FFOBS – 11. One Love, por MayC.
11.One Love
Finalizada em: 24/06/2018

Capítulo Único

“Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.” – William Shakespeare


O frio que fazia nas ruas de Madri era o suficiente para fazer qualquer civil desistir de sair de sua casa aquecida, contudo era uma segunda-feira, dia útil, início de semana, havia muito trabalho para muitos destes civis. E se enquadrava neste meio. Ela estava saindo de seu hotel na zona sul da cidade espanhola para seu primeiro dia de trabalho como fisioterapeuta no tão aclamado Real Madrid, o time da cidade. Havia chego no domingo à noite, um dia antes do seu primeiro dia de trabalho; por ser bem familiarizada com o clima frio europeu, não teve problemas em ter que sair do conforto do hotel. Quando entrou no táxi e percebeu que seu espanhol, uma das línguas que aprendeu ainda jovem, não estava tão enferrujado como pensou que estaria, se sentiu mais calma – porém, não menos ansiosa. Durante todo o trajeto se sentiu empolgada, até perceber que estava chegando no centro de treinamento do time, onde iria trabalhar dali em diante.
tinha se formado na faculdade havia dez meses, trabalhou por esse tempo em duas clínicas na capital francesa, até seu pai mencionar com um dos preparadores físicos do Real Madrid sobre a profissão da filha, que além da faculdade havia feito vários cursos de extensão para trabalhar com condicionamento físico. Então foi tudo rápido, Leone deu a ideia para e ela não pensou duas vezes para aceitar o convite de trabalho na Espanha, nem tão longe de casa, deixando muitas coisas para trás, incluindo um noivado de dois meses. E ali estava ela, pagando o motorista e descendo do veículo, pronta para encarar uma vida onde não conhecia ninguém; um lugar sem sua mãe para lhe dizer como se sentir ou se comportar, sem seu pai para te repreender e ao mesmo tempo mimar, sem suas amigas para desabafar. Era uma vida nova.
Depois de se apresentar na entrada do centro de treinamento, foi direcionada a uma área onde havia alguns profissionais a sua espera. Foi apresentada aos médicos e coordenadores daquele enorme centro, em seguida seguiu em direção ao local em que ficaria na maior parte de seus dias de trabalho, a área de fisioterapias e preparamento físico. Ao ser apresentada às principais áreas em que atuaria, foi guiada para a área externa, o campo de treino. Teve um pequeno tempo para conversar com Leone e continuou o mesmo discurso de sempre, desde que ele lhe dera a oportunidade daquele emprego, lhe agradecendo pela oportunidade única. Em seguida ela voltou para dentro, acompanhada do mesmo, segundo Leone, ela já tinha um jogador para conhecer, a qual iria ser sua responsabilidade por algumas semanas, para que estivesse bem até o final da Champions League, a competição mais importante da Europa. O time tinha plena confiança que estaria no jogo da final e precisavam daquele jogador em específico para esta partida.
Ao cruzarem todo o caminho de volta para a área fisioterapêutica, passaram pela academia que era circulada por um vidro transparente, todos os jogadores que ali estavam não perderam a oportunidade de lançar olhares àquela que eles nunca haviam visto pela Ciudad Real Madrid.
Keylor Navas, o goleiro costarriquenho titular do time, parou sua atividade na esteira e depois de um longo gole de água em sua garrafinha personalizada, disse alto para os curiosos ouvirem:
- É a nova fisioterapeuta, seus manés... – riu achando graça.
- Desse jeito vou querer torcer meu tornozelo em todos os jogos. – Asensio disse soltando o peso que usava. – Com ela, duvido melhorar até a final da Champions. – continuou, usando seu melhor tom de malícia.
Todos se olharam e riram, até o preparador físico aparecer e lhes repreender por serem desrespeitosos com uma mulher que não conheciam.
Assim que e Leone entraram no corredor que levava às salas de atendimento médico, ela sentiu seu coração palpitar de alegria.
- Bom, , essa é a senhorita . Ela vai ser sua fisioterapeuta. – Leone disse assim que entrou na sala, sendo seguida da moça francesa. Ao ser apresentada os dois apertaram as mãos. – Diretamente da França, que tal? – o mesmo brincou e evitou rolar os olhos, seria mal-educado de sua parte – ou não?
Leone lhe explicou o quadro de , exatamente três dias antes ele havia retirado uma tala que usara por cinco semanas, devido à uma grave lesão no tornozelo direito. Não havia sido algo tão profundo que obrigasse ao zagueiro um repouso tão rígido, mas devido ao tempo em que ficara parado, precisaria de exercícios terapêuticos para voltar à sua forma para poder atuar em campo novamente.
- .
A francesa estava de costas, colocando seu jaleco branco e prendendo o cabelo em um rabo de cavalo alto e firme, quando disse seu nome. Havia sentido uma pequena tensão na sala quando o chefe saíra. De fato não devia ser confortável para estar sentado em uma maca completamente exposto, enquanto seus colegas estavam se preparando para mais um dia de treino forte, para outra partida importante de futebol, uma vez que o campeonato mais importante de toda a Europa estava para começar dali a alguns dias.
O jogador não entendeu muito bem, somente quando ela se virou novamente para ele com as mãos posicionadas uma de cada lado na cintura e com um semblante meio assustado, ele entendeu. Ela estava perdida, com toda a certeza, e de um modo peculiar ele achou aquele clima tenso gostoso. parecia ser uma mulher engraçada, além de bonita, e meio desengonçada, assim como era em campo. Ela tinha seu charme.
- O que foi? – o cortou de seus devaneios.
- Quê? – se assustou.
- Você, estava me encarando... – ela olhou para o chão, envergonhada. – Parece que eu estou muito perdida? – perguntou sussurrando.
É, realmente, era uma graça de mulher, em sua conclusão.
- Se eu disser que sim você vai ficar nervosa? – ele sussurrou de volta. Os dois se encararam por um momento e depois riram.
- Bom, vamos começar de novo. – ajeitou sua postura. – Toda essa coisa de “Diretamente da França” do Leone me envergonhou. – se justificou e apenas fez um aceno de cabeça.
- Se você quiser, pode entrar pela porta de novo e tudo o mais... – encarou ele curiosa. – Não sei, talvez ajude. – o rapaz deu de ombros.
franziu o cenho e pensou alguns segundos, enfim fez o que sugeriu, achando graça dentro de si. Seu primeiro dia de trabalho no centro de treinamento e não estava preparada para logo de cara cuidar daquele enorme rapaz que lhe esperava naquela sala. Seu coração estava acelerado, suas mãos tremiam e a tensão de seu corpo não lhe deixava girar aquela maçaneta que estava segurado firme. Pensou mais alguns segundos e resolveu abrir a porta, minimizando o sorriso que abriu ao ver o do jogador, estampado naquele rosto lindo e bem cuidado, com aquela barba super bem feita. Deixou a tensão de primeiro dia ir embora para dar lugar a tensão de “que homem” lhe preencher. Assumiu a melhor pose profissional em si e entrou na sala.
- Senhor , bom dia. – pegou a ficha dele em cima da mesinha que somente naquele momento notara. – Me chamo e serei sua fisioterapeuta pelos próximos quarenta dias.
Ao voltar a olhar para o rapaz, deixou os olhares cruzarem, sentindo a sua espinha esfriar.
- Muito prazer, senhorita . – mais uma vez ela o encarou sorrindo e se aproximou da maca, colocando uma mão por cima de seu pé. – Quarenta dias? Talvez não seja assim tão ruim... Ai!
o olhou, ainda mantendo a postura profissional. Ele estava distraído e ela puxou seu pé, com certa força na mão, para ver o tanto que ele aguentaria mover.
- Desculpa... – ela o soltou e viu a sua feição suavizar. – Temos muito trabalho aqui, senhor . – ele franziu o cenho. – Você está... Hmm, digamos que, enferrujado.
- E podemos consertar isso, senhorita ? – o mesmo respondeu, pareceu sentir em cheio a palavra “enferrujado” no ego. Ele não podia estar enferrujado para a temporada, seu time precisava dele.
respirou fundo e se virou para o pequeno balcão com a ficha do jogador. No papel ela deveria anotar todo o progresso do tratamento. Decidiu encarar a folha, já que suas bochechas estavam muito coradas pelo rubor que causava em si. Queria culpar os hormônios, estava triste por todo o processo de separação entre ela e Koba, com quem teve um relacionamento de seis anos, resultando em um noivado. Estava triste e sua mente se aproveitando disso para cair nos encantos do jogador de quem estava cuidando. Ela nem sabia se o mesmo era compromissado!
