CAPÍTULOS: [ÚNICO]









CAPÍTULO ÚNICO


Sexta-Feira – 14 de agosto de 2015, às 19h15
sentiu a brisa fria tocar-lhe o rosto assim que deixou o interior do edifício onde ficava o consultório de sua terapeuta. Olhou para cima e percebeu nuvens cinzentas cobrindo grande parte do céu naquele início de noite, o que indicava que uma chuva poderia chegar a qualquer momento.
Desceu as escadarias de pedra com a mente revivendo a conversa de minutos atrás. Sentia algo entre a leveza e a expectativa que só a impulsionava para frente, para um bem-estar que ela buscava em cada pedacinho de sua vida há tempos e que finalmente estava se apresentado para ela, depois de uma busca minuciosa em seu próprio interior.
Havia passado por uma fase tumultuada e cheia de ilusões que não passavam de sombras que a encurralavam. A transição de uma adolescente para adulta foi implacável para ela, que se sentiu despreparada e perdida, o que a fez buscar segurança em terrenos nada saudáveis.
Passou um bom tempo tentando se adaptar a moldes que não lhe serviam e tentando ser aceita por pessoas que não lhe compreendiam. Os que estavam ao seu redor a diminuíam sempre que podiam, fosse por seu peso, suas roupas fora de moda ou seu comportamento esquisito. E em um momento em que as dúvidas são infinitamente maiores que as certezas, ela se tornou alguém altamente influenciável, rindo de piadas que não achava graça, bebendo o que não gostava e sendo levada por um caminho que ela nem sabia qual era. Mas havia uma recompensa que na época ela achava que valia a pena: ela era aceita, era considerada uma garota legal, as meninas a aceitavam em seus grupos e os caras gostavam de estar com ela, eles mesmos diziam isso, que ela “não era como as outras chatas e histéricas”, ela era um deles e isso a fazia se sentir diferente.
Mas ela não era diferente. Ela só estava agindo como queriam que ela agisse. Era uma performance. No fim das contas, quando chegava em casa e trancava-se em seu quarto, soltava a respiração presa durante um dia inteiro.
Então as indagações voltaram em uma enxurrada. Quem diabos ela era? Deveria estar ao lado de pessoas que apenas gostavam de uma parte sua que era irreal? Deveria continuar a fingir para ser aceita? Mutilar sua personalidade para se encaixar em um mundo doentio? Ela deveria aceitar o caminho para onde estava sendo empurrada? Ela teria forças para desviar e encontrar seu próprio caminho?
Como ela não sabia o que fazer, se isolar foi a solução mais óbvia. Passou meses se martirizando por ter feito papel de boba durante tanto tempo, por ter se submetido a tanta coisa ridícula, para no fim, se sentir pior do que antes. Trancou a faculdade, cortou laços com aqueles que antes chamava de amigos e fechou os olhos para o mundo para então olhar para si.
Estava sendo um processo lento, que começou com a reforma de seu quarto em uma tarde de domingo, passou por sua inscrição na yoga que agora fazia com a mãe nas terças, o inicio de sua terapia, a mudança para o curso de Artes Visuais na universidade e sua matrícula no curso semanal de desenho que resolveu fazer com a amiga de infância, Aliana.
Ela finalmente estava começando a se sentir bem consigo mesma, confortável com as roupas que vestia, apreciando bem mais sua própria companhia, cuidando de si mesma e se amando como ninguém poderia fazer. Havia percebido que não precisava buscar sua felicidade desesperadamente nos outros, porque a pessoa que podia lhe fazer a mais feliz do mundo era ela mesma.
Era sobre isso que falara com sua terapeuta naquele dia: a importância do outro na vida dela. Algo que ela tanto fez questão antes, agora era apenas uma parcela do que era essencial para si. Havia colocado na cabeça que só podia pensar em se relacionar afetivamente de novo quando se sentisse completamente segura de si, forte o suficiente para se cuidar sem desabar emocionalmente de novo. Mas é claro que ele não sabia disso.
Sorriu sozinha ao lembrar dele e parar em frente a faixa de pedestres, esperando que o sinal abrisse para ela.
trabalhava no ateliê onde ela fazia aulas de desenho e apesar de não ser instrutor da turma dela, o via sempre por lá. Não havia como não reparar nele, em seu porte atraente, sua carinha inofensiva e as tatuagens que coloriam todo o seu braço esquerdo com alguns desenhos que ele mesmo havia feito.
Aliana a alertava que olhava demais para ela e sempre arrumava um jeito de se aproximar para cumprimentá-la, mas se esquivava protetoramente. Seus fracassados relacionamentos anteriores ainda faziam um eco desagradável em sua vida.
Mas, novamente, não sabia disso e foi se aproximando ao poucos, com conversas divertidas entre os intervalos e dicas sobre como aprimorar a técnica dos desenhos dela. Até aceitar que gostava de sua presença, de seu tom de voz calmo e da forma leve como ele levava a vida. parecia não ter grandes neuras, acabara de terminar a faculdade de Desenho Industrial, trabalhava com o que gostava e gastava seu tempo livre aprendendo a surfar na praia da cidade vizinha. Ele parecia completamente encantador e atraente para ela.
saiu de seus devaneios ao chocar-se fortemente com outra mulher que vinha apressada na direção oposta da faixa de pedestres. Levou uma mão ao ombro instintivamente.
– Caramba, desculpa! – a mulher de estatura mediana virou em sua direção, preocupada – Você tá bem?
– Tô bem. – riu, percebendo que a mulher era bem mais forte que ela e, pelas roupas, parecia atleta – Eu estava distraída, não foi sua culpa.
A outra então sorriu, um sorriso grande e bonito, e virou as costas apressada, sumindo entre as outras pessoas. continuou em frente, até o ponto de ônibus e teve sorte por não precisar esperar demais.
Assim que saltou do coletivo, andou por um quarteirão até enxergar o pequeno edifício. A portaria anunciou sua chegada e ela subiu pelo elevador até o apartamento do quarto andar. Assim que a porta foi aberta, Merlin, um adorável Boston Terrier preto e branco, foi o primeiro a cumprimentá-la, esfregando-se em seus tornozelos.
– Também estou feliz em te ver, Merlin! – agachou-se para fazer um carinho entre suas orelhas, sorrindo.
Levantou-se logo depois, finalmente encarando , que ainda segurava a porta para que ela pudesse entrar. Deu-lhe um sorriso pequeno, quase tímido, meio sem saber como o cumprimentar adequadamente, se com um beijo ou um tapinha nas costas. Suas péssimas experiências no passado a desarmaram completamente para esse tipo de situação. Era como se estivesse começando tudo de novo, do zero. Era como se fosse o primeiro.
Percebendo a hesitação dela, se aproximou gentilmente, segurando uma de suas mãos e inclinando-se para beijar seus lábios leve e rapidamente. sorriu, satisfeita com o gesto e sentindo um frio gostoso aparecer em seu ventre, que de repente aqueceu todo o seu corpo. Um gesto simples e inocente como aquele beijo de era muito para quem há tempos não recebia um carinho verdadeiro e despreocupado.
– Como foi lá hoje? Tudo certo? – ele perguntou enquanto a guiava pela sala pequena até o sofá de dois lugares.
– Foi ótimo. Até passamos um pouquinho do tempo, por isso demorei. – justificou, tirando a alça transversal da bolsa e colocando-a de lado, esticando uma das mãos para fazer carinho em Merlin, que se sentou entre os dois.
– Posso ver. Você está com uma carinha ótima agora. – ele esticou uma das mãos e deixou um carinho na bochecha dela com o polegar.
soltou um suspiro e se lembrou do último dia que se viram. Era quarta-feira e ela havia tido o infortúnio de encontrar com Brian, seu ex-namorado. O encontro trouxe lembranças ruins que ela ainda tentava superar, afinal, esteve presa a um relacionamento abusivo com ele por seis meses.
Brian era um manipulador, chantagista emocional e ególatra. O problema era que havia percebido isso tarde demais. Esteve distraída por sua beleza e popularidade, pela forma como ele se apresentou para ela, como se fosse seu emancipador, como se apenas ele pudesse fazê-la se sentir uma mulher livre. Mas livre era a última coisa que ela foi enquanto esteve com ele.
Quando tudo ao seu redor começou a ficar opaco e sem luz, ele estava lá para chamá-la de louca, de fraca. Ele estava lá, gritando indignado para sua insatisfação, afinal, ele era tudo o que ela poderia querer, mesmo que quase nunca a fizesse gozar.
Por isso olhar para ele era como voltar ao inferno.
Encará-lo ainda era como se a vida estivesse lhe mostrando o quanto foi cega e burra por ter ficado com ele por tempo o suficiente para surtar, mesmo que ela soubesse que não era a culpada.
Estava atordoada quando encontrou naquele dia. Como se inconscientemente procurasse traços na personalidade dele que pudessem ser como as de Brian. E se fosse como ele?
A vida se parece com um campo minado quando você passa por momentos traumáticos. estava bem desviando das bombas, mas o receio ainda estava lá, como um buraco que sugava sua coragem. Mas ela sabia do trabalho constante que seria dali em diante, lutando para se manter forte, segura e saudável.
– Me desculpa por aquele dia. – ela disse, arrastando uma das mãos para segurar a dele – Eu estava péssima e acho que devo te avisar que isso às vezes acontece.
– Não precisa se desculpar, . – ele sorriu, compreensivo – Só quero que você saiba que eu vou estar aqui, mesmo que seja pra esperar por você.
O frio na barriga voltou de forma arrebatadora.
Sua terapeuta havia dito que ela estava pronta para seguir em frente. E se oferecia para segurar sua mão nessa caminhada.
Então toda aquela sensação de leveza e expectativa voltava, criando uma coragem dentro dela.
– Eu não sei se estou pronta, mas – sorriu vendo-o fazer o mesmo quando concluiu a frase – eu quero tentar.
– Fico feliz que esteja confiando em mim para isso.
riu, sentindo Merlin se remexer brincando com uma bolinha azul.
– Estou confiando em mim, .
– Isso é melhor ainda então. – ele riu – Você merece seguir em frente da melhor forma possível. Só estou me oferecendo para te ajudar a rabiscar o caminho.
Ele piscou e o gesto foi completamente encantador aos olhos dela. sorriu, satisfeita, e inclinou-se para beijá-lo.
Suas mãos tocaram seus braços fortes como quem tateia um lugar novo, dedilhando as curvas de seus músculos com cuidado enquanto ele também se inclinava para ela. O beijo, que não era o primeiro deles, funcionava como o selo de um compromisso, a chave que abria portas para um momento novo.
O passado de não se apagava ali, mas agora, ao invés de puxá-la para baixo, ele funcionava como um propulsor que a levava para cima, tirando suas forças das experiências e das dores, capacitando-a para um mundo que nem sempre nos favorece, mas que não pode nos impedir de sempre buscar desesperadamente pela felicidade, seja lá onde ela esteja.

