I know you want, know you want take it slow
But think about all the places we could go
If you give in tonight
Let me set you free
We'll touch the other side
Just give me the Keys


Ele era bonito?
A fumaça, ou seja lá o que for aquilo, não me deixava ver.
Eu o conhecia?
Resposta acima.
A única coisa da qual eu tinha plena certeza é que ele me olhava.
Há quanto tempo?
Eu também não saberia responder, poderia haver uma enorme ou uma pequena diferença entre a hora em que ele começou a me encarar e a hora em que o percebi.
Tanto fazia.
A vida continuava; com ou sem carinha me olhando; com ou sem o meu, agora, ex, namorado.
A música era agitada, o calor irradiava dos corpos que movimentavam-se dentro ou fora do ritmo, as luzes piscavam e aquela fumaça permanecia ali, dificultando minha visão e exercendo o trabalho do álcool, que eu não bebia, vale ressaltar, deixando-me ligeiramente tonta.
Não que eu fosse uma puritana ou algo do tipo, longe disso, eu só não podia ficar bêbada naquele momento, simplesmente porque separação mais álcool é igual a choradeira no telefone. Tá aí uma fórmula não-matematicamente comprovada.
E bem, meu namorado - ex, eu tenho que me lembrar - foi embora.
Não porque brigamos, não porque ele seja um canalha e sim porque a faculdade fode com tudo, quer dizer, não especificamente a faculdade, mas sim a distância que ela impôs.
Separações costumam ser difíceis até quando não se ama, eu bem queria não
conhecer a dor de quando ainda se ama. Mas não sou eu quem comanda essas
coisas.
Como eu sempre digo, o amor deveria bastar. No entanto, não basta.
Os fatos seguintes foram meio turvos, assim como qualquer outra coisa que não estivesse há um palmo do meu nariz naquele pub.
Eu continuei dançando de um modo nada sensual, e quando me virei para me certificar de que o carinha continuava me olhando, pura e simplesmente para alimentar meu ego, tive a triste desilusão momentânea de não encontrá-lo.
Minha triste desilusão momentânea foi-se assim como veio, claro que eu tive meu minuto de olhar para o nada e soltar o suspiro mais dramático que consegui no momento, mas foi só, teria me lamentado também, bem, se pudesse ser ouvida.
Me virei novamente e lá estava Ele.
Não com uma aproximação daquelas que você simplesmente sente mãos en-volverem sua cintura e te conduzirem numa dança cheia de flerte.
Não, nada disso.
Ele apenas estava lá, bem perto, me encarando.
Eu sorri, ele sorriu de volta.
Ele era bonito?
Oh Deus, como era.
Eu o conhecia?
Definitivamente, não.
Passaram-se segundos ou minutos, eu não sei. O fato é que continuamos nos olhando e eu simplesmente não conseguia entender qual era a jogada dele.
Querido, se quer, venha e pegue. Eu quis dizer, mas soaria atirada demais.
Se os deuses dos DJs fossem legais comigo, teriam, com certeza, tocado Co-me
and Get it, da Selena, e assim eu poderia passar minha mensagem sendo atirada sem ser atirada. No entanto, assim como as divindades do amor, do dinheiro, da sorte, e de tudo o que há de bom no mundo, eles não vão muito com a minha cara.
Eu estava ali feito uma idiota apelando para deuses nos quais eu nem acreditava enquanto aquela criatura dos céus continuava a olhar com uma cara de quem não queria nada e ao mesmo tempo queria tudo.
Tudo bem, eu sempre fui uma feminista, e se um cara não quer dar o primei-ro passo, sei que tenho todo o direito de dá-lo.
Assim sendo, reuni coragem e dei o que foram mais de um passo até quase colar nossos corpos, ele sorriu, como se fosse o que ele esperava desde que chegara ali e eu estremeci como se uma corrente de ar gélido passasse por mim.
Concluí que, ou eu tinha um fetiche por sorrisos, ou eu tinha acabado de ad-quirir um fetiche por aquele sorriso em específico.
Agora sim, mãos envolveram minha cintura, mãos quentes que não conduzi-ram meu corpo a dança alguma. E antes que eu pudesse perceber, já estava completamente envolta em uma boca que não era a minha.
Passei meus braços ao redor de seu pescoço e senti quando ele apertou de leve minha cintura, pensando em implorar para que ele o fizesse novamente, mas isso soaria desesperada demais e dada a quantidade de vezes em que ele repetiu a ação, eu não fiz mal em manter-me calada.
Não diria e nem poderia dizer que aquele era o melhor beijo que eu já experi-mentara, mas, fortemente influenciada pelo fato de ser o primeiro desde o meu término, poderia dizer que o mesmo havia sido perfeito.
- Oi. - ele disse quando finalizamos e encostamos nossas testas, tão próximos que eu pude ouvir - mesmo em meio a tanto barulho - e fechar meus olhos para deliciar-me em todos os sentidos com aquela voz, que eu já amava.
- . - ele sussurrou no meu ouvido, fiz um movimento com a cabeça, para mostrar que estava ouvindo. - Isso aqui já deu pra mim. - eu sabia que ele falava daquele ambiente. - O que você acha?
Ergui meu rosto e encarei o sorriso torto dele, dei de ombros, eu ainda estava gostando dali e era tão cedo, mas não queria contrariá-lo.
Ele voltou a aproximar a boca do meu ouvido e mordeu de leve meu lóbulo, se ele queria me convencer, estava conseguindo.
- Eu queria mesmo te levar para fora daqui.
- Ei, ei, garotão, não acha que está indo rápido demais? - sorri, sentindo uma vontade imensa de ir para onde quer que ele me levasse, mas eu não seria tão fácil assim.
Ele sorriu mais sacana do que nunca e falou, dessa vez olhando em meus olhos, como se contasse um segredo:
- Você não parecia querer ir devagar quando me beijou daquele jeito - ele me desarmou, senti meu rosto esquentar e me xinguei mentalmente por ser tão patética, não era motivo pra corar tão violentamente.
- Não fui eu que te beijei - minha voz saiu mais infantil do que eu esperava. – Foi você... - o que ele usou para me calar foi o melhor possível e, mais uma vez, eu me rendi total e profundamente àqueles lábios alcoolizados.
- Tanto faz - ele respondeu pausadamente e eu só pude concordar.
Eu mordi meu lábio em dúvida, ele com certeza queria uma resposta e eu não queria dar adeus, mas tinha medo de qual fossem suas intenções.
- E aí? - ele perguntou por fim. - Ei, olha pra mim, eu só quero sair daqui.
Podemos ir a tantos lugares, já pensou? - ele riu fraco. - Não quero te levar pra um quarto nem nada.
Ele parecia ter lido meus pensamentos e eu só consegui rir e enterrar meu rosto no peitoral dele, que tinha um cheiro hipnotizante.
- A não ser que você queira, é claro - sussurrou em meio a uma risadinha safada.
Olhei bem para ele e tentei fazer cara de brava, se aproximou e passou o nariz no meu lentamente.
- Vamos, antes que eu me arrependa - respondi por fim, empurrando-o de leve.
Ele segurou minha mão e, de algum jeito, eu senti que tinha feito a coisa certa.
Não sei explicar o que estava acontecendo ali.
Talvez fosse a excitação do momento, a expectativa do novo, ou simplesmente a sensação confortável e a segurança que eu tinha com , mesmo em pouco tempo.
Naquele momento, me pareceu que enfim me tornava uma solteira de verda-de.
Até então, apesar de me assumir e agir assim, sabia que ainda estava ligada de alguma forma ao meu ex e sentia como se o traísse todas as vezes que um cara chegava perto de mais.
Era como que se, com o meu término, eu tivesse ganhado as chaves da porta da solteirice, mas que, por medo ou qualquer outra coisa, eu tenha ficado parada diante da mesma, sem coragem de abri-la.
E quando saímos daquele pub, ainda num aperto de mão forte, senti como se ultrapasse aquela porta, sem usar as chaves, no entanto, mas dando-as, in-conscientemente, a alguém que as usou por mim.
E era como se eu fosse liberta.