- , pode me chamar de . – enquanto encarava o papel, anotando o tipo de tratamento que seria feito, se controlava para não parecer sentimental demais ao se lembrar do ex.
- E o que faremos hoje? – tomou a atenção da mulher e ela largou o papel, colocando duas luvas de processo cirúrgico, uma em cada mão.
- Você ficou um tempo considerável com o gesso, . – puxou a escadinha que dava apoio para subir na maca e se sentou nela, ficando um pouco mais baixa. – Fique de frente para mim e me dê seu pé direito. – pediu e ele o fez. Ela então começou a massagear o tornozelo do rapaz com delicadeza, vez ou outra sendo firme. Enquanto isso, continuou a lhe explicar:
– Você terá algumas dificuldades em movimentar o pé, por aderências na articulação do tornozelo e por conta da perda de força e controle dele. – ela o olhou, concentrado em ouvi-la, enquanto ela fazia um movimento devagar para frente e para trás com o pé, apoiando-o em seu joelho. – Neste caso, iremos desbloquear a sua articulação, recuperar o controle e a força muscular. Iremos te preparar para sua tarefa: – voltou a olhar sorrindo para o zagueiro. – derrubar atacantes na grande área.
sorriu e se sentiu preso no sorriso da mulher em sua frente.

No refeitório todos os jogadores não falavam em mais nada além da grande estreia do Real Madrid naquela temporada, 2018 prometia muito ao time. Além disso, o assunto também era a grande festa na casa do goleiro Navas naquela mesma noite. Estava tudo combinado com tamanha certeza, cada um levaria alguma coisa e respectivas namoradas, virariam a noite no luxuoso apartamento, como um tipo de social entre amigos para comemorar de volta ao centro de treinamento do clube. Entretanto, o único de fora de todo aquele papo era o próprio convidado de honra do goleiro. O mesmo parecia estar em um devaneio infinito, mal havia tocado na comida, só conseguia fazer se lembrar da voz de uma certa fisioterapeuta que não saía de sua cabeça, lhe dizendo todas aquelas palavras que em sua cabeça só formavam a única que se fixou: “enferrujado”.
Mas, havia entendido de uma forma diferente aquele termo. Na verdade, ele sabia que estava falando sobre sua condição física; porém, ele tomou aquilo como uma crítica ao seu lado pessoal também. Toda a cena que fez em cima daquela maca, só para tomar a atenção da mulher, se ela tivesse sido esperta, teria reparado o quão patético ele fora. Entretanto, ele duvidava que tivesse sido pego, ela parecia nervosa e concentrada demais para notar qualquer falha no flerte do rapaz. Assim como ela era a única no luxuoso refeitório a não perceber os olhares do mesmo em sua direção.
- Qual é, ? – Navas, que estava sentado de frente para o zagueiro, chamou sua atenção.
- Quê? – o olhou confuso.
- Algumas horinhas com a fisioterapeuta e já está caidinho nela? – Bale, outro jogador, disse. olhou para o amigo do lado direito e franziu o cenho.
- Não! – respondeu à insinuação. – Na verdade, sim. – olhou na direção de novamente, ela ria de alguma piada do médico do time, sentado em sua frente.
- Chama ela para a festa de hoje lá em casa. – Navas deu a ideia. – Talvez ela não conheça muita gente aqui, vai ser bom. Se enturmar... – o olhar sugestivo do costarriquenho gerou risadas na mesa, apenas revirou os olhos, ouvindo Cristiano Ronaldo dizer ao se aproximar:
- Quem vai se enturmar? – ele perguntou. – Bom te ver, . – cumprimentou o amigo.
- Nosso zagueiro. – Bale olhou para Navas. – Está enfrentando o dilema de chamar ou não a nova fisioterapeuta para a social na casa do Navas.
- Ah... a social para jogar videogame e beber cerveja, tô sabendo. – respondeu o recém-chegado com sarcasmo.
- Aposto um beijo do CR7 que ele não chama. – o goleiro disse e Cristiano lhe mostrou o dedo do meio.
Enquanto os rapazes riam, distraídos, decidiu se levantar. Pegou seu par de muletas que estavam lhe auxiliando no equilíbrio para andar, caminhou devagar até a mesa afastada e parou olhando para única mulher naquele meio de homens carecas, velhos e com piadas ruins. Podia ver o pedido de socorro da moça para sair dali. Devia ser torturante estar no meio daquelas piadas machistas e aqueles comentários sobre futebol que ela, talvez, não entendesse. Ou, se ele estivesse gigantescamente errado, ela entendia muito bem de futebol e só não falava nada para aqueles homens por não querer causar uma má impressão. Certo, em sua concepção, ela precisava de ajuda. Olhou para trás, como em câmera lenta, um grupo dos seus amigos lhe encaravam com apoio. Sacudiu a cabeça e tocou no ombro da mulher, se apoiando na mesa.
Céus, como ele estava se sentindo um adolescente.
- Ei. – ela foi a primeira a dizer, embora fosse ele quem a chamasse. Sorria, aquele mesmo sorriso tímido e que mostrava a pessoa destrambelhada que ela devia ser.
- Oi. – ele disse e cumprimentou os outros na mesa com um aceno de cabeça. – Vai ter uma social na casa do Navas hoje, – ele apontou para a mesa atrás, mostrando o amigo e ela o seguiu com o olhar, acenando para os que a olhavam, deixando-os sem graça. – quer ir? Achamos que, como você veio agora da França, pode ser que não conheça ninguém e esteja sem companhia para o jantar. E vai ter bastante gente lá. – finalizou, meio confuso com a quantia de palavras usadas.
- Tá, pode ser. – deu de ombros.
- Se você quiser eu posso te buscar na sua casa.
- Ah, não se preocupe. – ela negou com a cabeça. – Eu vou de táxi, pego o endereço com ele depois.
se levantou e pegou seu prato e seu copo, cumprimentou todos com a cabeça e sorriu uma última vez para . Ela passou pela mesa de Navas e sorriu para os outros também antes de sumir pelas portas do refeitório, depois de descartar seus utensílios, em seguida o zagueiro olhou para os amigos curiosos, sorrindo e acenando um sim com a cabeça.
- Vocês parecem um bando de adolescentes virgens! – o técnico do time, Zidane, verbalizou seu pensamento, rindo. – Não quero ninguém atrasado amanhã, Navas, senão você vai ter que passar o dia correndo em volta do campo.
Dizendo isso o técnico saiu do refeitório e todos começaram a rir e caçoar de , como se ele fosse um adolescente de verdade.

O relógio já marcava cinco e meia quando chegou em seu apartamento no hotel, ela estava tranquila, mas encarou o vazio do espaço com um tamanho considerável para se viver por um pequeno tempo – até comprar um apartamento ou uma casa, o que fosse melhor – oferecido pela administração do Real, com certo pesar. Na vida que tinha em Paris a casa que morava nunca estaria vazia daquele jeito, seus sobrinhos àquela hora na sua cidade estariam correndo de um lado para o outro na enorme sala, deixando sua mãe louca e sua irmã exausta; seu pai estaria com o genro, marido da irmã, no sofá, cada um com uma taça de vinho em mãos, discutindo sobre o grande dia que tiveram no hospital em que eram cirurgiões; e ela estaria indo para a cozinha fazer o jantar com Guadalupe, a cozinheira da família. sentiu falta de uma cozinha naquele espaço, com um fogão livre para que ela pudesse aprontar uma de suas receitas maravilhosas, fruto do livro de sua avó materna, já falecida.
Deixou a bolsa jogada no chão mesmo e caminhou até o frigobar na parede perto da sacada e pegou uma garrafa de água, em seguida abriu e se sentou na ponta da enorme cama king size. Soltou o ar pesado e tomou o líquido gelado, o sentindo chegar no estômago vazio. A cortina da porta da sacada estava meio aberta e ela podia ver do lado de fora por um pequeno vão. Era uma visão diferente da que tinha do seu quarto em Paris, de onde conseguia ver o cartão postal mais famoso da cidade da sacada, mesmo que estivesse ao longe ela podia ver a torre e à noite era a coisa mais linda que ela tinha para se lembrar pro resto de sua vida. Ainda olhando para o vão na janela ela sentiu seu peito queimar em saudade de Koba, não estava preparada para se lembrar do fim do relacionamento de anos em uma noite.
