A CHEGADA
Já estávamos há alguns quilômetros longe de Budapeste. A paisagem que passava rapidamente pela janela do carro havia mudado completamente desde que entramos em uma região remota do condado de Heves. Planícies verdes a perder de vista e no horizonte, montanhas que pareciam pequenas à distância. Esperávamos chegar logo à região do Kékes, que era o ponto mais alto da Hungria com 1014 metros de altitude.
Apesar de curioso para vislumbrar um dos pontos turísticos naturais mais famosos do país, o Kékes não era nossa prioridade. Estávamos a caminho de uma comunidade kalderash, subgrupo étnico dos roma, ou como são chamados popularmente, ciganos. Nossa equipe consistia em três antropólogos, um demógrafo e uma historiadora. Eu estava incluso no grupo dos antropólogos e como minha área era antropologia da imagem, estava responsável por capturar todos os detalhes de nossa etnografia com minha lente.
Minha pesquisa para o doutorado estava muito longe do tema dos roma, mas Niam, que foi meu orientador durante o mestrado, fez o convite e eu não pude recusar a experiência. Preparei-me durante meses para a viagem, entre leituras sobre a região e sobre os sujeitos de pesquisa. Tudo que sabia sobre os roma antes estava ligado ao que se falava deles, a imagem construída de um povo que se dividia entre o mítico e o marginal. O que se esperava de mim durante aqueles dias de pesquisa, e o que eu mesmo esperava de mim, era que eu conseguisse deixar para trás todos os conceitos do senso comum apreendidos e deixasse prevalecer o olhar objetivo do pesquisador.
O carro diminuiu a velocidade assim que entramos no vilarejo. A ocupação visivelmente desordenada logo chamou minha atenção. A maioria das casas era erguida sem acabamento, quase rústicas. Outras eram bem mais estruturadas, quase seguindo o modelo visto nas ruas residenciais de Budapeste. Saltamos todos em frente a uma casinha branca e vermelha, onde dois homens já esperavam por Niam.
As apresentações ocorreram rápida e amigavelmente e logo estávamos caminhando para dentro da casa de Miro, o rom que esteve em contato com Niam durante os meses anteriores à nossa viagem. Logo descobri que a casa era apenas para dormir e que a tenda construída do lado de fora era onde aconteciam as refeições e as demais reuniões de grupo. Alba, esposa de Miro, nos ofereceu o chai enquanto nos sentávamos ao redor da mesa baixa no centro da tenda com ele e seu filho Tarim.
Assim que o líquido negro foi despejado em uma xícara de louça, com pedaços de frutas no fundo, lembrei imediatamente de minhas pesquisas bibliográficas que apontavam a origem dos roma à Índia. Anotei aquilo mentalmente para depois incluir em meu diário de campo. Após isso, a conversa, a princípio informal, se desenrolou normalmente.
– Existem muitas pessoas com quem vocês podem conversar por aqui. Recomendo que comecem devagar. – o homem de aparentes cinquenta anos falou – Vocês não são os primeiro que aparecem querendo saber sobre nós e fazer perguntas para essas tais pesquisas. – ele riu por um breve momento antes de tomar um gole do chá – O que nós não sabemos é o que vocês fazem com nossas respostas.
– Temos a intenção de voltar com os resultados. – Ciara, uma das antropólogas da equipe, o tranquilizou – Julgamos muito importante que vocês conheçam o resultado final e tudo que for produzido a partir de então.
– E é como já lhe falei, Miro – Niam se dirigiu a ele –, é importante que pesquisas como essas sejam feitas para que vocês sejam vistos e reconhecidos pelo que são.
– E o que somos, então? – Alba perguntou logo após sentar ao lado do esposo – Vocês todos já têm uma imagem sobre nós em suas cabeças. Somos os ciganos selvagens, imorais, charlatões e preguiçosos. – ela riu abertamente.
E eu não poderia lhe tirar a razão naquela declaração. Essa era a imagem amplamente disseminada e aceita sobre os ciganos. Um povo que vivia sem rumo e sem um lugar para chamar de seu, o que para a sociedade ocidental moderna era sinônimo de atraso e barbárie. Havia narrativas sobre como eles era audaciosos, ladrões muito eficazes; ou sobre como as mulheres eram mestres em enganar com suas magias. “Era” um povo boêmio e marginal. Essa era a identidade construída e imposta aos roma.
