Contador:
Última atualização: 19/04/2020

Capítulo Único

– Você deve estar muito chapado pra pensar que isso seria ao menos considerável aos olhos do Estado.
– Meu cliente já disse, três anos. – Richard Black falou e cruzou os braços. – Ele vai entregar um esquema gigantesco, o DEA vai poder fazer a festa com isso. E ainda vai se declarar culpado.
– O senhor faz ideia de quantos crimes o seu cliente cometeu, senhor Black?
– Deixe ir a julgamento então. – Sebastian ajeitou a postura na cadeira e abriu um sorriso irônico. – Acredito que o senhor conhece o histórico do meu advogado, então sabe qual será o desfecho dessa história.
Peter Stone era um bom promotor, mas não gostava de acordos quando o cara era muito culpado. Eu não podia me posicionar, de qualquer forma. Foi até por isso que eu optei por ficar afastada da mesa onde eles três negociavam, apoiada na parede com a janela de observação. Pelo menos assim não haveria como alguém ver alguma expressão no meu rosto que simplesmente não deveria estar lá durante o interrogatório de um criminoso qualquer. Bem... Um criminoso “qualquer” para o resto da delegacia.
– Ok, ok... – Stone passou a mão na cabeça, nervoso. – Quero as informações antes.
Black sussurrou algo no ouvido de Sebastian, que apenas concordou com a cabeça.
– Meu cliente só vai falar quando houver um acordo por escrito e assinado pelo escritório da promotoria.
– Já disse que seu cliente não está em posição de fazer exigências.
– Então é isso. – O sorriso debochado de Sebastian aumentou. – Foi um prazer conversar com o senhor.
Sebastian e Richard já estavam se levantando quando Stone perdeu sua compostura de vez.
– Ok, Stan. Sente-se. Vou mandar imprimir o acordo.
– E não esqueça de entrar em contato com o serviço de proteção à testemunha. – Ele debochou mais uma vez.
Só então que eu deixei o canto onde estava e caminhei para fora da sala com Stone, fechando a porta ao passar por ela.
– Onde você conseguiu essa figura? – Ele me perguntou.
– Ele tem uma ficha interessante.
– É, eu sei. Eu vi a ficha. – Ele respirou fundo. – Preciso de um computador ligado a uma impressora agora.
– Pode usar o meu. – Apontei para a mesa larga que dividia com Kim.
Eu me certifiquei de que Stone tinha tudo o que precisava e decidi pegar um ar antes de voltar à sala. Tudo o que estava acontecendo ali estava me deixando nervosa. Nervosa e com fome, para ser mais precisa. Então saí da delegacia e fui até o carrinho de cachorro quente na nossa calçada. Pedi um – o “de sempre”, como Donny, o vendedor, falava – junto com um café. Ainda comendo, subi de volta para o meu andar. Stone já não estava mais na minha mesa, então fui para o único outro lugar onde ele poderia estar.
– ... o serviço tinha que ter fluidez. – Sebastian virou a cabeça e olhou para mim quando eu entrei novamente na sala. – Quero dizer, tinha que ter fluidez, mas não podia ser algo constante. Uma desordem planejada. Entende o que eu quero dizer?
– Sim, próximo ponto. – Stone falou.
– O material chega no jato particular de um colombiano chamado Juven Caballero Gonzales. Ele é integrante do comitê de engenharia mecânica da General Motors.
– Espera. – Stone o interrompeu, arqueando uma sobrancelha imediatamente. – A General Motors está envolvida?
Nesse momento, eu me aproximei da mesa apenas para pegar a única cadeira ainda livre e a puxei para o meu canto. Sebastian seguiu todos os meus movimentos com os olhos.
– Se está, não sei.
– Você tem certeza? – Stone insistiu.
– Você está ouvindo bem o que eu estou falando, promotor? – Sebastian, mais uma vez, abusou do deboche. – Acha mesmo que eu ia esconder alguma coisa a essa altura?
– Ok, ok... – Stone estava sem paciência alguma. – Continue.
– O Gonzales é o que a gente chama de mula. Ele não faz nada além de garantir o transporte das refinarias colombianas para os Estados Unidos.
– Alguma ligação com o cartel de Medelín?
– O cartel de Medelín já acabou há anos, promotor. O que há hoje foi construído sobre as ruínas de Escobar e companhia.
– O quê mais?
– Eu não faço ideia de quem manda ou desmanda na Colômbia. Eu nem sei dizer exatamente onde ficam as refinarias de lá. Eu compro e distribuo, é isso. Gonzales faz a logística internacional e eu faço a logística interestadual.
– Quais estados o senhor atende? – Stone tremeu com o uso da palavra.
– Todos eles. Digamos que eu faço parte de um esquema puramente B2B.
– Vai ter que traduzir isso, Stan.
Business to business. Eu não lido com o consumidor. Você não entende de negócios, promotor?
– Entendo de leis. – Stone afirmou. – E quem lida com o consumidor?
– Aí eu não sei. Caso o senhor não entenda, eu sou só um intermediário. Pode ser que as pessoas pra quem eu passo vendam pra outras pessoas antes de chegar no cliente final, pode ser que elas vendam pro cliente final direto... Isso eu não sei.
– Você tem certeza do que está falando?
– Absoluta. – Sebastian sorriu.
– Você tem os nomes das pessoas pra quem você vende?
– Tenho, é claro. Agora... Se são nomes verdadeiros, é outra história.
– E como funciona a lavagem de dinheiro?
– Se você não sabe nem o que é B2B, vamos levar dias aqui até eu te explicar tudo.
– Diga apenas o necessário por enquanto, Stan.
Ele sorriu, presunçoso. Estava sendo preso mas não queria perder a pose.
– Todos os distribuidores aqui nos Estados Unidos são donos de bares ou boates. Ou os dois, se levarmos em consideração alguns outros caras. Você pode pensar “ah, e você não vendia direto pro consumidor final se tinha o lugar perfeito pros clientes?”. Aí é que está, Stone. Eu tenho um negócio acima de qualquer suspeita. Qualquer. Nunca fiz nada de errado, por menor que fosse o deslize, com o meu negócio. Não podia permitir que me rastreassem. Se fosse pra mergulhar de cabeça, moraria num lugar muito melhor do que o meu apartamento. Mas aí poderiam olhar para mim e pensar “tudo bem, ele tem muito dinheiro, mas será que os bares dão tanto dinheiro assim?”.
– Ok, Stan, já entendi. Fale sobre fatos que sejam, de fato, interessantes para mim.
– Gonzales participa do esquema de lavagem de dinheiro também. Ele entra como uma empresa que vende copos de todos os tipos. Ele consegue os copos na China por um preço exageradamente barato, aí nós compramos os copos por uma quantia que soma o valor deles com o necessário para entrar dinheiro limpo no nosso caixa. Gonzales, é claro, fica com uma parte do valor. Esse é um dos esquemas.
– Quantos fazem parte dele?
– Não sei precisar, esses dados não eram de livre conhecimento. Sei de alguns, claro.
– Mas Gonzales sabe de todos?
– Com toda a certeza, sim.
– Ok, Stan. E quais eram os outros esquemas?
– Mais uma vez, eu não sei muito além do que era necessário que eu soubesse. Já escutei algo sobre café e uma empresa que produz tecidos, mas não sei como é a distribuição ou pra quem é.
– Então o que você sabe? Porque tudo você fala “eu sei pouco”, “eu não sei”...
– Eu sei do que acontece depois de mim.
– E por que não falou logo?! – Stone gritou.
– Acalme-se, promotor, eu vou chegar lá. É que preciso contar a história toda pra você entrar no clima.
Sebastian estava fora do normal. Eu poderia ter passado anos longe dele depois que terminei tudo para proteger minha carreira policial de um namorado traficante, mas ainda sabia quem Sebastian era. Ele não podia mentir, não para mim. E eu sabia que ele estava nervoso ao extremo, mesmo com toda aquela pompa de quem tinha a situação bem onde ele queria que estivesse.




