– Anda logo, ! A gente vai te deixar pra trás! – ameaçou, batendo os pés ao lado da escada, já cansada de esperar.
Olhou para e viu o marido encarando-a com um ar de riso. Ele achava uma graça o quanto ela estava animada para aquela viagem em grupo e como se irritava com o fato de estar adiando a diversão, mesmo que apenas por alguns minutos. Os dois estavam na sala da casa do amigo, que ainda estava no andar de cima fazendo sei-lá-o-que.
– Não sei como a Brittany aguenta, sério! Nunca vi alguém demorar tanto pra se arrumar! – ela bufou e se jogou no sofá.
– Relaxa, meu amor! – reprimiu uma risada e beijou seu rosto, envolvendo seus ombros com um dos braços – Ele já deve estar descendo. – e voltou a mexer no Twitter depois disso, fazendo revirar os olhos com a atitude típica
Talvez estivesse exagerando um pouco, mas queria que as coisas saíssem perfeitas. Aquela viagem estava sendo planejada há meses, pensada com muito carinho para que todos pudessem ir, independente de obrigações com família, trabalho e a distância – o maior problema daquele grupo nos últimos anos. Seriam só eles, como nos velhos tempos, revivendo a época em que eram imparáveis; cantando, dançando e correndo pelas ruas de Bolton como os jovens que eram, cheios de sonhos compartilhados.
Por vezes e se viam em conversas saudosas até tarde da noite, e entre uma taça e outra de vinho, imaginavam como seria se todos pudessem estar juntos por algum tempo novamente. A última vez fora no casamento de , há dois anos, mas sequer aproveitaram um dia inteiro juntos, já que viajara em lua de mel e precisou correr de volta para Dublin para resolver complicações do trabalho.
O mundo dos adultos os colocou em lugares diferentes, caminhando para objetivos distintos e eles agora tinham vidas completamente diferentes, mas nenhum deles esquecia a amizade que tinham e de tudo que compartilharam. Era por isso que todos estavam rumo a Bolton naquele dia. Aquela cidade que fora o começo de tudo seria um ótimo lugar para reviverem alguns dos melhores momentos de suas vidas.
– Tô pronto, casal! – apareceu pela escada com uma mochila nas costas e uma bolsa enorme nas mãos – Foi mal a demora, mas Brittany volta em cinco dias da casa dos pais e eu não podia deixar o quarto uma bagunça.
A mulher rolou os olhos e se levantou, indo até o amigo para abraçá-lo.
– Só te perdôo porque você vai ser nosso motorista. – sorriu – Agora vamos logo que ainda precisamos pegar a e tem muito chão até Brighton!

[...]


– Promete que qualquer coisa com o Ben você me liga?
Tyler rolou os olhos com ar de riso, descendo as escadas atrás da esposa e carregando sua mala média.
– Eu já prometi isso umas três vezes só na última hora, meu amor. – riu e descansou a bagagem no corredor para depois colocar as mãos gentilmente sobre os ombros da mulher – Eu e Ben vamos ficar ótimos! Não é você quem diz que a única coisa que a mulher pode fazer sozinha pelo filho é parir e amamentar? A última com controvérsias, é claro. – riu novamente, sentindo , enfim, relaxar – Então!
– Certo, certo! Estou exagerando de novo. – fez uma careta e encostou seus lábios nos de Tyler em um beijo rápido e foi até o cercadinho na sala, onde o filho montava e desmontava um castelinho.
Sentia o peito apertar um pouquinho ao deixá-lo, mesmo que fosse apenas por alguns dias. Benjamin estava com quase dois anos, já andava, sabia pedir por algumas coisas e em geral, quase não dava trabalho aos pais. Bem diferente da mãe, ele era bem calminho, como o pai, e fez sorrir largamente quando esticou os bracinhos para tocar seu rosto ao que ela se agachou em sua frente.
– Oh, meu amor! – ela o ajudou a levantar e tomou-o em um abraço apertado, para depois segurar suas mãos fofinhas e falar-lhe bem de perto – Mamãe vai passar alguns dias longe, mas vai pensar em você o tempo todo, ok? Papai vai cuidar de você, vovô e vovó vêm pra cá também, olha só que legal! – ela começou a ficar com a voz embargada.
Tyler se agachou ao lado deles.
– Nós vamos nos divertir e bagunçar muito enquanto a mamãe não estiver, cara!
empurrou o marido com os ombros e riu, pegando o filho nos braços e levantando.
– Mamãe volta logo!
E logo a campainha tocou, anunciando que os amigos chegaram para buscá-la.

[...]


tinha bagunçado todo o seu closet tentando escolher as roupas que colocaria na mala. Havia prometido a si mesma que não exageraria na bagagem. Não tinha a menor pretensão de voltar a Bolton bancando a metida, por isso escolheu as peças mais casuais, não resistindo, entretanto, a levar um ou dois de seus melhores vestidos, afinal, ela precisava estar preparada para tudo, como sempre.
Enquanto abria e fechava gavetas, remexendo tudo, tentava lembrar o que faziam para se divertirem naquela cidade que foi seu lar por muito tempo, a fim de combinar isso com o conteúdo da mala, mas o resultado foi uma enxurrada de lembranças da juventude, fazendo a nostalgia lhe atingir em cheio. Eram flashes de seu primeiro porre e a cara de ao vê-la vomitando em sua calçada, sempre reclamando do cheiro de mofo da garagem dos , todos se empurrando pelos corredores da escola, rindo em sua sorveteria favorita ou espalhados pelo jardim sempre florido dos em tardes de verão. Então ela percebeu que tanto fazia, quando estivesse no meio de seus amigos e amigas, nada mais importaria.
Terminou a mala duas horas antes do horário de saída de seu trem. Precisava correr. Colocou a roupa que estava separada, mas trocou as sandálias por um tênis que há muito não usava. Já estava de saída quando o telefone tocou pela terceira vez. Bufou e largou a bolsa novamente no sofá. Ela estava de férias! Suas tão desejadas férias! Será que podiam respeitar isso? Não queria saber de ninguém daquela redação, mesmo que muitos ali fossem pessoas queridas, só queria entrar no bendito trem e chegar a Bolton. Bolton. Seu cérebro piscava toda vez que lembrava que estava voltando. Fazia muito tempo desde a última vez... Fazia cinco anos que Dublin era sua casa, mas ela sabia que encontraria um lar em qualquer lugar que estivesse com aquelas pessoas que fizeram parte dos melhores momentos de sua vida.
falando! – atendeu no quarto ou quinto toque da pessoa insistente – Oh, Leslie! Eu adoraria poder ajudar você – rolou os olhos enquanto fingia simpatia –, mas infelizmente entrei de férias essa semana, inclusive estou de saída para uma viagem. Sugiro que você fale com outra pessoa da equipe. Tenha um bom dia!
Nem esperou a mulher do outro lado da linha responder e foi logo colocando o telefone de volta ao gancho. Suspirou e agarrou a bolsa novamente, caminhando até a mala ao lado da porta.
– Bolton, aqui vou eu!

