Última atualização: 23/05/2018
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Prólogo


Olhei as gotas de chuva escorrendo pelo vidro do arranha-céu, contemplativo. O que estaria fazendo uma hora dessas? Provavelmente apreciando um chá, doce como o inferno, do jeitinho que gostava. Talvez também estivesse observando a chuva, mas com uma perspectiva completamente diferente da minha.
A mulher devia estar agradecendo à natureza por algo tão belo, capaz de lavar qualquer mal do mundo. Enquanto eu me irritava com as gotículas insistentes que atrapalhavam o tráfego, principalmente em hora do rush como estava. Balancei minha cabeça, tentando mudar o rumo de minhas divagações, porém, foi em vão. Não importavam as circunstâncias, eu não conseguia tirá-la de minha cabeça. Mesmo naquela reunião sem sentido, a qual eu presidia, era que eu enxergava do outro lado do vidro, flutuando como um anjo. Ou lançando-me aquele olhar reprovador que me fazia contorcer como nenhuma arma ou humano jamais conseguira, seus lábios pálidos pareciam me questionar: por quê? Por quê não me contou? Pensei que confiasse em mim.
O amargor de suas últimas palavras antes de me deixar, ainda era palatável, minha língua ardia com palavras não ditas. Explicações que se eu tivesse dado, talvez... Mas eu não queria perder tempo com se’s. Sempre fui um homem de “quando’s”.
Meu estilo era partir de informações certas e probabilidades altas. Esse sim era meu negócio. Um exemplo era o acordo com Rumlow Briggs, um magnata do petróleo, interessado em investir no mercado negro para maximizar seus lucros. Foram meses de negociações, investigações de suas transações comerciais para checar a legitimidade de seus negócios e sobretudo papelada. Acima de tudo papelada. Tanto papel que deveria ter sido desmatada meia floresta amazônica só para aquele acordo comercial. Até meus advogados de confiança, meus empregados da parte legítima e da parte ilegal de minha empresa, estavam todos animados com a conquista. Menos eu, que não estava com a cabeça no “grande dia”. Não entendia qual era o motivo de tanto alarde por conta de um herdeiro bastardo e mimado.
Já aquela reunião que, aliás, eu deveria estar presidindo, se tratava da tentativa de acordo entre três cartéis de armas, dois antigos e um novo no negócio, mais preocupados com a territorialidade do que com a qualidade de seus produtos. Isso era previsível, e o tipo de função das que eu mais odiava, de tudo o que eu exercia. Mediar três gatos pingados querendo marcar território na mesma caixinha de areia era broxante demais.
Nesse momento, os Gallaways discutiam com os Leppards e os Chaunceys sobre quem ficaria com o norte da cidade. Não sei que espécie de árbitro, eles esperavam quando me contataram para esse trabalho entediante, mas eu certamente não estava mais com saco para todo aquele mimimi. Resolvi acabar logo com aquilo para poder fazer algo que tirasse minha mente da mulher que me assombrava, se é que isso era possível.
- Gallaways e Leppards vão dividir o Norte, é a área mais influente e com maiores rendimentos. Chaunceys ficam com o sul, pode ser menos lucrativa, mas é mais vasta e com muito espaço para crescimento. Alguém discorda? –Perguntei, secamente.
Um dos milhares de advogados dos Leppards, a família mais nova e sem a menor noção de como funcionavam as coisas ali, começou um contra-argumento, mas bastou um estalar de dedos meu, que Lance, meu capanga, atirou no merdinha contrariado terminando a discussão por ali.
- Repetindo: Alguém discorda? – Indaguei, como se nada tivesse acontecido.
O advogado não causaria mais problemas e pelo visto nem os sócios. Nenhum deles parecia muito satisfeito, mas ao menos não teriam como reclamar por um bom tempo. Provavelmente se arrependeram de terem me escolhido, mas isso também não era mais problema meu.
Saí da sala, sem me incomodar em chamar Lance, ou Petra, já esperando que me seguissem. Estavam acostumados com meu humor volátil, principalmente a mulher, que fazia parte de minha escolta há muito mais tempo. Petra estava lá desde que minha “empresa” era somente uma fachada para lavar todo o dinheiro que ganhava com o tráfico de armas e o que mais de ilícito pudesse pôr a mão. E à época, eu ainda não tinha princípios, qualquer coisa valia, menos tráfico de humanos. Não que servisse muito de consolo, já que traficar órgãos de humanos na minha cabeça, eram algo mais ético a se fazer.
Na realidade não me preocupava tanto com isso de ser moral ou não, mas até mesmo minha banalidade tinha seus limites. Ainda que tortos, eles estavam lá para me ajudar a decidir em que merda eu meteria meu dinheiro e recursos em seguida.
Nunca culparia por ter me largado no segundo em que percebeu que eu era problema. Só me lamentava que houvesse descoberto minha verdadeira face tão tarde, quando eu mesmo já estava perdido demais em seu ser para me desligar de sua existência no momento em que partisse.
Lance desceu pelas escadas até o andar da garagem, enquanto Petra permaneceu na minha cola, até sairmos da caixa de metal. Senti meu celular pessoal tocando e franzi a testa ao perceber de onde vinha a ligação.
- Espere no carro, quero estar fora daqui em cinco minutos. – Disse, afastando-me para atender a chamada.
- Quem fala é o Senhor Black? – Perguntou a voz feminina.
- Sim, é ele.
- Aqui é do Instituto Reminiscência, estou ligando para saber se estaria interessado a fazer uma doação novamente esse ano.
- O usual. E faça ser anônimo. – Repliquei, bruscamente.
- Tudo bem, Senhor Black. É a mesma conta que está acostumado a transferir. Obrigada mais uma vez pela colaboraç...
- Só mais uma coisa. – Cortei, apreensivo. – Pode me informar a condição da paciente 11.410?
- Senhor, já falamos sobre isso. Não posso simplesmente...
Revirei os olhos com seu pretenso bom caráter. Pessoas falsas me cansavam, por isso que me chamara atenção de imediato. Não é fácil de se encontrar pessoas autênticas, ainda mais aquelas que realmente sejam boas, sem esperar nada em troca.
- Seu extra será transferido para sua conta, como o habitual, Priscila. Agora que tal parar de desperdiçar o meu tempo e ir direto ao fodido do ponto?!
- Ela está estável. Nada em seu quadro mudou. Estou trocando as flores do quarto dela semanalmente como me instruiu.
- Sempre tulipas azuis? – Repliquei.
- Sim. Qual o significado delas, afinal?! Se me permite o atrevimento... – Indagou, cautelosa.
- Confiança e lealdade. – Murmurei, olhando para a poça no asfalto.
Meu reflexo me encarou de volta, com uma expressão enigmática e contemplativa.
- Qual sua relação com a...
Desliguei o telefone, ignorando a mulher. Rezava para que somente tivesse que entrar em contato com ela novamente no ano seguinte. Até mesmo sua voz me irritava. Não que naqueles últimos dias meu humor estivesse dos melhores.
Caminhei até o Land Rover, sentando no banco de trás e aguardando que o motorista levasse a mim, Lance e Petra até um de meus apartamentos. Durante o percurso, tudo o que eu podia fazer era observar a chuva. E por mais que estivesse perdido em minha mente, não pude evitar perceber o olhar preocupado que estava recebendo de Petra.
Ela mais do que ninguém, estava consciente da diferença de meu humor com e sem em minha vida. Mesmo antes de conhecer , eu já não era das pessoas mais simpáticas. Agora que sabia o que era estar apaixonado, sorrindo que nem um idiota por uma mísera mensagem de texto, querendo dar o mundo para uma única pessoa, e estando disposto a fazer qualquer coisa pelo bem de sua felicidade, ah, agora que eu estava um porre de conviver. Eu tinha consciência disso, mas não podia evitar os olhares atravessados e a carranca que carregava por aí.
Por mais que sua preocupação fosse tocante, naquele momento, só servia para me irritar. Para o azar de Petra, eu não estava me sentido muito tolerante quanto a qualquer coisa ultimamente. Então se não poderia berrar com a vida pelas circunstâncias que me impediam de estar com quem eu queria, descontei na mulher e em seu comportamento, por mais irracional que isso fosse.
- O que é, porra?!
- Nada. – Replicou, olhando para sua janela, sabendo melhor do que me dar mais razões para surtar.
- Ah, mas deve ser alguma coisa. Tem sangue na minha blusa, é isso? Respingou tripa no meu terno? Por que toda a hora que eu olho para o lado você já está me olhando. Então compartilhe conosco, Petra. Têm algo te incomodando?
- Não, chefe. – Replicou, arregalando os olhos.
- Então mantenha a PORRA dos seus olhos na MERDA da sua janela, CACETE!
A mulher não respondeu, mantendo-se virada para o vidro durante o resto do percurso. Lance se remexeu no banco do passageiro, mas não disse nada, nem mesmo se atreveu a olhar-me pelo retrovisor.
Descemos à porta do prédio e ambos me seguiram enquanto subia as escadinhas até o lobby do edifício. Despi-me de meu paletó, o jogando nos braços de Lance e dobrando as mangas de minha camisa branca. Meu alívio por estar em casa e me livrar daquelas roupas era palpável.
Andei pela recepção, passando direto, até o elevador ativado por digitais. Outros seguranças de minha folha de pagamento se espalhavam por cada canto do local, tornando o mais seguro possível para alguém como tantos inimigos quanto eu tinha.
- Senhor ! – Chamou o porteiro, correndo atrás de mim. – Espere! – Berrou, sendo solenemente ignorado, até a quarta vez que proferiu meu nome.
Congelei meus passos, virando-me preparado para agredir o filho da puta. Só de perceber meu olhar glacial, o homem se encolheu, engolindo em seco. Abriu e fechou as mãos em nervosismo, aguardando até que me aproximasse.
- Você é novo, não é? – Perguntou Lance, com a sobrancelha levantada.
O homem assentiu, com um sorriso amarelo que se assemelhava mais a uma careta apavorada. É, eu tendia a ter esse efeito nas pessoas. O olhar do novato subiu desde minhas vestimentas caras e formais, até minhas tatuagens que despontavam da camisa social branca, dobrada na altura do cotovelo.
- E então? Diga, flor, o que acha que vale meu tempo?! – Indaguei, inspirando fundo para não amassar aquela face ridícula no asfalto.
- Er.. Desculpe incomodar, mas é que...
- Diga logo, que porra você quer, homem?! - Inspirei fundo, impressionando-me com minha delicadeza. Tinha que ligar para a Doutora Hope e dizer as boas novas. Parece que eu estava progredindo no controle da raiva.
Ano retrasado, para começo de conversa, ele nem estaria vivo. Ano passado, meu punho teria tirado alguns dentes de sua boca. Então sim, aquela era uma tremenda de uma evolução. É o que sempre digo, benditos sejam os palavrões.
- Tem uma mulher aqui esperando pelo senhor desde ontem.
- ?! – Ouvi uma voz angelical chamar.