Lembro-me muito bem de uma narrativa antiga, contada em meus meios familiares cristãos, que falava sobre o cigano ladrão que roubou o quarto cravo da crucificação de Jesus e logo depois, arrependendo-se de seus pecados, se submete ao poder de Deus e, reconhecendo-se como filho bastardo do único Deus, aceita a condição de vagar pelo mundo sem lugar para ficar. Essa narrativa oral, sem qualquer confirmação histórica plausível, aparece como forma de explicar o nomadismo de um povo a partir da punição divina e de sua libertação espiritual.
Logo, Alba não poderia estar mais certa. Todos nós já tínhamos uma imagem deles construída em nossa mente. Algo repassado por nossas famílias ou pela sociedade em geral. Aquilo me gerou o primeiro incômodo da viagem. Era sempre difícil descobrir como compactuamos com estereótipos.
– Nossa intenção é desmitificar esses conceitos ligados ao povo roma, Alba. – Niam voltou a falar – Por isso estamos aqui para, em primeiro lugar, ouvir vocês.
– Vocês deveriam conhecer . – o filho deles se pronunciou pela primeira vez – Ela é filha de um dos anciãos de nossa caravana e é uma estudiosa como vocês.
– Ah, é verdade! – o mais velho exclamou – com certeza pode ajudá-los muito. É uma moça admirável. Vou me encarregar de apresentá-los amanhã. – ele se levantou e logo todos fizemos o mesmo – Por hora, vou mostrar a vocês onde podem se acomodar. É na tenda aqui ao lado.
Com a cabeça borbulhando e os olhos tentando captar tudo que pudesse ser importante para a pesquisa, segui para onde Miro indicava, observando como sua casa e tendas pareciam ter um elemento de cada lugar por onde passaram durante todos os anos anteriores. Era como um mosaico de territórios, que marcava e desmarcava ao mesmo tempo.
Estávamos na Hungria. Tarim havia nascido em território húngaro, mas ali onde estávamos agora, era território romani e ninguém ali se dizia húngaro, apenas rom. Não havia como não perceber a mudança de ambiente, de traços, sobretudo quando falavam entre si, em sua língua própria, o romanes.
Havia uma parte de mim inquieto e curioso. O deslocamento era como um alimento difícil de engolir, causava um nó na garganta e eu me senti estrangeiro em minha própria terra.

A DESCONSTRUÇÃO
Na manhã seguinte nossa pesquisa começaria de fato. As entrevistas começariam a ser feitas e eu já estava autorizado a fotografar. O melhor de estar em campo era, no entanto, como podíamos mergulhar em cada costume, tradição ou hábito dos sujeitos pesquisados. Acordamos com eles, desjejuamos à mesa juntos e caminhávamos pelo vilarejo, nas imediações do acampamento, ao lado deles, conhecendo cada ponto e cada família a partir deles e de suas apresentações.
A sensação era de estar aprendendo tudo em primeira mão, com quem melhor conhece e vivencia sua própria realidade. Os escritos acadêmicos, eruditos e literários, por mais que transmitissem o conhecimento, eram obras de terceiros, sujeitas a nebulosas mudanças e interpretações.
Enquanto Niam conversava com um casal ao lado de Miro, eu fotografava um grupo de mulheres que estiravam suas roupas em varais improvisados ao lado das casas. Eu as ouvia rir e comentar a situação, vez ou outra acenando em minha direção ou fazendo poses para minhas fotos. Ciara foi até elas e disse que, se elas quisessem, poderiam ter uma cópia das fotografias para recordação.
Foi entre um click e outro que a vi pela primeira vez. Através da lente eu a vi abrir caminho por entre as roupas coloridas penduradas, segurando um cesto com uma das mãos e o apoiando na cintura. Ao lado das outras mulheres, ela sorriu. Tinha os cabelos escuros soltos, cheios e compridos caindo sobre seus ombros e eles se moviam conforme ela virava para dar atenção a cada uma com quem conversava.
Encantado, abaixei a câmera e deixei que a alça ao redor de meu pescoço a segurasse. Continuei a observá-la colocar suas próprias roupas sobre as cordas e inclinando seu corpo para alcançá-las. Vestia uma saia longa vermelha estampada e uma blusa branca, cujas mangas compridas ela empurrava até o cotovelo. Sua beleza era tal que não consegui desviar meu olhar, tampouco continuar a prestar atenção na conversa de Niam ao meu lado.
– Lá está ela! – ouvi exclamarem – ! – o nome citado em nossa primeira conversa foi ouvido novamente e vi a moça que observava virar em nossa direção, ainda sorrindo.
Uma criança que estava ao seu lado chamou sua atenção puxando o pano de sua saia e ela se abaixou para ouvi-la, sem tirar os olhos de nossa direção. Ela assentiu para a menina e, com a expressão séria, caminhou em nossa direção.