'Cause we got all night
We're going nowhere
Why don't you stay?
Why don't we go there?
Let's take a ride
Out in the cold air
I know the way
Why don't you go there with me?



- Já chamei o táxi - disse enquanto se aproximava.
- Beleza. Agora é só esperar.
Ele se escorou no muro ao meu lado e eu o puxei para mais perto.
- Não fosse pela sua insistência, já estaríamos bem longe daqui.
Eu havia me recusado firmemente a entrar em um carro que ele dirigisse.
- Você bebeu.
- Estou bem sóbrio ainda.
- Não tá não - ele me deu a língua. - Tá vendo? - gargalhei.
- Não tô não, porque eu tô bêbado. - ironizou, tentando, eu acho, imitar minha voz na última palavra. - E ainda vou ter que vir buscar meu carro amanhã – ele resmungou numa falsa irritação.
Dei de ombros, querendo dar fim aquela discussãozinha pacífica.
O amanhã, eis um tema que eu não queria de modo algum discutir.
Naquele momento, o movimento ao nosso redor se resumia em: muitas pessoas entrando no pub e nenhuma, além de nós dois, saindo dele, porque ainda era muito cedo para ir para casa.
Nós também não íamos para casa, aliás, eu nem sabia para onde iríamos e tinha uma leve desconfiança de que nem sabia. Que seja.
Ficamos parados ali, em um silêncio nem um pouco desconfortável, enquanto éramos abraçados pelo ar frio daquela noite.
- Tá frio aqui – disse, abraçando meu próprio corpo.
- Podemos voltar e pegar uma bebida - ele disse, passando um dos braços pelas minhas costas, no intuito de me aquecer. - Você sabe, algumas delas esquentam pra valer.
- Anão, não quero entrar lá de novo. Tá tão cheio - disse fazendo bico e me posicionando na frente dele, que não apresentava sentir frio algum. Parece que é sempre assim com os homens.
- Você tá gelada - confirmei com a cabeça.
- Você não? - ele negou.
- Também, não mando usar roupas assim, tão... - se interrompeu enquanto me olhava da cabeça aos pés, me encarando por fim.
Senti um tremor percorrer todo o meu corpo quando olhei nos olhos dele e tive certeza que não era o frio.
- Não me olha assim - enrubesci, e desviei o olhar.
- Assim como? - ele buscou meus olhos de novo.
- Assim como se fosse me agarrar.
- E eu não posso? - perguntou-me com um sorriso preenchendo lhe o rosto esculpido e, é claro, sem esperar por uma resposta.
- E então, há quanto tempo é que vocês namoram? - o homem de meia-idade que dirigia o táxi perguntou pouco depois que entramos no carro, tão simpático ele.
- Na verdade, estamos aqui para a nossa lua-de-mel - disse completamente sério e eu me segurei para não rir, dando graças a Deus pelo meu autocontrole.
- Sabe o que é o bom do táxi? - ele me perguntou quando vimos um veículo virar a esquina à direita e presumimos ser o nosso táxi.
- Não. O quê? - eu disse esfregando minhas mãos uma na outra.
- Podemos ser quem nós quisermos - ele sussurrou a última parte, sorrindo como quem conta uma charada.

