Eu não conseguia me lembrar de muita coisa sobre o acidente.
A buzina. Os sons de metal se retorcendo. O cheiro do fogo e o calor me sufocando, consumindo meus pulmões; a fumaça fechando minha garganta. Então a morte era assim? Dores excruciantes em cada centímetro de músculo e ossos, como se o corpo estivesse explodindo de dentro para fora sem nunca parar, em uma tortura infinita?
Bem, eu sempre havia imaginado que seria algo mais pacífico.
Mas então os sons desapareceram, o cheiro sumiu, a dor passou. Por um minuto. Quando consigo abrir os olhos, minhas pálpebras parecem pesar como pedras. Tudo está branco. E minha cabeça, braços, abdome e pernas estão em chamas.
— Senhorita, se acalme — a dona da voz pede enquanto eu arfo em agonia, tentando respirar. A cada tentativa, sinto como se meus pulmões estivessem murchos e o esforço fosse um soco em meu peito. — Por favor. — minha vista finalmente consegue se focar (e desfocar e focar de novo, como uma câmera com defeito) e a enfermeira aparece no cenário branco, ajustando o aparelho que está em meu rosto (oh!) para me ajudar a recuperar o ar.
Então eu não tinha morrido e ido para o céu.
A ideia pareceu estranha, de qualquer forma. A não ser que Deus fosse mais piedoso do que juiz.
— Onde...? — consigo dizer, e aquela única palavra com a voz arrastada me causam uma exaustão terrível e uma pontada bem na testa.
— Você não pode fazer muito esforço, querida. É um milagre estar viva. Por favor, mantenha a calma. Tente descansar. As coisas serão esclarecidas quando estiver melhor. — a enfermeira sorri, tenra, como se aquilo melhorasse a imagem da seringa em sua mão.
O sonífero me derrubou antes que eu pudesse fazer mais perguntas. Pelo menos ficou tudo escuro de novo. E eu não senti nada.
Sonhei com um caminhão a mais de cem quilômetros por hora me atingindo em uma estrada escura, durante uma tempestade. Os vidros estouraram e senti meu corpo se dobrar como uma folha de papel no banco do motorista. O tanque de gasolina foi incendiado. Acordo com um susto, com o corpo coberto de suor e querendo gritar, tentando de alguma forma arranjar forças para isso.
— Está tudo bem, está tudo bem — a mulher afagando meu braço me assegura.
Franzo a testa.
A claridade entra pela janela do quarto de paredes brancas. Tudo é branco – o lençol, a camisola que me cobre, as bandagens em meus braços. A mulher é uma enfermeira. Eu estou em um hospital.
E de alguma forma, tenho a sensação de que deveria me lembrar disso.
— Os médicos vão ficar muito felizes em saber que acordou — ela diz. Está bordado “Catherine” em sua roupa. — Consegue falar?
Minha garganta está seca, mas consigo dizer:
— Por que eles vão ficar felizes?
Catherine me encara como se eu fosse uma aberração. Talvez eu seja. Eu não...
Eu não lembro como meu rosto é.
— Porque você tem estado adormecida por bastante tempo, querida — ela sussurra, parecendo triste. — Mas tenho boas notícias! — ela rapidamente se ilumina com um sorriso — Sra. está aqui para visitá-la.
Quem?
Antes que eu possa fazer a pergunta em voz alta, duas pessoas entram no quarto. Um é um homem alto e velho, que parece um médico. A mulher também é alta e tem um rosto fino e triste. Fica deslocada no ambiente branco usando todas aquelas roupas pretas.
Sei que tenho que conhecê-la, mas não faço ideia de quem aquela senhora seja.
— Não acredito que você conseguiu sobreviver — ela se senta na beira da minha cama e sorri. Sorri de verdade, mostrando ruguinhas nos cantos dos olhos. Ela ergue a mão como se fosse me tocar, mas hesita, parecendo ter medo.
— Você... é minha mãe? — arrisco.
Ela parece confusa e olha para o médico pedindo explicações.
— Está tudo bem, sra. . Ela sofreu um impacto muito forte na cabeça. — ele pigarreia — Não é de estranhar que tenha perdido a memória.
— O que eu fiz? Fiz algo de errado? — eu quero saber e tento me levantar, mas os três me impedem ao mesmo tempo. Eu não havia erguido a cabeça mais do que alguns centímetros do travesseiro e fui forçada a ficar deitada.
— Quieta — Catherine murmura entre os dentes, acariciando a minha cabeça. Quero olhar para a sra. mais uma vez, dizer que eu sinto muito por não lembrar, mas tudo o que consigo é ouvir a voz distante do doutor. Ele diz que, eventualmente, eu vou recuperar algo. Só não sei o quê.


— Acha que consegue aguentar uma chuveirada? — ela pergunta. Outros enfermeiros vinham e iam, mas Catherine era quem estava por perto na maior parte do tempo. E era ela quem me “dava banho”, também, mesmo que eu soubesse que me limpar com um pano molhado não fosse a melhor definição para isso.
— Aguentei um caminhão, um chuveiro não vai ser nada — suspiro, e ela ri.
Foi o que me explicaram quando eu já estava sã e conseguia ficar consciente por mais de cinco minutos. Sofri um acidente. Os não são minha família, mas me acharam e me trouxeram para o hospital. Bancaram a minha estadia e estão responsáveis por mim até que os meus verdadeiros parentes se pronunciem.
Ninguém mencionou o fato de eu não conseguir me lembrar deles.
— Se sim, não vejo porque não poderá ser liberada mais tarde. — Catherine coloca meu braço sobre seus ombros.
— Sério? — arregalo os olhos, e ela faz que sim com a cabeça. Sento, animada, na cadeira de rodas.
Hemorragia. Algumas costelas fraturadas. Intoxicação. Queimaduras. Tantas coisas aconteceram comigo, mas nenhuma parecia pior do que aquela perna quebrada. Ela estava imobilizada, formigava e doía. Eu não podia mexê-la ou coçar. Era uma droga.
— Pronta para se conhecer? — ela pergunta antes de abrir a porta do banheiro. A verdade é que estou ansiosa. Mordo o lábio, meneando a cabeça, e ela empurra a cadeira para a frente do espelho.
Meus cabelos estão secos e quebradiços. Minha pele provavelmente tinha uma cor bonita antes, mas agora está pálida. Meu rosto tem machucados parecidos com os dos meus braços, alguns arroxeados e outros se cicatrizando; e ossudo, como se eu tivesse perdido peso durante o tempo aqui. Meus lábios, ressecados e partidos.
Mas nada disso me chama atenção como meus olhos.
Eles são diferentes. Quer dizer, são do mesmo tamanho e parecem ter a mesma distância exata do meu nariz, mas um é marrom escuro como o café que traziam para mim de manhã (eu não tomava, amargo demais para o meu gosto) e o outro é de um azul desbotado como o céu. Como eu imaginei que o céu é, pelas filmagens das novelas que as enfermeiras assistiam na pequena televisão do quarto.
— Por que isso? — sussurro para Catherine. Ela percebe que eu estava assustada.
— Querida, isso é normal! — ela fala — Quer dizer, não é normal. É uma anomalia genética, a heterocromia. Mas também é muito raro, o que a torna especial.
— Mesmo? Porque eu acho que me torna estranha.
— Bobagem, é lindo. — ela dá uma piscadinha — Agora vamos tomar esse banho. Já estraguei a surpresa, de qualquer forma: o médico irá vê-la mais tarde, e você irá receber alta hoje.


