CAPÍTULOS: [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10]





Back To The Beatles






1. Make a Wish


– Tchau dude! A gente se vê amanhã cedo no ensaio, vê se não enche a cara. – disse enquanto nossas mãos davam um Hi-five desengonçado.
– ‘Ta pensando que eu sou você, ? – eu sorri vitorioso enquanto ele me respondia com uma careta. – Pode deixar, dude. – eu completei enquanto fechava a porta do meu apartamento.
havia me dado uma carona até em casa porque meu carro estava na oficina pra variar um pouco. Acho que ele anda mais quebrado do que funcionando normalmente, penso eu que deveria comprar um novo, quem sabe eu não faça isso logo? Perdi-me em pensamentos enquanto me dirigia até o quarto. Sentei na cama, tirando os tênis. Logo em seguida fiz o mesmo com a camisa xadrez que eu vestia desde cedo e a joguei em um canto aleatório do quarto; tudo que eu precisava era de um banho e minha cama fofinha. Nossa, isso soou bem gay, dude.
Tenho que parar de andar com o , se bem que isso é um pouco difícil já que estamos na mesma banda. Mas enfim, eu sou , não vejo nada de gay nisso e só não sou tão pegador quanto o , minha personalidade não me permite isso; as mulheres têm sentimentos, cara. Meu Deus! Quanto mais eu tento consertar, pior fica. Melhor eu parar com esse papo e ir logo para o banho.
Tirei meus jeans e minhas boxers de uma só vez, joguei-as perto da camisa que eu havia lançado ainda há pouco, andei me espreguiçando até meu aparelho de som e pluguei meu Ipod. Coloquei pra tocar a banda que mais me fazia relaxar: The Beatles. Fui andando lerdamente até o banheiro e virei o registro, enquanto ouvia os primeiros acordes de "Can't Buy Me Love".
“I'll buy you a diamond ring my friend, if it makes you feel all right”, eu cantarolava alguns trechos da música enquanto sentia a água escorrendo pelo meu corpo; não existe coisa mais relaxante pra mim do que a combinação Chuveiro + The Beatles. Eu já tirava o xampu do meu cabelo quando meus pensamentos rumaram para a entrevista que participamos nesta tarde.

Flashback ON

– É com todo o prazer do mundo que eu recebo mais uma vez, no “Hello England”, a banda de maior sucesso da Inglaterra: preparem-se garotas, vem aí o McFly! – eu ouvi a apresentadora nos anunciar e logo em seguida, uma grande chuva de aplausos. Então, um cara da produção nos avisou que já estava na hora de entrarmos no estúdio (o que causou um barulho ainda maior da platéia). Eu já estava no meio do palco, com o microfone na mão, mas o barulho era tanto que nem eu nem nenhum dos garotos conseguíamos dizer nada. Havia algumas fãs chorando, outras com cartazes do tipo “Marry me, ”, “Team ”, o que já era natural. Mas eu vi um que me fez soltar um riso alto, o que chamou a atenção dos outros.
Harry, que estava mais no fundo do palco, aproximou-se de mim e arqueou uma sobrancelha como se dissesse: “Você é louco? ‘Ta rindo de quê?”. Então eu lhe apontei discretamente um cartaz que dizia: “I want to marry a McGuy” (Eu quero casar com um McGuy). Ele e os outros também começaram a rir descaradamente. Lisie, a apresentadora que devia ter seus 40 anos, pediu silêncio da platéia e nos convidou pra sentar em um sofazinho onde seria feita a entrevista. Todos a seguimos, mas , como sempre retardatário, ainda ria do cartaz da garota.
– Wow! Acho que perdi alguma coisa, garotos, porque vocês estão rindo? – Lisie perguntou e avistei Harry dar um cutucão em e este parar de rir na hora.
– Hãn... Bem, Lisie... – tentava dizer alguma coisa enquanto coçava a cabeça e eu resolvi interromper porque já previa que ele ia dizer merda.
está com um pequeno problemas de gases. Sabe como é, acho que ele comeu alguma coisa ontem que não o fez muito bem. – eu me intrometi com um sorriso vitorioso no rosto enquanto bufava cruzando os braços. A apresentadora riu abafado e olhou as fichas provavelmente procurando a primeira pergunta.
– Bem, o que vocês estão preparando para o tão esperado próximo disco? – ela começou enquanto eu sorri fracamente. As mesmas perguntas de sempre. Não sei por que as pessoas não usam um pouco mais da criatividade na hora de fazer as entrevistas, já respondemos essa pergunta umas sete vezes só essa semana. Alguns segundos de silêncio se instalaram e logo em seguida, começou a responder para a mulher; ele me conhecia e se eu demorei pra responder, era porque hoje eu não iria abrir a boca.
O resto das perguntas seguiu como a primeira, a maioria eu nem prestei atenção pra dizer a verdade. Estava em um universo paralelo em que eu tocava Close To Comfort pelado pra uma legião de garotas igualmente nuas até que algo chamou minha atenção, fazendo-me prestar atenção na apresentadora.
– Pensamos em fazer algo diferente com vocês, garotos! – Lisie dizia completamente animada com um sorriso de 5 km no rosto. Espero mesmo que seja algo diferente, bem mais diferente do que as perguntas clichês. Enquanto ela batia palmas e era seguida pela platéia, uma senhora de idade, cheia de brincos e pulseiras, trajando um vestido colorido, ia entrando no estúdio.
Definitivamente, era uma figura estranha. Olhei para os garotos: todos estavam com a mesma cara de bunda que a minha, não estavam entendendo porcaria nenhuma.
– Bem, essa aqui é Moon; uma cartomante. – a apresentadora dizia animadamente enquanto a senhora se sentava ao seu lado. Um contra regra apareceu com uma mesinha e umas cartas de Tarô. Ó meu Deus, já estou vendo aonde ela quer chegar! Olhei para Harry; estava tão desconfortável quanto eu, sua boca formava um “o” de indignação. Percorri meus olhos mais um pouco. estava com os olhos brilhando de ansiedade, completamente animado com essa idéia. Já estava inclinado sobre a mesinha da mulher mexendo nos cacarecos da velha, digo, senhora.
– Não mexa aí, garoto! – ela bateu na mão de , afastando-o. E uma voz hesitante saiu da boca daquela senhora, tão fraca que acredito que se ela não tivesse o microfone grudado na roupa, ninguém a haveria escutado.
desfez o sorriso e se recostou no sofá como nós. Um silêncio desconfortável se instalou, ninguém pronunciava nada enquanto a cartomante arrumava umas cartas na mesinha. Eu não me atrevia a falar, nunca gostei muito desse tipo de coisas. Quando eu era criança, eu tinha até medo. Ok isso foi gay, tenho que parar de confessar esse tipo de coisa constrangedora, mesmo que pra mim mesmo.
– Então... o que a senhora pensou pra hoje, Moon? Adivinhar o futuro dos garotos? Se o próximo single vai bombar nas paradas? Qual é o melhor dia pra eles começarem a turnê? – a apresentadora mexia em seus longos cabelos loiros enquanto fitava a mulher mexendo nas cartas. Ela enrolava a pontinha dos cabelos. Pela primeira vez, não exibia o enorme sorriso no rosto, parecia um pouco curiosa, ou até apreensiva pela primeira vez.
– Eu... pensei em algo menos tradicional com eles, Lisie... – a velha sussurrou novamente enquanto me fitava. Nem preciso dizer que gelei, ela olhava tão profundamente nos olhos que parecia querer ler minha alma. Sustentei meu olhar no dela por alguns segundos até que o desviei. Nesse momento, ela cortou as cartas e continuou, dessa vez olhando para nós quatro.
– Qual seria o maior desejo de vocês? A coisa que vocês mais quisessem em todo o mundo? – ela falou tão sério que um frio passou cortante pela minha espinha, mesmo com o aquecedor funcionando dentro do estúdio. O silêncio no estúdio era imenso, ninguém se atrevia a falar nada, nem as fãs histéricas que há pouco estavam aos gritos. O pessoal da produção que falava a todo instante no radinho, nada; nem um som de respiração podia ser escutado. Eu acho que podia sentir que Harry segurava a respiração ao meu lado.
– Ganhar na loteria! – soltou depois de fazer uma cara pensativa. Então fez uma de intelectual.
– Casar com a Joss Stone! – os olhos do brilhavam quando ele disse o nome da cantora [n/a: eu não sei o que eles vêem nela, hunf.]. Logo em seguida, abriu um largo sorriso.
– Acho que temos que ter algo mais específico. O que acha, Moon? – Lisie riu das respostas dos garotos e sugeriu, olhando a senhorinha mexendo nas cartas enquanto assentia concordando.
– Você, rapaz... – ela disse da forma mais alta até agora enquanto apontava com uma carta do baralho em minha direção. Eu engoli em seco. – O que você desejaria, se pudesse? – ela continuou. Eu sabia que depois daquele olhar sinistro que ela me deu, viria algo pior. Mexi nos meus cabelos por alguns instantes pensando em algo pra responder para a senhora.
– Ãn... – eu comecei hesitante e ela afirmou com a cabeça me encorajando. – Eu queria que fôssemos que nem os Beatles. – respondi tudo de uma vez; eu não sei por que ‘to fazendo tanto cu doces pra falar a verdade. É uma senhora, provavelmente uma atriz contratada pelo programa pra fazer esse quadro chato com a gente e atrair os espectadores. Então falei algo que fosse realmente legal. Não que não fosse bom ganhar na loteria ou casar com a maravilhosa da Joss Stone, mas digo algo legal, com conteúdo, afinal acho que é isso que os fãs esperam. Não é segredo pra ninguém que queira saber que somos fãs dos Beatles e nos espelhamos neles grande parte do tempo; os caras eram demais. Fizeram sucesso por aqui e depois ficaram nas paradas da Billboard também. Definitivamente é isso que eu queria e tenho certeza que os garotos também. – Ótima escolha... – a mulher baixinha sorriu pra mim e pela primeira vez eu sorri de volta. Com toda certeza eu estava mais tranqüilo com toda essa coisa, superei meus traumas de infância agora.
O resto do programa correu normalmente. A senhorinha fez umas previsões para o nosso futuro, disse que nosso próximo álbum ia fazer muito sucesso e que o iria arrumar uma namorada. Eu ri bastante nessa hora porque não aquieta o facho, todo mundo sabe disso. Mas enfim, deixa a senhora fazer seu trabalho, não é mesmo?

Flashback OFF

Quando terminei de relembrar a tarde dos caras no programa, eu já havia terminado meu banho e vestia uma boxer preta enquanto secava meus cabelos com a toalha. Meus olhos começaram a pesar, eu estava definitivamente cansado. Larguei a toalha em cima da privada sem me preocupar se meus cabelos já estavam secos ou não, escovei meus dentes e saí do banheiro com passos arrastados. Abaixei o volume do aparelho de som que agora tocava alguma coisa do Aerosmith e me joguei na minha cama king size. Não demorou muito para que eu já estivesse dormindo profundamente.

Um grupo de pessoas gritava coisas que eu não entendia direito. As vozes pareciam distorcidas ou abafadas, era como se todas estivessem gritando com um travesseiro na cara. Tentei prestar atenção e o som começou a ficar mais claro. Não eram pessoas gritando, mas conversando, tipo quando você entra em uma platéia e todo mundo está conversando ao mesmo tempo, então você não entende nada. Só agora me dei conta que eu não as via. Tentei abrir os olhos, mas eles ainda estavam pesados. Respirei fundo e o fiz com mais cuidado. Eu estava lá no meio daquela multidão, devia haver umas 200 pessoas. Pode não parecer muito, mas o lugar era um ginásio apertado, então 200 pessoas podem parecer milhões.
Era estranho, o lugar estava enfeitado com bexigas e flores de papel por todo o lado e as pessoas dançavam Twist que eu não conseguia prestar atenção qual era, mas a voz me lembrava algo como “The Twist” do Chubby Checker; sucesso nos anos 60. Continuei correndo os olhos pelas pessoas e notei que eu devia estar em uma festa retro, porque além da música, os penteados, as roupas... Todas por volta dos anos 60. Aí que me dei conta e analisei minha roupa: um paletó sem colarinho, calça justa e gravata. Definitivamente eu estava convidado pra essa festa, ri comigo mesmo. Não lembro mais de nada, não?
Sorri bobamente quando vi uma garota se aproximando de mim. Ela era linda. Sua pele era branca como a neve, seus cabelos tinham cor castanho avermelhado e o comprimento seguia um pouco abaixo do ombro, estava com uma fita presa na testa provavelmente impedindo que o cabelo atrapalhasse sua visão, andava de uma maneira delicada e a cada passo que dava, seu vestido azul rodado balançava vagarosamente. Quando ela já estava a poucos passos de mim, prestei atenção em seu rosto. Os olhos eram castanhos dos mais escuros possíveis, seus lábios se curvavam para cima em um sorriso perfeito com os dentes brancamente reluzentes. Nossos olhares se encontraram e quando ela percebeu que eu a fitava, suas bochechas que possuíam pequenas sardas coraram.
– Ei, você está aí, ? – ela disse meio desconfortável enquanto enrolava a ponta de uma mecha de seu cabelo. Então ela me conhecia? – Os garotos estão te procurando, vem logo. – ela continuou sorrindo fracamente e fazendo um sinal para que eu a seguisse pelo canto do ginásio. Então os garotos também estão aqui, bom saber. Mas como eu não lembro de ter vindo? Eu preciso dormir mais, acho que estou tão cansado que não presto mais atenção em nada.
– Qual é o seu nome? – eu perguntei calmamente enquanto a seguia por uma escadinha que dava para o backstage improvisado. Ela parou, virou-se me olhando por alguns segundos e depois começou a rir. Acho que ‘ta virando rotina as pessoas rirem da minha cara.
– Boa, , acho que você ‘ta melhorando as suas piadas. – ela completou parando de rir e me soltando um sorriso singelo. Eu não ‘to entendendo mais nada, então eu a conheço também? Impossível! Se conhecesse, eu me lembraria de uma garota dessas, é obvio. Acho que ela percebeu minha confusão, provavelmente eu estava com uma cara de bobo porque ela passou a mão pelos cabelos e soltou um “ó”
– Você não ‘ta bem, né?... Meu Deus, você se drogou, ? – ela levou a mão na boca abafando um grito e fez uma cara de horror. Que dramática.
– Não, que é isso, calma... – eu puxei a mão que ela tinha tapado a boca e a segurei. Ela fitou nossas mãos juntas, depois me olhou nos olhos como se estivesse esperando eu continuar. – ... é que eu estou meio perdido, acho que não tenho dormido muito. – olhei-a inexpressivo. A cara dela se transformou em preocupação.
– Bem, será que você consegue fazer o show? – ela me fitava com os olhos preocupados. Eu passei minha mão livre pelos cabelos tentando lembrar. Eu realmente estava mal; não lembrava nem da festa retro, quanto mais de um show nela.
– Acho que sim. – soltei um sorriso largo tentando acalmá-la. Ela sorriu de volta, desprendeu sua mão da minha e espiou o palco.
– Ok, então se prepara porque já está quase na hora. – ela se virou para mim depois de fechar a brecha da cortina que ela havia aberto. – Não sei o que deu em você pra sumir minutos antes do show, geralmente é o que eu tenho que sair pra procurar. – ela riu abafado, levando a mão à boca. Então ela vivia com a gente? Meu Deus, da onde é essa garota que eu nunca vi? Ou talvez ela seja da produção da turnê, mas eu nunca percebi o quanto ela é linda porque nunca a vi com esse vestido dos anos 60. Ela está divina.
– Bem... então seu nome é... – eu perguntei tentando descobrir enfim se eu a conhecia ou não. Ela rolou os olhos provavelmente imaginando o quão insensível eu sou. – Desculpe, eu ... estou um pouco confuso. – completei fitando o chão enquanto colocava minhas mãos no bolso da calça.
– Ok, se você vai mesmo continuar com isso... – ela balançou a cabeça negativamente e se aproximou de mim – , Judd, irmã do Harry Judd, seu colega de banda caso não se lembre também. – ela deu um risinho sarcástico no fim da frase e eu arregalei os olhos. COMO É QUE É? IRMÃ DO JUDD? DESDE QUANDO ELE TEM UMA IRMÃ DESSAS?
– Senhoras e senhores, preparem-se para o momento tão esperado da noite! – alguém falava ao microfone no palco e eu não conseguia prestar atenção direito, eu ainda tentava lembrar se eu me esqueci de uma irmã do Harry. A platéia gritava ensandecida e me cutucava, atrapalhando meu raciocínio. Virei meu rosto em sua direção ao mesmo tempo em que o locutor completou – The Beatles! – O QUÊ?
– Vai... ‘ta na hora. Vai lá, . – me empurrou pra dentro do palco. Quando eu entrei, avistei a multidão vibrando. Corri meus olhos pelo palco e avistei na frente com a em punho e me apontando um pedestal ao seu lado. Mais atrás estava com seu , concentrado em um papel no chão, provavelmente com a seqüência de música que iríamos tocar. Por fim, Harry estava sentado na bateria sorridente e apontava com a baqueta o mesmo lugar que havia me mostrado. Todos estávamos vestindo a mesma roupa que eu havia descrito anteriormente. Fui até o pedestal lentamente ainda sem conseguir raciocinar direito; ‘ta tudo muito estranho. Peguei a e passei a mão ajeitando meu cabelo.
– Bem... – deu duas batidinhas no microfone e continuou, – vamos começar pelo nosso novo single, aposto que é o que vocês estão esperando... – nunca vi tão sorridente. – que tal “She Loves You”? – então o público começou a gritar e eu pude ouvir a contagem de Harry na bateria. Foi então que eu me lembrei do que o locutor havia falado. Meus olhos saltaram para fora das órbitas e por reflexo eu olhei para o backstage. sorria animada enquanto os primeiros acordes da música começavam a tocar. Meu Deus do céu, nós somos os Beatles!