Na hora eu não entendi o que ele queria dizer, bem, digamos que agora, sim.
- Lua-de-mel? Hm, meus parabéns! - o taxista nos olhou por instantes pelo retrovisor. - É tão raro hoje em dia casais tão novos se casarem. – completou coçando o bigode.
- É, eu sei - continuou, sem vacilar na interpretação. - Todos nos disseram isso, mas com a , o amor sempre foi mais forte que a razão - ele me olhou por fim e pegou minha mão entre as suas de modo tea-tral, o taxista nos olhou sorrindo ainda mais e eu limitei-me a concordar com a cabeça, em seguida escondendo meu rosto no ombro de , para que a farsa não fosse embora goela a baixo devido a minha cara. - E foi por isso que fugimos, nossas famí-lias não aceitaram muito bem.
Essa eu não aguentei, e para disfarçar meu riso, tive que apelar para a tão comumente usada tosse.
- Você está bem, meu amor? - ele me olhou com toda uma falsa preocupação enquanto o taxista tornava a olhar-nos pelo retrovisor sem desconfiança alguma.
- Tô, eu acho que me engasguei - só que, eu percebi depois, não estava co-mendo nada. - Com aquela bala - completei rapidamente.
- Isso sempre acontece - de dirigiu ao taxista sorrindo e eu perguntei como uma pessoa podia mentir tão bem.
Só espero que ele não esteja planejando mentir para mim também, porque, olhando para aquele sorriso, eu cairia fácil, fácil.
- Você fez aula de teatro ou o quê? - perguntei assim que Adilson - nome que soubemos ser o da taxista - nos deixou em uma rua movimentada e cheia de destinos legais onde um casal jovem e recém-casado poderia se divertir a noite, como ele mesmo nos dissera.
No fim, soube que assim como eu presumira, não tinha ideia de onde me levar quando me convidou, então, nada melhor do que deixar um homem co-movido com a nossa linda história de amor escolher por nós.
- Eu improviso bem - deu de ombros, falando como se a interpretação dele nem tivesse sido magistral. Tá, talvez eu estivesse exagerando. – E, além do mais, esqueci-me de contar do bebê - se lamentou.
- Que bebê?
- Esse aí que você tá esperando - disse com uma voz meiga e começou a acariciar com amabilidade minha barriga.
- Para - dei um tapa em sua mão quando vi que duas senhoras nos olhavam sonhadoras.
Ele viu para onde eu olhava e quando eu bem esperei que ele agisse normal-mente para disfarçar, se dirigiu até elas e disse num falso sussurro, para que eu ouvisse:
- São os hormônios, ficam afetados na gravidez - virou-se para trás e piscou para mim. - Nos casamos há pouco tempo e acabamos de saber, ela tá meio assustada ainda.
- Nesse caso, meus parabéns - disse uma das senhoras, que se levantou, abraçou-o e depois se dirigiu a mim, me abraçando, dando conselhos a respeito de enjoo, me dizendo que estava tudo bem, sugerindo nomes de bebê e me abraçando novamente.
Senti-me um pouco mal, ela tinha sido tão gentil e aquilo era tudo mentira.
- Vocês formam um belo casal - disse a outra senhora, quando nos despedi-mos, e eu juro que vi lágrimas nos olhos da primeira.
- Sabe o que é o bom de estar em um lugar onde não conhecemos ninguém? -
disse quando nos afastávamos de mãos dadas.
- Não, o quê?
- Podemos ser quem nós quisermos.
- Pensei que esse fosse o bom do táxi.
Ele deu de ombros e continuou sorrindo, se eu queria uma explicação, infelizmente, ia ficar querendo.
- Sorvete.
- Não! Tá frio - abaixei meu tom de voz quando percebi que falava alto de-mais.
- Então o quê?
- Hm - quiquei meus dedos no queixo enquanto olhava a rua ao nosso re-dor.
Parecíamos perdidos, dado o tempo em que nos encontrávamos parados no meio da calçada discutindo o quê fazer e sem chegar a um consentimento.
- Chá - disse por fim.
- E você acha mesmo que tem alguma casa de chá aberta há essa hora?
Eu sabia que ele queria arrumar uma desculpa para não ter que negar, então, da forma mais dramática possível, fiz com que ele se virasse e disse em seu ouvido:
- Acho. E ela fica bem ali.
Ele mirou por alguns instantes o letreiro luminoso da Chá 24 Horas e virou-se novamente para mim.
- Por que diabos existe uma casa de chá 24 horas?
- Porque as pessoas bebem chá o tempo todo.
- Não é um argumento válido.
- É sim, e agora vamos.
- Ah, não, chá não - ele disse um tanto decepcionado.
- Chá sim e pronto.
- Por que temos que fazer o que você quer? - ele me encarou inquisidor.
- Porque meus desejos tem que ser atendidos - sorri maliciosamente.
- Sob qual justificativa?
- A de que eu tô grávida - pisquei meus olhos freneticamente e acariciei mi-nha barriga. - E a de que o culpado é você.
Ele fez uma cara engraçada e depois sorriu, deduzi que essa fosse sua rea-ção ao tão famoso momento em que o feitiço se volta contra o feiticeiro.
- Não vejo justificativa maior - ele parecia se divertir. - Sendo assim, iremos ao chá, madame - ofereceu-me seu braço e eu, de bom grado, aceitei.
Então atravessamos a rua e entramos no estabelecimento como se deve fa-zer: cheios de classe, sendo quem quiséssemos ser.
- Mais alguma coisa? - a atendente, vestida de tons pastéis, perguntou após pegar nossos pedidos.
- Na verdade, sim - piscou para ela e eu percebi que ele fazia isso sempre que queria algo. Aquilo dava a ele um charme inimaginável. Será que ele sabia disso?
- Pois não - ela disse, agora meio afetada, penso eu, pelo sedutor nato parado a sua frente.
Se eu fosse mesmo casada com ele, se eu estivesse mesmo grávida dele, teria sentido ciúme, mas esse não é o caso.
Balancei minha cabeça, tentando afastar esses se’s da mente.
- Por que existe uma casa de chá 24 horas? - esperei que ela tivesse uma resposta super genial, que tirasse o sorrisinho bobo da cara dele ou que, pelo menos, fosse mal educada com tamanha petulância.
Mas, depois de um minuto de silêncio, em que ela pareceu pensar, apenas disse:
- É uma coisa que eu não sei te responder, senhor - e ela foi sincera, eu tinha certeza.
- Tá vendo? Nem ela sabe.
- Cala a boca, ela estava era flertando com você - e disso eu não tinha certe-za.