Aperto a bainha do vestido que sra. havia me comprado ao vê-la conversando com dr. Simpson e outro homem na recepção. Ela dá um sorrisinho para mim.
— Desde que siga todas as instruções nas orientações aos cuidados que têm que tomar, ela definitivamente terá uma recuperação rápida. Ela resistiu a um acidente e tanto, é uma jovem forte. — o doutor fala. — Podem trazê-la aqui se tiverem qualquer problema.
— Obrigado, doc, mas acho que a levaremos em algum lugar mais perto de casa — o outro homem diz, de um jeito que o fez soar mais jovem do que realmente é.
— Como quiser. — o médico balança a cabeça, com um sorriso educado, e se retira. Eu olho para Catherine, ciente de que é a hora da nossa despedida. Não sei se ela está autorizada a fazer isso, mas estendo os braços mesmo assim.
Ela me abraça com cuidado.
— Fique a salvo, tudo bem? — ela diz baixinho. Depois, se ergue rapidamente e aperta das mãos da sra. e do seu acompanhante.
A mulher se aproxima de mim.
— Nós queremos que saiba que poderá ficar conosco o tempo que precisar, tudo bem? Não hesite em pedir nada. Só queremos ajudar. — ela toca meu rosto — Meu nome é Grace, a propósito. E este aqui é meu marido.
— Harrison . — ele fala, simpático. — E você, é?
Abro a boca. Havia me acostumado com Catherine me chamando de “querida” e os outros se referindo a mim por “senhorita” que nem mesmo me toquei...
— Eu não lembro meu nome — confesso, com uma angústia terrível.
As sobrancelhas de Harrison se curvam para baixo com sua expressão condescendente.
— Então é uma boa coisa que encontramos você usando esse medalhão, não é? — ele tira uma correte do bolso, dourada e fininha. Ele abre o medalhão. — Aqui dentro tem uma foto de uma garotinha que parece muito com você, e uma gravação escrito .
Sinto as lágrimas surgirem nos olhos, mas era de alívio.
. Sim, esse é o meu nome. — sorrio, e eles sorriem também.
Grace e Harrison têm um motorista particular, mas fazem questão de eles mesmos me colocarem em seu carro. E que carro. Assim que o motorista deu partida, eu precisei perguntar:
— Onde nós estamos?
— Estamos em Leeds. Moramos em York. — Grace fala. — Não exatamente... mas você vai ver.
Mantenho os olhos no relógio no painel do carro durante todo o trajeto. Foram quase quarenta e cinco minutos. E eu passei a maior parte do tempo calada, porque não havia muito para conversar com alguém que perdeu a memória, aparentemente. Sr. se distraiu falando com o motorista sobre futebol e política. Grace segurou a minha mão de forma protetora.
— Sra. ? — eu a chamo. — Por que estão fazendo tudo isso?
Os olhos dela parecem tristes.
— Porque é o que qualquer pessoa decente faria, não acha?
Quando chegamos, entendo o que ela quis dizer com “não exatamente”. A casa fica um pouco distante da cidade. Uma única casa grande e linda, com dois andares e muitas janelas, no meio de um vasto campo de uma plantação.
— Sinta-se à vontade, . Posso chamá-la assim? — Harrison pergunta, abrindo a porta. Confirmo que pode, porque tenho a sensação de que não é a primeira vez que alguém me chama por aquele apelido.
— Você terá um quarto só para você e contratamos uma cuidadora — Grace diz, empurrando-me na cadeira para dentro.
— Uau — eu deixo escapar. O lado de dentro é ainda melhor. Tudo parece tão antigo e, ao mesmo tempo, tão novo. Tão... chique. Essa é mais uma palavra que eu tinha certeza que não fazia parte da minha vida antes do acidente. — Vocês não precisav...
Minha voz some ao mesmo tempo que ele aparece.
O garoto – era mesmo um garoto? – tem um rosto jovem, mas o corpo de um homem – é alto, esbelto e tem ombros largos. Seu cabelo está bagunçado de um jeito quero-parecer-que-não-ligo-mas-ligo, e liga mesmo, julgando pelas roupas perfeitamente alinhadas. Ou estariam, se ele não tivesse dobrado as mangas da camisa, deixando à mostra os antebraços com veias saltadas. Tem um maxilar anguloso e uma boca bonita. E seus olhos... me observam com completo desprezo no breve momento em que ele me encara, antes de bufar e voltar para onde estava, batendo a porta com força.
— E esse é meu filho, — Grace solta um suspiro cansado — Tenho certeza que é um prazer para ele conhecer você.


