhas, tentando fingir não entender o que ela falava.
"Não se faça de bobo, . Você mal torceu hoje. Nem bebeu." Sarah disse, cruzando os braços e encarando o homem com os olhos apertados, procurando alguma dica.
"E isso só pode ser duas coisas: mulher ou dinheiro." Lauren voltou a falar, tomando um gole do drink que elas tinham feito. "E dinheiro não é."
"Como você sabe que não é dinheiro?"
"Não me questione, . Eu sei que é mulher." revirou os olhos, como uma criança birrenta. Ele passou a mão pelo cabelo, o bagunçando. "Qual o nome dela, ?"
"É... ."
"Ah! Fala mais sobre ela!" Sarah disse, batendo duas palmas animadas.
"? Tipo ?" Rose, que havia se mantido em silêncio até agora, deu dois passos à frente, os olhos naturalmente esbugalhados agora arregalados. concordou, mexendo a cabeça vagarosamente, ficando cada vez mais curioso e ansioso. Qualquer menção à fazia com que seu coração se acelerasse e a garganta secasse, além de instigar uma curiosidade fora do normal em descobrir alguma coisa a mais dela. Ela era um enigma. "Fizemos algumas matérias juntas na faculdade. Ela era um mistério pro campus, era até engraçado ver os caras correndo atrás dela."
"Um mistério?"
"Sim. É que ela nunca quis ter um relacionamento sério, e todos os homens sempre queriam ficar com ela por ela ser desprendida e terminavam gostando dela." Rose deu de ombros. "E ela sempre mantinha a palavra. Não se apaixonou por nenhum deles. Como eu disse, um mistério.”
"Bom, que bom que ela mudou e se rendeu a você, não é?" A amiga brincou, dando um tapa de leve no antebraço do amigo. Ele concordou com a cabeça, soltando um sorriso desconfortável.
"É... quase..." respondeu, passando a mão pelo cabelo já bagunçado.
"Tá esperando o que pra fazer ela se apaixonar perdidamente por você então, garanhão?" Lauren perguntou, com um sorriso sincero no seu rosto. Todas concordaram com a amiga, balançando suas cabeças num movimento sincronizado.
"Por que não, né?"

~*~


A arrumou a camisa social branca e amassada em seu corpo, a única peça de roupa que vestia, enquanto andava calmamente até a área da sozinha do estúdio em que morava. O lugar era aberto, sem paredes, o que fazia com que visse tudo que fazia em qualquer parte do seu estúdio.
A garota tinha sorriso fácil, e tinha um estampado em seu rosto enquanto enchia as duas taças de vinho que os dois haviam largado no balcão da cozinha há algumas horas. Ele sentiu seu coração bater fora do ritmo e prendeu a respiração inconscientemente, o que acontecia quando ele se perdia ao olhar para ela.
Ele sabia que estava completamente perdido com essa garota.
Ela voltou com uma taça em cada mão, sentando-se no colchão alto e entregando uma delas para o homem, que agradeceu baixinho. O silêncio desconfortável que sempre se instalava entre eles finalmente chegou, e a garota colocou a taça pela metade no chão, esticando seus braços para pegar suas roupas jogadas pelo chão do lugar.
mordeu o interior da sua bochecha, segurando o máximo que conseguia a vontade que ele sentia em perguntar aonde ela ia, se precisava de companhia e se ela voltaria no outro dia. Mas ele sabia que no momento que essas perguntas desesperadas saíssem de sua boca, sairia correndo e desapareceria por alguns dias.
Sem vergonha, ela vestiu todas as peças de roupa com calma, na frente dele, que ainda bebericava o vinho numa tentativa completamente falha de parecer calmo ao observar a garota vestir-se de forma tão sensual para ele - de fato, qualquer coisa que ela fizesse seria sensual para ele.
"Já vai?" não conseguiu segurar, e se arrependeu de ter falado no momento em que as palavras pularam de sua boca. A mulher puxou suas calças jeans justas para cima, olhando para o moreno sem piscar.
"Preciso ir." Foi tudo que ela respondeu, em alto e bom som para que ele não fizesse mais nenhuma pergunta. Não fazer perguntas demais era uma das 'regras' que ela tinha imposto para o relacionamento singular que eles tinham. Ele concordou com a cabeça, derrotado pela frieza dela.
Quando percebeu, já havia saído do seu apartamento, deixando-o sozinho, com duas taças de vinho pela metade e seu coração acelerado.


