Finalizada em: 05/11/2018
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Capítulo Único

“A cegueira é a única arma contra o tempo e o espaço. Nossa existência é uma única, imensa cegueira, exceção feita às poucas coisas que nos são transmitidas por nossos míseros sentidos, míseros por sua índole e por seu alcance. O princípio dominante do cosmo é a cegueira. Ela permite a justaposição de coisas que seriam impossíveis se se vissem umas às outras. Possibilita a interseção do tempo onde este seria insuportável. (...) Para escaparmos do tempo, que é contínuo, há um só meio: fragmentá-lo para obtermos as parcelas que dele conhecemos.”
(Auto de Fé, por Elias Canetti)


A melodia suave do pequeno piano reverberava por todo o cômodo e as notas melancólicas de Sonata ao Luar se tornavam reconhecíveis à medida que deslizava a ponta dos dedos pelas teclas amareladas que começavam a descascar com o tempo e o descuido. Seus movimentos quase involuntários o levaram àquela composição de Beethoven sem que sequer percebesse. Como era uma das primeiras canções que aprendera quando criança, os movimentos apareciam com a espontaneidade de quem havia ensaiado aquelas notas por tardes inteiras e preenchiam sua mente vazia, mantendo-a ocupada quando os dias amanheciam como aquele, nublados de energias suspeitas e que lhe causavam certa ansiedade na boca do estômago. Se fosse supersticioso, diria que era sua intuição lhe alertando para algo que viria a seguir, mas apenas empurrava a sensação bem no fundo da mente enquanto a música o preenchia.
Em silêncio, se vestia enquanto o ouvia tocar e sorria para como aquela sonata lhe trazia lembranças curiosas de quando se conheceram. Ela o vira de longe um par de vezes antes de vê-lo tocar pela primeira vez, conduzindo com maestria o som do piano por vezes esquecido naquele bar quente e escuro em Itaewon. Seus olhos lampejaram zombaria assim que ouvira a introdução da música e sua língua afiada estava pronta para implicar com quem quer que estivesse tocando música clássica em um bar que cheirava cerveja barata e nicotina e que não contava, é claro, com um público que pudesse ser chamado de erudito. A cena que capturou ao se virar na direção contrária ao balcão vazio onde se apoiava, porém, fez com que a piadinha ficasse contida e desse lugar a uma espécie de deslumbramento que não lhe era comum. dificilmente demonstrava deslumbre para algo, mas naquela tarde de inverno, quando seus olhos caíram sobre o rapaz que tocava e sobre como seus ombros se moviam seguindo a melodia e acabavam por dispersar a fumaça que saía do cigarro pendurado em sua boca, sua expressão foi da zombaria ao deleite. Foi apenas a primeira vez que o viu tocar, mas logo soube que não queria que fosse a última.
não entendia nada sobre música clássica, exceto o que havia sido obrigada a ouvir nas aulas de música no colégio e nos desenhos animados antigos. Com o perdão aos cultos, ela preferia a linha musical que nascia na euforia do rock setentista e descansava no blues afro-americano. Tudo em sua juventude expressava isso, inclusive, desde a maquiagem bem marcada nos olhos e quase sempre borrada de uma forma charmosa às blusas com estampas de bandas cujos integrantes poderiam ser seus avós. percebeu muito bem isso naquela tarde em que se falaram pela primeira vez, quando sua silhueta fez sombra sobre ele ao piano e seus dedos compridos e delicados retiraram o cigarro de seus lábios, levando o filtro até a boca pintada por um batom vermelho vibrante. Ele não deixou de tocar quando ela deu a primeira tragada e não se incomodou quando ela brincou sobre aquela música não combinar com o ambiente. Quando o som cessou, perguntou o que ela sugeriria e a resposta de foi se sentar ao seu lado e tocar uma versão de Comfortably Numb tão bela quanto qualquer canção erudita que conhecia e ele nem mesmo gostava de Pink Floyd.
Havia sido um primeiro encontro formidável e tão forte como só a música poderia explicar. não sabia, mas enquanto o namorado ainda tocava, a mesma memória vinha à tona em sua mente e ele quase podia sentir o cheiro de coco de seus cabelos mais curtos balançando ao seu lado anos atrás. Quando ela se aproximou, porém, foi o cheiro de morango que o circundou, trazendo-o para o presente quando as mãos da mulher tocaram seus ombros tensos e a ponta de seus dedos apertou sua musculatura por cima da camisa. O cheiro não era mais o mesmo e seu toque era mais gentil do que costumava ser em seus primeiros anos juntos, quando prevalecia entre eles uma urgência rústica que tanto os satisfazia. Pouco restava daquele tempo, porque o amadurecimento era um amargar inevitável, mas nenhum dos dois resistia em se apegar às marcas de sua trajetória juntos, que se embolavam entre eles como um rolo de lã impossível de desatar. Entre ambos havia tanta bagunça quanto se podia notar à primeira vista e tal fato sempre fora um combustível aparentemente inesgotável, mas nenhum corpo resiste à ação do tempo e nem consegue viver como um hedonista para sempre. Era preciso cruzar uma linha de chegada.
– Vai sair? – perguntou alguns segundos após deixar de pressionar as teclas do piano, fazendo se sobressair apenas o ruído típico da cidade do lado de fora, virando-se para a mulher e a encaixando entre suas pernas ao puxar sua cintura com as mãos.
sorriu antes de responder, envolvendo o pescoço do homem com os braços. Seu tronco nu, coberto apenas pelo sutiã branco, deixava à mostra cada pedacinho que conhecia como ninguém, desde os pequenos sinais até as tatuagens minimalistas espalhadas, rabiscos feitos sem muita ponderação por parte dela, mas que o divertiam quando precisamente passava os dedos por eles. Do desenho da pequena baleia na lateral esquerda do corpo, às duas figuras geométricas sobrepostas no antebraço e ao Lover, Leaver escrito bem abaixo do seio direito. Suas preferidas eram um foguete indo em direção à Saturno – um desenho em cada pulso, que faziam um par charmoso quando ela juntava os antebraços – e foram feitas em Hong Kong quando tocaram juntos em um festival para músicos amadores no verão mais quente de seus vinte anos.
– É meu dia de voluntária no abrigo. – respondeu ao levar as mãos para os cabelos dele, deixando sua testa à mostra aos afastar as mechas lisas e naturalmente macias.
O rolar de olhos de era esperado, por isso apenas riu antes de sair de seu abraço e continuar a se vestir, pegando a camisa sobre a cama logo em seguida. Há poucos meses a mulher havia começado a participar ativamente das atividades de um abrigo para jovens em situação de vulnerabilidade em Mapo, distrito vizinho ao que moravam. Estavam há quase cinco meses sem notícias de e quando ela cansou de procurar pelos vários lugares que recebiam jovens em situação de rua em Seul, acabou se envolvendo com o trabalho voluntário que faziam nesses espaços e passou a usar sua arte como ferramenta de auxílio para quem precisava de um pouco de acalento. Música podia ser terapia.
torceu o nariz desde o início. Não estava acostumado a fazer caridade e muito menos , mas desde a entrada de em suas vidas a mulher havia se fechado em uma fantasia que ele não sabia como desmontar. Os dois não eram os melhores exemplos a serem seguidos. Tinham históricos familiares nada saudáveis e precisaram aprender na marra como sobreviver funcionava e por diversas vezes isso significava ir contra muitas normas morais e legais, por diversas vezes isso significava não ser bom e nem boa. Por diversas vezes isso significava pensar apenas em si mesmo para não ser aniquilado pelo mundo e suas giradas cruéis.
Quando suas vidas se cruzaram há cinco anos, foi como se tivessem encontrado um escape e uma possibilidade de traçar caminhos menos perigosos, mas não era como se tivessem muita escolha. Algumas histórias não são para serem contadas somente com cenas felizes e sabia disso desde o início. Deixara que entrasse em sua vida ainda assim, porque apesar das aparências, os dois eram mais parecidos do que gostariam de admitir. Foi a primeira vez que ele se permitiu cuidar de alguém e foi a primeira vez que deixou que alguém cuidasse dele. Esse deveria ter sido o ponto de chegada para ambos, mas desenhou outro quilômetros à frente e eles não souberam lidar com isso depois.
– Você deveria ficar aqui e me ajudar na música inacabada. – sua voz soou como um resmungo entediado, o que a fez rir novamente – Tô um pouco travado e a gente deveria ter alguma coisa nova para as próximas apresentações. – concluiu, preguiçosamente esticando as mãos para alcançar a carteira de cigarros e o isqueiro escondidos por entre os papéis das partituras.
Eles se apresentavam junto com um amigo baterista às sextas e sábados alternadamente, no mesmo bar onde se conheceram. Dongjoo, o simpático e jovial dono do lugar, era o irmão mais novo do antigo professor de piano de e foi quem mais o ajudou assim que o então jovem rapaz chegou a Seul sem grandes perspectivas e continuava ajudando o casal dando-lhes um emprego fixo. Sempre que conseguiam, faziam apresentações em outros lugares, mas não era nada muito grandioso. Viviam da música com o que ela podia lhes oferecer de volta e costumava ser o suficiente.
– Ajudo você quando chegar. No início da tarde vou estar aqui. – respondeu, virando-se para ele e o encontrando prestes a acender o cigarro que já levara à boca – Ei! – deu dois passos em sua direção, roubando-lhe o isqueiro – Combinamos que iríamos parar!
Você combinou. – seus olhos entediados deixavam explícito que ele não achava nenhuma graça naquilo, mas o riso que escapou de seus lábios quando ela pegou uma caneta qualquer e escreveu suas iniciais no isqueiro antes de levá-lo consigo mostrou que ele não estava realmente bravo – Deixe de ser tão sem graça, . – pediu, ainda rindo um pouco.
A mulher, que pegava o violão e começava a afiná-lo sentada ao chão, deu de ombros de costas para ele. Tinha plena certeza que estava fazendo o que era certo. Não estavam ficando mais jovens. Não podiam continuar vivendo a mesma vida ferrada de sempre. Alguns cuidados tinham que começar a tomar e queria ser pessoa que começaria a dar esses passos, eles precisavam disso ou o final da linha seria apenas um abismo.
– Ocupe a boca com outra coisa. – resmungou de volta, levantando-se para colocar o violão na capa.
– Com o quê exatamente? – foi a vez dela rolar os olhos com o tom insinuante na voz dele, então enfiou a mão na mochila e retirou um pequeno pacote de doces que estava ali esquecido há dias.
– Divirta-se! – ela jogou o saquinho com três pirulitos em sua direção, fazendo-o agarrá-lo por reflexo – Vejo você mais tarde! – aproximou-se dele novamente e uniu seus lábios em um beijo curto, mas não deixou que ela se afastasse tão rápido, segurando-a pela cintura antes de falar.
– Não demore – ele fez bico, fazendo-a gargalhar por quanto aquilo combinava com suas bochechas altas –, ou então vou ligar pra você sem parar.
A mulher apenas rolou os olhos e caminhou para longe de seus braços.
– Você é tão chato! – cantarolou, já abrindo a porta.
– Você também, meu amor! – respondeu, mas a porta bateu no mesmo instante, fazendo-o rir novamente antes de levantar para se jogar na cama e dormir até que a fome o acordasse.

