Última atualização: 15/08/2018
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Prólogo

A agitação e as risadas demasiadamente altas dos convidados ali presentes faziam querer sair dali imediatamente para completar seus trabalhos pendentes. Ela gostava dos seus colegas, mas festas não eram muito sua praia, exceto pelo álcool presente. Na verdade, aquela não era uma festa, era mais uma celebração em que o celebrado nem havia chegado ainda. Entretanto, ele não demorou a chegar; pior ainda, a primeira coisa que ele fez foi ir até a mesa dela, com todo seu convencimento e seu óculos estilo aviador.

― Então, , é um belo dia, não? ― perguntou a ela, tirando seu acessório e com um sorriso atrevido.

― Com certeza. ― assentiu e tentou não parecer incomodada com o convencimento barato de , embora achasse engraçado ao mesmo tempo. ― Salvar Manhattan de um traficante perigoso e rico não é para qualquer um, hein?

ajeitou a gola do seu traje e deu uma piscadela para . Embora ele fosse um tanto quanto infantil, convencido e competitivo, ela tinha que admitir: ele era um gato, provavelmente o homem mais bonito da 89ª delegacia de Manhattan, onde eles trabalhavam.

― Ah, sabe, apenas mais um dia bem normal no trabalho. ― ele se espreguiçou na cadeira e olhou para ela com um olhar que ao mesmo tempo que era sedutor, também era carinhoso e um pouco... apaixonado? Não, aquilo deveria ser paranoia da mente dela. Sim, ela não recebia aquele tipo de olhar muito seguidamente, então provavelmente não significava nada.

― Bem, se quiser minha opinião, você merece tudo isso. Pode ser desleixado, infantil e suas brincadeiras às vezes podem ir um pouco longe demais, porém... ― , automaticamente e sem pensar, pousou sua mão na coxa dele. ― Você merece, afinal, é um ótimo detetive.

― Obrigado, . Isso significa muito para mim. ― pousou a mão dele em cima da mão dela que estava na sua coxa, fazendo-a corar um pouco. Entretanto, ele não demorou em tirá-la dali e apontar para o microfone perto deles, querendo informar que faria um discurso. entendeu o recado e deixou ele ir, preparando-se para ouvir o mais atrevido discurso de todos.

Um garçom alcançou uma garrafa de cerveja para , que estava ajustando o microfone para sua altura e tentando chamar a atenção dos outros convidados.

― Bem, é um prazer estar aqui com todos vocês. Essa medalha pendurada no meu traje é incrível, né? ― olhou para baixo e ficou admirando o objeto por muitos segundos, atrasando seu discurso e fazendo as pessoas se entreolharem. Quando percebeu, ele riu e continuou a falar. ― Prender Valorecci foi definitivamente um dos melhores momentos da minha carreira como detetive, se não o melhor, mas não teria conseguido fazer isso sem a ajuda de algumas pessoas. O Sargento Rogers e a Capitã Lowes foram ótimos mentores e me ajudaram muito nesse processo, tendo paciência comigo durante todos os passos. Mas se tem alguém que deveria estar aqui comigo, esse alguém é . A Detetive aguentou no começo o meu convencimento de ter pego esse caso, mas eu nunca poderia tê-lo resolvido sem a ajuda dela. Ela atendeu todas as minhas ligações de madrugada quando eu parecia que enlouqueceria tentando entender certas partes desse caso, me encorajou e deixou o ambiente mais leve sempre que ia para o meu apartamento para me ajudar a juntar algumas peças. Eu nunca teria feito isso sem ela.

encarou , que parecia chocada com as palavras dele, mas extremamente agradecida. Ela sorriu timidamente e ele também, antes de continuar com seu discurso.

― Muito obrigado a todos vocês por estarem aqui para testemunharem o meu ótimo senso de detetive e celebrarem o quão incrível eu sou! ― ele agradeceu, é claro, sem conseguir segurar o convencimento. Quando terminou, saiu dali com um sorriso atrevido, olhando para todos os presentes, mas tropeçou num fio durante o caminho, causando risadas em todos os colegas.

― E aqui eu achando que você teria uma saída triunfal. ― ria enquanto falava quando o colega voltou a sentar do lado dela.

― É a vida. ― deu de ombros, mas logo se virou para ela e a encarou por alguns segundos, respirando fundo como se estivesse tentando tomar coragem para alguma coisa. ― Mas eu e você poderíamos ter uma saída triunfal. Juntos.

― O que quer dizer com isso? ― ela franziu o cenho, não entendendo muito bem.

