11. Se Tudo Acaba

Finallizaada Em: 03/12/2019

Capítulo Único

Março de 2019.

- Chegou dengo?

null indaga, vendo a garota jogar o casaco grosso em cima de sua cama. Mesmo do outro lado da tela, null estava com os lábios roxos, que significava que a temperatura, naquele lugar, estava de matar.
null foi chamada para outro continente, para ser mais exata, para Haia, uma cidade da Holanda com uma população de 489.375 habitantes em, aproximadamente, 100 quilômetros quadrados. Foi o que null estudou quando a namorada e futura noiva foi chamada.
null, como era carinhosamente conhecida por seus amigos, cursou Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense, a UFF, no estado do Rio de Janeiro. Seu sonho sempre foi se tornar diplomata e ir para outro país, mais precisamente um país europeu. E, embora null amasse a vida carioca, o calor e tudo mais, ele apoiava o sonho da garota acima de tudo. Tanto que, quando ela foi embora, ele quem a levou até o aeroporto.
Os dois se conheceram na festa de calouros e, embora null fosse de outro curso, foi convidado por um amigo e não poderia recusar o convite. A sorte foi ao seu favor e, quando foi pegar uma bebida, conheceu null, e tudo na sua vida mudou. Ele se apaixonou de imediato.
Em solo holandês, null havia acabado de chegar de um pub com colegas. Embora não fosse de beber no Brasil, acabou cedendo e bebeu um pouco, mas, como não era acostumada, ficava facilmente alterada. null notou isso quando ela acabou derrubando o celular enquanto trocava de roupa.
- Dengo...
Ele sempre a chamava assim. E, embora ela estivesse acostumada – afinal, eles estão juntos há quase oito anos –, seu peito se apertava de tanta saudade. Como ela queria que ele estivesse ali, com ela, apertados no cubículo que ela chama de apartamento, assistindo séries e reclamando das legendas estarem em holandês.
- Desculpa amor – ela resmunga e null abre um sorrisinho ao ver a namorada completamente desastrada colocar a parte de cima do pijama. – Como foi seu dia?
- Ainda está sendo...
null soltou. Não passava das seis da tarde no horário local e, conforme seus cálculos, na cidade da garota já eram quase meia noite. Cinco horas e muitos quilômetros de distância o separavam.
- Droga! – null exclama, rindo em seguida. – Como está?
E null contou das aventuras de ser um professor de literatura para o ensino médio, enquanto null se deliciava com seu jantar comprado a caminho de casa e, não menos importante, com a gargalhada deliciosa de seu namorado. Aquele era o final de noite perfeito.

(...)


Abril de 2019.


null estava no elevador de seu prédio quando o celular apitou, mostrando uma mensagem nova de Caio, seu colega de trabalho que dava aula de matemática.

Caio: Partiu Lapa?


Era sexta. O relógio marcava sete da noite em ponto e ele estava um caco para sair de casa e socializar.

null: Vamos!
Caio: Passo aí em quarenta minutos.


