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Capítulo I


NOVA YORK • 12 de fevereiro





Sabe quando você tem um dia de cão e a única coisa que você quer fazer é chegar em casa, se jogar na cama e fingir que aquele dia nunca aconteceu? Pois é, hoje parecia um daqueles dias. Eu sentia aquela pontada no estômago, nada me entrava e sem contar os calafrios todas as vezes em que eu pensava na palavra casamento.
Isso mesmo, faltavam três meses para o meu casamento e a única coisa que eu conseguia pensar era que eu não queria pensar. Não queria saber de bolo, de flores, de porcaria de lugares marcados e muito menos do vestido de noiva. Nadica de nada, mas Samantha, minha melhor amiga, tinha uma ideia diferente e fez questão de me arrastar no final do expediente para uma loja de vestidos de noivas no centro da cidade. Uma daquelas que vendem vestidos usados e pra lá de bregas.
- Vamos, , você tem que provar um vestido! – ela me puxava para dentro da loja.
- Não acho que isso seja uma boa ideia. – respondi, olhando para os lados – E essa loja só tem vestido brega.
- Como eu já disse, é apenas uma experiência, não vai matar ninguém.
- É porque não é você que vai provar.
- Eu provo um também.
- Posso ajudá-las? – a vendedora olhou para nós duas.
- Sim, nós queríamos provar vestidos de noivas.
- Oh, qual das duas vai casar?
- Nós duas. – olhei confusa para Samantha, e eu entendi que ela estava tirando uma com a cara da vendedora.
- É verdade. – completei – Nossos noivos são irmãos e, como os conhecemos no mesmo dia, decidimos casar juntas.
- Oh, mas essa vai ser uma experiência espetacular. – ela bateu as mãos – Fiquem à vontade, sei que os vestidos são de segunda mão, porém são maravilhosos. – ela nos guiou pela loja – O provador fica no final da loja, se precisarem de ajuda é só chamar.
- Muito obrigada. – olhei para Samantha, que segurava o riso – Eu não acredito que você me obrigou a fazer isso.
- Eu não acredito que alguém casou com isso. – ela pegou um vestido cheio de babado, de mangas longas e fechado até o pescoço – Toma. – ela me estendeu o vestido.
- Eu não vou provar isso. – empurrei de volta.
- Ah, , larga de ser chata. Por favor! Por favor!
- Só se você provar esse. – estendi um vestido pra ela, tomara que caia de babado na saia.
- Eu vou adorar. – Samantha pegou o vestido e jogou o outro pra mim. Ela correu até o provador e entrou em um, enquanto eu entrava em outro. Joguei minha bolsa no canto do provador, tirei meus sapatos e minha roupa. Realmente, a cristã que casou nesse vestido, com certeza, não o viu antes do casamento. Era simplesmente de mau gosto.
- Precisa de ajuda, minha querida? – a vendedora perguntou.
- Só preciso que me ajude com os botões que faltam.
- Esse vestido é um dos mais bonitos da loja. – ela disse, fechando os botões. Imagine o mais feio, pensei – Porém a noiva não teve a sorte de usá-lo.
- Como assim?
- Dias antes do casamento, o noivo fugiu. A mãe dela deixou aqui porque não aguentava mais a filha chorando com ele. – ela terminou – Prontinho!
- Obrigada.
- De nada. – ela saiu do provador.
- ? Esta ai?
- Estou.
- Na contagem do três nós saímos.
- Ok.
- Um, dois e três. – pulei para fora do provador, encarando Samantha, que mais parecia um bolo de casamento com tantas camadas.
- Oh, meu Deus! – soltei uma gargalhada – Você está parecendo um bolo.
- Olha para você! – ela me virou para o espelho – Até que não ficou tão mal. Dá até pra te imaginar andando até o altar com essa coisa. – olhei para o reflexo do espelho e, de repente, toda essa ideia de vestido pareceu errada. A gola do pescoço parecia me impedir de respirar e o vestido parecia estar mais apertado, mesmo sendo dois números maior. Eu precisava tirar esse vestido agora.
- Samantha, eu não consigo respirar! – falei, ofegante, tentado abrir os botões.
- O que?
- Eu não consigo respirar! Tira isso de mim.
- Você só pode estar brincando.
- Samantha, por favor! Eu não... – meus próprios joelhos me traíram e, quando eu vi, estava no chão.
- Se acalma!
- Samantha! Eu não consigo respirar. – parecia que eu tinha corrido uma maratona e não conseguia recuperar o ar, por mais que eu tentasse – Samantha!
- Ok ok! Esse negócio tem um milhão de botões. – ela disse, começando a abrir os botões.
- Mais rápido!
- Eu estou tentando.
- Rasga!
- O que?
- Rasga! Eu estou queimando! Samantha, eu não... – Samantha rasgou o vestido e eu o tirei até a cintura. Me encarando no chão, ofegante, eu finalmente admiti algo que eu estava enterrando dentro do meu subconsciente há meses.
- Eu não posso! – abaixei a cabeça.
- É só um vestido horroroso, espere até nós procurarmos o seu.
- Não é isso.
- Espere até você ir à Vera Wang ou à Viviane Westerwood. Tenho certeza de que você não vai ter um ataque.
- Você ainda não entendeu que eu não quero procurar porcaria de vestido nenhum? – olhei para ela. Meus olhos já estavam marejados e Samantha me encarava assustada – Sam, não dá! Faz um tempo que eu sei disso. Se duvidar, faz um tempo que você também sabe. Eu não posso, eu não...
- Ei, você não me deve explicação nenhuma. – ela passou a mão por minhas costas – Eu vou estar do seu lado em qualquer decisão que você tomar. Se você não está feliz, pra que continuar?
- Obrigada por entender.
- Eu entendo, mas sua família... Não vou nem falar sobre sua mãe ou sobre o seu noivinho querido. Esses dois não vão, nem a pau. , eu pensei que era isso que você queria.
- E você acha que eu também não pensei?
- O que você vai fazer agora?
- Tenho que contar para Dereck. – me levantei – Eu não posso continuar com isso.
- Eu estou orgulhosa de você. – ela me abraçou – Finalmente você está fazendo alguma coisa.
- Fazendo alguma coisa? Como assim?
- , você passou sua vida inteira deixando que os outros dissessem o que você deveria fazer porque era a solução mais fácil. Mas agora você está finalmente fazendo alguma coisa sobre a sua vida.
- Eu só... – tirei o vestido e comecei a colocar minha roupa.
- Queria trazer seu irmão de volta pra casa, eu sei. – Samantha começou a se vestir também. – Você não pode viver sua vida baseada em algo que seu irmão fez há uns dois séculos atrás. Na vida, shit happens. Você não pode esperar que tudo seja um conto de fadas onde nada de ruim acontece. Vai acontecer muita merda e você vai ter que passar por isso e dar a volta por cima.
- O que importa não é quantas vezes você cai, e sim quantas vezes você levanta. – disse, pegando minha bolsa.
- Sabia que te dar aquele quadro ia adiantar de muita coisa. – ela disse, passando o braço por meus ombros.
- Minha mãe não vai gostar nada disso.
- Já tem um tempo que eu quero te dizer e não disse porque te amo muito, mas sua mãe controla sua vida, como se fosse a vida dela. – Samantha abriu a porta, esperando que eu passasse – A única coisa que ela quer é que você saia de Nova York e viva naquele fim de mundo que é Connecticut.
- Não vamos esquecer de: virar uma daquelas Barbie que vivem em função do marido. – respondi, fazendo sinal para o táxi.
- Já está mais do que na hora de você tomar conta da sua própria vida, fazer as coisas pra sua felicidade não pra dos outros.
- Eu pensei que, vindo pra Nova York, tudo ia mudar, mas nada mudou.
- Claro que mudou, você mudou. – o táxi parou ao meu lado – Se você quiser, pode vir passar um tempo comigo. Você sempre será bem-vinda.
- Obrigada, Sam. – a abracei – Você é uma das melhores coisas que aconteceram comigo.
- Eu sei. – ela me segurou pelos ombros – Agora vai lá, garota. Pega as rédeas da sua vida outra vez.

Toda essa ideia de casamento pareceu uma maravilha na teoria. Aliás, Dereck era o cara ideal de qualquer garota. Quem no mundo não iria querer um cara trabalhador, boa pinta, bom de cama e que ainda te ama e trata bem todos os dias? Só mesmo uma louca.
Prazer, uma louca. Ou, melhor dizendo, a louca.
Não vou dizer que não o amei, porque na verdade o amei e muito. Eu só não estava pronta pra casar, entende?
Eu tentei, de várias formas, falar com ele, porém Dereck parecia dar um jeitinho e fazer com que eu deixasse o assunto pra outro dia. E outro. Até aquele dia, e, podia ter certeza, daquele dia não passava.
Sai do elevador pegando as chaves dentro da bolsa, já torcendo para que Dereck tivesse ficado preso no trabalho e eu não tivesse que encará-lo. Eu precisava preparar meu discurso, e eu tinha que fazê-lo bem convincente para caso ele quisesse argumentar, talvez com um pouquinho de charme, eu poderia convencê-lo a mudar de ideia.
- Oi, amor! – Dereck disse, assim que eu entrei pela porta. Bastou só um olhar para Dereck para que eu percebesse que eu não estava errada. Eu não queria me casar com ele nem hoje, nem amanhã, nem nunca.
- Dereck, nós precisamos conversar. – falei, jogando as chaves na mesa. Lá se iam as horas de planejamentos, era hora do improviso. Ele se levantou e cruzou os braços – Nós temos um problema.
- Oh, isso é verdade.
- Sério? – perguntei, confusa. Então eu não era a única que achava essa ideia de casamento péssima? – Você também pensa assim?
- Claro que penso. – pela primeira vez em meses, eu senti todo um peso ser tirado das minhas costas – A organizadora ligou dizendo que eles entregaram lírios ao invés de orquídeas, isso definitivamente é um grande problema.
- Dereck, não é isso.
- Então é sobre o seu vestido? Sua mãe disse que você ainda não foi com ela escolhê-lo.
- Dereck...
- E também tem suas tias, nós temos que trocá-las de lugar. Se juntar as minhas tias com as suas, isso não vai dar muito certo.
- Dereck, para! – gritei, fazendo-o me olhar assustado – Não dá.
- Claro que dá, amor, é só a gente trocar as suas tias de lugar.
- Não, Dereck, não dá. – ele me olhou.
- Como assim, não dá?
- Não dá. – aquilo estava entalado na minha garganta fazia meses. No começo, pensei que era apenas o nervosismo, mas depois eu vi que eu tinha planejado uma vida, e em nenhum momento eu coloquei Dereck nela – Essa história toda de casamento não está dando certo.
- ...
- Eu sei que eu deveria ter falado antes, pra evitar todo o sofrimento que está por vir, mas você me conhece, sempre deixei que os outros decidissem tudo por mim. – olhei para ele – Eu pensei que, quando eu aceitei seu pedido, eu estava fazendo o que eu queria, mas aí é que está o problema: eu nunca fiz por mim. Eu fiz por você, pela minha mãe, mas não por mim. Eu pensei que, com o tempo, as coisas iriam melhorar e eu entraria nessa onda de casamento, mas não foi assim. – limpei as lágrimas do meu rosto – Eu não posso me casar com você, Dereck. Você seria o homem mais infeliz do mundo com isso.
- Isso não é verdade, ! – ele se aproximou – Eu te amo, nós podemos resolver isso.
- Não podemos. – disse, me afastando – Eu não te amo mais, não sei nem ao certo se um dia foi amor de verdade. Eu não posso fazer isso com você, mas, especialmente, eu não posso continuar fazendo isso comigo.
- , espera! – essa foi a única coisa que eu escutei antes de pegar minha bolsa e correr em direção ao elevador. Eram seis andares e não dava pra descer tudo isso de salto. Eu estava tentando colocar minha vida no lugar e isso requeria que eu fizesse algumas loucuras, mas não significava, que eu estivesse ficando louca. Talvez só um pouquinho.
Eu andei apressada em direção à saída, ignorando o porteiro que chamava o meu nome. Fiz sinal para o primeiro táxi, porém antes que eu pudesse entrar no mesmo, as palavras de Dereck me interromperam.
- Como assim não era amor? – virei-me para ele, que enxugava as lágrimas. – Você não pode jogar tudo o que vivemos fora.
- A questão não é jogar fora, na verdade, é o oposto. Veja isso como uma oportunidade de ser feliz, uma segunda chance na vida, entende?
- Eu não preciso de segunda chance, eu quero você.
- Mas eu não te quero! – gritei mais alto do que deveria, fazendo o porteiro aparecer na porta – Eu não quero mais essa vida, eu quero poder viver a minha vida. Desculpe.
Entrei no táxi dando o endereço de Samantha.
Eu estava ferrada. Completamente ferrada. Não gostava nem de pensar o que minha mãe iria dizer quando soubesse o que eu tinha acabado de fazer. Com certeza iria me arrastar pelos cabelos até o altar à força. Entretanto, por mais desastroso que parecesse, eu nunca me senti tão livre. A sensação que eu tinha era que eu estava presa e finalmente tinha me libertado, como um pássaro que tinha saído da sua gaiola. Eu podia estar sem lugar pra morar, sem roupas e, pior, sem meus sapatos, mas tudo parecia mais simples. Sabe todas aquelas metáforas sobre liberdade? Eu estava sentindo todas agora.
Paguei ao taxista e, antes que eu pudesse entrar no prédio de Samantha, ela já estava na porta segurando um champanhe.
- Samantha, pelo amor de Deus, você não tem coração, não? – perguntei, parando em sua frente – Eu acabei de cancelar meu casamento e você me aparece com um champanhe na mão?
- Claro que eu tenho coração. Se eu não tivesse, você estaria casando com aquele pamonha.
- Não está parecendo.
- Você sabe o que dizem: Os melhores de nós podem encontrar a felicidade no sofrimento. – ela segurou meus ombros – Tem um café, virando a esquina. O dono é um gostoso. Nós podemos ir lá e comer as coisas mais gordurosas que tem no cardápio.
- Eu não estou no clima, posso ficar no seu apartamento? – meu celular começou a tocar dentro da bolsa, procurei-o e, quando eu achei e vi o nome "mãe" gritando no visor, eu quase cai pra trás – Mudando de ideia, comer até explodir seria uma ótima ideia.
- É sua mãe?
- É.
- Você sabe que o primeiro lugar em que ela vai procurar, vai ser aqui.
- Então vamos fazê-la esperar até cansar. – segurei-a pelo braço e comecei a andar – É virando a esquina?
- É, lá embaixo. – Samantha disse, enquanto eu a arrastava em direção ao tal café – , eu posso andar sozinha. – soltei seu braço e Samantha se ajeitou, andando ao meu lado – Não sei como você consegue andar nesses saltos e ainda arrastar uma pessoa. Tem dias em que eu não consigo nem andar neles direito.
- Eu acho que poderia jogar futebol de salto.
- Falando em salto, como é que você vai fazer com suas roupas, e principalmente, com seus sapatos? – arregalei os olhos.
- Ai, meu Deus! – coloquei as mãos na cabeça – Eu deixei tudo lá, as roupas, as bolsas e, principalmente, todos os meus sapatos. – olhei para ela – Samantha, e se ele decidir se desfazer de tudo? Eu não posso comprar tudo de novo, você sabe, alguns deles são da minha avó e da minha tataravó e...
- São modelos exclusivos, vintage, melhor dizendo vintage blue. – ela me imitou – Não entendo essa sua obsessão com sapatos azuis.
- Eu já te disse, é uma tradição de família. Como minha mãe não quis, e eu sempre fui obcecada por sapatos, eu fiquei com eles.
- Não, é loucura mesmo. Onde já se viu uma pessoa só ter sapatos azuis?
- Ei! Todas eles não são azuis, alguns deles tem apenas detalhes. E eu tenho um laranja que Dereck me deu e outro preto que minha mãe me deu.
- É, e olha onde estamos agora. As duas pessoas que deveriam saber que, não importa a ocasião, você estará com sapatos azuis, te compram sapatos de outras cores e são as pessoas que você está evitando.
- Vai ver na cor azul não era tão bonito.
- Pelo amor de Deus, ! Na nossa primeira comemoração de natal juntas, eu já sabia que ia comprar aquela sandália Fendi que você tinha gostado e eu tive que ir até o outro lado da cidade porque o azul deles tinha esgotado no shopping.
- E eles são um dos meus favoritos. – a abracei de lado – Eu sei o que você quer dizer, – me afastei – eles não me conhecem, só acham que conhecem.
- Desculpa, mas é a pura verdade.
- Eu sei. – ficamos em silêncio.
- Eu posso te ajudar com suas coisas, eu posso ir ao seu apartamento com um caminhão lá da empresa pra pegar tudo.
- Você faria isso? – ela parou de andar.
- Claro que sim, minhas assistentes precisam de um corretivo. – ela se para mim – Vou colocá-las para arrumar suas roupas e sapatos, acho que, depois dessa, elas nunca mais falam que engenharia é cansativo. – Sam era uma engenheira civil na empresa do seu pai. Eles dois eram sócios e projetavam coisas como prédios, shoppings, casas e tudo que você pode imaginar. A mãe de Samantha não gostava muito, queria que a filha cursasse um curso mais feminino, Sam ficou muito puta e mostrou para a mãe que não é um emprego que dita o seu nível de feminilidade. Eu não era a única nessa amizade que adorava um produto de marca.
- Obrigada, Sam. – a abracei – Você é a melhor.
- Eu sei. – ela parou em frente ao café – É aqui, e lá está o dono gostoso atendendo todo mundo com aquele sorriso no rosto. – ela disse, apontando para o homem no balcão. Meu celular começou a tocar novamente, mas eu nem precisei pegar pra saber quem era. Apenas peguei o celular e desliguei-o, jogando-o dentro da bolsa.
- Você sabe que vai ter que encarar sua mãe algum dia, né?
- Eu sei, mas não precisa ser agora. – respirei fundo – Eu preciso colocar tudo no lugar, preciso de um tempo, preciso absorver tudo que estou sentido no momento.
- Que tal fazermos isso comendo um prato de bacon e batatas fritas?
- Você leu os meus pensamentos.
Eu estava prestes a entrar no café quando uma buzina alta ecoou pela rua. Foi uma questão de segundos que eu virei para ver da onde a buzina vinha, que eu vi uma placa que me chamou atenção: "Procura-se bartender".
- É isso! – falei, me virando para Sam, que me olhou assustada.
- Eu sei, por isso estou segundando a porta.
- É isso é o que eu devo fazer. – disse, encarando o bar do outro lado da rua.
- O que? – ela fechou a porta e olhou para onde eu estava olhando – Você quer ser bartender?
- É.
- , você já não tem um emprego?
- Faz tempo que eu quero sair, a minha chefe praticamente me escraviza, você sabe. E eu posso fazer freelance, trabalhar em casa.
- Mas, , seu emprego é muito bom, a grana que você ganha vai ser de grande ajuda agora. Freelance não é um emprego certo.
- Ah, Sam, eu tenho uma grana guardada ainda, do apartamento que eu vendi quando decidi morar com o Dereck.
Na verdade, eu tinha muito dinheiro guardado. Mesmo antes da faculdade, eu já organizava eventos onde eu morava. Começou com uma quermesse, algumas festas da igreja, aniversários, quartos de criança, salas e essas coisas. Então o padre viu o quão talentosa eu era, pediu para que eu projetasse alguns espaços da igreja e foi aí que eu descobri minha vocação para o design.
Logo quando me mudei para Nova York para cursar design, eu morei em um hotel por quase oito meses antes de conhecer Samantha, que procurava uma colega de apartamento para dividir as contas. No começo, Sam e eu não nos dávamos bem, eu era bem fresca e Sam já era bem independente. Acho que não era nem ódio gratuito, era uma questão que eu sentia inveja do quão independente ela era.
Depois que Sam me ajudou em um projeto foi quando a conversa começou a fluir, e eu posso dizer que Sam foi essencial para o meu crescimento como pessoa, do mesmo jeito que eu fui para ela. Minha avó sempre dizia que amizades são feitas pra te colocar pra frente, não pra te empurrar pra trás e eu vivi isso quando conheci Sam, totalmente diferente das amizades que eu tinha em Connecticutt, que só me atrasavam a vida.
- Não acho que isso seja uma boa ideia.
- Você sabe que eu consigo. Se lembra quando o barman ficou doente na semana grega e eu tive que ficar no bar? E depois eu passei praticamente todas as festas cuidando do bar?
- Mas isso não é semana grega, .
- Eu sei, não é para sempre é só por um tempo. – a segurei pelo ombros – Sam, eu preciso de uma atmosfera nova, conhecer pessoas, de ter novas experiências. Passei minha vida deixando que os outros decidissem tudo por mim, a partir de agora eu vou fazer o que me der na telha. Pode não parecer um recomeço sair de um emprego bom pra um bar, mas mesmo assim é alguma coisa e não importa o que você diga, eu vou trabalhar naquele bar sim. – me afastei dela, estufando o peito. Sam me olhou desconfiada e depois sorriu.
- Para o inferno então! Vai que é tua garota, faz o que você quiser.
- Segura aqui e não me espere. – dei minha bolsa para ela e atravessei a rua em direção ao bar.
Era isso, ali estava meu recomeço.