― Eu quero te levar para sair um dia desses. Jantar, assistir um filme, ir para um fliperama... sei lá, o que quiser. ― ele explicou, mas permaneceu confusa.

― Como amigos? ― ela perguntou.

― Não... como num encontro. ― não ligou para a lerdeza da garota ao seu lado de tão nervoso e hesitante ele também estava.

― Ah. ― ficou cabisbaixa e sabia exatamente o porquê. ― , você sabe...

― Sim, , eu sei. ― ele suspirou. ― Não precisa me dar uma resposta agora, está bem? Só... considere isso, por favor.

― Sim, eu vou considerar. ― ela assentiu lentamente e abriu um sorriso tímido.



Parte Um

andava de um lado para o outro em seu quarto, remoendo a sua mente com pensamentos do pedido de . A sua amiga e parceira de polícia, Eliza, não ajudava com o olhar julgador enquanto estava sentada na cama, abraçada no macaco de pelúcia de .

― Querida, já faz dois anos. ― Eliza disse. ― Você precisa sair com alguém, e quem melhor que o ?

― Quem pior que o , você quer dizer? ― suspirou e parou na frente da amiga. ― Ele é um policial, Eliza. Ele é um dos meus amigos mais velhos. Você não consegue ver o quanto pode dar errado caso nós namorarmos?

― Você é uma policial também, , e ele ainda assim está disposto a tomar esse risco. ― ela tentava justificar, mas isso não convenceu a outra.

― Ele não passou pelo que eu passei, se não ele nem consideraria me chamar para sair! ― respirou fundo e tentou se acalmar.

― O que aconteceu com o Harrison não vai acontecer com o , você precisa acreditar nisso. Aliás, você nem gostava tanto assim do Harrison, você inclusive pensava em terminar com ele antes da... bem... ― Eliza odiava ter que tocar em um assunto tão delicado. ― morte dele.

― É, isso não me conforta muito. ― semicerrou os olhos enquanto encarava a amiga, mostrando sua insatisfação.

― O que estou tentando dizer, querida, é que vale a tentativa. Considere pelo menos um encontro. Ou nem um encontro, sugira sair para tomar um café, ou ir para o festival de primavera, algo assim. ― Eliza continuava insistindo, mas parecia estar finalmente cedendo. ― Eu vi o jeito que você olha para ele, , não sou uma idiota.

simplesmente não acreditava que estava abrindo espaço em sua mente para considerar aquela sugestão. Namorar alguém do ramo policial estava completamente fora de cogitação nos últimos anos, é uma profissão com muitos riscos e muito a perder.

Ela odiava . Ela odiava aquela mesa bagunçada, com papéis de bala do século passado nas gavetas, ela odiava o jeito convencido dele, o quão infantil ele era e seu pouco senso de responsabilidade. Ela odiava aquela mania estúpida de competitividade, que ela até alimentava, mas mesmo assim. Ela odiava tantas coisas sobre desde que eles se conheceram, dez anos atrás, quando ele veio transferido de uma delegacia do Queens, mas aprendeu a lidar com elas com o tempo. Quando eles deixaram suas ridículas competições de lado e foram forçados a formar uma parceria em um caso da polícia, começaram a gostar muito um do outro. Se preocupavam com suas respectivas vidas, saíam para beber e até deu um gato para por achar que ele estava muito solitário no seu apartamento. Funcionava, e ela não queria estragar aquilo.

Aliás, era terrível para relacionamentos. Ela nunca viu ele conseguir manter uma garota ao lado dele por mais de um mês; não que ela fosse muito melhor, mas pelo menos teve um relacionamento de três anos durante o Ensino Médio, enquanto o amigo nunca chegou nem perto dessa marca. Poderia ser desastroso e destruir toda a amizade a qual todos na delegacia lutaram para que eles tivessem.

Mas ele era bom... ele cuidava de . Ele levava os donuts favoritos dela quando ela ficava de plantão. Ele ficou na volta dela por meses após Harrison morrer apenas para ver se ela estava bem e para tentar distraí-la. A ajudava com seu instinto policial assustador, porém eficiente, quando ela não conseguia resolver um caso. Ele fazia questão de aparecer no apartamento dela com um pote de um litro de sorvete do sabor favorito de quando eles tinham um péssimo dia no trabalho, ou apenas um dia chato. Se eles namorassem, aquilo poderia funcionar.

Então fez a sua decisão. Poderia se arrepender e poderia dar muito, muito errado, mas valia a pena arriscar.


