Finalizada em: Julho de 2025

Capítulo único


odiou no segundo em que o conheceu.
Aquele idiota fedia a babaquice e fumaça saborizada. Ele entrava em um local como se fosse o dono, sentindo-se no direito de dizer a todos o que fazer e quem ele era — e ainda dava um sorrisinho repleto de escárnio, como se aquela fosse a informação mais relevante que alguém poderia ter. Como se ele fosse uma figura notória de alguma maneira.
era uma sirene vermelha gritante, em todos os sentidos da palavra. O seu jeito grosseiro e o modo como parecia encarar a todos com desprezo, esbanjando o seu distintivo em uma constante "carteirada", uma prova de poder que calava qualquer um com vestígios de autopreservação.
Ele era tudo que havia de errado com a polícia, embrulhado em uma caixinha bonita.
não se surpreenderia se ele estivesse envolvido em alguma coisa errada. Era quase de praxe para homens como ele — delegados de cidades pequenas e esquecidas pelas leis municipais, como Leigh, na Dakota do Norte, em Stark County. Ela havia escutado boatos, todos tinham, de como a cidade era liderada por uma mão de ferro e pela milícia de extrema direita.
Mas, claro, estava mais para um peão que se achava esperto do que para um mandante. não sabia disso ainda, ela não sabia nada além do nome dele e dos seus comentários inadequados e altos demais, ainda assim, algo dentro dela não o deixou ir embora completamente. Não se deixou ficar banhada acima da cabeça em repulsa.
Talvez fosse o lugar. A sala de espera de um hospital enquanto seu colega de trabalho estava lutando entre a vida e a morte por conta de uma bala perdida. Talvez fosse a hora, aquele momento cruzado, quase milagroso, em que dois casos de cidades distintas se chocam como um acidente de carro, contra todas as possibilidades. Ela ainda estava atordoada.
E poderia dizer que ele também estava.
— Se você tiver mais alguma informação sobre...
— Eu trabalho sozinho, garota da cidade. — A resposta veio como um reflexo, algo que estava acostumado a dizer. Horas, negando ajuda para se provar ao pai. Outras, dizendo a si mesmo que conseguia passar pela vida sendo apenas o que era. o encarou com uma das suas típicas caretas e ele quase se perguntou se ela sempre fazia essa cara ou se já não ia com as fuças dele. Bom, era bonita de qualquer jeito. O silêncio não durou muito tempo: — A coisa toda de trabalho em equipe e fazer tranças é mais coisa de Minnesota.
As palavras estavam manchadas com uma zombaria que beirava o sexismo, outra herança cultural da Dakota do Norte além da estupidez, pensou. Entretanto, parecia nervoso, vomitando palavras para preencher o espaço entre eles, como se não soubesse como agir.
A maneira com que ele balançou os braços com um descaso forçado demais para ser verdadeiro apenas confirmou aquilo para a policial.
— A loja em que ocorreu o tiroteio foi no seu condado, mas já havia uma suspeita de sequestro envolvendo a vítima aqui. O meu parceiro foi baleado durante a ocorrência. Quer você queira ou não, os nossos casos estão ligados por Dot Lython. — cuspiu as palavras. Poderia muito bem ignorar a existência do delegado de Leigh, todavia, seria mais fácil se eles trabalhassem em equipe e ele deixasse de agir como um troglodita. Dot havia feito o favor de unir os dois estados em uma busca confusa e complicada, eles tinham apenas que tirar o melhor disso. empurrou o seu cartão no peito de , seu olhar nunca deixando o dele. — Então, você não tem uma escolha aqui. Pode agir como um bebê chorão ou me ligar quando tiver alguma novidade, e eu vou retribuir o favor.
sabia que aquilo não era profissional, mas era um alívio conseguir tomar as rédeas de alguma parte desse caso. A satisfação em assistir os olhos arregalados e a surpresa estampada no rosto de também eram um bônus.
Pelo que ouvia sobre a Dakota do Norte, o local esquecido pelo tempo e mergulhada em preceitos da década de 50, imaginava que a maioria das mulheres não falava assim com um homem. Especialmente em uma posição de poder.
Bom, como havia dito, ela era uma garota da cidade.
— E dizemos mulher agora.
Antes que ele pudesse responder, deu as costas e andou até uma das cadeiras de espera.
Do outro lado da sala abafada de gente, bufava, incrédulo pelo modo que uma policial havia falado com um delegado. Como ela falou com ele! Inacreditável.
Ainda assim, ele não se sentia particularmente irritado, não tanto quanto deveria. enfiou o papel em seu bolso, tirando o vape para fingir que aquele era seu objetivo.
Aquela policial poderia ser um problema para os negócios do seu pai.

Is it a time, is it a place?