- Tô me sentindo a rainha da Inglaterra aqui – disse, enquanto adoçava mais meu chá com cubos de açúcar e gestos propositalmente pomposos. Deu pra sentir a emoção? Eram cubos de açúcar e não açúcar.
- Você pode ser ela, se quiser, só carrega o seu sotaque - disse todo sério, se aproximando até quase juntar nossas cabeças por sobre a mesa, como se tivesse mais alguém ali e precisássemos de privacidade.
- Ah ta, e todo mundo ia acreditar que eu era ela – disse, revirando os olhos e ele começou a rir, me contagiando em seguida.
Ficamos em silêncio enquanto bebíamos o chá e eu não o olhava para não ver as caretas que ele fazia a cada gole e começar a rir, disparando a bebida quente para todos os lados.
Em certo momento, um casal de velhinhos daqueles bem típicos, ela de vestido e ele de chapéu, entrou no estabelecimento e eu pus-me a olhá-los, me perguntando se um dia eu teria um relacionamento sólido daqueles.
Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse e eu vi-me suspirando interna-mente devido à beleza da cena, o homem notou o meu olhar e sorrindo dis-se:
- Comemoramos 52 anos de casados hoje, mocinha, e Eva continua tão boni-ta
quanto antes.
- Meus parabéns - eu disse, meio emocionada, e seguindo, o sempre simpáti-co com estranhos, , fui cumprimentar o casal.
Sentamo-nos novamente e notou que eu tinha lágrimas nos olhos, então, antes que ele me perguntasse alguma coisa, eu disse em um riso fraco.
- Devem ser os hormônios, você sabe eles ficam afetados na gravidez - e en-tão rimos juntos. - Meu Deus! Acabei de me lembrar.
- O quê? - ele pareceu extremamente curioso. - Não me venha dizer que está grávida de verdade.
- Como se eu fosse me esquecer disso e me lembrar só agora - disse encarando o incrédula. - Adilson não percebeu que nós dois não usamos alianças – mudei bruscamente de assunto.
- É mesmo - ele pareceu pensar. - E nem as duas velhinhas.
- Ficamos menos tempo com elas.
Ele fez um movimento leve com a cabeça, daqueles típicos de quem concor-da.
Pensou um pouco e, como se uma lâmpada se acendesse em cima de sua cabeça, disse em um sorriso:
- Eu sou tão convincente que eles nem buscam provas - se gabou e eu, mes-mo sem querer, não pude deixar de concordar.
- Até que não foi tão ruim - disse en-quanto segurava a porta da casa de chás para que eu passasse.
- Claro que não, olha quem foi sua companhia.
- Para de se gabar, menina - ele disse enquanto passava a mão pela minha cintura.
- Aprendi com o melhor - eu rebati rindo e dei-lhe um beijo estalado na bochecha.
- E o pior é que eu nem gosto de chá - falou após um tempo.
- Nem eu.
- Como assim, nem você? Você anda me enganando agora? - disse com um drama exacerbado, mas sem conseguir esconder o tom brincalhão.
- Eu disse que queria chá, não que gostava de chá. Entenda a diferença, bobinho - dei um peteleco na sua nuca e saí correndo na frente.
Claro que não demorou muito para que ele me pegasse e me prendesse fortemente entre seus braços, e eu tive que, com minha péssima interpreta-ção, fingir que queria sair dali.
- Devem ser os desejos, isso sim - ele disse em meio ao seu característico sorriso safado. - Tô começando a acreditar que você tá grávida de verdade – eu arregalei meus olhos e preparei-me para me rebater, quando eu fui impedida por lábios ainda quentes devido ao chá e, literalmente, esqueci até o que ia falar.
- E agora? - ele me perguntou.
- Vamos para casa? - o respondi meio incerta.
- Você quer ir?
- Não, é só que já está meio tarde, não?
- Já estava tarde quando você saiu de casa hoje - ele estava certo.
Pensei um pouco a respeito, continuei indecisa.
- Ora, vamos, temos a noite toda ainda - ele disse, me puxando para mais perto, e eu não pude deixar de sorrir, notou e roubou-me um selinho. - Você é maior de idade, não é? - ele perguntou com uma cara temerosa, como se repreendesse a si mesmo por não perguntar antes e agora estivesse com medo da resposta. Eu ri e concordei. - Então, nada te impede - ele pareceu aliviado.
Eu, no entanto, não estava nem um pouco.
Eu queria mesmo ficar, mas não podia me esquecer de que não o conhecia e de que esta brincadeira tinha que acabar uma hora mesmo, então era melhor que eu fosse embora antes que me apegasse demais e acabasse sentindo a dor da distância novamente.
- Eu não queria, mas eu tenho mesmo que ir - meus lábios diziam, mas meu corpo não fazia o menor esforço para obedecer e continuava ali, inerte nos braços de .
- Por que você não fica? - ele olhou bem fundo nos meus olhos. - Podemos ir a tantos lugares ainda, eu juro que agora sei o caminho.
Respirei fundo, não era drama, a balança de prós e contras continuava em perfeito equilíbrio.
- Já estamos aqui mesmo - ele disse por fim, e eu soube que era seu esforço final.
E a balança cedeu.
Porque, quer saber? Ele estava certo.
Já estávamos ali mesmo, se fosse para pensar, deveria ter pensado antes de sair do pub, não agora, e umas horas a mais não fariam tanta diferença.
Éramos jovens, vivíamos o momento exato para essas loucuras e eu não ia me preocupar com nada, pelo menos, não agora.
Respondi-o da melhor forma possível, usando meus lábios, mas não as pala-vras, e ele pareceu entender.
- Para onde agora? - ele perguntou, enquanto eu estava perdida olhando sua boca, agora tão lindamente avermelhada, por minha causa, é claro, sorri satisfeita.
Olhei ao meu redor e vi um letreiro chamativo de Bar e Karaokê do Tom, esses letreiros parecem sempre me chamar à atenção, mas espera aí, essa é mesmo a função deles, abanei minha cabeça me sentindo uma lesada e me olhou como se eu fosse mesmo uma.
Eu nunca havia ido a um karaokê antes.
Mas assim como passar a noite rodando a cidade com um quase desconheci-do, tudo tem sua primeira vez.
Beijei novamente , só porque estava com vontade e, expressando toda a minha animação, apontei para o karaokê e propus:
- Por que não vamos lá?

