Escrita por: Gi Sanches || Betada por: Mari Lima || Contador:





“We're all bored, we're all so tired of everything
We wait for trains that just aren't coming”

Eu sempre fui uma pessoa atrasada literalmente. Estou sempre dez minutos atrasada para tudo. Demorei dez minutos para chorar depois que nasci, cheguei dez minutos atrasada para prestar o vestibular e perdi a porra da prova, cancelaram a minha primeira entrevista de emprego — pasmem — por chegar dez minutos atrasada e assim por diante.
Porém hoje era o grande dia! Coloquei o relógio para despertar dez minutos mais cedo. Tomei banho, comi, analisei milhões de vezes se aquela roupa estava combinando com o sapato, respirei fundo antes de pegar a bolsa e sair pelas ruas lotadas de Los Angeles naquela manhã quente. Cheguei na estação de trem com um sorriso largo ao olhar para o visor do celular e ver que pela primeira vez na vida eu estava adiantada. Dei um pulinho feliz, como uma criança que acaba de ganhar um pirulito e toquei no nome de Eve que estava em primeiro lugar nos favoritos.
— Bom dia, sunshine! — Falei animada ao ouvir seu alô.
— Me dê um motivo simples e objetivo para sua animação matinal milagrosa — eu conseguia sentir seus olhos se revirando do outro lado da linha, mas não liguei. Eve nunca fora uma pessoa matinal e se recusava a ser feliz antes das oito da manhã.
— Hoje sua amiga mais maravilhosa de todas, no caso eu, vai fechar um contrato incrível com a Black Brains e entrar para lista de melhores funcionárias ever no coração frio do chefinho.
— Cruzes! Você está falando daquela banda de heavy metal horrível onde todos os integrantes parecem ratos atropelados?
— Eve, falando assim você faz parecer que estou indo para um antro emo e gótico. Mas sim, eles mesmos. Rick está tentando esse contrato há tempos e mal posso acreditar que conseguimos essa reunião. Se tudo der certo, seremos a primeira revista musical a produzir um documentário sobre a banda. Não é demais? — Eu estava realmente empolgada. Eu ganharia uma comissão monstruosa em cima de todas as matérias, de quebra ainda ganharia a gratidão de Rick — que convenhamos era o chefe mais rabugento de todo o planeta — e quem sabe até mesmo uma promoção? Balancei a cabeça, expectativa demais nunca era coisa boa.
— Iupi — ela resmungou. — Espero que você chegue no horário. Agora tenho que desligar, a mal comida da Sally já me gritou três vezes como se eu fosse surda. Me lembre de pedir demissão quando ganharmos na loteria, por favor.
Eu ri e guardei o telefone de volta na bolsa após desligar a ligação. Estranhei o fato de já estar na estação há dez minutos e nenhum trem ter passado. O aglomerado de pessoas com expressão insatisfeita na plataforma me dizia que algo estava errado. Dei de ombros. Nada poderia dar errad...
— Atenção! Devido a problemas com a nossa central de controle, estamos com a circulação de trens reduzida. Solicitamos a compreensão de todos os passageiros.
A voz estridente e entediante de alguma funcionária da companhia soou nos alto falantes e eu quis muito, muito, muito estar morta.
— Não, não, não! Não pode ser! Hoje não! — Subi furiosamente de volta os degraus da estação e tentei me locomover depressa pela calçada abarrotada de gente. Eu precisava de um táxi e precisava agora.
— Com licen... com licença, moço, com licença... EI, OLHA POR ONDE ANDA, IMBECIL — era meu discurso repetido enquanto ia em direção contrária às pessoas. Parei em um ponto menos movimentado da calçada e comecei a acenar freneticamente para todos os carros amarelos que eu avistava até que um motorista resolveu parar para mim e eu senti vontade de abraçá-lo.
Dei as coordenadas enquanto digitava o número de Rick incessantemente e tentava contatá-lo sem sucesso. Bati o olho no horário e quase chorei.
Já passavam das oito e dez.
— Isso não pode estar acontecendo comigo — sussurrei para mim mesma enquanto fechava os olhos e tentava me acalmar. Tudo daria certo. O destino não seria tão cruel, seria?