Ele aprendeu que era muitas coisas: insistente além do seu melhor julgamento, íntegra de uma maneira que ele não achava que era possível nessa profissão, prática do tipo "meias antes do sapato", caso estudado antes de qualquer abordagem, gostosa dentro do uniforme policial (ele havia notado isso no primeiro dia, obrigado) e... Casada.
era casada com um babaca que a usava como caixa rápido e torrava todo seu dinheiro. Lars. Isso lá era nome de macho? Como uma gostosa daquela ficava com um perdedor daqueles?
As informações que havia conseguido, graças aos meios facilitados do seu ambiente, eram certinhas demais. Ela vinha de uma família com muitos irmãos e primos, seus avós tinham emigrado da Índia para os Estados Unidos décadas atrás, suas notas na escola eram boas, ela estava em muitos projetos extracurriculares no ensino médio e havia passado na academia de polícia com excelência.
Aquilo o fazia questionar por que diabos ela estava com um caso tão besta quanto o suposto sequestro de uma dona de casa.
Tudo parecia perfeito na vida da garota da cidade, até ela deixar um idiota colocar um anel no dedo dela e levar todo seu dinheiro. O nome sujo veio quase de brinde com a mudança do sobrenome.
Lars não parecia querer nada com a vida. Pulando de hobbie em hobbie, comprando coisas caras e se intitulando um futuro campeão.
Ah, e seu mais novo capricho? Golf. O cara queria ser jogador de golf.
riu com escárnio, balançando a cabeça enquanto lia a sua própria pesquisa.
É sério que ela fode esse cara?
Ao menos, agora ele sabia que o rosto cansado e as mensagens às duas da manhã não eram exceções. estava procurando horas extras para cobrir o estrago do maridinho do ano.
não pode pensar em como aquilo era estranho. Em sua casa, seu pai sempre foi o provedor — da sua mãe, da sua madrasta e de Nadine. Todas haviam sido donas de casa, esposas que mantiveram o lar limpo ao invés de se preocuparem com centavos.
Certo, ele era um garoto da fazenda, criado em um rancho e, ainda mais podador, na asa de Roy , na porra da Dakota do Norte. Entretanto, até sabia que mulheres trabalhavam e não diria algo contra isso — ele não se interessava tanto, realmente. As esposas do pai sofriam muito e ele sempre se perguntou se sua mãe havia trabalhado escondida para conseguir dinheiro e fugir de Roy quando pôde, deixando ele para trás com o monstro que devia amá-lo.
Se ela realmente conseguiu escapar.
balançou a cabeça. Aquele não era o ponto. A questão era: mulheres também trabalham no século XXI, faziam faculdade e tudo mais. Mas, elas bancavam homens palermas que passavam o dia metendo a bola no buraco errado?
Mas que porra.
Revirando os olhos, a tela do celular de se acendeu quando ele virava a próxima página. Uma mensagem de , avisando que seu parceiro havia acordado. O relógio marcava 2:45 da manhã.
É, mais uma vez Lars parecia estar usando o taco errado.

Is it a person, or a change?


estava cansada.
Parecia que toda a sua vida se resumia a correr em círculos. Seu casamento era uma piada cara às suas custas. Seu caso estava definhando como os dois homens mortos no tiroteio da loja. Os seus chefes continuavam a colocá-la em todo tipo de ocorrência chula. Seu agente do banco não parava de ligar para falar sobre as dívidas. sempre parecia saber mais do que dizia — o que, se tratando dele, era uma surpresa ele sequer saber algo.
E a pior parte de tudo: os momentos menos piores dos seus dias eram as discussões com o delegado da Dakota do Norte.
— Vocês não têm comida de verdade aqui.
— Você pode matar um boi e cozinhar ele, se quiser.
revirou os olhos, colocando o cardápio de sanduíches, que incluía hambúrguer de peixe e até um vegano, na mesa. Alcançando o copo de milkshake, ignorou o canudo e bebeu direto da borda.
— Homens de verdade... — começou seu velho discurso sobre como os caras da cidade eram molengas, mas logo foi interrompido pela risada nada discreta da oficial. — O quê?
— Você fica falando essa coisa de homem de verdade com a boca rosa de milkshake.
As bochechas dele coraram levemente enquanto xingava, esfregando um guardanapo na boca.
— Isso não aconteceria...
— Na Dakota do Norte. Eu sei. — Era a vez dela revirar os olhos. O caso não tinha informações relevantes o suficiente em Leigh para o deslocamento. — Que tal resolvemos isso e aí você pode voltar para o seu buraco?
aguentava os golpes. Ele enchia a boca para dizer algo pior ou apenas bufava e mudava de assunto, parecendo saber que aquilo era mais sobre ela descontar a própria raiva do que machucá-lo de algum jeito, uma concepção que só alguém que não quer dizer tudo que diz poderia ter.
Com certeza não era saudável. Mas nenhum dos dois conhecia "saudável" há muito tempo.
— Da próxima vez, podemos discutir o caso lá — respondeu, se referindo a Dakota do Norte. tentou parecer casual, dando de ombros, mas evitou o olhar dela, as próximas palavras embrulhadas em um tom estranhamente hesitante. — Eu podia te dar um hambúrguer de verdade e não essas merdas proteicas.
arqueou a sobrancelha.
— Toda carne é proteica.
— Só estou dizendo, lá é bem melhor. — Deu de ombros de novo, levantando o braço com o vape entre os dedos, que ele havia resgatado do seu bolso. — E o milkshake também.
Quase parecia que ele estava chamando ela para um encontro. Quase. Até que soprou aquela névoa adocicada em seu rosto, fazendo com que soltasse um grunhido.
Ele sorriu, satisfeito por mexer com os nervos dela.

Are you safe on the road you chose?


ainda não havia descoberto que Dot Lython e Nadine eram a mesma pessoa. E nem que Nadine era... Parente, família dos , de alguma maneira.
Ele sentia que estava cada vez mais difícil esconder isso dela. Era legal conversar com alguém fora da influência do seu pai para variar, mesmo que a maioria das conversas fossem sobre trabalho ou com ela xingando ele. A cidade toda o conhecia como o filho esquentadinho do Sheriff Roy , e não como... bom, .
o conhecia como um babaca que entrou de supetão no seu caso. E, mesmo que fosse pouco, ainda parecia mais definitivo do que ser o pedaço de alguém.
Ele tinha esquecido como era não estar imerso nas merdas do pai. E era... Legal.
estava ouvindo mais as músicas que gostava, deixando de repetir incansavelmente o cassete velho de Roy em busca de alguma aprovação. Ele tinha até voltando a rabiscar em seu caderno, um hobbie trancado a sete chaves desde que mostrou um desenho para o pai quando criança e viu o papel ser rasgado, com seu velho dizendo que homens de verdade não desenham, pegue uma arma e pinte sangue em algum ladrãozinho da próxima vez.
Claro, ele ainda buscava a aprovação, como um cachorro cego busca um osso — o abuso faz isso com você.
Ainda assim, se sentia mais feliz. Qual a última vez que ele havia sentido isso?
A resposta não saiu dos seus lábios. Mas, na ponta do seu lápis, os traços do rosto de começavam a se formar no papel.

