AVISO: Essa fanfic está registrada na Fundação Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais. A cópia não autorizada de qualquer conteúdo dessa página vai de encontro a LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, estando o plagiador sujeito a detenção (de 3 meses a 1 ano) ou multa.

"You make me feel loved. You make me feel angry. You make me feel pain. You make me feel."

Capítulo 24 – Buttons

(N/A: Música do capítulo: Harder To Breathe, do Maroon 5)

's POV

Seis malditos botões.

Eram o que mantinha a camisa dele fechada.

Não que eu a quisesse aberta... Ok, a quem eu estou tentando enganar? Claro que eu a queria aberta. Nenhuma mulher heterossexual que se encontrasse a poucos metros de desejaria honestamente vê-lo vestido, e esse era exatamente o ponto. Os seis malditos botões eram muito pouco. Muito frágeis... Era tentadora a facilidade com a qual poderiam desaparecer se eu fraquejasse e me entregasse ao impulso de ir até o outro lado do cubículo minúsculo no qual nos encontrávamos e acabar de vez com aquele sofrimento.
Era graças a dois outros malditos botões que nos encontrávamos nessa situação, na verdade. Um verde e um vermelho. Dois estúpidos botões que agora me forçavam a ficar presa dentro de um elevador escuro com ninguém menos do que .
Quando eu percebi que o elevador havia parado, eu gritei. Xinguei. Esmurrei as paredes do cubículo até me segurar na vã tentativa de me acalmar. E, óbvio, isso apenas me fez enlouquecer mais. Porque ele estava me tocando. Tocando e tentando cuidar de mim, o imbecil. Difícil saber se ele havia entendido que o motivo do meu chilique era mais por estar presa com ele do que por simplesmente estar presa.
Eventualmente eu acabei me acalmando o suficiente para exigir que ficássemos em lados opostos do elevador enquanto a ajuda que eu havia chamado ao pressionar mil vezes o botão de emergência não chegava. Como eu já expliquei uma vez, a parte desse prédio que ficava acima do solo funcionava como um prédio comercial durante o dia. Mas à noite, só quem entrava e saía daqui éramos nós do subsolo. O elevador tinha câmera, obviamente, e o funcionário da manutenção que ficava na salinha de vídeo sabia sobre nós, mas era um fato bem conhecido na Organização que Manny, o funcionário, só checava a salinha à noite entre longos intervalos de tempo. Prova disso era que ninguém havia atendido o interfone quando tentou.
Graças ao fato de o elevador requerer uma seqüência secreta de botões para revelar os botões do subsolo e de termos todo tipo de alarme paranormal para o caso de invasão, ter alguém de olho nas câmeras do elevador o tempo inteiro era dispensável. Então digamos que Manny se aproveitava do fato de que seria difícil demiti-lo por não fazer um trabalho que, aos olhos das pessoas normais que trabalhavam durante o dia, ele não devia mesmo estar fazendo.

Conclusão: não havia o que fazer a não ser esperar.

Estávamos agora sentados cada um no seu lado do elevador, com o meu celular (sem sinal) no chão entre nós exibindo Piratas do Caribe 2 sem som de modo a evitar que caísse na proteção de tela e perdesse sua função de lanterna. Nunca rezei tanto para a bateria do aparelho agüentar... Ficar presa em um cubículo com já era ruim. Ficar presa no escurinho era impensável.
Mas, por incrível que pareça, estava sendo bizarramente cooperante nessa situação toda. Eu apenas recebi uma virada de olhos quando o mandei ficar longe de mim e agora ele se mantinha calado, parecendo pensativo. Mais cedo naquela noite eu havia entendido que ele também não estivera pronto para ficar a sós comigo, mas agora? Não havia sido ele que viera atrás de mim querendo conversar? Bom, ele tinha a oportunidade perfeita agora. Com exceção de Manny, que podia resolver voltar a trabalhar a qualquer hora, não havia nada nem ninguém que pudesse nos interromper. Ele havia conseguido o que queria. Então por que não falava nada? Por que havia desistido?

Talvez, porém, não tivesse desistido. Talvez apenas não soubesse o que falar.

Eu também havia percebido a ansiedade dele mais cedo, a inquietude. Agora me parecia que antes mesmo do beijo no parque ele já queria falar algo comigo. O quê, no entanto, eu não fazia idéia. Mas com certeza algo sério o suficiente para deixar sem palavras a criatura que nunca calava a boca.
Eu não estava reclamando, porém. Se tinha uma coisa que eu havia aprendido nessa noite era que o silêncio era algo abençoado. Ser ignorada por era algo que me perturbava extremamente, por mais que eu não pudesse explicar exatamente o porquê. Mas agora eu sabia que mesmo aquilo podia ser melhor do que algumas coisas que poderia dizer. As palavras dele tinham o poder de me afetar como nada mais no mundo.

Não só as palavras, na verdade.

A simples presença já me afetava. Como agora, por exemplo. Com a proximidade, os malditos botões tentadores e a forma como a luz azulada do celular parecia favorecê-lo. É, claro. Como se todas as outras luzes não o favorecessem. era aquele tipo cara que parecia bonito em qualquer situação, em qualquer horário, sob qualquer luz. Exceto a solar, é claro... A não ser que você tenha fetiche por cinzas.

Há, há. Eu estou fazendo piadinhas agora.

Piadinhas em situações como aquela eram a prova mais contundente de pré-histeria. Se as coisas continuassem assim, em alguns minutos eu estaria rindo escandalosamente.
Eu odiava ficar tensa daquele jeito, mas já estava me acostumando. Nos últimos tempos, ficar perto de passara a significar tensão, como se fosse impossível relaxar perto dele. Bom, a não ser que ele me fizesse relaxar...

Eu gritei pela milésima vez naquela noite quando outro orgasmo me dominou. Aos poucos, fui sentindo cada músculo do meu corpo relaxando de forma absoluta enquanto começava a subir beijos por meu corpo, seus lábios talentosos acariciando minha barriga, meus seios, meu pescoço...

Eu precisava de um apagamento de memória. URGENTE.

Pensar nesse tipo de coisa não ajudava minha situação. Eu comecei a fuzilar e os seis malditos botões de sua camisa com os olhos. Era tudo culpa dele. Se não fosse por ele, nós não estaríamos presos aqui agora e eu não estaria perdendo a sanidade. Se não fosse por ele, eu não estaria tendo esses pensamentos proibidos. A culpa era de e de seus olhos , seu sorriso sarcástico, seu peitoral definido, seus braços fortes, seu...

Era impressão minha ou estava ficando quente ali?

- ? – disse, naquele tom que as pessoas usam quando estão tentando te chamar de volta para a terra. Eu estava tão entretida encarando a droga dos botões que não havia percebido que ele havia quebrado o silêncio.
- Ahn? – eu perguntei, meio confusa. Oh, céus, eu preciso de terapia.
- Eu perguntei por que você não arranca essa porcaria de uma vez por todas, já que parece te incomodar tanto. – ele respondeu.

E isso foi o suficiente para me trazer de volta para a realidade.

- O QUÊ? – eu berrei, assustada. Arrancar os botões? Eu não podia arrancar os botões! – Arrancar? Quem disse que eu quero arrancar? Eu não quero!
- Ok... – ele disse, olhando-me estranho – Se quer continuar com o casaco, continue. Só achei que você estivesse com calor.
Foi nessa hora que eu percebi que segurava a gola do casaco com uma das mãos, inconscientemente tentando me refrescar.

O casaco. Arrancar o casaco.

Eu disse que precisava de terapia, não disse?

- Por que eu estaria com calor? – eu perguntei meio defensiva, tentando salvar a situação. Muita petulância dele achar que me deixava com calor... Por mais que fosse verdade.
- Não sei... Talvez porque o fato de estar fazendo uns trinta graus lá fora e a falta de circulação de ar nesse cubículo estejam transformando isso aqui em um forno? – ele perguntou, em tom óbvio.
Eu estava tão entretida com todo o resto que nem havia percebido que aquilo era mesmo verdade. Meus hormônios não eram a única causa do calor que me consumia. Havia também o fato de eu ter sido retardada o suficiente para sair de casaco em uma noite quente apenas para não deixar pele demais exposta na presença de . Não queria que ele pensasse que eu estava tentando seduzi-lo ou algo assim.
- Bom, eu não estou. – menti, apenas para não dar o braço a torcer – E eu achava que vampiros não ligavam para temperatura.
- Primeiro, nós não ligamos, mas podemos sentir. Calor ou frio demais é desconfortável, mas não costumamos nos importar em remediar isso porque não nos faz mal. – ele explicou – E segundo, você obviamente está mentindo.
- Hey, não to não! – eu protestei. Era igualmente muita petulância dele me chamar de mentirosa. Por mais que aquilo também fosse verdade.
- Suas bochechas estão coradas e eu sei que você está suando. Como sempre, você só tá sendo teimosa.
Droga de visão vampírica que conseguia captar a cor de minhas bochechas mesmo no escuro. E droga de olfato que conseguia captar meu suor e... Oh meu deus!
- Você consegue sentir meu cheiro? – eu perguntei, morta de vergonha. Não conseguia acreditar que estava cheirando mal perto dele.
- Sim, mas não faça essa cara. – ele disse, suspirando antes de se apressar em tentar me reassegurar, como se lesse minha mente – Você cheira bem. – em um murmúrio entre irritado e conformado, ele acrescentou – Você sempre cheira bem pra mim.
Eu sabia que devia dizer alguma coisa, só não sabia o quê. Por sorte, o som do interfone tocando eliminou a necessidade de tomar uma decisão.
- Manny? – eu praticamente gritei contra o fone, sentindo um alívio extremo. Eu ia sair dali. Eu finalmente ia sair dali.
- Senhorita ? – disse Manny, em um tom alegre demais para ser sincero – Me desculpe, só agora eu pude voltar para cá, minha mãe doente me ligou e...
- Poupe-me das desculpas, pelo amor de Deus. – eu disse, sem a menor paciência para aquela criatura – Só tire a gente daqui.
- Oh, sim, eu estou vendo aqui no monitor que o vampiro está com você. Ele não está irritado, está? – o idiota perguntou, assustado.
- Não, mas se você continuar enrolando, ele vai ficar. E não só ele. – eu falei, em tom de aviso.
- Certo, certo. – disse Manny, clareando a garganta – Eu acho que já sei o que pode ter acontecido. Sabe, provavelmente foi um problema no...
- Eu não ligo a mínima pro que causou isso. – eu interrompi antes que ele me fizesse perder mais tempo – Você pode resolver ou não?
- Sim. Mas vou levar alguns minutos...

Ótimo.

Hoje definitivamente não era meu dia.

- Ok, que seja. – eu disse, fechando os olhos e respirando profundamente enquanto recitava meu mais novo mantra. Não mate o imbecil da manutenção... Não mate o imbecil da manutenção... – Só cuide disso. Agora.
- Imediatamente, senhorita. Vou fazer o possível para tirá-los logo daí. Mas podia ser pior, não podia? Você podia estar sozinha. Ao menos assim você tem com quem conversar e...
Eu desliguei o interfone na cara dele.
Voltei a me sentar contra a parede, tentando não encarar . “Alguém com quem conversar”. Aquilo era tão irônico que chegava a ser engraçado... E antes que eu pudesse me conter, já estava rindo.

Pronto. Agora eu tinha atingido a histeria.

- “Conversar” – eu disse, entre risos que soavam meio maníacos até para os meus próprios ouvidos. Céus, eu estava nervosa. Não conseguia explicar exatamente o porquê, mas estava. Talvez não precisasse de explicações, no entanto. Estar em um espaço fechado com na situação mal-resolvida na qual estávamos era motivo o suficiente para deixar uma garota como eu histérica.
Ele estava rindo também, embora eu não soubesse se era de mim ou da situação. Um pouco dos dois, talvez, já que a risada dele, assim como a minha, não tinha um pingo de humor sincero.
As risadas, porém, foram morrendo tão rapidamente quanto vieram. E, para meu desespero, aquilo provou não ser algo bom. Agora eu podia ouvir o silêncio. E aquele silêncio que antes me parecia tão confortável se tornara um som horrível.
Depois da nossa breve interação logo antes do telefonema de Manny e da crise de riso, o silêncio parecia forçado, mais carregado. Já havíamos “quebrado o gelo”... Não tinha mais nada que nos impedisse de ter a conversa que precisávamos ter. Nada além da nossa própria relutância. E assim os segundos começaram a se arrastar...

Silêncio.

Mais silêncio... Ainda mais esmagador, doentio e horrível silêncio.

Se ninguém falasse nada logo, eu ia gritar.

- A gente realmente devia conversar. – disse , em voz baixa e incerta, olhando-me por debaixo das pálpebras levemente abaixadas.

Risque tudo o que eu disse. Naquele momento eu daria tudo para ter o silêncio de volta.

’s POV

- Já disse que não temos nada para conversar. – foi a resposta dela. Dessa vez sem os berros e a raiva que havia mostrado antes... Não, havia sido só uma resposta dada em voz fraca, de alguém que realmente não parecia pronta para conversar. O triste em tudo aquilo era que, se não fosse aquela segunda intenção no tom dela, eu teria acatado sua vontade, idiota apaixonado que sou. Mas para azar o dela, sua voz havia refletido mais do que nervosismo... Havia, misturado àquilo, uma espécie de certeza de que eu acataria sua vontade. Ela falava como se o que dizia fosse encerrar qualquer discussão. Como se eu não tivesse direito de argumentar.

A vadia realmente se achava superior.

- E eu disse que temos sim. – eu respondi, tentando ocultar a raiva. Aquele não era um bom momento para brigar com ela. Se eu queria que aquela conversa seguisse pelo caminho certo, não podia perder o controle – Será que você não pode simplesmente me ouvir? Pelo menos dessa vez? Você sabe que eu vou insistir até você deixar de ser cabeça dura.
- Me deixa pensar... Vai ficar me seguindo onde quer que eu vá pedindo para conversar? – ela perguntou, revirando os olhos – Sabe qual é o seu problema, ? Você não sabe a hora de parar. É pedir demais que você me deixe respirar?
- Respirar? – eu tive que rir. Aquela garota era a contradição encarnada – Há algumas horas atrás você estava reclamando que eu te ignorei por dias... Agora precisa “respirar”? Não respirou o suficiente no tempo que eu te dei? Me acuse de qualquer coisa, , mas não diga que eu nunca te dou espaço.
- Eu não reclamei, só comentei que você tinha me ignorado. – ela respondeu, de cara fechada. Se era só sobre aquela parte que ela podia comentar, era sinal de que eu a havia deixado sem resposta. Porém era mais fácil eu sobreviver a uma sessão de bronzeamento natural do que admitir que eu estava certo.
- Que seja. Vai me ouvir ou não? – eu perguntei, tentando deixar minha voz o mais suave possível. Ela respirou fundo e me encarou, parecendo prestes a aceitar um enorme sacrifício.
- Diga o que quer dizer, mas depois, por favor... Me deixe em paz. – ela disse, em tom cansado.
Eu a encarei, pensando em por onde começar. Seria mais fácil se eu ainda estivesse no calor do momento, como quando a segui até esse elevador. Mas a confusão seguinte à parada do elevador havia sido o suficiente para me acalmar e me fazer perder um pouco a coragem. Lá estava eu, preso naquele cubículo com , tendo a sorte de ter acabado na única situação possível na qual ela seria incapaz de me ignorar ou fugir... E mesmo assim eu havia permanecido calado por incontáveis minutos, incapaz de decidir como melhor abordar o assunto. É nos momentos em que mais precisamos que nossa habilidade de articular os pensamentos em palavras nos some. Prova disso era que, quando eu finalmente juntei coragem para falar com ela, havia perguntado sobre a droga do casaco.
Agora eu tinha outra chance, melhor do que a primeira. havia concordado em me ouvir. Mas como falar? Eu havia ensaiado mentalmente tantas vezes o que eu queria falar... Havia trabalhado com cuidado em cada argumento. Aquele era o único jeito de tê-la de volta, por isso eu armara cuidadosamente um plano. Um plano que começou a falhar quando eu fui forçado a encará-la a sós antes de estar totalmente pronto. Eu havia contado com mais tempo para reconstruir meu ego e para deixar que ela sentisse minha falta. Mas as circunstâncias mudaram, de forma que me vi forçado a fazer certas adaptações. Precisaria usar meus argumentos agora e rezar para que eles funcionassem.
- Você planeja começar em algum momento desse século ou vai esperar o próximo? – ela perguntou, com a sensibilidade e doçura de sempre. era tão meiga quanto um gorila.
- Certo. – eu disse, engolindo a raiva pela demonstração de antagonismo gratuita – Antes de falar qualquer coisa nós precisamos esclarecer alguns fatos. Preciso que você entenda e aceite algumas verdades.
- Como o quê, por exemplo? – ela perguntou, em um tom entre o sarcástico e o defensivo.
- Algumas coisas. Vamos começar pela mais importante. – eu disse, olhando nos olhos dela antes de continuar – A noite na fábrica aconteceu.
- Já disse que não nego isso. – disse ela, desviando o olhar – Aconteceu e eu reconheço isso. E você sabe muito bem que essa não é a questão aqui. O que aconteceu, aconteceu. E não há nada que eu possa fazer quanto a isso, mas também não vou negar.
- Você está certa. – eu concordei – A questão não é se você nega ou não o que aconteceu. Não, nosso problema é a outra coisa que você disse.
- Ahn? – ela perguntou, confusa.
- Você cisma em se referir ao que aconteceu apenas no passado. – eu expliquei.
- Porque aconteceu dias atrás. – disse , olhando-me como se eu fosse louco.
- O ato, sim. Mas você fala como se só houvesse passado. Como se não existisse nada entre nós nesse exato momento.
- E não existe mesmo. – ela insistiu, teimosa. Oh, Deus. Só matando aquela mulher. Só matando mesmo.
- Verdade número dois, . A noite na fábrica mudou as coisas. – eu disse, com uma calma forçada – E agora existe algo entre nós sim.
- O que você acha que existe entre nós? – ela perguntou, cruzando os braços e me encarando em desafio. Definitivamente, ela era incapaz de manter uma conversa civilizada.
- Muita coisa, e você precisa aceitar isso. Gostando ou não, essa é a verdade. Antes era só um jogo de gato e rato, . Provocações, momentos roubados... Coisas das quais você podia fugir, negar, racionalizar... Mas o que aconteceu há seis noites muda tudo. – eu continuei, sério – Você estava lá. Eu estava lá. Eu senti, , e sei que você sentiu algo também.
- Não foi amor. – ela disse, simplesmente.
- Não ainda. – eu precisei admitir, contra a vontade. Eu não era estúpido. Sabia que ainda estava bem longe de me amar – Mas você sentiu alguma coisa. A atração, a perfeição. O modo como pareceu certo mesmo com todas as circunstâncias sendo erradas. Nada disso deixou de existir, nada disso ficou naquela fábrica. Existe algo entre nós, . E eu não estou tentando agir como se fosse algo maior do que realmente é... Mas preciso que você pare de se comportar como se fosse menor.
ficou em silêncio por alguns momentos. Não tinha como ela negar, tinha? Eu não a estava acusando de nada. Não a estava pressionando para dizer algo que não sentia ou admitir uma situação que não era real. Só estava constatando um fato, e sabia disso.
- E como você chama essa... Coisa... Entre nós? – ela perguntou. Era fácil entender que aquele era o único sinal de concordância que ela me daria.
- Não faço idéia. – eu admiti, suspirando e passando as mãos pelo cabelo no sinal universal de frustração. Dessa vez a frustração não era com ela, no entanto. Era com a vida e suas constantes complicações – Só o que eu sei é que nós não conseguimos ficar perto um do outro sem acabarmos nos agarrando, ou pelo menos pensando sobre isso. – eu disse, olhando nos olhos dela. Oh, eu sabia. Sabia o que ela estivera pensando enquanto permanecíamos presos aqui, simplesmente porque eu estava pensando a mesma coisa – Mas também vai além do físico. Até mesmo tirando sentimentos da equação, ainda resta algo.
- Que seja. – disse ela, após alguns segundos – Não muda nada. Eu mantenho minha decisão, . Isso não pode continuar. Será que você não pode simplesmente entender isso e parar de insistir?
- Posso. Se você conseguir me explicar por que não pode acontecer de novo. – eu respondi, tentando conter um sorriso ao ver a frustração dominar a expressão da caçadora.
- Outra vez? – ela exclamou – Eu achei que tinha deixado tudo bem claro naquela manhã.
- A parte em que você deliberadamente tentou me machucar? – e conseguiu, eu quase acrescentei, mas me contive. Ela sabia, afinal. E eu me recusava a ficar reclamando sobre sentimentos feridos como se fosse uma garotinha.
- A parte em que eu fui embora porque ficar ali era errado. – ela explicou, irritada – Não se faça de estúpido, . Eu posso não ter dito com todas as letras, mas eu sei muito bem que você entendeu o que eu fiz naquele momento.
- Talvez palavras ajudassem. – eu disse, apenas para forçá-la a se abrir. Sim, eu sabia quais eram os motivos dela. Havia construído todo o argumento que eu pretendia usar a partir daquele motivo. Mas mesmo assim precisava que ela colocasse as cartas na mesa antes de poder continuar.
- Eu não posso usar você. – ela disse, impressionando-me um pouco. Não pensei que ela fosse ser capaz de dizer aquilo assim, na lata.
Ela respirou fundo antes de continuar, como se para reprimir o turbilhão de coisas que provavelmente tentaram seguir a primeira admissão impulsiva.
- E seria isso que eu estaria fazendo se tivesse continuado com você naquela manhã. – concluiu.
- O que te leva a crer que você estaria me usando? – além do simples fato de que estaria mesmo? Não, isso eu não cheguei nem perto de acrescentar em voz alta, por mais que fosse a pura verdade. não precisava saber, no entanto.
- Eu me sinto atraída por você, ok? – disse ela, parecendo irritada por eu estar forçando-a a se explicar – Eu quero você. Não é segredo. Eu já admiti em voz alta antes. Mas isso é só o que eu quero de você. E a partir do momento que você quer mais que isso, apenas ter o que eu quero passa a ser injusto. Eu posso não ser a melhor pessoa do mundo, , mas eu entendo uma coisa ou outra sobre moral.
E lá estava ele. O motivo de toda a complicação. A mania que tinha em insistir em fazer o que seria considerado pelo resto do mundo como “certo”, mesmo contrariando a própria vontade. Eu a admirava por isso, na verdade. Admirava o fato de ela tentar ser alguém melhor do que realmente era. não queria me machucar, não queria ser um monstro. Mas o problema era que, ao se ater a essa idéia, ela caía em contradição. E eu simplesmente não podia deixar isso passar.
- Deixa eu ver se entendi... – eu comecei, devagar – Você insiste que eu não te amo, mas não quer ter mais nada comigo por não querer me usar? Está com medo de machucar sentimentos que você nem admite serem reais, caçadora?
- Eu não estou com medo de nada. – ela disse, verbalizando a maior mentira do século – Eu não estou falando de sentimentos, . Estou falando de conflito de vontades. Seja lá o porquê, o fato é que você já deixou claro que me quer para você. Mas eu só seria capaz de dividir parte de mim. Continuar com essa coisa entre nós seria tirar vantagem de você. Não seria justo porque nós não estaríamos em situações iguais. Você estaria recebendo menos do que quer com essa história toda e dentro de algum tempo isso deixaria de ser o suficiente pra você. – ela explicou e eu não podia negar a lógica por trás daquelas palavras. Principalmente porque era ela quem estava certa. Eu era quem estava disposto a mentir – E, só pra constar... Não, eu não acredito que você me ame. Seja lá o que você pense sentir, não é amor. Não pode ser.
A facilidade com a qual as palavras saíam de sua boca deixava claro que realmente acreditava naquilo. Não estava deliberadamente tentando se enganar. Claro, a mania de negação dela ajudara a consolidar aquela “verdade” em sua mente, assim como a baixa auto-estima. Era impressionante, mas no fundo não acreditava que algum homem pudesse amá-la e isso, somado ao fato de ser eu quem clamava aquele sentimento, tornara fácil para acreditar que não era verdade. Maldito . Maldito também, eu não negava. Se o imbecil do nunca tivesse ido embora e se eu nunca tivesse posto lenha naquela fogueira, talvez não fosse tão receosa em relação a sentimentos como era agora.

O medo que ela tinha de ser amada era assustador.

Mas eu guardaria esse pensamento para uma situação mais apropriada.

No momento, eu precisava me concentrar no problema em questão. Lidar com o medo dela ou me irritar pela incapacidade que ela tinha de aceitar que eu a amava eram coisas que teriam que ficar para depois. Agora o que eu precisava fazer era convencê-la a abandonar aquela noção de certo e errado. Precisava mentir. Precisava convencê-la de que ela não estaria destruindo meu coração se só estivesse comigo por uma mera atração física. Se eu não fingisse não me importar, estaria perdendo o único caminho até ela que eu tinha. A única esperança de fazê-la sentir por mim mais do que aquele simples e inconseqüente desejo. Eu tinha consciência de que aquele não era o caminho mais aconselhável para o coração de uma mulher, mas devido as nossas circunstâncias especiais, era aquilo ou nada. Eu precisaria ser forte... E ela precisaria ser fraca.
Sim, fraca. Fraca a ponto de se deixar levar pela própria vontade egoísta. Oh, não se engane... estava sim sendo nobre ao ficar longe de mim por ser a coisa “certa” a se fazer. Mas aquilo não significava que essa era sua real vontade. Não, aquela decisão era algo que ela forçara sobre si no intuito de corrigir o próprio egoísmo. Ela queria me usar, eu sabia disso. Ela queria a mim e isso a destruía. A destruía ter que se forçar a fazer a coisa certa, porque a coisa certa não era algo que vinha a ela naturalmente. E esse era o problema. se afogava em auto-aversão por ter que se forçar a ficar longe. Por não conseguir fazer o que era correto sem tanta luta, como uma pessoa melhor que ela conseguiria. Mas isso também significava que ela continuaria a se agarrar àquela decisão de ficar longe, como se para provar a si mesmo de que ao menos ela não era um monstro completo. Por isso eu precisaria convencê-la a ser fraca.
Só um incentivo. Era só do que ela precisava para jogar toda a moral pela janela e me usar. Só precisava acreditar que o que estaria fazendo não era a coisa errada, que não estaria me machucando.

precisava acreditar que eu não me importava.

Esse era o meu argumento, certo? A mentira que eu havia bolado assim que percebi o que a estava impedindo de estar comigo. A mentira que eu ensaiara em silêncio milhares de vezes. Finalmente era chegada a hora de utilizá-la.
- Não precisa significar nada. – eu disse, em voz baixa, engolindo meu próprio coração. Céus, aquelas palavras doíam. Doíam mais do que eu pensei que fossem doer. Mas por sorte eu já tinha passado tempo o suficiente me acostumando com elas para dizê-las de uma forma capaz de convencer que eu realmente acreditava no que dizia – Eu não estou concordando com você. Não estou dizendo que não sinto nada por você, porque por mais que você negue, eu sinto. Mas o que existe entre a gente não precisa significar nada se você não quiser. A gente pode fazer as coisas do seu jeito.
- O que você quer dizer? – ela perguntou, com voz fraca, de um jeito que dava a entender que ela sabia muito bem onde eu estava tentando chegar. Sabia e estava tentando não se entregar à tentação.
- Você me quer, certo? E já está mais do que provado que você não tem nenhum problema em ficar comigo. Não, você só entra em pânico e foge quando eu digo que te a... – o olhar ameaçador dela me impediu de completar a palavra. Eu fechei os olhos e travei a mandíbula por um segundo. Eu não podia me irritar... Não agora. Mas céus, como era possível que ela não deixasse aquilo passar ao menos uma vez? – Quando eu digo que sinto alguma coisa por você. – eu corrigi, de forma a trazê-la de volta para o assunto em questão – O que eu estou tentando dizer é que eu sei separar as coisas. Nós podemos continuar... Bem... Nos encontrando, e eu não vou esperar nada mais de você. – aquela mentira era tão óbvia que chegava a ser engraçado, mas não parecia estar percebendo – Não vou te cobrar nada. Não vou querer nada mais. Eu posso separar as coisas, . Você não estaria me usando porque eu estaria ciente do que aquilo significa: nada.
- Sexo sem compromisso? É isso que você está me oferecendo? – ela perguntou, com uma risada seca.
- Se você prefere colocar nesses termos... Sim. – eu respondi – Eu estou te oferecendo exatamente o que você quer. Sem compromisso, sem responsabilidades, sem conseqüências... Ninguém precisaria saber. Seria nosso segredo. – nosso segredinho sujo, eu acrescentei mentalmente, tentando combater a repulsa que sentia de mim mesmo naquele momento – E você estaria no controle.
Ela estava tentada. Eu conhecia a linguagem corporal dela bem o suficiente para ter certeza disso. O modo como ela evitava me encarar, como mantinha os braços abraçando as pernas dobradas contra o próprio corpo com um pouco mais de firmeza do que o extremamente necessário... Ela estava tentada e odiava isso.
- Não é o que eu quero. – ela disse, inesperadamente, ainda sem olhar em minha direção.
- É sim. Você só nega porque sou eu quem está oferecendo. – eu disse, jogando a cabeça para trás, contra a parede do elevador, e fechando os olhos – Nada que eu diga ou faça nunca é o que você quer. Nunca é “bom o suficiente”. – eu citei nossa maldita frase com raiva. Abrindo meus olhos novamente, eu fixei meu olhar no dela, desafiando-a a quebrar o contato – Se eu desse a volta ao mundo a pé por você, você provavelmente criticaria os sapatos que eu estivesse usando.
Ela não desviou o olhar nem por um segundo. Nem sequer piscou enquanto eu a acusava, de forma que eu esperei. Esperei que ela me contrariasse, que tentasse se defender.

Por isso me surpreendi tanto quando ela fez exatamente o contrário.

- Você provavelmente escolheria sapatos idiotas. – disse ela, sem emoção.
Simplesmente isso. Nenhuma alteração na expressão... Nada. Apenas a fria aceitação de que o que eu dizia era verdade... E que ela não se importava nem um pouco.
Aquele era o tipo de frase de que teria partido meu coração em mil partes se eu não me encontrasse tão embasbacado. Mais do que dor, aquele comentário me provocou choque.
Ela era cruel. Tão naturalmente cruel que era difícil não ficar impressionado. Com um talento daqueles e uma inteligência tão aguçada para o uso da própria crueldade, era capaz de dar inveja a qualquer vampiro. Na verdade, ela daria uma excelente vampiresa. Magnífica, sem dúvida... Mas melancólica. Pois por pior que fosse, ela nunca sobreviveria tendo que existir como eu, simplesmente por detestar minha espécie. Ela já convivia com auto-aversão o suficiente por ser apenas metade humana. Perder a humanidade por completo a destruiria.
E foi naquele momento, por incrível que pareça, que eu entendi que nunca faria aquilo com ela. Que, sob circunstância nenhuma, a transformaria. Apagar o restante de luz que com tanta dificuldade sobrevivia em seria condená-la para sempre.

Ela não havia nascido para seguir o caminho que eu estava fadado a seguir.

Engraçado como fora uma demonstração de crueldade que deixara isso tudo tão óbvio. Mas fazia sentido. Aquela crueldade era o grito de por socorro, por salvação. Salvação essa que eu havia jurado providenciar, por mais que seguindo meus caminhos tortos de “cavaleiro negro”. Eu havia me esquecido dessa promessa, mas não o faria novamente. Mais importante do que ter para mim era salvar a pessoa que ela era do destino destrutivo que estava começando a seguir. Curá-la do desejo de morte, espantar os fantasmas que a assombravam... Se eu a amava, era isso que eu precisava fazer.
Por sorte, no entanto, naquele momento da nossa história eu precisava convencê-la a ficar comigo tanto para saciar minha vontade de tê-la quanto para ajudá-la.

A vida era mais fácil quando meu desejo coincidia com meu dever.

- O que foi? – ela perguntou de repente, olhando-me de forma estranha.
- Ahn? – eu perguntei, confuso. Do que ela estava falando?
- Você ficou quieto. – respondeu – Não fez a cara de cachorrinho chutado, nem retrucou... Achei estranho.
- Era isso que você queria? Me ver machucado? – eu perguntei, franzindo as sobrancelhas – Saber “quanta dor eu agüento”?

Qualquer coisa que você inventar. Dor pra mim não é novidade, caçadora. Eu sou apaixonado por você, não sou?

As palavras que eu havia dito naquela noite na fábrica, assim como a pergunta dela que eu havia citado, carregavam o ar como se possuíssem peso físico.
- Não é isso. – ela respondeu, voltando a evitar me encarar. Bom saber que a crueldade dela tinha limite.
- Você nem sempre gosta de me machucar, mas acha necessário. – eu disse, assentindo. Aquele entendimento viera a mim como um raio, deixando tudo mais claro – Você tenta me machucar para me afastar. Por isso fala coisas assim.
Ela riu, encarando o teto do elevador.
- Falo pra ver se entra nessa sua cabeça que você não tem chances comigo. – concordou – Mas você é o filho da puta mais masoquista do planeta.
Quanto aquilo eu não podia dizer nada, podia? O próprio fato de eu estar tendo aquela conversa com ela já provava o quanto eu devia gostar de dor.
- Eu sou. E já que você tem tendência a machucar os outros, eu diria que nascemos um para o outro. Que belo casal nós formamos. – eu disse, sarcástico.
- Não se refira a nós como casal! – ela exigiu, irritada. Oh, ótimo, . Continue deixando esse tipo de coisa escapar. Tem maneira melhor de contrariar tudo que você prometeu a ela sobre falta de compromisso?
- Foi só modo de dizer. Não precisa entrar em pânico. – eu disse, no que eu esperava ser um tom tranqüilizador.
- Eu não estou em pânico. – ela negou, cruzando os braços. Se fosse possível adicionar marias-chiquinhas e uma boneca àquela imagem, seria o retrato perfeito de uma criancinha teimosa e emburrada.
- Está sim. Nem tente negar, eu sei o que se passa por essa sua cabeça.
- Oh, você lê pensamentos agora? – foi a vez dela ser sarcástica.
- Só os seus. – eu disse, rindo – Quase literalmente, na verdade.
- Como assim? – ela perguntou, encarando-me séria e um tanto temerosa.

Oh. Às vezes eu esquecia que no nosso mundo, até as suposições mais bizarras podiam se revelar coisas possíveis.

- Vampiros não lêem pensamento, . – eu me apressei a explicar, antes que ela entrasse em pânico. Eu preferi não comentar sobre o fato de que aquilo era algo que ela devia estar cansada de saber. Uma vida inteira lidando com a minha espécie e ela ainda tinha dúvidas? – Bom... Alguns poucos até podem, mas é raro. Coraline conseguia às vezes, antes de vocês lacrarem a maior parte dos poderes dela... Mas Cora tem habilidades que o resto de nós nem sonha em possuir. – eu continuei, notando o desconforto dela com a menção da minha ex. Era melhor mudar o foco do assunto, e logo – Eu não leio mentes, , mas isso não me impede de saber o que as pessoas provavelmente estão pensando.
- Explique. – ela exigiu, estreitando os olhos levemente.
- Pessoas pensam com o corpo inteiro, . O que se passa na mente é quase sempre refletido em gestos, tom de voz, expressão facial... Na maioria das vezes é um reflexo sutil, mas sempre está lá. E qualquer vampiro mais observador consegue captar esses sinais, além de outros. Batidas de coração, leves alterações na respiração... Com um pouco de treino, podemos praticamente ler mentes. Claro, não é algo que tem cem por cento de eficácia, mas dá para ter uma boa noção do que deve provavelmente estar se passando na cabeça de alguém. Com você, no entanto, eu sempre tenho certeza absoluta.
- Eu sei que vou me arrepender disso, mas... Por quê? – ela perguntou.
- Porque eu presto mais atenção em você do que em qualquer outra pessoa. – eu expliquei – E você gostando ou não disso, eu te conheço melhor do que qualquer um. Desde a primeira vez que eu te vi venho me esforçando a aprender tudo sobre você. Eu te observava antes mesmo de você saber quem eu era.
Em um salto que eu mal pude acompanhar com os olhos, estava de pé, me olhando de forma acusatória.
- Eu já te disse que detesto perseguidores? – ela disse, irritada novamente.

Ok, aquela não havia sido a coisa mais esperta a revelar.

Sem perder tempo, levantei também, mantendo as mãos na frente do corpo em sinal de “eu me rendo, não me machuque”.
- Em minha defesa, eu estava tentando te matar na época, por isso te observava. Era puramente questão de predador estudando a presa. – eu expliquei, e ela pareceu ficar ainda mais fora de si. Droga. Tentar corrigir realmente só piora – Mas... Eu... Ah, que se dane. É, eu te perseguia sim. É o que eu faço. Criatura da noite, lembra? Mas foi isso que me permitiu conhecer você. Quantas outras pessoas na sua vida se deram ao trabalho de tentar o mesmo? Tentar enxergar a verdadeira você?
- Oh, não ouse tentar transformar o fato de você ter me perseguido em algo “bonitinho”. – ela disse, em tom perigoso – Você não vai amolecer meu coração com essa palhaçada de “só eu entendo você”!
- Amolecer seu coração?! – eu exclamei, rindo – Oh, relaxe, amor. Isso nem me passou pela cabeça. Sei que essa pedra de gelo não amoleceria nem se eu a afogasse em uma panela de água fervendo!
- Se meu coração é tão frio assim, por que você insiste em tentar entrar nele? – ela perguntou, em tom cruel.
- Porque, como você disse, eu sou um filho da puta masoquista. – eu disse, começando a me sentir frustrado com a falta de espaço naquele elevador. Eu estava com aquela vontade irracional de andar de um lado para o outro para queimar o excesso de energia que começava a me dominar, porém o pouco espaço só me permitia um pouco de movimento.
- Um filho da puta masoquista, irritante e patético. – ela acrescentou.
- E lá vêm os insultos outra vez! – eu disse, jogando as mão para o alto – Achei que já tivesse te explicado o que eles significam, amor. Frustração. – eu sorri, aproximando-me dela até estarmos a meros centímetros um do outro – O que foi, ? – eu perguntei, deixando que minha voz caísse para um tom provocante – Chateada por querer o vampiro malvado e não ter coragem de fazer nada quanto a isso?
- Não é questão de coragem, . – disse ela, erguendo um pouco a cabeça e me olhando bem nos olhos – É questão de vontade. Não quero te dar a satisfação de me tocar novamente. Porque, convenhamos... – ela inclinou a cabeça um pouco para o lado e sorriu, aquele sorriso sexy e levemente sarcástico que me tirava do sério – Eu sou muita areia pro seu caminhãozinho.
- Você sabe muito bem que esse diminutivo não é nada apropriado, pequena. – eu deixei o apelidinho escapar de meus lábios como uma carícia, simplesmente por saber o quanto aquilo mexia com ela.
- Tem certeza? – ela indagou, propositalmente ignorando minha provocação. sabia que aquilo era uma disputa. E que quem se deixasse levar primeiro perderia – Se eu fosse você não estaria tão seguro.
- Oh, eu tenho certeza sim. As coisas que você gritou para mim naquela noite na fábrica são o suficiente para manter minha auto-estima nas alturas pelo resto da vida. – eu retruquei, com um sorrisinho que eu tinha certeza estar insuportável.
Metade de mim esperou um tapa pelo comentário. A outra, no entanto, sabia que dessa vez não morderia a isca tão facilmente.
- É bom que você mantenha esse tipo de coisa na memória. – ela respondeu, com uma calma impressionante, se levarmos em conta o modo como ela havia reagido a um comentário parecido algumas horas antes – Porque lembranças são só o que você vai ter a partir de agora.
- Por quê? – eu perguntei, inclinando-me mais ainda em direção a ela – Vai se manter longe de mim por teimosia?
- Não. – ela respondeu, levantando o rosto de forma que, quando voltou a falar, seus lábios roçaram nos meus – Vou me manter longe porque, como já disse... Você não é bom o suficiente.

Por alguma piada do destino, Manny escolheu essa hora para religar o elevador.

As luzes voltaram e as portas se abriram logo após se afastar. Lançando-me um último olhar, a caçadora pegou o celular e desapareceu pelos corredores da Sede, enquanto eu ficava para trás, tentando recuperar meu chão.
Não tinha como saber o que eu teria feito se aquelas portas não tivessem sido abertas, mas eu teria feito algo. Algo que provavelmente não acabaria bem para .

Vadia. Como ela tinha coragem?

Duas vezes ela havia me dito aquelas malditas palavras. Duas vezes.