[...]


A voz feminina anunciou seu voo e levantou da desconfortável cadeira do aeroporto, seguida pelo namorado.
– Me avisa quando chegar lá? – Will perguntou e a mulher assentiu, sorrindo.
Abraçaram-se e se inclinou para beijá-lo, apertando os braços em volta dele. Afastaram-se e caminharam até o portão de embarque, onde ela novamente se virou para ele.
– Mande abraços para todos e diga que eu estou muito chateado por ter sido excluído dessa vez, hein. – Brincou, fazendo a namorada rir e empurrá-lo levemente.
– Essa é só pro clubinho de Bolton. Sinto muito, meu amor! – riu, apertando as bochechas dele e beijando rapidamente o bico formado.
– Sorte que eu não tenho mais ciúme do .
gargalhou e se abraçou a ele novamente, mordendo seu ombro.
– Idiota! – ainda rindo, acertou a alça da bolsa no ombro e se preparou para ir.
– Boa viagem! Vou sentir sua falta. – Will sorriu, fofo.
– Vou sentir sua falta também! E boa sorte com o ensaio amanhã! Me deixe orgulhosa!
Beijou-o mais uma vez e se afastou em direção ao portão onde uma elegante mulher orientava os passageiros. Virou e acenou para o namorado pela última vez antes de seguir em frente.
Sentiu um friozinho na barriga ao sentar na poltrona do avião e suspirou, ansiosa para tudo que essa viagem lhe traria de bom. Esteve no Reino Unido para o último Natal, mas não teve a oportunidade de encontrar com todos os amigos. Aliás, estar junto com todos os outros era tarefa muito complicada.
Mudou-se de Bolton no início do high school e desde então esteve por vários lugares. Começou a faculdade em Manchester, terminou a primeira especialização em Paris, depois morou por um tempo com na Irlanda, fotografando para a revista onde ela trabalhava, passou uma temporada nos EUA até se estabelecer no Canadá pelos últimos dois anos, onde conheceu o também fotógrafo Will.
tinha um espírito desbravador, louco por conhecer coisas novas por trás de suas lentes. Fotografar não era apenas sua profissão, mas sua maior paixão. E fazer isso em vários lugares do mundo era sua maior alegria.
Com a câmera na mala, ela esperava registrar muitos momentos felizes em sua volta à Bolton com os amigos. Havia muitos sentimentos seus presos àquela cidadezinha, sentimentos de criança e de adolescente apaixonada. Aliás, era disso que Will falava ao unir ciúmes e na mesma frase. Era engraçado pensar nisso agora, mas fora seu primeiro amor, daqueles que lhe apertava o coração de menina e a fazia imaginar um milhão de finais felizes para eles. Quando pensava nisso, lembrava das risadas escandalosas dele, que sempre a faziam rir, dos seus cachinhos fofos que ele às vezes tentava esconder, e de seu jeito lerdo e inofensivo. Foi uma época muito gostosa e por vezes ela se perguntava se eles teriam permanecido juntos como e se ela não tivesse ido para longe. Mas de qualquer forma, eles eram amigos hoje em dia, do tipo que gostavam de lembrar seus momentos apaixonados sem vergonha alguma. ainda era seu amigo grandão e ingenuamente destemido, dono do melhor abraço do mundo e de quem ela sentia imensas saudades.
Ela realmente esperava que eles não esquecessem os violões.
Com um sorriso pequeno nos lábios, relaxou na poltrona e cantarolou, sentindo-se feliz por estar voando de volta para casa.
We made a promise we swore we'd always remember… No retreat, no surrender.¹

[...]


Era em uma chácara ao nordeste de Bolton, região dos grandes córregos e áreas verdes, que esperava a chegada dos amigos. Aquela era uma pequena propriedade se comparada às vizinhas. Seguindo o contorno do leito do Bradshaw foram construídos hotéis campestres luxuosos, parques públicos e enormes campos destinados ao golfe, cricket e hipismo. Apesar de pequena e contendo apenas uma casa principal, aquela chácara era o local ideal para aquela reunião. Estariam à meia-hora do centro da cidade, quinze minutos de caminhada do Bradshaw e com o adicional daquele não ser um lugar estranho para o grupo de amigos. A propriedade era do irmão de Kathy, mãe de , e quando mais novos todos já haviam corrido pela grama verdinha ao redor da casa, amontoando-se em frente à lareira para ouvir contos de terror e escalado a maior árvore do lugar para abrigarem-se na pequena casinha de madeira.
terminara de guardar as compras na dispensa e encarava a mesma casinha, sentado nos degraus de entrada dos fundos. A construção de madeira parecia torta, mas permanecia lá. A tinta azul escuro estava desbotada e descascada em vários pontos e a portinha branca, amarelada. Ele riu imaginando se o assoalho aguentaria todos os oito com seus pesos atuais. Provavelmente não, mas ele sabia que iria querer subir para checar.
Foi ali que ele percebeu o quanto sentia falta de estar com todos os amigos. Somente , e estavam sempre por perto, por morarem em Londres também, mas ele sabia que nada se igualava ao som de suas risadas misturadas e a forma como lidavam uns com os outros, todos juntos, entre empurrões e abraços. Era engraçado como aquela amizade em grupo nasceu e cresceu, mesmo quando os tempos não eram fáceis para alguns deles.