Did you make it home?


— Eu não confiaria nele, se fosse você.
— Eu não confio. — Ela suspirou.
Witt, agora quase recuperado do tiro que havia levado, encarou . Aquele olhar que seu amigo te dá quando você mente sobre estar conversando com um garoto na escola.
— Eu sei que tem alguma coisa errada. — Explicou, não queria soar como uma garotinha burra. Já tinha homens demais na sua estação pensando menos nela por ter uma vagina. — Mas...
— Mas?
Ela deu de ombros. — Eu não acho que ele é completamente ruim também.
A quietude tomou conta do lugar por segundos que a sufocavam como horas sem ar no topo de alguma montanha.
— E é bom para o caso.
Wizz assentiu, não completamente convencido.
— É, o caso.
havia se tornado uma policial porque queria ajudar as pessoas. Queria fazer do mundo um lugar mais justo. Mas, duas características haviam sido essenciais para a sua pontuação quase perfeita nos exames da academia de policia: desenvolver suas habilidades e confiar nos seus instintos. As duas coisas normalmente interligadas.
Então, sim. Ela sabia que tinha algo ruim dentro dele. Alguma coisa que refletia nas palavras duras, na postura de quem comandava o lugar. Havia alguma coisa errada, apesar das condecorações — e ela apostava que não era difícil de esconder já que, voilà, seu pai era o Sheriff do condado dele.
Ainda assim, contra todas as probabilidades, o seu instinto também dizia que havia algo mais. Uma coisa boa escondida detrás dos olhos cínicos. Palavras mais honestas embaixo das inadequações que ele cuspia quando estava nervoso.
parecia um animal ferido, tentando atacar de volta.
O que mais animais sabem fazer, de qualquer maneira? E isso os torna ruins?
Ela achava que não.

Is it where prayers go when you are praying?


era um observador.
nunca usava a aliança no trabalho. Ela nem ao menos citava o nome do marido. Nunca tinha marcas de chupões e, da última vez que se esgueirou para atender um telefonema particular, havia encostado o ouvido na porta e escutado sua conversa com algum cobrador de fiança.
As dívidas do marido inútil não pareciam cessar. E as olheiras de aparentavam estar cada vez mais profundas.
— Então, deixa eu ver se eu entendi — ele tossiu, erguendo a foto impressa de Dot/Nadine em sua mão. Infelizmente, a policial era competente para caralho. — Essa mulher dá um choque em alguém no meio da reunião de pais e você prende ela.
— Sim.
— Depois, ela age estranha e com medo quando você diz que ela vai constar no sistema. — pontuou, sabendo que era verdade. Seu pai havia encontrado Nadine pelo sistema de polícia, depois dela ter sido fichada por dar um choque em um pai que levantou a voz para ela.
Uma dorzinha chata mordeu seu estômago ao pensar em Nadine neurótica, assustada ao ponto de fritar um idiota qualquer achando que era Roy em seu encalço. Não dava para fugir do Sheriff Roy , sabia disso muito bem. Mesmo longe, a voz dele era impregnada em qualquer um que tivesse tido contato com ele, como uma doença contagiosa.
— Prossiga. — gesticulou com a mão, pegando uma das batatinhas dele.
— E, então, ela se envolve em um sequestro.
— Ela não se envolveu em um sequestro — retrucou. O jeito que ele falava, que todos falavam, fazia parecer que Dot não era a vítima. Que ela, de alguma maneira, havia se envolvido por vontade própria. — Ela foi sequestrada.
Supostamente, garota da cidade. — corrigiu, fumando mais um trago do seu inseparável vape. A essência da vez era menta, que parecia ser o favorito de . — Ela diz que não foi sequestrada e voltou para casa, para o maridinho e a vidinha perfeita.
— Tinha sangue na casa dela.
A lembrança do rosto ensanguentado, depois de uma surra do pai, veio à cabeça dele. O machucado vinha em qualquer forma, para qualquer um que estivesse em casa: ele, Nadine, sua mãe. Os punhos de Roy nunca pareciam estar doendo tanto quanto deveriam.
— E ainda assim, ela disse que não aconteceu nada. — O delegado deu de ombros, se esparramando na cadeira para disfarçar sua inquietação. — Parece uma dona de casa entediada para mim.
— Ela não é uma dona de casa entediada. — A irritação subiu pela garganta de . Todo mundo estava cego, ou o quê? — Tem alguma coisa estranha aqui, e você sabe disso.
a observou. A careta linda de sempre estava lá, mas havia uma inconformidade que parecia crescer toda vez que eles discutiam sobre o caso Dot Lython. Ele não queria que ela achasse que estava maluca. Inferno, ela era provavelmente a única policial competente nesse condado que estava esgueirando-se perto demais da verdade.
Mas o delegado não podia deixar ela passar do ponto e cair no abismo. Seu pai iria dar um jeito, como qualquer queima de arquivo. Ou pior, já que ela era uma policial. Ele poderia implantar provas falsas de corrupção, acabar com sua reputação, e muitas outras alternativas que se recusava a pensar.
Além disso, era seu dever proteger os interesses de Roy também.
— Uma vez, a filha do pastor fugiu e virou puta de filme.
, mas que porra?
Ele soltou mais um trago do vape. A feição de se converteu em uma feição de desprazer. sabia que não era pela nuvem de fumaça, já que estava fumando mais a de laranja porque ela parecia menos enojada com o cheiro do que as outras essências.
— É sério, ela virou atriz pornô. — Ele sorriu malicioso, lembrando dos exemplares. — Ótimos filmes, inclusive.
— Você é nojento. — Semicerrou os olhos, intrigada e enojada. — Onde quer chegar com esse?
— Duas coisas, doçura: The Farmer's Daughter é o segundo melhor filme do mundo — disse, fazendo com que revirasse os olhos para tamanha babaquice masculina. — E segundo, às vezes as pessoas mais certinhas de envolvem com o tipo errado de merda.
Ela arqueou a sobrancelha, tomando a dica mais rápido do que a maioria das pessoas.
— Está insinuando que a Dot Lython pode ser perigosa? — deu de ombros. Ele tinha certeza que ela era, tinham marcas nos capangas do seu pai que confirmavam, além do relato de Ole Munch, um esquisito que dava arrepios em . Aquele cara chamava Dot de tigre e, mesmo com todo seu jeito de assassino por encomenda, não havia conseguido trazer ela de volta para o rancho e perdido o parceiro no tiroteio da loja. Ela sabia lutar como ninguém, talvez por isso tivesse conseguido ficar tanto tempo fora do radar de Roy . Ele se perguntava se Nadine sabia onde sua mãe estava escondida também. — Eu não diria isso.
— O que você diria?
— Que, às vezes, as mulheres têm que recorrer a extremos para se defenderem. — A quietude engoliu o lugar. pensou em todas as vezes que ouviu os gritos e súplicas da mãe com Nadine ao seu lado. Depois, nas vezes em que as palavras imploradas continuaram as mesmas, mas na voz da próxima esposa. — Por que a filha do pastor fugiu de casa?
O delegado ainda parecia perdido em devaneios quando respondeu:
— Queria ser atriz em Hollywood, e o velho dizia que era coisa do demônio. — Deu de ombros. — Diz até hoje. Mas parece que ela conseguiu um papel em um filme de terror por aí. Parece que vai ser bom.
observou. As extremidades duras de pareciam desgastadas, como uma pedra depois de muitas ondas. Ela conseguia vislumbrar a sua ternura desajeitada, o menino hipócrita que escondia os brinquedos e chorava para brincar. O garoto que ouviu a história pelos julgamentos dos mais velhos, mas ainda acompanhava os filmes não eróticos de uma velha conhecida que escapou.
Não era uma visão límpida. Não era preto no branco, certo ou errado. Ela duvidava que qualquer coisa com era.
— Às vezes, os extremos compensam.
Ele não olhou para ela quando respondeu. Parecia o tipo de crime que nem poderia cometer.
— É, eu acho.,. Bom, eu espero que sim.