Pelo visto eu teria de me certificar de que não haveria uma terceira.

Xx

’s POV

Eu havia feito a coisa certa?

Claro que havia. Afinal, o que mais eu poderia ter feito? Aceitar a proposta dele estava fora de cogitação... Por mais que no momento eu não conseguisse me lembrar por que, exatamente. A verdade era que eu não queria pensar sobre aquilo, sobre ... Era muito mais simples me ater à decisão que eu havia tomado dias atrás: ficar longe dele. Poupava-me de repensar toda a situação, pesar outra vez os prós e os contras... E daí que ele havia lançado um novo olhar sobre o assunto essa noite? Não mudava nada. Era de que estávamos falando. Eu simplesmente não podia me permitir ter com ele mais do que uma complicada relação de trabalho. Por quê? Porque era errado.

E os questionamentos parariam por aí.

Eu abri a porta do banheiro comunitário do segundo andar com um pouco mais de força do que o necessário. Oh, eu não havia me atrevido a pegar as escadas que me levariam ao terceiro andar e à segurança do meu quarto. O percurso seria infinitamente maior... Dando mais tempo de me alcançar no meio do caminho. Sem contar que o meu quarto seria o primeiro lugar no qual ele pensaria em me procurar. Por isso havia vindo buscar refúgio no banheiro feminino. Entrada de homens proibida, certo?
Eu preferi ignorar o fato de que não dava a mínima pra isso. Não fora nesse mesmo banheiro que ele viera atrás de mim cerca de um mês atrás?
Não importa, era o que eu pensava, enquanto seguia até a pia, de forma a jogar um pouco água no rosto. Sim, ele podia entrar aqui... Mas também era verdade que, se ele realmente quisesse vir atrás de mim, não havia lugar no qual eu pudesse me refugiar. Até em meu quarto ele podia entrar agora. Minha única esperança era que ele tivesse o bom senso de ficar longe de mim. Era isso que eu queria.
Foi então que eu fiz uma besteira. Ao chegar até a pia, eu encarei meu reflexo. Encarei a mim mesma.

Eu era uma mentirosa.

Eu não queria longe de mim. Eu estava tentada. Por isso havia ido embora assim que Manny religou o elevador, deixando sozinho para lidar com o idiota da manutenção e o que mais fosse preciso. Eu estava tentada, e permanecer perto daquele vampiro se tornara menos seguro do que nunca. As palavras que ele havia me dito ecoavam na minha mente. Tão sedutoras... Tão dolorosamente sedutoras. Aceitar a proposta dele sem pensar sobre o assunto deixaria tudo muito mais fácil. Eu estava sendo idiota ao tentar convencer a mim mesma do contrário.
Mas eu não podia, podia? era meu inimigo. Era um assassino frio. Ter qualquer coisa com ele, mesmo algo sem compromisso, seria errado. Aquilo seria ir contra tudo que eu acreditava... Sem contar que eu não seria mais capaz de encarar meus amigos. Mesmo se eles nunca descobrissem, eu não poderia viver com a condenação que saberia que eles demonstrariam se soubessem. Me sentiria os traindo, de certa forma.
Nenhuma dessas era a questão principal, no entanto. Não, a cruz do problema era que eu nunca seria capaz de dar o braço a torcer.
Estúpida, não? Essa minha teimosia? Mas dizer sim a seria engolir tudo que eu havia dito a ele nos últimos meses. Todas as recusas... Aceitar a proposta de era admitir que ele estava certo o tempo inteiro. E eu era cabeça-dura demais pra isso.
Eu continuei olhando para o espelho, agora me concentrando na parte exterior mais do que na interior. Meu rabo-de-cavalo estava uma bagunça, mas isso eu já esperava. O problema maior era o meu casaco branco, que agora estava quase totalmente marrom graças à terra do parque. Isso sem contar com o suor e com a mancha vermelha que o “cortezinho” que eu havia feito no braço deixara em uma das mangas.
Suspirando, eu soltei os cabelos e retirei o casaco, ficando só com uma camiseta levinha cinza. Se eu pretendia ficar algum tempo “escondida” naquele banheiro, era melhor ao menos cuidar daquele corte.
Dando as costas para o espelho, eu fui em direção aos armários. Aquele “banheiro” era mais um vestiário do que qualquer outra coisa. Possuía três chuveiros e uma pequena área com armários, toalhas e etc. Enquanto atravessava o lugar, olhei longamente para o chuveiro, desejando um banho mais do que qualquer outra coisa. Mas era melhor esperar. Da última vez que eu tomara um banho aqui, havia aparecido.

E na nossa relação, já estava mais do que provado que um raio podia sim cair duas vezes no mesmo lugar.

Achar a caixinha de primeiros socorros não foi difícil. Em um lugar como a Organização, medicamentos eram uma coisa que não podia faltar de jeito nenhum.
Uma breve análise do corte me trouxe a mesma conclusão de antes: eu já havia tido bem piores. Só precisaria lavar a área e colocar algo para desinfetar, e foi exatamente isso que eu fiz, aproveitando para molhar também meu cabelo, pescoço e nuca. Droga de cidade quente. Los Angeles era literalmente o inferno.
Com o problema do corte resolvido, eu não tinha mais nada para me ocupar. Eu me encostei em uma parede, sabendo que agora não tinha mais como fugir dos pensamentos. Eu precisaria fazer alguma coisa quanto a e sabia disso. Afinal, eu não havia dado a ele uma resposta concreta. No geral, havia passado a mensagem de “não”, mas em momento algum tivera forças para dizer isso de uma forma que não restasse dúvidas. E eu sabia que teria que fazer isso... Mas como? Como olhar naqueles olhos e dizer de forma convincente que não o queria? nunca me levava a sério quando eu o recusava, simplesmente porque ele sabia que eu não estava falando sério. Dessa vez, no entanto, eu precisaria fazê-lo acreditar que aquela era a verdade. Mas como fazê-lo acreditar em algo que nem eu mesma acreditava?
Eu balancei a cabeça, me sentindo idiota. Aquilo era inútil. Eu sempre tentava resolver aquele tipo de coisa logicamente e nunca conseguia. Meu cérebro funcionava melhor sob pressão. Eu só decidiria o que fazer na próxima vez que encontrasse .

Próxima vez que veio bem mais rápido do que eu pensava.

A porta do banheiro se abriu violentamente e o vampiro entrou, como se fosse dono do lugar. Eu não devia ter ficado surpresa, já que havia considerado a possibilidade, mas uma coisa era encarar na minha imaginação... Outra bem diferente era encarar a peste ao vivo, enquanto ele mantinha no rosto aquela tão conhecida expressão de raiva e impaciência que, por mais que não devesse, fazia meus joelhos fraquejarem.
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei, tentando parecer indignada, não nervosa – Esse... Esse é o banheiro feminino!

Oh, sim. O argumento pareceu infantil até para os meus próprios ouvidos.

- Sim. Mas quer saber? – ele perguntou, enquanto batia a porta atrás dele e vinha em minha direção. Eu quis recuar, mas a parede às minhas costas não permitia – Eu sou um vampiro. Eu vou aonde eu quero... – uma das mãos de se chocou contra a parede ao lado do meu rosto, causando-me um sobressalto. Seu corpo estava a poucos centímetros do meu e seu olhar não demorou a subir e descer por minhas curvas de forma nada sutil. Quando aqueles olhos finalmente encontraram os meus, o desejo ardente neles contido me hipnotizou – Eu tomo o que eu quero. – sua mão livre agarrou minha cintura com força e me puxou em direção ao seu corpo, o ato rude combinando com sua voz, que havia caído para um tom deliciosamente rouco – E no momento, o que eu quero é você.

Os lábios de desceram sobre os meus com uma intensidade que me fez perder o chão.

How dare you say that my behavior is unacceptable?
(Como você ousa dizer que meu comportamento é inaceitável?)
So condescending, unnecessarily critical.
(Tão condescendente, desnecessariamente crítica.)
I have the tendency of getting very physical,
(Eu tenho a tendência de ficar bem agressivo,)
So watch your step cause if I do you'll need a miracle.
(Então tome cuidado, pois se acontecer você vai precisar de um milagre.)


Eu estava queimando. Podia sentir meu sangue fervendo nas veias enquanto enlaçava os dedos de ambas as mãos em meus cabelos como se para evitar que eu fugisse. Ele me beijava com desespero, com necessidade, seus lábios roubando qualquer protesto dos meus. Não que eu estivesse protestando muito... Era impossível. Eu não conseguia não corresponder, por mais que devesse. Céus, isso não podia estar acontecendo. Era errado... Aquele beijo era errado. O corpo dele pressionando o meu contra a parede como se tentando nos tornar um só era errado. O modo como cada fibra do meu ser parecia cantar de alegria era errado. Simplesmente errado.

Então por que parecia tão certo?

- ... – eu murmurei, arfando, quando ele finalmente me deixou respirar e desceu os beijos para o meu pescoço. As mãos dele subiam com força pelo meu quadril até minha cintura, levantando minha camiseta junto sem a menor cerimônia – ... Pára... Me solta.
- Por que, caçadora? – ele perguntou, puxando uma das alças da minha blusa com força e cobrindo de beijos a área de um dos meus seios não coberta pelo sutiã – O vampiro desprezível está começando a te fazer se sentir bem? Oh, mas você não pode deixar isso acontecer, pode? – disse ele, sarcástico, erguendo o olhar até o meu – Sentir-se bem é proibido. O certo é resistir, se torturar e fingir ser uma vaca frígida. Porque me deixar fazer isso... – a mão dele segurou o seio que ele antes beijava com firmeza, seu polegar acariciando meu mamilo em círculos – É nojento e errado.

You drain me dry and make me wonder why I'm even here,
(Você me suga, me definha e me faz questionar por que sequer estou aqui,)
This Double Vision I was seeing is finally clear.
(Essa visão dupla que eu estava tendo finalmente está clara.)
You want to stay but you know very well I want you gone,
(Você quer ficar mas sabe muito bem que eu quero que você vá,)
Not fit to fucking tread the ground I'm walking on.
(Não é boa o suficiente para andar pelo chão no qual caminho.)


Se o corpo de não estivesse pressionando o meu contra a parede, eu com certeza teria ido ao chão. Maldito... Ele sabia como me tocar. Sabia exatamente o que fazer para me submeter e abusava desse poder sem a menor vergonha.
Por isso eu nunca seria capaz de entender de onde tirei forças para levar uma de minhas mãos até a dele, segurando-a.
- Por favor... – eu disse, odiando a mim mesma. Eu não queria ter que dizer aquilo, mas meu cérebro era teimoso – Pára. Me respeita.
- Respeitar? – ele disse, rindo baixinho em meu ouvido e botando meu autocontrole a teste – Você não quer que eu te respeite, pequena. Quer que eu arranque suas roupas e te possua aqui mesmo enquanto você jura que é contra a sua vontade... Já que só assim você consegue deixar sua consciência limpa.
Aquilo conseguiu uma reação. A rapidez com a qual eu me movi pegou de surpresa, de modo que consegui inverter nossas posições na parede sem dificuldade. Pronto, eu estava livre. Podia sair correndo dali e teria sido exatamente isso que eu teria feito.

Isto é, se eu não tivesse feito a besteira de olhar novamente nos olhos da serpente.

Eu devia ir embora dali. Juntar o pouquinho que restava da minha dignidade e simplesmente sair. Mas bastou um olhar quente, desafiador e hipnotizante de para me fazer jogar a razão pela janela. Eu não fugi. Não, ao invés disso agarrei os dois lados de sua camisa e puxei com força.

Mandando enfim os seis malditos botões para o inferno.

When it gets cold outside and you got nobody to love
(Quando fica frio lá fora e você não tem ninguém pra amar)
You'll understand what I mean when I say there's no way we're gonna give up.
(Você vai entender o que eu quero dizer quando falo que de maneira nenhuma nós vamos desistir)
And like a little girl cries in the face of a monster that lives in her dreams
(E como uma garotinha chora frente ao monstro que vive em seus sonhos)
Is there anyone out there? ‘Cause it's getting harder and harder to breathe.
(Tem alguém aí? Porque está ficando cada vez mais difícil respirar)
Is there anyone out there? ‘Cause it's getting harder and harder to breathe.
(Tem alguém aí? Porque está ficando cada vez mais difícil respirar)


Ele me encarou surpreso e divertido e eu voltei a beijá-lo antes que o filho da mãe começasse a rir ou soltasse algum comentário infeliz. Aquilo me faria parar e pensar, e no momento eu não queria parar... E muito menos pensar. Pensar só levaria a dores de cabeça e arrependimento, e eu estava farta daquilo. Se pelo menos por enquanto podia fugir de mim mesma... Por que não?
Foi a minha vez de descer beijos desesperados pelo pescoço de em direção a seu tórax. Imbecil, idiota, desgraçado... Eu o odiava. Odiava. Simplesmente o detestava por provocar aquelas coisas em mim. A necessidade absurda que eu sentia de lamber cada músculo definido daquele peitoral, os grunhidos que ele emitia enquanto eu cobria toda a sua pele com beijos, como se ter meus lábios em seu corpo fosse mais do que ele era capaz de suportar... A forma como eu perdia o controle ao menor contato com sua pele, seu cheiro, sua voz... Eu abominava tudo isso. Abominava porque era bom demais para ser real.
As mãos dele se enroscaram mais uma vez em meus cabelos e ele tentou me puxar, sem dúvidas tentando levar minha boca até a dele novamente. Aquilo me irritou um pouco. Eu já estava cansada de me controlando o tempo todo, de forma que segurei os braços dele, encostando-os contra a parede e o mantendo preso ali.
O surto de poder que eu senti naquele momento foi maior do que qualquer coisa que eu pensasse ser possível.

Durou pouco, no entanto.

Antes que eu pudesse aproveitar direito aquela sensação, nos virou novamente na parede, parecendo irritado.
- Ei! – eu exclamei, indignada. Qual era o problema dele?
- Eu nunca fui submisso na vida, amor. – disse ele, em um tom estranho – Não vou começar agora.
Ele me beijou de novo, com força, e eu finalmente entendi.
Quando ele propôs que eu estaria no controle do que quer que existisse entre nós, ele se havia se referido à relação em si. Algo que eu já tinha... Era eu quem dominava aquela “relação”, quem determinava o que podia ou não acontecer. Eu tinha poder sobre ele, poder que ele havia me dado ao se declarar para mim, ao se tornar o lado vulnerável daquilo que nós tínhamos. Eu acreditando ou não nos sentimentos dele, o fato de tê-los declarado enquanto eu permanecia indiferente o deixava em uma posição submissa a mim.

Era por isso que sempre parecia fazer tanta questão de ser dominante nos momentos mais íntimos. Ele se agarrava àquele controle por ser o único que ele tinha.

E eu queria tirar aquilo dele.

Nos poucos segundos nos quais eu o prendi contra a parede, algo em mim despertou. E a parte de mim que havia incentivado a crescer, aquela que queria explorar melhor minha sexualidade antes tão deixada de lado agora ansiava por experimentar controle. Eu queria submetê-lo.

, porém, não parecia disposto a permitir aquilo.

What you are doing is screwing things up inside my head,
(O que você está fazendo é fodendo as coisas em minha cabeça)
You should know better, you never listened to a word I said.
(Você já devia saber, você nunca ouviu uma palavra que eu disse)
Clutching your pillow and writhing in a naked sweat,
(Agarrando seu travesseiro e se contorcendo em um suor nu)
Hoping somebody someday will do you like I did.
(Tendo esperança de que alguém algum dia vai te pegar como eu peguei)


Ele me beijava como se tentando impor posse. O desespero por trás do ato, o esforço que ele fazia para tentar garantir que ao menos naquilo eu dependeria dele teria quebrado um coração menos endurecido. Como não era o meu caso, no entanto, só o que eu sentia quebrar era minha resistência. Afinal, o desgraçado sabia me beijar. Por mais que eu odiasse admitir, me beijava como ninguém antes havia beijado.
Eu continuava mentindo para mim mesma, no entanto. Continuava a tentar resistir. Eu não vou deixar passar disso, era o que eu dizia para mim mesma enquanto subia totalmente minha camiseta, retirando-a. Só alguns beijos, alguns amassos... Talvez alguns toques mais íntimos. Só pra matar a vontade, como era antes da fábrica. Só isso... A parte racional de mim insistia. Porém, no fundo, eu sabia que não tinha como fugir da verdade. Dormir com havia sido cruzar uma linha imaginária.

E ao cruzá-la, nós a havíamos destruído.

A súbita sensação de lábios irresistíveis contra a minha barriga me despertou para o fato de que estava agora ajoelhado na minha frente, descendo uma trilha de beijos pela minha barriga enquanto mantinha suas duas mãos em meu quadril em um aperto que com certeza deixaria hematomas. Eu não me importava, no entanto. podia fazer o que quisesse comigo, contanto que continuasse me tocando.
Algo dentro de mim gritava que aquele era um pensamento importante, perturbador. Mas minha mente estava começando a atingir aquele estado enevoado de desejo que me impedia de raciocinar.
- O que você está fazendo? – eu perguntei, de forma imbecil, quando a trilha de beijos começou a descer cada vez mais, chegando à barra dos meus jeans. Os dedos de encontraram os botões e zíper de minhas calças sem demora, enquanto sua boca continuava a me acariciar de forma gulosa.
- Devorando você. – ele disse, abrindo meus jeans e me lançando um sorriso safado antes de mordiscar a área logo acima da barra da minha calcinha.

Oh, droga.

When it gets cold outside and you got nobody to love
(Quando fica frio lá fora e você não tem ninguém pra amar)
You'll understand what I mean when I say there's no way we're gonna give up.
(Você vai entender o que eu quero dizer quando falo que de maneira nenhuma nós vamos desistir)
And like a little girl cries in the face of a monster that lives in her dreams
(E como uma garotinha chora frente ao monstro que vive em seus sonhos)
Is there anyone out there? ‘Cause it's getting harder and harder to breathe.
(Tem alguém aí? Porque está ficando cada vez mais difícil respirar)
Is there anyone out there? ‘Cause it's getting harder and harder to breathe.
(Tem alguém aí? Porque está ficando cada vez mais difícil respirar)


Eu já quase não conseguia respirar. Minha cabeça caiu para trás e eu abandonei qualquer tipo de resistência que eu ainda tivesse. Contra minha pele extremamente esquentada, o toque dos lábios de parecia gelo, frio e úmido... Era tortura. A mais deliciosa tortura que eu podia imaginar.
Eu podia ouvir resmungando sobre algo enquanto descia minhas calças um pouco e eu tentei me esforçar para prestar atenção, tarefa nada fácil se levarmos em conta que ele continuava a mordiscar àquela área tão sensível entre resmungos.
- Prometa para mim que nunca mais vai usar calças. – ele exigiu, e eu entendia por que. Calças compridas não eram nada práticas naquele tipo de situação.
Eu me vi assentindo veementemente sem sequer pensar. Eu prometia... Prometia qualquer coisa mantê-lo onde ele estava.

Oh, sim. Eu havia deixado os pensamentos sobre estar no controle de lado...

Por enquanto.

- Ótimo. – disse , voltando sua atenção para meus jeans que, embora mais largos que a maioria dos que eu tinha, se recusavam a descer com facilidade – Da próxima vez, quero você de saia.
- Não vai haver próxima vez... – eu disse, sem raciocinar.

Coisa estúpida de se dizer, na situação na qual nos encontrávamos.

Para meu desespero, parou o que fazia e me encarou, os olhos escurecendo levemente.
- Não? – ele perguntou, logo antes de se levantar.
Eu me vi dividida entre bater com a cabeça na parede e forçá-lo a terminar o que havia sugerido que ia começar. Merda... Será possível que eu não era capaz de controlar meu lado bitch pelo menos até depois de conseguir o que eu queria?

Meu Deus, eu era uma vaca egoísta.

Eu havia mesmo tido total intenção de deixar que ele me desse prazer para depois sair correndo, como era meu costume antes de tudo que havia acontecido. Não havia levado as necessidades dele em consideração nem por um segundo... Céus, eu merecia que parasse mesmo. Estava fazendo exatamente o que havia jurado não fazer: usando-o. Era ainda pior, pois naquele caso ele não teria mesmo nada em troca.
apoiou o antebraço na parede logo acima de minha cabeça, mantendo seu corpo bem próximo ao meu e efetivamente me encurralando. Os olhos dele não haviam quebrado o contato com os meus nem por um segundo e eu não me sentia inclinada a desviar o olhar, assim como não tinha intenções de fugir dali. Naquele momento, eu sentia como se merecesse qualquer coisa ruim que pretendesse fazer comigo.
- Aceite minha proposta. – ele disse, em tom perigoso. Aquilo não era um pedido... Era uma ordem.
- Não posso. – eu respondi, inteiramente honesta. Não era mais questão de querer ou não, de certo ou errado... Aceitar a proposta dele era uma incapacidade minha e não mais apenas por medo de dar o braço a torcer. Havia outra coisa... Agora que minha mente havia clareado um pouco, o pensamento perturbador que eu havia tido alguns momentos antes começava a fazer sentido, levando-me a começar a considerar algo que antes havia passado despercebido. Sabe quando você está pensando e tem aquela sensação de que está muito perto de descobrir algo? Aquela sensação de que seu subconsciente está tentando te fazer entender alguma coisa? Pois é, eu me encontrava naquele ponto. Sabia que estava prestes a ter uma revelação.

Isso se resolvesse ajudar.

- Aceite minha proposta. – exigiu o vampiro outra vez, vagarosamente escorregando a mão livre por meu quadril, descendo-a até adentrar minha calcinha e me fazendo perder a linha de pensamento.
- Não... – eu insisti, com a voz fraca. Eu não podia... Mesmo que a proposta de derrubasse todos os meus argumentos normais ao implicar que não existiria compromisso, eu não podia. Havia outro motivo, e eu estava tão próxima de entender qual era...
- Aceite. – ele continuou, e sua voz se tornara tão sedutora... estava beijando meu pescoço novamente enquanto sua mão continuava a descer devagar, prolongando minha expectativa.
Eu neguei com a cabeça, incapaz de usar minha própria voz.
- Pára de lutar. – ele murmurou, naquela voz macia. A mão de já havia invadido por completo minha calcinha, porém seus dedos permaneciam parados, sem avançar, porém, também sem recuar – Você sabe que não quer resistir. Sabe que se disser não para mim nunca mais vai se sentir dessa forma... – eu senti os músculos dele ficarem tensos, algo que nunca era um bom sinal – Já disse uma vez e digo de novo... Ninguém nunca vai te pegar como eu te pego, caçadora. Se você me der as costas agora, vai passar o resto da vida procurando alguém que saiba te tocar como só eu sei. – a voz dele tremia um pouco e eu me lembrei da forma como ele havia ficado na fábrica quando pensara em outro homem me tocando, como se a simples imagem mental fosse o suficiente para fazê-lo perder a calma.

Does it kill?
(Isso mata?)
Does it burn?
(Isso queima?)
Is it painful to learn
(É doloroso descobrir)
That it's me that have all the control?
(Que sou eu quem tem todo o controle?)


- ... – eu comecei, trêmula, mas ele me interrompeu.
- Shh... – disse , encostando um dedo em meus lábios – Fique quietinha agora e me escute. Só eu consigo fazer seu coração disparar desse jeito. Só eu consigo te enlouquecer com apenas um toque... – dizendo isso, ele deixou que seus dedos me invadissem, fazendo um gemido necessitado escapar de minha garganta enquanto eu jogava novamente a cabeça para trás, com os olhos fechados. , porém, se apressou a me puxar pelos cabelos, fazendo com que meu rosto novamente se encontrasse há centímetros do dele – Nada disso, não feche os olhos... Olhe para mim e preste atenção no que eu digo. – ele exigiu e eu lutei para manter os olhos abertos enquanto começava a mover os dedos vagarosamente – Você sabe que não seria assim com mais ninguém. Você está tão viciada quanto eu, . Eu te quero dia e noite e sei que você me quer também. – ele falava me olhando diretamente nos olhos e, merda, aquilo era sexy. Eu ofegava como se não existisse oxigênio o suficiente para mim no mundo, mas para meu extremo desespero, mantinha os movimentos da mão calmos – O que existe entre nós é insano... É perigoso, é forte... Incrível. Eu nunca senti isso antes, mas ao contrário de você eu não tenho medo. Pra que fugir? Não importa pra onde você corra, isso sempre vai te alcançar... Cada noite que você passar sozinha eu vou estar nos seus pensamentos... É em mim que você vai pensar quando se tocar em frustração pensando no quão bom é ter meu corpo contra o seu, dentro do seu... – finalmente acelerou os movimentos e eu senti meus joelhos cederem. Por sorte, a mão dele em minha cintura era o suficiente para sustentar meu corpo em pé – Para quê passar por tudo isso? Apenas aceite, ... Me aceite.

Does it thrill?
(Isso excita?)
Does it sting
(Isso dói?)
When you feel what I bring
(Quando você sente o que eu trago)
And you wish that you had me to hold?
(E deseja que tivesse a mim para abraçar?)


Eu não respondi. Pelo contrário, apenas mantive meus lábios cerrados com força, pois sabia que se os abrisse, concordaria com o que quer que quisesse. Os toques dele ficavam cada vez mais firmes, cada vez mais urgentes e eu me sentia capaz de abrir mão de tudo apenas para continuar me sentindo daquele jeito.

Abrir mão de tudo.

Foi naquele momento que algo em minha mente drogada de prazer fez um “click”.

Esse era o pensamento assustador. Era isso que me impedia de aceitar a proposta dele. Além de ser errado, além do meu orgulho não me deixar dar o braço a torcer, existia o fato de que eu simplesmente não podia. Não podia porque quando me tocava eu me tornava fraca.
Desde pequena eu havia aprendido a ser forte não importando o que acontecesse. Foi assim que eu sobrevivi à desgraça atrás de desgraça... Eu era forte. Fria, dura, inalcançável. Para viver como eu vivia era necessário ser forte e estar sempre no controle. Mas quando eu estava com , eu perdia minha força. Ele me deixava sem poderes, disposta a dar a ele tudo que ele pedisse... E isso me assustava. A falta de controle me assustava.
Eu entendia o porquê não queria ser submisso. A vulnerabilidade que eu experimentava sempre que tínhamos contato físico era assustadora. Eu não havia sido criada para aquilo, não sabia confiar o controle a ninguém além de mim.
, porém, parecia não ter entendido aquilo ainda. Engraçado, já que ele se gabava de sempre me entender melhor do que eu mesma. Se ele tivesse entendido, saberia que usar de artifícios sexuais era a pior forma de tentar me convencer a aceitar sua proposta. O fato de eu querer dar ao vampiro tudo que ele me pedia quando me tocava só exemplificava o porquê de eu precisar me manter longe. Aceitar a proposta dele seria criar uma fração da minha vida na qual eu seria o lado fraco.

Sexo era a única parte da nossa relação sobre a qual tinha controle. Logo, era a única parte sobre a qual eu não tinha.

When it gets cold outside and you got nobody to love
(Quando fica frio lá fora e você não tem ninguém pra amar)
You'll understand what I mean when I say there's no way we're gonna give up.
(Você vai entender o que eu quero dizer quando falo que de maneira nenhuma nós vamos desistir)
And like a little girl cries in the face of a monster that lives in her dreams
(E como uma garotinha chora frente ao monstro que vive em seus sonhos)


- Última chance, caçadora. – disse ele, curvando os dedos em mim e estimulando aquele ponto que só ele parecia capaz de encontrar, enquanto seu polegar se movia rápida e duramente contra o meu clitóris. Eu agarrei os ombros dele, já não confiante que ele sozinho poderia me manter em pé – Aceite. Minha. Proposta... – ele disse, pausadamente, porém seu toque não desacelerou ou perdeu intensidade. Pelo contrário, na verdade. O prazer era tão intenso que beirava a dor e eu me sentia cada vez mais perto... Voando cada vez mais alto, tão alto que eu temia que a inevitável queda fosse me matar.
Eu continuei a me recusar a responder, embora as sensações que me enlouqueciam parecessem tentar me forçar a dizer sim a . Céus, eu estava perto... Tão perto que era assustador.

Por isso quase morri quando, em questão de segundos, se afastou.

Is there anyone out there? ‘Cause it's getting harder and harder to breathe.
(Tem alguém aí? Porque está ficando cada vez mais difícil respirar)
Is there anyone out there? ‘Cause it's getting harder and harder to breathe.
(Tem alguém aí? Porque está ficando cada vez mais difícil respirar)


De início eu não entendi. Meu corpo deslizou um pouco pela parede antes que eu conseguisse forçar meus pés a me sustentarem e o nó apertado que se formara no meu ventre ficou insuportavelmente incômodo com a falta de estímulo. Confusa, eu abri meus olhos, que em algum momento eu havia fechado, e encarei o vampiro parado a cerca de um metro de mim, as mãos apoiadas na pia e o rosto virado na direção contrária a mim.
- O quê...? – eu perguntei, a confusão aos poucos dando lugar ao duro entendimento. Não. Ele não podia estar planejando fazer aquilo comigo.
levou alguns segundos antes de voltar a me encarar, como se estivesse tentando recuperar o controle sobre si mesmo. Quando finalmente virou, no entanto, parecia estar seguro de sua decisão.
- O que foi? – ele perguntou, sério – Você realmente pensou que depois de tudo o que aconteceu nós íamos voltar à velha rotina? Eu resolvo o seu problema e pioro o meu? Não, caçadora... Eu cansei de ser idiota. – ele disse, dando as costas para mim e seguindo para a porta. Eu não podia acreditar... Aquilo não estava acontecendo.
- Você... Você vai me deixar aqui... Assim? – eu me forcei a perguntar, desesperada e
confusa.
, já na porta, se voltou para mim, um sorriso sarcástico nos lábios.
- O que eu posso fazer? Só estou atendendo sua vontade, . Você disse que não quer ficar comigo, então... Acho que não posso mais te tocar. Afinal, é errado.

E, dizendo isso, ele simplesmente saiu.

Saiu. Foi embora. . saiu, deixando-me sozinha e frustrada. Eu não conseguia acreditar. Ele não... Ele não podia ter mesmo feito aquilo. Pelo que me pareceram horas eu permaneci olhando para a porta, em absoluto choque. O filho da puta havia me provocado até o último segundo possível apenas para me deixar apenas na vontade. Desesperada, machucada, furiosa.

Oh, ele ia pagar por aquilo. Eu não sabia como, não sabia quando...

Mas eu o faria pagar.

Capítulo 25 – Punishment

(N/A: Temática um pouco sadomasoquista. Se não é sua praia, não leia.)

’s POV

Eu não vou voltar. Eu não vou voltar. Eu não vou voltar...

Eu queria voltar.

Merda, aquilo era difícil. Não importava o quanto eu me afastasse daquele banheiro pelos corredores vazios da Organização, a imagem de continuava gravada em minha mente. O desejo nos olhos dela, os sons que ela fazia, o calor, o cheiro de ... Eu não sabia de onde havia tirado forças para sair de lá. Eu havia abandonado uma totalmente derretida, excitada, sedenta por mim... Tudo porque ela se recusava a aceitar minha proposta.
Não, eu não tinha dúvidas de que eu estava certo em querer que ela parasse de negar. O problema era que, em mais de cem anos de existência, mulher nenhuma havia deixado minha cama insatisfeita. Eu me sentia um imbecil por largá-la daquele jeito e meu ego protestava por eu não ter dado a o que ela queria. O fato de ter sido uma escolha e não uma incapacidade não parecia importar nem um pouco.
Mas a pior parte era o estado no qual eu ficara. Céus, eu a queria. O zíper de meus jeans estava pressionado dolorosamente contra minha ereção já extremamente dolorosa. Ela era tão perfeita, tão linda, tão deliciosa... Sexo com era algo além da imaginação. Em pensar que ela nem tinha tanta experiência... Merda, se era assim agora, imagine como poderia ser se eu a deixasse aprender mais sobre as próprias vontades e capacidades? Oh, e o calor... Eu não conseguia esquecer o calor. Antes de , eu nunca havia tido uma humana, ou algo próximo a uma humana, como era o caso dela. A pele quente, o coração pulsando... Cada detalhezinho era surpreendente para mim. Viciante. E lembrar que aquela era a minha , a mulher que eu amava, apenas deixava tudo mais intenso. Era o sangue dela correndo, o coração dela batendo... Apenas pensar naquilo me deixava ainda mais desesperado.
Não que fosse fácil me deixar mais desesperado, se contarmos o fato de que eu já me encontrava em uma situação digna de pena. Antes de Coraline me largar, eu nunca havia ficado mais de alguns poucos dias sem sexo. Claro, com a dor de ter sido abandonado e a posterior confusão por me descobrir apaixonado por , pensamentos sobre sexo haviam ficado para segundo plano. Depois disso, eu havia passado cerca de um mês me controlando toda vez que beijava ou tocava , sendo forçado a acumular meu desejo cada dia que passava e abusando sem piedade da minha própria mão. Mas agora as coisas haviam mudado. A noite com havia apagado todo o autocontrole que eu havia adquirido. Eu estava de volta à estaca zero e era novamente difícil ficar sem sexo por muito tempo. Já fazia dias... E ela estava tão próxima, no mesmo prédio, e eu não podia fazer nada...

Espera um pouco. Por que não?

Meu Deus, eu era uma mula mesmo. O que eu estava pensando? Merda, eu havia feito tudo errado! Eu havia tido em minhas mãos e o que eu fizera? Como um grande babaca eu havia ido embora! Claro que eu não devia ter continuado o que eu estava fazendo, já que aquilo seria sim voltar aos velhos padrões, mas também não deveria ter ido embora. No calor do momento eu não havia pensado nisso, mas agora era fácil entender que só o que eu precisava ter feito era lidar com a situação de forma diferente.
Eu havia saído daquele banheiro em um momento de raiva por não ter aceitado minha proposta verbalmente. Mas naquele caso palavras não eram tão necessárias. Se ao invés de apenas tocá-la eu a provocasse até conseguir tê-la contra a parede do banheiro, como havia dito que faria quando entrei, ela teria aceitado sem usar palavras. Afinal, minha proposta havia sido sexo sem compromisso. A melhor maneira de mostrar o como a idéia podia funcionar seria demonstrando isso. Eu não precisava que aceitasse minha proposta com palavras. Eu poderia simplesmente arrastá-la para aquela situação de forma que, quando ela finalmente percebesse que estávamos tendo exatamente o tipo de relação que eu havia proposto, já fosse tarde demais.
Eu não podia acreditar que havia tentado combater a criatura mais teimosa do mundo com teimosia. Depois de prometer a ela que tudo seria do jeito dela, que ela ditaria as regras, eu havia a colocado contra a parede – literalmente – e tentado impor minha vontade. Eu já devia ter aprendido que para conseguir as coisas com era preciso fazer o jogo dela. Eu não devia tê-la pressionado a aceitar minha proposta, assim como também não devia mesmo ter continuado a tocá-la como estava fazendo. Isso só a faria sair correndo depois, como ela sempre fazia. Não, o que eu devia ter feito era aproveitar a excitação dela e tirar nós dois do nosso sofrimento. Relembrá-la de como era bom entre a gente, do quanto nós combinávamos, e mostrar que minha sugestão daria sim certo. Tudo isso sem contrariá-la em momento algum, sem ameaçar o domínio que ela tinha da nossa relação... Se é que aquilo podia ser chamado de relação. Mas como babaca que sou, havia feito exatamente o contrário.
Merda, ela devia estar com muita raiva de mim. Tudo porque mais uma vez eu não havia pensado direito antes de agir. Eu precisava parar de tomar decisões no calor do momento. Deixá-la – outra vez literalmente – na mão naquele banheiro apenas serviria para afastá-la de mim. Para fazer com que ela cedesse à minha proposta, eu precisaria baixar a cabeça um pouco. Não muito, claro, afinal eu não podia deixar que ela andasse por cima de mim como adorava fazer. Mas precisava me mostrar um pouco mais disposto a atender aos desejos dela, sem esquecer os meus.

Tomando uma decisão rápida, eu recomecei a andar.

’s POV

Imbecil, desgraçado, babaca, viado, filho da puta, estúpido, nojento...

Eu ia matar aquela sanguessuga dos infernos!

Oh, eu estava irritada. Não, irritada era pouco. Eu estava lívida, furiosa, além de incrivelmente frustrada e excitada.
Eu queria chorar. Ridículo, mas queria. Não de tristeza, mas de ódio e puro desespero. Havia percorrido o caminho até meu quarto trêmula e lutando contra as lágrimas. Eu não ia chorar por algo que aquele desgraçado havia feito, não importa o quanta raiva eu sentisse.
Com certeza minha situação não era ajudada pelo fato de eu não ter, ahn... Terminado o que havia começado. Sim, pode me chamar de estúpida se quiser, mas eu me recusei a me tocar por aquele... Aquele... Argh, eu não tinha palavras ruins o suficiente para descrevê-lo. Eu tinha consciência de que aquilo não era nada bom para o meu corpo, claro. O imbecil havia me levado até muito perto de propósito. Até aquele ponto no qual parar parece a coisa mais terrível do mundo... E então ele havia parado e me deixado literalmente na mão. Eu sabia que negar ao meu corpo o que ele tão loucamente queria era idiotice, mas meu orgulho havia falado mais alto. Não importava o fato de que eu estava sozinha naquele banheiro, me render e continuar o que havia feito seria demonstrar fraqueza para mim mesma. Seria admitir que ele havia vencido e isso eu era incapaz de fazer. Por isso havia respirado fundo, ajeitado minhas roupas, recolhido o resto da minha dignidade e seguido para meu quarto, onde rapidamente havia me enfiado no chuveiro e ligado a água fria.
Não estava ajudando muito, no entanto. Ao invés de distrair meus sentidos, sentir a água fria correndo por minha pele quente apenas me lembrava , o que não era lá tão surpreendente. Não importa o que eu fizesse, aquela necessidade, aquele anseio dentro de mim não se apagava. Não importava quanta água fria eu usasse, nada limpava o toque dele na minha pele... A água não era suficiente para dar conta da chama ardente que ele havia acendido dentro de mim. Aquilo me incendiava por dentro, me destruía... Aquela força absurda que suplicava por e berrava em dor por não tê-lo.
Aquilo era absurdo. Não importava o que eu fizesse, aquele desejo não passava. Eu ainda estava na beira do precipício e só restava um empurrãozinho para eu cair nas ondas de prazer intenso que me tirariam de meu desespero, e ainda assim eu me recusava a resolver aquela situação eu mesma. Não daria o braço a torcer... Nunca daria o braço a torcer. Não importava o quanto aquilo fosse incômodo, o quanto todos os meus sentidos pareciam estar mais apurados e o quanto tudo a minha volta parecesse extremamente sexy. Até minha esponja de sapinho parecia estar me olhando esquisito.

Sim, eu preciso de ajuda profissional.

Cansada de tentar em vão fazer com que a água fria melhorasse a situação, eu desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha macia. Precisei parar e respirar fundo antes de fazer qualquer outra coisa. Merda, até a textura da toalha contra minha pele no momento hiper sensível parecia erótica. Céus, era tudo muito ridículo. Eu já havia ouvido falar sobre isso. Algo sobre seus sentidos ficarem hipersensíveis se você adia um orgasmo por muito tempo. Nunca pensei que fosse sentir aquilo na pele, no entanto.
Era tudo culpa de . Como ele podia ter feito aquilo comigo? Não importa o quanto eu merecesse uma punição, aquilo simplesmente deveria estar fora de cogitação. Que tipo de homem era ele? Não se fazia esse tipo de coisa com uma mulher. Era... Cruel. Sim, era isso que ele era. Um filho da puta cruel.
Tentando conter a vontade de socar a parede do meu banheiro em um surto de raiva, me pus a me vestir. Um calcinha de algodão branca e uma camisa preta sem detalhes extra grande para dormir. Mais básico impossível. Se tinha uma coisa que eu não queria era me sentir sexy naquela noite.
Secar meus cabelos se provou uma distração quase eficiente. Concentrar minha atenção no que eu fazia prevenia meu cérebro de viajar para outros lugares, outros momentos. Quando eu finalmente desliguei o aparelho e girei a maçaneta para sair do banheiro, estava quase convencida de que conseguiria ter uma noite tranqüila de sono.
O que eu encontrei ao abrir a porta, no entanto, fez minha respiração parar.

.

Sem camisa.

Na minha cama.