– Sim, meu pai. – ela direcionou seu sorriso apenas para o homem que estava com Naim e Miro.
– Quero que conheça essas pessoas. – ele olhou para nosso grupo – São estudiosos de nossa tradição e querem conversar com alguns de nós.
soltou um riso ácido, como se não estivesse muito feliz com aquilo. Ela secou as mãos no tecido da saia e olhou para cada um, parando em mim. Vi seu olhar baixar até meu peito, onde o crucifixo de prata que minha mãe me dera há anos estava pendurado. Deu um sorriso que identifiquei como debochado antes de falar.
– Ah, claro! Novamente vocês que nos expulsam de suas cidades querendo nos estudar. Provavelmente cristãos que ficarão horrorizados com a forma herética que levamos a vida. – ela riu novamente.
– Essa é uma realidade geral, senhorita, mas não única. Queremos fazer nossa parte. – Niam tomou a frente enquanto eu disfarçadamente coloquei o crucifixo para dentro da camisa.
– Eu imagino que suas intenções sejam boas. Desculpem-me. – ela sorriu para meu amigo – É que às vezes cansamos de todos os dedos apontados em nossa direção por pessoas que nem ao menos nos conhecem.
– Nós compreendemos, . Sou Ciara e nós adoraríamos ouvir você.
Ao meu lado, Ciara lhe estendeu a mão e ela prontamente aceitou o cumprimento, logo depois nos indicando sua tenda para que pudesse conceder a entrevista.
– Você se importa se gravarmos? – Ciara perguntou, já com o gravador em mãos.
negou e nos indicou onde sentar. Formamos um círculo no chão da tenda, eu, Ciara, Niam, John, nosso demógrafo e Charlotte, nossa historiadora. Ela e a criança que estava com ela do lado de fora nos serviram o chai antes de juntarem-se a nós.
– Antes de vocês fazerem perguntas, posso começar esclarecendo algumas coisas?
Todos concordamos e ela se acomodou entre as almofadas, domando os fios de cabelo e respirando fundo antes de começar. Mais de perto, pude ver seus traços únicos, a postura altiva e olhar que tinha uma faísca de algo intrigante que não conseguia decifrar.
– Existem mil nomeações para nós dadas por vocês e nós temos as carregado nas costas por tempo demais. – ela começou, primeiramente não olhando para nenhum de nós especificamente – Para vocês, filhos da ordem cristã, nós somos os hereges. Nossos homens são todo o mal personificado e nós mulheres, exatamente como a serpente que enganou Adão. Para vocês modernos, ocidentais e capitalistas, nós somos atrasados, incapazes de sair do nomadismo. Para vocês que buscam algo mais em suas vidas medíocres, nós somos o exótico, o mítico, o conto fantasioso da época em que deus os abandonou.
Ela sorriu para o nada e então olhou para a criança que estava ao seu lado, atenta a todas as suas palavras. Engoli o chá com dificuldade. Seu tom de voz era cortante, como se cutucasse meu peito a cada palavra.
– O que somos e o que fazemos já está escrito por vocês. Seus discursos científicos – ela riu novamente, como se fizesse pouco caso –, falam de nós como a mais fantasiosa literatura. Vocês certamente sabem o que o grande nome de sua fase iluminista disse sobre nós em sua Enciclopédia. Vagabundos que dizem ler a sorte nas mãos e são talentosos em dançar, cantar e roubar.
Naquele momento ela se referia a Diderot, um intelectual do Iluminismo que escreveu a Enciclopédia em 1751 e que foi uma das obras mais marcantes daquela época. Ao menos isso é que me foi ensinado. Uma obra que representava a época das luzes, mas que nomeava outros grupos os desumanizando. Era como um soco no estômago, afinal, eu tinha Diderot em minha prateleira.
– Vocês, gadjos, nos expulsaram de suas cidades, nos impediram de usufruir de seus serviços básicos de saúde e decidiram nos tratar como não humanos. – ela continuou – Nós somos marcados pela nossa pele escura, pelas nossas roupas, pelo nosso modo de viver. E o pior de tudo é que muitos de nós acabaram acreditando nisso e aceitaram as condições sub-humanas que vocês nos submetem. Talvez os dias sejam melhores. Não existe um austríaco louco poderoso mandando nos matar, mas ainda recebemos olhares tortos e ainda nos negam serviços básicos.
A forma como ela se referia a nós como um todo tornava o líquido na xícara ainda mais impossível de engolir. Eu não era assim. Nunca havia destratado algum rom, muito menos os considerava inferiores. Mas eu compreendia sua fala e sua indignação. Se pessoas como nós se referiam a eles como um todo, não havia como pedir que ela fizesse o contrário.