Capítulo 1


Desviei os olhos para a criatura mais bela que já caminhou pela terra. . Ela estava ali. estava no lobby de meu edifício. Oh deus, e se aproximando de mim. Vacilei, dando um passo para trás. Mas a mulher continuou a avançar, sem desviar seus olhos dos meus.
Absorvi a visão de seu corpo gole a gole. Era quase como se estivesse desidratado e não pudesse consumi-la por inteiro. Tinha que me concentrar em pequenas partes de seu corpo curvilíneo. Era como a imagem de uma Deusa, que me cegaria se eu - um mero mortal - ousasse olhar por tempo demais.
Seus braços passaram pelos meus, enquanto seu fitar intenso, mantinha meus olhos cativos como em um feitiço torturante e masoquista. Por que ela estava ali? Ela me deixaria de novo, eu sabia. E era o melhor que poderia fazer para seu próprio bem.
Se eu pensava que ficar sem era o pior que poderia acontecer eu estava errado. Vê-la novamente, tê-la tão perto, sabendo que não poderia tê-la... Aquilo era a maior dor que poderiam infligir a mim. E olha que eu era um homem muito familiarizado com o conceito.
E então seus braços envolveram minha cintura em um abraço apertado. Expirei todo o ar que nem mesmo sabia estar prendendo. Com seu corpo grudado em meu peito, tomei uma perigosa decisão. Se era para vê-la daquela forma, que a tivesse por inteiro uma vez mais. Aquela proximidade não era suficiente. Não quando eu sabia como era estar dentro dela ou como era boa a sensação de ter seu peito nu colado ao meu.
Beijei sua testa, e abri um meio sorriso que reservava especialmente para ela.
- Oi. – Sussurrei.
- Olá. – Replicou com um sorriso amplo. Certamente queria me matar com todas as sensações que estava despertando em meu peito e... Mais embaixo também.
- Oi. – Repeti, como um bobo, acariciando sua face.
- Peça logo desculpas ao homem para que possamos subir. – Ordenou ela, fazendo-me franzir as sobrancelhas.
- Para quem, linda?
- Para o porteiro, seu pateta. Já disse para parar de sair xingando os outros por aí! Você têm ido à Doutora Hope como combinamos? – Estreitou os olhos de forma fofa.
Sorri assentindo. Abracei-a lateralmente virando para o porteiro que nos encarava com uma careta engraçada. É, aquilo também era comum. Quando estava com acabava atraindo ainda mais atenção, mas não pelo medo de mim, e sim por estranhar meu comportamento.
- Foi mal aí, cara. – Abri um sorriso falso, dando um tapinha no ombro do homem. Aí sim que seu rosto pareceu ficar branco como papel.
Contive minha gargalhada até virarmos, recebendo um soco da mulher em meu ombro.
- Custava ter sido educado desde o início? O cara pareceu que estava mijando nas calças. – Disse séria.
Sorri para ela enquanto entrávamos no elevador. Petra e Lance, que sabiam por experiência que era melhor esperarem, ficaram para subir depois. Beijei o topo de sua cabeça, tentando disfarçar meu riso. tampouco conseguiu conter a gargalhada que brotou de seu peito, e cobriu seus olhos com as mãos. Provavelmente estava envergonhada de estar rindo do cara pelas costas. Esse sim era o caráter da mulher que eu amava.
Avancei, espalmando minha mão em sua cintura, descendo as mãos por sua bunda e chegando até suas pernas. deu um impulso e peguei-a no colo. Beijei-a, parando somente para colocar minha palma no leitor de digital. As portas do elevador descerraram para revelar meu apartamento na cobertura.
Dei um tapa em seu bumbum e a carreguei direto até o quarto. Com as bochechas coradas, a mulher ia cumprimentando cada empregado que encontrava. Até que chegamos ao quarto e ela escondeu a face em meu peito.
- Sempre me esqueço de que você têm mil seguranças e empregados.
- Se sente vergonha por que olha no olho de cada um deles? – Perguntei, dando de ombros e depositando-a na cama para que ela se despisse, enquanto retirava minhas roupas e guardava minha arma no cofre.
- Para cumprimenta-los! Isso pode te surpreender, mas eu sou educada, .
Gargalhei, balançando a cabeça. Tirei meu rolex, ficando completamente nu. Virei-me para , admirando seu corpo como veio ao mundo, estendido em minha cama. Assim como eu, a mulher era tremendamente segura de seu corpo, e aquilo excitava o inferno para fora de mim.
Não gostava de ter nenhuma peça de tecido impedindo meu acesso a suas partes mais íntimas. Beijei o canto de seus pés, e fiz meu caminho acima, até suas coxas, nunca desviando meus olhos dos dela.
Quando finalmente cheguei ao centro de seu prazer, observei – satisfeito – seu arquear, buscando alívio. Minha língua brincou por seus lábios até estarem inchados, e suas mãos puxando meu cabelo em agonia. Comecei a penetrá-la com meus dedos, um a um entrando e saindo de sua entrada molhada.
Ela se abria para mim como uma flor, despertando meus lados mais primais ao escutar seus gemidos e suas súplicas, até enfim, atingir seu clímax. Então, desmontou-se como uma boneca, sem forças. Arquejou enquanto eu colhia os frutos de seu prazer, tirando meu tempo para memorizar seu gosto em meus lábios.
Subi para beijar sua boca, grudando nossos peitos e nos girando para que ficasse em cima de mim. A mulher começou a beijar meu pescoço, parando para tentar esconder um bocejo. Congelei, puxando seu rosto.
- Olhe para mim, . – Supliquei, notando pela primeira vez as olheiras e o semblante cansado da mulher.
Ela abaixou sua cabeça para voltar a me beijar, mas a impedi, com meu meio sorriso especial. Balancei a cabeça, beijando sua testa e ajeitando as cobertas sobre nós dois. Depositei-a novamente deitada parcialmente em meu corpo e abracei-a.
- Durma, linda. Sei que está cansada.
Ela riu, bocejando novamente.
- Dá pra perceber as olheiras do tamanho do Canadá? É que eu tô aqui desde ontem. Onde você tava?
- No apartamento da Rua Maple. Tinha negócios ali perto.
- Hmm. – Ronronou, ajeitando-se em meu peito.
- , por que voltou? – Não pude me impedir de perguntar.
- Embora você tenha mentido para mim sobre exatamente com o que “trabalha”, tenha quebrado completamente minha confiança e tentado me afastar como pôde, principalmente com todas as suas viagens de negócios... Eu te amo, Blackwell. – Sussurrou, sorrindo com uma carinha sonolenta.
- Era melhor para você que não ficasse. – Murmurei, fazendo um muxoxo.
- Eu sei. Mas não consigo ficar longe de você.
- E você continua sendo meu sol. – Afirmei, ajeitando seu cabelo. – É por isso que eu evito chegar muito perto de seus raios de luz.
- Não adianta tentar me afastar. – Rebateu, determinada. – Não estou indo a lugar nenhum.
- Então eu queimarei com muito prazer, minha linda. Porque eu também te amo pra cacete.