— ESTOU EXAUSTO DAS SUAS TRAPALHADAS E DOS SEUS ATRASOS, ! — Rick estava furioso. Por conta do trânsito eu havia chegado não dez, mas quarenta minutos atrasada e estragado tudo. A representante da Black Brains disse que não tínhamos profissionalismo suficiente para lidar com o marketing deles e foi embora, alegando que devia nos cobrar pelo tempo que perdeu. — Para mim chega, limpe sua mesa e passe aqui amanhã pela manhã para receber e assinar sua demissão.
— Mas, Rick, eu...
— Não existe “mas”. Não quero ouvir mais nenhuma palavra. Estamos conversados. — Bateu a porta e saiu, me deixando sozinha com a minha própria raiva.
Uma hora e meia depois, entrei no meu apartamento minúsculo segurando desengonçadamente uma caixa de papelão que continha meus dois porta retratos favoritos, uma papelada imensa, meu porta canetas, minha bolsa e uma série de outras coisas que agora já não eram mais interessantes. Fechei a porta atrás de mim e joguei os sapatos de salto em qualquer canto, sentindo meus pés agradecerem ao obter contato com o piso frio. Coloquei a caixa em cima da mesinha de centro e me joguei no sofá, fechando os olhos e apoiando um braço em cima do rosto.
Eu sempre havia sido uma fodida, esse lance de sorte no amor, azar no jogo e vice versa no meu caso era apenas idiotice. Eu não tinha sorte no jogo e muito menos no amor. Mas sempre havia lidado muito bem com isso, obrigada. Até o dia de hoje. Sentei-me novamente e busquei meu celular dentro da bolsa, havia mais de cinco ligações de Eve. Retornei enquanto massageava a têmpora direita e afastei o telefone do ouvido ao ouvir seu grito.
— VOCÊ ESTÁ LOUCA DE NÃO ME ATENDER, QUERIDA? EU JÁ ESTAVA INDO AO NECROTÉRIO ACHANDO QUE VOCÊ MORREU!
— Por favor, não grite. A partir de hoje sou oficialmente pobre, encalhada e desempregada. Não quero adicionar deficiente auditiva nessa lista.
— Ai meu Deus, não acredito que era realmente sério o papo da demissão! O Rick é realmente um filho da puta.
— Eve, todo humano que possui um pênis entre as pernas para você é considerado um filho da puta — tentei dizer de forma engraçada, mas soei verdadeira. Eve era uma mulher corpulenta de 1,70 metro de altura, tinha a pele escura e os olhos cor de mel. Seus cachos eram grandes e muito bem moldados sobre seus ombros e ela sempre estava com a fileira de dentes branquíssimos expostos, pronta para matar qualquer homem do coração. O único problema é que ela gostaria de matá-los com uma arma de verdade. Eve era a definição de feminazi. Extremista como ninguém, tinha certeza que a raça masculina havia sido um erro de Deus e que ela devia ser a pessoa a consertar esse equívoco, exterminando todos. Mas esse ódio todo tinha um único nome: Caleb.
Caleb era o amor da vida de Eve desde que ela se conhecia por gente. Foram vizinhos desde criança, depois colegas de classe, parceiros de balada e então um dia ela resolveu perder a virgindade com ele. Namoraram por sete meses até que um dia ele sumiu. Não retornava suas ligações, nem seus recados e muito menos apareceu para lhe dar satisfações. Uma semana depois ele apareceu na casa dela e disse que precisava de um tempo. Tempo esse que já durava sete anos. Porém, como nem tudo são flores, Eve se tornou uma pessoa extremamente amargurada em relação ao amor. Não acreditava na felicidade nem na veracidade dos casamentos, muito menos dos namoros. Para ela tudo não passava de um jogo: use os homens e depois jogue-os fora. E ela o fazia muito bem, quebrando vários corações por aí enquanto tentava remendar o próprio.
— Sim, bem, estou apenas fazendo meu papel de melhor amiga e tentando te convencer que não há nem nunca haverá raça mais ingrata do que essa — ela concretizou, como se fosse óbvio e me cortou antes que eu pudesse responder. — Tome um banho e me espere pronta, vamos sair para beber mais tarde.
— Beber? Não estou no clima, Eve...
— E precisa de clima para beber? Me poupe, . Vamos comemorar sua liberdade das garras daquele chefe escroto. NÃO SE ATRASE! — Deixando seu recado, bateu o telefone na minha cara. Voltei a me jogar no sofá. Talvez fosse bom sair e beber um pouco, afinal, pior do que tava não podia ficar.