[...]


O caminho conhecido até a parte sul de Mapo normalmente era feito parte de metrô e parte de ônibus. O clima agradável de fim de primavera deixava de bom humor e ela aproveitava o percurso do ônibus para rabiscar em seu caderno de desenhos enquanto um rock japonês saía alto de seus fones de ouvido, possivelmente deixando algum ruído escapar e fazendo o engravatado ao seu lado torcer o nariz enquanto direcionava olhares incomodados em sua direção. Contendo o riso pela diversão juvenil de incomodar, esforçou-se para se concentrar nos traços sobre o papel, onde surgia uma silhueta feminina segurando uma guitarra double neck.
Suas ilustrações eram uma distração divertida desde a infância e apesar de sua professora de artes da escola secundária ter dito que tinha talento, sempre deu mais atenção à música. Aos doze, tudo o que ela queria era ser uma cantora de punk rock e honrar a voz rasgada que a genética lhe dera. Há alguns anos, porém, havia lhe convencido a dar mais atenção ao desenho e a mulher começou a se aventurar pelas ilustrações digitais e o que era um hobby se tornou mais uma pequena fonte de renda. Tinha uma parceria vantajosa com uma loja de camisetas de Hodong e passou a fazer muitos dos cartazes de anúncios do bar de Dongjoo, o que lhe abriu portas para outros trabalhos como freelancer, que eram sempre muito bem vindos na vida quase itinerante que levava com o namorado. Os dois tinham aprendido a usar suas pequenas paixões ao seu favor, porque ainda que não desejassem coisas grandiosas, o mundo ainda os obrigava a fazer esforços por dinheiro.
Sorriu para a forma despojada que o rabisco tomava e em seguida percebeu que estava perto do ponto onde deveria descer. Guardou na mochila o que levava no colo e se levantou para passar por entre as pessoas com o violão nas costas. O curto caminho do ponto até o abrigo era feito a passos largos, mas sem pressa. Havia se acostumado a passos rápidos e desconfiados e a olhares atentos antes, mas fazia o possível para se policiar a desacelerar. Tinha vivido sua juventude até ali com tanta pressa que às vezes suas lembranças pareciam borrões sem sentido e o que ela mais queria com quase três décadas de vida era poder pintar um cenário menos caótico e não cometer os mesmos erros de antes. Era a parte doce de amadurecer.
– Que bom que veio hoje, ! – Jihyo, uma assistente social que tinha quase a sua idade, a cumprimentou na recepção – O jardim é todo seu a partir das dez.
– Como vai, Jihyo? – perguntou, apoiando-se no balcão de frente para a mulher, que sorria – Você vai poder assistir? Prometo que hoje canto Wanna One em sua homenagem! – piscou, mas a mulher apenas gargalhou, colocando as mãos nos bolsos do jaleco, meio envergonhada por deixar seu vício por boygroups vencedores de reality shows audível para qualquer um na recepção.
– Duvido que saiba alguma... – respondeu, fazendo a outra soltar um riso rápido.
– Eu aprendi! – assegurou – Achei uma que é até boa... – desdenhou por implicância, o que gerou um protesto instantâneo e não conteve a gargalhada – Tenho que agradar meu público, sabe como é. – respondeu por fim, acenando antes de adentrar ao local até a direção, onde esperaria até que pudesse participar da dinâmica musical com os abrigados.
Os responsáveis pelo abrigo se esforçavam ao máximo para manter o lugar como um lar para aqueles que não tinham um e ainda que as verbas públicas não fossem o suficiente para o que seria o ideal, era inegável a melhora da qualidade de vida de uma grande porcentagem dos que passavam por ali. Além de um espaço provisório para moradia, contavam com os atendimentos psicossociais, médicos e de orientação acadêmica e trabalhista, como uma espécie de pacote completo para uma inserção mais saudável, segura e auto suficiente na ainda tão desigual sociedade sul-coreana. A maioria dos jovens que necessitavam do serviço tinham um histórico muito parecido: uma desestruturação familiar – fosse por violência, abuso de álcool ou desemprego, por exemplo – que os levava a desatar os nós com seu agrupamento parental e encarar a realidade nada gentil das ruas, que os empurrava para meios de sobrevivência que dilacera e anula existências. O abrigo em Mapo recebia indivíduos com vidas sem valor aparente, que foram descartadas em algum momento por quem deveria lhes prover – fosse a figura da família ou do Estado, quase sempre um como causa e consequência do outro – e uma dessas pessoas era .
O acesso venoso para a infusão do soro o incomodava um pouco no dorso de sua mão, mas o jovem rapaz procurava se distrair com a caricatura que tentava fazer da psicóloga que o atendia todas as terças. Queria poder dar o desenho de presente para ela na próxima semana, quando faria aniversário, mas estava com um pouco de dificuldade em decidir se desenhava os lábios simples ou se tentava um sorriso aberto onde pudesse mostrar sua principal característica: o adorável espaço entre seus dentes da frente. Se estivesse ali, certamente lhe diria para decidir pela segunda opção, afinal, em uma caricatura você deve exaltar características marcantes ou estará fazendo errado.
O simples fato da mulher passar por seu pensamento fez com que um calafrio varresse o corpo ainda debilitado de . Seus olhos se fecharam de súbito e ele os apertou ao que levou a mão que segurava o lápis até a testa, onde bateu algumas vezes tentando não ficar atordoado, mas era impossível. Pensar nela fazia com que um turbilhão de sentimentos confusos e doloridos tomassem conta dele e havia certa mágoa, o que fazia a melhor opção ser esquecer ao invés de ficar à beira de mais um ataque de pânico. Respirou fundo algumas vezes, contando os segundos entre a inspiração e a expiração até que pudesse esvaziar sua mente dos seus melhores e piores momentos.
tinha vivido alguns infernos antes do final do último verão. Perder a mãe para o câncer e ser obrigado a morar com parentes que sequer vira mais do que duas vezes na vida parecia ser o limite das dores que viria a sofrer até os maus tratos e as agressões do tio começarem. A ação impensada e desesperada de fugir parecia muito sensata para ele naquele momento, mas não seria nada fácil para um jovem que havia acabado de completar dezoito anos sair e ganhar as ruas sem nada para se proteger.
No dia em que conheceu e havia conseguido dinheiro suficiente para pagar mais de uma noite de estadia em um daqueles cubículos disponíveis no subúrbio da cidade ao passar toda a manhã carregando caixas no mercado de peixe, mas como o azar parecia ser sua sombra, havia esbarrado em um grupo de encrenqueiros na rua do comércio e no desespero de tentar resistir ao roubo, acabou sendo espancado sem qualquer chance de defesa. Ainda se lembrava exatamente do que havia dito quando os socos e chutes cessaram e sua primeira visão ao abrir os olhos foram as botas molhadas de . Os quatro caras fugiram contrariados quando a mulher os ameaçou com um canivete, mas tinham levado todo o seu dinheiro e ao perceber isso caiu no choro como uma criança assustada que precisaria passar mais uma noite na rua.
– Levante daí ou vai se molhar inteiro e aposto que você não tem um casaco pra trocar. – havia recomendado, reparando nas poças d’água na calçada irregular onde o garoto estava encolhido e fungando – Vem, vamos te pagar um jantar e te ajudar com os machucados.
Havia sido a primeira vez desde a morte de sua mãe que tinha recebido algum cuidado e sorrisos acolhedores. Sentou à mesa de um restaurante de comida caseira com os dois e cuidou de seus ferimentos na calçada da farmácia mais próxima. achava que tinha encontrado pessoas em que podia confiar e quando os dois o acolheram em sua casa, achava que podia ter encontrado um novo lar. Quão doloroso foi descobrir que estava errado.
– Ei! – arrastou a porta do quarto e entrou sem se anunciar, como sempre, assustando o amigo que estava perdido em pensamentos – O que você está fazendo aqui que ainda não saiu? – perguntou ao fazer uma careta contrariada e arrancar um sorriso fraco dele por ser sempre tão fofa – O clima está ótimo! Não quer desenhar lá fora? – sorriu ao se sentar ao seu lado na cama e espiar seu desenho.
A jovem garota o incentivou, encostando seu ombro no dele e batendo seus cílios uns nos outros em uma tentativa muito acertada de agir docemente. Não que precisasse de qualquer esforço. era adorável e sua companhia era o que tinha de melhor desde que havia sido transferido do abrigo do outro lado da cidade para aquele em Mapo, há apenas duas semanas. Estava tentando passar despercebido e recluso como estava fazendo no outro local, mas o havia parado no meio do corredor em seu terceiro dia por lá, perguntando se ele não queria lhe acompanhar em uma partida de xadrez. não sabia jogar xadrez, mas tinha todo o tempo do mundo para lhe ensinar.
– Me ajuda com o soro? – perguntou ao aceitar sua proposta, fazendo-a pular da cama para pegar a muleta e dar a ele, ajudando-o a segurá-la enquanto se apoiava ao suporte do soro e começava a arrastá-lo para a porta.
O jardim lateral era o lugar favorito de por ali. Ela adorava as flores e o verde bonito da grama. Ao lado de , que ainda desenhava e se mantinha absorto na música que saía nos fones de ouvido que pegara emprestado, a garota apreciava a brisa fresca da manhã e acompanhou com um sorriso enquanto algumas pessoas se acomodavam nas cadeiras mais a frente, provavelmente para assistirem alguma dinâmica com algum voluntário. Soube que estava certa quando uma mulher apareceu com um violão e a reconheceu de outros dias por ali. Quando ela começou a cantar, porém, arregalou levemente os olhos, surpresa para como sua voz soava tão profunda e empurrou o amigo ao seu lado, retirando os fones para que ele ouvisse a música ao vivo.
– Ei, escuta só! – retirou a atenção do desenho, mas demorou a focar no que a amiga queria – Ela é muito boa! – continuava impressionada e sorria ao movimentar a cabeça no ritmo da música, que parecia combinar muito com o verão que estava prestes a chegar.
Foi como se um chiado se instalasse em sua cabeça no momento em que reconheceu aquela voz. Seus olhos se apertaram para enxergá-la àquela distância considerável e seu coração golpeou seu peito com vigor quando teve certeza de quem era. Seus cabelos não estavam mais tingidos e ela deveria estar os deixando crescer porque pareciam enormes, mas seus ombros, porém, ainda se moviam da mesma forma quando atingia uma nota mais alta.
estremeceu ao lado de e quando a garota virou para ele, seu sorriso se desfez de pronto, percebendo que ele ficara pálido e seus olhos pareciam opacos e quase amedrontados.
– chamou, tocando em seu pulso com cuidado –, o que aconteceu? Fale comigo. Olhe pra mim. – continuou, mas ele ainda olhava apenas na mesma direção – Você precisa respirar. Ei! – angustiada, o forçou a lhe olhar, pegando em seu queixo – O que houve? Você a conhece? – o rapaz apenas moveu a cabeça em afirmação e a amiga olhou novamente na direção da mulher quando o ouviu falar.
– É por causa dela que estou aqui.
tocava a versão acústica que fizera de uma música do boygroup favorito de Jihyo e concentrava-se para não rir ao ver a mulher de pé ao canto, cantarolando toda a letra como quem havia escutado a versão original milhares de vezes. Apesar da letra piegas e dos arranjos simples, era uma música gostosa de ouvir e estava se divertindo tocando e percebeu que sua pequena plateia igualmente se agradava, já que quando parou de cantar e tocar, todos aplaudiram calorosamente, fazendo com que ela sorrisse e se curvasse em agradecimento.
– Vocês gostaram? – perguntou ao microfone, recebendo respostas positivas em meio a uivos animados – Muito bem! Essa música foi especialmente para a Dra. Jihyo e parece que ela gostou também, não acham? – apontou para a mulher que abanou as mãos, envergonhada.
Estava prestes a continuar a brincadeira quando seus olhos se ergueram para o fundo do jardim, onde um rapaz estava ao lado de uma garota e era guiado por uma das funcionárias para dentro. Algo despencou em seu estômago quando ela reconheceu aquele perfil e suas mãos tremeram ao que teve certeza que era ele mesmo, a alguns passos dela depois de tanto tempo. Vivo e seguro. O suspiro que soltou, no entanto, não era totalmente de alívio, era um suspiro entrecortado de quem se esforçava para respirar ao encontrar aquele a que ela tanto queria pedir perdão.
Tentou chamá-lo, mas sua voz falhou a ponto de quase não ser audível. Retirou a alça do violão do ombro e apoiou o instrumento no banco atrás de si, meio desnorteada, fazendo com que os que a assistiam ficassem confusos.
? – Jihyo a chamou, fazendo com que ela sorrisse meio nervosa e secasse na calça escura o suor que brotou em suas mãos – O que aconteceu?
– Desculpem, pessoal. – ela falou ao microfone, curvando-se – Preciso falar com alguém e é urgente.
Dito isso, saiu apressada por entre as cadeiras na direção por onde tinha sumido. Precisava falar com ele. Ele estava ali aquele tempo todo? Estava bem? Havia lhe visto? Tinha tantas perguntas! Queria tanto abraçá-lo! Quando chegou à porta que ligava o fundo do jardim, porém, uma das enfermeiras não a deixou entrar, bloqueando a passagem.
– O que você procura aqui, senhorita?
– Senhora, por favor – ela se curvou, juntando as mãos para implorar –, preciso falar com o rapaz que passou por aqui agora pouco.
– Você não pode.
Os olhos confusos de fitaram o olhar duro da mulher à sua frente e ela não precisou insistir para que a mulher continuasse a falar.
– Ele não está bem agora e vai ser medicado. A senhorita o conhece de onde? – perguntou, cruzando os braços ao analisá-la.
engoliu em seco, sentindo seu coração acelerado. Só precisava falar com ele.
– E-ele viveu comigo e meu namorado por um tempo – tentou explicar, gaguejando um pouco –, nós o abrigamos até que-
! – Jihyo apareceu ao seu lado, a interrompendo – O que está acontecendo? – perguntou, verdadeiramente confusa pela mulher ter parado sua apresentação tão inesperadamente.
– Jihyo – a outra virou para ela, angústia brilhando em seus olhos –, ele está aqui. O amigo que contei pra você, lembra? O que eu procurava.
Um suspiro de compreensão saiu por entre os lábios da assistente social e olhando para a enfermeira que continuava na porta, soube que não era uma boa hora para o que queria.
– Temo que não seja uma boa hora para falar com ele, . Ele está sob cuidados agora. – segurou nos pulsos da mulher, tentando guiá-la para outro caminho – Por que não vem comigo e se acalma? Ele estará bem quando for medicado. – lançou um olhar como quem dizia “vou cuidar disso” para a colega enfermeira e seguiu com para sua sala.
A assistente social a convenceu a voltar para casa, tentar visitar no dia seguinte e tentar uma reaproximação lenta, dizendo que ele provavelmente entrara em choque quando a viu, já que um reencontro dos dois certamente desencadearia uma revisão da última vez que se viram, o que provavelmente era um pouco traumático para ele. Aceitando a proposta, se despediu, ainda um tanto nervosa, e no caminho mandou uma mensagem para , sem ter certeza sobre como ele reagiria àquilo.

