Última atualização: 06/10/2017

Capítulo Único

Junho, 1999
não gostava de finais de semana. Enquanto todos de sua classe corriam animados para fora da sala de aula nas sextas-feiras, ela via voltar àquela sensação estranha que não sabia nomear, mas que parecia com medo. Algo em seu estômago afundava e ela se sentia estranha, com dificuldades para se concentrar em qualquer coisa, mesmo que fosse seu passatempo favorito. Quando sentada, suas pernas tremiam e ela não conseguia conter a vontade de tamborilar os dedos sobre qualquer superfície.
Durante a semana, o colégio e as aulas de ballet a distraiam, e seus pais pouco ficavam em casa, ocupados com o trabalho até as seis. Com a irmã mais velha vivendo com os avós maternos, já que seus pais eram diferentes e o dela sumira antes mesmo que ela pudesse aprender a falar “papai”, quase sentia como se fosse filha única, e para seu pai ela era de fato. E ela gostava daquilo, de poder brincar sozinha no silêncio do quarto, ouvindo apenas o barulho baixo da TV.
Ela também gostava quando seus pais não estavam em casa, porque isso significava que eles estavam em lugares diferentes e não podiam brigar. Nos finais de semana eles tinham folga e a casa ficava mais barulhenta do que ela poderia aguentar. O volume alto da TV às vezes ficava no máximo, com a narração de algum jogo de futebol tomando toda a sala. Na cozinha as panelas zuniam aço sobre aço e na área de serviço a máquina de lavar batia as roupas num baque surdo. Tudo a deixava em alerta no pequeno quarto do andar de cima e ela não conseguia se concentrar no pequeno livro que pegara emprestado de sua irmã alguns dias atrás. Lívia estava tentando passar no vestibular para conseguir uma vaga em uma universidade pública para o curso de Pedagogia e ela precisava obrigatoriamente ler alguns livros clássicos da literatura nacional. Apesar de gostar de crianças, ela não gostava de ler livros grandes demais, por isso pegou seu exemplar de Dom Casmurro e estava tentando ler. Era uma leitura difícil para uma menina da sexta série do ensino fundamental, mas não era nada que uma ida ou outra ao dicionário não resolvesse. Ler a distraía. Mas nos finais de semana isso se tornava ainda mais difícil.
Havia algum tempo que o casamento de seus pais já não era o mesmo. Honestamente, nunca havia sido sinônimo de calmaria. Sua mãe era insegura, ciumenta e tinha sérios problemas de amor próprio. Seu pai era dono de um temperamento horrível, facilmente irritável e parecia gostar muito mais de futebol e de cerveja do que da própria família. Era engraçado que eles tivessem signos opostos complementares, como Lívia havia dito uma vez, porque isso deveria significar que eram perfeitos um para o outro, mas achava que sua irmã deveria para de ler aquelas revistas do tal João Bidu, porque elas eram visivelmente mentirosas. Seus pais brigavam muito, se ofendiam e aquilo não se parecia em nada com um casal perfeito para a menina de doze anos.
Era por isso que não gostava de finais de semana. Havia o dobro de jogos de futebol na TV, havia festas no bairro, os bares ficavam cheios e seus pais ficavam desocupados. Bem, mais ou menos. Sua mãe nunca ficava desocupada, já que os afazeres da casa eram quase todos por sua conta e ela terminava os dias exausta, mas ainda assim tinha de acompanhar o marido fosse a alguma daquelas festas, no bar mais próximo, ou no quintal daquele vizinho barulhento que sempre reunia os mais próximos para uma bebedeira de sábado e domingo.
sentia medo nos finais de semana. Depois de ler pela quinta vez o trecho em que Bentinho ouvia uma conversa escondido, ela colocou o marcador entre as páginas e fechou o livro, deixando-o em sua cama para espiar pela janela mais uma vez. Dali conseguia ouvir o barulho do som alto, mas a varanda da casa ao lado a impedia de ver o bar da esquina onde os pais estavam. Ela se sentia agoniada. Queria não pensar neles e aproveitar seus momentos de paz, mas não conseguia. Rezava em sua própria cabeça para que Deus os trouxesse logo para casa e que eles não estivessem brigando ou brigassem na volta.
! – um garoto da sua idade gritou lá embaixo, sorrindo animado para ela enquanto saía de casa ao lado da mãe e da irmã – Vamos comer pizza, você quer ir?
O pai de sorriu para ela após fechar a porta da frente e acenou também.
– Você pode vir se quiser,. Podemos pedir aos seus pais. – ele gritou também, tentando soar mais forte que o barulho da música que tomava a rua.
negou, sorrindo agradecida.
– Não posso, meus pais não estão em casa, mas obrigada! – ela sacudiu a mão acenando e viu os quatro saírem no pequeno carro.
sabia que inveja não era algo bonito, mas às vezes ela sentia inveja de . Seus pais eram legais, sua irmã vivia com ele, ele jogava futebol na escolhinha todas as terças e quartas e às vezes competia aos sábados. Eles tinham um cachorro muito fofo também e ela nunca pôde ter um. Sem entender a complexidade daquelas diferenças familiares, se perguntava o porquê da família dela não poder ser como a do amigo.
Naquele domingo ela passou toda a noite alarmada. Tentou voltar a ler, ver TV e até lavou a louça que restava na pia, mas nada fazia aquele sentimento estranho passar. Ela já havia passado por vários outros domingos como aquele e eram eles que justificavam seu comportamento. Quando seu pai bebia as brigas ficavam piores e ela sentia medo antecipadamente. Medo de ver e ouvir tudo novamente, e o pior, medo das coisas ficarem ainda mais graves.
O relógio mostrava que faltavam poucos minutos para a meia-noite e ela estava prestes a subir as escadas novamente quando a porta da frente abriu em um estrondo. Sua mãe passou como um furação ao seu lado e seu pai entrou visivelmente bêbado, trancando a porta com dificuldade. Ela sentiu seu medo aumentar e foi atrás da mãe na cozinha, que bebia um pouco d’água.
– Vocês ainda vão jantar? – ela perguntou à mulher, tentando soar o mais normal possível e tentando iniciar uma conversa que os distraísse.
– Vai dormir, ! Já está tarde!
A menina se encolheu involuntariamente, mas não se moveu. Não podia deixá-los sozinhos.
– O que aconteceu? – sua voz vacilou e ela se assustou quando o pai entrou na cozinha gritando.
– O que aconteceu?! – seu deboche e raiva eram perceptíveis em cada sílaba falada – Aconteceu que a sua mãe é doente, ! Eu já disse isso! A gente precisa internar porque ela é uma re-tar-da-da!
Ele cuspiu as palavras de forma agressiva, apontando para a esposa, mas olhando a filha nos olhos, que tremeu.
– Pai, não fala isso...
– Retardado é você! Eu não sou idiota não, muito menos cega!
– Cega não é mesmo, mas é uma doente!
Era como se a cozinha se tornasse pequena demais a ponto do ar não circular livremente como deveria e como se as paredes fossem cair em sua cabeça a qualquer momento. O corpo pequeno da menina tremia e ela tentava a todo custo não chorar. Em momentos como aquele ela sabia que precisava se colocar entre eles e tentar apaziguar os ânimos da melhor forma que conseguisse.
– Eu não saio da minha casa pra ser desrespeitada na rua! Você bebe e quer ficar agindo como se fosse solteiro?
– Que desrespeito? O que foi que eu fiz? – a risada debochada dele ecoou pelo cômodo – Isso é coisa que você cria na cabeça! Fica inventando as coisas porque é uma doente!