- Não é você, sou eu. – disse, apontado para mim. A garota a minha frente não pareceu comprar muito a ideia e me olhou desconfiada.
- Eu entendo. – ela respondeu, e eu a olhei surpreso. Tinha sido muito fácil.
- Entende?
- Claro que entendo, . Você é um imbecil. – e então sua mão voou com tudo na minha cara. Outro! Que esquerda fenomenal. – Nunca mais me liga.
- Foi um prazer. – gritei, vendo-a bater a porta com força. Massageei meu maxilar, fazendo meu caminho de volta para o bar. Era sexta e jogo dos Dallas Stars, e praticamente quase todos os torcedores que não foram pro ringue decidiram vir pra cá. Eu sabia que essa ideia de promoção pra torcedor ia me levar à falência.
- E aí, terminou com a Cassie? – Leslie, minha sócia perguntou.
- É Katie, eu acho.
- Você não toma jeito. – Leslie balançou a cabeça e foi para o outro lado do bar – Quando é que você vai tomar vergonha na cara e arrumar uma namorada?
- Eu já tentei e você sabe não deu muito certo.
Eu era um cara azarado quando se tratava de relacionamentos, nas três vezes que eu tentei ter alguma coisa séria com uma garota que eu realmente gostava, eu quebrei a cara. E quebrei bonito, já que levava meses e algumas garrafas de cerveja para que eu superasse.
Até que chegou um dia que eu decidi que não adianta consertar o que não está quebrado, eu só não fui feito pra estar em um relacionamento, simples assim.
- Um dia, , um dia ela vai vir e você vai ver por que não deu certo com todas as outras.
O barulho da porta anunciou que mais uma carrada de torcedores barulhentos havia chegado. Grunhi internamente pela futura baderna que eles viriam a fazer. O bar já estava lotado, e era capaz de entrar mais algum torcedor e isso tudo acabar em uma briga e uma conta para eu pagar. Mas o problema foi que não teve grito, porrada ou palavrões. Na verdade, todos os caras que estavam no bar simplesmente ficaram calados. Leslie e eu nos entreolhamos e depois olhamos para a porta. Cara, eu juro que eu quase caí para trás.
Entrando no bar, vinha uma garota, em um salto quinze e que definitivamente não pertencia a esse lugar. Ela andou até o bar e todos os marmanjos quase quebraram o pescoço, mas ela simplesmente continuou de cabeça erguida, levando como se fosse a coisa mais normal do mundo. E eu aposto que, com um corpo daqueles, com certeza era.
Ela parou em frente ao balcão e os caras só abriram caminho para que ela se aproximasse.
- Dá pra você chamar seu chefe? – ela disse, olhando para mim.
- Meu chefe? – perguntei, surpreso.
- É, estou interessada no trabalho.
- Que trabalho?
- O de bartender. Tem um cartaz na porta dizendo que vocês estão à procura de um.
- Você? – apontei para ela – Garotas em saltos como o seu não trabalham em bares como esse.
- Vejo que entende de sapatos. Se quiser, posso te emprestar um, qualquer dia desses. Agora, bonitinho, chama o seu chefe.
- Está falando com ele. Eu sou o dono do bar. – sua expressão mudou totalmente, mas ela ainda continuava com aquela de superioridade.
- Estou interessada no trabalho.
- Você já disse isso.
- E, então, a vaga já foi preenchida?
- Não.
- Então, eu posso me aplicar para o trabalho?
Eu não era o único que estava vivenciando aquela cena com uma cara totalmente surpresa. Acho que nunca em minha vida eu parecera tão espantado. Uma garota gostosa, em um vestido colado e salto quinze, pedindo para trabalhar no meu bar. Era Natal e eu não recebi o aviso?
- Não. – respondi, servindo bebida para o bêbado ao seu lado, que fez a pior cara do mundo. Algo me dizia que contratá-la aumentaria a freguesia, mas eu não daria o braço a torcer assim tão fácil.
- Não?
- É, não. Não precisamos de ajuda.
- ! – Leslie gritou.
- O que? – perguntei, olhando para ela.
- Pelo menos dê uma chance a ela. – ela ficou ao meu lado – Oi, eu sou Leslie, sócia desse cabeça dura aqui. Qual seu nome?
- .
- Muito prazer, . Já trabalhou em um bar antes?
- Não, mas eu já fui bartender na semana grega. Acredite, eu sei lidar com bêbados.
- Sabe fazer drinks?
- Com certeza.
- Vem garota, entra aqui no bar. – Leslie levantou o balcão e ela entrou do outro lado do bar. Ela tirou o casaco e jogou debaixo do mesmo.
- Começa com aquele lado, onde aqueles caras estão gritando. Dinheiro primeiro, bebidas depois. – ela apenas assentiu e foi em direção aos caras. Eles pararam de gritar e ela foi atendendo um por um, ignorando as cantadas, eu suponho.
- Você está louca? – perguntei, puxando Leslie para o lado.
- Não, mas você parece estar. Ignorando ajuda em tempos como esse? As duas últimas bartenders, você fez questão de espantar. Você deveria estar agradecido que alguém tenha aparecido aqui de boa vontade pra trabalhar e não pra acabar na sua cama.
- Quem te disse que ela não é que nem as outras?
- Pelo amor de Deus, ela nem ao menos sabia que você era dono bar, imagine filho do...
- Entendi. – a interrompi – Ela pode ficar aqui, como forma de experiência, por essa noite. Se ela não der conta, nós a despedimos no final do expediente.
- E se ela se der bem, ela fica.
- O que eu duvido. – respondi.
- Considere apostado. – ela disse, antes de se afastar.

Eu me arrependi amargamente dessa maldita aposta com Leslie. A garota de salto azul – que eu decidi não chamar pelo nome, já que ela não ia ficar por muito tempo – se deu mais do que bem em um bar lotado de torcedores frustrados e bêbados. Ela os serviu com um sorriso no rosto, separou uma briga e até tomou uma shot com alguns deles. Não vou nem comentar que ela arriscou cantar o hino do time junto com eles. Eu a vi recusar pelo menos uns quatro pedidos de casamento, enquanto andava pra lá e pra cá sobre os saltos.
- Não sei como ela consegue. – Leslie disse, sussurrando em meu ouvido – Eu estou cansada, só de vê-la andar com esses saltos.
A garota tinha chamado a esposa de um dos torcedores e a estava ajudando a levá-lo para o carro. O jogo tinha acabado e, com isso, todos os torcedores tinham ido embora, restando só nós dois, mais dois empregados e ela.
- O que nós vamos fazer com ela? – Leslie perguntou – Pra um primeiro dia, ela se saiu perfeitamente bem, sem contar como ela acalma os caras. Como ela faz isso?
- Eu ainda não confio nela.
- Seria duvidoso se confiasse. Nós conhecemos a garota há o que? Umas sete horas, mais ou menos.
- É, você tem razão.
- E então? Ela pode ficar? Eu sei que ganhei a aposta, mas o bar não é só meu.
- Uau! – ela disse sentando-se no banco – Isso foi incrível! Acontece sempre?
- Incrível? – perguntei, fazendo uma careta. Incrível? Ela tinha achado isso tudo incrível? – Você é louca?
- Depende da sua definição, alguns dizem que sim. – ela respondeu, colocando os braços no balcão – E aí, eu consegui o emprego?
Olhei para Leslie, que apenas olhou para baixo.
- Sim. – ela começou a bater as mãos no balcão – Mas nós temos regras aqui.
- Eu posso viver com isso.
- O bar é aberto das quartas aos domingos, vai das sete até a meia noite nas quartas e quintas; de sexta a domingo das seis até as seis da manhã. O turno começa às cinco da tarde, e nós vamos precisar te cadastrar e pegar suas informações.
- Sem problema. – ela se levantou – Tem como você pegar meu casaco? – peguei seu casaco debaixo do balcão, colocando em cima da balcão – É só isso?
- É. – respirei fundo – E, por favor, não me decepcione.
- Não posso te prometer nada, chefinho, mas juro que vou tentar. Até quarta, Leslie. Até, chefinho. – ela pegou o casaco em cima do balcão e foi em direção à saída. Uma loira a esperava na porta e as duas bateram as mãos antes de sair. Ainda deu pra ver quando ela entrou no café que ficava do outro lado da rua.
- Por que eu tenho o pressentimento de que acabei de entrar em uma enrascada? – olhei para Leslie.
- Porque você entrou, meu caro sócio. E ainda de cara.



