Fanfic finalizada

Capítulo 1

I know I could try looking for something new
But wherever I go, I'll be looking for you

Loki Laufeyson era um ser intrigante. Ela o havia conhecido sua vida inteira, mas duvidava que ele sequer soubesse de sua existência. Não que importasse para , longe dela querer cair nas graças do filho do rei, principalmente conhecendo muito bem a fama dele. Afinal, ele não fora apelidado God of Mischief por nada. Desde cedo ela já havia aprendido a não esperar nada do moreno, e até então vinha funcionando.
Sua família era próxima à família do rei, lhe permitindo um acesso à corte que ela preferia não utilizar. Já se achava patética demais por nutrir uma paixão platônica por Loki, entre as diversas pessoas que havia ali, o próprio irmão do moreno sendo uma opção, ela não queria considerar como seria nutrir tal paixão e ainda correr o risco de encontra-lo em algum dos inúmeros banquetes oferecidos no castelo.
não sabia dizer quando a paixão havia surgido, mas ela estava lá e ela tinha certa vergonha em assumir que sabia mais do herdeiro de Odin do que seria considerado saudável. O que divertia sua mãe, a única a saber do segredo da filha. E a mesma que agora a forçava a largar os livros e se aventurar pelo castelo e pelo banquete da noite, mais alguma comemoração que haviam inventado como desculpa.
- Querida, você precisa sair daqui um pouco... Se dar a chance de conhecer alguém que tire essa sua fixação pelo Loki.
- Eu estou bem aqui – argumentou , virando a página do livro que lia. Era um dos seus favoritos, contando a história de Asgard e as batalhas travadas por Odin.
- Pode ficar muito melhor lá fora – contrapôs sua mãe. – Mandei fazer um vestido novo para você. Seria um desperdício não usá-lo.
A atenção de foi atraída pela caixa que sua mãe depositara mais cedo em sua cama, ela tinha mesmo se perguntado o que havia ali, mas sua curiosidade não fora o suficiente para que ela se mexesse para abrir a caixa e revelar seu conteúdo.
- Isso é jogo baixo, mãe – disse a mulher, finalmente largando o livro para se aproximar da caixa e dar uma espiada no seu conteúdo.
- Eu só quero o seu bem, querida – disse a mais velha, acariciando o cabelo da filha. – Por que não fazemos um acordo? Você vai ao banquete hoje, deslumbrante nesse vestido, e tenta algo diferente. Se não gostar, nunca mais tocamos no assunto, o que acha?
- Não sinto que você está me dando muita opção – observou , sorrindo afetuosamente para a mãe.
- Começa em duas horas, melhor se apressar. – Sua mãe depositou um beijo no topo de sua cabeça e depois se retirou do quarto da filha.

suspirou, o cabelo molhado caindo pelas costas, os cachos tão bem desenhados agora desfeitos. Ela abriu a caixa e afastou a tampa, por algum motivo temendo seu conteúdo, mas tudo o que saiu de sua boca foi o ar que ela prendera diante da expectativa. O vestido era maravilhoso, feito com a mais pura seda, num tom de verde escuro, com alguns tons prateados. Ela sabia, antes mesmo de vestir, que o vestido cairia perfeitamente em seu corpo, moldando as curvas e destacando os cachos loiros. A barra do vestido parecia ser feita com um tecido especial que carregava um brilho similar ao da Bifrost, apesar de ser mais concentrado nos tons de prata e verde do que nas cores do arco-íris. não pode controlar o sorriso, podia não querer frequentar as festas, mas amava os vestidos especiais para as ocasiões.
Lembrando-se do acordo feito com sua mãe, ela sentou-se diante a penteadeira para arrumar seu cabelo, prendendo-o de forma a manter sua maioria solta, caindo em cascata pelas costas, os cachos se definindo enquanto iam secando. Sua maquiagem era simples, ela não gostava muito de usá-la, aplicando apenas para acrescentar um brilho que combinasse com os detalhes do vestido e das joias que usaria. Um colar que sua mãe havia lhe dado de presente de aniversário anos atrás, e pulseiras que se prendiam ao seu pulso com tanta precisão que pareciam ter sido feitam ao redor de seu pulso. O toque final foi o vestido que, como esperado, envolveu seu corpo com perfeição, lhe deixando sem fôlego ao se encarar no espelho, admirando a forma como o vestido brilhava de acordo com a luz.
- Por Odin, querida, você está deslumbrante – sua mãe exclamou quando a encontrou fora de seu quarto.
- Esse vestido é maravilhoso, mãe, obrigada – disse a moça, sorrindo para a matriarca.
- Os rapazes do banquete não saberão o que os atingiu – comentou a mais velha. – Agora vá, antes que se atrase.

estava nervosa, e aquilo era justificável. Era a primeira vez em anos que ela frequentava um banquete. A última vez, ela ainda era uma criança, acompanhando os pais e não tendo uma preocupação no mundo além de se comportar e seguir as regras de etiqueta. Foi naquele último banquete que ela viu Loki pela última vez e sentiu que entrara em um caminho sem volta naquela que antes só considerava uma paixãozinha boba e platônica, e foi a partir desse último evento que ela decidiu parar de frequentá-los.
Apesar de se manter afastada, todos sabiam quem ela era, filha de Dahlia e Harold, uma das famílias mais importantes da corte. Vez ou outra ela era vista pelos corredores e pelas ruas de Asgard, mas nunca nos banquetes. Exatamente por esse fato, ninguém conseguiu esconder a surpresa quando ela surgiu na porta do grande salão, os olhos movendo-se rapidamente enquanto ela tentava observar cada detalhe, encontrar qualquer rosto conhecido, e as mãos agarrando-se ao tecido do vestido – mais um motivo para as diversas expressões admiradas e bocas abertas. A moça engoliu em seco, seus olhos rapidamente reconhecendo o loiro do filho do Pai de Todos, que se aproximava dela com um sorriso no rosto.
- milady – disse Thor, fazendo uma breve reverência a ela, que retribuiu com um sorriso nervoso – me alegra muito tê-la conosco essa noite.
- Thor – respondeu, encontrando dificuldades em manter os olhos fixos nos azuis do príncipe de Asgard.
- Venha, entre – Thor lhe ofereceu a mão, e considerou recusá-la sentindo as próprias palmas suando diante o nervosismo, mas sabia que seria grosseiro não pegá-la, por isso a aceitou. Se Thor notou a umidade, ele fez um ótimo trabalho em fingir que não. – Devo dizer, milady, que escolheu a noite perfeita para se juntar a nós.
- É mesmo, e por que seria isso? – perguntou , tentando deixar o nervosismo de lado, principalmente por ver os outros a cumprimentando como se estivessem genuinamente felizes pela presença dela.
- Estamos fazendo uma surpresa ao meu irmão – disse Thor, e sentiu o sangue gelar, de todas as noites que sua mãe poderia ter escolhido...
- Loki? Por quê?
- É o aniversário dele, não que ele goste de comemorar – disse Thor, não parecendo culpado por forçar uma celebração no irmão, que também preferia ficar mais recluso, mas não tanto quanto . – milady se lembra de Sif, acredito.
- , faz muito tempo – a morena sorriu para ela, sem saber ajudando a relaxar ainda mais.
- Realmente – concordou , sorrindo para a moça.
- Venha, querida – disse Sif, puxando a recém-chegada para longe dos braços de Thor. – Vamos colocar a conversa em dia.
agradeceu Thor pela recepção e depois acompanhou Sif, gostando de ter um rosto conhecido, alguém com quem costumava ter uma boa amizade quando ainda era sociável. A morena não lhe fez perguntas sobre seu sumiço, ao contrário, começou a lhe contar de tudo o que havia acontecido nos últimos anos e como estava treinando para se tornar uma guerreira, junto com Thor e os demais rapazes. Como não tinha muito o que falar, apenas escutou, tecendo alguns comentários aqui e ali diante alguma história da morena.
A todo momento, seus olhos percorriam o salão, à espera de um certo conjunto de olhos verdes e cabelos negros como a noite, mesmo sabendo que sua chegada seria anunciada com antecedência para que todos se preparassem para o momento de surpresa. Talvez aproveitasse aquela oportunidade para se afastar e se retirar do banquete. Sif notava os olhos ansiosos da loira a seu lado, mas preferiu manter-se calada. Já fazia muito tempo que ela desconfiava dos verdadeiros motivos para a loira se afastar, e a ansiedade que ela apresentava só servia para confirmar suas suspeitas.
Sif estava no meio de uma das suas inúmeras histórias quando um dos guardas chegou, anunciando que Loki se aproximava. engoliu em seco, querendo escapar, mas sabendo que não seria educado com a morena se a abandonasse. Mas logo suspirando aliviada quando Sif a segurou pela mão e a levou para um canto mais afastado, ela própria justificando que não era muito amiga do irmão de Thor e que estava ali apenas pela festa. No meio de sua justificativa, deixou de escutar o que a morena dizia, sua atenção imediatamente sendo roubada pelo moreno que entrava no salão, dando um sorriso discreto diante as diversas congratulações que recebia por seu dia.
Ele estava deslumbrante, os cabelos negros penteados para trás, as vestimentas formais que pareciam combinar com o vestido que ela usava, já que constituía de um conjunto verde escuro, quase negro, e alguns detalhes em prata. engoliu em seco, não fosse o tempo afastada e a falta de convívio com o resto da corte, muitas pessoas poderiam alegar que os dois haviam se vestido como um casal. Até mesmo Sif notou a semelhança, sua observação sendo captada pela loira, apesar de ela não ter demonstrado qualquer reação. Não bastasse ter voltado a socializar no dia do aniversário de sua paixão platônica, ainda tinha que estar vestida como se tivessem combinado de antemão. Ela tinha que ter uma séria conversa com sua mãe mais tarde.
Pelo resto da festa, conseguiu se manter afastada de Loki, aproveitando das amizades que Sif tinha para interagir com os demais convidados, mas sempre conseguindo escapar quando percebia a aproximação do irmão de Thor. Apesar de fugir dele, seus atos a contradiziam, já que a todo momento seus olhos o buscavam, sempre deixando-a sem fôlego quando o via no meio de uma risada ou dando mais um de seus sorrisos misteriosos e irônicos.
- Vai fugir de mim até quando? – A voz a sobressaltou, fazendo-a derramar um pouco do conteúdo em seu copo, felizmente não atingindo o vestido. Fazia tanto tempo desde a última vez que a ouvira, mas a reconheceria em qualquer lugar, em qualquer tempo. se virou, sentindo o coração acelerar instantaneamente ao encontrar os olhos verdes a encarando sem pudor algum, observando-a dos pés à cabeça e lançando mais um de seus sorrisos. – Você parece surpresa... Realmente achou que eu não viria atrás do meu par?
- Par?
- Estamos combinando – observou Loki, diversão em seus olhos e sua expressão. – Me sinto honrado.
- Me mate agora – murmurou ela, fazendo uma nota ainda mais importante de ter uma séria conversa com sua mãe. – Parecia justo, já que é uma comemoração ao seu aniversário.
- Devo confessar, foi um retorno triunfal o seu.
- Triunfal? Não acho que seja para tanto – riu, sentindo o rosto esquentar. – Inclusive, feliz aniversário, alteza...
- Ah, , você sabe que não precisa dessas cortesias – Loki dispensou a forma de tratamento dela como se fosse uma mosca irritante. Algo atrás dela chamou a atenção do moreno e ele pareceu levemente irritado. – Gostaria de poder continuar e conversar com você, mas minha presença é exigida pelo meu irmão. Espero que continue aproveitando a festa.
- Obrigada.
queria se encostar na pilastra mais próxima, ou até mesmo na mesa, mas sabia que chamaria muita atenção, mais do que gostaria. Suas pernas estavam fracas e seu coração parecia incapaz de diminuir o ritmo de suas batidas. Parecia irreal que Loki a havia considerado um par pela forma como eles haviam se vestido. Anos atrás, aquilo seria seu sonho se tornando realidade, agora era apenas mais uma confirmação dos motivos para ela permanecer afastada. Porém, ao mesmo tempo, era um sinal para ela permanecer ali, apenas admirando-o e conseguindo imaginar que aquele apelido que lhe fora dado era fruto de alguma brincadeira ou piada interna entre os irmãos.

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Discutir com sua mãe foi inútil, a mulher pareceu se animar ainda mais com a narrativa da filha no banquete em homenagem ao aniversário de Loki, e não deixou a loira desanimar com os próximos que vieram, sempre abusando da vantagem que tinha ao dar um novo vestido à filha e sabendo que ela era incapaz de dizer não. Em poucos meses, tinha preenchido todos os espaços de seu guarda-roupa que ela levara anos para esvaziar. E também havia se embrenhando ainda mais no círculo social da corte e, principalmente, reavivado a amizade que uma vez tivera com Thor. Quando crianças, ela e o loiro costumavam correr juntos pelos corredores do castelo nas mais diversas brincadeiras. Vez ou outra, Loki se juntava a eles, mas o moreno sempre fora mais recluso, preferindo ficar lendo a se juntar aos dois loiros. As mães de ambos costumavam brincar que um dia e Thor seriam um casal e se casariam, mas aquele nunca foi o plano dos dois, sempre se enxergando apenas como amigos. Nunca se importaram em tentar incluir Loki nos planos, entretanto.
- , que prazer vê-la! – Thor a cumprimentou quando ela surgiu à porta, usando um vestido rosa escuro com detalhes em dourado, que parecia com a cor dos cabelos dela, nessa noite, presos em um alto rabo de cavalo.
- Achou que eu não fosse vir? – perguntou a moça, sorrindo quando o loiro lhe ofereceu a mão para ajudá-la a descer os degraus. Ela estava aliviada por ele finalmente ter perdido o tratamento formal, a incentivando a perder o seu também, ambos voltando a como eram antes do afastamento dela.
- Sempre há dúvidas quando meu irmão está na lista de convidados – observou Thor, sorrindo para ela sem esconder que sabia de como a loira se sentia perto do moreno. sentiu o rosto esquentando, abaixando a cabeça para tentar disfarçar, mas falhando miseravelmente por ter seus cachos presos e, assim, perdendo a cortina loira que poderia escondê-la. – Nunca sei se vai voltar a fugir de nós ou...
- Fugir de vocês? – franziu o cenho, parando o caminhar e olhando para Thor. Próxima a ele, a mulher percebia como era baixinha, tendo que inclinar sua cabeça para trás para conseguir olhar seu rosto. – Thor, eu não...
- Eu sei, , é apenas uma forma de dizer – observou o loiro, parecendo culpado diante a possibilidade de ter ofendido a mulher.
- Desculpe – disse ela, sabendo que ele havia entendido o que ela planejava.
- Eu também – disse Thor, deixando-a confusa. – Pelo meu irmão.
- E o que eu fiz agora? – A voz de Loki surgiu atrás do loiro, fazendo arregalar os olhos e apertar a mão do loiro em reflexo.
Ele estava belo como sempre, usando negro dos pés à cabeça, os olhos verdes parecendo brilhar ao notar ao lado do irmão, uma sombra passando rapidamente ao perceber as mãos entrelaçadas deles. notou, soltando rapidamente a mão de Thor, notando a forma tensa que ele ficou também ao notar a reação do irmão àquele simples toque. A sombra passou rapidamente, entretanto, e Loki logo voltou seu olhar para o rosto de , dando mais um de seus sorrisos irônicos.
- Lady – disse ele, a voz baixa e aveludada causando arrepios no corpo dela, que agradeceu por estar usando um vestido de mangas longas para esconder os pelos arrepiados.
- Loki – respondeu ela, dando um sorriso breve e singelo, dobrando levemente os joelhos, já que com ele não conseguira largar completamente a cortesia. Não que ele parecesse se importar, um brilho diferente sempre preenchendo seus olhos quando a via se dirigindo a ele.
- Está belíssima essa noite, milady – acrescentou ele, seus olhos passeando por seu corpo lentamente, sem vergonha alguma, e sem se importar com o vermelho que subiu pelo rosto dela. Thor pigarreou levemente, chamando a atenção do irmão. – Ah, sim, belíssima... Espero ter o prazer de dançar com você esta noite.
- Claro, como desejar – disse ela, não conseguindo impedir seus olhos de se arregalarem em surpresa com o convite inesperado.
Durante todos os demais banquetes ao qual comparecera, Loki sempre mantivera uma distância segura dela, falando com quando estavam no mesmo círculo de amigos e só quando se dirigia diretamente a algo que ela havia falado, fora isso, ambos apenas trocavam alguns olhares, quando ela cometia o erro de se deixar ser pega. Os pensamentos com o moreno haviam se tornado mais constantes desde aquele primeiro banquete, o do aniversário dele. Ela tentava se distrair com livros, ou passando os dias acompanhando o treinamento dos demais, vez ou outra pedindo para Thor lhe ensinar algo, mas sempre rindo mais do que aprendendo algo. Porém, por mais que ela mantivesse seus dias ocupados, e sua mente também, Loki sempre achava uma forma de voltar a dominar seus pensamentos, fosse por sua própria imaginação, ou por sua aparição repentina em algum local onde ela estivesse.
Ela não sabia se ela o atraia, ou se ele a atraia, porque era ridícula a quantidade de vezes que eles se encontravam nos dias. também sabia que ela era em parte culpada pela presença constante do moreno nos banquetes, um comentário feito pelo próprio Thor ao observar a chegada repentina do irmão no último que ocorrera, já que o moreno havia garantido que não participaria do evento. E quando os olhos verdes de Loki escanearam a sala a procura dos âmbar de , o loiro sorriu e soltou seu comentário, fazendo a mulher corar fortemente, apesar de acreditar que fosse apenas um exagero de Thor.
De qualquer forma, independente de quem atraia quem, lá estavam eles aproximando-se lentamente do meio do salão, onde algumas pessoas dançavam, a mão de Loki firme na dela, e depois posicionando-se com delicadeza e precisão ao mesmo tempo em sua cintura. engoliu em seco antes de depositar sua mão no ombro do moreno, reunindo coragem para levantar o olhar e encontrar o esverdeado dele, que ela não tinha dúvidas de que a encarava com intensidade. Loki a guiava pelo espaço com maestria, os dois mais parecendo flutuar do que dançar, movendo-se em sincronia como se o fizessem há anos. Era quase irônico, a primeira vez que voltaram a se encontrar, estavam vestidos como um casal, e agora dançavam pelo salão com a sincronia e química de duas pessoas juntas há anos.
- Um corvo me diz que seu aniversário está chegando – comentou Loki em determinado momento, sua voz baixa e suave. Seus olhos curiosos, provavelmente se questionando porque não soubera daquele fato por ela.
- Sim, em alguns dias – confirmou ela, sorrindo sem graça, ciente dos olhares que ambos recebiam.
- Receberei um convite para a festa? – perguntou Loki, parecendo genuinamente curioso.
- Por que não espera o corvo chegar para confirmar? – brincou , gostando de ver a forma como seus olhos brilharam ainda mais com a brincadeira dela. Loki sabia como ela se sentia desconfortável às vezes quando estava próxima a ele, e naqueles momentos em que soltava alguma piada ou brincadeira em relação a ele o divertiam mais do que seria considerado normal.
- Aguardarei ansiosamente – disse ele. – Espero recebe-lo, seria um desperdício não poder lhe entregar seu presente.
- Presente? – parou rapidamente no meio do movimento, seus olhos se arregalando, o sorriso divertido dele deixando-a ainda mais inquieta. – Loki, você não... Não está falando sério, está?
- Se eu receber um corvo, você saberá – respondeu ele, soltando a mão e a cintura dela, fazendo uma leve reverência. – Obrigado pela dança, milady. Espero que possamos fazer isso outra vez. Talvez no seu aniversário?
o viu se afastando, seus olhos não o perdendo de vista mesmo quando ele passou por um grande grupo de convidados do banquete. Só quando ele saiu do salão, ela amaldiçoou por não conseguir enxergar através das paredes. As pessoas se moviam ao redor dela, mas não conseguia se mover, sua mente ainda girando diante a expectativa de receber um presente de ninguém menos que Loki Laufeyson. Ele estava em sua lista de convidados, era claro, sua mãe nem mesmo a havia lhe dado a chance de aquilo não ocorrer. E caso não estivesse, agora estaria, porque era curiosa e apaixonada por presentes. Só a ideia de receber um presente de Loki já a deixava no limite da ansiedade.