Outubro de 1996

O dia na escola secundária de Bolton seguia seu curso normal naquela quarta-feira. Quando o professor de geografia despediu-se, deixando para a turma um trabalho de pesquisa sobre as formas de relevo da Grã-Bretanha, todos começaram a falar ao mesmo tempo, alguns já apressados para o recreio, fazendo um pequeno tumulto surgir próximo à porta. olhou para sua esquerda, a fileira ao lado das janelas, e observou o garoto loiro arrumar o material na mochila, acertando os óculos sobre o nariz comprido vez ou outra. O lugar atrás dele estava vazio novamente, fazendo-a se perguntar o que acontecia com quem sentava ali todos os dias. não era o aluno mais aplicado que conhecia, mas não era de faltar. Era o terceiro dia da semana que não o via e aquilo a incomodava um bocado.
? – chamou pela segunda vez, dessa vez tocando o ombro da amiga que parecia estar no mundo da lua – Vamos, já está nos esperando. – sorriu e esticou o braço para que a outra entrelaçasse ao seu.
levantou e ao lado de seguiu pelos corredores com a amiga , que estava uma série acima delas. Antes que passassem pela porta do refeitório, ela viu o melhor amigo de conversando com , o garoto da sala dela que era amigo de .
– Ei, ! está ali. – apontou com a cabeça, mas a outra não pareceu se importar muito.
– Ele alcança a gente.
Mas queria que elas parassem para esperá-lo, quem sabe eles estivessem falando sobre as faltas do , afinal, às vezes jogava futebol com ele.
– Ah, . Que mal faz esperar? Ele sempre espera a gente. – insistiu.
A amiga deu de ombros e então as três seguiram naquela direção. tinha as mãos nos bolsos da calça social escura e tinha a expressão séria. apenas ouvia e assentia. Não foi possível ouvir sobre o que falavam quando chegaram ao lado deles, o burburinho de vozes dos demais alunos era alto demais. Mas estava preocupada com ele. Será que estava doente? E se fosse algo grave? Foi por isso que, por um impulso, enquanto os dois meninos se despediam com um toque de mãos, decidiu perguntar.
– E o , ? – tentou seu melhor tom despreocupado – Tem dias que não o vejo bagunçar lá na sala. – sorriu um pouco. a encarou, curiosa – Ele está doente?
acertou os óculos, pensando no que responder. Conhecia e suas amigas, mas não eram muito chegados. , por ser muito mais comunicativo, conversava bem mais com ela e sua amiga , mas não sabia se deveria compartilhar algo tão íntimo da vida do amigo com as garotas. Percebendo sua indecisão, resolveu falar.
– Era sobre isso que estávamos falando. Ele está com uns problemas, nem vem para o treino hoje. Mas acho que logo ele fica bem, não é? – olhou para – Diga a ele que estou o esperando para uma partida e que mandei um abraço.
apenas assentiu e caminhou com as garotas para o refeitório. Antes que começassem a comer, se inclinou na direção do amigo e vizinho.
– O que realmente houve com o ? – rolou os olhos e os encarou, curiosa.
– Não é da sua conta. – cantarolou, fazendo rir.
– Ele está com sarampo ou alguma doença contagiosa? – ela insistiu, fazendo bufar.
– Ele não está doente. São umas coisas chatas que não são da conta de ninguém aqui.
O alívio por ele não estar mal de saúde não durou muito para . Ainda havia algo errado e ela sentia uma vontade absurda em querer ajudar. Enquanto ainda insistia para que o amigo contasse e dizia que segredos não existem para serem espalhados, ela viu se inclinar na mesa, desistindo.
– Tá, tá! Sua fofoqueira! – as meninas se aproximaram dele – Vocês não vão falar disso pra ninguém! Nem digam ao que eu contei! – elas assentiram e suspirou antes de finalmente contar – O pai dele saiu de casa nesse final de semana. Parece que ele e a mãe dele viviam brigando, não sei direito. Então ele simplesmente foi embora, abandonou a família.

Em sua casa, encarava a porta por onde o homem que chamava de pai saíra. Ali, deitado no sofá, ele voltava aos seus momentos em família, procurando qualquer sinal de que havia algo de errado. Ele se perguntava se não havia conserto, se aquela dor era mesmo necessária. Ele não entendia, mas sabia que precisava ser forte, que precisava estar lá para sua mãe e irmã. E ele estaria, forte e bravo para defendê-las sempre que precisassem, porque ele sabia, tinha certeza que não era igual aquele cara que os abandonou. Ele nunca as deixaria.
O som da campainha o despertou, assustando-o levemente. Era final de tarde, sua mãe ainda deveria estar no trabalho e a irmã estava no andar de cima. De todas as pessoas que imaginava ver, com certeza as duas espertinhas da sua sala não estavam na lista. Ficou tão surpreso que nada disse enquanto segurava o cós da calça de moletom surrada. foi quem o cumprimentou primeiro.
– Oi, ! e eu estávamos estudando em casa para um trabalho extra que o Sr. Thompson nos deixou hoje e já que você mora perto, pensamos em vir aqui te avisar sobre isso.
franziu a testa em confusão. Sr. Thompson? Trabalho? certamente o avisaria sobre isso, mas e ? Elas nem eram suas amigas, apesar de sempre rirem de suas piadas e serem legais com ele.
– Você quer ver a matéria? Nós temos algum tempinho e – voltou a falar, já que a amiga parecia envergonhada demais para isso, mesmo que a ideia de ir até ali fosse dela, mas a interrompeu, finalmente caindo na real.
– Ah, entrem. – deu espaço para que elas passassem – Eu não estava esperando visitas, mas – coçou a nuca, meio sem jeito – sentem aí. Querem uma água, um refri?
Quando elas negaram, ele sentou na poltrona de couro falso e gasto, esperando que elas falassem sobre o tal trabalho, mesmo que estivesse sem a mínima vontade de estudar.
– Então, você está bem? Esteve doente ou algo assim? Já está melhor? – disparou perguntas, querendo que ele lhes contasse a verdade para que elas pudessem ajudá-lo a se animar.
ficou ainda mais sem jeito. Sabia que não precisava ter vergonha sobre nada, mas se sentiria estranho ao contar aquilo para aquelas duas garotas. Por fim suspirou e optou pela meia verdade.
– Na verdade a minha saúde está ótima. Minha mãe teve alguns problemas e – ele hesitou um pouco, passando os dedos pela barra da camiseta – eu fiquei em casa para ajudar.
As duas ficaram em silêncio, mas reconheceu no garoto os mesmos sentimentos que tivera há dois anos, uma mescla de insegurança e coragem, então, por mais que aquilo soasse bastante estranho, ela resolveu contar a verdade.
– Olhe , não quero que você ache que nós somos duas intrometidas. – se espantou e puxou o braço da amiga, mas apenas ignorou – contou ao o que houve e nós acabamos sabendo.
a olhou espantado e em seguida abaixou a cabeça, sem jeito. era mesmo um fofoqueiro.
– E nós queremos ajudar. Veja, eu sou filha de pais separados. Meu pai saiu de casa há um tempo e, acredite, vai ficar tudo bem. – ela sorriu quando ele levantou o olhar – Você vai perceber que tudo melhora sem as brigas e os climas estranhos nas refeições.
sentiu algo estranho se remexer em seu ventre, uma sensação de frio e ar em expansão, quando viu o sorriso que ele lhes deu. Um sorriso meio envergonhado, mas cheio de uma gratidão genuína que parecia tão a cara dele. uniu as mãos sobre o colo e agradeceu.
– Obrigado, eu – tentou encontrar as palavras, brincando com os próprios dedos – não sabia que seus pais também não estão mais juntos e, puxa, vocês são legais. Obrigado mesmo.
Ficaram calados desde então, e quando estava prestes a anunciar que estavam de saída, voltou a falar.
– Olhem, vocês não querem ficar para o lanche? – sorriu e depois olhou para o relógio na parede – vai chegar a qualquer momento. Podemos ligar para o também.
As duas se olharam e sabia que a amiga adoraria ficar um pouco mais. Por fim, deu de ombros e aceitou.
– Sua mãe não vai ficar brava? – Olivia indagou, enquanto discava o número de no telefone que ficava no canto da sala.
– Tenho certeza que ela vai adorar conhecer minhas novas amigas. – e sorriu.
tinha razão, porque aquele era o início de uma linda amizade.