Eu o encontrei. está no abrigo em Mapo.
Enviada às 10:35am

quase caiu da cama ao ver o conteúdo da mensagem da namorada. Leu e releu diversas vezes para ter certeza que não estava ficando maluco, mas era real, o que fez com que engolisse em seco e se movesse desconfortável sobre o colchão. Não sabia muito bem como estava se sentindo, mas sabia exatamente como estaria quando entrasse pela porta do pequeno apartamento deles e respirou fundo quando ouviu o barulho do destrave do alarme que a anunciava.
Ao entrar, deixou o violão e a mochila ao lado do piano e parou diante do namorado, que estava sentado na beirada da cama com cabeça abaixada, fitando o chão. A mulher esperou que ele dissesse algo, fizesse alguma pergunta, mas permaneceu em silêncio e sequer a encarava, fazendo com que ela soltasse um riso entristecido. Deveria imaginar que ele não ficaria exatamente feliz e que provavelmente voltaria a dizer as mesmas coisas que dizia quando entrou em suas vidas há quase um ano.
– Você não vai dizer nada, então? – sentiu-se patética por sua voz soar tão decepcionada – Não quer nem saber o que aconteceu ou se ele está bem?
começou, mas seu tom de voz já mostrava o rumo que aquela conversa iria seguir –, honestamente eu gostaria que a gente deixasse isso pra trás. Fico aliviado que ele está em segurança, em um lugar onde vão cuidar dele, mas-
– Mas, o quê? – interrompeu-o – Por que você continua fazendo isso, porra?! Se forçando a agir como um cretino? , você nã-
– Não sou um cretino? – foi a vez dele cortá-la, olhando-a pela primeira vez desde que ela chegara, notando em seus olhos que ela havia chorado um pouco – É o que você iria dizer? Tem certeza que não quer reconsiderar?
riu novamente, virando de costas para ele e colocando as mãos em sua cintura, buscando um pouco de paciência para lidar com aquela parte tão difícil do homem que amava.
– Cometemos erros, . Fizemos muita merda, inclusive com esse garoto. Você não acha que devemos consertar isso? – indagou, virando-se para ele de novo.
– Não podemos voltar no tempo e você sabe que tudo o que fizemos até aqui foi pra sobrevivermos. Foi como aprendemos. – ele deu de ombros, largando o celular na cama para esfregar os dedos uns nos outros. Precisava muito de um cigarro.
– Eu sei disso – respondeu firme –, mas nunca é tarde pra fazer as coisas do jeito certo. Eu sei que preciso me desculpar com o e vou fazer isso. Talvez ele ainda precise de ajuda.
O riso de a incomodou, mas a mulher permaneceu calada, esperando que ele continuasse a falar.
– Por que você continua fazendo isso? – repetiu sua pergunta de propósito, mudando a ênfase e fazendo com que ela voltasse a olhar em seus olhos – Essa coisa de certo e errado, ... Você sabe que essa porra não existe. É por isso que você fica carregando essa culpa por ter se protegido quando deixou o pra trás.
suspirou, um tanto contrariado, a segurou pelas coxas e a trouxe para perto de si, encaixando-a entre as suas pernas antes de segurar seu rosto com carinho, olhando em seus olhos com firmeza.
– Você cuidou de si mesma, . Está fazendo isso há muito tempo porque é o que deve ser feito. – deslizou uma das mãos para sua nuca e continuou a falar, abaixando a voz – O mundo é uma merda e a culpa não é nossa. A gente só sobrevive e pelo visto aprendeu a sobreviver também. É a única boa lição que poderíamos ter dado pra ele.
A mulher assentiu. Sabia que para eles aquilo fazia muito sentido porque era como viviam, mas não queria mais isso. Queria que fizessem as coisas de um jeito diferente. Estavam melhores agora, mais velhos e vividos, tinham grana, tinham a música, tinham um ao outro. Por que não podiam ter um final feliz diferente?