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As semanas que se seguiram até o aniversário dela passaram num piscar de olhos, mas para elas não poderiam ter demorado mais, já que sua ansiedade estava no auge diante a expectativa de ganhar um presente de Loki. Desde aquele banquete, ele não comparecera a mais nenhum.
Frigga, a rainha, havia feito questão de ceder o grande salão de festas do palácio para que a festa da mulher ocorresse. A rainha estava muito feliz pelo retorno de à corte, sempre tendo muito apreço pela mais nova e gostando da influência boa que ela parecia ter em seus filhos. Dahlia juntou forças com a rainha e, juntas, planejaram o aniversário dos sonhos de . Tudo fora organizado com o refinado gosto que as duas possuíam, os enfeites pareciam ser feitos do mesmo material que a Bifrost, e a luz refletia em cada detalhe deixando o salão com uma aura ainda mais exuberante do que já estava.
Naquela manhã, recebeu um pacote do guarda real, alegando ser um presente da “família real” – o que a mulher interpretou como sendo um presente de Frigga somente, Odin, o pai de todos, não se importaria com um aniversário qualquer, não é? Ao abrir a caixa, ela se viu embasbacada com tanta beleza. A rainha havia lhe presenteado com um belo presente que, sem dúvidas, fora feito especialmente para aquela ocasião. O tecido era fino e delicado, levíssimo, extremamente caro e exclusivo da coroa, afinal ninguém em Asgard poderia comprar algo daquela qualidade. Preto como a noite, com os mais diversos detalhes coloridos e brilhantes, o vestido descia até os pés, com uma calda considerável. Uma faixa abaixo do busto imitava a Bifrost, o decote coração deixando seu colo nu, e as mangas curtas deixavam seus braços pálidos à mostra. normalmente preferia usar os vestidos com mangas longas, mas a rainha havia lhe dado aquele presente. Ela não lhe faria uma desfeita daquelas.
Mais tarde, sua mãe viera para lhe dar um sapato que combinava. Com certeza as duas haviam se juntado para aquele presente. Dahlia e Harold lhe deram livros e joias, que ela não conseguiu usar naquela noite por achar que só o vestido seria o suficiente. Havia tanto brilho nele, ela não precisava de mais. Seus cabelos dourados pareciam brilhar mais também, principalmente com ela acrescentando alguns enfeites prateados para prender as laterais e deixar todo o resto caindo em cascata – era seu penteado favorito, sempre gostando de deixar à mostra o longo cabelo. Os olhos estavam, como sempre, com uma maquiagem leve e discreta. sentia que já estaria chamando atenção demais por ser a aniversariante, estar celebrando no salão real, e ainda estar usando um vestido como aquele. Não fosse a óbvia falta de química entre ela e Thor, todos poderiam dizer que aquilo se tratava de uma festa de noivado, na verdade.

O salão estava cheio. O cheiro do banquete se espalhava e se misturava aos perfumes dos convidados. O som das conversas era invadido pela música que tocava ao fundo. já havia recebido todos seus convidados, sorrido para todos e feito uma pequena viagem pelo salão a fim de conversar em todas as rodinhas que havia. As pessoas riam e elogiavam a belíssima decoração, ela apenas sorria e agradecia, dando todos os créditos à sua mãe e Frigga. Seu vestido, claro, era um espetáculo à parte e já havia até mesmo se cansado de agradecer a todos pelos elogios.
Quando Thor chegara, ela não conseguiu esconder a decepção por ver que ele estava sozinho. O loiro sorriu e lhe deu um abraço de urso, lhe parabenizando e logo depois riu divertido ao notar os olhos da mulher procurando por algo atrás dele.
- Ele virá, – garantiu o rapaz, rindo divertido ao ver a mulher corando fortemente. – Honestamente, estou surpreso por não ter sido o primeiro a chegar.
Aquilo a fez rir, e logo ela e Thor passeavam de braços dados pelo salão, enquanto ele narrava os acontecimentos que ela havia perdido naquele dia e aliviava a tensão que havia se instalado em seus ombros sem que percebesse. A presença de Thor era natural, e a relaxava. O loiro era divertido, sempre com uma história para contar ou um conselho para dar. Possuía uma paciência que ninguém acreditaria caso contasse, pelo menos com ela. Era o irmão mais velho que ela sempre quisera ter e seus pais nunca conseguiram dar.
Já era tarde da noite quando conseguiu se afastar de tudo aquilo e se escondeu na sacada do salão. As estrelas brilhavam no céu, e a Bifrost, ao longe, iluminava o mar que passava sob ela. adorava aquela paisagem, só a imagem da ponte era o suficiente para deixa-la sorrindo, mas todo o conjunto da obra era ainda mais encantador. Quando criança, ela gostava de desenhar, e mais da metade de seus desenhos eram compostos por aquela paisagem. Não havia nada mais belo, com exceção, talvez, do que a visão do palácio quando se vem andando pela ponte do arco-íris.
- Por que tão só, milady? – A voz fez com que ela se sobressaltasse e seu coração perdeu uma batida.
Com lentidão, se virou para encarar aquele que estivera esperando por toda a noite, mas não aparecera. De alguma forma, ela conseguiu esconder seu descontentamento pela demora do moreno, lhe dando um sorriso educado e fazendo uma breve reverência, mesmo percebendo que Loki havia ficado sem palavras com a visão dela. O vestido preto a deixava ainda mais pálida, os cabelos loiros brilhavam parecendo criar um halo a sua volta, e os brilhos do vestido a deixavam mais parecida ainda com uma figura divina.
- Peço perdão pelo meu atraso – disse ele. Sua voz era macia como o veludo e deixava se sentindo como se pudesse voar.
Ele estava esplêndido também, a mulher notou. Como sempre e sem surpresas, vestindo preto dos pés à cabeça. Os detalhes, porém, dessa vez eram em dourado, no exato tom do cabelo dela, percebeu. Parecia irônico, haviam se reencontrado no aniversário dele, no qual ela vestiu as cores do homem. Agora estavam no aniversário dela, e Loki lhe retornava a homenagem. Havia um lenço descendo pelos seus ombros, em preto com linhas intricadas em dourado, e seus olhos verdes brilhavam com maior destaque devido ao vestuário. Os longos cabelos escuros estavam penteados para trás, apenas uma fina mecha ousando se separar daquela perfeição e caindo por sobre um dos olhos.
- Mas trago presentes – disse ele, logo mexendo nos bolsos do casaco que usava e puxando um embrulho, que ele rapidamente estendeu a ela.
encarava o embrulho que lhe fora ofertado com espanto. Temendo passar a impressão errada, ela o pegou, seus dedos levemente trêmulos tocando os gélidos de Loki, uma leve onda de choque se espalhando pela região e um pouco além. Os olhos âmbar buscaram os verdes do Deus a sua frente, reconhecendo uma nota ínfima de incerteza, enquanto o resto era a confiança típica, misturada ao mistério. O sorriso discreto e irônico mantinha nos lábios do rapaz a sua frente.
- Você está me dando um presente? – perguntou incerta, voltando o olhar para a caixinha em sua mão. Como tudo referente a Loki, a caixinha estava envolta por um pedaço de papel fino e delicado preto como a noite, e fechada por uma fita verde com bordas douradas. Ela sequer havia respondido os outros comentários dele, presa demais em seus próprios pensamentos e observações. Ela agradeceu, entretanto, por sua voz ter saído firme apesar de sua dúvida.
- É o costume, não é? Dar presentes em aniversários. – A voz de Loki, como sempre, pareceu penetrar sua pele, espalhando leve ondas de calor por seu corpo. O tom suave e aveludado, e cada palavra, cada frase, mesmo a mais simples, cuidadosamente calculada. – Além disso, eu disse que lhe daria um presente.
Ele olhou para a caixa e depois para ela, arqueando a sobrancelha, convidando-a a abrir. Sua mãe a havia orientado a abrir os presentes somente após o fim da festa, de preferência ainda no dia seguinte. Mas era Loki, filho do Pai de Todos, e eles estavam sozinhos, não havia como negar aquele simples pedido. Respirando fundo para tentar controlar a tremedeira em suas mãos, ela enfim desfez o laço, mantendo a fita na mão enquanto desembrulhava a caixinha. Era uma caixa pequena e delicada, preta com padrões em verde metálico. achou que fosse apenas uma pegadinha de seus olhos, mas vez ou outra ela conseguia reconhecer a letra “L” nos padrões. Seu tamanho não deixava muitas dúvidas quanto ao que poderia ser seu conteúdo – era uma joia. , porém, não estava preparada para o que ela encontrou.
O conjunto era fino, delicado e, ao mesmo tempo, extravagante. O anel prata descansava na almofada, a luz refletindo na pedra lapidada que parecia a Bifrost, as cores do arco-íris reluzindo de acordo com o movimento que fazia com a mão, era acompanhado de um colar, com fio também prateado, e com a pedra lapidada no mesmo estilo, porém maior – não passando despercebido por ela que o verde ganhava mais destaque. Era sua cor favorita, mas também era a cor dele.
- Loki, isso é... – Ela levantou os olhos para ele, o tom verde tão igual ao da pedra em seu colar. – Eu não posso aceitar.
Loki não respondeu, sua expressão não se alterando diante a tentativa de recusa dela. O rapaz desviou seu olhar do rosto dela, algo extremamente difícil, já que ela parecia ainda mais bela naquele dia do que em qualquer outro, e fixou na caixa, sua mão se levantando para que ele pudesse pegar o colar que repousava no tecido macio e brilhante. Ainda sem dizer nada, ele a contornou, notando-a curiosa e inquieta, e posicionou o colar ao redor do pescoço dela, afastando os fios dourados para facilitar seus atos, seus dedos roçaram sua nuca quando ele fechou a joia, um sorriso surgindo em seu rosto ao notar a região se arrepiando. Quando voltou a ficar de frente para ela, Loki analisou toda a extensão do pescoço dela, até chegar ao pingente com a pedra, que repousava em seu colo, um pouco acima do decote do vestido que ela usava.
- Perfeito – disse ele, afastando as mechas de cabelo e voltando-as para onde estavam antes da intromissão dele. A mão dela subiu para tocar a pedra, sentindo como se a mesma queimasse sua pele, da mesma forma que os dedos dele pareceram queimar quando roçaram em sua nuca. – Feliz aniversário, .
Ele estava tão próximo que era quase errado, se alguém os visse naquela situação, levantaria muitas interpretações errôneas sobre a situação na qual se encontravam, ou não. Os olhos dele focaram nos dela, âmbar encontrando verde, a cabeça dela levemente inclinada para cima, agradecendo à sandália de salto alto por deixa-la em uma altura quase igual à do moreno. Bastava um simples movimento, a distância entre eles era ínfima, os lábios de ambos tão atraentes para o outro, os olhos já haviam se conectado, faltava o resto dos corpos. E aquele problema parecia estar se resolvendo, percebendo como as íris verdes ficavam mais próximas às suas. Loki só desviou seus olhos dos âmbar dela para olhar os lábios dela, tão vermelhos e convidativos. Estavam tão próximos que ela quase conseguia senti-los se tocando levemente, um roçar tão delicado como o toque da asa de uma borboleta. Seu coração batia com força, como se quisesse impulsioná-la para frente, eliminar de vez aquela distância. Mas o contato nunca ocorreu, um barulho alto de gritos e o que parecia algo caindo foi ouvido dentro do local onde a festa ocorria e eles se afastaram. Loki virando a cabeça para trás, como se quisesse amaldiçoar quem os havia interrompido, enquanto fechava os olhos e suspirava com certo alívio. Beijar Loki era algo que ela definitivamente queria, porém, paradoxalmente, ela também desejava não fazê-lo, consciente de que quando o fizesse, seria um caminho sem volta.
Ela mal teve tempo de reagir, o agradecimento pelo presente preso em sua garganta, antes dele se virar e começar a se afastar. Loki não viera a sua festa, apesar de ter se vestido para o evento, ele aparecera somente para lhe ver e entregar o presente. não ficou surpresa pela ausência do rapaz, sabendo que quando fizera o convite a ele, era apenas uma cortesia e que ele muito educadamente recusaria. Da mesma forma que apareceu, ele sumiu, em uma piscada mais longa que dera, o Deus não estava mais a vista, a única prova de que ele estivera realmente ali era a caixinha em sua mão e seu coração batendo acelerado.

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O último ano havia sido uma loucura. mal conseguia acreditar que tantas coisas podiam mudar em tão pouco tempo. Sua proximidade com Thor e o resto de sua família era algo que se encaixava nessa mudança. Anos atrás, quando se afastou, ela achou que nunca mais conseguiria voltar a se aproximar do filho de Odin e reconstruir a amizade que eles tinham, e como estava errada. Não só ela e Thor voltaram a ficar próximos, como até mesmo ela e o irmão do loiro.
Seu aniversário estava vivo em sua mente, principalmente o momento em que Loki a encontrara sozinha e aproveitara para lhe entregar seu presente. Presente esse que ela não conseguia tirar do pescoço ou do dedo. Poucas pessoas sabiam de onde o presente havia vindo, basicamente somente sua mãe, Thor e, claro, quem lhe presenteou. O loiro sempre sorria quando a via usando a joia, parecendo aprovar a relação entre ela e o irmão, porém sempre com aquela sombra de preocupação diante a forma de agir de Loki. Eles ainda eram jovens, mas a diferença entre os dois irmãos já era bem grande.
havia se acostumado, nos últimos meses, a entrar no castelo e passar boas horas na biblioteca, visto que o acervo de Odin era o maior que existia. Vez ou outra, ela se aventurava pela Bifrost, apenas para apreciar o sol irradiando na ponte e ela espalhando diversos espectros pelo mar abaixo dela. Algumas vezes, Heimdall vinha para lhe fazer companhia, e ela adorava conversar com o vigia e ouvir suas notas de sabedoria. Naquela tarde, ela fazia seu caminho para a Bifrost quando sentiu que alguém a acompanhava. Ela deu um sorriso de lado, mantendo seus passos no mesmo ritmo, mas sentindo seu coração dando uma batida mais forte, a lembrança de seu aniversário e do que havia quase ocorrido entre eles voltando à sua mente.
- Ele não está lá – a voz aveludada, que ela reconheceria em qualquer lugar, disse atrás dela, mais próxima do que havia imaginado.
- E por que você acha que eu estou procurando alguém? – perguntou ela, uma nota de diversão em sua voz. Os dedos gélidos de Loki envolveram seu braço e a fizeram parar. Eles estavam na metade da Bifrost, o sol brilhando no alto e fazendo a própria ponte brilhar, fazendo o verde dos olhos dele mais intenso, quase como um reflexo do mar abaixo deles. Loki tinha uma resposta pronta na ponta da língua, mas assim que ela se virou e algo em seu pescoço emitiu um leve reluzir, seus olhos desviaram do rosto dela e focaram em seu colo, onde a pedra repousava. O moreno sorriu, a mão dela que estava erguida sendo seu próximo alvo, parecendo agradá-lo ainda mais ao ver que o anel também estava ali. – Gosta do que vê?
- Muito, milady – disse ele, voltando a olhar diretamente nos olhos dela, perdendo-se naquele âmbar tão único e cativante, ele se via enxergando-o a cada momento que fechava os olhos. Loki sorriu de lado, seu polegar inconscientemente acariciando o braço dela, sentindo-a estremecer levemente com a carícia repentina.
- Não te vi nos últimos banquetes – observou ela, arrependendo-se logo em seguida ao perceber o sorriso divertido nos lábios do moreno. Ela sabia como aquilo poderia soar.
- Perdão, milady – Loki levantou a mão livre para afastar um cacho loiro que estava preso no pescoço dela. – Estive ocupado. Sentiu minha falta?
- Você me prometeu uma dança – lembrou ela – e sumiu no meu aniversário.
- Mais uma vez, eu peço desculpas – Loki acenou brevemente, virando-se para oferecer que continuassem a caminhada pela ponte.
Ele vinha observando-a, mesmo que ela não o visse, ele conhecia as manias dela, a forma como ela gostava de se posicionar na metade exata da ponte e observar o mar e a forma como o sol refletia nele. A caminhada não durou muito, porém Loki fez uma pequena mudança, deixando-os encarando o lugar oposto ao qual ela geralmente ficava admirando. Não que parecesse se incomodar, acompanhando-o de bom grado.
Todos os dias em Asgard eram ensolarados, iguais, mas naquele dia algo parecia diferente. tentou se sentar na ponte, como sempre o fazia, mas a mão fria de Loki a impediu. O homem a segurou com delicadeza, a trazendo para perto dele. Seus olhos verdes a encarando e um sorriso brincando em seus lábios. A mão livre tocou sua cintura, trazendo-a para perto, enquanto a outra desceu pelo braço de até que conseguisse entrelaçar seus dedos aos dela. A mulher o encarou com dúvida, entendendo, mas não compreendendo o que ele pretendia.
- Me dá a honra de uma dança, milady? – perguntou ele, sua voz um pouco mais alta que um sussurro.
- Não há música – observou ela, a boca seca diante aquele convite. Apesar do empecilho apresentado, ela colocou sua mão livre no ombro dele.
- Com você, a música é apenas um detalhe – disse ele, antes de começar a se mover pela ponte.
agradeceu por ele não fazer muita questão de uma resposta, pois não teria o que responder. Ela o acompanhou sem qualquer dificuldade, lembrando-se do aniversário dele e da forma como se moveram pelo salão. Nada havia mudado, apesar da distância recente dele. Era como se flutuassem pela Bifrost, o sol brilhando e o mar correndo abaixo deles. Os olhos de Loki não se desgrudavam dos âmbar de , e ela não conseguia parar de admirá-lo sob a luz dourada. A forma como o cabelo dele brilhava e contrastava com sua pele pálida. Os lábios finos sempre desenhados em um sorriso divertido, eram hipnotizantes e convidativos. Por isso não se sentiu mal ao parar gradativamente de dançar, seus olhos se desviando para a linha fina, agora comprimida e não mais presa em um sorriso.
Ela sonhava por aquele toque há tanto tempo e fugira dele por mais tempo ainda, e de repente não conseguia mais imaginar como ou por que fizera aquilo. Sim, Loki exalava perigo, mas que relação não a fazia se sentir assim? Eram dois adultos, ou se encaminhando para isso, estava na hora de encarar seus medos e lidar com o óbvio que vinha pairando sobre eles desde a adolescência. eliminava a distância, da mesma forma que ele o fizera em seu aniversário, mas antes que conseguisse atingir o mesmo ponto em que ele havia parado, Loki a fez parar e se soltou dela, pretendendo se afastar dela e ir embora dali. Havia sido um erro, pensava ele.
- Eu sei o que está fazendo – disse ela, não permitindo que ele se afastasse ao segurar o braço dele. Loki parou, virando a cabeça para o lado.
- E o que eu estou fazendo? – perguntou ele, o aperto em seu braço fazendo-o se virar para ela.
- Me mantendo afastada – disse , aproximando-se um pouco mais dele, notando o verde em seus olhos endurecer, ficar mais firme. – Não está funcionando.
- Não é...
- Seguro? Certo? Verdade? – ela tentou finalizar a fala dele, mais em um sinal de que não o deixaria fugir daquela vez do que para tentar chegar a alguma conclusão. – Por que negar, Loki?
- Eu...
- Você também sente, eu sei – disse ela, sua mão livre subindo para o rosto dele.
Loki voltou a abrir a boca para tentar inutilmente afastá-la outra vez, mas foi mais rápida, a estranha determinação apossando seu corpo e fazendo-a ficar na ponta dos pés para eliminar de vez a distância entre seus lábios. Fazendo os seus colidirem com força contra os do moreno. Loki não se moveu, deixando-a manter o contato, mesmo contra sua vontade saboreando o mel que parecia ser os lábios dela, a maciez e delicadeza com a qual ela acariciava os seus. Loki fechou os olhos, deixando-a saborear o que ele lutou tanto para não ceder, sentindo a mão dela acariciar seu rosto, sua língua percorrendo os lábios dele, como se houvesse algo ali que ela tivesse gostado de saborear.
E rápido demais acabou, mas Loki ainda não estava preparado, e parecia saber disso, mesmo assim se afastou dele. O moreno reagiu rapidamente, seu braço contornando a cintura dela e trazendo-a para mais perto, o outro braço ainda preso no aperto dela, e os lábios que voltaram a se unir, dessa vez em um beijo mais aprofundado e menos delicado. Com Loki finalmente tomando para si aquilo que tanto desejava e do qual tanto tentara fugir. O toque dela era delicado, mas faminto, combinando com o dele, que era mais agressivo, e seu gosto era o mais puro mel, como se os olhos dela derretessem e descessem para os lábios. suspirou ao sentir o aperto dele firme em sua cintura, soltando o ar dentro da boca dele, o que pareceu acender algo ainda mais intenso dentro do moreno, que eliminou de vez a distância entre os corpos deles. se arriscou, subindo a mão que estava fixa no braço dele para o rosto, e seguindo até alcançar as mechas morenas.
Fazia muito tempo que ela sonhava em fazer aquilo, imaginava como seria tocar aquela cascata negra como o céu sem estrelas. E não se desapontou, os fios eram macios e finos, como se tocasse a água, e escorriam até a altura do ombro dele. Embrenhar os dedos entre os fios era como tocar as nuvens, o toque parecia não existir de tão sedosos que eram. E achou aquilo extasiante. Viciante. Assim como seu dono, assim como aquele beijo. Ela não queria deixar de tocá-lo, beijá-lo, senti-lo... Seu aperto firme em sua cintura, sua língua acariciando a sua, seus lábios a saboreando como se ela fosse a fruta mais deliciosa que havia provado.
Eles se afastaram quando a necessidade de oxigênio se tornou maior que a necessidade de continuarem ali, algo que ambos não acharam ser possível, mas era. E mesmo quando se afastaram, mantiveram as testas unidas, os olhos ainda fechados, ambos sentindo o calor do sol que começava a se pôr no horizonte acariciando seus rostos. não conseguia parar de passar a língua pelos lábios, como se quisesse aproveitar cada última gota do sabor de Loki.
- Isso foi... – Loki quebrou o silêncio, apesar de sua voz soar tão baixa que parecia não afetar o silêncio.
- In...
- Errado – Loki a interrompeu, fazendo-a abrir os olhos e encará-lo, se enfurecendo ao ver que os dele permaneciam fechados. se afastou, quebrando de vez o clima entre eles e forçando-o a abrir os olhos, apenas para a ver do lado oposto da ponte, tão próxima a beirada que Loki temeu que ela fosse fazer algo. – .
- Vai embora – disse ela, sua voz fria e cortante.
Loki a olhou, arrependimento claro em seu rosto, mas ao mesmo tempo sem senti-lo de fato. Ele se arrependia por ter cedido e beijá-la como o fez, apesar de não se arrepender do beijo. Era mais por ter se deixado levar, deixa-la ver o poder que tinha sobre ele. E agora ela o afastava, e Loki não podia culpa-la realmente. Loki tentou se aproximar mais um pouco, mas pareceu ter escutado e virou o rosto rapidamente, voltando a repetir a ordem que dera antes. Loki engoliu em seco, abaixando a cabeça e começando a se afastar.