A mãe começou a gritar de volta, se defendendo das palavras duras e agressivas do pai que continuava a bradar como se fossem a maior verdade do mundo. Não havia nada mais angustiante para que situações como aquela. Ela se sentia pequena e impotente, tão assustada que só conseguia pedir para Deus que a ajudasse, que lhe enviasse força para apartar mais uma briga.
– Você acha que eu vou ficar calada enquanto eu te vejo se insinuar pra vagabunda de rua?
Foi em um segundo que ele avançou na direção da mulher mais velha, com ódio transbordando nos olhos e só parou porque se colocou entre eles implorando e forçando suas mãos na barriga do pai. Não evitou, no entanto, que os braços longos dele chegassem até o tronco de sua mãe e as mãos a empurrassem com uma força desmedida.
– Pai, por favor!
Seu grito ecoou no mesmo momento em que ouviu o armário da cozinha sacudir com o impacto das costas da mãe contra ele. Seu desespero quase a fizera vomitar, mas a pequena se manteve firme entre eles, com lágrimas nos olhos e mal enxergando a figura da mulher que agora estava caída no chão, também chorando.
– Que vagabunda? Eu sou algum palhaço, por acaso? Doente! Sua doente!
– Doente é você! O que é? Vai me bater? Me bate! Covarde!
O homem rosnou e viu seu rosto inchar pela respiração pesada ao que ele levantou os punhos em direção a sua mãe. Apavorada, ela não pôde controlar o choro e grito de desespero.
– Pai! Pai, por favor! Pai, eu tô aqui!
Ele se virou em um rompante, passando as mãos nos cabelos, como se tentasse se controlar. olhou para os lados assustada, pensando em pedir ajuda, mas não conseguia se mover e também sentia vergonha. Vergonha dos gritos, vergonha dos xingamentos, vergonha de como era sua vida naquele momento.
– Desgraçado! Eu faço tudo nessa casa! Eu me mato de trabalhar pra viver nesse inferno! – a mãe desabafou, gritando.
– É um inferno mesmo! E gente só vive junto ainda porque eu te aturo! Ninguém ia aguentar viver com uma mulher doente!
– Para de me chamar de doente! – ela gritou de volta ainda mais alto e sabia que a discussão já podia ser ouvida do lado de fora.
– Mãe, por favor... Pai... – a menina chorava entre ele, alarmada, tentando fazer com que eles olhassem para ela e vissem que ela estava assustada e sofria.
Era uma das coisas que ela não conseguia entender. Como eles podiam fazer aquilo na frente dela? Como seu pai, aquele que devia lhe amar e lhe proteger podia agredir sua mãe daquela forma? Por que estavam juntos se era para ser tão doloroso? Como tinham chegado a uma situação tão degradante. era só uma criança, não entendia muitas coisas, mas ela sabia que nada daquilo estava certo.
, sobe! – o pai falou, soando grosseiro.
– Não vou sair daqui... – ela disse fraco e baixo, mas convicta.
Virou-se para a mãe e a ajudou a se levantar, percorrendo seu corpo com os olhos assustados, procurando qualquer indício de que estivesse machucada pelo empurrão.
– É sempre assim... – o homem começou, rindo em deboche ao ver a esposa se apoiando na filha para levantar – Você sempre fica do lado da sua mãe. Eu sou sempre o errado! Mesmo que ela só faça besteira.
quis retrucar. O que a mãe fizera de errado? Era sempre ele quem agredia, gritava e lhe dava motivos para ser tão insegura com tudo. Ele nunca admitia e a pequena sabia que de nada adiantava falar. Ela não tinha forças. Tudo o que poderia fazer no momento era tentar acalmar os ânimos.
– Pai, não é isso. Ela está-
– Vou dormir! – ele a interrompeu, saindo do cômodo para subir as escadas – Eu posso colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo. Será que a sua mãe, pode?
O cinismo do homem confundia a mais nova. Ele sempre dava um jeito de colocar toda a culpa na mãe. Fosse por seus ciúmes, fosse por sua insegurança. podia não saber o nome daquilo, mas ela descobriria mais tarde que não era incomum e muito menos que se restringia à figura masculina de seu pai.
Assim que ele sumiu andar acima, ela se voltou para a mãe, que chorava silenciosamente. Não sabia o que dizer, então apenas a abraçou, envolvendo seus braços na cintura dela e descansando a cabeça em sua barriga.
– Não fica assim, mãe... – ela começou, ainda ouvindo o choro baixo da mais velha.
Queria dizer que não aguentava mais aquilo, queria pedir para que fossem embora, mas achava que a mãe estava sofrendo o suficiente para o momento e merecia descansar.
– Eu vou subir e tomar um banho. – a mulher se afastou brevemente, levando uma das mãos aos cabelos da filha – Verifica se a casa tá bem trancada. Eu vou deitar no seu quarto, ok?
A menina apenas concordou com a cabeça e ficou observando a mãe subir, atenta a qualquer barulho no andar de cima, com medo de que o pai ainda estivesse acordado e a briga pudesse recomeçar. Aliviada pelo silêncio que se seguiu, ela verificou todas as trancas nas janelas e na porta da frente. Seguiu para a cozinha e saiu pela porta dos fundos, só querendo pegar um ar e desceu os pequenos degraus do quintal, onde se sentou. Seu momento sozinha não durou muito, já que logo um enorme Golden Retriever estava lambendo seus pés descalços e ela nem notara a aproximação.
– Oi, .
levantou a cabeça e estava lá, lhe dando um sorriso pequeno e acolhedor, ao que segurava a coleira de Nero. A menina imediatamente secou as lágrimas e sorriu, afastando-se para o lado para que o amigo pudesse se sentar também.
– Oi, . Oi, Nero. Como foi na pizzaria? – ela perguntou enquanto fazia um carinho na cabeça do animal, passando seus dedos pequenos pelo pêlo macio e amarelado.
– Foi muito legal! Derrubei mostarda no vestido da Mali. – o menino riu e se sentiu feliz porque riu também – Você deveria ter ido... Você tá bem?
tinha ouvido parte da briga e estava preocupado. Sua mãe havia dito para não tocar no assunto, e que conversaria com a mãe de no dia seguinte, mas o garoto não conseguiu se segurar. Não era a primeira vez e ele gostaria de poder levar para morar com ele. Seus pais até brigavam, mas sempre riam no final.
– Eu tô sim, . – ela tentou desconversar, sorrindo para ele, mesmo que quisesse chorar.
– Nós ouvimos os gritos. – o garoto abaixou a cabeça ao revelar – Sua mãe tá bem? Você pode dormir lá em casa se quiser...
– Ela foi dormir e vai ficar bem. – ela deu de ombros, envergonhada – Obrigada, , mas é melhor ficar em casa mesmo.
O menino se mexeu desconfortavelmente ao seu lado. Não gostava de saber que as coisas não estavam bem na família dela e seu peito doía porque ele sabia que no dia seguinte, na escola, ela estaria sorrindo como se nada tivesse acontecido. queria poder ajudar, mas não sabia como.
– O que... O que aconteceu? – a pergunta veio baixa e vacilante, mas ele não conseguiu guardá-la para si.
– O papai, como sempre. Quando ele bebe demais fica pior e eles brigaram por causa de algo que ele fez. Ainda não sei bem o que.
– Eles vão ficar bem?
– Vai demorar um ou dois dias – respondeu, distraída com o cachorro sentado entre eles –, mas eles sempre fazem as pazes.
não entendeu porque ela parecia tão triste ao dizer aquilo.
– Sinto muito, . Se você quiser ir lá pra casa amanhã depois da aula, você pode. Eu tenho novos gibis do Homem Aranha.
– Jura? – ela sorriu, olhando para ele novamente – Eu quero.