Is it the turning of a page?


se sentia uma idiota.
Era a mesma sensação de quando ela descobriu, aos 23, que seu irmão havia quebrado a sua pistola de nerf rosa e mentiu que tinha caído do caminhão da mudança. Também era o mesmo sentimento de quando ela acordou um dia e, depois de pistas pequenas e escancaradas, descobriu que havia se casado com um homem sem utilidade.
Ela se sentia enganada. Usada. Feita de otária. Manipulada do jeito mais exposto possível e pelo que?
Parecia a porra de uma piada interna e ela estava fora do círculo. Ela era o motivo das risadas e só percebeu isso quando parou de rir com eles. Com ele.
Ao conhecer , estava quase constantemente cruzando a linha e chamando ele de babaca pela sua mania de se achar maior que os outros, com sua postura de "eu sou a lei" que só poderia ser importada de filmes mequetrefes e uma sensação de intocabilidade que só poderia ser adquirida pela blindagem do poder exacerbado.
E ela estava certa. Aparentemente, Roy e estavam até o pescoço com a milícia de extrema direita.
— Roy . Casou com Karen Shark. Filha de Robert Shark, que tem os recursos e as armas. — A vaga lembrança de se vangloriando pela sua delegacia ter conseguido um lança chamas veio a sua mente, ela apertou a ponta do documento. — Esse é o filho do capataz. — A imagem de , com quem ela estava trabalhando há semanas, estava exibida da maneira como um cartaz de procura-se deveria estar. Devia ter sido tirada alguns anos antes, talvez na sua condecoração. Seu cabelo estava para trás como sempre, mas sem o seu boné habitual. A expressão séria, encarando a câmera, mas seus traços pareciam mais jovens. Seu coração doeu pela raiva e pela ternura. E ela poderia jurar que o segundo sentimento era pior. — Ele faz parte do trabalho sujo do pai. Parece mais um soldadinho que qualquer coisa.
Enquanto a agente do FBI, Marla Brando, dava um resumo dos papéis que estudaria meticulosamente essa noite, a policial varreu os olhos pelas informações esbanjadas, franzindo o cenho.
— Eu não encontrei esses processos quando pesquisei a ficha dele — disse, lendo o que eles diziam. A maioria era sobre uso excessivo da força, sem mortes. Um ou outro sobre uma arma portada, ou alguma coisa sumindo da sala de evidências. Quanto poder Roy tinha que ter para encobrir aquilo?
— O Sheriff é bom em esconder os rastros do seu bando — a agente respondeu, direta. Para ela, era tão ruim quanto seu pai. — Sabemos que você tem trabalho com ele.
— Eu não..
— Sabemos que você não tinha conhecimento da natureza dos s, policial — Marla a acalmou, assistindo enquanto parecia não conseguir desgrudar os olhos das fichas. Ela nem tinha chegado na pior parte. — Acreditamos que ele estava mantendo você por perto para ter certeza de que não iria se envolver demais ou conseguir uma pista correta sobre o caso de Nadine.
— Não tenho nenhum caso sobre uma Nadine em andamento.
— Dot Lython.
Aquele nome pareceu ter chamado a atenção de . A mulher levantou o olhar, encarando a agente. O semblante machucado dela, misturado com a raiva, era tão transparente quanto uma pintura melancólica.
— O quê Dot Lython tem a ver com isso?
O tom dela parecia ter mudado. Seus olhos castanhos ainda carregavam a traição silenciosa do seu quase parceiro, mas seu rosto parecia centrado. O caso vinha antes de tudo, apesar do barulho das batidas do seu coração zunindo em seus ouvidos.
— Nadine é o nome verdadeiro de Dot Lython. — Marla se inclinou sobre a mesa, virando a página do documento. O papel estava repleto de imagens da mulher em questão, coberta em hematomas, diversas queixas e relatórios médicos quase pulando na cara de , implorando para serem lidos, como se Dot chorasse para ser ouvida. — Ela foi a segunda esposa de Roy .
Todos os machucados, cada gota de sangue, tudo tinha a digital de Roy .
E o pior de tudo: ele parecia orgulhoso da sua própria brutalidade.
— A teoria com a qual estamos trabalhando é que, quando ela entrou no sistema, ele conseguiu encontrá-la.
A cabeça de entrou em uma espiral.