[...]


A enorme sala da casa agora era preenchida por vozes e risadas, umas sobre as outras. Os oito amigos se espalhavam pelo cômodo, com expressões alegres em seus rostos.
, a última a chegar, estava ali há pouco mais de meia hora. e já haviam trazido algumas cervejas e cortara alguns frios para beliscarem. As malas ainda estavam por ali mesmo, na entrada. Estavam aproveitando o momento para colorarem o papo em dia e matarem as saudades uns dos outros.
– Você precisa trazê-lo em definitivo pro Reino Unido! Você sabe que encontra emprego aqui quando quiser! – , agarrada em , referia-se a Will.
– Não precisa não. Volte mesmo, mas deixe-o lá. – falou, tomando um gole de sua cerveja.
– Para de ser implicante, ! – gritou, lançando uma tampinha de garrafa na direção dele.
– Mas é que na minha época...
– Cala a boca! – as mulheres gritaram, fazendo , e gargalharem.
– Na minha época a gente queria a de casal com outra pessoa. – ele gritou, tentando soar mais alto que o protesto das amigas.
– Valeu, amigão. – falou entre risos – Mas não vai colar. Tenta a .
Os outros riram mais ainda com a cara diabólica que ele fez, virando-se na direção da mais nova movendo as sobrancelhas.
– Sai de mim, ! Seu tempo de gostosão já acabou!
Um coro de ‘Uhhhhhhhh’ foi ouvido, seguido de mais risadas.
– Não é o que dizem por aí, viu.
entendeu errado o “reviver momentos” planejado pra essa viagem. – ainda ria.
– Olha, eu até poderia esperar isso do , mas você meu amigo, sempre tão esperto. – foi a vez de alfinetar.
– Ei! – e gritaram juntos, provocando ainda mais risadas.

[...]


Junho de 2000

– Isso não vai dar certo! – falou, entrando na cozinha com .
Todos os outros estavam no jardim dos fundos esperando pelas duas que deveriam trazer uma garrafa para que pudessem brincar. A mãe de havia convidado todo o grupo para um fim de semana na propriedade do irmão, e como estava de mudança para Manchester até o fim do verão, aquela era a oportunidade perfeita para que aproveitassem o máximo de tempo juntos.
– O que pode dar errado? Alguém te desafiar a cheirar as meias do , talvez. – riu, mas rolou os olhos, inquieta.
– E se tia Kathy e mamãe pegarem a gente? – sussurrou entre dentes enquanto a amiga comemorava por ter encontrado uma garrafa de vidro no canto do cômodo.
– Deixa de ser medrosa! O filme que elas estão assistindo acabou de começar e Vicky prometeu ficar de olho nelas. Além do mais, você devia me agradecer porque isso vai te ajudar com o estranho do .
– Não chama ele de estranho! – quase deixou um riso escapar.
– Vamos lá, garota! Se tudo der certo, você vai entrar no high school com um namorado nerd e vai ter a melhor despedida que poderia ter!
Quando elas voltaram todos já estavam arrumados em círculo. para . Verdade. para . Verdade. para . Verdade. – Ah, chega de verdade! , sua vez de girar e a próxima pessoa pede desafio! – sempre autoritária, falou.
para . Bingo! A garota trocou um olhar divertido com e depois encarou , só então olhando para .
– Eu te desafio a beijar a lá na casinha.

[...]


– Cara, vocês vão cair e vão estragar nossa programação. – cruzou os braços observou e subindo pela escada madeira até a casinha no alto da árvore.
Já era manhã e depois de um café farto e no melhor clima possível, deu a ideia de irem até lá, como previra. logo se animou também e todos estavam do lado de fora, observando-as subir um degrau e pararem para rir por um cinco minutos.
– Deixa elas, ! O primeiro beijo das duas foi nessa casinha. – disse, recebendo um dedo do meio de e risadas dos outros. – Gente, vejam só! Todo mundo pensava que o garanhão era o , com essas sardas e esse jeito de galã bobinho, mas foi o que conseguiu segurar a garota! Meu orgulho! – ele chegou ao lado do amigo e o abraçou, fingindo estar emocionado.
– É que a tem uma paciência de ferro e é muito boa pessoa. – começou, implicando e rindo.
– Ela aguentou literalmente todas as fases do , meu Deus! – gargalhou.
– Meu Deus e aqueles pijamas estampados com personagens da Disney?! – entrou na das amigas.
– Aquelas roupas horríveis do fim do colegial! Jesus!
– Vocês subestimam o . Vocês não sabem do que ele é capaz! – entrou em defesa do amigo – Não é, ? – ele gritou.
A mulher abriu a janelinha da casinha e colocou o rosto para fora, mandando um dedo do meio para todos.
– Deixem o meu marido em paz! Só eu e sabemos do que ele é capaz. – piscou e mandou um beijo para .
– Vocês fizeram um ménage? Meu Jesus amado!
– Como é?!
– Puta merda, foi naquela viagem para os Estados Unidos que os dois voltaram com uma tatuagem igual nos pés! Puta que pariu!
– Eu tô escandalizado!
– Gente, contem isso, pelo amor! O tirou as meias dessa vez?