Levo um susto ao acordar e me deparar com um par de olhos grandes me encarando. Olhos que brilham tanto que parecem espelhos, e eu posso ver o meu reflexo – minha aparência patética – neles. Me acalmo ao perceber que o garotinho parece ainda mais assustado do que eu. E que deve ter a metade da minha altura.
— Olá — eu digo, com a voz meio rouca.
— Você dorme bastante, não é? — ele observa — Mas não tem problema. Eu também gosto de dormir. Meu irmão não gosta, mas ele não gosta de quase nada.
— Eu acho que os remédios que estou tomando me deixam sonolenta — eu lhe conto — Sou , a propósito.
— Matthew Augustus — ele se apresenta, estufando o peito com orgulho. — E sim, eu sei. Mamãe e papai me disseram que você sofreu um acidente e agora precisa tomar muitos remédios e dormir bastante para ficar melhor. E não aparece para comer com a gente, porque Deanna trás o seu jantar aqui no quarto.
Eu rio.
— Quantos anos você tem?
— Nove — ele responde com o mesmo tom que um adolescente usa quando faz dezoito anos e já se sente um adulto.
Percebo que não lembro quantos anos eu tenho.
A verdade é que eu já estou cansada de chorar, então me concentro na dor física e finjo que a emocional não me afeta. Minha perna ainda está ruim, mas eu sentia a melhora a cada dia. Em breve, eu poderia andar de novo.
— Você pode jantar com a gente se quiser, .
— Obrigada. Eu vou. — sorrio para o menino. — Me chame de .
Ele sorri de volta.
— Me chame de Matt.
Achei que seria bom sair um pouco do quarto, mesmo apenas para as refeições, porque Deanna parecia meio constrangida quando eu tentava conversar (porque ela só estava ali para fazer o seu trabalho), Harrison sempre estava ocupado no trabalho e Grace parecia mais do que triste... depressão era a palavra que vinha na minha mente, mesmo que eu não tivesse certeza de como sabia o que significava. Matt, meu novo e único amigo, tinha que ir à escola.
Apesar de eu me sentir grata por tudo, também me sentia sozinha na maior parte do tempo.
O jantar acabou sendo pior do que eu imaginei. Eu corava todas as vezes em que olhava para mim. Era como se ele quisesse me destruir com os olhos ou me fazer desaparecer com a força do pensamento, e eu sentia vergonha de mim mesma. É claro que o problema era eu. Durante a refeição, Grace perguntou se eu estava me sentindo melhor. Eu não tinha aberto a boca para responder e ele largou os talheres no prato quase intocado e se levantou da mesa, empurrando a cadeira com força e então saiu batendo os pés.
Sra. fechou os olhos e respirou fundo. Harrisson encarou a comida, sem reação, e Matt parecia ter medo.
— Ignore-o — Grace pediu — Ele... ele não era assim.
Na mesma noite, sozinha de novo na cama, consigo mover a perna – já sem o gesso –, erguê-la e encolhê-la sem sentir doer. Animada e receosa ao mesmo tempo, tento colocar um pé no chão. Em seguida, o outro.
Estar de pé com as duas pernas fortes e firmes. Não podia haver jeito melhor de terminar um dia como aquele.
Atravesso o quarto como um bebê dando os seus primeiros passos. E, pelas circunstâncias, para mim aqueles realmente são os meus primeiros. Me sinto tão feliz que não quero parar, mas quando abro a porta e ouço vozes do lado de fora decido permanecer onde estou.
E ouvir. Escondida.
— Uma garota sem nenhum documento em um carro também sem documentos, dizendo que perdeu a memória? Não parece meio suspeito? — é . Ele não está gritando, mas a raiva deixa sua voz rouca, como se ele tivesse gritado demais ou chorado demais. — E a única coisa que resta da explosão é um álbum de fotos? Francamente, não dá pra acreditar em vocês dois.
Eu engulo em seco.
— Ela não está fingindo, a pobre garota realmente não se lembra de nada — Grace o contraria.
— Escute aqui — Harrisson diz, com um tom que eu nunca imaginaria que ele usaria, totalmente diferente do seu bom humor usual — Nós não pedimos nada de você. Você não faz nada. Não nos ajuda e não trata bem porque ninguém está forçando você a fazer isso. Então qual é a porra do seu problema com ela?
— Meu problema não é com ela — dispara, e eu ouço passos. Há um breve silêncio e, mesmo que eu não estivesse vendo, sinto o constrangimento do ambiente. — Meu problema é com vocês dois, bancando os bons samaritanos depois da morte de Frederick. Como se isso pudesse apagar todas as merdas que vocês fizeram antes.
Mais silêncio.
— Vá para o inferno — declara Harrisson.
ri, sarcástico.
— Pai do ano!
— Pelo menos nós estamos tentando mudar! Você continua a mesma criança de sempre! — Harrisson grita. Mais passos, fortes, e o som de algo quebrando. O choro embargado de Grace.
Meu Deus.
Se existe algo como carma, talvez o acidente tenha sido apenas o começo para mim.


? — o sussurro parece um som estrondoso no silêncio absoluto da madrugada. Desperto imediatamente e me sento no colchão ao ver Harrisson na poltrona onde Deanna geralmente fica, seu rosto iluminado pela lua.
— Oh... olá, sr. . — eu pigarreio.
Ele parece tão desconfortável quanto eu. Só posso imaginar os motivos dele, mas eu não consigo parar de pensar na discussão com o filho horas atrás.
— Sinto muito por acordá-la, mas não consegui dormir. Achei que não podia esperar. — ele fala — Quando a encontramos... bem, você sabe, o carro estava em chamas. Havia uma pequena mala, mas quase todas as roupas foram danificadas e, hum, supomos que as cinzas que encontraram dentro dela eram dinheiro. A única coisa em perfeito estado...
Eu não havia reparado que ele está segurando um livro, azul e de capa dura. Talvez porque ainda esteja com sono demais para raciocinar direito. Ele o estende para mim, e eu o pego. A textura e o peso daquele livro não me são estranhos. Eu com certeza estou me lembrando dele.
— Não tão perfeito estado, na verdade. — Harrisson diz — Com o fogo e a chuva... algumas páginas ficaram, bem...
— Não, não. Está ótimo. — eu sussurro, sem tirar os olhos da capa. Quero abrir, mas sinto que devo fazer isso quando estiver sozinha. O que está ali dentro... tenho o pressentimento de que é algo muito pessoal.
— Algumas fotos foram arruinados e as palavras ficaram manchadas. — ele acrescenta — Nós não conseguimos entender, mas... espero que a ajude a se encontrar outra vez.
Eu apenas balanço a cabeça, sem ter palavras o suficiente para agradecer. Ele imita o gesto e se levanta para sair.
— Sr. — eu o chamo quando ele coloca a mão na maçaneta. Harrisson ergue as sobrancelhas para mim. — Você é um bom homem. Espero que o meu pai seja como você.
Ele parece feliz e triste ao mesmo tempo.
Aquele é o álbum de fotos ao qual havia se referido. Na primeira página após a capa há uma foto antiga de um bebê pequenininho, com os olhos fechados. O bebê usava uma touquinha amarela e uma roupinha de abelha, em um berço com lençóis parecidos com os que eu tinha no hospital. As beiradas da fotografia estão soltas. Percebo que ela está colada com um pequeno pedaço de fita na parte de trás.
E também ali, na parte de trás, estão os dizeres: . 01/01/1995.
.


