21. Try Hard

Última atualização: Fanfic Finalizada

Fiquei aturdido ao encontrá-la na estação. Havia algo de selvagem sobre aquela garota, e, se me perguntassem por que, eu muito provavelmente não saberia responder. Na verdade, pensando sobre isso agora, eu não sei.
Era a garota mais destoante (isso, eu pensava, num equilíbrio estranho entre o bom e o ruim) que eu conhecia ou algum dia já havia conhecido. Talvez fossem os cabelos de uma cor interessante (verde ou azul, algo que eu não era capaz de distinguir) incrivelmente longos, quase sempre desbotados – o que me fazia pensar que era algo intencional –, meio bagunçados, vira e mexe com um corte diferente; certa vez, ouvi-a dizer que os cortava ela mesma quando sentia vontade. Não sei se havia dito por pura força de expressão, mas isso a tornou ainda mais... Interessante.
Ou, ainda, penso comigo mesmo, algo a se destacar nela fosse sua postura de quem não se importa com nada. Embora eu saiba que esse comportamento não passa de uma pose, querendo ou não, torna-se bastante atraente, no fim das contas: uma aura impassível, declarações descompromissadas e com tom de descaso, feições sem nenhuma significação implícita, um jeito meio casual... Racionalmente, esse tipo de pessoa soa impossível de conviver, então eu, orgulhosamente, assumo como um fetiche.
Ela é extremamente sexy.
Toda sua persona era digna de um cartaz, um filme, um estrelato no cinema. Inclusive, por vezes, ouvi-a dizer que planejava juntar suas roupas numa trouxa e, bem sob o grande bigode de seu pai, fugir para algum lugar em que seu potencial realmente valeria alguma coisa. Mesmo que parecesse da boca para fora, eu temia que fosse verdade – e quem sabe a isso se deva meu desconcerto ao vê-la parada e sozinha naquela estação.
Procurei, passando os olhos, por alguma mala ou alguma trouxinha perto dela. E, bem, por mais egoísta que isso soe, fiquei feliz ao não encontrar.
– Ei, !
Tive um sobressalto. Não sei se pelo susto, ou por quem o havia provocado. Eu realmente não esperava ter sido visto.
Observei-a novamente, agora mais próximo. Usava uma camisa larga com três botões abertos, um colar com um pingente interessante, e deixava à mostra a renda preta de seu sutiã, bem como uma generosa parte de seu colo, além do jeans alto, quase acima da cintura.Seus polegares estavam apoiados em seu cinto enquanto ela inclinava levemente seu quadril, como se posasse para uma foto. Percebi, ao subir o olhar, que um cigarro pendia em sua boca, aceso, salpicado de manchas de batom vermelho. Um pensamento sobre como seria beijá-la piscou longínquo em minha mente, e eu o expulsei. Possivelmente, tenha ruborizado também.
Cocei a nuca, um pouco desconcertado.
...
– Se eu não o conhecesse, pensaria que está me ignorando... – arqueou uma sobrancelha, uma expressão esperta – Aonde vai, hoje, em plena segunda-feira à tarde?
Eu sabia que ela não estava interessada em saber para onde eu estava indo, o que eu faria a seguir. Era tão óbvio. Sua expressão simpática praticamente gritava: “estou perguntando por educação. Seja educado também e não prolongue o assunto”. Bons modos forçados matam uma parte de mim todos os dias.
– Ah, eu vim buscar uns parentes que estão vindo passar uma temporada aqui... – fiz um gesto de descaso com a mão, como se aquilo amenizasse o fato de que estava simplesmente cumprindo as ordens da minha mãe; eu, sempre um exemplo de rebeldia – E você?
Ela deu um meio sorriso, e o cigarro dançou para o outro lado. Tragou-o com uma naturalidade e leveza notáveis, segurando o cigarro entre os dedos médio e indicador, e em seguida virou a cabeça e soprou a fumaça. Minha respiração falhou por um instante, e eu pensei em como estava ficando doente por tabela, nos meus pulmões saturados de uma viscosidade escura, depois em câncer e, por fim, na sensualidade que marcava o gesto de em segurar aquele rolinho de morte e então soprar ao ar a mistura tóxica que, aos poucos, matá-la-ia. É incrível como a morbidez é estimulante. – Eu vou encontrar uma pessoa...