– Vou pedir pra mamãe fazer bolo!– ele sorriu ainda mais, feliz por vê-la se animar. Sempre dava certo colocar o herói favorito da menina no assunto.
! – a voz da mãe do garoto foi ouvida e logo ela surgiu saindo da porta dos fundos da casa deles – Meu filho, era só para dar uma volta com o Nero, já está muito tarde.
Ela se apoiou na cerca baixa que separava os dois terrenos e avistou os dois juntos, sorrindo para ambos.
– Oi, . Tudo bem, querida? Venha aqui.
Ela chamou e os dois se levantaram ao que a menina assentiu, se aproximando da mais velha.
– O que você faz aqui fora? Já está tarde e vocês têm aula amanhã.
– Eu estava trancando as portas e o apareceu.
– Está bem. Melhor você entrar e descansar. Se precisar de qualquer coisa, tem o número de nosso telefone, não é? – a menina balançou a cabeça levemente, juntando as duas mãos em frente ao corpo – Então vá. Boa noite!
– Boa noite, ! Te espero amanhã. – empurrou as tábuas soltas na cerca e deixou Nero passar para o lado de sua casa e se aproximou da amiga para abraçá-la – Por favor, não fique triste. – ele pediu baixinho e a soltou depois, sorrindo para ela antes de passar para o lado de sua mãe.
– Boa noite, ! Boa noite, senhora !
acenou e caminhou até a porta novamente, soltando o ar de um jeito pesado. Gostava de te e sua família por perto, mas ficava triste porque queria ser como eles.
A menina trancou a porta da cozinha e subiu as escadas em silêncio, voltando a ficar apreensiva. Com todo o cuidado do mundo, girou a maçaneta da porta do quarto dos pais e suspirou aliviada ao ver que o homem dormia pesadamente e roncava bem alto, como sempre acontecia quando ele bebia. Ele estar sozinho no quarto significava que sua mãe estava no seu, como comumente fazia quando brigava com o marido.
Seguiu no corredor até seu quarto e encontrou a mãe deitada em sua cama, encolhida no lado da parede. Seu rosto parecia cansado e ainda estava avermelhado pelo choro.
– Você demorou.
– Estava falando com o . – ela respondeu, sentando-se ao lado da mais velha – A senhora está melhor?
– Vou ficar. – a mulher sorriu fraco e se arrastou mais para o lado quando a filha se deitou também na cama.
Um silêncio incômodo estava entre elas. A mãe e sentia envergonhada e impotente e tinha tantas perguntas.
– Mãe... – ela começou, se aprumando entre os lençóis – Queria que as coisas fossem diferentes.
Doía para a mulher ouvir aquilo. Sabia que a filha sofria e se sentia responsável por isso, mas ela não via saída. Já não era mais tão jovem para começar uma vida nova e não conseguia suportar nem a ideia de viver sozinha. No fundo, ela ainda tinha esperanças de que o marido mudasse.
– Um dia elas vão ser, . Um dia as coisas pra você vão ser muito diferentes. Eu prometo.

Julho, 2017
Os barulhos de seus saltos ecoavam alto pelo contato forte com o piso de madeira polida. Com a pasta onde guardava o processo nos braços, caminhava até a sala de audiência, acompanhada da nova estagiária do Ministério Público.
– Esse é um caso com vítima de lesão corporal grave – ela começou a explicar para a moça a seu lado, que beirava seus dezoito anos e a olhava com certa admiração –, mas com uma complicação que eu gostaria de dizer que é incomum, mas não é.
A mulher parou em frente à porta da sala, arrumando o blazer preto por cima da blusa branca de cetim, que combinava com a saia preta com finos riscos brancos. Sua expressão se tornava completamente diferente quando estava prestes a entrar em uma audiência e a jovem estagiária podia jurar que a promotora estava mais alta que o normal e não era só por causa dos saltos.
– Tem uma possível mudança de depoimento aqui, mediante o perdão da vítima com relação ao agressor. – ela voltou a falar, abrindo a pasta amarela e percorrendo as folhas com os olhos mordazes – Ela me procurou na semana passada pra interromper o processo, se reconciliou com o marido e não quer que ele vá a julgamento. E você sabe...
– Lesão corporal grave é ação penal pública, não existe nenhum condicional para ela. A vítima não pode interromper o andamento do processo por livre e espontânea vontade.
– Exatamente. – ela sorriu e colocou a mão na maçaneta – Vamos entrar e ver como isso se desenrola.
Em seguida empurrou a pesada porta de madeira de uma das salas de audiências do prédio do Ministério Público do Estado e entrou com a estagiária ao seu lado. Vítima e agressor já estavam presentes, assim como o advogado de defesa do rapaz. percebeu que o acusado tinha o semblante tranquilo, quase feliz, e sabia que aquilo significava que ele e a vítima, sua esposa, tinham feito algum tipo de trato para que ele saísse impune do caso.
Como ela havia dito à estudante, esses casos não eram incomuns, mas a preocupavam sempre. Faziam-na ter ainda mais certeza de que a Justiça sozinha não sanaria o problema da violência contra as mulheres, e que era preciso ir a fundo, nas raízes do problema que faziam uma mulher permanecer em um relacionamento com um agressor, como se não houvesse saída ou opção melhor, ou ainda, como se ela não pudesse estabelecer sua felicidade sozinha. Era por causa desse ciclo que parecia infindável de cultura da violência, que naturaliza casos como aquele que ela tratava, que a jovem promotora não descansava. Todo o seu histórico de violência familiar, todas as lutas e horas de terapia até que sua mãe conseguisse quebrar o ciclo pessoal de violência e se separar de seu pai, fizeram-na escolher o Direito e a lutar vigorosamente para encorajar mulheres a denunciarem e a se fortalecerem para enfrentarem seus agressores. Ela sabia, no entanto, especialmente quando precisava lidar com casos como o em questão, que era preciso mais do condenar e punir. Existia um caminho doloroso pela frente e o que mais a angustiava nas mudanças em longo prazo era o número de mulheres que ainda sofreriam nesse caminho.
Quando a juíza adentrou o espaço, todas as pessoas presentes se colocaram de pé e ela começou a audiência, lendo o processo e comunicando o andamento às partes. Não demorou para que a vítima pedisse a palavra.
– Doutora, eu entendo tudo que a senhora disse – ela começou hesitante, a voz baixa e desviando o olhar para o marido diversas vezes –, mas eu restabeleci meu casamento. Perdoei meu marido. – ela olhou para ele novamente, recebendo um sorriso encorajador – Não gostaria que o processo continuasse. Queria pedir para que isso terminasse por aqui.
respirou fundo ao lado da mulher e apoiou a mão direita no queixo enquanto observava a reação satisfeita do marido, em seguida, olhou para a feição impassível da juíza já conhecida por ela, que olhava a jovem mulher esperançosa por cima dos óculos quadrados.
– Vossa Excelência, se a senhora me permite a palavra... – ela começou, arrumando a postura.
– À vontade, promotora.
– Senhora, fico feliz que tenha reconstruído sua família – desviou o olhar dela para o marido e seu advogado –, mas o processo vai continuar.
assistiu o exato momento em que a expressão do homem mudou para um ultraje típico e verificou a mulher ao seu lado se assustar brevemente e de imediato olhar para o marido, do outro lado da mesa.
– Existem alguns crimes que a senhora pode sim dizer que não quer mais o processo, se a denúncia ainda não foi recebida ou se o processo ainda não começou, como o crime de ameaça, por exemplo, e outros crimes condicionados à representação. – ela cruzou as mãos na mesa ao explicar, sempre alternando o olhar entre o casal – Neste caso não. O que o senhor fez – ela virou para o homem, que já tinha a aparência nervosa –, já está na mão da autoridade, que sou eu, a promotora de Justiça, então não tem como passar uma borracha nisso tudo.