Céus, eu não conseguia respirar.
Essa descrição de não era o suficiente. Ele não estava apenas na minha cama... Estava deitado nela de costas, com as duas mãos na nuca de uma forma que favorecia ao máximo os músculos de seus braços. E oh, que braços... Simplesmente perfeitos, combinando com os músculos de seu peito e abdômen que pareciam ter sido esculpidos à mão. Droga... Em pensar que aquilo tudo podia ser só meu se eu simplesmente estalasse os dedos. Será possível que eu realmente era capaz de dar conta de alguém como ele? Eu mordi meus lábios para não gemer. Oh merda, aquilo não era justo... Como seria possível ser forte quando o epítome da perfeição masculina se encontrava largado como um felino na minha cama, olhando-me de cima abaixo com aqueles olhos cheios de malícia?

Dizer que eu quase tive um orgasmo ali mesmo não seria exagero.

- O q-que... – eu gaguejei, com raiva de mim mesma – O que você... Está fazendo aqui? Como você entrou?
Pela porta, imbecil. Ele tinha um convite. Ele tinha acesso total ao meu quarto... À minha cama... A mim. Droga, eu precisava me controlar. Eu estava agindo como uma idiota. De todas as mulheres do mundo, só eu era estúpida o suficiente para encontrar um deus grego na minha cama, todinho pra mim, e perguntar o que ele estava fazendo ali.
- Tantas perguntas... – disse ele, ainda me lançando aquele olhar quente enquanto vagarosamente ia levantando o corpo até se sentar. Eu conseguia ver os músculos dele se movendo sinuosamente com o leve esforço que o ato exigia... Ele só podia estar fazendo aquilo de propósito – Por que você sempre faz tantas perguntas?
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei novamente, sem raciocínio o suficiente para pensar em algo mais para dizer.
- Bem... – ele começou a dizer, vindo lentamente até a beira do colchão – Eu vim me desculpar...
Se desculpar? Por um momento a raiva penetrou a bolha de desejo no qual eu me encontrava. Oh, eu sabia onde ele estava querendo chegar. Ele achava que podia vir até aqui e simplesmente se “desculpar” depois de me deixar daquele jeito? Era muita cara de pau!
- Você não pode estar falando sério. – eu disse, mal contendo a raiva enquanto ele continuava a se aproximar, sem se abalar nem um pouco. Ele parou e se sentou na beira da cama, de frente para mim. Eu não consegui forçar meu corpo a se afastar.
- Não seja assim, pequena... – ele respondeu, naquele tom de voz macio que ele adorava usar comigo. Oh céus, aquela voz... O desgraçado parecia ter resolvido usar o armamento pesado – Eu não vim aqui pra brigar. Eu fui um imbecil, mas estou disposto a reparar meu erro... – ele esticou os braços até segurar cada uma de minhas mãos com uma sua, em seguida me puxando devagar até ele. Eu não tive escolha a não ser ir. Estava tentando não reagir, pois sabia que se o fizesse, ou ia matá-lo ou agarrá-lo – Eu vim me desculpar... Vim fazer as pazes. Estou disposto a fazer qualquer coisa... – ele disse, suas mãos segurando minha cintura e descendo até a barra da minha camisa, que ele começou a erguer devagar. Abaixando o tom de voz, ele continuou – Qualquer coisa... O que você quiser. Eu posso passar a noite inteira aqui te compensando se essa for a sua vontade...
- , não... – eu gemi, sem ser capaz de impedi-lo de levantar minha camisa acima do quadril.
- Você nunca se cansa de dizer “não” quando quer dizer “sim”? – ele perguntou, começando a distribuir beijos pela minha barriga.
- O que te faz pensar que eu quero dizer “sim”? – eu perguntei, por pura teimosia.
Ele riu contra a minha pele, fazendo-me tremer. Uma de suas mãos subiu por minha coxa até o meio de minhas pernas, acariciando o fundo úmido da minha calcinha. Minhas mãos agarraram os ombros dele com força, minhas unhas se cravando em sua pele.
- Isso faz. – ele respondeu, em tom quente e urgente. Ele ergueu o rosto para cima, encarando-me sério – Você está assim desde que eu te deixei naquele banheiro, não está? Céus, minha linda... Eu sou um imbecil...
- Você é. – aproveitando-me da breve pausa dele e do fato de ter me lembrado o porquê eu estava irritada para início de conversa, eu recuei. Inferno... quase havia conseguido. Quase.
Eu andei desajeitadamente para trás, quase tropeçando nos sapatos de e na camisa que eu havia arruinado mais cedo. Um pouco mais à frente, eu podia ver o casaco que eu havia esquecido no banheiro pendurado em uma cadeira. O fato das duas peças de roupa estarem ali significava que havia voltado para o banheiro, procurando por mim. Não importava, no entanto. Aquilo não apagava o que ele fez.
O vampiro em questão havia abaixado a cabeça até mãos, no sinal universal de frustração.
- , pelo amor de Deus, pára com isso. – disse ele, parecendo exausto. Levantando a cabeça, ele continuou – Eu to morrendo aqui querendo você e sei que você tá sofrendo também. Será que não dá pra deixar de ser teimosa? Não faz isso com a gente, pequena.
- Não sei se você já esqueceu, mas foi você quem fez isso com a gente primeiro. – eu retruquei, tentando me manter forte. Ele era um imbecil que não merecia saber o quanto havia me atingido. Um imbecil terrivelmente gostoso, mas ainda sim um imbecil.
- Nada disso. Eu fiz aquilo com você, não com nós dois. Porque a única egoísta que conseguiria um final feliz na nossa ceninha patética no banheiro seria você. – ele respondeu, olhando-me irritado.
- Cala a boca, . – foi a minha resposta super inteligente. O que eu podia fazer? Naquele caso eu não tinha argumentos mesmo. Ele estava certo.
- Por quê? A verdade dói, não é, ? – disse ele, com o tom presunçoso que sempre adquiria quando tentava me provar que sabia mais de mim do que eu mesma – Dói encarar o próprio lado negro, principalmente quando você se esforça tanto para fingir que ele não existe.
Ok, então eu era sim egoísta. Eu não prestava. Eu era a pior criatura do planeta, e por aí vai. Grande coisa. Eu não estava no estado de espírito adequado para discutir com aquele tipo de questão. Eu ainda estava alternando em querer vê-lo morto e querer vê-lo sem calças, e de um jeito ou de outro discutir não ajudaria muito.
- Você veio até aqui só pra me ofender? – eu perguntei, tentando olhar para ele apenas pela minha visão periférica. Estava começando a ficar difícil encarar e me manter forte.
- Não. Na verdade isso era exatamente o que eu pretendia não fazer. – disse ele, rindo sem humor e deixando o corpo cair para trás, ficando deitado no meio da minha cama – Mas você é incapaz de me deixar fazer isso, não é? Não importa o quanto eu tente deixar o clima leve, você sempre consegue me irritar e me fazer esquecer quais eram os meus objetivos em primeiro lugar.
- Não me importo com seus objetivos. – eu disse, voltando a encará-lo – Você disse que estava aqui para pedir desculpas. Pronto, desculpas aceitas. Agora desaparece da minha frente. – eu disse, apontando para a porta.
- Me obrigue. – disse ele, voltando a se sentar e escorregando até o meio da cama, de forma que para puxá-lo eu precisaria me debruçar sobre a cama.
- Bela tentativa, mas eu não vou até aí. – eu respondi. O que ele pensava que eu era, idiota? Aquele truque era mais velho do que eu.
- Então eu não vou sair. – disse ele, cruzando os braços como se pondo um ponto final no assunto.
- Será possível que você nunca vai deixar de ser infantil e grudento? – eu perguntei, adicionando uma dose extra de veneno à última parte.
- Vou. No dia em que você deixar de ser tão burra e complicada. – disse ele, levantando uma sobrancelha como em desafio.

Ok, agora ele havia passado dos limites.

Eu segui até a beirada da cama devagar, usando uma expressão que eu gostava de imaginar ser séria e perigosa.
- Levanta daí e vai embora. AGORA. – eu disse, pausadamente, meu tom de voz frio. Eu não estava brincando.
- Já disse. Me obrigue. – respondeu ele, imitando meu tom de propósito.
- , eu juro, ou você vai embora por livre e espontânea vontade ou eu vou até aí com a estaca. Vai ser um inferno tirar seus restos mortais dos lençóis, mas oh, vai valer a pena!
- Você sabe que não teria coragem de me matar, pequena. – disse ele, sorrindo aquele sorriso convencido de canto dos lábios – Você me quer demais para sequer considerar a idéia de não me ter por perto.
- Odeio ter que furar sua bolha de ego, , mas ter você morto resolveria vários dos meus problemas. – era verdade, de certa forma. Mas isso não mudava muita coisa.
- Vá em frente então. – disse ele, abrindo os braços – Pegue a estaca. Me acerte bem aqui. – ele colocou uma das mãos brevemente sobre o coração – Se o que você diz é verdade, faça logo de uma vez!
Por um louco segundo, eu realmente pensei em fazer o que ele dizia. Mas eu não podia. Era como eu havia concluído há pouco tempo... Eu não podia matá-lo. Não podia porque ele era parte importante da minha vida. Não podia porque eu o queria vivo.
- Você não consegue, não é? – disse ele, sorrindo.
- Cala a boca, . – eu exigi, pela segunda vez naquela noite.
- Uh, agressiva. Isso tudo é raiva por não conseguir me matar? – ele perguntou, obviamente adorando a mais nova vantagem que descobrira. O desgraçado estava todo cheio de si. Aquilo me deixava furiosa.
- Não é uma incapacidade, . É uma escolha. – eu respondi, preparando o golpe final. O imbecil sempre esquecia com quem estava lidando. Eu tinha um dom para ferir as pessoas com palavras. Havia sido minha melhor defesa por vinte e um anos e, nos últimos tempos, apagar o sorriso do rosto de se tornara minha especialidade.
- Então você admite que não quer me matar? Oh, amor, estou emocionado! – disse ele, provocante. O imbecil achava que estava me fazendo cair em contradição. Mal sabia que quem estava caminhando direto para minha armadilha era ele.
- Não é isso. – eu disse, com meu sorriso mais falsamente doce – O que estou tentando dizer é que não vale a pena te matar. Por que faria isso? Atualmente você não pode machucar nenhum humano e se tornou manso demais para fazer algum mal a mim... Para que te matar? Você não é uma ameaça a ninguém. Você nem ajuda e nem atrapalha. Ter ou não ter você aqui não faz diferença. – eu expliquei, sabendo que estava indo longe demais. Era tarde no entanto. Eu havia aberto a torneira de maldade e nada podia impedi-la de continuar jorrando – Na verdade, é até bom te manter vivo. Você é bonitinho. Um bom enfeite. E um bom brinquedo para quando eu não arranjo nada melhor para fazer.
Ok, eu havia mesmo ido longe demais. Era possível perceber isso pela expressão lívida no rosto de . Eu o havia feito se sentir sem valor. Uma coisa. Parte de mim sentia nojo das coisas que eu era capaz de dizer. Mas a outra parte se esforçava em fingir que aquilo não importava. Afinal, eu era ruim, não era? Era o que as pessoas haviam dado a entender minha vida inteira. Devia ser verdade.
- É assim então? – ele perguntou, tentando inutilmente fingir que continuava calmo – Não pode me machucar fisicamente então vai recorrer a feridas emocionais? Você se acha muito má, não é? O problema, , é que na verdade você não passa de uma garotinha ingênua, mimada e covarde que teve a sorte de ter sido criada por babacas que nunca tiveram coragem de te dar um corretivo!
Oh, ele estava certo... Eu tinha muita sorte. Crescer órfã em um lugar opressivo sendo diferente de todo mundo era uma benção mesmo. Não sei por que eu reclamava tanto.

Sim, agora ele havia realmente tocado em uma ferida. Mas dois podiam jogar esse jogo.

- Você entendeu errado, . – eu disse, em meu tom mais inocente, debruçando-me um pouco em direção a ele – Eu não estou tentando ser maldosa... – eu fiz questão de olhar bem nos olhos dele antes de acrescentar a última parte – Então quando eu digo que você está mais abaixo de mim do que um inseto esmagado sob o meu sapato... Só estou comunicando um fato.
Eu devia ter me afastado. Era um pensamento óbvio, certo? Você não fica perto de alguém depois de lançar um golpe como o que eu havia lançado. Mas as chamas nas quais os olhos dele se transformaram me paralisaram por completo. Eu só pude observar durante os poucos segundos que levou antes de reagir.
- Dessa vez... Você conseguiu. – foi o que ele disse quando finalmente pareceu recuperar a voz, usando um tom frio, baixo e perigoso que me provocou calafrios. Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com aquilo, esticou o braço, agarrando o meu e me puxando violentamente para si, fazendo-me cair deitada de bruços sobre suas pernas.
Irritada, eu tentei me levantar. , porém, se apressou a me segurar, o ódio que eu havia reparado nele aparentemente o tornando ainda mais forte. Eu comecei a me debater furiosamente, mas não parecia adiantar. O que ele queria com aquilo? Ia me manter presa ali até eu me desculpar ou algo assim?
Algum tempo depois, quando eu me lembrasse da situação, veria que as intenções dele haviam sido bem óbvias desde o primeiro momento. Mas eu nem sempre era muito esperta.
- , me larga! – eu exigi, gritando e chutando.
- Não dessa vez. – disse ele, a voz soando estranha devido ao esforço que ele exercia em me manter presa – Eu já tentei ser legal. Já tentei não ser. Já fiz de tudo pra corrigir esse seu comportamento, mas nada adianta. Chega de ser bonzinho com você. Criança mimada a gente só corrige de um jeito.
- O quê? Quem você tá chamando de criança aqui? – eu perguntei, aquela parte do que ele havia dito sendo, por algum motivo estranho, o que chamara mais minha atenção – O que você pensa que vai fazer?
- Não penso, vou fazer. – disse ele, em tom irritado – Tá na hora de te dar o que você merece. Algo que alguém já devia ter feito há muito tempo.
- O q... – eu comecei, mas o súbito contato doloroso da palma da mão de contra uma de minhas nádegas me calou.

Por apenas um momento.

- SEU FILHO DA PUTA! – eu berrei, finalmente entendendo as intenções dele. Meus esforços para me soltar redobraram, mas já era tarde. Meu breve momento de choque havia sido o suficiente para permitir que ele me segurasse com mais firmeza, conseguindo me imobilizar. Eu estava literalmente à mercê daquele desgraçado.
- Não tenta resistir ou vai ser pior! – ameaçou ele, dando-me outro tapa. Eu gritei, o ódio dentro de mim atingindo um novo nível. Eu não conseguia acreditar no que ele estava fazendo.
Os tapas agora vinham sem parar e eu continuei a gritar ofensas e a me debater, mesmo que inutilmente. Eu não podia aceitar aquilo passivamente. Aquele infeliz, ridículo, nojento... Céus, eu já não conseguia pensar em um xingamento que eu ainda não houvesse usado essa noite. Quem ele pensava que era para fazer aquilo comigo? Quem ele pensava que era para me dar palmadas? Oh, mas ele precisaria me soltar algum dia. E dessa vez eu ia matá-lo. Depois disso, não tinha como não matá-lo. Aquele com certeza era um dos momentos mais humilhantes da minha vida.
Eu percebi que estava tremendo enquanto tentava me libertar. Tremendo de raiva, de vergonha... E de outra coisa que eu ainda não conseguia definir. Eu ia matá-lo. Eu precisava matá-lo, porque além de tudo o imbecil parecia estar adorando aquilo. Ele não estava rindo, muito pelo contrário... Seu corpo inteiro parecia tenso, mas eu podia sentir a ereção dele se esfregando levemente contra a lateral do meu quadril de um modo que parecia involuntário. Sim, o filho da mãe estava achando excitante me humilhar daquele jeito. Eu era capaz de escutar sua respiração acelerada enquanto os tapas continuavam, cada vez mais freqüentes, cada vez mais fortes, alternando entre minha bunda e a parte de cima das minhas coxas, de forma que eu não conseguia prever de onde a dor aguda viria a cada tapa. havia levantado minha camisa até o meio das costas, de forma que seus tapas vinham diretamente contra a minha pele. O infeliz não estava contendo nem um pouco a força por trás de cada descida de mão, parecendo descontar naquilo toda a raiva que sentia de mim. Havia certo desespero e frustração por trás de cada tapa, por trás de cada contato firme daquelas mãos ridiculamente másculas contra minha pele delicada... Existia tanta... Urgência por trás de cada movimento daquelas mãos... Mãos tão... Sexys...

Levou um tempo até eu perceber que, no fundo, estava gostando daquilo.

Não, isso não era verdade. Não era “no fundo”. A simples verdade era que eu estava sim gostando daquilo.
Desnecessário explicar a onda de auto-aversão que me dominou naquele momento. Oh Deus, eu estava gostando daquilo. Eu era tão doente, se não mais doente, do que . A raiva extrema que eu havia sentido me impedira de perceber o quão excitada eu estava. Esse era o terceiro elemento por trás da minha tremedeira. O desejo que havia abrandado durante minha interação com havia ressurgido com mais força do que antes ao primeiro toque dele. Meu corpo não parecia entender que o fato de o toque em questão ser violento deveria me deixar ultrajada. Para meus hormônios, estar em contato físico com já era o suficiente. Mas, além disso, se eu fosse totalmente honesta comigo mesma, admitiria que a situação era meio... Sexy. Pervertida e errada, mas sexy.
Em desespero, eu percebi que havia parado de me debater. Oh, merda. Era inacreditável... Eu estava deixando fazer aquilo comigo. Qual era o meu problema? O que havia acontecido com o fato de o controle sexual dele sobre mim me assustar? Eu não poderia estar mais submissa do que me encontrava agora... E, para meu horror, era aquilo que deixava tudo tão excitante. O controle de me apavorava, mas também me atraía em um nível básico, primitivo... A atração por algo que era errado, a vontade de permitir algo que eu não podia permitir. Em vão, eu tentei recomeçar a resistir, mas não adiantava. O calor que se espalhava dentro de mim também me paralisava. Meu corpo queria paz. Meu corpo queria se render.
- Será possível que a minha caçadora está gostando disso? – ele perguntou, bem baixinho. Oh, não... Não aquela voz... Eu enterrei o rosto em meus braços, que agora se encontravam cruzados sob a minha cabeça, em pura vergonha. Sim, ele não estava mais me prendendo. Sabia que não havia mais necessidade – Se você fosse uma garota boa, estaria indignada... – ele disse, dando-me outro tapa. Merda, eu estava tremendo mais do que nunca, e minha respiração não poderia estar mais ofegante – Mas você adora o que é sujo, não é, pequena? Quanto mais duro eu sou com você, mais você gosta...
O tapa seguinte foi ainda mais forte do que os anteriores e eu precisei morder meus lábios com força para não fazer nenhum som, agarrando-me à última migalha de dignidade que me restava. Não importava que ele já soubesse o que seu tratamento bruto e sua voz sedutora faziam comigo... Eu não ia confirmar.
- Não vai me responder? – ele perguntou, deslizando os dedos calmamente pela linha da minha coluna. Pelo visto além de tortura física, havia resolvido tentar a psicológica. Não saber quando ele ia abandonar a falsa calma novamente me deixava nervosa e ansiosa – Você quer ser punida, não quer? – ele perguntou e eu mais uma vez me mantive calada, afundando mais ainda a cabeça em meus braços cruzados. O que me matava era o fato de ele estar certo. Eu queria aquilo. Aquela parte sombria e oculta de mim, aquela que era apaixonada por dor, violência e morte desejava aquele toque brutal ardentemente. havia revelado e aflorado um lado meu que eu desprezava. Uma parte de mim que eu escondera por toda minha existência.

despertava minha metade vampira. E céus, como eu o detestava por isso.

- Caçadora, eu te fiz uma pergunta. E quando eu te faço uma pergunta, exijo uma resposta. – disse , em um tom assustadoramente calmo. Eu prendi a respiração enquanto tentava forçar meu coração a desacelerar. Eu não ia responder. podia até possuir controle total sobre o meu corpo, mas não tinha nenhum sobre minha mente – Não vai responder mesmo? – perguntou ele, com um suspiro forçado, fingindo decepção – Você não me deixa outra escolha. Então continue quietinha e talvez eu deixe você aproveitar seu castigo até o fim.
Uma das mãos dele começou então a subir pelo meio de minhas coxas devagar, alisando a parte interna da minha perna com um toque ridiculamente suave. Uma onda de desejo ainda maior se abateu sobre meu corpo, seguida por uma pontada de medo. O que ele pretendia fazer comigo agora?
- , o que você... – eu consegui encontrar voz o suficiente pra dizer, porém não pude terminar a pergunta. O novo tapa de foi inesperado e forte o suficiente para me fazer exclamar alto de dor.
- Eu disse para ficar quieta! Qual é o seu problema, ? Quando eu quero uma resposta você fica quieta, quando eu te mando calar a boca você fala! O que você pensa que eu sou, algum tipo de idiota? Mais um dos babacas que deixa você fazer o que quer que passe por essa sua cabeça sem maiores conseqüências? – ele perguntou, dando-me outro tapa, enquanto afastava um pouco o fundo da minha calcinha com a outra mão – Tenho novidades pra você, amor. Eu não sou Miles. Eu não sou Gilbert. E mais importante... Eu não sou . – ele disse, com veneno na voz – Eu não sou inferior a você e eu to cansado desse seu ar de superioridade. Eu já devia ter te posto no seu lugar há muito tempo... Quer saber, ? Isso é por ser teimosa! – ele disse, e sua mão desceu sobre a minha pele já extremamente sensível novamente, ao mesmo tempo em que impulsionava com força dois dedos para dentro de mim. Meu corpo entrou em sobrecarga de sensações e por um segundo eu tive certeza de que ia morrer. O toque dele... O modo como ele sabia me tocar... A sensação era tão proibidamente boa que eu tive vontade de chorar – Isso é por ser egoísta! – mais um tapa, tão forte quanto o anterior, enquanto seus dedos começavam um movimento vai-e-vem em ritmo perfeito com os tapas – E por me tratar como lixo! – mais um tapa. Céus, eram apenas as mãos dele... Como era capaz de me reduzir a uma massa de desejo tão insano usando apenas as mãos? – Por se achar superior! – outro tapa, enquanto meu cérebro auxiliava a tortura me forçando a lembrar o que exatamente conseguia fazer comigo quando usava outras partes de seu corpo – E por ser tão complicada! – tapa – E... – tapa – E... – tapa.
Eu perdi a conta rapidamente. Já nem ouvia o que dizia. Meu corpo estava tão quente que eu temia entrar em combustão. Os dedos dele se moviam em mim em um ritmo cuidadosamente calculado: rápido o suficiente para me enlouquecer, mas não o suficiente para me tirar de meu sofrimento. Eu estava insuportavelmente tensa, desesperada... O que estava acontecendo comigo? Eu precisava de . Por mais que aquilo me enchesse de ódio, eu precisava dele como nunca antes. Aquilo estava se tornando demais para suportar. A tensão que eu estava acumulando desde o banheiro... Não, desde a manhã na fábrica... Aquela tensão que me consumia por inteiro estava chegando a níveis extremos. Por mais raiva que eu tivesse de , sentia que ia morrer se não o tivesse em mim mais uma vez. Meus músculos abdominais estavam dolorosamente contraídos e eu não sabia se ria ou se chorava. Aquele desejo era tão grande, doía tanto, que chegava a ser ridículo. Se fosse embora novamente eu não achava que fosse sobreviver. Se ele fosse embora eu não iria querer sobreviver.
Ele parou de repente e os únicos sons no quarto passaram a ser nossas respirações aceleradas. Suas duas mãos cessaram contato com meu corpo e eu não pude conter a espécie de soluço desesperado que escapou de mim. não fez nada por alguns momentos e com certa satisfação eu notei que ele também tremia um pouco. Tentando ficar quieta, eu esperei o que viria a seguir. Oh céus, por que ele não estava fazendo nada? Aquilo estava me matando e eu não conseguiria me segurar por muito mais tempo. Mais um pouco e seria eu quem o atacaria.
- Pronta para a segunda parte da sua punição? – perguntou de repente, agora acariciando levemente minhas pernas. Desgraçado. Era de propósito. Ele sabia que eu estava sofrendo, por isso aquela calma toda – Coitadinha... Eu estou torturando você?
- Não. – eu menti, em tom fraco e patético. subiu a mão devagar até chegar em uma das minhas nádegas, acariciando minha pele dolorida e me fazendo gemer.
- Mentirosa. – disse ele, rindo baixinho – Diga que isso não está te matando... Diga que não quer que eu cuide de você.
Eu continuei calada, sabendo que aquilo eu não conseguiria dizer. Negação tinha limite.
- Sabe, eu devia ir embora só para te ensinar a não brincar comigo. – disse ele, subindo o toque para a linha da minha coluna até chegar a barra da minha camisa, embolada quase na altura dos ombros. a puxou para cima e eu estiquei os braços, ajudando-o a tirá-la. As mãos dele voltaram a acariciar minhas costas e eu era capaz de sentir seus olhos em meu corpo, queimando minha pele enquanto acompanhavam o percurso de sua mão – Mas pra sua sorte, eu estou morrendo de tesão. Então vou me contentar em meter em você até te fazer gritar.
Eu gemi novamente, totalmente impotente, meus dedos dos pés se curvando com a promessa. Não havia mais salvação para mim. Aquele filho da puta havia me corrompido de vez.
Em contraste com suas palavras duras, continuava apenas acariciando meu corpo com uma delicadeza que, após os tapas que ele havia me dado, beiravam a zombaria. Não havia como explicar o ódio que eu sentia daquele desgraçado, porém mais inexplicável ainda era a intensidade que aquele ódio adicionava ao meu desejo. Eu já não agüentava mais. Um toque. Um toque seria o suficiente para me levar ao ápice.
Eu mordi o travesseiro abaixo de mim, decidida a não implorar para que ele parasse de me torturar. Eu o faria pagar por tudo o que ele estava me fazendo passar... Mas não agora. Eu já estava além do ponto onde autocontrole ainda existia.
- Última chance de se redimir, . – disse ele, em tom falsamente paciente – Peça desculpas por tudo o que você disse e eu talvez não te use com tanta força.
- Vai pro inferno. – eu disse, dividida entre a raiva pelas palavras dele e o desejo proibido que elas alimentavam. Mas o pior de tudo era o fato de ele continuar enrolando quando sabia o quanto eu precisava dele naquele momento. definitivamente estava se divertindo com o meu sofrimento.

O tom da voz de em seguida, no entanto, me fez entender que a diversão chegara ao fim.

- O que você disse? – perguntou ele, com aquela voz perigosa que me arrepiava inteira, por mais que eu detestasse admitir.
- Eu te mandei para o inferno. – eu disse, subitamente confiante. irritado era igual a sem controle. Havia demorado, mas o imbecil finalmente abrira uma brecha para que eu pudesse retrucar. Era só o que eu precisava para fazê-lo parar de alimentar a expectativa – O que foi? Além de lento você é surdo também?
Com um grunhido irritado, agarrou meu quadril e me empurrou de seu colo, fazendo-me cair de costas sobre o colchão. Eu mal tive tempo de gemer em protesto contra o contato dos lençóis contra a incômoda ardência que ocupava toda a área contra qual a palma de havia feito contato. Assim que meu corpo caiu sobre o colchão, segurou meus quadris com força de forma a me impedir de movê-los e desceu a cabeça até o meio de minhas pernas.

E isso foi o suficiente para me fazer explodir.

não havia nem se preocupado em afastar minha calcinha. Foi contra o material vergonhosamente molhado que aqueles lábios sempre tão deliciosos e irritantemente sarcásticos entraram em contato. Não importava, no entanto. Eu já estava no ponto sem volta e, como desconfiava, um mero toque foi o suficiente para acionar um orgasmo assustadoramente poderoso.
, porém, foi além desse mero toque. Seus lábios não pararam por sequer um segundo aquela carícia proibida enquanto as ondas de prazer incapacitantes de tão fortes me dominavam. Eu senti minha própria mão agarrar os cabelos de com uma força que eu sabia o estar machucando, mas nem mesmo ele parecia se importar. O vampiro apenas continuou me estimulando enquanto eu liberava toda a tensão que se acumulara no meu corpo desde a última vez que ele estivera dentro de mim.
Eu nunca seria capaz de determinar quanto tempo aquilo durou. Segundos? Séculos? Não fazia diferença. Só o que eu sabia era que havia continuado a prolongar meu prazer até um ponto em que eu implorei para que ele parasse, julgando-me incapaz de agüentar mais. Ele não me deu ouvidos, no entanto, e logo tudo ficou escuro.
Eu devia ter desmaiado por alguns segundos, pois quando comecei a recobrar a consciência, estava descendo minha calcinha já à altura dos meus joelhos, e eu era capaz de ouvir o som de seu zíper descendo. Eu gemi sonolenta, espantada com a rapidez com a qual o fogo na altura do meu ventre se reacendeu. Eu devia ser alguma espécie de ninfomaníaca, não era possível.
Eu apaguei novamente por alguns momentos, sendo trazida de volta à consciência pela sensação de algo se acomodando entre minhas pernas. Antes que eu pudesse raciocinar, no entanto, já havia penetrado meu corpo em um empurrão rápido e firme, espantando qualquer traço de sonolência que ainda restasse em mim.
Eu não reconheci o som que escapou de meus lábios e se misturou a exclamação alta de . Até aquele momento nunca havia escutado minha própria voz tão rouca e erótica. Era o tipo de som que atrizes pornôs faziam e isso, somado a toda a situação que havia levado a mim e a até o ponto no qual agora nos encontrávamos, impossibilitava-me de abrir os olhos e encará-lo. Eu estava muito além de envergonhada. Meu desejo por aquele vampiro e pelas sacanagens que ele parecia adorar fazer comigo me mortificavam.
deslizou quase totalmente para fora de mim apenas para voltar com força total novamente. Eu travei a mandíbula, tentando ficar quieta, meus olhos ainda fechados e minha cabeça jogada de lado sobre o colchão. Merda, aquilo não devia ser bom daquele jeito. Eu não devia estar gostando. Devia estar enojada. Devia empurrar para longe de mim com toda a força que eu tinha e fazê-lo bater contra a parede do lado oposto do quarto. Mas eu não podia... Eu adorava aquilo. Adorava cada mísero, delicioso momento sujo daquilo. Adorava a forma como ele se movia em mim com movimentos lânguidos e firmes, de forma tão perfeita... Um encaixe tão perfeito que era difícil lembrar que era errado. Eu me sentia insuportavelmente viva a cada deslize dele em mim, torturando deliciosamente meu órgão já hiper sensibilizado. Eu não podia encará-lo. Eu simplesmente não podia encará-lo.

Como se lendo meus pensamentos, parou alguns segundos depois.

Eu tentei mover meus quadris, mas uma de suas mãos me segurou com força, impedindo-me. A outra mão segurou meu rosto e, com firmeza, porém sem violência, endireitou meu rosto até estar na direção do dele.
- Abra os olhos, . – ele mandou, a voz séria, porém não irritada.
Eu engoli em seco, dividida entre a necessidade de fazê-lo voltar a se mover e a vergonha de olhar para ele. Não havia o encarado desde que ele me deixara de bruços em seu colo e eu o deixara abusar de mim em uma maneira que fazia minha feminista interior urrar de raiva. Mas não era só isso que mantinha meus olhos fechados. Pensando bem, haviam sido poucas as vezes que eu olhara no rosto dele quando estávamos assim, tão intimamente ligados. Havia um motivo para aquilo e sabia disso. Não vê-lo tornava mais fácil negar tudo. Era mais fácil ignorar o que existia entre nós se eu tivesse poucas lembranças de olhar em seus olhos enquanto tudo acontecia.
- Abra os olhos, , ou eu vou embora. – disse ele, a voz trêmula, porém confiante.
Sentindo meus olhos se encherem d’água, eu os abri, deixando que meu olhar recaísse nos olhos de . Eu mordi meus próprios lábios, se possível ficando ainda mais excitada com a forma quente com a qual ele me olhava. Sem quebrar o contato visual, novamente deslizou para fora de mim, dessa vez voltando bem devagar, como se quisesse me forçar a sentir cada maravilhoso centímetro dele sendo empurrado novamente para dentro de mim. Meus olhos se fecharam novamente por instinto enquanto um gemido sôfrego encapava de meus lábios.
- Não. Não... – disse , beijando suavemente minha boca, o tom de sua voz surpreendentemente paciente – Não feche seus olhos. Eu preciso deles abertos. – ele continuou, enquanto seus quadris recomeçavam os movimentos em um ritmo lento e sensual. Eu abri os olhos novamente, sendo recompensada por outro beijo – Preciso que você olhe para mim.
Aquelas palavras vinham carregadas de mais significados do que o simples ato de olhar e eu sabia bem disso. Em um raro momento altruísta, eu entendi que devia ao menos aquilo a ele.
- Eu preciso que você saiba... – disse ele, os movimentos se intensificando à medida que suas palavras ficavam mais urgentes – Preciso que você olhe pra mim enquanto eu estou em você. Eu quero que você saiba quem vai te fazer gritar, . – disse ele, toda a calma que ele havia mostrado momentos antes dando lugar à habitual possessividade raivosa – Quero que você reconheça quem é o único que pode te fazer enlouquecer.
Os movimentos dele se tornaram intensos, quase brutais, como se tentando imprimir permanentemente seu toque em meu corpo. Como na noite na fábrica, ele estava tentando me marcar. Uma parte cruel de mim gostava de perceber o desespero dele, a necessidade que ele tinha de me possuir por inteiro daquela maneira, já que era só o que eu permitia. Eu gostava daquilo, assim como gostava da selvageria que era o sexo entre a gente. Era algo característico de ambas as nossas naturezas e, em momentos como aquele, eu não me forçava a negar.
Havia algo incrivelmente erótico em olhar nos olhos de enquanto nossos corpos se moviam naquele ritmo desesperado. Eu podia ver cada reação dele, cada expressão de prazer que distorcia aquele rosto lindo. Era algo que deixava toda a experiência mais intensa. Ver como eu o afetava, dividir com ele cada sensação... Era algo poderoso.
- É tudo culpa sua. – disse de repente, inclinando a cabeça em minha direção até que nossas testas se tocaram – Por que você tinha que ser deliciosa? – ele continuou, em tom rancoroso – Você me tenta vinte e quatro horas por dia... É sua culpa. Isso tudo é sua culpa. – a voz dele tremia um pouco, em contraste com os movimentos de sua pélvis que continuavam firmes – Nossas vidas seriam mais fáceis se você não fosse tão linda.
Ele ficou em silêncio então, e os únicos sons naquele quarto voltaram a ser nossos gemidos e grunhidos, acompanhados pelo som da cama se movendo e do barulho molhado vergonhosamente excitante de nossos corpos entrando em contato íntimo. As palavras dele, no entanto, continuavam a ecoar de forma estranha em minha mente. Eu gostava daquilo. Gostava quando ele me elogiava, mesmo eu nunca dando a ele motivos para fazer isso. Eu gostava daquilo quase tanto quanto gostava da sensação do corpo dele sobre o meu, da forma como ele se movia com tanta perfeição, seus quadris ondulando de um jeito enlouquecedor.
Verdade seja dita, era perfeito até demais. Enquanto eu permanecia ali, cedendo aos anseios mais profundos de meu ser, testa a testa com enquanto nossos corpos se moviam como um e nossas respirações se misturavam, parte de mim, como sempre, se chocava com a forma como aquele vampiro parecia entender cada desejo meu, como se lesse meus pensamentos. Ele sabia onde tocar e como tocar com o tipo de maestria que só se adquiria com anos de prática.
Foi aí que a ira irracional me dominou. Algo profundo dentro de mim, algo que eu nem ao menos entendia, se enfureceu com aquele pensamento. Anos de prática. Mais de um século de prática, na verdade. De súbito, eu não conseguia agüentar aquela idéia. Não era capaz de aceitar o fato de que outras mulheres já haviam sido tocadas por ele. Que as mãos que me apertavam, que o corpo que se encontrava contra o meu já havia sido de outra. Dominada por aquele sentimento absurdo de posse, eu agarrei o rosto de com uma de minhas mãos, em seguida lançando meus lábios contra os dele com uma força brutal. Ele exclamou surpreso, mas não protestou quando eu me pus a devorar seus lábios, reivindicando um direito de posse que eu sabia que, na verdade, não seria justo ter. Eu não amava . Na maior parte do tempo, eu nem ao menos suportava a criatura, mas algo em mim o via como minha propriedade. era meu. Não era questão de gostar ou não, aceitar ou não essa idéia. Algo dentro de mim simplesmente considerava isso um fato.
Minha mão livre escorregou pelas costas largas do vampiro, aproveitando cada segundo de contato com aquela superfície musculosa e deliciosa. Eu o apertei com força contra mim e o longo grunhido que emitiu em seguida era um som quente o suficiente para derreter a frieza de qualquer rainha do gelo do planeta. Já mais do que derretida, eu passei uma de minhas pernas por cima de uma das dele, posicionando meu pé entre suas pernas e esfregando a parte interna de uma de suas coxas com ele, deslizando-o para cima e para baixo em harmonia com os movimentos de seu quadril. Um dos braços dele passou então por debaixo do meu corpo, posicionando-se no meio das minhas costas e pressionando meu corpo contra o dele. A cada movimento de seu corpo contra o meu, meus seios se friccionavam eroticamente contra os músculos duros de seu peitoral, aos poucos me fazendo perder qualquer resto de racionalidade que eu possuía. Não importa, eu pensava, enquanto deslizava meus lábios por seu rosto e pescoço até chegar na área logo atrás de sua orelha. Os motivos não importam, as explicações não importam. Ele é meu. Meu, meu, meu, meu, meu...
Minhas unhas desceram por sua nuca com apenas um pouco de força, mas o suficiente para fazê-lo arquejar e reclamar minha boca novamente. Eu sorri contra seus lábios, satisfeita comigo mesma. Ele gostava quando eu o machucava. Do mesmo modo como eu gostava quando ele me machucava. Nós éramos duas criaturas seriamente doentes, erradas, masoquistas.

Naquele momento, eu não dava à mínima.

Nossos movimentos estavam fugindo de nosso controle em uma velocidade absurda. forçava seus quadris contra os meus com uma intensidade que teria machucado seriamente uma mulher humana. A testa dele estava agora pressionada contra o colchão ao lado de minha cabeça e eu não precisava vê-lo para saber que seu rosto estava contraído como se tentando agüentar o prazer que sentia. Eu sabia disso pois o mesmo acontecia comigo e porque os sons que ele fazia eram tão altos quanto os meus.
Estávamos ambos chegando perigosamente perto do clímax. havia enterrado o rosto em meu pescoço e agora balbuciava incoerências em tom baixo apressado. Eu sentia sua respiração acariciando meu ponto de pulsação e aquilo me deu uma idéia. Uma idéia errada... Algo que não deveria passar pela minha cabeça. Algo que conseguia ser mais sujo, mais ofensivo do que o sexo em si. Mas eu já havia chegado aquele ponto. Por que não ir mais além?
- ... – eu murmurei, de forma urgente, sentindo meu corpo tremer. Eu estava perto... Muito perto...
Quando levantou a cabeça e me encarou, olhos semi abertos e entorpecidos de prazer, eu não pude mais me segurar. O segundo orgasmo da noite me dominou de súbito e eu me vi berrando o nome do vampiro sobre mim em total desamparo. Eu mordi seu ombro com força, enquanto o ouvia exclamar alto em seu próprio orgasmo, a forma como meus músculos internos o apertaram sendo o suficiente para extinguir seu controle também.
Quando eu lentamente me vi voltando de meu estado de estupor, ouvi minha própria voz terminando o pedido que eu não havia conseguido verbalizar.
- Me morde... – eu disse, em seguida abrindo os olhos e deixando que meu olhar recaísse sobre o dele, surpreso. Sem desviar os olhos, eu afastei meu cabelo do pescoço, em um convite claro.
A surpresa não o parou por muito tempo. Com um gemido rouco e profundo, ele abaixou a cabeça em direção ao meu pescoço, enterrando os dentes em minha carne antes que eu pudesse repensar meu pedido inconseqüente.
Não que eu fosse repensar. Eu queria aquilo e a onda de calor que se espalhou por meu corpo com a invasão de suas presas apenas comprovava aquele fato. Eu gemi, meio paralisada com as sensações, minha mão que em nenhum momento havia deixado sua nuca a apertando naquele que era o único movimento que eu ainda me sentia capaz de fazer. Eu tinha sentido falta daquilo. Já fazia mais de uma semana desde a última fez que ele havia me mordido daquela forma e eu havia sentido falta daquilo. Eu sabia o porquê, é claro. Eu havia me viciado na sensação. Ele havia me viciado na sensação, na onda única de perigo e prazer que aquele ato me proporcionava. Eu queria ficar irritada, mas não podia. Não quando cada sucção que ele fazia em meu pescoço parecia sugar o sangue que vinha de dentre as minhas pernas. Eu solucei baixinho, sem acreditar. Eu não podia estar excitada de novo. Eu iria morrer se aquilo continuasse assim.
Por sorte, sugar meu sangue também parecia ter um efeito afrodisíaco em . Ele havia endurecido novamente dentro de mim e seus movimentos haviam recomeçado enquanto ele lambia a ferida em meu pescoço de modo a fechá-la. Movimentos rápidos, intensos... Ele sabia que nem eu nem ele duraríamos muito. Só precisávamos de uma última vez... Mais uma vez e seríamos capazes de largar um ao outro.