SETE HORAS ANTES, EM ALGUM LUGAR ENTRE A LAKE STREET E O DISTRITO POLICIAL – CHICAGO, IL

– Precisamos bolar uma boa mentira pra contar pra minha mãe.
– Ela não vai acreditar em qualquer coisa.
– Você acha que eu não sei?
Sebastian ficou quieto e eu não tinha muito o que falar. Tudo aquilo ainda estava muito novo na minha mente, eu ainda não havia tido tempo para processar tudo.
– Por quê agora? – Perguntei.
– Do que você está falando?
– De você se entregar. – Disse e respirei fundo, apertando as mãos em volta do volante. – Eu tentei tanto te convencer antes...
– Eu fui cegado pelo dinheiro. – Sebastian murmurou.
– E não viu que tava tomando proporções absurdas?
– Os insights vêm, sabe? Tem hora que do nada eu penso “cara, o que é que eu estou fazendo?”. Mas aí eu abro a minha conta bancária e... – Ele fez uma pausa, respirando fundo antes de continuar. – Você não entenderia, .
– Tente me explicar, Stan. – Eu o desafiei.
Sebastian ficou quieto. Chequei pelo retrovisor, ele estava olhando a paisagem pela janela. Não era nada muito bonito, mas eu também não perderia a chance de observar o mundo se soubesse que ficaria distante dele por um bom tempo.
– Quando você disse que estava me prendendo, eu quis sentir raiva, mas parece que você apertou um interruptor em mim. To nervoso, mas me sinto mais leve.
– Isso é bom?
– Eu não sei, acho que vamos descobrir.
Eu parei em um sinal vermelho e voltamos a ficar em silêncio. Meu coração parecia que ia sair pela boca – literalmente. Minha mente estava turbilhonada, cheia de mil pensamentos chocando-se entre eles mesmos em uma velocidade absurda, com zero chance de organização. Nem saberia dizer se estava mentalmente apta para dirigir naquelas condições.
– Você ainda não respondeu a minha pergunta.
– Qual delas? – A voz de Sebastian soou em um murmúrio que arrepiou todos os pelos do meu corpo.
– O porquê de ser agora.
Deu para ouvir quando ele respirou fundo.
– Você sabia que eu sonho com você religiosamente toda semana desde o dia em que você saiu pela porta do meu quarto e não voltou mais?
Eu não respondi. Não havia o que ser dito, eu estava completamente sem palavras.
– Nem sempre são sonhos que fazem sentido. Já sonhei que estávamos pulando de bungee jumping e, quando saltávamos, a corda desaparecia e nós começávamos a voar. – Sebastian riu, não parecia muito são. – Isso deve fazer uns três anos, eu acho. Mas faz ideia do que é passar oito anos sonhando com a mesma pessoa? Você estava tão perto e tão longe ao mesmo tempo que eu acho que enlouqueci.
– Você podia ter seguido sua vida. – Eu disse, me concentrando em ultrapassar um carro lento demais na minha frente.
– Eu tentei, , eu tentei... Mas é um saco, sabe? Ter o dinheiro e não ter... Felicidade. É, acho que ‘felicidade’ é uma boa palavra pra isso. Não é como se fosse um inferno. Claro que eu tinha momentos de achar que tinha encontrado o meu “pra sempre”, mas não é como dizem por aí. O dinheiro realmente não compra a felicidade.
– Então por que você insistiu nessa vida?
– Eu disse que não compra felicidade, não disse que não compra luxo.
– Você quer dizer que o luxo era melhor que a felicidade então.
– Dependendo do dia, sim. Não é a cura, sabe? Mas ajuda muito a mascarar os sentimentos ruins quando parece que eu to pendurado numa forca. O único momento em que o luxo não era suficiente eram os momentos em que eu acordava dos sonhos que tinha com você. Eu tava sentindo o gosto da minha fantasia perfeita num instante e, no outro, tava dando de cara na realidade.
– Por que você não aceitou minha ajuda antes disso se tornar incontrolável?
– Achei que não precisava de ajuda, de alguém que me dissesse o que fazer. Eu tava bem me sentindo o fodão.
– Nada disso explica você ter se tornado um usuário.
– Ah, isso... – Sebastian suspirou. – Não foi fácil perder você.
– Você já estava usando antes, Stan.
– É, mas você ir embora não facilitou nada.
– Não justifica! – Argumentei, freando com força em um sinal que eu não tinha visto que estava para fechar.
Olhei para Sebastian novamente pelo retrovisor. Dessa vez, ele não estava fitando a paisagem ou com a cabeça abaixada. Seus olhos foram direto para os meus.
– Eu tentei precisar de alguém, tentei abrir meu coração, mas foi só pra foder com tudo de vez. Não era você. Ninguém era você. E eu fui me machucando mais e mais, não tinha curativo. A cocaína escondia as consequências e eu podia seguir minha vida sem problemas.
– Você não percebeu que tava no fundo do poço?
– Não até você aparecer na minha porta hoje. – Ele suspirou.
Algumas buzinas me alertaram para o fato do sinal já estar verde, liberando a pista para que eu prosseguisse. Como o trânsito não estava exatamente favorável, me preparei para cortar caminho por algumas ruas menos utilizadas. Acabei me perdendo entre a confusão mental provocada pela conversa com Sebastian e as conversões seguidas que eu tinha que fazer. Mais uma vez, eu estava me perguntando se tinha tomado a decisão certa quando optei por ir buscar Sebastian pessoalmente após garantida a emissão de seu mandado de prisão.
– Não vai falar mais nada?
– O que eu deveria dizer, Stan? Que sinto muito por estar te colocando atrás das grades? Eu até queria, mas seria mentira. Você cavou sua própria cova, e eu to me perguntando como eu ainda to te ajudando nisso.
– Você ainda sente alguma coisa por mim.
– Por que você quer saber isso agora?
– Não foi uma pergunta, . – Ele baixou o tom de voz. – Eu sonhei que você ia me prender na semana passada. Na outra noite, eu sonhei que tinha sido encurralado no beco ao lado de um dos meus bares, na Erie Street. Eram uns viciados que queriam droga e eu, claramente, não tinha nada pra dar, então eles me espancaram até a beira da morte. Claro que eu não esperava realmente que você fosse me prender quando apareceu lá em casa...
– Achou que eu só senti saudades e resolvi ir foder com você? Você me conhece, Stan, sabe que eu não sou dessas.
– Pois é. Foi por isso que eu até cheguei a criar esperança, mesmo que por uns segundos, de que você tinha voltado pra ficar.
– Já falei, Seb. Se você se arrepender, se você fizer por onde, se você colaborar com a justiça, se você nunca mais voltar pra isso...
– Quando você falou que voltaria, tudo mudou pra mim.
– Por que não mudou antes?
– Porque eu não tinha a cabeça que eu tenho hoje.
Estacionei a viatura na rua ao lado da delegacia. Havia imprensa na frente e não havia necessidade de expor Sebastian – a que o amava não concordava com aquilo, a detetive também não. Por mais incrível que parecesse, não havia movimento perto da minha vaga.
– Você quer combinar mais alguma coisa?
– Já liguei pro meu advogado, então é só esperar pelo que vem pela frente.
– E sobre sua mãe?
– Eu tenho uma ideia.
– Gostaria de compartilhar comigo antes de eu te tirar do carro?
– Proteção à testemunha.
– Você é um criminoso, Stan, não vão te proteger.
– Nem se eu contar tudo o que sei?
– Você só me contou uma parte. Não sei o quanto disso vai ser suficiente pra convencer alguém a fazer um acordo bom.
– Dessa parte, meu advogado toma conta. Mas, de qualquer forma, se não der certo, você me promete que conta essa versão da história pra minha mãe?
Respirei fundo uma última vez antes de sair do carro.
– Eu prometo. – Falei e abri a minha porta.




NA NOITE APÓS O DEPOIMENTO, APARTAMENTO DE , NORTH AVENUE, 1825 – CHICAGO, IL

Cheguei em casa tão cansada que não conseguia pensar em dormir. O meu corpo inteiro ainda estava totalmente ligado em todos os acontecimentos daqueles dois últimos dias. As mais de trinta e seis horas sem sono e os assuntos estressantes estavam cobrando um preço altíssimo.
Havia tanta documentação para preencher e revisar que eu não sabia por onde começar. Voight era bom e justo, na maior parte do tempo, mas eu achava que ele podia ser mais brando às vezes. Sobre documentação, eu sempre achava que ele podia ser mais brando. Principalmente quando eu tinha sido responsável por efetuar a única das prisões decretadas na manhã do dia anterior.
Voight não fazia ideia da relação que eu tinha com Stan porque não perguntou. Bem... Talvez ele não tivesse perguntado justamente porque não queria saber. Se ele não soubesse, não seria culpado de seja lá o que acontecesse. Mas e se acontecesse? Ele não era o meu superior de qualquer forma? Muitas perguntas, muitas informações para uma mente tão atordoada.
Mesmo que a noite já tivesse chegado e estivesse escuro lá fora, eu abri as janelas para deixar entrar um pouco de ar limpo. O apartamento já estava fechado havia muito tempo, não era o ideal e o cheiro que podia resultar daquilo não era nada agradável ao meu ver. Sentei no sofá sem tirar as roupas do trabalho. Olhei no relógio e gravei as horas. Ia fechar as janelas novamente e ligar o aquecedor em quinze minutos, deveria ser o suficiente.
Alcancei o controle da televisão de onde estava. Já fazia um bom tempo desde que eu não ligava o aparelho para nada e, naquele instante, até pensei na possibilidade de nem funcionar mais. Sinceramente, não me surpreenderia. Mas o dispositivo ligou normalmente, como se não tivesse passado cerca de três meses sem funcionar. O primeiro canal estava transmitindo o noticiário e eu acabei deixando por lá mesmo, aumentando o volume e deitando a cabeça em um dos braços do sofá.
O cantor de rap e produtor musical Robert Sylvester Kelly, conhecido simplesmente como R Kelly, foi preso em Chicago esta noite por conta de acusações federais de crimes sexuais. – A âncora anunciou, o que prendeu a minha atenção. – Entre os supostos crimes, estão o de posse de pornografia infantil, abuso de menor e obstrução de justiça. R Kelly, de cinquenta e dois anos, foi levado por detetives da polícia de Nova Iorque e investigadores do Departamento de Segurança Interna, e deve ser transferido para Nova Iorque, segundo a NBC News. É o que vamos ver agora na reportagem de Melissa Steger.

Uma série de vídeos compilados de R Kelly começou a aparecer, com uma de suas músicas mais famosas de trilha sonora. Enquanto uma mulher começava a narrar alguns fatos, meu celular vibrou no meu bolso. Imediatamente, peguei para checar sobre o que se tratava.

Kim Burgess: Você está vendo o jornal?

Desviei a atenção do meu celular para continuar prestando atenção na notícia.
O músico, vencedor do Grammy, enfrenta treze acusações federais. – A narração, provavelmente feita pela tal Steger, seguia informando. – Ele nega veementemente as acusações de estupro há décadas. Em 2008, Kelly foi julgado por posse de pornografia infantil, mas acabou sendo considerado inocente. Ao Sun Times, o advogado que representa o músico, Steve Greenberg, confirmou a prisão, mas se negou a dar detalhes. Em junho, Kelly se declarou inocente de onze acusações feitas contra ele em Chicago, por agressão e abuso sexual. Essas acusações, reveladas no final de maio, em uma denúncia feita por um júri do condado de Cook, envolvem o suposto de uma vítima entre as idades de treze e dezesseis anos.
– Isso é bom... – Murmurei para mim mesma, me levantando para prestar maior atenção ao que estava ouvindo.
Kelly se declarou inocente das acusações de que teria agredido sexualmente três adolescentes e uma quarta mulher. As acusações foram feitas depois que sete mulheres, incluindo sua ex-esposa, apareceram em um documentário do canal de TV Lifetime e o acusaram de abuso emocional e sexual. O cantor, conhecido por sucessos como “I believe I can fly” e “Bump n’ ride”, passou uma semana na cadeia por crimes sexuais em fevereiro, mas foi liberado após pagar uma fiança de cem mil dólares.
Eu me peguei pensando no que exatamente estava comemorando. A primeira ponderação silenciosa foi sobre eu estar permitindo ser afetava emocionalmente demais, a ponto de comemorar que havia algo muito mais midiaticamente interessante para se comentar do que a investigação que corria sobre o tráfico de drogas no país. Depois, eu parei de me culpar e considerei que, de uma forma ou de outra, era um criminoso a menos nas ruas, de qualquer forma, sendo famoso ou não. Foi só mais uma atestação de que a minha mente estava conflitante a respeito de todo e qualquer detalhe mínimo.
Olhei o relógio. Estava longe dos quinze minutos pretendidos inicialmente, mas eu me tornei inquieta de repente e decidi fechar logo as janelas. Levantei enquanto outro âncora falava então sobre um grupo da iniciativa privada que estava estudando um plano para a diminuição da violência com arma de fogo na cidade. Antes de fechar as janelas, desliguei a televisão. Não estava afim de ouvir, pela milésima vez, aquela conversa fiada sobre desarmamento. Ia só me estressar mais ainda e, como policial, eu tinha o direito de me estressar com aquilo.
Após finalmente fechar as janelas, fui para a cozinha, anexa à minha sala de estar. Olhei a geladeira e, logo depois, algumas portas do armário. Eu não estava devidamente abastecida. Então fui para uma das banquetas posicionadas na península da minha bancada e abri o celular, ainda sem responder minha parceira. Em um aplicativo, comecei a procurar onde iria pedir comida.
As opções eram diversas. Desde fast food tradicional, como um bom McDonald’s, sanduíches modernos do Rickette’s Restaurant e opções mais simples como dezenas de pizzarias, eu só estava ficando mais confusa. Mas, de uma coisa, eu tinha certeza: estava morrendo de fome. Então optei por dois milkshakes de chocolate de Five Guys, duas porções de Philadelphia do Maruko Japanese Cafe e duas porções de quatro peças de frango crocante do Popeyes. Que se fodesse o dinheiro e minhas economias. Foi quando lembrei das bolsas de viagem.
Fui até o meu quarto e olhei para as malas na parede oposta à cama. Não gostava delas ali, precisaria arrumar um melhor lugar e precisaria que aquilo fosse feito rápido. Mas então a curiosidade surgiu em mim e, de repente, me vi puxando as malas para perto do tapete que ficava ao lado da minha cama. Abri a primeira mala e, então, senti o coração palpitar.
Virei todo o conteúdo no chão, revirando os maços de dinheiro aleatoriamente. Todos continham, cada, cem notas de cinquenta dólares. Contei, eram sessenta e dois maços. Devolvi tudo e abri as outras bolsas. O dinheiro estava dividido por valor de cédulas. Havia uma bolsa para notas de cem dólares e outra para notas de vinte dólares. Eu estava contando e tremendo. Na segunda bolsa, cinquenta e um maços. Na terceira, setenta e sete.
Puxei o celular, ignorando Kim completamente mais uma vez. Tudo seria ignorado. O fim do mundo seria ignorado. Eu precisava de uma calculadora. Fiz as multiplicações necessárias e somei tudo. Incrédula, eu estava encarando três bolsas com quase um milhão dólares nelas. Não fazia a mínima ideia de como ou porque Sebastian havia me confiado aquilo de uma hora para a outra, mas estava em choque e sabia que não mexeria naquele dinheiro por nada no mundo.