I'm thinking of you as you go


Quando e se encontram, ela está fumegando. A policial jogou os papéis em sua direção antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. A careta que ele tanto gosta dá lugar a uma feição magoada e raivosa. pensa em questionar, até ver as fotos de Dot, de si mesmo e de outras coisas que ele não quer lembrar.
— Eu já sei de tudo. — Ela diz como uma confirmação, apenas um prego a mais. Ele dá um passo em sua direção, tentando encontrar as palavras para dizer. — Seu filho da puta.
, eu posso...
Um tapa em seu rosto o para. A sua bochecha arde, mas não dói mais do que os olhos marejados de o encarando.
— Você tem uma escolha. — Ela interrompe, a sua voz corta pelo ar como uma faca em um cordeiro. Ele sabe que vai deixar partes de si para trás, uma evidência de que algo foi tomado dele quando ela se fosse como todos. — Você continua fazendo as merdas que o seu pai quer... Ou você ajuda os federais a prenderem ele e a milícia de vez.
Se duas cordas estivessem enroladas em cada um dos seus pulsos, puxando seu corpo em direções opostas, se sentiria menos dividido do que naquele momento, com os olhos furiosos e intensos de o encarando, suplicando. Olhos que parecem ter certeza de que pode proteger ele. De que pode dar algum rumo a ele.
Ele quer dizer sim. Quer dizer que não se sente seguro com seu pai. Quer dizer todas as violências que ele cometeu como brincadeira de criança. Quer contar que o pai tem Dot em cativeiro agora. Quer dizer que sua mãe fugiu quando ele era um menino. E depois Nadine. Quer dizer que ele esperava que alguma delas o levasse junto. Quer dizer que se sente doente, mas é o único lugar que ele pertence. Que ele só tem o seu pai. Que ele odeia suas estranhas, mas quer deixar ele orgulhoso. Quer dizer que tudo é uma bagunça. Quer dizer que ela é boa. Boa demais para um babaca como ele. quer se agarrar naquele olhar de confiança nos olhos dela.
Mas, quando ele pisca, ele só consegue ver Roy no fundo da sua mente. Os seus olhos azuis gélidos. Os abusos. Os socos. As palavras. A sua própria lealdade cega de um cachorro que já deveria ter sido sacrificado.
encarou o chão, envergonhado. Não é o que ele quer, não é quem ele é. Ele quer ser bom, mas ele quer dar orgulho ao seu pai. Não importa. Ainda é a escolha dele. Manchada pelas vozes que o criaram, ainda é a escolha dele. Há culpa nisso. Talvez, um dia, haja redenção também.
Hoje, só o gosto do arrependimento amarga a boca de enquanto ele assiste o deixar para trás.