Tão logo cessamos nossa conversa, caiu em um sono tranquilo. Não embarquei nele junto com ela, já que meu coração estava acelerado demais com a ideia de tê-la ali de novo.
Será que se eu fechasse os olhos ela sumiria mais uma vez? Eu não arriscaria. Se já era difícil pisca-los, para com o Diabo que eu os cerraria. De qualquer forma, não acredito que conseguiria desviar os olhos de sua face. Ela repousava como um anjo, mas provavelmente sem saber estar nos braços de um demônio.
Na verdade agora ela até tinha conhecimento desse fato, mas saber e entender o que isso implicava eram duas coisas completamente diferentes. Recordei-me do que sua irmã me dissera quando fora ao toalete após o jantar que engenhosamente promovera para que eu conhecesse a única integrante de sua família. Ao menos a única que dissera importar.

“Você tem que deixa-la.”


“Como assim? Sara, pensei que...”


“Você acha que me engana? Minha irmã é um amor de pessoa, mas pode ser muito boba. Eu vejo tudo através dessa sua fachada de santo. Quero que se afaste dela antes que...”


“Antes que o que?!”


“Antes que ela acabe se machucando.”



Estremeci com a lembrança da frase que me assombrou por meses a fio depois daquele jantar. Sabia que Sara estava certa. Com a vida que tinha, seria muito egoísmo permitir que afundasse junto a mim. A mulher tinha toda uma vida à sua frente, enquanto eu provavelmente morreria baleado antes mesmo de chegar aos trinta e cinco.
Mas se eu nem mesmo sabia se conseguiria me manter afastado dela se me permitisse, quem dirá obriga-la a me deixar. Eu só teria que tomar mais cuidado, mas não haveria forma alguma de deixa-la deslizar por meus dedos mais uma vez, a não ser que ela expressamente o desejasse. E pelo que a mulher mesma dissera, isso não aconteceria tão cedo.
Fiquei horas ouvindo sua respiração doce e tranquila, até que despertasse. Coçou seus olhos, encarando-me.
- Ok, pergunta numero um: por quanto tempo eu dormi? – Indagou, franzindo a testa. – E dois, você me observou esse tempo todo?
- Devem ter passado umas duas horas. E não , claro que não te encarei - Babei - enquanto dormia. – Revirei os olhos como se aquilo fosse um absurdo.
A mulher gargalhou, me dando um selinho. Ela tinha esse hábito muito irritante, por sinal de sempre saber quando eu estava mentindo. A surpresa que TENTEI fazer de nosso aniversário de um ano, escorreu pelo ralo com sua intuição infalível. Eu era como um livro aberto, que ela lia e relia a seu bel prazer, e aquilo me tirava do sério. Mas bem, todos tem defeitos, não é? Aquele claramente era o dela. Ninguém devia ser capaz de saber tanto sobre outra pessoa, certo?
Fora por isso que acabara descobrindo, por si só, que minhas atividades empresariais não eram tão lícitas quanto eu fazia parecer.
- Você me olhou si-im! – Cantarolou, fazendo-me mais uma vez revirar os olhos. – Cara, isso é muito esquisito. Acho que sua fase de Stalker está de volta, né?!
- Ei! Você não pode falar nada de mim, sua carente! Antes mesmo de começarmos a ficar juntos você já estava toda em cima de mim, admita!
- Aaah, pode até ser... Pô, foi mal também, por ter te seguido por aí e contratado um detetive particular para descobrir tudo sobre sua vida. Oh não! Espere, isso tudo foi você que fez, mesmo! – Brincou, erguendo-se e procurando pelo meu antigo moletom no armário.
- Mocinha, volte aqui! Onde pensa que vai?
- Ih, ta parecendo meu pai. – Fez uma careta. – E olha que eu nem tenho um.
- Bem, tem gente que gosta disso de Sugar Daddy, você sabe que estou aberto a experimentos, não é ?! – Pisquei, sabendo que ela coraria violentamente sob meu olhar sugestivo.
- Credo, vou só buscar uma água. Quer?
Balancei a cabeça em afirmativa.
- Quer que eu pegue para você? – Perguntei, sentando. Mas meu celular começou a tocar e ela deu de ombros, partindo para a cozinha, enquanto eu atendia.


- Ok, nos vemos daqui há algumas horas, Fibonacci. – Murmurei, observando entrar no quarto com um copo de água em uma de suas mãos, mas conseguindo contorcer seus braços de forma a cruzá-los.
- O que foi que eu fiz? – Perguntei, fitando sua postura. Só faltava estar batendo o pé de tão irritada.
- Tive uma conversa muito interessante com a Petra, na cozinha. – Replicou.
- Sobre o que?
- Suas atitudes, ! Vai ter que pedir desculpas para ela também! Já pensou se todo mundo saísse descontando suas frustrações pessoais uns nos outros? O mundo seria um caos.
Provavelmente aquele não era o melhor momento para informa-la de que o mundo já era assim e isso era exatamente o que as pessoas viviam fazendo. Porém, não consegui segurar um comentário sarcástico, pelo qual eu sabia que pagaria depois por tê-lo dito.
- Bem, por que eu não vou no rádio e peço desculpas ao mundo inteiro de uma vez, ? Por que se for assim, um por um, não vai dar!
Ela caminhou até mim com um meio sorriso, já menos irritado e despejou toda a água na minha cabeça. Depositou o copo na cômoda e beijou minha boca aberta em choque. Aquela mulher nunca deixava de me surpreender.
- Se eu não te amasse... – Sussurrei, rindo e recostando minha testa na sua.
- Não existe essa possibilidade. Eu sou um amor, o que tem para não gostar?! – Replicou, gargalhando.
- Você tá fodidamente certa.
- Olha a boca!
- Foi mal. – Disse, lançando lhe um sorriso espertinho. – Agora vem aqui senhorita, que temos assuntos inacabados.
- Ah, senhor Blackwell, pensei que nunca me chamaria. – Replicou montando em meu colo.
Se tinha uma coisa na vida que eu tinha certeza – e olha que estas eram raras, ainda mais para mim – era que eu era o bastardo mais sortudo da face da Terra por ter aquela mulher em meus braços... Ou sua bunda em minhas mãos enquanto me cavalgav... Ah, deu para entender. Melhor me ater somente à parte do amor, pois se fosse divagar quanto à parte da paixão, bem... Não quero que você goze, baby. Não ainda.