TRÊS SEMANAS DEPOIS DA PRISÃO DE SEBASTIAN STAN, SUPREMA CORTE, LASALLE STREET, 160 – CHICAGO, IL

– Senhor Stan, devo dizer que o senhor tem uma ficha... Extraordinária. E não estou usando a palavra no bom sentido dela. Doutor Black, o senhor entende que não é de se estranhar que eu queira ouvir o que o senhor tem a dizer sobre como chegaram à conclusão de que esse acordo seria justo.
– Meritíssimo, com todo o respeito... O senhor viu a diferença entre o que a investigação era antes e do que se tornou depois do depoimento do meu cliente?
– Sim, vi. Mas isso não quer dizer que estou convencido de homologar o acordo entre a parte do réu e a promotoria.
– Bem... – Black ajeitou o terno e saiu de trás da mesa onde ele estava sentado ao lado de Sebastian. – Podemos começar pelo fato do meu cliente ter assumido as acusações, e devo reforçar o brilhante serviço que o meu colega, doutor Peter Stone, fez como promotor neste caso.
Stone revirou os olhos e eu contive a risada da minha cadeira, assistindo a tudo em perfeito silêncio nos bancos atrás de onde ocorria toda a ação. Black era um puxa saco de primeira. Chegava a ser ridículo, mas funcionava.
– Meu cliente, meritíssimo, solicitou por conta própria que entrasse no programa de proteção à testemunha, demonstrando seu claro propósito de não voltar a cometer os delitos pelos quais ele está sendo julgado aqui, nesta corte. Meu cliente não solicitou ser acusado de crimes menores, assumiu o que fez e está disposto a arcar com as consequências. Quanto à acusação de lavagem de dinheiro, meu cliente forneceu todo o controle do que foi desviado e se voluntariou a pagar o que deve em impostos, com correção monetária, sem necessidade do meu colega, promotor, ter que constrangê-lo, de alguma forma, a isso.
– Doutor Stone, isso é verdade?
Stone se levantou, ajeitando o terno.
– Sim, meritíssimo. Mas eu recomendo que, ainda assim, seja feita uma auditoria completa e minuciosa sobre as finanças e bens do réu.
– A defesa tem algo contra isso?
– Não, meritíssimo. – Black respondeu.
– Ok então, vou designar alguém para isso. Prossiga, doutor Black.
– Como eu ia dizendo, houve colaboração total por parte do meu cliente. Não estou ciente de detalhes pertinentes à investigação que se seguiu após o depoimento do senhor Stan, mas tenho absoluta certeza de que todos os fatos explanados por ele foram confirmados. Além disso, meu cliente ofereceu mais benefícios ao Estado além do que já estava estipulado pelo acordo, se comprometendo a pagar, também, sem ambicionar desconto da pena, a quantia de dez mil dólares em cestas básicas para a população carente de Chicago. Ele está disposto a aceitar que a pena acordada seja cumprida em qualquer penitenciária designada pelo Estado, desde que respeitados os seus direitos adquiridos através do programa de proteção à testemunha. Meu cliente também se compromete a exercer quaisquer funções nominadas a ele dentro da penitenciária, sem reservas. Tão somente por temer sua vida e a vida de sua mãe, meu cliente requere que também sua mãe seja incluída no programa de proteção à testemunha e que ela não seja informada sobre a prisão. Para tal, a detetive , lotada no distrito 21 do departamento de polícia de Chicago, sob os comandos do sargento Hank Voight, foi indicada para acompanhar de perto os dois e fornecer a interação necessária até que o meu cliente seja solto.
– Detetive ? – O juiz arqueou as sobrancelhas, olhou para a única pessoa além deles naquela sala, eu, e começou a folhear alguns papeis à sua frente. – Esse nome me soa familiar.
– Talvez o senhor tenha lido o nome nos autos da prisão.
– Ah, sim... – Ele pareceu esclarecido e retirou um bloco de folhas dentre os documentos com ele. – A detetive efetuou a prisão?!
– Sim, meritíssimo.
– E vocês querem que a mesma cuide dessa parte?
– A detetive – Black olhou para mim e eu, lentamente e hesitante, levantei de minha cadeira. – é amiga da família.
O juiz olhou para mim e estreitou os olhos.
– Devo assumir que a senhorita seja a detetive .
– Sim, meritíssimo. – Respondi.
– O julgamento não é sobre a senhorita, mas se importaria de responder uma pergunta?
– De forma alguma.
– Se é amiga da família, o que lhe motivou a efetuar a prisão do réu?
– Amigos de verdade não deixam de ser amigos se não concordam com algo de errado que um deles faz, meritíssimo. Na realidade, é justamente não concordar com isso que me faz uma amiga de verdade.
Ele fez cara de satisfeito e direcionou um olhar para mim que deixava claro que eu estava dispensada de quaisquer outros esclarecimentos. Sentei de volta enquanto observava seus movimentos. Pelo que eu conhecia de como corria uma audiência comumente, estávamos nos encaminhando para o fim.
– Senhor Stan, posso lhe fazer uma pergunta semelhante?
Black olhou para trás e fez sinal para que Sebastian se colocasse de pé.
– É claro, meritíssimo.
– O senhor está mesmo de acordo com ter a detetive intermediando o contato com sua mãe?
– Sim, meritíssimo. – Sebastian respondeu.
– Posso perguntar a razão?
– Porque, como a detetive disse, ela é uma amiga de verdade.
Eu sentia o peito pesado mas, ao mesmo tempo, como se aquela constatação de Sebastian fosse mais para ele mesmo do que para responder o juiz. Como não houve nenhum outro diálogo após a resposta de Sebastian, Black fez sinal para que ele voltasse ao seu banco, porém nenhum dos dois se sentou. O juiz ficou lendo algumas coisas e anotando outras enquanto aguardávamos a finalização dos estágios da audiência.
– Sendo assim, – O juiz juntou todos os documentos em uma única pilha de papéis. – não tenho motivos para discordar de nenhum ponto explorado aqui hoje. Ambas as partes estão de acordo com tudo?
– Sim, meritíssimo. – Black e Stone responderam em uníssono.
– Ok então. Determino que o réu cumpra a pena de três anos na penitenciária estadual de San Quentin, na Califórnia. Penso ser justo que queira se afastar o máximo possível para não ser encontrado, já que demonstra tanto querer mudar de vida, senhor Stan. Mas devo lhe informar: o sistema prisional da Califórnia não irá ter qualquer receio em lhe aplicar as devidas punições caso seja qual for das suas supostas vontades aqui expostas se revelem inverdades. Entendido, senhor Stan?
– Sim, meritíssimo.
– O transporte para a Califórnia será providenciado e o trâmite referente ao programa de proteção à testemunha será executado antes mesmo de sua transferência. Determino urgência nesse processo e exijo que seja entregue uma nova identidade ao senhor Stan até amanhã, às cinco horas. Vai cuidar para que isso seja feito, doutor Stone?
– Sim, meritíssimo.
– Ótimo então, estamos entendidos. Tenham uma boa tarde.
Eu me levantei em respeito ao momento em que o juiz saía da sala de audiência. Estava ajeitando o blazer por cima da minha blusa quando um olhar se prendeu ao meu. Achei que não deveria, mas me aproximei da divisória entre a área geral da sala e o local onde eles estavam.
– Assim que as novas identidades foram liberadas, sua mãe vai ser transferida também. O governo vai cuidar para que ela vá para um bom lugar até que você seja solto.
– Você vai me visitar? – Sebastian disse, os olhos azuis brilhando na minha direção.
– Eu prometi, não prometi? – Disse enquanto os policiais se aproximavam dele.
– Cuida da minha mãe.
– Vou cuidar.
Assisti, impotente e afetada, enquanto Sebastian era levado pelos policiais. Fiquei estática no mesmo lugar até que Richard Black, com um olhar, se despediu de mim. Então respirei fundo e dei as costas para o tribunal, seguindo para o que precisava continuar como um dia qualquer na minha vida.




DOIS DIAS APÓS A IDA DE SEBASTIAN STAN PARA A PENITENCIÁRIA NA CALIFÓRNIA, RESTAURANTE THE CAPITAL GRILLE, YORKTOWN CENTER, 87 – CHICAGO, IL