“Baby, the ups and downs are worth it
(Querido, os altos e baixos valem a pena)
Long way to go, but we'll work it
(Há um longo caminho para percorrer, mas vamos trabalhar nisso)
We're flawed but we're still perfect for each other
(Nós falhamos, mas ainda somos perfeitos um para o outro)”

(LOVEHAPPY, por The Carters)


[NOVE MESES ANTES]

A temperatura havia diminuído consideravelmente com o cair da noite, mas nem mesmo o início das baixas temperaturas do outono os desencorajava a desfrutar daquele momento íntimo. Os mamilos ainda rígidos de roçavam com delicadeza pelo tronco nu de enquanto ela pairava sobre ele para alcançar a carteira de Marlboro e o isqueiro na prateleira acima da cama. Abaixo dela, o rapaz apreciava seu corpo bonito e levemente marcado pela diversão anterior, o que o fazia sorrir preguiçosamente.
– O quê? – perguntou, sorrindo para como ele era ainda mais lindo quando esticava os lábios daquele jeito. Definitivamente deveria sorrir mais.
– Você é absurdamente linda, sabia? – passou os dedos pelos cabelos desgrenhados dela, arrumando-os para atrás das orelhas para que pudesse ver seu rosto sem impedimentos.
– Eu sei – ele riu quando ela respondeu, sedutoramente pretensiosa, e a mulher se inclinou para beijar seus lábios por um instante antes de continuar –, seus olhos não me deixam esquecer nem por um momento sequer. – piscou, apoiando-se nos cotovelos para levar o cigarro até a boca e acendê-lo com o isqueiro, ainda com o corpo sobre o dele.
O filtro ao redor de sua boca ainda manchada pelo batom vermelho era como uma pintura das mais lindas e a forma como seus olhos se fecharam durante a tragada fez com que sorrisse novamente. Ele passou suas mãos pelas laterais do corpo dela bem devagar, percorrendo suas curvas como quem passeia por um caminho já muito conhecido e descansou-as em sua lombar enquanto ainda a apreciava de perto.
– E se quer saber – continuou ao expelir a fumaça para cima levemente –, você também é a coisa mais linda e gostosa em que eu já tive o prazer de colocar as mãos.
riu e aceitou quando compartilhou o cigarro com ele, deixando-o entre seus lábios para que ele pudesse sugar a nicotina. Descansando a cabeça no travesseiro, ele expeliu a fumaça preguiçosamente e passou a mover os dedos da mão livre por entre os cabelos dela, que deitou a cabeça em seu peito enquanto voltava a se abraçar ao corpo quente do namorado.
A forma como se encaixavam era especialmente maravilhosa para . Como se sentia livre daquele jeito, com cada pedacinho de pele sua colada a dele, ouvindo seu coração bater e sentindo seus dedos deixarem rastros de carinho – agora despretensiosos –, por onde passavam. Havia liberdade viva na forma em que se amavam, sem amarras e sem moldes românticos, só o amor que emanava de seus poros e se fazia matéria quando seus corpos se deleitavam um do outro como tinham acabado de fazer. Amá-lo daquela forma e ser amada na mesma intensidade era o que de mais precioso possuía em sua vida nada pacata e nada correta. Até naquilo eram iguais e perfeitos, mesmo com todos os percalços e com o tempo que levaram até que soubessem lidar um com o outro: eram duas almas irregulares, lutando contra um mundo hostil e cheio de gente que era de mentira. Eles eram reais, transgressores e suas desobediências eram suas mais honrosas medalhas.
– Você não se sente aliviado por estarmos bem como estamos agora? – ela perguntou, em um devaneio sem muita deliberação, encarando a bancada da cozinha do pequeno apartamento de dois cômodos em que viviam.
– O que você quer dizer? – esticou o braço para alcançar o cinzeiro ao lado da cama e apagou o cigarro ali.
– Quanto tempo faz desde que não nos metemos em encrenca por causa de dinheiro? – perguntou, rindo de forma melancólica ao lembrar das diversas vezes em que precisou furtar alguma loja de conveniência para poder ter o que comer ou que juntos deram golpe em alguns senhores e senhoras mais velhos em cassinos irregulares – Se olharmos pra uns dois anos atrás, estamos bem pra caralho. – riu novamente, erguendo a cabeça e apoiando o queixo no peito dele para que pudesse olhá-lo.
a acompanhou na risada, balançando a cabeça em afirmação. De fato, estavam há um bom tempo sem encrencas, sem ninguém os ameaçando por dívidas e o melhor de tudo, há muito tempo sem precisar correr da polícia. Ele detestava correr.
– Realmente – concordou, expelindo o resto da fumaça –, não sinto falta alguma disso, mas também não comemore nada – advertiu em tom de brincadeira, fazendo com que a mulher forjasse uma careta –, não é como se tivéssemos uma vida estável pra se orgulhar. E nem queremos, não é? – riu novamente, fechando os olhos e se sentindo sonolento com o calor do corpo dela o distraindo do frio.
, no entanto, ficou pensativa. Eles realmente não queriam uma vida estável?
Sendo honesta consigo mesma, ela jamais sonhara com aquilo. Estabilidade, amor, família, casa com uma cerquinha branca e dois gatos chamados Freddie e Robert? Jamais tivera tempo de pensar naquilo ou sequer achou que pudesse ter qualquer coisa que fosse perto desses modelos ideais. Antes mesmo de deixar Busan e a criação rígida e violenta dos avós para tentar viver de música em Seul, a jovem já não tinha tempo de pensar em estabilidade. Não era sua realidade, mas fazia um tempo desde que, sem que pudesse conter, se perguntava se um dia poderia ser ou se, quem sabe, já pudesse ser.
Estavam morando em um apartamento decente há bons meses. Desde que se juntou a eles e formaram a banda, as apresentações no bar de Dongjoo iam muito bem e lhes proporcionavam cada vez mais outros contatos para apresentações em outros lugares, logo, muitas de suas preocupações anteriores já poderiam ser esquecidas. Já não brigavam mais como no início e desde que ambos aceitaram que se amavam e que queriam apenas um ao outro, as traições igualmente se tornaram parte do passado. Tinham parado de se machucar como forma de defender o coração e aprenderam a cuidar um do outro.
já possuía uma daquelas coisas que pensava que nunca poderia ter.
Tinha um amor que deixaria sem fôlego as mais invejadas mocinhas dos dramas e um amor no qual nenhuma música piegas jamais poderia resumir em versos superficiais. Compartilhava um amor com quem havia aprendido a amar junto com ela e o simbolismo de tal aprendizado era tão único quanto compartilhar com alguém uma descoberta que mudaria o mundo. E seu mundo realmente mudara. Seus mundos mudaram. Ela dispensava a casinha com cercas brancas, dispensava os moldes pré estabelecidos, mas não poderia mais se enganar a ponto de negar que formigava em seu peito a vontade de transformar aquele amor em versos infinitos, em uma extensão de sua própria vida, em transformar seu amor em sua própria vida. Eles seriam capazes disso?
– Não queremos? – perguntou depois de algum tempo de silêncio e abaixou os olhos para encará-la, um pouco confuso.
– O que quer dizer com isso?
– Não sei – deu de ombros, não querendo despejar todos os seus pensamentos nele de repente –, não sei se quero viver sem freio pra sempre, digo, sem um lugar seguro pra pendurar as botas.
não segurou o riso e escondeu a expressão envergonhada.
– O que você bebeu hoje? – tocou seu rosto, tentando olhá-la nos olhos – Não é disso que se trata seu rock n’ roll? Viver sem freio, sem rotinas entediantes?
A mulher rolou os olhos e girou o corpo para o lado, descansando suas costas no espaço vazio do colchão. continuou a encarando, esperando que ela respondesse.
– Não é o que eu quero dizer, – forçou o tom entediado para parecer que aquilo que dizia não era importante e se sentiu um pouco mal porque fazia muito tempo desde que dissimulara diante dele –, o rock n’ roll nunca morre, mas o corpo é matéria e ele se decompõe.
O namorado riu mais ainda e ela quase se sentiu ofendida antes que ele avançasse para cima dela, rodeando sua cintura com os braços e deixando beijos em seu rosto, pescoço e colo. às vezes divagava como uma velha e aquilo era tão contrastante com a personalidade dela que só conseguia se divertir.
– Pare de falar como se você tivesse cinquenta anos! – falou quando cessou os beijos e deixou seus rostos na mesma direção – Não precisamos viver como os outros. Não temos motivos pra desacelerar, certo? – a pergunta foi séria, mas ela rolou os olhos novamente.
– Espero que isso sirva pra tudo entre nós então! – respondeu com um olhar espertinho e em um movimento rápido cruzou suas pernas na cintura dele e o derrubou na cama, ficando por cima novamente.
Estava prestes a beijá-lo quando o barulhinho do alarme de destrave da porta foi ouvido e os dois tiveram tempo apenas de se cobrirem antes de entrar no quarto-sala sem se dar conta do que estava interrompendo. Quando levantou o olhar para a cama e percebeu como estavam e suas expressões, arregalou os olhos antes de virar de costas, completamente envergonhado.
– Me desculpem! – ele se apressou em falar, se curvando para eles mesmo que estivesse de costas, o que fez rir – Não pensei que já estivessem aqui, achei que ainda estavam no bar e-
– Já disse pra você mandar mensagem quando estiver chegando, cara. Cadê o celular que arrumamos pra você? – interrompeu sua fala atrapalhada e apesar de seu tom sério, controlava uma risada – te adora, mas não o suficiente pra deixar que você veja a bunda dela assim se ficar entrando de repente.
! – a mulher o empurrou, rindo com a certeza de que estava mais vermelho do que seus batons preferidos.
– Me desculpem, de verdade! Eu esqueci...
– Está tudo bem, – a mulher garantiu –, só espere lá fora por alguns instantes.
– Na verdade – se apressou em falar antes de que o garoto saísse correndo pela porta –, pode dar mais um passeio. Tem dinheiro na jaqueta pendurada ao seu lado. Pode pegar e jantar em alguma loja aqui por perto.
assentiu e rapidamente enfiou as mãos no bolso da roupa deixada no cabideiro e retirou as notas, agradecendo logo em seguida, saindo sem dar chances de qualquer outra instrução.
– Não tenha pressa! – gritou, rindo, e a namorada o empurrou para o lado, igualmente gargalhando.
Voltaram a deitar na cama juntos, compartilhando as risadas. Como estavam abrigando há pouco tempo, às vezes esqueciam que o garoto era um pouco avoado demais. Por sorte era também ingênuo demais.
– Você tá vendo? Brincar de casinha dá nisso! – ele implicou e fingiu não se sentir desconfortável – Não podemos deixar ele morar com o ? – perguntou apenas para implicar.
– Você é péssimo, ! – a mulher rolou os olhos e bateu em seu braço.
– Você é igual. – piscou para ela, voltando a se aproximar de seu corpo nu – E pode ser péssima comigo nesse exato momento. – inclinou-se para roçar seus lábios, apertando seu quadril ao dela.
– Acho que você não vai gostar disso – sorriu, engatinhando para ficar sobre ele novamente ao que suas mãos foram para seu pescoço, segurando-o com certa pressão antes de aproximar a boca da orelha dele, sussurrando ao continuar –, mas eu vou me divertir muito.
sorriu e deslizou as mãos das coxas para a cintura dela, onde segurou com força, voltando ao mesmo cenário que estavam antes de serem interrompidos e daquele momento em diante ele deixaria que ela fizesse o que desejasse com ele, porque não havia mais ninguém que ele pudesse amar mais quando estava no comando.
– Eu mal posso esperar, madame. Sou todo seu.