~*~


O funcionário do café entregou o pedido da mulher, que pegou o copo com dificuldade por causa das várias pastas com casos que carregava para analisar. Se soubesse que teria tanto trabalho para trabalhar um pouquinho fora do prédio, nem teria saído.
Ela sentou-se numa mesa vazia, deixando as pastas caírem sobre a mesma enquanto tomava um gole do café que tanto precisava. Ela sorriu sozinha ao ver a quantidade de universitários estudando e conversando, sentindo-se um pouco nostálgica. A mulher deixou o café de lado enquanto pegou uma das pastas, a abrindo instantaneamente.
“Um café. Faça ele duplo, por favor.” Uma voz estranhamente familiar ressoou por seus ouvidos, e fez com que desse uma olhada por todo o café até que seu olhar parasse no homem com quem passava tanto tempo recentemente. Ele entregou o dinheiro para o caixa e virou-se, sorrindo para instantaneamente. Sem cerimônias, sentou-se na cadeira à frente de . “Uau, que coincidência.”
“Realmente.” sorriu um pouco desconfortável enquanto tentava juntar todos os documentos para colocá-los na sua bolsa.
“Desculpa se te atrapalhei, eu posso ir pra outro lugar se quiser...” Ele disse, finalmente notando o trabalho que a mulher estava tendo. Ela fez um gesto com as mãos, para que ele deixasse isso de lado e jogou todas as pastas dentro da bolsa. “Estava trabalhando?”
“É, mas isso pode ficar pra depois.” respondeu, olhando em volta. “É estranho te ver fora do seu apartamento. Ou do meu.” Ela riu, tomando um gole do seu café.
“Acho que a única vez que nos vimos fora foi quando nos conhecemos.” sorriu, tomando um gole do seu próprio café, igual à mulher. “Então... você trabalha por aqui?”
“A algumas quadras daqui, sim.” Ela respondeu, checando seu celular. Ao mesmo tempo que queria se sentir confortável com dele longe de uma cama, ela mal sabia como agir. Era estranho encontrar um cara com quem ela ficava fora do ambiente que estava acostumada com ele.
Ela queria com todo o seu coração fazer a conversa fluir e que tudo desse certo, mas mal sabia o que falar para puxar assunto com o homem.
“O que você faz?” perguntou, encostando seus cotovelos na mesa, parecendo estranha e profundamente interessado.
“Consultoria, basicamente. Consultoria pra grandes empresas onde elas estejam.”
“Então você vai pra outros países e manda nas empresas dos outros e ainda ganha com isso?”
“Basicamente, sim.” riu com ele, achando graça da definição que havia feito. “É engracado quando você coloca isso desse jeito.”

Os dois riam de forma gostosa, aproveitando a companhia um do outro. finalmente havia conseguido relaxar com ele, afinal, ele fazia tudo muito mais leve e divertido. A conversar fluía de forma natural e eles já estavam na terceira rodada de café e tinham até pedido muffins para acompanhar a bebida. Quase duas horas já haviam se passado, e até o chefe de já havia ligado para ver se a mulher voltaria para a empresa. Ela o ignorou, na verdade. Não queria atrapalhar o clima que havia se instalado entre eles.
Quando finalmente olhou para o lado, para a janela do café, já estava escurecendo, o céu laranja formando um pôr-do-sol lindo do lado de fora.
“Nossa. Estamos conversando há tanto que perdi a noção do tempo.”
“Você tem algum compromisso ainda hoje?” perguntou num surto de coragem, casada com a vontade de passar ainda mais tempo conversando e não apenas transando com ele. Ela nunca havia percebido como ele era interessante, como era gostoso estar ao seu lado.
“Eu? Não, na verdade, não.” sorriu para . Na verdade, ele tinha, mas Austin certamente não se importaria de levar um bolo pela primeira vez na vida.
“O que acha de ir lá no meu apartamento e pedir comida chinesa?”
“Só se você também pedir rolinhos primavera. Senão, vou passar.” olhou para a mulher, sua feição séria. Alguns segundos depois, os pia caíram na risada, pegando seus casacos e indo em direção ao caixa.