(...)



Ela respirou fundo enquanto encarava brincando com uma action figure do homem-aranha, ignorando toda a papelada na sua frente. Ela realmente estava afim daquele cara? Ela, , a garota que passou pela escola com a média perfeita, passou no exame de detetives com a nota máxima em todas as modalidades, que tinha conseguido o maior número de prisões e casos resolvidos por quatro anos seguidos, estava afim de um homem que mal sabia amarrar os próprios tênis. Aquilo era simplesmente desprezível, na sua visão.

Entretanto, ela não poderia evitá-lo para sempre. Precisava dar-lhe uma resposta e a tinha, então era uma questão de tempo. Marchou até a mesa dele, pigarreando e pensando exatamente no que diria, precisava ser direta e pragmática.

― Detetive . ― manteve a formalidade para não aumentar as suspeitas de seus colegas.

― Detetive . ― a cumprimentou de volta, parecendo um tanto quanto nervoso na volta da mulher.

― Você se importa de ir até a sala de documentos? Tenho... ― ela tentava procurar uma desculpa para levá-lo longe dali para que pudessem conversar. ― algumas coisas sobre um caso e... preciso da sua ajuda.

― Ah, eu posso te ajudar. ― o detetive Hames, um colega de trabalho um tanto quanto bobo, interrompeu , que ergueu a mão.

― Isso não é preciso, detetive Hames. tem me ajudado nesse caso e... apenas ele pode entender. ― ela abriu um sorriso amarelo e praticamente arrancou da cadeira dele, conduzindo-o até o local em que ela designou anteriormente.

― Ouch, meu braço precisa ficar colado no meu corpo, ! ― ele a advertiu sobre a dor que sentia após o puxão. ― O que quer?

― Eu tenho uma resposta. ― ela disse, mas ele não pareceu entender.

― Resposta? ― perguntou com o cenho franzido.

― Para o seu pedido. ― ela tentou esclarecer, mas ainda parecia perdido, fazendo-a revirar os olhos. ― Do encontro.

― Ah! ― ele pareceu perceber sobre o que se tratava, então se ajeitou e ficou mais nervoso do que já estava anteriormente. ― Pode falar.

― Eu quero ir para esse encontro. E se ele der certo...

― Vai. ― parecia confiante.

Se der certo. ― voltou a reforçar seu ponto. ― Não vou querer nada sério. Pelo menos por um bom tempo. Você sabe que eu não procuro sair com nenhum homem que trabalhe em uma área de risco e eu só estou abrindo essa opção para você porque acho que poderemos ter uma sintonia boa e eu não quero desperdiçar isso. Então...

― Mas se você não quer desperdiçar isso e acha que temos uma sintonia boa, por que não quer nada sério? ― ele a questionou na curiosidade mais inocente.

― É isso ou nada. ― ela falou, mas aquilo até que o satisfez um pouco e o fez sorrir.

― Te pego às 20h.



Parte Dois

Alguns meses depois...


olhou para a pessoa ao seu lado. Cabelo preto liso, mas bagunçado e com partes grudentas de suor, olhos castanhos e brilhantes, bochechas rosadas e um sorriso cheio de prazer. era, para ele, a pessoa mais bonita do mundo mesmo depois uma daquelas transas maravilhosas, porém bem suadas e primitivas.

Pois é, aquele encontro, meses antes, deu certo. E o encontro seguinte, e o outros depois desse, o outro depois desse... eles estavam dando certo. Entendiam um ao outro, acompanhavam-se em jornadas malucas e tinham um sexo maravilhoso. Contudo, a mente de ainda não mudara; nunca passou em sua cabeça mudar aquilo para algo sério, mesmo que já estivesse quase se tornando naturalmente, ela nunca vocalizaria isso. Isso era algo que afetava um pouco, porque ele em si já tinha pensado em um relacionamento sério pelo menos duas vezes... por dia.

― Eu tenho que ir. ― ela disse baixinho, abrindo um sorriso modesto.

― Não! Quero te fazer café da manhã antes de sair. ― sugeriu, mas suspirou.

― Se eu ficar... ― ele já sabia exatamente o que ela falaria, então a interrompeu antes disso.

― Não vai significar nada, eu prometo. ― disse, mas com um pontinho de mentira. ― Qual é, você deve estar fome.

― É, estou, na verdade. ― deu uma risada fraca e considerou o pedido dele. ― Tudo bem, só café da manhã. Desde que você me deixe usar seu chuveiro, estou me sentindo suja de tão suada.