Capítulo 2

Some people lie but they're looking for magic
Others are quietly going insane

Asgard inteira estava em festa. Após anos, finalmente Odin havia anunciado a coroação de Thor e todos estavam animados... Bem, quase todos. Enquanto os empregados do castelo organizavam o grande banquete e decoravam o salão do trono para a coroação, andava pela corte analisando cada detalhe. Ela havia passado a gostar das festas do reino, e adorava ainda mais observar a decoração sendo feita. Naquele dia, entretanto, ela estava tensa, sabendo que nem todos estavam felizes com aquele acontecimento. Por isso, seus olhos percorriam cada espaço disponível à procura da capa verde e dos cabelos negros.
Ela sabia que havia certa competição entre os dois irmãos, e aquele sentimento só havia crescido com a proximidade da decisão do Pai de Todos. Para Thor não fazia diferença, não havia dúvidas para ninguém que ele seria o escolhido a carregar o martelo, Mjölnir, e que Loki, mais uma vez, ficaria de escanteio, sempre em segundo lugar. Aquilo não agradava em nada o moreno, que internamente se mordia com o sentimento de injustiça. Odin sempre dera a entender que ambos teriam tratamento igual, e ambos teriam a chance do trono, mas à medida em que iam crescendo, o discurso ia mudando lentamente.
- A festa começará em poucas horas, sabe. – Ela ouviu a voz dizer atrás dela quando se apoiou em uma das varandas que dava vista para todo o reino. O sol refletindo no castelo com grande intensidade, deixando toda Asgard num tom dourado. sorriu, mesmo sabendo que não deveria. – Não que você precise de muita preparação. – Aquilo fez o sorriso sumir do rosto dela, a mulher abaixando a cabeça enquanto sentia-o se aproximando. A lembrança daquele beijo, que havia ocorrido anos atrás, ainda viva em sua mente como se tivesse acontecido dias atrás. Agora ela se sentia idiota.
- Estava procurando por você – confessou, levantando a cabeça para olhá-lo ao seu lado.
- Preocupada? – Ele sorriu de lado, sabendo que ela mais do que ninguém sabia o que acontecia dentro dele. Mesmo depois dele tentar afastá-la a todo custo após aquele beijo, ainda tinha aquele incrível poder de conseguir lê-lo sem dificuldade alguma.
- Eu aprendi minha lição, Loki – disse ela, rindo sem humor algum, notando com certo prazer como aquela sentença pareceu machucá-lo. – Quero apenas garantir que você não fará nada para estragar o dia.
- Ah, certo... O precioso dia do Thor – disse ele. O rosto se fechou e seus olhos verdes pareceram endurecer diante a fala da mulher a sua frente. Machucava mais do que qualquer coisa vê-la contra ele, mas Loki sabia que nunca seria digno de tê-la, por mais que a quisesse. E por mais que ele fosse egoísta, algo dentro dele o impedia de ser assim com ela. – Não se preocupe, milady, Thor terá o dia que merece.
quis engolir em seco com o tom frio de Loki, mas conseguiu se controlar. Ela sabia que o segredo com ele era não mostrar fraqueza, ou qualquer sentimento. Mas ela não conseguia controlar o arrepio que percorreu sua espinha ao sentir aquela frieza, que tomou seu corpo, como se tudo tivesse congelado. Ela olhou rapidamente para o moreno antes de assentir e começar a se afastar. Sentindo-o hesitar atrás dela, mas nada dizendo.
Mas era claro que algo tinha que acontecer para arruinar o dia. Assim que Odin interrompeu o juramento de Thor e seu corpo tencionou antes de anunciar a presença dos Gigantes de Gelo, olhou para Loki, notando a frieza rígida no rosto dele. Nenhuma emoção perceptível. Todos entraram em pânico imediatamente, parando apenas quando o rei se pronunciou e pediu para todos se retirarem lentamente. não conseguiu se mexer, seus olhos não desviando do rosto de Loki e do mínimo sorriso que havia em seus lábios. Ele nem conseguia disfarçar. Ela se afastou minimamente para o lado quando Odin, Thor e Loki passaram para conferir o estrago que os Gigantes haviam feito. De seu local no altar do trono, Frigga olhou para a mulher, os olhos arregalados em um leve terror que ela tentava disfarçar com certa maestria. A loira se aproximou da mais jovem, um sorriso começando a surgir em seus lábios.
- Minha rainha – disse , levando a mão direita ao ombro em forma de respeito. – Sinto muito pelo que ocorreu.
- Ah, não sinta, querida – disse ela, tocando o rosto da mais jovem. – Você não tem nada que se desculpar. Inclusive, tem um tempo que venho querendo falar com você.
- Minha rainha?
- Meu filho acha que consegue esconder de mim o que sente – a moça sorria, e não precisou perguntar para saber sobre qual filho ela se referia. – Me agrada muito que ele finalmente tenha algo bom em sua vida. Talvez você possa ajudá-lo.
duvidava que aquilo fosse possível, mas não seria a pessoa a chamar a rainha de tola por acreditar na possível redenção de Loki. Era tarde demais para aquilo, Loki já havia se deixado consumir pela raiva e a inveja que sentia de Thor e do tratamento que recebia de Odin. A única coisa que conseguiu fazer foi assentir, pedindo licença antes de se afastar e se juntar a Sif e os demais rapazes.
Quando eles voltaram a se unir, foi para encontrar Thor e Loki no salão onde o banquete ocorreria após a coroação de Thor. A mesa de comida revirada e os dois irmãos sentados na escada. não gostou da forma como Loki estava em relação à Thor, sentindo uma nova onda de frio percorrer sua espinha ao conseguir reconhecer o suave sussurrar da voz de Loki, já mais do que acostumada àquilo pelas vezes em que ele fizera aquilo com ela. Quando se levantou, Thor chamou a atenção de todos, mas continuou olhando para Loki, notando a forma como ele se portava ao ouvir o discurso do loiro, motivando todos a se juntarem a ele na invasão a Jotunheim. estava assustada, ainda mais quando todos pareceram entrar em acordo com a ideia de Thor, eles não poderiam estar falando sério.
- Você desaprova – Thor olhou para a loira, aproximando-se dela.
- Não acho que uma guerra contra Jotunheim seja uma boa estratégia – confessou , era apenas meia-verdade, mas deveria ser o suficiente.
- Eles invadiram nossa casa, – argumentou Thor, e a loira sabia que seria impossível argumentar contra ele.
- Faça o que achar certo, Thor – disse ela, pedindo licença para se retirar do recinto, não deixando de lançar um olhar a Loki sabendo que ele a estaria olhando também.
assistiu de longe a partida dele, o brilho da Bifrost indicando a viagem entre os mundos. O último olhar de Loki em direção a ela ainda vivo em sua mente, batalhando por atenção com a decisão que ela estava em dúvida sobre tomar ou não. Seria odiada por Thor se ele descobrisse, mas também não queria correr o risco de perder seus amigos... Perder Loki, por mais que ele não merecesse aquela preocupação. Quando o brilho da ponte se apagou, assentiu, a decisão clara em sua mente, e ela virou às costas para a paisagem, voltando para dentro do castelo. Ela sabia que o Pai de Todos estaria na sala do trono repassando as medidas de segurança, havia escutado alguma discussão sobre aquilo enquanto Thor e os demais se preparavam para partir, e então foi para lá que seguiu.
Odin era intimidador para qualquer um, mas o conhecia desde criança, considerando-o um parente próximo, algo próximo a seu próprio pai, e por isso não se deixava intimidar pela pose imponente do rei, ainda mais quando ele não conseguia controlar a expressão de felicidade toda vez que a via. Quando ela entrou na sala do trono, ele terminava de dispensar os guardas, que começavam a se afastar, apenas um ficando para trás para questionar se a presença da mulher era permitida ou não, recebendo a aprovação do rei e permitindo a aproximação de .
- Meu rei – disse , repetindo o mesmo gesto que fizera a Frigga mais cedo.
- Criança – respondeu Odin, sua voz ecoando pelo salão agora vazio. – A que devo a honra?
- Meu rei, eu sinto muito pelo ocorrido – começou ela, elevando o olhar para encará-lo, temendo a reação que Odin teria quando descobrisse o que seus filhos haviam feito. – E sinto ainda mais em vir informa-lo o que Thor e Loki estão fazendo.
Não era do feitio dela dedurar os outros, mas, novamente, era a segurança deles. E ela sabia que por mais corajoso e poderoso que Thor e os demais fossem, eles não eram páreos para o exército que Jotunheim deveria ter. Como previra, a revolta de Odin fora poderosa e o rei logo correu para buscar seu cavalo, enquanto respirava fundo e torcia para não ser tão odiada quanto esperava que seria quando descobrissem quem os havia dedurado.
Ela andou até a Bifrost, querendo estar lá quando eles voltassem. Heimdall a recebeu com um olhar duro, mas não condenador, apenas o usual do sentinela, ele parecia ter aprovado a decisão dela. Era como se eles estivessem esperando ela chegar ao local para voltarem. Inesperadamente, o amplo espaço se iluminou e ela ouviu as vozes raivosas de Thor discutindo com Odin, o jovem querendo argumentar que estava defendendo seu reino, enquanto o Pai de Todos alegava que ele não conseguia defender nem seus próprios amigos, o argumento logo se tornando claro ao ver o grupo carregando um deles.
Loki parou um pouco mais para trás, apenas admirando a discussão entre o pai e o irmão, seus olhos captando rapidamente a presença de , que ainda usava o mesmo vestido da festa, o tecido rosa claro descendo pelo corpo dela, fazendo-a contrastar com a situação caótica ao redor deles.
- E o senhor é velho e tolo! – gritou Thor de repente, chamando a atenção de todos os presentes no local. Loki pareceu se aproximar um pouco de onde estava, pretendendo servir de proteção caso a briga entre os dois ficasse mais grave.
- Sim – respondeu Odin, parecendo cansado e decepcionado. – Fui um tolo em achar que você estivesse pronto.
e Loki trocaram olhares, o dela exasperado, temendo o que aquilo podia significar. O moreno se afastou para se voltar a seu pai.
- Pai... – mas Odin o interrompeu antes mesmo que ele pudesse começar, fazendo Loki voltar para perto de .
- Thor, filho de Odin, você traiu uma ordem expressa de seu rei. – engoliu em seco, os olhos se arregalando e, instintivamente, ela se aproximou de Loki, segurando o braço dele a procura de algum apoio, mesmo sabendo que pedia à pessoa errada. – Com arrogância e estupidez, expôs estes reinos pacíficos e vidas inocentes ao horror e à desolação da guerra! – O tom de voz de Odin era raivoso e determinado. Ele andou até o centro onde Heimdall geralmente encaixava sua espada para ativar a Bifrost, e colocou o próprio cajado, iluminando o local com uma luz forte e quase cegante, teve que piscar algumas vezes para se acostumar à claridade repentina, sua mão agarrando com força o braço de Loki, lágrimas ameaçando escorrer por seu rosto, já imaginando o que o Pai de Todos viria a fazer com o próprio filho. – Você é indigno destes reinos – Odin se aproximou de Thor com tudo, começando a agarrar alguns detalhes da armadura do filho. – É indigno do seu título! – A capa vermelha, que Thor usava com tanto orgulho, voou para longe quando Odin se afastou do loiro. – É indigno daqueles que o ama e a quem traiu. – Loki e assistiam a tudo com a boca aberta, as lágrimas já lavando o rosto da loira, enquanto ficavam apenas presas nos olhos do moreno. Então, Odin ergueu a mão, voltando-a para Thor. – Agora, tiro todo o seu poder. – O martelo voou da mão do loiro, direto para a mão do rei. fechou os olhos, apoiando a testa no ombro de Loki enquanto ouvia a condenação. – Em nome do meu pai, e de seu pai antes dele, eu, Odin, Pai de Todos, o expulso.
Foi rápido demais, em um piscar de olhos, Thor foi sugado pela Bifrost e sumiu. Loki se afastou um pouco, virando-se na direção de e erguendo um braço para abraça-la, enquanto Odin ditava a nova regra para o Mjölnir voltar a ser empunhado, arremessando o martelo pela ponte do arco-íris logo em seguida. Ao fechar da ponte, o silêncio se estendeu, mantendo os olhos fechados enquanto as lágrimas caíam sem pudor. Ela nunca imaginara que Odin tomaria aquela decisão tão dura e drástica, mas, por outro lado, também não estava tão surpresa quanto deveria estar. Foi só quando o rei se retirou do local, e Heimdall o seguiu para receber suas novas ordens, que enfim se tornou consciente de sua atual situação.
Não a importava o fato de estar chorando, mas sim estar nos braços de Loki, sendo confortada por ele, sabendo que ele era a última pessoa de quem ela queria receber conforto. Com certa agressividade, a mulher se afastou do moreno, suas mãos fechando em punho diante a vontade de socar o homem. Ele a olhou sem entender sua reação. passou a mão no rosto, querendo afastar as lágrimas, e ergueu a mão assim que o moreno tentou se aproximar.
- Não se atreva – disse ela, o tom ameaçador e determinado.
- ...
- Ele é seu irmão! – gritou ela, olhando para o outro. – Você pode querer enganar seu pai e sua mãe, mas não eu, Loki. Eu te disse mais cedo, eu aprendi minha lição. Ninguém vai suspeitar de você, e também não vão acreditar em mim se eu tentar falar, então não precisa tentar me agradar para manter o meu silêncio. – Ela começou a se afastar, mas parou e voltou a olhar para ele, seu olhar captando no meio do caminho a capa vermelha jogada de Thor. – Deveria ter sido você no lugar dele.
Os olhos verdes se tornaram frios e duros, a expressão rígida, enquanto ele a via se afastar sem conseguir pensar em uma resposta ou uma reação qualquer. A vontade era de jogá-la daquela ponte. Mas era , afinal, e ele não conseguia sequer pensar em juntar energias para fazer qualquer mal a ela. Um dia ele gostaria de entender a magia que ela carregava, que parecia afetá-lo e impedi-lo de odiá-la como ele gostaria. Era a ironia mais imbecil de todas, que justo ele fosse ter um par perfeito. E que justo ela fosse tal peça. Todos esperavam que ele encontrasse alguém que fosse muda-lo, e havia ali alguém que poderia tentar, mas sequer se dava ao trabalho, consciente de que ali havia um caso perdido.

Os dias se passaram e todos em Asgard sentiam a ausência de Thor. havia voltado a seu estágio de anos antes, se reclusando em seu quarto e não saindo mais de casa, por mais que sua mãe insistisse que ela não voltasse a se enfiar nesse estágio. Porém, como ela conseguiria andar por Asgard quando sabia que todos sabiam o que havia feito? De nada havia adiantado Loki tentar defende-la, inventando que fora um pedido dele contar a Odin os planos de Thor, todos estavam possessos demais com o banimento do loiro, e todos culpavam ela. Incluindo ela própria.
Todas as noites, ainda sonhava com a cena que presenciava, e muitas vezes Thor a puxava no último momento, levando-a junto para seu exílio. Era doloroso e a deixava acordada pelo resto da noite, perdida em dúvidas sobre seus atos que a deixavam alheia à presença constante em sua janela. Porque Loki sofria com o sofrimento dela, sofria por voltar a perde-la, como o fizera anos atrás, por culpa dele próprio. Era seu maior poder, ele havia concluído em uma das noites, afastar todos. Talvez fosse devido à semi-descoberta que havia feito durante a invasão a Jotunheim, constantemente ele se via encarando sua mão e seu braço, a imagem dele se tornando azul quando tocado pelo Gigante o assombrando, era o pesadelo dele. De certa forma, era reconfortante saber que pelo menos algo ainda o ligava a , os pesadelos constantes.
Em uma noite, ele finalmente deixara seu posto sob a janela de e voltara ao castelo, invadindo o cofre para tentar encontrar respostas. A caixa que os jotuns haviam tentado roubar sendo seu alvo principal, e como Loki agora desejava que ele não tivesse feito, que ele tivesse permanecido da ignorância. O moreno fechou os olhos, criando coragem e invadindo o quarto de , um toque delicado espalhando uma calma e paz pelo corpo da mulher, que começava a se remexer. Ele queria a companhia ela, queria contar a alguém o que havia descoberto, queria que alguém soubesse... Mas ninguém o ouviria, ninguém o olharia da mesma forma. E ninguém era digno o suficiente de merecer a confissão dele. Com exceção dela.
- Você está certa em se manter distante – sussurrou ele, com uma delicadeza que ele nunca imaginou que teria acariciando o rosto dela. – Eu sou um monstro... Uma ferramenta nas mãos de Odin... Uma aberração. – se remexeu em seu sonho, se estivesse acordada, provavelmente aquilo se compararia a ela se arrumando para prestar atenção no que ele contava. – Vê, teoricamente, eu continuo sendo um príncipe, eu continuo tendo direito a um trono... Não o trono que você esperaria me ver. Não... Não seria esse trono. Como poderia? Sendo um deles... – Ele olhou para a própria mão, vendo-a se tornando azul novamente, mera ilusão criada por sua mente. – O Pai só queria me usar... Unir os povos, paz através de mim. – Loki riu sem humor algum, achando irônico que justo ele deveria trazer paz a algum lugar.
Após aquela conversa entre eles, Odin havia sucumbido e encontrava-se em sono profundo. Dando a Loki a oportunidade de ocupar o trono que ele tanto almejara. O reino mal havia se recuperado do exílio de Thor, e agora entravam em luto pelo rei. Loki fechou os olhos, lembrando-se das últimas palavras que dirigira ao pai, como o homem nunca permitiria um Gigante de Gelo no trono, e agora ali estava ele, ocupando-o como sempre desejara. E agora que ele finalmente o tinha, faltava algo. O deixava irritado que ele nunca conseguia ter um momento de prazer pleno, de sentir que finalmente havia conquistado tudo. Porque ali, deitada e adormecida, diante dele, estava a única coisa que ele perdera a chance de conquistar. E com ela de nada adiantaria truques de magia, ou algo plano mirabolante para enganá-la. era mais inteligente que qualquer pessoa, principalmente se tratando dele. Ela nunca se deixaria enganar pelas artimanhas dele. Loki estava destinado a reinar sem uma rainha.
- Rainha – disse ele, seu dedo percorrendo o lábio superior dela, lembrando-se de como fora senti-lo contra seus próprios lábios. – Lhe cai bem. – Loki escorregou o dedo pelo pescoço dela, notando um detalhe escondido pelos cachos e a própria camisola que ela usava. Com cuidado para não despertá-la, ele puxou a corrente, reconhecendo com facilidade o colar que ele havia lhe dado de presente. Imediatamente seus olhos foram até a mão dela, um sorriso discreto surgindo ao confirmar que ela também usava o anel. Apesar de tudo...
Ela fora a única a não se ajoelhar diante dele quando ascendeu ao trono. Ele se lembrava com vívidos detalhes a forma como ela o olhara sentado no trono, após prestar seus sentimentos a Frigga, segurando o cajado que uma vez pertenceu ao Pai de Todos. Para ela, ele não havia conseguido manter o olhar determinado e superior aos demais. Diante dela, Loki quase se ajoelhara. Principalmente após ela lhe virar as costas e sair do castelo sem lhe prestar qualquer respeito. Há muito tempo, uma vez, ele a havia perdido. Mas mesmo antes, mesmo afastada de todos, ela nunca lhe pareceu tão inatingível como agora. Loki queria conseguir reconquistar a confiança dela, ganhar seu perdão. Mas algo em relação ao perdão, era que você deveria se arrepender, era você aceitar que realmente estava errado e então o pedir. E Loki não se via errado ou arrependido. E mesmo que ele fingisse, não acreditaria. Mesmo se ele realmente estivesse arrependido, ela não acreditaria nele.