Say the word, say the word
But don't say "no"
Sky dive, you and I with just these clothes
Your secret's safe with me
There's no right time or place
'Cause anyone could see
Do it anyway


- Você que quis vir e agora não quer cantar? - me perguntou incrédulo.
Estávamos há uns dez minutos no Bar e Karaokê do Tom e, desde então, ele vinha insistindo para que eu cantasse.
O lugar era esplendoroso, cheio de cores e luzes, tudo na medida certa.
Havia um equipado bar a esquerda - que era a parte mais usada pela maioria das pessoas que ali se encontravam -, mesas de dois e três lugares espalha-das, alguns pufes em um canto, e, é claro, ao centro, um palco, com jogo de luzes e tudo.
já havia cantado uma vez, desafinando completamente, e recebido calorosos aplausos da "plateia", não sei bem se isso se deu pelo carisma que ele tinha no palco ou pela falta de sobriedade de todos os presentes, sua voz é que não era a razão.
- Mas eu não vim para cantar.
- Veio pra quê, então? Porque para beber é que não foi - ele lançou um olhar brincalhão para minha mão vazia. - Ora, vamos, , você não pode vir a um
Karaokê e ir embora sem cantar.
- É claro que eu posso. Muita gente faz isso.
- Mas aí a aventura não é completa - eu ri do modo como ele falou, parecia uma criança birrenta.
- E toda essa gente? - eu suspirei olhando em volta. - Pensei que estivesse menos cheio.
- Elas não importam - disse com uma convicção absoluta.
- Você que acha – falei, olhando para longe dele. - Você que é todo extrovertido e sem vergonha - sem vergonha no bom sentido eu quis dizer, acho que ele entendeu.
- A timidez ou a falta dela não interferem aqui - segurou meu rosto para que eu o olhasse. - E sabe por quê? - meneei a cabeça. - Porque essas pessoas não podem ver.
- Não? - perguntei, querendo uma explicação, sem dar muito crédito ao que ele dizia.
- Não - usou da mesma convicção para responder. - Isso porque elas estão bêbadas, porque não vieram aqui para julgar e, principalmente, porque elas não podem ver você, veem por fora, não por dentro.
Fechei meus olhos e senti o impacto que aquelas palavras causaram em mim.
Eu sempre quis parar de me importar com o que as pessoas pensavam, com o que as pessoas diziam, mas nunca consegui, meu esforço nunca fora o bastante.
E ouvindo aquilo, algo mudou.
Não, eu não deixei de me importar na hora e saí correndo para aquele palco, mas vi na ocasião uma oportunidade para chegar onde queria, onde parecia estar.
- E eu posso ser quem eu quiser - eu disse num sussurro, ainda de olhos fe-chados.
- Exatamente - ele soprou no meu rosto e eu tive uma vontade louca de beijá-lo mais uma vez.
- Até a Katy Perry?
- Até ela - finalizou.
Então percebi que, assim como eu, ele também estava louco por mais contato, quando, num impulso, ele tomou minha boca na sua em um beijo mais que significativo.
- Escolhi uma da Katy para você - disse sorrindo como sempre e me puxou em direção ao centro do estabelecimento. - Faz direito, porque eu adoro essa música - ele deu um tapa na minha bunda, daqueles que te empurram, sem malícia alguma e eu subi os poucos degraus que diferenciavam o piso do palco.
Respirei fundo uma, duas, três vezes só encarando o microfone, que mais parecia um instrumento de tortura para mim no momento.
Olhei para o lado e lá estava , fazendo joinha para mim e me incentivando ainda mais. Dei um sorriso nervoso para ele.
Aproximei-me do centro do palco quando ouvi as batidas de The One That Got
Away se iniciarem e senti um frio muito estranho na barriga.
Eles não podem ver, , eles não podem ver.
Eu repetia a mim mesma como um mantra, tentando me controlar para que não gaguejasse tanto.
No entanto, se funcionou eu não sei.
Eu estava tão nervosa, que cantar naquele karaokê foi como o dia da minha formatura. Eu estava lá, eu participei da cerimônia, eu me formei, mas não me senti lá, não me lembro bem e tudo passou como um flash.
Foi só nos últimos acordes que me dei conta do que fazia, da letra que aque-la música tinha, do quanto ela me lembrava do meu ex, do nosso passado, dos nossos planos e do quanto eu fui idiota em pensar que ficaríamos juntos para sempre, e de que assim como a Katy eu tinha muitos arrependimentos e um cara que foi embora.
Quando a música acabou, minhas pernas tremiam mais que o normal e eu sabia não ser pelo nervosismo, uma vez que minha temível aventura havia acabado.
No entanto, o motivo real eu ainda não sabia.
Não consegui dar atenção às palmas, que eu tinha certeza ter recebido devido à falta de sobriedade da plateia.
E enquanto descia as escadas, querendo fugir dali o mais rápido possível, vi a única pessoa que não me aplaudia e que sim me olhava preocupada, a única dentro daquele lugar que importava, porque ela era a única que podia ver e porque ela havia visto.
Visto as lágrimas que eu tinha cansado de tanto conter.
.
Dizer que ele veio imediatamente atrás de mim seria uma mentira.