– Mas nós-
O advogado o interrompeu imediatamente, olhando para a juíza para pedir permissão para que seu cliente falasse, mas ela logo concedeu com um aceno de cabeça, e ele continuou.
– Nós concordamos que ela iria pedir para encerrarem isso. Já estamos bem! Não precisa mais disso! – a voz ligeiramente alterada dele fez a esposa tencionar toda a postura, e aquilo fez se alertar.
– Eu entendo, mas isso não vai acontecer. – ela afirmou, resoluta – Sei que o senhor ficou chateado, percebo que está ficando com raiva – ela alfinetou, uma característica típica que não a abandonava nunca nas audiências –, mas se o senhor for ficar com raiva de alguém fique com raiva de mim, que sou a promotora, não da sua esposa. Ela manteve o combinado de vocês, então espero que essa audiência não seja motivo para uma quebra na reconciliação de vocês – ela o olhou mais intensamente dessa vez –, que eu tenho certeza que a autoridade responsável no julgamento irá levar isso em consideração.
Em pouco tempo a audiência terminou e assistiu o casal sair tenso, seguidos do advogado e ela respirou fundo novamente, massageando as têmporas com os dedos antes de levantar para sair da sala.
– Ele não ficou nada feliz com a sua fala. – a estagiária comentou quando saíram e a promotora riu sem vontade, concordando.
– É típico deles, mas o importante é que o caso prossiga.
As duas continuaram pelo corredor do prédio até cruzarem com um rapaz alto e negro, de terno cinza com uma pilha de processos nas mãos.
– E aí, como ficou o caso? – Bernard, seu colega na Promotoria de Justiça da Violência Doméstica Familiar Contra a Mulher, perguntou curioso.
– O que eu falei pra você que aconteceria. – ela deu de ombros antes de retirar o blazer e o segurar nos braços junto com a pasta – Ela pediu para interromper o processo, eu obviamente disse que ele iria continuar e o acusado ficou estressadinho.
Bernard riu pela forma irritada como falava, com uma ponta de deboche ao se referir ao homem.
– Você sabe o que vem agora... – ele continuou, mais sério – Ela vai mudar todo o depoimento diante do juiz e vai complicar tudo.
– E eu não sei? – ela bufou ao começar a subir o lance de escadas do prédio antigo – Espero que o caso seja direcionado a um juiz sensível a causa e sem nenhum tipo de afinidade com a 9.099.
Ela rolou os olhos, referindo-se à Lei de Conciliação da chamada Justiça Restaurativa, que não agradava nem a ela e nem aos outros dois promotores com quem trabalhava. O método de conciliação, conversa e mediação podia ser excelente em outras áreas, mas nos casos de violência doméstica ele se tornava extremamente delicado, podendo resultar em perda das mulheres para óbito, como ela já vira acontecer várias vezes.
– Se você precisar de qualquer coisa... – o homem sorriu quando pararam em frente ao gabinete dela.
– Obrigada, Bernard – ela sorriu de volta, segurando o braço do amigo –, e boa sorte com isso tudo. – apontou para a pilha que ele carregava e ambos riram antes de se despedirem.
Esticando as costas, ela adentrou sua sala e caminhou até sua mesa, jogando-se na poltrona confortável logo em seguida. Ainda tinha muito trabalho pela frente, mas estava focando na folga do dia seguinte.
– E então, Luci? – ela chamou a mais jovem, de pé ao lado de sua mesa, empilhando as pastas amarelas – Temos o quê? Quatro mil processos?
– Um pouco menos do que isso – ela riu –, mas só um pouco.
– Então vamos trabalhar, né?
sorriu de volta, tirando os saltos por debaixo da mesa, arrumando os cabelos e focando no primeiro processo do dia, fazendo o que ela mais gostava de fazer na vida, o que lhe dava vontade de viver e mudar as engrenagens obsoletas da sociedade.
Estava apenas um ano à frente daquela Promotoria, vindo de uma permuta com uma colega grávida que precisava de uma Vara mais tranquila no período de gestação. Ela então deixou a cidade pequena do interior, onde vivia desde o fim do mestrado e onde estava à frente de uma Vara Criminal que não tinha o nem um terço dos processos que tinha agora. Não tinha do que reclamar, no entanto. O que fazia era justamente o que sempre quis fazer e não existia milhas de processos que a fizessem desanimar.
À noite, enquanto subia pelo elevador até seu apartamento, ela encarava o painel que mostrava os andares, distraída entre o cansaço e a frustração. Arrastou-se pelo corredor até a porta e girou a chave na fechadura, louca para retirar os sapatos enquanto fazia uma nota mental para parar de esquecer os chinelos para trocar no caminho quando dos dias eram difíceis demais.
Um sorriso de alívio brotou em seus lábios, no entanto, assim que abriu a porta e viu a enorme bolsa da Topper em seu sofá. O barulho que vinha da cozinha também denunciou seu visitante preferido, que era praticamente de casa. se equilibrou na entrada, tirando os sapatos e os deixando no carpete ao lado dos tênis dele e colocou seu chaveiro pendurado no local adequado.
– Você e seu ótimo timing! – ela gritou para que ele pudesse ouvir enquanto se jogava no sofá cor de pérola, largando a bolsa e a pasta na mesinha de centro – Já disse que te amo hoje?
Seu sorriso se tornou ainda maior ao ouvir a risada tão familiar dele atrás de si e ela logo o viu contornar o sofá e parar de frente para ela, secando as mãos em um pano de prato, com Yin, a gatinha preta de olhos amarelados, em seus calcanhares. Estava vestido em seus trajes esportivos habituais: a bermuda larga de tecido levinho e a camiseta do time para o qual trabalhava como preparador físico, que não por acaso era o mesmo time para o qual torcia desde criança.
– Ainda não – ele jogou o pano por cima do ombro e apoiou as mãos na cintura –, mas você pode e vai fazer isso depois de provar a minha macarronada.
– Metido! – ela riu, vendo-o fazer o mesmo, e logo bateu no lugar ao seu lado no estofado, indicando para que ele se sentasse, coisa que ele fez de imediato ao que ela pegava a gatinha no colo – Como você adivinhou que eu precisava de companhia?
perguntou com a voz mais leve, encostando a cabeça no ombro dele assim que o rapaz passou o braço pelos seus, puxando-a para um abraço de lado. O mesmo abraço de anos. O mesmo aconchego que era seu lar mais pacífico. tinha um dom na vida e não era deixar jogadores de futebol viciados em cerveja e torresmo totalmente atléticos. Seu dom era ser a calmaria para .
sorriu, olhando para ela fazendo um carinho na gata com os dedos enquanto descansava em seus braços, parecendo completamente exausta. O que não era incomum para a ilustríssima Promotora de Justiça dos quatro mil processos por dia.
– Percebi quando você respondeu minha mensagem monossilabicamente. – eles riram juntos e passou a deslizar os dedos pelos cabelos dela, fazendo-a fechar os olhos – Dia difícil?
bufou e ele se preparou para o discurso.
– Já tive piores, mas tem um caso me tirando do sério. – se ajeitou no sofá para que pudesse encará-la – Prefiro que a gente fale disso depois, pode ser? Esse cheiro de molho branco tá enevoando toda a minha mente!
– E você acha que eu vou implorar pra você falar palavras difíceis e números de leis que eu não conheço? – ele implicou, fazendo a mostrar a língua.
– Ridículo! – ela o empurrou e colocou a gata no chão – Vou tomar um banho e já volto. Cadê a Yang? – perguntou sobre a outra gatinha, olhando pela sala e não a encontrando.