Por hora, disse aquela voz honesta e irritante na minha cabeça. Apenas por hora...

’s POV

Nunca seria o suficiente.

Eu tinha o gosto do sangue dela em minha boca. Eu tinha o corpo dela sob o meu, tão macio, tão quente, tão lindo... O perfume dela invadia minhas narinas e a presença dela era o que ocupava cada um de meus pensamentos. Eu me movia para dentro e para fora do corpo dela, suportando os breves momentos amargos de afastamento apenas para sentir novamente o gosto do paraíso ao ser continuamente aceito de volta em seu corpo, mergulhando de corpo e alma na sensação inexplicável que era ser envolto por seu calor. Eu estava totalmente envolto nela, perdido nela, me “afogando na existência dela”, como Cora uma vez havia me acusado de estar. E não era o suficiente. Nunca, nunca seria. Eu sempre iria querer mais, precisar de mais. Eu precisava de a cada segundo de cada dia, de todas as formas, de todas as maneiras possíveis. E queria fazê-la precisar de mim também.
Eu sabia que, de certa forma, a dominava também. Poucos segundos antes eu a invadira de forma que nenhum outro homem já invadira. Eu estivera dentro dela, membro, presas, pensamento... Sim, pensamento também. Sabia que não era só seu corpo que havia sido tomado. Naquele momento, eu era o centro de todos os seus pensamentos e sabia disso. Eu a dominava da mesma forma que ela me dominava, exceto por uma coisa. Enquanto eu escancarara todas as portas, ainda mantinha seu coração trancado. E meu desejo de estar lá também era tão forte que doía.
Havia esperança, no entanto. Eu já vencera tantas barreiras, por que não venceria aquela? Eu só precisava continuar tentando. Talvez se eu continuasse a dar prazer a ela, se eu continuasse a fazê-la precisar de mim daquela forma, ela acabaria me amando. Eu só precisava continuar tentando.
E, céus, tentar obter algo nunca havia sido tão bom. Enquanto eu permanecia nela, perdendo-me em luxúria, em um desejo que desafiava toda e qualquer racionalidade, eu não podia negar que nunca havia sentido nada daquele jeito. Eu não queria parar nunca. Eu queria viver e morrer daquela forma, em seus braços, ela sendo o começo e o fim do meu mundo, mesmo que eu não fosse o do dela.
Aquele pensamento apenas intensificou minhas investidas contra seu corpo, fato que a fez gemer baixinho, sem forças. Eu beijei seus lábios, seu rosto, qualquer parte dela que eu pudesse alcançar, a todo tempo declamando em minha mente meu mantra. Me ame, me ame, me ame. Por favor, me ame.
Sentindo-a se aproximar de mais um orgasmo, eu desci minha mão para entre nossos corpos, acariciando seu clitóris com meu polegar em movimentos calmos, circulares. Ela gozou com um grunhido profundo, que vibrava em feminilidade de maneira intensa, poderosamente erótica. Eu a segui quase com arrependimento, pois sabia o que aquilo significava. O prazer era agridoce. Era ao mesmo tempo a melhor sensação do planeta e a sentença de que eu teria que a deixar agora, pelo menos por essa noite.
Não sei por quanto tempo ficamos ali, parados, meu corpo ainda intimamente ligado ao dela. respirava profundamente e tinha os olhos fechados, mas ainda estava acordada. Dessa vez não pedi que ela me olhasse. Sabia que, ao invés de por escolha, dessa vez mantinha os olhos fechados por puro cansaço e incapacidade de abri-los.
Odiando a mim mesmo e ao mundo inteiro, eu finalmente me afastei dela, sendo dominado por uma sensação ruim de vazio. O gemido baixinho de protesto que emitiu ao sentir a perda do contato com meu corpo, no entanto, me fez sorrir. Eu me inclinei novamente na direção dela, beijando seus lábios com delicadeza e sentindo corresponder tentativamente, como se entorpecida demais para me beijar propriamente. Eu gostava dela assim. Por mais que eu amasse do jeito que ela era, precisava admitir que gostava de quando ela estava cansada demais para reagir como o habitual. Cansada demais para entrar no modo vadia sem coração, cansada demais para brigar comigo e me expulsar de seu quarto. Usar a armadura que ela habitualmente usava requeria força. Nesses raros e breves momentos em que ela deixava a força de lado, a armadura caía.
Eu me pus a me vestir, sabendo que, por mais que não fosse protestar contra minha presença no momento, o faria quando o sol nascesse. Isso sem contar que, se alguém me encontrasse aqui, eu passaria de morto-vivo para simples morto. Eu estava violando uma regra clara de Miles. Ele não queria que eu me envolvesse com e aqui estava eu, devorando em todos os sentidos possíveis sua caçadora favorita, bem embaixo de seu teto.

Sim, aquilo me dava certa satisfação cruel. Mas não mudava em nada a situação.

Seguindo para a porta, eu parei de súbito, olhando mais uma vez para . Eu podia ouvir sua respiração, as batidas de seu coração, e sabia que ela estava quase adormecendo. Incapaz de me segurar, eu voltei para perto dela, acariciando seu rosto e a cobrindo com o lençol. Era ela linda. E eu a queria tanto... Tanto... Mas ela ainda estava tão distante. Eu podia tocá-la, mas ela ainda estava distante. A anos-luz de distância, porque ela ainda não havia me deixado me aproximar de verdade. Não como eu queria. Não como eu precisava.
Mas eu ganharia aquela batalha. Um dia a teria de corpo, mente, alma e coração. Vê-la ali, totalmente esgotada pelo prazer que só eu podia dar a ela, enchia-me de orgulho e esperança. Sorrindo, eu desci meus lábios até seu ouvido, sabendo que ela ainda estava consciente.
- Quero ver você dizer agora que eu não sou bom o suficiente. – eu murmurei, com o sorriso mais filho da puta do planeta fixo nos lábios, logo antes de seguir para a porta e sair de seu quarto.
Não esperei para ver se ela reagiria. Não esperei para ver se ela se forçaria a abrir os olhos e a me dar alguma resposta forçada e engraçadinha. Aquela era a verdade e ambos sabíamos disso. Eu apenas a deixei com aquelas palavras finais, sabendo que aquilo ficaria ecoando em sua mente por um bom tempo. De fato, eu estava curioso para ver como seria a reação dela em nosso próximo encontro.

Oh, sim. As coisas finalmente estavam começando a ficar interessantes.

Capítulo 26 – Love And Other Disasters

’s POV

Soco. Soco. Chute. Chute. Soco...

Eu havia acabado de conhecer o homem perfeito para mim.

Sério, não poderia ficar melhor. Ele não me forçava a ter conversas desconfortáveis. Mas se eu quisesse, poderia contar a ele todos os meus problemas tendo a certeza de que ele não me interromperia ou julgaria, muito menos trairia meus segredos para alguém. Ele não exigia nada de mim... Muito pelo contrário. Se eu estivesse nervosa e precisasse descontar isso em alguém, ele estaria ali, apanhando sem reclamar. Era simplesmente perfeito.

Eu devia simplesmente me casar com o Bob.

Bom, ele certamente era o melhor homem que eu já havia conhecido. Fazia apenas três horas desde que alguns funcionários da Organização terminaram de montá-lo, mas eu já havia chegado a essa conclusão. Bob nunca me contrariaria, nunca me deixaria, nunca me bateria...

Soco, soco, soco, soco...

Eu não vou pensar na noite de ontem, eu não vou pensar na noite de ontem...

É, como se adiantasse.

Eu ainda não acreditava na audácia de . Como ele pôde fazer aquilo comigo? E o pior... Como eu pude DEIXAR? E gostar, e permitir tudo o que aconteceu em seguida... Céus, o que havia de errado comigo? Ok, essa não era uma boa pergunta... Questionar o que não havia de errado comigo resultaria em uma resposta menor.
Era por isso que eu devia ficar com o Bob. Seria menos complicado lidar com um cara que não pensava, não agia, não me confundia, não me fazia perder a cabeça... Bob era um homem muito melhor que . Mesmo não tendo belos olhos , ou um sorriso matador, ou outras coisas sobre as quais eu não deveria estar pensando. fazia mal para mim. Ele entrava na minha cabeça, bagunçava minhas idéias, fazia-me questionar meus princípios. Ele me irritava, seduzia, machucava, enlouquecia... E era errado. Errado porque não deveria ser ele, um vampiro, um monstro assassino quem me fazia capaz de me sentir assustadoramente viva. Aquilo me deixava furiosa.

Soco, soco, soco, SOCO, SOCO, SOCOSOCOSOCOSOCOSOCOSOCO...

- , pára! – gritou , despertando-me de meu transe raivoso.
- O quê? – eu perguntei, meio atordoada.
- Você tá quase quebrando o boneco! Sério, se você destruir mais um objeto dessa sala de treinamento, o Miles mata você. – disse , em tom de aviso.
- Não exagera. Você fala como se eu quebrasse as coisas o tempo todo. – ok, então eu havia destruído alguns sacos de pancadas e dado fim a alguns aparelhos durante meus anos nesse lugar... Mas o que eu podia fazer? Força sobrenatural tem suas desvantagens.
- , Miles mandou reforçarem as estruturas desse troço só por sua causa... Se esse boneco quebra, você tá morta. – disse , sentada em um colchonete a poucos metros de mim.
- Ok, ok... – eu assenti, derrotada – Como se fosse minha culpa não terem reforçado esse troço direito...
- Não banca a criancinha emburrada, não combina com a pose de caçadora durona. – disse , enrolando uma mexa do cabelo no dedo – Mas voltando ao assunto... Espera, qual era o assunto?

Uh-oh.

Ok, eu não era uma boa amiga se havia me distraído totalmente com Bob e com pensamentos sobre enquanto conversava comigo. A verdade é que eu não fazia idéia sobre o que ela estava falando antes de berrar para eu parar de esmurrar seres inanimados.
- Ahn... ? – eu chutei. Era sobre o que mais falávamos nos últimos tempos.
- Isso, ! – eu me controlei para não respirar aliviada – Então, parece que nada adianta. Depois daquele dia no QG ele nunca mais deu sinal de ter ciúmes de mim. Não importa o que eu diga, parece que eu simplesmente não existo para ele. Eu devia começar a, sei lá, falar com o .
- O QUÊ?! – eu gritei, incapaz de me controlar.
- Calma! – exclamou , arregalando os olhos – Só pra provocar o . Não precisa perder a calma, eu sei quem é o , não sou idiota o suficiente para ter mais contato com ele do que o extremamente necessário.
Ouch. A carapuça havia servido perfeitamente, mas por sorte não fazia idéia disso.
- Ótimo. – eu disse, mais tranqüila – Quero dizer... Não é bom ficar perto de . Ele é perigoso. Se eu fosse você, ficava muito, muito longe dele. – ou então eu vou ser forçada a te matar.

Hora de ligar o sistema de negação e fingir que eu nunca tive esse pensamento.

- Eu sei. Mesmo se eu tentasse me aproximar dele, não acho que ia adiantar. Não sou eu a favorita dele na nossa equipe.
Eu engoli em seco. Oh meu deus, oh meu deus, oh meu deus... A sabia.
- O... O quê? – eu perguntei, em voz fraca.
- Não sei, eu estive pensando... Você não acha que o fala demais com a Tara?

Ok... A não sabia de porcaria nenhuma.

- Bom... – eu comecei, meio abalada pelo segundo tiro de raspão da tarde – Acho que isso é porque a Tara é a única pessoa que conversa com ele. – em público, eu acrescentei mentalmente – E além disso, eu não sinto nenhuma atração entre aqueles dois. É estranho, mas a impressão que dá é que eles são, sei lá... Da mesma família, ou algo do tipo. Se eu não conhecesse os dois, diria que eles são irmãos, pelo jeito que ele fala com ela.
- Bom, eu espero que você tenha razão, por que o ficaria arrasado se a Tara se envolvesse com alguém. – disse .
- Oh, você notou isso também? – eu perguntei, aliviada pela mudança de assunto. Mesmo que, no fundo, eu estivesse meio perturbada com o fato de que era capaz de perceber o que estava rolando entre e Tara e não o que acontecia entre eu e . Será que o vampiro estava certo? Será que nenhum dos meus amigos prestava atenção em mim? Ou era eu quem havia ficado muito boa em esconder meus segredos?
- Aham. Eu acho bonitinho. – disse , rindo – To torcendo por eles.
- Eu também... Mesmo também gostando do Porthos. – eu acrescentei.
- Porthos...? – fez cara de confusa.
- É, o irmão do Aramis. Ele também mostrou interesse na Tara.
- Espera, esse Porthos é o alto, forte e lindo ou o mais baixinho, bonitinho e com ar de responsável?
- É o alto. – eu disse, rindo.
- Droga, o não tem chances. – disse , com cara de pena.
- Depende... Vai ver ele faz o tipo da Tara.
- Ok, vamos ver... Porthos. – disse , levantando uma mão como se ela fosse o gráfico de qualidades do garoto – . – continuou descendo muito a outra mão – É, o nerd não tem chances.
- Talvez tenha... A gente não conhece a Tara tão bem assim. – eu argumentei.
- É... Acho que só nos resta esperar pra ver quem ela vai escolher. Ei... Ei! Escolher? Você já parou pra pensar que a Tara tá aqui há pouco mais de um mês e já tem dois pretendentes? Três, se eu tiver certa sobre o ?
- Deve ser o jeito de garota boazinha. Alguns caras adoram isso. – eu disse, preferindo ignorar a menção de . Se eu insistisse muito em fazer desistir da suspeita, pareceria estranho.
- E os outros caras gostam do seu jeito “sou perigosa, me pergunte como”. – disse , suspirando em derrota – Ok, é oficial... De um jeito ou de outro, eu preciso mudar meu jeito se quero arranjar um namorado.
- ... – eu comecei, lutando pra não revirar os olhos – Você não precisa mudar nada, ok? Você é ótima do jeito que tá. É sério. Eu sei que eu te falei pra começar a lutar pelo , mas não assim. Você tem que mostrar pra ele que você tá interessada, claro... Mas só isso. Não precisa mudar ou rastejar por ele. É ele quem devia fazer isso por você, e se você não estivesse tão apaixonada, veria isso. Eu adoro o , mas é fácil perceber que você é areia demais praquele caminhãozinho. Sério, , você é dez vezes mais gostosa que o cara. O devia tá agradecendo aos céus por uma garota que nem você estar interessada nele.
- Talvez ele fizesse isso se percebesse que eu existo. – disse , em tom miserável.
- Ei... Sem pessimismo, ok?
- Isso vindo da pessoa mais pessimista que eu conheço. – disse , rindo e se levantando do colchão – Ok, eu preciso ir comprar donuts pra reunião. Tenho meia hora.

Eu quase havia esquecido que havíamos marcado reunião com o grupo naquela tarde. Definitivamente, minha cabeça já havia visto dias melhores.

- Certo. Não se esqueça de comprar...
- As rosquinha com cobertura de chocolate e granulado, eu sei. – completou por mim – Até parece que eu não te conheço desde criança.
Bom, se contássemos o fato de que eu andava dormindo com meu pior inimigo e não notara nada de diferente sobre mim... É, não parecia mesmo.
Quando já se aproximava da porta, esta se abriu, revelando .

Meus pensamentos o atraíam. Não era possível.

- Olá, . – disse o desgraçado, passando por ela com um sorriso gigante. apenas levantou o dedo do meio e continuou seu caminho, sem nem ao menos olhar para ele – Uau, quanta educação.
Ele esperou pacientemente até a porta bater atrás de . Só então seus olhos se iluminaram e aquele sorriso que ele parecia reservar para quando estávamos sozinhos apareceu em seus lábios.
Eu virei de costas instantaneamente, fingindo procurar por algum dano em Bob. Talvez nem fosse totalmente fingimento. Eu realmente podia ter quebrado o boneco... O fato de aquilo me dar uma boa alternativa a encarar podia apenas ser um bônus.

Acho que mentir pra mim mesma me dava alguma espécie de prazer doentio.

Senti se aproximando. A necessidade gritante de distraí-lo me deu coragem para falar.
- Você estava lá fora esperando sair, não estava? – era quase uma pergunta retórica.
- Talvez... – disse ele, sua voz já próxima.
- Há quanto tempo? – eu perguntei, desconfortável. Seria estranho demais se tivesse escutado tudo o que havíamos falado sobre ele. Principalmente meu ataque de ciú... Preocupação com .

Prazer doentio. Com certeza.

- Desde a parte sobre seu jeito “sou perigosa, me pergunte como”. – disse ele, rindo e me abraçando por trás. Eu pretendia forçá-lo a tirar as mãos da minha cintura. Só não sabia exatamente quando – Eu concordo com ela. E com o que você disse. é um babaca. Tem o mundo nas mãos e insiste em sonhar em ter a lua.
- Eu não sou a lua. – eu disse, meu corpo inteiro tenso. Eu devia estar empurrando-o. Por que eu não estava empurrando?
- É, você tem razão. A lua só reflete luz. Você consegue brilhar sozinha. – disse ele, mexendo no meu cabelo. Eu ri. Em parte de nervoso, mas ri.
- Poesia brega? Você vai mesmo apelar pra isso? – eu perguntei.
Ele suspirou e, embora eu ainda sentisse suas mãos em meus quadris, de repente estava distante.
- Aposto que gostaria de ouvir esse tipo de coisa de . Aposto que ela tem um lado romântico. Sem contar que é linda. O babaca tem sorte de ser amado por ela.
Confesso que esse tipo de comentário me deixaria um pouco irritada em circunstâncias normais. Porém, o tom na voz de deixara claro que ele não considerava sortudo por ser bonita. Para , tinha sorte de ter alguém que o amasse.
O mal-estar que aquele pensamento me causou foi o suficiente para me dar forças para tentar empurrar . O vampiro, no entanto, provavelmente pressentira minha reação, de forma que, quando tentei me soltar, ele apenas me apertou contra si com mais força.
- Ei... – ele murmurou, com a boca próxima ao meu ouvido, em um tom sedutor que obviamente estava sendo usado para me distrair – Por que a pressa? Nem tente dizer que não gosta que eu te abrace. Você parecia bem confortável nos meus braços há um minuto.
Isso porque eu estava mesmo. O abraço de era bom, eu não negava aquilo. Mas o conforto havia sido aniquilado com o que ele dissera sobre sorte.

O conforto, porém, ameaçou voltar com os beijos que ele começou a espalhar por meu pescoço.

Merda, aquilo era gostoso.

- , pára. – eu pedi, em uma voz que podia muito bem estar incentivando-o a continuar. Eu precisava protestar de alguma forma, no entanto. Aquilo era bom, e na minha vida tudo o que era bom provavelmente era errado.
- Não quero. – disse ele, em tom brincalhão, continuando a beijar meu pescoço – Ei... – disse ele, em tom confuso – Cadê a minha marca?
“Minha marca”. Claro que ele estava falando da mordida. O idiota se referia àquilo como se fosse uma etiqueta de posse que ele colocara em mim.
- Eu comprei maquiagem melhor depois da última vez. – eu disse, em tom de explicação. Depois do fiasco com a gola rulê na última vez que me mordera no pescoço, eu havia resolvido me prevenir. A marca sumiria naturalmente em pouquíssimo tempo, mas enquanto não sumia, eu precisava me esforçar em escondê-la.
- Então você já estava considerando a possibilidade de eu te morder no pescoço novamente? Que atencioso da sua parte! – disse ele, rindo.
- Cala a boca. E me larga. – eu disse, já irritada.
- Se você realmente quisesse se soltar, estaria se esforçando bem mais. – disse ele, inclinando o rosto para tentar me beijar. Eu virei o rosto na direção oposta instintivamente, tentando evitar não só o beijo, mas o rosto de . Eu ainda não estava pronta para encará-lo.
Acho que não devo ter escondido esse fato direito, pois pareceu entender meus reais motivos.
- , olha pra mim. – pediu ele, em uma voz tão convincente que foi difícil resistir. Minha resposta madura foi arrancar os braços dele de minha cintura, cruzar os meus em frente ao peito e fazer sinal de “não” com a cabeça.
- ... – disse ele, em tom obviamente divertido – Você tá com vergonha?
- Eu to irritada. – e com vergonha. Mas ele não precisava saber daquilo.
, porém, pareceu ignorar minha resposta.
- Eu não acredito que está com vergonha! – o filho da puta exclamou, rindo – É por causa de ontem à noite?
- Cala a boca, . – foi minha resposta original. Eu devia gravar essa frase em um gravador e apertar o “play” quando quisesse usá-la. Economizaria bastante voz.
- Não. Olha pra mim. – ele pediu novamente, mas eu continuei como estava. Suspirando, me forçou a virar de frente para ele e segurou meu queixo, forçando meu rosto a encarar o dele. Eu considerei fechar os olhos, mas já havia estourado meu estoque de infantilidade para aquele dia – Não tem motivos pra ficar com vergonha. Nem irritada.
- Você me bateu. – eu disse, com a voz um pouco trêmula. Um ouvinte desinformado poderia até pensar que aquela havia sido a primeira vez que me batera. A diferença era que antes sempre havia sido em meio a uma luta.
- E você gostou. – minhas mãos começaram a atingi-lo em golpes descuidados imediatamente e só com certo esforço ele conseguiu segurá-las – Ok, isso não soou muito bem. O que eu quis dizer é que é normal.
- Eu realmente não quero ter essa conversa. – eu disse, tentando soltar minhas mãos. Ultimamente, parecia que sempre que estávamos juntos eu acabava imobilizada de alguma maneira. Quando não física, psicologicamente.
- Me desculpe, ok? – ele disse, e aquilo foi o suficiente para me fazer parar. De tudo o que ele podia ter dito, aquilo era exatamente o que eu nunca esperaria – Eu entendo sua raiva pelo que eu... Fiz. E eu tinha ido até seu quarto justamente pra parar com as agressões mútuas, mas você consegue me irritar tanto... – ele fez uma pausa então, deixando-me absorver suas palavras – Foi errado, eu sei disso. Mas você provocou. Não precisava ter tentado me machucar daquele jeito. – ele respirou fundo, o que era engraçado se tratando de um vampiro – Mas acho que essa não é a questão. O que eu quero dizer é que peço desculpas por como a noite de ontem começou... Mas não por como acabou. – eu tentei novamente me soltar e ele apertou minhas mãos, impaciente – , deixa de ser infantil e me escuta. Eu não tenho motivos pra pedir desculpas por aquilo do mesmo modo que você não tem motivos pra ficar com vergonha. Não é errado gostar desse tipo de... Brincadeira. – ele obviamente estava controlando o vocabulário para não me irritar. Infelizmente para ele, não estava funcionando.
- Quem disse que eu gosto desse tipo de coisa? – eu perguntei, sentindo meu rosto queimar e tentando convencer a mim mesma que era de ódio. Idiotice minha. Aquela definitivamente era a conversa mais embaraçosa que eu já havia tido.
- Qualquer pessoa que perceba a mulher apaixonante que você é. – disse , seus olhos encarando intensamente os meus – Você não é uma florzinha delicada, . Você é sexy, você tem poder, você causa impacto. Você é feita de fogo, ... Seu sangue ferve. – as palavras dele vinham como uma melodia hipnotizante, envolvendo-me devagar daquele jeito que só ele conseguia – Você é perfeita... E os imbecis que vieram antes de mim não souberam enxergar isso. – ele havia largado minhas mãos e agora acariciava meu pescoço com um toque suave – Você não nasceu pra ser tratada como se fosse de cristal... Não nasceu pra sexo tradicional e sem graça... Você merece experimentar, merece alguém que entenda a sua cabeça, sua alma... Alguém que não te restrinja, que te deixe se descobrir. Alguém que te mostre o que você quer ver. Que realize cada posição, cada idéia, cada fantasia que você tenha. Você merece paixão. Merece alguém como você, .
- E esse alguém seria você? – eu perguntei, lutando contra o feitiço que parecia ter botado sobre mim. As palavras macias, o tom baixo... Ele estava tentando me puxar para aquela coisa que nos envolvia sempre que estávamos próximos. Era tudo parte do plano. Até o pedido de desculpas, eu enfim percebia. Era apenas a nova rodada do jogo. O maldito jogo, a maldita dança que acontecia desde que havíamos nos conhecido. Eu estava tão cansada daquilo tudo, tão cansada de resistir. Parecia tão mais fácil simplesmente por um fim àquela disputa e simplesmente aceitar a proposta de . Mas aceitar o que ele havia me proposto no elevador seria, no fundo, apenas o começo de mais um jogo.

Aquilo era, afinal, só o que nós sabíamos fazer. Jogar.

- Talvez... – ele disse, inclinando o rosto em minha direção. Para azar dele, no entanto, eu já não estava no clima. Meus dedos encontraram os lábios dele, cessando seu avanço, e por um momento nós apenas nos encaramos. Ele, confuso. Já eu, apenas tentava controlar a enxurrada de perguntas que olhar naqueles olhos me fazia querer verbalizar.
Por que você faz isso? Por que se dar ao trabalho de armar tantos esquemas, forçar tantas situações por mim? Pra que se desgastar tanto se você sabe que eu não posso te amar? O que realmente você quer de mim? Será que você ao menos sabe?

Perguntas das quais as respostas eu precisava. Perguntas que eu não era forte o suficiente para fazer.

- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei, selecionando a pergunta mais simples que eu poderia fazer.
Os lindos olhos se fecharam por um momento e ele deu um passo pra trás, suspirando. O momento havia passado e ele sabia disso.
- Sinceramente? – ele perguntou, em tom neutro.
- De preferência. Um pouco de sinceridade da sua parte seria bom, de vez em quando.
- Essa fala é minha, . Eu sempre sou sincero com você. Quem mente o tempo inteiro é você. – disse ele, parecendo subitamente interessado em um par de pesos sobre a estante – E antes que você comece a discutir, vou responder sua pergunta. Vim aqui por dois motivos. Um, pra ver você. Inútil negar. – disse ele, virando para mim novamente, o sorriso irritante firme nos lábios. Eu revirei os olhos – E dois... Bom, acho que é simplesmente lógico eu voltar a te treinar, agora que estamos bem de novo.
Eu apenas o encarei por alguns segundos, de queixo caído. Às vezes eu duvidava da sanidade mental de .
- Ok... Espera um pouco. – eu disse, rindo incrédula – , em primeiro lugar, nós não estamos bem. E em segundo, seu uso de “de novo” tá implicando que a gente já esteve bem algum dia, em algum lugar que não seus sonhos deturpados. – eu disse, calma, como se falando com uma criança. Mas a julgar pela expressão de e o sorriso condescendente que ele agora me lançava, para ele a criança ali era eu – ... Você sabe que eu não aceitei sua proposta... Não sabe?
- Claro que não aceitou, caçadora. – disse ele, mas seu tom de voz deixava claro que ele acreditava no contrário.
- Eu não aceitei mesmo! – eu exclamei, exasperada – A noite de ontem não significa nada, ok? Foi um erro!
- Mais um erro. – disse ele, rindo – É o que você sempre fala. Que nossos beijos foram erros. Que a noite na fábrica foi um erro. Engraçado como você persiste no erro, pequena. – disse ele, aproximando-se de mim – Será que você ainda não percebeu que sua vontade não conta mais? Seu corpo já decidiu por você há muito tempo, caçadora. Você teve um gosto do lado negro... Experimentou uma força muito maior que você. A força que te puxa pra mim. Você não vai resistir, caçadora. Você vai me procurar novamente, é só questão de tempo. – olhando-me sério, ele acrescentou – Você vai me querer tanto quanto eu quero sangue.
- Seu ego não conhece fronteiras. – eu disse, embora estivesse engolindo em seco.
- Ele é proporcional à sua teimosia. – disse ele, sorrindo provocante.
- Se é teimosia dizer que eu não treinaria com você novamente se minha vida dependesse disso... É, eu sou teimosa.
- Não, isso não seria teimosia. Seria pura burrice. – disse ele, seu rosto perdendo todos os traços de humor – Será que eu preciso te lembrar que você quase morreu por falta de preparo? Que caiu em uma armadilha que seria facilmente evitada se você fosse capaz de usar metade das habilidades que tem? – ele perguntou e eu desviei o olhar. Eu tentava não pensar naquela noite. A noite na qual o Mestre me salvara... A noite na qual havia me mordido pela primeira vez – Você pode não se importar de estar viva ou morta, , mas tem gente que se importa. Não falo só de mim, porque pra minha preocupação você não dá à mínima. Mas e os seus amigos? E as pessoas que você salva diariamente? Pode ser injusto, pode ser horrível, mas morrer não é uma opção pra você, . Se com você já parece difícil vencer o Mestre, o que Miles faria sem você?
Ele estava certo. Era fácil esquecer isso de vez em quando... Com o silêncio do Mestre nos últimos tempos e meus problemas com . Mas a verdade era que estávamos vivendo em preparação para uma guerra. A Organização estava ameaçada por um inimigo poderoso que mal conhecíamos. A ameaça era ainda um mistério, mas existia, e era por isso que eu precisava estar pronta. O Mestre já havia mais de uma vez demonstrado um estranho interesse em mim. Toda a comunicação dele com a Organização fora feita através de mim. Era simplesmente lógico assumir que, na hora certa, seria atrás de mim que ele viria primeiro. Quando a guerra estourasse, seria eu, mais do que qualquer outra pessoa, a responsável por matar quem quer que fosse aquele vampiro. Eu era a mais forte ali. Era eu quem tinha mais chances e com certeza seria eu quem teria mais oportunidades. estava certo, eu precisava de qualquer vantagem que eu pudesse ter. Qualquer habilidade desconhecida que meu status de híbrida me proporcionasse. Eu precisava sim treinar.

E só podia me ajudar.

Mas esse era o problema. Eu não podia. Não com ele. Se eu aceitasse a ajuda de , sabia onde aquilo iria dar. Eu não seria capaz de resistir a ele. Se já era difícil antes de tudo que acontecera, agora seria impossível. A partir do momento que eu aceitasse a ajuda de , estaria aceitando tudo mais que ele me oferecia.
Ele estava esperando alguma resposta minha, e de súbito eu não podia mais ficar ali. Eu não podia decidir aquilo agora. Eu não podia...

Eu não podia.

- Eu preciso ir. – foi o que eu disse, antes de dar as costas e seguir para a porta em passos rápidos. É, eu estava fugindo. Outra vez.
- ! – ele me chamou, mas eu não parei. Apenas abri a porta e saí dali, começando a atravessar o corredor quase correndo.

Não demorou muito até ele me alcançar.

- , espera! – disse ele, irritado – Qual é o seu problema? Onde você tá indo?
- Lousa. – eu respondi, tentando manter um tom calmo – Gilbert pediu que eu trouxesse uma lousa do segundo andar pro nosso QG.
- Pra reunião? , falta meia hora!
- Como você sabe sobre a reunião? – eu perguntei, parando no meio do caminho e o encarando.
Ok, tecnicamente era parte da minha equipe. Mas eu não o havia convidado para a reunião.
- Porque eu avisei pra ele. – disse uma voz atrás de mim.
Suspirando, eu me virei para encarar Tara.
- Por que não estou surpresa? – eu perguntei, em tom aborrecido.
- Porque você sabia que eu seria a única pessoa com o bom senso de chamá-lo. – disse Tara, com um meio sorriso – Ele é parte disso tudo, . E sete cabeças pensando são melhores do que seis.
Eu sinceramente tentei pensar em um argumento para justificar por que a presença de na reunião seria uma péssima ideia. Infelizmente, não consegui pensar em nada.
- Que seja. – eu disse, em tom emburrado. É, Tara estava certa. Mas isso não significava que eu precisava gostar da ideia de ter o vampiro com o qual eu andava dormindo na mesma sala que todos os meus amigos.
- O que é isso? – perguntou , gesticulando com a cabeça para o envelope que Tara trazia nas mãos.
- Isso? Oh. – disse Tara, balançando a cabeça e segurando o envelope um pouco mais perto de seu próprio corpo. O movimento havia sido sutil, mas perceptível – É só uma carta... Minha família gosta que eu mande sinais de vida de vez em quando. Já faz semanas que eu não dou notícias.
- Por que você não telefona? Ou, sei lá, usa a internet? – eu perguntei, franzindo as sobrancelhas. Hoje em dia era tão fácil se comunicar com pessoas distantes...
- É que minha família é... Antiquada. – respondeu Tara, em tom misterioso
- Oh. Desculpa, eu não queria parecer intrometida. – eu disse, meio sem jeito.
- Não pareceu. – disse Tara, virando a cabeça um pouco para o lado e me encarando de forma assustadoramente parecida com . Ela definitivamente estava passando tempo demais com o vampiro. Até suas ações estavam ficando semelhantes às dele – Mas confesso que estou um pouco surpresa pelo pedido de desculpas.
- Por quê? – eu perguntei, confusa.
- Há um mês você não teria me pedido desculpas. Não ligaria a mínima se eu te achasse intrometida. Na verdade, há um mês você nem estaria conversando comigo. Você se lembra da primeira vez que a gente se viu, ?
Eu lembrava. Foi no dia anterior à chegada de na cidade. O Mestre ainda não havia se anunciado. Gilbert havia me apresentado Tara e e eu havia... Bem, eu não havia dado à mínima. Havia sido até um pouco rude.
- Você mudou muito nesse pouco tempo. – disse Tara, com um leve sorriso – Quando eu te conheci você não era o tipo de pessoa que fazia amigos. E agora você é simpática comigo, com , com os Cromwell... Eu não sei o que aconteceu para te mudar tanto assim. – disse ela, porém agora encarava .
Por um momento eu me vi sem palavras. Tara parecia saber de tanto... Mas não era possível. Eu tinha certeza absoluta de que ela não sabia exatamente o que acontecia entre mim e . Mas ela desconfiava. De alguma forma, Tara parecia enxergar o que ninguém mais enxergava.
Será que ela estava certa? Eu não negava que havia sim mudado muito desde que voltara para L.A., embora não soubesse especificar o porquê. Pouco mais de um mês havia se passado... Tão pouco tempo. e eu havíamos vivido tanta coisa naquelas poucas semanas que era difícil aceitar que não haviam se passado anos. Será que em meio a toda a confusão e ao turbilhão de emoções que havia me forçado a encarar algo dentro de mim havia mudado? Eu estava longe de ser uma garota amável e normal, claro... Mas comparada à pessoa que eu era há um mês, eu me tornara quase... Suportável.
- Ela poderia mudar bem mais se não fosse tão teimosa. – disse , e algo dentro de mim se enfureceu.
- Ninguém tá falando com você. – eu praticamente cuspi as palavras, que vieram recheadas de veneno. Eu não conseguia suportar aquilo. não podia estar tendo uma influência positiva sobre mim. Não podia. Será que era um assassino frio quem estava me ensinando a viver em sociedade? Eu não suportava aquele pensamento, assim como não suportava o fato de Tara ter percebido isso. Mas o que me enfurecia de verdade era ver falando aquilo e confirmando para ela aquela suposição.
- Engraçado... – disse Tara, seus olhos sempre tão doces ficando frios por um momento – Ultimamente a única pessoa com quem eu te vejo ser mal-educada é justamente a pessoa que mais tenta te ajudar.
Dizer que eu entrei em choque por um momento seria pouco. Tara nunca falava coisas duras para as pessoas. Nunca acusava ninguém, e agora... As palavras delas eram claras o suficiente. Tara sabia. Sabia que tinha essa ideia estranha de me ajudar, e não só caçando vampiros. Ela sabia que ele se importava. Ela sabia que nós éramos mais do que simples parceiros de caça. Tara sabia.
- E-eu... – eu gaguejei um pouco e, em outra situação, teria achado aquilo engraçado. Dessa vez era eu quem estava gaguejando, e não Tara – Eu realmente tenho que ir pegar a lousa. – eu concluí, dando as costas e voltando a caminhar na direção que seguia antes de Tara aparecer.
Estava fugindo novamente, mas dessa vez não de . Não de mim mesma.

Por incrível que pareça, eu estava fugindo de Tara.

Xx

’s POV

Nós observamos se afastar por um momento.

- Você não devia ter dito isso. – eu disse, ainda observando – Ela guarda mágoa muito facilmente.
- Eu sei. Mas ela gosta de mim e, no momento, tá com medo de mim. – disse Tara, sorrindo – Meu palpite é que daqui a pouco ela vai fingir que nada aconteceu. É o jeito mais fácil de manter a moral. Negação é a forma preferida dela de lidar com os problemas.
- É uma possibilidade. – eu respondi, sorrindo também. Sim, eu amava ... Mas não dava pra não me sentir orgulhoso de Tara naquele momento – Se fosse eu, ela simplesmente teria me enchido de porrada.
- Pense pelo lado bom. Pelo menos ela não teria ficado indiferente. – disse Tara – Isso mostra que ela se importa.
- Se importa do jeito errado. – eu disse, suspirando – Às vezes eu me pergunto se tudo isso vale a pena, sabe? Todo o sofrimento. Quero dizer, ela obviamente nem gosta de mim e eu quero que ela me ame. Tem horas que eu penso que ela nem sabe o que é isso, entende? Que ela não sabe amar.
- Ela não sabe mesmo. Mas se eu fosse você, não sairia julgando tão facilmente.
- Como assim? – eu perguntei.
- Bom... É o sujo falando do mal lavado, não é? não sabe amar, mas você também não sabe. – disse Tara, encarando-me séria. Eu tive que lutar pra evitar que meu queixo caísse.
- O quê? – eu perguntei, incrédulo – Eu achei que você acreditasse em mim! Achei que do mundo inteiro, ao menos você acreditasse!
- ... – disse Tara, devagar – Eu sei que você ama a . Eu teria que ser tão problemática quanto ela para não enxergar isso. Eu sei que você sente amor. O que eu to dizendo é que você não sabe agir de acordo com esse amor. Você o sente, mas não sabe o que fazer com ele. Você também não sabe amar, .
Eu não sabia o que dizer. Estava em um ponto entre o chocado e o furioso.
- Eu não sei amar? Eu não sei o que fazer com o que eu sinto? O que eu venho fazendo há um mês então? Todo o sofrimento que eu ando passando tentando ajudar a ? Você realmente acha que eu não sei amar? – era inacreditável. E isso porque ela nem sabia da história inteira. Ela não sabia que eu e havíamos dormido juntos. Ela não sabia de todas as nossas conversas, nossas brigas, nossos momentos. Só o que Tara sabia era que eu amava e que a caçadora tripudiava em cima disso.
- , quando você descobriu que amava a você não era nem capaz de decidir se a queria morta ou se a queria com você! – exclamou Tara e eu desviei o olhar. Eu havia contado isso para ela uma vez. Por um segundo, imaginei o que Tara falaria se soubesse que eu havia tentado matar na noite na fábrica – Você ama , sim, mas odeia isso. E esse não é o fato mais grave... O mais grave é como você trata esse sentimento. , eu tava bem aqui minutos atrás. Eu vi como ela falou com você.
- E? Por acaso eu sou responsável pelo fato de não conseguir controlar a vadia interior? – é, eu tava irritado. Nunca pensei que me irritaria com Tara, mas a vida é surpreendente assim mesmo.
- Não. Mas é responsável por deixar ela falar daquele jeito com você. – disse Tara – E nem tente me dizer que não deixa. Você briga com ela? Sim. Você reclama? Sim. Mas quem vai correndo atrás de quem depois?
Tara definitivamente estava inspirada hoje. Em menos de dez minutos havia deixado e eu sem palavras. Qual seria o próximo passo? Fazer o Mestre chorar?
- Não importa o que faça, você sempre volta como um cachorrinho pra ela. Como você quer que ela te respeite, ? Você a ama, mas você não se ama. Você deixa ela te tratar como um cachorro, e no fundo... No fundo você não se importa. No fundo você acha isso normal. Afinal, a Coraline também te tratava assim, não tratava? De alguma forma, no fundo você se acostumou com isso. Ser tratado como lixo é o que você espera do amor. É o que você acha que merece.
- Você tá dizendo que eu gosto disso? – eu perguntei, com a voz um pouco rouca, contida.
- Não. Tô dizendo que isso é tudo que você conhece. – disse ela, com um sorriso triste – Você não sabe amar, . Você só conhece um lado do amor. O lado ruim. O lado que classifica o sentimento como algo que faz mal, que machuca. Mas existe um lado bom também. E esse lado bom você nunca pôde experimentar. Por isso que eu digo que você tem tanto a aprender quanto a . Ela tem que aprender como tratar os outros... E você tem que aprender como tratar a si mesmo. Só quando você começar a se respeitar e a fazer com que a mulher que você ama te respeite, você vai aprender realmente a amar.
Eu a encarei por alguns segundos, pensando no que dizer. Mas depois daquilo tudo, o que eu poderia dizer?
- É melhor eu ir. – disse Tara, de repente – A reunião é daqui a pouco e eu ainda tenho que passar no correio pra deixar essa carta.
- Ok. – eu disse, sem encará-la – Mas... Só mais uma coisa. O que você... Quero dizer, o que você acha...
- O que eu acho que você devia fazer? – ela completou a pergunta, e eu finalmente ergui o olhar, assentindo em seguida. Ela sorriu – Isso eu não sei te dizer. Eu percebo muitas coisas, , mas apenas isso. Apenas percebo e digo o que vejo. Não sei o que você deve fazer, e como você também não sabe... Bom, acho que você vai continuar agindo como sempre, assim como ... Até a hora que a vida ensine uma lição a vocês dois. As coisas são assim, . As pessoas só aprendem de verdade quando sentem na pele. Na hora certa você vai entender isso e tudo o que eu disse antes. Por enquanto... Bom, siga seu coração. Mas tente não se machucar tanto. – ela disse, sorrindo novamente antes de dar as costas.
Eu a deixei se afastar um pouco antes de chamá-la novamente.
- Tara... – eu disse, e ela se virou para trás – Eu tento, sabe? Eu tento fazer a coisa certa, eu tento entender. Tentar fazer a feliz me machuca, mas eu não vou ser feliz até a ser feliz... Entende? É um ciclo vicioso. – eu disse, suspirando – O amor é complicado, Tara.
Por alguns segundos, Tara apenas me olhou e sorriu, e sua semelhança com Meredith naquele momento se tornou mais forte do que nunca. Se eu me concentrasse o suficiente, quase podia fingir que era minha irmã que estava ali.
- O amor não é complicado, . – disse ela finalmente, enquanto dava as costas – As pessoas são.
Eu só a observei virar o corredor, como havia feito com .