2. You've Got a Friend


Estava tudo negro como a noite. Eu escutava barulhos de vozes confusas, as quais eu não conseguia distinguir. Minha cabeça girava e meus pensamentos voavam para tantos lugares que eu não conseguiria citar todos. O que estava acontecendo? A última coisa que me lembro é que o McFly era na verdade...
- Eu disse que ele não estava bem... - a voz suave de uma garota me acordou de meus devaneios. Então era tudo real... Mas como pode ser? Eu simplesmente não entendo.
- Calma, , tenho certeza que não é nada do que você pensou... - ouvi a voz temerosa de Harry, tentando acalmar o tom preocupado da garota.
- O Harry tem razão, pequena. O não é de usar esse tipo de coisa. Até pra bebida ele é fraco, imagina para usar drogas. De jeito nenhum, eu o conheço, ... - me defendia com unhas e dentes. Será que mesmo aqui ele me conhecia? Mexi-me inquieto no pequeno sofá em que eu estava deitado. Minha cabeça ainda latejava forte; era como se um caminhão de 300 toneladas tivesse me atingido em cheio.
- Olha, ele está se mexendo, acho que vai acordar! - foi a vez de se pronunciar no meio de tanto falatório.
- Ou fomos nós mesmos que o acordamos. Eu disse para conversarmos lá fora! - usava um tom de voz um pouco nervoso e eu ouvi passos em minha direção. Abri os olhos devagar e avistei sua figura agachada à minha frente para que pudesse ficar da mesma altura do que eu, mesmo deitado no sofá.
- Como você se sente, ? - ela me perguntou enquanto franzia o cenho de preocupação. Os rapazes se aproximaram, porém ficaram um pouco distantes, parando atrás dela.
- Acho que bem... - eu respondi e só depois notei como a minha voz saiu falhada. Eu estava mau mesmo. Minha cabeça ainda doía. Levei uma de minhas mãos até o topo da cabeça, como se isso acalmasse de alguma forma o latejar da dor. - A minha cabeça dói.
- Ah, você caiu feio no palco. - Harry me fitava com um olhar de pena. Minha vontade era de socá-lo, nunca gostei que ninguém sentisse pena de mim, quanto mais meus próprios amigos.
- No meio de "She Loves You". Mais ou menos no refrão, você apagou e caiu de cabeça no amplificador. Todo mundo entrou em pânico. - completou enquanto interpretava sua própria fala. Fez uma expressão de espanto bem na hora em que disse que todos entraram em pânico.
- O que aconteceu, dude? - me olhava sério. Talvez ele tivesse mais preocupado do que os outros, ao menos era o que transparecia. Harry com pena, sendo... O , preocupado e , bom… também me parecia... Linda. Era a única coisa que eu conseguia pensar enquanto ela mexia levemente nos seus cabelos, como se os ajeitassem. Pisquei meus olhos duas vezes enquanto a fitava, tentado desviar o rumo dos meus pensamentos, já que chamava meu nome repetidamente, tentando receber um pouco da minha atenção.
- Bom, eu não sei. ‘Ta tudo bem confuso. Se eu contasse, nenhum de vocês acreditaria. - respondi enquanto o encarava com uma cara indecifrável. Ao menos eu achava que minha cara estava assim naquele momento. Imagina só, a minha cabeça estava a mil. É lógico que eles não acreditariam, o que eu poderia falar? “Oi caras, eu conheço vocês, ou melhor, quase todos porque essa gata que se diz sua irmã, Harry, eu nunca vi. Mas vocês, dudes, eu conheço, mas não daqui. Eu sou do futuro e bom, lá a gente tem uma banda chamada McFly, a maior banda britânica de toda a década. Mas a década que eu falo é de 2010 e não a década de 1960”. É, definitivamente eles não acreditariam em mim. O máximo que eu ia conseguir era uma passagem só de ida para o manicômio mais próximo.
Sentei-me no sofá com certa dificuldade, afinal, minha cabeça ainda girava. Soltei um suspiro longo e senti uma mão segurando meu ombro para me dar estabilidade. Inclinei o pescoço e avistei atrás do sofá com um sorriso nos lábios, como se me encorajasse. Será que ela me entenderia? Ela era a única pessoa da pequena saleta em que estávamos que eu não conhecia, mas no momento, era a pessoa que mais me passava confiança. Será que ela me entenderia? Será que , meu melhor amigo, acreditaria em mim e não acharia que eu sou apenas um louco sem escrúpulos? Provavelmente não. Eu não posso arriscar. Não antes de descobrir o que afinal aconteceu, o por que de eu estar aqui. Na verdade, de nós estarmos aqui. Mas o por que de só eu ter plena noção da verdade.
O silêncio se instalou na sala por alguns minutos desde que eu soltei aquela frase incompreensiva. Parece que ninguém tinha algo formulado para me dizer sobre aquilo. Talvez estivessem mesmo pensando na possibilidade de me internarem.
- Vamos deixar você descansar um pouco, a gente já cancelou o resto do show mesmo. Não podíamos continuar sem um integrante. - disse enquanto se dirigia com os rapazes para porta da sala.
- Nah, os Beatles não seriam os mesmos se não fossem quatro! - disse animado como de costume, depois de fazer um barulho engraçado com a boca. Beatles. Eu soltei um suspiro pesado, desolado outra vez. Essa história ainda vai acabar comigo. Os três pararam na porta e me fitaram por um segundo, depois, os olhares caíram até a figura ao meu lado. Por reflexo, eu também a olhei. Ela ainda estava com a mão sobre o meu ombro como se me reconfortasse. Quando percebeu os quatro pares de olhos a encarando, retirou levemente a mão sobre o meu ombro e a repousou sobre o seu colo.
- Você não vem, ? - Harry perguntou à irmã. Nessa altura, ele era o único Flyer (ou melhor, Beatle) além de mim na sala; os outros já haviam se retirado.
- Eu vou ficar um pouco aqui com o , pode ir na frente, Harry. - disse na maior calma, o que me surpreendeu. Ela queria minha companhia, mesmo agora que eu não estava nas minhas melhores condições de se ter uma conversa decente. Harry assentiu com a cabeça e depois seguiu os outros dois, saindo em direção ao corredor.
A porta se fechou e com ela, um silêncio ensurdecedor se instalou no ambiente. Passei as mãos pelos cabelos meio sem graça quando me lembrei de e sua velha teoria do silêncio ser assustador. Neste momento, eu o entendia completamente. O silêncio estava sendo realmente embaraçoso com ela ali ao meu lado. Eu simplesmente temia dizer algo, afina, eu não lembrava se éramos amigos, se eu a via todo dia, se eu a conhecia como a palma da minha mão e ainda havia a questão que eu mais me interessava em saber... Se nós éramos algo mais que amigos. Agora, o que eu mais queria era olhá-la, mas eu temia fazê-lo.
- Isso é realmente constrangedor. - por fim, ela quebrou o silêncio e riu frustrada. Eu me forcei a olhá-la nos olhos. Eles eram tão castanhos o quanto eu me lembrava há pouco. Eram completamente penetrantes.
- O quê? - eu me permiti dizer antes que me esquecesse de que ela me perguntou algo. Mesmo já suspeitando de sua resposta, eu preferia ouvi-la de seus próprios lábios. Dobrei uma das pernas para que eu pudesse ficar de lado no sofá e de frente para ela, tendo uma visão melhor de seu rosto de porcelana.
- Isso... – fitou-me enquanto parava de rir e colocava uma mecha ruiva de seus cabelos que insistia em cair sobre seus olhos - Eu disse pro meu irmão que iria fazer um pouco de companhia a você, mas eu imaginei que isso incluísse algum tipo de diálogo. - um sorriso doce brotou em seus lábios ao final da frase, o que me fez sorrir inconsciente.
- Ah, - eu fiz um barulho engraçado com a boca enquanto brincava com os dedos da minha mão. - desculpe, eu... - fixei meu olhar no dela. Eu sentia a necessidade de contar tudo que me afligia a ela. Mesmo sem a conhecer, eu sentia que poderia contar com ela em tudo que eu mais precisava, que eu podia desabafar. - eu não me lembro muito bem das coisas, sabe, ? Tem muitas coisas que estão confusas para mim, que parecem não se conectar. - preferi desabafar, mas sem contar toda a verdade. Não queria assustá-la com a minha história de "sou um viajante do futuro, mas não sei como vim parar aqui".
- Entendo, . - ela colocou gentilmente sua mão direita sobre a minha que estava repousada sobre meus joelhos - Você bateu forte a cabeça, deve estar realmente confuso. – completou, fitando-me nos olhos. Os seus tinham um brilho fundo. Eu sentia que ela me compreendia de alguma forma, seja lá que forma fosse essa.
Eu assenti com a cabeça, achei melhor não contestar. Talvez minha falta de conhecimento sobre qualquer assunto que me perguntassem passasse mesmo por uma amnésia pela queda. Devia ser o melhor caminho. O caminho para que não me achassem um completo maluco.
Corri meu olhar até nossas mãos unidas sobre meu joelho e soltei um sorriso involuntário.
- Obrigado, . - olhei em seu rosto a tempo de vê-la corando.
- Que nada, . Fique sabendo que pode contar comigo para tudo. Quero que se lembre disto. - ela sorriu e abaixou o rosto, fitando o chão de madeira. O sorriso dela era contagiante. Mesmo com tão pouco tempo em sua companhia, eu não conseguia vê-la sorrir sem fazer o mesmo. Era como se isto tivesse me faltado a vida inteira. Como se eu vivesse em um quarto escuro e aquele sorriso fosse meu dia de sol.
- Chame-me de . Eu acho que somos amigos pra isso, não é mesmo? - toquei levemente em seu queixo e fiz com que nossos olharem se cruzassem. Ela abriu um sorriso um pouco torto e assentiu concordando.
- Tudo bem, . Agora vamos andando se não quiser que o Doug coma toda a pizza e não guarde nada para nós dois. - ela se levantou e me puxou pela mão para que eu a seguisse.

Eu levantei e a segui até a porta da pequena sala, ainda com as nossas mãos entrelaçadas. No caminho eu avistei uma pilha de LPs que levava o "novo" nome da banda. Balancei a cabeça, tentando me acostumar com a idéia. Isso estava realmente muito estranho. ,parecendo ler meus pensamentos, me olhou de soslaio e soltou um pequeno sorriso enquanto andávamos pelo corredor. Eu sorri de volta, fazendo um pequeno carinho com o polegar sobre as costas de sua mão que estava junto à minha. Tudo estava muito estranho, disto eu tinha certeza, mas eu sabia que podia contar com ela, por mais estranho que fosse. De uma forma ou de outra, eu sabia que ela estava comigo nisso tudo.


3. Feeling Sorry


Os raios de sol que entravam pela fresta da janela do quarto me despertaram lentamente. Eu tinha noção disso, mas parte de mim queria se prender na inconsciência do sono. Com os olhos ainda fechados, eu apenas sentia o calor que os feixes de luz emanavam. Apertei os lençóis contra meu peito, embrenhando-me ainda mais neles. Eu não queria acordar, não para aquela realidade que me esperava. Mesmo assim, uma pequena parte de mim tinha esperança de que quando eu acordasse, estaria no mundo real.
Percebendo que meu esforço para voltar a dormir era inútil, sentei na cama ainda com os olhos fechados, temendo os abrir e encarar algo que eu não queria. Respirei fundo algumas vezes e tomei a coragem necessária para abri-los. É, eu ainda estava lá.
Levei uma de minhas mãos até a nuca enquanto analisava o local. Era estranho saber que eu estava no meu quarto, mesmo eu não o reconhecendo. As paredes eram abarrotadas de fotos e pôsteres de bandas e personalidades da época: Marilyn Monroe, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis e mais acima, no topo de todos, estava uma foto maior: Elvis Presley. Lá estava ele, o Rei do Rock. Habitando uma fotografia em preto e branco com seu violão nos braços, dançando com as pernas tortas; sua maneira característica.
Era como John Lennon dizia: “Antes de Elvis, não havia nada”. Era estranho eu citar Lennon na situação que eu estava, eu não quero roubar a história deles. Corri os olhos pelo resto do quarto. Era engraçado a forma de que apesar de tudo, eu me identificava com aquele lugar. Cada ídolo na parede, cada disco de vinil empilhado pelo quarto de uma maneira que só eu entenderia minha própria desordem, um telescópio posicionado próximo à janela do quarto justamente porque eu sou um fissurado pelo universo. Meu Deus, o homem nem pisou na lua ainda! Isso só vai acontecer em 1969. Cara, isso é estranho, eu preciso fazer alguma coisa. Minha respiração antes pesada ficou mais suave e eu puxei o travesseiro sobre o meu colo, para que eu pudesse apoiar meus braços nele.
Lembrei do final do dia anterior, da forma como os caras eram “eles mesmos” até naquela situação. Este era meu quarto, que nesse lugar me pertencia. Este ficava em uma pequena casa no bairro de Mayfair, centro de Londres, mais precisamente na Brook Street. Essa era a casa onde a banda dividia as despesas, exatamente como os Beatles em 1963 e como nós, o McFly, fizemos no começo da carreira. Eu não conseguia não tentar relacionar os fatos, minha cabeça fazia isso sozinha.
Eu mexia distraidamente na fronha do travesseiro quando me lembrei que nem todos moravam aqui. Ontem ao cair da noite, passamos em uma casa a alguns quarteirões daqui para deixar e Harry. Saindo de lá, comentou comigo que o Sr. Judd é meio avesso a bandas e pega muito no pé dos dois por conta disso.
... Agora que eu pensei nela pela primeira vez no dia, parece que eu não conseguiria mais deixar de ver seu rosto na minha mente. Era engraçado o fato de que ela e Harry não se pareciam nem um pouco. Joguei meu corpo para trás e encostei minha cabeça na parede fria enquanto fitava o teto. Como isso tudo foi acontecer? A resposta que parecia fazer algum sentido era a única que eu não queria reconhecer: a cartomante. Era a única coisa sobrenatural que aconteceu e parecia ter alguma ligação bizarra para estarmos vivendo outra vida que não nos pertencia.
Mas não foi isso que eu pedi! Bufei, levando as mãos no rosto, desolado. Eu disse que queria ser que nem eles e não pra SERMOS ELES! Por Deus! Eu estava xingando aquela mulher em pensamento quando uma leve batida na porta os interrompeu. Murmurei um “entra” e a porta se abriu revelando um ainda de boxers. A cara dele parecia tão amassada que eu podia jurar que ele havia acabado de acordar.
- Hey dude. – ele murmurou enquanto se jogava esparramado na minha cama.
- E aí? – respondi.
- Vim ver se você já ‘ta melhor. Eu e o jogamos no cara e coroa, eu perdi. – ele disse com os olhos fechados, ainda em transe pelo sono.
- ‘To legal... Nada que não possa se concertar. – soltei um sorriso amarelo.
- Que bom... – ele assentiu quase inaudível, já se entregando à inconsciência.
- Ei! – eu lhe dei um cutucão na costela que o fez saltar da cama – Veio aqui pra dormir na minha cama, ?
- Outch! Não, desculpa. – franziu o cenho enquanto bagunçava os próprios cabelos um pouco confuso, dirigindo-se pro corredor.
- Vá se trocar, cara. Vamos passar no Harry e depois ir tomar café. – completou já fora do quarto.
- ? – eu o chamei. Então ele colocou a cabeça pra dentro do quarto a tempo de me ouvir completar: - Por que não podemos simplesmente tomar café aqui mesmo?
- Porque, pra variar, estamos sem algo comestível aqui em casa. – soltou uma risada escandalosa enquanto se dirigia ao próprio quarto.

Estávamos estacionados na porta da casa dos Judd’s e o único som que podia se escutar era o que vinha do antigo rádio que havia no Dodge Dart do . Ele estava mal sintonizado (o rádio, não o nem o carro) e chiava irritantemente em uma estação que tocava June Carter. O sol estava a pino. Já devia se aproximar do meio dia e nós ainda aguardávamos Harry para o café da manhã. Antigos hábitos nunca mudam, não importa em qual década você está.

’s Point of View.