Quando uma lágrima rolou pelo seu rosto, ouviu seu celular começar a tocar, limpou a lágrima impedindo-a de completar a rota pela sua pele e se levantou para caminhar até sua bolsa na entrada do quarto. Pegou o aparelho, vendo o lembrete de sua agenda virtual lhe informar que estava na hora de se arrumar para a tal festa social na casa de Navas. Respirou fundo e jogou o celular na cama, em seguida deixou a garrafinha em cima do frigobar e foi caminhando para o banheiro enquanto já tirava sua roupa as deixando espalhadas pelo chão. O serviço de quarto cuidaria daquilo, mais uma vez. Já dentro do banheiro ela foi rápida, apenas tirou o suor do corpo e logo estava de volta no quarto, com as pernas tremendo de frio. O aquecedor faria algum efeito se ela o tivesse ligado antes, claro. Revirou os olhos e caminhou até o guarda-roupa na lateral da cama, segurou firme a tolha enrolada no corpo com uma mão, enquanto com a outra livre puxou a enorme mala até a cama.
Não demorou muito para que já estivesse na frente do espelho luxuoso do enorme banheiro penteando o cabelo, já com uma maquiagem bem fraca, usando apenas o necessário para cobrir algumas manchas. Usou um perfume suave, como sempre, devido à sua alergia a perfurmes fortes. De volta no interior do quarto calçou sua bota de cano curto e com salto robusto tratorado, na cor vermelha para dar alguma cor no seu look completamente preto com cinza – usava uma calça jeans, uma camiseta de manga comprida sem estampa e por cima tinha um tipo de camisão de lã, com mangas três quartos em um cinza mais escuro, tendo a gola um pouco alta, fazendo a vez de um cachecol. Por fim vestiu o sobretudo vemelho e o afivelou na cintura. Checou no relógio a hora e saiu do apartamento com sua bolsa em mãos.
O táxi até o endereço que Navas havia passado não ficou tão caro, mesmo que ela tivesse a moradia bancada pelo clube não tinha tanto dinheiro para ficar gastando a torto e direito. Então um táxi que fizesse o caminho que o dela fizera, dando uma parada no mercado para que ela pudesse comprar uma garrafa de vinho, como orientado, e seguisse para o destino final, cobrando quase que o mesmo valor de um Uber era bom para seu bolso.
Ainda de fora da casa do jogador via a movimentação, foi caminhando devagar pela entrada e tocou a campainha, quase desistindo daquilo. Era uma estranha no lugar, como iria se sentir confortável no meio de desconhecidos?
- Olha só, se não é nossa nova amiga! – Keylor disse ao abrir a porta. – Entra. sorriu fraco e levantou a sacola com a garrafa de vinho, entrando e olhando para os lados, haviam muitos homens e mulheres, por todos os lados.
- Qual a definição de social aqui na Espanha? – ela se virou para Navas.
- Sou costarriquenho, francesa. – ele rebateu rindo. – Não quer tirar esse sobretudo? Aqui você não vai precisar disso. – o olhou com o cenho franzido e ele apenas riu, se posicionando atrás dela para lhe ajudar a tirar a peça de roupa, depois de deixar a sacola com o vinho em cima da mesinha de entrada. – Relaxa, estou falando do aquecedor da casa...
- Ah! – foi a única exclamação que ela soltou e o viu pendurar seu sobretudo no cabideiro ao lado da porta, junto com sua bolsa.
- Olha, eu vou te apresentar as pessoas dessa... “social”. Navas sorriu e foi guiando-a pelo corredor, não demorou para a mulher reconhecer os jogadores do time numa sala, esparramados com várias garrafinhas de cerveja pelo chão e mesas. Estavam todos de frente para a enorme televisão, três ou quatro deles, ela não soube com certeza, estavam com um controle de videogame – Xbox com certeza – na mão e na tela era uma partida do FIFA18. Mas, sendo guiada por Navas, eles entraram em uma sala antes. Naquela sala sim tinha movimento, não tinha nada de social após o trabalho. Foi apresentada a cada um dos amigos do jogador e à Andrea, mulher do goleiro. Fora muito bem recebida por todos e depois foi com Keylor para a sala onde estavam os “brutamontes”, segundo Andrea.
Quando estavam no corredor caminhando para a sala de tv, a porta foi aberta e revelou um , coberto por um sobretudo preto, um gorro na cabeça e com uma dificuldade de caminhar com a bengala de metal firme. sentiu um formigamento no estômago, o mesmo que sentira naquele dia mais cedo, ao encarar os olhos do rapaz. Ela e Navas assistiram enquanto ele se livrava do gorro e do sobretudo, pendurando em cima do dela no local adequado, parecia estar sendo tudo rápido, até ele olhar na direção dos dois e capturar o olhar de .
- , ei!
Ambos levaram um susto com a voz de Cristiano vindo da entrada da sala de jogos, por mais que a música estivesse alta eles ouviram e foi a voz dele que lhes tirou do transe.
- Quer ajudinha aí para chegar aqui do outro lado? – Cristiano brincou caminhando até o amigo.
- Que delicado você, Ronaldo. Sempre na caridade. – Navas se intrometeu e quando foi caminhar até os dois amigos se lembrou de ao seu lado. – Você quer ir com as mulheres na outra sala? – questionou-a.
- E falar sobre bolsas, sapatos e o carro super caro que ganhei do meu namorado...? – ela respondeu irônica e Navas riu concordando, enquanto isso Cristiano e se aproximaram. – Não, prefiro detonar vocês no FIFA. – sorriu desafiadora.
- Você tem namorado? – Cristiano soltou alto, olhando para ao seu lado.
- Não... – riu do modo curioso de Cristiano e olhou para que parecia menos rígido. – E aí, , como está?
- Perfeitamente enferrujado, senhorita .
pareceu não entender e ele quis morrer com seu comentário sem sentido. Cristiano e Navas se olharam e um entendeu o recado do outro, enfim entraram na sala com os outros jogadores e alguns amigos alheios dos mesmos. foi devidamente apresentada a todos e não demorou muito para estar sentada no tapete do meio da sala, esperando o jogo finalizar para tomar o controle e jogar. Estava muito bem acompanhada de sua garrafinha de cerveja e alguns petiscos espalhados. Se ela tivesse um terceiro olho na cabeça ou um sexto sentido aguçado, pegaria , sentado um pouco mais atrás dela, lhe encarando, prestando atenção em todos os seus movimentos e no modo como ria das piadas de Navas. Os dois pareciam se dar bem.
- Fim de jogo! – Cristiano exclamou. – Quem vai jogar com quem agora? – lançou na roda, entornando sua bebida.
- Eu vou com a . – Navas se manifestou. – Vamos acabar com qualquer dupla. – os dois fizeram um high five.
- Eu e você, ? – Gareth Bale disse de um dos lados da sala.
concordou com a cabeça e viu Navas e murmurarem algo um pro outro, depois riram e olharam para a outra dupla no sofá. Um silêncio se instalou no ambiente e as duplas resolveram que jogariam a Copa do Mundo, com Navas decidiram pegar a Alemanha e com Gareth pegaram o Brasil, por piada mesmo. Ninguém acreditava que a mulher – única no meio deles – seria boa o suficiente para jogar aquele jogo e não demorou muito para que ela provasse, marcando o primeiro gol com o boneco de Thomas Muller. Ao todo o placar foi de três a dois para Alemanha e no final do jogo Navas e a nova amiga zoavam com os rivais. Levou três jogos para eles serem tirados do controle e terem de dar lugar a outros quatro brilharem.
O goleiro cumprimentou e os dois decidiram ir para o lado mais calmo da casa, a piscina. A fisioterapeuta reparou que não estava em seu campo de visão há algum tempo e se pegou a reparar que quase nem haviam conversado, tirando as vezes que ela tirou sarro dele no video game.