Definitivamente, Tara era a garota mais estranha do planeta.

Xx

Não sei quanto tempo depois finalmente consegui me forçar a deixar aquele corredor. As palavras de Tara haviam me imobilizado por algum tempo, todas as verdades inconvenientes que ela havia verbalizado pesando demais. Aquele não era o tipo de conversa que devíamos ter tido em um corredor, eu estava ciente daquilo. Se alguém estivesse perto o suficiente para escutar, meus sentidos vampíricos teriam avisado, é claro... Mas mesmo assim, aquele era o tipo de situação que eu precisaria evitar no futuro.
Sem ter o que fazer até a hora da reunião, me vi caminhando para o QG. Eu podia simplesmente ir ajudar a encontrar e trazer a lousa, mas algo me dizia que ela não queria olhar na minha cara agora.

Depois de tudo que Tara havia me dito, nem eu queria olhar na minha cara.

À primeira vista, o QG estava vazio. Eu já estava prestes a comemorar quando ouvi uma voz vinda do corredor adjacente.
- ! – disse ninguém mais ninguém menos do que... .

Eu definitivamente não estava com cabeça para lidar com aquele nerd.

- Não sabia que tinha alguém aqui. – eu disse, levantando da poltrona na qual eu havia me jogado – Volto mais tarde.
- Espera! – disse o garoto, parecendo nervoso.
Eu o encarei, uma sobrancelha levantada. nunca falava comigo. No começo, sempre que ele me via saía apressado ou se escondia atrás de alguém. Com o tempo o idiota pareceu perceber que, se eu fosse morder alguém nesse lugar, não seria ele. Não com tantos lindos pescoços femininos desfilando pelo lugar. Mas o fato é que, mesmo não tendo medo de mim, o garoto nunca havia me dirigido a palavra diretamente. Não até aquele dia.
- Err... Será que a gente pode... Conversar? – disse ele.
- Eu jurava que já estávamos fazendo isso. – eu respondi, ainda o encarando. Aquela situação ficava cada vez mais estranha – O que você quer?
Eu devia simplesmente ter dado de ombros e saído dali. Não era do meu feitio conversar com os amiguinhos retardados de . Mas eu realmente queria saber o que aquele garoto queria comigo.

Dizem que a curiosidade matou o gato, mas eu já estava morto.

- Eu... – ele começou, parecendo ter dificuldades pra continuar – Você não quer se sentar? Isso já vai ser estranho o suficiente sem estarmos de pé e desconfortáveis.
Eu voltei a me sentar na poltrona, sem tirar os olhos dele. Não dava para espantar a sensação de que eu havia sido sugado para um episódio de “Além da Imaginação”.

Eu precisava ver séries novas. Esse tipo de referência estava começando a denunciar minha idade.

- Ok... É o seguinte. – disse , sentando-se em uma poltrona próxima a minha – Eu preciso de ajuda.
Eu esperei que ele acrescentasse algo mais. Quando percebi que aquilo era tudo, me vi forçado a perguntar.
- E você veio pedir ajuda... Pra mim? – primeiro Tara havia se tornado maldosa, agora isso... O mundo definitivamente havia acordado errado.
- Acho que você é o único que pode ajudar. – disse , sem me encarar – O meu problema é... Eu to apaixonado.

Oh, não. Ohhhh, não.

- , escuta... – eu comecei, tentando ser gentil – Você... Realmente, realmente, REALMENTE não faz o meu tipo.
- O quê...? Oh. OH! – disse o garoto, parecendo entender – Não! Não é por você! Não é isso, que nojo! – disse ele, parecendo prestes a vomitar. Eu voltei a levantar minha sobrancelha e cruzei os braços – Quero dizer... Não que você não seja perfeitamente atraente. – concertou o garoto, meio assustado ao perceber que me ofendera – Pra, você sabe... Quem gosta de homem. Só não é o meu caso. Eu to apaixonado por uma garota.
- E o que eu tenho a ver com isso? – eu perguntei, em seguida estreitando os olhos – Não é pela ... É?
- A ? Não, por que a pergunta? – quis saber o garoto, parecendo confuso.
- Por nada. – eu me apressei em dizer, percebendo que havia demonstrado interesse demais – Mas então, por que você está dizendo tudo isso pra mim?
- Por que eu preciso de ajuda... Pra, você sabe... Conquistá-la.
- E novamente eu pergunto... Por que você veio pedir isso pra mim? – eu perguntei, realmente confuso – Por que não pediu ajuda pra algum amigo seu?
- Porque eu só conheço dois homens nesse lugar... O não é um expert no assunto, e algo me diz que o Gilbert já não está na atividade há um tempo... – disse o garoto, e eu assenti. Realmente, não conseguia imaginar Gilbert com uma mulher – E você tem mais de cem anos de experiência, e tá na nossa equipe, então eu pensei... Bom, não ia doer pedir ajuda.
Eu devia rir da cara do garoto e dizer não, é claro. Era isso que um vampiro como eu devia fazer. Mas algo me impediu de agir daquele jeito, de modo que me surpreendi com o que perguntei em seguida.
- E por que você precisa de ajuda? É só... Sei lá, fazer o que você sempre faz e... Espera um pouco. – eu disse, arregalando os olhos – , você é virgem?
Eu apenas observei enquanto o garoto se transformava em um tomate gigante.
- Você é virgem! – eu exclamei, um pouco alto. Sim, eu estava surpreso. Não acreditava que homens virgens ainda existissem.
- Por que você não distribui panfletos? – disse o garoto, em tom miserável.
- Desculpa. – eu disse, me recompondo – É só... Bom, é surpreendente.
- Por quê? – disse o garoto, abrindo os braços – Olha pra mim! Eu passo minhas noites jogando Skyrim e discutindo Star Wars em fóruns! Você acha que garotas gostam disso? Eu nem sei falar direito com elas!
- É, parece um problema sério. – eu assenti – Mas mesmo assim eu não vejo como eu posso te ajudar. Ainda nem entendi direito o que te levou a pedir ajuda justamente para mim, que...
- Você já amou alguém tão intensamente que cada segundo sem ela parece uma facada no seu coração? – ele disse, de repente, com um tom desesperado que me fez me calar imediatamente – Tão intensamente que você não consegue dormir, comer, respirar? Já amou alguém a ponto de não conseguir passar um minuto sequer sem pensar nela? Eu já. E eu to desesperado. – disse ele, pela primeira vez me olhando nos olhos – Eu não sei mais o que fazer... Eu não sou bom o suficiente pra ela. Eu nunca vou ser. E tem esse cara... Esse cara que é tudo que eu não sou, e que também gosta dela. Ele é forte, corajoso, e as meninas parecem achar ele bonito... Que chances eu tenho? Eu não sei mais o que fazer. Eu realmente não sei. Eu to perdendo a pouca chance que eu tenho e isso tá me enlouquecendo. Então sim, eu to pedindo ajuda a você. Porque você mesmo sendo um vampiro, mesmo tendo um passado macabro conseguiu conquistar quase todas as garotas desse lugar em questão de dias. Elas falam de você pelos corredores, dão risadinhas quando você passa... Você é exatamente o tipo de cara que eu precisaria ser pra ter chances contra esse outro cara. E sim, eu sei que você provavelmente vai rir da minha cara e se negar a me ajudar. Você é um vampiro e eu sou só um nerd com o coração partido. Mas eu já to tão desesperado que eu nem me importo! Eu precisava perguntar.
Eu encarei , mas não era ele quem eu estava vendo. Não, a pessoa que eu via era o motivo pelo qual eu não havia feito o que disse que eu faria. O motivo pelo qual eu não havia rido.

No lugar de , eu estava vendo a mim mesmo. O garoto que eu havia sido quando humano.

Aquele idiota do qual as garotas riam. O menino tímido e romântico que era a piada de todos a sua volta. Eu não ria de porque um século atrás eu havia sido .
E eu entendia. Mesmo agora, eu entendia o que era amar alguém que você não pode ter. Nossas situações eram diferentes, mas no fundo tínhamos o mesmo problema. E a diferença era que, no caso dele, parecia existir uma chance.
- Ok... Qual é o nome dela? – eu perguntei, simplesmente.
O queixo de caiu.
- Você... Vai me ajudar? – ele perguntou, como se não acreditasse.
- Sim, mas eu quero algo em troca. – eu disse, sério.
- Qualquer coisa! – respondeu o garoto, imediatamente – Quero dizer... Qualquer coisa que não seja, você sabe... Ruim.
Eu ri. O que ele achava que eu ia pedir? Um sacrifício de virgens?

Ah, é. As piadinhas sobre virgens precisariam parar.

- Não é nada demais. Você sabe mexer com eletricidade? – eu perguntei.
- Sim. – ele disse, pensativo – Bom, não é minha especialidade. Eu tenho um diploma de física e um de engenharia mecânica, mas tenho uma noção de engenharia elétrica sim. Por quê?
- Eu to precisando de energia elétrica na minha... Casa. – eu disse – Se você se comprometer a resolver isso pra mim, eu te ajudo.
- Ok... Você vive em um cemitério, né? – ele perguntou, e eu assenti – Acho que posso puxar alguns fios... Pedir ajuda a alguns conhecidos... É, acho que posso resolver seu problema. Temos um acordo? – ele disse, estendendo a mão.
- Temos um acordo. – eu confirmei, balançando a mão dele – Mas você não respondeu minha pergunta. Qual o nome dela?
- O nome dela? É, uhn... Kara. Isso, Kara! Você não conhece. Ela, uhn... Não trabalha aqui.
Eu podia jurar que ele estava mentindo. Mas devia ser só impressão. Afinal, era ele quem estava pedindo ajuda. Pra que mentiria?
- Ok. E como exatamente você quer que eu te ajude a conquistar essa Kara?
- Eu quero que você me ensine como agir. Como andar, como falar... Como ser o tipo de cara que as garotas gostam. Como conquistá-las... Entende?
Eu entendia. Entendia exatamente o que ele queria.

Ontem eu havia dormido , O Vampiro. Hoje eu acordara Hitch, O Conselheiro Amoroso.

O destino realmente gostava de curtir com a minha cara. Em pensar que não fazia nem meia hora que Tara havia me acusado de não saber amar... E agora aqui estava eu, aceitando o papel de conselheiro amoroso. O que queria de mim, porém, era algo que eu realmente podia fazer. Eu podia não ser a melhor pessoa para dar conselhos sobre relacionamentos, mas eu sabia conquistar qualquer mulher... Isso é, exceto pela única que eu realmente queria. Mas se até , A Rainha do Gelo, eu havia ao menos seduzido, lidar com o caso de seria fácil.
- Certo. Mas pra montar uma estratégia de aproximação eu preciso de mais detalhes. – eu disse, e pareceu ficar nervoso.
- Como assim, detalhes? O que você quer saber?
- Bom, o básico... Que tipo de garota ela é? Está mais pra tímida ou pra extrovertida? Do que ela gosta?
- Ela é tímida. – disse , sem me encarar – Não socializa muito bem com estranhos... Mas comigo ela fala. Ela me considera um... Amigo. – ele disse, como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. Eu fiz uma careta em simpatia – Ela é inteligente também. Assustadoramente inteligente. E tem o maior coração do mundo.
- E é bonita? – eu perguntei, sabendo que ele deixara isso de fora propositalmente.
- Absurdamente linda. – ele assentiu veementemente – Mas não é só por isso que eu...
- Eu sei. Eu entendi. – eu disse, rindo – Bom, parece uma garota legal. Por que você acha que conquistá-la seria tão difícil assim?
- Você quer dizer, fora o fato de eu não ter jeito com mulheres, de ela me ver como um amigo e de ter um cara de quase dois metros de altura obviamente interessado nela? – ele perguntou, em tom sarcástico. Eu resolvi ignorar o fato de que aquele nerd parecia estar se sentindo confortável demais comigo de uma hora pra outra.
Levando em conta tudo o que ele estava me dizendo, o garoto tinha direito de estourar um pouco.
- Quase dois metros de altura? – eu perguntei, realmente com pena.
- É. – ele disse, em tom miserável – Perto dele eu e você somos anões. Ele é gigante. Acho que ele conseguiria me quebrar ao meio com o dedo mindinho.
- A competição é desleal então... – eu disse, pensativo, e em seguida ouvi um barulho vindo da escada que dava acesso aquela sala. Alguém estava descendo. Era melhor encerrar aquele assunto – Mas não se preocupe, eu vou pensar em algo. Me encontre aqui amanhã nessa mesma hora e a gente começa seu treinamento. – eu concluí, rindo da expressão assustada do garoto. Eu estava começando a gostar daquela ideia. Seria divertido ver o nerd tentar conquistar uma garota.
- Treinamento? – ele perguntou, com os olhos arregalados.
- Claro. Você tem muito que aprender... Não vai ser fácil. A pergunta é, você está disposto a se esforçar? Ela vale mesmo à pena?
- Com certeza. – disse o garoto, sem pestanejar.
- Com certeza o quê? – perguntou , escondida atrás da lousa gigante que ela carregava para a sala sem aparente esforço.
- Ahn... Com certeza a Megan Fox era mais gostosa antes das plásticas. – disfarçou .
- Concordo. – disse , colocando a lousa próxima ao sofá e às poltronas e se virando em nossa direção.

Só então ela percebeu que era eu quem estava ali com .

Por um momento apenas olhou de mim para o nerd, parecendo surpresa.
- Desde quando vocês conversam? – perguntou ela, desconfiada.
- Desde hoje. – disse o garoto, mexendo os ombros como se aquilo não fosse nada demais.
parecia prestes a falar mais alguma coisa quando a porta que dava para as escadas foi novamente aberta.
- , espera a reunião começar! – reclamava , batendo na mão do garoto que tentava abrir a caixa de donuts.
- Deixa de ser chata, só um... – insistiu o garoto, parando na frente da porta e bloqueando o caminho de .
- Depois você não sabe por que tá ganhando peso.
- Você tá me chamando de gordo?
- Às vezes eu não sei se trabalho em uma Organização anti-vampiros ou em uma creche. –disse Gilbert, abrindo caminho por entre os dois para entrar na sala, Tara vindo logo atrás. O mentor de olhou brevemente em nossa direção, seus olhos parando em mim. Por um momento eu achei que ele ia reclamar de minha presença, mas seu olhar apenas retornou para e – Já que estão todos aqui, será que dá pra pararem com a infantilidade? Temos muita coisa em pauta hoje.
- Ei! – disse , ignorando totalmente o que Gilbert dissera e apontando para mim – O que ele está fazendo aqui?
- Eu o chamei. – disse Tara, em tom neutro.
- Droga, Tara! – exclamou o garoto – Quantas vezes a gente precisa te lembrar que não se deve ficar amigo de gente morta?
- . – disse Gilbert, olhando para . O tom havia sido neutro, mas algo na voz dele fez calar a boca gigante imediatamente – Se você realmente quer provocar brigas, sugiro que espere lá fora até termos terminado. Ninguém tá aqui para brincadeiras. Querendo você ou não, está nessa equipe. E se Miles o colocou aqui, não temos escolha a não ser confiar nele.
- Certo. – disse o garoto, sentando-se no sofá em seguida, parecendo sem graça. Meu respeito por Gilbert triplicou naquele momento.
e Tara se acomodaram no sofá ao lado de , enquanto Gilbert se juntou a próximo à lousa branca.
Eu deixei meus olhos se fixarem em por alguns momentos. Ela não havia tentado me defender contra , obviamente. Mas também não havia posto lenha na fogueira. Não pude deixar de me perguntar se alguma das coisas que Tara havia dito poderia ter furado mesmo que um pouco as defesas de e a atingido.
Ela não estava olhando para mim. Pelo contrário, parecia evitar minha direção deliberadamente. Aquilo me confundia um pouco. Além de não saber o que ler naquele comportamento de , não olhar em seus olhos deixava mais difícil imaginar o que ela estava pensando. Ela estava irritada? Envergonhada? Será que, assim como eu, estava confusa? Não tinha como saber.

Mas bem que eu queria. Naquele momento, daria tudo para saber o que ela estava sentindo.

’s POV

Vontade de sair correndo.

Era isso que eu estava sentindo.

Eu havia imaginado que a situação seria ruim, mas não que atingiria esse ponto. Nenhum deles parecia perceber, é claro. Nem . Para todos eles, estarem na mesma sala era desconfortável, mas nada além disso. Nada desesperador.

Para mim era.

Eram dois mundos diferentes. Em um deles estavam meus amigos, as pessoas que eu amava. As pessoas cujas opiniões significavam o mundo para mim. As pessoas para quem eu me esforçava em me manter no papel de garota forte, corajosa, inabalável... Alguém que não cometia erros. Que nunca fazia o que não devia.
O outro mundo era . Meu segredo, meu maior pecado. O inimigo que eu desejava. O vampiro com o qual eu já tinha toda uma história... Toda uma história desconhecida pelo resto dos ocupantes da sala.
Aqueles mundos não coexistiam. Desde que as coisas entre mim e começaram a ficar realmente confusas, eu nunca mais havia estado em um ambiente com todos eles juntos. Era mais fácil separar as coisas. Quando eu caía em tentação com , era fácil esquecer daqueles que me julgariam se soubessem, pois eles não estavam por perto. E era fácil deixar a culpa de lado quando eu estava com meus amigos, pois não estava lá para me lembrar do que eu estava escondendo. Agora, porém, estavam todos ali. Todos juntos, e eu não sabia como agir.
Podia ser estranho, mas a impressão que eu tinha era que a qualquer momento algum deles iria perceber tudo e me acusar. Eu faria alguma coisa... Eu olharia para e então alguém magicamente perceberia tudo. Eu falaria a coisa errada e a verdade viria à tona.

Eu estava ficando paranóica.

E autista, pelo visto. Gilbert já havia começado a falar e lá estava eu, pensando idiotices.
-... E organizar o que sabemos. – dizia meu mentor – Me ocorreu que as informações não têm circulado de forma eficiente nesse grupo. E são muitas, obviamente. Muito ocorreu em relação ao Mestre, e me parece puramente lógico que tentemos organizar tudo isso, e talvez assim possamos enxergar algo que tenhamos deixado passar.
- A gente quer fazer tipo um esquema da situação. – eu disse, passando para o popular o discurso de Gilbert.
- É uma boa ideia. Como porcaria nenhuma anda acontecendo e tudo que a gente tenta fazer fracassa, tentar deduzir algo do que já aconteceu parece ser a única coisa útil a se fazer. – disse , sempre a voz das verdades inconvenientes.
- Err... Exato. – disse Gilbert, franzindo a testa – Vamos rever tudo. Cada passo do Mestre nesse último mês, e quem tiver algo novo a acrescentar, por favor, se pronuncie.
- Bom, tudo começou no túnel. – eu disse, escrevendo “TÚNEL” na lousa com a caneta – Eu e fomos atraídos para uma armadilha. Dezenas de vampiros esperavam a gente. Eu tive que botar fogo no lugar pra gente escapar.
- É. E não eram recém-criados. – eu ouvi acrescentar – Entre dez e vinte anos, acho. Não muito experientes, mas já velhos o suficiente para não obedecerem a qualquer um. E aqueles obviamente estavam obedecendo a alguém. O ataque foi bem organizado. Organizado até demais. Era quase como se...
- Eles estivessem brincando com a gente. – eu completei, ainda sem encará-lo – Como se estivessem nos testando. Eles eram muitos, mas não acho que estavam tentando realmente acabar com a gente. Pareceu mesmo um teste. – eu disse, e em seguida coloquei um asterisco ao lado do que havia escrito no quadro – Eu tenho algumas dúvidas sobre essa noite, mas acho melhor a gente voltar a elas depois.
- Isso nos leva ao segundo acontecimento. – disse Gilbert, olhando para mim – A primeira mensagem direta.
- “Meu Mestre manda lembranças.” – eu disse, escrevendo isso no quadro um pouco distante da palavra “túnel”, no estilo linha do tempo – Mensagem passada por um grupo de vampiros... Mais especificamente por uma garota, prestes a morrer. Foi a partir disso que os grupos de vampiros começaram a aparecer, às vezes com mensagens do tipo. Sempre pra mim.
- Mas sempre grupos pequenos. – disse , pensativo – Eu diria que pelo fato de o Mestre ter provavelmente perdido a maioria de seus seguidores naquele túnel. Exceto que...
- Eles variavam. Variam ainda. – eu completei novamente – Quando eu to sozinha, os grupos são menores do que quando eu estou com você. Como se...
- Pra manter o equilíbrio da luta. – dessa vez foi quem completou – Mais uma vez, como se fosse uma brincadeira. Como se fosse um teste ou...
- Algo para nos manter ocupados. – eu completei, assentindo. Eu já o encarava novamente, esquecendo por um momento nossos outros problemas – O Mestre não agia, mas não queria ser esquecido. Foi por isso que o consideramos uma ameaça tão grande mesmo antes de descobrirmos o que ele queria. Ele se manteve uma grande ameaça sem realmente...
- Se comportar como uma grande ameaça. – concluiu – Um jogo psicológico perfeito.
- Meu Deus, o que é isso? – disse , de repente.
Eu pisquei e me virei em direção a ela. Céus, eu havia esquecido completamente que havia mais pessoas naquela sala.
Todos, com exceção de Tara, nos olhavam curiosos. Mas por quê?
- Desde quando vocês completam as frases um do outro? – continuou .

Oh, merda.

Eu sabia... Sabia que ia acabar fazendo algo do tipo. Claro que para eles isso era estranho. Eu e nos comunicando sem ofensas. Concordando ao invés de discordar. Tecendo teorias juntos. Completando as frases um do outro.
- Eu tenho uma pergunta! – disse Tara, de repente, desviando a atenção de todos. Naquele momento eu esqueci totalmente qualquer vestígio de mau sentimento que pudesse estar nutrindo por ela – Como vocês sabem que a armadilha nos túneis está ligada ao Mestre? Quero dizer, houve alguma espécie de contato?
- Bom... Não. – eu respondi, aliviada pela mudança de assunto – Quando a primeira mensagem chegou, a gente só ligou as duas coisas.
- Sim. – concordou Gilbert – Quais são as chances de dois super vampiros estarem por aí organizando exércitos?

Um silêncio sepulcral se espalhou pela sala.

- Não é possível... Né? – perguntou , com a voz fraca.
- E se foi a tal “Ela”? – disse , parecendo apavorado.
- Foi o Mestre. – eu disse, com firmeza – Eu sei. Não me perguntem por quê. Eu só... Sinto. Chamem de intuição se quiserem. Eu sei que era ele por trás daqueles vampiros no túnel.
- Eu chamo de senso comum. – disse , simplesmente – Quero dizer... Não pode ter sido outra pessoa. O estilo é o dele.
- Estilo? – quem perguntou foi .
- É, o modo de agir. – eu simplifiquei para o nerd – Se encaixa no perfil, sabe? O tipo de abordagem, as mensagens confusas, os joguinhos... É bem o jeito do Mestre. Esse cara é extravagante. Gosta de aparecer, mesmo que não do jeito convencional, e não suporta a ideia de ser esquecido. É por isso que eu ando estranhando a calma nos últimos tempos. Tenho certeza que ele está tramando algo.
- Mas é melhor discutirmos isso quando chegarmos a esse ponto. – disse Gilbert, nos trazendo de volta ao foco daquela reunião – Qual seria o terceiro marco?
- A carta. – eu disse, sem precisar pensar, aproveitando o fato de que precisava escrever no quadro para evitar encarar os demais – E o meu colar.
- O colar que você insiste em não tirar do pescoço. – disse .
Eu não respondi, apenas senti minha mão tocar o pingente sem ter tomado aquela decisão conscientemente. Ele estava certo. Eu apenas tirava o colar para tomar banho, depois o colocava de volta. Era difícil explicar o porquê. Meus amigos achavam que eu havia desenvolvido uma relação doentia com aquele presente do Mestre, e talvez fosse verdade. O colar realmente me lembrava o que estava em jogo, o que eu estava encarando. Mas além disso... Além de tudo, eu gostava daquele colar. Gostava de tê-lo em meu pescoço.
- A carta era uma mensagem curta sobre como o colar era meu e que não me faria nenhum mal. e Tara confirmaram que não havia nada de incomum nele. – eu disse, simplesmente.
- E Gilbert pesquisou o significado de rosa negra em um livro de símbolos. – continuou – Aparentemente, a rosa pode significar várias coisas.
- Ódio. Amor profundo. Devoção total. Morte. – disse Gilbert, lendo uma folha de caderno que havia acabado de tirar de sua pasta – E o mais preocupante... O livro dizia que houve uma época na qual enviar uma rosa negra para alguém significava uma ameaçava de vingança.
- Eu não fiquei sabendo de nada disso. – disse , encarando-me um pouco irritado.
- Porque eu não te falei. – eu respondi, seca, sentindo mais do que nunca a necessidade de ser grossa com na frente dos outros. Precisava compensar pelo deslize que cometera ao parecer tão em sintonia com ele minutos antes – Você não precisa saber de tudo o que acontece por aqui. Não haja como se fosse mais importante do que é.
- Não comecem... – disse Gilbert, mas nem eu nem demos ouvidos.
- Eu vou, se você parar de agir como se fosse mais do que uma garotinha irritante com complexo de grandeza!
- Quem é você pra falar alguma coisa, ego maníaco iludido?
- CALADOS! – berrou Gilbert, antes que pudesse retrucar – Quantas vezes eu preciso dizer que esse não é o momento para briguinhas? Eu cheguei a achar que vocês tinham amadurecido. Devia ter percebido que era bom demais para ser verdade.
Para minha surpresa, não retrucou. Eu também permaneci calada, no fundo um pouco satisfeita. Aquilo era bom. Era bom que os ocupantes daquela sala continuassem a ver a mim e a como pessoas que não se suportavam.
- Então... A rosa pode significar várias coisas. – disse , depois de alguns momentos de silêncio desconfortável.
- Ou talvez nada. – disse – Seria no mínimo irônico se o Mestre tivesse apenas escolhido algum colar ao acaso. Aqui estamos nós, quebrando a cabeça para entender algo que talvez não tenha significado.
- Você quer dizer que a coisa toda pode ser só mais um jogo mental? – perguntou .
- Talvez. – eu respondi, subitamente ansiosa para mudar de assunto. Se fosse um jogo mental, eu estava caindo como um patinho. Afinal, insistia em usar aquele colar – Bom, depois disso veio o vampiro que atacou e . Nós o capturamos, mas ele não disse nada demais.
- Assim como todos os outros que foram interrogados antes. – disse Gilbert – Mais uma prova do controle estranho do Mestre sobre esses vampiros.
- Exato. Mas esse tinha uma nota fiscal no bolso... Uma nota de Nova York. Foi como descobrimos que o Mestre tem vampiros vindo de outros lugares para ajudá-lo. – eu disse, enquanto escrevia isso.
- Depois disso nós começamos a procurar informações nos diários de antigos caçadores, certo? – perguntou .
- Aham. – eu disse, escrevendo isso também – Mas apenas conseguimos uma lista de nomes de vampiros que seriam velhos e influentes o suficiente para serem esse “Mestre”. Não reconheci nenhum dos nomes.
- Eu pesquisei alguns em livros antigos. – disse Gilbert – Todos são vampiros renomados, todos poderiam ser o Mestre, mas não se pode ter certeza. As informações que temos são muito poucas. Não sabemos nem o sexo desse “Mestre”, muito menos detalhes como idade exata. Mas de qualquer forma, o paradeiro atual de todos os suspeitos é desconhecido.
- Eu posso dar uma olhada nessa lista? – perguntou .
- Pra que, sanguessuga zumbi? – perguntou , irritado.
- Pra ver se eu conheço algum deles, mula acéfala! – retrucou , revirando os olhos.
- Eu tenho a lista comigo. – disse Gilbert, parecendo envergonhado enquanto entregava o papel para . Eu o entendia, é claro. Nunca havíamos nos dado conta de que poderia ser uma boa fonte de informação nesse caso.
- A maioria eu só conheço de nome. – disse , após contemplar os nomes por alguns momentos – Mas eu excluiria o terceiro da lista. Ele detesta conviver com outros vampiros, nunca formaria o exército. E esse quinto morreu há três anos. Eu sei porque eu estava presente. – concluiu , apontando os respectivos nomes para Gilbert.
- Interessante. – disse Gilbert, pensativo – Você poderia dar mais detalhes? Essas são informações que não estavam nos livros...
- Depois. – eu os interrompi – Nós temos assuntos mais importantes, lembram?
- Claro, claro. – disse Gilbert, limpando a garganta e assentindo. O lado pesquisador havia o dominado por um momento, algo que acontecia de vez em quando. Mais alguns segundos e ele teria puxado um caderno e feito descrever com detalhes tudo o que sabia – O que aconteceu depois?
- A casa abandonada. – disse , encarando-me fixamente. Eu engoli em seco.
- Oh, claro. O grupo de vampiros e o diário de caçador. – disse Gilbert.
Eu olhei disfarçadamente para , tentando implorar a ele com os olhos para que explicasse aquela parte. Era difícil para mim falar daquela noite sem mencionar o que havia acontecido no armário.
- Eram quatro vampiros. – disse , depois de um breve intervalo – O mais velho deles, que algumas noites depois descobriu se chamar Godfrey, é uma espécie de braço direito do Mestre. Os outros três que andam com ele se chamam Mason, Hector e Drigger, que não passa de um garoto, um adolescente recém-criado. Eles foram até a casa abandonada buscar um diário de caçador que viu. O lugar havia sido um esconderijo do Mestre por algumas noites. Foi nessa noite também que descobrimos que o objetivo do Mestre é derrubar a Organização.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
- ... – disse Gilbert, em tom cuidadoso – Eu sei que já te...
- Pelo amor de Deus, Gilbert! – eu exclamei, irritada – Quantas vezes eu preciso responder isso? Sim, era um diário de caçador. Eu tenho certeza absoluta. Tinha capa preta, etiqueta da Organização, e os anos 1980-1982 escritos em dourado. E, além disso, os outros deram a entender que o Mestre possuía mais diários.
- Desculpe, . Não é que eu não acredite em você, mas isso é algo muito sério. – disse Gilbert – Não temos registro de nenhum diário perdido. , , vocês checaram os arquivos novamente?
- Sim. – foi quem respondeu – Mas os registros em papel foram todos digitalizados e depois destruídos, então é difícil ter certeza absoluta de que não tem nada errado com os arquivos. Algo pode ter se perdido no tempo antes de ser digitalizados, ou alguém pode ter esquecido alguma folha... Mas pelo que está no banco de dados, todos os caçadores que a Organização já teve têm seus respectivos diários em segurança em algum depósito.
- Ai meu Deus. – disse , de repente, ficando pálida.
- O que foi? – perguntou , preocupado.
- , põe um asterisco aí. Eu acabei de perceber uma coisa.
- O quê? , fala logo! – insistiu .
- Agora não, tá relacionado a outra coisa... E pode se idiotice minha... Melhor voltar a isso depois. – disse , séria.
- Ok... – eu disse, desconfiada, enquanto colocava o asterisco no quadro.
- Continuando, então. – disse , que ainda olhava estranho para – O que aconteceu depois disso?
Eu precisei pensar por um momento. Depois daquilo, havia voltado a ser meu parceiro e em seguida feito sua viagem misteriosa a Nova York, mas nada daquilo tinha a ver com o Mestre. Pelo menos não que eu soubesse.
- Depois disso resolveu que seria uma ideia brilhante sair atrás de casas abandonadas sem que Miles soubesse. – disse Gilbert, em um tom que não era só irritado, mas também culpado. Fazia sentido, afinal, ele havia me deixado convencê-lo a montar uma lista de possíveis localizações para mim.
- E sozinha. – disse . Para um observador desatento, o vampiro mostrava apenas indiferença quanto aquele fato. Mas por mais que seu tom desse a entender aquilo, os olhos dele brilhavam furiosos. Sorte minha que eu era a única prestando atenção.
- E, obviamente, acabou caindo em uma armadilha. – disse , que, ao contrário de , não tinha motivos para esconder sua irritação – Quer falar sobre isso, ? – concluiu ela, em falso tom doce. Eu revirei os olhos, terminando de escrever “ESTRADA” no quadro. Pelo visto, ainda não tinha me perdoado por aquela irresponsabilidade.
- Na verdade, foi por isso que eu coloquei o asterisco no “TÚNEL”. – eu disse, apontando – Certo, o que aconteceu naquela noite foi o seguinte. Eu senti o grupo de vampiros, encontrei-os e os segui para uma estrada. Lá eles me cercaram e me atacaram... Bom, com a exceção do Quarteto Fantástico.
- Godfrey e os outros três palhaços. – explicou, quando ninguém mais pareceu entender.
- Exato. – eu concordei – Eles não me atacaram, mas também não me defenderam. Eu teria morrido se... Se o Mestre não tivesse aparecido e feito com que os outros parassem.
- Ele salvou sua vida. – disse Tara, em tom distante.
- Exato. Mas por quê? Foi o que eu comecei a me perguntar naquela noite. Eu estava alterada demais para pensar direito, mas uma coisa eu entendi. Na noite no túnel – eu comecei, puxando uma seta até a palavra – o Mestre fez algo que não voltou mais a fazer. Atacou com seu exército em peso. Muitos vampiros de uma vez só, mas que não atacavam para matar, como eu disse antes. Mas na estrada – eu desci novamente a seta – eles estavam em menor número, mas sem o comando do Mestre, me atacaram pra matar, e teriam conseguido se ele não tivesse interferido. Ou seja, os do túnel poderiam também ter nos matado se o Mestre quisesse... Mas ele não quer. Duas vezes ele já provou que não quer. Qual o sentido disso? E também qual o sentido do exército gigante que ele mandou atrás de nós na primeira noite? Se ele não queria me matar, pra que mandar tantos vampiros? Será que ele apenas me subestimou ou sacrificou de propósito o que provavelmente era quase seu exército inteiro? E se fez isso, qual o motivo?
- Ok... Uma coisa de cada vez. – disse – Eu mantenho o que sempre digo, . Esse cara não quer te matar... Pelo menos não ainda. Ele gosta de brincar com você. A questão é o porquê.
- Bom... Se ele quer destruir a Organização, implicar comigo faz sentido. – eu respondi – Quero dizer, eu sou a melhor caçadora daqui. Sem contar que sou híbrida. Vampiros tendem a me odiar por isso. – eu acrescentei, tentando não olhar na direção de .
- Pode ser isso... E pode não ser. – disse Gilbert, suspirando – Mas isso nós não temos como deduzir apenas com as informações que temos. Assim como não somos capazes de entender o que levou o Mestre a mandar seu exército em peso atrás de você na primeira noite.
- Eu gosto de pensar que foi um erro. – disse – Que ele não esperava que todos fossem morrer, e que esse é o motivo pelo qual hoje em dia ele ataca em grupos pequenos. O exército dele foi destruído e ele anda o reconstruindo aos poucos. As coisas são mais simples assim.
- O problema é que as coisas têm a tendência de nunca serem simples como a gente gostaria. – eu disse, suspirando – Mas o Gilbert tá certo. Não temos informações suficientes para formular teorias sobre essas coisas. Quando eu conseguir descobrir mais coisas, aí sim a gente pode tentar voltar a isso.
Eu sabia que estava soando super confiante e até convencida, mas eu havia prometido a mim mesma que iria encontrar o Mestre nem que fosse a última coisa que eu fizesse. Descobrir mais coisas não era uma questão de “se”, mas uma questão de “quando”.
- Só mais uma coisa antes de irmos adiante. – disse Gilbert – Você chegou a descobrir para onde os vampiros que te encurralaram estavam indo?
- Não. – eu disse, imediatamente, vendo pelo canto do olho franzir as sobrancelhas – Acho que eles haviam apenas saído para caçar.
- É uma pena, realmente. – disse Gilbert, parecendo decepcionado.
Assegurando-me de que ninguém mais prestava atenção, eu virei o rosto na direção de enquanto Gilbert falava, gesticulando “depois” com os lábios e em seguida voltando minha atenção novamente para o meu mentor. Aquilo precisaria ser o suficiente para entender que devia ficar quieto e que eu explicaria a situação depois. Ele sabia que eu não havia contado a Miles que a fábrica havia sido um esconderijo do Mestre e que era por isso que os vampiros haviam seguido para a estrada naquela noite, mas não sabia que eu havia escondido isso de minha equipe. Só ele e Tara sabiam sobre meu ato irresponsável de voltar àquela fábrica. Tara porque notara meu sumiço e ... Bom, havia me esperado lá e me mordido pela primeira vez.
O problema em esconder aquele fato da minha equipe, porém, era que aquilo significava esconder várias outras coisas. Como eu não podia admitir que havia voltado a fábrica, não podia contar que na noite seguinte havia recebido outra carta do Mestre. Carta na qual ele dizia com todas as letras que sabia o que eu havia feito. Na carta ele também me “aconselhou” a parar de procurá-lo e, mais importante... Disse que não estava mais usando as casas abandonadas.
Aquela era uma informação crucial. Toda estratégia atual de Miles estava apoiada na possibilidade do Mestre estar em alguma casa abandonada. Meu descuido havia jogado nossa única vantagem pela janela e eu era covarde demais para admitir isso para alguém.

Gilbert estava certo. Estávamos tendo problemas com a circulação de informações naquele grupo. Isso porque eu andava escondendo quase tudo que sabia.