Sexta-Feira – 14 de agosto de 2015, às 19h33
– Caramba, desculpa! – Dana exclamou, logo após chocar-se fortemente com uma moça que vinha na direção contrária da faixa de pedestres – Você tá bem?
– Tô bem. – a garota soltou um riso sem graça, olhando para ela rapidamente enquanto levava um das mãos ao ombro – Eu estava distraída, não foi sua culpa.
Soltando um suspiro de alívio e depois sorrindo, ela seguiu adiante, apressada. Estava meia-hora atrasada, mas não conseguiu sair antes porque seu irmão e o pai resolveram fazer um social na casa para alguns lutadores e demais caras do meio que estavam na cidade para o torneio que começaria no sábado. E ela precisava sair escondida, então teve de esperar até que ninguém pudesse vê-la saindo, ainda mais porque estava com as roupas que o irmão havia ganhado de um patrocinador na semana passada.
Apertou o passo quando avistou o letreiro desbotado da academia da família. O local não funcionava nas noites de sexta, e aquele era o dia perfeito para que ela pudesse treinar devidamente e sem correr o risco de ser pega.
Retirou o chaveiro da mochila e abriu a porta de madeira lateral, entrando logo em seguida. Aquela porta dava para o escritório de seu pai e a sala de contabilidade, onde ela normalmente trabalhava, ajudando com as finanças, o controle de alunos da academia e a entrada e saída de dinheiro na carreira do irmão, Max.
Dana havia crescido naquele meio, apesar de nunca ter participado ativamente dele. Garotas não eram permitidas.
Seu pai fora um campeão nacional, um destruidor nos ringues que havia se tornado um treinador após a aposentadoria, mas sua família esteve no boxe desde seu avô, que montou a academia que treinou seu pai e que agora treinava seu irmão mais velho.
Max tinha talento, mas parecia desperdiçá-lo por pura imprudência. Ele gostava do que a fama de lutador lhe oferecia, mulheres e dinheiro, mas quando colocava isso em primeiro lugar, esquecia-se que precisava ser um bom lutador antes. E seu pai apostava todas as suas fichas nele. Bob via em Max o seu sucessor, aquele que levaria o nome para família para as lutas internacionais, por isso, quando ele começou a perder e em consequência, as matrículas na academia também, Bob tratou de introduzi-lo no meio que prometia ainda mais fama e dinheiro: as lutas mistas.
Dana ficara chocada com a decisão do pai, afinal, o boxe era a tradição na família, e gastar dinheiro com treinadores de outras modalidades para preparar Max, ao invés de discipliná-lo, parecia um desperdício enorme.
Mas se o irmão não aproveitava as oportunidades que eram oferecidas, ela correria para mostrar seu valor mesmo que ninguém quisesse ajudá-la.
Crescera vendo lutas, ouvindo seu pai e seu avô falarem da glória de ser um campeão e ela encontrou no boxe uma forma de aprender a se defender e a lutar por seus objetivos, mesmo que Bob e todos os outros fossem contra.
– Até que enfim! – Johann exclamou, levantando do colchonete onde estava deitado assim que viu Dana aparecer pela porta do escritório.
O grande salão da academia estava quase todo escuro, exceto pelas luzes das lâmpadas que iluminavam um dos ringues. Diferente do que acontecia em horário comercial, os equipamentos de levantamento de peso e halteres estavam todos organizados e os sacos de pancada e sacos pêra, imóveis.
– Foi mal! A casa estava cheia e eu precisei sair escondida. – se desculpou enquanto tirava a mochila das costas e retirava o rolo de fitas e as luvas.
– E com as roupas do Max! – Johann apontou e riu.
– Ele ganhou tantas dessas que nem vai notar! – ela disse, prendendo o cabelo em um coque mais alto e logo se livrando da calça de moletom com o logo do patrocinador, deixando apenas o short largo.
– E como estava a festinha? – o rapaz perguntou, esticando a fita preta e ajudando-a a enrolar nos dedos – Sabia que eu deveria estar lá?
– Eu vou te recompensar quando conseguir o meu primeiro cachê! – ela sorriu – E estava um saco, se você quer saber. Todos aqueles caras disputando para saber quem é o mais metido. E aquele babaca do Barney estava lá, te livrei dessa e não precisa me agradecer!
Ele riu, balançando a cabeça enquanto passava a fita na mão esquerda dela. Johann era um velho amigo, filho de um grande amigo do pai de Dana, que criou o filho para ser um exímio lutador. E Johann foi. Mas apenas por um tempo. Um problema em seu joelho esquerdo o tirou das lutas e ele agora trabalhava com Bob, treinando garotos mais novos e servindo de sparring para os lutadores profissionais da academia.
Depois que seu avô morreu, Johann se tornou o único amigo de Dana ali. Ele não se incomodava com ela por perto, dando pitaco em seus movimentos ou indagando sobre suas lutas. Por isso ela confiava nele para o que estava fazendo.
– Vamos fazer as séries que combinamos e depois treinamos o seu jab, certo? – ele perguntou enquanto ela se alongava – As inscrições para o torneio começam no mês que vem, você já sabe o que vai fazer? Precisa de uma academia para se inscrever, precisa de um agenciador, precisa de um treinador para o corner.
Dana sorriu para ele enquanto começava a socar o saco pêra ritmicamente. Johann a encarava sério, com as sobrancelhas franzidas evidenciando a cicatriz na testa. Ele era um pouco mais alto que ela, com um cabelo loiro escuro e olhos claros e fundos. Ela o acharia bonito se já não fosse tão acostumada com ele.
– Já tenho um treinador. E você sabe que eu não poderia ter ninguém melhor para estar no meu corner.
– Um treinador perneta. Você vai entrar com muita credibilidade.
– Um treinador que já foi campeão regional do peso meio-médio.
– É sério, Dana. Estamos indo bem nos treinos, você só melhora e eu sei que tem chance no torneio, mas você não pode chegar lá sozinha e simplesmente se inscrever.
– Eu sei, tá legal? – ela falou com um pouco mais de dificuldade, aumentando a frequência de socos – Vou falar com Robert, aquele mercenário, e pedir que ele me ajude com isso. Tenho guardado os meus últimos quatro salários pra isso, Johann, fora minhas economias de antes. – ela abaixou as mãos quando atingiu o número e olhou para ele – Eu não vou recuar dessa vez. Se Bob acha que apenas Max pode lutar nessa família, ele está muito enganado.
O rapaz sorriu para ela, vendo-a seguir para o saco de pancadas no canto esquerdo. Admirava muito a força de vontade dela. Nenhum outro esporte poderia ser mais perfeito para Dana. Nenhum outro esporte a ajudaria a absorver os incontáveis golpes da vida e a se defender de um mundo tão hostil para quem ousa não aceitar uma condição subordinada.
– Sabe que pode contar comigo sempre. – ele segurou o saco quando ela começou a socar – Pelo menos até o seu pai me matar quando descobri que eu estive te ajudando com isso.
– Ele não vai poder parar o inevitável, Johann. E pode deixar que eu defendo você. Agora podemos ir pro ringue? – ela perguntou e ele riu, assentindo.
Entre jabs e uppercuts, os dois treinaram pelas próximas duas horas, até Johann encerrar o treino.
– Não esquece de treinar a sombra! – ele lembrou, já cruzando a esquina oposta. Dana sorriu e acenou.
– Pode deixar, treinador!
E seguiu até o ponto de ônibus mais próximo, esperando o último que passaria às vinte e duas.