– Quando nós recebemos vocês aqui, é porque para alguns de nós é importante que alguém fale a verdade, mostre o que somos e não o que acham que somos. Somos um povo pacífico e festivo. E nosso Deus é tão bom quanto o de vocês.
Assim que terminou, seus olhos profundos me olharam por entre os cílios grossos e escuros. Senti um incômodo em meu peito e algo revirar no estômago. Sua figura era forte demais para que eu permanecesse impassível.

O ENVOLVIMENTO
Era nosso quarto dia ali e a tarde caía fria enquanto os preparativos para uma comemoração no acampamento eram feitos. Nós estávamos convidados e eu tomava um chá sentado em um banco de madeira enquanto observava a movimentação. Niam e Ciara, já completamente enturmados, ajudavam na preparação de uma fogueira.
A experiência por ali estava sendo bem mais intensa do que eu esperava. Cada conversa e história contada, de viagens, de festas, de perseguições e enfrentamentos, funcionava como uma versão nova e crua de algo que eu já conhecia. Era como ver a realidade se ampliar diante de mim, como sempre acontecia toda vez que eu ia a campo. Mas naquela vez em especial, era como se eu estivesse redescobrindo conceitos ou, sendo bem mais específico, encontrando novos.
Eu me sentia estranho, diferente, como se todas as verdades acumuladas dentro de mim estivessem inquietas. E eu não conseguia dissociar isso de . A imagem de seus olhos ainda me queimava o peito, suas palavras ainda bagunçavam minhas heranças e eu me via muito mais intrigado a cada vez que a via. Eu me sentia preso a sua atmosfera única, rara e fluida. Era como se ela estivesse me desconstruindo.
Quando a noite caiu, eu e meus companheiros nos aproximamos da fogueira. Recebemos copos com bebidas e nos ofereceram as comidas que estavam postas na enorme mesa bem ao lado. Homens e mulheres com instrumentos tocavam animados, entoando cânticos em sua língua nativa e algumas crianças já se amontoavam para dançar.
A fogueira acesa nos aquecia da noite fria de outono e um pouco disperso e sonolento passei a observar atentamente o fogo se mover e as faíscas que soltavam cada vez que alguém mexia na lenha. Entre um gole e outro da bebida, gritos infantis me fizeram erguer o olhar. vinha para a roda puxada por duas meninas e ela sorria abertamente. Estava com sua habitual saia longa vermelha e a blusa de mangas compridas deixava seus ombros à mostra. Na cabeça, um adereço que enfeitava sua testa e duas tranças caíam sobre seus ombros. Eu me senti petrificado. Meu coração estava em adoração.
A música que começou a ser tocada parecia ser apenas para ela e logo as crianças estavam ao seu redor, girando e movendo os braços conforme o ritmo. Com as mãos, ela chamou mais algumas pessoas e começou a dançar. Meu corpo todo estava em adoração.
O sorriso não saía de seu rosto enquanto ela movia os braços em frente ao corpo. Seus pés descalços faziam desenhos no chão de terra e seus quadris eram como o mar furioso, se movendo em todas as direções. Ela se divertia genuinamente, cantarolando a canção e fazendo as crianças a imitarem. Não havia qualquer outra imagem que meus olhos capturassem, apenas aquela figura única que cravou um sentimento desconhecido a ferro em meu peito assim que me olhou.
Por um instante, seus olhos intensos estavam nos meus, abismados. Acredito que ela não fazia ideia da confusão que causara, por isso sorriu, fazendo uma reverência divertida, antes de voltar a dançar sem se importar com nada. Minha alma estava em adoração e eu, completamente entregue.
– Você foi o único a não se divertir plenamente, gadjo. – sua voz me fez sobressaltar.
Ela chegou ao meu lado no fim da noite, com um copo de vinho na mão, sentando-se no mesmo banco que eu ocupava. Sua pela brilhava em suor e ela parecia ainda mais linda.
– Acho que é o frio. – inventei uma desculpa qualquer para omitir a verdade de que eu mal conseguia me mover diante dela, que riu abertamente diante de minha resposta.
– Ora, e você não é um nativo? Deveria estar acostumado. Ou poderia simplesmente dançar ao redor da fogueira. Isso sempre nos mantém aquecidos. – ela sorriu antes de tomar um gole da bebida.
– Eu não sei dançar. – ri, sem jeito, sua presença me deixava inquieto – Além do mais, a festa é de vocês.
Ela abanou uma das mãos em minha direção, negando com a cabeça.