- Depois da estrada – eu me forcei a dizer, desesperada para passar para algum ponto que eu pudesse discutir livremente – veio a noite na qual eu e encontramos Drigger e outro vampiro que estavam me seguindo.
- Quando vocês descobriram sobre a “ela”. – disse Gilbert, assentindo.
- E confirmaram que o Mestre realmente vigia . – acrescentou .
- Exato. Eu interroguei o outro vampiro enquanto segurava Drigger. Bom, como vocês sabem, só o que eu descobri foi que os seguidores do Mestre não sabem por que ele me poupou na estrada. E que o motivo pelo qual ele não tentou um ataque mais forte contra nós até agora é que ele não está preparado... Precisa de reforços e “dela”... Mas nenhum dos capangas parece saber quem é ela.
- O Mestre realmente não parece dividir muita coisa com os outros, né? – disse – O que é escroto, porque esses vampiros matam e morrem por ele. Literalmente.
- Ele é inteligente. – disse Gilbert – Sabe que quanto mais pessoas possuem uma informação, mais chances essa informação têm de chegar aos ouvidos do inimigo.
- Eu não entendi uma coisa. – disse – Se já temos a confirmação de que o Mestre não está atacando por falta de preparo, por que tá todo mundo tão confuso? Minutos atrás estávamos discutindo o porquê de o Mestre não atacar mais como fez na primeira noite... Essa é a resposta, não é?
- A questão nunca foi o porquê o Mestre não nos ataca agora, . – explicou – É por que ele não atacou no começo. Por que aparentemente sacrificou boa parte do seu exército em um ataque contra ... Ataque que pareceu um teste. A questão é porque ele fez isso, ao invés de poupar seu exército e atacar a Organização como um todo.
- Por favor, não vamos voltar a esse assunto. – eu praticamente implorei – Já perdi noites pensando nisso. Esse assunto me dá dor de cabeça.
- Certo. – disse – O que mais aconteceu naquela noite?
me acorrentou na cama dele. Mas acho que não era isso que queria saber.
- Nada. – eu disse, mantendo o tom leve – Eu matei esse vampiro e mandei Drigger de volta com um recado. Mandei o Mestre parar de me perseguir, garanti que mataria cada capanga que ele mandasse atrás de mim e que um dia o mataria também.
Eu não contei o porquê havia feito aquilo. O porquê da mensagem. O fato era que eu só mandara Drigger fazer aquilo porque não havia conseguido matá-lo. Algo dentro de mim havia me impedido. O quê exatamente eu não sabia. Na verdade, não gostava nem de pensar sobre isso.

Uma caçadora que demonstra compaixão por vampiros não é uma boa caçadora.

Eu nem sabia se havia mesmo sido compaixão o que segurara minha estaca. O que quer que fosse, havia sido algo forte e desconhecido. Algo que eu não sabia explicar.
- Acho que isso nos leva a ultima ação do Mestre. – disse Gilbert – A invasão da biblioteca externa da Organização. A que contém os livros que não cabem aqui.
- Quanto a isso nós sabemos três coisas. – disse – Primeira, como nada foi levado de lá, dá pra supor que o que quer que o Mestre quer está aqui. Segunda, como o Mestre parece colecionar diários de caçador, deve estar atrás de outro. E terceira, por algum motivo ele sentiu necessidade de distrair naquela noite.
- Ahn? – perguntou , parecendo confuso.

Merda, merda, merda, merda!

- É. – eu disse, rapidamente – Foi na noite da recepção dos investidores. Aquela noite na qual você me ligou para lutarmos contra aquele bando de vampiros. – eu disse, em tom significativo.
“Lutarmos contra aquele bando de vampiros”. Código estranho para “lutarmos um com o outro quase até a morte e acabarmos a noite fazendo sexo selvagem”.
- Oh! – disse , parecendo entender – Claro, aquela noite. É, nós passamos a noite inteira lutando... – ele disse, olhando-me com um brilho divertido nos olhos – Definitivamente o maior desafio da minha vida. Eu ainda tenho algumas cicatrizes.

Naquele momento eu descobri que não importa quanta força de vontade você tenha, não é possível impedir o próprio rosto de corar.

Eu abaixei o rosto, olhando fixamente para os meus pés.
- Nós achamos que a coisa toda foi uma armadilha para manter ocupada. – disse Gilbert.
Uma teoria válida, claro. Isto é, pra quem não sabia que o único vampiro que me atacara naquela noite havia sido .
- Tem a fábrica abandonada também. – disse , de repente – Deu no jornal. Parece que houve atos de vandalismo lá na mesma noite. Um nível de destruição alto demais para ser obra humana.

E eu achando que não podia piorar.

- Oh, Athos estava falando sobre isso ontem. – disse , subitamente interessado – Eu me pergunto que tipo de criatura selvagem pode ter feito esse tipo de coisa.
Eu olhei para como se meus olhos tivessem raios lasers. Aquilo de novo não!
- Nós não sabemos se existe alguma conexão. – eu disse, por entre os dentes.
- Realmente não faz sentido. – disse – Qual poderia ser o motivo? Eles não conseguiram achar o que queriam e então resolveram destruir alguma coisa para liberar a raiva?
- Não dá pra imaginar o que levaria uma pessoa a fazer uma coisa dessas. Você tem alguma ideia do que pode ter sido, ? – disse , voltando os olhos falsamente inocentes na minha direção. Minha vontade era de deixar ambos roxos.
- Não. E eu realmente acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. – eu disse, tentando não pular no pescoço de – Será que dá pra gente voltar ao que realmente é importante? , a gente já reviu tudo o que o Mestre fez. Você disse que tinha uma teoria. O que é?
- Bom são várias coisas, na verdade. Em primeiro lugar, estão todos de acordo que está certa e que o Mestre realmente tem diários de caçadores, certo?
Todos concordaram.
- E que esses diários provavelmente contêm tudo que nos seria útil sobre o Mestre? – ela disse, e mais uma vez todos acenaram – Então... Quando nós ficamos sabendo da invasão da biblioteca, chegamos à conclusão de que o Mestre estava atrás de algum diário, que só pode estar por aqui. Mas nós já checamos todos os diários, nenhum parece ter nada de relevante.
- Foi quando começamos a suspeitar de um traidor aqui dentro. Alguém que possa estar escondendo diários e os entregando para o Mestre. – disse .
- Outra coisa que eu não fiquei sabendo. – reclamou .
- Isso porque você é um dos suspeitos. – disse , olhando feio para o vampiro.
- Não, não é. – garantiu Gilbert, antes que pudesse falar alguma coisa – Nós já discutimos isso, . não teria tido oportunidades.
- É. E ele é idiota demais para ser um agente duplo. – eu acrescentei, e me encarou, irritado. Qual era o problema dele? Eu o estava defendendo... Mais ou menos.
- Não pode ser o . – disse , de repente – Não pode porque ele não mora aqui... Não passa muito tempo aqui. Vocês ainda não perceberam? disse que segundo os arquivos, não existe nenhum caçador do mundo cujos antigos diários não estejam em poder da Organização. Os depósitos são checados sempre, então sem dúvidas todos os nomes naquelas listas têm os diários correspondentes em algum depósito. Mas como isso é possível, se o Mestre tem alguns diários?
- , você tá tentando dizer que... – começou Gilbert.
- Os arquivos foram modificados! – exclamou – Como disse, é possível. Se todos os diários que temos correspondem a pessoas nas listas arquivadas, isso significa que alguns nomes foram cortados. E isso só pode ter sido feito por alguém aqui de dentro. A existência de um traidor não é uma hipótese, gente... É uma certeza. Alguém modificou as listas para que os diários que faltam nunca fossem notados. Se não tivesse visto aquele diário na casa abandonada, nós nunca desconfiaríamos.
- Oh, merda. – disse , verbalizando os sentimentos de todos os presentes.
Era ótimo, realmente. Como se não bastasse tudo o que andava acontecendo, agora era quase certo que existia um traidor convivendo conosco naquela sede. Perfeito. Como se eu não tivesse problemas o suficiente sem precisar começar a desconfiar de todos a minha volta.
- Acho que só nos resta manter o que combinamos da última vez. Qualquer informação que obtenhamos não deve sair dessas quatro paredes. – disse Gilbert – Eu sei que teoricamente não é seguro confiarmos nem uns nos outros, embora eu duvide que alguém nessa sala seja culpado. Mas não há outro jeito. Precisamos confiar em alguém ou essa guerra já está perdida.
A porcaria do silêncio voltou a reinar por alguns momentos, como se ninguém tivesse coragem de se pronunciar. Era horrível não confiar nos colegas, mas não poder confiar nem nos próprios amigos era insuportável. Não tinha ninguém naquela sala que não estivesse se sentindo mal.

Bom, talvez uma pessoa.

- Eu tenho uma dúvida. – disse .
- Sobre o quê? – Gilbert perguntou.
- Sobre esses diários. – respondeu o vampiro – Os diários que vocês consultaram. Esses que ficam aqui são de todos os caçadores do país, certo?
- Certo. – disse Gilbert, parecendo confuso – Por quê?
- Bom, eu sei que essa sede da Organização não é apenas a sede nacional, mas a mundial... Prova disso é que é aqui que ficam os arquivos com os nomes de todos os caçadores, de todas as épocas e de todos os locais do mundo. Mas, claro, não há espaço aqui para todos os diários. A sede de cada país fica com os diários de seus caçadores... Certo? – estava começando a soar como um professor de jardim de infância falando com aluninhos retardados.
- Sim. Mas se você está supondo que os diários que o Mestre tem não estão sendo dados como perdidos porque não são americanos, você está errado. – disse Gilbert – Como você mesmo disse, temos a relação de todos os caçadores da história da Organização, e cada uma das sedes manda relatórios regulares sobre o conteúdo e organização dos depósitos. Como disse, todos os caçadores da lista têm seus diários guardados em algum lugar, sem exceções. Nós saberíamos caso algum se perdesse.
- Não estou falando do Mestre, Gilbert. Estou falando de vocês. – disse – Vocês disseram que já analisaram todos os diários desse lugar... Mas por que só desse lugar? Ainda não entendi por que diabos vocês estão assumindo que um vampiro como o Mestre passou seus sei-lá-quantos séculos só no país de vocês. Será possível que ninguém aqui pensou por um segundo sequer em checar diários do resto do planeta? Eu sei que vocês americanos costumam esquecer disso, mas existe vida fora dos Estados Unidos.

Com um comentário, havia nos reduzido de um grupo de combate a vampiros a um bando de macacos tentando trocar uma lâmpada.

Céus, nós éramos muito estúpidos mesmo.

- Nós... Não tínhamos pensado nisso. – disse Gilbert, envergonhado. E olha que ele nem era americano.
- Não seria possível. – disse – Estamos falando de bilhares e bilhares de diários.
- Não to dizendo pra vocês procurarem pessoalmente. – disse , revirando os olhos – Até porque seria impossível mesmo. Ninguém aqui fala todas as linguagens do planeta, sem contar que mover todos esses diários seria perigoso. Eu estou falando de pedir ajuda às outras sedes da Organização no mundo. Eu sei que Miles passou um comunicado geral quando os objetivos do Mestre finalmente vieram à luz, mas além disso, anda acontecendo algum tipo de comunicação? Algum outro país anda pesquisando sobre o Mestre? E se sim, alguém anda dividindo as informações?
- Não. – eu respondi – Nós... Ninguém pensou realmente em pedir ajuda. Quero dizer, Miles deixou todos alerta, é claro, porque no caso de a guerra realmente estourar, vai envolver a Organização como um todo... O mundo inteiro teria que vir nos ajudar. Mas realmente não pedimos ajuda no sentido de pesquisas. Miles nem sabe direito que nós estávamos consultando os diários.
- Roger é o tipo de homem que acha que respostas só são obtidas com ações, e não encontradas em livros. – disse Gilbert, em um tom disfarçadamente reprovador – Ele quer descobrir sobre o Mestre com os caçadores. Procurando-o, interrogando vampiros... O tipo de coisa que realmente só nós aqui em Los Angeles podemos fazer, já que é aqui que o Mestre está. De fato, aparentemente alguns vampiros andam vindo de fora para se juntarem a ele, mas ainda não sabemos se do mundo inteiro ou só de outros estados. De qualquer forma, do ponto de vista de Miles, os outros países não teriam muito que fazer.
- Eu vou falar com ele. – eu disse, decidida – Miles pode não ter levado em consideração as informações arquivadas quando montou seu plano de ação, mas tenho certeza que foi apenas por não estar acostumado com pesquisas. Ele não vai se opor a pedir ajuda de outros países, eu sei disso.
- Espera um pouco. – disse , de repente – É impressão minha ou está admitindo que eu falei algo útil?
- Estou. – eu disse – Milagres precisam ser celebrados. Quem sabe quantos séculos vão se passar até você ter o próximo pensamento inteligente?
- Agora você está dizendo que eu fui inteligente? – perguntou , em falso tom emocionado – , assim você vai me fazer chorar.
- Cala a boca. – eu disse, tentando não rir e nem ao menos sorrir. Aquilo seria mostrar para meus amigos que eu estava entrando na brincadeira.
- Calem a boca os dois. – disse Gilbert, em tom cansado. Ele era a verdadeira imagem do adulto incompreendido no meio de um bando de pirralhos. Era engraçado pensar que na verdade tinha umas três vezes a idade dele – Alguém tem mais alguma observação?
- Eu tenho. – disse – Tem uma coisa que eu não entendo. Como você acabou de dizer, tem mais vampiros vindo para cá para se juntarem ao Mestre, o que significa que a população vampírica de L.A. está aumentando. Os caçadores estão evitando que os números saiam do controle, mas mesmo assim... Eu sei que é horrível dizer isso, mas se temos tantos vampiros na cidade, o número de mortes também não deveria ser maior?
- Vampiros geralmente escondem os corpos de suas vítimas, . – disse Gilbert, em tom de... Aviso? Era o tipo de tom que alguém usava quando queria passar alguma mensagem que ia além das palavras. Eu olhei à minha volta. e pareciam estranhamente desconfortáveis, mas os demais pareciam tão confusos quanto eu – Corpos drenados seriam suspeitos demais, e eles não querem chamar a atenção da população. Acabariam sem querer revelando que existem.
- Mas há exceções, certo? – continuou , aparentemente sem perceber o estranho nervosismo que metade das pessoas ali estava demonstrando com aquele assunto – E mesmo o número de desaparecimentos não parece ter aumentado. Com tantos vampiros por aqui, isso não é estranho?
- Nós não costumamos caçar no lugar onde moramos. – disse , simplesmente – É uma regra básica de sobrevivência. Quando um vampiro fica na mesma cidade por um longo período, não quer chamar atenção para sua presença. Não quer que a população comece a desconfiar de algo quando várias pessoas começarem a sumir misteriosamente. Então ele se afasta o máximo possível da área onde vive para encontrar vítimas. Claro, em cidades grandes como L.A., tanto cuidado não é necessário, a não ser que, como é o caso do Mestre, se tratem de vários vampiros. Acredite, eles provavelmente andam caçando em cidades vizinhas.
- , aqueles vampiros que te atacaram na estrada... Você acha que eles poderiam estar saindo da cidade para isso? – perguntou .
- Err... Claro. – eu respondi. Bom, eu tinha certeza que eles não estavam, não naquela noite. Mas em outras, era bem provável que sim.
- É, acho que faz sentido. – disse – Mas mesmo assim... É impressionante. O Mestre realmente deve ter um controle absurdo sobre esses vampiros, porque eles quase não saem da linha. Acho que desde que eu cheguei aqui essa garotinha no jornal de hoje foi o primeiro caso...
Foi engraçado. Mesmo. O modo como eles reagiram. arregalou os olhos e fez que “não” com a cabeça, olhando para . encarou o nerd como se quisesse matá-lo, e Gilbert apenas suspirou, levando uma das mãos à testa. parou de falar imediatamente, mas era tarde demais. Eu havia entendido.
- Que garotinha? – eu perguntei, em tom neutro.
- ... – disse Gilbert, cuidadoso, enquanto tirava os óculos e começava a limpá-los. Droga, a coisa era séria.
- Que garotinha? – eu repeti, com mais firmeza. Quando ninguém me respondeu, eu simplesmente fui até a mesinha e peguei o jornal que estava sobre ela.

Eu senti enjôo.

Charlaine Kadrey. Sete anos. Encontrada na noite de ontem jogada atrás de algumas latas de lixo. Sem sangue nas veias. O pescoço rasgado. “Atacada por um animal”, era o que a notícia dizia. Não era sempre essa a justificativa? O problema era que o tipo animal que eles culpavam não teria se preocupado em “esconder” o corpo... O animal que fizera aquilo era um pouco mais inteligente.

Tinha uma foto. Ela estava sorrindo e abraçando um urso de pelúcia quase do tamanho dela.

Tentando manter a voz firme, eu me voltei para o grupo.
- Vocês iam me esconder isso?
- A gente sabia como você ia reagir. – disse , sem olhar pra mim – Nós pensamos...
- Quem disse que vocês podem pensar? – eu disse, meu tom carregado de ódio. Ódio deles, ódio do mundo, ódio de mim.

Ódio de mim.

Sem esperar que alguém falasse mais alguma coisa, eu saí daquela sala, deixando a porta bater atrás de mim.

Xx

’s POV


- Ela sempre faz isso. – Gilbert explicava para Tara a – Ela não consegue aceitar. Encara tudo de forma pessoal demais.
Eu não estava prestando atenção nele. Na verdade, não prestava atenção em nada naquela sala a não ser na porta que havia batido alguns segundos atrás.
Quando dei por mim, já a estava atravessando e subindo as escadas que me levariam ao andar superior. Eu estava agindo no automático, simplesmente porque não sabia o que fazer naquela situação.
Para um vampiro, matar uma criança era apenas um sinal de crueldade. Elas não tinham tanto sangue quanto um adulto, então não eram as vítimas mais indicadas. Eu mesmo nunca havia matado uma criança. Parecia simplesmente lógico que, podendo comer o porco, ninguém preferiria o leitão. Mas, assim como entre os humanos, existiam vampiros com um lado mais psicopata.
Eu encontrei logo no começo do corredor. Ela estava parada, de costas para mim. Havia ouvido meus passos. Estava me esperando.

Eu nem sabia o que dizer para ela. Nem sabia se existia algo que eu pudesse dizer.

- Não foi sua culpa. – foi o que escolhi, após alguns momentos.
Ela riu. Uma risada seca, cortante.
- Não? – ela perguntou, lentamente se virando para mim.
- Não. Você não tinha como saber... Não foi nem na nossa rota, caçadora. – eu tinha quase certeza que havia escutado Gilbert mencionar Hyperion Avenue para os outros enquanto eu saía daquela sala.
- Não importa. Eu podia ter feito algo. Talvez o culpado tenha passado pela nossa rota antes. Eu podia tê-lo matado... Podia ter evitado. Mas eu estava ocupada demais perdendo tempo com você.
- , isso é loucura. Olha o que você tá dizendo! Nada garante que você o teria encontrado ontem... Na verdade, a julgar pelo tamanho dessa cidade, provavelmente não teria. Se você vai se culpar por isso, culpe também os céus por não terem jogado um raio sobre o vampiro antes que ele chegasse até a garota. Ou o sol, por não ter nascido mais cedo e o torrado. Será que você não entende? Você não encontrou aquele vampiro simplesmente porque não era pra acontecer. Ninguém pode se culpar pelo acaso!
- Acaso? – ela perguntou, estreitando os olhos – Você chama o que aconteceu de acaso? Você... Você ao menos se importa? Ao menos se importa um pouquinho com ela?

Eu não sabia o que responder.

- Você se importa? – eu perguntei – Você nem a conhecia, !
O jeito que ela me olhou então me fez sentir sujo. Asqueroso.
- Isso não vem ao caso. – disse ela – Era uma criança, ! Uma inocente! Você não se importa, não é? É só uma garota humana... Só comida. – disse ela, com a voz trêmula – Ela tinha uma família. Sonhos. E você me pergunta se eu me importo? É claro que eu me importo! Se ela está morta agora, a culpa é minha.
- Céus, você é louca. – eu disse, um pouco chocado. Eu sempre soube que tinha complexo de heroína, mas aquilo já era insanidade – A culpa é do vampiro que a matou, não sua. Você não é culpada por todas as mortes feitas pelas presas de vampiros.
- SOU SIM! – ela estava gritando tão alto que era surpreendente ninguém ter aparecido – O único motivo pelo qual eu existo é uma porcaria de profecia! Uma profecia que disse que um híbrido nasceria para caçar vampiros. É minha missão, ! Cada vez que alguém morre vítima de um vampiro, é uma falha minha. É mais um vampiro que eu não matei!
Eu a encarei, como se fosse a primeira vez. De certa forma, era. Céus, eu sabia tanto sobre ... Mas não aquilo. Nunca havia visualizado aquele traço de sua personalidade por inteiro. Era algo que ela mantinha tão dentro de si mesma que era difícil enxergar, mas agora estava claro. Agora muitas coisas estavam claras.
Era culpa. Tanta culpa que era difícil imaginar. E ela carregava toda aquela culpa dentro de si. Como ela suportava aquilo? Viver com aquela ideia, aquela “missão”? realmente acreditava que estava nas mãos dela toda aquela responsabilidade. Não era surpreendente que ela fosse sempre tão amarga, tão assombrada. Como se não bastasse todo o resto, ela também convivia com aquela noção de dever a atormentando.
A pior parte era que eu sabia de coisas que a fariam se sentir melhor. Sabia, mas não podia dizer. No ato mais egoísta da minha vida, eu havia trocado meu direito de falar a verdade para pelo direito de estar perto dela.

Ela estava certa quando dizia que eu não prestava.

Mas havia outras coisas que eu podia fazer. Eu podia ajudar. Podia fazê-la enxergar o quão louca estava sendo.
- Pesa? – eu perguntei, simplesmente.
- O quê? – ela perguntou, visivelmente surpresa e confusa.
- O mundo que você insiste em carregar nas costas? – eu expliquei, sem mudar o tom.
- Você fala como se fosse uma escolha. – disse ela, após um momento.
- E é. – eu afirmei – Você pode escolher deixar de ser o saco de pancadas do destino. Pode entender que só o que você pode fazer é a sua parte. Que ninguém salva o mundo sozinho. A responsabilidade por caçar a minha espécie não é só sua, . É de todos os caçadores.
- Eu sou a melhor deles. – ela disse, como se aquilo mudasse tudo.
- Você é. Você é incrível, , mas você não pode fazer tudo. Sabe qual é o seu problema? Nesses anos todos você acabou ficando tão boa que começou a achar que é imbatível. Super poderosa. Seu ego cresceu tanto que você começou a se considerar a única pessoa capaz de exterminar vampiros. Por isso você sente tanta culpa. Porque você acha nessa batalha só existe você pra proteger os humanos dos vampiros.
- Você fala de culpa. – disse ela – Fala como se entendesse o que é culpa. Você entende, ? Você se sente culpado por alguma coisa? Você não sente compaixão, será que ao menos culpa você sente?
- Eu sinto culpa por várias coisas, . Mas você insiste em me julgar como se eu fosse humano. Vampiros amam como humanos, sentem dor como humanos, ódio... Mas coisas como compaixão e culpa nós sentimos de forma diferente. Eu não to feliz porque uma criança morreu, mas também não vou caminhar para o próximo nascer do sol por causa disso. Dizer que isso me afeta como parece te afetar seria hipocrisia. Para a maioria das pessoas, seria hipocrisia também. Eu não a conhecia, não a amava... Eu não teria motivos para desejar que ela morresse, mas o fato de isso ter acontecido não parte o meu coração.
- Você ao menos tem um coração? – ela perguntou, séria – Não, não responde. Eu sei o que você vai dizer. A ladainha sobre o quanto você me ama. – ela disse, rindo sem o menor humor – Eu realmente... Realmente to sem cabeça pra isso agora. Eu vou sair e vou matar alguma coisa, e se você sequer pensar em vir comigo, eu mato você também. – ela concluiu, antes de dar as costas e continuar a seguir seu caminho.
Eu não a segui. Sabia que isso só seria pior. E pela primeira vez na nossa relação, não deixei que o pouco caso que ela fazia dos meus sentimentos me afetasse. Ela estava ferida, e assim como eu, tinha a tendência de ferir os outros quando estava assim. Eu mesmo havia feito esse tipo de coisa com ela meses atrás... Quando Cora trouxera para o nosso lado e eu me sentira deixado de lado. Eu havia descontado minha dor em da mesma forma que ela agora descontava a dor em mim. Dessa vez eu não podia culpá-la pelas próprias palavras cruéis.

Só o que eu podia fazer era esperar. Esperar e estar por perto quando ela finalmente percebesse que só eu poderia fazer a dor que ela sentia ir embora.

Xx

’s POV


Já era tarde quando eu finalmente voltei.

Se minha vida fosse algum livrinho de auto-ajuda estúpido, essa seria a parte na qual eu diria que matar vampiros em um surto de ódio cego não havia ajudado. Diria que a violência não era a resposta e que o único modo de resolver meus problemas era lidar com eles, pedir ajuda às pessoas que me amavam e aceitar a mim mesma.
Mas minha história não é um conto de moral barato. Eu não estava tentando impressionar ninguém ou ensinar coisas aos outros. Então eu não me sentia mal por admitir que quebrar a cara de alguns vampiros havia me feito me sentir melhor sim.

Às vezes bater em coisas ajuda muito mais do que horas de terapia.

Aquilo não queria dizer que tudo estava bem, é claro. Não estava nem perto disso. Mas caçar um grupo de vampiros seguindo apenas minha sede por violência e acabar com todos eles sozinha realmente havia me deixado um pouco melhor. Aqueles cinco desgraçados nunca mais machucariam ninguém. Aquele era um pensamento bom de ter.
As vidas que eu havia salvado, no entanto, não eram só o que havia me deixado mais calma. A violência em si era algo do qual eu estava precisando, e aquele era um pensamento perturbador. Eu gostava de violência tanto quanto um vampiro. Minha metade sobrenatural estava mais forte do que nunca.
Tudo culpa de , eu pensei, enquanto me jogava em minha cama sem nem ao menos me preocupar em tirar os sapatos. De certa forma, a culpa realmente era dele. Dele e de seu discurso sobre como eu precisava desenvolver minha capacidade total. Não só o lado humano, mas também o lado vampiro. Desde que eu havia começado a conviver com ele, minhas características vampirescas vinham ficando mais e mais fortes.
Eu podia sentir o cheiro dele nos meus lençóis. Provavelmente era apenas minha mente brincando comigo, mas se eu me concentrasse o suficiente, quase podia me convencer de que ele estava ali. No meu quarto... Na minha cama. Era estranho pensar que havia sido o primeiro homem a fazer sexo na minha cama. Não havia sido lá com , e para a meia dúzia perdedores que vieram depois dele eu obviamente nem havia mencionado a existência da Organização, quanto mais deixado algum deles entrar na Sede.
Eu nem havia pensado nisso na hora. Claro, a verdade é que eu não havia pensado, ponto. Mas aquilo mudava as coisas, não mudava? Algumas horas atrás eu havia reclamado sobre os mundos estarem se misturando, mas a verdade era que eu havia começado tudo aquilo. Eu havia aceitado no meu mundo na noite de ontem. Não havia sido em uma casa abandonada ou em uma fábrica caindo aos pedaços... Havia sido ali, onde eu dormia, onde eu passava minhas horas livres. Aquilo deixava tudo mais sério, mais real.
No fim das contas, aquele era o grande problema. O quão real tudo aquilo estava se tornando. Eu estava deixando ficar cada vez mais próximo. Mesmo com todos os motivos que eu tinha para querê-lo longe de mim, parte de mim estava tentada a aceitar a proposta dele. Como uma voz insistente em minha cabeça, essa parte me forçava a analisar a possibilidade... Afinal, era só sexo, não era? Ele mesmo dissera que não significaria nada. Eu já havia dormido com estranhos, por que não com ? E daí que eu o odiava? Era só uma necessidade física, certo?

Tá vendo? Esse era o tipo de pensamento que eu não podia ter.

Eu praticamente pulei da cama e comecei a caminhar pelo meu quarto, em mais um surto de eletricidade. Pra que ficar deitada se eu definitivamente não dormiria naquela noite? Eu estava carregada de energia. Meu corpo ainda estava sob efeito da adrenalina, e minha mente estava cheia demais para descansar. Parte de mim ainda sofria pela inocente que morrera e parte de mim estava confusa por .

As duas partes estavam de acordo em apenas uma coisa. Eu precisava vê-lo.

Aquilo precisava acabar. Eu precisava dizer a ele de uma vez por todas que não, eu não aceitaria a proposta dele. Precisava dizer com todas as letras para que não restassem dúvidas. Estar com ele era o que andava me distraindo, prejudicando meu trabalho. Eu precisava ir até ele... Para dizer isso. É, apenas por isso. Precisava ir até só para terminar tudo de vez, e não por que eu estava sofrendo. Não porque precisava dele... Eu não precisava de . Não precisava. Eu só iria atrás dele para dar um fim aquela história toda.
Tentando me convencer disso, eu voltei para as ruas movimentadas de Los Angeles. Eu acabaria com aquela confusão. Resolveria de uma vez por todas minha situação com . Naquela noite, nossa história finalmente terminaria.

Ao menos era aquilo que eu pensava naquele momento.

Meses depois, eu entenderia que aquela noite, na verdade, seria o marco do nosso verdadeiro começo.

Capítulo 27 – That Cold, Eventful Night, Parte 1

(Obs: Música do capítulo: Pain, do Three Days Grace. Coloquei o link, como sempre, mas só agora me toquei que como não é mais possível usar o botão direito, se vocês clicarem terão que abrir a página n ovamente. Acho que é mais fácil vocês digitarem o nome da música no seach do youtube. Dá pra ler sem a música, claro, mas acho que a trilha sonora ajuda bastante no clima da cena.)

’s POV

Eu não havia percebido antes o quanto a noite estava fria.

Claro que não havia percebido. Antes havia estado preocupada demais em descontar minha fúria e minha dor em vampiros. Havia espreitado as ruas que conhecia desde criança à procura daqueles cuja existência era o motivo de toda a minha desgraça. Eu havia encontrado no rosto de cada vampiro que encontrara naquela noite a face desconhecida do monstro que matara uma criança. Simplesmente porque aquele caso era um símbolo de todos os meus problemas.
Eu só existia por causa deles. Era filha de um deles. Malditos vampiros. Se hoje eu sofria, a culpa era deles. Se hoje eu odiava a mim mesma, era porque odiava eles. Todos eles... Até mesmo , às vezes. E .

Principalmente .

Era até ele que eu estava indo. Atravessando ruas enquanto abraçava meu próprio corpo para combater o frio que eu agora era capaz de sentir. Antes eu havia estado esquentada pela fúria assassina. Agora, porém, só o que eu sentia era o incômodo frio da incerteza.
O porquê da incerteza eu não sabia. Havia deixado a Sede decidida a ir até para ter com ele aquela que seria nossa conversa definitiva. E eu ainda estava indo fazer isso, o problema era aquela sensação estranha dentro de mim. Uma espécie de aceitação. Como se parte de mim soubesse de algo que minha mente consciente se recusava a aceitar. E essa parte me fazia questionar meus reais motivos para estar indo até .
Eu precisava vê-lo, essa era a única certeza. A conversa era apenas a desculpa que eu arranjara para justificar aquela necessidade a mim mesma. Afinal, de que adiantaria conversar com ? Eu diria não a proposta dele e o que mudaria? Aquilo não faria desistir de mim. Eu começava a achar que nada faria. Dizer não a apenas o faria mudar de tática. Aquilo não terminaria nunca. Ou pelo menos não até um de nós estar morto.
Oh, não. Eu também não estava indo matar . Não seria capaz e sabia bem disso.
A verdade era que eu não sabia o que estava indo fazer na cripta dele. A ideia havia aparecido em minha mente como o canto de uma sereia enquanto eu ainda estava em meu quarto. Forte, irresistível... Aquela ideia me dominou bem rápido e meu mecanismo natural de negação havia criado quase imediatamente a desculpa de “pôr um fim naquilo que existia entre nós”. O verdadeiro motivo era um mistério até mesmo para mim. Em um momento eu estava confusa e sofrendo, e no outro a necessidade de ir até surgiu como um clarão. Como o modo de agir mais óbvio. Como a solução para todos os problemas.

Eu não sabia direito o que estava indo fazer lá. Só sabia que precisava ir.

Eu cheguei até a porta dele como se em um sonho. Eu quase não sentia meus próprios passos, nem o contato de minha mão contra a madeira velha da porta que rangeu alto ao ser aberta. Meu coração batia forte. O que eu estava fazendo ali? Meu Deus, o que eu estava fazendo?
O andar de cima estava vazio, óbvio. Os sarcófagos continuavam onde estavam e havia poeira por todos os cantos. Era o cenário de um filme de terror. Não me surpreendia o fato de nenhum humano costumar entrar aqui, quanto mais descobrir a entrada secreta. Entrada essa da qual eu lentamente me aproximava.
Encontrei o alçapão com facilidade, é claro. Já havia estado lá antes. Mais vezes do que gostava de admitir.
Não me incomodei em descer os degraus. Apenas pulei pela abertura, aterrissando com facilidade poucos metros abaixo.
Ele estava na cama, encostado contra a cabeceira e usando apenas seus jeans. Sem olhar para mim, ele marcou a página do livro que lia e o colocou sob a mesinha ao lado da cama. A precária iluminação de velas me impedia de ver a capa do livro, mas eu não estava preocupada com isso. Estava concentrada demais nas ações de .
Ele sabia que eu estava ali, é claro, por isso estava fechando o livro. Provavelmente sentira minha presença bem antes de eu entrar. também não parecia surpreso, ou ansioso e nem ao menos confuso. Era como se o fato de eu estar invadindo a casa dele fosse algo normal. Algo que eu fizesse sempre.
não estava surpreso, simplesmente porque já estava me esperando.

Naquele momento eu entendi o que havia ido fazer lá. Aceitei o que, no fundo, já sabia desde o começo.

Como sempre, ele entendera antes de mim. sabia que era uma questão de tempo até eu ir atrás dele, por isso não se mostrava surpreso. Ele sabia que eu viria. Sabia por que eu estava ali.

Pain, without love
(Dor, sem amor)
Pain, I can't get enough
(Dor, nunca é o suficiente)
Pain, I like it rough
(Dor, eu gosto de violência)
'Cause I'd rather feel pain than nothing at all
(Porque eu prefiro sentir dor a não sentir nada)


Ele fazia os problemas irem embora, pelo menos por algumas horas. Ele me fazia esquecer o mundo.
E céus, eu precisava tanto fugir daquele mundo... Eu estava chegando ao meu limite. Eu me sentia ao mesmo tempo cheia e totalmente vazia. Tudo era complicado demais, dolorido demais... Meu trabalho, minha vida, meu passado. Quem eu era doía, mas era como se eu não fosse capaz de sentir a dor. Não totalmente. Eu sabia que ela estava lá, ardendo, incomodando, mas não conseguia digeri-la, lidar com ela, senti-la em sua totalidade para que acabasse. Era como se meus sentimentos estivessem afundados em uma poça obscura e, por mais que eu entendesse que eles estavam lá, não pudesse realmente alcançá-los. Havia uma barreira entre mim e eles.
Eu havia sofrido pela garotinha, mas não completamente. Eu sofri por ela... Eu me importava, mas o sentimento não conseguia atravessar as barreiras. Parte de mim não me permitia sentir.

Eu era uma concha vazia.

A dor pela menina me atingira, mas não me dominara. Apenas se alojara junto às outras emoções nunca totalmente sentidas, e por isso não ia embora. Não ia embora porque não havia cumprido seu papel.
Fora por isso que eu havia saído tão furiosa para caçar. Era desespero, necessidade de expurgar tudo aquilo dentro de mim de alguma forma. Minha mente não sabia processar totalmente as emoções e eu raramente era capaz de chorar por meus problemas, então aquele era o único jeito. A violência era uma distração, e por isso eu havia me sentido melhor tão rápido. Mas a distração era momentânea, e por isso eu estava aqui. Estar com fazia tudo aquilo ir embora por mais tempo.
Eu havia desaprendido a sentir, mas ele me fazia sentir. Se não emoções, ao menos sensações físicas que entorpeciam minha mente por alguns momentos abençoados. Ao contrário de tudo que eu sempre afirmara, deixava as coisas mais fáceis. Por isso a necessidade repentina de ir atrás dele. O vampiro havia se tornado meu mecanismo de fuga do mundo.
Ele havia deslizado até a beira da cama e agora estava sentado de frente para mim. Por um longo momento, nós apenas nos encaramos, enquanto eu sentia todo o peso daquela situação. O ar estava carregado, estático. A energia entre nós estava mais óbvia do que nunca.
Não tinha sequer um traço da costumeira expressão convencida naquele rosto bonito. estava apenas me encarando, sem demonstrar o que pensava, mas também sem usar nenhuma máscara. Sua expressão estava assustadoramente nua. Não havia dor ali, mas também não havia piadas. A situação era séria e ele entendia isso.

Sem dizer uma palavra, ele esticou o braço na minha direção, oferecendo-me sua mão.

You're sick of feeling numb
(Você está cansada de se sentir entorpecida)
You're not the only one
(Você não é a única)
I'll take you by the hand
(Eu te pegarei pela mão)
And I'll show you a world that you can understand
(E te mostrarei um mundo que você pode entender)

Eu não devia aceitar. A coisa certa a fazer era ir embora dali, porque eu sabia o que tudo aquilo significava. Sabia exatamente o que eu estava aceitando. Mas mesmo assim, eu me encontrava incapaz de impedir meus pés de me levarem até ele. Incapaz de evitar colocar minha mão sobre a dele.
Eu não fugiria outra vez. Já tinha problemas demais. Dúvidas demais, responsabilidades demais... Era injusto. Eu não era forte o suficiente para agüentar tudo aquilo. Ninguém era. Eu precisava abandonar alguma das coisas que torturavam minha mente, então escolhi aquilo. A resistência. Resistir a , aos meus impulsos, era algo difícil demais. Algo que implicava o gasto de muita energia, que forçava ao limite minha força de vontade. Eu estava cansada... Não podia mais lidar com tudo aquilo. Não queria mais lutar. E daí que era errado? Eu tinha o direito de ser irresponsável, a vida me devia aquilo. Não era como se eu tivesse permitindo a mim mesma me apaixonar por outro vampiro. Não era aquela questão. Se eu estava aceitando a proposta de não era por amor. Não era por amizade, já que nem aquilo eu tinha por ele. Eu estava com por desejo. Desejo insano, desejo destrutivo, desejo que me consumia... Desejo e necessidade de ter algo em minha vida que me oferecesse um descanso de todo o peso que eu carregava nos ombros. A responsabilidade, a “missão”... As coisas que haviam cimentado a cova dos meus sentimentos. Os elementos importantes da minha vida que haviam me ensinado que sentir era secundário.

This life is filled with hurt
(Essa vida é repleta de sofrimento)
When happiness doesn't work
(Quando a felicidade não funciona)
Trust me and take my hand
(Confie em mim e pegue minha mão)
When the lights go out you will understand
(Quando as luzes se apagarem você entenderá)

Ele levou minha mão até seus lábios sem desviar o olhar do meu rosto. Ele beijou meus dedos, minha palma, meu pulso. Seus lábios eram macios, úmidos, frios... Mas me queimavam. O toque, mesmo gentil, daqueles lábios contra minha pele me fazia tremer. sabia ser selvagem e desesperado, mas também sabia me tocar de forma paciente e sensual. Ele sempre sabia do que eu precisava, e era por isso que eu sempre voltaria.
Me faça esquecer, era o que eu pensava enquanto ele guiava minha mão para sua nuca e puxava meu corpo mais para frente, até eu estar entre suas pernas. Eu queria dizer aquilo em voz alta, mas não conseguia. Eu precisava dizer algo. Precisava ter certeza de que ele entendia o que estava acontecendo ali.
- Eu... – eu comecei, mas minha voz ficou presa na garganta. Os olhos dele ainda me fitavam. Aqueles olhos nos quais eu tinha certeza que um dia me afogaria de vez.
- Shh... – disse ele, suavemente, como se achando que palavras demais fossem estragar o momento. Talvez ele estivesse certo – Eu sei, pequena. Eu sei...
Com uma mão ele começou a desabotoar de baixo para cima a blusa preta simples que eu usava, enquanto com a outra acariciava a pele que ia expondo. Eu apertava com força sua nuca e seu ombro, tentando me apoiar, tentando me manter de pé. Ele quase não estava fazendo nada, mas era o suficiente. Um olhar dele já era capaz de me dominar. Eu sentia minha pele queimar... Sentia-me tonta. Hipnotizada. Hipersensível. Aquilo doía. Aquele desejo doía, mas eu gostava daquilo. Eu abraçava aquela sensação, assim como a total depravação que era deixar que ele me tocasse. Eu considerava bem-vinda a escuridão da situação, a dor de estar indo contra todos meus princípios morais. A angústia de estar na escuridão com meu inimigo mortal, de sentir prazer em cada minuto passado com ele, era algo que eu queria. Porque aquilo era melhor do que simplesmente me sentir vazia.
Os botões da minha camisa já estavam todos abertos, mas ele não fez menção de deslizá-la por meus ombros. Apenas a deixou aberta em meu corpo enquanto inclinava a cabeça um pouco para trás e percorria meu corpo com os olhos. Eu estava usando um sutiã preto também, básico e nada sexy, porém não era isso que os olhar dele dizia. me olhava como se eu fosse a criatura mais atraente da face da terra. O desejo nos olhos dele era cru, insano, violento. Era algo que me fazia sentir poderosa. Que fazia meu sangue ferver e tocava algo dentro de mim que eu não sabia explicar. O jeito dele de me olhar me dava algo que eu precisava, mesmo não sabendo o que era.
Ele umedeceu os próprios lábios, provavelmente sem perceber, e aquilo me fez sorrir contra a minha vontade. deslizou uma mão até minha cintura, contornando meu quadril, e a moveu para minhas costas, por dentro da blusa. Ele moveu o corpo um pouco para trás na cama, puxando-me com ele pela mão em minhas costas. Eu mais uma vez não resisti. Pelo contrário, ajudei-o ao subir na cama e dobrar meus joelhos sobre o colchão, um de cada lado de seu corpo, sentando em seu colo.
Minhas mãos deslizaram por seus ombros e pescoço, subindo para seu cabelo, enquanto eu o encarava, agora bem de perto. Como na noite anterior, nós olhávamos exatamente nos olhos um do outro. A sensação continuava a ser forte, excitante. Não havia barreiras entre nós quando nos olhávamos daquele jeito. Era uma sensação perigosa e sensual ao mesmo tempo.
moveu o rosto um pouco para cima, roçando o nariz em meu queixo. Fechando os olhos e soltando o ar que eu não sabia que estava prendendo, eu inclinei meu rosto na direção do dele, deixando que nossas testas se tocassem por um segundo antes de encostar o nariz em sua bochecha. Ele fez o mesmo e em pouco tempo aquilo se tornou um jogo, nossos rostos se tocando enquanto nossas bocas lentamente se procuravam. Eu reabri meus olhos por um segundo, olhando novamente nos dele e em seguida deixando meu olhar cair para seus lábios.
Eu deixei que nossas bocas se tocassem em um gesto devagar, hesitante. Quase carinhoso de tão suave, como se aquele fosse nosso primeiro beijo. De certa maneira, era mesmo.
retribuiu o beijo tentativamente, como se com medo de que algum gesto brusco fosse me fazer sair correndo. Eu não podia culpá-lo por temer aquilo.