As you go


Tudo acontece rápido demais depois disso.
O rancho em que ele cresceu é cercado. Aquele nunca foi um lugar seguro, mas era o único lugar que ele conhecia. Cheio de tiros que não vinham de armas conhecidas, gritos e palavrões jogados ao vento. Ele não vê nada disso.
havia sido ferido, durante uma das suas inúmeras tentativas de provas para o pai que não era um perdedor, e sim um vencedor. A aberração da natureza que era Ole Munch — e foda-se o cara que o indicou para o serviço, e foda-se a craiglist por só sugerir idiotas — havia furado seus olhos com um pedaço ferro velho, dizendo algo sobre olho por olho, dente por dente. E sabe que ele se colocou nessa situação, sabe que continuou cavando quando seu pai disse para sentar e ficar quieto. A obediência recompensava, era o que o pastor que espancava a própria esposa dizia. Era o que seu pai pregava em casa.
nunca foi muito devoto, mas ele rezaria quantas Ave Marias precisasse para garantias que ficaria longe dos socos do pai. A esposa do pastor provavelmente pensava o mesmo.
Aquela cidade estava cheia disso. Violência e hipocrisia. Era veneno. sabia disso, se fingir de cego não funcionava mais. Não depois do seu pai descartá-lo.
— Olho por olho. Mão inútil por mão inútil. — Munch o empurra em Roy e chora. Um som estúpido, fraco, que ele tem certeza que faria o Sheriff o olhar com desprezo. Mas ele está atordoado demais, com dor demais para se importar. Céus, tudo é escuro. É assustador pra caralho.
— Papai, eu estou com medo — ele diz, o vento do inverno hostil da Dakota do Norte batendo em seu rosto. — Por favor.
Por favor, me ajude. Eu sou seu filho mais que seu arrependimento.
— Você não tem mais serventia para mim — diz Roy , sua voz sem qualquer respingo de emoção. Ele não parece estar falando com um filho, nem com um cão. Ele está apenas constatando um fato.
Roy quase parece aliviado por não ter que lidar mais com o filho. E irritado por ter acontecido em uma hora tão inoportuna, já que os federais estão cercando a porra do seu rancho e ele acabou de perder a releição para Sheriff do condado.
— Pai.
Os passos se afastam. Eles não fazem barulho na neve.
— Papai?
Um soluço. Do elo mais fraco, como esperado. Os passos estão mais distantes.
— Papai, por favor.
É o mesmo jeito que ele rezava quando criança depois de uma surra. O Pai nosso que está no céu não responde a sua prece, e pai crú que está na terra não o pega pela mão.
está sozinho. E é assim que ele decide ir até o inferno. Se arrastando pelas beiradas que conhecia como a palma da sua mão, tentando se lembrar de imagens que nunca mais vai poder enxergar. Ele se gruda a memória para sair daquela parte do rancho.
Quando ele finalmente encontra alguém, não é seu pai. Não é Dot. Não é nem mesmo um dos parceiros que ele costumava trabalhar.
É Marla. Uma agente do FBI, pelo que ela diz. A mesma que havia visitado o rancho semanas atrás. Ele pensa em perguntar se estava lá, apesar de saber que era quase impossível já que ela havia mudado de trabalho.
De qualquer maneira, ele não pergunta. Assustado demais.
— Você está bem?
É uma pergunta de praxe, sabe disso. Em algum nível, ele está ciente.
Ainda assim, ele desaba como uma criança, chorando nos braços dela.
Não demora muito para que ele diga tudo que sabe.

Did you make it home?


É difícil manter o ritmo do tempo quando você não pode ver um relógio. não sabe dizer por quanto tempo esteve ali, sentando em cima de uma maca, em frente à sua casa de infância, os ombros escondidos por um cobertor térmico enquanto o sangue secava em suas ataduras.
Ele escuta a voz de Nadine... Bom, Dot. O se lembra da conversa que eles tiveram enquanto ela estava em cativeiro. Dela dizendo que Roy o odiou assim que ele nasceu. Que ele escolheu seu nome com desgosto, dizendo que preferia que o nome Roy, que batizava todo homem da família, morresse consigo do que dá-lo a alguém que iria estragá-lo.
Ele se lembra de dizer que esperava que Dot nunca mais visse a sua filha. Lembra dela encará-lo como se pudesse ver atrás dele e dizer, sem perder uma batida, que não era verdade. Que ele não queria isso.
havia dito que queria. Tinha saído pela porta, batendo o pé. Ele havia segurado o vômito, tentando manter suas entranhas dentro e parecer indiferente depois daquela conversa. Tentou ver Nadine como uma mentirosa. Especialmente quando ela falou que havia visto a mãe dele.
Mas o delegado era mentiroso. Dot estava certa, ele não queria dizer a maioria das coisas que dizia. Era só... mais fácil morder antes de latir. Mais seguro.
Ele estava tão vulnerável quanto quando era uma criança agora. A culpa o comia vivo, mas o medo se juntava ao banquete sem timidez.
— Nadine? — ele chamou ao ouvir ela conversando com algum policial. Não demorou para que o perfume de sempre atingisse os seus sentidos. — Eu... me desculpa.
Era menos do que ela merecia. sabia disso.
— Eu te perdoo.
Ele não entendo por quê Dot era tão gentil depois de tanta violência. Não entendo o motivo dela achar que ele pode ser bom, de ter apontado o dedo na cara dele e dito isso da última vez que conversaram. Mas é refrescante. Dá um alívio no qual ele se agarra como um cão e um osso.
— Você vai me visitar na cadeia?
A cegueira, o sangue em suas mãos, os machucados... Tudo era fodido e assustador, agonizante. Mas, para , nada era pior do que estar sozinho. Ele havia traído a si mesmo, ignorado seus instintos, feito coisas horríveis, entregado a sua devoção nas mãos de um pai que repudiava seu filho. E, ainda assim, ele estava apavorado com a ideia de estar sozinho.
— Claro que sim. E eu vou levar os cookies de linhaça que você gostava quando você era criança, sim?
Ele não sabe se está piscando, mas tem a sensação de que sim. Inacreditável, um pequeno sorriso surge em seus lábios cortados.
— É?
pergunta, precisando de uma confirmação que não tem direito de exigir.
Ela se inclina e o abraça. Demora alguns segundos, mas ele enrola os braços ao redor dela. Conforto. Finalmente.
— Sim — Dot diz simplesmente. Ela parece sempre ter certezas, sempre saber o que fazer e o que dizer. Ele se pergunta se poderia ter sido diferente para eles. Se poderiam ter continuado a ser família longe das garras de Roy.
Ele sabe que é inútil se perguntar essas coisas. Isso não o para. Racionalidade nunca foi páreo para nostalgia.
— Você realmente viu minha mãe? — perguntou em um sussurro. Aquela velha esperança piscando. Dot coloca a mão em sua bochecha, uma expressão melancólica quando assiste o rosto daquele homem mutilado de tantas maneiras. Algumas que só os dois entendiam.
— Apenas em um sonho.
Ele não precisa saber, Dot decide, que a mãe está enterrada no mesmo quintal em que ele aprendeu a andar de bicicleta.