Sonhei com os meus pais.
Talvez tivesse sido mais um lembrete do que sonho. Aquilo havia acontecido de verdade, há muito tempo. Eu tinha 6 anos e estávamos na fazenda da tia Molly. Esses eram detalhes que eu provavelmente jamais conseguiria saber, mas eles eram tão certos quanto a nitidez do sonho na minha mente depois que acordei.
— Eu já sei o que vou ser quando crescer — a eu de seis anos afirmou. Meus pais trocaram um olhar de “dá para acreditar no que essa menina está falando?”, mas não de um jeito maldoso. Eles eram tão bonitos.
E nenhum dos dois tinha olhos de duas cores como os meus.
— E o que será, querida? — minha mãe perguntou.
— Vou ser uma exploradora! — eu disse, balançando os braços pequenininhos no ar. Meu pai riu e me pegou no colo.
— O que acha de começar explorando o bosque? — ele perguntou. Eu gritei com entusiasmo em resposta.
— Não vá muito longe, amor — minha mãe censurou — E nada de atraso para o jantar!
Fico repetindo as imagens e palavras na cabeça várias e várias vezes.
A primeira pessoa a me ver sem a cadeira de rodas é Matt, e ele parece fascinado por eu estar, pelo menos por fora, inteira. Grace diz que ainda não dispensará Deanna, porque talvez eu ainda precise de ajuda com os remédios e os outros problemas causados pelo acidente. O meu desejo de independência e necessidade de cuidado são diretamente proporcionais.
— É um vinhedo, sabia disso? — Matt pergunta para mim, enquanto olhamos para a enorme plantação do lado de fora pela janela.
— Oh! — eu exclamo — Não sabia. Mas agora faz sentido.
— O que faz sentido? — ele franze a testa.
Dou uma risadinha.
— Não sei. Só faz.
Matt dá de ombros.
— Bem, papai tem essa grande empresa que faz um monte de vinhos, por isso a plantação. Eles são muito famosos. Têm de vários tipos, devem ser gostosos. Nunca provei porque ninguém deixa. Dizem que álcool é só para adultos.
— Eles estão certos — falo — Mas não se preocupe, o tempo passa rápido. Quando for adulto, você sentirá falta de ser criança.
Eu definitivamente preferia ser uma criança no sítio de tia Molly com meus pais do que uma adulta em um carro destruído no meio da estrada.
— Eu não me importo. Álcool faz com que pessoas boas fiquem estúpidas e façam coisas ruins. — ele diz — Foi por causa disso que Frederick, meu irmão mais velho e mais velho que , morreu. Um amigo dele estava dirigindo bêbado. Esse amigo veio aqui em casa e era bem legal. Não achei que ele poderia fazer algo tão idiota quanto morrer e levar o meu irmão.
Eu o encaro, perplexa demais para responder de imediato. Ele é apenas um garotinho de nove anos, pelo amor de Deus.
— Você sente falta dele? — eu pergunto.
Matt sorri para o chão.
— Ele era legal comigo, mais legal que o . Sinto saudades dele, mas o sente mais. Ele é todo estranho agora, mas você já deve ter percebido isso.
Os dias seguintes parecem passar mais rápido, considerando que eu já tenho capacidade de me mover sozinha e procuro me manter ocupada. Tento ajudar sra. com os afazeres domésticos e descubro que ela tem várias empregadas para fazer isso. Não satisfeita, tento ajudar as senhoras na cozinha – se não fosse para cozinhar, que eu pudesse pelo menos lavar os pratos. Elas sempre me tratam como se eu fosse parte da família, importante demais para estar entre elas.
É claro que eu não me deixo iludir. Seria apenas questão de tempo até que eu voltasse para o meu lugar, seja lá onde fosse.
Na sexta-feira, o clima está ameno o suficiente para que eu use shorts e blusas mais leves. Porém, as cicatrizes no meu corpo me fazem odiar o que vejo no espelho, então escolho calças de moletom e um suéter largo. Saio da casa para ver o vinhedo mais de perto e fico maravilhada com a natureza – a vastidão do cheiro e das cores não pareciam ser de verdade. Eu não preciso ter a minha memória de volta para saber que não havia tido contato com nada parecido com aquilo antes.
Noto, pela primeira vez, que há uma casa de madeira vermelha atrás da mansão. Parece um celeiro, ou um depósito. As portas estão abertas, mas não há ninguém por perto. Resolvo me aproximar.
As luzes se acendem assim que dou o primeiro passo para o lado de dentro.
— Meu Deus — coloco a mão no peito, sobressaltada. ergue as sobrancelhas. — Desculpe, eu não deveria... eu só estava... curiosa. Vou embora.
— Não — ele diz, sério, antes que eu possa me mexer. E eu realmente não me mexo, talvez porque a presença dele me intimida. — Quer dizer, está tudo bem. Eu só estava checando a adega.
Então é uma adega, o que explica os barris gigantes e as várias e várias prateleiras cheias de garrafas. Ficamos em silêncio e sem fazer nenhum contato visual até aquilo ficar desconfortável.
— Olhe — ele finalmente fala — Eu sinto muito por ter agido como um babaca durante esse tempo todo. Você pode me xingar para se sentir melhor, se quiser. Eu vou entender.
— Não faz mal — encolho os ombros — Eu acho que também não confiaria em alguém que nem mesmo sabe quem é.
Ele balança a cabeça e empurra uma pilha de caixas com a ajuda de um carrinho de mão.
— Isso não é desculpa para tratar alguém mal.
Observo-o separar as caixas em categorias e guardar algumas garrafas, repetindo o processo várias vezes e parecendo concentrado e dedicado ao fazê-lo.
— Então... você vai permanecer nos negócios da família? — arrisco perguntar.
Ele ri. Não exatamente uma risada, mas é o mais próximo de uma expressão alegre que já tinha visto nele.
— É o que parece — responde — Você foi para a faculdade?
Eu o encaro.
— Certo, pergunta idiota — ele quase parece sem graça — Sabe quantos anos tem?
— Fiz 21 dia primeiro de janeiro. — e já havia checado o calendário antes para ter certeza de que a data já havia passado.
— Dia de ano novo, hein? Dizem que é sinal de boa sorte.
— É, talvez eu possa ser considerada uma pessoa sortuda — murmuro.
sacode as mãos para tirar o pó delas depois que termina.
— Bem, eu fui para a faculdade. Mas voltei antes de terminar, quando meu pai se viu obrigado a me tornar o herdeiro da empresa — ele diz, com amargura.
Mordo a parte interna da bochecha.
— Sinto muito pelo seu irmão.
Ele olha para mim, mas se ia perguntar como eu sabia, mudou de ideia.
— Não foi fácil — ele dá uma risada sem humor — Óbvio que não. Mas Frederick sempre foi rebelde e ainda assim era o favorito deles. Ele queria estudar História em Paris e nunca ter que ficar em um só lugar para sempre. Ele nunca quis... ele nunca quis nada disso.
Pisco, tentando acompanhar.
— E você sempre quis?
franze o nariz, o que é meio fofo.
Coro por pensar isso.
— Não sei. Eu nem sei o que eu quero. Mas eu disse para o Harrison que queria, só para saber se ele e Grace continuariam agindo como se só tivessem um filho. Dois, já que Matty era e ainda é jovem demais para entender o circo de horrores que é a família dele.
Fico um pouco surpresa, quase não acreditando que ele havia mesmo dito tudo aquilo para mim depois do começo difícil que tivemos. Talvez nem mesmo percebera o que havia falado ou para quem, ele só precisava fazer aquilo. Dava para saber.
— Eu não tinha raiva ou inveja dele, se quer saber — afirma ele — Na verdade, imagine só como seria perder a sua melhor amiga. Foi mais ou menos assim para mim.
— Imagino. Pena que não consigo me lembrar como ela se chama. — sussurro.
Não é mentira. Continuei investigando o álbum de fotos e, de muitos rostos, o que mais se repetia era o de uma garota com cabelo comprido, sorriso largo e olhos brilhantes. Eu ainda não tinha recuperado nenhuma memória com ela como a com meus pais, e seu nome não estava atrás de nenhuma das fotografias.
Será que ela está sentindo aquilo? Como é perder a melhor amiga e não ter ideia de onde ela possa estar?
arqueia uma sobrancelha.
— Como é a sensação? De perder a memória, digo.
— Angustiante. Mas, na maior parte do tempo, não parece ser tão ruim. É quase como voltar a ser criança, ter que aprender tudo de novo sobre si mesmo e sobre o mundo. Uma chance para um recomeço.
Ele repete a palavra recomeço, mas sem emitir nenhum som. Apenas move os lábios.
Depois disso, conviver com se tornou mais fácil. Nas duas semanas que passaram, acostumei-me à sua presença, e provavelmente ele à minha. Ele me levava para ver as uvas e a produção dos vinhos. Passamos a ficar a maior parte do tempo juntos, com uma distância segura para que as coisas não acabassem ficando estranhas. Não falamos muito, mas nos comunicamos com risadinhas, trocas de olhares. Talvez... talvez seja bom ter a companhia de alguém tão fodido quanto você.
Comecei a xingar depois da nossa aproximação, também. Nenhuma surpresa.
Antes de dormir, sempre abria o álbum para descobrir algo a mais sobre a minha vida antiga. Encaro por vários minutos uma fotografia onde eu e a garota – minha melhor amiga – estamos abraçadas, usando becas e quepes de formatura. Eu pareço tão mais jovem.
Não é à toa que atrás de nós havia uma faixa com os dizeres Chapel Allerton High School.
Deslizo as pontas dos dedos pela imagem.
— Espero ver você outra vez.