"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro."
(A Insustentável Leveza do Ser, por Milan Kundera)

estava ao piano, em mais uma tentativa de finalizar a música que estavam compondo, quando voltou para casa. Seu silêncio ao largar a mochila no sofá e sua expressão enquanto trocava de roupa dizia para que ela não havia conseguido conversar com mais um vez. Era a segunda semana desde que ela o encontrara e o garoto ainda não tinha aceitado recebê-la, mas ela ainda ia sempre ao abrigo na tentativa de conversar com ele e fazer o que achava ser certo. havia se recusado a ir junto, mas não a desencorajou a fazer o que queria fazer, afinal, sua consciência não era da conta dele. Só não conseguia deixar de se frustrar para com a frustração dela, porque achava que era absurdo que achasse que estava falhando em alguma coisa. Maldita culpa judaico-cristã que se entranhava até nas ações de quem não acreditava em Deus.
– Ainda não conseguiu terminar? – ela perguntou ao passar uma camisa larga pela cabeça e prender os cabelos antes de caminhar até a área da cozinha.
murmurou negativamente em resposta e trazendo uma lata de cerveja consigo, se sentou ao seu lado no piano e pegou o papel já bastante rabiscado onde tinham tentado montar a letra. A melodia estava pronta, só que ainda não tinham encaixado o sentimento certo. Até aquele momento.
releu o que tinham e foi como se as palavras brotassem em sua mente naquele exato instante. A letra falava sobre o fim de uma estação, de um amor que já não parecia o mesmo e aquele aperto no peito lhe mostrou o porquê dos versos terem surgido com tamanha espontaneidade depois de algum tempo. Ela pegou a caneta e começou a completar o que escrevera sobre não existirem para sempres. Atento, o namorado observou sua letra desleixada e sorriu para como as estrofes se encaixavam, esperando que ela terminasse para que pudesse sugerir algumas alterações no refrão.
– E se deixarmos esse verso aqui? – ele levou a ponta do lápis até a estrofe que correspondia ao clímax da música e foi a vez de sorrir ao reler o trecho com a modificação sugerida e ver como ficara perfeito.
– Soa maravilhosamente triste – soltou uma risadinha, pegando o violão que descansava ao lado do instrumento maior –, mas vamos ver como fica acompanhando a melodia.
O homem se ajeitou ao piano e começou a tocar após a contagem dela. cantarolou a música, acostumando as palavras aos sons dos instrumentos enquanto o acompanhava com o violão. se concentrou na voz tão característica dela e no quão acostumado estava a ouvi-la todos os dias, mas internamente se perguntava se tinham atingido seu limite. Parecia uma piada que aquela música falasse exatamente daquilo e era angustiante que estivessem ignorando todas as evidências. Ele costumava ter certeza de que eram iguais, de que que tinham as mesmas vontades e que caminhavam na mesma direção e era por isso que depois de tanto tempo sozinhos ou com companhias descartáveis, se encaixavam tanto caminhando juntos. Ainda que o início tivesse sido difícil por serem dois cabeças duras que nunca tinham amado tanto alguém antes, tinham se amado com todas as suas forças e dedicado um ao outro os melhores anos de suas vidas.
Era justo que a brasa se tornasse fria depois de brilhar o fogo mais intenso? Era o caminho natural se decidissem viver suas vidas separadas daquele ponto em diante? Suas linhas de largada tinham mudado em que momento da corrida? Aquelas indagações todas piscavam na mente de ambos e tinham como trilha sonora aquela canção, mais uma entre tantas que já tinham feitos juntos e que parecia perfeita para o ato final.
– Ficou ótima – sorriu ao terminar, descansando o violão em suas coxas antes de continuar –, mas se você adiantasse um pouquinho aqu-
– No final? – ele repetiu a combinação de notas e ela sorriu novamente para como soava e para como ele sempre sabia o que ela queria dizer antes mesmo que ela o dissesse.
Era por isso que, olhando nos olhos dela naquela noite, ele soube que ela o deixaria. Seus olhos carinhosos na direção dele diziam isso, até mesmo a forma como ela o parabenizou pelo esforço e como se encaixou entre suas pernas para lhe abraçar e beijar seus lábios. Tudo tinha gosto de despedida e ela já havia começado, como em um cenário sendo desfeito depois do fim de uma gravação, como as luzes de um estádio se apagando depois de um show, como as notas finais da última faixa de seu disco favorito. Eles só estavam esperando que o fogo queimasse tudo enquanto apreciavam a vista.
Chaotic summer. falou depois de um tempo de silêncio, quando já estavam deitados na cama e descansava em seus braços, a cabeça sobre sua barriga e os dedos desenhando qualquer abstração sobre sua pele – Acho que é um bom nome para a música nova. O que acha?
– Parece perfeito. – sorriu e subiu o corpo para que pudesse encarar seu rosto – Caos sempre combinou com a gente.
riu e concordou, se aproximando para beijar os lábios dele com calma e cuidado, deslizando sua língua por entre eles enquanto se abraçava ao namorado. O coração dele batia como o dela e a mulher sorriu quando separaram suas bocas, segurando em suas bochechas altas antes de se virar para dormir.
– Te amo. – ele disse enquanto ela o olhava e juntou seus lábios mais uma vez antes de assisti-la se virar e encaixar as costas em seu tronco.
– Te amo mais. – respondeu, segurando as lágrimas que brotaram em seus olhos e apertando os lábios para segurar o suspiro de pesar.
Eu sei, quis responder. No final das contas, você sempre foi melhor do que eu, concluiu em pensamento, antes de deixar que as próprias lágrimas rolassem por tempo suficiente até pegar no sono.

[...]