Ao chegar no deck da piscina ela se sentiu confortável. A arquitetura do lugar deixava o ambiente bem aconchegante e leve. Após a porta tinha um espaço com sofás na frente, um pequeno muro de vidro era iluminado por uma luz neon verde, havia um guarda sol aberto com luzes no chão para auxiliar a lua na iluminação da noite. Do lado esquerdo tinha a escada que descia para a piscina e a área de churrasco.
- Keylor adora decorar essa área a cada mês que passa, semana passada estava com uma decoração irlandesa.
levou um susto ao ouvir uma voz masculina, tanto quanto conhecida, dizer próximo ao seu ouvido. Sentiu o calor do corpo do homem e inspirou o cheiro suave do perfume do mesmo, constatou que não havia sido uma boa ideia, uma vez que sempre fora frágil no quesito cheiro. Se virou devagar e viu parado logo atrás de si, apoiado na bengala e com uma mão, a livre, acenou para ela. Não conseguiu evitar sorrir de volta.
- Achei que tinha se sentido mal por perder para mim no FIFA e ido embora. – ela respondeu fazendo um bico no final, fingindo estar confusa.
- Ouch. – levou a mão livre ao peito, fazendo uma cara de triste, como quem estivesse sido ofendido pelo comentário. – Não vai me deixar esquecer disso, vai?
- Veja por um lado bom: Gareth também será lembrado disso pelos outros, eu sou mais legal, vou pegar leve com você. – piscou um olho e ele sorriu.
- Então posso dizer que sou um cara de sorte, além de minha fisioterapeuta, vou ser lembrado por ter perdido para você e o Navas no FIFA, apesar dele ser ruim e você ter feito quase tudo. – ela murmurou algo inaudível e ele completou: – Que honra, senhorita.
- Disponha.
fez uma reverência e os dois riram juntos. Um olhou para o outro por segundos, mas que pareceram durar uma eternidade. percebeu que admiraria sempre a forma como sorria fazendo com que seus olhos se fechassem, deixando uma leve ruga no cenho. Ela, por outro lado, percebeu gostar de como o sorriso dele mesmo bem aberto e sincero, ainda o deixava com a mesma feição séria.
- Bom, eu acho que está na minha hora, .
- Pode me chamar de , vamos passar muito tempo juntos, formalidade demais vai cansar. – ele piscou para ela.
No mesmo momento, o celular da fisioterapeuta começou a tocar e o nome Lucca apareceu na tela. Ela não esboçou reação, apenas rejeitou a ligação do ex-noivo e voltou o telefone no bolso, olhando para o homem em sua frente.
- Certo. Sendo assim, acho que está na minha hora, . – repetiu, dando ênfase no nome dele e o mesmo sentiu um frio atingir sua espinha, talvez fosse o sotaque francês da moça. Talvez.
- Quer uma carona? Posso te deixar na sua casa...
- Hotel, na verdade estou em um hotel. – ela o cortou. – Cortesia de boas-vindas do clube, foi tudo tão rápido que não tive tempo de encontrar um lugar fixo. – se justificou.
- Entendo. Mas, mesmo assim, você não vai ficar lá por muito tempo, vai? – quando deu por si a pergunta já havia sido feita, se sentiu envergonhado por ser tão invasivo, percebendo pelo olhar confuso dela.
- Bom, até eu me sentir segura para encontrar um lugar, sim. – respondeu minimamente, queria mesmo encerrar o assunto e ir embora.
- Certo. – foi só o que ele respondeu. – E a carona, vai querer?
- Não se preocupe, fique mais um pouco, eu pego um táxi. – antes dele revidar com mais uma frase insistente, ela o cortou. – Eu insisto.
ficou quieto e concordou com a cabeça, achou engraçado como ela usou o famoso “Eu insisto” para dizer que não precisava da carona, normalmente quem oferece algo e quer muito o fazer é que diz.
se sentiu grata por não precisar ir atrás de Navas para se despedir, pois no mesmo momento em que o diálogo com terminou, o goleiro madrilenho apareceu com a esposa no meio do corredor que dava o caminho para a porta de entrada e saída principal da casa.
- É sério que você quer ir embora? O disse algo ruim pra você? – Keylor a questionou.
- Não. – revirou os olhos e respondeu rindo. – Ele foi uma boa companhia, até deixou que eu me gabasse sobre o FIFA.
- Então fique mais um pouco. – desta vez fora Andrea quem tentara a convencer de ficar. – Daqui a pouco a maioria vai embora, aí posso lhe dar mais atenção, deve ser difícil para você não conhecer ninguém.
- É, , talvez seja bom fazer amizade com alguém. – Keylor abraçou a mulher de lado.
sorriu enquanto colocava o sobretudo com a ajuda de , ele também já havia se vestido.
- Eu agradeço, de coração. Até agora estou me sentindo muito bem recebida aqui, mas preciso descansar mesmo. Sou acostumada com a rotina de casa após trabalho e trabalho após casa. – fez uma careta. – Não me entendam mal, tive uma ótima noite de diversão.
- Sem problemas, . – Andrea sorriu. – Entendemos você, desculpe a insistência. Venha sempre que quiser.
Todos se despediram com cumprimentos de mãos e beijos no rosto, até e estarem do lado de fora da casa, caminhando lado a lado em direção ao táxi à espera da mulher. Quando se deu conta do que o mesmo havia lhe ofertado, ao parar de frente para a porta do carro, ela levantou uma sobrancelha e se virou de lado para o encarar, quase batendo no corpo do rapaz que se preparava para abrir a porta do veículo para ela.
- Você me ofereceu uma carona. – ela disse, séria.
- Sim. Você negou. – ele a lembrou voltando o corpo para frente, levando a mão à maçaneta da porta.
- Você não pode dirigir, . – sem perceber, colocou a mão no braço dele, fazendo-o parar.
- Ótima observação, senhorita. – a respondeu com sarcasmo.
- Estou falando sério, . – ele foi obrigado a encarar o olhar sério dela. – Como me levaria embora?
- De táxi, oras. – o tom de voz do rapaz foi como se ele dissesse algo óbvio.
- E cadê ele que não estou vendo?
- Eu vou chamar, assim que você me deixar ser cavalheiro e abrir a porta para você. – ele parou por segundos, olhando-a nos olhos. – Não faço parte da estatística de homens que não sabem como tratar uma mulher. – completou.
o olhou por uns instantes e finalmente tirou a mão do braço dele, levou até a maçaneta e percebeu que a mão dele estava lá ao tocar nela. Não evitou pensar consigo mesma a quanto tempo os dois discutiam aquele assunto sem sentido. Ainda em seu pequeno transe pôde sentir o telefone tocar novamente em seu bolso, só podia ser o ex-noivo novamente.
- A porta está aberta, .
A voz de em seu ouvido foi como um sino para que acordasse. Ela alternou o olhar de seus olhos para a boca dele, em seguida deu em si mesma um estalo e disse:
- Entra aí. – entrou no veículo rapidamente e o observou pensar por instantes antes de entrar e fechar a porta do carro. – Vamos ao Hotel Salustiano primeiro, por favor. – olhou para o perfil de e depois desviou o olhar, em tempo dele se virar e fazer o mesmo, sem perceber que ela o observava primeiro.

Uma semana, sete dias. O tempo passou e logo já era mais uma segunda-feira. O caminho de pelos corredores do clube já era mais descontraído, havia interagido mais, conhecido mais. Todos os dias quando chegava os jogadores já estavam em círculo no campo ouvindo orientações do técnico, o caminho que fazia era um corredor que as paredes de vidro transparente viravam para o lado do campo de treinamento, então ela tinha a visão dos rapazes. E ao chegar na seção de fisioterapia já a esperava, fazendo os exercícios simples que conseguia sem auxílio.
As seções de fisioterapia eram descontraídas, de certo modo ela se sentia acolhida pelos diversos homens do clube, assim como pelas outras funcionárias também – que não eram muitas. sempre tinha uma piada sem graça e algumas infames, também tinha um elogio para sempre que sorria; não a desrespeitava de nenhuma maneira, sendo cavalheiro e educado, além de se dedicar a fazer as seções de fisioterapia pelo tempo que elas duravam. Os dois estavam se dando muito bem e ela se sentia mais à vontade a cada dia que passava – mesmo que fossem poucos.