Mas então minha língua tocou seu lábio inferior e a tensão entre nós explodiu.

Pain, without love
(Dor, sem amor)
Pain, I can't get enough
(Dor, nunca é o suficiente)
Pain, I like it rough
(Dor, eu gosto de violência)
'Cause I'd rather feel pain than nothing at all
(Porque eu prefiro sentir dor a não sentir nada)

Meu corpo estava pressionado contra o dele e suas mãos percorriam a expansão de minhas costas com desespero, aos poucos fazendo com que minha camisa escorregasse por meus ombros. Meus dedos haviam se embrenhado por seus cabelos e agora seguravam sua cabeça com força enquanto nossos lábios se devoravam. Mas mesmo assim, aquilo era diferente. A urgência e a atração explosiva continuavam lá, mas dessa vez não havia pressa. Dessa vez não era um acidente. Estar ali havia sido uma decisão minha. Não precisávamos correr para que o momento não acabasse, pois não havia risco de eu fugir.
Minhas mãos haviam descido para o peito de e eu me apressara em puxar os lados de sua camisa, arrancando os botões. Eu percebi o quanto gostava de fazer aquilo, de rasgar as roupas dele. Era como uma criança rasgando os papéis de presente na manhã de natal, ansiosa para ver o conteúdo.

Minhas mãos finalmente tocaram seu peito nu e eu agradeci a qualquer deus que me ouvisse por aquele conteúdo simplesmente fantástico.

abriu meu sutiã e deslizou-o por meus braços sem parar de me beijar. Cada mão dele envolveu um de meus seios de modo delicado, porém claramente possessivo. Seus polegares começaram a acariciar meus mamilos em círculos e eu gemi contra seus lábios, dominada pela sensação. O poder que o toque dele tinha sobre mim chegava a níveis quase insuportáveis nas áreas mais sensíveis.
Ele sorriu contra minha boca, mordiscando meu lábio inferior de leve. O desgraçado gostava do efeito que tinha sobre mim, mas dois podiam jogar aquele jogo.
Subindo minha mão para sua nuca, eu puxei sua cabeça para trás e encostei meus lábios em seu ponto fraco entre o pescoço e os ombros, chupando a área sem hesitar.

O som sexy e profundo de um grunhido foi só o que eu ouvi antes de ser atirada de costas na cama.

Pain, without love
(Dor, sem amor)
Pain, I can't get enough
(Dor, nunca é o suficiente)
Pain, I like it rough
(Dor, eu gosto de violência)
'Cause I'd rather feel pain than nothing at all
(Porque eu prefiro sentir dor a não sentir nada)

terminou de tirar a própria camisa antes de se ajoelhar entre minhas pernas. Ele tirou cada um dos meus sapatos cuidadosamente, como se estivesse aproveitando cada momento do ato. Eu havia descoberto na noite na fábrica que ele gostava dos meus pés. Era apenas mais um dos milhões de fetiches que parecia ter por mim.
Ele estava mordiscando a sola do meu pé de modo brincalhão e, por mais que a sensação fosse boa, não era o suficiente. Eu o queria mais perto de mim, de modo que soltei meu pé e o desci por seu peito, deslizando-o para suas costas na altura da cintura e puxando-o com força para frente.
- Impaciente. – sussurrou ele, rindo, enquanto beijava minha barriga.
- Não estou no clima pra brincadeiras. – eu respondi, sussurrando também. Não sabia porque falávamos tão baixo, mas era o que parecia apropriado. Sussurros na escuridão, segredos... Aquilo tudo combinava. Era o nosso jeito, nossa relação incomum. A “coisa” que existia entre nós. Podia ser perigosa, triste, doentia... Até por vezes feia. Podia ser algo que acabaria com um de nós ou com ambos algum dia, mas já era tarde. Aquela relação já existia, e tentar lutar contra ela era inútil. Eu tentei com todas as minhas forças, mas não deu certo... Eu precisava daquilo. Por mais condenável que aquela relação fosse, eu precisava dela. Precisava porque, no fim, ela era tudo que eu tinha.

Anger and agony
(Raiva e agonia)
Are better than misery
(São melhores do que se sentir miserável)
Trust me I've got a plan
(Confie em mim, eu tenho um plano)
When the lights go off you will understand
(Quando as luzes se desligarem você entenderá)

- Que pena... – disse ele, em tom divertido, enquanto abria o primeiro botão da minha calça – Porque eu estou a fim de brincar.
Eu ia protestar. Juro que ia. Mas quando eu abri a boca para falar, os lábios dele já estavam em um dos meus seios, envolvendo meu mamilo. Sugando, mordendo só um pouquinho... Os olhos fixos em meu rosto, absorvendo minha expressão. Tentando obter minha aprovação, tentando ter certeza de que eu gostava...

Ele podia brincar. Oh, ele podia brincar o quanto quisesse.

Os lábios de continuaram a provocar meus seios enquanto suas mãos desciam minhas calças até pouco acima do meu joelho. Ele então afastou o corpo para terminar de tirá-la, e para meu extremo embaraço, eu choraminguei em protesto.
- O que foi? – o imbecil perguntou, mesmo sabendo muito bem o que era – Você quer alguma coisa?
- Você sempre... Tem que perguntar isso? – eu falei, com dificuldade. Detestava aquela mania dele.
- É a mim? – ele perguntou, ignorando minha pergunta enquanto alisava minhas pernas – É a mim que você quer?
- Você sabe que é. – eu admiti, em voz baixa. Eu já havia dito aquilo pra ele antes... Por que ele insistia em me fazer repetir?
- Bom saber. – disse ele, rindo baixinho contra minha coxa que ele agora beijava – Resta saber onde você me quer... – uma das mãos dele começou a subir pela minha perna enquanto com a outra ele parecia estar abrindo a própria calça.
- ... – eu gemi, de forma miserável. Será que ele ainda não havia entendido que aquele realmente não era o momento pra provocações? Pra construir tensão?
- Aqui? – ele perguntou, posicionando a mão contra o fundo da minha calcinha. Eu arqueei meus quadris um pouco, incapaz de me controlar – Você me quer aqui?
Eu assenti com a cabeça, sem confiar na minha própria voz.
Os dedos dele então engancharam cada um dos lados da minha calcinha e a desceram alguns poucos centímetros. A boca dele tocou então a área logo abaixo do meu umbigo, descendo em seguida para meu ventre agora exposto.
- É isso que você quer, caçadora? – ele perguntou, sorrindo enquanto torturava meu corpo com seus lábios, descendo-os cada vez mais por meu ventre.
Eu neguei com a cabeça, incapaz de explicar. Por que ele não entendia? O que eu precisava naquele momento não era de preliminares, não era de provocações. Eu precisava do corpo dele no meu, daquele tipo de conforto deturpado que eu só encontrava nos braços fortes do meu inimigo natural.
- Engraçado... – ele continuou, inconsciente do meu monólogo interno – Eu podia jurar que você queria sim. – agora olhava para mim, uma das mãos brincando com o elástico da minha calcinha enquanto ele esperava uma resposta. Filho da puta.
- Eu quero. – admiti, com voz fraca – Mas... Não agora. Eu preciso... – engoli em seco, sabendo que aquilo seria difícil. Dizer aquelas palavras sempre era – De você... Entende?

Pela expressão no rosto dele, finalmente havia entendido.

Pain, without love
(Dor, sem amor)
Pain, I can't get enough
(Dor, nunca é o suficiente)
Pain, I like it rough
(Dor, eu gosto de violência)
'Cause I'd rather feel pain than nothing at all
(Porque eu prefiro sentir dor a não sentir nada)

- Vira de lado. – foi só o que ele disse, encarando-me sério.
Eu fiquei tão surpresa que por um momento só o que fiz foi encará-lo.
- Agora, . – ele acrescentou, naquele tom autoritário que eu detestava... Por mais sexy que fosse.
Acho que meu corpo não sabia o quanto eu detestava receber ordens, pois quando percebi, já estava de lado, engolindo a raiva. Eu odiava o quão submissa eu me tornava nesse tipo de situação.

Naquele momento, eu jurei pra mim mesma que um dia ainda inverteria os papéis.

Eu não sabia o que estava esperando. Pelo tom de voz dele, talvez alguma atitude mais selvagem. Algo que restabelecesse o único controle que ele tinha sobre mim. Foi por isso que me surpreendi quando ele simplesmente se deitou de frente para mim e me puxou para seus braços. Quando dei por mim, minha cabeça estava deitada sobre seu antebraço enquanto o outro braço de abraçava meu corpo, sua mão repousando entre minhas omoplatas.
O desconforto foi imediato. Eu me sentia presa. Não estava acostumada a abraçar pessoas, e abraçar daquele jeito era desesperador. O ato era íntimo demais. Eu me sentia apavorada.
Meus braços estavam presos entre o meu corpo e o dele e eu tentei empurrá-lo. , porém, se recusou a ceder.
- Shh... – ele sussurrou em meu ouvido, mesmo eu não tendo feito nenhum som. A mão dele desceu por minhas costas enquanto a outra segurava minha nuca com firmeza e uma de suas pernas mantinha as minhas presas. A mão dele chegou até minha calcinha e ele rasgou a lateral com um simples puxão.
- , me larga... Eu to falando sério... – eu disse, tentando empurrá-lo de novo, mas sem muita força. Eu não queria irritá-lo, não queria brigar... Só não queria que ele me abraçasse. Ele podia fazer o que quisesse comigo, mas não aquilo. A posição na qual estávamos era romântica demais. Deitados de lado, um de frente para o outro, absolutamente nenhum espaço entre nossos corpos... Eu não queria aquele tipo de proximidade. Não queria porque ia além do físico.
- Pare de levar tudo tão a sério. – disse ele, esfregando a ponta do nariz um pouco atrás da minha orelha enquanto descia um pouco o lado restante da minha calcinha pela minha perna – Isso só significa algo se você decidir que significa.
Ele estava certo. Mas era desconfortável do mesmo jeito.
- Por favor... – eu pedi novamente, mas não o empurrei. Ele estava beijando meus pescoço. Era difícil empurrá-lo quando ele beijava meu pescoço.
- Por favor o quê? – ele perguntou, segurando minha perna que estava por cima e a colocando sobre o quadril dele, de forma que sua ereção estava agora entre minhas pernas. O desgraçado começou a subir e descer os quadris sugestivamente, provocando-me – Tem certeza que quer que eu te largue, caçadora?
- Por que você faz isso comigo? – eu perguntei, arfando. Os movimentos dele tocavam todos os lugares dolorosamente certos.
- Por que é divertido te ver se contorcer. – ele sussurrou em meu ouvido, rindo. Eu estava prestes a começar a protestar de verdade quando senti aquela pressão já tão familiar de começando a me penetrar – Ainda quer parar? – ele perguntou, olhando para mim, e eu tive vontade de morder aquele sorriso insuportavelmente convencido.
- Eu odeio você. – eu disse, com mais certeza do que nunca, enquanto subia um pouco meus braços por entre os nossos corpos e apertava cada um dos seus ombros com força. O idiota riu.
- Isso só deixa tudo mais quente. – disse ele, ainda deslizando centímetro por centímetro para dentro de mim em uma espécie câmera lenta que estava me deixando impaciente.
- Você gosta de me ver sofrendo, não gosta? – eu perguntei, tentando manter meus olhos abertos para olhar nos dele.
- Do que você está falando? – ele perguntou, fazendo-se de inocente – Eu só to... – deslizou um pouco mais, girando um pouco os quadris – Aproveitando... – ele fez de novo, agora com um pouco mais firmeza – O momento. – dizendo isso, ele impulsionou o quadril pra frente com força, indo o mais fundo que a posição permitia – Mas sim, eu também gosto de te ver sofrendo.
Eu devia ter dado um tapa nele. Céus, bem que ele merecia... Devia ao menos tê-lo xingado. Qualquer coisa que demonstrasse a raiva que eu sentia. Estranhamente, porém, só o que eu me vi capaz de fazer foi segurar a cabeça dele com as duas mãos e forçar os lábios dele contra os meus em um beijo desesperado.
Ele segurou minha coxa com força e começou a mover os quadris a sério assim que minha boca tocou a dele, e aquilo só tornou meus lábios mais desesperados. Os movimentos eram limitados naquela posição, o que tornava tudo uma forma sutil e deliciosa de tortura. O ângulo no qual estávamos não permitia que as investidas de profundas quanto em outras posições, mas havia compensações. Nunca antes eu havia sentido o corpo dele tão próximo do meu, e eu estaria mentindo se negasse o quão incrível era sentir aqueles músculos perfeitos trabalhando contra o meu corpo.
Não era o suficiente, no entanto. Faltava algo. Eu ansiava pela sensação de poder que eu experimentara algumas vezes com . Precisava daquilo... Algo dentro de mim implorava por reafirmação, do tipo que era conseguida ao reduzir um vampiro insuportavelmente experiente a um mero idiota balbuciante, enlouquecido por mim.
Meus movimentos podiam estar limitados, mas havia algo que eu sempre era capaz de fazer. Algo que já havia obtido resultados bem visíveis antes.
Eu esperei até que estivesse totalmente dentro de mim novamente antes de apertar minha perna contra seu quadril, prendendo-o contra mim e contraindo meus músculos internos em volta dele propositalmente.
- ! – ele gritou meu nome, visivelmente pego de surpresa e eu quase me senti envergonhada pela onda de satisfação que me dominou. Quase.
Alguns poucos segundos se passaram antes de falar novamente.
- Faz... – ele murmurou, com os olhos fechados, parando por um momento para engolir em seco – Faz de novo.
O leve tom de imploração na voz dele, assim como a expressão vulnerável em seu rosto, foi o que finalmente me deu poder. Mas dessa vez aquilo era mais forte.

Eu não sabia na época, mas foi naquele momento que minha autoconfiança começou a se reconstruir.

Pain, without love
(Dor, sem amor)
Pain, I can't get enough
(Dor, nunca é o suficiente)
Pain, I like it rough
(Dor, eu gosto de violência)
'Cause I'd rather feel pain than nothing
(Porque eu prefiro sentir dor a nada)
Rather feel pain
(Prefiro sentir dor)


Eu apertei meus músculos novamente, de forma quase exploratória. Antes de eu nem ao menos sabia que possuía aquele tipo de controle sobre o meu corpo. Eu adorava aquilo assim como adorava a forma que respondia.
- Onde diabos você aprendeu a fazer isso? – ele perguntou, de forma obviamente retórica. Ele havia recomeçado a se mexer, bem devagarzinho, e a cada investida dele eu o apertava de leve – Você quer me matar, não quer? Garotinha safada... Tentando me fazer perder a cabeça. – apenas para confirmar as palavras dele, eu pressionei com mais força, sendo recompensada por um grunhido sôfrego dele – Droga, ... Você sabe que é a criatura mais perfeita desse planeta inteiro, não sabe?
A pontada de prazer intenso me atingiu do nada, forçando um gemido alto e inesperado a sair da minha garganta.
Não foi por algo que ele fez. Foi pelo que ele disse, de modo que eu precisei abaixar o olhar, envergonhada. Céus, será que eu poderia ser mais patética? Mais vulnerável, mais faminta por elogios? Aquilo era ridículo e parte de mim se preparou para o que viria a seguir. Alguma piadinha de . O risinho irritante. Aquela seria a reação óbvia de . A reação que já me humilhara tanto no passado. Ele não seria capaz de deixar isso passar.

Aparentemente, porém, eu não conhecia o vampiro tão bem como julgava conhecer.

’s POV

Eu devia ter percebido aquilo. Eu, que sempre me orgulhava em saber exatamente o que precisava, devia ter estado atento para aquilo. Os sinais estavam todos lá... O jeito dela, a forma como ela havia chegado aqui, a expressão desamparada nos olhos da caçadora... Ela precisava de mim. E, por mais que eu tivesse percebido aquilo, havia ignorado o mais importante. viera até mim por conforto, sim. Acima de tudo, porém, viera até mim por amparo. Por reafirmação.
Eu devia me sentir mal por ser apenas a muleta na qual se sustentava, mas não me sentia. Aquele não era o momento para pensar em mim. Ele precisava da minha ajuda, coisa que eu inadvertidamente havia negado ao gastar tempo demais a provocando, brincando... Era hora de consertar aquele erro, assim como era hora de começar a reparar alguns danos que eu havia causado na autoconfiança de no passado.
Com uma das mão, eu agarrei o cabelo de com força, forçando-a a olhar para mim, enquanto com a outra mão eu voltava a agarrar a coxa dela sobre meu quadril, mudando um pouco o ângulo.

I know (I know I know I know I know)
(Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei, eu sei)
That you're wounded
(Que você está ferida)
You know (You know you know you know you know)
(Você sabe, você sabe, você sabe, você sabe, você sabe)
That I'm here to save you
(Que eu estou aqui pra te salvar)
You know (You know you know you know you know)
(Você sabe, você sabe, você sabe, você sabe, você sabe)
I'm always here for you
(Que eu estou sempre aqui por você)
I know (I know I know I know I know)
(Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei, eu sei)
That you'll thank me later
(Que você vai me agradecer depois)


- Você é linda. – eu disse, olhando nos olhos dela e os observando nublarem um pouco – Tão linda que me enlouquece. Seu rosto, seu corpo... Eu não me controlo. – eu disse, fechando os olhos e deixando minha testa encostar na dela enquanto eu realmente abandonava o controle. Deixei-me me perder entre suas pernas, movendo meu corpo contra o dela da forma mais intensa que eu podia, sentindo-os mais próximos do que nunca e fazendo com que ela arfasse cada vez que eu a invadia – Eu to viciado. Na sua pele, no seu gosto, no seu cheiro... – eu deslizei meu rosto até chegar em seu pescoço, que eu comecei a beijar – Eu durmo te querendo e acordo te querendo. Meu corpo implora pelo seu a cada segundo de cada dia, pequena. Isso tá me matando e eu não me importo. Eu só consigo pensar em estar dentro de você de novo. Só de você... Sempre de você.

Pain, without love
(Dor, sem amor)
Pain, I can't get enough
(Dor, nunca é o suficiente)
Pain, I like it rough
(Dor, eu gosto de violência)
'Cause I'd rather feel pain than nothing at all
(Porque eu prefiro sentir dor a não sentir nada) x3


As mãos dela apertavam meus ombros com tanta força que doía, mas a infinidade de gemidos e suspiros que escapavam daqueles lábios que eu tanto amava a cada coisa que eu murmurava contra sua pele anestesiavam qualquer dor. Eu era um babaca por não ter percebido antes o quanto ela precisava ouvir aquilo. Ouvir a verdade.
- Você é incrível. O que você faz comigo, minha linda... Me queima tão gostoso. – eu continuei, enquanto descia minha mão que antes estava em sua nuca por entre nossos corpos – O jeito que você se move, as coisas que você faz, o modo como você responde... Você é a criatura mais sensual que eu já conheci e nem sabe disso. – meu dedo encontrou seu clitóris em um toque leve que a fez tremer inteira – A melhor... A melhor que eu já tive.
- Não... Mente... – sussurrou ela, e era fácil sentir o quão próxima ela estava de um orgasmo.
- Não to mentindo. – eu disse, derramando minha confissão contra o seu ouvido enquanto continuava a mexer meu quadril e minha mão em sintonia – Nunca foi assim... Nunca tão perfeito. Eu imaginava que seria incrível com você, mas se eu soubesse... Oh, pequena, se eu soubesse o quanto isso seria gostoso eu teria arrancado suas roupas e te possuído contra uma lápide qualquer na primeira noite que te vi.
- Para. – ela pediu, desesperada, já perigosamente perto.
Eu não dei ouvidos, é claro. Apenas continuei a sussurrar elogios e promessas em seu ouvido. Quando ficou claro que ela não duraria mais muito tempo, eu me forcei a deslizar para fora de seu corpo, pressionando seu clitóris com um pouco mais de força antes que ela pudesse protestar.
Eu absorvi a expressão em seu rosto enquanto o orgasmo a dominava, o leve franzido em sua testa deixando claro que ela não estava totalmente satisfeita. Eu sabia o porquê, é claro, e aquilo me fazia desejá-la ainda mais. preferia gozar comigo dentro dela. Aquele pensamento quase era o suficiente para me fazer perder o controle.

Rather feel pain than nothing at all
(Prefiro sentir dor a não sentir nada)
Rather feel pain
(Prefiro sentir dor)

Eu guiei o corpo dela até ficar de bruços sobre a cama, eu deitado ao seu lado. Merda, eu tava desesperado para estar dentro dela de novo. Minha ereção já estava dolorida de privação e olhar pra ela daquele jeito não ajudava.
- Por que você fez isso? – ela perguntou, com voz cansada.
- Por que eu saí? Simples... – eu disse, me ajoelhando na cama – A restrição de movimento tava me cansando. – expliquei, acariciando a perna dela devagar – E me deu vontade de ter você por trás. – debruçando-me sobre o corpo dela, eu sussurrei em seu ouvido – Levanta um pouco o corpo. Se apóie nos joelhos e nas mãos.
Ela riu, mas não um riso de escárnio.
- Só nos seus sonhos pervertidos eu vou ficar de quatro por você. – o duplo sentido na frase era óbvio, mas não havia crueldade no tom dela.
Pelo visto queria brincar agora. Só que dessa vez era eu quem não agüentava esperar.
- Tudo bem, então. – eu disse, porém erguendo o corpo dela um pouco e empurrando uma almofada grande para debaixo de sua barriga, fazendo com que o quadril dela se elevasse o suficiente, enquanto a parte de cima de seu corpo continuava pressionada contra o colchão – Não precisa fazer nada. Quando existe uma vontade, existe um jeito.
Sem perder tempo, eu me movi para entre suas pernas, apoiando uma de minhas mãos no colchão enquanto segurava o quadril dela com a outra.
- Você não tá achando que... ! – ela gritou, assim que eu forcei o quadril dela contra o meu, penetrando-a sem aviso. Eu ainda não havia descoberto forma melhor de calar a boca dela – Idiota... – ela murmurou entre gemidos enquanto eu já recomeçava a mover meus quadris, agora com muito mais facilidade e possibilidades.
- Desculpa. – eu disse, desculpando-me pelo jeito bruto mesmo sabendo que o protesto dela não era real – Não vai dar pra ser muito cuidadoso, ok? – eu disse, com a voz precariamente controlada. Era boa demais a sensação de estar dentro dela e eu já havia negado minhas necessidades por tempo demais. Minha vontade era jogar o controle pela janela e tomá-la com toda força que eu tinha, mas eu devia à ao menos um aviso antes – Você já teve o seu e eu to ficando meio desesperado aqui.
Dada a forma como ela apenas respondia mais ardentemente a cada aumento gradual das minhas investidas, eu não esperava algum protesto. No entanto, estava certo de que ao menos alguma provocação eu ouviria.
- Ok. – foi só o que ela disse, bem baixinho, e o efeito daquilo sobre mim foi assustadoramente poderoso. Aquelas duas letrinhas eram uma das coisas mais sexys que já me haviam sido ditas, pela pura simplicidade que possuíam.
não estava brincando agora. Não estava tentando me seduzir, não estava jogando. Ela estava simplesmente me dando permissão para fazer o que eu bem entendesse com ela.

E se era aquilo que ela queria, eu estava mais do que feliz em satisfazê-la.

’s POV

Eu não devia gostar daquilo.

Garotas boazinhas não deviam gostar de ter um vampiro entre suas pernas, principalmente um que parecia querer puni-la com a intensidade de cada investida. Garotas boazinhas não gostavam de tratamento violento.

Acho que eu não era uma garota boazinha, pois estava amando cada segundo daquilo.

Havia algo nesse comportamento de que dialogava com uma força reprimida dentro de mim. Eu adorava aquilo mesmo sem ser certo.
Noventa por cento do tempo eu detestava o fato de ser um vampiro. Detestava o que ele representava, o que minha atração por ele significava. Mas o que eu detestava de verdade era admitir que na cama eu ansiava pelo vampiro mais do que pelo homem.
Eu gostava quando ele perdia o controle. Gostava quando ele libertava o vampiro, o animal. Gostava da maneira como ele me tocava.

Gostava do desejo insano. Da necessidade crua.

Os sons que ele fazia, os toques dele... Era selvagem, como uma força da natureza. não tinha vergonha. Não reprimia seus instintos como eu fazia. Ele segurava meu quadril com força, mantendo-me firme enquanto ele empurrava a cama contra a parede a cada movimento de seu quadril. Era impossível me mexer, ir de encontro a cada investida. Só o que eu podia fazer era permanecer ali, deitada, deixando que ele me tivesse.
A sensação de me entregar era poderosa, por mais estranho que isso soe. Aos poucos eu estava descobrindo que gostava daquilo, da ideia de não precisar estar no controle ao menos uma vez na vida. Desde pequena eu tinha mais responsabilidades do que podia carregar, isso somado ao fato de que eu controlava cada aspectozinho da minha vida. Não controlar aquele havia me assustado no começo, mas no segundo em que eu havia aceitado minha incapacidade de lutar contra aquela força que era maior que eu, só o que eu havia sentido era alívio. Não precisar estar no controle era um alívio.
Aquilo não significava que eu aceitaria aquilo pelo resto da vida, no entanto. Minha curiosidade havia sido aflorada e aquela vontade dentro de mim de saber como seria dominar um cara como ainda permanecia forte. Mas por hora era bom não ter responsabilidade.

No futuro, porém, eu não garantia nada.

Eu podia sentir um novo orgasmo se aproximando e sabia que esse seria mais forte. Aquela expectativa, a leve ansiedade pelo que estava por vir era sempre uma tortura. Minha respiração acelerou e eu senti meu corpo inteiro tensionar um pouco em preparação.
Provavelmente captando os sinais, agarrou meus quadris com força e os puxou um pouco para cima, deixando-me apoiada nos joelhos. Eu instintivamente apoiei meus braços esticados no colchão, ficando de quatro.

O que ele queria desde o início.

Eu não tinha nenhuma objeção real àquilo, mas não sabia dar o braço a torcer. Eu provavelmente teria lutado contra ele um pouco se não estivesse em mim novamente, restabelecendo o ritmo anterior.
- Não fica chateada. – disse ele contra meu ouvido, que ele agora conseguia alcançar. Baixando a voz para aquele tom hipnotizante que nunca falhava, ele acrescentou – Dessa vez eu vou te morder enquanto você goza. Vai enlouquecer nós dois.

Eu não podia protestar contra aquilo.

- Mas pra isso eu preciso que você deixe vir. – continuou ele, sua voz parecendo mais urgente a cada segundo que passava. Uma das mãos dele havia envolvido meu seio e seus lábios agora cobriam meus ombros de beijos – Eu to passando do meu limite aqui, minha linda... Minha pequena... Eu prometo que vai ser bom, prometo. Por favor, ... Você pode fazer isso por mim?
Ele já havia me pedido aquilo antes e nunca era possível resistir. Ele sabia o quanto aquilo me excitava. Dessa vez, porém, havia usado uma abordagem diferente. Não era um comando ou um pedido mais gráfico. O jeito dele havia sido carinhoso e, para meu extremo choque, eu não detestei aquilo. Muito pelo contrário.
O que aconteceu em seguida não dá pra ser fielmente traduzido em palavras. Primeiro um orgasmo forte me atingiu como um raio e, no segundo seguinte, as presas de estavam em meu ombro.

E então eu achei que ia morrer.

Era diferente. Eu já havia tido orgasmos com as presas dele em mim antes, mas das outras vezes elas haviam sido a causa. Era estranho tentar entender aquilo, mas era como se duas fontes de prazer me atingissem de uma vez só. Uma vinha do ato físico e a outra da relação sobrenatural que mordidas tinham com sexo. A combinação parecia mais do que eu podia agüentar e eu precisei lutar mais do que nunca contra a vontade de desmaiar. Meus braços cederam, sem forças para suportar meu peso e só o que me manteve em equilíbrio foram os braços de e sua boca cravada em meu ombro, que estabilizava meu corpo, mantendo-o preso na posição enquanto ele continuava a investir os quadris contra os meus com a mesma fúria de antes.
Eu estava certa quando o comparei com um animal. O mero ato possessivo de cravar os dentes em mim como suporte enquanto me tinha por trás era um exemplo cru disso. O vampiro em era uma força primitiva, selvagem. Aquilo vinha de puro instinto.
Eu não saberia dizer o quanto aquilo durou. Minha mente havia fechado, incapaz de processar o que meu corpo sentia. Eu percebi vagamente o momento no qual urrou contra o meu pescoço, rendendo-se às sensações também. Ele havia soltado o meu corpo um pouco depois, fazendo-me cair sobre o colchão com ele por cima de mim, mas depois disso não vi mais nada. Quando eu dei por mim novamente, estava falando comigo.
- ... Incrível, e você não pode imaginar... Não tem como imaginar como ficou o gosto do seu sangue. – ele estava distribuindo beijos por minhas costas com quase reverência – Se já era bom antes, caçadora... Eu sou seu escravo. Pro resto da vida eu sou seu, pequena.

Eu gostava do som daquilo.

Eu fui voltando totalmente a mim aos poucos. rolou para o meu lado segundos depois de eu começar a perceber o quão pesado era o corpo dele completamente largado sobre o meu.
Quando eu recuperei o controle dos meus movimentos, virei de lado e de frente para ele. Eu estava totalmente consciente agora. Não havia mais desculpas. Por mais que eu detestasse aquilo, palavras eram novamente necessárias. Haviam coisas em suspenso que precisavam ser resolvidas.
- A gente precisa conversar. – eu disse, baixinho, estranhando a leve rouquidão em minha voz.
grunhiu e escondeu o rosto no travesseiro de forma que teria sido engraçada se a situação não fosse tão séria. Engraçado como os papéis se invertiam. Agora era eu quem queria conversar e ele quem não suportava a ideia.
Ele virou o rosto na minha direção novamente e suspirou.
- É, precisamos. – ele admitiu, deixando claro em seu tom de voz que ele sabia o que vinha por aí – Diga suas condições.
- Não são nada que você já não tenha sugerido. – eu disse, tentando não ficar na defensiva – Mas antes de falar, preciso que você entenda uma coisa.
- Espera, você tem uma condição para as condições? – ele perguntou, sorrindo um pouco.
- Hum... É. – foi a minha vez de admitir, um pouco envergonhada. Ele riu – Na verdade não é nem uma condição, só preciso que você saiba de uma coisa. – eu respirei fundo. Aquilo seria difícil. Ao contrário de , eu não era boa com as palavras e era pior ainda quando precisava usá-las para verbalizar assuntos sérios – Eu preciso que você entenda que eu não quero te machucar. Não é o meu objetivo. As condições que eu vou dar são apenas algo que preciso... Não vou falar nada proposital pra te ferir. Eu vou ser cem por cento honesta com você, porque é o mínimo que eu posso te oferecer. Só vou falar a verdade, . Não vou te esconder nada, mas também não vou amenizar nada.
- Eu agüento. – disse ele, em tom de brincadeira, mas eu praticamente podia sentir o escudo que ele erguera dentro de si para se proteger. Estava no olhar dele, na leve tensão nos músculos, na expressão... Era bem óbvio, na verdade.
- Ok. Como eu disse, não quero nada que você mesmo não tenha sugerido. – eu parei por um momento, escolhendo as palavras – Minha primeira condição é... É que você entenda que não somos namorados. – eu disse, séria – Não temos um compromisso. O que temos é isso aqui, e só isso. Um acordo. Nós queremos um ao outro, então dormimos juntos. Apenas isso. Nada de mãos dadas por aí ou conversas bonitinhas. Você não vai ficar me dizendo o que sente por mim ou nada parecido. Nada mudou entre a gente. Nós vamos sair pra patrulhar juntos, nos veremos na Organização o tempo todo, mas da mesma forma que antes. Nossa relação não mudou, , apenas adquiriu mais um elemento.
- Entendido. – foi só o que ele respondeu, sem mudar a expressão – Eu já disse, caçadora. Consigo separar as coisas.

Eu preferi ignorar o fato de que ele não me olhava nos olhos ao dizer isso.

- Ok... Isso nos leva à segunda condição. Você disse que eu podia controlar o que há entre a gente, e eu quero isso. – eu disse, tentando fazer aquilo não soar tão horrível. Não tive sucesso. Eu era capaz de perceber o quanto dizer aquilo era péssimo, mas não havia outro jeito. Era divertido abandonar o controle de vez em quando, mas não daquela forma. Não quando o assunto era sério. Controlar tudo o tempo todo era desesperador e cansativo, mas eu precisava daquilo para me manter sã – Eu não quero você me seguindo pelos cantos, tentando começar alguma coisa... Eu vou te procurar, ok? Prometo. Eu vou até você, não precisa vir atrás de mim. É sério, . Do jeito que as coisas estão, as pessoas vão acabar descobrindo. Eu sou mais discreta nisso. Tenta ficar na sua até eu te procurar, ok? – em um surto de inspiração, eu soube exatamente o que falar para convencê-lo – Pode fazer isso por mim? – eu perguntei, repetindo as palavras dele.
Ele abriu a boca para falar, mas a fechou em seguida, como se pensando melhor. Se eu bem conhecia , ele havia reprimido alguma resposta profunda e sentimental que eu definitivamente não queria ouvir.
- Posso. – respondeu ele, finalmente, para meu alívio mantendo as coisas simples.
- Certo. A última condição é a mais óbvia. Mantemos segredo. Ninguém além de nós dois pode saber o que está acontecendo.
- Tudo bem. É melhor, na verdade. Não quero seus amigos vindo atrás de mim com estacas por estar corrompendo a florzinha delicada deles. – disse , em um tom carregado de sarcasmo. Eu tentei não achar graça, mas um risinho escapou de qualquer maneira – Mais alguma coisa?
- Não. – eu respondi – É só isso. Por que, quer acrescentar algo?
- Você sabe que eu não tenho condições, . – ele disse, em tom significativo. Ele devia ter percebido que o sentimentalismo ameaçava surgir, pois consertou rápido – Afinal, você é quem manda, né? Só perguntei pra saber se você já podia parar de falar.
- E por que você quer que eu pare de falar? – eu perguntei, irritada. Não dava para acreditar naquilo. Eu havia acabado de consolidar nosso acordo e ele já estava tentando me irritar? Aquilo era coisa que se dissesse?
- Por que só assim eu vou poder fazer isso. – disse ele, rolando para cima de mim e me beijando antes que eu pudesse protestar.

Ah. Ok, então. Acho que não faria mal parar de falar um pouquinho.

Ou pela próxima hora.

Capítulo 28 – That Cold, Eventful Night, Parte 2

’s POV

Vampiros não deviam se incomodar com o frio.

Não devíamos nos incomodar com nenhuma temperatura, na verdade, mas principalmente não com o frio. Todo calor que possuíamos era roubado, tanto do sangue de nossas vítimas quanto da proximidade com coisas quentes. Nosso estado natural era o frio, por isso eu já devia estar acostumado. Naquela noite, no entanto, o frio era insuportável.

Simplesmente porque ele evidenciava a ausência do calor dela.

havia saído a o quê, quinze minutos? Um pouco menos, talvez? Eu não fazia ideia. Pareciam horas para mim.
Ela saíra sem beijos de boa noite. Sem nem um sorriso. Depois da segunda vez – bom, minha segunda vez, terceira dela –, havia permanecido deitada ao meu lado por alguns silenciosos, quase sagrados minutos até de repente se levantar e começar a procurar suas roupas. Eu continuei deitado, apenas a observando enquanto ela se vestia, um toque de nervosismo óbvio em cada um de seus movimentos. Assim como eu, ela não sabia o que fazer a partir dali. Nós não conhecíamos as regras de um relacionamento como aquele simplesmente porque relacionamentos como aquele não existiam. Um acordo como o que tínhamos em meio a uma história como a nossa era algo incomum. Não havia um guia geral sobre como prosseguir.
Ao terminar de se vestir, havia parado próxima a escada e olhado em minha direção, parecendo confusa e desconfortável, como se não soubesse o que dizer. Como se tivesse medo de dizer a coisa errada.
- Eu... Vejo você amanhã. – foi o que ela disse, finalmente. Eu só pude assentir com a cabeça e vê-la subindo as escadas.

E então eu estava sozinho, e de repente tudo era insuportavelmente frio.

Eu achei que estava preparado para aquilo. Era parte do plano, não era? Convencer a aceitar a proposta. Esconder meus sentimentos para que ela não percebesse que tê-la apenas daquela maneira me machucava. Eu sabia que doeria vê-la partir, mas havia decidido que valia a pena. Se o seu corpo era só o que estava disposta a dividir, eu aceitaria. Aceitaria qualquer coisa que ela estivesse disposta a me oferecer. Eu era um infeliz apaixonado e Tara estava certa. Eu não tinha amor próprio nenhum.
Só o que eu tinha era uma ponta de esperança, e eu me agarraria a ela até o fim. Porque por mais que eu tivesse disposto a aceitar qualquer coisa de , eu não podia evitar sonhar que um dia ela me daria mais. Eu podia me ver forçado a me contentar com pouco, mas isso não significava que eu não era ambicioso. Eu queria em minha cama, sim, mas também queria mais. Queria abraços. Um olhar de carinho, uma risada realmente feliz... Ao menos um sorriso de afeto. Queria que ela me amasse, ou pelo menos que gostasse de mim de verdade. Eu queria alguma coisa... Algo que aquecesse meu coração da mesma forma que ela aquecia o meu corpo.

Mas aquilo ia contra uma das malditas condições.

O próprio fato de ela ter condições já mostrava o quão errado era aquilo tudo. Eu não devia estar com uma garota que tinha condições para me ver. Devia fazer o que Tara havia me dito e juntado um pouco de respeito por mim mesmo. A coisa certa a fazer seria dizer não a . Fazê-la parar de pisar em mim. Eu não devia aceitar condições, não devia dar tanta moral a ela, mas era o único jeito. Porque em seu discurso Tara não havia levado em conta um pequeno detalhe.

era mais orgulhosa do que eu. Se eu a afastasse de alguma maneira, ela continuaria afastada.