Capítulo II


NOVA YORK • 17 de Agosto





Eu jurava que ela não ia durar dois dias. Porra, eu não sou do tipo que coloca fé nas pessoas, principalmente em pessoas que tinham aquele negócio do olhar quando estavam fugindo de alguma coisa, do mesmo jeito que ela tinha.
, esse era o seu nome. Ela fez questão de não me fazer esquecer, principalmente nos dias de pagamento, quando eu colocava garota dos sapatos azuis em vez de seu nome. Cara, ela ficava muito puta, dava pra ver em seu rosto e isso me dava um prazer inexplicável. Irritá-la era um negócio que, eu descobri com o tempo, era algo muito prazeroso de se fazer.
Até que, um dia, eu aprendi que eu não era o único a sentir esse prazer, parecia que a garota dos sapatos azuis também gostava de me ver soltando fogo pelas narinas. Deu pra perceber que ela era aquele tipo de mulher que fazia o inferno na sua vida e assistia tudo tomando champagne e dando gargalhada.
Era o começo de expediente e os famosos saltos ecoaram pelo bar. Ela vinha segurando um embrulho debaixo do braço e o colocou no balcão à minha frente.
- Meu aniversário já passou, se você quer saber. – disse, me apoiando no bar.
- Abre. – ela disse, sorrindo. Olhei para ela, pegando e rasgando o embrulho.
Era um quadro feito de aquarela, de uma mulher deitada em uma cama com seus sapatos azuis, e nos sapatos tinha um nome: .
- O que é isso? – perguntei, olhando para ela.
- É pra você não esquecer meu nome. – ela tirou o quadro de minhas mãos e o colocou na parede à minha frente, onde recentemente um cliente tinha quebrado o anterior – Agora você não tem desculpa pra não decorar, chefinho. A não ser que você seja um ignorante, o que ainda está aberto a discussão, é claro.
E saiu batendo aqueles malditos saltos no assoalho do meu bar.
Não posso dizer que a presença dela só atormentou a minha vida, na verdade, ela tinha ajudado nas vendas assustadoramente. Os caras sempre preferiam ser atendidos por ela e, quando ela não podia, eles ficavam esperando. Eles a chamavam de bartender dos sapatos azuis, já que todo dia ela aparecia com um sapato diferente, mas sempre da mesma cor. Eu até tentei descobrir o porquê disso, mas o tiro saiu pela culatra.
- Por que seus sapatos são todos azuis? Nunca ouviu falar do arco íris não? Vermelho? Preto? Amarelo?
- Pela mesma razão que você perde cliente todo sábado à noite, os mistérios da vida.
- O que você quer dizer com isso?
- A gata da semana chegou, vai lá. – ela apontou para a garota que entravam no bar – E aproveita e diz pra ela que vai ter uma liquidação na sexta, ela sabe do que se trata.
Quando ela falava nesse tom comigo, como se fosse minha chefe, o meu sangue borbulhava. Ela sempre estava me questionando, dando opinião e me irritando apenas pelo o fato dela ser ela.
E isso nos levava à situação em que estávamos agora. Era sexta, depois do expediente, e todos estávamos reunidos. Ela conversava com o segurança e Leslie enquanto tomavam uma cerveja. Pigarreei alto para que eles voltassem a atenção para mim, o que era necessário, mas não exatamente algo que eu queria que acontecesse. Algo ruim estava prestes a acontecer, dava pra sentir.
- Nós reunimos vocês aqui porque as coisas chegaram a um ponto que não podemos suportar. As coisas estão apertadas e nós vamos ter que fazer algumas mudanças por aqui. – respirei fundo – Nós não vamos demitir ninguém, fiquem tranquilos, mas nós vamos ter que diminuir os salários de vocês. Não é por muito tempo, e as bebidas vão ter que aumentar o preço.
- De novo? – ela perguntou, cruzando os braços. Quando eu disse que ela sempre me questionava, não era brincadeira.
- Você não escutou o que eu disse? O bar está com problemas.
- Claro que o bar está com problema, metade da sua freguesia vai embora. – Leslie deu um beliscão em seu braço, fazendo-a massagear o local. Leslie e ela tinham virado amigas durante esse tempo, junto com a loira que, às vezes, a esperava para que elas fossem depois do expediente ao café do outro lado da rua.
- E o que você sabe disso? Você está aqui pelo menos uns seis meses? – perguntei, já bem puto.
- É, mas eu tenho olhos! Esse lugar é um forno de tão quente e quando está lotado tudo piora, sem falar que você poderia reformar aquela parte ali do lado, mas você simplesmente ignora e fica empurrando com a barriga.
- Isso é maneira de falar com seu chefe?
- Quando seu chefe está perdendo o dinheiro que deveria estar indo para o seu pagamento, sim.
- Você é muito atrevida.
- Agora, mulher dando opinião é atrevimento? Se eu fosse homem, você estava concordado, é isso que você quer dizer? Você sabe que isso é machismo, certo? E machismo, pra mim, é ignorância.
- Eu não sou machista!
- Então você vai ouvir o que eu tenho pra dizer?
- Vá em frente.
- Muito obrigada. – ela se levantou e os saltos bateram no chão. Deus, como eu odiava o som desses saltos – Como vocês podem ver, o bar está com problemas com a freguesia, muita gente está indo embora. O que acho que deveria ser uma solução é comprar um ar-condicionado novo e reformar aquela parte ali atrás, que todo mundo parece ignorar que existe, mas que viria muito a calhar. Tem dois andares, e ainda tem vista pro palco. A reforma não ia ser muito cara, só precisa mesmo de umas coisas pra ficar mais apresentável. A clientela ia aumentar e muito, sem contar os lucros. Não adianta colocar os preços das bebidas lá em cima, só ia fazer todo mundo ir pro bar no final da rua.
- Nós não mexemos naquela parte, mas obrigada pela sugestão.
- Sugestão? Isso poderia salvar o bar e você não teria que aumentar o preço de nada. Não era isso que você queria?
- Eu vou pensar no assunto. Nós vamos pensar no assunto, certo, Leslie? – Leslie apenas olhou para baixo.
- Não, não vai. Você só vai fazer o mais fácil e aumentar os preços das bebidas, aí depois vai demitir alguém porque o dinheiro continua apertado, até que um dia você vai perder o bar porque procrastinou até não poder mais.
- Ou eu poderia pular pra segunda parte.
- O que você quer dizer com isso?
- Você está despedida. – eu já estava bem puto com ela, mas dessa vez ela tinha passado dos limites. Falar comigo dessa maneira na frente dos outros empregados? Porra, mexeu com meu ego! Ela não podia sair impune dessa vez.
- O que? – ela perguntou, assustada.
- Você me escutou, você está demitida. – ela pareceu estar processando a informação. E logo quando o fez, soltou todo o ar pela sua boca.
- Tudo bem. – ela disse, colocando o casaco. Ela andou até a saída, em silêncio, e foi embora sem nem ao menos olhar para trás ou argumentar.
Uma parte de mim queria que ela o fizesse, mas outra falava que era melhor assim. Eu podia arrumar outra bartender igualmente irritante e gostosa, certo?
- Você sabe que acabou de fazer a maior merda de todos os tempo? – Leslie falou, alto.
- Nós podemos ficar sem ela, ela não é tudo isso. – eu disse, confiante. Aquele tipo de exercício que você faz de contar uma mentira até que vire verdade, sabe?

A verdade é que eu precisava dela. Os caras no bar já começaram o expediente, no dia seguinte, perguntado por ela e, quando eu disse que ela não ia mais trabalhar lá, eu vi que alguns ficaram tristes. Tristes, porra! Como se ela fosse alguma filha deles que tinham acabado de mandar pra faculdade do outro lado do oceano. Eles tomaram até uma rodada pra lembrar a bartender de sapatos azuis que, segundo eles, era a melhor que o bar já teve. Uns até perguntaram se ela tinha ido para outro bar.
Foi nesse momento que eu percebi que fiz a pior burrada da minha vida. trazia uma atmosfera diferente para o bar, sabe? Fazer o trabalho que ela fazia porque gostava e, ainda por cima, ter que aturar bêbado toda noite não era pra qualquer um. Até eu, às vezes, perdia a paciência, mas ela, não. Só continuava fazendo tudo com um sorriso no rosto e uma resposta digna de palmas.
Devia até confessar que eu sentia saudades do barulho dos saltos ecoando pelo assoalho, e das eternas piadinhas que ela soltava, todas as vezes em que eu levava um fora ou um tapa.
Eu precisava dela, mas não tinha nada que me fizesse admitir isso em voz alta. Já foi difícil demais admitir pra mim mesmo.
- Eu te odeio! – Leslie disse, entrando no bar. Era sábado à tarde e ainda faltavam algumas horas para abrirmos o bar – A última bartender acabou de se demitir, dizendo que não consegue trabalhar nessas condições.
- E por que a culpa é minha?
- Porque você demitiu a única pessoa que parecia gostar de trabalhar aqui.
- Leslie, o jeito como ela falou comigo...
- Não foi nada diferente de como qualquer pessoa fala com você. O problema aqui é que você só consegue se dar bem com uma mulher caso ela esteja na sua cama.
- Eu me dou bem com você.
- E se dava bem com a também.
- Tudo que a gente fazia era se provocar e brigar.
- Mas vai dizer que você não gostava? – ela cruzou os braços, arqueando as sobrancelhas. Leslie estava certa, eu gostava. Como eu disse, irritá-la me dava um prazer impagável.
- O que você quer que eu diga? Que eu sinto falta dela? Que eu sinto falta daqueles saltos azuis irritantes ecoando pelo bar? É isso que você quer que eu diga? Então lá vai: eu sinto falta dela, não me pergunte por que ou como, mas eu sinto, sim. Se eu pudesse, eu ia atrás dela pra pedir pra ela voltar. Feliz? – Leslie abriu um sorriso.
- Acho que o dia chegou.
- O dia?
- Esquece. – Leslie tirou um papel do bolso e colocou em cima do balcão – Aqui.
- O que é isso? – peguei o papel. Nele tinha um endereço.
- É o endereço de onde ela mora.
- E você quer que eu faça o que com isso?
- Vai lá e pede desculpas. Diga que precisa dela, que sente sua falta.
- Leslie...
- Tudo bem, peça desculpa e peça para ela voltar. Só isso. – ela se inclinou no balcão – Ela mora naquele prédio super chique que tem aqui perto. Parece que ela acabou de se mudar pra lá.
- Uma bartender não pode pagar por um apartamento naquele prédio.
- Ela não é só uma bartender. – olhei para Leslie – Vai lá.
- Está bem, mas eu não prometo trazê-la de volta, ok? – me levantei – Você sabe, ela é bem difícil.

Minhas mãos suaram o caminho inteiro.
Eu estava nervoso. Não exatamente por encontrá-la novamente, mas por não ter um discurso pronto para convencê-la a voltar. Eu sabia que ela gostava, e arriscava até que ela sentia falta do bar, mas nada era certo. Ela podia simplesmente me mandar para o inferno.
Tudo bem, eu não deveria colocar o futuro do meu bar nas mãos de uma desconhecida, mas eu tinha que admitir: ela foi uma ajuda e tanto. Me peguei até pensando em reformar a parte esquecida do bar, como ela sugeriu, porque, eu tenho que admitir, era uma ideia muito boa e dinheiro é sempre bem-vindo.
E mesmo com todas essas ideias em minha mente, eu ainda me peguei parado, encarando a fachada do prédio, travando uma batalha para resolver se entrava ou não.
- ? – virei para trás, encarando com uma penca de sacolas nos braços – Está perdido? – ela tentava se equilibrar nos saltos, já que pela quantidade de sacolas, tudo deveria estar pesado.
- Você quer ajuda?
- Não.
- Me dá aqui. – me aproximei dela e ela deu um passo pra trás. Peguei as sacolas de suas mãos e ela me olhou, desconfiada.
- Já disse que não precisa. – ela tentou puxar as sacolas outra vez. Eu puxei as sacolas e quase cambaleei pro lado. Poxa, o que tanto mulher compra pra deixar as sacolas tão pesadas? E como elas conseguem carregar esse peso todo de salto?
- Claro que precisa. O que tem aqui dentro, chumbo?
- São algumas coisas que eu comprei pro apartamento novo. – ela disse, andando até a entrada do prédio. Como Leslie disse, o prédio era muito chique para um salário de uma bartender. Eu cheguei até a me perguntar se ela tinha outro emprego ou era uma daquelas riquinhas que decidiu ter o seu próprio Simple life e acabou no meu bar – E sapatos novos, é claro.
- Deixe-me advinhar: azuis?
- Claro, mas dessa vez fiz algo diferente, comprei uns com outras cores também. Tem um branco com preto, com um detalhe azul da Fendi, lindo. E também um com uns detalhes laranjas, que eu tive que comprar. Eu sei que eu amo azul, mas não dá pra ignorar quando ele vem com outras cores também. – ela falava, animada, enquanto entrávamos no elevador, mas, do nada, olhou para mim e pareceu lembrar que estava com raiva de mim – Esquece.
- Não, pode continuar falando. – disse, vendo-a apertar o botão 12.
- Como está Leslie? – ela disse, olhando para frente.
- Está bem.
- E o resto do pessoal?
- Tudo mundo está bem. – a porta do elevador se abriu e nós saímos do mesmo. Puxou a chave da bolsa e abriu a porta. O apartamento era grande e estava com uma boa parte mobiliada, porém ainda tinham algumas caixas espalhadas pelo lugar. De um lado, uma sala com um sofá enorme, uma prateleira cheia de DVDs e livros e, do outro, uma espécie de ateliê, tinha um cavalete e uma mesa cheia de coisas de pintura. À frente, tinha uma varanda e lá fora parecia um espaço de visitas, onde tinha um sofá e uma espécie de toldo.
- Pode colocar no chão mesmo, depois eu levo lá pra dentro. – ela apontou para o chão ao meu lado – Você quer alguma coisa? Uma água? Cerveja? – ela andou até a cozinha, que ficava do lado do ateliê. Coloquei as sacolas onde ela me indicou e andei até onde ela tinha desaparecido.
- Pode ser uma cerveja. – disse, colocando as mãos nos bolsos. Eu me sentia um pouco desconfortável, sem saber por onde começar. Não podia me ajoelhar na frente da garota e implorar que ela voltasse. Ou podia?
- Aqui. – ela me entregou a cerveja e cruzou os braços – Obrigada por trazer as sacolas. – abri a cerveja e dei um longo gole – Agora se você pode me dar licença, eu tenho muito o que fazer.
- Se você quiser, eu posso te ajudar. – ela sorriu de lado.
- O que você quer, ?
- Ué, te ajudar. Parece que você vai precisar de muita ajuda por aqui.
- Eu posso me virar sozinha, você pode ir.
- Eu posso fazer o trabalho pesado.
- Por Deus, ! – ela bateu o pé no chão – O que você quer? Deu pra ser bom samaritano agora? Fala logo, antes que eu perca a paciência.
- Calma, ! Jesus! Você é sempre tão mau humorada?
- Sou, especialmente com ex-chefinhos que me demitiram porque eu dei minha opinião.
- Eu mereci essa. – olhei para ela – E por isso que estou aqui, para conversarmos.
- E quem disse que eu quero papo contigo?
- Ah, vem logo, . – puxei-a pelo braço em direção ao sofá. Ela se sentou no mesmo e eu me sentei na mesa a sua frente. Tomei outro gole da cerveja e a coloquei no chão.
- Olha, , eu sei que o que eu fiz foi injusto.
- Não só injusto, você foi um imbecil quando eu estava tentando ajudar. – ela me interrompeu.
- Eu sei.
- Não, não sabe. Acho que você é imbecil há tanto tempo que nem percebe quando passa dos limites.
- Mas você também passou dos limites, do jeito como você falou comigo.
- Agora mulher tem que falar contigo em tom baixo e envergonhada pra você achar aceitável? – ela me olhou, incrédula – Eu estava falando em tom normal, não estava gritando ou te humilhando, estava?
- Não, mas é que você fala com aquele ar de superioridade que me deixa puto. Acho que não é nem porque você quer, já é de você.
- Desculpe, essa parte da genética não deu pra negar. Eu sei que eu tenho uma cara de enjoada, mas prometo que é só às vezes. – nós rimos – Eu admito, eu me intrometi nos assuntos do bar como se fosse meu, mas, acredite, eu tive a melhor das intenções. Eu só acho que aquele lugar tem tanto potencial que eu acabei querendo que você fizesse as coisas do meu jeito. Me desculpe por isso.
- E eu gosto das coisas do meu jeito, acho que é por isso que a gente se bica tanto. Dois cabeças duras. – ela riu, mordendo o lábio – Eu não fiz por querer, na verdade, eu só não queria admitir que você estava certa. Você tem que entender, aquele bar é uma das coisas que eu mais tenho de precioso. É tudo pra mim! Eu, de certa forma, me senti ameaçado desde que você chegou.
- Por quê?
- Porque você conquistou todo mundo! Todo mundo! Desde o segurança até os velhos ranzinzas que sempre davam um jeito de não pagar as contas. Eles pagam agora e dão gorjeta. – ri sem humor – Isso machucou um pouco meu ego. Pra mim, pareceu que você estava tirando tudo de mim, aí eu coloquei os pés pelas mãos e acabei cortando o mau pela raiz.
- Não se preocupe, , eu não quero tomar nada de você. Eu só quero ajudá-lo. – ela deu uma pausa – Digo, você e a Leslie.
- Eu sei, por isso eu reconsiderei a sua ideia e acho que deveríamos arrumar aquela parte esquecida. – ela me olhou, surpresa.
- Verdade?
- Verdade, quero que você me ajude com isso.
- Mas é claro que eu ajudo. Eu posso até te emprestar o dinheiro, se você quiser.
- Você é uma bartender.
- É por opção, chefinho.
- Deu pra perceber pelo apartamento.
- Gostou? – ela encostou no sofá – Era da tia da Sam. Ela vendeu por um preço legal, já que ela diz que queria se livrar do lugar. Vingança contra o ex-marido. Eu mesma decorei. Óbvio que tive que usar o outro quarto como closet, mas até que não ficou tão mau.
- Por que você é bartender mesmo?
- Só de quarta a domingo, de segunda a quarta eu faço freelance.
- De que?
- Você vai descobrir quando começarmos a fazer o projeto do seu bar. – ela se levantou e eu a acompanhei.
- Então você vai voltar?
- Se você se ajoelhar e beijar meus pés, eu volto. – olhei-a, incrédulo. Ela abriu a porta e olhou para mim – Eu estou brincando. Agora vaza daqui, .
- É assim que você trata seu chefe? – perguntei, saindo e me virando pra ela.
- É. – e tacou a porta na minha cara. Eu deveria ter ficado puto, mas eu não consegui, eu apenas ri e balancei a cabeça. Eu tinha acabado de dar carta branca pra essa mulher infernizar a minha vida.