Dizer que eu não me forçava a acreditar que ele estava me procurando, tam-bém.
A dúvida estava no se eu queria ou não que ele me encontrasse.
Eu não sabia se deveria seguir meu lado egoísta, que iria embora sem dizer adeus, ou o masoquista, que ficaria e esperaria que ele fosse embora sem dizer adeus.
Nunca vou saber que lado dessa balança pesaria mais, porque, antes que eu pudesse tomar uma decisão, ele chegou e antes que eu pudesse me segurar e eu já estava em seus braços.
Naquele momento, ele não estava ali para deixar que eu chorasse em seu ombro, não, porque assim que ele chegou, não havia mais lágrima alguma.
- Quer falar sobre isso?
Não respondi de imediato.
Estávamos sentados na calçada e escorados na parede de um dos poucos estabelecimentos fechados daquela rua, sem nos importar com a cor daquele chão ou com o que os outros pensariam, porque eles não podiam ver, e nem queriam, na verdade.
- Ei, - ele disse carinhoso, me puxando para mais perto. - Pode me falar, qualquer que seja o seu segredo, ele está a salvo comigo.
Olhei-o e mais uma vez, dentre tantas, acreditei em suas palavras.
E era melhor eu contar logo, antes que ele chegasse a conclusões como a de eu estar mesmo grávida.
- Jura de mindinho? – perguntei, erguendo tal dedo.
Ele olhou-me por uns instantes e, meio receoso, cruzou seu mindinho com o meu.
- É claro - eu ri diante da sua desconfiança. - E então?
- Mas você é curioso, hein, garoto?
- Sempre - ele riu. – Anda, conta - disse com uma voz afetada.
- Enfim... - enrolei mais para implicar um pouco. - Digamos que, assim como a
Katy Perry, eu tenha um “The One That Got Away” - fiz aspas no ar.
- E ele morreu em um acidente de carro também? - engoli em seco para não
perguntar se ele era fã da Katy e mudar totalmente de assunto.
- Não, Deus me livre - eu ri fraco. - Ele se mudou para cursar a faculdade e nós dois chegamos à conclusão de que não ia dar pra continuar, não com a distância que há entre nós dois agora.
Ele escutou e pareceu pensar no que dizer, eu não quis entrar em muitos detalhes, porque, apesar de não termos nada, eu sei que ex-namorados não são uma boa escolha de assunto quando se está conhecendo alguém, pelo contrário, é muito chato.
- E você não o superou ainda? - me perguntou por fim.
- Não muito - a verdade é que eu não tinha superado nada até aquela noite. -
Mas o pior nem é isso.
- E é o quê?
- É que não quero ter outro e passar por tudo novamente - suspirei pesada-mente, ele pareceu entender que eu me referia a ele e por isso também ficou sério, talvez, assim com eu, ele não quisesse pensar no fim que teríamos dali a algumas horas. – Porque, diferente da Katy, eu não vou poder lançar uma música a respeito e ganhar dinheiro com isso.
- Ainda bem, porque sinto te dizer, mas você não tem o menor talento cantando - e o clima ficou leve novamente.
- Isso é porque minha boca exerce outras funções melhores.
- Tipo? - ele perguntou, cheio de malícia.
- Comer - eu gargalhei da cara dele e ele depois da minha.
E não é que éramos uma bela dupla.
Não sabíamos de onde vinha aquela música, mas resolvemos ir até ela mes-mo assim, uma vez que estávamos, nas palavras de , em busca de aventura.
Andamos um pouco, guiados pelo ouvido dele, porque o meu nunca fora lá essas coisas e chegamos a uma pracinha, onde uma dupla de músicos tocava o que, eu pensei, serem músicas clássicas.
Perguntei-me se músicos normalmente tocavam até àquela hora da madrugada e minha melhor resposta foi a de que eles se inspiravam nos músicos do Titanic e tocavam até o fim. Fim do quê é o que eu não sei.
me puxou para mais perto - andáva-mos de mãos dadas -, e se abaixou para colocar uns trocados na lata que estava em frente aos artistas, suspirei, me sentindo em um filme.
Algumas pessoas que estavam sentadas nos bancos assistindo fizeram o mesmo e um dos músicos piscou agradecido para .
Eu ia me sentar quando fui interrompida por ele, que segurou meu braço.
- Dança comigo.
Eu não entendi bem se aquilo era uma pergunta ou uma ordem, por isso de-morei para responder.
Ele me olhou com uma cara de quem pedia que eu dissesse alguma coisa logo.
Aquilo era nervoso? Sorri para ele e resolvi continuar com a minha falsa relutância e pude ver seus lábios se mo-vendo em um insonoro:
- Não diga não, não diga não.
Não sei se ele percebeu que eu vi, ou se fez de propósito, mas resolvi aceitar logo.
- Mas é claro que sim - disse enquanto passava meus braços por seu pescoço e ele deslizava os seus pela minha cintura. - Só que eu não danço bem.
- Tudo depende de quem te conduz - falou e eu presumi que ele se achasse um bom condutor, torci por isso, porque não estava a fim de pagar mico.
E, mais uma vez naquela noite, contagiou as outras pessoas, que depois de algum tempo, dançavam ao nosso redor, cada uma ao seu modo.
E ninguém via.
E ninguém podia ver.
E ninguém queria ver alguém além daquele com quem dançava.
Inclusive ele e eu.
Havia apenas nós dois ali.
E era o bastante.