Eu terminava de ajudar mamãe a picar algumas batatas para o almoço quando ouvi vozes alteradas vindo da sala. Eu já imaginava o que estava por vir. Aproveitei que minha mãe havia ido até a varanda e espiei sorrateiramente pela fresta da porta o que acontecia no outro cômodo. Peguei o pano de prato que estava no bolso do meu avental e sequei minhas mãos ainda os observando. Papai estava gritando com o dedo esticado em direção a Harry e este o encarava desafiadoramente.
- Eu não quero saber, garoto! Você não vai a lugar algum! – meu pai estava transtornado. Eu podia ver a veia em sua testa saltando com o nervosismo.
- Pai, eu já te disse! Eu tenho uma banda! As coisas estão começando a dar certo e eu vou continuar me empenhando para que isso continue assim. Quer você queira ou não! – Harry contrapôs, também alterando a voz. Eu engoli em seco. Quantas vezes eu já havia presenciado aquela discussão e eu sempre ficava da mesma maneira apreensiva. Eu nunca gostei de brigas.
- Eu não quero um filho vagabundo, Harold! Não admito isso! – meu pai balançava a cabeça em negativa enquanto fechava o punho com força – Você com essa conversa de música... Isso é mais uma das suas desculpas para fugir dos estudos e viver no mundo das drogas, da orgia, de tudo que não presta! – eu podia jurar que meu pai ia jogá-lo pela janela a qualquer momento. Ele estava tão vermelho que parecia que iria explodir.
Papai nunca gostou de músicos. Quando descobriu que Harry estava em uma banda, essa casa virou um inferno. Ele simplesmente não permitiu, mas desde quando isso impede meu irmão de fazer alguma coisa? O pior disso tudo é que por influência dele, eu me apaixonei pelo mundo da música e tudo que era ligado a ela. Algumas vezes, até me peguei inventando alguma música nova pelos cantos. Sempre reprimi isto de todos, inclusive de mim mesma. Não quero dar mais desgosto ao papai, ainda mais porque ele já tem toda a minha vida programada.
Assim que eu terminar o colégio no fim do ano, vou estudar enfermagem na universidade de Londres. É o que ele sempre quis. Ele. Com o tempo, Harry percebeu meu interesse pela música e conseqüentemente pela banda dele. Por isso, sempre que pode, ele me leva aos ensaios ou as apresentações. Logicamente, meu pai não sabe dessa minha proximidade com a banda – se soubesse, provavelmente ele já teria tido um ataque do coração. Ontem por exemplo: eu disse a ele que estaria na casa da Sarah, minha amiga, terminando o trabalho de Biologia, quando na verdade eu estava com os garotos no ginásio municipal. Eu não gosto de mentir, mas é o único jeito de eu poder viver perto da música.
- Você não se importa nem um pouco, não é? – a risada irônica de Harry acordou meus pensamentos. Então me lembrei que ainda estava ouvindo a discussão. – Com o que eu ou a queremos! É tudo sempre pela sua soberana vontade.
- Cala essa boca, garoto! – meu pai deu um grito grave seguido por um tapa na cara de Harry. Ao mesmo em tempo que meus olhos captaram a cena, levei a mão na boca abafando um grito de horror. Eu observava os olhos do meu irmão se encherem de lágrimas. Eu não consegui distinguir se por dor ou por raiva.
- Eu não quero que você meta sua irmã no meio de toda essa porcaria. ‘Ta entendendo? – meu pai continuou, mas dessa vez ele usava a voz tão baixa quanto um sussurro. - E se você pretende mesmo sair por essa porta... – ele se aproximou de Harry e praticamente cuspiu as palavras em cima dele - ... Pode levar suas coisas porque você não pisa mais nessa casa. – eu engoli em seco.
- Não tenha dúvidas disso. – olhei meu irmão dizer com a voz embargada pelas lágrimas. Sua mão estava repousada no lugar que levou o tapa. Seu rosto estava vermelho. Eu tinha certeza que aquilo ia inchar. Em seguida, avistei-o, subindo as escadas correndo e meu pai sentando no sofá. Ele continuou lendo as notícias como se nada tivesse acontecido.

Dei duas batidas silenciosas na porta do quarto de Harry. Demoraram alguns segundos arrastados para que ela se abrisse e revelasse meu irmão com os olhos vermelhos por causa do choro. No mesmo instante que meu cérebro processou aquela imagem, meu coração ficou pequeno. Eu não conseguia vê-lo daquela forma. Entrei no quarto e o abracei com toda a força que eu tinha.
- Ah Harry!... – minha voz saiu mais falhada que o planejado e de repente aquele bolo que havia na minha garganta não me permitia falar. Senti meu rosto molhado, eu estava chorando!
- Shiiiiu. – ele me reconfortou, afagando meus cabelos.
- Eu... eu não imaginava que as coisas fossem chegar nesse ponto. Eu... – com a voz um pouco mais controlada, afastei-me um pouco do abraço, apenas para olhar em seus olhos enquanto formulava algo útil pra dizer naquela situação. Ele sorriu.
- Calma, , vai ficar tudo bem. – ele limpou uma última lágrima que insistia em descer pelo meu rosto. – Vai ser melhor assim, não dava pra continuar do jeito que as coisas estavam. – continuou sentando na cama. Ao lado, estavam algumas malas já feitas. Eu o imitei.
- E você vai pra onde? – aproximei-me encostando a bolsa de gelo que estava em minhas mãos em sua bochecha direita. Na mesma hora, ele soltou um “ai !”. – desculpe, mas se não colocar gelo isso vai inchar.
- Vou para casa dos garotos. – ele suspirou fundo quando eu apertei um pouco mais a compressa no rosto dele. Ficamos alguns minutos incontáveis em silêncio até que ele segurou a bolsa de gelo com uma mão e se levantou terminando de colocar algumas coisas em uma das malas. Eu observei aquela cena. Ele estava mesmo indo embora. O bolo na minha garganta havia voltado. Eu e meu irmão sempre tivemos uma ligação enorme, tudo era sempre divertido quando estávamos juntos. Não importava o que estivéssemos fazendo, a gente tornava a coisa mais chata em diversão na certa. Tudo só aumentou quando começamos a nos aproximar ainda mais por causa da banda. Eu sempre o ajudei em tudo que ele precisava pra que o papai não descobrisse. Respirei fundo quando o vi fechando o zíper da segunda mala.
- Você vai fazer muita falta... – falei tão baixo que por um momento, pensei que ele não havia escutado. Mas assim que terminei a frase, ele se virou pra mim com um olhar indecifrável.
- Você também, criança. – ele me olhou com um sorriso divertido, querendo me animar e eu rolei os olhos. Ele tinha total noção que eu não gostava que ele me tratasse como uma pirralha de dez anos.
- Harry, quantas vezes eu vou te dizer? Eu tenho 17! São só dois anos a menos que você, não amola. – coloquei a língua pra fora, desdenhando do que ele havia falado. Soltamos uma risada curta daquela cena, mas no segundo seguinte, ele se lembrou da importância da conversa e franziu o cenho, pegando minha mão que estava sobre a cama.
- O que mais me preocupa é que sem eu aqui pra ele implicar, ele desconte tudo em cima de você. – Harry balançou levemente a cabeça em negação como se imaginasse algo. É, eu havia pensado nessa possibilidade, mas eu não admitiria isso pra ele. Não queria preocupá-lo ainda mais. – Eu não vou deixar que ele faça isso com você, . Prometo que venho te pegar assim que...
- Eu vou ficar bem, não se preocupe comigo. – interrompi-o, levantando da cama. Eu não queria que ele se comprometesse comigo, só que ele vivesse sua vida. Eu poderia me virar. Ele me imitou, levantando da cama enquanto me olhava com uma expressão de quem analisava se eu estava falando a verdade ou não. – É sério. Vai lá e seja um rockstar. Daqui alguns meses, quando vocês fizerem sucesso em toda Inglaterra, quero poder contar pra todas as garotas da escola que o baterista bonitão dos Beatles é o meu irmão. - sorri abertamente, gabando-me e ele riu enquanto fazia um cafuné desajeitado no topo da minha cabeça.
Ele pegou as duas malas que estavam sobre a cama e veio até mim, abraçando forte-me, como uma despedida. Minha garganta fechou, mas eu impedi que as lágrimas voltassem a cair. Ele tinha problemas demais pra se preocupar com uma irmã chorona. Então me deu um beijo no topo da cabeça, sussurrou um “até logo, ”, deu uma ultima olhada no quarto e saiu porta afora.
Respirei fundo uma, duas, três vezes, tentando forçar minha visão embaçada pela cortina de lágrimas a enxergar aquele quarto. Cada canto dele me lembrava meu irmão e alguma mania idiota dele: todas aquelas bandeiras de estilos diferentes espalhadas pelo quarto mostravam o tamanho do orgulho que ele tinha de ser britânico, a cama com os lençóis embolados a qual eu nunca havia visto arrumada e por fim, o toca discos no canto do quarto e sua coleção de vinis separada por gênero; era a única coisa que ele não se cansava de arrumar. Passei a mão pelos cabelos tentando os afastar do meu rosto, limpei minhas últimas lágrimas e andei devagar, ainda de costas, em direção à porta.
- Até logo, Harry. – respondi mesmo que para o quarto vazio e então finalmente fechei a porta, indo em direção ao meu próprio quarto.

End to ’s Point of View.

Já fazia mais de meia hora que estávamos parados na frente da casa do Harry e nada dele sair. Eu já havia sugerido que algum de nós fosse bater na porta pra perguntar dele, mas me disse que o Sr. Judd não gosta de nenhum de nós. Meu Deus, esse homem é o capeta em forma de gente, não é possível. Tudo o que podíamos fazer era esperar. Então aqui estou eu no banco traseiro do Dodge, com a cabeça apoiada no vidro, tentando adivinhar alguns desenhos que formavam nas nuvens. Até agora já vi um picolé, um cachorro e uma bota. Isso estava começando a me irritar e o chiado que vinha do rádio não ajudava em nada o meu bom humor. Mas quando é que vão inventar a droga do mp3 player? Eu estava aqui em um carro velho, olhando o formato das nuvens enquanto eu podia estar dormindo ainda.
- Pelo amor de Deus, arruma a estação dessa droga de rádio, ! – falei entre dentes quando o chiado pareceu aumentar a tal ponto que não era possível escutar qualquer voz por trás dele.
- Acho que a antena está com mau contato. – ele me respondeu enquanto girava o botão da estação desesperadamente atrás de algo ‘escutável’.
- Desliga isso, o Harry vem vindo. – chamou nossa atenção. Então me virei em direção à porta a tempo de avistar Harry saindo, carregando algumas malas. Ele já estava próximo ao carro quando eu percebi que seu rosto estava vermelho, já quase roxo e meus olhos se arregalaram.
- O que aconteceu, dude? – as palavras saíram da minha boca sem ao menos eu perceber assim que Harry sentou no banco do carona, jogando as malas no assoalho aos seus pés.
- Vamos sair daqui, eu explico no caminho. – a voz dele saiu baixa e ligou o carro, atendendo ao seu pedido. Meus olhos correram para a casa dos Judd’s e pararam em uma janela no andar superior, onde uma garota de cabelos cacheados olhava em nossa direção. . O carro começou a se movimentar ao mesmo tempo em que Harry abriu a boca pra começar a contar o que havia acontecido. Eu olhei pra frente a fim de prestar atenção na história. Antes mesmo de escutar, eu já sabia que as coisas estavam começando a ficarem cada vez mais complicadas.


4. We Are Broken


Os garotos conversavam entre si, mas o canudo do meu milk-shake de chocolate parecia-me muito mais interessante. Estávamos na “Dance Queen” fazia meia hora. Uma lanchonete temática, com banquetas vermelhas, garçonetes de patins e jukeboxes tocando Elvis Presley; uma das mais populares de Mayfair. Harry acabou de contar tudo que aconteceu e eu só conseguia pensar na . Meu coração se apertava só de imaginá-la sozinha naquela casa com o Sr. Judd possuído pelo diabo. Eu tinha que fazer alguma coisa. Ergui a cabeça fitando os três em silêncio, abri a boca já ensaiando algo para dizer, mas foi mais rápido.
- Não podemos deixar a lá, isso é loucura! – bateu com o punho fechado na mesa, levantando-se e fazendo todos olharem pra ele.
- Calma, dude, não temos muito o que fazer. Eu prometi e vou cumprir, vamos ficar de olho nela. – Harry o tranqüilizou ainda cabisbaixo.
- O Harry tem razão, . Ele é o pai dela, não temos muitas opções, então aquieta o facho. – riu e eu fingi não perceber o tom que ele usou. “Aquieta o facho”? bufou, jogando uma nota de 20 libras na mesa, saindo em seguida. Harry o seguiu mais que depressa. Eu olhei confuso pra que negou com a cabeça e também se dirigiu a porta. Será que eu fico muito repetitivo se eu disser que não estou entendendo nada?

Eram umas cinco horas da tarde e estávamos nos fundos do “Rockabillity”; um restaurante familiar no centro de Londres. Fazíamos mais uma passagem de som. Afinei minha pela quinta vez seguida, pensando que diabos eu estava fazendo. Numa década perdida e eu me preparando pra um show? Por mais que eu colocasse isso na minha cabeça, era algo natural eu seguir a banda, os garotos; era como se eu tivesse que fazer isso. Eu ando muito maluco, talvez eu deva mesmo ser internado. Se continuar assim, talvez eu até conte a história do viajante do tempo pra ver se isso funciona.
- Pára, ! Você está me desconcentrando! – ouvi ralhar com ele porque este jogava palhetas na sua cabeça enquanto ele tentava acertar uma nota de “Love Me Do”.
- Vê se andam logo com isso, ainda tenho que pegar a . Prometi que ela viria. – Harry passou por nós, girando uma das baquetas entre os dedos. . . É estranho como meus pensamentos saem do foco só de ouvir o nome dela, não consigo tirá-la da cabeça. Que diabos está acontecendo comigo nesse fim de mundo? Passei uma mão pelos cabelos, bagunçando-os um pouco e ainda pensando nela, comecei a dedilhar a introdução de “Get Over You” inconscientemente, testando a já afinada.
Eu fechei os olhos e então seu rosto invadiu meus pensamentos. Eu adorava cada detalhe dela: a maneira que afagava os pequenos cachos de seus cabelos ruivos, a forma rosada que tomava conta de suas maçãs do rosto quando estava envergonhada, o brilho constante nos olhos negros e por fim o sorriso magnífico que brotava em seus carnudos lábios rosados. Eu precisava parar com isso, de só pensar nela. Antes que eu me desse conta, já estava cantando o primeiro verso.

She was looking kinda sad and lonely,
Ela estava parecendo um pouco triste e solitária
And I was thinking to myself if only,
E eu estava pensando comigo mesmo se apenas
She'd give me a smile but,
Ela me desse um sorriso, mas,
Its not gonna happen that way..
Não vai acontecer desse jeito


Eu tinha a impressão de que eu devia protegê-la. Mesmo com todo o turbilhão que minha vida estava passando, mesmo que eu estivesse no lugar errado, eu sentia que estava lá na hora certa e eu só precisava entender o por quê.

So I took it upon myself to ask her,
Então eu me pus na posição de ir perguntar a ela
Would you like company and maybe after,
Você gostaria de companhia e talvez depois,
We could talk a while but,
Nós poderíamos conversar um pouco, mas,
I just dont know what to say...
Eu simplesmente não sei o que dizer...

Um lado de mim queria deixar os garotos, deixá-la e procurar uma maneira de voltar pra casa, mas havia o outro lado. O qual me implorava pra não sair dali e descobrir o porquê disso tudo. Com certeza esse lado se unia à minha curiosidade e me vencia a qualquer custo.

‘Coz you've got all the things that I want,
Porque você tem tudo o que eu quero
And I just can’t explain so,
E eu apenas não sei como explicar, então,
Help me, babe, I gotta get over you!
Ajude-me, babe, eu preciso te esquecer!

Fui parando a música e, assim que terminei o refrão, ouvi um coro de “Uau dude!”. Fiz merda, fiz merda! Levei minha mão nas têmporas e as apertei, tentando sumir dali. Que diabos eu estava fazendo? Eles não podiam ter ouvido essa música! É do MFlly! Só vai surgir daqui a meio século!
- Muito bom, . Você usou uma batida rápida, uns dois tempos a mais do que estamos acostumados, adorei! – Harry se dirigia à bateria, empolgado – Posso colocar um solo no meio? Imaginei algo legal enquanto você tocava. – continuou enquanto tamborilava os dedos nas baquetas. E agora?
- Ahn, Harry... Ainda não está terminada, falta bastante coisa. – mordi o lábio confuso, tentando bolar alguma resposta aceitável.
- Você escreveu sozinho? – sentou ao meu lado, encarando-me sorridente.
- Na verdade, eu estou escrevendo com uns amigos... – comecei a mexer na tarraxa da guitarra, tentando não encarar nenhum deles. Ouvi um “Ah” sussurrado vindo de .
- Hey Judd, será que você pode me ajudar a transportar a bateria mais pro lado do palco? Se não, a fiação vai ficar atrapalhando a passagem. – um cara da produção disse enquanto ligava a parte elétrica no fundo do palco.
- Poxa, precisa ser agora? – Harry reclamou, olhando no relógio de pulso. – Está na hora de ir buscar a .
- Não seja por isso, eu vou buscá-la. – , que estava quieto até agora, pronunciou-se.
- De jeito nenhum. Eu te conheço, vai querer dar uma de machão e fazer o maior escândalo com meu pai. – Harry riu debochado e balançava a cabeça, concordando.
- Bom, eu posso apanhá-la se quiser, Harry. – pronunciei-me. me fuzilou com os olhos. Fingi que nem percebi.
- Seria ótimo, . – Judd sorriu, jogando-me as chaves do carro, depois seguindo até a bateria. – Vocês me ajudam a mudá-la de lugar enquanto isso, dudes? – continuou se referindo a e . Este último estava com uma cara de poucos amigos, mas concordou. Aproveitei a deixa e parti antes que alguém protestasse.