O restaurante era bem sofisticado, era visível do lado de fora. Eu chequei mais uma vez na mensagem que havia recebido e confirmei se o endereço era o correto. Havia algo dentro de mim revirando o meu estômago com aquele encontro. Ainda podia desistir, isso era verdade. Mas a minha curiosidade era maior do que aquilo tudo.
– Bom dia. Mesa para quantos? – A maître me recebeu na porta do The Capital Grille.
– Bom dia. Na verdade, acredito que há uma pessoa aqui me esperando já.
– Qual o nome da pessoa?
– Richard Black.
– Ah, sim! – A mulher sorriu. – Por favor, me acompanhe.
Eu a segui restaurante adentro. Nós passamos por algumas mesas que já estavam preenchidas. Então, após cruzar tudo, ela abriu uma porta que dava para um pátio exterior.
– Ele está logo ali. – Indicou-me.
Black estava na mesa mais afastada, sobre um ombrelone preto que combinava com a decoração e com as cadeiras. Eu respirei fundo. Mil teorias passavam pela minha cabeça sobre qual era a matéria daquele pedido de encontro. Algumas das hipóteses não me eram exatamente agradáveis.
– Richard? – Chamei e ele virou a cabeça para me observar, abrindo um sorriso em seguida. – Desculpa o atraso, a Cicero Avenue está em obras.
– Sem problemas. – Richard se levantou e apertou minha mão. – Sente-se, por favor. Gostaria de pedir alguma coisa de entrada?
– Não, obrigada.
– Por favor, eu insisto. Por conta de nosso amigo.
– Nosso amigo?! – Arqueei uma sobrancelha. – Stan está pagando por isso tudo?
– Estou apenas seguindo as orientações que meu cliente passou antes de ser enviado para a Califórnia. Mas devo insistir... Tem certeza de que não quer nada?
– Uma água, talvez.
Black fez sinal para um garçom que estava passando por perto. Rapidamente, o homem se virou para nós com educação.
– No que posso ajudar?
– Traga um copo de água para a jovem, por gentileza. – Richard tomou a frente. – E uma dose do melhor uísque da casa.
– Sim, senhor. – O garçom assentiu e rumou para a parte interna do restaurante.
– Sobre o que quer falar?
– Tem certeza de que não quer pedir nada, detetive? Não sei dizer exatamente, mas acredito que exista a possibilidade de passarmos um bom tempo aqui.
– Se eu sentir fome, faço um pedido. Mas realmente gostaria de ir ao ponto.
– Certo.
Richard puxou sua maleta de cima da cadeira ao lado da minha, forçando um sorriso educado. De dentro dela, após pesquisar por entre as repartições, ele retirou uma pasta sanfonada preta, colocando-a por cima da toalha branca da mesa.
– Do que quer falar primeiro? Bens de consumo, bens de capital...?
– Desculpa. Do que exatamente você está falando?
– Dos bens do senhor Stan, é claro. Afinal de contas, legalmente, ele e sua mãe foram dados como mortos. Os dois não tinham parentes próximos e o senhor Stan deixou o que seria um testamento, colocando-a como a única parte a receber, em totalidade, seus bens.
– O quê?! – Minha voz saiu estridente. – Quando ele fez isso?
– Ontem à tarde, senhorita, em nossa última reunião.
– Ele não falou nada comigo... – Murmurei para mim mesma, tentando respirar normalmente.
– Bem, o senhor Stan não foi específico sobre essa parte, mas ele disse que a senhorita saberia lidar com isto, algo sobre vocês já terem conversado a respeito dessa parte.
– Sebastian só falou comigo sobre...
O dinheiro. De repente, eu estava hesitante sobre trazer o assunto à tona. Não sabia exatamente até onde Richard sabia sobre as coisas, principalmente envolvendo algo que era, até então, sigiloso. Nervosa, decidi deixar aquele ponto específico de fora.
– O que eu tenho que fazer? – Retomei a conversa.
– Legalmente, a senhorita é a responsável pelas ações em nome de Sebastian Stan.
Richard espalhou alguns papeis sobre a mesa. Nesse momento, o garçom voltou com nossas bebidas. Colocou os respectivos copos em nossas frentes após pedir licença e se posicionou ao lado da mesa.
– Prontos para fazer o pedido?
– Vocês têm hambúrguer?
– Temos o nosso próprio. Vem no pão da casa, com blend de carnes de primeira com especiarias e queijo raclette.
– Ótimo, quero dois.
– Senhorita, acompanha também parmesão ou batata frita.
– Melhor ainda. Quero os dois com parmesão, por favor.
– E o senhor? – O garçom perguntou após engolir em seco.
Richard estava um tanto surpreso com minha ação repentina.
– Costeletas de cordeiro, por gentileza.
– Tratei em breve. – Ele respondeu cordialmente e, após assentir, se afastou mais uma vez.
Eu não olhei diretamente para Richard de novo. Tirei o celular do bolso interno do blazer e chequei as mensagens existentes.
– Eu verifiquei com o contador do senhor Stan e eu devo informá-lo sobre sua posição imediatamente. Caso decida por não administrar, por exemplo, a franquia de bares que o senhor Stan possuía ou os investimentos, como as ações na Dow Jones ou na Nasdaq, os bens serão avaliados por órgãos competentes para tal e vendidos por, no mínimo, o valor da avaliação. Após, o dinheiro será transferido para uma conta da sua escolha.
– Há quanto tempo você conhece o Sebastian?
– Já estamos trabalhando juntos há seis anos, senhorita. Não só eu, como outros do meu escritório. Minha área é a criminal, por acaso.
– Você sabia dos... – Engoli em seco. – ... negócios dele?
– Com o colombiano?
Eu apenas assenti em resposta.
– Sim, sabia.
– Por que você não o denunciou ou tentou fazer com que ele parasse?
– Bem... Entenda, não é o meu papel. E eu, legalmente, não sou obrigado a denunciar meu cliente por um crime. Isso está, inclusive, garantido dentro do sigilo legal entre advogado e cliente.
– O que estamos conversando aqui hoje também está incluso no sigilo?
– Absolutamente.
– Você o conhecia bem?
– Acredito que sim, dentro dos limites estabelecidos entre nossa relação profissional.
– Então pode fazer o que achar que ele gostaria que fosse feito.
– É o que estou tentando fazer, detetive. O senhor Stan solicitou ontem, pessoalmente, que as coisas fossem feitas assim. Que tudo fosse repassado para você e que as decisões tomadas, quaisquer que fossem, deveriam ser respeitadas. E para concluir o pedido do senhor Stan, preciso que assine alguns documentos.
Richard se voltou aos papeis espalhados à sua frente e os empurrou na minha direção. Conforme ia falando, apontava especificamente para cada amontoado, explicando sobre o que se tratava. O apartamento na Lake Street, a casa de sua mãe – onde ele e eu havíamos crescido –, os dois carros, os imóveis onde eram localizados os bares, o maquinário dos bares, as ações... Eu estava confusa e atordoada. Parecia que aquela sensação não estava disposta a me abandonar naqueles dias. Então eu só assinei tudo sem pensar duas vezes e, consequentemente, sem perceber a merda que eu podia estar colocando para dentro da minha vida.
– Aqui está. – O garçom se aproximou e, gentilmente, colocou meu pedido à minha frente.
– Perdão... Você pode embalar para viagem?
– Algum problema com o restaurante? – Ele perguntou.
– Não, só surgiu um imprevisto.
– Sem problemas, trarei em instantes.
– Eu pego no balcão. – Anunciei e peguei toda a documentação que estava por cima da mesa, levantando logo em seguida. – Isso significa que agora você, obrigatoriamente, é meu advogado também?
– Eu fui escolhido pelo senhor Stan para estar aqui, mas represento o meu escritório, cujo endereço consta nas folhas que a senhorita está levando consigo, mas é obrigatório só enquanto resolvemos todas essas questões sobre o repasse de bens.
– Ótimo então.
Eu me virei, disposta a ir embora, seguindo o garçom para dentro do restaurante.
– Senhorita ! – Richard me chamou. – Mais uma coisa.
Revirei os olhos e bufei antes de voltar a encará-lo.
– A senhorita receberá contato via carta de um prisioneiro chamado Scott Huffman em breve. Não ignore, por favor.




QUATRO MESES DEPOIS, PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE SAN QUENTIN, SAN QUENTIN – SÃO FRANCISCO, CA