– Deve estar na área de serviço. – respondeu, apoiando os dois braços no encosto do sofá, observando a amiga se levantar – Já alimentei as duas, pode tomar seu banho tranquila.
Ele piscou para ela e sorriu, jogando-se no colo dele repentinamente, fazendo-o gargalhar.
– Você é mesmo o único homem que eu amo nesse mundo! – deixou um beijo na bochecha dele e saiu rumo a seu quarto, deixando sorrindo para trás.
Vinha sendo assim entre eles desde que ela voltara para a capital e assumiu o cargo na Promotoria. Os anos que ela passara no interior não os afastou, mas desde a volta eles amadureciam aquele relacionamento de anos que parecia não ter mais nada de novo para experimentar. As festas e bebedeiras de faculdade ficaram para trás e a chegada dos trinta já não os fazia tão dependes de companhias amorosas. Quando os finais de semana livres chegavam, um estava sempre na casa do outro, onde eles compartilhavam o de sempre.
– Você é muito desgraçado, ! – ela xingou, fazendo ele se engasgar com a comida ao rir – Isso aqui tá tão bom assim ou eu que estou com muita fome?
– Deixa de ser ridícula! – ele riu, empurrando a mão dela por cima da bancada de mármore da cozinha – Conta logo sobre o tal caso.
A careta que se formou em seu rosto fez rir novamente, não deixando de notar como cada pedacinho dela era adorável e como ele nunca deixava de perceber isso mesmo quando ela estava com os cabelos desarrumados, um blusão do Snoopy e calças de moletom. Ele se achava sortudo por ser alguém que poderia conhecer cada face dela, cada diferente que existia dentro daquela armadura de ferro que ela própria adornara para si, para se proteger daquilo que tanto a machucou quando mais nova.
– Lembra daquele caso de agressão grave que eu te contei? – ela começou, apoiando o pé na cadeira para ficar mais confortável – Aquele que a vítima veio me procurar e tudo mais? – ele assentiu enquanto comia – A primeira audiência foi hoje e ela deu o mesmo discurso de querer interromper o processo e eu obviamente disse que isso não ia acontecer. O agressor ficou putinho lá. – riu pelo modo como ela contava – O caso é que ela não se contentou e foi batendo nas portas dos Tribunais e encontrou um desembargador que acolheu o novo depoimento dela. Ele pediu despronúncia e eu nem de onde ele tirou isso! – bufou, colocando mais uma colherada na boca.
– E você não pode fazer nada? – perguntou, imaginando o quanto ela deveria estar frustrada com a situação, odiava quando atrapalhavam seu trabalho.
– Não posso, ! Temos independência funcional. Ele é procurador, ela transformou tudo num caso de acidente doméstico e um processo que já estava pronto para ir a julgamento vai acabar em impunidade!
– Puta merda, . Sinto muito. Não tem mesmo nada que você possa fazer? – ele perguntou, sensibilizado, pois sabia que aquilo significava mais do que trabalho para ela.
– Honestamente, acho que não. Vou conversar com Bernard na segunda.
– Espero que isso se resolva, de verdade.
segurou sua mão por cima do mármore frio e sorriu pequeno, feliz por tê-lo para desabafar aquelas frustrações diárias. Não era a primeira vez e nem seria a última, infelizmente.
– Obrigada por ter vindo. Eu ouvi no rádio que o time ganhou. Você não deveria estar em alguma festa de comemoração com seus jogadores? – olhou para ele por cima do copo de suco ao terminar de perguntar.
– Ainda tô me recuperando da festa do Diguinho de domingo. Eu não tenho mais o mesmo pique, .
A mulher gargalhou ao levantar e começar a recolher os pratos.
– Você é preparador físico, meu querido. Pique não deveria te faltar. Mas eu sei, é a faixa etária, né? – ela gargalhou novamente – Aquele lateral direito bonitinho que arrebentou no estadual tem o quê? Dezenove anos?
levantou o dedo do meio para ela, que continuou rindo.
– Desde que subimos pra série B a faixa etária tem diminuído. Daqui a pouco os moleques estão te chamando de tio!
A risada gostosa dela acabou fazendo o rapaz rir, mesmo que ele quisesse implicar de volta.
– Não esquece que temos a mesma idade, doutora. – ele chegou ao seu lado na pia, cutucando seu ombro.
– Não tenho problemas com minha idade. – ela deu de ombros enquanto enxaguava os pratos.
– Nem eu, né? Você que inventa! – ele respondeu e partiu para a sala, ainda ouvindo-a rir sozinha.
– Você tem sim, ! – ela o acusou, entre risos – E todo aquele papo sobre os seus amigos estarem todos casados ou casando, com filhos ou planejando eles?
rolou os olhos ao se jogar no sofá, depois de empurrar sua bolsa para o chão. Ele alcançou o controle da TV ao respondê-la.
– Foi só o impacto de ter que mandar fazer um terno sob medida – ele enfatizou as palavras, fazendo uma careta – para o casamento do Lipe. É o Lipe, cara!
Ainda rindo, secou as mãos no pano de prato e apagou as luzes da cozinha ao rumar para a sala com duas latinhas de cerveja.
– E daí? Ele seria um idiota se deixasse a Liah ir pra continuar a viver aquela vida ridícula que ele tinha desde a faculdade. – fazendo uma careta forçada de nojo, ela empurrou a latinha em direção ao amigo antes de se sentar ao seu lado.
– Falou a que super planeja se casar com o homem da sua vida que está por aí em algum lugar do mundo... – ele implicou, tomando um gole do líquido gelado.
fez um som de desgosto ao se ajeitar no estofado, acomodando as almofadas em suas costas e passando as pernas por cima das coxas do amigo, que colocou seus braços ali despreocupadamente.
– Deus me dibre! Nem de homem eu gosto!
Aquela afirmação, tão comum para ela, fez gargalhar, jogando a cabeça no encosto do sofá, fazendo a amiga rir junto. era alguém que, de fato, não gostava muito do sexo oposto para o quesito relacionamentos. Não que não fosse hétero, coisa que se fosse uma escolha, ela preferiria. Amar uma mulher seria muito mais acolhedor. Havia, no entanto, todo o plano de fundo de sua infância e adolescência vivendo o relacionamento conturbado de seus pais que a fizeram uma adulta completamente avessa àquela velha ideia de amor romântico. Ela não conseguia sequer suportar a ideia de se dedicar a um homem e correr o risco de esquecer de si mesma. Sabia que não havia a possibilidade de que um relacionamento entre um homem e uma mulher, em uma sociedade baseada em uma ordem patriarcal, fosse sinônimo de equidade. Ela era radical àquele ponto. já se acostumara com isso e tinha visto, ao longo de todos aqueles anos, ser quem terminava quando as coisas chegavam “longe demais”, segundo ela. Quando as intimidades começavam a dar brechas para as coisas rotineiras e as cobranças, ela saia de cena tão rapidamente quanto entrara.
– Você é o único homem que eu quero aqui. O único que eu minimamente aceito largando camiseta suada de futebol na minha poltrona.
riu e tomou mais um gole da bebida antes de voltar o olhar para a TV, que passava uma das animações favoritas deles, Monstros S.A. soltou um riso anasalado, balançando a cabeça.
Você é o único homem que eu quero aqui. Podia muito bem ser uma declaração de amor. Poderia ser dizendo que o amava daquele jeito. Ele sabia que não era nada daquilo, mas seu coração insistiu em adiantar uma batida tão fortemente que ele quase levou a mão ao peito para acalmá-lo. já havia se acostumado em ter aquele amor como platônico para sempre. Bastava-lhe o amor amigo de sempre, desde que pudesse tê-la por perto.