“We're so young, we're on the road to ruin
We play dumb, we know exactly what we're doing”

Era a quarta ou quinta garrafa de cerveja que pendia na minha mão e meu riso alto já ecoava junto com as vozes que saíam das caixas de som espalhadas pelo bar. Eu não estava bêbada, mas definitivamente muito mais alegre do que estava nas horas anteriores. Eve havia levado consigo duas amigas do trabalho: Noelle e Kriss. Ambas eram muito bem humoradas e falavam o tempo todo, sem me dar tempo de pensar nas coisas ruins que me aconteceram durante o dia todo e eu me sentia realmente grata pela presença delas. Eu ainda estava sorrindo pela história cômica que Noelle acabara de contar quando o vi entrar. Meu maxilar caiu lentamente e encostei a garrafa de cerveja pela metade em cima da mesa. Cerrei os olhos para enxergar melhor, mas definitivamente era ele. O cabelo bagunçado — e não do jeito proposital de se bagunçar o cabelo para tentar ser sexy, bagunçado de verdade, por puro desleixo —, os olhos verdes intensos, o sorriso cínico, a camisa jeans por cima de uma regata branca justíssima, o jeans velho e os tênis pretos. Ele não me viu, apenas seguiu diretamente para o bar, apoiando-se nos cotovelos e fazendo algum pedido ao barman.
Cutuquei as costelas de Eve com o cotovelo, ainda atônita e perguntei:
— Aquele ali não é o seu primo, Eve? O ?
Ela olhou sem dar muita importância para o rapaz de costas e se dirigiu a mim, indiferente:
— Claro que não, . está em Nova York, se lembra? — Ela ia voltar a tagarelar com as meninas quando eu a interrompi.
— Eve, é ele! Eu tenho certeza. Não dá para confundir aquele tipo de gente.
Ela franziu a testa sem olhar novamente para ele.
não viria até a Califórnia sem me avisar, — ela disparou antes de se virar para ele novamente ao mesmo tempo que ele se virou com uma garrafa de cerveja na mão, cruzando diretamente o olhar com o dela. O maxilar dela caiu, assim como o meu, porém não tão lentamente e logo ela já estava se levantando e gritando.
, seu filho da puta! Como ousa vir até aqui e não me dar nem um telefonema? — Ele não deu tempo para que ela continuasse os xingamentos porque logo já estava a abraçando de forma que os pés da coitada não alcançassem mais o chão.
— Caralho, eu ia te ligar amanhã! Cheguei faz pouquíssimo tempo e decidi tomar um banho e vir tomar uma cerveja com... — ele tossiu. — Um amigo.
— Um amigo? — Ela arqueou as sobrancelhas.
— É, daqui a pouco ele está por aí. Mas, porra, não acredito que você está aqui! E gostosa para caralho, mas isso não é novidade alguma... — ela deu um tapinha de leve no ombro dele e ele a abraçou novamente.
Eu pigarreei atrás de Eve, enquanto Noelle e Kriss ainda conversavam animadamente na mesa, sem se importar com o encontro que acontecia ao lado.
— Oi, ! — Eu tentei parecer super animada, mas pude ver o resquício de constrangimento em seus olhos.
— Oi, — Ele deu dois passos em minha direção e um beijo demorado em minha bochecha. — Vejo que nada mudou, huh? Vocês duas juntas, bebendo... Alguma ocasião especial? — Ele tentava ao máximo disfarçar e eu queria desesperadamente gargalhar da situação.
— Ah, sim. Estamos comemorando a minha demissão. Bottoms up! — Fiz uma imitação de copo e ergui a mão, fazendo-o rir juntamente com Eve.
— E o que nos dá a honra da sua presença em nosso território, ? — Eve perguntou fazendo menção para que nos sentássemos, quando os olhos dele congelaram na porta do bar. Eu e ela o seguimos e na mesma hora eu soube que não ia ser fácil lidar com o que estava por vir.
— Caleb. — A voz de Eve carregava uma tonelada de sentimentos e ficava fácil dizer que pela expressão em seus olhos, eles não eram bons.
— Eve. — Ele cumprimentou com um tom de voz que beirava o normal, mas logo passava ao constrangido mesmo que em uma simples sílaba.
— Bom, , foi ótimo te ver. Me ligue amanhã para gente combinar algo, sim?
assentiu e beijou o rosto da prima, que logo me puxou pela mão e saiu como um furacão pela porta do bar.
— Mas que diabos esse cara está fazendo aqui, ? É a volta dos que não foram, por acaso? Que belo pedaço de cocô ambulante aquele crápula. Sete anos! Sete anos sem o ver e de repente ele aparece assim, sem mais nem menos? Quem ele pensa que é? — Ela andava rápido demais e eu tentava acompanhar sem interrompê-la. — Meu Deus, você está me ouvindo? Eu pareço uma criança de cinco anos que acabou de ver o brinquedo favorito despedaçado no chão. Quero voltar lá e bater nele — ela parou para tomar fôlego e eu aproveitei para dizer:
— Essa não é uma boa opção.
— Dane-se se é boa ou não! É uma opção, não é? Quero voltar lá e enfiar meu salto quinze no...
— Ok, já chega. Você é uma mulher agora. Uma mulher linda, independente sentimental e financeiramente, que não vai se deixar entrar em colapso por causa de um babaca, mesmo que ele seja lindo como o Caleb — eu me toquei do que havia dito no final quando ela me lançou um olhar raivoso. — Eu disse lindo? Eu quis dizer fedido.
Ela voltou a ter expressão neutra.
— Quer saber? Não estou nem aí. Foda-se ele. Foda-se todo mundo. Nós vamos voltar para casa e encher a cara sozinhas, afinal quem precisa desse bar idiota? — Ela voltou a andar rápido e ninguém falou mais nada até chegarmos no meu apartamento. Bebemos mais um pouco do que tinha de cerveja na geladeira e logo ela pegou no sono ali pelo sofá e eu pude finalmente deitar na minha cama. Peguei o celular e desativei, com muita tristeza, o despertador. Pelo menos uma certeza eu tinha na vida: não teria que me preocupar com atrasos matinais por um bom tempo.