Is it a person, or is it a change?


Para , os dias são mais caóticos do que rápidos.
Entre a mudança do sistema público para ser chefe da equipe de segurança de Lorraine Lython — também conhecida como dona de uma dos maiores sistemas de crédito do país. O pagamento era bom, arranjado para descontar uma parte das dívidas do ex-marido, e ela estava em um ambiente em que era respeitada, apesar de bater de frente com sua chefe mais do que alguém com amor ao dinheiro provavelmente tentaria.
A sua vida estava entrando nos eixos. Lars havia acatado o divórcio mais fácil do que ela teria imaginado, mas supõe que, depois de ser pego com sua "terapeuta" na cama do casal, ele não tinha muita escolha. O emprego novo era cansativo, mas bom. Ela estava limpando seu nome e se reacostumando ao sobrenome de nascença. E ela não tinha mais que passar madrugadas em turnos extras parando motoristas bêbados e caras que não queriam pagar as strippers.
Ainda assim, ela não conseguia deixar ir completamente. Checando o caso de Dot Lython pelo telefone com Witt sempre que podia, pensando em mais vezes do que deveria.
sabia que a operação do FBI no Rancho aconteceria hoje. Ela tentou ignorar essa informação durante o dia inteiro, entretanto, mantinha o celular na palma da mão, esperando uma ligação ou sinal de vida de Witt.
Quando seu celular tocou, no entanto, não foi a voz do seu parceiro. Nem mesmo Marla.
?
Era Dot Lython. Mas que porra?
— Senhorita Lython? O que... Onde você está?!
Ela andou pela casa, procurando por Lorraine para informar sobre quem estava ligando. Dot suspirou, balançando a cabeça.
— Não posso explicar agora. O pediu para eu ligar... Ele não está bem. Ele precisa de você aqui.
A cada palavra que Dot proferiu, sentia que o ar estava sendo roubado dos seus pulmões. Sua mente embaralhava cada vez mais, confusa.
Mas seu corpo sabia exatamente para onde levá-la.

Are you safe on the road you chose?


— Eu escolhi errado — disse, deitado em uma maca de hospital. Seus olhos estavam cobertos por ataduras brancas, manchadas de vermelho escuro. Ele riu sem humor. — Droga, eu sou um idiota.
— Você é.
não hesita. Ela é honesta sem ser maliciosa, não há um pingo de maldade em sua voz.
— Eu devia ter ido com você — ele admite, quase envergonhado.
— Eu te dei uma escolha. ...
— Olha, eu sei que sou inútil, tá? — ri, mas não há felicidade naquele ato. Apenas descrença de si próprio. — Eu sou um perdedor.
As palavras do seu pai parecem ainda mais verdadeiras quando ele diz isso. Na escuridão, o rosto de Roy é ainda mais proeminente, como a imagem que uma criança com medo do escuro veria.
— Você não é — ela diz imediatamente, franzindo o cenho. apenas balança a cabeça negativamente. — Não é.
— Eu nem consigo enxergar. — desabafou, movendo os braços exasperado. se sentou na porta da maca, colocando a sua mão sobre o braço dele.
— Isso não te torna um perdedor.
O silêncio perdura. Ele tenta acreditar nas palavras dela mais do que nas vozes em sua cabeça.
— Você foi a única pessoa que foi legal comigo. Mesmo quando eu era um idiota — ele diz, seu rosto virando para o lado, como se estivesse com vergonha de ser honesto. — Você... se preocupa com as pessoas. Tipo, genuinamente. Queria ajudar Nadi — ele tosse, mudando o nome. Afinal, ela tinha outra vida agora. — Dot. E você está trabalhando para Lorraine agora, não é? E chutou aquele babaca do seu marido.
observa o delegado, impressionada por ele saber tanto sobre a sua situação atual. Aparentemente, ela não havia sido a única que tinha continuado a pensar nele durante os últimos dias. Ela esperava que ele tivesse chegado bem em casa, que as coisas tivessem acontecido de uma maneira mais suave.
Agora, ela só estava contente por ele estar vivo. Mas ainda havia coisas para serem resolvidas.
, onde você quer chegar?
— Era legal passar tempo com você.
— Mesmo quando você estava mentindo para mim?
Há acidez em sua voz, entretanto, ela parece mais magoada que zangada. E isso dói nele mais do que uma briga.
— Eu estava te protegendo e tentando te deixar fora das merdas do meu pai — se explica sem se justificar. As suas próximas palavras são tão sinceras quanto vulneráveis. — Me desculpe.
— Se vale de algo, o seu testemunho vai ser muito importante — ela diz e ele assente. — Vai ajudar a trazer justiça para muita gente.
— Fazer algo bom depois de tanta besteira, huh? — o sorriso oco está lá de novo e o silêncio perdura por alguns segundos. — Posso te perguntar uma coisa?
— O quê?
— Você... Você me visitaria na cadeia? A Dot vai trazer cookies. Eles são muito bons... — engole seco. — Eu estou tentando ser bom.
Ele parece um cachorro na coleira pedindo carinho.
o observa, a resposta já está em sua língua desde que ela passou pela porta do hospital.
— Eu vou te visitar.