Logo entendi do que se tratava e, com a minha melhor cara de paisagem, assenti, como se 1) soubesse quem era sua vítima da vez e 2) tendo consciência de que se tratava de um encontro amoroso, eu genuinamente não me importava. Quer dizer, com a pouca proximidade que tínhamos – mais uma amizade por associação do que qualquer outra coisa –, eu tinha uma visão superficial do que acontecia com , mas não sabia distinguir muito bem seus casos amorosos; sua vida afetiva parecia bem agitada, tal como a sexual, e eu não conseguia acompanhá-la; sendo assim, podia ser feliz em transparecer um descaso, afinal era isso o que ela mais parecia apreciar no sexo oposto: alguém que não estava nem aí para ela.
Em partes, eu estava bastante feliz por não saber de quem se tratava o par para o encontro de . Significava que eu consegui me distrair o suficiente quando próximo dela ou do grupo de amigos em que se encontrava, para não absorver todas aquelas informações relativamente inúteis quase que por osmose; e, se eu o fiz, por conseguinte, significava também que eu não mais me importava a ponto de captar toda palavra que saía de sua boca e ficar reciclando-as em minha cabeça, uma por uma, até que fizessem sentido como uma mensagem subliminar para mim.
Sinto uma vergonha quase alheia ao lembrar-me de como realmente acreditei que poderia nutrir algum tipo de sentimento, mesmo que uma pontada bem remota de desejo, por mim. É lógico que ela não sentia. Eu mesmo me sabotei com a ideia – muito equivocada, diga-se de passagem – de que, só porque ela era gentil comigo e dava aqueles olhares de soslaio vez ou outra, combinados com sorrisos furtivos de canto e desejos de “bom dia” cantarolados pela manhã, eu era mais um alvo seu.
Não era algo assim tão infundado, uma vez que era conhecida por ser bem difícil de lidar. Tinha o temperamento um pouco explosivo, a personalidade forte, bem autoritária quando queria: quando você menos percebesse, ela tinha elevado a voz, e não porque estava brava, mas porque se empolgou ou queria provar um ponto. Ela dizia que ninguém nunca havia visto ela brava de verdade. Eu esperava, do fundo do coração, nunca precisar ver.
Por isso, com todas as pequenas gentilezas e sutilezas que às vezes provinham de seu comportamento inconstante, acreditei que poderia estar mudando ela para melhor, afinal de contas. Ah, como eu conseguia ser iludido.
Certa vez, no meio de uma conversa descontraída durante um dos ensaios da banda que ela costumava frequentar na garagem de Jon, ela falava – aliás, reclamava aos quatro ventos – sobre algum de seus ex namorados para um amigo. Eu, como quem não quer nada, comentei:
– Quando alguém é bom o suficiente para você?
E ela, com um sorriso esperto:
– Ninguém é.

Minha tia e meu primo, que vinham de trem diretamente do Texas, chegaram à estação antes que eu pudesse ver com quem estava prestes a se encontrar. Gostaria muito de poder afirmar que não era do meu interesse, mas a curiosidade ficou me matando durante o resto do dia – pelo menos até o ensaio da banda na casa de Jonathan.
Estava uma noite extremamente quente e uma onda de calor mais violenta do que o bafo proveniente do centro do inferno abrasava todo o Estado da Oregon. Enquanto dedilhava a guitarra, conseguia sentir o suor escorrendo pela nuca e caindo em bicas das minhas mãos, sentindo-me cada mais podre – o verão é uma época extremamente humilhante, especialmente se você não se sente confortável em tirar partes de suas roupas em público. E, dessa forma, em poucos minutos, eu era o único integrante da banda que ainda vestia uma camisa.
– Gente, eu não sei vocês, mas acho que não tem nada mais justo do que uma pausa para relaxar – disse, enquanto nos preparávamos para tocar a próxima música. Sacou do bolso um saquinho de papel pardo todo amassado e chacoalhou.
– Consegui hoje. Fresca.
– Engraçado como para você toda hora é tempo de relaxar, – Richard, o baterista, disse, enquanto depositava as baquetas em seu banquinho. Eu pisquei, e já as tinha em mãos, abandonando o saquinho no chão e batendo-as no ar: fazia aulas de bateria havia pouco menos de um ano.
Havia sido por isso, inclusive, que ficara tão próxima da banda. Richard a dava aulas clandestinamente, porque seu pai não a apoiava, e, depois de assistir a um ensaio, a garagem passava a ser um ponto de encontro fixo.
sorria divertida, enquanto Jonathan pegava em mãos o pacotinho. Logo Leonard abandonava também seu baixo e toda a banda se reunia em um círculo bem podre a partir da moça. Junto de nós, estava também Margot, amiga de e provável alvo de Leonard (supus, uma vez que quase todas as amigas dela que passavam por lá acabavam sendo).