A câmera dispara o flash e eu não me importo por ter fechado os olhos, até porque duvido que meu rosto tenha aparecido de qualquer maneira.
— Conseguimos! Terminamos os piores anos das nossas vidas! — ela grita, balançando o canudo com o diploma no ar. Eu rio. Não consigo parar de sorrir.
— Todo mundo diz que o ensino médio é a melhor fase da vida, — eu falo. Ela revira os olhos dramaticamente.
— Ah, claro. Ansiedade, insônia, pessoas insuportáveis que só sabem julgar os outros. Foi maravilhoso — ela diz, sarcástica.
Cruzo os braços e balanço a cabeça.
— Tudo bem, você venceu.
me abraça pelos ombros e meus pais surgem entre o amontoado de famílias, com os olhos brilhando de orgulho.
— Não acredito que vocês estejam formadas! — mamãe choraminga — Ainda acho que são duas garotinhas.
— Elas sempre serão garotinhas — papai responde.
acha graça. Meus pais a amam, e é recíproco.
— Sempre seremos as mesmas garotinhas de antes, e podem ter certeza de que ficaremos juntas para sempre.


Ouço os gritos no andar de cima e imediatamente corro para as escadas.
O que diabos você acha que está fazendo, Matthew? Fica longe do meu quarto, porra!
Corro até a porta aberta e observo os dois do lado de fora. está possesso – seu rosto vermelho e os olhos injetados. Matt está encolhido de medo, e entre os dois, diversos objetos espalhados pelo chão.
Frascos de remédios.
— Eu só... eu só queria saber se você já estava bom — o garotinho sussurra.
— O que ainda está fazendo aqui? FORA! — berra. Até mesmo eu dou um sobressalto, assustada.
Matthew sai correndo, mas não antes de me encarar por um segundo. O suficiente para que eu veja as lágrimas caindo por suas bochechas rosadas e a expressão de quem não havia feito nada de errado.
Aquilo me deixa furiosa.
— Qual é o seu problema? — vocifero, entrando no quarto com passos fortes. Não sei de onde veio a coragem, mas eu sinto como se pudesse socar até que ele não aguente mais.
Ele fica surpreso por eu estar ali e deixa os frascos que estão em suas mãos caírem.
. Por favor, eu preciso...
— Eu estou com tanta raiva de você que nem mesmo aguento olhar na sua cara. Sai do quarto e vá pedir perdão ao Matty. Eu arrumo isso.
Ele me encara como se fosse discutir.
— advirto mais uma vez.
Ele respira fundo e faz o que mandei.
É claro que não reconheço o nome de nenhum dos remédios, mas não poderia significar coisa boa eles estarem ali, principalmente em uma quantidade tão grande, no quarto de um garoto supostamente sadio.
Nunca tinha estado no quarto de antes. Coro, estupidamente, e me concentro em guardar os frascos e cartelas com pílulas para ignorar isso. Ele tem um quarto surpreendentemente vazio. Parece que ele não gosta de se apegar a nada.
— Ei — ele me chama, já de volta. Viro a cara. — Fiz o que você pediu, tá legal?
— O que você disse? — mantenho a voz fria para deixar claro que não está nada legal.
— Eu disse que sentia muito. Que sabia que ele se preocupava comigo, e que eu agradecia por isso, mas que preferia que ele não entrasse no meu quarto. E que ele não tem culpa por ter um irmão idiota.
A última parte me faz soltar uma risada baixinha e sento na beirada da cama.
— Você ao menos se ouve, com esse papo de não entrarem em seu quarto? Francamente, parece um garoto de quatorze anos escondendo pornografia.
Ele ri e se senta ao meu lado.
— Você perdeu a memória, . Não deveria se lembrar de costumes de adolescentes ou pornografia.
— Algumas coisas a gente não esquece, pelo visto — dou de ombros — O que o Matt falou?
coça a nuca.
— Ele... sorriu e me abraçou.
— Ele te adora — eu digo — Fala de você para mim como se fosse um super herói.
— Ah, claro — ele revira os olhos.
— É sério, . Eu sei que estou aqui há um mês e posso soar como uma intrometida, mas você precisa ser para o Matty o que Frederick foi para você. Só que melhor. Ele... ele tem tanto medo de te perder.
Ninguém fala nada por um minuto que parece longo demais. fecha os olhos e sacode a cabeça, com uma expressão de dor. Depois, olha para mim.
— Pergunta logo. Eu sei que você está morrendo para saber só pela sua cara. — ele fala. Ergo as sobrancelhas. — Por que tomo os remédios.
Solto um “ah” tão baixo que é quase inaudível.
— Depois que Frederick morreu... eu perdi a cabeça. Completamente. Tomava os calmantes várias vezes por dia para pelo menos parar de tremer. Agora... estou viciado, não consigo dormir sem esses malditos comprimidos. E quando consigo, ele aparece nos meus pesadelos. O que... o que você está fazendo?
Eu não havia percebido que meus dedos estavam entrelaçados aos dele.
— Sinto muito — é tudo o que digo.
Ele continua fitando nossas mãos unidas até erguer os olhos para o meu rosto.
— Um mês, ? Passou tão rápido que eu nem notei.
Envergonhada, solto a minha mão e torço o tecido que cobre a cama.
— Eu também deveria pedir desculpas por isso.
— Não seja ridícula — se fosse qualquer outra pessoa, a frase teria tom de brincadeira. não é como os outros, e fala bastante sério. — Você conseguiu recuperar alguma coisa ultimamente?
Subitamente nervosa, engulo em seco.
— Sim. O nome da minha melhor amiga... .
Ele se finge de impressionado.
— Devem ter umas 3 mil só nesse pedaço do Reino Unido — zomba, e eu lhe mostro o dedo do meio. Ele sorri. — Algo mais?
Considero perguntar sobre Chapel Allerton. Se estamos perto, porque talvez minha família esteja lá. Talvez já tivessem espalhado cartazes e panfletos com minha foto, como nos filmes.
Não sei exatamente por que, mas respondo:
— Não. Nada.