Sexta-Feira – 14 de agosto de 2015, às 22h02
Essa é uma das razões por que nunca quis me casar. A última coisa que eu queria da vida era “segurança infinita” ou ser o “lugar de onde a flecha parte”. Eu queria mudança e agitação, queria ser uma flecha avançando em todas as direções, como as luzes coloridas de um rojão de Quatro de Julho.¹


Greta sentiu um sentimento de identificação enorme ao terminar de ler aquele parágrafo. Sentiu o ônibus parar e olhou pela a janela, percebendo que ainda estava longe de seu bairro e arrumou a postura ao que uma mulher com roupas de atleta sentou ao seu lado, com uma mochila enorme no colo.
Voltou a abrir o livro, relendo aquele parágrafo com devoção. De uma forma ou outra, ela se identificava com Esther, a narradora daquela história. Assim como ela, Greta tinha a cabeça cheia de dúvidas para o futuro e se recusava a aceitar que sua vida se resumisse a sequência lógica de crescer, casar, se reproduzir e morrer. Ela queria mais.
Os recursos de sua família sempre foram limitados, a mãe trabalhara em dobro para que ela estivesse onde estava agora, como a primeira da família a entrar em uma universidade, já que o pai não existia, em uma história que muito se repetia em seu meio social.
Nunca esqueceria os olhos da avó no dia da notícia de sua aprovação, onde lágrimas cintilavam em puro orgulho. Tampouco esqueceria todo o esforço que ela e aquelas duas mulheres mais importantes em sua vida fizeram para corrigir a fenda que separava de pessoas como ela as oportunidades de um futuro próspero.
Nascida e criada na periferia, Greta conhecia desde pequena a realidade de um mundo doente, que sacrificava uns para que outros continuassem no topo. Era a única negra em sua turma na universidade e via todos os dias que a igualdade era apenas uma palavra vazia em meios como aquele.
Precisou ouvir, desde muito pequena, inclusive de sua mãe e avó, que ela precisava se esforçar para conseguir o que queria, que precisava estudar muito para conseguir um trabalho que lhe garantisse uma vida confortável.
Nada cai do céu, ela ouvia. O que você quer não vai cair no seu colo como um presente. Nada vem sem esforço.
Mas para quem?
Greta sabia que aquela era uma realidade dela e de outros jovens em sua vizinhança, mas era assim também para seus colegas de faculdade?
Ela ouvia os patrões de sua mãe, seus professores de colegial, homens importantes na TV falarem sobre o mérito. Mas quando você tem todos os recursos, as coisas simplesmente se apresentam para você. Você só precisa aceitar.
Aquilo não funcionava para ela. Cada conquista só chegava depois de uma maratona com obstáculos. Todos têm oportunidades iguais, mas uns têm atalhos.
Quando Greta percebeu tudo aquilo, foi como um soco no estômago. Ela se percebeu em uma corrida sem fim, mas não desistiria de seus objetivos.
E um deles finalmente estava se apresentando para ela: a formatura. O final de um ciclo chegaria para ela em breve, mas ela já estava ansiosa para mais. Exatamente como dizia aquele trecho no livro, ela queria mudança e agitação. Queria estar sempre aprendendo mais, mudando e desconstruindo para construir algo novo e melhor.
Seus sonhos não envolviam um casamento com filhos, uma casinha bonita e uma rotina. Ela não queria ser a dócil esposa, dona de casa e cuidadora de marido. Greta não aceitava um futuro pré-decido por uma sociedade que estipula ações conforme o gênero. Ela queria viver um amor, como a maioria das pessoas, desde que ele não a prendesse em uma vida estática.
Ela lutaria sempre por sua autonomia. Exatamente como a Esther do livro.
Viu uma moça de cabelos curtos descer antes de o ônibus dobrar a esquina e guardou o livro na bolsa, se levantando e percebendo o veículo quase vazio. Desceu no ponto e andou depressa da esquina até a pequena casa azul onde morava com a mãe e a avó. Acenou para a nova vizinha que parecia chegar naquele momento também e empurrou o pequeno portão de ferro, abrindo a porta da frente com a chave que levava no bolso, encontrando a mais velha na sala, de frente para a TV.
– Sua benção, vó. – ela pediu, dando um beijo carinhoso na bochecha da senhora.
– Deus te abençoe, querida. Sua mãe tem uma coisa pra te mostrar.
Assim que terminou de falar, a mãe de Greta, Guilhermina, apareceu saindo de um dos quartos com algumas sacolas na mão.
– Como está a minha doutora preferida? – ela perguntou, sorridente, dando um beijo na filha e sentando-se no sofá ao lado da mãe.
– Curiosa pra saber o que vocês estão aprontando!
– Eu fui à rua do comércio hoje e – começou a abrir as sacolas, vendo Greta esticar o pescoço para espiar e se sentar também – já comprei os tecidos para o vestido da formatura! – ela mostrou o tecido vermelho – Comprei aquele que você queria e essa semana já começo a costurar.
Greta levou as mãos às bochechas, emocionada.
– Só esses preparativos para me fazerem acreditar que finalmente vou me formar! – ela riu – Mas enquanto isso preciso terminar o trabalho com a monografia.
– Não antes de jantar, Greta! Não pode virar a noite nesse computador sem comer.
A mais nova sorriu, largando a bolsa no sofá e seguindo até a cozinha, feliz com a certeza de que, enquanto estivessem juntas, uma sempre poderia contar com a outra.