I'm thinking of you


mantém a sua promessa por duas semanas.
Esse é o tempo que fica na cadeia, na solitária. Ele passou cerca de um mês no hospital de Minnesota, onde a chefe de segurança alternava com Dot para passar a noite. Então, mais duas semanas na solitária, já que os policiais temiam represália por ter delatado o esquema de milícia. As duas semanas passadas antecederam o julgamento. Depois de uma semana na corte, e com a sorte de um juiz com vertente humanizadora, a sentença se apoiou na pena natural* para , prisão de 90 anos sem possibilidade de liberdade condicional para Roy e quantidades de tempo variadas para os seus comparsas, com agravante para os que haviam matado ou traficado armas.
Dot estava confusa, o choque no rosto de e refletia a felicidade hesitante que começava a aparecer enquanto os minutos eram gastos e a notícia se estabilizava neles.
— O que é pena natural?
Claro, e haviam sido parte da polícia. Eles estavam acostumados com aqueles termos, mas Dot não. Lorraine também não parecia entender muito, mas estava satisfeita em encarar Roy com um sorrisinho debochado.
— Pena natural é quando as consequências do crime servem como punição para o crime porque causam sofrimento constante.
— Os olhos do . — ela assentiu para si mesma, entendendo o que aquilo significava. A pena nunca deve ser maior que o crime, e a agonia de já havia ultrapassado isso. Ela não pôde evitar um sorriso singelo, abraçando o menino quebrado que ela tinha conhecido há tantos anos. — Acabou, . Estamos livres.

As you go, did you make it home?


A adaptação não havia sido fácil. ainda era... Bem, .
Teimoso como uma mula. Ele teve que cair da escada para aceitar que precisava de uma bengala para se guiar. Aprender a ler em braile também não era a tarefa mais simples do mundo.
Pelo menos ele estava animado sobre conseguir um cão-guia, já que sempre tinha tido o desejo de ter um, mas seu pai sempre proibiu. Cachorros são só para a segurança, idiota.
A casa de Dot era aconchegante, de um jeito que se lembrava da sua casa ser antes dele crescer o suficiente para entender o que seu pai fazia com sua mãe. A inocência morreu rápido, mas agora ele parecia recuperar os restos.
A casa da ainda era a mesma de quando ela morava com o babaca de pau mole, como ele referia o seu ex-marido. Entretanto, agora sem ele, era bem melhor. Mais espaçosa e sem aquela frescura de golf na garagem.
Voltar a trabalhar tinha sido a parte mais difícil. ainda não estava lá, mas ele queria. Tinha planos de voltar a ativa, apesar de saber que provavelmente nunca mais trabalharia para polícia. Era tudo que ele sabia fazer e ainda o deixava atordoado pensar que essa parte da sua vida havia acabado.
também não conseguia ver os seus desenhos. Ele ainda arriscava usar sua memória, lembrando de como usar os traços e para onde mover o lápis. Ainda assim, vez ou outra, sentia o relevo mudar e sabia que estava desenhando na mesa. Ou tinha sensação de que estava embaralhando os traços.
Os desenhos não eram um segredo. Claro, escondia eles o melhor que podia, mas ele tinha consciência de que sua mulher era um pouco esperta demais para isso.
Ele queria mostrar para ela. Talvez um dos antigos dos quais ele se orgulhava.
— O que você está pensando?
— Que eu queria poder ver seus peitos.
revirou os olhos, apesar do sorriso de canto de boca. Ele continuava insuportável, dizendo coisas inadequadas em alto e bom som.
— Você é um péssimo mentiroso.
— Eu não minto sobre isso, garota da cidade. Sempre quero os seus peitos — disse, desavergonhado, um sorriso satisfeito surgindo em seu rosto, apesar do nervosismo escondido. Pensar na noite passada e nos peitos da policial o tranquilizava. — Mas eu estava pensando em te mostrar uma coisa.
— O quê?
Ele se mexeu desconfortável no sofá, virando o braço para pegar um papel escondido embaixo das contas de energia na escrivaninha.
— Isso.
piscou, surpresa por ele estar lhe dando acesso a essa parte da sua vida. sempre havia sido tão secretivo com seus desenhos e ela tentava ao máximo respeitar seu espaço, imaginando que a arte era uma maneira dele extravasar.
— É de antes do... Acidente — disse, se referindo a sua cegueira forçada. — Eu costumava desenhar. Acho que sempre gostei disso.
— É o Jack Esqueleto? — ela perguntou, sorrindo para a página com o desenho em um traço robusto e pesado, mas com uma atenção aos detalhes que gritava .
— Ficou parecido? — questionou, a boca levemente aberta em ansiedade para confirmação.
— Muito. Está muito bom, . De verdade. Você tem talento — disse em um piscar de olhar, sem hesitar. O desenho era muito bonito, e sempre parecia fofo enquanto estava concentrado. Ela passou a folha, dando espaço para a segunda... Um retrato do seu rosto, fazendo uma careta, ainda com o distintivo de policial. Ela era, no traço de , até mesmo o sinal em sua bochecha e a maneira com que a boca dela se contorcia quando ele dizia alguma bobagem. Havia tanto carinho naquela atenção. — Sou eu?
— Você, hm, gostou? — perguntou, seus dedos brincando com os fiados da calça enquanto esperava pela resposta. Parecia que seu coração havia se enchido com os elogios dela e que estava prestes a sair pela sua boca.
sorriu, uma ternura tão delicada que ele conseguia sentir no ar. Ela colocou a mão livre na bochecha de , pressionando os lábios nos dele em um beijo gentil.
— Você é bom, .
Talvez ele estivesse começando a acreditar que poderia ser também. Se acreditava, ele também iria.




Fim.



Nota da autora: Oi, pessoal! Há quanto tempo eu não pegava um desses por aqui? A história é baseada em personagens da quinta temporada de Fargo, mas tentei resumir o plot para não ficar muito confuso. Ambos são policiais que passaram por muuuita coisa. Espero que você tenha gostado e comente. 💜
Para quem quiser saber um pouco mais sobre a pena natural, aqui um link!

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