E como ela infernizou. Às vezes, eu me perguntava por que eu a tinha contratado de volta e, pior, pedido a sua ajuda para a reforma do bar. Mas, aí eu lembrava o quanto ela era talentosa e quanto as mudanças que ela tinha sugerido pareciam exatamente o que eu queria e não sabia que precisava. Isso até eu ver o preço de tudo e bater o desespero, o que foi totalmente em vão já que Leslie a apoiava em quase tudo. Ela dizia que o bar precisava dar uma levantada de nível e essa nova reforma ia trazer uma nova clientela e, com isso, mais dinheiro. Dinheiro era sempre bem-vindo, especialmente em grande quantidade, então eu tentei economizar o máximo que eu pude, mas, em alguns casos, eu não pude resistir. sabia como convencer uma pessoa, até uma pessoa cabeça dura que nem eu. E sem falar que eram duas mulheres de gênio forte contra um homem só. Não tinha como vencer.
- Oi, chefinho! – pulou ao meu lado, fazendo com que eu tomasse um susto. Ela riu, se encostando ao meu lado na grade, olhando para os caras que arrumavam o lugar.
- Porra, que susto! O que você quer? O resto do dinheiro da minha conta bancária?
- Não, mas se você quiser compartilhar...
- Muito engraçadinha.
- E linda, pode dizer. – revirei os olhos. Ela então deu um tapa em meu braço. Olhei para ela, incrédulo, massageando o local – Não revira os olhos pra mim.
- Você acha que é quem? Minha mãe?
- Sua mãe fazia isso também?
- Fazia.
- A minha também, com meu irmão. Eu sempre fui a princesinha da família.
- Deu pra perceber.
- Vou ignorar esse comentário e vou dizer o que vim fazer aqui. Leslie disse que seu pai está aí.
- Meu pai?
- É. Ela pediu pra avisar. – ela olhou para mim – Por que você nunca fala da sua família?
- Por que você não fala da sua família? – perguntei, olhando para ela.
Por mais que estivesse aqui por muito tempo e conquistado a todos, ela ainda era um mistério a ser resolvido. A única coisa que eu sabia era que ela se formou como design, focando exclusivamente em design de interiores, e era muito talentosa na área de desenho. O quadro de aquarela dos sapatos azuis estava aí pra provar.
Também consegui arrancar que a loira que, às vezes, vinha buscá-la, era sua melhor amiga, Samantha, que era engenheira e também ajudou no projeto do bar. Era isso. Não sabia ao menos o porquê de ela ter acabado trabalhando em um bar, se era formada e, pelo visto, estava "muito bem, obrigada", no quesito dinheiro.
- Justo! – ela saiu andando, sem nem ao menos olhar para trás.
- Ei, vai sair no meio da conversa? – perguntei, fazendo com que ela olhasse para trás.
- Estou indo supervisionar os caras na hora de colocar as placas de neon. Você sabe: homens não conseguem fazer nada sem mulheres.
- Muito engraçado.
- É mesmo, mas mais engraçado ainda é que você é a prova disso. – e então saiu, batendo aqueles saltos irritantes no chão. Balancei a cabeça, rindo.
- Rindo sozinho, ? – olhei para baixo, vendo meu pai mais dois seguranças – Tua mãe deveria te levar no médico pra ver se você anda bem da cabeça.
Veja bem, meu pai era um cara importante, algo como o governador, para ser mais preciso. Ele sempre esperou que eu fosse como ele: um cara com um emprego bom e um futuro promissor. Quando eu escolhi outro caminho, ele ficou bem chateado, mas não foi contra mim em nenhum momento. Ele sempre disse que a vida era minha e eu deveria fazer o que me fizesse feliz.
- A última vez que ela fez isso, foi pra ver se eu estava louco.
- Lembro bem. Ela me levou também.
- Sobe ai. – ele disse para os seguranças esperarem e subiu as escadas. Cumprimentei-o com um abraço e o vi se apoiar na grade ao meu lado.
- Como você está? – ele perguntou – Sua mãe tem perguntado por você. Faz tempo que não vai a nossa casa.
- Desculpa, eu estava atarefado com as coisas do bar.
- Ela não liga, disse que você tem que ir ao jantar beneficente dela, semana que vem.
- É semana que vem?
- É. Acredite, adoro que sua mãe ajude aos mais necessitados, mas eu só queria ficar em casa tomando uma cerveja e assistindo Luther.
- Somos dois.
- Talvez nós possamos dar uma fugidinha no meio e assistir ao episódio novo.
- Parece um plano promissor, até ela descobrir e nos arrastar pelas orelhas de volta pra festa.
- Você ainda lembra da última vez?
- Acho que minha orelha nunca se recuperou, pra falar a verdade. – nós rimos.
- Gostei que você tenha decidido reformar essa parte, isso aqui agora vai parecer um lugar de respeito.
- Agradeça tudo a minha nova bartender que infernizou a minha vida. – apontei para , que conversava com os caras para colocarem alguns placas de neon na parede – Nós vamos fazer uma festa, daqui a algumas semanas, pra inauguração do lugar.
- ?
- O que? – perguntei, olhando para ele.
- Aquela é .
- É. Você a conhece?
- Conheço, e você também.
- Conheço?
- Lembra do seu velho amigo Dereck?
- Amigo, não. Conhecido e bem distante, muito obrigado.
- Lembra que a noiva cancelou o casamento uns sete meses atrás?
- Você não está me dizendo que...
- Ela mesma, em carne e osso. E com os irreconhecíveis saltos azuis, claramente.
- Eu não acredito.
- Pois acredite.
- Por que ela fez isso? Pelo que eu me lembre, Dereck era o desejo de todas as garotas do clube. Deus sabe como ele sempre ficava com as garotas mais gatas do internato do lado.
- É, mas não dela, pelo visto. Eu sempre soube que eles não casariam, Dereck sempre pareceu mais animado com essa ideia de casamento do que ela. E tem aquele negócio no olhar, sabe? Aquele mesmo que você tinha, antes de dizer que queria abrir esse bar, aquela vontade de ser livre.
- Dá pra ver o alívio nos olhos dela.
- Também, ela se livrou de uma mãe monstra e de um noivo chato. Dá até pra ver que ela está mais feliz agora. – subiu nas costas de um dos caras para poder arrumar o quadro. Ela ria, como se fosse o melhor trabalho do mundo.
- Você sabe como era a relação dela com o Nate?
- Eles eram bem apegados, mas depois do que aconteceu, eu realmente não sei.
- Pai, eu preciso que você faça um favor pra mim.
- Se você prometer vir à festa da sua mãe, certo?
- Não se preocupe. E vou levar dois convidados.
- O que você está tramando, ?
- Uma maneira de me desculpar.


Capítulo III





Sabe quando você tem a sensação de que algo ruim está prestes a acontecer? Eu a estava tendo agora. Tudo começou quando eu já acordei de um pesadelo. Piorou quando eu cheguei ao trabalho e os caras tinham quebrado um dos quadros da parte nova, Leslie perdeu as estribeiras e gritou com eles e coube a mim acalmá-los e a ela também. Devo ressaltar que ela estava de tpm?
Depois, logo quando meu turno começou e eu estava preste a servir a primeira bebida, interrompeu tudo que eu estava fazendo e disse:
- Pode largar tudo, você vai sair comigo hoje. – e saiu sem nem ao menos olhar pra trás.
- O que? – perguntei, seguindo-o até o escritório – Do que você está falando?
- O bar não pode ficar sem um dono e, como a gata da semana não pode ir, sobrou você. – ele continuou andando.
- Você só pode ter perdido a noção. Eu não vou a lugar nenhum com você. – eu disse e ele parou de andar, se virando para mim.
- Ah, , você é perfeita pra esse tipo de evento.
- E o que você quer dizer com isso?
- Nada. – ele se aproximou de mim, colocando as mãos em meus ombros – Você é a minha única esperança. Leslie não quer ir e eu não conheço nenhuma mulher no momento que não queira quebrar minha cara no meio pra eu poder levar ao jantar.
- E quem foi que disse que eu não quero partir sua cara no meio?
- Estou falando de uma que realmente vá fazer isso. – cruzei os braços, olhando-o desconfiada. Algo ele estava tramando e, pela sensação que eu tinha, não era algo bom – E então?
- Tudo bem. – ele sorriu. Pro inferno com isso, minha curiosidade falou mais alto – E onde vai ser esse jantar?
- Você vai ver, eu te pego às oito. Use um vestido longo. – ele continuou andado e entrou no escritório.
- Mas já são quase seis horas. – ele se virou pra mim e riu.
- Então é melhor você se apressar, não acha? – e tacou a porta na minha cara.

Não vou nem comentar que cheguei em casa chutando os sapatos e jogando as roupas pela casa pra poder me arrumar de um jeito que, eu sabia, demoraria horas para terminar. Eu teria que tomar o banho mais rápido para, pelo menos, ficar decente, já que eu só tinha duas horas para me arrumar. Só que todos os meus planos foram para o além quando a água quente do chuveiro bateu em meu corpo e eu me senti tão relaxada que quase mandei uma mensagem para dizendo que não iria mais. Mas a curiosidade falou mais alto e eu me arrastei para fora do chuveiro.
Eram oito e dez quando eu escutei a campainha tocar, peguei minha bolsa em cima da cama e joguei minhas coisas dentro da mesma. Fazia um tempo que não me arrumava tanto assim para um lugar. Na verdade, eu nem lembrava da última vez em que eu usei um vestido longo e, devo ressaltar, que eu não tinha perdido a manha, ainda mais com o pouco tempo que me foi dado.
Abri a porta e, por um momento, eu esqueci como se respirava. Eu jurava que ele ia aparecer todo desarrumado, provavelmente de calça jeans e camisa social, mas eu nunca pensei que estaria de smoking. Pior que ele ficava tão gostoso dentro de um.
- Já está pronta? – ele perguntou, colocando as mãos nos bolsos – Nós meio que estamos atrasados.
- Estou e... , meu Deus, o que é isso? – perguntei, saindo de casa, fechando a porta e vendo-o chamar o elevador.
- Isso o que?
- Você – apontei para ele – de smoking. – joguei a chave na bolsa e parei ao seu lado – Eu jurava que eu você ia de jeans e camisa social.
- Pera ai né, , eu sei que eu sou meio desleixado, mas eu sei me vestir de acordo com a ocasião.
- E qual é a ocasião?
- Jantar beneficente. – ele segurou a porta do elevador e esperou que eu passasse – Minha mãe está juntando dinheiro pras crianças carentes e precisa de uma festa como essa para os ricaços soltarem a grana. – ele apertou o botão do hall – Você sabe, eles vão, fingem que se importam, abrem a carteira e depois saem por aí espalhando que sua ajuda foi fundamental, mas nós dois sabemos que eles estão lá pelos comes e bebes.
- Então você é rico. – falei, olhando para ele. Eu já desconfiava que meu chefe não era apenas um simples dono de bar. Algo nele me dizia que tinha muito mais nele que eu deveria saber. Leslie uma vez soltou que seu pai era um cara importante, mas nunca disse seu nome e o que fazia. Aparentemente, não gostava de ser associado com o nome do seu pai, queria fazer algo para ele sem a ajuda de ninguém.
- Meus pais são. – o elevador abriu e ele segurou-o para que eu passasse. Algo dentro de mim se incomodava com toda essa educação vinda do senhor . Normalmente ele parecia um velho ranzinza e insuportável, mas essa noite ele estava extremamente atraente, educado, cheiroso, gostoso e eu vou parar por aqui. Balancei a cabeça, vendo-o pegar minha mão e colocar na curva do seu braço.
- Da onde vem toda essa educação e por que você não a usa com mais frequência? – soltei, meio que rápido demais, e me arrependi no mesmo momento.
- Eu gosto de ser um velho ranzinza, e esse só aparece em algumas ocasiões.
- Pois eu acho que ele deveria aparecer mais.
- Por que?
- Porque, por mais que eu goste do velho ranzinza , esse educado é muito bom também. Você deveria arrumar um jeito de encontrar um equilíbrio entre os dois.
- Nah! Se eu começar a ser muito educado, os caras não vão querer pagar a conta, então eu prefiro ser meio ranzinza mesmo. – ele parou em frente a uma daquelas BMW pretas e abriu a porta do carro.
- Não vai dirigindo? – perguntei, entrando no carro.
- Não, com a quantidade de álcool que eu vou beber não tem como sair de lá sóbrio. – ele sentou-se ao meu lado.
- Vou logo dizendo que não vou te carregar. – o motorista falou e riu.
- Claro que vai.
- Ah, não vou mesmo. Senhorita, faça o favor de controlar seu namorado, por favor. A última vez em que ele bebeu todas, teve que ir ao hospital pra tomar glicose.
- Ele não é meu namorado, mas não se preocupe, ele não vai beber todas.
- E quem é você pra mandar em mim? Capaz até de você se juntar a mim.
- Eu acho muito difícil.