Entretanto, naquela manhã estava diferente. Não haviam jogadores no campo, nenhum funcionário perambulando pelos corredores, nenhuma câmera da imprensa, nada. Enquanto caminhava em direção ao vestiário para deixar suas coisas e trocar sua roupa, chegou a consultar o relógio diversas vezes para ter a certeza de que estava no horário certo e nenhum minuto atrasada ou adiantada. E ela não estava. Foi quando, depois de sair do vestiário devidamente vestida, ao abrir a porta do enorme espaço da fisioterapia que descobriu o porquê do sumiço repentino dos jogadores e outros.
- SURPRESA!
Um coro de vozes masculinas, misturado com a pequena parcela das mulheres, soou em seus ouvidos. No espaço haviam vários balões vermelhos, azuis e brancos espalhados pelo chão; num canto mais afastado tinha algumas sacolas em cima de uma mesinha coberta por uma toalha cheia de desenhos representando a França. E bem em sua frente havia um segurando um bolo com uma vela de interrogação acesa enquanto cantavam parabéns para ela.
não pôde deixar de sorrir, mas obviamente antes de se mostrar feliz ela deixou sua perplexidade se sobressair. Apenas uma semana de Real Madrid e já estava recebendo uma festa surpresa de aniversário, lembrava de ter trocado esse tipo de informação durante uma de suas conversas animadas com , mas não chegou a cogitar esse tipo de coisa. Aliás, nunca havia recebido uma surpresa inesperada assim.
- Essa é a hora que você chega perto de mim e assopra a vela, . – sussurrou e a tirou dos pensamentos; reparou todo mundo olhando-a com expectativa e nem se tocou de que o parabéns havia cessado. – Que tal?
ergueu o bolo, reparando na face confusa de . Ela deu um passo e apagou a vela. Analisou mais uma vez toda a situação e sentiu falta de estar na França, dos seus pais, do seu quarto, do seu lar. Sua Paris cheia de luzes e uma torre maravilhosa, que dava para enxergar até mesmo de seu quarto. Sentiu falta de estar com os amigos depois do trabalho, de estar com Lucca, seu namorado que se tornara noivo. Ela sentiu tanto a falta que aqueles sete dias lhe deram, chegando a deixar lágrimas quietas rolarem seus olhos. se sentiu apertado e deu o bolo para qualquer um que ele não ligou quem ser, dando um passo cuidadoso para estar poucos centímetros de distância da fisioterapeuta, em seguida lhe deu um abraço não esperado pela mesma.
precisou de alguns segundos para raciocinar aquela aproximação, quando entendeu toda a situação acabou por se sentir bem. Sentiu o perfume do jogador entrar por suas narinas e fazer o efeito que estava virando rotina: deixá-la inebriada. Instintivamente ela passou os braços por volta da cintura de e retribuiu o abraço ouvindo-o lhe dizer no ouvido:
- Olha, se você não gostou da surpresa, me desculpa eu posso mandar todo mundo embora e a gente vai pra seção e finge que isso não aconteceu...
- Não! – exclamou se afastando do corpo dele, a contragosto, claro. – Eu gostei. – limpou o rosto e olhou para os outros presentes ali, dando passos à frente. – Gostei mesmo.
- Ah, que bom, . – Keylor saiu do meio dos jogadores e apareceu na frente dela, sorrindo e a abraçou. – Se você tivesse odiado eu colocaria toda a culpa no zagueiro, como foi o oposto, mereço todo o crédito.
soltou uma gargalhada gostosa e se soltou do abraço do goleiro.
- Ai gente... Eu não sei nem como agradecer. – colocou as mãos na cintura, uma de cada lado. – Fazem poucos dias que estou aqui, mas consigo me sentir em casa.
- Então nosso trabalho está sendo bem feito! – disse logo atrás de si.
Ela se virou para trás e sorriu para o rapaz que se apoiava em sua bengala. Por dentro de si ela desejava estar no meio daqueles braços de novo, era o conforto que eles ofereceram naqueles poucos segundos que a envolveram que foi o suficiente para lhe viciar. Também tinha o cheiro do perfume em sua camiseta; além de ser da altura do pescoço de , o que a prorporcionou o encaixe perfeito de seu rosto na curvatura daquela parte do corpo dele, a deixando sentir o cheiro de sua pele e a barba bem feita e lavada com loção.
Ao abrir a boca para pronunciar algo, seu celular começou a tocar, na tela o nome “Lucca” brilhava, com uma nova mensagem recebida. Imediatamente o peito da mulher se encheu de mais saudades. Olhou para frente e encarou o olhar confuso de . Decidiu que não iria abrir a mensagem naquele momento, fora o próprio quem decidira terminar o noivado. Guardou o celular novamente no bolso e soltou a respiração, sorrindo em seguida para o jogador em sua frente.
- Bom, eu quero muito comer esse bolo! – se virou e sorriu para os outros jogadores que faziam a maior festa com as bexigas espalhadas pelo chão. – E também quero abrir esses presentes!
Foi a coisa mais inusitada da sua vida perceber que estava se sentindo em casa, mesmo estando a quilômetros de distância e rodeada por pessoas ainda um pouco desconhecidas. sempre foi de querer ficar mais com a família do que terceiros de fora do círculo ligados por sangue. E enquanto saboreava aquele bolo abrindo as sacolas com lembrancinhas que remetiam-se à coisas turísticas da França, se sentiu tranquila da escolha que a levou para a Espanha.
- Ei.
Olhou para trás sorrindo ao reconhecer a voz de .
- Ei. – respondeu. – Obrigada. – agradeceu em seguida. – Por isso. – mais um sorriso.
- Não há o que agradecer. – outro sorriso, mas da outra extremidade. – Eu estava pensando... – coçou a cabeça, parecendo um pouco tímido, o que não passou despercebido por .
- É normal pensarmos, isso ajuda bastante em nossas vidas, . Digo, no lance de amadurecimento e tal.
Com o sarcasmo de ele pareceu se soltar mais, se sentindo mais à vontade. E após uma risada veio outro sorriso.
- Então, eu pensei que como presente de aniversário, poderia te dar a chance de perder para mim no FIFA18.
levou um tempo para assimilar o convite e após tamanha insistência do seu subconsciente, mas com um fundo de vontade consciente, ela respondeu, tentando usar toda sua seriedade:
- É bom você ter estruturas para ser derrotado. – manteve o olhar com a mesma intensidade. – E ter um Xbox para a gente jogar, porque não equipei meu quarto do hotel ainda...
- Relaxa, já providenciei minha revanche. – estreitou o olhar.
- Boa sorte... – ela o encarou da mesma fora. – Zagueiro.

Talvez deveria mesmo assumir que não era tão bom no videogame, assim como era em campo, porque perder para em quatro partidas seguidas não foi tão honroso enquanto ele se vangloriava ou dizia ser tão bom. Mas a verdade era de que ele queria aproveitar e ficar mais tempo com a mulher, fora do centro de treinamento do clube, mesmo que isso implicasse em suas habilidades de gamer.
tinha essa certa peculiaridade para ele, reservada demais até se sentir confortável e começar a se soltar e falar de coisas aleatórias também. Além de ser flexível a qualquer assunto. Fazia algum tempo que ele não encontrava alguém que o fizesse se sentir bem e querer conhecer a fundo, assim como ela o fazia se sentir.
E o mais interessante era que se sentia assim.
Todas as ligações de Lucca que foram ignoradas naqueles dias que se passaram, não lhe atingiram em nada. Não teve tempo de pensar sobre isso e nem para sentir saudade. O tempo que passou ao lado de era suficiente para lhe ocupar a cabeça.
Ao todo foram quinze dias necessários para isso. Muitas noites acordados jogando videogame, noites acordados falando por mensagem, noites acordados conversando por ligações. Foram noites acordados, jogando conversa fora e aproveitando a companhia um do outro. Até convencer a alugar um apartamento e sair do hotel, ela só aceitou porque o mesmo lhe ofereceu ajuda para escolher um.
Então após um total de vinte e cinco dias em Madri, encontrou uma maneira de recomeçar sua vida e se sentir em casa estando num país diferente. Dentro do carro com o zagueiro madrilenho ela se sentia animada e empolgada, segurava a mão dele de forma apertada.