Cinco anos atrás

— Eve, você tem certeza que essa é uma boa ideia? — Eu me olhava no espelho pela décima vez naquela noite. Maquiagem impecável, vestido simples e florido, sapatilha preta e cabelo solto. Estava bom, mas eu ainda não tinha certeza se não deveria colocar um pijama e mofar no sofá tomando sorvete e vendo alguma comédia romântica.
— Claro que eu tenho, boba! O é uma pessoa incrível e você também. Não tem como dar errado — Eve estava convicta.
era seu primo, mas embora eu e ela nunca nos desgrudássemos, eram raras as ocasiões em que eu e ele nos encontrávamos. Ele era uma pessoa bem divertida, mas nunca pensei nele como algo além de “o primo da melhor amiga”. também era melhor amigo de Caleb, o que contribuía para que nossos encontros fossem escassos. Eu não iria a lugar algum sem Eve e Eve não iria a lugar algum onde pudesse cruzar com Caleb: essa era a regra. No entanto, ela colocou na cabeça que eu e formaríamos o par perfeito. E mesmo sem concordar muito com essa teoria maluca, deixei que ela nos arranjasse um encontro, afinal Eve conseguia ser insuportável quando acreditava em algo.
Ele chegou dez minutos adiantado — provavelmente porque a prima o avisou sobre o meu problema com horários — e eu respirei fundo antes de pegar a bolsa e ir ao encontro dele.
Tudo começou a dar errado quando cheguei à sala e olhei para seus pés. Ele estava mesmo de chinelos? Oh, Deus! Ele estava mesmo de chinelos.
— Você está linda — ele elogiou e eu me senti envergonhada por estar incomodada com seus dedos do pé me encarando.
Fomos o caminho todo conversando sobre coisas banais e eu não me dei o trabalho de perguntar onde iríamos, pois não queria ser chata logo de cara. Mas assim que ele estacionou em frente ao restaurante, me arrependi de não ter perguntado.
— Está tudo bem? — Ele perguntou me olhando de canto, provavelmente percebendo minha careta.
Respirei fundo. Eu realmente não queria estragar a noite. Não custava fazer um esforço, certo?
— Está tudo ótimo.
A coisa toda foi muito esquisita. Eu não parava de pensar nos dedos dele para fora do chinelo e nem no fato de que eu odiava comida mexicana. Mas lá estava eu, sorrindo e fingindo que o fato dele torcer pro time oposto ao meu não me incomodava nem um pouco — além dos dedos e da comida apimentada. Eu também percebi o quanto ele parecia constrangido com o súbito encontro armado pela prima e que estava realmente se esforçando para que tudo parecesse natural, quando na verdade eu só queria ir embora e podia apostar cinquenta dólares que ele também.
Tentamos conversar sobre a carreira profissional dele e seu incontrolável desejo de crescer no ramo de produção de eventos. Por dez minutos ele conseguiu me manter entretida, mas depois observar as bolhas que a champagne produzia sozinho dentro da taça parecia muito mais interessante.
Quando a garrafa de champagne chegou ao fim, ambos estávamos mais à vontade. Bendito seja o álcool! Decidimos juntos que estava na hora de partir e ao pagar a conta e entrarmos no carro ficamos em silêncio.
— Quer que eu te leve para casa? — Ele perguntou com a voz neutra, mas não me encarou.
Suspirei. Será que eu queria mesmo ir para casa? era um homem lindo. O sorriso dele era capaz de iluminar a alma de qualquer pessoa ao seu redor e mesmo após as coisas ruins daquele encontro, eu sentia que ele merecia uma chance. Levei minha mão até a coxa dele e fiz um leve carinho.
— Para sua ou para minha? — Tentei e assim que vi seu sorriso divertido, soube que tinha dado certo. Talvez nem tudo estivesse perdido.
O beijo dele era uma das melhores coisas que eu já havia provado no mundo. Entramos em seu apartamento nos agarrando de forma desesperada e o calor que emanava de ambos os corpos era capaz de incendiar o prédio inteiro. Ele fechou a porta com o pé enquanto se perdia em meu pescoço e uma alça do vestido já pendia para fora do ombro. Eu comecei a sentir um desconforto entre as pernas enquanto ele me carregava para o quarto, mas não era exatamente aquele tipo de desconforto.
... — tentei dizer, mas ele apenas resmungou. Abri os olhos e vi que estávamos quase na cama. — , eu preciso...
Empurrei-o com uma das mãos e ele finalmente pareceu entender que eu tinha algo a dizer.
— Eu preciso fazer xixi.
Ele pareceu confuso e depois assentiu.
— Primeira porta à direita.
— Certo.
Eu desci de seu colo e trançando as pernas corri até o banheiro. Enquanto lavava as mãos e observava meu reflexo no espelho, percebi que havia cortado completamente o clima.
Ao voltar para o quarto, ele estava de costas usando apenas a boxer preta, enquanto tentava regular o ar condicionado.
— Desculpe — falei envergonhada.
Ele me olhou e sorriu enviesado.
— Não tem porque se desculpar. — Ele se aproximou e recomeçou os beijos em minha orelha e pescoço. Fechei os olhos novamente e quando vi já estávamos completamente embrenhados na cama e eu já não sabia onde ele começava e eu terminava.
Antes que qualquer ato fosse consumado, comecei a me sentir incomodada com a temperatura do quarto. Por mais caloroso que estivesse o momento, o ambiente provavelmente estava com uma sensação térmica de três graus.
? — Ele não demorou para parar de me beijar dessa vez.
— O que foi agora? — Seu tom não foi seco, mas percebi que estava começando a ficar constrangido. De novo.
— Estou com frio — disse, simplesmente.
— Com frio? — Ele perguntou surpreso.
— Sim.
Ele não questionou e rolou para o lado, logo saindo da cama e aumentando a temperatura do ar.
— Está bom assim?
— Perfeito. — Sorri amarelo e quando ele voltou para cama, vi que hesitou antes de recomeçar qualquer coisa.
— Olha... se você não quiser fazer nada, eu vou entender.
— Não! Não é isso. Você é maravilhoso, . Desculpa, eu sempre estrago tudo — concretizei e enfiei o rosto nas mãos. Por que tudo naquela noite estava me incomodando?
— Ei, ei, ei. Não fale isso. Nossa noite foi incrível — ele tentou reconfortar, mas não consegui segurar a gargalhada.
— Você só pode estar brincando! — Ele pareceu curioso e não me interrompeu. — Você é realmente maravilhoso, . Mas, por Deus, você me levou para jantar de chinelos!
— O que há de errado com meus chinelos? Está um calor do caralho, sabia? — Ele se ofendeu e fez um bico engraçado.
Ignorei-o e continuei despejando meu descontentamento.
— Eu odeio comida mexicana! Sou alérgica a pimenta, mas não quis dizer nada para que você não me achasse uma fresca. Se eu segurasse aquele xixi por mais um minuto com certeza estaria com infecção urinária agora e, por fim, seu quarto estava parecendo um iglu.
Joguei-me na cama de forma que ficasse olhando para o teto e uns segundos depois ele fez o mesmo. Ficamos em silêncio até que ele começou a gargalhar e eu o segui.
— Essa foi uma péssima ideia. Eve vai ficar decepcionada.
— Pelo menos a gente tentou — eu continuei enquanto tentava parar de rir.
— Bom, não ia dar certo de qualquer forma. Você sabe. Eu vivo viajando, volto para Nova York semana que vem e você fica, sua vida é aqui — ele disse enquanto se virava para mim e apoiava a cabeça em uma mão. Fiz o mesmo.
— Amigos?
— Com certeza — ele beijou minha testa e ninguém falou mais nada.