Estacionei o carro do algumas casas antes da dos Judd’s. Não quero arranjar confusão. Abri a porta e a tranquei, seguindo com passos largos por entre os jardins das casas próximas. É bom ser discreto quando não se sabe o que te espera. Assim que parei na porta da única casa que eu conhecia por ali, fui à procura da grande janela no segundo andar, a única com uma jardineira no batente. Encontrei-a na lateral da casa, próxima a uma grande árvore com uma pequena casa de madeira embutida. Por uma fração de segundos pensei em escalá-la, mas achei que não seria a melhor coisa a se fazer, ao menos se não quiser morrer.
As luzes do quarto estavam acesas, ela estava lá. Afastei-me um pouco, correndo os olhos, procurando algo que pudesse chamar sua atenção. Nunca senti tanto a falta de um celular. Seria só mandar um sms ou até um toque a cobrar, só pra ela saber que eu já estava aqui. Percebi um arranjo de flores com pequenas pedras colocadas na terra; provavelmente um enfeite sem nexo da Sra. Judd. Peguei duas ou três pedrinhas e estudei como jogá-las na vidraça. Eu me sentia em um filme do James Bond, só que sem engenhocas tecnológicas. Acho que eu era o Magaiver então.
Joguei a primeira pedra com pouca força. Esta nem chegou perto de atingir o alvo. A segunda eu calculei melhor a distância, acertando o vidro, o que fez um barulho considerável. Esperei alguns segundos. Nada. Respirei fundo, isso estava ridículo. Joguei a terceira no mesmo instante que a janela se abriu e se empoleirou no batente. A pedra a atingiu e ela soltou um “Ai!” seguido por uma careta de dor enquanto passava a mão na cabeça, onde tinha recebido a pancada.
- Desculpe! – sussurrei, desejando que ela tivesse ouvido. A pedra era pequena e, apesar da cena que ela fez, eu tinha noção que não a havia machucado.
- ? O que você ‘ta fazendo aqui? – ela tirou a mão da cabeça e me fitou confusa.
- Ahn, eu vim te buscar. Harry estava ocupado. – continuei com o tom de voz baixo para que os pais dela não escutassem.
- Eu não vou mais... - ela desviou o olhar do meu por um instante e pela escuridão que começava a cair, eu não pude notar sua expressão.
- Por quê? – sussurrei, mas ela não respondeu. Minutos depois, coloquei as mãos no bolso da calça, tentando achar algo pra convencê-la e então olhei pra árvore.
- Posso subir aí? – perguntei meio receoso pela resposta. Não era algo que eu perguntaria normalmente, ao menos não nessa época e não pra , mas a situação estava complicada, eu preciso ajudá-la.
- Não sei se é uma boa idéia, . – ouvi a voz baixa dela, mas quando busquei seu rosto, ela olhava para dentro do quarto, talvez verificando se alguém estava vindo.
- . – eu a corrigi. Esperava que ela se lembrasse da nossa ultima (e única!) conversa. Nós éramos amigos afinal! Ela tinha me prometido que eu podia contar com ela. Eu também queria dizer que ela poderia contar comigo.
- Ok. – acho que depois disso, ela se lembrou do que falamos.
Eu assenti concordando, então encarei a antiga árvore. Havia alguns galhos mais grossos que se encontravam na frente da janela do quarto. Eram mais resistentes, então poderia escalá-los. Eu o fiz com cuidado. Posso me achar o Magaiver, mas isso não quer dizer que eu seja! Escalar uma árvore, fala sério. Cheguei ao galho próximo ao batente com alguma dificuldade, então avistei se afastar da beira para que eu pudesse me apoiar e entrar no quarto. Coloquei um pé no batente, dei um impulso e joguei meu peso para dentro do quarto. Bati a cabeça no vidro.
- Ai! – resmunguei, massageando o local. Preocupei-me tanto com a distância que nem olhei para o vidro.
- Tudo bem, ? – senti as mãos de tocarem o topo da minha cabeça. Um arrepio correu meu corpo. Suas mãos eram quentes e delicadas.
- Acho que sim, foi só uma batida. – olhei-a, sorrindo maroto.
- Você já deve estar se acostumando com pancadas na cabeça. – ela riu divertida, afastando-se de mim e sentando-se na cama.
- Verdade. – concordei, aproximando-me da cama. – Posso? – perguntei, apontando para o espaço ao seu lado. Ela balançou a cabeça afirmativamente.
- O que aconteceu, ? Ele... Ele te bateu? – perguntei preocupado, franzindo o cenho. Só de imaginar essa situação, ficava com vontade de ir até lá e enchê-lo de pancada.
- Não, não! – ela respondeu rapidamente com uma expressão assustada, porém, não me encarava nos olhos. Seus dedos brincavam com a barra de seu vestido branco rodado. Ela estava nervosa. Era estranho, mas eu sabia disso. Mesmo só conversando com ela uma vez, eu parecia conhecê-la eternamente.
- Então o que foi? Por que você esta assim? Por que você não quer vir mais ao show? – fitei-a, mordendo o lábio inseguro. Tinha medo de ela não querer mesmo vir. Eu precisava ficar mais tempo com ela. Era mais forte do que eu. Estava virando um romântico estúpido. Todo o tempo que eu não a via só pensava nela e quando eu estava em sua companhia, ficava com medo de ir embora. Era patético. Eu, , apaixonado? Puf. Ela suspirou e virou o rosto em direção à janela, evitando-me.
- Foi horrível, . Vê-lo indo embora, ver meu pai o tratando daquela forma. – sua voz saiu falhada e eu queria poder olhar em seus olhos pra decifrar o que ela estava sentindo naquele momento.
- Eu imagino. – soprei as palavras enquanto pousava minha mão sobre a dela. Assim que nossas mãos se tocaram, ela me fitou com os olhos embargados – Mas pense pelo lado bom disso: eles não vão brigar mais. É melhor pro Harry ficar conosco, você sabe disso. – ela balançou a cabeça, concordando enquanto algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Eu a abracei. Queria protegê-la a todo custo, mesmo não sabendo como fazer isto.
- Vou sentir a falta dele. – completou com a voz abafada por estar com a cabeça afundada no meu peito. Passei minha mão por seus cabelos ruivos, afagando-os enquanto ouvia seu choro baixinho.
- Você sabe que pode visitá-lo quando quiser. Nós não vamos te deixar, . Nunca. – ela afrouxou o abraço e secou algumas poucas lágrimas que restavam. – Eu prometo. – ela sorriu. Mesmo com o rosto molhado era, tudo o que eu queria: ver aquele sorriso.
- Obrigada, . Você sempre está comigo quando eu preciso. – afastou-se um pouco e me fitou com suas duas ônixs brilhando através da luz da noite que começava a cair. Eu sempre a ajudava? De que forma? Que outros problemas ela já teve? Eu queria saber tudo que me ligava a . Cada detalhe, cada informação parecia-me totalmente relevante. Seus olhos prendiam os meus e o sorriso que antes habitava seus lábios foi se desmanchando assim que pousei inconsciente uma mão em sua nuca, afagando seus cabelos.
Por mais que eu tivesse motivos de sobra para saber que devia respeitá-la, não só por ser irmã de um dos meus melhores amigos ou por estarmos em uma época que somente pegar na mão já era motivo para delegacia, mas acima de tudo, porque eu tinha medo de magoá-la, ela aqui a minha frente, chorando, parecia-me tão frágil. Mas havia algo entre nós que se comportava tal como um imã, atraindo-me em direção a ela. Eu faria tudo e criaria qualquer pretexto só para arranjar uma forma de tocá-la, seja a mais singela que fosse. Quando dei por mim, ela segurava meu pulso e estávamos tão próximos que nossos narizes se tocavam. Não conseguia tirar meus olhos de seus lábios entreabertos, como se previssem o que aconteceria a seguir.
Avancei mais um milímetro, percebendo a respiração entrecortada dela que entrava na minha boca pela proximidade. Aquilo estava me enlouquecendo, era tentador demais. Subi meu olhar, fitando o dela. Ela estava de olhos fechados. Considerei isso como um sinal e colei nossos lábios delicadamente. Não queria assustá-la. Essa situação era nova pra mim. Eu não sabia se ela já havia beijado antes, os tempos eram outros! Senti uma mão escorregando pela minha nuca então entreabri os lábios pedindo passagem e ela concedeu. Assim que nossas línguas se tocaram, senti um êxtase indescritível, elas tinham uma sincronia perfeita. Alguns minutos passaram-se no paraíso e então houve uma quebra brusca no beijo. Senti-a se afastando de mim. O que aconteceu? Abri os olhos e encontrei ainda de olhos fechados, com a respiração descompassada. Passei a mão pela nuca, soltando um suspiro pesado.
- , desculpe-me, eu... – tentei começar um pedido de desculpas que eu não fazia idéia qual seria. Eu queria aquilo, não queria me desculpar, queria beijá-la e não me arrependi nem um segundo.
- , por favor, não. – ela levantou e seguiu até uma escrivaninha que tinha no canto do quarto, ficando de costas pra mim.
- Eu... – não sabia o que dizer. Levantei e aproximei-me dela devagar. Quando eu estava próximo, ela se afastou uns dois passos.
- Não quero passar por isso de novo, o mesmo erro. Desculpa, mas não posso. De novo, não. Você e não se dão bem até hoje por causa disso... – ela cortou minha fala ainda de costas para mim.
Falou a última parte tão baixo que tive que fazer um certo esforço para escutá-la. Do que ela estava falando? De novo? A gente tinha algo antes? Eu a magoei? O que o tinha a ver com isso? Balancei a cabeça, confuso. Droga, droga, droga!
- Por favor, vá embora, . – ouvi mais um sussurro e suspirei, derrotado.
Segui até a janela e saí da mesma forma que entrei: cheio de interrogações, talvez agora com muito mais do que antes. Eu tinha que resolver ao menos uma delas e pretendia fazer isso agora. Assim que desci da árvore, corri pelo jardim, avistando o carro. A noite já havia chegado e uma chuva fina estava começando a cair. Eu não liguei. Entrei no carro, girando a chave na ignição e em seguida, arranquei bruscamente. Eu estava focado em resolver pelo menos uma das minhas dúvidas, mesmo se me custasse uma grande amizade. Ao menos era o que eu pensava.


5. You Can Do That


O “Rockabillity” já estava cheio. Assim que entrei no lugar, notei os caras ao lado do palco, conversando alguma coisa. Minha cabeça estava a milhão, já não tinha tanta convicção do que fazer. Passei com dificuldade entre as mesas espalhadas pelo salão e quando eu estava alguns poucos passos de distância deles, fez um aceno de mão e então os outros dois também me fitaram.
- Estou atrasado, não estou? – cheguei mais perto e baguncei o cabelo, em sinal de nervosismo.
- Totalmente. – riu de seu jeito escandaloso. – E ainda precisa se trocar! Onde está o careta e pontual? – Sorri amarelo.
- E a ? – Harry olhava entre a multidão, esperando encontrar aqueles longos cabelos ruivos.
- Ela não quis vir. – suspirei pesado e desviei o olhar de Harry, enquanto fitava meus sapatos. Ouvi uma risada sarcástica. Eu não precisava olhar para saber de quem era.
- ELA não quis vir? – continuou com o sarcasmo, então eu o olhei. – Qual é, ? As coisas estão se repetindo muito, não estão? O que você fez pra ela dessa vez? – ele me olhava de um jeito que eu não reconhecia o velho no fundo daquele olhar. Era ódio demais pra uma pessoa só, ódio demais pro . E que diabos estava se repetindo? Alguém pode me dar o roteiro dessa droga?
- Qual é o seu problema, ? Ela estava chateada com tudo que aconteceu hoje, não ‘tava com clima pro show! Você não pensa nela nem um segundo? – aumentei o tom de voz pra responder a altura. Se era confusão que ele queria, era confusão que ele iria ter.
- O problema não é se EU penso nela, o problema é que VOCÊ anda pensando DEMAIS! SEMPRE PENSOU! – ele já estava gritando e as palavras começaram a ser cuspidas em minha direção. E então, quando ele deu um passo pra frente e eu fiz o mesmo, o segurou.
- Parem, os dois! – Harry me segurava e franzia o cenho nervoso. – O que diabos está acontecendo aqui? Mas que droga! – engoli em seco. Se alguém tivesse que falar alguma coisa a respeito, que fosse o senhor ciúmes aí na frente. Afinal eu sabia tanto quanto Harry desse assunto. ainda me fuzilava com os olhos e eu só queria socá-lo! chorando, sozinha, e ele preocupado se eu penso ou não nela? Isso é ridículo!
- , vá se trocar, o show começa em 10 minutos. – Harry me soltou e eu concordei em silêncio. Troquei um último olhar com e sumi em direção aos bastidores.

’s Point of View.

O táxi dirigia pelas ruas de Londres e a cidade noturna era maravilhosa. Todas as luzes, as cores que se formavam somente ao cair do sol eram uma obra de arte para os meus olhos. O motorista parou no farol vermelho e minha atenção caiu sobre a Tower Bridge iluminada, completamente linda e reluzente a alguns kilômetros dali. Meu sorriso se desfez quando me lembrei da primeira vez que a visitei. Era outono e me disse que eu não podia perder mais tempo, que era impossível ser uma Londrina sem nunca ter ido à ponte no período da noite, não ter visto ela acesa. Suspirei pesado, encostando minha cabeça no vidro do carro e então abri minha mente para que todos os pensamentos que eu bloqueava viessem à tona.
Eu me sentia com 12 anos de novo, como na primena vez em que andei em uma roda gigante. Meus pensamentos giravam constantemente a ponto de me deixar tonta. Era igual à roda, você via outros lugares, mas sempre voltava ao ponto de partida. Eu só conseguia pensar em: , Harry, meu pai, beijo, . , Harry, beijo, . , beijo, . , beijo. . Era um ciclo vicioso.Por mais coisas que eu quisesse me ocupar a pensar, minha cabeça sempre arranjava um jeito de filtrar tudo e parar nele. Eu me sentia totalmente culpada por isso. Eu o havia beijado de novo! E eu havia prometido a mim mesma que isso não aconteceria.
- Moça, moça! – o senhor do táxi me libertou dos pensamentos e eu percebi que estávamos parados. Pisquei duas vezes, vendo a fachada do “Rockabillity”. Peguei minha bolsa do banco, retirei duas notas e as entreguei ao motorista. Saí do táxi me relembrando o porquê de estar ali. Eu tinha que apoiar Harry. Era importante pra ele eu estar aqui hoje e sempre, como eu fiz até agora. Papai acreditou na desculpa que eu iria terminar o trabalho na casa de Sarah e dormiria por lá - já que o show iria acabar tarde.
- A apresentação já começou? – perguntei ao rapaz que recebia os convidados na porta do lugar. Ele assentiu que sim e eu entrei apressada, percebendo o quão atrasada estava. Sorri assim que notei que o lugar estava abarrotado de gente. As mesas estavam ocupadas, a maioria das pessoas nem se importava em comer, todas olhavam para o palco e se remexiam ao som de “Love Me Do”. Encostei-me na parede ao fundo do lugar e os olhei atentamente pela primeira vez. Alguma coisa estava errada, todos estavam com um semblante tenso. Meu olhar cruzou com o de e ele sorriu.Por mais que eu tentasse impedir, meu rosto sorriu de volta.
Foi então que ouvi uma microfonia e a música, mesmo estando no meio do refrão, teve uma parada súbita. Corri meus olhos pelos garotos. havia chutado o pedestal do microfone. Meu estômago girou. O silêncio predominava no lugar, exceto pelo som irritante da microfonia. Muitas das pessoas resmungavam e outras taparam os ouvidos.
- Desculpe, vamos tocar outra, ok? – levantou o pedestal.
- Mas estávamos no meio da música! – protestou com um olhar desesperado.
- Não tem importância. – retrucou. Seus olhos não saíam dos meus. Ele começou a dedilhar os acordes da próxima música e assim que a reconheci, meu coração ficou pequeno.
[n/a: Quem quiser acompanhar com a música: The Beatles - You Can't Do That]

I got something to say that might cause you pain
Eu tenho algo a dizer que pode lhe causar dor
If I catch you talking to that boy again
Se eu pegá-la falando com aquele garoto novamente
I'm gonna let you down
Eu vou decepcioná-la
And leave you flat
E deixá-la secamente
Because I told you before
Pois eu já lhe disse:
Oh, you can't do that
Você não pode fazer isso

Só na segunda estrofe que os garotos começaram a acompanhá-lo. Todos continuavam tensos. O olhar intenso que lançava pra mim me machucava. Eu sentia as lágrimas borbulhando, prontas pra saírem, mas eu não iria chorar. sabia. Ele estava bravo, estava magoado e tinha toda razão pra isso. Era eu quem estava errada, eu merecia algo assim. Sabia que merecia, mas da mesma forma, eu não conseguia não me sentir horrível.