Novembro de 2003

– Eu nunca vou esquecer isso, ! Que mico gigante! – falou, meio sem ar por tanto rir.
, que estava sentada entre as pernas do namorado, enxugava as lágrimas depois da crise de riso. igualmente gargalhava. se apoiava em , que se curvava por tanto rir.
Na noite anterior, um sábado, estavam na festa de Jaime, do time de cricket. pegou o carro do pai emprestado e todos se apertaram no veículo até a área nobre de Bolton, onde a festa aconteceria. A casa do anfitrião era enorme, jardim frontal e nos fundos, com muita comida e bebida. Um cara do 2º ano metido a DJ tocava enquanto uns aparelhos modernos despejavam luzes de todas as cores pelo salão principal.
Assim que entraram, se espalharam pelo lugar e foram aproveitar cada um a sua maneira. e ficaram a maior parte de tempo bebendo e se agarrando próximos à piscina. contabilizou sete ficadas, entre meninos e meninas. encontrou a garota do clube de teatro com quem estava saindo e passou a maior parte da noite com ela. e , faiscando e mandando indiretas um para o outro durante a semana inteira, finalmente haviam se beijado. Mas foi o protagonista da noite.
Leslie McAdams, do mesmo ano deles no colégio, era o típico caso de garota desejada por todos. Por algum milagre, ou pelo próprio charme que todos sabiam que tinha, ela deu papo para ele.
Como não voltou como os amigos durante a madrugada, todos esperavam que ele tivesse uma boa aventura para contar no dia seguinte. No caminho até a casa de , passou com na sorveteria e os dois descobriram a nova fofoca do momento: e Leslie McAdams dormiram juntos. Até aí tudo bem, eles já imaginavam isso. Mas o que as pessoas estavam espalhando aos cochichos e risinhos era que não havia tirado as meias durante o ato.
– Mas eu tirei! Gente, eu juro pra vocês! – um , contrariado, insistiu.
– Mas então por que diabos as pessoas estariam falando disso? – indagou.
– Vocês sabem como aquele cara que a Leslie anda pra lá e pra cá no colégio é fofoqueiro. Ela só pode ter reclamado disso pra ele. – concluiu.
– Ou seja, você transou de meias, ! – voltou a gargalhar.
– Não foi assim que aconteceu!
– Então como você explica a fofoca, seu idiota?
– Talvez eu tenha esquecido de tirar no início... Mas eu sei que tirei!

[...]

And I wonder, I wo-wo-wo-wo-wonder
Why, why-why-why-why-why she ran away
And I wonder, where she will stay
My little runaway, run-run-run-run runaway
²


e deixaram os violões de lado enquanto os outros aplaudiam. Uma enorme toalha estava estendida sobre a grama, com várias almofadas espalhadas, além de garrafas de cerveja e comidinhas. A noite estava sem lua alta, mas o clima agradável do verão os envolvia.
– Eu tava com saudades de ouvir vocês cantando. – apoiou a mão direita no queixo e sorriu para eles.
– Eu beijaria vocês dois depois de vê-los cantar e tocar. – piscou para os amigos, provocando risadas.
– Eu faço isso por você, .
anunciou e aproximou o rosto do marido, beijando o queixo dele, depois a pontinha do nariz, para então beijar sua boca sensualmente. Os amigos assoviaram e riram. tentou virar para agarrar , mas ele o atingiu com uma batatinha.
– Cantem vocês dois agora! – pediu quando o casal se separou – Por favor!
voltou a pegar o violão e tomou mais um gole de seu suco, arrumando a postura. Ele sussurrou a música no ouvido da esposa, que assentiu, então logo o início da melodia foi ouvido.

I don't like you but I love you
Seems that I'm always thinking of you
Oh, oh, oh
You treat me badly
I love you madly
You've really got a hold on me
You've really got a hold on me, baby


e levantaram para dançar e começaram a coreografar a música. começou a aplaudir junto com e enquanto gravava.
Apesar da palhaçada que os dois amigos faziam, não era impossível notar os olhares apaixonados que o casal trocava. Depois de tantos anos juntos, talvez fosse comum que as coisas caíssem na rotina ou esfriassem, mesmo que os dois estivessem acabado de chegar à casa dos trinta. Mas não era isso que acontecia e olhando para eles era fácil saber. Os sorrisos trocados, os olhares cúmplices, um sempre tocando o outro em alguma parte. Todos aqueles anos juntos, como amigos, namorados, casados, todas as fases que passaram juntos, um ajudando o outro a alcançar sonhos, presenciando todas as mudanças físicas e emocionais toda a história acumulada, tudo aquilo contribuía para que o amor continuasse vivo e constantemente alimentado.

I don't want you, but I need you
Don't want to kiss you, but I need to
Oh, oh, oh
You do me wrong now
My love is strong now
You've really got a hold on me
You've really got a hold on me, baby
³


Ainda dançando, e começaram a rebolar um de frente para o outro, fazendo errar a letra e começar a rir. Logo foi impossível continuar cantando, já que a mulher teve uma crise de risos.
– Poxa, eu estava gravando! – resmungou – Tava tão bonitinho! Meu casal preferido, amo vocês! – ela mandou um beijo para e , que riram.
– Gente, já pensou se todos vocês tivessem formado casais? – indagou, torcendo o nariz – Eu e ficaríamos excluídos e diminuídos a seguradores de vela. – completou, fazendo todos rirem.
– Ainda ia existir a chance de vocês se pegarem. – sugeriu. e gargalharam, abraçando-se de lado.
– Não existe essa chance!
– Eu e teríamos formado um casal bem rock n’ roll. Desses que se casam saltando de paraquedas. – disse, pensativo – Seríamos o oposto de e . Nada de discursos enormes e melosos que causam choradeira.
– O casamento da teve discurso enorme e com choradeira. – apontou.
– Isso porque o Tyler parece o com essa coisa de romantismo. – falou com falso desdém, e então olhou pra – Francamente, mulher! O que aconteceu? Espere só o Ben começar a entender as coisas que eu vou contar muitas historinhas sobre a adolescência da mãe dele. – ameaçou, fazendo todos gargalharem.