- Você esteve animada assim nos outros dez apartamentos e nenhum deles foi do seu gosto.
resmungou, olhando pela janela para o lado de fora. Não reparou que o motorista soltou um suspiro de concordância, era por volta de seis da tarde e ele já estava exausto de rodar pelos bairros de classe média ou alta da cidade e não obter nenhum resultado positivo. Até o motorista havia entrado na busca incessante de um lar definitivo para .
- Ei! – ela soltou a mão dele rápido e cruzou os braços, virando de perfil. – Eu sou exigente porque quero ter conforto, já que vou arrumar um lugar definitivo, como você mesmo me impôs. – rolou os olhos tirando o cinto, já que estavam em frente ao enorme edifício a poucos minutos da casa de . – E a propósito, eu sinto que esse será o escolhido!
não evitou em rolar os olhos, desceu do carro sem dificuldades e caminhou atrás da mulher apressada. Ele não usava mais a bengala, as sessões de fisioteraria haviam diminuído e agora estava o preparando para voltar a treinar no gramado com o time normalmente.
Assim que viram os corretores da imobiliária no portão do lado de dentro do condomínio, apertaram os passos. Se apresentaram uns aos outros e os dois corretores os levaram até a parte de dentro mostrando todas as instalações no térreo do edifício. Para o lazer haviam duas piscinas, uma coberta e outra aberta, ambas com divisórias de profundidade para não correr o perigo de crianças se afogarem; uma sala de jogos enorme com muitas variedades, quadras esportivas multiuso para tênis, futebol, basquete e vôlei e uma academia com saunas; e um parque com brinquedos tradicionais em meio a uma área verde preservada. Para executivos havia um edifício com várias salas comerciais. Ao final deste tour eles foram guiados para dentro do edifício principal, usaram o elevador e chegaram ao quinto andar.
No hall havia apenas duas portas, deduziu que seria assim em todos os andares e gostou, significava um pouco mais de privacidade. Assim que a porta do apartamento foi aberta eles puderam apreciar o ambiente arrumado com uma decoração futurista e toda a tecnologia possível.
- Eu... – iniciou e, sem antes entrar, olhou para .
- Você...? – encorajou-a.
- É esse.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, se adiantou e entrou no apartamento, admirando cada canto e cada detalhe dele. A sacada que dava vista para uma praça vasta de verde, a cozinha espaçosa porém com móveis e utensílios o suficiente para estar equipada. A mesa de jantar de vidro com seis lugares. Os dois quartos de solteiro com uma decoração minimalista. Até encontrar a suíte que seria sua, com um closet espaçoso, uma cama king size, uma saída para a sacada que ligava com a da sala. Estava tudo perfeitamente em seu gosto.
- Então... – Soraya, a corretora, pigarreou atrás de ; ela queria fazer tudo o mais rápido possível para se vangloriar no trabalho e ir embora logo, uma vez que o relógio marcava poucos minutos para às seis da noite. Quando teve a atenção da fisioterapeuta para si, continuou: – O contrato vai ser no nome de qual de vocês dois?
, que conversava com o outro corretor alheio ao assunto das duas, olhou curioso para a risada engasgada de .
- O que foi? – se aproximou perguntando.
- Eu a perguntei no nome de quem vai ser o contrato, digo, vocês são um casal, não são?
ficou estático e olhou para que o encarava, se tornaria cômico se o véu dos dois caísse e um pudesse ver que ambos esperavam uma resposta um do outro, sendo negação ou afirmação. Para ela seria uma coisa nova e não haveria sequer cerimônia para negar, não podia mais negar que, mesmo em pouco tempo, não queria se manter para sempre na zona amiga dele. E , bom, nele faltava um pouco de coragem mesmo. Todavia, foi quem respondeu.
- Vai ser no meu nome, não é, amor? – o tom de sua voz na última palavra foi totalmente irônico, mas passou despercebido pelos corretores, que estavam mais preocupados com a cena carinhosa.
- Ohhh... – levou alguns segundos para entender, ainda mais com a proximidade dos corpos dos dois. – Sim, pode ser no seu, querida.

fechou a porta e virou para ver se jogando desajeitada no sofá, largando sua bolsa no chão. Analisou a moça, sentindo seu coração acelerar a cada detalhe que ele encontrava. Dois meses desde que ela estava em Madri, mas parecia que ela havia entrado em sua vida há muito mais tempo. Teve receio de que se afastassem quando as sessões de fisioterapia acabassem, porém a amizade que crescia entre os dois não fora nenhum pouco atingida. Depois do dia em que a levou por vários condomínios para escolher um lugar para morar definitivamente, pareceu fixar nele um porto seguro naquele lugar distante de casa. Quando pegou as chaves do apartamento, a moça decidiu que deveria pintar algumas paredes com sua cor favorita, verde. E é claro que usou da boa vontade de e alguns jogadores do clube, incluindo o goleiro Navas que veio a se tornar um tipo de irmão mais velho. Aquele dia havia sido divertido, depois de todo o trabalho que tiveram, os rapazes foram embora e ficou somente com . Ele a ajudou a arrumar um pouco da bagunça e logo após jogaram uma partida de Just Dance no videogame, a qual ela veio a descobrir que o rapaz possuía muita habilidade. Ao sentirem fome, decidiram sair para comer e logo em seguida voltaram para o mesmo lugar, dando origem àquela cena: admirando o exterior de , que se tornou melhor do que aparentava justamente por estar conhecendo mais dela, mais de seu interior.
- Ei, que tal se você me disser o que está pensando? – o chamou, levantando apenas o tronco para falar.
piscou algumas vezes e saiu do lugar lentamente, se sentou no sofá e a viu se aconchegar, colocando sua cabeça deitada em sua perna para esticar os pés para cima na outra extensão do móvel. Estalou a língua no céu da boca e fixou o olhar em direção à toda a bagunça em sua frente de móveis fora do lugar, por conta da parede estar secando a tinta ainda.
- Eu estava pensando o quão divertido tem sido passar os dias com você. – ousou apostar na verdade, mantendo o olhar no mesmo foco.
- Como assim?
Na verdade não era isso o que ela qureria dizer, mas foi o que o seu coração acelerado lhe liberou. Se sentou no sofá, ficando de frente com o perfil dele, que ainda encarava o mesmo ponto.
- Você entendeu bem, . – reforçou. – Eu estou começando a apreciar demais a sua presença... – virou o rosto para olhar os olhos brilhantes da moça. – Tenho medo dessa montanha russa.
- Montanha russa? – ela franziu o cenho, ainda dividindo o olhar com ele. Precisou de alguns segundos para se lembrar da trágica história do antigo relacionamento do rapaz. – Eu não sou um carrinho que vai sair dos trilhos, . – disse com a voz serena. – Se você quer saber, eu também sinto que sua presença é o melhor dos momentos aqui na Espanha... – sorriu minimamente.
continuou a olhar naqueles olhos brilhantes e serenos, sentiu seu peito apertar com a lembrava de Harper, sua ex-noiva. Havia sido traído, na cara dura, com direito à matéria de jornal e tudo o mais, tendo sua vida exposta de maneira absurda. Fora terrivelmente ferido naquele relacionamento que ele chamava de montanha russa descarrilada. Mas era um oposto de Harper, não merecia ser comparada à ela.
Era o sorriso, a pele, a paz, autonomia e, o que ele mais gostava, sua humildade de ser quem era sem ter o que tirar ou pôr para agradar. Ele estava se apaixonando por ela a cada segundo que passavam juntos, a cada ligação no meio da noite, cada história divertida ou trágica. Cada momento compartilhado ou até mesmo o silêncio, a ausência dela. A saudade que ficava quando ela não estava junto, aquilo o atingia de uma maneira ansiosa. A mensagem que ela respondia, os vídeos que mandava para ele de algo engraçado ou fazendo drama por, agora, morar sozinha, sem sua família para encher sua cabeça. Os momentos em que ela estava completamente exposta e lhe ligava chorando porque sentia falta de casa. Era tudo, era por inteira.
Para sentimentos podiam sim vir da noite para o dia, contanto que fossem sentidos de verdade e quando eram, não havia como não saber.
- Posso te beijar agora? – perguntou, umedecendo os lábios. Sentia um frio na espinha só de pensar em o fazer.
mordeu o lábio inferior e apenas concordou com a cabeça levemente, com os olhos arregalados – do jeito que, aprendeu ele, ela ficava quando estava ansiosa. Assim que os lábios se tocaram, o choque foi sentido. Estava feito: aquilo selaria uma história.