xXx

- Essa é a casa dos seus pais, não é? – perguntei, descendo do carro.
- É, sim.
- Tenho a impressão de que já vim aqui. – falei, tentando me lembrar de quem era essa casa. me ajudou a subir as escadas, enquanto eu segurava a barra do vestido. A mansão estava toda decorada e, pela quantidade de vozes vindo do salão, parecia estar lotada também.
- Você veio. – um homem falou, logo quando entramos no local.
- Claro que vim, pai. Mamãe foi ao meu apartamento hoje, deixar o smoking e fazer uma ameaça, para caso eu não aparecesse.
- , você veio. – ele disse, abrindo os braços. Espere um segundo, eu conheço esse homem.
- Governador ? Ah, meu Deus, há quanto tempo.
- Minha querida, já lhe disse inúmeras vezes que não precisa me chamar assim. Will já está de bom tamanho.
- Claro, Will. É sua festa?
- É, sim. Agora vamos, entrem. Você lembra de Anne?
- Claro que sim, ela sempre foi a minha favorita das amigas de minha mãe.
- Ela vai adorar te ver. – coloquei minha mão na curva do braço de outra vez. E aí foi que me ocorreu: tinha chamado o governador de pai?
- Espere um segundo. Pai? Você o chamou de pai?
- É, porque ele é meu pai.
- Você é o outro filho do governador ? Aquele que foi pro internato porque nenhuma escola o aceitava?
- Também não foi assim.
- Claro que foi. Você era a melhor parte das conversas do clube. Todo mundo te achava meio louco por causa das suas histórias, mas eu sempre achei hilário o jeito que você não ligava pro que os outros pensavam. Essa coisa meio James Dean, rebelde sem causa.
- Não sabia que você era presidente do meu fã clube.
- Bem que você gostaria, hein. – dei um beliscão em seu braço e ele me olhou puto – Mas pode se dizer que sim. Dereck sempre achou que você era um...
Foi como um soco e um bem doloroso. Dizem que leva uma questão de segundos para tudo mudar e, no momento, eu era a prova viva disso. Meu humor foi de "tudo isso não vai ser tão ruim assim" pra "alguém, por favor, me dá um tiro". Faziam sete meses que eu os evitava a todo custo, troquei até de celular para que eles não me localizassem e aqui estavam, me encarando como se eu fosse alguém de outro mundo. Acho que o pior não foi ver Dereck, depois de tudo, foi ver minha mãe, com uma cara de surpresa pela proximidade minha e de . Ela não parecia brava. Na verdade, parecia até satisfeita.
- Puta que pariu! – disse baixinho ao meu lado.
- Você sabia que eles estavam aqui? – perguntei e ele apenas me olhou, mordendo o lábio.
- Pra quem desapareceu por sete meses, você parece estar muito bem, minha filha. – minha mãe disse e eu apenas balancei a cabeça, olhando para ela – Muito obrigada por nos avisar do seu paradeiro, e melhor, ter deixado eu e o seu ex-noivo cuidarmos da vergonha que você nos fez passar.
- Eleanor, por favor. – meu pai falou, olhando para ela – Você não está feliz que esteja bem?
- Acho que ela está pouco se fudendo, pai. Pra ela tudo que importa é a porcaria de um status. – eu mesma não acreditei no que eu tinha falado, mas, devo admitir, eu me senti muito bem, falando – Agora, se vocês me dão licença, eu tenho que cumprimentar a dona da festa. Vem, ! – puxei pela mão e saí andando pela multidão. Avistei Anne, que pareceu surpresa pelo fato de eu estar arrastando seu filho pela mão em sua direção. pareceu sentir meu desespero e puxou minha mão para que eu andasse devagar.
- Calma, você vai arrancar meu braço desse jeito. – ele disse, fazendo com que eu o olhasse.
- Desculpe, eu só...
- Você não me deve explicação. Nós vamos cumprimentar minha mãe e, se você quiser, podemos ir pra outro lugar.
- Tudo bem, e, ...
- O que?
- Você estava certo.
- Eu? Sobre o que? Espera um segundo, deixa eu pegar meu celular pra gravar esse momento.
- Estúpido! – dei um soco em seu braço – Sobre eu me juntar a você na bebedeira.
- Tomara que você não seja uma daquelas que fica bêbada com a primeira dose.
- Acho que você vai ter que esperar pra ver.
- , meu filho. – foi em direção à mãe e a abraçou – E, , quanto tempo. – ela me abraçou – Fico feliz em vê-la outra vez, vejo que está melhor do que nunca.
- Muito obrigada, Anne. Sua festa está incrível.
- Muito obrigada, se eu soubesse que você estava namorando meu filho...
- Nós não estamos namorando. – falei, olhando para , que apenas sorriu.
- Mãe, se você nos dá licença, nós vamos encher a cara porque essa é a primeira vez que vê sua família depois de ligar o foda-se.
- ! – eu e Anne falamos ao mesmo tempo.
- Eu vou te quebrar no meio. – falei, dando-lhe um beliscão.
- , já te ocorreu que isso dói pra caralho?
- Se fosse pra fazer carinho, eu estava te beijando. – Ai, meu Deus! Muito bem, , que comentário mais sem noção numa hora não tão boa. Pior ainda foi o sorrisinho de lado que deu, que fez minhas bochechas queimarem.
- Podem ir encher a cara, mas não fiquem em condições precárias, por favor.
- Não se preocupe, Anne, não vai fazer você passar vergonha hoje.
- Isso mesmo, , bota ele na linha.
- Vou colocar, sim. Vamos, . – disse, pegando pelo braço e o arrastando até o bar.
- Isso é jeito de falar na frente da sua mãe?
- Não é como se ela não soubesse que eu bebo.
- Mas essa é uma festa beneficente, , não o bar depois do expediente. Você trate de beber pouco.
- Pensei que minha mãe era outra e que ela tinha acabado de dizer que nós podemos encher a cara.
- É, mas nós vamos beber educadamente. Pelo menos, por enquanto. – falei, me apoiando no bar – Vocês tem champagne? – o barman assentiu – Pode trazer duas taças, por favor. – o bartender voltou e colocou as taças no balcão. estava prestes a pegar uma, quando eu dei um tapa em sua mão.
- Outch! Pensei que a outra taça era pra mim.
- Você já está bem grandinho e pode pedir sua própria bebida. – respondi, começando a beber a primeira taça. Coloquei a taça no balcão e bebi a outra.
- Fala de mim, mas acho que quem vai fazer eu passar vergonha aqui é você. – me deu um empurrão – Quem diria que , a garota das sandálias azuis, não tem nada – nada mesmo – de bartender.
- Claro que tenho. Seu bar está muito melhor desde que eu cheguei.
- Alguém já te disse que você se acha muito? – se virou, apoiando os cotovelos no balcão.
- Tem que se achar, meu amor, não dá pra ficar perdida como antes. – me aproximei dele – Vai, , pode admitir: você precisa de mim.
- Já te ocorreu que sou eu quem está te fazendo um favor em tudo isso? Dono do bar, – ele apontou para si mesmo – bartender. – ele apontou pra mim.
- Mas parece o contrário, já que foi você quem me pediu pra voltar.
A conversa não era para estar indo nessa direção, mas, como nada na vida é planejado, aqui estava eu, passando os dedos pelo peitoral de na parte onde a camisa ficava. Ele olhou para mim, com um sorriso de lado. Então foi aí que eu percebi que eu não era a única nessa conversa com segundas intenções, ele também estava.
- Tudo bem. – ele colocou o copo em cima do balcão – Sabe do que eu realmente preciso?
- Do que? – ele nada respondeu, apenas passou o braço por minha cintura e me puxou para mais perto. Afastou meu cabelo pro lado e sussurrou em meu ouvido:
- Sair daqui. Só assim eu posso te mostrar o que não só eu, mas você também quer. – e então mordeu a minha orelha, fazendo com que eu soltasse um suspiro alto. se afastou e seu rosto ficou a centímetros do meu. Eu estava prestes a beijá-lo quando um pigarro nos interrompeu.
- Dereck! – falei, me afastando de – Oi! Hum... Como você está? – pela cara que Dereck fez, essa não era a melhor pergunta para se fazer. Claro que não era, eu tinha terminado o noivado com o cara e fugido, deixando tudo para que ele resolvesse.
- Estou bem, apesar de tudo. – ele respondeu – Você também, pelo visto. . – ele cumprimentou .
- E aí, Dereck, meu caro. – se desencostou do balcão e parou ao meu lado. Eu esperava tudo, menos que passasse o braço por minha cintura, me puxando para mais perto dele. Eu sabia o que ele estava fazendo, homens não são tão difíceis assim de decifrar – Aproveitando a festa?
- , você ficou com o anel de noivado da minha avó, não ficou? – Dereck ignorou e virou-se para mim.
- Oh, é verdade, fiquei mesmo.
- Será que você poderia me devolvê-lo?
- Claro, eu posso deixar na sua casa.
- Não precisa, eu posso mandar alguém ir buscar, é só dizer o endereço.
- Estou morando no mesmo prédio que a Sam.
- Mando alguém na segunda. Com licença. – Dereck saiu sem nem ao menos olhar pra trás.
- Acho que ele ainda está puto. – disse.
- Eu também estaria. – me afastei dele – Vou ao toalete, volto já.
- Não se preocupe, eu estarei aqui no bar. – ele levantou o copo e se virou para o bar novamente.
Passei entre as pessoas o mais rápido que pude, eu não queria que ninguém me parasse. Eu tinha um pouco de medo que alguém me reconhecesse e começasse a falar sobre Dereck ou, bem pior, sobre . Como é que eu ia explicar minha relação com ? "Ah, eu trabalho pra ele em um bar." É, acho que não.
Entrei no corredor que uma senhorinha me indicou onde ficava o toalete, mas antes que eu pudesse chegar, alguém me puxou.
- Vem aqui. – minha mãe me puxou pelo braço.
- Mãe, pelo amor de Deus, você está me machucando.
- Bem que você merece, depois de tudo o que você me fez passar. – ela me soltou – E o jeito como falou comigo? Isso é jeito de tratar sua mãe?
- Olha, mãe, eu sinto muito pelo jeito como eu falei com a senhora, mas você tem que entender...
- Você está namorando com o filho do governador?
- O que? ? Não.
- Não vai ser uma tarefa difícil, já que parece que ele tem uma queda por você.
- O que? Mãe, do que você está falando?
- Dereck era um bom garoto, mas o filho de um governador? Ah, , você tirou a sorte grande. – ela segurou em meus ombros – Você deveria se jogar com tudo pra cima dele. Capaz de vocês terem um namoro curto e um casamento, antes mesmo de completarem um ano.
- Casamento? Eu passo sete meses fora e é isso que você tem pra me falar?
- Ah, eu te perdoo pela vergonha que você me fez passar por ter acabado com seu noivado com Dereck.
- Eu não quero seu perdão. Na verdade, a única coisa que eu quero é distância de você.
- ...
- Não, não. Você empurrou Nate para longe de nós e eu sempre achei que, se eu fizesse tudo que você queria, você o aceitaria de volta, mas, Deus, como eu fui burra! Você nunca ligou para nós. Eu passei anos com Dereck porque você dizia que era o melhor pra mim.
- Ah, , não coloque a culpa toda em cima de mim. Você não terminou com ele antes porque não quis. Eu não te obriguei a nada.
- É, você tem razão, mas isso acabou. Você não vai mais se meter na minha vida.
- Eu sou sua mãe.
- É, pode até ser, mas você não me controla mais. Nunca mais.
- Você não pode ignorar o fato de que você tem uma mãe.
- Claro que posso. Você totalmente ignorou o fato que tem um filho. Talvez devesse ignorar que tem uma filha a partir de agora também.
Saí correndo, vendo minha visão ficar embaçada por conta das lágrimas. Eu simplesmente tinha que sair desse lugar, não dava pra continuar encarando toda essa gente e não bater aquela vontade enorme de chorar ou de morrer. O que viesse primeiro estava valendo.
- , você está bem? – escutei a voz de de longe. Virei-me para ele, lembrando-me que tudo que estava acontecendo era sua culpa.
- Mas é claro que não. A culpa é toda sua! – apontei para ele – Toda sua! Você tinha que me trazer aqui?
- Desculpa, eu não...
- Mas é claro, isso é tudo um jogo pra você! O que foi que eu te fiz pra você me maltratar tanto? Aquele papinho foi só lorota porque eu ajudo nas vendas?
- Você não é tudo isso.
- Ah, , conta outra. Essa você não pode negar, seu bar melhorou muito depois que eu apareci. – limpei minhas lágrimas – Deus! Como eu sou burra. Seu pai foi ao bar semana passada, Leslie disse. Ele te contou tudo. Deus, como eu não vi isso antes?
- Ele me contou sobre você.
- E, mesmo assim, você pediu para que eu viesse com você?
- , não foi isso que eu planejei. Eu só queria que você visse seu irmão.
- Você é um idiota! Um cavalo! Um insensível! – comecei a socá-lo – Você não tem nada que se meter na minha vida.
- Uou! Uou! – ele tentou se defender – Não precisa me bater.
- Claro que precisa! A culpa é toda sua!
- Ei, para! – ele segurou meus punhos – Olha pra mim. – ele disse, enquanto eu continuava chorando de cabeça baixa – , olha pra mim! – tentei engolir o choro e levantei a cabeça - Você não acha que está na hora de você mostrar quem é você de verdade pra essa gente? – ele soltou meus pulsos, mas continuou segurando minhas mãos – Essa é sua vida e você não deveria ter que se esconder por querer vivê-la do jeito que você quer. Você não tem que se esconder por medo de encontrá-los, você tem que bater de frente, se impor, mostrar quem você é de verdade, e, se eles não gostarem, paciência. – olhei em seus olhos e, por um momento, eu me perdi. Passei tanto tempo tentando me esconder, passar despercebida, que nunca percebi o quão bonito era. Tudo bem, eu sempre soube que ele era um gostoso, mas nunca me senti atraída por ele, pelo menos não tanto como agora – Você é uma mulher incrível. Irritante, porém incrível. – ele me soltou e se afastou.
- Eu sei. – respondi e ele começou a rir – O que?
- Eu esperava que você dissesse pelo menos um: você acha mesmo, ? Ai, muito obrigada.
- Mas eu sou mesmo. Vou fingir que não sei disso?
- Humildade mandou lembrança.
- Eu sou humilde, poxa. Fico muito puta com um negócio desses: a pessoa te elogia e quando você confirma, você não é humilde? Ah vá, tenha paciência! – respirei fundo – Obrigada.
- Ei, eu não fiz nada. – ele olhou para mim – Tudo bem, isso não é totalmente verdade. Na verdade, eu fiz. Eu desconfiava que Dereck vinha, quis irritá-lo por roubar todas as minhas gatinhas do clube.
- Eu sei. – respondi, limpando minhas lágrimas.
- Sabe?
- Claro que sei, você acha que eu não vi o jeito que você segurava minha cintura quando ele se aproximou?
- Então por que não se afastou?
- Eu queria que Dereck visse que eu segui em frente para que ele seguisse também. Bem no fundo, eu sei que ele esperava que eu voltasse e pedisse perdão.
- E você vai fazer isso?
- Mas é claro que não. Agora eu só vou ficar com alguém quando eu realmente quiser, não porque minha amiga achou bonito ou porque ele é o cara mais gato da festa ou porque ele pediu, tem que partir de mim. Eu tenho que querer.
- Fico feliz com o seu progresso, deixou de ser filhinha da mamãe. – olhei para ele, incrédula, e simplesmente mandei o dedo do meio – Você quer sair daqui?
- Mas sua mãe...
- O importante pra ela é que todos me vissem, e não sei você, mas eles definitivamente me viram.
- O que você sugere?
- Tem um posto aqui perto. Vamos encher a cara por lá mesmo.
- De vestido longo, enchendo a cara em um posto? Vou cortar essa da minha lista de coisas que eu tenho que fazer.
- Você tem uma lista de coisas pra fazer?
- Tenho, e trabalhar em um bar sempre esteve no topo da lista.