Mais dias se passaram até finalmente reunir coragem para sair de sua casa e voltar a andar por Asgard, ajudou Sif lhe visitar e pedir perdão pela forma como haviam agido diante a postura dela. E parecia que havia escolhido a dedo o dia que saíra da proteção de seu quarto.
Ela havia escolhido visitar a Bifrost, já que fazia dias que não ia ao local, e talvez perguntar a Heimdall sobre Thor e sua vida em Midgard. No momento em que ela chegou, o sentinela estava concentrado encarando algo a sua frente. De longe, ela havia notado o brilho característico de alguém utilizando a ponte, e ela percebia na atenção do homem que algo não parecia certo. Ele só relaxou quando ela se posicionou ao lado dele, um sorriso discreto nos lábios do moreno.
- Milady, é bom revê-la – disse ele, assentindo brevemente.
- Igualmente, Heimdall – devolveu ela, sorrindo para o guarda. – Você parece preocupado, o que aconteceu?
- Loki está em Jotunheim.
- O que? Fazendo o que?
- É o que eu gostaria de saber – respondeu Heimdall, parecendo desconfortável. Ele olhou para algo no horizonte, e então voltou a olhar para ela. – Achei que fosse me perguntar sobre Thor.
- Fiquei preocupada por um momento e me distrai – confessou . – Como ele está?
- Ele está bem... Encontrou alguém – revelou o guarda. sorriu, interpretando corretamente a informação.
- Ele encontrou o martelo? – perguntou.
- Ontem – revelou Heimdall, voltando a ficar tenso ao se lembrar da cena que presenciara. – Não conseguiu erguê-lo. Eu acho que agora ele finalmente desistiu e começou a se ajustar à nova vida.
- Eu odeio isso – passou a mão pelos cachos, querendo ver o que o sentinela via. – Ele não merece isso.
- Muitas pessoas não merecem muitas coisas – comentou Heimdall, olhando de soslaio para ela. – E pessoas.
- Tentando me dizer alguma coisa, Heimdall?
- Eu sei que não adiantaria, milady – o moreno sorriu pesaroso. – Mas, se vale de algo, eu sinto muito que não tenha dado certo entre vocês dois.
engoliu em seco, lembrando-se da última vez que falara com Loki, de como ela confessara que queria que fosse ele o exilado ao invés de Thor. Ela se sentira bem na hora, vendo a dor passar rapidamente pelos olhos do moreno, mas depois o arrependimento veio, mesmo sabendo que ele não merecia.
- Bem, não sinta – disse ela, voltando a encarar o horizonte, agora imaginando o que o moreno estaria fazendo no outro reino. – Ele não é digno.
- Ele queria ser, sabe? Uma vez.
- Sim... Uma vez – disse ela, logo depois se afastando quando o guarda fez um movimento em direção à sua espada para ativar a ponte. Trazendo Loki de volta.
O moreno e a loira se encararam, ele parecendo querer dizer algo, mas foi Heimdall quem quebrou o silêncio, demonstrando sua desconfiança a respeito de Loki. ficara alarmada ao descobrir que Heimdall não só não conseguira ouvir o que Loki falava em Jotunheim, como também não conseguira vê-lo. Assim que o rei deu sua ordem à Heimdall para manter a Bifrost fechada, e se retirou, ficou um momento só observando enquanto ele se afastava, logo depois finalmente reagindo e se despedindo de Heimdall, correndo atrás do moreno.
- O que você foi fazer em Jotunheim? – perguntou ela, mesmo sabendo que ele não lhe responderia. Ele sequer lhe dera atenção. – Vai me ignorar agora?
- Estou lhe dando o que você queria – disse ele simplesmente, deixando-a confusa até completar sua frase – me exilando de sua vida.
- Uau – disse ela, soltando uma risada – isso foi extremamente dramático até mesmo para você. Achei que o rei deveria dar atenção igual a todos os seus súditos.
Aquilo fez com que ele parasse. Ambos no meio da Bifrost, Loki segurando o cajado e levemente ofegante diante os passos apressados que tivera que dar para alcançar o moreno. Lentamente ele se virou para ela, a expressão impassível, sem lhe permitir a leitura que ela sempre fazia dele.
- Agora você me reconhece como rei? – perguntou Loki, não precisando explicar o que queria dizer com sua pergunta, mas o fazendo mesmo assim. – Se bem me lembro, na última vez que nos vimos, você sequer parou dois segundos para se ajoelhar diante a mim.
- Seu pai está em sono profundo, e tudo o que você consegue pensar e se preocupar é que não me ajoelhei? – se aproximou dele. – Você é mesquinho e arrogante assim?
- Está surpresa?
- Chocada por você nem mesmo se dar ao trabalho de pelo menos fingir – confessou ela. Loki imediatamente abandonou a pose, era tão difícil assim para ela entender que não havia fingimento quando se tratava dela? – O que foi fazer em Jotunheim?
- Assuntos do rei, milady – disse ele, retomando sua postura e logo voltando a dar as costas para ela, não conseguindo avançar dois passos quando ela voltou a se pronunciar.
- É verdade? – perguntou , mantendo seu olhar fixo em um ponto aleatório da Bifrost, esperando Loki se voltar para ela antes de continuar a pergunta. – O que Heimdall implicou, sobre você estar ocultado da mesma forma que os Gigantes estavam... Você os ajudou?
olhou para ele, os olhos determinados não deixando margem para ele considerar pensar em mentir, não que ele precisasse, pois ela já parecia saber a resposta e queria apenas um mínimo sinal para que pudesse chegar a uma conclusão. Ao enxergar a resposta, ela assentiu e riu sem humor, se aproximando lentamente do moreno.
- Seu ódio e sua inveja pelo seu irmão são tão grandes que você recorre a histórias e intrigas antigas para trazer tanta desgraça para a vida dele? – perguntou . – E realmente vale à pena?
não deu margem para ele responder, se afastando e deixando-o para trás. Agora que havia saído de seu quarto e soubera sobre a vida de Thor, só conseguia imaginar como deveria ser desolador para o loiro não conseguir erguer o martelo. Ela parou na bifurcação que a levaria a sua casa e o outro caminho que a levaria ao castelo, onde ela tinha certeza que encontraria Sif e os demais. Um olhar rápido em direção ao caminho que acabara de percorrer lhe confirmou que estava sozinha e ninguém parecia segui-la. Ela respirou fundo e rumou para o castelo, os passos apressados a levando até a sala onde eles costumavam ficar, parecendo interromper uma discussão.
- ! – exclamou Sif ao ver a mulher. A loira havia pegado o final da discussão, interpretando rapidamente o que eles pretendiam fazer.
- Eu concordo – disse a cacheada, quase rindo diante a confusão no rosto de todos. Ela adentrou o salão, fechando as portas atrás dela. – Thor, vocês precisam ir salvá-lo. Eu não sei o que Loki pretende, mas vocês precisam ir.
- Isso é mais algum plano seu? – perguntou Fandral, o único que ainda não a havia perdoado por entregar a Odin a invasão deles a Jotunheim. – Você está oficialmente do lado do Loki?
- Eu nunca estive do lado dele – disse , sua voz firme. – Ainda mais diante essa injustiça. Vocês são os únicos capazes de trazer ele de volta.
Naquele momento, as portas que ela fechara se abriram e um guarda surgiu, anunciando que Heimdall esperava por eles. suspeitava que aquilo não a incluía, então ela apenas trocou olhares rápidos com os guerreiros, assentindo como forma de encorajá-los a seguir em frente. Ela os acompanhou até a saída do castelo, logo depois se afastando e indo a um ponto estratégico que lhe daria visão a Bifrost, para que ela pudesse ver o exato momento em que eles viajariam para Midgard.
Entretanto, alguém havia chegado antes dela. Parado no muro, os olhos fixos na ponte, Loki estava de costas para ela, mas sabia que ele sentia sua presença ali. Sem medo, ela se aproximou do moreno, seus olhos fixos no horizonte assim como os dele.
- Você é tão traidora quanto eles – disse Loki em um sussurro.
- Então me prenda. – devolveu, sorrindo vitoriosa ao ver o brilho característico da ponte anunciando a partida deles.
Loki olhou rapidamente para ela, e se perguntou se ele estaria realmente considerando aquela opção, antes de lhe dar as costas, mais uma vez, e entrar no castelo. Ela sabia apenas pelo olhar dele que não viria nada bom dali, mas preferiu não segui-lo. De repente, esgotada demais para tentar argumentar contra o moreno.

tentava com todas as forças se concentrar no livro em seu colo, mas sua mente a todo momento se distraía pensando em Midgard, Thor e os demais. Será que eles conseguiriam obter algum sucesso em trazê-lo de volta? Será que o loiro voltaria e conseguiria parar Loki de destruir o legado que Odin havia construído? Ela sabia que o livro era apenas uma desculpa, uma tentativa de enganar sua mãe caso ela surgisse para checar como a filha estava. não havia relatado tudo o que havia acontecido, achando melhor poupar a mulher da preocupação excessiva, já bastava a própria criando seus próprios frios brancos, não precisava de mais alguém.
Não foi sua mãe, entretanto, que a arrancou de seus próprios pensamentos, mas a chegada da ave negra como a noite que ela vira uma vez há muito tempo, quando era somente uma criança. Fazia muito tempo, mas ela ainda conseguia reconhece-los sem dificuldade.
- Huginn – disse ela, largando de vez o livro ao ouvir a mensagem que o corvo viera lhe trazer.
Era como se fosse a mãe de uma criança de oito anos, teimosa, birrenta e maliciosa. Não podia virar as costas por dez segundos, não podia deixa-la sozinha por meros minutos e o caos se instalava. Era exatamente como ela se sentia em relação a Loki naqueles últimos dias. O moreno parecia incapaz de deixar o irmão em paz, tão cego pela própria raiva e pelo ciúmes, o desejo e a sede de vingança que não conseguia compreender de onde vinha.
correu pelas ruas de Asgard, ironicamente, naquele dia, seu vestido era verde com detalhes em dourado, novamente combinando com o atual rei. Ela ignorou todos os olhares enquanto corria o mais rápido que conseguia, na esperança de conseguir impedir o estrago que Loki planejava. Por mais que ela o conhecesse – e julgava ser a única que mais o conhecia – a mulher ainda se surpreendia com as atitudes do outro, talvez fosse tão inocente quanto Frigga por ainda esperar, ainda que minimamente, que o moreno mudasse pelo menos um pouco e deixasse para trás toda aquela mágoa.
Ele estava sentado na sala do trono, ocupando seu local habitual e que parecia deixa-lo ainda mais intimidador para quem ali entrasse, menos ela, que estava mergulhada na própria raiva. O moreno arregalou os olhos ao vê-la entrar, tirando seu momento para admirar como ela ficava ainda mais linda de verde, os detalhes em dourado parecendo ser uma extensão dos longos cachos que ele sempre admirara. Os olhos dela, geralmente num tom claro de âmbar, estavam escuros e raivosos. Ela não deu tempo para ele se pronunciar primeiro, Loki mal conseguiu abrir a boca para perguntar o que ela fazia ali, mesmo já tendo uma ideia.
- Eu não quero saber o que você tem na cabeça, ou seus sentimentos, você cancele esse Destroyer agora – mandou ela.
Loki encarou os olhos dela, sentindo a dureza e a raiva que ela sentia por ele. Ele queria perguntar como ela havia descoberto, quem havia contado. Heimdall não podia, ele estava congelado, o próprio Loki havia se certificado disso. E todos os demais que poderiam saber de seus atos, estavam em Midgard, tentando salvar seu irmão. Ele sabia que não adiantaria perguntar, pois ela não responderia.
- É tarde demais agora – respondeu o moreno, mantendo sua pose inatingível, mal enganando a si mesmo. – Ele não vai parar enquanto meu irmão não morrer.
abriu a boca para responder, para tentar argumentar, mas naquele momento, a voz de Thor ressoou pela sala e os dois pararam. Ele estava vendo e ouvindo aquilo tudo? E sentado como se estivesse assistindo a algum espetáculo qualquer que costumava ser exibido em alguns banquetes? Como alguém podia ser tão cruel? mal conseguiu ficar ali e ouvir à voz dolorida de Thor.
- Irmão, se fiz algo que o ofendesse, se fiz algo que o levou a agir assim, eu realmente sinto muito. – não conseguia tirar os olhos de Loki, quase correndo até ele para força-lo a ter alguma reação que não fosse apenas ficar sentado e ouvindo o discurso do irmão como se aquilo não o afetasse. – Mas este povo é inocente. Tirar a vida deles não lhe dará nada em troca. – engoliu em seco ao prever o que viria a seguir, era óbvio que aquilo seguiria ao discurso de Thor. – Então tire a minha... E termine com isto.
- Loki, não – disse ela, avançando um passo ao perceber o moreno decidido em atender ao pedido do irmão. Ela deixou de lado a própria postura de força e determinação e vacilou diante dele, os olhos enchendo-se de lágrima como no dia do exílio de Thor. – Chega dessa loucura, Loki, pare com isso. Você já tem todo o controle que sempre quis, o trono! Thor nem mesmo está pedindo para voltar... Loki, por favor.
Ele olhou para ela. Doía vê-la machucada, mas era ainda pior vê-la implorando em nome dele. Como se o loiro já não tivesse roubado muitas vitórias e demais acontecimentos do moreno. era a única pessoa que Loki achou que não fosse perder para o irmão. Com ela, ele chegou a acreditar que não viveria na sombra do poderoso Thor. Mas ali estava , quase se ajoelhando, pedindo por misericórdia. Loki chegara a considerar o pedido dela, parando até mesmo o Destroyer por uns momentos, mas a raiva voltou a consumi-lo e ele conseguiu projetar a imagem do que ocorria em Midgard para que ela pudesse ver o Destroyer, que havia começado a se afastar, voltar atrás em seus atos e desferir o golpe final em Thor. soltou uma exclamação assustada, levando a mão à boca enquanto via Thor voando para longe, completamente inerte. Ela viu também Sif e os Três Guerreiros, além de outro grupo de pessoas, uma moça correndo para o loiro, e julgou que fosse a pessoa a quem Heimdall havia se referido.
- Como você pôde? – perguntou ela, a voz ecoando pelo salão vazio, quando a imagem sumiu. Sua atenção voltou à Loki, e mesmo que as lágrimas tivessem começado a escorrer, sua visão era clara. – Ele é seu irmão!
Loki engoliu em seco, lembrando-se da noite em que contara a versão adormecida dela sobre o que havia descoberto. Era óbvio que ela não se lembraria daquela noite, ele não estaria ali reinando Asgard se ela soubesse do que ele havia feito.
- Por acaso você perdeu o grande anúncio? A grande notícia do ano? – perguntou ele, levantando-se e começando a descer as escadas, ficando no mesmo nível que ela, só então notando como a respiração dela estava ofegante, e o colar que ela usava, o que ele havia dado a ela, subia e descia em seu peito com rapidez. – Eu sou adotado. O filho de um monstro – Loki quase sorriu com prazer ao ver o olhar leve e brevemente assustado dela ao vê-lo transformar os olhos em vermelho e a pele em azul com as marcas dos jotuns. – E é isso o que os monstros fazem, eles machucam as pessoas.
- Você está dizendo isso para convencer a mim ou você mesmo? – perguntou ela, sua voz inalterada após a tentativa de intimidação dele, fazendo Loki recuar um pouco.
- Por que eu iria convencer você de qualquer coisa?
- Ah... Então quer convencer nós dois – disse ela, cruzando os braços.
- Não estou tentando fazer nada – disse ele, dando as costas para ela e começando a se afastar. – Apenas mantendo-a atualizada para que não reste qualquer dúvida sobre manter sua distância.
- Eu achei que você fosse mais inteligente, Loki – disse ela, rindo diante a resposta patética dele. – Sim, eu me apaixonei por você antes, mas eu aprendi a minha lição sobre manter distância. – Loki preferia que ela tivesse permanecido quieta, ou que voltasse a gritar com ele... Qualquer coisa, menos usar aquele tom de voz baixo e calmo. – Não precisa vir para cima de mim com esse papo de ser um monstro para me manter longe, eu já sabia disso há muito tempo.
Ele parou e voltou a cabeça para olhar para ela, mas naquele momento algo chamou sua atenção e, novamente a imagem de Midgard voltou a aparecer no salão. olhou para o que acontecia, ignorando a forma que o corpo de Loki tencionava.
Ventava com força na Terra, e tinha certeza que conseguira sentir os ventos atingirem o rosto dela. Então, um raio cortou o céu e o som do trovão explodiu logo em seguida, atingindo Thor em cheio. A mulher sorriu, lembrando-se do exílio de Thor e da sentença que Odin havia dado, a nova regra de quem possuiria o Mjölnir. Thor havia acabado de se provar mais que digno de carregar o martelo. E ela assistiu com extrema alegria quando o loiro surgiu diante as nuvens negras e os raios, a capa vermelha tremeluzindo atrás dele, a armadura de volta a seu corpo, como sempre deveria ter sido. De onde estava, Loki ofegou, não conseguindo acreditar no que via. O Destroyer ainda tentou atacar o loiro, mas Thor não lhe dera chance e comemorou quando a máquina caiu ao chão, derrotada.
só voltou a se pronunciar quando a imagem voltou a sumir e Loki permaneceu estático.
- Você vê, Loki... Sacrifício, altruísmo – disse ela, voltando-se para ele, apreciando mais do que deveria a expressão que se apossava do rosto dele. – Você quer ser digno? Digno do trono, de toda a atenção... De mim? Mostre a mim, a nós, alguma compaixão, algum sentimento. – começou a se afastar, querendo chegar logo à Bifrost para ver a chegada de Thor, mas parou no meio do caminho. Seu tom agora bem mais calmo e suave, como o moreno estava acostumado. – Você não pode vencer uma guerra se estiver lutando sozinho. E se você nunca entender isso, então você nunca vencerá.

E, mais uma vez, Asgard estava em festa. Thor havia voltado, Odin estava acordado, e Loki fora dado como morto após a destruição de Bifrost. Se o reino já gostava de comemorar por qualquer acontecimento, aqueles três pediam uma festa que duraria dias e mais dias. Todos estavam animados, com exceção de Thor, que ainda lidava com a perda de sua única forma de ver Jane, e . Ela vira de longe os irmãos lutando, Thor se sacrificando uma última vez ao destruir a Bifrost, e Loki caindo. Ela queria ter corrido até ele e salvá-lo, mas sabia ser impossível. Loki era impossível de salvar, em todos os sentidos.
Ela e Heimdall estavam na ponta da destruída Bifrost quando Thor se juntou a eles. A mulher sorriu, abraçando-o com força, um hábito que havia adquirido desde quando a batalha finalmente acabara. sentia-se reconfortada ao senti-lo abraçando-a na mesma intensidade, ambos tentando colar os pedaços partidos dentro do outro. Ambos estavam de luto e sentiam saudades, cada um por motivos diferentes. se afastou, rindo levemente ao ver que seu vestido negro havia se enroscado em um pedaço da armadura do loiro, deixando-o se aproximar de Heimdall.
- Perdemos contato com a Terra. – franziu o cenho, percebendo o leve tom de tristeza na voz do deus.
- Não – disse Heimdall, seus olhos sempre fixos em um ponto no horizonte. – Sempre há esperança.
- Pode vê-la? – perguntou Thor, e a moça sorriu. Sequer havia conhecido a moça ou escutado as histórias que Thor tinha para contar, mas já gostava dela.
- Sim.
- Como ela está?
- Ela está procurando por você – respondeu Heimdall. sorriu e aproximou-se do loiro, passando um braço pela cintura dele e tentando olhar para o mesmo ponto que Heimdall encarava.
- Óbvio que está – comentou, levantando o olhar para ver o exato momento em que Thor sorriu. – Vai finalmente me contar sobre ela?
- Vai finalmente me contar a verdade sobre como você está?
A mulher fez uma careta, despedindo-se rapidamente de Heimdall quando Thor fez o mesmo e começou a leva-los para longe da Bifrost. Ambos vinham evitando os assuntos delicados, mas parecia que finalmente haviam chegado a um beco sem saída e não tinha mais como fugir.