Sexta-Feira – 14 de agosto de 2015, às 22h36
Alexa desceu do ônibus quase vazio e caminhou a poucos passos até os portões do edifício onde morava. Cumprimentou o porteiro e seguiu de elevador até o sexto andar. No corredor, em frente à porta, ela já conseguia ouvir as vozes de Jake e Finn de Hora de Aventura e sorriu antes mesmo de entrar.
Sarah estava no sofá com um prato de macarronada no colo, comendo enquanto assistia o desenho animado e deu um sorriso grande à namorada assim que a viu. Alexa suspirou aliviada por finalmente estar em casa depois de um dia estressante no trabalho.
– Você demorou. – Sarah disse, abrindo os braços para recebê-la e deixando um beijo em seus lábios antes de dar espaço para ela sentar – Aconteceu alguma coisa?
As duas moravam juntas há quase um ano, mas mantêm um relacionamento há dois, era por se conhecerem tão bem que Sarah sabia que algo chateava a namorada.
– Tive problemas com o novo chefe de setor outra vez. – Alexa rolou os olhos, exausta, e jogou a cabeça para trás, relaxando no sofá vermelho – Ele faz aquela redação parecer insuportável pra mim e eu tô começando a achar que é pessoal.
Sarah deixou o prato na mesinha de centro e virou para a outra com a feição preocupada.
– Ele só pode estar querendo te prejudicar. Alexa, você precisa ir ao RH.
– Eu preciso de um banho, um pouco disso que você tá comendo e seu abraço. – abriu um sorriso pequeno, não querendo alarmá-la com aquele problema.
– Eu tô falando sério, Alexa. – ela também se recostou no sofá, olhando a namorada nos olhos.
– Eu sei. Vou fazer o que você disse, mas fico com receio porque gosto desse trabalho e o que eu menos quero é arrumar inimizades.
– O que você não pode é deixar esse maluco te tirar a paz desse jeito. Ainda mais quando você têm cumprido todas as suas obrigações naquele jornal como ninguém!
Alexa sorriu para ela, encantada em como ela sempre saía em seu favor, defendendo-a. Mas apesar de não querer trazer aquela vibe chata para casa, ela sabia que a namorada estava certa. Dava seu melhor naquele trabalho, amava o que fazia e não podia deixar que um superior lhe trouxesse problemas sem motivo algum. Ou pior, por provável sexismo de sua parte.
– Eu sou a única mulher naquela seção de esportes. Ele só pode achar que lá não é o meu lugar.
Compreensão e indignação passaram pelos olhos de Sarah. Mais essa agora.
Ser mulher tem dessas. Você precisa estar onde eles dizem que deveria. Precisa se comportar como eles acham que uma mulher se comporta. E precisa os querer por perto, como uma princesa indefesa. Se não for assim, algo está errado com você.
Alexa e Sarah viviam aquilo na pele todos os dias. Por serem mulheres que se amam.
Uma vida inteira de olhares tortos, de perguntas como “Mas você já ficou com homem pra saber?”, “E se for só uma fase?”, “Não é porque você nunca conheceu um homem de verdade?”. Uma vida na penumbra, se escondendo em lugares hostis para mulheres e ainda mais para as que ousam andar de mãos dadas.
As duas sabiam desde sempre que o esforço para se aceitarem como são é diário. Por isso a decisão de morarem juntas.
A mãe de Sarah chorou por dias, sem entender. A sua filhinha, que sempre namorou rapazes e tinha pôsteres de boybands na parede do quarto, de repente, se diz apaixonada por outra mulher. Para a mãe de Sarah, sua bissexualidade era confusão, e toda vez que a filha visitava a mãe, recebia o mesmo olhar de esperança de que ela estivesse se enquadrado novamente no que ela considerava “normal”.
Com Alexa foi diferente. Desde pequena, sempre desbravou terrenos dominados por meninos, ousando reverter seus símbolos de masculinidade. Ela sempre foi uma combatente, sabia que não se encaixava naquele modelo em que mulheres pertencem a homens. Nunca precisou realmente contar aos pais, eles sabiam, e ela jurou para eles não deixar que ninguém a ofendesse por ser quem era. E eles sentiam orgulho.
– Você vai reverter a situação, meu amor. – Sarah virou para ela, passando suas pernas por cima das dela, abraçando-a – E vai mostrar pra esse seu chefe que o seu lugar é onde você quiser estar.
Alexa assentiu, aproximando seus rostos e deslizando a pontinha do nariz pelo rosto da outra, com o peito cheio de gratidão por tê-la ao seu lado.
– Eu te amo. – ela declarou, deixado um beijo demorado em seus lábios.
– Eu te amo mais. – Sarah sorriu, passando as mãos pelos cabelos curtinhos dela – Agora vai logo se trocar que tá passando maratona de Hora de Aventura.

(Coloque You & I para tocar até o final)


Sábado – 28 de novembro de 2015, às 23h05
O vestiário estava completamente silencioso, exceto pelo barulho mínimo da máquina dois cortando o cabelo de Dana acima da nuca. Johann passava o aparelho com atenção, vendo os pêlos cada vez mais curtos caírem na toalha branca que estava sobre os ombros dela.
Com um click, o rapaz desligou o aparelho, fazendo Dana abrir os olhos e encarar o enorme espelho à sua frente. Sua primeira visão foi o sorriso ladino de Johann e seus olhos claros encarando-a com divertimento. Depois ela abaixou o olhar e se encarou já sem os cabelos longos. O corte estava completamente desajeitado, afinal, o amigo não era nenhum profissional, mas ela gostou do que viu. Os fios escuros alongavam-se somente até a ponta de suas orelhas, mas abaixo não havia quase nada. Levou uma das mãos à nuca, sentindo os pêlos baixinhos pinicarem sua pele e sorriu.
– Você está com uma cara de matadora ainda mais aterrorizante. – Johann quebrou o silêncio, ainda a encarando pelo espelho – Eu teria medo de subir no ringue com você.