– Vocês vão sentir falta desse pitstop quando eu for embora e tudo que vocês tiverem será um cartaz de estreia do meu filme – disse, fazendo pose – Aí vão enrolar o cartaz e fumá-lo, porque são muito bundões para irem atrás das coisas vocês mesmos.
Dei um riso nasalado e todos os outros soltaram gargalhadas estridentes. Só Jonathan parecia um pouco desconfortável com a fala dela.
Dali a pouco, o baseado passava pela mão de todos sentados no lugar. Era quase um ritual do grupo quando reunido na garagem de Jonathan para ensaiar, e era a principal fornecedora; talvez tenha sido por isso que, tão rapidamente, a banda passara a reconhecê-la como uma amiga próxima (sem contar, é claro, o fato de ela ser gostosa). Aqueles malditos eram uns interesseiros.
– Aonde você foi buscar, ? Eu soube que Bernard foi preso – Richard disse, tragando e soltando a fumaça densa logo em seguida.
Bernard era o cara com quem conseguia os tipos de merda ilícitas que a gente consumia praticamente de graça. Eu nunca soube da história direito, mas, aparentemente, tratava-se de um amigo muito próximo dela, ainda de sua época de escola, antes que ambos houvessem desistido. Ninguém nunca explicara isso em muitos detalhes e sempre desviava a conversa quando o assunto era esse; falar da escola para ela era um martírio claro.
Na verdade, conversar sobre qualquer coisa que envolvesse a vida pessoal de parecia um martírio. Por vezes, eu podia jurar que sua postura não passava de um teatro ambulante.
– Encontrei com um amigo dele na estação hoje mais cedo, Richie – ela disse, queimando com a ponta acesa do fumo uma linha solta de sua camisa –, e Bernard é um puta de um idiota. Já não sei mais quantas vezes disse que tomasse cuidado; ele dava muito mole. Mas, bem, eu tenho certeza de que logo ele sai.
Eu, então, recordei-me do encontro com ela horas antes – e de como pensei que ela esperava por algum de seus interesses amorosos. Como fui patético: ela estava indo comprar drogas, e por isso não especificou. Ah, grande e sábio , pulando para conclusões sobre a vida de alguém que nem lhe diz respeito. Nada novo sob o sol.
– Inclusive, enquanto esperava, encontrei o – ela olhou para mim, e eu congelei por uma fração de segundo. O que você fazia lá mesmo?
Dei um sorriso fraco e, assim que abri a boca, Jonathan me interrompeu, enlaçando com um de seus braços, que desviou o olhar a ele. Estranhei, a princípio, mas preferi ignorar; talvez não houvesse nada demais naquilo e eu estivesse tirando conclusões precipitadas novamente.
é um menino bom e foi fazer um favor à mamãe, não é? O neném da banda e da família...
Dessa vez, Jonathan é que olhou para mim, risonho,e seu tom de voz explicitamente jocoso me incomodou profundamente. Por mais que fosse meu amigo, eu o considerava um belo de um babaca.
– Neném? Eu podia jurar que tinha uns 21 anos. Todos vocês também têm, não?
Respirei fundo quando, diante da pergunta de , Jonathan arqueou a sobrancelha, sugestivo. Ele sabia que eu – não muito sabiamente, isso é verdade – havia mentido a idade para quando a conheci, já que, como todos os outros primatas da banda, queria impressioná-la de alguma forma (e, bem, meus dezoito anos, à época, não me ajudariam muito). Por mais que tivesse apenas dezessete, demonstrava interesse por caras mais velhos e eu, um grandessíssimo idiota, achei que forjar meu tempo de vida seria útil. De qualquer forma, não havia muito por que me culpar; flerte não é muito o meu forte.
Dei uma longa tragada quando o baseado chegou até mim.
– Certamente homem não é, com tão pouco pelo no rosto...
Foi tudo que Jonathan disse, antes de, acompanhado dos outros caras, rirem do próprio achado. Até eu achei meio engraçado; o THC talvez já estivesse fazendo efeito, afinal. Ao menos ele tivera o bom senso de não me desmentir na frente de . Seria humilhante.
Durante os minutos que se seguiram até que o fumo acabasse, com a mente um pouco debilitada, eu observava a proximidade esquisita entre Jonathan e . Era mais difícil negar a pontada de ciúmes quando chapado, eu percebi, e um lampejo de raiva surgia em algum lugar da minha mente. É nisso que dá ser tão lerdo (ou, como diria com seu jeito característico de colocar as coisas no aumentativo, um puta de um lerdo).