Eles foram voltando a cada dia que passava. Fragmentos da minha vida que se juntavam, como um grande quebra-cabeças, e eu finalmente sentia que sabia quem eu era.
Mas decidi fingir que não.
Continuo negando quando perguntam sobre a minha recuperação. É ridículo, estúpido, mas inevitável. Demorei para admitir a verdade: não quero ir embora. Toda vez que Harrisson afaga meu ombro ou Grace toca meu rosto com cuidado eu tenho vontade de chorar com saudade dos meus pais, porque eu me lembro deles. Será que eles estão ao menos me procurando ou me querem de volta? Esses são detalhes que ainda estão vagos.
Eu não estou pronta para me despedir de Matty. Sinto um carinho enorme por aquele garotinho tão inteligente que adora revistas em quadrinhos.
A pior parte é que eu não quero voltar para Chapel Allerton. Não agora, pelo menos. Sinto-me péssima só de pensar nisso, mas eu tinha me acostumado com o luxo e os mimos dos . Não é como se eu estivesse me aproveitando, mas... céus, não. Não há nenhuma justificativa no mundo que possa tornar isso menos pior.
E, é claro, . É difícil até mesmo me imaginar sem vê-lo ou sem falar com ele todos os dias, mesmo que nossas opiniões divergissem na maior parte do tempo. Mesmo que brigássemos e eu acabasse magoada. Sei que tudo isso é temporário – soube desde o início –, mas não me protegi e agora meio que preciso dele o tempo todo.
Ele me chamou para ir à adega mais cedo. Entramos, e ele me leva para a parte dos fundos. Quanto mais andamos, sei que os vinhos ficam mais velhos e mais saborosos. Isso é esquisito e ao mesmo tempo fascinante.
— Esse aqui — ele diz, tirando a garrafa com o líquido de cor intensa, um vermelho robusto, da estante — é vinho de cereja. Visciole. — Ele me dá para que eu segure enquanto limpa com um pano dois copos de vidro que estavam no armário da frente. — Me lembra você.
— Por que? Doce e enjoativo, eu presumo.
— Ha ha. Não. — nós trocamos, e eu seguro os copos para que ele os sirva. — É suave, mas pode derrubar um cara antes que ele perceba.
Abaixo a cabeça para que ele não veja meus olhos quando sorrio.
Nós brindamos e eu levo o copo à boca. No primeiro momento, sinto apenas o doce da cereja na ponta da língua, mas o calor do álcool arde quando desce pela minha garganta. É maravilhoso, e termino o conteúdo no meu copo rapidamente e logo peço por mais.
— Vai com calma — ri de mim. Ainda não lembrei, então não sabemos se costumo beber ou não.
À noite, como em quase todas as outras, sonho com meus pais. Mas, dessa vez, eles não estão lá.
Eu no sonho não parecia mais jovem – aquilo deveria ter acontecido há pouco tempo. Parecia saudável, até, embora também parecesse cansada e sem forças para mudar a impressão de desleixada, que talvez fosse proposital. Estava chovendo, minhas roupas estavam encharcadas e o cabelo empapado em uma confusão de nós. Eu não me movia – continuava sentada na grama, apenas tremendo com o frio.
apareceu no cenário, mas eu não me mexi. Ela estava com uma capa amarela que não combinava com seu semblante sombrio — Já faz cinco meses. Por favor. Você deveria fazer o que prometeu a eles.
Eu quase ri, mas a expressão em meu rosto significava que até a tentativa era dolorosa. E então vi, ou lembrei, para onde eu estava olhando naquele dia.
Dois túmulos em meio a muitos outros. Um cemitério que estava cheio deles. Mas aqueles dois eram difíceis de olhar por causa dos nomes e datas neles gravados. Porque jamais alguém no mundo poderia aceitar que um casal tão cheio de amor e vida como “sr. e sra. de Chapel Allerton” pudesse estar debaixo da terra.
— Como acha que eles se sentiriam se soubessem que você não cumpriu a promessa que fez? Que desistiu dos seus sonhos?
Eu fechei os olhos e respirei fundo, como se estivesse me impedindo de discutir com ela.
— Eu só preciso de um minuto — falei.
Finalmente acordo, e sinto meu coração batendo tão forte que tenho a impressão de que ele irá rasgar meu peito. Minha garganta arde como se eu tivesse gritado. Não posso e não consigo acreditar que o que vi enquanto dormia possa ser verdade.
Mas... mas faz sentido.
Tiro o álbum de fotos de debaixo da cama e me recuso a aceitar e entender o motivo pelo qual as últimas páginas estão vazias. O motivo de a última fotografia colada ser uma de meus pais, e as rugas nos cantos de seus olhos e alguns fios de cabelo grisalhos não podem negar a juventude em seus sorrisos. Descolo a imagem e, na parte de trás, as datas que vi nos túmulos escritas com canetinha.
Aperto a foto contra mim, tentando desesperadamente abraçá-la, abraçá-los, voltar no tempo ou trazê-los de volta para mim. Choro e soluço com a tortura do luto.
Talvez uma perna quebrada, queimaduras e amnésia não tivessem sido à toa. Eu precisava me preparar, mas nenhuma dor pode ser pior do que a que sinto agora.