Dana riu, finalmente se levantando e dando um soco leve no ombro do amigo. Tirou o roupão, ficando apenas com o short e o top preto e foi até a pia do banheiro, abaixando a cabeça para se livrar dos pêlos soltos. Johann apareceu logo depois, ajudando-a a lavar.
– Você acha que Bob virá até aqui antes da luta? – ele perguntou, chacoalhando os fios mais longos debaixo da água corrente da torneira.
– Se ele vir, vai ser pra tentar me impedir de subir lá e envergonhar a família. – ela riu sem humor, fechando a torneira e pegando das mãos do amigo uma toalha para se secar – Eu não quero vê-lo, Johann. Não agora. – ela o olhou, séria – Prefiro vê-lo de cima do ringue, depois do soar do gongo e da minha vitória comprovada.
O loiro sorriu para ela, feliz por vê-la tão determinada. Tinham trabalhado duro durante os últimos meses e sem parar, melhorando seu condicionamento, seu jogo de pernas, seu golpes e suas defesas. Ele sabia que ela estava pronta. E se havia alguém que se envergonharia de algo naquela noite seria Bob por não reconhecer na filha uma verdadeira lutadora de boxe.
Dana penteou os cabelos, prendeu as mechas soltas com grampos e seguiu o treinador que já arrumava as fitas e logo começou a rodeá-las por seus dedos. Johann não pôde deixar de notar os pés inquietos dela. Sorriu.
– Como você está se sentindo?
– Como se pudesse vomitar em você a qualquer momento.
Ele gargalhou, pegando sua outra mão para proteger com as fitas brancas.
– Isso é ótimo. É exatamente assim que deve se sentir. – ele terminou o trabalho e a segurou pelos pulsos, olhando-a exatamente nos olhos – Só não deixe essa sensação prejudicar sua respiração e seu equilíbrio.
Dana assentiu.
– Levante as mãos. – ele ordenou, fazendo-a levantar os punhos em posição de defesa – Ajuste o polegar esquerdo. – Dana bufou, mal percebendo que ele estava do jeito errado – Equilibre os pés com sua posição de defesa. – e ela afastou as pernas minimamente, ajustando o pé esquerdo ligeiramente à frente, para logo depois Johann a empurrar com o antebraço, mas ela sequer bambeou – Muito bem. Vamos começar os reflexos.
Jab esquerdo. Uppercut direito. Direto no queixo. Contragolpe. Jab esquerdo. Cruzado de direita.
Johann ditava os golpes e Dana os reproduzia facilmente, mas sem usar força, apenas ajustando seus reflexos conforme ouvia a voz do homem e observava seus movimentos.
– Jogo de pernas. – ele disse, fazendo Dana lhe dar um sorriso cúmplice.
Aquele era o forte dela. Dana crescera com os olhos presos nos pés dos lutadores que passavam pelo ringue de sua família. Crescera fascinada pela arte que poucos notavam no boxe. Era quase como uma dança, movimentos simples, quase leves, mas que impulsionavam o corpo para um ataque brutal ou que a protegiam do impacto do adversário.
Começou a se mover sem sequer piscar, os olhos fixos nos de Johann, rodeando-o, estudando seus movimentos e reagindo a eles, balançando o quadril para ajustar a visão sobre ele.
Era como se nada mais houvesse no mundo.
Johann também apreciava a beleza daqueles movimentos e sabia que Dana fazia aquilo como ninguém. Ela tinha agilidade, destreza, quase dançando um ballet primitivo. Ela certamente deixaria sua adversária tonta e os espectadores deslumbrados. Ela encontraria seu lugar sob aqueles holofotes naquela noite. Johann apostaria sua perna boa nisso.
– Vamos colocar as luvas. – ele a fez parar, encaixando suas mãos com o material acolchoado e depois pegou um par para si, colocando também.
Ficaram alguns minutos se aquecendo, reproduzindo golpes, com Johann lhe dando instruções e corrigindo eventuais movimentos errados, lembrando-a sobre contragolpes e movimentos de defesa, frisando a importância de manter as mãos levantadas.
Quando restava meia hora para a luta começar, ele a deixou descansar e se sentou de frente para ela no largo banco de madeira, mas pernas abertas e seus joelhos se encostando.
– Como você está se sentindo? – ele tornou a perguntar.
– Ainda quero vomitar, mas acho que agora estou apavorada.
Com aquela confissão esperada, Johann chegou ainda mais perto, unindo seus punhos como lutadores fazem antes do gongo soar, e encostou suas testas úmidas pelo suor, olhando-a nos olhos sem hesitar.
– O pavor vai te ajudar no ringue. Vai liberar seus instintos. No final das contas, você só vai lutar.
Dana assentiu, fechando os olhos por alguns segundos.
– Obrigada, Johann. – ele apenas negou com a cabeça.
– Não me agradeça agora. Lembre-se de manter a guarda, não se exponha por muito tempo e corte os ângulos no ataque. Deixe o ringue o menor possível para ela, dance ao seu redor e a deixe sem fôlego. – ela assentiu – O público vai gritar na sua cabeça como um monte de animais raivosos e se você não conseguir bloquear isso, use a seu favor. Esqueça Bob, Max, Barney e todos os outros. Eu vou estar lá para você, no seu corner.
Ela assentiu novamente, sentindo uma gratidão sem tamanho tomar conta de si. Aquela era sua primeira luta pra valer, seu primeiro desafio rumo ao sonho de se tornar uma boxeadora profissional. Ela tinha tanto para mostrar e Johann estava ali, de frente para ela, instruindo-a como um verdadeiro treinador, mas com uma cumplicidade de amigo, algo que ela nunca esqueceria.
Quando a luta foi anunciada, ela ajudou com o roupão azul marinho e tocou seus ombros com força, dizendo com a voz firme em seu ouvido:
– Suba até lá e mostre seu valor. Chute o traseiro dela, Dana.
E ela seguiu pelo corredor, como braço forte de Johann roçando ao seu, por baixo da seda do roupão. Os holofotes brilharam, a platéia gritou enlouquecida, mas ela só via o quadrado azul e vermelho mais à frente com a voz de Johann ao fundo.
– Eu confio em você.
E foi como se não houvesse mais ninguém no mundo.