Quando ainda eram jovens demais para saber de amor, Mali havia lhe dito, de um jeito bem irritante e pretensioso: você gosta dela, seu bobão. Alguns amiguinhos da escola já diziam namorar, juntavam os trocados do lanche para levarem as meninas, de mãos dadas, até a sorveteria mais próxima. assistia tudo aquilo sabendo que jamais teria coragem de pedir a um tempo daquele, pedir que ela segurasse sua mão em uma sorveteria de esquina, quando ela tinha coisas muito mais importantes e nada fáceis para se ocupar. Ela costumava dizer que aquilo era perda de tempo, e realmente, nunca se interessara em garotos como as meninas de sua idade. não tinha tempo e nem ânimo para namoricos.
Quando entraram para universidade, ele a viu se envolver com alguns caras, nunca de forma duradoura, e quis muito ser um deles, que podiam tocá-la e abraçá-la pela cintura nas festas do campus. Sabia que o que tinham era muito mais profundo e verdadeiro, mas não conseguia não se sentir um tanto vazio. Em uma noite de festa de recepção de calouros no segundo ano de graduação deles, enquanto riam e brincavam de jogar água um no outro na piscina, quase a beijou na boca. Estava a abraçando por debaixo d’água enquanto ela se debatia, fingindo-se de brava por ele ter espirrado água bem em seus olhos. Ele tentava beijar suas bochechas para fazê-la rir e seus lábios se encontraram sem querer. não conseguia lembrar de outro momento em que quis tanto beijar alguém. Naquele dia, só riu e espirrou água nele de volta, não parecendo abalada nem a metade do quanto ele estava.
– Espero que quando eu tiver que fazer um traje pro seu casamento – ela voltou a falar, fazendo voltar a enxergar os desenhos na TV –, você não esqueça a sua amiga eterna solteira aqui.
Dito isso, largou a latinha já vazia e se jogou no colo dele, abraçando seu braço desnudo e tatuado com certa força, como se ele pudesse escapar dali a qualquer momento. riu fracamente, sentindo seu coração se expandir ao tê-la ali encolhidinha ao lado dele.
– E se eu for seu amigo eterno solteiro também? – ele perguntou, olhando para ela no momento em que ergueu o rosto para ele, que tomava o último gole da cerveja.
– Você? – ela perguntou, parecendo muito esperta – Duvido! – riu, encostando a cabeça no ombro dele – Você sempre quis uma família enorme e linda igual a sua, ! Eu é que nunca tive essas pretensões.
– Sei lá – ele deu de ombros, passando um dos braços por suas costas –, a gente muda e eu não quero mais alguém agora.
Eu não quero mais alguém porque sempre quis você. – Para, ! – empurrou uma de suas coxas – Não vai na minha onda! – ela riu.
– Ué, você sempre disse que não tinha nenhum problema nisso... – ele começou, dessa vez ligeiramente confuso com a reação dela.
– E realmente não tem pra mim – ela se afastou um pouco para poder olhá-lo nos olhos –, mas essas coisas são importantes pra você. Uma casa enorme e linda como a que você e Mali cresceram, crianças brincando com cachorro no quintal... – ela sorriu como se imaginasse, o que o fez sorrir também – Viu? É isso!
riu e largou o corpo no sofá depois de se inclinar para deixar a lata na mesinha. Apoiou os braços no encosto do estofado e jogou a cabeça para trás. admirou seu perfil bonito e com o maxilar bem marcado e soube que no dia em que aquelas coisas se tornassem concretas ela teria enorme dificuldade em abrir mão dele daquele jeito, pois ele era o único que ela deixara entrar em seu coração. Com esse pensamento, ela também apoiou a cabeça no encosto do sofá, de lado, e continuou o encarando até que ele virasse em sua direção. Seus olhos francos e sonolentos, parecendo fofos ao combinarem com as sobrancelhas grossas a fizeram sorrir.
– Eu não vou a lugar nenhum. – ela falou mais baixo, fazendo seu coração pular de um jeito que só acontecia com ele – Não quero ir a lugar nenhum.
Os lábios de se repuxaram em um sorriso pequeno e agradecido. vivera com ela os seus piores e melhores dias, então ela não se sentia culpada por se sentir feliz em não precisar abrir mão daquilo tão cedo.
– Não vou fingir que não sou um pouquinho egoísta e não gosto disso.
Ele riu e apertou o nariz dela antes de puxá-la para um abraço acolhedor e apertado, fungando por entre seus cabelos e em seu pescoço. desejou, naquele momento, que os motivos pelos quais o coração dela batia mais forte fossem os mesmos que faziam o seu bater mais rápido em seu próprio peito.

Outubro, 2017
– De quem foi essa ideia ridícula de irmos dirigindo mesmo? – uma irritada com as risadas sem sentido de , perguntou.
– Sua! – ele acusou, ainda rindo – Vamos no seu carro, é melhor do que ficar dependendo de alguém na hora de voltar. – ele imitou a voz dela, fazendo-a rolar os olhos, mas por fim, rir.
Estavam voltando do casamento de Lipe e Liah, no município vizinho, depois de um dia inteiro de festa. A cerimônia ocorrera às margens de um lago superficial em uma lindíssima propriedade rural que alugava seus espaços para eventos do tipo. Lipe falara por três meses inteiros sobre como ele passaria a vida pagando aquilo, mas no fim das contas, e nunca tinham visto o amigo tão genuinamente feliz e emocionado. A noiva chegara sozinha, montada em um belíssimo cavalo de pêlo marrom, apaixonada por animais de fazenda como era, e toda a celebração se desenrolou em um clima festivo e emocionante.
– Deveríamos ter aceitado a carona do Neto.
– Tá maluco?! – riu, indignada – Ele bebeu mais que a festa inteira! – riram juntos, lembrando do amigo dos tempos do colégio – Eu ainda quero viver uns bons anos.
– Então larga de ser reclamona!
– Ah! – ela exclamou, finalmente entrando no bairro do amigo – É só que a gente devia ter pensado em outra solução. Eu não bebi nadinha por causa disso!
gargalhou pela forma como ela disse a última frase, fazendo um bico que ele acharia fofo em outra situação.
– Você que não quis dormir lá.
– E pagar uma fortuna por umas duas horas de sono?
– Você é muito mão-de-vaca, promotora!
– Nem vem! – ela riu, largando o volante por um momento para empurrá-lo de lado – Você também achou o preço absurdo.
– Mas eu disse que se você quisesse eu pagaria... – ele deu de ombros e apenas sorriu.
– Chegamos! – ela anunciou, esperando o porteiro noturno abrir a porta automática da garagem – Pronto, fim de papo. Dormimos na sua casa, que é de graça.
– Dormimos? – ele perguntou, arqueando uma sobrancelha na direção dela, que já se livrava do cinto e inclinava o corpo para o banco de trás, a fim de pegar suas coisas.
riu, ocupada em segurar sua bolsa de mão e todas as coisinhas que trouxera da festa. Os brindes, os bem-casados, o centro de mesa fofinho que era um arranjo de uma flor silvestre que ela não conhecia, e mais uns doces que insistiu em enfiar no meio de sua cesta.
– Dormimos! – ela respondeu, finalmente segurando tudo nos braços e esperando que ele trancasse o veículo – Toda essa coisa de ver o Lipe casando, todas aquelas pessoas que lembram a nossa infância e tudo mais – ela explicou, caminhando com ele até o elevador –, você sabe, não é um bom dia pra ficar sozinha lembrando do passado porque em vez de pensar nas coisas boas, como fizemos na festa, vou pensar nas ruins.
Ela fez um barulho de desgosto com a boca, dando de ombros. Apesar de ser sério e delicado, falava do assunto com muita naturalidade. Já havia aprendido a lidar com suas dores e seus traumas relacionados ao pai. Sequer precisava explicar para , já que ele sabia daquilo melhor do que ninguém.