Well, Its the second time
Bem, é a segunda vez
I've caught you talking to him
Que peguei você falando com ele
Do I have to tell you one more time I think its a sin
Devo lhe dizer mais uma vez que acho isso um pecado?
I think I'll let you down (let you down)
Eu vou decepcioná-la (decepcioná-la)
And leave you flat (gonna let you down and leave you flat)
E deixá-la secamente (decepcioná-la e deixá-la secamente)
Because I told you before
Pois eu já lhe disse:
Oh, you can't do that
Você não pode fazer isso

Minha garganta estava seca. Meu coração iria saltar. Eu só queria sair correndo dali, trancar-me no banheiro e chorar até não haver mais lágrimas. Mas não, eu me forçava a ficar ali, eu merecia. Ouviu-se um som de se destorcendo e assim que iria começar a segunda parte da música, o cortou e cantou em seu lugar. Meus olhos correram automaticamente na direção dele. Ele não me olhava mais. Seus olhos faiscavam na direção de , que também parecia querer matá-lo. Era isso, meu esforço foi em vão. Estava tudo se repetindo. E a culpa mais uma vez era minha. cantava com um sorriso sarcástico no rosto:

Everybody's Green
Todo mundo está verde de inveja
‘Cause I'm the one who won your Love
Pois eu sou quem ganhou o seu amor
But if they'd seen
Mas se eles vissem
You talking that way
Você falando assim

“They'd laugh in my face” ficou no ar porque antes que pudesse cantá-la, largou seu instrumento no chão, atravessou o palco e deu um soco nele. Eu gritei em desespero, fazendo o grito ecoar pelo lugar que agora está em completo silêncio. Os garotos pararam de tocar assim que se levantou e revidou o soco. O desespero tomou conta de mim e quando me dei conta, já havia atravessado todo o restaurante e estava na beirada do palco, gritando para eles pararem. Os dois estavam se engalfinhando entre socos pelo chão e ninguém fazia nada! Dei um impulso e subi no tablado. Quando estava a um passo dos dois, um braço me segurou. Olhei pra trás e dei de cara com meu irmão, fitando-me sério. Eu já não impedia minhas lágrimas de caírem; acho que agora eu tinha um bom motivo pra chorar. Meus pensamentos corriam rápidos e eu não conseguia raciocinar direito. Será que Harry também sabia de tudo? Não importava, agora não. Puxei meu braço, tentando me desvencilhar dele, mas ele me segurou com mais força.
- Deixe-os, . É melhor que eles resolvam isso de uma vez. – ele me disse calmamente.
- Deixá-los? – fiz uma cara de horror e minha voz saiu esganiçada demais. – Eles vão se matar, Harry! – minhas lágrimas começaram a cair com mais força e então vi Harry suspirar, passar a mão pelos cabelos e chamar , que estava ao meu lado.
Os dois seguiram até e e os separaram, mesmo relutantes. Eu não conseguia decidir qual dos dois eu olhava. Quando olhava , sentia-me culpada. Então olhava pra e me sentia pior ainda. Os dois estavam bem machucados; o nariz de sangrava enquanto tinha um olho inchado. Forcei-me a olhar em outra direção. O lugar já estava vazio. Provavelmente a produção o esvaziou para a briga não ter muita repercussão.
- Ótimo! Amanhã vamos estar na primeira página de todos os jornais! Estão satisfeitos? – Harry estava borbulhando, com toda razão. Eu o olhei ainda chorando. Queria dizer que a culpa não era deles, era minha, mas eu era fraca demais pra isso. Nenhum dos dois respondeu e eu temia olhá-los. Senti uma mão no meu ombro e encontrei os olhos de me fitando com carinho.
- Vem, , vamos tomar uma água. – ele falou baixo enquanto me encaminhava para o backstage. Eu sabia porque ele estava me tirando dali. Agora iria vir o sermão. Eu não queria ir, queria ficar e receber a bronca também, mas como eu já disse, eu era uma covarde e o carinho de me parecia muito mais acolhedor do que uma bronca do meu irmão. Quando estávamos a um pé do backstage, permiti-me olhá-los por um segundo. me olhava triste, talvez preocupado, enquanto estava sério demais, o que me fez arrepiar.

Fazia meia hora que havia me deixado com um copo de água na mão em uma salinha. Eu já havia parado de chorar, mas ainda não raciocinava direito. Só queria vê-los e talvez receber minha sentença. A roda gigante nos meus pensamentos girava mais rápido do que nunca. Beijo, culpa, briga, culpa, dor, , Harry, , culpa. culpa, culpa, culpa, , culpa, . Isso estava começando a me enlouquecer. Levantei da cadeira de plástico assim que a porta se abriu, revelando um com um olhar cansado. Eu o fitei por alguns segundos, esperando que ele falasse algo. Nada.
- Eu preciso vê-los, . – falei baixo. Apesar de toda a água que eu havia bebido, minha garganta ainda estava seca.
- Não sei se é uma boa idéia, . – ele me fitou piedoso.
- Por favor, por favor. – implorei sem vergonha. Eu realmente precisava vê-los, certificar-me que estavam bem.
- Ok, vem comigo. – saímos da sala, seguindo por um corredor pouco iluminado. Eu tinha noção de que já era tarde, provavelmente de madrugada. Bendita hora que avisei papai que ia dormir na casa de Sarah. parou em frente a uma porta azul e me fitou.
- Tem certeza, ? – eu apenas confirmei que sim com a cabeça. Enquanto abria a porta, ele pousou sua mão sobre a minha e apontou uma porta mais a frente. – está naquela ali. – eu sorri e o abracei, era um ótimo amigo. Assim que nos separamos, eu abri a porta, avistando um sentado sobre uma bancada de madeira, com uma atadura no nariz e com a cabeça baixa. Ele nem me olhou. Suspirei baixo e dei dois passos em sua direção.
- Você está bem? – perguntei, puxando o queixo dele de leve pra analisar seus machucados. Ele não respondeu. Apanhei uma gaze sobre a bancada, molhei-a com o remédio que estava ali e a encostei de leve em um pequeno corte que ele possuía na testa. Ele recuou um pouco e estremeceu, mas continuei fazendo.
- Por que isso está acontecendo de novo? – ele falou baixo depois de soltar o ar pesado. Contei até três, procurando a resposta certa na minha roda particular. Então era isso; eu não me permitiria errar uma terceira vez. Quando você tira um Band-Aid, é melhor puxá-lo de uma vez, daí você só sente um segundo de dor.
- Eu gosto do , você sabe disso. – tentei parecer tranqüila enquanto colocava um esparadrapo no curativo que havia terminado de fazer.
- Eu sei, sempre soube. Mas... Nós estamos juntos. – ele fez uma pausa com o olhar triste e então conectou outra frase. – Não agüento mais isso, .
- Você tem razão... Acho melhor pararmos por aqui antes que nos machuquemos ainda mais. – concordei enquanto ele me olhava nos olhos pela primeira vez. Seu olhar parecia surpreso no primeiro instante, mas depois amoleceu e ele concordou com a cabeça. Ele soltou um sorriso triste enquanto eu fazia um carinho na sua nuca. Seus braços envolveram minha cintura, abraçando-me. Eu sabia que era o melhor a fazer agora. Não queria mais magoar ; não mais do que eu já havia feito.
Eu sempre fui apaixonada por , mas me fez aprender a gostar dele com o passar do tempo, principalmente na época que eu me apaixonei por e este namorava. sempre foi atencioso e eu aprendi a amá-lo. Começamos a namorar e dois meses depois, terminou com Jannie. Foi aí que tudo começou a virar de pernas pro ar.
Dei um beijo no topo da cabeça de e me afastei, seguindo pra porta. Quando girei a maçaneta, ouvi-o me chamar.
- ... – virei-me, sorrindo pra ele. – As coisas vão ser como antes de tudo isso, não vão? Ainda vamos ser amigos? – ele sorriu fraco e eu fiz o mesmo.
- Vão sim, , vão sim. – então saí da sala, dirigindo-me ao fim do corredor.

End to ’s Point of View.

A sala girava e minha cabeça doía.O sofá em que eu estava cheirava a mofo, o que só piorava a sensação de pessimismo que se apossava de mim. Então era isso, eu tinha entendido; eles namoravam. Bufei forte, arrependendo-me depois porque o corte na minha boca começou a latejar. Ouvi um barulho na porta e sentei-me no sofá assim que a vi entrando na sala. Meu coração se apertou. Suas ônix me fitavam com carinho e preocupação.Ela não falou nada. Foi caminhando até a mesa, pegou a maleta de curativo e se aproximou de mim. Molhou um algodão em algum líquido que não me interessava saber qual é e então seus dedos quentes tocaram na pele do meu rosto. Estremeci.
Fechei os olhos assim que os dedos dela começaram a deslizar desde a minha testa até meu queixo. Ela pousou o algodão no corte do meu lábio e eu gemi baixo com a ardência. Eu queria falar com ela, qualquer coisa, só pra ter certeza que estava tudo bem entre nós, mesmo depois desse dia turbulento. Mas nada passava pela minha cabeça. Nada aceitável, nada que fizesse algum sentido dizer em uma situação como essa.
limpou meus outros ferimentos e quando estava colocando esparadrapo no corte da minha bochecha, eu seguirei seu pulso. Nossos olhos se conectaram por um segundo, mas ela desviou suas ônix logo em seguida. Dei um beijo na palma da mão dela e a soltei murmurando um “obrigado”. apenas guardou o vidro do remédio dentro da caixinha, depois andou até a porta e antes de sair, olhou-me intensamente. Um sorriso brotou em seus lábios e ela disse “eu te amo, ”. Depois sumiu pela porta, antes mesmo de eu tentar dizer alguma coisa.


6. Feelings


Estávamos no carro de novo e o silêncio começava a se tornar constrangedor. e eu não nos encaramos nem uma vez desde tudo aquilo e parecia participar disso com ele. Meus olhos procuravam desesperados pelas ônix dela, mas eles não se encontravam.
Harry dirigia devagar, o que fazia parecer que até o carro estava conspirando contra nós, já que nem o ronco gostoso do motor do Dart fazia barulho. A única coisa que quebrava aquele silêncio mórbido era o barulho da noite e isso me relaxava um pouco. Os grilos cantando, os uivos dos cães solitários... Tudo isso ocupava a minha cabeça o bastante, fazendo-me fugir dos pensamentos que já haviam virado rotina.
“O que eu estou fazendo aqui?”, “a me ama!” era tudo no que eu conseguia pensar e nas últimas horas, minha cabeça tentava trabalhar em algo para dizer quando eu ficasse sozinho com a de novo. Eu mal sabia dos meus próprios sentimentos nesse lugar, não sabia nem se eu a amava. Amor. É uma coisa muito forte para ser usada sem ter certeza, as conseqüências podem ser catastróficas, ainda mas se tratando de . Ela mexia comigo, disso eu tinha certeza. Só precisava saber exatamente de que forma isso acontecia.
O carro foi diminuindo a velocidade e assim que paramos, avistei o prédio antigo onde morávamos. Observei os outros três saindo e fiz o mesmo. não estava conosco, achou melhor passar a noite na casa dos pais para colocar os pensamentos em ordem. Ao menos foi o que eu escutei na conversa que ele e tiveram antes de entrar no táxi.
Tempo depois, eu já estava de boxer e camiseta, jogado na cama. No segundo em que eu parei de analisar minha própria vida, notei o quão cansado eu estava. Daqui a pouco, já iria amanhecer. Minhas pálpebras pesadas fechavam sozinhas e então a escuridão me tomou.

Minha visão estava borrada, não conseguia ver nada direito e uma luz forte me cegava. De repente, tudo isso parou tão rapidamente quanto apareceram. Os borrões se foram e agora eu podia enxergar direito. Eu não sabia onde estava, mas o lugar era cheio de gente e quase tudo era preto e branco. A luz focava um casal um pouco à frente; os dois de costas. O rapaz ria e roubava uma pipoca do pacote na mão da garota que lhe mostrava a língua em reprovação.
- Deixa de ser implicante! Só porque eu nunca fui ver de perto a Tower Bridge não quer dizer que eu seja menos londrina do que você! – a garota resmungou, tirando o pacote de pipoca de perto do rapaz. Assim que aquela voz chegou aos meus ouvidos, eu me arrepiei. Sabia de quem era. Ela estava diferente, os cachos vermelhos não estavam mais lá. Seu cabelo estava curto, um pouco acima dos ombros e era tão liso que não parecia ser de verdade.
- Isso é impossível! Até quem não é britânico vem pra cá pra visitar essa ponte e você que nasceu e cresceu aqui nunca foi. – o garoto parou de andar e ficou de frente pra ela que estava com uma cara emburrada. Ou melhor, o garoto não, eu. Estava diferente, um pouco mais gordo, com o cabelo mais comprido, mas era eu. Aproximei-me deles com cuidado para que não notassem a minha presença.
- Pára de ser chato, . – fez bico e nós dois sorrimos. Pelo visto, ela sempre teve esse efeito sobre mim.
- ‘Ta okay. O que você me pede que eu não faço, docinho? – o meu outro eu apertou o nariz de e ela pulou no pescoço dele, abraçando-o. Confesso que senti uma pontada de inveja de mim mesmo.
- Eu te amo, ! – soltou um beijo estalado na bochecha dele e então se afastou.
- Eu sei que você me ama, sempre soube. – entrelaçou sua mão na dela enquanto caminhavam próximos à grade.
- Nah, que presunçoso! Eu só te amo porque você vai me levar à Tower Bridge, só por isso. – riu vitoriosa enquanto fazia uma cara de indignado. E então tudo foi ficando cada vez mais distante. Tão repentinamente quanto surgiu, a cena se desfez sob meus olhos e sumiu. Abri os olhos e chequei se eu ainda estava lá no parque, com e o meu outro eu, mas o teto mofado do meu quarto não me deixou com dúvidas; foi um sonho. Sentei na cama, passando as mãos pelo cabelo ensebado. Eu precisava de um banho.
Olhei de soslaio para a janela enquanto me levantava da cama. O Sol já estava no fim do horizonte, a ponto de nascer. Eu não devia ter dormido por muito tempo. Peguei a primeira roupa que vi pela frente e me dirigi ao banheiro no fim do corredor. Despi-me enquanto voltava à realidade. Até meu subconsciente conspirava contra mim, fazendo-me sonhar com ela. Entrei no box e girei o registro, sentindo as primeiras gotas de água quente se chocarem contra o meu corpo. estava dormindo no quarto do Doug, tão perto e ao mesmo tempo tão distante de mim.
Geralmente aquelas três palavras que ela me disse ontem costumam aproximar as pessoas, mas conosco era diferente. Tudo era bem mais complicado. Ela tinha um namorado que, por um acaso ridículo do destino, era um dos meus melhores amigos.
Respirei fundo enquanto enxaguava meu couro cabeludo. Tudo o que eu mais queria era ficar com ela, poder tê-la, mas era a única coisa que parecia não poder acontecer. Assim que terminei de retirar o xampu, desliguei o chuveiro e puxei a toalha que tinha pendurada na porta do box. Eu precisava esfriar a cabeça, se não, iria enlouquecer. Vesti o moletom velho que eu tinha pegado no armário e joguei a toalha molhada no chão do banheiro, sem me importar se alguém reclamaria depois.
Voltei ao meu quarto; o Sol estava começando a raiar com mais vontade. Dei um impulso para pular a janela e subi a escada de incêndio que tinha do lado de fora, a qual levava até a cobertura do prédio. Assim que tirei o pé do último degrau, percebi que eu não era a única pessoa que gostava de observar o nascer do Sol. Caminhei devagar até o beiral do lugar e parei ao lado da garota de cabelos vermelhos. Ela não me olhou e eu também não falei nada. Isso era tudo o que eu precisava: sentir o sol e ter a companhia dela. Às vezes, as palavras estragam tudo.
Passaram-se uns dez minutos em completo silêncio, até que o sol já estava no topo. me fitou com um sorriso minúsculo brincando em seus lábios.
- Eu adoro vir aqui a esta hora pra ver o dia começando. – cruzou os braços e os apoiou sobre o beiral.
- É bom pra colocar as idéias no lugar. - ela apenas assentiu e continuou olhando a vista. Eu a fitei; ela estava linda. A pequena brisa que soprava fazia com que os fios que estavam soltos do rabo de cavalo voassem rebeldes. Suas ônix brilhavam mais do que nunca no Sol e as sardas sobre a bochecha estavam mais visíveis sem a maquiagem.
- Pára de me olhar assim, . – ela riu envergonhada ainda sem me olhar e tentou arrumar o cabelo com uma das mãos. – Eu ainda nem me arrumei, devo estar horrível.
- Nunca te vi tão linda. – eu sussurrei inconsciente. Na verdade, eu havia pensado. Não era pra ter dito, mas quando eu percebi, as palavras já haviam saído e estava corada, encarando o horizonte.
- Eu sonhei com você. – completei, olhando a forma com que as nuvens se espalhavam no céu cinzento de Londres.
- Coisa boa? – seus olhos agora seguiam um passarinho que havia pousado mais à frente, no mesmo beiral em que estávamos apoiados.
- Ótima. Estávamos na Tower Bridge. – virei, apoiando as costas na grade e colocando as mãos nos bolsos.
- Essa definitivamente é uma ótima lembrança. – abriu um sorriso imenso e me olhou de uma forma doce. – Sinto saudade daquele tempo, as coisas eram tão mais... Simples. – ela desviou o olhar, fitando seus sapatos.
Aproximei-me dela, colocando uma mecha solta da franja atrás de sua própria orelha. Ela me olhou e eu estacionei a minha mão por ali. Era gostosa a sensação do toque das nossas peles; era quente e confortável, tão acolhedor que eu tinha vontade de tocá-la sempre que possível, só pra sentir aquele calor bom me preenchendo. Passei o polegar pela sua bochecha e ela fechou os olhos, curtindo o carinho.
- Sinto sua falta. – sussurrei sincero. Mesmo não sabendo, nem lembrando se havíamos ou não ficado juntos, eu sentia falta de ; da pele dela, do seu toque, de ver seu sorriso, de sentir seu hálito quente me invadindo, seus lábios junto aos meus. Sempre que eu ficava distante da , era como se tivessem cavado um buraco no meu peito e um vazio enorme me ocupava.
- Eu também. – pousou sua mão sobre a minha e abriu os olhos, encarando-me séria. – Mas essa não é a hora certa, , você sabe disso. – seus olhos brilhavam de uma maneira suplicante e eu faria de tudo pra fazer aquele brilho doloroso sumir dali.
- Eu sei, , eu sei. – escorreguei a mão que estava no seu rosto até a sua nuca, puxando-a pra mais perto de mim. Jess se agarrou na minha cintura, enterrando a cabeça no meu peito. Respirei fundo, inalando todo o perfume que emanava de seus cachos. Aquilo era viciante. – Eu vou esperar. – ela não disse nada, eu também não. Ficamos mais alguns segundos abraçados até que um choque de realidade nos preencheu e nos separamos relutantes. me fitava com um sorriso doce nos lábios que eu retribuí. Seguimos até a escada de incêndio em silêncio; nossas mãos se entrelaçaram inconscientemente.
Assim que chegamos ao nosso andar, ela se dirigiu à própria janela e eu entrei na que pertencia ao meu quarto. Eu não sabia ao certo de que forma as coisas ficariam, mas eu ia lutar para que tudo se acertasse agora. Só não sabia ainda como fazer isso.