null correu para o apartamento quando as portas do elevador se abriram. Alimentou Tony, seu gato, que se enroscava entre suas pernas enquanto o rapaz corria pelo apartamento, que estava uma zona. Ele precisaria dar uma faxina algum dia, de preferência quando não tinha que elaborar ou corrigir provas e trabalhos escolares. Se null estivesse ali, ela o faria desistir de sua noite de bebedeira para arrumar o apartamento, enquanto ouviam MPB e, de vez em quando, dançando colados com Tony passeando por entre suas pernas. Ele sentia tanta saudade daquilo.
null se arrumou na velocidade da luz e, quando Caio avisou que estava o esperando na portaria, pegou suas coisas e trancou tudo, saindo dali em seguida.
- Está arrumado! – Caio brinca assim que se cumprimentam.
- Eu estou sempre – null retruca.
Pediram por um Uber e, enquanto esperavam pelo motorista, null conversava com o novo amigo.
- Você torce pro Vasco? – Caio pergunta assim que entram no carro. null assente, intensificando a careta no amigo ao lado. – Você não tem amor a sua família?
- Claro que tenho, por isso sou vascaíno – null responde com um dar de ombros, ocasionando uma gargalhada escandalosa de Caio. – Você acha que eu daria desgosto pros meus pais sendo flamenguista?
- Você respeita o meu time! – Caio exclama, fazendo Gui gargalhar.
Não tardou para que chegassem ao destino deles: um bar movimentado no coração da Lapa, que estava lotado. Caio não demorou muito para encontrar os amigos, que também eram colegas de trabalho de null, exceto por uma loira que estava usando uma camisa de Shawn Mendes. A mesma sorriu quando null foi apresentado à roda, ligeiramente demonstrando interesse no moreno.
- Eu vou pedir uma rodada de cerveja – Adão fala. Ele era professor de história e, apesar de estar quase com cinquenta anos nas costas, adorava sair para beber e se divertir.
Não demorou muito para que todos começassem a conversar. Yohanna, professora de Física, era a mais animada, e, ora ou outra, puxava a amiga para ir para o palco cantarem alguma música.
null também se divertiu e, quando pediu um Uber quase três da manhã, viu algumas mensagens de null em seu Whatsapp.
- O que houve? – Camila, a loira com camisa de Shawn Mendes, indaga com um sorriso no rosto, aproximando-se do homem.
- Minha namorada está me mandando mensagem – null responde meio embolado por conta das cervejas que havia ingerido no decorrer das horas. – Deve ter acontecido algo.
- Você a deixou sozinha em casa para se divertir? – a loira pergunta, passando seu dedo indicador por cima da camisa do moreno, que se esquivou rapidamente. – Que tal continuar a se divertir?
- Eu recuso. Obrigado – o homem responde, avistando seu Uber se aproximar. – Tenha uma boa noite.
Não demorou muito para que ele chegasse a casa, esperando deitar na sua cama e poder, finalmente, matar a saudade que sentia da namorada, sabendo que seria impossível dela respondê-lo àquela altura do campeonato, já que na Holanda não passava das oito da manhã.

null: Você deve estar se divertindo tanto aí, né?
null: Eu te amo tanto, null.
null: E eu estou bêbada dizendo isso. Mas é errado. Eu tenho um namorado.



null gargalhou, printando a tela em seguida. Sua namorada estava mesmo flertando com ele, falando que ela tinha um namorado? Aquilo estava sendo mais divertido do que as últimas horas que passou com os colegas.

(...)


Maio de 2019.


null agradeceu aos deuses quando null aceitou a chamada de vídeo. O rosto do namorado, quando apareceu em tela cheia, foi um alivio gigantesco para si, e, embora não fosse de seu feitio, sentiu vontade de chorar.
- Aconteceu alguma coisa, dengo?
- Eu tô com saudade de você – ela responde, deixando uma lágrima escorrer. – E eu acabei fazendo algo pra amenizar a saudade.
null arregalou os olhos. Se for o que ele estava pensando, o seu mundo iria desabar. Sentiu o peito ficar apertado e começou a tremer, até que null apareceu na tela cheia, segurando um filhote de gato, laranja, que mais parecia uma bola de pêlos.
- Eu a adotei – null fala, acariciando o pelo da felina, que ainda estava encolhida no colo da mulher. – Qual nome nós podemos dar? Tem que combinar com o do Tony!
O nome Tony tem uma origem bastante explicativa: quando eles se conheceram, null usava uma camisa do Homem de Ferro, que ela roubou do armário do irmão. Nada mais justa a homenagem.
- Que tal Pepper?
null alargou o sorriso e assentiu repetidas vezes com a cabeça, ocasionando numa gargalhada do namorado, que não poderia estar mais feliz e bobo.
- Eu estou louca para vocês se conhecerem! – null exclama, colocando a bichana no seu colo. – Quanto tempo falta?
- Dois meses... Vai passar rapidinho.
null soltou um muxoxo frustrado, apoiando a cabeça na mão e encarando o namorado. Ele era tão lindo e parecia ficar ainda mais conforme o tempo. E ela não aguentava mais a saudade de tê-lo por perto, apertando-o em seus braços e enchendo seu rosto de beijos até que ele começasse a ficar vermelho.
- Amor? – null indaga, atraindo o olhar do amado. – Vai passar rapidinho!

(...)