~*~


abraçava o sobretudo contra seu corpo seminu, coberto apenas pela lingerie preta sensual que havia escolhido para ir ver . Ela passou a mão pelos cabelos rapidamente, tentando deixá-los um pouco mais arrumados do que estavam.
Ela nem sabia o que estava fazendo lá. Só sabia que em relação ao homem, ela sentia uma vontade imensa em agradá-lo, de qualquer forma.
Quando recebeu a mensagem do homem, tomou um banho rápido e pegou um dos seus melhores conjuntos de roupa de baixo, saindo colocando um sobretudo vermelho por cima.
Tudo que ela conseguia pensar no caminho era na diversão que eles teriam no momento em que ela chegasse ao apartamento dele.
sorriu e tocou a campainha, respirando fundo mais uma vez e desabotoando seu casaco botão por botão, até que a porta se abre, junto com o sobretudo da mulher.
"!" exclamou, passando uma mão pelo cabelo. Ele não sabia se sorria com a visão e carregava a mulher para sua cama na hora ou se fechava a porta na sua cara e a mandava de volta para casa. A confusão era clara em seu rosto.
"Feliz aniversário!" riu sozinha, segurando ambas as lapelas do sobretudo e mexendo o quadril, como se estivesse mostrando um presente para o homem.
"Filho? Quem é na porta?" ouviu uma voz feminina mais velha e arregalou os olhos, abraçando-se sem jeito ao seu casaco.
"É aquela garota que você me falou outro dia? Chama ela pra comer com a gente!" Ouviu uma voz masculina agora, que não devia ser de alguém muito mais velho que e . O homem abriu a boca diversas vezes, também tentando encontrar as palavras certas enquanto abotoava o casaco apressada.
"Quem tá aí, ?!" exclamou, arrumando o sobretudo finalmente abotoado e puxando-o para baixo, como se isso fosse fazê-lo mais longo em um passe de mágica.
"Chame-a pra jantar com a gente! Tem comida de sobra!" A mulher finalmente apareceu atrás de , sorrindo. Deus, ele era uma cópia perfeita dela. O mesmo sorriso, os cabelos do mesmo tom de mel, o mesmo tom de pele naturalmente bronzeado e até mesmo as marcas de expressão eram iguais.
"Querido, ela é linda!" A mãe de sorriu, empurrando o garoto para o lado e puxando para um abraço. "É um prazer te conhecer, !"
"Digo o mesmo, Senhora ." A mais nova sorriu, olhando por milissegundos quase irreparáveis para . Como a mãe dele sabia da sua existência? Do seu nome? "Mas eu acho que não vou poder ficar muito tempo. Na verdade, eu já devia ir em..."
"Nós todos estávamos loucos pra finalmente conhecer você, querida. Seria uma pena se você não ficasse." Ela falou e mordeu o lábio inferior, olhando para e sua mãe por longos segundos, concordando levemente com a cabeça logo depois, após ver o homem falar 'por favor', apenas mexendo os lábios e olhando com olhos de uma criança pedindo doce.
"Seria falta de educação recusar, não é mesmo?” riu, totalmente sem graça, cada segundo que passava abraçando seu sobretudo com mais força.
, faça um favor à moça e pegue o casaco dela!” A mãe dele disse, sorrindo enquanto voltava para a mesa.
“Na verdade, eu preciso passar no banheiro, um minutinho.” A mulher mais nova respondeu, correndo em direção ao pequeno banheiro e puxando levemente pela manga de sua camisa.
. Thomas. . Primeiro: você falou de mim pra sua família? Segundo: por que não me disse que eles estavam aqui? Terceiro: o que eu vou fazer com o fato de que estou seminua e a mulher que te pariu está do outro lado desse apartamento minúsculo? Eu não posso tirar meu casaco!”
“Ok. Calma.” fez carinho nos braços dela e a mulher passou a mão pelo rosto, sentindo-se mais nervosa do que quando caiu no chão no dia da sua formatura de ensino médio. “Eu acho que tenho alguma roupa sua no meu armário; eu contei sobre você pro meu primo, que é o maior boca aberta da região, e eu não falei sobre eles porque nós não conversamos sobre isso.”
“Como você vai pegar uma roupa sem eles perceberem?”
“Relaxa, . Fique aqui e eu já volto.”