Optei por pegar o voo de Chicago para São Francisco das 14h25, pela United Airlines, no sábado. Eu já não viajava muito – não era exatamente como se o emprego de detetive permitisse boas folgas – e, além disso, tinha que estar de volta na segunda para trabalhar, então precisava estar tão descansada quanto fosse possível. Por isso, almocei e fui para o O’Hare International Airport, mesmo que ainda pudesse ser considerado cedo.
Cheguei em São Francisco às 19h08. Levei só uma bagagem de mão, dentro do avião, e foi a melhor escolha que eu podia ter feito. Do San Francisco International Airport até o Hilton Hotel Berkeley Marina, levei cerca de trinta minutos com o carro alugado. Na reserva, apenas uma estranha exigência, aquela que me fez ignorar o preço que pagaria pelo quarto: vista para San Quentin.
À noite, por mais que os funcionários tivessem me recomendado insistentemente alguns passeios pela cidade, eu optei apenas por pedir delivery e ficar no quarto. Enquanto aguardava frango frito do Popeyes – graças a Deus, eles também tinham um por ali –, fui para a janela do meu quarto. Peguei, antes, o binóculo profissional que havia levado. Demorei para ajustar mas, depois de um tempo, eu a encontrei.
Ali estavam as luzes da tão famosa penitenciária. Era conhecida por ser uma das que ainda abrigavam presos aguardando pela pena de morte, embora a aplicação de injeções letais tivesse sido conhecidamente suspensa havia pouco tempo e a sala para este destino estivesse sem uso. As histórias que ultrapassavam aquelas paredes não eram das melhores, mas se tratava de um presídio eficaz no que dizia respeito à segurança.
Eu entendia perfeitamente que Sebastian estar ali não era castigo e esperava que ele entendesse que enviá-lo para longe, para um lugar onde ninguém desconfiaria dele, era para tirar todas as possíveis chances de Sebastian ser localizado. A história estava bem formada. Huffman era um cara azarado de quem um certo juiz não tinha gostado. Sua defesa tinha provas concretas de que ele era inocente mas, de qualquer forma, o juiz estava implicando com ele e atrasando seu julgamento propositalmente. Assim, ele ganharia a simpatia dos presos, que não gostavam da polícia e do poder judiciário, e também ganharia a simpatia dos policiais, que saberiam por outras fontes – essas, implantadas – que ele realmente era inocente.
Fiquei imaginando como devia ser viver dentro daquele espaço que, de longe, parecia minúsculo. Quando estava em dia de muita burocracia, já saía da delegacia surtando por ter passado muito tempo lá. Imaginava que Sebastian não estaria exatamente confortável. Até porque, além da liberdade física, haviam tirado dele também a cocaína. Não sabia até que ponto Sebastian estava envolvido como usuário. Eu esperava que fosse pouco mais do que nunca porque assim, além de ele não sofrer de abstinência, sua saúde estaria menos debilitada.
Precisava me lembrar do nome Scott Huffman. Não poderia chamá-lo de Sebastian em hipótese alguma depois que passasse pelas portas. Deveria ser algo normal para mim, que já havia trabalhado disfarçada diversas vezes. Mas não era algo normal, eu não estava trabalhando. Eu estava trazendo de volta para a minha vida alguém que eu tinha deixado para trás pelos motivos mais certos do mundo oito anos antes. Eu estava emocionalmente envolvida, mais do que saberia dizer.
Saí do hotel na manhã seguinte por volta das 6h40. As visitas só começavam às 7h30 e, antes disso, eu precisava passar por diversos procedimentos, além de aguardar na fila pela minha vez. Obedecendo às regras de vestuário, coloquei o que usava no dia a dia do trabalho. Respondi o questionário, entreguei meus documentos, passei pelo detector de metais e segui para a sala de visitas. Entreguei meu passe ao responsável e, cerca de dez minutos depois, um Sebastian uniformizado em tons de laranja entrou na sala, com um policial no seu encalço. Ao me ver, abriu um sorriso que eu tentei retribuir, na medida do possível.
– Fiquei realmente surpreso quando avisaram que eu tinha visita hoje. Você é a única autorizada a me ver, então...
– Eu avisei que viria. – Sentei em uma das mesas da sala, a mais distante de onde outros presos estavam, e Sebastian sentou à minha frente. – Eu marquei a visita, achei que fossem te contar.
– O sistema aqui é meio desorganizado. Não é má vontade, mas é bem ruim.
– Como você tá? – Levantei o rosto para ele e nossos olhares se cruzaram.
Sebastian deu de ombros.
– Bem, na medida do possível. Black falou com você?
– Você não deveria ter feito aquilo.
– Eu não deveria ter feito muitas coisas, mas aqui estamos nós, não é mesmo?
Eu respirei fundo e desviei o olhar do dele.
– Como você tá?
– Eu estou bem. – Respondi. – Fui ao Texas no mês passado, visitar sua mãe.
– Ela tá bem?
– Sim, – Não evitei abrir um sorriso. – muito bem, por sinal. Está morando em um condomínio para idosos, acredita? Ela já fez algumas amizades muito boas e disse que adora o professor de hidroginástica. Conheci uma das vizinhas da sua mãe, elas estão até fazendo caminhadas juntas.
– Ela perguntou de mim?
– Disse que estava preocupada, mas ficou tranquila quando eu disse que estava em contato com você e que sabia, com certeza absoluta, que você estava bem.
– Ela te fez jurar, não fez?
Nós dois rimos.
– Você conhece sua mãe.
O sorriso deu lugar à aflição. Eu estava aliviada por ver Sebastian novamente, mas estava ainda perdida no que fazer ou falar. Ele não parecia se sentir muito diferente de mim.
– Você está bonita.
– Estou com as roupas do trabalho.
– Ainda assim... – Ele abriu um sorriso de lado e seus olhos brilharam. – Sabe quando a mãe coloca a gente de castigo, quando a gente é criança, e fala que é pra pensar no que fez? Eu estou entendendo perfeitamente o conceito agora.
– O que você quer dizer?
– Posso ser sincero?
Eu dei de ombros em resposta à sua pergunta.
– Chuta com quantas mulheres eu estive depois de você.
– Sei lá... Vinte?!
– Três. – Ele me corrigiu, fazendo o numeral com os dedos. – Minha mãe conheceu uma delas. E sabe o que ela falou assim que esteve a sós comigo? “Ela não é a .” Eu fiquei com um ódio da minha mãe... Queria que ela entendesse que não ia rolar mais. Aí eu fiquei com ódio de você por ter me deixado, pensei até que você era uma filha da puta por ter tentado me fazer escolher. E então eu terminei com a garota na mesma noite.
– Porque estava com raiva de mim?
– Não, porque não conseguia ficar com raiva de você. E da minha mãe, é claro.
– Ninguém consegue ficar com raiva da sua mãe.
– De você também não, mas você não sabe disso ou finge muito bem não saber.
Engoli em seco. De repente, meu coração estava acelerado demais.
– Eu nem sei porque disse isso. – Ele murmurou.
– Ei. – Eu coloquei as mãos nas deles por cima do tampo da mesa, foi um ato involuntário. – Tá tudo bem.
Sebastian tentou sorrir. Ele olhou pelo canto do olho para um dos guardas.
– O que houve?
– Não sei o quanto de contato físico é permitido por aqui.
– Ah, eu li o manual três vezes. Não há problema nisso. – Disse e apontei para nossas mãos com o olhar. – E então... Como estão as coisas por aqui?
– A comida é até razoável. Melhor do que a comida que a gente tinha na cantina da escola. Lembra da senhora Pankratz?
– Tem certas coisas que nem é bom lembrar. – Eu ri. – Sua cela é individual?
– Não, é minha e de mais um.
– Ele é legal?
– É sim. – Sebastian respondeu e olhou por cima dos ombros para uma outra mesa, acenando com a cabeça. – David Hill. Tá aqui por roubo a banco, mas tem uma longa história.
– Quer me contar?
Nós caminhamos pelo pátio disponível para ser utilizado pelos presos e seus respectivos visitantes. Hill, o colega de cela de Sebastian, estava recebendo a mulher e dois filhos. Sebastian me contou entre sussurros que Hill havia sido pago para efetuar o roubo. Precisava do dinheiro para por comida em casa. Seus contratantes disseram que, se ele abrisse a boca, fariam mal à sua família, então Hill estava cumprindo pena sem se importar.
Eu ouvi atentamente sobre a rotina de Sebastian, seu trabalho voluntário como cozinheiro da prisão, os exercícios que andava inventando para manter a forma da qual ele era orgulhoso, as amizades que tinha feito. Falou, principalmente, que o setor onde ele estava era bem tranquilo. De alguma forma, eu sentia que ele queria me tranquilizar com suas palavras. Não falei sobre o dinheiro ou qualquer outra coisa relacionada a mim. Só queria dar atenção, principalmente porque, depois de tanta tempestade na minha cabeça, o tempo parecia querer abrir.
– Ei, Huffman, sua hora acabou. – Um dos guardas nos abordou. – Tá com lotação, precisamos fazer rotatividade.
– Pode me dar um minuto, Wilson?
– Seja breve. – O guarda alertou e se afastou de nós.
Sebastian olhou para mim com pesar nos olhos.
– Você volta?
– Preciso ajustar meus compromissos, mas eu vou marcar uma nova visita assim que possível.
– Vai visitar a minha mãe antes, por favor. E se você estiver com pouco tempo, prefiro que vá lá. Não quero que ela fique sozinha.
– Sua mãe tá bem, dentro do possível. Você tá se preocupando demais.
– Você vai ficar bem?
Tentei sorrir e assenti.
– Ótimo. – Então Sebastian me puxou para perto rapidamente e tocou meus lábios com os seus em um segundo. – Eu também li o manual e não ia dormir tranquilo se não te desse esse beijo, porque sei que é permitido.
Ele se afastou sorrindo e me deixou metade no céu e metade rindo de como Sebastian ainda conseguia ser uma criança quando queria.




UM ANO APÓS A PRISÃO DE SEBASTIAN STAN, APARTAMENTO DE , NORTH AVENUE, 1825 – CHICAGO, IL

– Ruzek, como estamos com o telefone do motorista? – Voight chegou no andar já perguntando.
– Eu liguei pro provedor do serviço, expliquei que era uma situação urgente, mas eu ainda to esperando um retorno.
– Sabemos que as garotas mentiram sobre a biblioteca. – Kevin chegou e começou a distribuir folhas entre nós. – Acessei o GPS da Hayden pra ver onde elas foram apanhadas. Dormitório da Universidade Central de Chicago, onde um cara chamado Jordan Bakes mora. Ele entulhou o celular da Allison com mais de mil mensagens de texto esse mês.
– Todas as respostas da Allison são variações de “me deixe em paz”. – Observei ao ler rapidamente o que estava nas folhas que Atwater tinha acabado de nos entregar.
– Então por que ela tava no dormitório dele? – Dawson questionou.
– Verifiquem. – Voight ordenou depois de ponderar.
Cada um recebeu uma tarefa e destino diferente. Eu sabia que seria um dia cansativo. Tratávamos de duas garotas desaparecidas. Quando começamos a levar o sumiço a sério, a primeira suspeita do nosso sargento era de que se tratava de uma cobrança a respeito de atos duvidosos do pai de uma delas, o conselheiro Becks. Falar com os pais da outra jovem pareceu inútil. Mas então descobrimos que elas haviam solicitado um uber. Rastreamos o motorista, ele havia sido atacado e levaram o celular dele. Foi assim que partimos para uma linha de investigação diferente.
Dawson e Atwater foram diretamente no apartamento do tal Bakes para conseguirem mais informações, se fosse possível. Nesse meio tempo, Ruzek conseguiu o sinal do telefone do motorista. Fomos todos em direção a ele a mil por hora.
– Tá legal. – A voz de Ruzek soou pelo intercomunicador. – O sinal tá fraco mas é aqui, em algum lugar.
– Tá Ok. Espalhem-se, e vamos de porta em porta se for preciso. – Voight anunciou, de outra posição.
Nós nos unimos em busca de qualquer coisa que parecesse suspeito. Com os sons de um cão latindo ao fundo, eu tentei parar e procurar por algo que pudesse estar passando despercebido. Foi quando, de um prédio ao lado, saiu pela janela o corpo de uma mulher. Eu corri para tentar socorrê-la mas, da mesma janela por onde ela saiu, vieram tiros na nossa direção.
– Abaixem-se! – Voight gritou e começou a disparar de volta.
Observando por trás de um dos carros, esperei o momento perfeito. Dawson estava perto de mim e fiz sinal para ele quando pareceu seguro.
– Me dá cobertura. – Pedi a ele enquanto, sob o fogo cruzado, eu me direcionei para a mulher.
Na hora que olhei para ela, reconheci.
– Hayden, sou da polícia, tudo bem. Você tem que levantar. – Eu a ajudei a ficar parcialmente em pé, mesmo que estivesse toda ensanguentada e coberta de vidro, e puxei-a para longe da linha de tiro. – Vamos, tudo bem. Vamos.
– Agora! – Voight gritou para meus colegas. – Vai, vai, vai, vai, vai, vai!
Fiquei fora da ação enquanto os meninos entravam no prédio a fim de irem atrás de seja lá quem estivesse por trás daquilo tudo. Enquanto isso, eu tentava manter Hayden estável o suficiente para que a espera pelo socorro não fosse prejudicada. Voight estava gritando algo no intercomunicador sobre apoio aéreo. De repente, todos estavam de volta, perto de mim.
– Um criminoso morto. – Ouvi Dawson falar. – O resto do prédio tá limpo.
– Eu vi a outra garota, ele colocou no porta-malas. Temos que ir. – Halstead disse.
– Vamos sair daqui. – Voight anunciou.
– Tá tudo bem. – Eu murmurei para Hayden enquanto segurava sua mão.
– Tá tudo bem aí? – Jay me perguntou antes de ir junto com os outros.
– A gente se fala, tá?
Todos correram exatamente no mesmo instante em que a ambulância chegou. Dei graças a Deus por isso.
– O que aconteceu? – A paramédica me perguntou.
– Ela voou pela janela. Acho que ela fraturou algumas costelas e, talvez, o tornozelo.
– Nós assumimos daqui. – Ela disse e começou a conversar com Hayden conforme eu levantava.
Quando me afastei, vi que Dawson ainda estava por perto. Assisti enquanto ele ajudava um dos paramédicos a erguer a maca com Hayden para levá-la para a ambulância. Eu segui para meu carro, a fim de acompanhá-la até o hospital. Avisei os outros e seus pais. No caminho, planejei como iria tomar o depoimento dela.
– Ficamos amarradas ao aquecedor com aqueles plásticos que você acha nas embalagens. – Ela nos contou. – Eles tavam se preparando pra nos levar, mas devem ter ouvido vocês lá fora, porque eles começaram a discutir entre si, dizendo: “tem alguém lá fora, temos que fazer isso já, agora”. Então um deles chegou com uma faca e nos soltou. Assim que eu senti que eu tava livre, eu nem pensei. Foi como se minhas pernas assumissem o comando. Eu vi a janela e eu me joguei por ela.
– Hayden, – Voight estava usando o tom de voz zeloso que ele guardava para aquelas ocasiões. – conseguiu ver os caras?
Ela negou com a cabeça.
– Tavam mascarados. Não tiraram as máscaras. Eu pensei que fosse morrer. E eles ainda estão com a Allison? – Minha reação provavelmente entregou tudo. – Eu não devia ter fugido, eu não devia ter fugido...
– Não, Hayden. – Eu disse a ela. – Você fez exatamente o que devia ter feito, você fugiu. Fez o que é certo. Vamos achar a Allison. Tá tudo bem.
Levamos mais um tempo no hospital. Eu tentei ajudar a consolar Hayden e sua família enquanto havia tempo útil para isso. Depois, voltamos para o distrito. Ainda havia muito o que fazer.
– Temos a identidade do atirador morto. – Ruzek pendurou a foto dele no nosso quadro. – Jason Woodley, criminoso de carteirinha. Saiu da prisão há dois meses, depois de um assalto à mão armada.
– Tá legal. Jason Woodley... Quero tudo o que temos sobre esse cara. Membros familiares, comparsas conhecidos...
– Hank, – Trudy apareceu e interrompeu suas ordens. – tem uma mulher lá embaixo dizendo que te conhece.
Ele foi atender a mulher enquanto concluímos ser melhor voltar ao hospital com o nome do cara, para ver se Hayden associava alguma coisa. Na hora que eu mostrei a foto com o meu celular, ela ficou claramente desconfortável, o que denunciou a nós que havia algum detalhe escondido ali. Eu achei que ia conseguir me encaminhar para o final da investigação, mas ainda nem tínhamos começado.
Voight levou o pai de Hayden para interrogatório, ele estava envolvido e mentindo. Halstead e Olinsky ficaram com a responsabilidade de irem visitar a mãe de Woodley para, infelizmente, procurarem possíveis comparsas. Pouco tempo depois, estávamos reunidos novamente.
– Reed Drier, mestre de obras. – Dessa vez, Voight fez as honras de pendurar a foto do cidadão que a mãe de Woodley indicara como seu amigo. – Acaba de sair da prisão, cumpriu dez anos por assalto à mão armada.
– O cara que ele roubou tava desviando dinheiro da companhia do Gordon. – Jay se referiu ao pai de Hayden.
– Então o Gordon contratou o Reed para recuperar a grana que o cara tava roubando dele? Ele recuperou e foi preso. – Ruzek concluiu.
De repente, todos tivemos uma epifania e as peças começaram a se encaixar. Enquanto Voight, muito puto, ia até a sala onde Gordon estava, eu tratei de fazer sua esposa e filha irem para a delegacia. Sabia que ele não aguentaria o confronto e, pelo olhar que Voight me direcionou, fiz a escolha certa. Ele conseguiu retirar o advogado da sala e eu fiquei, para dar apoio às mulheres. Pouco tempo depois, nós estávamos rastreando os caras em um prédio vazio da universidade.
Jay estava como sniper, eu e Antonio entramos no prédio. Do lado de fora, o resto da equipe estava nos ajudando a monitorar, passando informações sobre a planta baixa do local para que pudéssemos nos locomover melhor. Demos de cara com o conselheiro Becks negociando com um cara: Reed Drier. Ao nos ver, ele atirou no conselheiro, que foi ao chão. Pelo intercomunicador, eu podia ouvir que Ruzek e Atwater estavam tentando achar onde Allison poderia estar. Eu e Dawson estávamos sem reação enquanto o Drier insistia que só daria a localização dela quando saísse de lá.
Nós esperamos, negociamos, todos tensos, até que recebemos pelo intercomunicador a notícia que queríamos ouvir. Voight encontrou Allison. No mesmo segundo, Jay atirou de onde estava, acertando em cheio o joelho do homem à nossa frente. Fui socorrer Becks enquanto Dawson foi imobilizar Reed de vez, mas a situação não parecia tão ruim quanto eu achei que fosse. Allison entrou pela porta, correndo para abraçar o pai. Era isso, final feliz para uma investigação de quase setenta e duas horas. Graças a Deus.
Fui para casa exausta, pensando no quão oportuna seria a presença de Kim naqueles dias. Foi um momento bem inadequado o que ela pediu de licença. Mas o que importava era que as garotas estavam bem, tínhamos menos dois bandidos na rua e o tempo ajudaria a curar as coisas.
A primeira coisa que fiz ao chegar na entrada do meu prédio foi checar as correspondências. Passei os olhos pelos envelopes destinados a mim e não pude evitar sorrir quando reconheci a identificação de San Quentin. Subi as escadas correndo, com pressa para abrir a mensagem.