– Tudo bem, eu sei que você ama a minha cama. – ele sorriu, entrando com ela no cubículo de aço – E você parece a minha avó com todas essas coisas aí!
olhou para os próprios braços e riu com ele, jogando a cabeça para trás. O que ela poderia fazer? Amava brindes!
– Tem certeza que podia trazer esse vaso? – ele perguntou, só por implicância – Amanhã o pessoal da decoração vai fazer a contagem e vão dar falta de um.
– Besta! – ela mostrou língua, sem conseguir parar de rir – Mamãe e Lívia também pegaram.
– Nossa, três! – ele balançou a cabeça, fingindo uma feição de preocupação – Pobres de Lipe e Liah, vão ter que pagar pelos vasos roubados.
Gargalhando, o empurrou com o ombro e saiu do elevador, ouvindo-o rir junto antes de abrir a porta. O apartamento de era ligeiramente maior que o dela, especialmente a sala, que contava com um espaço enorme já que ele recebia visitas muito mais do que ela, o que significava muitos caras jogando FIFA ou assistindo partidas de basquete, nada muito mais elaborado do que isso. colocou cuidadosamente suas coisas na mesinha de centro, enquanto ele fechava a porta, e logo em seguida se jogou no enorme sofá preto.
– Falando na Lívia – ele começou, sentando na poltrona para tirar os sapatos –, gostei do namorado novo. Super gente boa!
A mulher levantou a cabeça e olhou para o amigo com a sobrancelha arqueada, o fazendo rir.
– O quê? Estamos falando da Lívia, então com certeza ele não é o pior.
riu enquanto balançava a cabeça. Sua irmã era dona de um faro impecável para homens estranhos e toscos. Por sorte sua sobrinha não convivia com o pai, porque ele era o cúmulo do absurdo e da burrice, na opinião de . Ficava feliz pela mãe morar com elas, ou não confiaria e teria de reivindicar a pequena para si. Lívia podia ser mais velha, mas era muito mais maluca.
– Claro! O montador de móveis bombado ainda está no topo do ranking!
A menção daquele ex-namorado da irmã fez gargalhar, lembrando.
– Puta merda! – ele se inclinou para trás, passando as mãos pela barriga – Eu tinha esquecido dessa figura bizarra! Eu amo demais a Lívia!
Rindo dele, levantou, esticando dos dedinhos dos pés, já livres do sapato de salto altíssimo, e rumou até a cozinha.
– Você tem alguma coisa pra beber aqui que não seja cerveja?
– Tem vinho. – ele respondeu mais alto para que ela ouvisse do outro cômodo – Por quê? Você quer beber agora? – perguntou, desabotoando as mangas da camisa social e os primeiros botões da gola até metade do peitoral.
Não demorou para que voltasse para a sala com a garrafa e duas taças nas mãos, sorrindo esperta para ele.
– Quero! – respondeu, sentando-se no sofá para apoiar as taças na mesa e enchê-las – Você me faz companhia ou tá muito cansado?
Para falar a verdade, ele queria mesmo era deitar na cama e apagar. Por mais que não tivesse bebido muito, eles tinham acordado muito cedo, dirigido até a outra cidade e passado um dia inteiro de festa. Era completamente aceitável que estivesse cansado e louco por algumas boas horas de sono, mas ele não negaria sua companhia a ela.
– Eu fico só porque amo esse vinho.
Rindo, entregou a taça com o líquido escuro para ele, que sorveu um gole vendo-a fazer o mesmo e caminhar até o moderno aparelho de som do rapaz, apertando os botões até que sintonizasse em uma estação de rádio com uma música minimamente aceitável.
, são mais de três da manhã. – ele riu quando ela se animou ao ouvir o instrumental de uma música conhecida e aumentou o volume.
– Ah, só um pouquinho! – ela pediu, manhosa, fechando os olhos e cantarolando baixinho junto com Zé Ramalho.
Calado, a observou se balançar conforme o som característico do violão. Seus cabelos já se desprendiam, rebeldes, do penteado que tanto demorara para fazer, mas a maquiagem parecia intacta, exceto pelo batom vermelho que já estava levemente desbotado. Continuava inacreditavelmente linda. Seu vestido bordô tinha uma gola charmosa e era justo no colo, descia pelo corpo sem mangas e se tornava solto a partir de sua cintura até os joelhos. simplesmente amava como ela se vestia. Parecia inatingível, inabalável e muito parecida com a mulher mais linda de todo o mundo. Era uma das formas que ela encontrara de construir sua personalidade poderosa e olhando dali, ele tinha certeza que dera certo.
abriu os olhos no fim do refrão e encarou o amigo de volta, bebendo mais um pouco do vinho e sorrindo para ele no final. Estava repleta de sentimentos bons e estava aliviada por estar com ele. Estar com era como prender as boas energias ao redor de si. Sempre fora assim.
– Estamos tão bem, não é? – ela perguntou, do nada, fazendo com que ele franzisse a testa levemente – Digo, no fim das contas mamãe estava certa – ela começou a explicar, parando de frente para ele e se sentando na pontinha da mesa baixa –, ela disse que um dia as coisas seriam diferentes e elas são.
sorriu, estendendo uma das mãos para apertar o queixo dela rápida e levemente. pegou a garrafa para encher sua taça novamente, ainda sob o olhar carinhoso dele.
– Você merece, sua mãe merece. Eu sou imensamente feliz por vocês hoje. – a mão esquerda dele procurou pela dela e segurou seus dedos entre os seus – Você é a mulher mais forte que eu conheço. E isso desde que a gente tinha uns dez ou doze anos.
Ele riu, mas sentiu uma vontade súbita de chorar.
– Eu te amo. – ela disse, se levantando e se colocando entre as pernas dele, agarrando seu pescoço e apoiando a bochecha no topo de sua cabeça – Eu te amo muito. Você é o homem que eu mais amo no mundo.
retribuiu seu abraço, envolvendo a cintura dela com seus braços fortes. suspirou, sentindo tudo o de bom que sentia por ele transbordar.
– Eu te amo. – ele repetiu de volta, apertando-a com mais força ao continuar – E te amo mais.
Aquela ênfase era tudo que ele poderia dizer e era o mais perto do que se poderia chamar de declaração.
– Eu sei – ela respondeu, a voz séria e baixa –, porque você nunca escondeu nada de mim. Você nunca precisou colocar em palavras pra que eu sentisse isso por mais tempo do que consigo lembrar.
ficou mais tenso assim que ela se calou e engoliu em seco ao ouvir seu riso fraco antes de se afastar minimamente.
... – ele começou, mas até que visse seus olhos, não conseguiu continuar.
O que ele via entre os cílios perfeitamente alongados eram os olhos de quem sabia de tudo. Tinha esperteza, mas também tinha amor.
– Eu também amo você assim. – ela levou a mão livre para o rosto dele, fazendo um carinho na bochecha e sorrindo para a carinha confusa dele – Não finja que não está entendendo.
se afastou um pouco mais, sentindo a barriga gelar.
, você tem certeza que essa é só a sua segunda taça de vinho? – ele tentou brincar, mas se sentia nervoso, ela riu.
– Também quis beijar você naquela piscina no nosso segundo ano de faculdade – ela começou, fazendo os olhos dele se arregalarem levemente –, assim como em várias outras vezes. – ela voltou a se aproximar depois de deixar sua taça na mesinha atrás de si.
Seus dedos foram para os cabelos dele, se emaranhando por ali e fazendo um carinho gostoso. Nem ela sabia o porquê de estar falando tudo aquilo naquele momento, mas parecia tão certo. As amarras, os fantasmas e os medos pareciam tão distantes. Parecia que ela finalmente poderia retribuir como sempre quis, porque ele era o único que parecia digno de receber o que ela tinha de melhor dentro de si.