Achei que havia perdido a mim mesma quando não sabia quem eu era. Agora sei que isso não significava nada. Eu não vou voltar para eles porque eles não vão voltar. Não posso ter o que preciso. E quando olho para os , percebo que não posso ter o que eu quero.
Passei a evitar Grace e Harrison, parei de dar risadas com Matt e comecei a me isolar. Eles perceberam, e claro, mas não falam sobre isso. não é tão pacífico e deixa seus sentimentos expostos, voltando a se comportar como o babaca que era quando cheguei. Se levanta da mesa com raiva quando não respondo a uma pergunta que outra pessoa fez durante o jantar; bate o pé com raiva quando estou perdida demais em minha mente para ouvi-lo e xinga quando pensa que estou o ignorando.
— Como você pode ser tão egoísta? — ele diz, finalmente perdendo a cabeça.
— Como você pode ser tão criança? — eu grito, a primeira vez que elevo a voz para ele em muito tempo. Ele recua.
Me preparo para que ele rebata, mas parece mais surpreso por eu estar lhe dando atenção outra vez do que por qualquer outra coisa.
— O que você quer, ? — ele solta. Uma pergunta estranha, mas sei exatamente o que responder.


Não imaginava que uma cidadezinha como aquela pudesse ter um lugar como esse. Cada fibra e cada nervo do meu ser repudia tudo isso, mas preciso me perder. Preciso esquece de novo, mesmo que temporariamente. Tudo é temporário, inclusive pessoas.
A maioria na boate são jovens. Eles dançam, bebem e fingem se divertir. Me misturo a eles, movendo-me inebriada por fumaça e pela música que vibra nos meus ossos, me perguntando se eles se sentem tão estúpidos quanto eu ao fazerem aquilo.
Provavelmente eu tinha esse costume antes, mesmo que cada gole de bebidas diferentes e cada trago de cigarros diferentes me dê enjoo, porque nada parece ser forte o suficiente para me derrubar. Meu corpo passa por mãos curiosas e bocas desconhecidas e não quero nem pensar no que estou fazendo quando ouço a voz de rosnar:
Não... faz... isso.
Ele está com raiva e eu não ligo. Mas logo percebo que não é comigo que ele está falando quando ele empurra o cara – o cara que estava dançando comigo, atrás de mim.
— Não toca nela — vocifera e me puxa pelo ombro como se eu não sentisse dor. Ele me arrasta para fora do local e não sou forte o suficiente e nem tenho vontade de impedi-lo. — Você tem problemas? Se queria ficar bêbada e fumar poderia ter feito isso em casa. Ou só estava procurando um estupro?
Suas palavras são fortes como um tapa, mas não reajo.
Está chovendo.
Sento na calçada.
— Eu deveria ter morrido. No acidente. — falo. — Era intencional. Vocês não deveriam ter me salvado.
Ele se senta ao meu lado e aproxima o rosto do meu. Não se sei a intenção é me intimidar ou apenas me fazer escutá-lo por causa do barulho da chuva.
— Você não pode dizer esse tipo de coisa. Não depois de tudo o que passamos. Não depois de eu... — ele se interrompe.
Tudo está distante e embaçado e a única coisa na qual consigo me focar é no rosto de . Em seus olhos enraivecidos. Observo suas mãos se movendo violentamente e depois volto a observar, maravilhada, o movimento de sua mandíbula enquanto ele fala algo que não consigo ouvir.
— ele quase suplica.
Antes que eu possa ter a chance de pensar sobre isso, me inclino e seguro em sua nuca para beijá-lo.
Ele me beija de volta com força, como se precisasse. Me sinto pequena quando ele me segura, e a chuva gelada não me incomoda mais. Sinto sua língua entre meus lábios e seguro seus cabelos, apertando os olhos para me concentrar em seu gosto. tem gosto de água e álcool.
Perco a noção do tempo e espaço nos minutos que seguem. Sei que estamos em um táxi, porque o carro está se movendo mas não está dirigindo. Pelo contrário, tomamos todo o espaço do banco de trás – ele puxa minhas pernas para a sua cintura e nossos lábios se chocam com uma força que me eletrocuta com dor e prazer ao mesmo tempo. Estou tremendo, e nossas respirações se tornam uma só.
As luzes da casa estão apagadas quando entramos. Chegar ali finalmente faz a minha ficha cair do que vai acontecer, do que está acontecendo, e fico rubra. Rubra como visciole. Como o vinho de cereja.
me olha de um jeito como se mal pudesse acreditar que sou de verdade. Ele dá um sorriso pequeno, mínimo, e segura as pontas dos meus dedos antes de tomar a minha mão. Avanço e o beijo de novo, tocando seu rosto com a mão livre, e permanecemos daquele jeito por alguns segundos antes de subirmos as escadas.
Sua camiseta está grudada no corpo por causa da chuva, e ele se livra dela rapidamente. Suas pupilas estão dilatadas e sei que ele espera que eu faça o mesmo, mas deixo escapar com a voz rouca:
— Cicatrizes. — não quero que ele as veja, não quando o seu corpo é perfeitamente torneado e sua pele sem defeitos, e me concentro na gota de água que escorre do seu cabelo pelo seu rosto e continua descendo pelo pescoço até se perder no torso molhado.
Ele se aproxima de mim e, por mais que eu recue, ele continua. pega meu braço e sobe a manga da camiseta um pouco, onde há uma grande e feia cicatriz esbranquiçada, e eu me esforcei tanto para escondê-la que não sei como ele sabe que ela está aí. Ele a beija, e sinto um arrepio me percorrendo por inteiro. Me sinto adorada, até mesmo bonita. Ele continua fazendo isso conforme tira as minhas roupas, não se esquecendo de nenhuma cicatriz, assegurando-me de que não tem problema, de que está tudo bem.
Afundo nos lençóis brancos e macios e sei que deveria me incomodar com o peso dele sobre mim, mesmo que ele esteja apoiando os braços na cama para não me machucar, mas a sensação é maravilhosa. Nossos corpos estão febrís e úmidos e ele mordisca minha orelha, meu pescoço, enquanto fecho os olhos. Penso que nada no mundo poderia me fazer esquecer essa lembrança. O que a torna ainda mais triste.