Capítulo 2


- Bugiardo! – Exclamei, em italiano para o Fibonacci.
- Signori Blackwell, juro que não estou mentindo! – Exclamou, gargalhando e tomando mais um gole de seu uísque.
Estávamos discutindo negócios no bar do hotel ao lado de meu prédio. Fibonacci fazia parte da fração legítima de minha empresa, então não me importei muito de estar tão próximo ao edifício em que, naquele exato momento, descansava. Se fosse alguém do Cartel de Drogas a situação seria completamente diferente. Não poderia arriscar que me seguissem até ela. Uma vez que nossa conexão fosse descoberta, estaria tudo acabado.
- Como estão as vendas?
- Voando, mio amico!
- E que continuem dessa forma. – Levantei o copo, para um último brinde antes de retornar para o anjo que estava em minha cama.
- Brindiamo!
- Terá que me desculpar, Fibo, mas tenho outro compromisso agora.
- Vai a cagare! Não acredito, Blackwell!
- Adeus, farabutto! – Xinguei, gargalhando e caminhando de volta para o hotel, escoltado por Petra.
Quando penetramos o elevador de meu prédio, aproveitei para cumprir a promessa que fizera a .
- Desculpe... Por ter sido grosso com você.
- Ah... Não tem problema, chefe. – Assentiu.
Ficamos uns segundos em silêncio até que ela o quebrasse, subitamente.
- Isso é coisa da , não é?
Ambos gargalhamos, enquanto eu assentia.
- Ela é muito especial, chefe. Não a deixe escapar. – Disse, mordendo o lábio, como se estivesse incerta se havia se excedido em suas recomendações.
- Não pretendo. – Comentei, com um leve virar de lábios para cima. Quis que soubesse que não tinha problema, e ela pareceu entender a mensagem.
- Onde está Lance? Ele que me escoltou até o Hotel Hilton, não foi? Ou já estou ficando gagá?
- Ah, isso. Ele pediu para que eu o substituísse por algum motivo. – Replicou franzindo a testa, e deu de ombros. – Acho que sua filha ficou doente ou algo assim.
- Ele tem filha? – Perguntei, surpreso.
- Sim Senhor, há doze anos. – Riu, balançando a cabeça. Talvez esteja certa... Tenho que começar a prestar mais atenção em minha equipe.
Quando as portas do elevador se abriram, dei de cara com um Lance nervoso demais para o meu gosto.
- Fale.
- É a , senhor. Ela... Ela deve ter saído daqui apressada. Mais cedo ouvimos berros, parecia ter recebido uma ligação que a deixou um pouco perturbada. Depois, simplesmente sumiu.
- COMO ASSIM SIMPLESMENTE SAIU, PORRA?! É brincadeira, não é?
- Temo que não. Estávamos tão preocupados com ameaças de fora que não percebemos quando ela escapou.
- Ok. – Disse, franzindo a testa e me encaminhando direto para o quarto. Petra parecia querer me dizer algo, porém, desistiu, entendendo que naquele momento – mais do que tudo – seria inútil.
Liguei umas vezes para o celular da mulher, a xingando mentalmente por ter o hábito de demorar tanto para atender. Passei a tarde apreensivo, tendo que me segurar para não colocar todos os meus seguranças de confiança atrás dela. Eu já o havia feito antes, mas ela havia me dado uma bronca tão grande depois que me fazia pensar duas vezes antes de usar essa cartada novamente.
Se ela não entrasse em contato até a noite do dia seguinte eu estaria colocando deus e o mundo atrás dela. Ao menos quando me deixara, eu sabia que estava bem, mas simplesmente sumir assim... Nem mesmo fazia seu estilo. Algo não estava se encaixando e minha apreensão somente crescia.
Não consegui pregar o olho naquela noite, mas ao contrário de quando tinha em meus braços, as horas pareceram se arrastar em um ritmo dolorosamente lento, me levando a questionar se eu estava sendo mesmo muito paranoico, ou se algo havia acontecido e eu estava perdendo meu maldito tempo com conjecturas.
Por esse motivo que quando recebi uma mensagem sua na manhã seguinte, eu quase saltitei para fora do quarto. Ela estava bem, comentou algo sobre uma emergência com sua irmã que me explicaria de noite.
- Bom dia. – Cumprimentei minha equipe, recebendo vários sorrisos amarelos e encaradas surpresas em resposta.
Eu e meus guardas nos encaminhamos para o Bunker onde eu concentrava a maior parte dos negócios ilegais. E conduzi as transações como o usual, talvez com um humor um pouco mais leve. Mas continuei sendo tratado da mesma forma pelos fornecedores, já que eu era conhecido pela volatilidade. Ninguém queria me ver irritado. A coisa não ficava nada bonita quando eu chegava nesse ponto.
Assobiei durante minhas primeiras reuniões do dia, todas com membros de gangues ou pessoas mais barra pesada, responsáveis pela compra, venda e distribuição de armas, que eram as principais fontes de lucro que eu possuía.
Agora, já à tardinha, conversava tranquilamente com a última em minha agenda.
- Chefe, desculpe interromper, mas tem correspondência para você.
- Se forem as novas peças de nosso esquema de remontagem, eu verei isso depois.
- Oh, entrou para o ramo automotivo, ? - Perguntou Eloise com ironia. Estava em minha reunião mensal com a mulher, mas poderia ser algo urgente.
- Não, não tem identificação. - Replicou.
Suspirei, acenando para o homem se aproximar, e pousando meu copo de uísque na mesa de mogno do escritório. Observei o pacote sem nenhum tipo de identificação com certa cautela.
- Já passou pelo Raio X e aquelas porras de testes todos?
- Sim senhor, já foi analisado por nossa equipe anti-bomba, anti-radioatividade e anti-bioarmas.
Assenti, pensativo.
- Eloise, se importa de remarcarmos? - Perguntei, ainda analisando a pequena caixa com curiosidade.
- Claro que não, Blackwell. - Replicou a morena, revirando os olhos e soltando uma última provocação antes de sair da sala. - Não é como se minha empresa estivesse perdendo trezentos mil dólares a cada uma “remarcação” dessas suas.
Gargalhei, com a tirada sarcástica de minha amiga antiga. Negociações eram seu forte, e sua empresa era top de linha. Eu podia estar achando engraçado, mas ela tinha mesmo razão sobre o dinheiro.
- Rorik, peça para Julliet colocar Eloise na lista de urgência.


[N/A: *Coloque essa música para tocar*]



O brutamontes assentiu, deixando-me sozinho na sala com o pacote. Saquei meu canivete, abrindo a pequena caixa de papelão. Um arrepio percorreu minha espinha, deixando os pelos de minha pele eriçados. Algo ali não parecia certo.
Meu bom humor foi se desvanecendo aos poucos, pondo-me mais focado no pacote à minha frente. Vamos raciocinar: quando é que receber algo sem identificação já funcionara bem? Ainda mais para um criminoso como eu. Por mais que minha equipe houvesse analisado o exterior, não havia como prever seu conteúdo sem que a abrisse.
Embrulhado pelo papelão, havia uma adorável caixinha de música, no formato de um porta-joias. Aquilo me lembrava de minha viagem a Paris, onde havia um desses para vender a cada esquina. Os franceses tinham gostos peculiares.
Examinei o dispositivo, trazendo-o para perto de meus olhos. A riqueza de detalhes era impressionante. Haviam belas e intrincadas vinhas e flores talhadas por toda a superfície da madeira envernizada. E me peguei admirando o trabalho artesanal por uns segundos antes de balançar a cabeça, me perguntando exatamente que merda era aquela.
Parei, porém, no meio do trajeto até meus olhos ao escutar um tilintar esquisito, que me levou a decidir ver o que havia em seu interior, de imediato.
Nada me preparara para a apreensão que eu passaria a sentir - por meses a fio - após os eventos que se desenrolariam com a abertura daquela fodida caixa. Mas a vida nunca espera que estejamos prontos para o que está para acontecer. Quase cheguei a querer nunca a haver aberto. Desejei manter-me no refúgio e na proteção da doce e cega ignorância.
De imediato, uma versão dissonante da canção La Vie En Rose começou a soar, e o que vi ali dentro me fez largar a caixinha imediatamente. As engrenagens não pararam de tocar a música, fazendo meu corpo gelar com a concretização de meu maior pesadelo.
No meio do dispositivo, naquele pequeno espaço, em meio às engrenagens estava o colar com relicário que eu dera à no ano anterior.
Pensamentos voavam pela minha mente com diversos questionamentos, dúvidas e culpa. Eu deveria ter escutado meus instintos, mas que merda. O que eu diria para Sara? Ela estava certa sobre mim, me alertara, mas mesmo assim, me mantive próximo à , expondo-a ao perigo e talvez a tendo perdido para sempre.
O relicário fora dado como presente para que nunca me esquecesse, o que era irônico, já que fora isso a ser mandado a mim. Porém, o espaço de onde antes despontava uma foto nossa, estava arrebentado e agora, havia uma imagem solta, em substituição. Era uma foto marcada por espirros de sangue, que eu tinha certeza ser humano, da mulher que eu amava. Havia uma uma fita em sua boca e lágrimas escorriam por sua linda face ensanguentada.
O que eu mais temia, que vivia assombrando meus pesadelos, realmente acontecera. Sim, mesmo o bicho papão tem pesadelos, e perder se encontrava no topo deles.
Haviam a sequestrado e tudo aquilo era culpa minha. Balancei a cabeça em agonia, pegando o pendente em minhas mãos, tremendo. A foto deslizou para fora do espaço, manchando minha mesa de sangue ao cair do lado oposto da imagem.

Você vai pagar Blackwell. Vamos ver como reage a perder o que mais preza.
Nunca mais verá sua doce, .

Frustrado, peguei meu copo de uísque e o arremessei na parede oposta, chamando a atenção de meus guardas. Eu tinha que fazer algo imediatamente para recuperá-la.
Somente aquilo me manteria são naquele momento. A ideia de resgatá-la era tanto meu consolo quanto minha maior esperança, então me agarrei a ela como uma tábua salva-vidas. O merdinha que teve essa brilhante ideia iria pagar por isso. Ele experimentaria a força total de meu lado mais negro e distorcido, e eu iria apreciar cada momento assim que tivesse minhas mãos em volta de seu pescoço. E o mais importante, eu teria em meus braços novamente. Nem que fosse pela última vez.