Oi, gatinha.
Sei que você não respondeu a última carta ainda. Talvez você até já tenha respondido, só não chegou pra mim. Falar com você por ligação anda difícil, mas eu entendo que seu trabalho não seja bom pra disponibilidade. Parece que sempre que eu posso é exatamente quando você não pode. Mas até que eu to gostando desse negócio de escrever, sabia? É chique!
Nada mudou por aqui. Tá tudo bem, eu só quis escrever. Houve uma rebelião aqui, em outro pavilhão que não é o meu. Acho que você já deve saber, mas não custa avisar que eu to bem. Lembro de quando a gente era adolescente e saía pras festinhas. Nossas mães nos matariam se não mandássemos notícias. Aí eu pensei... E se a ficou igual a elas?
Eu já cumpri um terço. Como, no acordo, eu abri mão de pedir redução de pena por qualquer motivo, é isso aí. Falta menos do que faltava antes. Sei que você disse que voltaria quando pudesse, mas você poderia voltar antes de poder? Ver você me faz bem. É estranho. Eu não achei que voltaria a sentir esse tipo de coisa. Acho que eu nasci pra você, é isso.
Fiquei doente nos últimos dias, o médico disse que pode ser estresse. Também... Como não seria, estando em um lugar assim? Aí eu fiquei na enfermaria e tinha um cara lá cantarolando Bon Jovi. Lembrei daquele monte de desculpas que a gente deu pra ir ver os caras em 2000. Se um filho meu faz aquilo, eu acho que ia botar de castigo até os trinta anos. Mas isso me lembrou você e como você curtia cantar sua música favorita deles por onde quer que você andasse.
Eu lembrei de como você surtou quando os caras cantaram Something for the Pain e surtou mais ainda quando eu paguei a aposta de cinquenta dólares porque achei mesmo que eles não fossem tocar. A música faz muito sentido agora. Give me something I can use to get me through the night, make me feel alright, something like you. Faz sentido e casa bem com a minha situação. Give me something I can use to get me through my prision? Eu daria um bom poeta, na sua opinão? (Não responda haha).
De qualquer forma, é isso. Eu estou tendo tempo para colocar minha cabeça em ordem. Achei que fosse ser pior do que parece, mas até que nem é tão ruim. Ao menos, eu sei que é mais do que eu mereço. Principalmente quando você me prometeu que estaria ao meu lado quando tudo terminasse. Eu espero que esteja mesmo. E espero que essa carta, ao menos, te faça dar um sorriso.
Espero que a vida por aí esteja mais fácil que por aqui.
E caso eu ainda não tenha dito depois disso tudo, ainda te amo.



Era o que eu precisava pra me ajudar a passar pela noite turbulenta e fazer com que eu me sentisse bem após aqueles três dias intensos no trabalho.




MESES DEPOIS, THE WATERFORD AT DEER PARK, MCDERMOTT STREET, 201 – DEER PARK, TX

O voo de Chicago para Houston havia atrasado por motivos climáticos. Era para eu encontrar a mãe de Sebastian às sete horas da noite e pousei em Houston às oito. Somando tudo aquilo ao trajeto, o tempo iria ultrapassar ainda mais o limite do que havia sido combinado. Lucille certamente estaria preocupada comigo.
Disparei entre o aeroporto e o Holiday Inn Express Hotel. Não era o mais barato nem o melhor, mas dava para o gasto e ficava perto do The Waterford at Deer Park, retiro onde a mãe de Sebastian, sob o nome de Lydia, estava morando. O que o GPS do carro alugado indicou levar vinte minutos, eu fiz em quinze. Cheguei na recepção orgulhosa da minha proeza. Fiz o check in correndo e saí logo após deixar quase tudo no quarto do hotel. Levei apenas três minutos para chegar ao retiro mas, quando fui entrar, bloquearam minha passagem, indicando que estava tarde demais para perturbar os moradores. Insisti com as palavras certas até que me deixaram ver Lucille apenas por um minuto, para avisar que meu atraso tinha ocorrido por fatores fora do controle e que nosso compromisso do dia seguinte estava confirmado.
Cheguei de volta no hotel quase às nove. Não estava exatamente amando minha nova vida de viajante frequente – meu bolso também não estava gostando muito –, mas até que tinha suas vantagens. Eu não me dava o luxo de passear por São Francisco. Por mais que a cidade fosse muito bem recomendada para o público turista, eu não me sentia bem. Ia lá com uma finalidade apenas: visitar Sebastian. E eu não conseguia me sentir bem pensando em sair para visitar pontos turísticos da cidade onde ele mesmo estava atrás das grades.
Em Deer Park, a história era diferente. A mãe de Sebastian era totalmente o contrário de todas as mulheres da face da terra. Aceitava sua idade muito bem e, por mais que mal tivesse passado dos sessenta anos de idade, foi escolha dela mesma se recolher em uma casa de retiro para idosos independentes. O local tinha assistência médica e hospedagem até mesmo para inválidos, e ela dizia que era bom já estabelecer um ótimo lugar para terminar de envelhecer. Mesmo assim, adorava fazer suas atividades. Eu fazia questão de apoiá-la nisso quando eu a visitava.
A cidade de Deer Park não era exatamente turística, só tinha um campo de golfe. Pasadena, uma das cidades vizinhas – a do Texas, não a da Califórnia –, não tinha muito mais que três bares aos quais eu não ousaria ir sozinha para não parecer idiota. Houston era outra das cidades que faziam fronteira com Deer Park, muito maior. Tinha mil vezes mais opções de programa, e era para lá que eu levaria Lucille no outro dia.
Verifiquei o mapa do Houston Zoo antes de pedir comida para mim. Lucille tinha energia mas precisava de alguém que se preocupasse com ela, então não podia ter um dia muito puxado. Eu entendia perfeitamente porque minha mãe e ela eram muito semelhantes. Comi frango frito do Popeyes – já não era novidade que eles estivessem por todos os lugares que eu visitava – e dormi logo, teria um dia cheio pela frente.
– E então... Pela esquerda, vamos passar pela área dos répteis e elefantes. Pela direita, vamos passar pela exibição de pássaros. Por onde começamos? – Perguntei quando passamos pela entrada principal do Houston Zoo, no dia seguinte.
– Por onde você prefere, querida?
– Por onde a senhora quiser.
– Então vamos pela esquerda. Vai ser bom começar pelos grandões enquanto minha mente está fresca.
Nós andamos, primeiramente, pelo exterior do recinto dos elefantes, seguindo logo após para a área dos répteis e anfíbios. Em um recinto menor, havia a placa de identificação de um sapo amazônico, chamado de sapo do leite. Distraída com o recinto das cobras mais adiante, não percebi que ela havia se aproximado do vidro que limitava o local desse sapo.
, querida, não estou encontrando o tal sapo.
Eu me aproximei da divisória e estreitei os olhos.
– Ah, está ali, sobre a folha. – Apontei para o canto esquerdo da área. – Conseguiu ver?
– Sim, consegui. Muito bonito para um sapo, tem lindas cores.
– Nisso, devo concordar.
– Sabe, querida... – Ela disse, voltando a andar para prosseguir o passeio. – Fico pensando no quão ruim deve ser para eles ficarem presos aqui.
A frase me pegou de guarda baixa, e eu engoli em seco.
– Eles só estão aqui por questão de preservação ou porque não poderiam sobreviver na natureza, tia... Lydia. – Fiz uma pausa dramática para utilizar o nome correto.
– Mesmo assim... – Ela insistiu. – Não podemos dizer a eles o motivo. Eles ainda estão presos.
– Às vezes, a prisão é para a própria proteção deles.
A frase saiu amarga. Eu parecia estar tentando mais me convencer do que convencer a ela. Pelo menos, sua atenção foi tomada por outra coisa. Logo à frente, uma píton reticulada estava se exibindo para o público. Se eu não a conhecesse, diria que ela nunca havia estado em um zoológico.
Nós seguimos do setor dos répteis para o setor dos primatas e, logo em seguida, os grandes felinos e animais com cascos. De lá, o próximo setor era o que continha animais típicos do continente africano, como chimpanzés, gorilas, rinocerontes, zebras e avestruzes.
Depois de ir até a plataforma de alimentação das girafas, tia Lucille queria porque queria seguir para o próximo setor, mas eu a convenci de fazermos uma parada. O sol estava bem no meio do céu e a temperatura no Texas certamente era bem mais alta do que a temperatura no Illinois. Localizei um restaurante, chamado Cypress Circle Cafe, próximo a uma área que ainda não tínhamos visitado, e nos direcionei para lá. Estava bem vazio, o que era bom. Peguei dois menus no balcão e fomos, juntas, para uma mesa afastada.
– As opções aqui não parecem muito boas pra senhora. Podemos ir para outro restaurante, se quiser.
– Não, , aqui está ótimo. Eu vou querer um... – Ela colocou os óculos no rosto para observar melhor o cardápio. – Uma dessa salada Cajun Cobb.
– Alguma bebida?
– Onde estão?
– É o último setor do cardápio.
– Ah, sim... Quero uma limonada, querida, por favor.
Fui até o balcão fazer nossos pedidos e devolver os menus. Aproveitei para usar um pouco do álcool em gel disponibilizado para clientes e voltei para a mesa. Ela parecia preocupada, então não foi surpresa nenhuma quando o novo assunto surgiu entre nós.
– Você tem falado com... Scott? – Ela deu um pequeno sorriso quando lembrou-se de que deveria usar o novo nome do filho.
– Tenho sim, tia.
– Ele está bem?
– Dentro do possível, sim.
– Quando foi a última vez que o viu?
– Faz dois meses.
– Você tem planos de visitá-lo novamente?
– Sim, em breve. Eu iria esse final de semana, mas ele me pediu para vir ver a senhora antes.
Eu percebi que minhas palavras não eram suficientes para ela, então tratei de enrolar um pouco mais. Dar satisfações extras, mesmo que contidas para não revelar detalhes demais, sempre eram um ponto positivo quando se tratava de uma mãe preocupada com o filho.
– Em alguns meses, vocês vão poder estar juntos de novo. Isso tudo é só pra garantir a segurança de vocês dois. Separados, vocês são mais difíceis de encontrar. Não temos conhecimento sobre realmente saberem a respeito da existência da senhora, mas é melhor prevenir do que remediar. Não foi isso que a senhora nos ensinou?
– Claro.
– O que está sendo feito é basicamente isso. Não é a primeira vez que eu lido com um caso desse tipo desde que entrei na polícia. É complicado? É, tia, muito! Mas as coisas ficam bem no final das contas. Quando a senhora menos imaginar, tudo isso vai ter passado e vai parecer só um sonho ruim.
– Sabe... Isso tudo parece loucura. – Ela suspirou. – Mas ao menos trouxe alguma coisa de bom.
– E o que seria essa coisa?
– Você de volta na vida do meu filho. – Ela sorriu plenamente, tranquila como eu não via desde que tudo aquilo havia acontecido e, então, chamaram meu nome para retirar o pedido no balcão.