Capítulo 3

I know I could lie, but I won't lie to you
Wherever I go, you're the ghost in the room

Dois anos se passaram desde a morte de Loki. O luto pela perda, acabou unindo ainda mais Thor e , que eram constantemente vistos andando juntos pelos corredores e ruas de Asgard, quando o deus não estava ocupado treinando. Desde os ocorridos, havia perdido o hábito de ir até a destruída Bifrost, agora uma constante lembrança do que ela havia perdido – mesmo que considerasse que não era possível perder algo que nunca tivera. Porque era essa a pura verdade: mesmo quando se beijaram, mesmo com os presentes, mesmo com os breves momentos, Loki nunca fora seu, e nunca seria mesmo se tivesse vivido. O moreno havia se convencido de que não era digno do que ela tinha a oferecer, e nada e nem ninguém, principalmente , conseguiriam fazê-lo mudar de ideia.
Era doloroso e ela ainda tinha pesadelos à noite, revivendo a cena do deus caindo no oceano abaixo deles. Vez ou outra, ele a levava junto e ela imaginava como seria passar aquela eternidade ao lado dele. Talvez ali Loki se libertasse e permitisse ser a pessoa que ele sempre quis ser aos olhos de todos, principalmente aos dela. Em outras, ela simplesmente deixava as lágrimas rolarem enquanto mantinha o pingente de seu colar entre as mãos.
Em diversos momentos, ela se considerava uma tola por ainda sofrer por alguém que não estaria na mesma condição que ela fosse a situação contrária. E era nesses momentos que Thor entrava, afinal o loiro ainda sofria também. Tendo sempre esperado a redenção do irmão, a dor do deus do trovão muitas vezes conseguia ser maior que a de . Pois ali não havia apenas perda, mas remorso e uma infinidade de arrependimentos e “e se” que não o deixavam em paz. Por isso os dois haviam adotado uma rotina que não era a mais saudável, mas que ninguém ousava interferir. Thor treinava como nunca antes, sempre querendo estar preparado para qualquer guerra, mas ainda mais disposto a destruir o máximo de alvos que conseguisse. E se fechava em seus livros, vez ou outra acompanhando o treino do loiro. À noite, eles sempre eram vistos juntos nos jantares, sempre isolados, pelo menos , Thor ainda conseguia se relacionar mais. Mas desde os eventos que levaram à destruição da Bifrost que não conseguia mais se sentir em casa. Ela ainda sentia os olhares em suas costas, as pessoas a julgando e cochichando sobre ela. Ainda que fosse tudo em sua cabeça, era uma tortura que ela não estava mais aguentando.
O jantar já estava para ser encerrado quando guardas entraram no salão e informaram que o Pai de Todos aguardava por Thor e na sala do trono. Os dois, que naquela noite estavam afastados, trocaram olhares de onde estavam e rapidamente se encaminharam para atender ao pedido do rei. já sentia as mãos tremerem, e sua ansiedade só cresceu ainda mais quando Thor confirmou que não fazia ideia do que aquilo se tratava. Odin nunca fizera um chamado tão urgente, e nunca reuniu os dois juntos para conversar. Ainda que tentassem negar, ambos sabiam que tinha algo a ver com Loki. A esperança logo surgindo diante a possibilidade de que pudessem finalmente ter encontrado o corpo do moreno, e que ele estava vivo.
- Meu pai – disse Thor, quando entraram.
- Meu rei – cumprimentou , reverenciando o mais velho como de costume.
- Aproximem-se – pediu Odin, que não estava sentado em seu trono como de costume. Ao contrário, estava em pé, encarando a cidade por uma das enormes janelas que havia na sala. e Thor se aproximaram com cautela, trocando olhares confusos e esperançosos. – Talvez já saibam por que os chamei aqui.
- Meu pai... – começou Thor, engolindo em seco. – Loki...
- Vive – Odin foi direto, provavelmente não tendo consciência do que sua palavra causou. Era uma única palavra, mas que fizera um estrago sem medidas. agradeceu a presença de Thor ao seu lado, por ter algo em que se segurar e estabilizar o seu equilíbrio. Parecia que vivia mais um de seus sonhos. – E é por isso que deve partir, Thor.
- Onde ele está? – perguntou , mal conseguindo se concentrar por tentar ainda acalmar as batidas de seu coração.
- Midgard – contou Odin. – E não, ele não está lá pacificamente.
- Jane...
- Está a salvo – adiantou Odin, antes que Thor pudesse agir impulsivamente. – Seu irmão possui outros planos. Ele não age sozinho.
- Pai? – Até mesmo havia percebido o tom diferente na voz de Odin, mas preferiu se manter calada, ela já trabalhava em diminuir as esperanças de que Loki havia mudado, era óbvio que aquilo não aconteceria tão cedo, se é que iria acontecer em algum momento.
- Loki está em posse de uma arma perigosa – informou Odin. – É uma longa história, para a qual não temos tempo agora. Você deve ir, Thor, antes que seja tarde. Você é o único que pode pará-lo.
pensou em se oferecer para ir junto, mas não se sentia no direito. Odin a teria mandado junto caso assim o quisesse, não teria? Ela assistiu enquanto Thor acatava às ordens do pai e partia para se arrumar para a viagem até Midgard. O Pai de Todos garantiu que já havia discutido com Heimdall sobre a viagem, e o vigia já estava aguardando a chegada do loiro. A loira aguardou até que o amigo saísse do trono para se voltar ao rei. Ele já era velho, mas sob a luz da lua e diante aquelas notícias, parecia ter envelhecido ainda mais. e Thor sentiam muito a perda de Loki, mas nunca haviam parado para pensar o quanto aquela perda havia afetado o rei e a rainha – Frigga raramente era vista em público desde os últimos acontecimentos.
- Meu rei, me perdoe a indelicadeza, mas...
- Sim, criança – Odin a encorajou a continuar.
- Eu entendo o motivo de conversar com Thor, mas por que eu estou aqui?
- , querida – disse Odin, pela primeira vez desviando o olhar da paisagem e se voltando para ela. Seu olho era bondoso, assim como o sorriso mínimo em seu rosto. – Sinto muito pelo seu envolvimento na história, sei que meu filho não foi bom com você... Mas temo que, no final, você possa ser nossa única esperança.
- Senhor?
- Eu sou o Pai de Todos, , eu sei o que ocorre em Asgard – disse ele, e ela não precisava de mais explicações para saber o que ele queria dizer com aquilo. – Sei que não fomos os únicos a sermos atingidos pelos feitos de Loki. – O rei sorriu, começando a andar pela sala. o acompanhou, alguns passos atrás dele. – Quando eram crianças, Frigga sempre falava sobre o dia em que você e Thor se casariam. Somente anos depois, quando você voltou a frequentar os círculos, que percebemos o quanto estávamos cegos.
Ela sentiu o rosto corando. Uma coisa era ouvir Frigga e sua mãe conversando sobre seu futuro. Outra completamente diferente era saber que Odin, o rei de Asgard e protetor dos Nove Reinos, tinha completa consciência dos planos das duas matriarcas. O homem tinha que se preocupar com a proteção de todo o universo praticamente, e ainda ficar por dentro dos planos da mulher para seus filhos.
- Frigga sempre torceu para que você conseguisse trazer o melhor de Loki – disse Odin, após um momento. – E, por favor, saiba que não a culpamos por nada do que aconteceu. Ao contrário, somos gratos. E sentimos muito por não termos conseguido perceber antes o erro que cometíamos ao trata-los de forma tão diferente.
- Eu não acho que seja sua culpa, meu rei, ou de minha rainha – disse . – Talvez tenha sido o destino de Loki desde o começo e vocês tenham apenas adiado. Desde o princípio, Loki estava perdido.
- É uma visão muito fria.
- É o efeito que Loki tem nas pessoas que tentam se aproximar – respondeu a mulher, sorrindo pesarosa para o rei, que voltara a encará-la.
- Espero que você consiga reverter esse efeito – disse o rei, voltando ao assunto inicial deles. – Não quero coloca-la em nenhuma situação difícil, mas gostaria de poder saber se posso contar com você quando, e se, a hora vier.
- Claro que sim, meu rei – disse , nem mesmo considerando negar um pedido direto de Odin. – O que o senhor precisar.

Era claro que ficara tensa desde a conversa com Odin. Se antes ela já mal dormia, agora então, se conseguira fechar os olhos por mais de duas horas, era muito. A conversa com Odin não saía de sua mente e ela não conseguia pensar em outra coisa. Havia até mesmo repassado com sua mãe, e a mulher não conseguira encontrar nada para acalmar a filha, ela própria muito tensa diante a possibilidade de se envolver novamente com o moreno. Antigamente, Dahlia achava que poderia ser uma boa união, mas quando os acontecimentos de dois anos antes vieram à tona e finalmente lhe contara tudo, a mulher mudara rapidamente de opinião.
Felizmente, ela não esperou muito, e numa manhã ela recebeu a visita de Muninn, o segundo corvo de Odin. Ela nunca havia corrido tanto em sua vida, ignorando todos que a olhavam com curiosidade enquanto se encaminhava para a sala do trono. Ao parar na porta do grande salão, seu fôlego já precário pareceu sumir completamente ao ver a figura de Thor ali. O loiro parecia cansado e mais miserável que antes. O Mjölnir estava em sua mão e a mulher engoliu em seco, seu estômago parecendo em queda livre.
- O que aconteceu? – perguntou ela, esquecendo as cordialidades e não cumprimentando Odin apropriadamente, não que o rei tivesse se importado.
- Eu lhe disse que esse momento chegaria, – disse o rei, chamando a atenção dela. – Thor precisa de você.
- , me perdoe – disse o loiro – eu não estaria aqui se não achasse que...
- Está tudo bem – disse ela, sorrindo para o amigo. – Quando partimos?
- Gostaria de um tempo para se despedir de seus pais? – perguntou Odin. – Eles estão aqui no palácio.
- Eles já sabem, senhor – informou a moça. – Eles entendem.
- Sinto muito por isso – disse Thor, quando eles se encaminharam para o local de onde iriam partir.
- Acha mesmo que vai dar certo? – perguntou ela.
Thor abriu a boca para responder, mas logo eles estavam viajando e se perdeu naquela experiência. Ela sentia seu estômago se revirando e não conseguia captar os detalhes ao seu redor. Ela não gostava muito de altas velocidades, inúmeras vezes Thor havia oferecido para que ela voasse com ele, apenas para saber como seria a sensação, e a mulher sempre negava. E agora ela confirmava o motivo.
- Eu nunca mais quero fazer isso – comentou ela, quando sentiu que pisava em algo sólido.
- Ainda temos a viagem de volta – brincou Thor, sorrindo para ela, mas preocupado com a mulher.
- Vamos pensar nisso quando o momento chegar – disse , olhando ao redor de onde estavam. – Onde estamos?
Era um prédio estranho, definitivamente diferente de tudo o que havia em Asgard. As pessoas se vestiam diferentes e não havia o brilho dourado do palácio ao longe, ao contrário, apenas cinza. Estavam diante de uma enorme torre, uma letra caída ao lado deles, completamente destruída. Ao redor deles, era o completo caos. Ela tinha uma leve noção do que Loki havia feito. Não foi difícil reconhecer os chitauri atacando a cidade. Gritos e explosões eram ouvidos por toda parte.
- Nova Iorque – disse Thor, como se aquilo fosse significar algo para ela. – Loki está lá em cima.
- Thor, isso é...
- Eu sei – disse ele, logo depois entregando algo para ela. – Coloque isso no ouvido, é como me comunicarei com você.
Thor a levou para o topo da torre, longe de Loki. Ele informou que tentaria conversar com o irmão, e que ela deveria entrar quando sentisse a necessidade. sentia seu corpo inteiro tremer, as palmas das mãos suavam e seu coração nunca batera tão acelerado em sua vida. Ela engolia em seco ao ouvir o som dos chitauri agindo ao redor deles.
entrou no grande prédio, a sala com parede de vidro estava vazia e com sinais de batalhas. Ela seguiu adiante ouvindo a voz de Thor gritar com Loki. Seu corpo inteiro estava gelado, ela não queria continuar, não queria revê-lo. Não queria ver o que ele havia se tornado. Mas sua missão era clara, impedir a destruição daquele povo inocente. E se tanto Thor quanto Odin confiavam nela, não podia desistir. Ao longe, ela viu Loki e Thor se encarando pouco antes de começarem a lutar. Seu coração perdeu uma batida, a batalha na Bifrost parecendo se repetir. Ela se aproximou, conseguindo entender melhor o que eles discutiam, ou, melhor dizendo, o que Thor falava na esperança de persuadir o irmão a desistir daquela loucura. viu o exato momento em que ele puxou a lança e sabia o que viria a seguir.
- Não! – gritou ela, finalmente entregando sua posição. Mas fora inútil, Loki fincou a lança no tórax do irmão, enquanto seus olhos a procuravam.
- Sentimentos – disse Loki, a expressão impassível enquanto via a de Thor mudar ao sentir a lança perfurando sua pele.
Enquanto o loiro caía, Loki encarou a mulher atrás dele. Os cabelos dela se moviam ao sabor do vento, assim como o vestido asgardiano que ela ainda usava. Loki conseguiu perceber o brilho discreto da corrente fina e prateada ao redor do pescoço dela, rapidamente ele buscou as mãos dela, notando com certo desprazer que elas estavam nuas. Mesmo com o cenário caótico ao redor, ela ainda parecia tão bela quanto qualquer dia. Exatamente como ele se lembrava. Com exceção de seu rosto, que nada dizia ou transparecia, um livro completamente fechado para Loki. Leitura proibida. Havia alguns resquícios de lágrimas em seu rosto, de quando ela vira o ataque a Thor, mas elas já haviam cessado de cair.
- Então ele te trouxe – disse Loki, olhando a mulher. – O que? Ele acha que se te trouxesse, se você aparecesse aqui, isso me faria desistir? E você acreditou?
- Você me ofende se acha que sou tão inocente assim. – O tom de voz dela era frio, como ele nunca ouvira antes. Era tão estranho vê-la daquela forma. Fria, distante, seca e grossa. Não combinava com ela, mas parecia se encaixar como uma luva naquela situação. – Eu aprendi minha lição, Loki, já te disse... E aprendi com o melhor – arqueou a sobrancelha, a centelha de algo faiscando em seus olhos ao perceber como sua fala havia afetado o moreno.
- Então o que faz aqui?
- Obedeço a ordens do meu rei – passou a língua pelos lábios, ponderando se deveria ou não continuar sua fala. Era mentira, mas Loki não teria como saber. – Atendendo a um pedido da minha rainha.
Bingo. O ponto fraco de Loki. O moreno engoliu em seco, fazendo sorrir. Ela se aproximou dele, levantando suas mãos e pousando-as nos ombros do deus, admirando os trajes que ele usava sem esconder a admiração. A armadura servia nele como uma luva. Por fim, ela encarou o rosto dele. Os olhos verdes que ainda se faziam presentes em seus sonhos. Os lábios que por vezes ela ainda conseguia sentir contra os próprios. Em um impulso, ela atendeu a desejos reprimidos há muito tempo, erguendo-se nas pontas dos pés e unindo seus lábios aos dele brevemente, não durando mais que meros segundos, mas o suficiente para fazer Loki envolve-la com um braço.
Foi necessária toda força em seu corpo para quebrar aquele contato, ignorar as batidas aceleradas de seu coração e o frio em seu estômago. Mas se afastou, colocando uma boa distância entre eles. Ela levou a mão para trás de seu pescoço, os dedos encontrando o fecho do colar que usava há pouco mais de cinco anos, soltando e o retirando de sua pele. Quando voltou a encará-lo, por um breve segundo Loki parecia derrotado, quebrado.
- Boa sorte, Loki – disse , parecendo realmente desejar aquilo. Ela se aproximou, pegando a mão do moreno e a abrindo para depositar ali o colar.
- Você está partindo? Tão cedo? – perguntou ele de forma jocosa, querendo disfarçar o quanto aquele ato dela havia lhe afetado. Ela sorriu tristemente, fechando os dedos do deus ao redor do colar.
- Não posso – respondeu . – Vim à Midgard com um propósito.
- Seu propósito falhou – disse Loki, uma leve nota de desespero em sua voz por temer o que via nos olhos da mulher. – Não vou desistir.
- Esse era o propósito de Odin – começou a se afastar, ouvindo a voz de Thor em seu ouvido anunciado que estava chegando para leva-la para outro lugar. – O meu é ajudar e tentar minimizar os danos causados por você.
- Você vai morrer.
- E você terá que conviver com isso.
Foi como se alguém lhe disferisse um soco na boca do estômago. Enquanto Thor surgia para leva-la embora, Loki apenas conseguia encarar o local onde antes ela estava e sentir o desprezo dela. O colar era frio em sua mão, combinando com a forma como ele se sentia. Loki olhou ao redor, encarando o caos instalado, parte dele amando aquela visão, enquanto a outra temia o que aquilo poderia lhe trazer. estava ali, ela não iria embora como era o esperado, como era o correto. Não, ela ficaria para compensar os danos feitos por ele. Como se ela se culpasse pelo que Loki estava fazendo.