― Claro, sem problemas. ― ele concordou, mas se lembrou de algo. ― Só... não use a toalha cinza.

― Deixe-me adivinhar, ela não era originalmente cinza? ― ela perguntou, já sabendo a resposta, pois estava muito bem avisada das nojeiras de . O homem assentiu, confirmando as suspeitas dela. ― Pode deixar, eu nunca tocaria naquela coisa.

Enquanto tomava seu banho, pegou uns waffles congelados que estavam no freezer e os colocou numa torradeira, colocando todas as geleias e cremes salgados que tinha na mesa, não sabendo realmente qual tipo de waffle a mulher gostava. Durante tudo isso, ele não conseguiu afastar o pensamento do quão confortável se sentia fazendo aquilo e o quão certo parecia.

era cheia de manias irritantes, organizada até o extremo e tão competitivo quanto ele, mas também era inteligente, gentil, amável e transmitia uma energia ótima em qualquer ambiente que esteja. sabia que estava se apaixonando por ela, mas o fato de eles se envolverem mas ela não querer nada sério realmente não ajudava. Ele faria tudo para que ela se tornasse flexível a um relacionamento de verdade, mas também não queria insistir; estava em uma corda bamba que estava prestes a arrebentar.

Vê-la aparecer depois do banho com o cabelo molhado e o rosto limpo só piorou as coisas. Era como se estivesse esperando anos por um momento como aquele sem nem saber. Observar em um momento de naturalidade parecia ser justamente o que ele precisava.

― Você por acaso não tem algum secador, né? ― ela presumiu e ele balançou negativamente com a cabeça. ― Já imaginei. Ah, mas agora meu cabelo vai ficar todo armado e... ugh.

― Bem, se quiser a minha opinião, você ficou bem assim. ― disse com uma certa timidez, mas pareceu que não acreditou.

― É, porque está molhado, espere até ele secar. ― ela riu levemente até botar os olhos na mesa, sorrindo com os itens ali. ― Você fez waffles? Eu amo waffles.

― Sim, e também coloquei vários tipos de cremes, caldas geleias e frutas porque não sabia o que você gostaria de colocar em cima do waffle. ― foi até a cozinha junto com ela.

― E agora você atiçou a minha indecisão. ― brincou enquanto se ajeitava na cadeira. ― Obrigada por isso, eu amei.

olhou para a colega quando a mesma disse aquelas coisas com um certo brilho. Seu coração aqueceu, ficando feliz com a felicidade dela. Contudo, a memória de falando que não estava interessada em um relacionamento sério voltou como um tsunami em sua mente, então ele decidiu engolir aquele sentimento.

― Você vai querer que eu te busque para o baile? ― perguntou após minutos e minutos de um silêncio desconfortável.

― Ah, não, se não vai parecer que estamos juntos, certo? ― ela respondeu enquanto limpava o canto dos lábios com um guardanapo.

― É, certo. ― ele assentiu lentamente e com um certo desgosto.

O “baile” ao qual se referiu era o baile de gala organizado pela NYPD em comemoração aos 170 anos da instituição. Praticamente todos os funcionários da polícia estariam lá, e seria algo muito grande.

― Tem algo errado, ? ― , esperta e ótima detetive como era, notou a expressão chateada do homem a sua frente.

― Não, , nada. ― respondeu, mas ela ainda não se sentiu convencida.

― O que está acontecendo? ― ela franziu o cenho e pegou a mão dele que estava à toa em cima da mesa, sem perceber no efeito que aquilo teria. ― Você já está meio estranho há alguns dias.

... ― estava pronto para dizer outro “não, nada está acontecendo”, mas o toque de sua mão macia apenas o destruiu. Ele suspirou e fechou os olhos, admitindo a derrota. seria seu fim, cedo ou tarde, então ele decidiu admitir. ― Acho que estou me apaixonando por você.

Chocada com aquelas palavras, tudo que a policial conseguiu fazer foi ajeitar a própria postura e desfazer o toque de mãos. Ela achava que aquilo estava indo tão bem! E realmente estava, pelo menos no seu lado da história. Aquelas exatas palavras foram a razão pela qual ela hesitou tanto meses atrás, quando a chamou para sair. Ela deveria ter adivinhado, todos os sinais estavam lá.