TRÊS ANOS DEPOIS DE TUDO, PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE SAN QUENTIN, SAN QUENTIN – SÃO FRANCISCO, CA

Por mais que houvesse sol e nenhuma nuvem no céu, a temperatura estava estranhamente baixa. Eu me protegi com uma calça jeans reforçada, uma blusa de manga cumprida de malha espessa e uma jaqueta de couro. Nos pés, uma bota com salto curto. Era a primeira, única e última vez que eu apareceria ali sem, finalmente, precisar me preocupar com o código de vestuário.
Estacionei o carro no estacionamento de visitantes, como sempre. Daquela vez, consegui uma boa vaga, no limite com o mar. Era uma vista boa para o prédio principal do complexo penitenciário também. Se não houvesse o clima mórbido na área, talvez até pudesse parecer uma arquitetura interessante.
Não haveria visita naquela sala confusa. Não haveria uma fila de espera. Não haveria os cumprimentos formais entre eu e os guardas que eu já havia decorado. Não haveria revista nem detector de metais. Não haveria conversa com esposas, mães ou filhos de outros detentos. Daquela vez, eu podia me dar o luxo de contemplar o mar, e apenas o mar.
Cheguei cedo propositalmente. Na verdade, ninguém havia me dito o horário de fato. De qualquer forma, estar ali cedo me dava a oportunidade de não perder nada. Levei dois sanduíches de atum que peguei no hotel – àquela altura, os funcionários, com certeza, já haviam entendido que eu tinha alguém em San Quentin – e duas caixas de achocolatado. Abri a mala do carro, que estava virada para o mar. Sentei nela e, com meu lanche, comecei a limpar minha mente e me preparar para o recomeço mais inimaginável da minha vida. Enquanto devaneava, meu telefone tocou.
– Oi, mãe! – Atendi a ligação.
– Oi, querida. Acabei de encontrar com Lucille.
– Mãe, é Lydia a partir de agora.
– Ah, fique tranquila, estou dentro do meu novo apartamento, ninguém está me escutando.
– É o que a senhora acha. Lembra sobre a conversa que tive com a senhora? Ninguém pode sonhar em ouvir o nome Lucille e Sebastian, muito menos o sobrenome Stan.
– Ah, desculpa, querida. Você deve entender, é complicado associar essas novas informações.
– Eu sei que é complicado. – Dei de ombros, mesmo que ela não estivesse vendo, e puxei um pouco do achocolatado pelo canudo da embalagem. – Mesmo assim, tente, por favor. É pro bem de todos. Não faço ideia do que pode acontecer se alguma coisa der errado. As consequências podem ser as piores.
– Prometo que vou me ajustar com o tempo.
Eu sorri.
– E a senhora gostou do apartamento?
– É ao lado do apartamento de Lu... Lydia. – Ela se corrigiu. – Isso é muito bom. Mas você não acha que essas mobílias são muito antiquadas, querida?
– Podemos ir às compras, se a senhora quiser. Houston tem uma ótima variedade de lojas e é bem perto daí.
– Sim, com certeza. Eu vou providenciar urgentemente um fogão novo. Nunca gostei da ideia de um fogão de indução. Acabei de testar e tive a certeza de que é horrível.
– Você pode pedir ajuda aos funcionários, se precisar de alguma coisa. Pode pedir delivery também, mãe. Aquele mesmo aplicativo que eu lhe ensinei a usar em casa funciona aí. É só mudar a localização, acredito que um funcionário possa ajudar com isso. Mas lembre-se de não fornecer os dados do seu cartão de crédito a nenhum estranho.
– Ah, , sua mãe não é mais criança! Fique tranquila, eu sei me cuidar.
Respirei fundo, olhando o mar. Peguei, finalmente, um pedaço do sanduíche entre os dentes. Mastiguei rápido e engoli antes de responder.
– Eu vou estar aí amanhã, sem falta.
– Já encontrou o... Qual o nome mesmo?
– Scott, mãe. – Eu ri. – E não, ainda não encontrei, mas acredito que não vá levar muito tempo. Vou mantendo vocês informadas.
– Tudo bem, querida. Tome cuidado na viagem, ok?
Ah, Catherine, sua filha não é mais criança. – Fingi imitar a voz da minha mãe, que caiu na gargalhada. – Chego amanhã para a janta.
– Vou ficar te esperando, filha. Te amo.
– Também te amo, mãe.
Desliguei e voltei para a minha refeição. Um barco passou a cerca de duzentos metros da costa. Na proa, uma mulher estendendo uma câmera fotográfica na direção da prisão. Era um prazer mórbido, doentio. Não havia motivo lógico, na minha cabeça, que fizesse ser possível entender como alguém usaria do sofrimento dos outros – merecido ou não – como fonte de entretenimento turístico.
– Puta que pariu, você alugou um GMC Yukon? – Ouvi a voz que tanto queria escutar e abri um sorriso gigantesco antes de descer da mala do carro e me virar para ele.
– Eu tinha reservado um Santa Fé com a locadora, na verdade, mas eles não tinham e precisavam me dar um carro igual ou superior. E eles tinham um Yukon. – Dei de ombros.
Sebastian não esperou mais. Terminou de percorrer os poucos metros entre nós e me tomou em seus braços, me tirando do chão conforme me beijava intensamente. Uma de suas mãos foi até minha nuca, subindo mais e aprofundando seus dedos por entre meus fios de cabelo. Ele me puxava para si com força, como se não pudesse correr o risco de me soltar por acidente.
– Acalme-se, garanhão. – Eu disse, ainda fora do chão, e espalmei uma mão em seu peito. – Você vai me matar assim.
– Não sabe quanto tempo eu esperei por isso.
– Na verdade, eu sei perfeitamente.
Dei dois tapinhas em seu ombro e ele me devolveu para o chão. Mesmo assim, me puxou parar perto de novo e me beijou mais uma vez.
– Isso é gosto de atum?
– Eu estava lanchando, achei que você fosse demorar.
– E não ia deixar nem um pouco pra mim? – Sebastian arqueou uma das sobrancelhas. – Você é uma mulher horrível mesmo.
Eu ri de sua piada e fui até a mala do carro, pegando um dos sanduíches extras e entregando a ele.
– Como sabia que eu estava aqui?
– Feitiçaria. – Sebastian riu enquanto desembrulhava o sanduíche. – O feiticeiro se chama Roger e é chefe do setor de monitoramento eletrônico. Ele te viu pela câmera, brincou com um, que brincou com outro, que brincou com outro, até chegar em mim. Avisaram que o meu anjo da guarda estava no estacionamento. Mas não avisaram sobre o Yukon.
Eu revirei os olhos para ele.
– Vai querer ficar aqui ainda? Você não parece nem um pouco com pressa pra sair de perto desse lugar.
– Não sei quando vou ter pressa de novo na vida depois desses últimos três anos.
Eu engoli em seco. Por um instante, toda a felicidade do momento foi suprimida por outro sentimento. Sebastian notou antes que eu abrisse a boca.
– É real?
– O quê?
– Seu arrependimento. – Respondi. – Você não tá me enganando?
Sebastian voltou a se aproximar. Colocou seu sanduíche em cima do carro e pegou o meu, colocando-o junto ao dele. Fez com que minhas mãos envolvessem seu pescoço e colocou as suas na minha cintura.
– Quando você me emparedou sobre o tráfico... Eu escondi alguma coisa de você? Por mais plausível que fosse uma mentira minha sobre aquele assunto.
– Não.
– Eu nunca menti pra você.
– Sei disso, mas...
– ‘Mas’ nada. Ficou pra trás, . Eu realmente quero tocar isso contigo daqui pra frente e fazer dar certo. Perdi muito tempo já. Chega.
– Tem certeza?
– Absoluta. – Ele deu seu melhor sorriso. – Agora vamos logo pro aeroporto, preciso ir ver minha mãe.
– Aeroporto?! – Eu ergui uma de minhas sobrancelhas.
– Não vamos de avião?
– Vamos, mas não agora.
– Por quê?
Eu fui até a mala, peguei os achocolatados, fechei a tampa, tirei os sanduíches do teto do carro e entreguei tudo para Sebastian.
– Olha só, eu estou vindo aqui há três anos pra te visitar e nunca coloquei os pés nas ruas de São Francisco para visitar a cidade como turista. Então o senhor está me devendo um passeio, quer você queira ou não.