Se ela estava com ele, não havia por que não poder querer estar comigo também: Jon é mil vezes mais babaca que eu. Perto dele, a acepção mais correta para mim é um anjo.
Talvez ela realmente tenha mais apreço por idiotas mesmo.

Eu adorava os pais de Jon: os amigos sem noção do filho frequentavam aquela casa como se fosse sua segunda, comiam, esvaziavam a geladeira, usavam a sala de jogos, o banheiro e esparramavam-se no sofá em plena noite de uma segunda-feira e o senhor e a senhora Houston não estavam nem aí. Toda aquela pose classy que era percebida por quem via de fora se devia ao aparente poder aquisitivo da família, mas, definitivamente, não queria dizer nada sobre as pessoas que eram. Acredito que esse descompromisso habite os corações de todo mundo que não precisa limpar a casa depois que as visitas saem.
Não sei se naquele momento os pais de Jonathan haviam saído, se estavam em seu quarto ou perdidos em algum dos milhares de cômodos que compunham sua casa, todavia também não percebi alguém preocupado com seis jovens em um estado de consciência preocupante perambulando e, pouco depois, largados em algum corredor.
Fiquei durante um bom tempo sentado no sofá da sala, olhando as paredes, decorando as falhas na pintura e na construção e achando uma graça fora do comum no barulho que fazia o ventilador antigo ligado sobre uma das prateleiras. O conjunto de ruídos que faziam o ventilador, o relógio pendurado em algum lugar que eu não encontrei, a televisão ligada, a dilatação dos móveis de madeira, os passos e o atrito constante da cama com uma das paredes no andar imediatamente acima da minha cabeça compunham uma orquestra muito, muito infeliz. No começo era aceitável; logo depois, passado um intervalo que eu não soube e nem estava em condições de contar, tornou-se insuportável.
Era um efeito interessante a dimensão que tomavam os pequenos barulhos dentro do lugar, como se fossem grandes demais para caberem ali dentro, mas era atormentadora a maneira como, subitamente, o que de fato se passava ali parecia uma alucinação e a alucinação, o que de fato se passava ali. As falhas na parede à minha direita eram somente falhas, contudo, no instante seguinte, pareciam dançantes e vivas demais para só fazerem parte da parede; o teto, então, parecia estar derretendo, e a televisão ligada parecia alguém, ali, conversando mesmo comigo.
A previsão do tempo para o Oregon é de calor, o verão mais quente registrado em dez anos – desde 1969. Sem possibilidade de chuva, o final de semana é ideal para um passeio...
E eu fiquei meio desnorteado: mas eu gosto de chuva, pensei. O calor faz minhas costas suarem. Eu odeio como a minha camisa gruda em mim quando suo; é como uma segunda pele. Uma segunda pele asquerosa. Eu me remexi, como se estivesse suando (e, de fato, estava). De repente, um aperto no peito, uma queimação estranha e uma vontade enorme de chorar tomavam conta de mim. Mas eu gosto de chuva.
E então, como se eu estivesse oscilando entre a consciência real e a ampliada, voltei. Senti-me estúpido; era como se eu estivesse bêbado de sono e não conseguisse distinguir o que se passava em mim e fora de mim. Ainda vendo o teto derreter, praguejei (coisas como filho da fúccia, puta que fluiu como o vento forte no litoral com previsão de chuvas e um calor intenso rodopiavam em minha mente).
Fechei os olhos e quando os abri novamente, minha cabeça estava escondida em algum lugar com o cheiro bom de um perfume doce, mas que escondia o aroma natural de corpo; meio suor, meio perfume. Levantei, e estava acomodado no pescoço de , que com uma mão segurava minha cabeça e com a outra, minhas costas. Eu soluçava.
Ah, pensei, ótimo. Como se sua cota diária de vergonha já não tivesse estourado.
– Está se sentindo melhor?
estava com um sorriso terno nos lábios. Acho que nunca a havia visto com uma expressão diferente de escárnio, seriedade ou diversão no rosto. Senti-me feliz e imediatamente idiota. A confusão provavelmente era nítida em meu rosto.
– Eu acho que sim. Obrigado. Eu sou um idiota. Bem burro, mesmo. Você é muito legal... Desculpe.
Ela riu. já estava acostumada com esse tipo de situação: este não era o primeiro grupo de gente sem noção pelo qual ela já havia passado.