Era fim de tarde, eu, Harry e estávamos jogados no sofá da sala, bebendo algumas cervejas e assistindo a “Ready, Steady, Go!*” em uma tevê de tubo, em preto e branco. Se eu dissesse a eles que a tevê daqui a alguns anos vai ser tão fina quando um papelão, provavelmente me atirariam pedras. Harry já havia levado de volta para a casa e nós não tivemos nenhuma conversa mais sobre aquele assunto desde a cobertura. Os garotos também não falaram nada sobre; todos fingiam que nada tinha acontecido e ninguém nem mencionava o perto da .
Os Beach Boys entravam no palco do programa e a platéia gritava, acalorando a banda. Em um súbito, isso me lembrou meu último dia antes dessa bagunça no tempo, quando o McFly se apresentou no “Hello England”. Minhas lembranças foram interrompidas quando um barulho na fechadura fez com que nós três olhássemos naquela direção. A porta se abriu, revelando um com cara cansada e olheiras sob os olhos.
- Hey dude. – se atreveu a chamá-lo, fazendo-o apenas acenar com a cabeça e seguir para seu quarto. Senti os olhares dos caras caírem sobre mim.
- O que foi? – eu sabia a resposta, mas definitivamente não queria ter que fazer isso. Ao menos não agora.
- Você sabe que tem que ir falar com ele. - Harry resmungou, indo até a tevê e girando um pouco mais o botão do volume, fazendo com que a música ficasse mais alta. Eu apenas confirmei com a cabeça e me levantei do sofá, deixando a garrafa vazia de cerveja no chão. Fui com passos arrastados pelo corredor e parei na porta do quarto ao lado do meu, apenas encarando a porta. Ensaiei algumas vezes dizer alguma coisa, mas percebi que não sabia o quê, resolvendo apenas bater duas vezes na madeira velha. Demoraram alguns minutos arrastados até que a porta se abrisse e sem camisa e com os cabelos embaraçados me encarasse sem vontade.
Desviei o olhar dele para dentro do quarto. A cama estava revirada e coisas jogadas por todo o canto. Era bem diferente do meu; a minha bagunça costumava ser mais organizada.
- O que foi? – a voz dele saiu rouca e fraca e eu pude sentir seu bafo forte de álcool irritando minhas narinas. Eu hesitei um pouco pra responder, fazendo-o bufar. – O que você quer, ? – resmungou inquieto, ameaçando fechar a porta, mas eu o impedi, colocando uma mão na maçaneta.
- Posso entrar? Acho que a gente precisa conversar, . – suspirei cansado. Essa complicação toda estava começando a me cansar, eu não via saída para nenhum dos meus problemas.
- Eu não quero conversar, dude. Não tem o que falar. – revirou os olhos e fez uma careta impaciente.
- ... – tentei argumentar, mas ele me cortou.
- Só me dá um tempo, , só preciso de um tempo. – ele vagou o olhar pros seus pés e repetiu a última frase acho que mais pra convencer a si mesmo do que a mim. Isso me inquietou. Baixei o olhar, concordando e me virei, seguindo pro meu próprio quarto a tempo de ouvir o baque seco da madeira quando a porta foi fechada. Aonde é que eu vim parar?


7. Looking For Something


Passaram-se quinze dias desde a confusão no “Rockabillity”. Ninguém falava mais sobre isto; era como se nada tivesse acontecido. ainda estava meio cabisbaixo pelos cantos, mas não tínhamos muito tempo para nada. Estávamos começando a gravar um novo CD e todo mundo estava ocupado em suas funções. Desde aquele dia, eu nunca mais vi . Só soube alguma notícia dela através de Harry que foi apanhá-la na saída da escola um dia desses. Eu sentia sua falta.
Hoje era começo das férias escolares e eu sabia que iria como de costume para uma colônia de garotas. Harry havia me explicado que seu pai sempre a mandava para lá, onde ensinavam bordado, primeiro socorros, aulas de culinária e outras coisas mais de garotas. Eu tinha um plano em mente e por mais maluco que ele me parecesse, eu iria colocá-lo em prática. Como era uma sexta-feira, teríamos descanso das gravações. Inventei uma desculpa que visitaria um amigo em outra cidade e saí do apartamento com uma mala nas mãos.
Depois de rodar trezentos quilômetros em um Ford Galaxie alugado, eu estava parado em uma estrada de terra na frente do “Acampamento Sunshine”, onde eu sabia que estaria. Apoiei minha cabeça no encosto do banco, aguardando algum sinal do ônibus. Já fazia quase um mês que eu estava na década errada, vivendo outra vida e a cada dia eu me conformava mais com isso, desde que Jess estivesse comigo. E essa era uma coisa que eu já estava decidido em fazer.
Uma cantoria começou a se aproximar juntamente com um barulho de um ônibus velho próximo dali. O veículo do acampamento passou a alguns metros de distância e ninguém me notou ali escondido. Desci do carro assim que percebi as garotas saindo do ônibus e se amontoando em grupinhos. Típico. Aproximei-me cauteloso, procurando a dona dos cachos vermelhos. Todas as garotas olhavam pra frente, prestando atenção nas ordens da monitora.
Agachei-me junto ao chão para que ninguém me notasse e continuei procurando. Segundos depois, notei uma garota mais afastada das outras. Seus cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo. Engatinhei até ela. Eu tinha certeza que eu estava em uma posição ridícula e agradecia por nenhum dos garotos estarem ali para me zoar.
Aproveitando que ela estava afastada do grupo, levantei, batendo levemente em seus ombros. se virou e arregalou os olhos assim que me viu.
- ... – ela tentou começar a dizer, mas eu tapei sua boca e a puxei pra trás de uma árvore. Ela arrastou sua mala junto ao corpo.
- Shiu, senão vão nos escutar. – sussurrei e ela pulou no meu pescoço, abraçando-me forte. Eu afaguei seus cabelos e absorvi seu perfume doce, lembrando de quanto aquilo havia me feito falta.
- Senti tanto a sua falta. – ela sorriu triste e eu retribuí com o meu melhor, brotando nos lábios.
- Vem comigo.
- O quê? – seus olhos correram desesperados de mim para o grupo de garotas que começava a entrar no acampamento e seguir para o alojamento.
- Eu só quero passar um tempo contigo, é tudo o que eu peço. – segurei forte a sua mão. – Por favor.
- Está bem – ela me puxou na direção oposta das garotas. – Vamos antes que eu me arrependa.
Sorri arrastado e peguei a mala de ainda sem desgrudar nossas mãos. Caminhei até o Ford, joguei a mala dentro do porta malas e abri a porta do passageiro para ela entrar. Segui até o outro lado motorista e girei as chaves.
- Judd, você está oficialmente seqüestrada. – brinquei, enquanto arrancava com o carro, o que a fez sorrir.
O dia começava a cair e finalmente chegávamos ao nosso destino. Jess tentou descobrir para onde eu a levava, mas eu respondi que se contasse, não seria um seqüestro de verdade. Parei o carro por entre as árvores e mais a frente, uma casinha vermelha solitária era convidativa. saiu do carro antes mesmo de eu abrir a porta pra ela e caminhou hipnotizada até as escadas na frente do pequeno chalé. As madeiras brancas da varanda combinavam com a casa vermelha e a chaminé no topo parecia completar a perfeição daquela casa aconchegante.
estava parada junto a porta e apreciava a paisagem sem dizer uma palavra, mas as ônix diziam por ela, brilhavam e refletiam a lua cheia que habitava o céu noturno. Passei meus braços em volta de sua cintura, aconchegando-a em meu peito para protegê-la da brisa gelada que soprava das árvores.
- É simplesmente perfeita, . – sua voz saiu falhada e ela inclinou o rosto pra me fitar. Eu apenas sorri.
- Vamos entrar? Está esfriando. – ela assentiu então a guiei porta adentro. A casa era pequena, mas bem aconchegante; móveis coloniais e uma lareira enorme na sala. Deixei as malas em um canto e me joguei cansado no sofá. riu e se jogou ao meu lado.
- Obrigada. – ela brincava com os dedos da minha mão e eu observava aquela cena como se fosse a coisa mais importante do mundo.
- Pelo o quê?
- Por ter me tirado de lá. Por não ter me esquecido. – seus olhos vagaram pra longe, mas eu peguei em seu queixo e a fiz olhar pra mim.
- , eu nunca vou te esquecer. – ela passou a língua pelos lábios o que me hipnotizou por alguns instantes. A boca dela nunca me pareceu tão convidativa. Eu já estava quase esquecendo o gosto de seus lábios. Meus olhos analisavam sua boca entreaberta, mas levantou, fazendo-me suspirar derrotado e passar a mão pelos cabelos.
- Vou tomar um banho. – ela sorriu presunçosa e seguiu em direção ao banheiro.
Segui até a cozinha e retirei um pacote de macarrão da despensa que eu já havia enchido no dia anterior. Apanhei uma panela no armário e a enchi de água, enquanto esperava aparecer as bolhas de ar avisando que a água havia fervido. Eu sorria comigo mesmo; meu plano maluco havia dado certo. Eu só queria passar um tempo decente com ela, então aluguei este chalé. Dois dias seriam suficientes pra eu aproveitar sua companhia, eu tinha certeza. Depois a levaria para de volta ao acampamento, fingindo ser o Harry. Coloquei o macarrão na panela e abri a porta da cozinha que dava para os fundos da casa. Paralisei ali apoiado no batente, somente apreciando o céu estrelado. A noite estava maravilhosa eu gostaria de ver uma estrela cadente só para fazer um pedido. Queria pedir para voltar para o futuro e pra ir comigo. Fechei os olhos, imaginando a possibilidade de que quando eu voltar ela não irá comigo.
Soquei as mãos no bolso da calça nervoso a procura do meu maço de cigarros. Eu não queria, não poderia nem pensar em viver ser ela. Tirei um cigarro do maço, coloquei na boca e o acendi com o isqueiro, dando uma tragada longa em seguida. Sim, eu havia virado um romântico estúpido e ultimamente eu não ligava nem um pouco por isso. Inspirei a fumaça que se dissipou pelo ar frio e senti uma mão tocando meu ombro esquerdo. Virei para observar com um sobretudo e maçãs vermelhas. Eu nem havia notado que o tempo tinha esfriado tanto.
- Você não tinha parado de fumar? – ela apoiou as costas do outro lado do batente da grande porta e me fitou sem expressão.
- É. – eu soltei um riso fraco e olhei para o cigarro na minha mão após outra tragada. – Mas eu gosto de ter algo nas mãos quando estou nervoso, ou preocupado.
Ela sorriu. Chegou mais próximo de mim e pegou o cigarro, jogando-o longe.
- Você tem a mim. – disse, enquanto entrelaçava sua mão na minha. Seu toque foi frio em contraste com a minha pele quente. Eu adorava a forma como ela lidava com as piores situações. me surpreendia cada dia mais. Passamos alguns segundos em silêncio, somente apreciando o brilho das estrelas com nossas mãos ainda unidas.
- Com o que você está preocupado, ? – me perguntou, apoiando a cabeça no meu braço.
- Ah... Com coisas da banda. Estamos em tempo de compor, fazer arranjo, coisas assim. – menti descaradamente, mas a verdade soaria mais como uma mentira do que isso.
- Não sei de onde vocês tiram tanta inspiração pras músicas. Tudo parece tão natural. – nossas mãos brincavam uma com a outra.
- De experiências de vida, de sentimentos, coisas assim. – passei o polegar calmamente, acariciando as costas de sua mão.
- E você, ? Em que você pensa na hora de escrever? – ela me fitou, sorrindo de leve. A brisa da noite fazia seus cachos se esvoaçarem devagar.
- Em você. – sussurrei – Sempre em você.
O vento zumbia, criando uma melodia gostosa de ouvir.
- E você, ? Você acha que vale a pena passar tudo o que você passa na sua casa com o seu pai? Depois ainda ter que ir para uma faculdade e estudar algo que você não quer?
Ela não respondeu de imediato. Soltou um riso fraco sem humor e eu a fitei.
- Vai valer a pena, . Se você estiver comigo, tudo vai sempre valer a pena.
Inspirei pesado, fazendo uma fumaça de ar se condensar assim que saiu da minha boca. Aproximei-me de e a abracei de lado, de maneira desajeitada. Ela encostou a cabeça em meu ombro e não trocamos mais nem uma palavra até eu me lembrar do que estava fazendo.
- Esqueci do macarrão. – falei em tom de voz tranqüilo, com o cenho franzido, mas sem mexer um músculo.
- Eu já desliguei. – ela riu de mim e eu sorri. Depois nos separamos e voltamos para a cozinha; meu estômago já roncava de fome.
Jantamos em silêncio; as únicas coisas que passavam entre nós eram olhares minuciosos. Depois da ultima garfada, levantou da mesa, levando seu prato até a pia. Levantei, imitando-a, mas ela me impediu de lavar os pratos.
- Você já fez o jantar. Deixa que eu cuido disso, ‘ta certo? – ela fez cara de brava e eu ri, apoiando-me na pia. Cruzei os braços e fiquei observando-a empenhada em ensaboar os pratos, com seus cabelos ainda molhados pingando sobre os ombros.
me olhou de soslaio, mostrando-me a língua e então começou a empilhar os pratos no canto da pia. Desencostei-me de lá, ao mesmo tempo em que um prato do topo da pilha escorregou, se espatifando no chão.
- Droga! – resmunguei, abaixando-me para recolher os cacos. já fazia o mesmo. – Deixa que eu cuido disso, você vai se... – parei de falar assim que ela resmungou, apertando a palma da mão. Ela já havia se cortado.
- Duas vezes droga! – corri até a despensa, voltando com uma caixinha de remédios. já estava sentada sobre a mesa, analisando seu ferimento e fazendo beiço igual criança. Soltei um sorriso imenso a observando assim, tão frágil.
- Isso pode doer um pouco. – referi-me ao anti-séptico do qual eu já abria o pote.
- Ah, eu imagino o quanto. – ela retorceu o rosto em uma careta e fechou os olhos com força. Aproveitei para passar o remédio rapidamente na ferida e ela soltou um gemido de dor. Assoprei algumas vezes, já colocando a atadura envolta do corte. Olhei rapidamente para ela que me fitava sorrindo.
- O que foi? – sorri de canto, envergonhado da maneira que ela me fitava. – Nem doeu tanto assim, viu?
- Não. – ela simplesmente respondeu ainda me olhando daquela forma, com aquele brilho intenso no olhar, enquanto eu guardava as coisas de volta na caixinha.
Terminei de guardar as coisas e a fitei sem entender. Ela pousou sua mão em cima da minha e me puxou para mais perto. Olhei suas ônix que ainda possuíam o mesmo brilho diferente. pousou sua mão livre em minha nuca, fazendo um carinho gostoso. Fechei os olhos e no instante seguinte, senti seu hálito quente e sua respiração entrecortada perto demais. Eu já estava ficando fora de mim; um segundo a mais e eu tenho certeza que não me responsabilizaria por meus atos.
Senti sua outra mão envolvendo meu pescoço e não me segurei mais. Aproximei-me os poucos milímetros que nos separavam e uni nossos lábios em um só. Um calafrio me percorreu; ela estava ali, preenchendo o vazio que havia se apossado de mim todo esse tempo. Toquei minha língua em seus lábios, pedindo passagem que foi concedida. Eu estava entre as pernas de Jess e apertava sua cintura, puxando-a mais pra perto de mim. Nossas línguas faziam movimentos sincronizados, como se fossem feitas para isso: se completarem.
Gemi baixo quando ela mordeu meu lábio inferior. Escorreguei uma de minhas mãos pra debaixo da blusa de , que estremeceu com o choque térmico que nossos corpos provocaram. puxava de leve os cabelos da minha nuca e com minha mão livre eu ajudei-a a envolver suas pernas em volta de minha cintura. Peguei-a no colo e sem parar de nos beijar, comecei a cambalear com dificuldade. Quebrei alguns objetos no caminho até conseguir encontrar o quarto.
Pousei-a na cama e separei o beijo rapidamente, enquanto tirava minha própria camiseta. Sorri quando a observei mordendo o lábio, inquieta. Comecei a distribuir beijos desde sua clavícula, passeando por toda extensão do pescoço. Eu adorava a sensação dos meus lábios naquela pele macia e não conseguia entender como consegui ficar tanto tempo sem tê-la. Afastei-me um pouco para começar a tirar sua blusa, a qual ela mesma me ajudou. Abri um sorriso largo quando minha visão se deparou com um par de seios fartos, pedindo meu toque. Demorei-me alguns segundos apenas os apreciando até que estremeci, sentindo as unhas de arranhando meu abdômen.
Meu membro pulsava dentro da calça e eu sabia que ele pedia para sair logo dali. Eu beijava toda extensão do corpo de , enquanto ela se livrava da minha calça. Essa era uma das noites mais importantes de nossas vidas; era a primeira vez dela, era a minha melhor vez. Nós estávamos nos deixando levar pelos extintos. O único problema disso eram as conseqüências que viriam a seguir.