Capítulo 3


- Isso não é nada bom... - Repetiu, Lexi, e pela décima vez consecutiva, devo acrescentar. - Desculpe, Blackwell, mas não tenho boas notícias.
- Diga logo. - Resmunguei impaciente. Não gostava de ser grosso com minha equipe, por mais que acabasse acontecendo de qualquer forma. Mas porra, fazia um mês que a mulher mais importante para mim no mundo, ou uma delas, estava sequestrada e parecia que ninguém na face da terra sabia qualquer merda sobre seu sumiço. - Não vai ser a primeira má notícia dessa semana. Diabos, até do mês inteiro! – Completei, sentindo-me miserável. Estava na hora de minha dose de álcool. Parecia que a do café da manhã já estava perdendo seu efeito e saindo de meu sistema.
- Ele somente te contatou uma vez. Nem na primeira mensagem marcada na foto e nem na ligação telefônica que recebeu na segunda semana de sequestro “ele ou ela” fizeram demandas. Ao menos não consegui detectar nenhuma, nem que fosse implícita ao analisar a matriz do termo...
- O que está me dizendo?! Vá direto ao ponto, cacete!
- “Ele ou ela” não querem nada do Senhor, “ele ou ela” só...
- Não querem meu dinheiro?! O que querem de mim, afinal?!
- Pelo padrão das mensagens que recebeu, combinado com o que lhe foi dito na ligação, chefe, creio que o maldito que sequestrou seja alguém que guarda mágoas pessoais em relação a você.
- Então provavelmente não tem tanto a ver com negócios. – Completou Petra, arregalando os olhos e ligando para o time de resgate que eu montara. Sara contatara a polícia, então eu estava coberto quanto a isso ao menos. Não que eu esperasse que os malditos descobrissem algo, se nem mesmo os mais inteligentes e corrompidos de cada área, que eu recrutara estavam chegando a algum lugar.
- Exatamente. – Concordou, Lexi, mordendo seu lábio.
- Pode falar, Lexi. – Repliquei, inspirando fundo. – Me desculpe. Sei que só está tentando ajudar.
- Eu entendo, chefe. – Disse, assentindo com um meio sorriso. – É só que... Esse não é um sequestro comum. Não temos as garantias de que ele a manterá viva porque não pediu nada em troca. Então o prazo que isso se prolongará vai depender unicamente de quanto tempo o sequestrador vai querer fazê-lo sofrer.
Assenti, precisando sair dali o mais rápido possível, antes que fizesse alguma besteira. Retirei-me do escritório rapidamente caminhando em direção a meu quarto. Ao chegar lá, mirei a cama impecável, por alguns segundos. Não me recordava qual fora a última vez que havia dormido. Mas sim a última vez que deitara naquele local, que fora com . Quando ela ainda estava segura.
Entrei no banheiro, lavando meu rosto com água gelada, tentando focar-me no que realmente importava, que era encontra-la. Porém, parei minha saída dali ao captar a imagem de meu rosto. Eu parecia haver envelhecido, não dias, mas vários anos. Minha barba estava começando a pinicar em meu rosto e meus olhos vermelhos e inchados indicavam a falta de descanso.
- Porra. – Murmurei, sentindo meus olhos ficarem molhados. - Porra! - Repeti, dessa vez irado, pensando no que diria se estivesse ali.
Abaixei a cabeça, envergonhado demais para encarar meu próprio reflexo. Provavelmente a mulher estaria me atirando no banho e brincando com algo do tipo “vou ter que te levar para um pet shop para um tosa” ou “olha, não foi para ficar com essa casca de homem, que eu me apaixonei, não”.
- Cacete. – Levantei a cabeça, não aguentando mais olhar para o homem acabado que me encarava de volta. Soquei o espelho, sentindo uma dor – doce e convidativa - assolar meu punho. Repeti o gesto buscando por mais e mais da punição que eu sabia que merecia. Que tipo de incompetente eu era que não conseguia encontrar ?!
Se eu já pensava que iria para o inferno por todos os meus pecados, agora me considerava o próprio diabo encarnado. Somente possuía uma coisa boa, pura e imaculada em minha vida, mas o que eu fiz?! Por minha causa ela carregaria cicatrizes que para sempre teria que carregar. E eu sinceramente esperava que a maioria fosse física, por mais deturpado que isso possa parecer. Por que enquanto a pele se renova, tecidos se regeneram e hematomas saram, danos psicológicos podiam acompanhar uma pessoa pelo resto de sua vida.
Jesus, o que foi que eu causei?!
Com os punhos sangrando, fui até o frigobar, xingando com a falta de uísque. Caminhei até a cozinha, sem me importar com o sangue que escorria de meu braço, deixando um rastro de respingos escarlate por onde eu passava.
- Me passa um copo, Petra. – Resmunguei, tentando alcançar uma garrafa da bebida que tanto desejava no fundo da adega.
- Senhor Blackwell! O que aconteceu? – Exclamou, olhando para minha mão em frangalhos.
- Ah isso? – Perguntei, tomando um gole da própria boca da garrafa, sem esperar pelo maldito copo que a lenta ainda nem havia começado a buscar. – Nada demais, a pessoa que eu mais amo no mundo foi sequestrada e ninguém parece fazer a PORRA de uma FODIDA ideia de onde DIABOS ela está! Foi isso que aconteceu, caralho! Agora faça a merda de seu trabalho e volte para onde sei lá que vocês ficam fazendo porra nenhuma enquanto a provavelmente apodrece em uma cova.
Petra se aproximou de mim, me surpreendendo tanto, que quase tropecei em meus próprios pés.
- Senhor, a não está aqui no momento, mas sabe o que ela diria para você se estivesse?
- Como se atrev...
- Nu-uh. – Cortou, com o olhar duro, arrancando a garrafa de uísque de minha mão e jogando seu conteúdo dentro da pia. – Minha vez de falar e o senhor vai escutar e bem calado sim!
Assenti, mais surpreso do que qualquer outra coisa, mas fiquei calado como pediu.
- Dá para o senhor crescer algumas bolas e juntar suas merdas? Sei que está em frangalhos, todo mundo entende isso aqui. O senhor está fazendo muito pela , montou um time muito bom, que só quer ajudar e está trabalhando sem parar durante todo esse mês para descobrir o que aconteceu. E apesar de terem que ouvir insultos do senhor todo santo dia, ninguém foi embora, por que acreditam que alguma hora você vai voltar a ser você mesmo e tomar as rédeas da situação. Isso sim é o mínimo que pode fazer pela ... – Limpou a garganta. – Chef.. Senhor. – Completou, parecendo só então se dar conta de metade das coisas que dissera a seu patrão.
- Você está me devendo uma porra de um uísque, Petra! – Resmunguei, observando sua face cair em desapontamento. – Mas pode entrega-la para mim depois que encontrarmos . – Completei, lançando lhe um meio sorriso agradecido. Eu estava precisando de um discurso daqueles.
- Eu lhe darei uma no momento em que nossa menina estiver em casa, senhor! – Suspirou emocionada. – Agora vamos cuidar dessa mão.
Fiz uma careta olhando para a pele rompida e um dos ossos expostos.
- Chame a equipe médica.
- Eles já estão aqui, senhor. – Replicou, corando. – Depois de sua overdose na semana retrasada eu pensei que fosse melhor...
Cocei minha nuca, assentindo. Cristo, eu tinha muito a agradecer àquela mulher. Mas deixaria as bonificações e os obrigados para quando meu anjo estivesse de volta em meus braços.
- E depois de cuidar disso vamos direto para a sala de controle. Preciso ter uma conversa com a equipe.
A mulher assentiu, com um meio sorriso contido.
- Sim chefe! Os notificarei imediatamente.
- E Petra... – Murmurei, segurando seu braço levemente. – Obrigada. – Falei, com tanto significado que a mulher sentiu a confiança de fazer algo que nunca antes tentara. Me dera um rápido abraço apertado e sumira cozinha afora para cumprir minhas ordens, enquanto a equipe que havia chegado tão logo ela saíra cuidava de meu ferimento.