O jantar ocorreu bem, apesar do desastre que havia sido seu início. Já haviam se passado mais de quatro horas quando a família de finalmente foi embora, todos acreditando com todas as suas forças que eles eram mesmo um casal, e não havia achado a coragem dentro dela para desmentir a mentira que eles haviam começado a criar. A todo momento lançava olhares para ela, que ela sabia que eram agradecimentos eternos pelo jeito que ela estava agindo em frente à família dele.
fechou a porta, recebendo mais um beijo da sua mãe na bochecha e virou-se para , soltando o ar pela boca e sorrindo para a mulher, indo em direção a ela.
“Obrigado, obrigado, obrigado.” sorriu aliviado, dando um beijo de leve na boca dela e deixando seu corpo cair no sofá.
“Eu poderia ser uma atriz, se quisesse.” riu e pegou a taça de vinho que estavam bebendo antes, dando um gole no líquido já um pouco morno. “Ah! Fica aí, ainda não te dei seu presente de aniversário!” riu, entregando a taça para e correndo para o banheiro rapidamente, tirando a camisa e calça que havia deixado no apartamento dele uma vez e colocando de novo o sobretudo marrom por cima do seu lingerie. Ela saiu do apartamento, um sorriso sapeca em rosto enquanto escutava perguntar aonde ela estava indo.
“Eu trouxe uma surpresa e não te entreguei. Agora, vou fazer isso certo.” gritou, do lado de fora do apartamento.
A tocou a campainha mais uma vez, segurando os dois lados do sobretudo em suas mãos enquanto andava relutante até a porta e a abriu, no mesmo momento em que abriu o casaco, mostrando seu corpo coberto apenas pela roupa de baixo sensual e preta.
“Feliz aniversário.” sorriu e também. “Gostou da surpresa?” Os dois riram, enquanto a pegava no colo, entrando pelo apartamento mais uma vez.