“Honey, life is just a class room”

— Eu já vou! — A campainha tocava incessantemente e eu tentava enrolar o roupão no meu corpo para poder abrir a porta. — Droga, Eve, onde foi que você enfiou a sua chave?
Abri a porta com raiva enquanto minha amiga olhava as unhas da mão esquerda e com a outra segurava um jornal.
— Preciso fazer uma chave nova, perdi a que você me deu.
Ela entrou como se não tivesse feito um escândalo segundos atrás e se jogou no sofá.
— Querida, já faz quase uma semana que você foi demitida. Estou exausta de te ver dentro desse apartamento, acordando às duas da tarde, sem dar as caras na rua e sentir a luz do sol nos seus cabelos que, se me permite dizer, precisam urgentemente de uma hidratação. — Taquei uma das minhas pantufas na cara dela assim que ouvi o fim da frase.
— Evite dizer esse tipo de verdade, por favor, estou sentimental demais.
Ela rolou os olhos.
— Felizmente para você eu sou a melhor amiga do mundo e tenho a solução pros seus problemas — assim que terminou de falar, jogou o jornal que segurava para cima do meu colo. A manchete era grande e clara:

“Black Brains anuncia turnê surpresa e fecha contrato com a TX9 para divulgação de documentário inédito!”

— Solução pros meus problemas? Eve, isso é a vida esfregando na minha cara a merda gigante e fedorenta que eu sou — joguei o jornal longe e cruzei os braços, emburrada.
— Acontece, querida, que a TX9 é a agência na qual trabalha em Nova York e é por isso que ele está aqui.
— O QUÊ? Eu não acredito que esse cretino roubou o contrato que era para ser meu!
— Na verdade ele só vai cuidar da parte dos eventos da turnê, mas soube que está atrás de uma assistente — ela sorriu, maliciosa.
— Eve, qual a chance de eu ser assistente do ? Ainda mais nessa situação humilhante de ter perdido meu emprego exatamente por causa desse contrato.
— Meu amor, existe chance melhor que essa? Você estaria esfregando na cara do Rick o seu potencial enquanto ele vai ficar chupando o dedo. E quem sabe você não consiga uma vaga efetiva na TX9 quando o período de shows acabar? Soube que será uma turnê curta de apenas dois meses. É pegar ou largar — terminando de falar, Eve esticou o próprio telefone para mim. — Ligue para ele.
Pensei por um minuto. O que poderia dar errado? O não eu já tinha, só me restava tentar.

***

Eu estava cantando trechos repetidos de uma música qualquer da Celine Dion e olhando fixamente para cerveja — que provavelmente já estava quente — quando ele chegou com o mesmo sorriso largo e debochado da semana passada e de cinco anos atrás. Parou poucos passos à minha frente, de forma que pudesse desviar seu olhar entre o meu rosto e a cerveja várias vezes antes de falar:
— Pelo jeito eu sou a única pessoa na vida capaz de fazer você chegar no horário nos seus compromissos, hein? — Se esticou e estalou um beijo em minha bochecha antes que eu pudesse responder, sentando-se na cadeira vazia logo depois e levantando o braço para que o garçom trouxesse mais uma cerveja.
— E pelo jeito eu sou a única pessoa na vida capaz de enxergar esse seu ego inflado, hein? — Tentei brincar e me arrependi imediatamente depois, afinal aquilo era mais ou menos uma entrevista de emprego.
Ele arqueou as sobrancelhas e riu, aquele som gostoso que faz a gente querer fechar os olhos e ouvir de novo e de novo...
O garçom rapidamente apareceu com a long neck de e ele deu um gole rápido.
— Então, . O que eu perdi durante esses cinco anos longe de você? — O olhar dele me deixava um tanto quanto desconcertada, talvez por me lembrar da vergonha que tinha passado ao seu lado naquela noite fatídica ou talvez apenas por ser verde demais.
— Bom, você perdeu várias oportunidades de fazer piada com os vexames da minha vida. Sabe que não há pessoa mais azarada que eu. — Levantei o braço também pedindo outra cerveja e logo depois apoiei os dois braços na mesa e me inclinei um pouco para frente. — Você teria dado boas risadas.
Ele assentiu lentamente e tomou outro gole da bebida.
— Mas suponho que você queira saber das minhas experiências com o ramo artístico, certo? Trouxe alguns documentos e reports que já fiz para te mostrar e...
— Não. — Ele falou decidido e algo no seu tom me fez parar de mexer na bolsa instantaneamente. — Vamos apenas conversar. Não precisa ser sobre trabalho. Quero saber de verdade sobre você, quero que me conte o que sentir vontade. Pode ser?
Relaxei os ombros e sorri.
— Pode. — E então desatei a falar sobre mim, sobre Eve, sobre minhas conquistas, minhas trapalhadas, minhas tentativas falhas de me dar bem no amor e até algumas encenações ridículas sobre o mal humor de Rick. Ele ria e fazia comentários o tempo todo e logo comecei a fazer perguntas sobre suas experiências também. Ele falou sobre Nova York com a maior paixão que eu já havia sentido em palavras nos últimos tempos e seu olhar continha um brilho intenso a cada nova história. Ver sua expressão de felicidade por algum motivo aquecia meu coração e fazia com que eu desejasse que aquela conversa não acabasse nunca. Mas assim que o sol se pôs e a nossa mesa lotou de garrafinhas de cerveja, decidimos pedir a conta e caminhar.
Durante todo o caminho percebi como era fácil estar em sua companhia. E, pela primeira vez, senti uma pontinha de arrependimento junto com uma voz irritante sussurrando em meu ouvido: “e se tivesse dado certo?”. Quase não vi o tempo passar, mas assim que avistei o portão do meu prédio fiquei apreensiva.
— E então? — Ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
— Oi? E então o quê? — Perguntei piscando algumas vezes e balançando a cabeça, tentando me livrar dos pensamentos que me distraíam.
, perguntei se podemos começar amanhã.
Fiquei realmente surpresa.
— Amanhã? Mas você nem viu nada do meu trabalho e...
, você estava contratada desde o momento que me ligou. Hoje foi só uma desculpa para eu poder passar um tempo com você. Gosto da sua companhia. — Ele piscou e beijou minha bochecha. — Te mando mensagem com o endereço e horário de amanhã, tudo bem? Boa noite e mande um beijo para Eve.
Assenti com a cabeça e sorri discretamente enquanto ele ia embora com as duas mãos nos bolsos frontais da calça, a cabeça ereta e assistindo o vento bagunçar ainda mais os seus cabelos.