Entretanto, a pior parte foi a sensação dentro de si ao ouvir aquilo. não se sentiu estranha, ou brava, irritada, triste, tampouco desconfortável. Ela entendeu, gostou, até. Assustada com todo esse combo de acontecimentos, a sua próxima reação foi se levantar, pegar a sua bolsa e ir embora do apartamento do colega sem ao menos abrir a boca para responder algo.

E nem é preciso dizer que isso deixou arrasado, certo?


(...)



Vestir uma gravata-borboleta não era do costume de , mas aquele evento em particular o obrigou a fazer isso, o que na verdade deixou-o feliz; sentia-se como James Bond em um traje tão chique. Em uma parte da noite, ele até chegou a pegar uma taça de champagne de uma das bandejas de circulava com os garçons entre os convidados e encarar o ambiente em sua volta com os olhos semicerrados, para fingir que estava em um dos filmes do espião e vendo algo mega suspeito.

Essa brincadeira, contudo, causou com que o olhar do policial pousasse em uma certa mulher vestindo um vestido longo, rosa e muito justo no corpo com uma pequena fenda na panturrilha e com o cabelo muito diferente do que se mostrou durante a manhã daquele mesmo dia. estava com o olhar triste e a expressão entediada enquanto conversava com alguns colegas da polícia, mas aquilo mudou quando ela sentiu que estava sendo observada.

Assim que ela viu , pediu licença ao grupo com que estava conversando e foi até ele em passos graciosos, fazendo o coração dele doer ainda mais.

― Oi. ― foi tudo que ela disse quando se aproximou dele.

― E aí. ― pressionou os lábios e acenou com a cabeça.

Os dois ficaram vários segundos ali, parados, em pé, olhando um para o outro sem saber o que dizer. Aquele momento durante a manhã tinha estragado absolutamente tudo. faria tudo para voltar no tempo e não falar o que falou; já faria tudo para voltar no tempo e não sair do apartamento dele feito uma louca, sem dizer alguma coisa.

― Gostei do seu terno. ― ela comentou. ― Faz você parecer com o James Bond.

― Justamente o efeito que eu estava procurando. ― ele disse com bastante humor, mas isso logo evaporou; só conseguia pensar no quão linda estava.

― Então, o que você disse hoje de manhã... ― cansada daquela enrolação, foi direto ao ponto.

― Bem louco, hein? ― riu nervosamente, com medo, e certeza, do que ela falaria em seguida.

― Eu não posso seguir com isso, sinto muito. ― ela suspirou, dando de ombros. ― Eu te disse meses atrás que não estava procurando por um relacionamento sério.

― Eu sei, só... tinha um pingo de esperança de que você tinha mudado de ideia. ― pôs uma mão no bolso esquerdo de sua calça social e a outra no cabelo, mexendo nele como era típico quando se sentia nervoso. ― Achei que estávamos indo tão bem e que estávamos na mesma página.

― É, achei isso também. ― torceu os lábios. ― Claramente nós dois estávamos errados, hein?

― Parece que sim. ― mordeu o interior da bochecha direita, outro hábito de seu nervosismo. ― Mas você não sentiu nada? Nem uma pontinha de algum sentimento romântico?

― Como assim? ― ela parecia confusa.

― Você tem certeza que não sente nada por mim? ― ele perguntou uma última vez, o que deixou bastante pensativa.

― Isso não importa, . ― disse, assim que processou todos os seus pensamentos e sentimentos. ― Tenho minhas razões para não querer me envolver com você ou qualquer outro homem numa profissão como a nossa, e a maioria delas são práticas, não sentimentais.

poderia não ser o detetive mais brilhante do mundo, muito menos uma pessoa perceptiva, mas ele entendeu perfeitamente o que ela quis dizer. Sim, ela sentia algo por ele, mas o medo dela ultrapassava qualquer sentimento que ela pudesse ter. Então, ele tomou uma decisão.

― Vou parar de insistir, então. ― ele abriu um sorriso triste. ― Tenha um bom resto de noite, . Te vejo no trabalho.

, em seguida, discretamente beijou a bochecha de antes de virar as costas e caminhar para longe da mulher, deixando-a tão arrasada quanto ele quando ela fez o mesmo mais cedo.



Parte Três

A manhã seguinte foi um verdadeiro inferno para . Desconcertada com a declaração de no dia anterior e com a conversa dos dois durante o baile, ela mal dormiu, então estava uma verdadeira bagunça. Olheiras roxas e inchadas, cabelo com muito frizz e um sono interminável.

Doze horas tinham se passado desde o “término” ― eles eram nada, então não foi realmente um término ― e ela já sentia uma falta enorme de , algo que nunca tinha sentido antes com tanta intensidade. Merda, isso era difícil.