Sábado – 28 de novembro de 2015, às 19h44
Sarah sabia que já estava em cima da hora, mas a indecisão sobre o que usar a desarmou completamente. Olhou mais uma vez seu reflexo no espelho para se certificar de que tudo estava como queria. Seu rosto límpido tinha um batom rosado dessa vez, além de rímel preto para deixar seus olhos castanhos claros em evidência. Os cabelos curtos, pouco acima de seus ombros, estavam ondulados. Passou os dedos pelo colar prata e arrumou o vestido azul escuro, calçando as sapatilhas logo em seguida.
A porta do quarto se abriu no mesmo instante, revelando uma Alexa sorridente. Os cabelos loiros baixinhos estavam penteados para o lado direito e ela usava uma camisa de botões vinho, juntos com uma calça jeans justa e igualmente sapatilhas nos pés.
– Você está linda. – ela elogiou – E atrasada também.
Riu, mas Sarah fez um careta, virando novamente para o espelho.
– Eu tô adequada ao lugar para onde estamos indo? – perguntou, mordendo o lábio inferior em dúvida.
Alexa riu novamente, se posicionando atrás dela e também de frente para o espelho, observando a imagem das duas juntas, lindas.
– Desde quando você liga para adequação? – arqueou uma sobrancelha, implicando com a namorada – Você está linda, meu amor. Isso é mais do que o suficiente para mim.
Satisfeita, Sarah virou para ela, abraçando-a pelo pescoço e sorrindo.
– Já pode me dizer o que está aprontando?
Alexa riu, deixando um beijo em seus lábios e se afastando rapidamente.
– Vamos sair pra jantar e comemorar minha promoção no trabalho, porque você está insistindo que existe algo mais? – indagou, mas a outra apenas deu de ombros, puxando a alça da bolsa e entrelaçando seus dedos para que finalmente saíssem.
Dentro do carro, elas conversavam trivialidades, em um clima completamente agradável. Alexa havia conseguido a mudança para um cargo mais importante na redação e isso atenuou seus problemas com o chefe do setor.
Aquela mudança de perspectiva a deixou com vontade de avançar em outras áreas de sua vida, e como Sarah estava entre suas prioridades, ela decidiu agir. Ou seja, a namorada não estava errada quando achava que Alexa tinha mais planos do que apenas comemorar uma mudança de cargo e um salário maior.
No restaurante, as duas comeram entre risos e carinhos até, durante a sobremesa, Alexa limpar a garganta como quem prepara um discurso.
– Eu ainda lembro o dia em que te vi pela primeira vez. – ela sorriu, fazendo a outra sorrir junto, apenas esperando para que ela continuasse a contar a lembrança – Você ainda tinha aquelas mechas azuis no cabelo e vivia fazendo perguntas no meio da palestra. E lembro exatamente de querer aplaudir seus discursos e gritar o quanto você era linda. – riu.
– Então eu fui falar com você no final, dizendo que eu estava me formando e aquela era exatamente a pesquisa da minha monografia. – Sarah completou, deslizando a mão por cima da mesa para tocar a dela – Você se ofereceu pra me ajudar, eu te abracei, toda animada, e descobri semanas depois que nunca mais queria te largar.
As duas apertaram suas mãos, ainda sorrindo.
– Eu não lembro exatamente quando me apaixonei por você, mas lembro de segurar sua mão naquela festa e dizer que gostava do jeito desajeitado como você dançava. E então eu percebi que havia uma lista na minha cabeça sobre coisas que achava adoráveis em você.
– Então eu fiquei completamente confusa, como se estivesse descobrindo um mundo totalmente novo. – Sarah confessou – Eu tinha medo, vergonha, mas tinha um amor enorme crescendo dentro de mim. Foi então que você me ajudou – ela começou a chorar, não conseguindo conter as lágrimas de tomarem seus olhos –, você segurou a minha mão e me disse para ter orgulho de quem eu era, que não havia nada de errado comigo e sim com o mundo.
– E você me deixou te amar, te beijar e te fortalecer com o meu afeto. Porque tudo o que eu mais queria no mundo era que você fosse feliz.
– E eu sou. – Sarah recolheu uma mão para secar as lágrimas – Eu sou muito feliz. Porque eu amo uma mulher que é única no mundo para mim.
– Eu te amo tanto, Sarah. Amo sua coragem, sua força de vontade e seus pijamas de desenho animado. – ela riu, fazendo a outra rir também – Mas amo mais ainda ter você ao meu lado. E quero celebrar isso.
A mão que sumiu no bolso do jeans retornou com uma caixinha preta de veludo. Sarah sorriu, sem nem acreditar.
– Vamos celebrar o nosso amor. Porque eu nunca quero sair do seu lado. – e abriu a caixinha, revelando dois lindos anéis dourados – Casa comigo?
Sarah recolheu as mãos até o rosto, chorando ainda mais.
– Nada me deixaria mais feliz! – ela se inclinou para abraçá-la, molhando seu rosto com as lágrimas – Eu te amo demais, Alexa. E quero celebrar nosso amor pra sempre. Porque de todas no mundo, você é a única pra mim.