TARDE DO DIA SEGUINTE, HOUSTON HOUSE APARTMENTS, FANNING STREET, 1617 – HOUSTON, TX

Sebastian estava quieto desde o momento em que entramos no carro alugado, depois de pousarmos em Houston. Eu estava tensa pela forma que estava arrumada. Queria fazer surpresa para ele e não podia permitir que Sebastian desconfiasse. O clima me lembrava um pouco a vez em que ele estava dentro do meu carro e eu estava levando Sebastian para o distrito. Sua atenção estava fixa nos detalhes, mas eu imaginava que fosse por conta da necessidade de explorar a cidade nova.
– Já tinha estado em Houston? – Perguntei para quebrar o silêncio.
– Nunca pisei no Texas, pra falar a verdade.
– É mais quente que Chicago.
– Posso me acostumar com isso. – Ele disse. – Minha mãe está onde?
– Em Deer Park. É uma cidadezinha aqui ao lado, fica a menos de trinta minutos do apartamento.
– Apartamento?!
Eu apenas sorri. Tirei Sebastian de um estado de quase catatonia, atiçando sua curiosidade. Era suficiente para mim. Levamos cerca de dezoito minutos de aeroporto até a frente do prédio, no número 1617 da Fanning Street. Sebastian ergueu os olhos para os andares a perder de vista e ficou mais curioso ainda quando eu acionei a seta do carro e entrei na garagem subterrânea.
Tiramos nossas malas do banco traseiro do carro e seguimos para o elevador. Quando apertei o número do andar, senti que Sebastian focou os olhos imediatamente em mim.
– O que foi?
– Trigésimo andar, ?
Eu ri.
– Você tem medo de altura, por acaso, Scott?
Ele não respondeu. Quando o elevador se abriu e eu me encaminhei para a porta do apartamento com a chave na mão, senti o olhar de Sebastian queimar as minhas costas. Destranquei e liberei a passagem para que ele entrasse na minha frente.
O primeiro e principal cômodo era a sala, composta por três ambientes em um. A cozinha tinha um fogão grande, cuba dupla e ilha que servia apenas para bancada e armário. A geladeira não era de duas portas lado a lado, mas era uma duplex gigantesca que satisfazia qualquer necessidade. A sala de jantar era singela, a mesa com base em madeira e topo em mármore. As cadeiras, quatro, combinavam com as duas banquetas da ilha.
A parte da sala de estar era ampla e agradável aos olhos. Ela era dividida da parte da sala de jantar por uma escrivaninha, com uma poltrona cinza de aparência confortável. Os móveis combinavam tons de cinza – do mais claro ao mais escuro – com mostarda, além de detalhes de madeira combinando com detalhes de aço galvanizado preto. Não era nada tão luxuoso quanto o apartamento de Chicago onde Sebastian morava, mas as vidraças que formavam a parede que dava para a varanda faziam o luxo surgir nos detalhes.
Sebastian se aproximou das cortinas e abriu tudo, revelando a vista razoavelmente agradável do centro de Houston. Havia poucos prédios em volta, a maioria das construções era baixa, o que nos permitia observar o horizonte à distância. Ele estava indecifrável quando voltou a se virar para mim. Apontou para uma porta dupla que ficava próxima à sala de jantar.
– A suíte. – Respondi sua pergunta silenciosa.
O quarto era composto por uma cama king size ladeada por criados mudos com estrutura no mesmo aço galvanizado da sala de estar e gavetas e tampos de mármore. Acima deles, luminárias de leitura. Nas pontas, poltronas simples e agradáveis. Na varanda do quarto, separada da varanda da sala, uma mesa pequena com um par de cadeiras. Um tapete grande e marfim finalizava o adorno.
Do quarto para o banheiro, havia um corredor. De cada lado, um closet pequeno de esquina, somado a um maior, que se encontrava no meio da passagem. Sebastian passou direto e foi ao banheiro. Nesse momento, não o acompanhei. Apenas sentei na cama e aguardei. Quando ele voltou, abriu a porta de um dos closets de esquina e encontrou algumas de suas roupas.
– Esse lugar foi comprado?
– Sim. – Respondi. – Custou um terço do valor pelo qual seu apartamento foi vendido. E o triplo do valor do apartamento onde eu morava.
– Foi um bom equilíbrio. – Ele sorriu e apontou para as roupas. – Você quem trouxe?
– Sim. Vieram na mudança da minha mãe pra cá.
– Sua mãe veio?! – Sebastian arqueou uma sobrancelha.
– Ela e a sua mãe agora são vizinhas.
– Isso quer dizer que...
– Abra o outro armário, Stan. – Eu sugeri.
Pareceu que as engrenagens haviam finalmente se encaixado na cabeça dele. Quando abriu a porta e encontrou as minhas roupas lá, Sebastian deixou o queixo cair.
– Você vai ficar. – Ele murmurou, parecia não acreditar.
– Bem, alguém tinha que ficar de olho em você pras coisas não voltarem a desandar. E, se eu prometi ficar...
Sebastian me interrompeu ao andar firme em minha direção e parar minhas palavras com um beijo profundo. Era diferente, eu sentia. Não era carregado do desejo de sempre, embora esse desejo fosse muito bom. Era quase um beijo puro. Poderia ser, se eu não soubesse que era de Sebastian Stan que eu estava falando.
– Você comprou?
– Na teoria, sim. Na prática, foi com o seu dinheiro. Não quis mexer em muita coisa, mas precisava preparar certos pontos, como um lugar para você morar fixamente após sair da prisão. – Comecei a explicar. – Chicago era perto demais do problema, e sua mãe estava tão bem estabelecida com as amigas por aqui que pensei ser uma boa escolha te trazer pra perto. Deer Park é pequena, Pasadena também. Houston traz o clima de centro da cidade que você gosta e te deixa perto da sua mãe. Tirando isso, eu não mexi no dinheiro.
– Você poderia ter mexido. Se eu deixei o dinheiro nas suas mãos, era porque eu confiava em você.
– Não tem motivo pra se preocupar com isso agora, Stan. As coisas vão ser resolvidas aos poucos, isso que importa.
– E seu emprego?
– O DEA adorou minha colaboração no caso, acredita? – Eu ri da minha própria fala. – O meu superior teve como me recomendar muito bem, e eu consegui uma vaga na unidade daqui. Fica a doze minutos, de carro. O salário é bom, eu vou trabalhar de segunda a sexta na maior parte do tempo, sem noites em claro...
– Eu não acredito que você tá fazendo isso tudo por mim.
– Você faria o mesmo se fosse eu no seu lugar, me metendo em furada e precisando de ajuda. – Concluí.
– Bem... – Sebastian murmurou e sentou ao meu lado, na cama. – Nisso, você tem razão.
– Eu avisei minha mãe que nós chegaríamos por volta das seis da tarde. Não avisei sua mãe e pedi pra minha mãe também não falar nada. Assim, podemos fazer uma surpresa.
– Boa ideia.
– Levando em conta que agora são quatro da tarde e nós precisamos descontar o tempo do trajeto até lá, eu sugiro que façamos uma lista de coisas que precisamos. Minha mãe quer comprar algumas coisas pro apartamento dela também, eu disse que a traria em Houston pra ver isso. Eu tenho uma lista no notebook do que precisamos aqui, ele está na bolsa e...
, – Sebastian me interrompeu e eu levantei o olhar para ele. – obrigado. Por tudo. E me desculpa. Sei que não é suficiente pra mostrar o quanto eu sinto muito ou o quanto eu sou grato por você existir na minha vida e por você não ter me abandonado quando deveria, mas...
– Ei, relaxa. – Eu disse e estalei um beijo nele, que sorriu e levantou da cama.
– Eu só vou dar uma olhada aqui no banheiro. – Sebastian disse e começou a andar corredor adentro. – Será que teria como transformar essa banheira em uma banheira dupla?
– Sebastian! – Eu o chamei, retirando do bolso de trás uma das surpresas dele.
– O que foi? – A voz soou abafada.
– Vem cá.
Quando Sebastian saiu do corredor e me viu balançando o par de algemas na ponta dos dedos, sua expressão foi para puro terror.
, eu... Olha, da última vez... – Ele engoliu em seco, se atrapalhando de nervosismo. – Isso é uma brincadeira? Diz que isso é uma brincadeira de mau gosto porque...
Eu deixei Sebastian tagarelando. Estava tão nervoso que não notou quando eu comecei a desabotoar o vestido que estava em meu corpo, revelando a lingerie preta que eu havia colocado ainda em São Francisco especialmente para aquele instante.
– Stan! – Interrompi seu falatório, captando sua atenção completa finalmente, deixando-o boquiaberto. – As algemas são pra outro propósito hoje.


Fim.



Nota da autora: EU AMO ESSE CASAL! Sinceramente, tudo era pra ser apenas um ficstape quente para 03.Gorilla. Inclusive, quem quiser ler o que aconteceu antes a esse casal, pode chegar no link desse ficstape (se o ficstape já tiver ido ao ar quando você estiver lendo isso aqui mas, se não tiver, é só entrar no grupo que eu aviso lá quando entrar). Eu realmente me apaixonei por essa história, penso até em aumentá-la. Mas, só de já ter chegado até aqui, me sinto muito satisfeita. Eu espero que vocês tenham gostado, que tenha sido à altura dessa música maravilhosa. Obrigada a todas que sempre passam por aqui e me apoiam nas minhas produções malucas!

MENINAS! TEMOS UM GRUPO NO FACEBOOK! A pedido de algumas leitoras, criei um grupo onde podemos conversar melhor do que aqui sobre os capítulos, sobre as atualizações e sobre quase qualquer outra coisa! Para entrar, clique AQUI!.





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Before She's Gone [BTS - Finalizada]
02.Black Swan [BTS - Ficstape BTS: Map of the Soul 7]
05.Dare You to Move [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
03.Gorilla [Sebastian Stan - Ficstape Bruno Mars: Unorthodox Jukebox]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
01.I Forgot that You Existed [Original - Ficstape Taylor Swift: Lover]
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em andamento]
Just a Heartbeat Away [Louis Tomlinson - Shortfic]
Me Peça para Ficar [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Para Ter Você nos Meus Braços [Clube de Regatas do Flamengo - Shortic]
Por um Acaso do Destino [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento]
13.Something for the Pain [Sebastian Stan - Ficstape Bon Jovi: One Wild Night]
01.The Crown [BTS - Ficstape Super Junior: Time Slip]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Finalizada]
06.Walls [Henry Cavill - Ficstape Louis Tomlinson: Walls]
03.We Were Only Kids [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs]


comments powered by Disqus