Na manhã seguinte, levantou bem mais cedo que o normal e se arrumou decidida a voltar ao abrigo e conversar com . Dessa vez, falaria com antes, pois a garota parecia ter se tornado próxima dele e pediria para que ela o convencesse a aceitar uma conversa franca. Passou no mercado antes e comprou o que lembrava que ele gostava de comer, além de alguns doces para os dois e alguns livros de um sebo que encontrou no caminho. Estava se sentindo um pouco mais otimista e ficou ainda mais satisfeita quando Jihyo permitiu que falasse com a amiga de , que apesar de desconfiada, aceitou falar com a mais velha.
– O que quer comigo? – perguntou assim que adentrou seu quarto – Já aviso que não posso fazer nada se não quer falar com você.
– Eu posso me sentar? – perguntou sorrindo, ainda que diante do olhar desconfiado da mais nova, que assentiu em seguida, dando espaço para que a mulher sentasse na beirada da cama – Eu me chamo e acredito que tenha contado pra você que coisas ruins aconteceram da última vez que estávamos juntos – respirou fundo antes de continuar e encarou o rosto jovial e doce da outra –, mas eu venho procurando por ele sem parar desde então, na esperança de que ele estivesse bem e – hesitou um pouco, porque a possibilidade dele não estar vivo a assustou durante todos aqueles meses – vivo.
– Vocês o deixaram para trás em perigo – acusou, olhando para como se buscasse qualquer sinal de que ela estava verdadeiramente arrependida – e isso não foi certo. Ele ficou sozinho, assustado e machucado.
– Eu sei – a mulher respondeu, suspirando envergonhada –, não me orgulho disso e é por isso que estou aqui.
Tocou o joelho da garota e olhou para os olhos dela, vendo um pouco do que via em , um brilho que mesclava medo e bravura.
– A decisão por me proteger naquele momento foi mais forte do que ajudá-lo – confessou e flashes daquela noite serpentearam sua mente – e se você está aqui, , você deve saber o que é precisar correr para se salvar. Eu fiz isso durante grande parte da minha vida e, acredite, a maioria das pessoas aí fora não está disposta a ajudar gente como eu, prefere que desapareçamos. Eu tive dolorosamente que aprender a olhar apenas por mim.
– Então por que o ajudou antes? – a mais nova perguntou e seu olhar já se mostrava menos duro, porque ela sabia do que aquela mulher falava, sabia porque era um pouco de sua realidade.
– Quando meu namorado e eu o vimos pela primeira vez, estava sendo covardemente espancado. – explicou, brincando com os anéis em seus dedos enquanto contava – Ajudamos ele porque nos vimos nele, no medo dele e porque tínhamos condições para fazê-lo naquela noite. Todos nós que passamos por essas situações nas ruas gostaríamos de ter alguma ajuda em algum momento, não é? – perguntou retoricamente e a garota assentiu devagar – Não fui a pessoa perfeita o ajudando depois, mas eu não sou perfeita. Cometi erros com ele e gostaria muito de me desculpar. Você acha que pode conversar com ele e me ajudar a convencê-lo a me ouvir?
a encarou já completamente convencida. parecia sincera e a mais nova poderia reconhecer dor em sua voz quando falava de seus arrependimentos. acreditava que o ser humano não deveria se prender ao que não pode mudar, mas que deveria dar o seu melhor em olhar para frente e se preocupar em não cometer os mesmos erros. Era o que parecia estar fazendo e não poderia jamais se recusar a ajudá-la, especialmente se isso significasse ajudar também.
esperou aflita na recepção enquanto os dois mais jovens conversavam no quarto dele até o momento em que a assistente social retornou com um sorriso que fez a outra antecipar sua notícia.
– Você pode entrar, . – Jihyo anunciou, tocando em seu ombro – Só, por favor, vá com calma. Se por qualquer motivo ele pedir pra você sair, faça isso imediatamente, ok? – recomendou.
Assentindo, a mulher pegou a mochila e as sacolas antes de se dirigir ao corredor masculino, batendo na porta duas vezes antes de arrastá-la para abrir. estava sentado bem no meio da cama, enquanto estava ao lado dele e adoravelmente segurava sua mão. Se não estivesse consideravelmente nervosa, teria sorrido para a cena.
– Ei – ela começou, a voz baixa e cautelosa soava até mesmo estranha para o rapaz mais novo, acostumado a ouvir sua voz rouca soando sempre tão assertiva –, obrigada por me deixar vir.
sorriu a incentivando e caminhou para mais perto, deixando as sacolas com as compras na mesa ao lado e acomodando a mochila no chão.
– Eu trouxe algumas coisas para comer e alguns livros também. São para os dois. – tentou um sorriso, mas o garoto ainda não a olhava, apesar da mais nova ter agradecido com a mesura.
respirou fundo antes de se sentar na poltrona ao lado da cama e começar a falar o que tanto queria.
– Eu sei que deve ser difícil pra você me ver aqui depois de ter sido tão desleal e especialmente pelas minhas escolhas terem te colocado em risco – sua voz tremeu um pouco, especialmente quando ela viu a perna esquerda dele imobilizada para a correção da fratura causada pela queda de meses atrás, que só piorou quando ele demorou a buscar ajuda médica –, mas o motivo de eu estar aqui e de ter te procurado por todo esse tempo em todos os lugares possíveis tem sido a minha tentativa de corrigir esses erros e de pedir desculpas a você. – ela quase chorava e ainda que não a visse, sua voz mostrava isso, o que fez com que o garoto arregalasse levemente os olhos – Sinto muito por termos sido egoístas antes e por não termos ajudado você como dissemos que faríamos.
– Mas vocês me ajudaram.
A voz de fez com que se assustasse, erguendo o rosto para olhá-lo, mas ele ainda encarava o tecido liso da roupa de cama, enquanto segurava fortemente suas mãos.
– Quando vocês me ajudaram antes, foi a primeira vez desde a morte da minha mãe que alguém me estendeu a mão sem pedir nada em troca. – ele engoliu a vontade de chorar e tinha certeza que o faria se a amiga não estivesse ao seu lado apertando suas mãos com toda a força que podia – Vocês me deram um teto, me deram de comer, estavam tentando me arrumar um trabalho... Eu sou grato e também entendo que fui um intruso na vida de vocês e não poderia esperar muito.
– Você não era um intruso – ela se apressou em explicar –, é só que e eu... Nós só estávamos acostumados a sermos sozinhos, a corrermos sem olhar para trás. Falhamos, . Eu sinto muito por isso.
Ao ouvir falar do namorado, sentiu algo perto da saudade. tinha sido a primeira figura masculina que ele conseguiu admirar. Todas as vezes que ele olhava com tanto carinho para , ou quando cozinhava cantarolando alguma música velha demais para que o mais novo conhecesse e até mesmo quando brigava com ele para que fosse mais confiante. Guardava especialmente na memória as tardes tediosas que tentava preencher com música e que o fazia sentar ao seu lado ao piano para que pudesse lhe ensinar algumas lições, enquanto gritava da cozinha para que ele deixasse Mozart de lado e tocasse um pouco de Queen.
Quase sorriu com todas aquelas lembranças calorosas e eram todas elas que ele tentava guardar desde que decidiu não mais procurar o casal desde o incidente que os separou. Para , seria melhor se pudesse usar as lições que aprendera com eles e começar a se virar sozinho. Todos somos sós e ele não poderia choramingar por isso para sempre.
– Aposto que ele acha que vocês não fizeram nada de errado em se protegerem – o mais novo sorriu melancólico –, afinal, ele sempre me dizia: pense em você primeiro. Naquele dia ele fez o que sempre fez, te encorajou a pensar em si mesma e pensou apenas em você.
levantou os olhos para a mulher naquele instante, para ter certeza de que ela havia entendido o que ele tinha dito.
– Talvez eu saiba um pouco agora como ele se sente – ele virou seu rosto para e beijou suas mãos antes de se voltar para a mais velha –, talvez agora eu saiba como é colocar alguém à frente de si mesmo, ainda que isso signifique deixar algumas pessoas para trás. É assim que ele amou você durante esse tempo todo, não foi?
não conseguiu controlar as lágrimas, porque estava completamente certo e olhando para tudo como quem olha para trás, ela ponderou todas as suas decisões futuras.
– Foi assim que nós nos amamos durante cinco anos inteiros, – ela sorriu, chorosa –, mas se nossa forma de amar machuca alguém, talvez a gente deve repensar. Você pode amar quem quiser, mas não pode esquecer que os outros também amam.
– Alguns de nós não pode evitar amar o amor dos outros – se pronunciou pela primeira vez ali dentro, sorrindo –, talvez essa seja a diferença entre você e seu namorado, Unnie¹.
– É – sorriu, triste –, algumas direções se tornam diferentes no meio do caminho.
– E isso não é ruim – a mais nova completou –, afinal, novos caminhos sempre podem nos mostrar coisas novas. Perdão é um desses novos caminhos que não devemos nos recusar a seguir. – cutucou , que riu levemente.
– Não preciso perdoar vocês. – deu de ombros – Não voltei ou não fiz contato por achar que era o melhor para todos nós, mas-
– Mas você está errado. – interrompeu-o – Eu procurei muito por você e você não sabe o meu alívio ao saber que estava bem. – ela sorriu e pôde olhar nos olhos dele diretamente pela primeira vez naquele dia – Como você conseguiu escapar? – perguntou, por fim.
– Fiz o que vocês me ensinaram – sorriu para ela –, corri até que me tornasse invisível.

“All that's golden is never real
(Tudo que é de ouro nunca é real)
And I won't play fair with you this time
(E eu não vou jogar limpo com você neste momento)
All that's golden is never sold
(Tudo que é de ouro nunca é vendido)
And I'll be thankful when you let go
(Eu serei grato quando você deixar ir)”
<
(By the Throat, por CHVRCHES)


[CINCO MESES ANTES]