Um Mês Depois



Corri para a sala de controle, indicando para a especialista de computação que estava recebendo mais uma ligação. O rastreamento de sinal ainda não fora bem sucedido, mas não custava tentar mais uma vez.
- Ela ainda está viva? - Perguntei, com um tom assassino.
- Não por muito tempo, você não sabe jogar, o que deixa tudo fácil demais para mim e isso me deixa muito entediado.
- Ah, florzinha, quer que eu te entretenha?! - Enrolei, indicando para andarem logo com a triangulação de sinal. Eu sabia que não tinha muito tempo.
- Seu sofrimento era lindo de se ver, mas você está parecendo tão bem… Até fez a barba, pelo que eu soube.
- Qual a porra do seu problema, seu doente?! - Praguejei, revirando os olhos. - Vamos fazer assim… Que tal você vir me ver mais de perto? Só eu e você? - Indaguei, ignorando os gestos negativos de Petra a meu lado.
- Até mais, Blackwell. - Gargalhou, desligando.
- Conseguiram? - Perguntei, levantando a sobrancelha.
- Que diabos, ! Se você pensa que vou deixar o senhor encontrar aquele filho da puta sozinho, está redondamente enganado! - Exclamou Petra me olhando feio.
Ignorei o puxão de orelha e olhei para a tela do computador de Lola, uma das contratadas do time de computação. Aquela quantidade de nerds no meu apartamento estava me dando nos nervos. Se não encontrássemos logo eu iria atirar em algum deles e em seus malditos aparelhos eletrônicos que apitavam o dia inteiro.
- Chefe, infelizmente não conseguimos antes que ele desligasse, mas estamos tentando pelo GPS, mais uma vez. Mas somente poderá dar certo se ele não quebrar o celular desta vez. Temos que rezar para que ele cometa um erro.
Esperei andando de um lado para o outro, prestes a me descabelar, pelo que pareceram eras.
- Tá indo? Vamos logo com isso, meninas. Por favor! – Supliquei, em agonia.
-Um minuto… - Sussurrou Lola, digitando algo em seu computador e recebendo algumas orientações de Lexi. – Aaaa SIM! Temos uma localização!
- Mas será que ele ainda está lá? – Tentei conter minha animação e otimismo.
- Seria muito arriscado movê-la. Além do mais, só há uma forma de descobrir.
Sorri tão amplamente que quase distendi meus lábios, se é que isso era possível.
- Mande uma equipe, agora! - Virei-me para Petra, que já falava em seu comunicador antes mesmo de conseguir terminar a frase.
Uma hora depois, e após mais um beco sem saída, recebi outra ligação.
- Duas em um dia só, seu fudido?! Não me deixa nem sentir saudades. Nunca ouviu que a distância aumenta o amor?!
- Muito bem, . Está começando a jogar o jogo. Confesso que foi muito interessante vê-lo todo esperançoso, apesar de extremamente previsível. - Gargalhou. - Achava mesmo que seria tão fácil me encontrar? - Bufou. –Aprenda, . Se eu não destruí o celular descartável é claro que tive um motivo. Qualquer coisa que você pense que sabe... Eu estou três passos à sua frente.
Minha agonia me fazia querer tacar o celular do outro lado da sala, mas nem precisaria fazê-lo, já que o segurava com tanta força que ele parecia prestes a desfazer-se em minhas mãos.
- Tenho uma dura realidade para você aceitar. Nunca mais verá sua preciosa . Mas talvez eu o deixe ouvir seus gritos ocasionalmente.
O alterador de voz até vibrou com a força da risada irônica que ele soltara.
- Ah é?! – Bufei, perdendo a paciência para lidar com aquele merdinha. - Foda-se. - Disse, desligando eu mesmo a porra do telefone. - Ele quer que eu jogue, então vamos jogar seu joguinho, mas dessa vez em meus termos.


Capítulo 4



Uma Semana Depois

- Diga, Dana, para o que estou olhando?
- Chefe, durante esta noite descobrimos algo interessante. Algumas mensagens deixam um rastro eletrônico, certo?
- Certo… - Disse, continuando a entender bulhufas do que exatamente que aparecia na tela de seu computador era tão animador assim. Se não era que eu estava vendo ou um x em um mapa, para mim não houve progresso algum.
- Por esse motivo que ele ou ela nunca mandaram mensagens de computador, por exemplo, assim não conseguimos rastrear o endereço IP. Isso é literalmente como a localização do dispositivo eletrônico, que têm uma espécie de CPF, como se diferenciasse qual é qual. Somente temos recebido ligações inúteis para a triangulação do local onde esperamos que ele a esteja mantendo. – Continuou Lexi, sorrindo para Dana.
- Mas estivemos olhando para isso tudo de forma errada. Houve sim uma vez em que o sequestrador deixou uma mensagem. – Completou Lola.
- Qual? – Indaguei, perdido com as três "crânios" daquela sala.
- Sadie deixou uma mensagem um dia antes que recebesse um pacote, não foi senhor?!
- Estivemos trabalhando esse tempo todo com um timing errado, como se houvesse sido raptada depois de sua fuga daqui.
- Preste muita atenção no que dirá agora. – Murmurei com seriedade. - Está me dizendo que temos uma falha de segurança? É isso que está dizendo?!
- Sim, senhor. Então resolvemos analisar uma vez mais as imagens das câmeras de segurança à época do sumiço de e encontramos algo revelador.
- Temos um rosto? - Perguntei esperançoso, mas já sabendo que não era provável. Se tivéssemos, nem estaríamos tendo aquela conversa.
- Não, senhor. Não temos nada, as fitas sumiram, e isso sugere que temos um infiltrado. Alguém que ainda está aqui circulando ou é ele ou o está ajudando.
- E se mantendo mais próximo para ver de perto o meu sofrimento. Que inferno! - Ri seco, apertando a ponte de meu nariz com uma monstruosa de uma dor de cabeça. - Isso bate com tudo o que ele me disse até agora. Sempre me perguntei como ele sabia de certas coisas, mas imaginava que estivesse vendo tudo através de câmeras ou ouvindo através de escutas.
- Por isso ordenou a varredura eletrônica, não foi?!
- Exato. Merda, como não pensamos nisso antes…
- Mesmo não sendo o infiltrado, ninguém gosta de ser alvo de suspeitas, por isso ninguém iria sugeri-lo. – Replicou Lola. – Apontar dedos é muito fácil. – Continuou, comendo de seu saquinho de balas.
- Então essa foi a “grande descoberta”?! – Murmurei, cético.
- Na verdade, não. – Sorriu Lexi, roubando algumas balinhas de Lola. – O seu sistema de segurança é de ponta, e um pouco diferente dos mais comuns no mercado. Para um apartamento, pelo menos. – Gargalhou.
- Então resolvemos ligar para o técnico responsável pela instalação. Um cara muito simpático que atende pelo nome de Thomas.
- A questão é que seu sistema de câmeras tem uma peculiaridade. Ele foi instalado como se fosse vigilância de empresa. – Disse Dana. - O que significa que...
- O infiltrado apagou as gravações do servidor local, mas não contava com que o sistema fizesse back up em nuvem! Então podemos conseguir as imagens com a central, somente solicitando fitas de contingência que estão guardadas no provedor! – Completou Lexi.
- As empresas costumam ter esse sistema de cópia de segurança fora de seus próprios servidores. E para nós isso caiu com uma luva. Parabéns, . Seus hábitos extravagantes salvaram . – Disse Lola.
- Aí sim, caralho! – Sorri, envolvendo as três gêniazinhas em um esquisito e inesperado abraço grupal. – Já fez o pedido?
- Sim senhor, e demos muita sorte, as informações tem um tempo de expiração para que os dados sejam renovados. Estava quase sendo deletado automaticamente do sistema. Mas já fiz a solicitação e não deve demorar muito. É possível decidir rapidamente o que irá ser restaurado uma vez que nossos dados estarão em um dashboard central.
- Legal, mas o que isso significa na minha língua?
As três riram com o leigo da sala, vulgo eu e meu olhar perdido, que pulava entre cada uma que nem uma bola de ping pong.
- Significa que o fornecedor do serviço na net, vulgo provedor, está guardando nossas fitas pelo tempo em que foi contratado, que graças aos céus não foi muito curto. Dashboard é como se fosse um quadro com acompanhamento, tipo o tamanho do backup, quantidade de dados atualizados, uso de disco, memoria, CPU...
Fiz cara de quem estava entendendo e aguardei pacientemente – ou ao menos foi o que tentei aparentar, sem muito sucesso. Acredito que foram os cliques frenéticos na caneta que eu roubara da mesa de Lola que me deduraram. Ou foi isso ou elas pensaram que eu tinha TOC.
Plim! Soou o notebook de Dana, levando a nós quatro nos aglomerar ao redor da tela. A fita do dia fatídico demorou um pouco a carregar, me fazendo querer socar a tela. iria me assassinar quando soubesse que não tenho ido à Doutora Hope. Ela teria bastante trabalho quando eu retornasse às sessões, disso não tenho dúvid...
Minha atenção foi desviada de volta para tela, quando o vídeo começou a se desenrolar. Pedi para Dana acelerar até o momento de minha saída, quando fui tratar de negócios com Fibonacci. Primeiro havia conversando com alguns funcionários na cozinha. Depois, desapareceu pelo corredor ao entrar em meu quarto. E foi aí, que algumas horas depois, uma pessoa entrou atrás dela.
- Cristo! – Falei, mordendo meu punho em nervosismo e fúria. Na real, mais a parte da fúria mesmo.
- E agora? – Perguntou, Lexi, chocada. – Prendemos, ou o que?
- Não merece nenhuma forma de perdão, certamente. – Replicou Dana, balançando a cabeça em negação.
- Não. – Cortei, definitivo. – Não prenderemos, torturaremos, mataremos, esquartejaremos, esfaquearemos... Vocês entenderam. – Dei de ombros, me deixando vagar pelas diversas opções em meu “menu da punição”. - Usaremos isso ao nosso favor. E eu sei o que podemos fazer para pegar o culpado. - Murmurei, sentindo uma ideia se formar em minha mente.
- Só dizer o que precisa que façamos. – Sussurrou Lexi, com um assentir de concordância das demais.