Hey, I don't want you be the one that got away
I wanna get addicted to you yeah
You're rushing through my mind
I wanna feel the high
I wanna be addicted
Don't say, no-o-o-o
Just let go-o-o-o-o


- Seria legal se fosse uma praia.
- Tá bom aqui.
- Mas na praia...
- Tá bom aqui, .
Estávamos sentados na beira de uma rodovia em uma parte mais alta da cidade, esperando o nascer do sol.
O tempo havia passado.
A noite chegava o fim.
O tempo havia passado e eu havia percebido ele.
Li uma vez que, quanto mais coisas novas você faz em certo tempo, mais de-vagar as horas passam e seria essa também a explicação para que na ro do dia-a-dia o tempo voe.
Eu agora podia confirmar isso.
O tempo com não passara voando, ele fora eterno.
Fora tudo novo. Os destinos, os sentimentos, as sensações, as “aventuras”.
Poderia usar do clichê e dizer que a noite durara o bastante para se tornar inesquecível, mas pensando bem, ela durou ainda mais.
- Não gosto desse casaco - ele disse, puxando a manga do mesmo.

Quando a música acabou, havia um único senhor que não dançara, um bem velhinho, daqueles que parecem contar histórias pros netos o tempo to-do.
apontou para ele e disse que estava na hora de trocarmos de par, porque todos mereciam dançar naquela noite.
Então ele foi até o senhor e o convidou para dançar comigo, enquanto ele mesmo achou uma menininha que dançava entre seus pais, como eu mesma costumava fazer antes, e começou a dançar com ela.
Senti-me novamente no meu baile de quinze anos, onde eu havia dançado com o meu avô, que agora já havia morrido.
O senhor era tão simpático quanto parecia ser e durante toda a música me contou sobre nossa cidade anos atrás e eu adorei isso.
Ao final da música, quando nos despedimos, ele me ofereceu o seu casaco, porque percebeu que eu tremia, e quando eu neguei ele disse:
- Era isso que ela gostaria que eu fizesse - ele disse e eu sabia, se referia a mulher de quem era viúvo.
Com um argumento desse não há quem negasse, eu aceitei e insisti para que ele me passasse seu endereço para que eu pudesse mandar a vestimenta de volta.
- E faz uma visita também - ele piscou. - Você e o seu namorado ali - ele dis-se, olhando por cima do ombro. - Ele é um bom garoto, não é?
- Com certeza.
O senhor se despediu e durante todo o caminho que e eu fizemos com
Adilson no táxi, ficamos disputando para ver quem decorava o endereço dele primeiro.
Senti-me a Dori, de Procurando Nemo, e, é claro, venci, não porque tivesse a cabeça melhor, mas simplesmente porque não conseguia tirar o ‘P. Sherman, 42 Wallaby Way, Sidney’ da cabeça e se confundia a todo o momen-to.