Sábado – 28 de novembro de 2015, às 19h05
Greta se posicionou em frente ao tapete vermelho que percorria todo o corredor por entre as cadeiras naquele salão gelado. Alisou o tecido do beca e sorriu quando seu nome foi anunciado como oradora da turma.
Caminhou até o palco, confiante, e se posicionou atrás do púlpito, ajustando o microfone. Lá de cima pôde ver sua mãe, sorrindo, usando um turbante deslumbrante, ao lado da avó, igualmente emocionada. Seus irmãos mais velhos também estavam lá, sérios, aos lados de suas esposas e filhos. Greta sabia, que mais do que um discurso para a turma, aquele era um discurso para sua família.
As luzes se posicionaram exatamente sobre ela e a platéia ficou em silêncio. Guilhermina levou o lenço à borda dos olhos, secando as lágrimas de orgulho. Sua filha, a estrela mais brilhante para ela naquela noite.
– Ilustríssimo senhor reitor. Ilustríssima diretora da faculdade. Senhoras e senhores. – ela cumprimentou, percorrendo o olhar por todo o salão – Mais do que dizer palavras bonitas para os duzentos formandos dessa noite, mais do que falar sobre nossos feitos nos últimos cinco anos e mais do que pontuar as lições que aprendemos, sinto que meu dever aqui é falar sobre o amanhã, sobre o que seremos e o que faremos após o juramento de honrar nossa profissão.
“A quem perguntar, diremos que somos defensores da justiça, da verdade e da lei. Mas eu pergunto: para quem? Para quem nós daremos nossos melhores discursos de defesa, para quem faremos valer o poder da lei? Que verdade nós traremos à tona?”
“Aprendemos aqui que a justiça serve a todos, sem exceção, mas o mundo não vive essa realidade. A justiça é seletiva, tem conta bancária de muitos dígitos e tem cor. A defesa não existe para todos, especialmente quando o desejo de uns ainda prevalecer sobre a necessidade de outros. Não haverá justiça universal enquanto direitos básicos forem negados a uma parcela da população que é numerosa, mas que também é silenciada, subjugada, empurrada para as margens do progresso e da civilidade.”
“Nosso dever não será cumprido enquanto a justiça social for apenas o desejo de poucos. Nosso trabalho não valerá de nada enquanto nossos braços estiverem cruzados e inertes diante das desigualdades sociais. Nada traremos de bom ao mundo se continuarmos insensíveis ao abismo que separa uns dos outros, enquanto a humanidade for negada a um grupo que não está no topo.”
“Por isso eu lhes digo, senhoras e senhores, que nosso trabalho não valerá de nada enquanto não o usarmos em favor da justiça real, da verdade sem maquiagens e da lei justa. Que o que nossas mentes aprenderam nos últimos cincos anos não sirva apenas aos nossos ou aos que nos favorecem, mas também aqueles que realmente precisam.”
“A justiça precisa nascer para todos. E deixo a esperança de milhares de pessoas nas mãos desses duzentos formandos. Que o juramento de vocês não se perca ao vento, mas que vocês o renovem todos os dias, promovendo a igualdade de direitos e a justiça social.”
Greta finalizou sob uma barulhenta chuva de aplausos e procurou novamente a família entre a platéia. Todos eles com lágrimas nos olhos, mas feições alegres e orgulhosas.
Ela sabia que tinha finalizado um ciclo importante ali e que um novo já começava, mas ainda havia muito pela frente, ainda existe muito o que fazer e muitas causas para lutar. E Greta se dedicaria a todas com paixão, com vigor e alma. Ela usaria toda a sua energia para defender o que acredita e para influenciar outras garotas como ela a crescerem e buscarem seus objetivos mesmo que o mundo pareça uma selva hostil.