Itaewon adormecia em silêncio na alta madrugada, mas um grupo de jovens se divertia enquanto levava um pouco de arte aos altos muros cinzentos do distrito. Desde a partida de , era quem surgia com novos lugares para grafitarem, mas não era sempre que e endossavam suas aventuras artísticas, então com a chegada de ao grupo, o notável talento do garoto com desenho e seu interesse pelo graffiti, o baterista da banda aproveitava para instigar no mais novo ainda mais esse entusiasmo e conseguir um novo companheiro para suas peripécias de cultura marginal.
estava contornando uma frase com a ajuda de , na fachada do segundo andar de um prédio comercial abandonado, quando soltou um bufo impaciente ao avistar um grupo subindo a rua e que possivelmente já tinha os visto. Começou a catar as latas de tinta e guardá-las na mochila de rapidamente enquanto cutucava a namorada e alertava os outros dois entretidos com o barulho característico do spray ao tingir a parede descascada.
– A gente precisa ir agora – avisou, fazendo com que os dois mais novos virassem em sua direção –, aqueles caras da gangue do Kim estão subindo pra cá. Peguem suas coisas antes que eles tenham tempo de arrumar confusão.
soltou alguns palavrões enquanto recolhia as latas e os moldes com a ajuda de e bufou ao perceber que eles estavam em maior número, possivelmente em oito ou dez. Se vissem que ele estava por ali certamente arrumariam confusão e ao contrário do casal-problema e , ele era péssimo de briga.
– Vamos descer por trás – a mulher sugeriu –, assim podemos contornar a rua debaixo antes que eles subam aqui.
O problema era que aqueles caras eram encrenqueiros de verdade e mexiam com coisas pesadas que nenhum dos amigos ali jamais tiveram coragem de se envolver. Nunca era boa coisa se meter com aquele grupo, sem contar o fato de que eles pareciam não ter medo de nada, porque se aproximavam aos gritos, rindo e fazendo um escândalo por toda a vizinhança, que apesar de ser uma área predominantemente comercial, ainda contava com algumas residências familiares. Se alguém chamasse a polícia seria duplamente péssimo.
– Hyung², eles tão correndo pra cá! – avisou , que soltou mais uma leva de palavrões enquanto puxava e lhe dizia para deixar o resto das coisas por lá, não tinham tempo de guardar todos os adereços de e muito menos as garrafas de Soju ainda lacradas.
– A gente precisa descer agora! – o mais velho colocou a mochila nas costas e passou pela janela quebrada do fundo, ajudando a subir e pular para a varanda também – Inferno!
passou logo em seguida e nem mesmo os esperou para que pudesse pular para o terreno de trás do prédio e ganhar a rua, então ajudou o mais novo a passar pela janela e ajustou as alças da mochila enquanto se preparava para pular para as grades e enfim passar para o chão.
– É melhor você ir primeiro, . – ele aconselhou, segurando-a pelos braços no limite do da varanda quebrada e sem guarda-corpo – Lança seu corpo para se apoiar na grade e pule pro chão. Faça o mesmo depois, .
Como os gritos se tornaram mais próximos, os três entenderam que a gangue já estava entrando no prédio, então tinham pouco tempo para que pudessem pular para o terreno detrás ou teriam de confrontá-los. Sem perder tempo, pulou para baixo e escalou a grade dos portões do que antigamente era uma garagem, vendo hesitar um pouco antes de pular também.
– Vem logo, ! Não temos tempo!
Assim que ele pulou, assustado, pulou logo atrás, mas antes que pudessem escalar o muro que dava para o terreno nos fundos, alguns caras da gangue os alcançaram e começaram a gritar provocações. Por sorte não era nenhum dos líderes.
– Sobe, ! – gritou – Não é pra parar!
– Parece que os amiguinhos do estão continuando o legado dele nas paredes de Itaewon, não é mesmo? – um deles começou, rindo de um jeito sádico enquanto olhava para – A sua garota tem uma bela bunda. – continuou a provocar, olhando para e fazendo os demais rirem – É sua garota? – perguntou, se aproximando, e pôs uma das mãos no cós da calça, pronto para pegar o canivete assim que precisasse – O que acha de dividir?
– Por que não divide a sua mãe com a gente, seu nojento! – gritou por cima do fôlego entrecortado, causado pelo esforço que fazia para içar seu corpo para cima do muro. Fazia tempo desde que precisara fazer aquela merda e percebeu que não sentia falta alguma daquela adrenalina.
Antes que o homem pudesse responder à ela e se aproximar mais, as sirenes da polícia foram ouvidas e apertou os olhos com raiva. Iria começar uma correria fodida.
– Sobe, . A gente precisa sair daqui agora!
Logo ele começou a escalar também e em seguida foi possível ouvir o primeiro tiro, provavelmente de uma arma não letal da polícia. Era uma das principais táticas deles pra dispersar as gangues que faziam arruaça pelas madrugadas. O problema é que os caras de gangue que trabalhavam com a máfia e com o tráfico dificilmente tinham receio de usar armas letais e se entre aquele grupo estivesse alguns dos mais audaciosos, sabia que ia dar merda.
Assim que conseguiram passar para o terreno vazio de trás, começaram a correr, mas para que pudessem seguir para um caminho diferente dos caras de Kim, gritou para que eles pulassem o muro lateral antes que a polícia chegasse ali também e os confundisse com eles. No caminho, tropeçou em meio ao entulho escondido pela grama alta do terreno baldio e ficou para trás. gritou para que ele levantasse logo, mas gritava para que ela escalasse o outro muro de uma vez, o que ela fez sem que ele precisasse pedir novamente.
Deu tempo apenas de ver erguer o corpo e voltar a correr até que o casal passasse para o outro lado do muro e vencesse o terreno antes de ganhar a rua, continuando a correr os quarteirões até que não ouvissem mais as sirenes da polícia. Quando pararam na avenida, apoiando-se nos joelhos para normalizar a respiração pela corrida, puxou a jaqueta de e o fez virar em sua direção.
– Ele não nos alcançou. – olhou para trás, esperando que o mais novo surgisse na esquina a qualquer momento. Seu coração ficou apertado naquele momento.
– Ele pode ter se escondido ou corrido para o outro lado. – sugeriu, voltando a andar, afinal, não era nada incomum que desencontros acontecessem em situações de fuga – Vamos logo, precisamos chegar em casa antes que a polícia faça uma ronda. Sua mochila tá cheia de tinta e eles vão saber que estávamos lá.
o puxou novamente –, a gente precisa voltar! E se pegaram ele?
– O garoto não tem nada, . – ele tentou argumentar, secando o suor do rosto com a camisa – Sequer tem passagem. Se alcançaram ele, vão revistá-lo e ele vai ser liberado. Antes de amanhecer vai estar em casa. Você quer voltar e correr o risco de nos pegarem com esses sprays e esses canivetes? Sabe quantas vezes já fomos detidos juntos?
sabia que ele tinha razão. Não eram mais menores de idade e com a lista de detenções que tinham, muito dificilmente seriam liberados com tamanha reincidência. A mulher, então, olhou para trás mais uma vez antes de segurar no braço do namorado para que voltassem a andar apressadamente.
– Vamos pegar um carro, por favor. – ela pediu, por fim, já respirando sem dificuldade, apesar do coração ainda estar completamente descontrolado – É melhor já estarmos em casa pro caso dele chegar.
Só que ele não chegou.
No momento em que conseguiu levantar da queda, quase foi alcançado por um dos caras da gangue que fugia na mesma direção e com a polícia cercando o lugar pela rua detrás, o garoto precisava correr ainda mais rápido para seguir pelo mesmo caminho pode onde e sumiram. Quando conseguiu alcançar o muro que faltava, gritou pelos dois, imaginando que eles o esperavam do outro lado, mas não obteve nenhuma resposta.
O medo fez com que paralisasse um pouco e não demorou para que fosse alcançado por um dos rapazes que fugia no momento em que se preparava para pular para o outro lado. Com a pressa e as pernas trêmulas, não conseguiu apoiar o pé na parte sem tijolos o que o deixou facilmente vulnerável ao empurrão que veio em seguida.
– Ficou pra trás, não foi, pirralho? – um cara que deveria ter a idade de e tinha o cabelo tingido o provocou – Foram vocês que ligaram pra porra da polícia, né?
Irado, o homem rispidamente empurrou as mãos do mais jovem que seguravam fortemente no topo da construção e empurrou sua cabeça para que caísse para o lado oposto. ainda tentou se segurar em algo, mas foi completamente em vão. Seu corpo caiu de uma altura de quase quatro metros e atingiu um andaime de madeira que estava logo abaixo. A dor aguda que sentiu nas costelas e na perna esquerda apareceram no mesmo instante do impacto, mas a adrenalina não permitiu que as lesões o incomodassem tanto naquele momento. Na tentativa de se levantar, recebeu um chute nas costas do mesmo que o empurrou e em seguida viu seu casaco ser puxado e o homem erguer seu corpo para cima para que pudesse olhar em seus olhos amedrontados.
– Vocês ligaram pra polícia? – gritou – Seus amigos acham que podem brincar de serem bonzinhos e ferrarem a gente na rua? – um soco atingiu um lado de seu rosto e achou que fosse ser duramente espancado.
Ainda olhou para o lado, em direção à rua, na esperança de que pudesse ver a silhueta de ou ouvir a voz de como da primeira vez, mas não havia nada. Eles o tinham deixado ali para que se virasse e não importava se não estava acostumado a lidar com caras de gangues ou se não soubesse brigar tão bem ainda. Eles simplesmente o deixaram para trás.
– Nã-não chamamos a polícia – tentou se defender com palavras e gotículas de sangue escaparam junto da saliva –, por favor, me deixe em paz.
Vendo que o mais novo não ofereceria qualquer resistência e ainda ouvindo as sirenes da polícia, resolveu largá-lo ali para que pudesse fugir e se esconder. foi novamente empurrado contra os escombros do andaime e as dores se tornaram agudas novamente, mas ele segurou o grito e o choro. Assim que o outro sumiu na penumbra do terreno, tentou se levantar e continuar a correr, mas sua perna doía como o inferno cada vez que tocava o pé no chão e a dor em suas costelas mal o deixava respirar. Seguiu mancando até o final do terreno, onde se escondeu no prédio em construção vizinho até que os barulhos da polícia cessassem. Acabou adormecendo ali, em meio aos materiais de construção, e foi acordado com os trabalhadores da obra na manhã seguinte, o empurrando e o mandando sair do local antes que chamassem a polícia.
Completamente dolorido e machucado, seguiu até a estação de trem onde estava prestes a usar um telefone público para ligar para , mas se interrompeu antes que o fizesse. Pensou nos momentos que havia passado junto dela e de , pensou no que aprendeu e pensou especialmente no porquê de ter sido deixado para trás quando parecia que ambos se importavam de verdade com ele. Chegou à conclusão de que, no fim das contas, estava sozinho. Ainda que tivesse uma ajuda no caminho, ainda que pudesse ter algum afeto, a vida se inicia sozinho e se termina sozinho. Não havia desculpa ou qualquer desvio. Ainda que estivesse magoado e ferido, ganhara um aprendizado crucial no momento em que deixou a cabine telefônica e seguiu para um dos banheiros públicos da estação. Encontraria seu próprio caminho, mesmo que isso lhe custasse um rastro de lágrimas enquanto seguia para sua própria linha de chegada.


“Um dia você entenderá que o único final feliz possível para uma história de amor é um acidente sem sobreviventes. Sim, Shunshuke, meuternal. Tudo pelo gostinho de dizer alguma variação do “Eu te avisei”. Um estorvinho, meu pequeno fugu idiota: um acidente sem sobreviventes.”
(O único final feliz para uma história de amor é um acidente, por J.P. Cuenca)