Durou quatro meses, apenas quatro meses de paz. Eles tinham um acordo: iriam fazer tudo aos poucos, até estarem em sintonia o suficiente para saírem juntos na rua e estivesse preparada para a quantia de holofotes que receberia. Alguns sites e fãs já postavam alguma coisa ou outra, mas não tinham convicção de nada. Eram apenas rumores, coisas do tipo em que acreditavam no relacionamento dos dois apenas porque não parava de fazer a mesma rota todos os dias depois do treino: a casa dela.
Infelizmente a ida ao supermercado naquele final de semana não fora tão agradável. Muitos flashes e fãs histéricas xingando-a e o resultado não pôde ser outro a não ser uma discussão sem fim, levando dizer coisas pesadas e se defender com coisas mais pesadas ainda. Ou seja, ela passou três dias naquele apartamento esperando ele ser o primeiro a dar o braço a torcer, visto que ela sabia não ser esse tipo de pessoa.

Infelizmente era orgulhosa demais, lá estava ela, deitada no chão do seu quarto com as pernas pra cima, apoiadas na cama, olhando para o teto. Pensando em que momento ela deveria usar de toda a sua humildade para ir atrás dele, assim como – o oposto – ele também deveria reconhecer o erro de suas palavras e antipatia ao perceber que ela não estava contente com toda a situação Fã-Paparazzi. Seu celular bem ao lado, no último volume para que ela não deixasse de ouvir caso ele ligasse. Assim como estava avisado na portaria do prédio que ele poderia entrar sem que ela fosse comunicada pelo interfone, queria extrema surpresa para caso ele aparecesse – era romântica, fazer o quê?
Assim que soltou o ar pesado de seu peito, ouviu o interfone tocar. Puxou os pés para baixo e se sentou no tapete, olhou para os lados e encarou o espelho em sua frente que ia até o chão, seu estado era deplorável. Usava uma camiseta de pijama vermelha de cetim com alcinhas e uma calça de flanela verde. Ao se levantar pegou o roupão de microfibras e o vestiu enquanto caminhava até o interfone que não parava de tocar.
Encarou na sala suas malas prontas para viagem, havia determinado que se não aparecesse, sua estadia em Madri acabaria. Não havia como ficar lá, trabalhar no clube e o ver todos os dias. Ela não saberia como lidar com aquilo.
- Sim? – disse mal-humorada colocando o aparelho no ouvido.
- Tem um rapaz chamado Lucca querendo subir, senhorita .
A voz do porteiro dizendo o nome de seu ex-noivo a fez tremer. De todas as pessoas no mundo, ela não esperava que Lucca aparecesse um dia em sua porta. Em outro país, vale-se ressaltar.
- P-pode mandar subir. – respondeu por fim e desligou.
Fitou seu reflexo na geladeira de aço inox, ainda deplorável. Ajeitou um pouco o cabelo, mesmo sabendo que não teria diferença, já que Lucca havia a visto até em seu pior estado de espírito. Caminhou até a porta e a abriu, esperando o rapaz sair logo do elevador. E não demorou muito para que isso acontecesse e o silêncio esmagador tomar conta dos dois, enquanto ela fazia um chá em sua cozinha de última geração – exigência do grande cozinheiro e, sabe-se lá se ainda era, namorado.
- Eu esperava te encontrar sorridente, arrrumada, refletindo toda sua alegria de viver na Espanha... – Lucca iniciou a quebra do silêncio. – O contrário... – pensou um pouco na escolha de palavras. – disso.
apoiou os braços no balcão, estava de costas para ele e de frente para a pia. Mordeu seu lábio superior e fechou os olhos por um instante, a imagem da falta que fazia fora completamente substituída pela falta que sentia de casa. Ao sair da França não havia nenhum planejamento de se envolver emocionalmente com um cara, ela estava focada em ser feliz com seu trabalho, aproveitar a solteirice – já que Lucca havia terminado o noivado – e depois de se estabilizar emocionalmente no país e se acostumar com a vida nova, aí sim pensaria em um relacionamento. Mas tudo foi atropelado por um flerte sem sentido com logo no primeiro dia dela e as coisas tomaram outro rumo.
- O que você tá fazendo aqui, Lucca? – perguntou se virando de braços cruzados.
- Estou de passagem. Sua mãe me deu o endereço, quis fazer uma surpresa. – ela levantou uma sobrancelha com a resposta dele, fazendo uma nota mental de ligar para sua mãe e lhe implorar que não fizesse mais isso. – Fique tranquila, vim como amigo. – ele concluiu.
- Minha mãe adora mesmo você. – deu de ombros e se direcionou a pegar as xícaras no armário. Deus, como sentia falta do braço comprido de para alcançar as coisas no alto.
- Vi sobre você e o jogador... – Lucca parecia não apreciar um bom silêncio. Ela revirou os olhos.
- Você e o mundo todo. – comentou irônica, colocando as xícaras em cima do balcão onde tomariam o chá. – Não quero falar sobre ele com você, ok? – o encarou séria.
- , eu não te entendo. – ela bufou e se virou para o fogão, pegando o bule e o levando para a superfície de granito. – Você não quis manter nada à distância... Impôs que ou eu viria com você ou estava acabado, porque queria ter paz. Quando dou por mim está saindo com um jogador de futebol que era seu paciente, algo antiético por sinal.
- Ele não era mais meu paciente quando iniciamos o namoro... – ela respondeu nervosa, se sentou no balcão e começou a encher as xícaras com açúcar. – E outra, aconteceu Lucca. Eu sinto muito se entre a gente foi aquele fim, mas aconteceu... – o olhou sincera.
- Me desculpa. – ele disse a vendo alcançar o bule para pôr o chá nas xícaras, porém ela tremia tanto que estava impossível. – Deixa eu te ajudar, você vai se quei... Aah!!
Tarde demais, Lucca estendeu a mão para simplesmente tentar puxar o bule e ver todo o líquido quente cair por cima da pedra, escorrendo boa parte para sua roupa e a dela. se levantou correndo e pegou um pano de prato para ajudar ele a se secar. Fora tudo rápido, até que ele estava somente de cueca em sua frente e ela sem camiseta, pois a sua também se molhara.
- Ai que droga! – esbravejou. Após o silêncio ele começou a rir e ela a chorar. – Lembra quando brigamos pela primeira vez? – ele fez que sim com a cabeça, se aproximando devagar. – Eu não fui atrás e se não fosse você ter me ligado, provavelmente nós não teríamos ido tão longe... então, se – um soluço de choro. – ele não me ligar em três dias eu volto correndo pro colo da minha mãe porque vai acontecer que – mais um soluço. – o cara que me faz sentir como se estivesse em casa nessa porcaria de país não estará mais comigo e eu sou fraca para fazer isso sozinha... – à essa altura estava com a respiração descompassada pela sentença sem vírgulas e o choro saindo como uma tempestade. – Eu não sei nem como tive a coragem de aceitar vir sozinha pra Espanha!
O primeiro instinto de Lucca foi abraçar a ex com força para que ela não se sentisse sozinha. E chorou o rio de lágrimas entalado que tinha para chorar de todos aqueles dias que fora esquecida por . Ela sempre fora ligada demais com a família e era verdadeira a dúvida que tinha sobre como teve coragem de ir para outro país sozinha e sem conhecer ninguém intimamente. tornara tudo mais fácil.
O choro foi cessando e se acalmou, finalmente conseguira tomar o chá e o seu rosto foi voltando ao normal. Até que ouviu o barulho de chave em sua porta. Olhou para Lucca que estava de braços cruzados em sua frente e saiu apressada para fora da cozinha, no mesmo instante viu fechar a porta e virar de frente para si.
- Me desculpa, eu fui um otário e não deveria ter demorado tanto para vir atrás de você. – ele disparou e a encarou por fim, franzindo o cenho para o modo como ela estava vestida e o encarava com pena. – Você não está sozinha, está? – sentiu o peito acelerar.
- Não. – ela fechou os olhos com força e deixou as lágrimas saírem, prevendo o que sucederia àquela resposta. – Lucca apareceu hoje aqui. – ele sabia quem era seu ex-noivo e se sentiu a pior pessoa do mundo ao ver o olhar de dor que ele lançava em sua direção. – Fiz um chá e acabei derramando em nossa roupa... ai, o resto você está vendo. – se explicou da melhor maneira que pôde.