Junho de 2019.


null: Então vai! Aproveita e fica com ela de uma vez!



null bufou e bloqueou o celular, retornando a sua concentração para a prova à sua frente, mais preocupado em corrigir aquilo tudo do que em discutir com a namorada.
Tudo começou quando ele falou do aniversário de Camila quando conversavam em chamada de voz pelo Whatsapp, e, acidentalmente, Caio citou que a loira tinha um interesse amoroso no professor de literatura. E, embora não fosse do feitio de null sentir ciúme, ela sentiu, ainda mais estando tão distante do namorado. Por mais que confiasse nele o suficiente para mudar de país e continuarem com aquele relacionamento, ela sentia-se insegura com tudo aquilo, ainda mais que a saudade gritava mais alto. Ela disse poucas e boas para o amado, e, depois de tanto tempo, foi a primeira vez que discutiram desde que ela foi para a Holanda.
E lá estava null. Embora quisesse colocar tudo para fora, sair dali e esquecer aquela briga, não conseguiria. Mesmo que tentasse bastante.
Ouviu dois toques na porta e suspirou, colocando a nota do aluno no canto da folha e se levantando para abrir, encontrando Caio arrumado e parado na porta de seu apartamento.
- Ainda está assim? – Caio indaga, entrando no cubículo, sentindo Tony enroscar-se em suas pernas.
- Eu não sei se vou – null responde, fechando a porta atrás de si. – Eu e null brigamos feio.
- Eu sinto muito – Caio comenta, suspirando profundamente em seguida. – Mas você não dá motivo para ela desconfiar, né?
- Nunca – null responde convicto. Ele nunca daria motivo para que null desconfiasse de algum caso que ele tivesse. E vice-versa. Eles se amavam demais para deixarem se levar por uma noite.
- Sua mina é incrível, você fala que ela é foda pra caralho – Caio fala, olhando para um porta-retrato dos dois na estante da TV.
- Ela é – null fala, sorrindo largamente. null era seu motivo de orgulho máximo. – Eu amo essa mulher demais, Caio. Você não tem noção.
- Eu tenho uma noção básica, já que ela está do outro lado do oceano e você tá aqui, todo amarrado em casa – Caio fala, rindo em seguida. – Eu te admiro por isso. Admiro o casal que vocês dois são.
null sorriu mais uma vez.
- Mas você tem que entender que a briga entre vocês foi normal. Eu soltei a merda da Camila, a saudade de vocês dois está gritante e tudo que vocês mais querem é se encontrar e acabar logo com isso – o professor de matemática fala, colocando uma mão no ombro do amigo. – Não adianta você querer falar com ela agora, os dois estão de cabeça quente e não vai acabar bem, então, é melhor que vocês deixem isso para amanhã, quando estiverem mais tranquilos.
null teve de concordar. O gênio impossível de null com a teimosia dele não poderia resultar em algo positivo, e não poderiam suportar uma bomba separar ainda mais o casal. Não quando estão tão longe um do outro fisicamente.
null decidiu se arrumar após todo o discurso de Caio, que dirigiu para o salão onde seria a festa de Camila. A loira estava linda, fazendo Caio babar mais do que o habitual. null daria um empurrão para que eles pudessem ficar juntos.
Em solo holandês, null estava assistindo Um Lugar Chamado Notting Hill, devorando um pote de sorvete e limpando suas lágrimas com um lenço de papel, quando ouviu o celular apitar em cima da cômoda. Levantou correndo, vendo que a mensagem era de null, uma mensagem de voz de quase um minuto, que fez com que null abrisse um sorriso.
- nullzinhaaaaa, está tocando a música que você gosta. Veeeeem, que eu quero esse sorriso solto que só você tem. Me diz que fica mais um pouco e o seu corpo, meu beeeeem... Eu não estou bêbado, ok? Não muito! Talvez um tiquinho só, mas bem tiquinho mesmo. E o Caio tá tomando conta de mim, ele vai ser nosso padrinho de casamento. Você quer casar comigo, null null? Me responde logo pra comprar as alianças! É que esse sentimento é muito louco, eu fico feito um doido vagando por aí pra te esqueceeeeer.
E no final null gargalhou, imaginando o namorado dançando agarrado a uma lata de cerveja. A música, em especial, era “Vem”, do grupo Atitude 67, um grupo que ela adorava e que vivia tocando nas playlists que criava, desde a da academia até pra da faxina.
Ela ouviu aquele áudio várias vezes, esquecendo o filme na televisão. Tinha quase certeza que null não lembraria daquilo no dia seguinte, mas ela lembraria. Em especial do pedido de casamento embutido no meio daquela loucura.

null: Sim!

(...)


Julho de 2019.