- Cerveja ou tequila? – perguntou, segurando as duas garrafas.
- Os dois.
- Os dois então. – andamos em direção ao caixa. Estávamos em um posto perto da casa dos e Drew, o motorista, estava dentro do carro, jogando paciência enquanto nos esperava comprar bebida.
- Samantha não vai acreditar quando eu contar pra ela tudo que aconteceu essa noite. – falei, pegando a tequila de sua mão e a abrindo.
- Nem eu acreditava que você podia falar com sua mãe daquele jeito, ela sempre me deu medo.
- Você conhecia minha mãe? – perguntei, me sentando no banco do lado de fora da loja.
- Conheço. – ele sentou ao meu lado, abrindo a primeira cerveja.
- Então como nunca nos conhecemos?
- Ah, eu detestava qualquer coisa associada às frescuras daquela gente. Meu irmão ia e fazia o papel por nós dois. Eu sempre dava um jeito de fugir, o que fazia minha mãe quase perder todos os cabelos.
- Você era tipo a ovelha negra da família?
- É, por isso fui parar no internato. Foi lá que eu decidi que detestava o seu querido ex-noivo. Era injusto que ele conseguisse ficar com todas as garotas do internato do lado, só porque ele era bom moço.
- É, nem todo mundo gosta de um bad boy.
- E você, gosta de qual? Bad boy ou bom moço?
- No momento, eu gosto dessa tequila aqui, muito obrigada. – tomei outro gole.
- Tem uma coisa que eu quero te perguntar há algum tempo.
- Se for pergunta pervertida, vou logo dizendo que taco meu salto nas suas bolas.
- Pelo amor de Deus, você é sempre tão violenta?
- Uma garota tem que saber se defender, não acha?
- Claro, o que te fizer sentir melhor. – ele disse, fazendo com que eu risse – Por que seus sapatos são azuis?
- O que?
- Seus sapatos, todos são azuis. – ele apontou para os meus saltos.
- , essa obsessão por meus saltos já está ficando um pouco esquisita, pra não dizer assustadora.
- Muito engraçadinha. Azul não é bem uma cor discreta. E as garotas com quem eu saio sempre falam deles.
- Eram da minha avó e tataravó. Não todos, mas uma parte, sim. Ela colecionava sapatos azuis quando mais nova, e eu meio que peguei isso dela, entende? Minha avó faleceu quando eu era mais nova e, por ser tão apegada a ela, decidi continuar com a herança da família.
- Então você continuou a história dela?
- É. Quando eu me mudei pra cá, a única coisa que eu trouxe foram os seus sapatos. Graças a Deus, ela tinha o pé do tamanho do meu. Desde então, eu coleciono sapatos azuis, tenho de outras cores, mas quase não uso. E sem falar que azul é minha cor favorita também.
- Você é louca.
- Depende do seu ponto de vista. Na verdade, pra Samantha, eu sou uma heroína.
- É, pra aguentar o Dereck, tem que ter passado na fila da paciência umas dez vezes.
- Ei, Dereck não é tão mal, você sabe disso. Ele é um cara incrível.
- Então por que não está com ele?
- Porque ele não é o cara pra mim.
- Também acho que vocês não combinam.
- Você nunca nos viu juntos.
- É, mas você tem aquele negócio no olhar.
- Que negócio?
- Sei lá, alívio. Sabe quando você prende um pássaro e quando o solta, ele voa o mais alto e mais longe possível? Você é como um pássaro, mas, no seu caso, você foi parar numa pocilga.
- Não acho seu bar uma pocilga, eu gosto de trabalhar lá.
- Percebe-se, você é super simpática atendendo.
- Tinha que existir um equilíbrio, né? Você é o velho ranzinza e eu, a garota simpática, sempre feliz, com um gosto maravilhoso para sandálias azuis.
- Ou louca por ter só sandálias azuis.
- Muito engraçado. – tomei outro gole da tequila – Você sabe o que minha mãe me disse?
- Você ficou sozinha com sua mãe?
- Sim, na hora em que eu fui ao banheiro. – olhei para ele – Ela disse que me perdoava pela vergonha que eu a fiz passar com o cancelamento do casamento e que eu tinha tirado a sorte grande, porque Dereck era um partido muito bom, mas você era o filho do governador. Sete meses, , e é nisso que ela pensa, em dinheiro.
- E o que foi que você disse pra ela?
- Que ela deveria esquecer que tem filha.
- Outch! – ele tomou outro gole – Posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- Como uma mulher de opinião tão forte se deixou ficar em um relacionamento sem amor por tanto tempo?
- Eu amei Dereck em algum tempo do nosso relacionamento.
- Mas não terminou com ele quando parou. Não me entenda mal, eu só acho que você sempre tem algo a dizer sobre tudo, como não teve a dizer sobre sua própria vida?
- Eu sempre fiz o mais fácil, entende? Deixei os outros decidirem por mim o que fazer com minha própria vida, até que um dia eu não pude mais. Cancelei casamento, me demiti do meu emprego e fiz o que eu quis fazer, o que me deu na telha. Eu descobri, depois, que minha vida deixou de ser um pouco mais complicada, depois que eu decidi tomar minhas próprias decisões, fazer tudo que me fazia feliz, em vez de fazer os outros felizes. Se, no final do dia, eu era forçada a colocar um sorriso no rosto, não tinha por que continuar vivendo assim.
- Então um dia você acordou e já não quis saber de nada?
- Praticamente.
- E isso tem a ver com o que aconteceu com Nate?
- Você sabe sobre Nate?
- Eu estava lá.
- Estava? Eu não sabia. Na verdade, quem não estava lá né?
- Você ainda tem contato com ele?
- Muito pouco, soube que ele está em Mônaco.
- A última vez que eu soube dele, ele estava em Moscou.
- Você sente falta dele?
- Muita. Ele é meu irmão, sabe? E, depois que ele decidiu virar piloto de corrida, tudo piorou pro meu lado. Esse não era o destino que minha mãe tinha pra ele. Ela queria que ele virasse advogado. Quando Nate foi embora, o foco ficou em mim, por isso que eu fazia tudo pra agradar minha mãe. Talvez, com um pouquinho de esforço, eu poderia ser uma filha exemplar e Nate poderia voltar pra casa.
- Talvez Nate não quisesse voltar pra casa.
- Acredite, eu o entendo mais do que nunca agora. – ele olhou no relógio.
- Acho melhor nós irmos pra casa.
- Ah, não. Vamos ficar mais um pouquinho?
- Por que essa vontade enorme do prazer da minha companhia?
- Não quero voltar pra casa sozinha e Samantha saiu com um sueco, então eu vou ficar sozinha com meus pensamentos e eu não quero isso.
- Você podia ir lá pra casa. – olhei para ele – Ou não.
- Não, tudo bem. Estou doida pra conhecer o covil do mal do meu chefinho.
- A piada nunca acaba contigo, hein?
- Claro que não, velho ranzinza.

Na verdade, o apartamento de estava longe de ser um covil, na verdade, era totalmente diferente do que eu esperava. Ele tinha, pelo menos, umas três prateleiras de livros e todos organizados em ordem alfabética, sem falar a prateleira dedicada aos CDs e DVDs. As paredes também tinham vários quadros, fotos e, para minha surpresa, até um diploma.
- Esse diploma aqui tem seu nome. Você é formado? – olhei para ele.
- Por que o espanto? – ele perguntou, tirando a gravata e indo em direção à geladeira.
- Porque eu sempre pensei que você tinha começado o bar com dinheiro do seu pai.
- Ah, não, eu terminei a faculdade. Virei professor por uns anos até ter dinheiro suficiente pra alugar o ponto. Eu sempre quis fazer tudo sozinho, sabe? Quando as coisas apertaram, aí sim, eu pedi ajuda ao meu pai. – ele disse, abrindo a cerveja e tomando um gole.
- Você é formado em que?
- Literatura.
- Literatura? Nunca pensei em você como um romântico.
- Não sou, não mais, pelo menos, sempre fui apaixonado por livros. Claro, a maioria deles fala de amor, mas tem uns que falam de outras coisas.
- Estou vendo, sua prateleira é bem variada. Isso aqui é Eleanor & Park? – peguei o livro da prateleira – Eu amo esse livro. – olhei pra ele – Pensei que você não era romântico.
- É um romance adolescente, mas é, sim, um livro incrível. – ele andou até meu lado e continuou: – “Eleanor estava certa. Ela nunca parecia agradável. Ela era como a arte, e arte não era para ser agradável; era para fazer você sentir alguma coisa..”
- Eu adoro essa frase.
- Talvez porque tenha tudo a ver com você.
- Comigo? – perguntei, olhando para ele.
- É. Não a parte que você não tem uma aparência agradável, porque você tem, mas a parte que você parece arte e faz as pessoas sentirem algo, essa parte é totalmente parecida com você.
- Eu faço você sentir alguma coisa?
- Sim, normalmente é ódio.
- Idiota! – coloquei o livro na prateleira.
- Porém, por outro lado, você me faz querer ser uma pessoa melhor. Sei lá, estranho, não acha?
- Está prestes a ficar mais estranho.
Acho que a tequila ajudou muito, também o fato dele estar apenas de camisa social e cabelo bagunçando do jeito que ele era e que, recentemente, eu descobri ser o meu favorito. Eu apenas me joguei em seus braços e dei-lhe um selinho longo, um movimento rápido demais, que fez com que eu me desequilibrasse um pouco, mas passou o braço por minha cintura e me puxou para mais perto. Poderia até parecer loucura, e, se fosse, eu estava pronta pra dar tudo de mim e perder o juízo de vez. Eu entendia por que sempre haviam garotas correndo atrás dele, alguém que beijava daquela maneira deveria ser proibido de sair por ai distribuindo. Ou melhor deveria distribuir sim, mas só pra mim.
Agarrei seus cabelos mais forte, mas pareceu ter outra ideia e se afastou.
- ...
- Eu sei, – me afastei dele – péssimo pros negócios.
- É, você trabalha no meu bar e eu...
- Tudo bem, eu entendo. – respondi, andando até a porta. Dei um passo para o lado, esperando que ele abrisse a porta, quando ele o fez, virei-me para ele. – Obrigada pela noite, apesar de tudo.
- Boa noite, .
- Boa noite, . – dei dois passos até ele, passando meus braços ao redor do seu pescoço. Era um abraço amigável, uma forma de se despedir, mas teve uma ideia diferente. Quando eu estava prestes a me afastar, ele me segurou pela cintura, fazendo com que nossos rostos ficassem próximos.
- Foda-se os negócios. – e então ele me beijou do jeito tão apaixonado que eu não sabia que ele sabia fazer, mas que eu tinha certeza que não queria que ele parasse nunca.
Cambaleamos até o quarto, deixando um rastro de roupa pelo caminho.
Naquela noite, eu descobri que não era apenas um gostoso que me beijava como se o mundo dependesse disso, ele também era um ardente amante na cama.

Capítulo IV




Ninguém falou sobre o que aconteceu. Na verdade, desapareceu antes mesmo que eu pudesse acordar e isso me irritou profundamente. Não sei por que, mas me irritou o fato de ela desaparecer dessa maneira e, pior, me ignorar totalmente no dia seguinte e durante duas semanas seguidas. Eu sempre tentava puxar assunto, mas ela fazia questão de falar que estava muito ocupada.
Eu sei, eu deveria estar aliviado que ela não estava no meu pé, cobrando algum tipo de relacionamento. Mas eu queria conversar com ela sobre o que aconteceu e o pior de tudo é que eu queria que acontecesse de novo, talvez até acordar com ela ao meu lado durante um bom tempo. Não para sempre, mas algo no meio disso.
Eu sabia o que era. Leslie me avisou que isso viria a acontecer alguma vez, mas eu nunca pensei que com alguém como , alguém tão irritante porém assustadoramente incrível.
Eu estava perdendo o sono por causa dessa garota e, quando eu dormia, ela vinha me irritar em meus sonhos, com aqueles malditos saltos azuis. Deus, que roubada foi essa em que eu me meti?
- Pensando em que, ?
- Em ninguém.
- Aha! – Leslie sentou no banco a minha frente – Você está pensando em alguém? Então quem é a vítima da semana?
- A vítima da semana?
- Da semana? – um dos antigos clientes disse. Se eu não me engano, seu nome era Mark. – Está mais pra mês, já que faz um tempo que o não pega ninguém.
- Ai. Meu. Deus! – Leslie disse, lentamente, me olhando assustada – Você está apaixonado.
- E você está louca. – virei-me para o lado, pronto para fugir daquela conversa, mas, em vez disso, esbarrei em , que segurava duas garrafas. Minhas mãos foram automaticamente para sua cintura, enquanto ela me encarava. se mexeu para o lado e foi em direção ao outro lado do bar, me deixando com cara de tacho no meio do bar.
- Você está apaixonado pela . – olhei para Leslie.
- Não disse que você era louca?!
- Pode até ser, mas você está apaixonado por ela. – Leslie se apoiou no balcão. – Finalmente, hein? Mais tarde do que esperado, mas, mesmo assim, finalmente. Você não acha, Greg? – Greg, não Mark. Tenho que começar a anotar o nome das pessoas.
- Agora vamos ver o quanto vai demorar pra ele criar coragem e contar pra ela.
- Do que vocês estão falando?
- Das provocações, das briguinhas, dos trocadilhos, das esbarradas desnecessárias. , vamos combinar, vocês dois foram os únicos que não perceberam que estão apaixonados um pelo outro.
- Eu não estou... Você disse um pelo outro?
- Você não achou que estava nessa sozinho, achou? Aquela garota está apaixonada por você.
- Não sei o que ela vê em você. – Greg falou. Olhei para , que conversava com os caras que ela estava atendendo. Ela estava encostada no balcão e, de vez em quando, levantava o pé, e eu pude ver os inseparáveis saltos azuis.
É, talvez, eu estivesse, sim, apaixonado por ela.
- Vai falar com ela. – Leslie disse – Chame-a para sair.
- Você não entende, nós nunca daríamos certo.
- , como é que você pode contar derrota numa batalha que você ainda nem lutou? Só porque vocês dormiram juntos e ela desapareceu na manhã seguinte, não significa que você perdeu.
- Quem te disse isso?
- A bêbada é do tipo que conta até a senha do banco, se você perguntar. – Leslie revirou os olhos – Eu só acho que vocês merecem uma chance.
Talvez Leslie estivesse certa, talvez tudo de que eu e precisássemos fosse de uma chance pra fazer dar certo. Se não desse certo, ao menos nós tentamos.
- Talvez você esteja certa.
- Correção: eu sempre estou certa. – Leslie jogou o cabelo para o lado.
- Eu vou lá. – respirei fundo e saí do bar.
Eu estava nervoso. Porra, normalmente eu não tinha que ter trabalho nenhum com mulher nenhuma, que elas já se jogavam nos meus braços, literalmente. Só que com a tudo parecia um pouco mais complicado, ela me quebrava as pernas e eu ficava parecendo um adolescente de 17 anos, com sua primeira paixão.
- . – me apoiei no balcão a sua frente. tirou a atenção dos caras e olhou para mim – Eu tenho que falar com você.
- Sim... Digo, pode falar. – ela parou na minha frente com os braços cruzados.
- Eu estava pensando...
- Soube que tem uma trabalhando aqui... – eu não sei exatamente de onde ele veio ou quem ele era, mas eu já o odiava por atrapalhar um momento como esse.
- Nate? – falou, apertando os olhos.
- A não ser que você tenha outro irmão campeão do Grand Pix de Mônaco.
- Ai, meu Deus, Nate! – ela pulou o balcão e correu em direção ao irmão, pulando em seus braços – É você mesmo. Olha pra você! Quase não reconheci. – ela deu um soco em seu braço – O que você está fazendo aqui?
- me chamou. – ele apontou para mim – Na verdade, ele me chamou duas semanas atrás pra uma festa sem noção, mas, como eu estava no meio do campeonato e não pude vir até agora.
- Você fez isso? – ela olhou pra mim, surpresa.
- Fiz. Foi a única maneira que eu achei pra me desculpar por ser um idiota. Você sabe, não sou muito bom com palavras.
- Estava sendo um idiota? Conta uma novidade, . – Nate disse, andando até minha direção – Faz um tempo já.
- Ibiza, se não me engano.
- Quando você roubou aquela modelo da Calvin Klein de mim.
- Eu não roubei, já que ela nunca foi sua, pra começo de conversa. E aí, cara? – cumprimentei Nate.
- Vejo que essa pocilga melhorou muito, desde a última vez em que eu vim aqui.
- Agradeça a sua irmã. Ela que nos ajudou. Ou, melhor dizendo, infernizou a minha vida.
- Eu sei que a palavra que você está procurando é obrigado, então, de nada, .
- Soube que a pirralha finalmente se rebelou. – Nate passou o braço por seu ombro – Só não sabia que vocês se conheciam. Você sabia que a era sua fã número um lá no clube?
- Nate!
- Mas é verdade, ela sempre gostava das suas histórias.
- Eu fiquei sabendo. – olhei para ela. desviou o olhar para os pés – Nós não nos conhecíamos. Só depois eu descobri que ela era sua irmã.
- Pra você ver, né? Eu sempre quis apresentá-los, mas vocês nunca facilitaram. Foi só eu arredar o pé pra vocês se encontrarem. – ele olhou para nós dois – Ninguém vai pegar uma cerveja pra mim, não? – ele olhou para ela – ?
- Vai sonhando. – ela se separou dele – Vou estar esperando lá na mesa. Pega uma pra mim também e coloca na conta dele.
- Mas você pode ter cerveja de graça. – eu disse.
- Mas Nate merece me pagar uma cerveja, pelo inferno que passei por causa dele. Uma não, provavelmente umas mil. Não demora. – ela foi até a mesa e se sentou.
- Eu senti falta dela. – Nate falou, cruzando os braços – Há quanto tempo ela está por aqui?
- Sete meses de puro inferno.
- Eu imagino. sempre teve tudo que quis. – andamos até o bar – Sempre foi a princesinha da família. Me admira ela estar trabalhando em um bar por vontade própria.
- Adam, três cervejas, por favor. – olhei para Nate – Você tem que vê-la, trabalhando. Atende os cara com o maior sorriso e simpatia do mundo. Todo mundo gosta dela e ela gosta de trabalhar aqui. Uma patricinha daquelas gosta de trabalhar aqui. – apontei para , que olhava as unhas – Sua irmã não é desse mundo.
- não segue os estereótipos, ela nunca foi fã de clichê mesmo. – ele deu uma pausa – Pelo visto, não é só ela que gosta de trabalhar aqui, você gosta de tê-la aqui.
- Ela ajuda nas vendas. – Adam trouxe as bebidas e eu agradeci mentalmente por ele me tirar dessa roubada. Nate pegou sua cerveja e a da sua irmã, enquanto eu peguei a minha.
- Vem, ! – Nate me chamou e eu o segui. Nate sentou ao lado de , enquanto eu sentei a sua frente – Então, o que mais andou aprontando, hein, irmãzinha?
- Nada. Só o básico mesmo: cancelando um casamento aqui, fugindo de uns parentes ali, trabalhando em um bar acolá.
- Eu nem consigo acreditar que você fez isso. Eu pensei que nunca ia viver pra ver o dia em que você fosse se rebelar contra mamãe. – ela olhou para ele – Papai me contou tudo. Ah, e ele pediu pra te dizer que você está de castigo, por falar daquele jeito com a mamãe.
- Eu imagino. – ela riu e depois olhou para mim.
- Estou feliz que você finalmente esteja vivendo sua vida, pirralha.
- Acredite, eu, mais que ninguém, estou feliz por fazer tudo que eu quero, do jeito que eu quero. Deus, se eu soubesse que liberdade tinha esse gostinho, tinha arrumado minha mala e ido com você.
- É, mas tudo tem seu tempo. – Nate olhou para mim – Falando em tempo, já que estamos todos aqui, eu queria chamá-los para uma festa que vai ter em um hotel, em minha homenagem. Vai ter muita bebida, muita mulher, , meu caro. – ele levantou a mão e eu bati – Que foi, cara? Cadê a animação? Não vai me dizer que está namorando? – levantou a cabeça.
- Não, é só cansaço mesmo. – respondi, olhando para minha bebida.
- Pois pode ir tratando de tomar uns Red Bulls, porque eu quero vocês dois lá. – ele se virou para – Você pode chamar Samantha, pra não ficar por lá sozinha.
- Nate, eu trabalho hoje. Não posso ir a sua festa.
- Claro que pode. Não pode, ? – os dois olharam pra mim.
- Você precisa mesmo tirar uma folga, pode ser hoje. O bar nem lota.
- Viu? Tudo resolvido. – Nate se levantou. – Agora, deixa eu ir, que eu ainda tenho que encontrar uns patrocinadores. E, ... – olhei para ele – vou pedir pra reservarem um quarto pra você, caso você mude de ideia. – ele deu uma piscadela. – Tchau, pirralha. – beijou o topo da cabeça de e depois saiu do bar.
- Então... – ela começou, fazendo com que eu olhasse para ela – O que você queria falar comigo? – ela perguntou, mordendo o lábio. Então, eu fiz o que eu fazia de melhor, botei os pés pelas mãos e acabei falando o que eu não queria.
- Era sobre sua folga.
- Oh, claro. – ela pareceu decepcionada. – Claro que era sobre minha folga. – ela se levantou e foi em direção ao bar.
- , espera! – ela colocou o copo em cima do balcão e se virou pra mim – Você quer carona até a festa do Nate?
- Não, eu vou com a Sam. – ela disse, sem ao menos olhar pra mim. andou em direção à saída do bar e eu quis ir atrás dela, mas o que eu diria: oi, acho que estou apaixonado por você? Eu acho que não.
- E ai, falou com ela? – Leslie apareceu ao meu lado.
- Não. – olhei para ela – Eu acho melhor deixar tudo do jeito que está.
- Mas, ...
- Vamos falar da inauguração amanhã? – me virei para ela – Já chamou os seus amigos pra ajudarem com o bar? Rumores de que isso aqui vai lotar amanhã.