Vê-lo no trabalho não ajudou muito. Na verdade, ela mal o viu, pois assim que chegou ― atrasado, como sempre ― a Capitã Lowes já lhe designou uma missão, em que ele escolheu outro colega, Rick, como parceiro. Entretanto, os poucos segundos em que seus olhares se cruzaram enquanto ele caminhava até a mesa dele proporcionaram a sentimentos mistos; tristeza, raiva, arrependimento...

Mas ela era . Assim que e Rick foram embora para investigar a missão que a Capitã lhes dera, ela decidiu deixar aquilo de lado e fazer seu trabalho. Continuaria a pesquisar por arquivos e dados ligações em seus casos, sendo a ótima profissional que sempre foi, mesmo depois de ter desilusões amorosas.

Tentou também dizer a si mesma milhares de vezes que aquilo havia sido sua própria escolha. Não poderia, nem iria, namorar alguém em uma profissão de risco. Ter vivo e sem ela era melhor do que namorar com ele e sofrer no funeral, certo?

Errado.

Algumas horas depois, estava tomando um bom café na cozinha da delegacia para manter-se acordada, quando passou a perceber uma certa agitação entre os colegas. Confusa com a situação, recorreu ao Sargento Rogers para informá-la sobre o que estava acontecendo.

― Oi Sargento, por que todos tão agitados? ― questionou, com a xícara de café branca com símbolo da NYPD ainda em mãos.

― O detetive recebeu um tiro na perna durante sua missão com o detetive Brown. Ele perdeu muito sangue e a equipe está se preparando para ir ao hospital. ― ele contou, um tanto quanto ofegante e triste.

arregalou os olhos assim que ouviu a palavra “tiro”, sentiu o coração acelerar ao ouvir “na perna” e sentiu a maior vontade de chorar ali mesmo com “ele perdeu muito sangue”. Contudo, precisou transparecer mais confiança na recuperação do colega e preocupação e menos desespero e tristeza. Já não estava mais ligando se soubessem do relacionamento, só não queria parecer frágil.

Ela foi até o hospital com o resto da delegacia. E eles esperaram. Muito. A cada segundo aumentava a ânsia por notícias do estado de , e a cada segundo a preocupação de que algo mais sério poderia estar acontecendo consumia e seus pensamentos. O que ela mais queria era que ele ficasse bem, é claro; isso era prioridade. Entretanto, não conseguia evitar pensar no estado do relacionamento deles.

E se ele morresse e ela nunca tivesse a oportunidade de esclarecer para ele os seus sentimentos?

E se ele morresse e ela nunca mais visse aquele sorriso bobo e ouvisse aquelas piadas idiotas e infantis?

E se ele morresse e ela nunca mais olhasse em seus olhos castanhos?

E se ele morresse?

Ela simplesmente odiava pensar nisso, mas depois de algumas horas, aquilo fez com que seus sentimentos ficassem mais claros e óbvios em sua perspectiva. Então, finalmente conseguiu focar apenas no bem estar de ao invés de ter aquele pingo de culpa por achar que estava sendo egoísta ao imaginar o que aconteceria com ela.

Ela logo foi um pilar para aqueles em sua volta. Consolou os colegas, ajudou a mãe e irmã de com tudo que elas pudessem precisar e sempre procurou se informar. Foi a primeira a doar sangue quando os médicos declararam ser necessário. E também foi a primeira, depois da família dele, de vê-lo após as transfusões.

Ele estava inconsciente, porém respirando e com os batimentos cardíacos relativamente normais. Era uma questão de tempo até que ele acordasse. E céus, aquilo foi um enorme alívio para .

A policial se recusou a ir para casa para fazer algo além de dormir e tomar banho, além de ter levado todos os documentos e arquivos de seus casos atuais para o hospital para trabalhar com eles lá mesmo. Ela estava determinada a ficar ali até que ele acordasse.

O que, depois 72h de muito sofrimento e expectativas, finalmente aconteceu.

foi vê-lo consciente pela primeira vez junto com todos os colegas de trabalho, então foi difícil de conversar o que realmente queria conversar com ele, mas apenas em vê-lo de olhos abertos, falando com as pessoas em sua volta, fez ela quase explodir de tanta felicidade. Ela pacientemente esperou que cada um do esquadrão fosse embora para ficar apenas os dois ali, assim ela poderia finalmente revelar o que realmente sentia sobre a situação deles.