- Mais algumas semanas e estaremos juntos!
null torceu o lábio com aquela frase, desmanchando o sorriso no rosto de null.
- Eu terei que adiar para mais uma semana – null comenta com a voz baixa, observando o rosto de null ficar vermelho. – Mas eu vou!
- Por quê?
E ele não sabia o que responder. Ele suspirou profundamente e, após abrir a boca diversas vezes, o som simplesmente não saía. Ele não tinha uma desculpa convincente, mas queria fazer uma surpresa para null. E ele tinha tudo planejado.
- null null, você não precisa vir mais.
E ela encerrou a chamada. null ligou mais algumas vezes, mas null não atendia. Ela não conseguia entender o motivo dele querer adiar aquilo. A saudade a matava por dentro a cada dia que passava longe dele. E null passava pela mesma coisa. Ele não via a hora de poder encontrar sua null e ficar grudado nela por dias, dias e dias. Quem dera se pudesse ser para todo sempre, nunca mais se desgrudarem para nada, não precisarem voltar para suas vidas em países diferentes.
null cogitou diversas vezes abandonar sua vida no Rio e partir para Haia, mas era complicado. Como ele iria se manter sendo professor de Língua Portuguesa? Seria impossível. null também não poderia abandonar sua carreira recém começada para trás e voltar para o Rio, já que aquele era seu maior sonho desde sua adolescência.
Para poder dar certo, alguém teria de ceder. Mas, quem iria ceder?

(...)


Julho de 2019.


Dois toques na porta. null levantou de sua cama, ainda confusa com tudo aquilo. O relógio de seu celular ainda marcava sete e trinta e dois da manhã, era um sábado e o tempo lá fora estava quente. Procurou pela chave pela sala de estar, que ainda estava uma bagunça, não mais do que sua vida.
Já tinha quase uma semana desde sua pequena briga com null. Ela visualizava suas mensagens e não respondia, ainda martelando a ideia na sua cabeça. E se ele quisesse terminar? Ela nem cogitava uma vida sem aquele homem! Ela o amava tão verdadeira e profundamente que não conseguia pensar em ter outra pessoa além dele.
Quando achou, destrancou a porta com cautela, esperando que não fosse algum colega de trabalho a chamando para correr àquela hora da manhã.
Tomou um susto quando viu null ali, ajoelhado, com uma caixa vermelha de veludo na mão esquerda, e um par de alianças singelas na mesma. O olhar pidão e apaixonado do homem, que fez com que seu coração acelerasse mais do que a bateria do Salgueiro, sua escola do coração.
- null null, dona de toda teimosia do universo, mas também das bochechas coradas mais adoráveis, do sorriso mais lindo e brilhante, dos beijos mais inesquecíveis e dos abraços mais calorosos, eu não imagino minha vida sem seus bicos com raiva ou sem ouvir você reclamar de como nosso apartamento está bagunçado por minha causa. Eu não imagino passar o resto dos meus dias não te ouvindo cantarolar ANAVITÓRIA pela casa, sambar ao som de Zeca Pagodinho e ter uma tentativa frustrada de fazer o quadradinho da Anitta. Eu não imagino passar mais tanto tempo tão longe de você e eu sei que é recíproco, então, eu juntei toda minha coragem e meu medo de aviões, atravessei o oceano e agora eu estou aqui, ajoelhado, com uma pergunta simples para te fazer: Você aceita se casar comigo?
null, que já chorava encarando o namorado, apenas maneou positivamente com a cabeça, vendo um sorriso surgir no rosto de null. Ela se agachou, ficando da altura do moreno, e eles trocaram alianças ali mesmo, no corredor do prédio, tendo apenas a câmera de segurança como testemunha. Talvez null peça uma cópia daquele momento para o sindico do prédio.
Logo eles se beijaram, sentindo que não aguentavam mais aquela maldita distância física que ainda os separava.
- Eu posso falar? – null indaga, interrompendo o beijo, fazendo null assentir, mesmo a contragosto. Ele queria mesmo continuar beijando sua namorada e, agora, noiva. – null null, eu nunca achei que fosse amar alguém como eu amo você, e, por obra do destino, nos encontramos. Eu sou muito sortuda por poder dividir minha vida, minhas aventuras e tudo mais com você. Eu te amo tanto!
E ela o beijou mais uma vez, sorrindo entre o beijo. A felicidade gritava em seu peito.
- Nós vamos ficar aqui no corredor mesmo? – ele pergunta assim que param o beijo.
null gargalha, levantando-se com a ajuda do noivo, que logo arrastou sua pequena mala para dentro do cubículo.
- Nós temos quanto tempo? – null indaga, trancando a porta atrás de si para, em seguida, pular no colo do noivo, enrolando a cintura dele com suas pernas.
- Duas semanas, três horas e vinte e dois minutos – null fala, acariciando o rosto da amada.
- Eu acho que dá pra matar a saudade até lá!




Fim.



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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