- , você sabe que isso não é o suficiente. – ele afirmou olhando por cima do ombro dela, logo atrás havia algumas malas empilhadas. – Você simplesmente vai embora? Na primeira briga me trai e sai de fininho. Perfeito. – ele riu amargo.
não esperou que ele respirasse e pensasse na merda que havia lhe dito, apenas negou com a cabeça o vendo sair pela porta, batendo-a com força.
- Se você quiser eu posso ir falar com ele. – Lucca apareceu, havia sido esperto em não aparecer enquanto estava lá.
apenas negou com a cabeça e encarou as malas no canto da sala, aquelas seriam poucas. Teria de empacotar tudo e pagar a multa para a imobiliária por sair do apartamento antes do término de contrato. E pior, pediria demissão por e-mail.

Navas estava frustrado por não poder estar junto com a amiga naquele momento importante para ela, a sua despedida para voltar à seu país. Mas ele fez questão de lhe mandar um vídeo agradecendo pelos meses maravilhosos que teve o prazer de dividir com ela, garantindo também que havia conversado seriamente com , o fazendo ficar mais calmo. Prometeu que se ela um dia se sentisse menos ofendida pelo modo como o amigo a tratou, os dois pudessem conversar. Mas aceitou que aquele momento era fresco demais e os dois precisavam de um tempinho longe, pelo menos para a saudade fazer algum efeito positivo. Keylor também lhe garantiu que, caso fosse definitivo a sua demissão – uma vez que o clube decidiu lhe dar um tempo em casa, depois de longos meses fora e, também graças aos céus, não ter nenhum jogador precisando de cuidados específicos –, ele iria para a França em toda folga para que os dois pudessem se divetir juntos. Assim como a fez prometer que o visitaria também. Ele deixou claro que fora a conversa que teve com , não entraria no meio do casal, mas que achava que se fossem reatar, infelizmente aquilo teria que partir dela.
Era um tipo de mão dupla, foi atrás dela aquele dia. Demorou, mas foi. Infelizmente a situação era ridícula e tudo aquilo fora causado. Agora era a vez dela. Bem, ele demonstrou que se importava e passou pelo seu orgulho ferido por ela. Por que ela não faria o mesmo pelo menos uma vez em sua vida, sabendo que o motivo valeria a pena?
- Lucca, quais as chances de eu chegar no final do segundo tempo do jogo de hoje?
Lucca, que estava sentado desajeitado do seu lado respondendo algum e-mail importante em seu celular, a olhou por cima do ombro. Verificou o relógio do painel de voos em cima da cabeça dela e deu de ombros. Desceu o olhar para o celular da moça e viu a conversa dela com Navas aberta no aplicativo de mensagens.
- Você não está pensando em... – ele não completou.
- Seria inoportuno fazer isso por ele com sua ajuda? – ela perguntou receosa. Lucca olhou para frente e se ajeitou na cadeira.
- Você precisa de um carro. – respondeu. – Dá quase meia hora até o estádio do Real indo daqui. Levando em consideração o trânsito... – soltou a respiração. – Uns quarenta minutos e você chegar no final só do segundo tempo, se o juiz der algum acréscimo e não tiver prorrogação e nem nada, você ainda consegue ver o apito de fim de jogo, etc.
- Lucca... – sorriu se levantando. – Me desculpa por nunca ter feito isso por você, mas eu tenho que fazer por ele.
- Eu seria um idiota se tentasse te convencer do contrário, !
O ouvir a chamando pelo apelido carinhoso que ele lhe dera no início do namoro foi como se uma borboleta em seu estômago criasse vida própria. O sorriso de orelha a orelha ao abraçá-lo foi a melhor recompensa que Lucca tivera. Quando fora atrás de naquele final de semana, não imaginou que seria para pôr um fim definitivo na história deles, nem mesmo que a ajudaria a cruzar uma avenida com um carro lento, na expectativa de causar um momento super romântico para ela ficar com o novo cara do pedaço. Não imaginou nada disso, apenas queria fazer ela sorrir como sempre fizera e se aquele fosse o modo certo, ele o faria sem hesitar.
- Já falei com Andrea, falta cinco minutos para o jogo acabar e vai ser em tempo normal, com vitória do Real! – saiu do carro saltitante. – Ela está me esperando no portão da comissão, com o crachá de acesso e tal.
Lucca murmurou um ‘ok’ e olhou para ela, caminhando feliz em sua frente. Não se conteve e a puxou pelo braço, fazendo-a se virar e chocar seus corpos.
- Eu vou pegar o avião. Darei um jeito de mandar suas malas de volta, ok? – beijou a testa dela. – Faça com que esse carinha aqui – apontou para sua cabeça. – obedeça esse aqui. – desceu o dedo para a região do coração. – Se cuida, .
o abraçou e sorriu abertamente assim que se afastaram. Esperou que Lucca entrasse no carro e se virou para correr com toda a sua agilidade, havia desperdiçado dois minutos – de uma boa forma, aliás. Assim que encontrou com Andrea no portão, se sentiu pressionada. Colocou o colar no peito e correu mais um pouco até a saída para o gramado. O jogo havia acabado, a torcida estava eufórica e ela via os jogadores no meio do campo agradecendo uns aos outros. Procurou com o olhar e logo avistou sentindo seu coração pulsar mais.
- ! – ouviu Zidane exclamar seu nome e o largou para trás, caminhando sem olhar para os lados em direção ao seu único alvo.
Keylor estava ao lado de e olhou na direção dela sorrindo abertamente. Ele apenas deu dois tapinhas no ombro do amigo e se afastou. Ao que se aproximou e a viu, ele andou para outra direção, para sua decepção. Mas ela não desistiu, ouviu o que seu coração queria e fez seu corpo se mover até ele. Quando estava próxima novamente, disse sem rodeios:
- Olha, eu fiz besteira. – tentou desviar dela, mas foi mais rápida e o segurou pelo ombro.
- Você fez sua escolha. – ele respondeu rígido, querendo alcançar os colegas do outro lado do gramado para saudar a torcida.
- , me escuta! – disse alto, fazendo algumas pessoas ouvirem. Ele bufou e parou. – Eu... droga! – quando ele fez menção de voltar a andar, ela o acompanhou, parando em sua frente novamente. – Eu te amo... É! – olhou para cima e depois encarou os olhos do rapaz. – Talvez essa não seja a melhor frase hoje, mas é isso. É por isso que eu não peguei o avião. Eu prefiro trocar anos de um relacionamento para aproveitar essa montanha russa que é estar com você. – a esta altura milhares de paparazzi e pessoas da comissão técnica já estavam em volta dos dois, até os jogadores que voltavam da saudação à torcida. – Você me deixa sem ar... E eu gosto disso. – deu um passo à frente. – Olha, eu cometi erros, mas não vou embora da Espanha, não esta noite, porque eu vim aqui para te encontrar e dizer que você é tudo o que eu preciso do meu lado. Um silêncio se propagou em volta deles, no meio da cena. O peito de subia e descia com rapidez, ela estava sem fôlego e se sentia leve por desabafar tudo aquilo. E o medo da rejeição que sentiu quando entrou naquele campo, simplesmente sumiu quando o sorriso de invadiu seu campo de visão e seus lábios foram tomados pelo dele. Mesmo sendo levada para outra dimensão quando era beijada por ele, ela pôde ouvir as milhares de pessoas que lotavam o estádio, além de comemorar o título do time, comemorar aquele beijo com ela.




Fim.



Nota da autora: Ok, eu não sei como começar essa nota. Se isso fosse em vídeo vocês veriam minha cara de acabada, pois são 3h32 am, horário de Brasília. Sabem o que é levar um século para desenvolver uma fanfic? Então, lhes apresento One Love.
Enfim, eu tô muito feliz que terminei essa fanfic. Tive muitos problemas pessoais e achei que teria meu nome em lista negra do FFOBS por não conseguir entregar fanfic. Mas cá estou.
EU TERMINEI.
Quero agradecer à minha friend Karime, sem ela não teria sido possível e à Larissa, por ter uma imensa paciência comigo.
No mais e isso galera. Obrigada por lerem, é nóis.
Há mais trabalhos meus na minha página de autora: MayC.




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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