Sábado – 28 de novembro de 2015, às 22h40
– Isso é surreal! – gargalhou, ainda incrédula – Ele elogiou os meus desenhos, fala sério!
Os dois caminhavam juntos pela calçada, voltando da noite de exposições dos alunos do ateliê. havia participado com dois desenhos e uma pintura, e um renomado professor universitário convidado havia elogiado bastante seu trabalho.
– Eu te disse que estavam ótimos! – sorriu – E se Jordan elogiou é porque ele realmente viu seu talento.
estava em êxtase. Havia aprendido a despejar na tela e no papel todos os seus sentimentos, desde os mais obscuros e confusos, até os mais alegres e esperançosos. E saber que seus rabiscos, que eram uma extensão de algo que vivia dentro dela, poderiam se tornar arte deixava-a genuinamente feliz.
– Vou segunda mesmo comprar aqueles materiais que ele me indicou. – ela continuou empolgada, agarrando o braço forte de – Você vai comigo? Aí você me ajuda com as marcas, as texturas etc.
Ele assentiu, sorrindo, e pegou uma das mãos dela, entrelaçando à sua. Atravessaram à rua pouco movimentada e passaram pelos portões do edifício, seguindo até o apartamento dele.
– Onde está Jack? – ela perguntou referindo-se ao amigo que morava com , notando que o único barulho do lugar vinha de Merlin, animado por finalmente ter companhia.
– Provavelmente vai passar a noite fora já que ele me disse para não esperá-lo para a maratona de Friends na TV. – ele riu, tirando algumas camisetas que estavam por cima dos cômodos – Não repara não bagunça, é tudo culpa do Jack.
riu, sentando-se no sofá com Merlin, e viu o rapaz seguir até a cozinha e abrir a geladeira.
– Você quer uma cerveja?
Estava evitando qualquer coisa alcoólica desde que começou a reformular sua vida. Não por qualquer convicção, mas simplesmente porque não tinha vontade. Mas estava especialmente feliz naquela noite e uma boa cerveja gelada não parecia uma má ideia. Então assentiu, sorrindo para ele que a olhava esperando uma resposta.
Recebeu uma garrafa segundos depois e tomou primeiro gole logo depois de brindar.
– À mais nova artista plástica do momento! – ele saudou e ela riu.
– À essa noite espetacularmente alegre, algo que eu não experimentava há um bom tempo.
Encostaram os recipientes e beberam sorrindo enquanto ligava a TV, que mostrava Chandler fazendo alguma piada.
Enquanto eles bebiam, gargalhava com a série e Merlin dormia entre eles, se perdeu em pensamentos, fazendo uma retrospectiva dos últimos cinco meses, desde que permitira entrar em sua vida. Ela finalmente estava superando, aprendendo a lidar com seus medos e transformando sua insegurança em força de vontade. Não era algo fácil, como mover um interruptor ou virar uma página, mas ela vivia dia após dia aprendo a se proteger e se cercar de coisas e pessoas boas.
Se era sorte ou destino, ela não sabia, mas fazia tudo ser ainda melhor. Ele fazia com que ela se sentisse querida, desejada e respeitada. De repente ela parecia digna de novo, porque no pós-trauma, ela se sentia como se não merecesse ser amada, afinal. Mas fazia com que ela se sentisse diferente e ela queria estar pronta para aceitar isso.
– O que você está pensando?
se sobressaltou levemente ao som risonho da voz dele. O rosto curioso perto do dela, como se a analisasse minuciosamente.
– Estava pensando no porquê de você estar aqui comigo agora. – ela confessou sem nem pensar, soltando um suspiro logo depois – No porquê de você escolher estar ao lado de uma garota problemática como eu. – ela riu, como se realmente não soubesse.
se virou para ela, o rosto de bom moço parecendo ainda mais fofo quando estava sério. não o encarou de pronto, continuou a olhar TV sem realmente prestar atenção.
– Não sei se você percebeu – ele começou, tocando uma das mãos dela com carinho –, mas você é uma garota extraordinária. Não preciso te dizer isso, .
Ela se virou para ele, uma timidez aparecendo de uma hora pra outra.
– Sei que a vida não foi muito justa com você antes, mas isso não significa que você não possa ter outra chance, ou não a mereça. – ele tocou seu rosto, fazendo-a olhar em seus olhos – Se você não vê motivos para eu estar aqui, para eu querer que você esteja aqui, eu poderia te dar uma lista bem grande sobre como eu adoro a sua perspicácia, o seu jeito curioso e sobre como eu amo sua sensibilidade.
– Você é tão leve, . Tão livre. – ela sorriu, tocando o queixo dele com o indicador, deslizando-o por sua barba ralinha – Eu ainda tô tentando me livrar dessa carga pesada que me acompanha, ainda tô presa em confusões que existem dentro de mim e...
– E isso só reforça minha vontade de estar com você. – ele a interrompeu – Você é a única que eu quero, não existe mais ninguém pra mim.
piscou algumas vezes antes de deslizar para o colo dele, abraçando-o tão forte como nunca havia feito. Tocou seus ombros largos sobre a camiseta preta e agarrou sua nuca com paixão, sentindo-o a envolver com seus braços grandes e quentes.
se sentiu conectada a ele, àquela experiência de voltar a receber um carinho verdadeiro. Ela estava feliz em esquecer o mundo lá fora desde que ele sempre a abraçasse daquela forma.
– Eu vou deixar você entrar, . – ela começou, baixinho, ainda agarrada a ele – Porque você também é o único que eu quero.
Ele sorriu, trazendo o rosto dela para frente do seu, encostando seus narizes e deslizando-os pelos seus rostos com carinho e sem pressa. Suas mãos, calmas, passeavam pelos braços, trazendo-a para mais perto de si, mantendo-a quente e confortável antes de beijá-la profunda e calmamente. Não havia pressa, pois ambos sabiam que tinham todo o tempo do mundo.
E deixaria que ele a descobrisse por completo naquela noite, assim como ela queria descobri-lo. Finalmente seriam apenas eles dois, sem nenhuma sombra, e ela lembraria aquela noite como se fosse a sua primeira. Como se ele fosse o primeiro. Porque ele era o único que ela queria lembrar.



FIM



Nota da autora: Essa fic foi inteiramente inspirada no clipe maravilhoso dessa música e foi pensando na representatividade dele que escrevi cada linha, tentando fazer o mesmo.
Espero ter conseguido pelo menos passar pra vocês a ideia de que cada uma de nós é especial à sua maneira e que como nos casos de Dana e Greta, não precisamos estar envolvidas romanticamente com alguém para que isso seja real. Como essas mulheres descritas aqui, nós podemos tudo e podemos achar forças para atingir nossos objetivos em lugares inimagináveis. Confiem em vocês mesmas!
Agradecimentos à Lara pela capa. <3
Espero que vocês tenham gostado e aproveitem pra amar as outras fics desse álbum cheio de amor!
xx
Thainá M.

OUTRAS FICS:
03. Drunk In Love (Ficstape #20 – Beyoncé) | 12. Don’t Stop Me Now (Ficstape #011– McFly: Memory Lane) | Amor em Irlandês (Especial Equinócio de Setembro) | Can You Feel It? (Outros/Finalizada) | Don’t Close The Book (Jonas Brothers/Finalizada) | Love Affair (1D/Em Andamento) | Thankful (Especial Extraordinário)


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Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.



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