– Quis que você tivesse sido meu primeiro beijo, mas quando um cara tocou meus lábios pela primeira vez, você já tinha beijado mais garotas do que eu poderia contar nos dedos. – riu lembrando, ainda sob o olhar atento dele – Eu sempre fui atrasada nessas coisas, né? Mas eu nunca tive tempo nem ânimo pra pensar nisso. Não como tenho agora.
Seu olhar sugestivo fez o coração de esmurrar seu peito. Ela não estava diferente. Aquele era o tipo de poder que nenhum homem deveria ter sobre uma mulher. Ela estava verbalizando coisas que no fundo sempre soube, mas se sentia vergonhosamente nervosa e desarmada. A única coisa que a deixava em paz ela saber que era ele, e não qualquer outro cara no mundo.
– Você, , é o único cara que eu quis e quero assim. – ela o sentiu finalmente reagir e apertar seus braços ao redor de sua cintura.
... Você... – ele riu, incrédulo – Eu passei todos esses anos achando que nunca... Que... – ele não conseguiu concluir e ela sorriu novamente, abaixando seu rosto para perto do dele.
– Eu sei, eu sei. – ela roçou seus narizes e mesmo que não fosse algo inédito para eles, sentiu como se fosse entrar em colapso – Não era pra ser antes, mas pode ser agora. Me desculpa.
Seu coração se apertou ao pensar que ele poderia ter sofrido e ela não ter percebido em algum momento.
– Não me peça desculpas – ele imediatamente argumentou –, amar você desse jeito nunca foi um problema. Eu sempre tive seu amor de volta, no final das contas.
– Sei que posso confiar em você para isso.
Ele finalmente sorriu, fazendo-a sentir o coração se aquecer instantaneamente.
– Eu vou fazer por merecer.
– Você já faz, . – ela segurou dos dois lados de seu rosto, sorrindo para o brilho quase infantil que os olhos dele transmitiam – Eu não amaria você se não fizesse. Eu sou exigente, você sabe. – tentou brincar e ficou feliz por fazê-lo rir.
– Isso quer dizer que – ele se afastou um pouco de novo, olhando para o rosto sorridente dela –, caramba... Isso quer dizer que posso beijar você?
gargalhou, jogando a cabeça para trás.
– Dá tempo de ligar pra Mali antes?
! – ela soltou um gritinho, ainda rindo, balançando dos ombros de um jeito que ele achava adorável.
... – ele chamou, parecendo mais sério, o que fez com que seu riso diminuísse gradualmente.
Ela se aproximou dele novamente e sentiu o êxtase que era ter seus dedos longos subindo por seus braços e se encaixando em seu maxilar, fazendo-a se inclinar para ele. deslizou suas mãos para os ombros dele, se mantendo firme conforme seus rostos roçaram um no outro. Seu coração bateu ainda mais forte quando ela ouviu a introdução de uma de suas músicas preferidas de Maria Gadú no rádio.

Sai de si
Vem curar teu mal
Te transbordo em som
Põe juízo em mim
Teu olhar me tirou daqui
Ampliou meu ser


Ela cantarolou o início e fechou os olhos quando seus lábios finalmente roçaram um no outro. Podia sentir a respiração pesada dele em seus lábios e o aroma do vinho os envolver uma maneira deliciosa. Era tão natural estar nos braços dele que seu corpo apenas se preencheu de alívio quando suas bocas se abriram para dar início ao beijo que ansiaram por anos. Tinha a calmaria que sempre transmitia a ela, mas também tinha o desejo e a curiosidade em cada toque e foi impossível não sorrir.

Quero um pouco mais
Não tudo
Pra gente não perder a graça no escuro
No fundo
Pode ser até pouquinho
Sendo só pra mim, sim


Quando o ar faltou e seus pulmões arderam em alarde, se afastaram o mínimo, apenas para que pudessem retomar o fôlego. , no entanto, não deixou de tocá-la com seus lábios delicadamente, beijando seu rosto e maxilar com devoção e pressa. riu.
– Ei, ei – chamou, rindo –, temos todo o tempo do mundo, meu amor.
Chamá-lo assim pareceu tão natural quanto beijá-lo. sorriu, buscando seus olhos e sentindo todo o seu corpo em êxtase.
– Eu não acredito... – seu tom incrédulo a fez rir novamente.
segurou as barras do vestido e se sentou no colo dele, aconchegando-se em suas coxas e se encaixando em seu abraço. – Comece a acreditar, . – ela arqueou uma sobrancelha em sua direção, o desafiando – Quando vai chegar aquela parte que você me leva pro quarto?
gargalhou, balançando a cabeça em negação.
– Tenho que levar você pra um encontro antes, não é assim não. – ele riu, passando uma das mãos pelo cabelo dela.
– Esqueci que você é o último romântico. – ela rolou os olhos teatralmente – Espero você amanhã às oito.
Ele gargalhou novamente e se inclinou para juntar seus lábios em um beijo rápido.
– Não vamos transar no primeiro encontro também. – ele falou sério, se forçando a não rir.
! – ele brigou, não conseguindo controlar a risada – Pelo menos podemos pular a parte de nos conhecermos melhor.
– Na verdade – ele começou, pensativo –, tem umas coisas que eu ainda preciso conhecer. – ele a olhou sugestivamente e arqueou uma sobrancelha.
– Revogue sua sentença anterior e a gente adianta esse processo.
– Deixa de cortar o meu barato, ! – ele riu.
– Tudo bem, tudo bem! – ela levantou as mãos, como se estivesse se rendendo – Deixo isso em suas mãos.
– Não vou decepcionar você. – ele sorriu, carinhoso e ela retribuiu.
– Eu sei que não. – ela tocou o rosto dele com cuidado novamente – É por isso que amo você.
No rádio o locutor anunciou o tempo bom daquele domingo conforme o dia amanhecia. achou que aquilo era um bom sinal. Sinal de que bons tempos vieram para ficar.
Sua mãe tinha mesmo razão. As coisas poderiam ser diferentes e ela sentia isso na pele. E se poderiam ser diferentes para ela, poderiam ser diferentes para o mundo. Se ela conseguira restaurar seu lar destruído, ela poderia ajudar outras mulheres nisso.
Era domingo. teria seu primeiro encontro com o único homem que amou verdadeira e imensamente. Ela sentia que poderia começar a gostar de finais de semana.


Continua...



Nota da autora:
Olhe só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz
Vamos dividir
Os sonhos


Música dos créditos finais! Eu amo Encontro e achei que ela combinou muito intimamente com esse casal e foi o que me ajudou a incrementar nesse final.
Broken Home é uma música forte e que me faz sentir muito orgulho dessa bandinha. Aliás, o Sounds Good Feels Good todinho me deixa com muito orgulho desses moleques. Escrever essa música foi um desafio porque o tema dela é difícil e não muito comum nas fics, mas soube o que queria fazer desde o início e me permiti ir além da letra e dar a essa protagonista um final feliz.
Lidar com violência doméstica é paralisante e assustador, mas assim como nossa principal, acredito que todas temos um papel pra diminuir a dor de outras mulheres. Denunciem!
Espero que vocês tenham gostado de ler tanto quanto gostei de escrever! Foi feito com muito carinho!
Aproveitem as outras músicas desse álbum maravilhoso!
xx
Thainá M.

| Links úteis |
Ligue 180
Vamos conversar? – ONU Mulheres
Mulher, vire a página… – MPSP
Maria da Penha em Ação – CAOPDH




Outras Fanfics:
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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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