– Vocês nunca experimentaram algum cogumelo mágico antes?
Olhei de canto de olho para ela. Ainda estava meio tonto. Quase despenquei; fui impedido de esfolar a boca no chão pelas suas mãos.
Maldita seja a hora em que o grupo, levemente alterado pelo THC, acreditou ser uma boa ideia experimentar algum alucinógeno que trouxera de brinde – o qual eu, num gesto irônico e preocupante, não recordava o nome, tal como, supus, o resto do grupo também não; muito provavelmente, ver os lábios de se mexerem para dizer o nome e não decodificar o som que emitiam foi unânime. Uma banda composta por um monte de caras que se sentem fodas demais, mas que têm uma resistência humilhante para qualquer tipo de droga.
Chapados de uma coisa com esse nome, de quebra.
riu de novo.
– É, eu imaginei que não – ela disse, tirando alguma coisa grudada em meu rosto. Soprou e deu de ombros – Papel alumínio.
Eu fiquei confuso, sem lembrar de qualquer momento em que fui exposto a papel alumínio. Pela casualidade no rosto de , aquilo parecia perfeitamente normal.
– Bem, vocês não precisam se preocupar. Logo o seu sistema nervoso central volta a funcionar do jeito normal.
O gesto dela em abanar as mãos, com aquela displicência, assustou-me. Eu estava muito deslocado na cena das pessoas que experimentavam alteradores de consciência; usava no máximo maconha, e olhe lá. Por mais que não fosse muito algo do que me orgulhar, nesse sentido, eu era – e sou – bem oldschool. Se meu pai, que lutou na Segunda Guerra, soubesse de meu comportamento, eu era um homem morto. Com certeza, uma grande vergonha para a juventude ácida dos anos 70. E virgem, ainda.
Quando, um pouco mais sóbrio, reparei em , sua camisa, ainda desabotoada, se dispunha de maneira mais desleixada em seu tronco, expondo um obro quase inteiro, se não fosse pelos cabelos. O colar com a pedra, percebi, não estava mais lá também – tal como a renda charmosa de seu sutiã. Se eu a encontrasse assim na rua, pensaria que tinha sido roubada.
Mas, bem, eu sabia do que se tratava: Jonathan. Ele era um cretino bom de lábia. E eu, uma coisa mole. Ela, completamente fora de alcance.
, talvez um pouco desconfortável com o meu olhar, mexeu nos cabelos, e então os prendeu em um nó no topo da cabeça. Deixando, dessa forma, muito mais exposto, percebi, na curva de seu pescoço, uma tatuagem que nunca havia visto antes. Surpreso, perguntei:
– Desde quando você tem essa tatuagem?
deu um sorriso de lado e disse:
– Gostou? – Ela virou para mim, mostrando mais da tatuagem. Percebi que era uma rosa – Há uns dois meses. Um amigo começou a fazer tatuagem, e eu me ofereci como cobaia. Linda, né?
Eu dei um riso fraco, sentindo-me um bosta. Perto dela, tudo parecia sem graça demais; sua vida parecia tão agitada, tão cheia de aventuras, coisas interessantes para fazer. Ela tinha tantos amigos, parecia conhecer gente de qualquer lugar. Certa vez, havia dito que estava conversando por cartas com uma pessoa de Barcelona e até mesmo apreendendo espanhol por causa dela – tudo isso porque a primeira carta, originalmente destinada a outro lugar, havia extraviado e chegado em sua casa.
vive em um ano o que eu não vivi durante toda a minha vida, e não tem mentira ou mudança que eu faça que seja capaz de tornar-me alguém mais interessante para ela. Por mais que eu gostasse da ideia de um dia ser alvo de seu interesse (apesar das minhas fases de negação), eu sabia que o piercing no lábio e as calças rasgadas eram em vão. Afinal, eu, tímido, introspectivo, sem personalidade e sem graça, não tinha nem condições de competir em igualdade com Jonathan. Ainda que com relutância, ciúme e (muita) inveja, é praticamente uma obrigação admitir que os dois faziam mesmo um belo par, no fim das contas.
– É, eu gostei bastante.
Ficamos por algum tempo em silêncio, assim como o resto da casa, e eu supus que todo mundo tivesse caído em um sono profundo e merecido depois de serem pegos de surpresa com os tais dos cogumelos mágicos. Um descanso para repor serotonina era mais do que necessário.