― Então, ouvi que você foi um herói. ― disse, sentando na poltrona ao lado da maca em que estava deitado. ― Pulou na frente do Rick para impedir que ele fosse baleado. Um ato de muito bravura.

― Muito obrigado, senhorita , é uma honra ouvir isso vindo de você. ― ele riu fraco, olhando para ela como se ela fosse o próprio sol.

― E também ouvi dizer que você se cansou de me assustar com as peças que prega na delegacia e decidiu me assustar com a sua própria vida. ― ela brincou, mesmo que tenha expressado um pouco de tristeza em sua fala.

― Acho que agora eu realmente estraguei minhas chances de ter um relacionamento sério com você. ― suspirou, pressionando os lábios enquanto ainda olhava para ela.

― Na verdade... ― surpreendeu ao pousar a mão em cima da dele e ao encará-lo com um olhar terno. ― Isso me fez pensar sobre algumas coisas.

― Ah é? Que coisas? ― ele perguntou, curioso e até um tanto quanto confuso.

― Eu odiaria se você morresse, isso é verdade. Eu sofreria muito, mais do que sofri do que quando isso aconteceu com o Harrison, afinal eu e você somos amigos de longa data e tenho que admitir que o que tivemos nos últimos meses foi muito mais do que apenas casual, sim. Foi bem especial. ― ela acariciou o cabelo encaracolado de com a mão que tinha livre, e olhou para ele com os olhos marejados. ― Mas eu me arrependeria e sofreria muito mais se você morresse e eu nunca tivesse a chance de me envolver seriamente com você.

― Você está dizendo o que eu penso que está dizendo? ― abriu um sorriso enorme e o brilho em seus olhos intensificou, e sua animação fez ele parecer ainda mais recuperado.

― Eu te amo, . Você é infantil, competitivo, nojento, mas eu te amo mais do que já amei qualquer outro cara. ― se declarou, abrindo um sorriso tão grande quanto a do colega.

― Eu também te amo, .



Epílogo

Três anos depois...


Nada deixava mais feliz do que comer um hambúrguer enorme e tão cheio que os ingredientes chegavam a cair no prato. Sujar-se de molho era outra alegria estranha. Ela era o tipo de mulher que odiava sujeira, odiava manchas e adorava tudo limpo, exceto quando se tratava de comidas que ela gostava. Quando se tratava de comida, ela voltava pelo menos 20 anos no tempo e se sujava como uma criancinha.

realmente não se importava com aquilo. Era um dos únicos momentos que ele conseguia entender a namorada 100%, afinal ele fazia uma bagunça quando comia, também. Aliás, vê-la tão concentrada no hambúrguer e com maionese no canto dos lábios faziam-na parecer ainda mais fofa.

Mas ele não estava demonstrando expressão alguma, ele estava nervoso... e tinha um ótimo motivo para estar.

, o que houve com você? ― ela perguntou com a boca cheia. ― Você está parecendo meio estranho.

― Nada, amor. ― ele riu dela e a encarou romanticamente. ― Não se preocupe.

deu de ombros e murmurou um “ok”, logo voltando a se concentrar para acabar com aquele hambúrguer. estava lentamente comendo suas batatas frias quando ouviu uma chamada no rádio da polícia.

“Precisamos de todo o esquadrão na rua 86, repito, todo o esquadrão na rua 86.” A voz da Capitã Lowes anunciava.

ficou um tanto quanto confusa, considerando que ambos estavam de folga, mas ela nunca atreveria desafiar a autoridade de a Capitã ou qualquer outro superior. não estava confuso; ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Então, o casal se preparou e foi até a rua designada, que não era tão longe de onde eles moravam ― juntos. É, muito mudou em três anos.

― Detetives, sinto muito por tê-los tirado de sua folga, mas recebemos uma denúncia de que Gerard Vouchy está aqui. ― a capitã se justificou quando viu o casal se aproximando. ― O equipamento está na van, peguem seus coletes e suas armas que logo entraremos nesse armazém.

Embora não tenha entendido muito bem o que estava acontecendo minutos antes, compreendeu quando ouviu o nome citado. Gerard era um enorme traficante de drogas que cresceu na alta sociedade de Manhattan nos últimos meses e a polícia estava tentando prendê-lo há muito tempo. Sem hesitar, foi até a van estacionada na rua para se equipar e invadir o armazém com o resto dos colegas, sem nem saber o que estava por vir.

O ambiente estava escuro e úmido até demais, entretanto, não parecia ter alguém ali além dos policiais que revistavam o lugar. Não havia sinal algum de algo sendo achado, até que ouviu uma chamada em seu rádio.