Uma Hora Depois

- Quero uma lista com os nomes de exatamente quem fez parte de minha escolta nos últimos meses. – Pedi a Dana.
- Mas Senhor, são muitos guardas, o que podemos fazer para reduzir o número de suspeitos? – Rebateu.
- Retire de imediato Petra e Lance, eles estavam comigo quando foi sequestrada. – Estalei a língua, assustando alguns dos guardas que passavam por ali, curiosos com toda aquela agitação na sala de controle.
- E podemos ver quem estava de plantão na noite em que as câmeras de segurança foram adulteradas. - Acrescentou Lola, aproximando-se e apontando para a tela do computador de Lexi.
- Isso nos deixa com cinco suspeitos, o que ainda é um número alto. – Disse Dana. – Mas suponho que seja um começo. – Deu de ombros.
Caminhei até a sala dos seguranças e chamei a Lance e a Petra com um aceno.
- Não vou mascarar isso para vocês dois. Prestem atenção, acredito que tenhamos um infiltrado.
- O que?!
- Chefe, eu juro que...
- Por Deus... – Repreendi, puxando-lhes para um canto mais reservado. – Eu sei que não são vocês. Por que estaria falando se eu não acreditasse nos dois?! – Indaguei revirando os olhos teatralmente.
- Preciso que vocês dois tirem uma folga, ok? Irei fazer o circo pegar fogo e preciso de vocês longe daqui quando isso acontecer.
Ambos assentiram, Petra engoliu em seco, sabendo a o que eu me referia exatamente com “fazer o circo pegar fogo”. Anos atrás tivemos esse mesmo problema, e digamos que a sujeira foi tanta que tive que trocar todo o carpete do apartamento em Boston.
Caminhei de volta para a central tecnológica, vulgo uma sala de meu apartamento, que antes era usada para armazenamento de coisas aleatórias.
- Já falaram com eles? – Perguntei às meninas.
- Sim, já estão se aparamentando. – Disse Dana, com um meio sorriso.
Assenti, correndo para a sala de operações táticas. Iria me aparamentar e acompanhar o time de atiradores. O infiltrado nos levaria diretamente até onde seu comparsa estava mantendo .
Coloquei um colete à prova de balas e peguei do bolso de minha calça o cordão que uma vez pertencera à . Aquele era o objeto que me fizera perceber que a mulher fora sequestrada. A sensação de segurá-lo em minhas mãos, sujo de sangue, deveria me trazer uma sensação de repeli-lo. Porém, a situação era tal que aquilo era tudo o que me sobrara de . A última coisa que tivera contato com ela.
Além disso, eu não conseguia parar o fluxo de memórias do pendente em seu pescoço em diversas ocasiões, mesmo enquanto fazíamos amor e estavamos completamente nus. A partir do momento que eu lhe dera o objeto, a mulher o usara sem parar. Mesmo quando me deixara, ela o levara consigo.
E entrando na van que seguiria o infiltrado até seu covil, tive a realização de que talvez, só talvez, esse fosse o motivo de ter conseguido respirar sem . Por que que outra explicação teria, para continuar existindo quando esta me repeliu?!
Ao descobrir o que eu realmente era, mesmo em seu choque e tendo como seu primeiro instinto fugir, ela nunca me tirara completamente de sua vida. Eu ainda existia ali, talvez em seu coração, no cantinho de sua mente ou somente em sua memória. Nosso tempo juntos era uma pequena peça no quebra cabeça de sua vida, mas que sem ela, sua história não estaria completa.
Perdido em pensamentos, quase não percebi quando a van parou em frente a um prédio abandonado. Era mais perto de meu apartamento do que eu esperava. Meu coração parou por um segundo, para depois acelerar-se com minha raiva crescente. Eu estivera sem dormir, por noites preocupado com , me perguntando se algum dia a veria de novo, quebrando minha cabeça com enigmas mal acabados, e ela estivera ali o tempo todo.
O traidor me vira perdendo o controle. Tendo uma overdose. Retomando o controle. Perseguindo pistas falsas durante semanas. E durante todo esse tempo estivera do meu lado, como se me apoiasse, como se fizesse parte de meu time. O traidor me surpreendera e magoara mais do que eu pudera prever. Ou melhor, traidora. Porque a pessoa que mentira para mim, provavelmente durante anos, que me motivara com maus motivos, aquela pessoa fora Petra.
Com o abrir da porta, uma multidão de homens e mulheres com rifles invadiram o edifício acabado. Eu estava entre eles, e não me preocupei em parar para atirar nos soldados que encontramos no caminho. Agora os poucos que arriscaram entrar em meu caminho foram sacrificados sem ter nem tempo para dizer um “a” que fosse.
E foi então que alcançamos o interior do prédio, e assim que avistei um armazém, gesticulei com a arma para que alguns dos atiradores que contratara me acompanhassem. Um deles fez um sinal para que o restante aguardasse enquanto ele avaliava o perigo, porém, ignorei-o e penetrei o ambiente, instintivamente apontando a arma para Petra.
- Se atirar eu mato ela. – Disse, com um tom seco.
- Ah, Petra... – Balancei a cabeça dando uma risada sarcástica. – Você acha mesmo que quando eu te matar vai ser tão rápido? Você me conhece, não é? Já me viu irritado, não foi? Talvez até tenha me visto com raiva. Mas a fúria que sinto agora? – Abri um meio sorriso frio. – Essa eu guardei só para você. Nem mesmo eu sei que maravilhas ela vai me trazer. Bom para mim. Péssimo para você. – Cantarolei.
- Acha que tenho medo de você, Blackwell? – Perguntou, com uma gota de suor escorrendo por sua testa.
- bem sabe, sou um homem aberto a nova experiências. Não é querida?! – Indaguei retoricamente, sem desviar o olhar de Petra. - Mas enquanto ficou com o prazer, bem... Parece que para você sobrou somente a dor, Petra. – Dei de ombros, ganhando mais e mais confiança com o nervosismo que a traidora começara a demonstrar.
Evitei olhar para o estado de , pois sabia que assim que olhasse em seus olhos, que sabia estarem buscando os meus naquele momento, estaria perdido e não teria a capacidade de fazer o que era preciso.
Ouvi um barulho atrás de onde Petra estava, perto de uma porta e dela adentrou um homem no recinto, arregalando os olhos, mas devagar demais em sacar sua arma. Mal percebera minha presença antes de ir ao chão, sangrando pelo impacto da bala.
Petra arfou, surpresa, e confesso que senti um pouco mais de prazer com sua dor do que a Doutora Hope aprovaria. Não que ela fosse aprovar nada do que eu fizera ali ou estava prometendo fazer à Petra. Odiava que tivesse que me ver daquela forma. Eu deveria estar como um monstro a seus olhos. Não que antes eu fosse um anjo, mas ela saber que eu tinha um animal do submundo, sedento por sangue, dentro de mim e vê-lo se manifestar eram duas coisas completamente diferentes.
- Eu te disse para não atirar! – Disse ela, alheia aos homens armados que penetravam o recinto da mesma porta às suas costas que seu comparsa adentrara.
- Puts, mals, pensei que fosse não atire de não atirar em você...
- Não, seu merda! Era não atire de não atirar e ponto!
- Bem, agora não tem como eu “desatirar” – Dei de ombros. – Semântica é uma vadia. Sempre fui mal nisso na escola. Culpe a Tia Patricia e não a mim, ué! – Tagarelei, mantendo sua atenção em mim.
Pensei que a veia na testa da mulher iria explodir de tão saltada que estava. Se o jogo era ser irritantemente sarcástico eu ganharia de lavada. Tinha muita prática nisso, oras!
- Seu... – Começou, sendo cortada por um dos homens que lhe deu uma coronhada, aproveitando-se de um segundo de distração, em que desviou levemente a arma da direção de . A mulher atirou mesmo assim, atingindo o braço de , mas de raspão.
- Levem Petra para a Jaula no bunker. E o corpo do outro... Identifiquem e cuidem para que a equipe de limpeza trate de dar um jeito no corpo. Quero que esse lugar fique como se nunca estivéssemos aqui. – Apertei a escuta em meu ouvido, conectando-me a um dos líderes de toda a operação. – Rorik, cuide de subornar os vizinhos. Não quero ninguém comentando sobre o que aconteceu aqui hoje, entendido?!
- Sim Chefe! O que farei com Petra?
- Comece o interrogatório. Eu estarei com .
- Entendido.
E foi então, somente nesse momento, que me permiti realmente olhar para ela. Uma alma pura maculada por meu mundo da imundice. Aproximei-me dela vagarosamente, temendo que ela não me quisesse perto. Mas depois de tanto tempo sem poder apreciar seus traços, encostar sua pele na minha, ouvir sua voz me repreendendo, sentir o cheiro amendoado de seus cabelos,... Eu não consegui evitar tropeçar nos últimos passos até a estar abraçando.
Suspirei com os olhos brilhando e o queixo recostado no topo de sua cabeça. Tentei desesperadamente conter as lágrimas que insistiam sair de meus olhos. Os pulsos de estavam em carne viva com as malditas algemas apertadas que a prendiam. Havia manchas roxas ao longo de seus braços e uma em sua bochecha. Seus olhos pareciam pesados, e seu semblante pálido e malnutrido.
- . – Sussurrei, tremendo e tendo que me conter para não apertá-la demais. – O que foi que eu fiz com você, querida?!
Senti seus braços finalmente deslizando por minha cintura e seus olhos encontrando os meus. Neles não havia raiva, não havia mágoa, nem acusações. Somente tristeza. E seu doce observar, sem julgamentos, me trouxe uma vergonha indizível.
- Vo... Você não fez nada. – Disse, levantando meu queixo levemente para encará-la novamente. – Eu te amo.
E antes que eu pudesse responder, desmaiou em meus braços. Peguei-a no colo, com cuidado e corri até o carro, berrando para que nos levassem até o hospital. Nunca senti tanto medo em minha vida. Nem mesmo em minha infância, quando meu pai vagava bêbado pela casa durante a noite. Nem quando fui baleado por dois tiros e vi a morte batendo à minha porta. valia mais, muito mais do que qualquer outra coisa em minha vida. As lembranças que tinha com ela eram muito importantes para mim, e acredito que era isso que tornava tudo tão mais difícil.