Não dormi, mas não estou nem um pouco cansada. O sol irá nascer em pouco tempo, então preciso terminar logo isso, parar de adiar o meu sofrimento. Estou envolta nos braços de , minhas costas contra seu peito, seu rosto na curva do meu ombro. Viro-me de frente para ele, e seu sono é tão pesado que ele nem se move.
Sorrio. Ele está dormindo, a expressão mais tranquila que já vi em seu rosto, com uma ruguinha adorável entre as sobrancelhas franzidas. Dormindo sem precisar dos remédios, sem a ansiedade ou os pesadelos.
— Eu sei que você não vai lembrar disso — começo, sussurrando — E sei que você não sente o mesmo, mas isso não é algo que eu simplesmente faço com qualquer um. Eu me apaixonei por você, .
Toco gentilmente nos cabelos dele.
— E é por isso que estou indo embora. Não vou deixar uma carta, ou bilhete, porque falar já dói o bastante — minha voz falha — Eu lembrei de tudo, ou quase tudo, mas preferi continuar aqui fingindo que ainda estava doente. Para ficar perto de você. Não sinta como se eu estivesse o usando pelo que você tem, porque... bem, talvez eu tivesse, apenas no início. Apenas até eu admitir para mim mesma que foi por quem você é.
O silêncio no quarto me deixa desconfortável, então continuo:
— Espero que você seja bom com seus pais, principalmente com Matthew. Sabe, eu não sou a única que vê como você é bom, então comece a se esforçar para mostrar isso. Mas também siga seu coração. Se é no vinhedo que você quer ficar, tudo bem. Mas se não... — respiro — Espero que nos vejamos novamente.
Encosto a boca na dele com cuidado e me desvencilho de seus braços. Ele continua dormindo, e eu tiro o medalhão do meu pescoço, a única coisa que ele não tirou de mim, e coloco no travesseiro ao lado dele.
Visto-me e vou até o meu quarto, onde uma única mochila está sobre a cama. Gostaria de dizer adeus a Harrison, Grace e Matty, mas não vou interromper o sono deles, tampouco esperá-los acordar para acabar sendo persuadida a ficar.
Ando alguns quilômetros até chegar à estrada. Espero por algum viajante disposto a me dar uma carona e parece que não sinto mais nada.


A casa segue o padrão das outras da Northbrook Street: dois andares, paredes de tijolos e telhado triangular. Mas sei que é aquela, porque com amnésia ou não, eu reconheceria aquele tapete horroroso de boas-vindas à frente da porta em qualquer lugar.
Toco a campainha. Imediatamente, uma voz familiar grita que já está vindo.
— Quem...
congela, perplexa demais para terminar a frase. Ela me encara, eu a encaro, e nós parecemos estar detectando tudo o que há de diferente uma na outra. É muita coisa, mas não importa. Ainda somos as mesmas.
Ela me abraça com força, e sei que estou de volta ao meu lar.


Faz uma semana desde que cheguei, mas todos os dias tem perguntas diferentes. Eu também tenho, para ser sincera, principalmente agora que sei mais sobre o que aconteceu com mamãe e papai.
— Você disse que iria cumprir a promessa — ela diz, sentando-se na poltrona na frente da minha com um pires e uma xícara de chá em mãos — De que iria sair e viajar pela Europa e depois pelo mundo. Fiquei tão aliviada de ver você reagir depois de tanto tempo que nem desconfiei, só quando percebi que você ainda não tinha dado notícia e achei seus documentos e seu celular no quarto.
Inclino a cabeça para o lado.
— Eu não estava tentando me matar, se é o que está pensando — e pela cara dela, é mesmo. Nós rimos. — Acho que eu só estava tentando fugir da realidade.
— E fez isso muito bem — ela revira os olhos. — Quem é mesmo o unicórnio que a fez ficar desaparecida da minha vida por quase dois meses?
— Ele não é nem um pouco do que você está falando — conto.
— Mas foi o suficiente para você deixar sua melhor amiga pensando que talvez você estivesse... — ela estremece e bebe um pouco de chá — Enfim. Continue.
Mordo o lábio, soltando um suspiro sonhador.
— Ele é um cara difícil.
— Você é uma garota difícil — observa.
— Verdade. Acho que por isso senti atração por ele desde o início. Mas depois foi ainda melhor, convivendo com quem ele era de verdade. Quando descobri – quer dizer, quando lembrei da morte dos meus pais, quase enlouqueci. Mas agora... lembro do que disse a ele há um tempo porque ele perdeu o irmão mais velho. Que as pessoas que ainda estavam com ele precisam dele, e o mesmo se aplica a mim.
abre um sorriso sincero. Ela ia falar alguma coisa, mas ouvimos o barulho distante de batidas na porta.
— Deixa comigo — falo e levanto. Provavelmente não é nada importante, então destranco a fechadura e...
está na minha frente.
— Eu ouvi o que você disse — ele começa antes que eu possa falar qualquer coisa, o que seria improvável de qualquer maneira, porque acho que nem estou respirando — Achei que tinha sonhado, porque isso faria mais sentido do que a sua desculpa para ir embora.
Pisco, sem entender.
— Como você pode dizer que eu não sinto o mesmo? — ele pergunta, baixinho. — Eu acho que senti desde a primeira vez que vi você no meio da minha sala de estar, com esses olhos coloridos e parecendo um anjo frágil. Você era tudo no que eu pensava, no que eu penso, e você não conseguiu perceber isso?
Não sei se me surpreendo com a declaração ou se peço desculpas. Acabo não fazendo nenhum dos dois.
— Como você me achou?
sorri.
— Devem ter umas três mil só nesse pedaço do Reino Unido. Caso contrário, eu não teria demorado tanto.
Jogo os braços ao redor do seu pescoço ao mesmo tempo em que ele me segura pela cintura, e nós nos beijamos como se não precisássemos de mais nada no mundo. Não percebo as lágrimas até que ele as limpe com os dedos quando nossos rostos se separam por uma distância quase imperceptível.
— Nós deveríamos ir a outro lugar — ele sugere.
— Sim — eu digo — Aonde?
— Qualquer lugar. Todo lugar.
Concordo. Sei que não importa onde seja, não irei me sentir perdida de novo.


Fim



Nota da autora (05/04/16): Olá, pessoas! Não sei se você está aqui porque já leu/está lendo algo que escrevo ou porque não faz ideia de quem eu seja mas gosta dessa música, mas, de qualquer forma, espero que tenha gostado! É a primeira vez que eu participo de um ficstape, e a “responsabilidade” é ainda maior quando é para representar uma música que você gosta de um artista que você admira. Está bem claro que a história não tem muito a ver com a música, mas isso é intencional por dois motivos: primeiro, eu já estava com essa ideia há um bom tempo na cabeça e iria me sentir culpada se não a usasse, true story. Segundo, a letra é forte e fala de um relacionamento abusivo, o que eu *particularmente* não acho romântico ou legal para escrever, então fiz uma nova interpretação da música, tornando a violência física e emocional da PP como consequências do que ela passou e não causadas pelo parceiro. De qualquer forma, assistam ao clipe de Cherry Wine, se ainda não viram. Ele tem uma mensagem poderosa e o Hozier maravilhoso usou o single em prol de instituições anti-abuso.
Se gostaram ou não, me deixem saber sua opinião aí embaixo nos comentários ou no meu twitter @herondalems. Se ainda quer continuar acompanhando minhas ideias cheias de drama, romance e outras coisas que não posso contar, clica aqui. Um beijo e stay fab! <3




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