“And everyday is like a battle
But every night with us is like a dream”

— Eve, você viu o outro par do meu sapato? — Eu segurava um solitário scarpin preto em uma mão enquanto olhava desesperadamente embaixo da cama a procura do outro. Levantei, bufando de frustração quando uma mecha de cabelo desprendeu da presilha e caiu diretamente no meu olho. Sentei-me, tentando enfiá-la de volta ao restante de cabelo preso quando Eve passou como um furacão por mim tentando acertar o encaixe do brinco na tarraxinha. Ela tinha um encontro — pasmem — e eu tinha um jantar de negócios com a equipe, onde finalmente conheceríamos os integrantes da Black Brains. Três semanas já haviam se passado desde que havia me contratado e tudo estava fluindo perfeitamente. A sincronia que havia entre nós e com o restante da equipe envolvida no projeto era incrível. Porém hoje, para falar a verdade, eu estava tão animada quanto um rato preso em uma ratoeira. Nada contra os caras, mas eles passavam a impressão de sujos, antipáticos, drogados, mal educados e... Eu já falei sujos? Talvez fosse pela análise lírica das músicas da banda, onde ficava fácil perceber que a maioria das referências utilizadas por eles vinha de morte, palavras de baixo calão, drogas e sexo.
— Eu lá sei onde está a droga do seu sapato, ? Talvez se você fosse um pouquinho mais organizada a gente não estaria nessa bagunça! — Eve ralhou e eu rolei os olhos enquanto a via entrar no banheiro. Dois segundos depois um sapato voou pela porta.
— Achei! — Gritou feliz e eu ri da sua mudança de humor repentina.
— Quero saber detalhes depois, hein? E, pelo amor de Deus, vê se não espanta o cara. Oliver parece ser um daqueles que simplesmente não dá para deixar passar. — Falei enquanto entrávamos no elevador e ela ajeitava os cachos longos sobre o ombro mais uma vez.
— Pode deixar. E você vê se não vomita em cima dos caras da banda, dê pelo menos uma chance a eles.
— Vou tentar.

E eu tentei. Assim que cheguei ao restaurante, avistei um todo engomado falando ao celular distraidamente escorado à parede. Balancei a cabeça e ri baixo, pensando o quanto ele devia estar odiando aquela gravata estúpida. Aproximei-me lentamente dele e, assim que percebeu minha presença, abriu um sorriso largo. Justo aquele que fazia meu coração idiota palpitar dentro do peito.
Mais alguns minutos e ele guardou o celular.
— Nossa, já te disseram que você fica linda quando toma banho? — Brincou e eu me fingi de ofendida.
— Espero que até o fim da noite essa gravata te sufoque.
Ele balançou a cabeça, provavelmente aterrorizado pela ideia e então todos os outros chegaram. Quando terminei de cumprimentar a equipe, uma SUV preta parou em frente ao vallet. Quatro caras vestidos de preto da cabeça aos pés, com panos e couro misturados a correntes e braceletes de spike distribuídos pelo corpo desceram do carro e eu tive que me conter para não arregalar os olhos. Se eu tivesse apostado com Eve com certeza teria ganhado: eles realmente tinham aparência de quem não tomava banho há cinco anos.
Um rapaz alto, elegante e bem magro que acompanhava os quatro homens nos cumprimentou primeiro e se apresentou como Christian. Depois apresentou os integrantes como Marcus, Gerard, Jimmy e Elliot. Nenhum deles falou nada durante o jantar, na verdade, pareciam muito entediados. Por mais que tentássemos puxar algum assunto, eles continuavam muito mais entretidos com palitos de dente ou com algum jogo idiota no celular. Marcus, quem eu carinhosamente apelidei de filho da puta mal educado, era o pior de todos. Sempre que abria a boca era para me chamar de gracinha, lindinha ou qualquer outro diminutivo ridículo ou tentar me cantar das piores maneiras possíveis. Aquele jantar chato durou três horas e meia que pareceram três anos e meio.
— Me diz que você quer ir encher a cara, pelo amor de Deus. — suplicou assim que pisamos fora do restaurante.
— Você ainda pergunta?