Então eu fiz o que eu fazia de melhor: enterrei meus sentimentos bem fundo e ainda completei com uma porrada de álcool em cima. A festa de Nate era exatamente do jeito que ele tinha falado: tinha muita comida, muito álcool, muita mulher e, principalmente, muita mulher dando em cima de mim. Se essa festa tivesse acontecido há uns meses atrás – exatamente sete, para ser exato – eu já teria ficado com, pelos menos, quatro dessas modelos. Só que a vida, meu caro, era uma maldita e a única mulher que eu queria estava sentada no bar, do outro lado da festa, conversando com sua amiga. Não vou nem comentar que o máximo que ela falou para mim foi um “oi, ” e simplesmente ignorou a minha presença pelas próximas três horas. Não sei o que era pior: tê-la questionando tudo que eu faço ou ser ignorado por ela.
- Você está com olhos de psicopata. – olhei para o lado, vendo Sam sentar ao meu lado – Desde que nós chegamos que você encara ela.
- Não sei do que você está falando. – tomei o resto da minha cerveja.
- Pelo amor de Deus, claro que sabe, ! Você gosta da .
- Por que todo mundo decidiu tirar essa conclusão agora?
- Vai ver é porque você não consegue esconder mais.
- Eu não tenho nada pra esconder.
- Não, só o medo que você tem de quebrar a cara. O ser humano tem disso: quer evitar o sofrimento futuro e acaba sofrendo por antecedência. – olhei para Sam – Tem que dar a cara a tapa, , porque a é o tipo de garota por quem vale a pena sofrer. Ou não, vai que vocês dois se casam e tem vários moleques ranzinzas e menininhas loucas por sapatos azuis pela casa. – Sam disse, e poderia ser o álcool, mas não me parecia má ideia – O que eu quero dizer é que vale a pena tentar. Se quebrou a cara depois de tentar, bem, ao menos você foi corajoso o suficiente pra tentar. É isso que falta no ser humano: coragem pra quebrar a cara.
Olhei para frente, vendo que já não se encontrava mais lá. Na verdade, ela não estava em lugar nenhum da festa.
- Onde é que ela foi?
- Sei lá, . Procura. – Sam se levantou – Tem um piloto me esperando no andar de cima. Tchauzinho. – Sam saiu e me deixou com cara de paisagem.
Segui o conselho de Samantha e deixei a bebida em cima da mesa, partindo à procura de . Andei a festa inteira, parando cada mulher que parecia ao menos um pouco com ela. Levei até uns tapas no meio do caminho, até que eu encontrei Nate agarrado a uma modelo e muito bêbado.
- Nate, cadê sua irmã? – perguntei e ele desviou o olhar pra mim.
- O que?
- Sua irmã, cadê ela?
- Ah, ela foi embora. Sam parece que se arrumou com um dos meus amigos e a preferiu ir.
- A que horas foi isso?
- Há uns 15 minutos. – ele olhou pra mim, desconfiado – Por quê?
- Por nada, eu já estou indo.
- Agora? Mas a festa acabou de começar.
- É, Nate, depois eu te ligo.
Eu estava derrotado. Pela quadragésima vez, eu tinha deixado escapar e eu nem pude dizer a ela como eu me sentia. Talvez isso fosse um sinal de que toda essa história de nós dois juntos não era para ser mesmo.
Ou era, já que, na hora que as portas do elevador se abriram, estava sentada no chão, segurando um salto na mão.
- , você está bem? – perguntei, entrando no elevador. Ela olhou pra mim e começou a gargalhar. Apertei o número do meu andar, já que Nate tinha reservado um quarto pra mim, como havia dito, e me abaixei até sua altura. – , fala comigo.
- O meu salto, ele quebrou. – ela levantou o salto – Que droga! Era um dos meus favoritos. – ela fez bico e olhou para mim – Me ajuda a levantar? – ela esticou os braços. Segurei seus braços e a puxei para cima. cambaleou para o lado, então eu a segurei pela cintura. – Está tudo girando, . Eu acho que eu vou cair.
- Não vai. – a peguei no colo. – Você é mais pesada do que aparenta ser.
- Já não te disseram que você não deve dizer a uma mulher que ela está gorda?
- Já não te disseram que eu não sou muito bom com as mulheres?
- Pra mim, você é incrível. – olhei para ela, que mexia no meu cabelo – Seu sorriso é lindo, você é lindo, sua bundinha, então. – ela riu. – Você tem um coração maior do que aparenta ter.
- Você está bêbada. – foi impossível conter o riso.
- Mas não é como se não fosse verdade. – a porta do elevador se abriu e eu saí do mesmo, com ela em meus braços. – Acho que você age como se fosse um ignorante, mas você cursou literatura, . Ninguém cursa literatura a não ser que seja um romântico nato.
- Eu sou péssimo no quesito amor.
- Vai ver é porque você não encontrou a garota certa.
- Ou talvez eu já a tenha encontrado. – olhei para ela, que encarava meus lábios.
- Me põe no chão.
- O que? – perguntei, confuso.
- Me põe no chão, pelo amor de Deus! – ela falou, se mexendo em meus braços. Coloquei-a no chão e ela começou a tirar os sapatos. – Muito obrigada, . Eu estava a ponto de fazer uma loucura. – ela disse, voltando a ficar em pé e se apoiando na parede.
- Uma loucura? – eu sei que bêbado normalmente não deveria falar coisa com coisa, mas estava passando da cota.
- É. Coisas que você gostaria de fazer sóbrio, mas não tem coragem.
- Coisas tipo o que? – perguntei, me encostando na parede. ficou em pé, deixando os sapatos no chão. Eu já a conhecia há, aproximadamente, uns sete meses, mas eu nunca tinha visto sem salto. Até me assustei pelo fato de ela ser mais baixa que eu.
- Eu teria que te mostrar. Sou uma garota mais de ação do que de palavras.
- Então me mostra. – sorriu e começou a andar até mim. Ela parou em minha frente, ficou na ponta dos pés e encostou seu corpo no meu.
- Se você quiser, eu paro. – ela sussurrou.
- Na... Na... Não, pode continuar. – pegou minhas mãos e colocou em sua cintura. Suas mãos foram subindo por meus braços até chegarem ao meu pescoço. Ela se aproximou e sussurrou perto da minha boca:
- Se você quiser, eu paro.
- A única coisa que eu quero é que você não pare.
Então eu a beijei e posso admitir que tinha até esquecido o quanto era bom. era do tipo que tinha o beijo que parecia mais um feitiço: fazia você sempre querer mais. Mas, no meu caso, eu queria mais do que beijá-la todo dia, eu queria o pacote bobão apaixonado: andar de mãos dadas e chamar por apelidos melosos e tudo. trazia esse lado à tona, o lado apaixonado que cursou literatura.
Só que, por mais que eu a quisesse, não podia ser daquele jeito. estava completamente bêbada.
- , espera. – falei, a afastando – Você está muito bêbada. Nós não podemos. – segurei seu rosto – Eu quero você, mas não desse jeito.
- Então de que jeito você me quer?
- De todos possíveis, mas especialmente como minha... namorada. – parou de rir e me olhou, séria.
- , não mente pra mim desse jeito. – ela abaixou a cabeça.
- Quem disse que eu to mentindo? – ela olhou pra mim – Eu vou te levar pra casa.
- Não, não. – ela se aproximou de mim – Eu quero ficar com você essa noite.
- ...
- Eu juro que não faço nada. – ela levantou as mãos – Qual é o quarto?
- O que?
- O quarto que Nate reservou pra você... qual o número?
- 710 – respondi. – Eu ainda acho melhor eu te levar pra casa.
- , eu não quero ir pra casa. – ela andou até mim, colocando os braços ao redor do meu pescoço. – Eu quero ficar com você. – ela me deu um selinho – Nós só vamos dormir juntos, eu prometo. – ela pegou as sandálias no chão e me arrastou em direção ao quarto. Parei em frente à porta, abrindo a mesma. se jogou na cama e se virou pra me olhar – Vem, .
- Eu posso dormir no chão.
- Mas eu estou com frio.
- Essa é a cantada mais velha do mundo. – balancei a cabeça – Tudo bem. – deitei-me na cama e se deitou em meu peito.
- Por que você me ignora, toda vez que nós ficamos juntos? – era para ser um pensamento, mas acabou saindo sem querer.
- Porque eu sempre espero um grande gesto de você.
- Grande gesto?
- É, alguma coisa que faça com que eu queira pular em seus braços. – ela parou – Ou você pode continuar desse jeitinho aí. Eu gosto do ranzinza. – nós rimos.
- Talvez, se você não fugisse toda vez, conseguisse o seu grande gesto.
- Pois eu fico então.

Mas é claro... Que ela não ficou. No momento em que eu acordei, já não estava ao meu lado. Acho que o pior mesmo não foi a parte de ela ter ido embora, foi o fato de ela ter ignorado totalmente a minha existência, assim que entrou em meu bar. Devo comentar que ela chegou atrasada, justamente no dia da reinauguração do bar e estava totalmente distraída. Eu já estava ficando puto da vida. No dia em que eu precisava que ela fosse a bartender de todos os dias, ela estava fazendo tudo errado.
- , você esqueceu de pegar o dinheiro dos clientes. De novo. – Leslie falou.
- Desculpa, Leslie. – ela falou, servindo uma cerveja para os caras.
- Tudo bem, todo mundo tem dias ruins.
- Péssimo dia pra escolher ter um dia ruim. – falei, servindo os caras a minha frente. estava ao meu lado e olhou para mim, incrédula.
- Eu vou tentar me concentrar. – ela foi para o outro lado do bar.
- O que foi isso, ? – Leslie me deu um soco – Isso é jeito de tratar a menina?
- Desculpa, eu to nervoso, porra! Olha isso, Leslie. Se o bar lotar desse jeito, nós vamos ficar ricos. – olhei para os lados, vendo o bar cheio de gente. Aumentar a parte esquecida e contratar uma banda novata, mas que arrasava no cover, tinha sido uma ideia genial. Como é que eu não pensei nisso antes? – Droga!
- O que foi?
- Eu fui idiota com a . – falei, olhando para Leslie. – Eu vou pedir desculpas.
- Já vai tarde. – servi mais uma cerveja para alguns clientes e andei em direção a ela.
- Ei, cara. – um cliente me chamou. estava servindo outros caras, fazendo o grupo dele esperar. – Me vê dois chopes.
- Espera só um pouco que ela vai te atender.
- Já estou esperando há mais de vinte minutos.
- Tudo bem. – enchi os copos e fui em direção ao cara. Só que estava no meio e se virou rápido, fazendo com que eu derrubasse a bebida em seus sapatos.
- Eu não acredito! – ela gritou, olhando pra mim. – , seu idiota.
- Uou, , fica calma! Isso é jeito de falar comigo?
- Você estragou meus sapatos de propósito. – ela olhou pros pés – São Louboutin, seu ignorante.
- Até parece. Não sei se você sabe, mas o mundo não gira em torno de você.
- Você é um idiota! – ela começou a andar até a saída do balcão.
- , o bar está lotado, pra onde você vai? – gritei, fazendo com que ela se virasse para mim.
- Pra casa. Eu me demito. – ela jogou o pano na minha cara e saiu praticamente correndo do bar.
- Aonde ela vai? – Leslie perguntou.
- Ela acabou de se demitir.
- O que? – Leslie gritou – Que merda você fez?
- Eu derramei uma bebida no sapato dela e ela se demitiu.
- , e agora?
- Você cuida de tudo e eu vou atrás dela. – Leslie segurou em meu braço, me impedindo de passar – Olha, eu sei. Não precisa falar. Fazer esse bar ser um sucesso é o nosso sonho, mas eu não posso deixar a ir. Não quando eu sei que eu... – dei uma pausa e Leslie continuou olhando para mim, esperando que eu continuasse – Que eu estou apaixonado por ela. – Leslie sorriu e soltou meu braço.
- Eu só ia dizer que não volte até conquistá-la, mas acho que esse negócio de apaixonado está ótimo.
- Leslie, quando nós casarmos, você vai ser meu padrinho. – dei um beijo em seu rosto.
- Eu fico muito bem de terno mesmo. – Leslie arregalou os olhos. – Você falou de casamento?
- É, mas isso é pra um futuro distante. – dei um beijo em seu rosto – Me deseje sorte. – saí de trás do balcão e fui em direção à saída.
Talvez eu devesse ter ficado dentro do bar, cuidando dos meus negócios, porque abandonar tudo por conta de uma garota, principalmente uma garota que não combinava nada comigo, pareceu uma má ideia. E eu tive essa certeza quando a vi abraçada com seu ex-noivo e, logo depois, entrando no carro com ele.
Então eu voltei para meu bar, sem falar uma palavra, porque eu poderia ter perdido a garota, mas não ia perder meu negócio também.