“Policial ferido no corredor da segunda divisória depois do portão, repito, policial ferido”

Sentindo sua garganta fechar e o medo consumindo seu corpo, correu até o corredor citado para ver que colega estava abatido, e foi como se o seu pior pesadelo tivesse se tornado realidade.

estava deitado no chão, cheio de sangue e com os detetives na volta preparados para chamar uma ambulância. Ela sentiu como sua alma tivesse saído para fora de seu corpo e correu até o corpo do namorado.

? Ai meu Deus! ― segurou-o em seu colo, sentindo as lágrimas escorrerem em seu rosto. ― , fale comigo!

Pouco a pouco, o policial foi abrindo os olhos. O desespero de era evidente, mas quando ela menos esperava, ele sorriu.

― Te peguei. ― sussurrou, deixando a namorada extremamente confusa.

― O quê? ― ela questionou, franzindo o cenho.

A resposta dele foi tirar o colete e a camisa por baixo, apenas para revelar uma bolsa de sangue falso.

Mesmo sem entender, sentiu uma onda de alívio em seu coração, substituindo o peso que estava sentindo anteriormente. Contudo, o alívio não demorou a se transformar em raiva.

― Por que você faria isso, ? Temos um traficante para pegar! ― exclamou, sentindo um ódio enorme pelo namorado.

― Na verdade, não temos. ― ele revelou, a confundindo ainda mais.

― Como assim? ― franziu o cenho e passou a olhar em volta. Todos os seus colegas pareciam tranquilos, na verdade, pareciam felizes. Aproveitando a distração da namorada, tirou uma pequena caixa de veludo do bolso de sua calça jeans. logo notou que seus colegas de trabalho pareciam estar chorando, fazendo com que ela estranhasse ainda mais a situação. ― Por que vocês estão todos chorando?

Assim que ela voltou a atenção para e viu a caixinha aberta com um anel dentro, seus olhos se arregalaram. Nada poderia ter lhe deixado mais surpresa do que aquilo.

― Eu armei tudo isso com o esquadrão. ― ele contou. ― E sei que isso provavelmente te deixou desesperada e desolada, mas você me conhece. Não consegui pensar em um jeito melhor para te pedir em casamento.

― Nem o clássico anel no champagne? ― perguntou, já com a voz embargada de tanta emoção.

― Clichê demais para nós. ― respondeu, com um sorriso mais apaixonado do que nunca. A mulher concordou, e logo respirou fundo para dizer as palavras certas. ― , você é linda, gentil e... a pessoa mais inteligente que eu conheço. Esses últimos três anos foram os melhores da minha vida, e só consigo pensar em uma maneira para que os próximos sejam ainda melhores. , quer se casar comigo?

― Sim!

, como minutos antes, chorava como nunca, mas dessa vez era de felicidade. E naquele armazém escuro, fedido, em que o chão estava manchado de sangue falso e todos os detetives da 89ª delegacia de Manhattan batiam palmas e choravam junto com os novos noivos, sentiu-se amor como nunca antes.





Fim



Nota da autora: Oi amores! Então, sou a organizadora desse ficstape lindo. The 1975 é a minha banda favorita de todos os tempos e quando vi que não existia um ficstape deles, PRECISEI organizar um! Fallingforyou também é uma das minhas músicas favoritas deles, e quando escutei lembrei muito do Jake e da Amy de B99 e também PRECISEI escrever uma fic inspirada neles HAHAHAHAH (com um pouco mais de drama, obviamente). Muito obrigada se vocês leram até aqui, espero que tenham gostado não só da minha fic, mas do ficstape inteiro <3





Outras Fanfics:
Before The Sunset: Originais/Em andamento
The Night We Met: Outros/Em andamento
03. Everybody's Watching Me: Ficstape: The Neighbourhood - I Love You
07. Gonna Get Caught: Ficstape: Demi Lovato - Don't Forget
09. Stop The World: Ficstape: Demi Lovato - Here We Go Again
09. Scars: Ficstape: Miley Cyrus - Can't Be Tamed
10. SOS: Ficstape: Abba Gold - Greatest Hits
11. Contagious: Ficstape: Avril Lavigne - The Best Damn Thing
14. Everytime: Ficstape: Britney Spears - The Essential
15. She Don't Like The Lights: Ficstape: Justin Bieber - Believe
18. That Should be Me: Ficstape: Justin Bieber - My Worlds


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