- Por quê? - eu disse, puxando meu braço do dele, em um ato de defesa do
casaco. - Ele não te fez nada de mal.
- Fez sim - ele disse sério. - Te aqueceu.
- E?
- Esse era o meu papel.
Eu não sabia se ria, se ficava com vergonha, ou deixava que meus órgãos internos se derretessem.
- Não seja por isso – disse, me aninhando nele.
- Bem melhor assim - ele disse e eu só pude concordar.
O sol chegou e com ele a conversa que deveríamos ter.
- E agora? - eu perguntei e ele entendeu que eu não me referia ao nosso próximo destino.
- Não sei - ele suspirou, os primeiros raios do sol iluminavam-no, de forma a deixá-lo ainda mais bonito. - Não quero ser outro cara que vai embora e nem quero que você seja uma.
E as palavras fugiram da minha boca como eu queria fugir daquele fim.
- Não precisámos estragar isso, não acha?
Ele disse e eu entendi.
Se acabássemos agora, não ia ter como nada dar errado.
Seríamos apenas lembranças felizes na vida um do outro.
Contaríamos essa história para nossos netos.
Se continuássemos, nada teria essa certeza.
E, naquele momento, eu precisava de uma certeza na minha vida.
Só disso.
E ele me dava uma: a certeza de que fomos felizes naquela nossa noite eter-na.
E nada poderia me parecer melhor naquele momento.
- Acho.
- Mas antes - eu disse, me levantando e batendo a poeira da calça. - Podía-mos
tomar café, tô morta de fome.
- Legal! Café antes e dormir depois.
Dessa vez nem chamamos táxi, fomos andando - acho que para prolongar nosso tempo juntos - até a padaria mais perto dali, que, literalmente, acabava de abrir suas portas.
Comemos em silêncio.
Nossas olheiras já aparentes, nossos corpos bem próximos, nossos olhos num misto de felicidade e saudade do que viria.
- Ninguém tá indo embora, não é? - eu disse meio engasgada.
Estávamos do lado de fora da padaria e o nosso adeus já durara longos minutos de silêncio.
- Não, é claro que não - ele se aproximou e beijou minha testa, as lágrimas rolaram dele também. - Eu nunca vou te esquecer, - e foram as últimas palavras que eu ouvi dele.
Palavras que eu não consegui responder enquanto o via se afastar.
É claro que ele voltou e me beijou mais de uma vez, mas depois ele se foi.
E eu não disse nada.
Dizer que ele me fez esquecer completamente do meu ex e que agora eu era um vaso novo seria um exagero.
Mas, com aquela noite, ele me mostrou que eu podia e devia fazer esquecer, tocar a vida, e isso foi absolutamente maior.
E eu sabia que nem em um milhão de anos eu o esqueceria.




EPÍLOGO


Ela era uma mulher de sorte.
Dizia o bilhete que acabara de escre-ver e que supostamente seria mandado pelo carteiro, junto com as flores, para o senhor que lhe emprestara o casaco noites atrás.
Seria mandado, se ela não tivesse resolvido ir até lá pessoalmente.
Agora, ela procurava afoita por suas chaves, porque sentira uma pressa inex-plicável por ver aquele tão simpático idoso.
Quando estava para sair, lembrou-se que nunca tinha ido até a casa dele e de que precisava do endereço, e, ao procurá-lo, não o encontrou.
Riu e agradeceu mentalmente a Deus por tê-lo decorado numa brincadeira boba com .
Ai! Pensou ela, aquele nome ainda doía, mas era uma dor boa, coisa que não se pode explicar.
Abanou a cabeça para regularizar sua mente, o que não causou efeito algum ao seu coração, que agora batia como se algo muito bom fosse acontecer.
Coração bobo, tornou a pensar.
Mas não sabia que a boba ali era ela.
Porque, em algum canto daquela cidade, notara que estava com o papel amassado que continha um endereço escrito a letras tremidas e pensou: Por quê não ir lá?
Assim, se nada acontecesse, eles se veriam.
Como o de , o músculo cardíaco de também sabia.
Ambos os corações sabiam que aquele não era o fim para eles.

FIM



Nota da autora: Primeiramente, obrigada a você que gastou um pouco do seu tempo lendo esse meu projeto de fic, juro que na minha cabeça ela tinha ficado bem melhor.
Segundamente, para você que, assim como eu, ama de paixão essa música, espero realmente que eu tenha suprido parte das suas expectativas.
Então, é isso, usem a caixinha abaixo e comentem, é bom para mim, é bom para o site, enfim, é bom para todos.




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