***

— Caleb ainda gosta dela — levou a garrafa de cerveja à boca mais uma vez antes de concluir o pensamento. — Eles ainda vão ficar juntos.
— Ela nunca vai admitir que ainda gosta dele, mas eu e o país inteiro sabemos que não existe homem no mundo capaz de mexer com o coração de Eve além do frouxo do seu amigo. — Já estávamos conversando há horas e para ser sincera eu nem me lembrava em qual bar estávamos ou como havíamos chegado naquele assunto. O que eu sabia era que os dois primeiros botões da camisa social dele já estavam abertos e a gravata provavelmente já estava no lixo.
— Ele estava assustado naquela época, a coisa toda do relacionamento deixou o cara pirar. E depois ela nunca mais deu abertura para que ele tentasse pelo menos se desculpar. Na minha humilde opinião, são dois idiotas.
— Justo. Mas eu ainda o acho um frouxo. — Virei o resto do líquido que ainda estava na garrafa e percebi que o bar estava vazio. — Acho melhor irmos embora, não tem mais ninguém aqui além da gente e aquele barman que está nos encarando com um olhar de ódio.
— Considerando que são três e meia da manhã de uma quinta feira, eu também acho que devemos ir embora.
— Já são três e meia? — Deixei o queixo cair. Havia perdido total a noção do tempo.
— Eu causo esse efeito mesmo nas pessoas, faço com que elas percam a noção de tempo, espaço... — ele começou a suspirar e eu lhe dei um tapa no ombro.
Pagamos a conta e optamos por caminhar ao invés de pegar um táxi. O bar não era tão longe e eu já tinha ficado descalça há muito tempo.
— Você ainda tem problemas com chinelos? — perguntou do nada e eu quis morrer. Definitivamente não queria falar sobre aquela noite.
— Eu não tenho problema com chinelos! Talvez um pouco... Já reparou como eles achatam o pé? É horrível — ele gargalhou da minha fobia de chinelos.
— Eu sempre penso naquela noite e acabo rindo sozinho — ele falou naturalmente enquanto encarava a calçada. — Foi o melhor pior encontro que já tive, dentro dos padrões possíveis.
— Foi bom, apesar de tudo. Serviu para nos mostrar que seríamos um péssimo casal — falei rindo, sem saber se realmente acreditava no que disse.
Ele parou de andar.
— Anda, ! Estamos chegando já, é só virar a esqui...
E então ele me beijou.
Os mesmos lábios quentes e macios que haviam me beijado anos atrás estavam me beijando agora. E o meu estômago por algum motivo desconhecido estava se revirando tanto que achei que minhas pernas fossem ceder. Larguei os sapatos no chão e devolvi o beijo com uma voracidade que nem lembrava ser possível. Era o contato, o gosto, o calor que fazia meu coração aquecer e passar do ponto. Não consegui contar quantos minutos, horas ou dias se passaram ali, mas quando ele me soltou, a impressão que tive foi que não importava quanto tempo se passasse, nunca seria tempo suficiente.
— Não consigo pensar num mundo onde seja péssimo estar com você, . — Beijou o topo da minha cabeça e deu meia volta, provavelmente seguindo o caminho para sua casa. E eu fiquei ali, parada, tentando entender a lógica de tudo o que havia acontecido antes de virar a esquina de casa.

“Baby, we’re the new romantics”

Mais duas semanas se passaram e depois daquela noite não houve um só dia em que eu e não nos beijássemos. Era como se ele tivesse um imã e eu estava total, completa e enlouquecedoramente atraída por ele. Estar com ele era muito mais do que estar só com ele. Era natural.
— E então, hoje colocaremos nosso plano infalível em prática? — Perguntei enquanto jogava os braços ao redor de seu pescoço.
— Você acha mesmo que vai dar certo? — Ele cruzou as mãos em minha cintura e eu sorri com a sua incerteza.
— Não. — Lhe dei um selinho. — Mas se a gente não tentar, nunca vamos saber.
— Ok. Esteja lá às oito em ponto. Não oito e dez, ok? — Ele arqueou uma sobrancelha e eu emburrei. Ele sorriu, tomando aquilo como um sim e ambos seguimos caminhos separados, prontos pro ataque.
***
— Mas como assim eu não posso nem saber o nome desse seu amigo, ? Depois que você começou a beijar o pelos cantos, ficou mais louca que antes. — Eve estava relutante em aceitar meu convite para um encontro de casais.
— Eve, estou tentando dar uma de cupido aqui. Por favor, confie em mim! — Eu senti uma pontada de culpa por essa última parte. Sabia que ela sempre amolecia quando eu falava aquilo e também sabia que havia a possibilidade de ela nunca mais falar comigo na vida após aquela noite.
Ela me fuzilou com os olhos.
— Tudo bem. Vou dar uma chance para você. Não estrague tudo.
Assim que saiu do apartamento e bateu a porta, peguei o celular e enviei um sms para .
“Parte 1: ok.”
Aguardei e em menos de dois minutos veio a resposta:
“Parte 2: ok.”
Sorri e fiz uma oração silenciosa para que tudo ocorresse bem. Tinha tudo para dar errado, mas eu acreditava no 1% de esperança do meu coração que dizia que daria certo.
Chegamos ao restaurante às sete e cinquenta. Preferi chegar dez minutos mais cedo, pois era o suficiente para que ela já estivesse sentada e à vontade quando os dois chegassem. E também porque queria que mordesse a própria língua.
Quando o relógio marcou oito horas, virei a taça de champagne que estava à minha frente e uma sensação de arrependimento horrível começou a se apoderar de mim. Ela jamais me perdoaria.
, calma. A bebida não vai sair correndo! — Ela disse enquanto ria abertamente.
— A bebida não, já você... — disse baixo o suficiente para que ela ouvisse.
— O que você quer dizer com...
— Boa noite, meninas. — A voz rouca de Caleb se fez ouvir e eu achei que os olhos dela saltariam das órbitas.
— O que você pensa que está fazendo aqui? — Ela vociferou e veio logo atrás, intervindo pelo amigo.
— Oi, prima! Está linda hoje, hein? — Sorriu galanteador, mas murchou assim que viu a raiva nos olhos dela.
— Vocês dois são dois idiotas — concluiu e virou para pegar sua bolsa e levantar.
— Eve, dá um tempo! Sete anos se passaram, não acha que está na hora de pelo menos conversarmos? Quantos anos você tem? 12? — Caleb ralhou irritado e a tensão que ficou no ar me fez querer engolir a garrafa de champagne.
— Bom, acredito que tenham muito para conversar, não é mesmo? Eu e temos algumas coisas para resolver, então depois nos falamos. — Levantei-me rapidamente e segurei a mão de , que parecia tão nervoso quanto eu.
— Isso não vai ficar assim. — Eve falou baixo o suficiente para que eu pudesse ouvir antes de sair e deixá-la sozinha com seu próprio carma.
Assim que entrei no apartamento de , vi que pouquíssima coisa tinha mudado desde a última vez que estivera lá.
— Achei que você tivesse vendido isso aqui. — Disse enquanto encarava os porta retratos espalhados pela mesa de centro.
— Eu até quis, mas achei que ia ficar muito impessoal ter que me hospedar em hotéis quando voltasse para Los Angeles. Aqui é a minha casa. Se eu vender esse apartamento, não terei nenhum lugar para chamar de lar.
Sorri ao ouvi-lo falar daquela forma.
— Está certo. Estou com fome. Me alimente, escravo. — Me joguei no sofá e ele colocou as mãos na cintura.
— Podemos pedir pizza, majestade? Pois não há muito o que oferecer nesse humilde casebre.
Eu ri com a frase e assenti, enquanto ele balançava a cabeça e procurava o panfleto da pizzaria.
Quarenta minutos depois, a caixa de pizza estava vazia e eu olhava preocupadamente o celular buscando por sinais de vida de Eve.
— Acha que o que fizemos foi certo? Se der errado, nunca vou me perdoar. — Coloquei a mão na testa e me abraçou por trás, apoiando o queixo em meu ombro esquerdo.
— Vai dar tudo certo, . Eles devem estar se entendendo agora e nós deveríamos fazer algo mais útil do que ficar pensando em coisas ruins, sim?
— Ah, é? — Virei de frente para ele e cutuquei seu nariz.
— É.
— Tipo o quê? — Ele sorriu malicioso ao fim da minha pergunta e ninguém precisou dizer mais nada naquela noite.