– Ao contrário de vocês, gadjés, nos sabemos receber bem estrangeiros. – ela riu brevemente – Desculpe, sem sermões nessa noite.
– Fique à vontade! – eu levantei as mãos – Ouvir você tem sido uma experiência incrível. – torci para que minhas palavras soassem inocentes.
– Acho formidável como você consegue podar suas palavras e sentimentos. – ela sorriu, olhando em meus olhos como se soubesse todos os meus segredos – Não há problema algum em se sentir como você se sente, gadjo. – então ela sabia, pensei – Mas os motivos que te trouxeram aqui te impedem de ir em frente. E eu acho que não há problema em admitir que sinto muito por isso.
Sem reação alguma diante de suas palavras, espiei quieto ela se levantar, segurando o tecido da saia e se despedir.
– Até mais, gadjo. Que seu Deus te dê uma boa noite.

A DESPEDIDA
Com sete dias completos no vilarejo kalderash nós estávamos nos preparando para a partida. Com os diários de campo borrados em rabiscos, nomes, referências e notas de lembrete com manchas de chai, os gravadores repletos de histórias e a memória da câmera abarrotada de cores, estávamos indo embora.
Na mala dos carros, não apenas nossa bagagem, mas presentes que recebemos daqueles que tão bem nos acolherem e, além disso, havia um conhecimento único que voltava para Budapeste conosco e nisso havia um peso impossível de ser mensurado.
Eu estava me sentindo estranho novamente, como se quisesse ficar, mas também precisasse ir. Óbvio, ali não era meu lar e minha estada entre os rom fora apenas para fins acadêmicos, mas eu jamais iria imaginar sair dali tão fortemente marcado por dois olhos que minha mente não esqueceria jamais.
Um tremor se apoderou de meu peito quando ela apareceu, saindo de uma das tendas com o pai e a mãe, um em cada lado, apoiando-se nela para andar. Os adereços presos em sua saia tilintavam conforme ela andava e a vi sorrir para todos, se despedindo.
Afastei-me um pouco dela, tentando ser o último em sua fila de cumprimentos e me preparei quando ela se colocou a minha frente, sorrindo e me olhando como se soubesse tudo o que eu estava pensando no momento.
– Boa viagem de volta, gadjo. Boa sorte com sua pesquisa. – antes que eu pudesse agradecer, ela continuou – Boa sorte com esses dois lados que existem dentro de você. Se conseguir se resolver com eles, vai encontrar seu caminho.
Não consegui dizer nada, apenas sorri de volta, sentindo suas palavras se fixarem em minha mente.
– E se meu caminho mudar quando eu chegar até ele? – perguntei em um impulso, desejando que ela percebesse que ela era o caminho e que eu temia não encontrá-la mais.
apenas riu.
– Se for mesmo seu caminho, você vai encontrá-lo de uma maneira ou outra. Apenas vá e resolva-se consigo mesmo. Então você pode chegar aonde tanto quer.
Eu sorri, virando-me em direção ao carro, até ouvi-la me chamar pelo nome pela primeira vez.
! – eu virei e ela sorriu – Que seu Deus te guie. Eu e meu Deus saudamos vocês.
Eu assenti, entrando no carro e, pela primeira vez em anos, rezando verdadeiramente, para o meu Deus e para o dela, para que pudesse vê-la de novo em breve.



Nota da autora: (18.01.2016) Essa é a minha música favorita do álbum. Sempre imaginei que o significado dela fosse algo entre o enfretamento de duas culturas e o reconhecimento de que muitas coisas que aprendemos nem sempre são verdades absolutas. E confirmei isso assistindo os comentários do Hozier no Track by Track do álbum. Só uma coisa a dizer: que ser humano maravilhoso! <3
Espero que vocês tenham gostado e que aproveitem as outras fics!
xx
Thainá M.
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OUTRAS FICS:
03. Drunk In Love (Ficstape #020 – Beyoncé) | 09. Long Way Home (Ficstape #30 – 5 Seconds Of Summer) | 12. Don’t Stop Me Now (Ficstape #011– McFly: Memory Lane) | 14. You & I (Ficstape #023 – John Legend: Love In The Future) | Amor em Irlandês (Especial Equinócio de Setembro) | Beside You (5SOS/Finalizada) | Can You Feel It? (Outros/Finalizada) | Don’t Close The Book (Jonas Brothers/Finalizada) | Love Affair (1D/Em Andamento) | Mixtape: Listen To Your Heart (Awesome Mix: Volume 1: “80/90’s”) | Thankful (Especial Extraordinário)




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