~*~


A mulher pegou o grande copo de pint e deu um gole na cerveja, sentindo-se aliviada por finalmente colocar uma gota de álcool depois de uma semana de completo inferno no trabalho. Aparentemente, todo o trabalho da empresa onde trabalhava tinha caído na sua mesa por mágica.
Ela devia estar dormindo, sim. Seu voo sairia em menos de quatro horas pra algum país que ela já não lembrava mais qual era.
Quando a passagem de avião e a pasta sobre a empresa em que ela faria consultoria caíram em sua mesa, a primeira coisa que veio à sua mente foi despedir-se de .
Ela não entendia.
Ela não entendia a vontade de falar com ele a toda hora. Ela nunca tinha vontade de conversar com nenhum homem.
Ela não entendia o aperto no coração que sentia toda vez que ia embora do apartamento dele no meio da madrugada.
Ela não entendia o que ele havia feito com ela. Mas ela queria mais. Muito mais.
Quando percebeu, o grande copo de cerveja já estava vazio. balançou a cabeça levemente, notando o olhar curioso de um homem sentado numa mesa no meio do bar. Ela sorriu para ele maliciosamente, jogando um pouco do seu cabelo para atras do seu ombro. A virou-se para a bancada do bar, pedindo mais uma pint. Agradeceu o bartender com seu sorriso de sempre e tomou um longo gole.
Saia da minha cabeça, .
O homem do outro lado do salão apareceu ao seu lado, encostando os ombros no balcão e molhando seus lábios levemente.
"Tenho que ser honesto com você, linda, você é a mulher mais linda nesse bar." Ele sorriu de certa forma arrogante. Era como se soubesse que conquistaria a mulher naquela noite.
"Quem? Eu?!" sorriu ao jogar o cabelo de forma sedutora por seu ombro. "Você deve ter algum problema de visão." Ela riu, ciente do elogio que viria logo em seguida. Normalmente, ela acharia esses jogos muito mais interessantes. Agora, parecia como se fosse uma obrigação.
"Na verdade, acho que nunca tive uma vista tão bela quanto essa." Os dois soltaram uma risada sem graça, sem tirar os olhos um do outro. Já estavam perigosamente próximos quando ela finalmente pousou uma de suas mãos no pescoço do homem e o beijou, sentindo uma necessidade de outro mundo de tirar o homem de olhos brilhantes da sua mente.
Ledo engano. O beijo babado do homem não lhe serviu de nada, além de nojo. Como poderia alguém ainda beijar como um adolescente sem experiência alguma?
Quando finalmente conseguiu se desvencilhar dos braços do desconhecido, seus olhos encontraram os de quem ela tentava tirar da sua mente havia tanto tempo. Os olhos normalmente doces e cheios de carinho que ela se negava, agora eram impossíveis de ler. Os braços dele estavam cruzados, o que fazia com que seus músculos saltassem da camisa social branca justa. Sua cabeça balançava de um lado para o outro, de forma incrédula.
Eles perderam a noção do tempo apenas se encarando.
“Foi mal. Não vai rolar.” sorriu sem jeito, colocando as duas mãos no peito do homem que ela não conhecia e conseguindo uma distância mínima, que o estranho insistia em acabar com essa mesma distância.
A lutou contra o instinto de correr até ele e explicar o que tinha acontecido, mesmo que não tivesse jeito melhor de explicar que ela estava ficando com outro cara, a não ser ele, e que se sentiu profundamente culpada a partir do momento em que seus lábios tocaram.
Por Deus, eles não tinham um relacionamento.
Ao finalmente desistir do seu ímpeto de ir atrás dele, ela finalmente foi.
, eu...” começou, se sentindo imediatamente tonta ao finalmente sair do lugar depois de tanto tempo. “Me desculpa. Eu nem sei...”
“Não precisa explicar, . Você mesma pediu. Nada de relacionamento.” O tom de sua voz era grosso, também uma novidade para . “Não precisa me explicar nada.” repetiu, jogando seu paletó por cima do ombro e indo embora do bar, sem dizer mais nenhuma palavra.
ficou parada, encarando a porta por onde tinha ido embora. Tentando entender o que tinha feito, o que sua cabeça e seu coração lhe diziam. Sem resposta, ela finalmente desistiu e voltou para o bar.
“Dose dupla de whiskey, por favor. Faça essa bebida forte.”


~*~


jogou o celular na cama, que quicou duas vezes na mesma antes de cair no chão. Ela havia sumido. A cena no bar não saía da sua mente, o beijo de e o olhar completamente culpado depois, só para ela sumir depois que ele foi embora. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Nada. Ignorando o celular no chão, deixou seu corpo cair no colchão que por muitas vezes compartilhara com ela, em noites que para sempre ficariam em sua memória. Ela o deixava louco, como nenhuma mulher.
O homem suspirou, sentindo que a cada minuto que passava ele ficava mais fora da sua mente.
Um som camuflado chamou sua atenção, vindo do seu celular jogado no chão, em cima do tapete. Ele esticou seu braço e o pegou, notando que uma mensagem havia acabado de chegar. Infelizmente, era apenas sua mãe, perguntando se ele iria almoçar com ela no domingo.
respirou fundo mais uma vez, resolvendo abrir suas redes sociais para ver se o tempo passava. A primeira foto, (in)felizmente era da mulher que tanto tirava seu sono, sorrindo enquanto segurava um coco na mão e seus cabelos voavam. Ela usava um biquíni preto e estava linda, como sempre. Na legenda, uma frase que não saiu da sua cabeça por muito tempo “Queria que estivesse aqui”.
Quem ela queria, por Deus?
Um dia, o deixaria louco. Completamente.