Julho de 2005

O Hyde Park estava lotado. Pessoas dos mais diferentes lugares se amontoavam em frente ao palco principal do festival de verão. O céu ainda claro, quase sem nuvens, era um presente para Londres naquele dia. O grupo de Bolton viajara para a capital especialmente para os três dias de show, sobrevivendo de cerveja quente, frituras e música. Não havia muito tempo para reclamar, no entanto. Bêbados e sorridentes, eles corriam de um palco a outro, gritando no meio da multidão. viera de Manchester para se juntar a eles, levara a nova namorada e e brincavam sobre serem um casal no Woodstock. Os solteiros aproveitavam para se apaixonarem e viverem um intenso amor no intervalo das apresentações, ou mesmo no meio delas, que duravam um ou dois beijos com pessoas que eles provavelmente não veriam nunca mais. Se o álcool não levasse tudo para o esquecimento ou tornasse os momentos apenas borrões sem sentido, eles teriam boas histórias para serem compartilhadas.
Quando a introdução de Losing My Religion começou a ser tocada por Peter Buck, a multidão ficou enlouquecida. cambaleou e só não caiu por falta de espaço entre as pessoas, já que começou a dançar loucamente em seus ombros. Eufórica, implorou para que também a carregasse e ele o fez com um pouco de dificuldade, sua ebriedade fazia a garota parecer bem mais pesada.
Ohhhhhhhhhhh liiiiiiiiife is biggeeeeeeeeeer! – todos cantaram em coro junto com o vocalista Michael Stipe – It's biggeeeeer than yooooou and you are not meeeee!
O grande hit do R.E.M. que marcou os anos 90 contagiava a todos, que pulavam, cantavam e dançavam como queriam, em uma atmosfera de liberdade singular. Capturada por toda essa sensação, se livrou da camiseta que usava, balançando-a para cima, ficando apenas com o sutiã listrado, fazendo os amigos gritarem em incentivo e gritar resmungando porque não conseguia ver.
– Eu quero aparecer no telão! – ela gritava em meio à música – Tira também, ! – gritou para a amiga, que apenas desabotoou a camisa xadrez.

But that was just a dream
Try, cry, why, try
That was just a dream
Just a dream, just a dream, dream

Durante toda a música, não apareceu no telão. Isso só aconteceu no final da canção, quando ela e uniram os lábios em um selinho, fazendo os amigos gritarem como loucos. Apenas o normal entre eles.

[...]


O grupo estava divido em três carros no pequeno trajeto até o centro de Bolton para aproveitarem a noite em uma boate onde Vicky tocaria como DJ.
Para e , que não viajavam para Bolton há um bom tempo, era espantoso o quanto a cidade estava moderna e como sua vida noturna havia se desenvolvido, o que era explícito nas filas enormes em frente a boate, que piscava um letreiro moderno e neon. Por sorte a irmã de conseguira entradas especiais para os oito.
Do lado de dentro, o lugar era amplo e não ficava muito atrás de famosas casas noturnas de Londres, ou das que frequentava em Dublin. O grupo logo se dirigiu à área VIP, encontrando Vicky com mais alguns amigos enquanto esperava a hora de seu set. Foram atrás de bebidas e as mulheres logo quiseram dançar. Apenas e ficaram encostados na mesa alta observando-os; o primeiro precisava de um pouco mais de álcool para se soltar.
Ao som de Bang Bang, girava e numa dança meio sem ritmo enquanto elas gargalhavam, com os braços compridos ele as guiava para lá e para cá. dançava entre e , que brincavam de seduzi-lo.
Entre drinks e mais drinks, conversas, gargalhadas e quadris em movimento, eles prestigiam o set de Vicky com empolgação. dançava com um desconhecido, estava na cabine de DJ, e mais riam que dançavam, e estavam em um momento bem sensual enquanto ela cantava Partition e dançava para ele.
Take all of me – ela soprava próximo ao rosto dele, rebolando com o quadril colado ao corpo do marido – I just wanna be the girl you like, girl you like. The kinda girl you like is right here with me...
– Isso porque ela nem tá bêbada! – comentou, rindo.
Ela e estavam sentados no canto onde ficavam os sofás, que estavam quase vazios, já que a maioria das pessoas lotava a pista.
– Eu amo como esses dois parecem apaixonados. – sorriu, tomando um gole de sua cerveja – Você se sente assim com Will?
A pergunta não era para confrontá-la, muito menos para fazê-la compará-lo com o namorado. se sentia na obrigação de cuidar dos amigos e por mais destrambelhado que fosse, era nessa direção que seu enorme coração o guiava. E a amiga entendeu seu cuidando e sorriu antes de responder.
– Você sabe que eu nunca tive sorte com namorados. Eles quase nunca chegavam até mim ou eu os deixava passar por causa da minha cabeça de vento. – riram juntos – Mas com Will tem sido fácil como nunca foi, talvez por nossas profissões serem iguais, não sei. – ela sugou o líquido vermelho do copo, pensativa – Ele não é meu inesquecível amor de menina, mas tem aquecido meu coração como nunca antes.
– Isso é tudo que preciso saber pra continuar gostando dele. – sorriu e abraçou a amiga, que lhe deu um beijo demorado na bochecha.
– E só pra você não ficar ciumento – ela começou, rindo –, você ainda é o dono do melhor abraço do mundo pra mim.