respirou fundo quando ouviu o barulhinho de destrave do alarme da porta e se acomodou na cama, cruzando as pernas uma sobre a outra em frente ao corpo enquanto o esperava entrar. Como estava quietinha e com todas as luzes apagadas, certamente pensaria que ela ainda não havia chegado e com um sorriso melancólico no rosto ouviu-o retirar os sapatos e arrastar os chinelos em direção à cozinha antes de apertar os interruptores para acender as lâmpadas.
– Ei, punk love – o cumprimentou carinhosamente, fazendo com que ele olhasse na sua direção, surpreso, mas não assustado. nunca se assustava.
– Ei – sorriu, retirando as compras da sacola calmamente –, não pensei que estivesse em casa ainda. Como o está?
– Está bem – deu de ombros, se levantando e indo até ele –, vai tirar os pinos da perna amanhã e está ansioso. Você sabe como é.
Seu riso fraco foi acompanhado pelo outro, que assentiu ao imaginar o mais novo impaciente para poder restaurar totalmente o movimento da perna em recuperação da fratura.
– Você vai com ele ao hospital? – perguntou antes de se inclinar para juntar seus lábios em um beijo rápido quando ela sentou no banco no lado oposto da bancada de mármore.
vai com ele – respondeu, pegando um pedacinho de frango em cubo que ele trouxera –, mas vou passar para vê-lo depois. Você quer ir? – olhou para o namorado, que riu antes de erguer os ombros e dar costas à ela para guardar os mantimentos no armário.
– Pode ser... Podemos sair para comer alguma coisa juntos depois? – sugeriu e sorriu largamente, murmurando em afirmação enquanto mastigava o petisco.
Passaram-se quase três semanas desde que conseguira conversar com e restabelecer os laços com ele. Convenceu a vê-lo dias depois e até mesmo foi visitá-lo. Sua tentativa de deixar todos sem ressentimentos havia dado certo e sentia que poderia seguir em frente dali em diante e era por esse motivo que seu coração se agitava de um jeito dolorido.
Ela sabia que o cenário que havia construído há alguns anos estava se desfazendo, sendo desmontado conforme o ato final chegava, mas enfrentar o término de um ciclo jamais seria algo fácil a ser feito. Sabia que estava igualmente ciente, mas ambos vinham adiando a conversa final e a despedida porque não havia modelo indolor para fazer o que tinha de ser feito, mas era melhor aceitar que aquela era a linha de chegada para os dois antes que terminassem se odiando e preferia morrer do que odiar aquele que teve todo o seu amor durante os melhores anos de sua vida até ali.
Pensando nisso, levantou do banco e foi até o piano, sorrindo para como aquele instrumento, que conseguiram comprar completamente velho em uma loja de antiguidades e que levaram alguns meses até o restaurarem por completo, lhe despertava tantas boas e más lembranças. Era como uma testemunha inerte do amor que compartilhou com . Reparando em cada pequeno detalhe da madeira gasta e arranhada e das teclas amareladas, sentou-se no banco estofado e arrumou a postura antes de chamar o namorado.
– Você pode vir até aqui? – pediu, deslizando os dedos longos pelas teclas e fazendo um som desconexo e distraído soar.
deu um sorriso triste sem que ela visse e soltou um suspiro pesado ao caminhar pelo curto espaço que os separavam. Seria realmente apropriado se terminassem com música. Sentou-se ao lado dela e deu um beijo em sua nuca descoberta pelo cabelo preso e sorriu antes de roçar seu nariz ao dele, para então dar sua atenção ao piano.
Começou uma sequência musical conhecida que fez com que se sentisse com vinte anos novamente, deitado no chão de um estúdio alugado em Gangnam enquanto ela tocava aquela mesma música como se a própria fosse dona da composição. Combinava tanto com ela. Com eles.
They made a statue of us and they put it on a mountain top. começou a cantar e retirou uma das mãos para que a acompanhasse tocando – Now tourists come and stare at us. Blow bubbles with their gum. Take photographs of fun, have fun!³
De olhos fechados, foi transportada para anos atrás e para todas as vezes que tocaram juntos, que viveram a música juntos e que se amaram da forma mais épica possível, como aquela música narrava. Conforme seus ombros se chocavam ao seguirem os movimentos da melodia, ela se sentia prestes a chorar, mas era levada apenas pela atmosfera vívida da canção e agradeceu mentalmente por poderem fazer o fim ser daquela forma, com música sendo eletricidade entre os dois, como sempre fora.
Tocaram juntos como estavam acostumados a fazer e tinham tanta sintonia que a canção fluía mesmo que fizesse algum tempo desde que tivessem a tocado e isso explicava muito a relação de ambos.
O que é, porém, sintonia e conexão entre corpos e mentes que estão em constante mudança? É possível que um mesmo coração bata sempre da mesma forma e que a vida gire no mesmo sentido para duas pessoas até o infinito?
Jamais seria possível dizer com certeza, mas ninguém pode caminhar sem saber para onde está indo para sempre e era o momento de fazer a escolha e cruzar a linha.
Quando a música terminou, engoliu o choro que quis vir violentamente e segurou suas mãos, entrelaçando seus dedos e sorrindo para ela. Aproximou seus rostos e deslizou a pontinha do nariz por sua bochecha antes de deixar um beijo leve em sua pele quente.
– Faça o que precisa fazer, .
Ouvindo sua voz, a mulher não pôde evitar a lágrima solitária que escapou e que foi prontamente secada pelo namorado. Ela respirou fundo e segurou a mão dele, beijando sua palma com carinho e sorrindo em seguida.
– Eu te amo – falou e sua voz tremia pelo esforço de não chorar abertamente – e te amei com todas as minhas forças durante todos esses anos. Eu fui sua mulher e fui plenamente feliz enquanto fui amada por você. Você sabe disso, não sabe? – perguntou retoricamente enquanto ele sussurrava de volta que a amava igualmente – Nenhum outro homem foi meu antes e eu fui imensamente plena em seus braços – continuou, juntando suas testas ao fechar os olhos –, porque amei você com tudo o que tinha. Não é injusto que eu sinta o que sinto agora? – questionou mais a si mesma do que a ele – Não é injusto que a forma como quero viver daqui em diante não seja a mesma que a sua?
engoliu sua própria vontade de chorar e segurou-a pela nuca ao negar suas perguntas. Seu peito parecia em brasa pela dor que o tomava e jamais pensou que sofreria tanto por estar deixando-a ir, mas era o que precisava ser feito. havia sido seu início, sua completude e seria seu fim, não o fim de sua vida, mas o fim de alguém que ele foi ao lado dela. Seria como um divisor de águas. Haveria um antes de , um com e um depois dela. Seria apenas por amá-la tanto, mesmo com sua forma única e nada ajustada de amor, que ele faria daquele dali em diante um encontro com seus melhores eus.
– Não existe nada injusto aqui, – ele sorriu, beijando seu rosto e secando com os lábios os rastros das lágrimas que escaparam em seguida –, porque você deve fazer o que é o melhor pra você. Jamais me oporia a isso e caso eu o fizesse – ele se afastou ligeiramente apenas para que a olhasse nos olhos, com seu coração se apertando ao ver seus olhos pequenos avermelhados pelo choro –, você deveria chutar meu saco e mandar eu me foder. Por que ninguém pode ficar entre você e seus objetivos. – sorriu quando ela riu fracamente e beijou seus lábios novamente – Eu te amo, mulher – falou, olhando em seus olhos e fazendo com que ela se arrepiasse por completo – e mesmo que meu coração esteja sangrando e que fosse como se esse quarto inteiro estivesse em chamas, eu jamais te impediria de ser feliz de uma forma tranquila e diferente da forma que fomos felizes até aqui.
assentiu, arrastando seu corpo para mais perto do dele para que pudesse abraçá-lo fortemente em seguida. Passou seus braços ao redor do pescoço dele e soltou o ar que estava prendendo quando ele agarrou sua cintura com força e a abraçou de volta. Podia sentir seu coração bater contra o dela e estavam tão grudados um ao outro que era como se seus corações estivessem batendo juntos ou se despedindo da forma harmônica com que batiam juntos.
No momento em que se levantou com ela, passou as pernas pela cintura dele e eles se apoiaram no piano enquanto juntavam suas bocas em um beijo intenso e saudoso. O barulho das teclas sendo pressionadas desordenadamente ecoou por todo o apartamento e os fez sorrir durante o beijo. Não era como se fosse algo incomum de acontecer, mas o som era surpreendentemente melancólico. Dali em diante, tudo pareceu uma sequência de um filme que todos sabem como irá terminar e cuja trilha sonora agridoce dá aos espectadores grandes spoilers do final que só é feliz em termos relativos.
O que seria, então, o final feliz que tanto buscamos? Que final feliz pode existir para vidas que não terminaram?
Os finais são pontos de chegada, são limites e após eles nada existe. Não haveria como existir um final feliz para algo que está em andamento, em constante mudança, passível de reviravoltas e mudanças de perspectivas. Você pode alterar a linha do tempo, mas jamais pode mudar o final da linha de chegada, pois é onde ela deve estar.
As lágrimas que rolaram enquanto e se amaram naquela noite foram como rastros da celebração da chegada à linha final de um amor que parecia sem limites, invencível e imparável. Um amor que misturou clássicos e rock n’ roll e que poderá ser eternizado em cada momento de êxtase e dor, mas que jamais poderia esticado ao infinito, pois não existe nada mais humano do que o fim.
¹Honorífico utilizado entre mulheres para se dirigir à mulheres mais velhas, ainda na mesma faixa etária.
²Honorífico utilizado entre homens para se dirigir à homens mais velhos, ainda na mesma faixa etária.
³”Eles fizeram uma estátua nossa e colocaram no topo de uma montanha. Agora os turistas vêm e nos encaram, fazem bolas com seus chicletes, tiram fotos por diversão e se divertem.” (Us, Regina Spektor)


Fim.



Nota da autora: Acho que essa é a primeira vez que eu experimento escrever com personagens tão cheios de camadas complexas de personalidade em uma shortfic e esse é o principal motivo por eu ter usado pela primeira vez todas as quarenta páginas disponíveis.
Isso por que eu precisava colocar duas coisas muito importantes pra mim nessa estória. A primeira é o cenário do Highlight Heel e para as fãs de BTS acredito que tenha ficado um pouco evidente a inspiração, com foco no núcleo do Yoongi. Essa experiência do curta foi tão importante pra mim que eu sempre acabo voltando pra ela pra pensar no cenário que eles construíram na Love Yourself era. Espero que vocês tenham gostado da minha interpretação e releitura!
A segunda coisa importante é a minha concepção sobre o conceito geral do universo em que essas eras se inspiram. Aqui não estou falando sobre teorias, mas de significados. Pra mim ficou evidente em Tear o quanto BTS é existencialista e o quanto essa corrente filosófica tá em quase todos os cenários que eles criam e isso é tão incrível pra mim que eu choro só de pensar. É por isso que essa fic tem esse teor mais cético e em total oposição ao clima que escrevi em Her (você pode ler seguindo minha lista de fics abaixo). A crença e o ceticismo, o destino e o caos. Todas essas concepções fazem parte do pensamento sobre a natureza humana e o BTS fez poesia sobre isso em Her e Tear e notar que um é o contraste do outro me faz amá-los mais que tudo. Não é simplesmente lindo e genial? Inclusive, tô aqui pra quem quiser conversar sobre isso.
No mais, porque essa nota já tá ficando enorme, quis colocar em questionamento aqui essas discussões sobre nossa natureza, sobre nossas escolhas e nossos caminhos. Acho que vai ser difícil deixar esses personagens, mas espero de coração que eles tenham tocado um pouquinho quem leu.
Fica aqui meu muito obrigada às meninas que fizeram esse ficstape acontecer e à Mayh pela ajuda sempre sem igual.

Para terem acesso às minhas outras fics, basta clicar em minha página de autora aqui abaixo e no ícone do Facebook vocês podem ter acesso ao meu grupo de fics. A playlist da fic está no ícone do Spotify.

Obrigada por lerem e aproveitem as outras fics!
ARMY, lembre-se, mesmo que não acredite em seu destino, acredite em sua fé!
xx
Thainá M.





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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