“Heartbreak is the national anthem
We sing it proudly”

Eve e Caleb não brigavam há duas semanas. Não, não estavam mil amores um com o outro, mas estavam bem. De um jeito que dava para conviver e, acima de tudo, que fez Eve ficar milagrosamente menos rabugenta. A conversa que haviam tido tinha feito muito bem para ela, afinal guardar rancor de alguém por sete anos pode fazer muito mal ao coração. Algo me dizia que era questão de tempo até que ela cedesse ao que sentia por ele e daí para frente seria só alegria.
O que estava de certa forma me incomodando era que faltava um dia para voltar para Nova York e fazer o fechamento do documentário de lá mesmo. Eu sabia que seria difícil ficar longe dele, por mais que não estivéssemos namorando ou nada do tipo, era a melhor pessoa do mundo. A minha pessoa. E embora eu não fosse uma pessoa de despedidas, sabia que tinha que fazer algo especial para que tudo fosse fechado com chave de ouro. Peguei meu celular e enviei um sms para ele com os dizeres:
“Esteja aqui às nove. Use chinelos.”

Ele demorou três minutos para responder:
“Devo ter medo?”
Sorri para a tela, sem responder nada e comecei a me arrumar.
— Posso saber aonde vamos? — Ele disse enquanto eu balançava as chaves do carro velho e empoeirado, mas muito amado, de Eve.
— Quando chegar lá, você vai ver. — Pisquei e comecei o trajeto que nos levaria até o...
La Bamba? perguntou incrédulo ao me ver estacionar em frente ao restaurante mexicano. O mesmo em que havíamos tido nosso primeiro encontro anos atrás.
— Vamos fazer dar certo dessa vez. Prometo não ficar pensando no seu pé achatado pelo chinelo. — Sorri e ele me beijou terno e calmo, como quem agradece por um carinho.
Dessa vez, nada foi esquisito. A comida, claro, me incomodou. Mas acabei me esforçando para encontrar algo sem pimenta e tudo deu certo. Eu estava feliz, ele estava feliz e naquela noite o mundo inteiro parecia estar feliz.
— Vou sentir saudades — eu disse, buscando sua mão livre e entrelaçando nossos dedos. — Não queria que você fosse.
, eu quero que você saiba que os últimos dois meses foram os meses mais felizes da minha vida. Eu encontrei em você uma amiga, parceira, excelente profissional e acima de tudo uma mulher incrível. Deus sabe o quanto me arrependo de não ter visto tudo isso cinco anos atrás. — Ele fez uma pausa e olhou a nossa volta, enquanto brincava com os meus dedos em cima da mesa. — Tudo acontece por uma razão e eu sei que você não entrou na minha vida por uma coincidência. Amanhã eu vou embora e eu sei que vai doer em nós dois, mas eu acho que essa é a nossa vida. E penso que de certa forma sempre vou encontrar o caminho de volta para você.
Por dentro, pude sentir cada órgão meu se retorcer e o coração quase explodir ao ouvir aquelas palavras. O elo entre a gente tinha se tornado forte o bastante para que as despedidas não trouxessem apenas tristeza, mas sim a certeza de algo muito maior que tudo isso.
Algumas horas depois, estávamos no apartamento dele. Dessa vez, sem vontades, sem interrupções, sem ar condicionado. Foi natural, intenso e aconteceu da forma mais bonita e certa que tinha que acontecer.
acabou pegando no sono antes de mim e, com a cabeça recostada em seu peito, me concentrei pela última vez em sua respiração calma. Repassei na memória cada momento que vivi com ele desde que nos conhecemos. As idas, as vindas, os encontros e os desencontros. Suas palavras voltaram a ecoar pela minha cabeça logo antes que eu pudesse fechar os olhos.
“De certa forma sempre vou encontrar o caminho de volta para você.”
— De certa forma meu caminho sempre me leva de volta à você também, .

“The best people in life are free”



FIM



Nota da autora: Oi, gente! Depois de muito tempo, here I am com esse xuxu de história que surgiu do nada. Apenas posso agradecer à That que me convidou pra participar (e também acabou me viciando nesse mundo louco de ficstapes), à Lau Cheganças que como sempre, foi minha fiel escudeira e me aguentou surtar por causa de bloqueio criativo enquanto escrevia essa história e dizer que espero muito que vocês gostem tanto dos personagens quanto eu (principalmente da Eve <3)
Boa leitura, mores! Qualquer coisa, já sabem que tô sempre à disposição :D

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Outras fics:

Small Bump - Mcfly/Em andamento (ffobs/s/smallbump.html)
Everlasting – One Direction/Finalizadas (ffobs/e/everlasting.html






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