8. Everybody Knows The End


Já era de manhã e o sol beijava os cachos ruivos de , que estavam esparramados pelo travesseiro feito um leque. Eu já havia perdido a noção de quanto tempo eu apenas a observava a dormir.
se mexeu um pouco, virando-se de frente para mim.
- Bom dia – seu sorriso tímido fez com que puxasse os lençóis até o topo da cabeça. Eu a imitei. Nós dois nos olhamos debaixo das cobertas e caímos no riso.
- Que tal panquecas? – resmunguei, dando um pequeno beijo em seu ombro esquerdo.
- Com chocolate? – ela riu e eu assenti divertido - Eu preparo – jogou as cobertas de lado, mas eu a segurei pela cintura.
- De jeito nenhum. Daqui a pouco, eu vou – apertei mais meus braços e volta de sua cintura, tentando prendê-la comigo na cama.
- Eu estou com fome, . Muita fome – deu uma mordida de leve na minha bochecha, fazendo um barulho engraçado com a boca – Já chega o seu macarrão empapado de ontem – ela se desvencilhou dos meus braços de forma fácil e vestiu depressa minha camisa que estava jogada pelo chão do quarto. Sorri, observando sua silhueta nua sendo vestida por uma de minhas roupas que ficavam enormes para ela. Sua pele branca demais chamava minha atenção (ainda mais com o sol cintilando em suas curvas).
- Ei! Não reclamou do meu macarrão ontem – joguei uma almofada em direção à porta do banheiro em que havia entrado.
- Mas estou reclamando agora! – ouvi a frase abafada por causa da porta fechada entre nós.
Provavelmente uns trinta minutos depois, eu acordei. Havia dormido ouvindo o som do chuveiro, onde tomava seu banho. Girei na cama, com a preguiça me dominando, mas uma melodia vinda da sala despertou minha curiosidade, fazendo com que eu fosse tomar meu próprio banho.
- “The way she walks, the way she talks(o modo como ela anda, o modo como ela fala) – a voz do Elvis preenchia a sala, enquanto eu andava pelos corredores em direção à cozinha. Eu estava hipnotizado por aquele cheiro de chocolate que impregnava todo o chalé.

[n/a: Quem quiser acompanhar com a música: Elvis - The Girl Of My Best Friend]

How long can I pretend
Até quando posso fingir
Oh, I can't help. I'm in love
Oh, não posso evitar. Estou apaixonado
With the girl of my best friend
Pela garota do meu melhor amigo

Passei pela sala, observando o pequeno rádio ligado no último volume, e uma voz sussurrada acompanhava a melodiada do rei do rock. Encostei silenciosamente o ombro ao batente da porta da cozinha e lá estava ela, vestida agora com um dos meus moletons de times de beisebol, que seguiam até a metade das coxas. Seus pés vestiam meias brancas que deslizavam por toda a cozinha, fazendo piruetas.

Her lovely hair,
Seu lindo cabelo
Her skin so fair…
Sua pela tão clara...
I could go on and never end.
Eu poderia continuar e nunca acabar.
Oh, I can't help. I'm in love
Oh, não posso evitar. Estou apaixonado
With the girl of my best friend
Pela garota do meu melhor amigo


Os braços de estavam esticados acima da cabeça. Ela balançava os quadris vagarosamente de um lado para o outro, seguindo o ritmo da música. Seus cabelos ainda molhados desde o banho respingavam sobre o moletom velho. Meus olhos estavam grudados em sua figura, sem perder um movimento sequer que ela fazia.
Ela levou a espátula que havia usado para virar as panquecas próxima à boca e fingiu que cantava em um microfone. Não pude deixar de sorrir escancarado, vendo-a tão feliz, tão livre como ela estava agora. deu uma volta devagar, no ritmo da musica, o que a fez me encarar com um sorriso brincando nos lábios. Ela na hora virou de costas pra mim, encarando a frigideira com as panquecas.
- Por que você não disse que estava aí, ? – ela resmungou, enquanto colocava as panquecas em cima de um prato ali perto.
- Por que senão, não teria visto você dançando Elvis – aproximei-me dela, a abraçando pela cintura e apoiando meu queixo em seu ombro. Ela resmungou alguma coisa e eu ri da forma de como ela ficava brava por tão pouco.
Ela desvencilhou-se dos meus braços, pegando o prato com as panquecas e o deixou em cima da pequena mesa, sentando-se em uma das cadeiras. A mesa estava farta. Eu encontrava ali um pouco de tudo com que eu havia enchido a despensa. Peguei um grafo, espetando a panqueca do topo, e levei-a até a minha boca. Só agora eu havia percebido o quão com fome eu estava.
- Eu adoro quando você faz essa cara de emburrada – comentei com a boca cheia de panquecas, enquanto observava remexendo no seu prato com um bico enorme nos lábios. Ela sorriu assim que ouviu o meu comentário.
- O que você quer fazer hoje? – perguntei entusiasmado – Qualquer coisa. O céu é o limite – fiz uma reverência com o talher, apontando o teto do lugar, com um sorriso infantil no rosto.
- … - sussurrou com uma voz doce e então eu levantei os olhos das minhas panquecas para fitá-la. Seu olhar estava calmo, mas com um brilho incerto, com algo a incomodando. Pela primeira vez, eu não sabia o quê.
- Acho melhor você me levar de volta para o acampamento – ela continuou com o mesmo tom de voz baixa e toda a minha empolgação desapareceu tão rapidamente quanto chegou.
- Por quê? … - meu tom de voz saiu mais suplicante do que o necessário, fazendo com que ela me lançasse aquele olhar de súplica novamente, aquele olhar que eu não conseguia encarar por muito tempo, que eu faria qualquer coisa pra não vê-lo mais ali em suas ônix.
- Meu pai ficou de me visitar nos primeiros dias, só pra ver se tudo corria bem – sua mão que antes segurava o garfo correu pela mesa, atravessando os obstáculos até a minha. Nossos dedos se completaram. Sua mão pequena parecia certa e aconchegante na minha. De repente, as cenas da noite anterior vagaram depressa na minha cabeça. A sensação dos nossos corpos unidos era uma coisa que eu sabia que depois de ter experimentado eu não poderia ficar sem. Segurei sua mão mais forte com a minha e soltei o ar que parecia estar preso tempo demais.
- É melhor eu estar lá quando ele aparecer. Você sabe disso – ela completou e eu assenti de leve com a cabeça. Passei a mão livre pelos cabelos, os bagunçando, e puxei-a pela mão que eu ainda segurava.
- Venha cá – ela se levantou de sua cadeira e seguiu até mim, ainda com aquele olhar triste. se sentou no meu colo e enterrou a cabeça na curva do meu pescoço. Eu afaguei os seus cabelos devagar, tentando decorar cada parte que eu achava que eu sabia que sentiria falta. Meus braços se estreitaram em volta dela. parecia sempre tão pequena, tão frágil. Eu sentia tanta necessidade de protegê-la (mais do que a mim mesmo).

***


O ventilador fazia um chiado estúpido. Eu ainda não sabia o porquê ele estava ligado. Lá fora, o frio era demais, não havia calor algum, mas eu me sentia sufocado dentro daquele estúdio. Passei as mãos devagar nas cordas do violão, fazendo-as soarem. Não fazia nem duas horas que eu havia deixado no acampamento e eu já me sentia vazio de novo. Existia uma parte de mim – a qual eu sabia que não podia viver sem – que era perdida quando ela estava longe demais.
Isso era o que mais me machucava porque eu não fazia idéia de quando nos veríamos de novo. Além de todo o problema com o senhor Judd, daqui a algumas semanas nós sairíamos em turnê, divulgando o novo LP. O que não parava de me atormentar era: qual o sentido de eu continuar neste lugar, sem por perto? Por que eu ainda estou aqui? Esse era o tipo de coisa que eu nem pensava com ela por perto. Suspirei fundo e, por um minuto, as imagens do dia anterior passaram pela minha cabeça como um filme. Meus dedos ainda dedilhavam as cordas do violão e então, naturalmente, minha cabeça se unia em letra e melodia. Era tão fácil quanto respirar.


9. Lullaby


Cinco meses depois - ’s POV

O carro andava mais devagar agora. Eu havia pedido para o papai andar mais devagar porque eu estava enjoando com a velocidade em que ele andava antes. Minhas lágrimas ainda caíam, mas não com tanta freqüência do que antes. Eu já estava quase conformada.
- Vai ficar tudo bem, filha. Acredite em mim – era a quinta vez que mamãe falava isso do banco de frente do carro, enquanto me encarava pelo retrovisor. Tudo o que eu fazia era assentir com a cabeça. Eu não tinha mais argumentos. Meu coração estava tão pequeno que eu pensava que ele não existia mais.
Eu tentava não pensar muito no que estava por vir, no que me esperava. Tentava preencher minha cabeça só com Tom e aquele nosso dia no chalé. Não funcionou do jeito que eu esperava. Isso só fez com que o meu choro, antes silencioso, voltasse com mais vontade. Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo. Olhei pela janela do carro e o grande casarão se aproximava cada vez mais.
- Mãe… Por favor – peguei-me suplicando mais uma vez. Eu não podia desistir. Não era mais por mim, nem mais por , mas agora era por Jacob. Olhei pra baixo como de costume. Era sempre o que eu fazia quando falava o nome dele.
- , eu já disse. Seu pai sabe o que faz. Não vamos mais discutir sobre isso – minha mãe tinha a voz embargada. Eu sabia que ela não concordava, mas essa história de submissão era mais forte do que tudo. O carro parou. Fechei os olhos com força, ainda chorando. Eu não sabia como ainda havia lágrimas pra serem choradas.
Senti a porta traseira sendo aberta e o toque frio de uma mão em meus braços.
- Por favor, filha, não torne isso mais difícil do que já é.
Encarei minha mãe, com minha mala já ao lado do corpo e fora do carro. Respirei fundo e saí, sentindo o frio cortar meu rosto. Tentei inutilmente fechar o sobretudo que eu vestia, mas há muito tempo ele já não conseguia ser abotoado. Eu estava imensa e continuaria a inchar, mas não me importava.
Minha mãe me envolveu com os braços urgentes e, por um segundo, senti que ela não queria me deixar ali. Minha garganta travou.
- Mãe, eu te imploro. Por favor! – sussurrei em seu ouvido, enquanto nos abraçávamos.
- Vamos de uma vez, Martha! – ouvi a voz fria de meu pai flutuando pra fora do carro.
- Desculpe – ela se afastou fisicamente, mas os olhos continuaram conectados aos meus. Ela entrou no carro mais rápido do que um piscar de olhos e, antes que eu pudesse implorar uma última vez, o carro já havia ido.
Meu coração, o qual eu nem sabia que ainda existia, deu uma guinada, batendo mais veloz do que nos últimos meses. Eu estava ali, com o vento cortando meu rosto. Estávamos sozinhos no mundo Jacob e eu. Não sei por quanto tempo fiquei ali parada, no frio, com o malão jogado ao meu lado, apenas encarando aquele grande casarão.
Tempo depois – não sei dizer ao certo a quantidade -, minhas pernas começaram a vacilar. Elas costumavam fazer isso de algum tempo pra cá. Era peso extra que eu estava carregando. Elas não se acostumariam nunca. A porta daquele lugar se abriu e uma freira saiu de dentro, com os passos apressados.
- Judd? – ela me olhou de cima a baixo assim que se aproximou. Eu não respondi, apenas balancei a cabeça, confirmando.
- Vamos entrar. Esse frio está congelando – ela seguiu porta adentro e eu demorei ainda alguns segundos até pegar o meu malão pesado e conseguir arrastá-lo para dentro do lugar.
O hall de entrada era imenso. Dezenas de garotas, no mesmo estado do que eu, estavam sentadas em bancadas. Algumas costuravam, outras liam algum livro, mas a maioria chorava.
A velha freira parou próxima a uma das grandes mesas, aproximando-se de uma garota de cabelos loiros e olhos azuis. Ela era tão linda!
- Miller! – a senhora quase gritou, fazendo a garota de cachos dourados deixar de ler seu livro e fitá-la sem muita atenção. – Esta é a Judd – a mulher fez uma pausa e os olhos da garota caíram sobre mim. Um pequeno sorriso foi esboçado em seu rosto – ela vai ficar no mesmo aposento que o seu. Leve-a e mostre tudo.
Miller se levantou com um pouco de dificuldade, assentindo, e em seguida começou a andar até uma grande escada. Eu a segui em um ritmo exageradamente devagar. A minha mala parecia pesar mais do que o desejado.
O quarto não era tão aconchegante. Com umas cinco camas, o espaço parecia mais reduzido do que o necessário.
- Essa cama está livre e é ao lado da minha – a garota loira ajudou-me a deixar o malão aos pés da minha cama e sentou-se na que ela dizia ser dela.
- Obrigada – sorri com dificuldade, sentando-me também. Eu estava ofegante pela subida de todas essas escadas.
- Sou Elizabeth – meus olhos correram em direção ao rosto da garota à minha frente. Ela ainda me fitava com curiosidade.
- . – ela sorriu.
- Quer conversar, ? Quase todo mundo quando chega aqui tem uma longa história para contar – Elizabeth se levantou da própria cama e sentou-se ao meu lado, quando viu que eu demorei pra responder.
Sua mão pousou-se devagar na minha barriga.
- É menino ou menina?
- Menino – sorri, tanto com os lábios quanto com os olhos. Minha mente já conseguia formar exatamente o rosto do menininho que crescia dentro de mim. Eu tinha toda a certeza de que ele teria o sorriso de .
- Você já tem um nome? – se a idéia de Elizabeth era me distrair com essa conversa, ela estava conseguindo. Nunca ninguém havia me perguntado essas coisas. Qual seria o nome dele. Nem minha mãe e ninguém. Assenti com a cabeça.
- Jacob – meu sorriso se iluminou. O nome parecia muito mais lindo pronunciado dessa maneira, em voz alta.
- É um lindo nome – Elizabeth retribuiu o sorriso – Como você escolheu? É o nome de algum parente seu? – ela havia virado o corpo de lado, com uma perna dobrada sobre a cama.
- Não. É... É uma história idiota – desviei o olhar e minhas bochechas eu posso apostar que rosaram.
- Ah, por favor! Eu adoro a parte de escolher os nomes. Todo mundo daqui já me contou, só falta você – ri fraco, observando a maneira como Elizabeth era exagerada. Lembrou-me de alguma forma Harry e eu estremeci com isso.
- Ok – ajeitei-me na cama, ficando na mesma posição que Elizabeth, mas virada em sua direção – É o nome de um dos Irmãos Grimm, escritores das fábulas mais famosas. Quando eu era pequena, Rapunzel era a minha preferida. Minha mãe costumava me dizer que eu era parecida com Rapunzel, com os longos cabelos ruivos – sorri comigo mesma, me lembrando de como eu queria ser igual a ela quando pequena, somente esperando o príncipe na torre.
E agora, era irônica a forma como eu me sentia nesse conto de fadas. Anos e anos presa na torre, com o príncipe subindo escondido pela alta janela e enfim, quando ela tem seu príncipe pra si, ela fica grávida e a bruxa descobre. A bruxa então corta os cabelos de Rapunzel, tira a única forma que ela tinha de se encontrar com o príncipe e depois a mandou para o deserto. Eu estava sozinha no deserto agora.
Completamente só; era assim que eu me sentia. Mas que chance eu teria de que meu príncipe me ouvisse cantando e então se curarasse da cegueira? Nenhuma.
- ? Você está me ouvindo? – ouvi Elizabeth me chamando. Pisquei os olhos duas vezes e a encarei sem expressão. Eu havia ficado muito tempo absorta, comparando minha vida com a de Rapunzel.
- Estou, sim, me desculpa – passei as mãos nos cabelos, tirando a franja que havia caído no rosto.
- E você, Elizabeth? Como ele se chama? – repeti seu gesto, colocando carinhosamente minha mão na barriga da garota. Ela estava visivelmente com mais meses do que eu.
- É uma menina – ela exibiu um sorriso doce – Vai se chamar Alice, em homenagem à minha mãe – Elizabeth levou suas mãos até sua própria barriga e a acariciou, se conectando com a pequena Alice.
- Como você veio parar aqui, Elizabeth? – perguntei receosa, fazendo o sorriso que a garota exibia murchar até sumir. Devagar ela retirou as mãos da barriga e as pousou sobre a cama.
- Minha mãe morreu faz cinco anos – ela desviou os olhos dos meus.
- Eu sinto muito – sussurrei e ela voltou a me olhar com um pequeno sorriso.
- Meu pai casou-se de novo e, bem, a minha madrasta não é uma das melhores pessoas do mundo – ela me fitou sem expressão, coisa que eu também fiz. Eu somente prestava atenção à história que eu sabia que ela ia começar, quieta e prestando atenção aos detalhes – Eu sofri muito com ela, até que eu conheci o Mark – ela deu uma pausa de alguns segundos, pensando consigo. Quando eu achei que ela havia se esquecido de que eu estava ali, esperando o restante, ela continuou – Ele me fazia sentir tão bem. Quando estávamos juntos, eu quase me esquecia de que minha mãe havia morrido – Elizabeth sorriu – Até que ele quis que ficássemos juntos. Ele disse que era natural como respirar e eu, tola, acreditei. Eu tinha medo de engravidar e ele me disse que na primeira vez era impossível, então cedi.
- E onde ele está? – perguntei tolamente. É óbvio que aqui ele não estava.
- Quando eu contei pro Mark, ele saiu da cidade. Ele foi aceito em uma das melhores faculdades do estado. Ele não podia ter um filho agora, sabe? Fiquei desesperada, porque nós não somos que nem os garotos. Nós não podemos simplesmente fugir de algo que está crescendo dentro de nós – os olhos dela ficaram vagos, olhando janela afora, como se lembrasse de algo – Então quando minha madrasta percebeu que eu estava grávida, ela me mandou pra cá – enfim, Elizabeth me olhou, com os olhos embargados na história.
- O que é exatamente aqui? – perguntei, parecendo uma criancinha no primeiro dia de aula.
- Não lhe contaram?
- Não.
- Aqui é o Saint Mary’s. Casa para mães solteiras – ela fez uma pausa – Os pais costumam mandar as jovens grávidas para cá para terem os bebês. Assim, ninguém fica sabendo de nada. É como se você tivesse feito uma viagem pra estudar, ou visitar um parente. Você passa a gravidez aqui, é tratada como uma prostituta e, então, volta, sem ninguém saber que você saiu da linha - ela mexia na barra do vestido, evitando me fitar.
- Como sem ninguém saber? Nós voltamos com um bebê, Elizabeth! Não é como se ninguém fosse notar uma criança – resmunguei, achando que estava tendo toda a razão.
Temi o olhar de pena que ela me lançou quando eu terminei a frase.
- Não lhe contaram nada mesmo, não é?
- Do que você…
- Nós não ficamos com o bebê – ela falou tão baixo que eu achei que não havia escutado direito - Assim que você dá a luz, o bebê é encaminhado para adoção, “para mães responsáveis” é como as freiras dizem – ela ainda me olhava com pena e eu não conseguia nem mais respirar. Meus olhos se encheram de lágrimas e de repente a escuridão me tomou. Era como se alguém tivesse arrancado o pouco que restava de mim: Jacob.