Julho de 2005

As noites pós-shows eles passavam no quarto do terceiro andar do hotel mais barato que conseguiram. Como só havia três camas de solteiro, eles revezavam os dias de quem dormiria nelas. e dividiam uma na última noite deles ali.
Toda vez que sentia as pálpebras mais pesadas e o sono finalmente prestes a lhe levar, a garota se mexia na cama, despertando-o.
, que diabos? – ele chamou, a voz rouca por tanto gritar e fraca pelo sono – Não está conseguindo dormir?
A garota se virou para ele, próxima demais de seu rosto sonolento e seu hálito que ainda apresentava resquícios de álcool. Suspirou antes de contar o que lhe incomodava.
– Meus pés. – choramingou – Estão me matando e eu não consigo relaxar. – fez careta, fazendo rir.
sempre tem remédios para dor guardados. – ele sentou na cama, procurando a mochila do amigo ao redor – Vou pegar um pra você. – anunciou.
Levantou e vasculhou a mochila até encontrar, destacando uma pílula e pegando uma garrafinha de água para levar até a outra, que tomou e agradeceu, levando as mãos até os dedinhos latejantes e apertando-os.
– Que tal uma massagem até o remédio fazer efeito? – ele perguntou, já sentando de frente para ela e colocando seus pés em seu colo.
Os dedos compridos de deslizavam e faziam uma pressão gostosa em seus calcanhares, subindo lentamente para massagear toda a região. A sensação de alívio foi tão imediata que a fez fechar os olhos e soltar suspiros involuntários, fazendo rir.
– Essa sua cara faz parecer que estou fazendo outra coisa.
– Cala a boca! – ela também riu – Vai mais pra cima, por favor!
Ele obedeceu, ainda rindo e comentando algo sobre ficar escandalizado se ela começasse a gemer. Quando cansou e sentiu completamente relaxada, engatinhou no colchão até relaxar o próprio corpo e jogar a cabeça no travesseiro, de frente para ela.
– Obrigada, – sorriu, sonolenta – Você é o melhor.
Aninhou-se a ele e o encarou bem perto, percorrendo seu rosto com os olhos, admirando suas sardas charmosas. Como ele podia não gostar delas?
– Você por um acaso vai me beijar? – o tom era brincalhão – Olha, não precisa agradecer dessa forma não. – Mas não ligou e venceu a pequena distância entre eles, selando seus lábios.
A garotinha que vivia dentro dela dava piruetas de alegria, mas a sua eu de 20 anos apenas aproveitava algo bom do momento. Foi por isso que ela se afastou segundos depois, sorrindo para ele, que sorria de volta. a abraçou e ela fechou os olhos, agradecendo por tê-lo ao seu lado.
– Sabe ... – ela começou; a bochecha pressionada contra o peito dele – Você tem o melhor abraço do mundo.

[...]


, eu não acredito! Devia ter contado pra gente antes! – gritava com ele, saindo da boate toda descabelada.
– E como eu ia saber que vocês iam querer largar isso aqui pra ir pro galpão de festas da associação de moradores?
– É claro que a gente ia querer! Meu Deus, eu nem acredito que esse lugar ainda tá de pé! – gargalhou.
, por ser a única sóbria, dirigiu o carro de e os outros foram de táxi. O lugar ficava um pouco longe de onde estavam e era perto da antiga casa de e da escola onde se conheceram. O galpão de festas da associação de moradores costumava organizar muitos eventos quando eles moravam ali, além de receber alguns pequenos shows. Muitos moradores do bairro ajudavam nas decorações e na arrecadação de fundos, especialmente na grande festa de primavera, famosa pelas competições de karaokê.
Quando saltaram em frente ao local, a música do lado de dentro já podia ser ouvida da calçada oposta. O letreiro era novo, mais moderno, a pintura frontal também era diferente e, dando uma olhada geral, a própria rua estava diferente.
Faltava menos de meia hora para as três da manhã, e se as regras ainda fossem as mesmas, eles estavam chegando para o final. Atravessaram a rua quase deserta fazendo o maior barulho até se colocarem de frente para a bilheteria, todos falando ao mesmo tempo.
– Vocês querem entrar com vinte minutos pra fecharmos? – o senhor de meia-idade perguntou, achando graça e acertando os óculos.
– O senhor vai se recusar a vender, por acaso? – a voz de soou mais alta.
– De forma alguma! O cliente é quem manda!
– Oito entradas então! – pediu, tomando a frente.
– Espera, você não é o filho dos que está treinando as categorias de base do Arsenal? – o homem indagou, fazendo assentir orgulhoso – Traíra dos infernos! – ele xingou, fazendo arregalar os olhos e os outros rirem – Os nossos Wanderers precisando de força na base e você treinando londrinos!
– Vai vender nossas entradas ou não? – interrompeu o papo sobre futebol.
– E você não é o filho de Deb e Bob? – assentiu, meio impaciente – Ah, entrem de uma vez! Não precisa pagar nada!
E foi o que eles fizeram, correndo para dentro antes que o velho mudasse de ideia. Algumas pessoas ainda dançavam no centro do salão pouco iluminado, mas as mesas ao redor permaneciam lotadas.
– Eu tinha a impressão de que esse lugar era maior. – gritou, olhando ao redor.
– Isso é porque você sempre foi muito pequeno, daí como cresceu um pouco... – alfinetou.
O DJ anunciou o fim da festa e a última sequência musical. Logo a introdução de Don’t Stop Me Now do Queen foi ouvida, fazendo os presentes se animarem e o grupo de amigos avançar pelo salão para dançar também.
Toniiiiiiiight I'm gonna have myseeeeeeeelf a real good tiiiiime!
I feel aliiiiiiiiii-i-i-ive!
And the wooooorld is turning insiiiiiiide oooooout, yeaaaaaah!
And floating arounnnnnnd... In ecstasyyyyyy.
So don't stop me now! Don't stop me! 'Cause I'm having a good time, having a good tiiiiiime!
Eles cantaram e começaram a dançar juntos, formando pares no centro do salão, chocando-se com outras pessoas que também dançavam.

I'm a shooting star leaping through the sky
Like a tiger defying the laws of gravity
I'm a racing car passing by like Lady Godiva
I'm gonna go, go, go
There's no stopping me

rodopiava , que já estava sem as sandálias de salto e gargalhava muito enquanto o amigo tentava imitar a voz de Mercury. Com um dos braços, ele a fazia girar para longe, depois para perto de si novamente. Em uma das voltas, bateram as testas. Gargalharam com a lembrança que aquilo trouxera, do outono de 2003:
– Quem disse que eu quero te beijar? – perguntou, encarando-o com a expressão atrevida.
– Bom, se você não quer, o que foram todos aqueles climas durante a semana? – ele indagou, com uma sobrancelha arqueada.
– Você é muito convencido e eu – um desconhecido passou pelo corredor da casa e os empurrou, fazendo a garota interromper a fala.
– Beijem-se logo e saiam do caminho! – ele disse. O resultado do empurrão foi o choque de suas testas e uma aproximação bem dolorida.

I'm burning through the sky, yeah!
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic man out of you


e faziam passinhos estilo anos sessenta, cantando com empolgação. A mulher esticou a mão para afastar o cabelo que caía sobre os olhos dele, aproximando-se para beijar a pontinha de seu nariz perfeito.
– Você é a mulher mais linda do mundo! – disse, sorrindo e falando bem perto dela – E eu te amo!
– Eu sei! – ela sorriu e o beijou, abraçando-o pelo pescoço.
– Tudo bem se você disser que não me ama também. – ele beijou seu ombro descoberto – Não vou me divorciar de você por isso. – ela gargalhou.
– Eu te amo, . Pra sempre. Isso é insuperável.