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A enfermeira terminava de cuidar do ferimento em seu supercílio quando Thor chegou, ainda em suas roupas asgardianas, ainda sujo de poeira e fuligem, porém sem o martelo, o que agradeceu, ela morria de medo daquele martelo mesmo sem ter motivo. O loiro a olhou com preocupação ao ver o estado em que ela se encontrava, apesar da asgardiana considerar que poderia estar bem pior. Ela ainda não havia se olhado no espelho, mas do pouco que vira de seu corpo, exposto pelos rasgos que o vestido havia sofrido, havia alguns hematomas e cortes pelos braços e tórax. Seu rosto havia sofrido também, mas pelos cuidados mínimos que recebera, não tanto quanto o resto do corpo. tinha quase certeza que havia torcido o pé ou feito algo bem ruim para ele, pois vez ou outra ela sentia um leve incomodo, algo que fora cuidado pela enfermeira.
- Pare de me olhar assim – reclamou ela, notando a forma que Thor a examinava. – Eu estou bem.
- Você não deveria estar aqui.
- Você que me chamou!
- Quis dizer aqui na enfermaria – consertou o deus, apontando para o local onde eles se encontravam. Ele esperou a enfermeira sair para voltar a falar. – Você não é uma guerreira.
- Você me ofende assim, Thor – comentou ela, sorrindo para o loiro. – Mas você me trouxe para Midgard para ajudar, e foi o que eu fiz. Ou pelo menos tentei.
- Não era esse o tipo de ajuda que queria quando fui atrás de você – Thor observou, parecendo sentir dor cada vez que olhava para a mulher. abaixou a cabeça, sabendo o que ele queria dizer. – Sinto muito não ter dado certo – disse Thor, após interpretar corretamente a decepção nos olhos da loira. – Eu realmente achei que...
- Eu sei – concordou ela, desviando os olhos dos azuis do deus para que ele não visse as lágrimas que haviam surgido.
- , eu tentei te avisar sobre ele...
- Thor, eu não sou ingênua – disse ela, voltando a encará-lo, pouco se importando com o que ele veria em seus olhos. – Eu sempre soube quem Loki é, por que acha que me mantive distante? Por que acha que nunca permiti que nada... Quase nada acontecesse entre nós? Eu sei que seu irmão carrega uma placa de “perigo” sobre a cabeça dele, não sou cega.
- Então por que concordou em vir?
- Porque você precisava enxergar isso também – disse , quase rindo da forma como o asgardiano havia reagido àquilo. Anos atrás, ela nunca imaginaria responder de forma tão direta e seca o deus, tamanho era o respeito que ela tinha pela figura dele. Mas após tudo o que haviam passado, todas as noites que passaram acordados conversando sobre cada detalhe da vida do outro, criando aquela amizade, ela não sentia mais o temor de se dirigir a ele da forma que bem entendesse. – Ele já quase o matou, Thor, e mesmo assim você espera que haja alguma centelha de bondade no corpo dele. Ele é o Deus da Trapaça e da Traição, como esperar algo bom dele?
Thor escolheu não responder, conseguia ver que ele queria encontrar argumentos para contrariá-la, mas após toda a destruição que o moreno havia provocado à Terra, não havia muito o que pudesse ser falado a seu favor. O asgardiano aproveitou a volta da enfermeira para confirmar o estado da companheira, mesmo ela estando ao seu lado e podendo muito bem responder por si própria. notava que algo estava incomodando o deus, e ele queria se distrair com outros assuntos – afinal, por que alguém pediria um relatório tão detalhado do estado de uma pessoa que parecia absolutamente bem a sua frente? Mas Thor não cederia, então ela apenas revirou os olhos e esperou pacientemente a enfermeira responder a todas as perguntas do loiro.
- Thor... – voltou a se pronunciar, percebendo que o asgardiano se preparava para fazer uma nova pergunta. A loira se voltou para a enfermeira. – Muito obrigada por sua paciência, isso é tudo por hoje.
- Eu não terminei – disse Thor, olhando para a enfermeira, que parecia concordar com e começava a se retirar.
- Terminou, sim – insistiu a mulher. Olhando o homem a sua frente com um sorriso divertido no rosto. – Você é péssimo em esconder as coisas, sabia?
- Não estou escondendo nada.
- E péssimo mentiroso também – acrescentou ela. ficou mais séria, arqueando uma sobrancelha para Thor. – O que você não está me contando?
Se Thor estava desconfortável antes, nada se comparava ao estado dele agora. podia sentir o desconforto dele nela própria, remexendo-se inquieta na cama em que fora instalada até a enfermeira terminar de cuidar de seus ferimentos. O que quer que fosse que Thor estava escondendo, dizia respeito a ela e, se seus instintos estavam certos (e eles sempre estavam), a Loki também. A loira mordeu o lábio inferior, arrependendo-se ao sentir a pontada de dor que a lembrava de que havia um ferimento na região.
- Thor, o que foi? – perguntou ela ao perceber que o deus não se pronunciava.
- Nós o capturamos... Loki – disse o loiro, sentiu o ar saindo de seus pulmões, suspirando aliviada. Parte dela esperava que Loki fosse morto durante a batalha, era o melhor cenário a encarar, melhor que conviver com a existência dele e o que ele havia feito e provocado em tantos inocentes. Até aquele momento, ela achava que essa parte era predominante, mas ao sentir o coração bater mais aliviado e o suspiro que saiu de si, a loira compreendeu que ela própria se enganava vez ou outra. – Assim que a S.H.I.E.L.D. o liberar, irei leva-lo de volta a Asgard. Ele e o Tesseract.
- Você acha que isso é certo? Deixá-los juntos no mesmo ambiente novamente? – perguntou , tentando muito se concentrar no Tesseract e no estrago que o moreno havia causado em tão poucos dias, e ignorando o fato de Loki estar vivo e bem.
- Não acho que estará seguro em outro lugar – confessou Thor, a afirmação não parecendo convencer nem a ele próprio. – Assim que você estiver bem para viajar e eles o liberarem, nós voltamos para Asgard.
Aquela sentença fez travar. Voltar para Asgard estava em seus planos com certeza, mas a ideia de voltar com Loki, de encontra-lo novamente, de olhá-lo nos olhos e não encontrar um pingo sequer de remorso a fazia paralisar. Eles voltariam a conviver no mesmo espaço, ainda que Loki estivesse preso e ela ficaria livre para ir e vir. Mas sabia que isso não era total verdade, porque ela tentaria visita-lo, iria vê-lo todos os dias se lhe fosse permitido, e Thor não negaria qualquer pedido que ela fizesse. O loiro tinha muitas esperanças no irmão, e se existia a possibilidade dele se apaixonar e deixar de lado aquela vida de destruição e traição, então Thor aceitaria de olhos fechados.
A hesitação dela não passou despercebida pelo deus do trovão, que a olhou de forma curiosa e questionadora, os olhos azuis tentando enxerga-la além da superfície.
- Milady? – quase riu, fazia tanto tempo que ele não a chamava assim. Desde que a amizade havia ressurgido e ela havia ameaçado cortar os cabelos dele enquanto ele dormisse, Thor havia abandonado aquele costume. Loki sendo o único a usá-lo com mais frequência.
- Esse é velho – brincou ela, sorrindo para o asgardiano, um sorriso que nunca chegou a seus olhos.
- O que há de errado?
não sabia dizer ao certo o que havia de errado, mas sabia que não soava certo a seus ouvidos ou a sua cabeça a ideia de voltar para Asgard na companhia dos dois deuses. Se perguntassem, ela negaria até a morte, mas ouvir o desprezo na voz de Loki, ver a forma como ele se comportava em relação aos midgardianos e conhecer um pouco da sua linha de pensamento, aquilo havia machucado. Ela havia mentido para Thor mais cedo, mentira para todos, porque havia, sim, um pouco de esperança quando ela aceitou o pedido do loiro para ir até a Terra e tentar ajuda-lo a parar aquela guerra antes que uma tragédia maior acontecesse.
Mas Loki era tóxico, sempre fora e ela deixara-se intoxicar. Precisava se livrar daquilo, do feitiço que ele sequer precisara lançar para conquista-la. Antes mesmo que ele a considerasse uma possibilidade em sua vida, a mulher já o considerava parte da sua, nunca parando para pensar como aquilo era perigoso e nocivo.
- Eu não posso voltar – disse ela, sua voz um mero sussurro, não fosse o silêncio absoluto na sala, Thor mal teria conseguido ouvi-la. encarava o chão, sentindo o olhar do deus em si, mas incapaz de encará-lo de volta.
- ... – começou ele, a mulher já percebendo no tom de voz dele suas intenções. começou a negar veemente, não dando chances ao loiro continuar qualquer discurso que estivesse surgindo em sua mente. Com dificuldades, não escondendo as lágrimas que começavam a se formar, ela o encarou.
- Eu não posso, Thor – disse ela, ciente da careta que estava fazendo enquanto tentava controlar o choro. – Eu posso saber como o Loki é, e como ele age... Eu posso ser consciente da natureza dele, mas isso não quer dizer que doa menos. As coisas que ele é capaz de fazer, Thor, eu... Eu não consigo viver com isso. Já era doloroso o suficiente amá-lo sabendo do que ele era capaz... É pior ainda agora tendo visto o que ele fez.
- Amá-lo? , você não...
- Isso é realmente uma surpresa? – perguntou ela, notando nos olhos do asgardiano que ele não estava realmente surpreso, parecia querer apenas confirmar. passou a mão pelo rosto, enxugando as poucas lágrimas que haviam conseguido escapar e então voltou a olhar para o loiro. – Eu vou ficar aqui, e você vai me ajudar a me esconder dele.
- Eu?
- Você é a única pessoa capaz disso – disse ela. – Loki sabe que eu fiquei, ele me viu lutando – lembrou ela, o vislumbre do asgardiano a observando com um toque de raiva nos olhos a havia arrepiado antes, e havia arrepiado cada centímetro de seu corpo agora. – Eu não sei se ele vai perguntar por mim, não vou perder meu sono pensando nisso... Mas se ele perguntar, você irá dizer que eu morri. Vai dizer que meu corpo já foi levado para Asgard, para minha família e a cerimônia já foi realizada.
- , e sua família? – perguntou o asgardiano, só quando ela havia mencionado que ela se lembrara que não havia apenas Loki envolvido naquela escolha dela.
- Você vai dizer a mesma coisa – disse ela –, mas irá contar alguma outra história para justificar a falta do meu corpo. Diga que eu estava irreconhecível, ou que eles não permitiram... Não sei, você decide, desde que ninguém além de você, e Heimdall, claro, saibam a verdade.
Thor a olhou profundamente, os olhos azuis parecendo invadi-la e enxergando além daquela superfície forte que era a única coisa que ela deixava transparecer, mas naquele momento, resolveu facilitar as coisas para ele. Estava tão cansada que sequer tinha forças para manter a pose forte. E Thor viu tudo o que ela vinha tentando esconder, a dor que ela sentia, não pelos machucados, mas pelos atos de seu irmão, as dores da paixão platônica e impossível que ela nutria sabe-se lá desde quando, as dores dos jogos que Loki jogava com ela, e que respondia com maestria, quase como se houvesse inventado aquele jogo junto com o moreno. Thor queria leva-la de volta para casa, para sua família e sua terra, mas sabia que era a melhor opção para a mulher naquele momento. sempre tomara boas decisões, a única exceção sendo se apaixonar por seu irmão, mas mesmo essa ela conseguira aproveitar o melhor de uma situação ruim, não seria agora que ele começaria a duvidar das ações da loira.
- Temos uns dias ainda antes de liberarem o Loki, pelo menos me deixe te ajudar a achar um lugar para se instalar – pediu o deus. – Conheço boas pessoas.
- Finalmente conhecerei a tal midgardiana? – perguntou , finalmente deixando um sorriso verdadeiro iluminar seu sorriso. Thor devolveu o sorriso, aproximando-se da loira para fazer algo que raramente fazia com qualquer pessoa: abraça-la.

۰ℓ۰

Fazia quase uma semana desde a Batalha de Nova Iorque. Thor não aguentava mais ficar sem fazer nada, ficar apenas dependendo das decisões dos outros. O que lhe ajudou um pouco, fora a movimentação para ajudar a se instalar em sua nova vida na Terra. Jane a recebera de braços abertos, garantindo que a ajudaria a se adaptar e já havia até mesmo começado a explicar alguns conceitos complicados quando Thor finalmente fora embora – após prometer pela enésima vez que ninguém além dele e Heimdall saberiam da verdade em relação a ela.
Naquela manhã, ele finalmente havia recebido a mensagem de Natasha informando-o que Loki estava liberado para voltar para Asgard, assim como o Tesseract. O asgardiano se vestiu e seguiu para a cela onde o irmão estava sendo mantido, não se surpreendendo ao encontra-lo com a mesma pose superior de sempre. Era como se ele tivesse acabado de ganhar a guerra, ou era isso o que Loki queria que todos pensassem. Thor o encarou enquanto os agentes da S.H.I.EL.D. colocavam os dispositivos para manter os poderes do deus inativos. Ele notou também a maleta que continha o Tesseract, sabendo que Banner e Stark haviam criado um dispositivo que ajudaria a controlar o poder do cubo.
Não passou despercebido pelo loiro a forma como Loki observava todos à volta deles, os Avengers reunidos para ver os dois deuses partindo, querendo ter a certeza que o moreno não tentaria aprontar nada no último momento. Thor sabia o que ele procurava, ou, melhor dizendo, quem ele procurava. Ele podia dar a resposta para a pergunta que o irmão nunca faria, mas o loiro preferiu se manter em silêncio, despedindo-se rapidamente dos colegas de equipe antes de se posicionar de frente a Loki, fazendo o irmão segurar uma alça do dispositivo enquanto ele segurava a outra. A dúvida nos olhos verdes do moreno era clara, e Thor daria risada daquilo se a situação fosse outra.
- Pronto? – perguntou o loiro, sem esperar uma resposta, virando a alavanca e fazendo surgir a ponte que os levaria de volta a Asgard.
A viagem foi rápida, e até mais confortável do que geralmente era quando iam pela Bifrost, ainda destruída. Ao final, eles se encontravam na entrada da sala do trono, onde Odin os esperava para dar a sentença de Loki. Sabendo que o pai havia reforçado a segurança contra a magia de Loki, Thor liberou o irmão da trava em seu rosto, deixando-o livre para expressar sua dúvida, mas Loki manteve-se em silêncio.
E assim permaneceu até estar instalado em sua nova cela, uma das inúmeras que havia sob a cidade de Asgard. Odin havia lhe confessado que a única razão dele permanecer vivo, era o pedido de Frigga, que ainda mantinha uma esperança de melhora no filho adotivo. Loki não expressou qualquer reação, recebendo sua sentença em completo silêncio. Thor sabia que o irmão esperaria até que tudo tivesse acabado e eles estivessem completamente sozinhos para, enfim, perguntar o que vinha incomodando sua mente. Por isso ele fizera questão de acompanhar os guardas até a prisão que seria habitada pelo moreno, dando como desculpa que ele estava mais apto a lidar com o irmão do que os demais – ambos sabendo que aquilo era mentira. A sela já estava completamente fechada e protegida, Thor mantinha seus olhos fixos no irmão, que se movia de um lado para o outro, conhecendo sua nova moradia, os braços cruzados sobre o peito, esperando Loki finalmente encará-lo e deixar sua farsa de lado.
Quando o fez, Loki não se virou para encará-lo, mantendo-se de costas para Thor, o único indício de que era ao loiro que ele se referia era o conteúdo de sua pergunta e a virada de cabeça para o lado que ele deu, como se bastasse enxergar o irmão pela visão periférica.
- Onde ela está? – perguntou Loki, sua voz baixa, como o usual. Thor queria que ele o olhasse, por isso manteve-se em silêncio, quase sorrindo quando Loki cedeu e o encarou. – Irmão, onde ela está? – Sua voz se elevou, mas ainda parecia um sussurro, agora se tornando mais ameaçadora, como se ele acreditasse que realmente haveria algo que pudesse fazer caso Thor mantivesse a determinação em não lhe responder. Mas o loiro não queria tortura-lo, já seria dolorido o suficiente o que viria a seguir.
- Ela não sobreviveu – revelou Thor, sua expressão entregando como dizer aquilo doía, mesmo que ele soubesse que não fosse verdade. – Um chitauri a atacou, não conseguimos chegar a tempo.
- Você está mentindo – disse Loki, começando a se aproximar lentamente da parede de sua sela. Os passos lentos e calculados como se fosse um leão prestes a atacar sua presa. – Eu a vi lutando, ela não parecia em problemas.
- Ela não era uma guerreira, Loki – respondeu Thor, certificando-se de manter o verbo no passado. – Eu não sei o quanto ela aguentou, mas sei o que vi. – Thor lembrou-se de um detalhe, seus olhos se desviando para um canto da sela, onde havia um criado-mudo com alguns livros, pedido de Loki. – Você também pode ver, se não acredita em mim.
Loki desviou os olhos para onde o irmão apontava, percebendo um conteúdo estranho sobre os livros que havia pedido. Com cautela, o moreno se aproximou, já à distância conseguindo reconhecer o conteúdo daquelas fotos. O corpo pálido e sem vida de estava estampado naquelas fotografias, algo que vinha de Midgard, com certeza. Havia hematomas e cortes pelo rosto dela, aquele rosto que não merecia sequer ser ameaçado por uma faca, de tão precioso que era. A palidez característica não lhe deixou dúvidas de que o que Thor dizia era real, mesmo que uma parte dele não quisesse admitir ainda. Ele sentiu algo subindo por seu peito, em seu coração, um sentimento que ele reconhecia como raiva, misturado a algo desconhecido para ele. O deus se recusou a tocar nas fotos, virando-se para Thor, os olhos quase suplicantes diante o pedido que ele queria fazer.
- E o corpo dela?
- A cerimônia já foi – disse Thor, sabendo onde o irmão queria chegar. – Eu a trouxe assim que me liberaram, a família não quis demorar muito.
Não quis demorar muito. Loki não entendia como as pessoas podiam ser assim. Se tivesse a oportunidade, nunca teria permitido que queimassem o corpo da mulher. Mas você teve a oportunidade, não teve? Uma voz muito parecida com a dela sussurrou em sua mente, o momento em que lhe garantiu que não nutria qualquer esperança de que ele desistisse daquele plano, o momento em que ela lhe devolveu o colar voltando com força e o deixando desnorteado por um momento. Era culpa dele. Ela havia ido até Midgard por ele. A última memória dela que teria de seu rosto estava naquelas fotos. Instintivamente, Loki levou a mão ao pescoço, sentindo a corrente delicada de prata o envolvendo, e engolindo em seco. Ali estava a verdadeira última memória dela. As palavras dela o atingindo com força. Ela havia previsto que iria morrer e que ele passaria o resto da eternidade convivendo com aquilo. Deixara claro que todo aquele tempo, ela quem controlara a aproximação dele. E continuava a controlar, porque Loki agora deveria viver toda sua vida longe dela.
- Eu sinto muito, irmão – disse Thor, mesmo sabendo que Loki não se importava com os sentimentos dele.

Capítulo 4

Some people try but they can't find the magic
Others get down on their knees and they pray