10. A Tragic Love Affair That I Don't Understand


Eu estava nervoso. Éramos os próximos a nos apresentar no “Ready, Steady, Go!”. Seria a primeira aparição do The Beatles na televisão e eu estava ofegante.
Cinco meses haviam se passado e muita coisa, acontecido. O novo LP era um sucesso, uma turnê estourada pela Inglaterra, não havia uma pessoa que não sabia cantar “She Loves You” e eu ainda continuava preso aqui. O pior: sem .
Olhei para o lado, encarando os garotos. e resmungavam algo no canto do camarim, Harry batia com as baquetas na lata de lixo e eu passei as mãos suadas pelo cabelo lotado de laquê. Respirei fundo, pensando na responsabilidade de tocar a música que tocaríamos a seguir. Tudo que eu esperava era que estivesse assistindo. Eu estava quebrado longe dela. Sabia que não agüentaria muito tempo assim. Na primeira vez que voltamos para casa, Harry ficou sabendo que tinha ido estudar Enfermagem em uma escola longe, como seu pai queria. Eu nem sabia quando ela voltaria, se ela voltaria.
Respirei fundo, encostando à parede, estalando os dedos de nervoso.
- Vocês são os próximos – alguém da produção surgiu na porta, fazendo nós quatro nos entreolharmos.
- É isso aí, gente – se aproximou, arrumando a gola do paletó.– Chegou a hora do mundo conhecer o “The Beatles”.

’s Point of View

Estava com Elizabeth na sala de Televisão. Ela assistia e cantava as músicas que eram apresentadas em “Ready, Steady, Go!”, enquanto eu bordava uma toalha com o nome de Jacob. Era para o enxoval que eu nem sabia se iria utilizar. Já fazia alguns dias que eu estava naquele lugar e, desde que Elizabeth me contou o que faziam com os bebês, eu tentava não pensar sobre. Ao menos não por enquanto. Eu tinha que ser forte e estar em condições da minha cabeça trabalhar uma saída daquele lugar.
A televisão estava barulhenta em um comercial de sabão em pó que prometia milagre em roupas brancas e, logo após, o programa voltava do comercial. O apresentador entrava em cena.
- Olá! Estamos de volta! Espero que vocês estejam curtindo o programa, porque agora chegou a hora que todos esperavam. É o quarteto mais querido da Inglaterra… - pôde-se ouvir um grito histérico das pessoas da platéia – O grupo que estoura nas paradas. Senhoras e senhores, com vocês… “The Beatles”. Gelei. Meu coração começou a bater sem ritmo e furei meu dedo com a agulha do bordado. Uma gota de sangue pingou na toalha.
- Olhe, . Os Beatles! Adoro-os! - Elizabeth comentou com um sorriso doce. Joguei a colcha de lado e corri para o sofá junto a ela, mais próximo à televisão. Meus olhos começaram a derramar lágrimas quando avistei Harry sentando-se na bateria ao fundo. Logo em seguida, entrou , sorrindo e acenando para a platéia. Eu não sabia como ele conseguia estar mais lindo do que nunca... Ficava feliz em vê-lo. Eu já quase havia me esquecido dos traços de seu rosto. Fechei os olhos por um segundo, desejando que Jacob se parecesse com ele. O mesmo brilho nos olhos, o mesmo sorriso presunçoso, a mesma expressão preocupada, com as sobrancelhas unidas... Pequenos detalhes que me faziam amar mais do que o possível, que o tornavam único. Queria que ele passasse isso para Jacob também.
- … - ouvi a voz preocupada de Elizabeth e, em seguida, sua mão cautelosa tocou meu braço – Você está bem? Está chorando.
Neguei com a cabeça, tentando controlar o choro. Consegui encará-la, desviando por um segundo a atenção da televisão.
- É ele. Elizabeth, é o meu – falei com dificuldade, a voz embargada pelas lágrimas. Beth me olhava confusa e, quando ia abrir a boca pra falar algo, a televisão foi mais rápida, ecoando a voz de pelo lugar.
- Olá – ele se apoiava no pedestal do microfone – Agradeço muito por estarmos aqui. É tudo importante demais para nós – ele fez uma pausa, fechando os olhos pra continuar – Vamos cantar uma inédita. Sei que vocês esperavam “She Loves You”, mas é uma coisa que escrevi e preciso que alguém escute – seus olhos vagaram até Harry, que começou a fazer a contagem na bateria – Sinto a sua falta, .
Meu coração se apertou. Por um segundo, me senti sem ar. Forcei a respiração a continuar compassada - mais por Jacob do que por mim.

It's all about you (it's all about you).
It's all about you baby (it's all about).
It's all about you (it's all about you).
It's all about you.

É tudo sobre você (É tudo sobre você).
É tudo sobre você, baby (É tudo sobre).
É tudo sobre você (É tudo sobre você).
É tudo sobre você.


começou a cantar. e faziam a segunda voz. . Demorei o olhar um pouco sobre ele, que exibia um sorriso enorme no rosto. Ele estava feliz e, mesmo chorando, eu sorri. Ao menos não sofria mais. Não por mim. A música começou com acordes lentos e a voz de me fazia arrepiar. Senti os braços de Elizabeth me acolhendo, enquanto eu ainda derramava lágrimas.

Yesterday you asked me
Something I thought you knew.
So I told you with a smile:
“It's all about you”.

Ontem você me perguntou
Algo que pensei que você sabia.
Então lhe disse com um sorriso:
"É tudo sobre você".

Ele dizia cada palavra com os olhos fechados e, a cada uma, meu coração se apertava mais um pouco. A música me lembrava aquele dia no chalé - o melhor dia da minha vida. Não importava o que aconteceria daqui para frente. Podiam me tirar tudo, mas nunca me tirariam as lembranças daquele dia.

Then you whispered in my ear
And you told me too.
Said “you make my life worthwhile.
It's all about you”.

Então você sussurrou em meu ouvido
E me disse também:
"Você faz minha vida valer a pena.
É tudo sobre você".

Da sensação boa de ter a pele de na minha, de sentir seu toque quente e cuidadoso, dos lábios dele em minha pele... Pensando isso, ouvindo aquela música, a voz de ecoando na minha cabeça, me soava como uma despedida. Era como se nunca mais eu fosse me sentir como naquela tarde de novo. Eu nunca mais seria dele.

And I would answer all your wishes,
If you asked me too.
But if you deny me one of your kisses,
Don't know what I'd do.

E eu atenderia a todos seus desejos,
Se você me pedisse.
Mas se você me negar um dos seus beijos,
Não sei o que eu faria.

Meus olhos paralisaram. Um nó cresceu na minha garganta e minhas mãos correram automaticamente para minha barriga. Tudo parecia ter sumido. Eu só prestava atenção no sorriso triste de e no jeito que ele pronunciava cada palavra, mesmo que de olhos fechados.

So hold me close and
Say three words like you used to do,
Dancing on the kitchen tiles.
Yes, you made my life worthwhile.
So I told you with a smile:

Então me abrace forte
E diga três palavras como você costumava fazer,
Dançando nos azulejos da cozinha.
Sim, você fez minha vida valer a pena.
Então lhe disse com um sorriso:

It's all about you.


Jacob se mexeu. Meus olhos correram para minhas mãos sobre a barriga. Sim, querido. É o seu pai.

End to ’s Point of View.

Eu estava no quarto do hotel. Fazia trinta minutos que eu estava deitado na cama, olhando para o teto. Não sabia o que fazer. Sem , isso não parecia ter mais sentido. Era como se eu só vivesse por obrigação, sem uma finalidade, sem um objetivo. Por mais clichê que isso fosse parecer, eu me sentia incompleto. Fechei os olhos, permitindo que a escuridão me tomasse.

Tonight I'm gonna have myself a real good time… I feel alive”.
Eu ouvia a melodia do Queen ao fundo. Era meu celular. Abri um olho de forma preguiçosa, ainda vendo a escuridão por o travesseiro estar sobre minha cabeça. Mas espere aí!
Dei um pulo da cama, jogando as cobertas o mais longe possível. Meus olhos me mostraram o meu apartamento na cobertura e o meu iPhone quase caindo da cabeceira de tanto vibrar. Pisquei duas vezes, ainda sem processar a informação direito, e automaticamente meus dedos correram para apertar a tela do telefone que exibia “” no visor de LCD.
- Alô? – minha voz saiu fraca e rouca por eu ter acabado de acordar.
- ? – ele gritou do outro lado da linha, fazendo com que eu tirasse o aparelho do ouvido e o colocasse no viva voz, jogando-me na cama – Cadê você, porra? Eu lhe disse pra não encher a cara! Está todo mundo o esperando para o ensaio!
- Mas o quê? – passei as mãos pelos cabelos, desembaraçando-os – Que dia é hoje, ? – levantei-me, seguindo até a janela, olhando as ruas. Tudo parecia tão… Normal. Bizarramente normal e no novo milênio.
- Meu Deus, dude. Você está pior do que eu imaginava! Quer que eu vá buscá-lo? Acho que você não está em condições de dirigir.
- O que foi? Está tudo bem com o ? – ouvi uma terceira voz, de , ao fundo.
- Estou bem. Já vou indo – respirei fundo, enquanto apertava o botão vermelho, encerrando a chamada. Segui até o banheiro, lavando o rosto e me olhando no espelho. Foi um sonho? Não é possível. Foi tão… Real. Não posso acreditar que nada daquilo aconteceu. Não posso acreditar que não existe.

Nunca pequei um congestionamento tão grande na minha vida, ainda mais em uma terça-feira às oito da manhã. Suspirei pesado, observando a fila de carros parados na frente do meu. Fazia dez minutos que eu não saia do lugar. O que me deixava mais desolado era os pensamentos que não me deixavam em paz: aquele sonho, se é que havia sido um sonho. Mas essa era a única explicação que fazia sentido.
Minha mente fértil imaginado um mundo paralelo há décadas atrás - tudo por causa daquela pergunta ridícula daquela velha cartomante estúpida... Agora eu estava completamente triste por não ter sido real. Eu estava me sentindo um idiota. Cada toque, cada sensação que tive, não existiu?
Minha cabeça não processava mais nada. Eu só queria explodir, ou ser atropelado por aquele ônibus do outro lado da rua. Talvez se eu corresse, ainda conseguia pegá-lo na esquina. Balancei a cabeça, bufando, enquanto apertava o botão do rádio, tentando me distrair. Estava no fim de uma música do The Who quando o locutor interrompeu, anunciando alguns avisos e promoções da rádio. “E agora vamos continuar com o dia nostálgico e voltar para o passado, relembrando alguns dos maiores sucessos de todos os tempos. Claro que não podíamos deixá-los de fora. Agora você ouve The Beatles, com All About You”.
Ri, sabendo que quando eu ligasse o rádio iria tocar algo deles. É como uma conspiração mundial contra mim. Eu sabia.

Yesterday you asked me
Something I thought you knew.
So I told you with a smile:
It's all about you.

Espere aí! Mas que diabos? Esse era John Lennon cantando… PUTA QUE PARIU! É a minha música! A música do sonho!
Escorreguei no assento do banco, ouvindo aquela melodia de que eu me lembrava claramente na minha cabeça. Então isso quer dizer…

Then you whispered in my ear
And you told me too…


Foi real! Caramba, meu Deus, não foi um sonho!
Meu sorriso se escancarou no rosto e meus olhos se encheram de água. Não era possível. Por mais ilógico e estúpido que eu sabia que tudo soava, estava imensamente feliz por ter sido real. Ela existe. Só que provavelmente em um universo que nunca mais vou encontrá-la. Bati a cabeça duas vezes na direção, tentando raciocinar alguma saída para aquilo tudo.

But if you deny me one of your kisses,
Don't know what I'd do.
So hold me close and
Say three words like you used to do…

Ouvi o som de uma buzina forte, duas, três vezes. Era o carro de trás. Levantei a cabeça um pouco só para avançar um meio metro com o carro até parar mais uma vez. Eu não havia nem ultrapassado na metade da Tower Bridge! Olhei pelo retrovisor quem era o apressado no carro de trás e meu coração gelou, um bolo se formou na minha garganta. Era ela.

Dancing on the kitchen tiles.
Yes, you made my life worthwhile.
So I told you with a smile:
It's all about you!

Certo que não era exatamente ela, mas eu sabia que era de uma forma ou de outra. Os cabelos ruivos agora estavam curtos, acima da clavícula, lisos, sem os grossos cachos caindo sobre os ombros. Mas as sardas ainda estavam lá, junto com as ônix e o sorriso delicado que eu não saberia confundir.
A garota ria, cantando alto alguma música e levantando os braços. Não pude deixar de sorrir, observando a cena.
Sem pensar em coisa alguma, abri a porta do carro e andei alguns passos até parar do lado da porta dela, fazendo com que a mesma me olhasse nos olhos. Eu não teria dúvidas de que era ela. Não com aquele olhar. Engoli em seco, sem saber o que fazer. Eu estava no meio de um engarrafamento, fora do meu carro, parado, olhando para uma garota que acho que é alguém que conheço de um sonho - ou de um tele transporte - de um mundo paralelo. Agora ela me olhava com uma cara confusa. O que vou dizer? Oi, você é a do passado? Eu não poderia ser mais ridículo.
Desviei o olhar por um momento, socando as mãos nos bolsos, tentando formular algo, mas ela – como eu sabia que faria – foi mais rápida.
- Uau! – ela sorria – descendo do carro no meio do congestionamento para vir falar comigo. Quer um autógrafo meu?
Pisquei duas vezes sem entender nada.
- Afinal, sou Joanna Geller, uma das professoras mais legais do colégio Wemblerg. Fale aí, Jake – ela riu, olhando no retrovisor um garotinho no banco de trás. Moreno, de olhos castanhos intensos, provavelmente de uns quatro, cinco anos.
- A melhor de todo o Universo! – ele sorriu, mostrando os pequenos dentes desalinhados, ainda em desenvolvimento.
- Prazer, Joanna - estiquei o braço, tocando levemente minha mão na dela. Ignorei meu estômago dando voltas quando isso aconteceu – Jake – acenei para o garotinho no banco de trás, que me devolveu o aceno sorridente, com um pequeno foguete em mãos – Sou
- Joanna… - dei uma olhada em volta, com todos aqueles carros parados, lotando a ponte, e eu ali, de pé no meio deles. Quando voltei o olhar, ela me fitava séria, com os olhos castanhos expressivos – Você acredita em destino?


Fim



Nota da autora: Bom, é isso. Antes de tudo, eu queria pedir desculpas pela demora desse capítulo. Escrevi um pouco a cada dia, mas parece que ele nunca ficava da forma que eu queria - e ainda não ficou. Admito. Queria um final diferente, para exercitar a criatividade de vocês, que cada uma possa imaginar o que acontece de forma diferente da outra, mas acabou que achei que ficou um lixo. Sério. Só não comecei de novo porque a demora já era grande e, se eu me conheço bem, o final nunca estaria o bom o suficiente.
Espero que vocês tenham gostado, apesar de tudo. Queria agradecer imensamente a todas vocês que acompanharam a história até o fim. Agradeço à paciência e a dedicação de não terem desistido de mim e nem de BTTB. Como vocês já sabem, tenho outras fics, que escrevo com amigas aqui no ffobs, e mais uma solo que virá em breve. Aguardem que ela virá. Quando virem Rav Fletcher na pagina principal, já vão clicando no nome, que digo que a próxima fiction promete. Hãm, que mais? Agradeço ao McFLY e aos Beatles, minha inspiração maior para tudo isso, a Tom Fletcher, meu “muso” (isso existe?) inspirador para tudo quanto é arte que já fiz. Agradeço à Ana, por sempre me incentivar e ser tão diva como beta. Às minhas amigas lindas que sempre elogiaram muito BTTB e, é claro, a vocês, leitoras, que sem vocês eu seria nada de nada. Quero comentários sobre o que acharam do final, certo? Qualquer coisa, vocês podem me achar no meu novo link, no Tumblr .

Beijos, Rav Fletcher.





comments powered by Disqus




Qualquer erro nessa atualização são apenas meus, portanto para avisos e reclamações somente no e-mail.



TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.