~*~


ouviu o táxi arrancar pela rua pouco movimentada, jogando ainda mais água no seu corpo já encharcado pela chuva torrencial que estava cobrindo a cidade desde que o seu avião pousara. Ela entrou no prédio tão familiar, ignorando todo e qualquer olhar que receberia, indo diretamente para o elevador.
A foi acompanhada por uma senhora, que a observava sem falar nenhuma palavra, seus olhos atentos. Ela morava de frente para e já tinha visto , muitas vezes em situações muito estranhas, no apartamento dele.
“Faz tempo que não te vejo, mocinha.” Disse a senhora, parecendo completamente alheia ao fato de que estava completamente encharcada, com uma mala de viagem e que havia ficado parada por uns cinco minutos, apenas olhando para a fachada do prédio antes de finalmente pisar dentro do mesmo.
“Viagens a trabalho.” tentou sorrir para ela, agora sentindo seu corpo tremer de frio. Ela ouvia pingos de água caindo no chão do elevador, direto do seu casaco.
“Faz tempo que não vejo seu namorado também. Diga à ele que tenho o doce preferido dele, e passem lá mais tarde.”
“Pode deixar.” sorriu sem graça, o elevador finalmente chegando ao andar das duas. A senhora foi para seu apartamento imediatamente, enquanto ponderou por mais alguns segundos se ela estava realmente sã.
Apenas algumas horas antes, ela estava numa reunião entediante na Austrália, mas tudo que conseguia pensar era no homem que estava do outro lado da porta. Antes que percebesse, pediu desculpas e saiu da reunião, indo direto para o aeroporto e comprando a próxima passagem para a Inglaterra que conseguiu encontrar. Ela só parou para pensar no que estava fazendo quando o avião decolou, mas mesmo assim decidiu afastar as dúvidas e continuar na sua epifania romântica antes que se arrependesse.
respirou fundo e tocou a campainha, gotas de água ainda caindo do seu casaco agora começavam a irritá-la.
“Indo!” gritou, e não demorou muito para que ele abrisse a porta do seu apartamento. “? O que você...? O que aconteceu?”
“Me deixa falar, por favor.” suspirou, olhando dentro dos olhos mais doces e sedutores que já tinha visto em sua vida. “Me desculpe. Se eu te fiz sofrer. Pelo jeito que eu te tratei todo esse tempo. Sempre foi mais fácil me distanciar dos caras com quem eu ficava..., mas com você, Deus! Quase impossível!” Ela disse e falhou em segurar um sorriso orgulhoso. “Eu tentei me manter distante, não me apegar, mas eu não consegui, . E agora eu preciso de você. Eu preciso estar com você. Porque eu não aguento mais ficar longe, me manter distante. Isso é... claro, se você me quiser de volta.”
“Eu sou muito ruim nisso, de verdade. Eu nunca me senti desse jeito com ninguém. Você vai se estressar demais comigo, com meu jeito, mas eu prometo que vou me esforçar pra te fazer feliz. Vou me esforçar pra fazer que nós tenhamos um relacionamento bom.”
“Terminou?” perguntou, seu corpo encostado no batente da porta e um sorriso sincero estampado no seu rosto.
“Acho que sim.” soltou o ar pelo nariz, e no próximo segundo já estava nos braços de , sendo envolvida pelo seu beijo que tanto sentia falta, o homem parecendo não se importar também com quão encharcada ela estava, dado que ele a segurava cada vez mais próxima dele. sorriu entre o beijo, entrelaçando seus braços em volta do pescoço de , enquanto ele a segurava pela cintura.
“Finalmente.” sussurrou, fazendo com que os dois rissem enquanto entravam pela porta, desajeitados, a mala de deixada do lado de fora e as roupas, tanto secas quanto molhadas sendo deixadas pelo caminho. “Finalmente.” Ele sorriu, passando os dedos pelo rosto molhado pela chuva de , secando-os e os beijando logo em seguida, os corações dos dois mais leves ao estarem finalmente juntos de verdade.


Fim.



Nota da autora: Muito obrigada por ler até aqui! Essa é minha primeira fic postada e se não fosse por algumas pessoas, não acho que elas teriam saído: Rafaela, Luiza e Giovanna foram tão importantes pra Suffer que não sei nem por onde começar. Sem elas, as milhares de vezes que leram rascunhos e opiniões toda vez que liam, eu não teria a coragem de mandar. Fa, obrigada por me encorajar a pegar esse ficstape.
Se você gostou de mim, quer fazer uma amizade sincera ou me xingar, chama no probleminha,bb.



Nota da beta: Ahhh que bonitinho, Karina. Achei uma graça esse casal, adorei quando finalmente ela se entregou e viu que estava gostando dele, o coitado merecia porque estava apaixonado desde o primeiro encontro praticamente né hahaha Parabéns pela fic, amore! Xx-A

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