Capítulo V




- Dá pra vocês dois não discutirem por um milésimo de segundo? – gritei, fazendo com que os dois olhassem pra mim.
- , não grite. Estamos em um hospital. – minha mãe falou. É aí que você me pergunta por que eu estava aguentando minha mãe, depois de prometer nunca mais vê-la. Simples! Meu pai estava no hospital, por ter passado mal, no jogo de polo da manhã anterior. Dereck me ligou, depois do incidente, e eu levei Nate junto, para que ele pudesse ver papai. Papai, claro, gostou, mas nossa mãe - bem, ela era outra história. Para piorar tudo, Nate ainda estava de ressaca e eu tinha que separá-los a cada dois segundos.
Quando tudo melhorou e Nate decidiu ir para o seu hotel e minha mãe para casa, eu fui para o bar, para ajudar e Leslie com a reinauguração, mas Dereck me ligou, horas depois, dizendo que Nate e minha mãe estavam brigando de novo, fazendo com que meu pai passasse mal outra vez. Para piorar, ainda tinha derramando bebida nos meus saltos, fazendo com que eu descarregasse tudo que eu estava sentindo nele.
Eu sei que não deveria descontar tudo nele, mas já ouviu falar em timing ruim? Parecia algo constante, quando se tratava de e eu.
- Quer dizer que só vocês dois podem quebrar o pau por aqui? – falei, saindo do quarto onde meu pai estava dormindo.
- Nós não estamos quebrando nada.
- Estão, sim! – apontei para os dois – Por culpa de vocês, o papai passou mal de novo.
- Não precisa jogar na cara, né, ? – Nate falou.
- Claro que precisa. Vocês dois não se tocam. – minha mãe olhou para mim, incrédula. Antes que ela pudesse falar alguma coisa, eu continuei: - Eu vou lá pra fora. Tentem não se matar e também não matar ao papai.
- E aí, como ele está? – Dereck perguntou, logo depois que eu sentei ao seu lado.
- O médico disse que ele está fora de perigo. – respondi, cruzando os braços.
- Eles ainda estão brigando?
- Estão. – respirei fundo e olhei para ele – Obrigada por tudo, Dereck, mas se você quiser ir, eu vou entender.
- Eu devo muito a seu pai.
- Deve? Por quê?
- Ele me ajudou muito, quando você foi embora. Posso até dizer que ele foi um grande amigo. Quando você me abandonou, abandonou a ele também. De certa forma, nós nos ajudamos com a dor. – ele olhou para mim. – Se você quiser, eu fico. Vai pra casa, toma um banho, e depois você volta.
- Mas eles vão se matar, se eu for.
- Depois que eu vi o jeito com que você mandou sua mãe calar a boca, acho que posso encarar a fera. – ele se aproximou de mim. – E eu estou a ponto de pedir o telefone daquela enfermeira. Faz tempo que ela está me dando bola.
- Homens! – balancei a cabeça. – Muito obrigada, Dereck. – me levantei - Eu vou ao bar, resolver umas coisas.
- Você sabe que ele gosta de você, certo?
- Quem?
- . Ele gosta de você do jeito que você gosta dele.
- Eu não gosto dele. – respondi rápido.
- , por favor. Pra cima de mim?
- Como você tem tanta certeza assim? Você e se detestam. – me sentei ao seu lado outra vez.
- É verdade que não é exatamente a minha pessoa favorita do mundo, mas homens se apaixonarem não é coisa rara, não, . Acontece. E, convenhamos, você é totalmente apaixonante. Se perguntar, eu acho até que vocês formam um casal muito bonito.
- Mas ele é tão cafajeste.
- Um homem não é cafajeste porque está solteiro e fica com um bando de mulher. Ele está aproveitando a vida, do mesmo jeito que um bando de mulher faz. gosta de você. Acho que vocês deveriam tentar.
- Você sabe o quão estranho é você falando isso?!
- Sei, e eu estou falando. – rimos. – É o seguinte: quando você me abandonou, eu fiquei com muita raiva. Honestamente, eu nunca odiei tanto uma pessoa, na minha vida. Eu quase queimei toda a sua coleção de sapatos. – olhei para ele, incrédula. – Só que o tempo foi passando e eu fui percebendo que o que você tinha feito – por mais cruel que tenha sido – foi a coisa certa a fazer. Acho que você não era a única que estava presa, eu também estava. Eu acho que você merece ser... nós dois merecemos ser felizes. - Ele olhou para Stacey, a enfermeira que ele estava paquerando desde que chegamos. – e se sua felicidade é com o , eu apoio isso. Vai ser meio nojento no começo, pela nossa antiga birra, porém acho que você não manda no coração, então tem que segui-lo, mesmo assim.
- Desculpa ter feito você passar por tudo aquilo. Eu só estava com muito medo de encarar qualquer um de vocês. Você me conhece: eu sou péssima com confrontos, então meti os pés pelas mãos e acabei te machucando mais do que deveria. E, Deus, deve ter sido muito difícil pra você ter que aguentar aquela gente.
- Acho que o pior não foi nem os cochichos, o cancelamento e a devolução dos presentes, foi ter a sua mãe no meu pé, durante um mês inteiro. Porra, não sei como você aguentou tanto tempo! – nós dois rimos e a enfermeira olhou para a gente, com cara feia.
- Você acha que um dia nós poderemos ser amigos?
- Acho que isso está aberto para debate. Você não pode jogar quase cinco anos de relacionamento fora, dessa maneira. Vai levar um tempo, mas eu acho que nós vamos ficar bem.
- Obrigada, Dereck.
- De nada. Agora, sai daqui e vai logo se resolver com o idiota do .
- Dereck...
- , vai logo.

Eu fui o caminho inteiro com o coração na mão. Eu sabia que tinha deixado e Leslie em uma situação complicada. O bar estava lotado e eu simplesmente deixei os dois na mão. Eu sei que eu não era a peça chave para tudo funcionar, mas eles dois acolheram a mim e a minhas ideias, e eu simplesmente dei uma de " de dois anos atrás" e fui embora, sem nem ao menos olhar para trás.
Entrei no bar e Leslie olhou para mim, com a cara de poucos amigos. Claro que eu entendia, mas o pior não tinha sido a cara de poucos amigos de Leslie, foi o olhar frio que me deu, logo que me viu.
- Oi. – disse, um pouco envergonhada.
- Oi. – passou direito e começou a recolher os copos das mesas.
- Escuta, desculpa ter explodido daquele jeito, eu estou super estressada. Meu pai...
- Eu não ligo. – ele disse, sem nem ao menos olhar pra mim.
- Como disse?
- Eu disse: eu não ligo, mas já que você não entende educação, eu parto pra ignorância. Então: – ele se virou para mim – Eu to pouco me fudendo.
- , por que você está me tratando dessa maneira?
- E como é que você queria que eu te tratasse?
- Com respeito, é claro.
- Achei que você quisesse que eu te tratasse do jeito que eu trato as outras.
- Eu não sou nenhum dos seus casinhos da semana.
- Quem disse?
- Você é um grosso! – na verdade, foi um impulso, mas eu não pude resistir. Meu punho fechado acertou em cheio sua cara. – Ai! – balancei minha mão. Bater em alguém não era como nos filmes. – Você é um estúpido! Eu sabia que me apaixonar por você não me levaria a nada. Você é incapaz de amar alguém! Nunca mais me procure.
Eu não olhei para trás. Eu sabia que nunca ia dar certo. Tentei colocar na minha cabeça um milhão de vezes que e eu éramos muito diferentes, mas sempre tinha aquele demônio chamado esperança, que dizia que, se nós tentássemos, tudo daria certo. Só que, na teoria, tudo sempre é mais fácil. Na prática, era que o bicho pegava. nunca gostou de mim: eu fui só a bartender gostosa que apareceu, salvou o seu bar e, casualmente, acabou na sua cama.
Não sei ao certo por que pensei que poderíamos ser mais que isso. não vinha com o gene do amor.


- Você está contratado. – falei, apertando a mão do novo barman. Dessa vez eu não iria errar. Não tinha quem me fizesse contratar uma bartender mulher. Não até um futuro bem distante.
O cara saiu, e Leslie tomou o seu lugar e ficou lá, em silêncio, me encarando.
- Eu odeio quando você faz isso. Fica me encarando, com cara de tacho. – apoiei os cotovelos na mesa. – Fala logo.
- Eu não tenho nada pra falar.
- Leslie, eu te conheço há muito tempo e eu sei quando você quer falar alguma coisa, então fala logo, antes que eu perca a paciência.
- Por que você tratou a daquele jeito? Por que ela te socou daquele jeito? E, cara, como ela tem a mão pesada! Seu olho está roxo. – Leslie começou a gargalhar, fazendo com que eu gargalhasse também.
- Eu a vi entrando no carro com o ex-noivo, no dia em que ela saiu daqui puta da vida. Eu fiquei puto. Se eu pudesse, socava a cara daquele mauricinho até ele chorar.
- , você é um estúpido.
- Ela sai com o ex e eu que sou o estupido?
- E daí que ela saiu com o ex? Eles namoraram por cinco anos. Cara, você espera que ela simplesmente o apague da vida dela, do nada?
- Eu estou sendo um idiota, não estou? – Leslie concordou. – Mas é porque eu não suporto ele. Se eu pudesse, acabava com a cara daquela mauricinho.
- Claro, você está com ciúmes. – tentei protestar, mas Leslie continuou. – Cala a boca! Muito sem cabimento, devo ressaltar.
- Por quê?
- Acho que você esqueceu de um pequeno detalhe.
- Do que?
- O que ela disse depois do soco?
- Que eu era um estúpido e que... Puta que pariu! – coloquei as mãos na cabeça. "Eu sabia que me apaixonar por você não me levaria a nada."
tinha, mesmo que sem querer, admitido que estava apaixonada por mim e a única coisa que eu fiz foi me concentrar no ex-noivo e no soco que ela havia me dado. A gostava de mim, do mesmo jeito que eu gostava dela. Porra, era Natal e ninguém me avisou?
Olhei para o lado, vendo o quadro que ela tinha me dado. Levantei-me e fui em direção a saída.
- Ei, , aonde você vai? – Leslie gritou, fazendo com que eu me virasse para ela.
- Vou reconquistar a garota mais irritante, incrível e um pouco maluca por sandálias azuis que eu conheço.
- Eu já vinha pronta pra quebrar essa sua cara. – olhei pra frente, vendo Samantha de braços cruzados na minha frente – Você foi um imbecil. De novo.
- Eu sei que eu fiz merda, mas eu quero consertar tudo. – segurei seus ombros. – Onde ela está?
- No hospital São Tomás.
- O que? Ela está bem? Aconteceu alguma coisa com ela?
- Não. O pai dela deu um susto na família inteira, ontem de manhã. passou o dia lá. Alguém tinha que impedir Nate e a jararaca mãe de se matarem.
- Tudo bem. – fui em direção à saída, mas Sam me chamou e disse:
- E, , faça minha amiga feliz.
- Descobri há pouco tempo que é tudo que eu mais quero.

Comprei lírios no meio do caminho. Eu tinha visto em algum filme romântico que flores eram um grande gesto. Era isso que sempre quis de mim: um grande gesto. Talvez flores não fossem um grande gesto, mas era o que me veio na cabeça.
Ela estava sentada no banco, olhando as unhas, quando pigarreei alto.
- ? – se levantou. – O que você está fazendo aqui?
- Eu vim... – respirei fundo – Eu vim te ver. Eu soube do que aconteceu. – ela parou na minha frente. – Como ele está?
- Está fora de perigo, por enquanto. – ela estava olhando para mim. – , o que você está fazendo aqui? Veio pisar em mim, só mais um pouquinho, foi?
- Claro que não. , eu...
- Só pra constar, a é alérgica a lírios, mas boa tentativa, . – Dereck apareceu atrás de , rindo e colocando um café em cima da bancada.
- O que ele está fazendo aqui? E você está rindo de que, seu babaca? – passei por e fui em direção a ele.
- , isso não é hora e nem lugar. Acalma teus hormônios aí. – ele tomou um gole do seu café. – Belo roxo. tem uma mão pesada.
- Não até você me dizer o que você está fazendo aqui.
- Você está com ciúmes de mim? – Dereck cruzou os braços – Isso é tudo medo de perder a garota por quem você está apaixonado pra mim, outra vez?
- Eu não tenho medo de nada.
- Não está parecendo. – ele se aproximou. – Eu entendo sua preocupação, . Eu e temos uma história juntos e, por mais que você não queira admitir, você é só mais uma noite de sexo.
- Cala a boca. – falei, colocando as flores em cima da cadeira.
- Vem calar! – Dereck me empurrou e, depois disso, eu não agi com a razão. Peguei toda a raiva que eu tinha guardada e coloquei tudo no soco que foi em direção ao rosto de Dereck. O que eu não sabia era que Dereck tinha muito ódio guardado por mim e que o soco dele era tão forte quanto o que eu dei nele.
- Parem, vocês dois. – se meteu no meio e, por incrível que pareça, ambos paramos. – Vocês estão loucos? Dereck, perdeu a cabeça? – ela se virou pra ele. – , você está louco? - ela se virou para mim.
- , eu vou ter que chamar a segurança? – a enfermeira falou.
- Não precisa. Eu vou tirar um deles daqui. Dereck, se certifique que eles dois não se matem, por favor. E você, vem comigo, ! – ela me segurou pela mão e arrastou pelo corredor, até pararmos em outra sala de espera. – Você perdeu a noção do ridículo?
- Eu não, mas você, sim. Que porra você está fazendo com aquele imbecil?
- Dereck é meu amigo e, de acordo com a última vez em que chequei, eu não tenho que dar satisfação da minha vida pra você. Você deixou bem claro que eu não passava de uma daquelas piriguetes com quem você sai.
- Não faz assim, por favor.
- Mas é claro que eu faço. Eu sei que eu deixei você e a Leslie na mão, mas eu fui lá, pedir desculpas, e você me trata daquele jeito?
- Desculpa, ok? Eu juro que eu não queria te tratar daquela maneira, mas eu estava com muita raiva. Ver a garota por quem estou apaixonado entrando em um carro com o ex-noivo não foi fácil. Porra, eu me senti um idiota. Tentar competir com alguém como Dereck, que tem tudo que uma garota quer, é uma guerra perdida. Acho que a verdade é que eu estava com medo de te perder e acabei te afastando. O ser humano tem dessas de não querer quebrar a cara e acaba sofrendo por antecedência. – me aproximei dela. – Então eu estou dando a cara a tapa, porque, se é pra sofrer por você, patricinha, vai ser depois de tentar te conquistar, mais uma vez.
- Repete! – ela disse, sorrindo.
- Tudo?
- Não, a parte de ver entrando...
- Ver a garota por quem eu estou... – segurei seu rosto. – apaixonado, entrando em um carro com o ex-noivo. – ela segurou minha cintura, me puxando pra perto. – Eu não sei quanto tempo a gente vai durar, se é pra sempre ou se vai acabar semana que vem. Eu só acho que nós merecemos uma chance pra fazer dar certo. – encostei meu nariz no dela, que estava com os olhos fechados. – O que você acha?
- Que você é um idiota que está demorando muito pra me beijar. – então ela me beijou, me abraçando forte pela cintura. E, pelo que tudo indicava, o meu azar no quesito amor finalmente tinha acabado.
- Nojento! – me separei de e olhei para trás, vendo Dereck parado na porta. – Mais nojento do que esperado. – ele balançou a cabeça. – Seu pai acordou e está perguntando por você. – ele apenas disse e depois saiu.
- Você vai ter que se livrar desse mauricinho.
- Você não manda em mim. – ela se separou de mim – Dereck é meu amigo. Vocês deveriam tentar deixar essa birra de lado e ser amigos também. – ela me puxou para o corredor. Passei o braço por seus ombros, enquanto ela me abraçava pela cintura.
- Tudo bem. Eu posso tentar me acostumar com aquela cara de mauricinho dele. – dei um beijo no topo da sua cabeça. – Você é mesmo alérgica a lírios?
- Não só alérgica. Eu também odeio. – ela riu, olhando para mim. – O que você estava tentando fazer, trazendo lírios?
- Um grande gesto, que pelo visto ia te colocar em uma cama de hospital.
- O que vale é a intenção. Não se preocupe, . Nós vamos ter bastante tempo pra aprender um sobre o outro. – dei um selinho nela. – E, ...
- O que? – perguntei, puxando-a para mais perto.
- Você está me devendo um novo par de sandálias. – ela disse e eu soltei uma gargalhada. – E tem que ser...
- Azuis, é claro. Acho que essa parte eu já decorei.

Fim.



Nota da autora: (01/06/2015)> Olá, queridxs! Eu vou começar dizendo que eu amei escrever essa fic pro especial, espero que todo mundo gosto do mesmo tanto que eu gostei de escrever. Aqui segue a velha listinha de fics que eu tenho no site e o grupo das minhas fics. Beijos de luz!!!
Flawless Curse [Mcfly/Finalizadas]
Come Away With Me [Mcfly/Em Andamento]
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Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.



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