Loki bufou, cansado e entediado até o último fio de cabelo. Ele abriu os olhos após mais um sonho conturbado, encarando o teto acima dele e suspirou. Do canto da sala, ele ouviu uma risada seguida de um som de deboche. O moreno virou a cabeça para o lado, encontrando-a sentada encostada no pilar que sustentava o teto da cela, encarando o corredor lá fora e os vizinhos de cela do moreno, sua atenção não estava focada nele, mas Loki sabia que a risada havia sido para ele.
- Parece que a magia não consegue esconder tudo, não é? – brincou ela, voltando os olhos âmbar para ele. Loki não conseguiu manter contato, afastando seus próprios olhos em questão de segundos. – O que foi dessa vez?
Ela se levantou, aproximando-se de onde ele estava deitado. O vestido verde com detalhes em prata arrastando pelo chão, já que ela estava descalça. Loki lembrou-se que ela havia usado um vestido idêntico durante um dos banquetes em que estivera presente. Lembrou-se de ter ficado sem fôlego pela forma como o vestido abraçava seu corpo, realçando suas curvas, o tom de verde destacando a cor dos olhos dela. Foi inevitável ir falar com ela, deixar de lado suas precauções e atravessar o salão para encontrá-la.
Loki nunca havia se sentido daquela forma ao falar com uma mulher, mas havia algo nela que o fizera paralisar. Até mesmo Thor havia tirado sarro do irmão quando estavam na privacidade de seus aposentos. Naquela época, ele nunca conseguiria imaginar que alguém poderia afetá-lo tanto, principalmente porque ele não permitia. Mas nunca havia necessitado de permissão para fazer qualquer coisa. Quem seria ele que começaria a controlar naquele momento?
- Foram as fotos? – perguntou ela, seus passos lentos a levando para mais perto dele, sua voz causando arrepios no corpo de Loki, e não o tipo bom de arrepio. Lentamente, ele se sentou, virando de costas para ela. – As cenas que você viu ao vivo? Ou aquelas que você vasculhou nas lembranças de Thor?
A voz dela era viciante. Ele queria pedir para que ela parasse, mas mesmo que estivesse trazendo lembranças doloridas, ele não conseguia fazê-la parar. Seu tom suave e melódico preenchendo o vazio da cela, trazendo-o as lembranças mais doloridas de momentos que ele não teve a oportunidade de aproveitar melhor. Não. De momentos que ele não quis aproveitar.
- Ou foi a culpa? – Ela estava atrás dele, sua voz soando próxima a seu ouvido, sua respiração batendo na pele de Loki, fazendo-o engolir em seco. Era tão real. – Foi aquele em que você não consegue se encarar no espelho porque lá no fundo você sabe que é o culpado por isso? Ou é aquele em que você não consegue me olhar nos olhos? – Ela riu, o som reverberando pelo corpo inteiro dele. – Você acha que eu não notei? Acha que eu não percebo como você não me olha por mais de meros segundos? - As mãos dela tocaram seus ombros, fazendo-o tremer com o toque inesperado e não merecido. – Dói, não é? Agora você está sentindo um pouco do que eu sentia. Como é, Loki, me diz, como é querer algo que não pode ter? Como é ser o inatingível Loki Laufeyson, o frio, o sem coração, sem sentimentos... E agora ter tudo o que negava tão veemente possuir? Como é sentir dor? Como é sentir?
As unhas afiadas dela fincaram o peito dele, atravessando o tecido da camisa branca que ele usava e perfurando a pele, atingindo o local onde o coração dele batia. Ela agarrou o órgão, sentindo-o quente pelo sangue pulsante. Loki ofegou, olhando para baixo e vendo sua camisa branca sendo manchada pelo vermelho vivo do sangue dele. O sonho dele veio à tona devido aos elementos semelhantes e Loki se afastou dela, levantando-se e indo até uma das paredes da cela. Era inútil, ele sabia, ela estava em todos os lugares, e estava ali de novo, atrás dele, abraçando-o por trás, as mãos acariciando seu tórax. Os lábios dela traçaram um caminho torturante pela nuca dele, atingindo o maxilar anguloso quando ele virou o rosto para o lado, não conseguindo resistir ao toque que ele ansiava há muito tempo e desperdiçara.
- Diga, Loki, o que foi dessa vez? – ela sussurrou, depositando beijos pelo maxilar dele, sorrindo diante a rendição dele. A mão dela ainda passeando por seu abdômen, agora não mais manchado, mas ainda dolorido.
Loki engoliu em seco, fechou os olhos e reviveu o sonho que o acordara. O sonho que a havia trazido até ele novamente. O toque dela, assim como todo o resto, era viciante, intoxicante, excitante, preciso. Ele sequer percebera que ela havia desabotoado alguns botões da camisa que usava, só quando a mão gélida tocou sua pele quente e o arrepio percorreu sua coluna. Ele ofegou, soltando todo o ar que mal percebera ter prendido. Ele sentiu os lábios dela se abrindo em um sorriso irônico, o ar que soltou com sua risada atingindo seu pescoço, onde logo em seguida ela começou a depositar beijos.
- Me conta – ela sussurrou, suas mãos começando a descer lentamente por sua barriga até chegar ao cós da calça que ele usava. – Me deixa te ajudar.
Era a mesma coisa que ela havia falado tantas vezes e que ele havia ignorado. As mesmas que ela havia falado quando Thor foi exilado e mandado para Midgard. Foram as mesmas que o penetraram como facas afiadas, porque em todas as ocasiões, a resposta fora negativa. Ele a havia afastado. E, assim como em todas as outras vezes, a resposta dele foi a mesma.
- Você não pode – finalmente conseguindo encontrar sua voz, Loki fechou os olhos, sentindo as unhas dela fazerem força contra a pele dele, como se o punisse pela resposta errada que dera.
- Quer tentar de novo, amor? – perguntou ela, o tom irônico carregado no “amor”. – Quando você vai começar a aprender? Pare de mentir, lembra quando você prometeu que nunca mentiria para mim?
- Eu não... Eu não consigo – disse ele, encontrando dificuldades para se concentrar ao sentir a mão dela se embrenhando por sua calça, a outra subindo para afastar os cabelos longos e negros do pescoço dele, lhe dando acesso ilimitado à região. Ele queria conseguir lembrar todos os motivos que o impediam de contar sobre seus sonhos, contar a ela tudo o que passava em sua mente quando ele fechava os olhos, mas ela estava fazendo um trabalho tão ótimo que sua mente ficava em branco.
- Loki... – disse ela em tom de aviso, sua mão não economizando na força com que agarrava os fios negros, e muito menos seu membro já completamente rígido. – Você sabe que não é assim que funciona. Você já tentou, lembra? Me afastar, e olha no que resultou.
- Mas você ainda está aqui.
Ele se virou, afastando as mãos dela, seus olhos se prendendo nos dela por meros segundos antes de analisar o restante do rosto e os lábios carnudos, como se procurasse qualquer ferimento, qualquer coisa que o indicasse que ela estava machucada. Os lábios dela se abriram em um sorriso debochado, sua mão que antes estava nos cabelos, passou para o rosto dele, acariciando suas bochechas, enquanto a outra mão voltava para o cós da calça dele. Ela estava tão perto, Loki conseguia sentir o perfume dela, o aroma cítrico que se misturava ao de Midgard, a última lembrança vívida que ele tinha daquele cheiro. Era intoxicante, Loki fechou os olhos, conseguindo até mesmo saboreá-lo. Os lábios dela roçaram nos dele, eram tão macios e delicados que Loki achou que pudesse machucá-la, imaginando como os seus eram o completo oposto. O toque era tão delicado, tão discreto que ele mal acreditava que estava realmente ocorrendo.
Exceto que não estava, e o ar frio que atingiu sua face foi o suficiente para lembra-lo. Ela não estava ali. Loki abriu os olhos, encarando o espaço vazio à sua frente, nem perdendo tempo de olhar o resto do espaço, sabendo que se encontraria completamente sozinho. O silêncio da cela sendo quebrado somente pelo som da risada dela, que parecia não sair de sua mente, logo sendo substituída pelo grito de dor que era um resquício do sonho que o havia acordado. O grito que ela dera ao sentir o objeto a perfurando no coração. O grito que ela dera quando ele a atacara. Quando ele provocara a morte dela. Apagando de seus olhos o brilho de alegria, e de seus lábios o sorriso discreto que seria capaz de deixa-lo de joelhos.

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acordou suada e ofegante. O quarto estava escuro e silencioso. Ao longe ela ouvia a televisão ligada, e com muita concentração e atenção, ela conseguia ouvir o lápis rabiscando o papel. Mais uma noite em que ela e Jane passavam em claro. A astrônoma e a asgardiana havia se tornado uma boa dupla. Uma fazia companhia à outra nas noites em claro, cada uma por seus próprios motivos, claro. Jane ainda estava focada em seus estudos, enquanto vivia cercada pelas visões do que havia presenciado em Nova Iorque. Apesar dos pesadelos, a mulher havia conseguido se instalar bem na terra, ajudando Jane em suas pesquisas quando necessário.
- Mais um? – perguntou Jane quando viu a mulher se aproximando da sala. A astrônoma sorriu e abriu espaço para a nova amiga no sofá.
- Ainda não conseguiu uma resposta? – Como sempre, fugiu do assunto. Jane sorriu, não culpando a mulher, e olhou para o próprio caderno.
- Não acho que eu esteja procurando uma – confessou Jane, fazendo a loira franzir o cenho. – Não sei se vale o esforço.
- Jane... – suspirou.
Fazia meses que a astrônoma vinha tentando criar um portal que permitisse as viagens de Thor entre Asgard e Midgard, mas desde que Thor viera para a Terra alguns meses antes para impedir os planos de Loki que a mulher havia começado a diminuir o número de pesquisas. Jane estava desapontada, havia visto Thor por breves momentos enquanto o loiro ajudava na adaptação de , mas, depois, foi embora sem lhe dizer um adeus ou lhe dar explicações. Se ele conseguira fazer aquelas viagens para Midgard e Asgard, por que não o fazia mais vezes para vê-la?
- Ele me fez pensar que não havia como viajar – disse Jane, finalmente colocando parte do que vinha rodando sua mente para fora. – Mas ele o fez quatro vezes. Ele veio até aqui, depois voltou para te buscar, então voltou. E depois foi embora mais uma vez. Sem dizer nada.
- Ele não estava mentindo, Jane – disse . – A Bifrost foi destruída. Thor só conseguiu vir para cá por causa de Odin. E essas viagens custou a saúde dos dois. – A outra ainda não parecia convencida, e não a culpava. – Thor não é como o Loki, Jane. Ele tem sentimentos verdadeiros por você. Antes de vir para cá, eu já sentia que éramos grandes amigas de tanto que ele falava de você e do tempo que passaram juntos.
- Ele é tão ruim assim? Loki? – perguntou Jane, curiosa com um detalhe na fala da asgardiana.
- Sim e não. Ele pensa que é, mas no fundo é só um garoto assustado – analisou . – Um garoto assustado e machucado.
- É estranho, sabe? Ver tudo o que ele fez e então te ouvir falar sobre ele – Jane riu. – Não tem ódio ou raiva na sua voz... Você realmente o ama.
- Sentimos ódio do que não podemos entender. Loki sempre me foi transparente, nunca deixei que ele me enganasse. Fui tola algumas vezes, sim, mas eu sempre soube com quem estava lidando.
- Acha mesmo que a melhor alternativa foi ficar?
- Para ele? Não. Para mim? Com certeza – sorriu.
- Não parece – comentou Jane, logo se arrependendo ao sentir o olhar curioso e surpreso de sobre si. – Com os seus pesadelos e a forma como sempre encontra de trazê-lo para a conversa, mesmo que seja só para um comentário pequeno... Você ainda está presa a ele.
- Nunca disse que não estava. – As duas encararam a televisão, ligada em um programa de culinária, por um tempo, em completo silêncio. Como sempre, a mente de Jane voando a mil por hora, enquanto mantinha seus pensamentos sempre em um único ponto. Cansada de pensar naquilo, e querendo se distrair, a mulher encarou a do seu lado. – É por isso que está indo a tantos encontros?
- Desculpe? – Jane quase engasgou na própria saliva.
- Essa sua decepção com o Thor é a razão para tantos encontros?
- Como você... Deixa pra lá. Claro que não.
- Sei.
A amizade entre as duas havia surgido naturalmente. Jane sempre mais que aberta a receber nova ajuda se fosse ofertada, e encantada com a Terra e disposta a ajudar a astrônoma no que fosse necessário. As duas eram bem estudadas, com sempre gostando de devorar livros em Asgard e já tendo estudado muitos assuntos. Com uma facilidade de dar inveja em qualquer um, conseguiu compreender rapidamente os objetos de estudo de Jane e começou a ajuda-la em alguns, principalmente os que envolviam Asgard e os demais reinos. Jane era curiosa, e era sua enciclopédia ambulante, uma completando a outra.
Nos primeiros meses, elas permaneceram no mesmo lugar, ajudando Erik a se recuperar dos efeitos do que Loki fizera a ele. Depois, as viagens começaram, e agora – um ano e meio depois de mudança de – elas estavam em Londres, estudando entre outras coisas, alguns eventos que Erik havia notado e pedira a assistência da mulher. Claro que a maioria acreditava que ele ainda estava enlouquecendo, mas Jane resolvera viajar mesmo assim, preferindo sempre confirmar com os próprios olhos e estudos antes de julgar. O único problema era que desde que haviam chegado, Erik não havia dado um sinal de vida que fosse, então Jane decidira tentar a sorte em alguns encontros para se distrair e não ficar pensando tanto em Thor. Tanto quanto Darcy concordavam que não estava ajudando em nada.
Mesmo assim, no dia seguinte, lá estava Jane partindo para mais um encontro e deixando encarregada de impedir Darcy de ir atrás dela. A asgardiana não achava que tinha qualquer chance, mas aceitou mesmo assim. Normalmente, ela até faria um bom trabalho, mas naquela tarde foi diferente das outras e nem mesmo ficou para trás quando ela, Darcy e Ian – o estagiário de Darcy, se é que fazia algum sentido – saíram para procurar Jane e mostrar o que vinha acontecendo. Eles vinham esperando por aquilo desde que haviam chegado ali, era o que Erik queria mostrar a Jane e não tinha dado notícias ainda. E agora o evento chegava até eles.
sabia que não deveria deixar Darcy ir atrás de Jane para interromper o encontro da mulher, mas novamente não era páreo para a morena, e se resignou a ficar no carro com Ian, esperando o retorno das duas. Para a decepção da loira, Darcy voltou sozinha.
- Cadê ela?
- Ficou para o encontro – disse Darcy, dando de ombros logo em seguida. – Ela virá.
A asgardiana não acreditava muito, mas se arrependeu de duvidar da morena ao ver Jane dobrando a esquina em direção ao carro. A astrônoma entrou no veículo e olhou para Darcy.
- Eu te odeio – disse ela, logo se virando para . – Por que não foi você no lugar dela?
- Como se alguém fosse conseguir pará-la – comentou , enquanto Darcy tentava se defender.
Darcy dirigiu até o ponto em que estava ocorrendo a anomalia, com Ian ditando a direção enquanto apenas observava a paisagem e Jane se perdia em pensamentos. Era inevitável, assim que algo ocorria, os cálculos já começavam a acontecer e as teorias surgiam. Era fascinante, achava, observar a mulher trabalhando e querendo encontrar as respostas mesmo, e principalmente, que não estivessem a um fácil alcance. O que parecia ser a questão naquele momento.
Eles estacionaram em um terreno abandonado. O vento frio atingiu o corpo de e ela se encolheu dentro do casaco, olhando ao redor e parando ao notar o caminhão virado de lado. Ela já havia visto filmes e séries de televisão o suficiente para saber que aquilo só ocorreria em um acidente, mas não parecia ser o caso ali. Ela e Jane trocaram olhares e depois seguiram para dentro do local. Parecia uma fábrica abandonada, caindo aos pedaços. Apenas os pássaros viviam ali, e elas não conseguiam entender o que havia de tão interessante ali – apesar de sentir um arrepio estranho em sua nuca constantemente.
Algumas crianças surgiram, após quase matarem de susto, finalmente apresentando algumas respostas que poderiam interessar a eles. Os três, a pedido de Jane, levaram o grupo para mais dentro do prédio, onde eles encontraram um grande caminhão. olhou em volta, sentindo cada vez mais que havia algo estranho no ar. Um dos meninos se aproximou do caminhão, apoiando dois dedos embaixo e fazendo um mínimo esforço. Em questão de segundos, o veículo flutuava no ar.
- O que diabos... – começou , olhando para o lado e vendo Jane completamente espantada.
- Isso não parece normal – comentou Darcy. quase riu, ela gostava da morena, que sempre possuía um comentário para dar, mesmo que não fosse relacionado ao que estavam estudando.
- Tem mais – disse a menina, fazendo um sinal para que o grupo a seguisse.
Ela os levou para um outro canto, agora com várias escadas, que eles subiram até chegar ao meio. Observando esperançosamente algo acontecer. Eles então olharam para cima, onde um dos meninos estava e viram quando ele trouxe uma garrafa de vidro com algum líquido dentro. franziu o cenho, ela estava um pouco cética apesar dos arrepios constantes em seu corpo. O menino soltou a garrafa e eles a observaram cair, esperando o momento em que se espatifasse no chão. Porém, para a surpresa do grupo recém-chegado, a garrafa sumiu. piscou, confusa.
- Para onde foi? – perguntou Jane, o grupo olhando quando a menina apontou para cima. Em alguns segundos, a garrafa surgiu no alto, caindo até voltar a sumir e surgir novamente no ponto alto, e seguindo assim por algumas vezes até que um dos meninos pegasse. – Isso é incrível!
Jane, então, resolveu “brincar” um pouco, pegando uma latinha amassada e jogando da mesma forma que o menino, porém, dessa vez, nada aconteceu. Eles esperaram um tempo, mas a latinha não caiu da mesma forma que a garrafa. olhou para Jane, depois para baixo, onde a lata havia sumido, não conseguindo enxergar nada de anormal ali.
- O que aconteceu? – perguntou Jane.
- Às vezes eles voltam. Às vezes não – disse a menina.
Tanto Jane quanto estavam confusas, enquanto Darcy queria apenas brincar um pouco também. se aproximou da astrônoma quando ela pegou o aparelho e tentou entender algo do que estava acontecendo ali, mas seu conhecimento com aquilo ainda era bem limitado, enquanto que para Jane parecia significar muita coisa.
- Eu não vejo leituras assim desde...
- Novo México? – Pela cara de Jane, logo conseguiu entender o que aquilo significava e então compreendeu melhor a razão para seus arrepios. Era algo relacionado a Asgard, talvez algo do qual ela já tivesse lido e não conseguia conectar os pontos naquele momento. Ela precisava de mais algumas informações para conseguir procurar as respostas que suspeitava ter.
Quando Jane saiu correndo, desceu as escadas, querendo observar de perto o que acontecia, tentando entender o que aquilo poderia ser. Ela pegou um bloco de pedra enquanto descia, e jogou no buraco quando estava mais ou menos na altura em que a garrafa e a latinha haviam sumido. Houve uma mínima perturbação no ar quando a pedra sumiu, e olhou para cima, sorrindo ao ver a pedra caindo de volta, e prestando mais atenção. Foi uma minúscula perturbação, um conjunto de ondas que aconteceu tão rápido que, caso tivesse piscado ela não teria notado. Ela já havia estudado sobre aquilo, lera em algum dos livros que preenchiam a enorme biblioteca de Odin.

Fazia horas que Jane havia sumido. havia se preocupado antes de Darcy, mas quando elas olharam o relógio e viram o tanto de tempo que a mulher havia sumido, o desespero da morena começou. Apesar dos protestos da asgardiana, Darcy chamou a polícia, e começava a dar seu testemunho do que havia acontecido quando Jane surgiu correndo de dentro do prédio. Darcy correu ao encontro de Jane, enquanto ficou para se desculpar pelo ocorrido com os policiais e depois caminhou em direção às duas. Ela estava alheia a discussão entre elas, mais curiosa pela energia estranha que sentia vindo de Jane.
Quando a chuva começou de repente, elas demoraram um pouco para perceber. só notando quando percebeu a figura alta e imponente de Thor à poucos metros delas. O deus usava suas roupas asgardianas, a capa vermelha movendo-se ao sabor do vento, o martelo - que ainda a aterrorizava - na mão, e os olhos azuis fixos nas três. sorriu, era óbvio que Thor estaria ali. Se o loiro tinha colocado Heimdall para vigia-la, com certeza tinha colocado também para vigiar Jane. E a cientista havia sumido por muito tempo, se até conseguia sentir que havia algo estranho, então certamente chamaria a atenção do vigia. A mulher nem estava mais ciente da discussão entre Jane e Darcy, afastando-se delas e começando a se aproximar de Thor. Foi só quando a chuva começou a molha-la que ela parou de novo, olhando para trás e notando o círculo perfeito ao redor de Jane e Darcy que as protegia da chuva. O afastamento repentino da loira chamou a atenção das duas, calando principalmente Darcy, que também percebeu a chegada de Thor.
Jane correu em direção ao deus, deixando Darcy também na chuva, e preferiu manter a distância enquanto os dois tinham a conversa inicial. Claro que ela quase desistiu de seu plano ao ver o tapa que Jane desferiu no rosto do deus. Porém, entendia de onde aquilo vinha. Mesmo afastada, a loira conseguia ouvir a conversa entre eles e se surpreendeu quando Thor perguntou a Jane onde a astrônoma estava.
- Heimdall não conseguia vê-la – complementou Thor. Lentamente, começou a se aproximar, querendo saber se o loiro daria mais informações.
Era fofo ver os dois juntos, a forma como Thor agia perto da mulher e como dava suas justificativas de forma a garantir que ele não era como um cara babaca qualquer. Claro, uma parte de ficou preocupada ao ouvir sobre as guerras, mas a sua maior parte não conseguia deixar de observar os dois e sentir uma pontada ainda que mínima de ciúmes, porque aquilo nunca seria ela. E talvez por isso ela tenha se odiado tanto ao não perceber que Darcy corria em direção aos dois, atrapalhando o tão esperando beijo entre eles.
Com o comentário da morena, Thor interrompeu a chuva, e finalmente saiu de onde estava. Os policiais ainda estavam na área, e quando Darcy indicou que eles poderiam estar em alguma forma de perigo, Jane correu para resolver a situação, enquanto finalmente ficava próxima o suficiente de Thor.
- Milady – comentou o loiro, sorrindo para ela quando a mulher revirou os olhos diante a forma de tratamento – é bom te ver.
- Igualmente – disse ela. bem que tentou se controlar, mas fazia tanto tempo que foi mais forte que ela e, quando percebeu, abraçava o loiro com força, sorrindo ao senti-lo abraçando-a de volta. – Como está Asgard?
- Sentindo a sua falta – disse Thor, quando se afastaram. Por um momento, não sabia se ele se referia a Asgard mesmo, ou ele, ou seus pais, ou Loki. Mas preferiu não perguntar. – Você sabe o que aconteceu?
- Não, mas eu sei que tem algo errado, você sabe?
- Heimdall comentou algo sobre a Convergência – disse Thor.
Algo na mente de pareceu se acender. Ela ia comentar algo, quando o que parecia ser uma explosão ocorreu e Thor rapidamente puxou ela e Darcy para tentar protege-las do que quer que fosse. Os três olharam em direção a Jane, que agora estava caída no chão. O resquício de uma energia vermelha sumindo no ar. franziu o cenho, acompanhando Thor quando ele correu em direção à Jane.
- Ela está bem? – perguntou , aproximando-se mas mantendo certa distância. Thor olhou para Jane e depois para a amiga asgardiana.
- Eu não sei – confessou, afastando-se um pouco para que Jane não escutasse. – Vou leva-la para Asgard. Quer ir comigo?
Aquele convite a pegou de surpresa. O impulso inicial de era aceitar e voltar, se entender com seus pais e voltar à sua vida normal. Mas havia algo que impediria a conclusão daquele plano. Porque ela sabia o que mais existia em Asgard, e sabia o que a colocaria em perigo diante toda sua determinação.
- Milady? – chamou Thor, o tom urgente após a abordagem dos policiais.
- Ele ainda está lá, não está? – perguntou a loira, ignorando os policiais e a dúvida nos olhos de Jane.
- Ainda está preso.
- Mas ainda está lá. – suspirou, olhando a forma protetora como o braço de Thor abraçava Jane, sabendo que nunca teria aquilo, não com quem gostaria, e se odiando por ainda ter esses pensamentos. – Eu não posso, Thor, não enquanto ele estiver lá. – A mulher suspirou, sorrindo para a cientista e se afastando para liberar o espaço necessário para eles saírem. – Vocês precisam ir… cuida bem dela, Thor.
-
- Vão, eu vou ajudar a Darcy a lidar com essa bagunça enquanto vocês cuidam do que está acontecendo. – parou um momento, Thor percebeu e esperou mais um pouco, não negaria que ainda tinha esperanças dela desistir e resolver acompanha-los. – Voltem vivos, por favor.
Thor não escondeu a decepção, mas não deu muito tempo para se sentir culpada, logo pedindo a passagem para Heimdall, ele e Jane sumindo em um piscar de olhos. Ela e Darcy olharam o círculo formado no chão. sorriu com as marcas intrincadas e sentiu lágrimas nos olhos por não estar fazendo a viagem de volta, mas ela sabia que era por um bom motivo. Seu emocional agradeceria.