Olhei o relógio (cujo barulho, junto com o ventilador, não me incomodava mais) e seus ponteiros marcavam quase cinco da manhã. Alguma parte de mim estava aflita com a bronca que levaria quando chegasse em casa, só que a outra estava cansada demais para preocupar-se.O meu maior medo, àquela altura, era de que a conversa morresse.
– Está bem tarde...
riu com a minha fala e balançou a cabeça em negativa. Eu tinha certeza de que ela conseguia sentir meu desconcerto e, ainda com um sorriso dançando em seus lábios, arrastou-se um pouco no sofá, de maneira a ficar mais próxima de mim. Sussurrando, disse:
– O que você acha de a gente ter um pequeno segredo?
Eu, meio chocado, meio sem entender, apenas assenti; sentia-me com doze anos de novo. Em uma fração de segundo (por assim dizer, já que tudo que sei é que foi muito rápido) sua boca estava pressionada contra a minha e, logo depois, sua língua. Não hesitei, tampouco pensei, e a beijei de volta, incerto sobre por que ela fazia aquilo. Jon me mataria se soubesse.
pegou minha mão atônita e repousada ao lado de meu corpo e lentamente guiou até seu seio, sobre a inconveniência do tecido da camisa. Eu ainda me sentia perdido – estava seriamente considerando que tudo aquilo fazia parte dos efeitos do alucinógeno que havia ingerido horas mais cedo. Mesmo assim, retribui, apertando e, então, friccionando-o sutilmente. Estava meio incerto sobre o que fazia, mas quando ela arfou entre o beijo, soube que até então não havia feito nada de errado.
Era inexplicável o efeito dela sobre mim. era um mistério, e eu nunca, nunca sabia o que ela faria a seguir: qualquer passo seu era uma surpresa.
, então, insatisfeita, passou uma perna em cada lado de meu corpo, sem parar de me beijar. Eu passava a mão por todo o seu colo, cintura, barriga e quadris, vez ou outra sob sua camisa, revezando-me entre os botões que tentava abrir e a braguilha de sua calça, enquanto ela, habilmente, mexia seus quadris sobre o colo que, pouco a pouco, se avolumava, pulsante.
Eu ainda lutava contra os botões, os dois que restavam, sem desistir de passar a boca e o rosto entre seus seios praticamente expostos, sentir sua pele, seu cheiro. Estava um pouco nervoso, mas tentava manter a mente ali – tinha a sensação de que, quando piscasse, sumiria dali.
Foi que, segundos, minutos ou horas depois (o tempo já não me parecia mais uma unidade de tempo plausível), quando a mão de desceu ao encontro do zíper de minha calça, um estalo se fez audível ali perto; passos, provavelmente. Ela se afastou num pulo e, ao avistar Jonathan meio cambaleante no arco que dava acesso à sala, lançou-me um olhar de soslaio, tornando a abotoar sua camisa. Eu estava petrificado. Será que ele havia visto?
, a gente precisa conversar sobre essa porra que você trouxe – Jon disse, apontando o dedo para ela, ou nós; enfim, em nossa direção – Eu ainda tenho dois rins?
Jonathan parecia ainda mais destruído que eu. Ele disse que já havia provado desses cogumelos e LSD antes, mas seu estado gritava justamente o contrário. Sua aparência era a de alguém que havia sido atropelado por um tanque de guerra e então atropelado de novo, porque o tanque deu ré.
riu.
– Se você está sugerindo que eu arranquei um deles depois de ter dopado todos vocês – ela colocou uma mão sobre o peito, aproveitando para arrumar a camisa caída, quase no meio do outro braço – Então está absolutamente certo.
Jonathan não pareceu ter escutado muito bem, e só sorriu para fazer que sim. balançou a cabeça em negativa e sibilou alguma coisa inaudível enquanto caminhava até os restos mortais do cara que um dia fora Jon, colocando as mãos nos ombros dele para guiá-lo à escada.
Vendo-os subirem em passos lentos, ansiei pelo momento em que o deixaria subir sozinho e voltaria para mim. Além de frustrado, ainda estava sem reação: não precisava terminar o que havia começado, ou fazer tudo de novo (por mais que eu quisesse), mas eu a queria ali para que pudesse pensar ou sentir que ela era real.
Quando haviam subido até metade dos degraus, sob meu olhar curioso, virou a cabeça e, pela última vez antes que, naquela mesma madrugada, ela pegasse o primeiro trem para Hollywood, tive seu sorriso direcionado apenas a mim, sem mistério, escárnio ou qualquer significação implícita; era só um sorriso.




Fim.



Nota da autora: Sem nota.



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