Don't stop me now
I'm having such a good time, I'm having a ball
Don't stop me now
If you wanna have a good time just give me a call
Don't stop me now ('cause I'm havin' a good time)
Don't stop me now (yes I'm havin' a good time)
I don't want to stop at all


girou e a trouxe de volta. Os dois eram visivelmente os melhores dançarinos. Isso porque, há quase dois anos, nos preparativos do casamento de , a mulher teve umas aulinhas de dança com o melhor amigo:
– Eu não gosto de dançar junto! Você se lembra da formatura e do desastre que foi! – ela resmungou, calçando as sandálias de salto para que pudessem começar o ensaio.
– Você é minha madrinha e todos vão dançar, você na pode ficar de fora. – disse, ajudando-a levantar do sofá.
– Preferiria só assistir você e Brittany serem maravilhosos na primeira dança! – resmungou mais um pouquinho – Mas o que eu na faço pelos amigos não é mesmo?

I'm a rocket ship on my way to Mars
On a collision course
I am a satellite I'm out of control
I am a sex machine ready to reload
Like an atom bomb about to
Oh oh oh oh oh explode


– Eu tô tonta, ! – gargalhou enquanto os dois ainda giravam.
– Eu também! – ele gritou de volta, rindo – Quem cair primeiro é um padre!
gargalhou e bateu de leve na testa dele, ainda dançando.
– O certo é a mulher do padre!
– Eu não! Você! – ele disse, fazendo twist com os pés. torceu o nariz, ainda rindo.
– Você não tá falando coisa com coisa!
– E você ainda não tá acostumada?

O grupo correu para o lado de fora quando começaram a expulsá-los. Atravessaram a rua e correram para a pracinha que havia ali, sentando-se nos bancos de pedra ao redor de uma mesa para xadrez e dama, também de pedra.
I don't want to stop at aaaaaaaaall! cantou, batendo na mesa.
– Não quero que essa noite acabe! – choramingou, abaixando as mãos para tirar os sapatos dos seus pés já cansados.
– Não acredito que passou tão rápido! – abraçou e , essa viagem foi a melhor ideia que vocês já tiveram.
– A gente deveria fazer disso um hábito. – sugeriu – Uma vez por ano, ou sei lá.
– Tenho certeza que a gente consegue se organizar. – veio em apoio à ideia – Podemos pensar em outros destinos. Eu trago Brittany, o Will e , Tyler e Ben.
– Eu concordo completamente! Eu e , as workaholics do grupo prometemos fazer de tudo! – disse, fazendo um high-five com a amiga.
– Tão bom poder compartilhar novos momentos com vocês! – sorriu, toda emocionada, talvez pelo efeito da bebida.
– Falando em compartilhar momentos... – começou, depois limpou a garganta para continuar – Tem uma coisa que eu quero contar.
Ela sorriu e arrumou a postura, apertando ainda mais a mão do marido na sua quando notou que tinha a atenção de todos.
– Eu recebi uma ligação hoje de manhã para confirmar algo que já suspeitava. – deu um gritinho, já imaginando o que era – Conversei com antes da viagem e decidimos não nos alarmar antes de sabermos a confirmação. – ela olhou para o homem ao seu lado, que parecia petrificado – E então eu recebi! Vamos ter um bebê!
O silêncio pela assimilação da notícia não durou muito. Em segundos estavam todos gritando, com risos bobos e escancarados no rosto. Um forte e abafado abraço em grupo foi dado na futura mamãe, que gargalhava.
– O segundo bebê do nosso grupo! Eu não acredito! – dava pulinhos e piscava repetidamente para conter as lágrimas.
Enquanto o casal tinha seu momento particular ali ao lado, com rindo e chorando ao receber inúmeros beijos de , os amigos já pensavam sobre o futuro da criança .
– Mais uma pra me chamar de titio!
– Meu Deus, eu nem acredito! vai ser a melhor mãe!
– Essa criança vai ser muito mimada, Jesus!
– Ahhhh, eu não acredito! Meu Deus, melhor notícia!
O casal voltou para perto dos amigos, que os abraçaram novamente, completamente emocionados.
– Até quando minha esposa me dá a notícia do nosso primeiro bebê vocês estão por perto. – falou – São coisas assim que me lembram o quão perdido eu estaria sem vocês.
Um coro de sons estranhos em resposta ao momento fofo de foram ouvidos, fazendo todos os que ainda não choravam, precisarem secar as lágrimas. Entre abraços e felicitações aos futuros papai e mamãe, alguém se lembrou de algo importante.
– Que nome vocês vão dar à criança? , não escute o , pelo amor da nossa amizade!


¹No Surrender – Bruce Springsteen
²Runaway – Del Shannon
³You Really Got a Hold On Me – The Beatles



FIM



Nota da autora: (28/06/15) - Acho que não conseguiria escolher melhor tema pra desenvolver nesse ficstape que não fosse a amizade. Isso porque essa tem sido a essência da banda durante todos esses anos e, especialmente, porque o amor à música desses caras me trouxe muitos amigos/as. Algumas amizades que começaram desse jeito mesmo, lendo e escrevendo fanfics.
E enquanto escrevia, coloquei alguns elementos que fãs de McFLY podem facilmente identificar na leitura. Me contem os que vocês perceberam! ;)
Espero que vocês tenham gostado e que esteja digno da música, que é um dos melhores covers de McFLY pra mim. <3 Um agradecimento especial à Lavi, uma linda, que fez essa capa maravilhosa. <3
Obrigada por lerem e aproveitem esse ficstape lindo!
xx
Thainá M.

OUTRAS FICS:

Don't Close The Book (Jonas Brothers/Finalizada) | Thankful (Especial Extraordinário) | Amor em Irlandês (Especial Equinócio de Setembro) | Can You Feel It? (Outros/Finalizada) | Love Affair (One Direction/Em andamento)



Nota da Beta: A beta ninguém agradece ~limpa as lágrimas com o lencinho~ To brincando, nem sou dramática e a Thai agradece sim haha Mas to muito chorosa aqui com esse momento We’re having a baby , jamais vou superar. Que fic gostosa! Qualquer GD, qualquer pessoa na verdade, que ler essa fic com certeza vai amar. Parabéns Thainá! Tá perfeita, não tenho nem o que falar, a não ser para pedir que comentem muito porque a autora linda merece e fim! Até a próxima , girls. Xoxo-A




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