Epílogo


- E aí dorminhoca? – Perguntei, observando despertar em sua cama hospitalar. – Ainda faltam alguns exames, mas o médico disse que trará os resultados preliminares em meia hora.
- Obrigada, pateta. – Brincou, tentando sorrir, mas fazendo uma careta pelo machucado em sua bochecha. Meu coração pulou uma batida com sua tentativa de amenizar o clima na sala.
- Quer um pouco d’água? – Perguntei, observando-a levar uma das mãos à garganta.
Ela assentiu, pegando o copo que lhe ofereci, um pouco trêmula e deu alguns goles sedentos. Depositou-o na cabeceira, pegou minha mão e ajeitou-se na cama reclinável, como que para ficar no mesmo nível que eu estava - sentado na ponta de sua cama.
- Blackwell. Olhe para mim. – Murmurou, decidida.
- Estou olhando. – Resmunguei, encarando sua mão entre as minhas e a bandagem em seus pulsos.
- Nos meus olhos, boboca. – Replicou, soltando um riso que trouxe meu meio sorriso especial automaticamente a meus lábios. Obedeci, hesitante.
- Promete me deixar falar sem me interromper? – Esperou que eu assentisse em concordância para começar seu monólogo.
"Eu sei o que está pensando. Acha que não te conheço? Mais do que ninguém, senhor Blackwell. O que aconteceu comigo? Não foi culpa sua. Quando me envolvi com você, não foi somente com seu "eu" à lá “Christian Grey”, ricaço e empresário. Talvez somente da primeira vez em que ficamos juntos, mesmo que por dentro eu talvez sempre tivesse sabido que tinha algo de diferente em você. Mas quando voltei, eu sabia para o que estava assinando. Então a parcela de culpa que pensa que é sua, ela não existe. Não me faça de vítima. Sou uma mulher e fiz minha escolha. Inteligente ou não. Você também não pediu para me sequestrarem e nunca me arrastou para a outra parte de sua vida. Na verdade sempre tentou me manter o mais longe possível dela. E não, você não é um monstro. Tudo bem que têm certos aspectos de sua personalidade que me assustam, não vou negar."
Gargalhamos, e senti uma gota cair em nossas mãos entrelaçadas. Só aí percebi que estava chorando. Sua mão foi até minha face, acariciando-a levemente, como que para memoriza-la.
- Você é uma boba, claro que parte da culpa foi minha. Entendo que tenha feito uma escolha. Respeito isso. Mas até você deve admitir para si mesma que eu estou envolvido até o pescoço em um submundo perigoso.
A mulher ia replicar, mas não teve a oportunidade. A enfermeira entrou no quarto para checa-la e logo depois, o médico entrou com a expressão séria. Olhamos para ele em expectativa.
- Senhor Blackwell, vou precisar pedir para que o senhor saia por alguns segundos.
- Eu não vou sair porra nenhuma!
- Ele não vai a lugar algum!
Dissemos eu e quase simultaneamente.
- Senhorita Winters, você pode escolher ou não compartilhar com seu parceiro o que irei te dizer. Mas é melhor que a princípio ele não esteja aqui. Estou pensando somente no bem-estar da senhora.
- Ok. – Fez um biquinho. – , vai comprar alguma coisa para eu comer que não seja comida de hospital. Estou faminta.
Assenti a contragosto, respeitando sua decisão. Mas não fui pessoalmente comprar nada. Eu que não sairia de perto dela quando acabava de tê-la recuperado.
- Rorik, compre comida chinesa aqui no restaurante do lado. Pode ser um frango xadrez e rolinhos primavera. Ah, e não se esqueça dos bicoitos da sorte. A ama essa merda. Ah, e compre um chá! Mas peça para você mesmo adoçar, porque de forma alguma, eles mesmos vão gastar metade do açúcar em um só copo. Enquanto não estiver doce como o inferno, vá adicionando. Quando estiver difícil até de mexer a pazinha, quer dizer que tá ótimo.
O homem assentiu, afastando-se e cumprimentando Lance, que chegava com um envelope em suas mãos.
- Chefe, como está...
- Bem... Na medida do possível. – Respondi, com um sorriso forçado. – E como foi o interrogatório.
- Petra confessou o porque de ter participado do sequestro. – Entregou-me uma imagem, de dentro do envelope. – Lembra-se disso?
- Caralho, sim. Sacramento... Mas nessa época ela nem trabalhava pra mim ainda.
- O irmão dela e seu pai, ambos foram mortos no massacre, senhor.
- E como a culpa de toda daquela bagunça foi atribuída a mim, ela veio buscar vingança? Cacete! E por que não tentou me matar?! Por que tinha que ser ?!
- Olho por olho, chefe. Se você tirou alguém que ela amava, ela tirou alguém que você ama. E em algum lugar da mente deturpada de Petra, matar não seria o suficiente, e pessoalmente acredito que Petra não tinha o ímpeto necessário dentro dela para assassinar uma inocente. A traidora somente queria vê-lo sofrer.
- Só isso? E quem era o homem com ela?
- Ele era um contratado.
- Ela disse mais alguma coisa?
- Ela está morta. Não aguentou até o fim. Sinto muito, chefe.
Assenti, entregando-lhe de volta as imagens e aproveitando a saída do médico para voltar para o lado de .
- E então meu amor? – Indaguei, dando alguns passos em sua direção.
- Fique aí. – Falou, com a voz fria. – Preciso que vá embora.
- Quer que eu fique ou que vá?! Decida-se baby, você é de câncer e não de libra. – Brinquei, sentindo meu coração martelando dolorosamente em meu peito.
- Não quero mais que fique em minha vida. – Disse automaticamente. – Não entende?! Quer que eu desenhe?! Você não faz ideia do quanto me faz mal?
- Mas você diss...
- Acha que eu estava falando sério? – Riu sarcasticamente. – Eu poderia ter morrido. Tudo por sua culpa. Eu SÓ disse tudo aquilo para... Para ver se você embarcava mesmo naquela baboseira de que você, uma praga na minha vida, não tem culpa nenhuma do que aconteceu.
- Por favor, ... – Dei um passo para perto de sua cama e ela virou-se para não encarar meu rosto.
- Já pedi para ir embora. – Murmurou.
- Não, eu te amo, eu...
- Toma seu colar de volta! – Gritou, pegando o colar que eu tinha colocado em sua cabeceira. - É isso que tanto quer? – Berrou, tacando a joia em meu peito. – Pode ficar com seus presentes, pode pedir que eu devolvo. Farei tudo para não precisar conviver mais com um monstro como você.
Sua última frase me atingiu no último ponto de meu coração que faltava ser esfaqueado. A única coisa que consegui fazer antes de sair dali, para livrá-la da besta, privá-la de ter que dividir o mesmo ar que eu respirava, foi catar o pendente do chão. E essa foi a última frase que ouvi da única pessoa que já amei verdadeiramente em toda minha vida.



Blackwell retornará em Codinome Blackwell.



Fim.



Nota da autora: Olá pessoal! Obrigada por terem lido Criminal até o final! Espero que tenham gostado da Fic, se sim, acredito que curtirão a longfic que escrevo sobre esse personagem que tanto me apeguei, confesso aushua. Amarei ler seus comentários <3 Quem desejar entrar para a família no facebook será mais do que bem vindo! Somente clicar no link abaixo! Beijinhos de Luz e até a próxima!





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