۰ℓ۰

Se alguém pedisse para explicar o que havia acontecido naqueles últimos dias, ela não conseguiria sair do “bem, o que vimos foi...”. Claro, ela já havia estudado um pouco sobre a Convergência, mas era um assunto tão distante, que ela nunca se dera ao prazer de aprofundar as leituras. Naquele momento, ela sabia o suficiente para ter uma breve noção do que ocorrera naqueles dias, mas não o suficiente para dar uma aula como Jane, com certeza, daria em algum momento. De alguma forma, Jane e Erik haviam conseguido salvar o dia, e Thor os ajudara. O que era uma cena bem rara de ser ver, normalmente o deus quem salvava e os outros ajudavam. Londres estava parcialmente destruída, algo que a S.H.I.E.L.D. tomaria conta; e quase havia presenciado a morte do melhor amigo e de Jane, agradecendo a Odin com todas as forças por aquele campo que sugou a nave dos Elfos. Naquele momento, a asgardiana percebeu que sua viagem a Nova Iorque ainda era recente e a ideia de presenciar mais mortes a assombravam mais que tudo, ou talvez fosse a quantidade de sonhos que ela tinha na qual revivia a morte de Loki na Bifrost e outras tantas que ele havia de matá-la.
A asgardiana deu um tempo para o amigo se recuperar do que havia ocorrido, e deixou que Jane se convencesse de que Thor estava bem e que realmente não era tão fácil assim mata-lo. Só quando, enfim, a astrônoma se afastou para lidar com a equipe de agentes que começava a chegar, que se aproximou, se sentando ao lado do deus em um pedaço de concreto que havia caído.
- Bom trabalho – disse a loira, encarando-o.
- Você também – Thor sorriu.
- Não fiz nada.
- Aceite o elogio, é o que eu posso oferecer agora. É o que posso oferecer. – já havia notado que havia algo de estranho em Thor, na forma como ele agia e como havia se comportado perto dela. Até mesmo Jane estava estranha, mas a loira achou que fosse ainda efeito do que havia acontecido com ela.
- Muito bem, você está com aquele mesmo olhar de Nova Iorque – observou , chamando a atenção do loiro para ela. – O que aconteceu agora?
- Por que você não deixa uma passar?
- Porque você é péssimo para disfarçar as coisas – apontou ela, dando de ombros. – O que o Loki fez agora?
- Na verdade... – Thor hesitou, deixando a mulher ainda mais curiosa. Ele não tinha ideia de como falar com ela sobre aquilo. – Ele foi um herói. – Aquilo fez rir, mas ela rapidamente parou ao perceber que ele falava sério. – Ele me ajudou a salvar Jane.
- Por puro altruísmo?
- Por vingança. – engoliu em seco, ela queria perguntar quem ele vingava, mas não queria soar prepotente, então apenas esperou. – Minha mãe morreu.
- Thor, eu sinto muito.
sentiu um aperto no coração, sabia o quanto Frigga era importante para os dois filhos, até mesmo para ela. Era sua rainha, afinal. Lágrimas tímidas escorreram por seu rosto, enquanto ela abraçava o loiro de lado. Diante tudo o que havia acontecido, ele provavelmente nem tivera tempo de sentir aquela perda. E não estivera lá para dar apoio a ele.
- Corajosa até o último momento – disse ele, sua mão sobre a de . – Morreu protegendo Jane, lutando contra os elfos.
- Então foi ela quem Loki quis vingar – concluiu , a resposta mais óbvia.
- Sim... bem, ele morreu tentando – revelou Thor, não se surpreendendo ao ouvir ofegar. Os olhos âmbar dela agora brilhavam com as novas lágrimas e uma expressão de surpresa e assombro preenchia seu rosto. – Eu sinto muito, .
Ela não sentiu quando as lágrimas começaram a escorrer, e nem mesmo percebeu quando Thor a puxou para um abraço. Mas ela afundou seu rosto no peito do deus e deixou que suas lágrimas molhassem a sua armadura. Era aquilo que ela queria que tivesse acontecido em Nova Iorque, mas se ela soubesse naquela época o quanto doeria receber aquela notícia, teria desejado algo completamente diferente.
Não era uma dor quanto a da decepção ou rejeição, era algo pior, era algo ladeado por culpa e remorso. Ela havia mandado Thor mentir para ele, dizer que ela havia morrido. Ela havia fugido dele na primeira oportunidade. Suas últimas palavras indicavam que ele sofreria uma pena pior que a que Odin lhe daria. Ele sofreria o resto da vida por saber que ela havia morrido, e agora ele havia morrido acreditando naquilo. Ela não dera a ele cinco segundos que fosse para tentar se redimir, pedir algum tipo de perdão. Ela vivera aquele último ano se convencendo de que mesmo se lhe desse uma chance, Loki agiria da mesma forma de sempre. Mas agora ela nunca teria a chance de saber. Ele havia morrido e ela provavelmente havia perdido seu funeral, se é que ele havia ganhado um.
Pelo resto do dia ela ficou num estado de torpor, vez ou outra respondendo alguma pergunta, mas logo as pessoas pararam de lhe incomodar. Ela revivia seu último pesadelo, o que ocorrera antes de toda a confusão da Convergência. Nele, ela e Loki se encontravam e lutavam um contra o outro. Terminava com ele tentado enganá-la e ela conseguindo escapar de seu feitiço, pela primeira vez ganhando a batalha entre eles. Ela ainda se lembrava da forma como Loki a olhava no sonho, uma mistura de impressionado e traído por ela ter usado o próprio feitiço contra ele. Um sorriso preenchia seus lábios, aos poucos tingidos de sangue, enquanto ele caía após o golpe dela. acordara no exato momento em que percebera o que havia feito, com o arrependimento logo a tomando.
Agora ela finalmente entendia tudo aquilo. Como ela e Loki vinham se matando lentamente desde que haviam se conhecido. E como seu ato de fugir fora seu último golpe contra ele, uma tática de autopreservação egoísta, que não se encaixava na natureza dela, mas que a mulher havia forçado em si própria. Abrira mão de sua vida, de seu mundo, de sua família para fugir de alguém que, eventualmente, acabaria causando sua morte. E agora ela via os frutos de seus atos. Mesmo que não tivesse sido a carrasca a empunhar o machado e dar o último golpe, se sentia culpada.
- , estou indo embora – Thor surgiu em seu campo de visão, chamando sua atenção.
- Embora? Para onde?
- Asgard – informou o deus, a preocupação era tão clara em seu rosto que quase riu.
- Ah, sim. – fechou os olhos, respirando fundo e tentando fazer seu cérebro voltar a funcionar. Seu corpo inteiro protestava devido ao tempo que ficara parada absorvendo a notícia da morte de Loki. Aos poucos, ela voltava e processava as novas informações. Thor viera se despedir, mas ela sabia que ele queria outra coisa, ele tinha outras vontades. E dessa vez ela não lutaria contra. Estava cansada de fugir, de ficar em um lugar onde não era feliz, apesar das amizades que havia feito. Midgard não era seu lar, e ela sabia que nunca seria. – Está na hora de voltar para casa – disse ela, fazendo Thor sorrir e assentir.
- Sim, milady.
- Vamos para casa, Thor.

Epílogo

Some people pray at their God for some magic
Cause no easy love could ever make them feel the same

prometeu a si mesma que aquela seria a última vez que ela faria uma viagem daquelas. Ela havia esquecido como era desconfortável, e agradeceu quando finalmente colocou os pés no observatório de Heimdall, correndo para abraçar o vigia assim que o viu.
- Bem-vinda de volta, milady – disse o moreno, sorrindo para ela. – O rei o aguarda, senhor.
Thor olhou para a amiga, sabendo que ela desejava conversar com Odin para lhe prestar os respeitos pelas mortes recentes, e explicar o que havia acontecido com ela própria, afinal, ela havia forjado sua morte e fugido. Talvez o rei gostasse de uma explicação ou duas sobre aquele acontecido. O deus ofereceu à moça a opção de voar para chegarem mais rápido, mas se recusou. Deu como desculpa que gostaria de andar pela nova Bifrost, contente por finalmente terem restaurado a ponte que tanto amava. Lhe parecia um pouco diferente agora, tantas memórias que havia feito na antiga, e a nova não lhe trazia nada. Mas o cenário ainda era o mesmo, e algumas coisas traziam de volta o que ela tentara esquecer por um tempo.
Asgard estava igual ao que ela se lembrava, tão brilhante e esplendorosa como sempre. As pessoas a olhavam de forma surpresa, provavelmente todas pensando a mesma coisa, mas não queria pensar nisso naquele momento. Ela seguiu Thor, ambos em silêncio, observando cada mínimo detalhe a procura de qualquer diferença. Claro que algumas reformas haviam sido feitas após a invasão dos elfos e a escapada de Thor e Loki, mas tudo parecia igual.
Ao chegarem à porta da sala do trono, Thor pediu para que ela esperasse um pouco, tendo seus próprios assuntos para resolver com o pai antes. Aparentemente, ele havia cometido traição quando libertara Loki da prisão para que pudessem tentar derrotar Malekith e salvar Jane. aguardou pacientemente, sentindo as mãos tremerem e suarem diante o que poderia ocorrer quando fosse a vez dela. Apesar das portas grossas e da extensão da sala, conseguiu ouvir algumas coisas da conversa entre os dois e se surpreendeu ao ouvir Thor abrindo mão do trono. Por um lado, ela entendia de onde aquilo vinha, amava Thor como a um irmão, mas nunca o veria como um rei. Ele era um guerreiro, um herói, não um diplomata. E ela concordava com o loiro, apesar de tudo, Loki sempre combinara mais com aquele cargo. Até mesmo quando fizera com que Thor fosse expulso, e logo depois Odin entrou em coma, admirou como ele ficava belo sentado no trono, como se aquele assento tivesse sido criado para que ele o ocupasse.
Thor estava comovido com as palavras do pai, e sentia como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros ao finalmente abrir mão do trono. Ele estava preparado para ir embora, quando se lembrou de algo importante.
- Pai, há alguém aí fora que deseja vê-lo – disse o loiro, algo o impedindo de revelar quem era. Odin pareceu curioso, e pediu para que a pessoa entrasse. – Sua vez – disse Thor para quando a encontrou do lado de fora. A mulher o abraçou com força.
- Foi muito corajoso o que você fez – sussurrou ela, logo depois se afastando para olhá-lo.
- Espero que tenha sido o certo.
- Se não fosse, não teria feito – concluiu ela. Os dois se abraçaram uma última vez antes de cada um tomar seu caminho.
parou em frente à porta, encarando os detalhes desenhados na mesma. Ela respirou fundo e se preparou para o que quer que fosse acontecer. Fez um sinal para os guardas que esperavam a ordem, e eles abriram as portas para que ela passasse. Dois guardas estavam ao lado do portal, apenas para fazer a segurança da sala. entrou, deu uns três passos e parou. Eles estavam bem distantes, mas a mulher sentia o olhar do rei sobre ela e viu com atenção quando ele se levantou de seu trono, parecendo não acreditar no que via.
- Saiam. – A voz imponente de Odin ecoou pela sala com seu pedido, seus olhos fixos na recém-chegada, ambos se encarando com os olhos arregalados, apesar de ele duvidar que os motivos dela eram os mesmos que o dele.
Os dois esperaram até estarem sozinhos para voltarem a se mover. O rei de Asgard aos poucos se aproximando da escada e descendo os poucos degraus que o separavam do mesmo nível da mulher que se aproximava dele. A cada passo que ele dava, a magia da ilusão ia desaparecendo, ele perdendo o controle sobre tal truque. Aos poucos, o cabelo grisalho foi dando lugar a um longo, negro e brilhante. O olho claro, e o outro coberto por um tapa-olho, foi substituído pelos dois claros e verdes, o rosto determinado e severo sumiu, formando o rosto pálido e angular de Loki Laufeyson. De onde estava, a mulher ofegou, seu passo oscilando à medida em que as vestes do rei eram substituídas pelo costumeiro traje negro com detalhes verdes e dourados que o Deus da Trapaça costumava a usar. Aquilo não podia ser possível, Thor a havia garantido que o irmão mais novo havia morrido enquanto o ajudava a derrotar Malekith e salvar Jane. Thor lhe jurara que fora um ato heroico, que Loki havia conseguido melhorar a imagem que havia deixado. Ele também lhe prometera que era seguro voltar a Asgard, que os motivos pelos quais ela havia abandonado a cidade anos atrás, não possuíam mais sentido.
sequer conseguia ficar surpresa. Era tão óbvio que ela poderia rir, seria o caso se ela ainda não estivesse tão estupefata com a visão a sua frente. Se não sentisse em seu estômago o frio característico, desta vez provocado pela forma como Loki a encarava. Provavelmente ele também repassava o que o Deus do Trovão havia dito a ele.
Thor havia falado que ela estava morta. Não. Ele havia mostrado que ela estava morta. Aquelas fotos haviam queimado, mas toda vez que fechava os olhos, Loki ainda conseguia vê-las. O corpo sem vida e sem cor de . Os olhos castanhos fechados nunca mais brilhariam ao olhar para ele, os cabelos loiros não mais se moveriam ao sabor do vento, alguns fios roçando o rosto dele, causando leves cócegas. E seu sorriso nunca mais iluminaria o cômodo em que ela estivesse. O Deus havia tirado um tempo para se odiar e se culpar após descobrir a morte da mulher. A morte que ele havia provocado, pois era por causa dele que Thor a havia arrastado até a patética e inferior Midgard para tentar impedir os planos do irmão mais novo. E quando ela falhara, sem surpresa alguma, ao invés de retornar ao lar, resolvera ficar e lutar, ajudar aqueles que foram machucados durante a Batalha de Nova Iorque.
Ele mal havia conseguido superar uma morte, e logo depois veio a de sua mãe. E foi mergulhado na raiva mais pura que ele havia ajudado Thor a salvar Jane e destruir Malekith, vingando sua mãe. Mas ele nunca conseguira vingar . Inicialmente, ele considerou que fosse uma autopreservação, já que fora ele o culpado pela morte da mulher e a vingança seria sua própria morte. Mas agora ele acreditava que era porque não havia uma morte a ser vingada, já que ela estava ali, a sua frente. Completamente diferente do que ele via em seus sonhos na cela onde ficara preso após Nova Iorque. Sonhos em que eles voltavam a se encontrar após sua própria morte e ela vinha recebê-lo com o mesmo vestido que usava quando se conheceram, porém, o verde estava mais escuro, manchado e úmido. E quando ele a tocava, sua mão voltava cheia de sangue. O sangue dela que ele havia derramado.
Ele era o Deus da Trapaça, tinha total controle sob sua mente e conhecia todas as mágicas e truques possíveis. Mas ali estava ele, duvidando de si mesmo enquanto a observava, convencido de que era um truque, uma forma de Thor desmascará-lo após descobrir que todo esse tempo era Loki no lugar de seu pai. Era a única explicação, era a mais fácil de aceitar.
Mas era a mais falsa também, porque era real. Ele conseguia sentir, com a proximidade, o calor que emanava do corpo dela, o aroma de seu perfume, que havia mudado durante seu tempo em Midgard, mas que ainda carregava o que ela usava em Asgard. Ou talvez fosse apenas um truque de sua mente. Porque aqueles fios loiros e cacheados podiam se parecer com os dela, mas não eram iguais. Os de eram cachos largos e definidos, longos que se estendiam até sua cintura. Mas aquela mulher a sua frente tinha os cabelos curtos, os cachos haviam se desfeito e haviam se transformado em largas ondas, e havia alguns tons mais escuros nos fios loiros. Algo não havia mudado, entretanto, que foi o que lhe arrancou o resto de ar que ele ainda segurava: seus olhos. Os olhos âmbar, que o lembravam a forma como o sol do fim do dia refletia no castelo. Ele sabia que poderia procurar por toda Asgard, por todos os reinos e galáxias, mas nunca encontraria olhos como aqueles. Olhos que o encaravam com surpresa, mas sem medo. Olhos curiosos, mas não apavorados. Olhos intrigados, nunca desafiadores. Olhos que o enxergavam através de qualquer feitiço de ilusão que ele poderia lançar sobre si mesmo. Olhos que enxergavam qualquer segredo que ele planejava manter para si.
Tão imersos que estavam na imagem do outro, não perceberam que seus passos pararam a poucos metros de distância um do outro. Mas ali estavam, frente a frente. O peito subindo e descendo em ritmo acelerado acompanhando a respiração que ambos haviam prendido por muito tempo. Os olhos se analisando, pareciam travar uma batalha para ver quem absorvia mais do outro. O coração de batia tão forte que ela podia apostar que ele conseguia ouvir, mesmo sabendo que aquilo era absurdo. Mas Loki nem prestava atenção, seu próprio coração fazendo-o alheio a tudo ao seu redor, a pulsação forte fazendo com que ele sequer notasse a respiração acelerada dela. Ela estava ali, a sua frente, tão bela quanto antes, talvez ainda mais. O olhando como se estivesse dividida entre agradecer a Odin por tê-lo trazido de volta, ou entre estapeá-lo e xingá-lo de todos os nomes que poderia conhecer por fazê-la viver em exílio por dois anos, e por fazê-la acreditar que estava morto. Não que ele estivesse muito diferente, talvez só diferia o fato de que ele nunca lhe faria qualquer mal que fosse.
- Me diga que não é uma ilusão – suplicou Loki, não se importando com a postura que deveria manter.
Por dois anos ficara se torturando por ter causado a morte dela, agora que via que ela estava viva e na sua frente, ao seu alcance, ele não se importou. Suas mãos pareceram criar vida própria e subiram para acariciar o rosto da mulher, que cedeu ao toque, fechando os olhos e inclinando a cabeça para o lado. Loki se aproximou ainda mais, afundando seu rosto no cabelo da mulher, aspirando seu cheiro e se deixando intoxicar. Ele fechou os olhos ao sentir as mãos dela se prenderem em suas vestes, como se estivesse querendo procurar algo em que se sustentar.
Ele a afastou com delicadeza, buscando os olhos âmbar e fazendo-os cruzarem com os verdes. Aquele cruzamento que lhe causava arrepios, um batimento acelerado e um formigamento por todo o corpo. Era tão diferente do âmbar que o cercava em seus sonhos. Aquele era calmo, aliviado, saudoso. Aquele brilhava não de raiva ou ódio, mas de alívio e alegria por vê-lo ali. E sentia-se em êxtase ao ver que os verdes não estavam duros e frios como sempre, Loki parecia ter abandonado toda a cautela e se entregado de vez àquele momento. Ela sorriu, elevando suas mãos para tocar o rosto dele, os dedos percorrendo seus lábios com delicadeza. Loki fraquejou diante aquele toque inesperado, mas seus olhos mantiveram a conexão com os dela. Então ela falou, e sua voz suave, baixa e delicada pareceu música para os ouvidos do deus, tanto tempo ficara sem aquele tom, e agora queria passar a eternidade ouvindo-o.
- Não é uma ilusão.


۰The End۰


Nota da autora: O TRAMPO QUE DEU PRA ESCREVER ESSA FIC NÃO TÁ ESCRITO, MAS EU TO TÃO ORGULHOSA DESSE NEGÓCIO QUE SÓ SEI GRITAR E AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, OLHA ESSES DOIS MEU DEUS, OLHEM QUE COISA MAIS LINDA, COMO SÃO MARAVILHOSOS!
Melhor coisa da vida escrever com Loki, deveria ser Deus da Inspiração e não da trapaça.

Cada vez que eu lia e relia essa fic, eu me apaixonava ainda mais, então espero que tenham gostado (ou se apaixonado) de ler tanto quanto eu. Não esqueçam de deixar aquele comentário maroto ai embaixo como oferenda a esse deus maravilhoso <3


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