Ao contrário do que eu fazia, ela não viria atrás de mim. Se eu desse um fora em ou a desagradasse seriamente, daria a ela o motivo que ela estava procurando para ficar longe de vez. Daria força para a luta dela contra o que sentia e acabaria a perdendo de vez. E aquilo eu não estava pronto para enfrentar.
Eu não tinha escolha a não ser acatar as condições. Duas delas nem eram um problema, na verdade. Manter tudo em segredo realmente seria melhor por enquanto, pois as coisas já estavam frágeis o suficiente sem os amiguinhos de enchendo a cabeça dela contra mim. E sobre deixar ela no comando, aquilo seria fácil de driblar. Eu faria o jogo dela de início, mas viraria a mesa sem que ela percebesse. Eu tinha a vantagem de saber seduzi-la com facilidade, então apenas precisaria aproveitar as oportunidades.
O problema era a primeira condição. Eu não sabia como havia mantido minhas emoções sob controle enquanto ela dizia aquilo. Já não era nem tanto dor quanto era ódio, mas estranhamente era aquele mesmo ódio que estava me fazendo me conformar àquela condição.
Estava tudo bem. Se não queria meus sentimentos, eu não os daria a ela. Os deixaria escondidos. A caçadora queria o monstro frio? O antigo ? Perfeito. Era isso que ela teria. A partir daquela noite eu não demonstraria mais o que sentia. Não deixaria que ela percebesse o quanto aquilo tudo me rasgava por dentro. Até que eu pensasse em outro plano de ação, seria tão indiferente quanto ela.

O sofrimento ficaria para os momentos de solidão. Com ela, só haveriam sorrisinhos sarcásticos e comentários cortantes.

Eu podia lidar com a dor. Enquanto tivesse ao menos aquilo com , teria forçar para encarar o sofrimento. Era o suficiente por enquanto, valia a pena. Só ter o cheiro dela nos meus lençóis e a lembrança do toque dela no meu corpo já fazia valer a pena qualquer dor emocional. Eu era um viciado se rendendo ao vício. À droga que eu sabia que me faria mal, mas a qual eu não podia resistir. Ter uma pequena dose nunca satisfaria de vez o vício, mas o alívio temporário que ela proporcionava era bem vindo. Mesmo que quando o efeito passasse, a ânsia por mais apenas triplicasse.

Por enquanto era o suficiente. E se no futuro aquilo me destruísse de vez, teria valido a pena.

Eu devia estar feliz. Havia sido eu quem dera aquela ideia para ela. Ao menos agora, não fugiria mais. Era um começo.
Acho que ao todo, passei mais uma hora acordado naquela cama, deitado sobre os lençóis que ela usara, tentando tocar os vestígios da presença dela ali.

Acho que eu teria ficado lá a noite inteira se não fosse pela súbita presença vampiresca vinda do andar de cima.

Eu realmente não estava com paciência para visitantes. Vestindo meus jeans com irritação e pegando uma estaca, eu subi as escadas e atravessei a cripta até a porta, pronto para matar o infeliz lá fora. Não era uma presença que eu conhecesse, o que significava que devia ser algum capanga do Mestre sem amor à vida.
Eu estava pronto para um ataque, por isso me surpreendi ao abrir a porta. Meu visitante me esperava sentado no alto de uma estátua de anjo próxima à cripta, olhando o céu com a tranqüilidade de quem espera um conhecido, não um inimigo. Eu não estava gostando nem um pouco daquilo.
Lentamente, ele virou o rosto para mim, abrindo um sorriso ao me ver.
- Olá, . – disse ele, e então eu sabia quem era. A voz era conhecida, a descrição batia... E as três outras figuras se aproximando apenas confirmavam minhas suspeitas.
- Godfrey. – eu disse, assentindo. Era ele, sem sombra de dúvidas. Uma das vozes que eu havia escutado do lado de fora da casa abandonada.
- Você me conhece? – perguntou ele, erguendo uma sobrancelha enquanto pulava da estátua, aterrissando a poucos metros de mim.
- Apenas de nome. Você e o resto do Quarteto Fantástico. – eu respondi, apontando para os outros três que agora se encontravam parados próximos a uma lápide.
- Quarteto Fantástico? – perguntou o loiro, parecendo divertido.
- É como a chama vocês. – eu expliquei, tentando estender o clima ameno pelo máximo de tempo possível.
- Ha! – exclamou um dos outros três de repente, um negro alto que usava uma jaqueta de couro – Antes que isso vire um problema, é melhor decidir logo... Drigger é a Mulher Invisível.
- Ei, por que eu tenho que ser a Mulher Invisível? – reclamou o garoto.
- Shh, crianças, os adultos estão conversando! – disse o terceiro integrante, com um sorrisinho sarcástico.
- Calem a boca os três. – disse Godfrey, porém ainda sorria – Bom, pelo visto algumas apresentações formais viriam a calhar. , esses são Mason, – ele apontou para o que havia acabado de falar – Hector, – o outro deu um aceno – e acho que você já conhece Drigger.
- Claro. – eu disse, lançando meu sorriso mais insuportável para o garoto – Como vai a testa?
Da última vez que eu vira Drigger, havia feito com que ele batesse a cabeça com força em uma lápide.
- Melhor do que a sua vai estar em alguns segundos. – ameaçou o garoto, fazendo menção de vir em minha direção. Hector o impediu ao segurá-lo pelos ombros.
- Ora, ora, não vamos nos estressar. Somos todos amigos aqui. – disse Godfrey, parecendo achar aquilo tudo muito engraçado.
- Desde quando? – eu perguntei, irritado. Eu detestava me sentir daquela forma. Ameaçado. Eu estava em clara desvantagem ali, o que era estranho. Nenhum dos quatro havia passado dos cem anos e eu normalmente seria capaz de matar quatro vampiros mais novos com facilidade. Mas não aqueles... Todos emanavam certo poder. Havia algo incomum naqueles vampiros, mas eu não era capaz de imaginar o quê.
- Bom, isso depende de você, na verdade. Mas por hora não viemos aqui te fazer mal.
- Acredite, - disse Hector, sorrindo – se te quiséssemos morto, já teríamos vindo aqui há muito tempo.
Só naquele momento eu percebi o óbvio. Aqueles vampiros sabiam onde eu morava. E pelo visto já sabiam há um tempo. E eu estava lá, noite após noite, sem nem imaginar a facilidade com a qual poderia ter sido morto. Com a qual poderia ter sido morta.

Aquele era um pensamento horrível demais para desenvolver no momento.

- O que estão fazendo aqui então? – eu perguntei, irritado, transformando minha preocupação em raiva – Vieram aqui apenas para encher meu saco?
- Não entendo o motivo da irritação. – dessa vez foi Mason quem falou – Quero dizer, você provavelmente estava aí dentro sem fazer nada. Sua companhia já partiu há um tempo.

Eles sabiam.

Minha raiva atingiu novos níveis. havia estado lá comigo aquela noite e eles sabiam. Sem querer eu havia a colocado em perigo.
- Vocês estavam a seguindo? – eu perguntei, furioso.
- Por incrível que pareça... Não. – disse Godfrey.
- Você tem o cheiro dela impregnado no seu corpo inteiro. – explicou Mason – E eu não vejo a caçadora por aqui, então... Apenas joguei verde. Obrigado por confirmar.
Eu apertei a estaca que segurava com força, ato que não passou despercebido.
- Hey, relaxa. – disse Hector, antes que eu dissesse algo – Seu segredo está seguro conosco. E nós não te julgamos... – acrescentou ele, com um risinho – Ela pode até ser uma aberração, mas é bem gostosa.

Aquilo já era demais.

- Olha o respeito, seu... – eu exclamei, em tom raivoso, indo em direção a Hector até Godfrey se meter no meu caminho.
- Calma. – disse ele, colocando a mão em meu peito de forma a evitar que eu prosseguisse – Hector só está tentando te irritar. Ele faz isso com as pessoas. – justificou o loiro, lançando um olhar feio na direção do companheiro – Não estamos aqui para brigar. Só viemos te entregar isso. – tirando um envelope da jaqueta jeans, Godfrey o estendeu na minha direção.
Eu comecei a rir.
- Uma carta? – oh, aquilo era hilário – Eu também recebo cartas agora? Estou emocionado! Estava começando a achar que o Mestre não gostava de mim!
O sorriso que alargou os lábios de Godfrey com aquilo foi estranho. Muito estranho.
- Só leia a carta, ok? E deixe sua resposta nos pés desse anjo. – disse ele, apontando a estátua – Mandaremos um grupo buscá-la pouco antes do amanhecer. E nem pense em montar algum tipo de armadilha para eles... O conteúdo da carta te dirá o porquê. Você tem três horas para pensar na sua resposta, então pense. – o sorriso estranho se alargou – Pese bem as conseqüências. Tenho certeza que tomará a decisão certa. – afirmou Godfrey, em seguida gesticulando para que os outros se aproximassem enquanto permanecia parado – Foi um prazer conhecê-lo, . – ele disse, de forma assustadoramente simpática – Nos vemos em breve.
Ele deu as costas, e com os outros começou a se afastar. Incapaz de me controlar, eu o chamei.
- Hey. – foi o que eu exclamei, fazendo com que todos se virassem – Vocês vão contar? – perguntei, me sentindo patético – Sobre eu e ?
- Por que você se importa? – perguntou Godfrey, confuso.
- Ela não quer que ninguém saiba. – eu admiti, e falar aquilo em voz alta finalmente parecia tornar a dor apenas mais real. Eu só podia imaginar o quão digno de pena aqueles quatro estavam me considerando, mas não havia outro jeito. Segredo era uma das condições de e eu precisava ao menos tentar – E detestaria saber que o Mestre sabe.
- Sabe... – disse Godfrey, sorrindo novamente após um momento – Eu gostei de você, . E como prova de camaradagem, vou te fazer um favor. Seu envolvimento com a caçadora não é imediatamente relevante, então não vejo motivos para falar algo. Claro, se a informação se tornar importante ou se formos questionados sobre isso, temo que não haja nada que eu possa fazer. Mas por enquanto, como Hector disse, seu segredo está seguro conosco. Leve isso em consideração quando estiver respondendo a carta. Lembre-se que estaremos guardando seu segredo.
- Claro que estaremos. – murmurou Drigger – Ninguém quer ser mensageiro de uma notícia como essa...

O olhar que Godfrey lançou a Drigger poderia congelar um vulcão.

- Acho que está na hora de irmos. Disse o loiro, em tom cortante, enquanto Hector puxava o vampiro pirralho pelo braço, arrastando para fora do cemitério um Drigger que protestava e me impedindo de questioná-lo. Mason, parecendo a personificação da irritação, os seguiu.
Godfrey abandonou a expressão irritada, provavelmente em meu benefício, e me encarou pensativo.
- Eu realmente espero que você tome a decisão certa. – disse ele, em tom estranho – Mas se não tomar... Bom, veremos. – ele concluiu e, sem dizer mais nada, se retirou.

Sabendo que eu estava prestes a ler algo que mudaria tudo de forma drástica, eu levei a carta para dentro.

Xx

,

Eu poderia começar essa carta dizendo-lhe que o que estou prestes a fazer é um pedido, mas eu não questiono sua inteligência a esse ponto. Isso é uma intimação, ou talvez uma chantagem. Deixarei que você decida.
Tendo mencionado isso, podemos passar para sua segunda decisão da noite. Você está prestes a ser colocado em uma posição difícil, e sua escolha determinará o curso dos próximos acontecimentos. Pense bem antes de fazer alguma tolice. As conseqüências caso você diga não são algo que de certo não está pronto para encarar.
Você fará algo por mim. No momento, seu acesso à Sede da Organização me é precioso, e isso somado à informações recentes que obtive fazem de você a escolha perfeita. Preciso que busque uma caixa para mim, nada mais. Espero que mantenha em mente o fato de que, com o que tenho contra você, poderia estar pedindo muito mais.
Eu sei o motivo pelo qual Roger Miles aceitou você na Organização. Sei o que vocês escondem de e, se deseja manter seu segredo, você fará o que digo. Tenho razões para acreditar que não haverão objeções, porém não revelarei mais nada até obter sua resposta. Se tudo correr como imagino que correrá, mandarei outra carta explicando o que exatamente você precisa fazer.
Não seja estúpido. Não avise a ninguém sobre essa carta e não faça nada além do que for mandado. Acho que não posso estressar suficientemente o fato de que, além de seu segredo, sua vida está em minhas mãos. Creio que já deva ter percebido que não é a única sob vigilância. Existe um motivo pelo qual você ainda está vivo, porém uma respiração suspeita sua será o suficiente para que esse erro seja corrigido.

Aguardo sua resposta.

Eu.


Era pior do que eu esperava.

Na verdade, eu não sabia bem o que estava esperando, mas não poderia ter sido pior do que aquilo.
A carta havia me surpreendido desde o começo. O estilo do Mestre, que eu havia visto antes na carta para , continuava lá, mas agora a linguagem estava menos antiquada. Talvez o Século XXI estivesse começando a afetar quem quer que fosse aquele vampiro.
Eu não reconhecia a caligrafia, mas aquilo não era surpreendente. Se o Mestre fosse alguém que eu encontrara em meu mais de um século de vida, essa pessoa obviamente não escreveria a carta com as próprias mãos.

Pela primeira vez, porém, a identidade daquele vampiro não era o maior dos problemas.

O Mestre me tinha em suas mãos, disso eu não duvidava. Só o fato de ele ou ela saber que a chantagem que eu fizera com Miles era sobre já dizia tudo. E agora o chantageado era eu.
Uma caixa. Por enquanto era só o que eu sabia. O Mestre queria uma caixa, que eu deduzia estar no prédio da Organização, e era eu quem teria que pegá-la.
Na verdade, ao menos aquele fato me dava duas boas notícias. A primeira era que se o Mestre realmente tinha alguém infiltrado na Organização, essa pessoa parecia não estar mais o ajudando, do contrário ele não viria até mim por ajuda. E a segunda... Bom, a segunda eliminava uma preocupação que eu andava tendo. Desde que havíamos descoberto os objetivos do Mestre, eu comecei a pensar em uma possibilidade, uma que eu evitara comentar com para não deixá-la perturbada.
A Organização era uma fortaleza quase impenetrável, é claro. Mas apenas quase. Existia um precedente de invasão de um vampiro naquele prédio.

O pai de . Quando ela era apenas um bebê.

Eu havia ouvido a história sobre a tentativa dele de assassinar a própria filha antes de morrer. Ele havia invadido o prédio, e se aquele vampiro havia encontrado um jeito, outros também poderiam. Quando eu soube dos planos do Mestre, a possibilidade de que ele poderia invadir a Organização foi uma das minhas maiores preocupações. Mas se ele precisava de mim para fazer isso, significava que ele ainda não havia encontrado um jeito.

Ainda.

estava segura por enquanto, ao contrário de mim. O lugar onde eu morava não era um segredo, além de ser de fácil acesso. Por hora o Mestre e seus capangas haviam deixado claro que eu estava seguro, mas aquilo poderia mudar. Eu poderia tentar encontrar outro lugar para morar, porém aquilo seria inútil. Eu estava sendo vigiado. Não importava para onde eu fosse, eu sempre seria encontrado.
Só havia uma coisa que eu poderia fazer. Quanto à segurança de , eu podia simplesmente convencê-la a não me encontrar mais naquele lugar, mas quanto à minha... Realmente, só havia uma escolha.
Eu poderia tentar avisar alguém sobre a carta, é claro. Mas os riscos eram grandes demais, e o Mestre tinha razão. Eu não suportaria as conseqüências.
Porque no conjunto das traições, aquela não era nada, na verdade. Se algum dia descobrisse o que eu escondia dela, aí sim seria o fim. Oh, ela não me mataria... Faria pior. Se descobrisse a verdade, nunca mais olharia para mim de novo. As poucas chances que eu tinha seriam para sempre destruídas, e aquilo eu não agüentaria. O Mestre havia encontrado a única coisa que eu não ousaria arriscar. A única coisa que me assustava mais do que a morte. Algo que eu não seria capaz de encarar em meu melhor dia, muito menos naquela noite fria e cheia de acontecimentos.
Minha escolha já estava feita. Uma traição menor para ocultar a traição que poderia acabar com tudo.
Pegando uma folha de papel, eu rabisquei uma resposta, colocando-a sob os pés da estátua de anjo que Godfrey apontara.

Estava feito.

Você tem minha atenção. O que quer que eu faça?

.


Capítulo 29 – Guilt

’s POV

- Bom dia, pessoas. – foi o que eu disse ao entrar no QG naquela tarde, em um tom alegre que, eu admito, não era nada característico.

Você sabe que é problemática quando as pessoas a sua volta te olham estranho quando você é simpática.

- Bom... Bom dia. – disse , clareando a garganta em uma péssima tentativa de consertar a situação. e Gilbert, os demais ocupantes da sala, fizeram o mesmo – Quero dizer, boa tarde.
- O que foi, gente? Que caras são essas? – como se para compensar o surto de simpatia, meu lado escrota resolveu se manifestar – Alguém morreu?

Eu havia dito para mim mesma que não tocaria naquele assunto. O problema era que geralmente eu não me escutava.

Gilbert suspirou, parecendo cansado. Sua postura, no entanto, relaxou. Eu devia me sentir mal de constatar que as pessoas a minha volta achavam mais normal meu comportamento ruim do que minhas tentativas de ser legal. Talvez quando meu bom humor passasse eu me sentisse.
- Nós queríamos pedir desculpas. – disse ele, sem me encarar.
- A gente não devia ter escondido aquilo. – acrescentou – Não foi certo. Principalmente na situação atual... Não podemos esconder nada uns dos outros.

Uma pequena correção: eles não podiam esconder nada de mim. Eu era uma vadia hipócrita que escondia coisas de todo mundo.

Bom humor, . Lembre-se que você está de bom humor.

- E nós temos donuts! – terminou , me oferecendo uma caixinha. Se eu não estivesse disposta a perdoá-los antes, aquilo com certeza teria me feito mudar de ideia. Eu havia acabado de acordar e não havia comido nada.
- Relaxem, eu não to com raiva de vocês. – eu disse, pegando a caixa das mãos de e me jogando no sofá.
- Não? – perguntou , parecendo surpreso. Ao levar uma cotovelada de , no entanto, ele consertou – Quero dizer... Que bom!
- A gente promete que não vai acontecer novamente. – prometeu .
- Exato. – acrescentou Gilbert – É como a disse, não podemos esconder nada uns dos outros. Nós achamos que estávamos te protegendo. Com tudo que anda acontecendo, com tudo pelo qual você já passou... Sabemos que você está vivendo sob circunstâncias delicadas.
Circunstâncias delicadas. Eu era uma garota de 21 anos que, ao invés de estar na faculdade saindo com carinhas de fraternidade, passava minhas noites matando vampiros que estavam sob o comando de alguém que ameaçava o único lugar no mundo no qual uma híbrida como eu pertencia ao menos um pouquinho. Oh, vamos adicionar a isso o fato de que eu nunca tive pais e ao invés de um namorado eu tinha uma relação nada saudável com um cara que eu odiava e que já tentara me matar mais de uma vez. Relação essa que nunca teria se iniciado se eu não tivesse perdido o único homem que havia amado na vida.

Aparentemente, “circunstâncias delicadas” era alguma espécie de código britânico para “coisas que matam seu coração”.

Eu respirei fundo, reprimindo meu pessimismo natural. Não fazia sentido acabar com meu bom humor daquela forma, remoendo tudo que havia de errado na minha vida. Eu precisava me concentrar nas coisas boas. Eu havia tido um excelente fim de noite, que de quebra havia eliminado uma das minhas maiores angústias. Eu havia resolvido minha situação com , então qual era o ponto em continuar me martirizando por aquilo? A razão do nosso acordo era justamente fazer com que eu parasse de pensar naquilo como algo errado. Não era errado se haviam regras. Era apenas um acordo, um contrato, e ambas as partes tinham total consciência do que ele implicava. Era só sexo. Eu era maior de idade e solteira, tinha direito de dormir com quem eu bem entendesse... Mesmo se essa pessoa fosse . Se eu continuasse me certificando de que aquilo não significava mais do que uma relação física, não haveria problemas.

No momento eu tinha uma caixa de donuts e um vampiro gostoso ao meu dispor sem implicações emocionais. Eu não devia estar reclamando da vida.

- Como eu disse, Gilbert. – eu me forcei a voltar a falar, espantando todos os maus pensamentos – Tá tudo bem. Esquece isso. – para coroar o momento, eu enfiei um donut inteiro na boca. Finesse devia ser meu nome do meio.
- Certo, eu... Fico feliz de termos resolvido isso. – disse ele, me olhando como quem olha um gorila se alimentando no zoológico. Ele já devia estar acostumado com esse tipo de coisa. Gilbert já vira e comendo mais de uma vez, e perto deles eu era uma lady.
- Somos dois. – eu disse, fisgando outro donut da caixa – Eu perdi mais alguma coisa ontem?
- Na verdade, não. – foi quem respondeu, sentando-se na beira do sofá – A sua saída meio que encerrou tudo. Você ficou de falar com o Miles sobre a ideia da cooperação internacional, então não restou muito o que fazer.
- Eu vou falar com ele hoje. E gostei do “cooperação internacional”. Soa importante. – eu disse, rindo.
- Você tá de bom humor. – disse , tão de repente que fez minha mão parar a meio caminho de levar outro donut a boca. Gilbert e olharam para ela como se ela fosse louca – O que foi? Eu não to reclamando! – disse para eles, em tom defensivo – É só que... – ela olhou para baixo, parecendo subitamente achar as próprias mãos muito interessantes – Depois de ontem, é estranho. Não é como você costuma reagir. Tá todo mundo aqui achando estranho, eu só sou a única com coragem o suficiente pra dizer.
Eu suspirei, desejando que não tivéssemos chegado àquilo. Eu era mesmo tão ruim geralmente que as pessoas se preocupavam quando eu parecia alegre?
- Vamos dizer que eu tive uma revelação, ok? Uma epifania, e decidi que não vale a pena me preocupar com coisinhas assim. – eu disse, esperando que aquilo fosse o suficiente. O que eu tivera na verdade foram alguns ótimos orgasmos livres de culpa que fizeram maravilhas para o meu humor, mas aquilo seria um pouquinho mais difícil de explicar.
- Você não precisa se justificar, a só tá sendo inconveniente. Como sempre. – disse , recebendo um olhar feio da garota em questão – A gente tá feliz por você não estar cheteada, só isso. Na verdade... – ele fez uma pausa, olhando para os outros dois – Já que você parece estar de bom humor, tem outra coisa que nós decidimos ontem a noite.
- E por que vocês não me disseram isso logo? O que aconteceu com “não vamos mais esconder nada uns dos outros”? – perguntou a Hipócrita.
- Calma, a gente não ia esconder nada de você. Só achamos que você estaria chateada e decidimos não abordar o assunto de cara. Não faria sentido pedir sua ajuda enquanto você quisesse matar todos nós. – disse .
- Pedir minha ajuda? Pra quê? – eu perguntei, confusa.
- Bom, depois que você saiu, nós ainda passamos um tempinho conversando. Uma coisa foi levando a outra, nós começamos a recordar alguns fatos do passado e decidimos que, pro bem de todos, nós precisamos que você treine a gente.
- Treinar vocês para o quê, exatamente? – eu não estava gostando do caminho que aquela conversa estava tomando. Não estava mesmo.
- Calma, ninguém pretende sair por aí caçando o Mestre, relaxa. – disse – É só que... Nós estávamos pensando, entende? Quem quer que esse vampiro seja, obviamente tem alguma obsessão com você. Como a disse, uma coisa levou a outra e nós começamos a relembrar algumas coisas que aconteceram no passado. Mais precisamente, no ano passado.

E então tudo fez sentido.

- Vocês tão achando que o Mestre vai usar vocês para me atingir. – eu disse, de forma enfática. Era óbvio, na verdade – Como Cora, e fizeram ano passado.
- Foi uma sorte nada ter acontecido ano passado, . – disse – Quero dizer, quase foi morto por capangas umas duas vezes e eu cheguei a ser seqüestrada por uma tarde inteira, mas podia ter sido muito pior. Se aqueles três tivessem tido mais oportunidades, a gente não teria tido chance.
Ela estava certa. Naquela época que eu procurava bloquear da minha mente, meus amigos haviam sido alvos em potencial. Ideia de Cora, eu tinha certeza, mas mesmo assim. apenas sobreviveu aos ataques pois foi salvo por mim em uma das vezes e pela aproximação de um grupo grande de pessoas em uma outra. Quanto a , a havia levado e, para soltá-la, havia exigido que eu fosse encontrá-lo em uma óbvia armadilha. Por sorte, espancar um capanga de Cora fora o suficiente para descobrir o cativeiro.
Era engraçado pensar em como o cara mau, e mais engraçado ainda o fato de eu colocar a culpa de tudo em Cora. Mas não era só porque eu havia dormido com seus dois parceiros. Na verdade, com o tempo foi ficando claro que a mente cruel e doentia por trás de tudo que havia acontecido no ano passado era a dela. Os outros dois haviam apenas a ajudado.
Não que isso mudasse muita coisa. E enquanto eu tinha como defender as ações de , havia feito tudo por vontade própria, incluindo pôr minha melhor amiga em sérios riscos.

Se ele algum dia me perguntasse o porquê eu nunca poderia amá-lo, eu diria isso.

Esse, no entanto, era assunto para outra hora. E, apesar de estar ficando velha muito rápido, a minha ladainha de “posso dormir com ele mesmo o odiando” era eficiente para acalmar minha culpa pelo que eu estava fazendo.
- O ponto é, se o Mestre tiver a mesma ideia brilhante, a gente deve estar preparado. – continuava a dizer – Teremos mais chances se pudermos nos defender. O Gilbert foi quem te ensinou, então não estou falando dele. Eu e sabemos o básico, é claro, mas precisamos de mais preparo. E Tara e ? Com aqueles dois você precisa começar do zero.
- Mas por que eu? Eu nunca ensinei ninguém a lutar, . E você mesma disse, o Gilbert foi quem me ensinou. Por que ele não pode fazer o mesmo com vocês?
- Nós discutimos a ideia, mas não daria muito certo. – disse .
- Ele tá velho demais pra treinar todo mundo. – acrescentou , sem nem piscar.
- Preciso lembrá-los de que eu estou aqui? – disse Gilbert, ofendido.
- Claro que não, eu to te vendo. – respondeu , não parecendo entender o que ele queria dizer. Eu tentei não rir.
- Ok, ok, eu faço isso. – eu concordei, sorrindo, tentando evitar a briga – Falem com os outros dois e a gente combina um dia pra começar. – terminando o último donut da caixa, eu me levantei – Agora eu preciso ir falar com o Miles. Mais tarde eu digo como foi, ok?
- Certo. E como eu não passo de um velho inútil, vou voltar para os meus livros. – disse Gilbert, resmungando enquanto se dirigia à pilha de livros sobre a mesinha.
- Decida-se, ou você é um velho chato ou um bebê emburrado. – disse , revirando os olhos.
- Até depois, gente. – eu disse, rindo e saindo da sala antes que as coisas piorassem.
No fim das contas, eu nem precisava ter feito isso, já que a própria deixou a sala segundos depois e me alcançou na escada.
- , espera! – disse ela, subindo correndo os degraus. Parando em minha frente, ofegante, ela continuou – Preciso falar com você.
- Fala. – eu disse, franzindo as sobrancelhas.
- Só queria pedir desculpas. – disse ela – Sobre o que eu disse antes. Eu não tava te acusando de nada quando falei que era estranho você não estar chateada. É só que de uns tempos pra cá você anda tão distante... Mais do que o normal. Eu sinto que não te conheço mais, entende? E eu odeio isso.
- Eu sei. – eu disse, me sentindo culpada. Nos últimos meses eu realmente tinha me afastado de e dos outros – É só que, com tudo que anda acontecendo... É muita coisa, só isso. Muito com o que lidar. Não é de propósito.
- Você sabe que pode confiar em mim, não sabe? – perguntou – Pra qualquer coisa, . Qualquer coisa. Eu to aqui por você, sempre.
Eu sabia daquilo, claro. Mas não significava que eu estava disposta a contar o que realmente estava acontecendo.
- Eu confio em você, , esse não é o problema. – eu disse, sabendo que no fundo aquilo era uma mentira. Se eu realmente confiasse em , não teria tanto medo de dizer o que estava acontecendo. Eu temia demais a reação dela para arriscar confessar a verdade.
- Então qual é? Não, não me diz. – disse ela, de repente – Eu tenho uma ideia melhor. Que tal uma noite de garotas hoje? Só pra ver filmes e conversar. Não precisa ser sobre coisas importantes, se você não quiser. Eu não to tentando te pressionar a fazer nada. Só quero passar um tempinho com a minha melhor amiga. Pode ser? – perguntou ela, sorrindo.

Eu não tinha como negar, tinha?

- Claro. – eu concordei, sorrindo também. A verdade é que eu sentia falta de . Sentia falta de poder falar com ela, sem medo de contar a verdade. Talvez aquilo fosse exatamente o que eu precisava, uma noite para falar bobagens com . Sim, com certeza era uma boa ideia.

, porém, provavelmente não acharia o mesmo.

Xx

’s POV


Em mais de cem anos de existência, culpa nunca foi um sentimento que me preocupou muito. Como eu havia tentado explicar para na noite anterior, vampiros sentem certas coisas de forma diferente dos humanos. Quando você é transformado, começa a ver as coisas por perspectivas diferentes. Então, embora eu já houvesse sentido culpa por diversos motivos, raramente deixei que o sentimento me afetasse de verdade.

Mas não era de todo surpreendente que estivesse me afetando agora.

Andar pelos corredores da Organização após ter concordado em ajudar o Mestre era estranho. Pela primeira vez na vida, eu me sentia um traidor. Eu não dava a mínima para esse lugar, é óbvio, embora precisasse admitir que no fundo estava começando a cometer o erro de achar que pertencia àquilo tudo. Esse, porém, não era o problema, nem a causa da minha culpa.

Eu não me importava de trair a Organização. Trair era o que estava me rasgando por dentro.

Eu sempre insisti em fazê-la acreditar que podia confiar em mim. Eu a fiz acreditar que poderia contar com a minha honestidade absoluta, coisa que, no fundo, já era uma traição em si. A verdade era que o único culpado pela posição na qual eu agora me encontrava era eu. Eu vinha omitindo coisas importantes de desde que pisara nesse lugar pela primeira vez. Havia feito uma escolha e aceitado o preço que eventualmente teria que pagar pela chance de trabalhar perto dela. Mas disso eu não sentia culpa. Minha primeira traição era o que havia possibilitado que nossa relação chegasse ao ponto no qual estava agora. E, embora eu ainda sonhasse com mais, reconhecia que o que tinha com hoje era mais do que eu havia esperado algum dia conseguir.
Eu sabia que a história toda poderia acabar estourando algum dia, mas eu preferia não pensar sobre isso. A ideia em si era horrível demais, sem contar que eu era o tipo de cara que prefere viver o momento. E no momento eu era um traidor barato, mas um traidor barato que estava mais perto de do que qualquer outro imbecil desse lugar.
Eu continuei a atravessar o corredor, me aproximando da área dos quartos dos funcionários. Pela primeira vez, porém, eu não virei a direita direção ao corredor feminino. Também não segui reto, já que isso me levaria aos quartos de casais. Não, eu virei a esquerda e segui para o quarto de .

Se alguém me visse ali, eu contaria a toda a verdade e deixaria que ela me matasse. Na verdade, imploraria por isso.

O garoto abriu a porta na primeira batida e me deixou entrar, seu olhar correndo pelo corredor como se para se certificar de que ninguém havia me visto. Bom saber que era recíproco o meu medo de ser visto ali e ter minha presença interpretada como algo totalmente diferente.
Por ser um vampiro, minha mente era naturalmente aberta. Então, embora eu não sentisse a menor atração por homens, não achava que ser homossexual era algo vergonhoso ou repugnante. A verdade era que, em outras circunstâncias, eu não daria a mínima para o que alguém pudesse pensar ao me ver entrando de forma suspeita no quarto de outro cara. O problema, é claro, era o garoto em questão.

Eu tinha uma reputação pela qual zelar. Se fosse para alguém achar que eu era gay, que pelo menos fosse com um dos Cromwell.

Havia sido ideia de termos nossa primeira “aula” no quarto dele, e eu precisava concordar que o local era bem mais seguro do que o QG. O garoto obviamente tinha motivos para querer manter aquilo em segredo, então eu não havia discutido. Isso, é claro, havia sido antes de ver o lugar.
Posters de séries e filmes sci-fi ocupavam cada milímetro das paredes. Para onde quer que meus olhos se voltassem haviam caixas de vídeo games, revistas em quadrinho, miniaturas colecionáveis de dezenas de personagens...

Eu estava no nerdvana.

- Por que você nunca me disse que tinha onze anos de idade? – eu perguntei, sem conseguir me controlar. fez uma careta.
- Não é tão ruim assim. – disse ele, talvez para convencer a si mesmo.
- É péssimo. – eu disse, ainda olhando a minha volta com choque. Não era o conteúdo da “decoração” que me assombrava, e sim a quantidade – Mas relaxa, não vou te fazer queimar seus brinquedos.
- Não preciso me livrar deles? – perguntou o garoto, com certo brilho nos olhos.
- Não. Te garanto que se você conseguir trazer a sua garota para cá, ela já vai estar além do ponto de reparar em decoração. – eu disse, voltando meu olhar pra ele – Mas, por favor, eu te imploro... Diga que você pelo menos tem uma coleção de playboys embaixo da cama ou eu desisto de tentar te ajudar.
- No armário, na verdade. – disse o garoto, o rosto subitamente adquirindo a cor de um tomate. Eu tentei conter minha frustração. O garoto ter vergonha até de admitir aquilo era sinal de que eu teria mais trabalho do que havia imaginado.
- Ótimo. Talvez ainda haja esperança pra você. – eu disse, sentando na cadeira de computador dele – Sabe, tem horas que eu tenho vontade de simplesmente te largar em um puteiro por umas horas. Ia ser bem mais útil do que qualquer coisa que eu tenha pra te dizer.
- O quê?! – exclamou o garoto, de olhos arregalados. Meu Deus, era pior do que eu pensava.
- Calma, eu também não vou fazer isso. Envergonhado do jeito que você é, provavelmente ia sair correndo assim que eu te deixasse sozinho com uma garota. Mas preciso dizer que isso complica as coisas.
- Complica como? – ele perguntou.
- Simples. Todo virgem é inseguro. E acredite, garotas não gostam de caras inseguros. – eu disse, encarando o garoto com seriedade – Na verdade, essa é a minha primeira lição pra você. Autoconfiança. Não importa se um cara é um tremendo filho da puta, se ele for autoconfiante, vai conseguir garotas. Então esqueça a insegurança.
- É fácil pra você falar. – disse .
- Isso é crucial, nerd. – eu insisti – Pode não ser fácil, mas você precisa adquirir autoconfiança se quer mesmo essa garota. Vai por mim, eu conheço as mulheres. Algumas, embora sejam a minoria hoje em dia, gostam de ser controladas, e as que não gostam também não querem um cara patético e dependente. A maioria das mulheres quer controle, mas não um controle fácil. Elas querem que você tenha personalidade, segurança... Só assim você vai conseguir manter o interesse delas. Se você demonstrar insegurança, ela vai enjoar de você muito rápido.
- E como você quer que eu não demonstre insegurança se você mesmo disse que eu sou inseguro? – perguntou , parecendo frustrado.
- Fácil. Você vai atuar. Mas não se preocupe, eu vou ensaiar algumas situações com você depois. Antes disso tem outro ponto que eu preciso abordar... Suas roupas.
- O que há de errado com as minhas roupas? – perguntou o garoto, abaixando os olhos para a camisa que usava, marrom com um logotipo de Firefly – Algumas garotas gostam de Sci-Fi.
- Não estou dizendo que não gostam. Mas o excelente gosto por séries de TV não compensa o fato de que cabem dois de você nessa camisa e isso te faz parecer mais magro do que já é. Você precisa fazer compras. Você precisa de uma garota.
- Uma garota? Por quê?
- Pra fazer compras com você. – eu respondi – Você não tava achando que eu ia te ajudar nesse ponto, ou estava?
- Por que não? – ele perguntou. Que Deus me ajudasse.
- Porque não, . Em primeiro lugar, eu não quero. E em segundo, eu não entendo porcaria nenhuma de roupas.
- Você entende o suficiente pra dizer que essa camisa é ruim. – argumentou ele.
- Isso não é entendimento. É noção do óbvio. – eu rebati – Vai por mim, você precisa de uma garota. Precisa da ajuda de alguém que saiba o que é ou não é atraente em um homem. Ou seja, uma garota ou um amigo gay. Então sinta-se livre pra pedir a ajuda do , se quiser.
O nerd riu. Eu tentei me manter sério.
- Posso falar pra ele que você disse isso?
- Isso implicaria admitir que nós conversamos, então... Não. – eu respondi.
- Ok. – disse ele, parando de rir – Então autoconfiança, roupas... O que mais?
- Exercícios. Sugiro que você comece a frequentar as salas de treinos e a academia desse lugar. Garotas gostam de caras saudáveis.
- Oh, sem problemas aí. Parece que concordou em treinar o nosso grupo pro caso de algum ataque. Você sabe, pro caso de o Mestre resolver usar a gente como isca ou algo parecido.
- É uma boa ideia. Me admira não terem pensado nisso antes. Só eu sei o quanto foi fácil chegar aos amiguinhos da ano passado.
- E agora você está aqui. Na Organização. O mundo é um lugar estranho. – disse o garoto, pensativo.
- E a vida é uma vadia com um puta senso de ironia. – eu disse, mais pra mim do que pra ele, enquanto girava um anel no meu dedo, pensativo. Era realmente impressionante o quanto o mundo dava voltas.
- Você vai ajudar? – perguntou ele, me despertando de minhas divagações.
- No que? – eu perguntei, erguendo meus olhos pra ele.
- Nos treinos?
- Sei lá. Se a quiser... – eu disse, ainda distraído. Aí a ficha caiu e eu me lembrei com quem estava falando – Quero dizer... Talvez. Se eu estiver entediado.
Oh, sim, aquilo salvou a situação. Era isso o meu melhor? Idiota. Tinha como eu ser mais patético? “Se a quiser.” Argh, eu queria me chutar. Era nisso que eu estava me tornando? Um cachorrinho esperando as decisões da dona? Eu era uma vergonha pra toda a espécie. Eu precisava me controlar. Era como havia concluído na noite passada. Se uma das condições de era que eu não demonstrasse meus sentimentos, eu seria o filho da puta mais frio do planeta. Daria a ela exatamente o que ela queria. Queria só ver por quanto tempo ela iria aguentar.
- É isso por hoje, nerd. – eu disse, me levantando e seguindo pra porta.
- Só isso? – ele perguntou, franzindo as sobrancelhas.
- Exato. Já te dei tarefas suficientes. E eu tenho mais o que fazer. – na verdade não tinha. Mas depois do que eu havia dito, eu me encontrava com forte necessidade de sair dali antes que aquele assunto prosseguisse.
Não esperei ele dizer mais nada antes de sair dali. Eu precisava ficar sozinho e pensar. Sobre , sobre a chantagem do Mestre, sobre o que fazer dali em diante... Sobre tudo. Merda, eu nunca havia sido um grande pensador. Eu era impulsivo, emocional, irresponsável. Passional. Oh, o que eu não daria naquele momento para ser mais como . Frio e analítico. Pela primeira vez na vida eu admirava a tendência dela de pensar demais em tudo.

Se passaram mais alguns minutos antes da garota em minha mente invadir também meu campo de visão.

’s POV

Ele estava do outro lado do corredor.

Era até engraçado, na verdade. Quero dizer, lá estava eu voltando da sala de Miles, de bom humor, tendo motivos para relaxar pela primeira vez em semanas. A situação com o Mestre estava longe de se resolver, mas pelo menos nós não estávamos parados. E ... Bom, não era mais um problema, certo? Nós tínhamos finalmente resolvido a situação. Eu estava quase totalmente em paz.

Mas aí eu viro o corredor e BAM! Lá está ele.

E de repente eu não estou mais calma.

O problema que até aquele momento eu havia me recusado a reconhecer era bem simples, na verdade. Eu sabia agir com como meu inimigo. Eu sabia agir com como meu aliado. Mas agora... Agora eu nem ao menos sabia o que ele era meu.

Consequentemente, eu não tinha a menor ideia de como agir com ele.

Eu não podia ignorá-lo, já que nas atuais circunstâncias aquilo seria ridículo. Também não podia voltar pra minha tão confortável bolha de negação, já que na noite anterior havia admitido a existência daquela coisa entre nós. A proposta de havia sido aceita, mas o que exatamente ela implicava nós ainda não havíamos descoberto. Sexo, ok. Mas e o resto? Qual era o código de conduta a ser seguido longe da cama? Por pior que isso soasse, eu só sabia tratar como a sujeira embaixo das minhas botas. Podia eu ser hipócrita ao ponto de continuar sendo uma vadia com ele durante o dia e depois correr para os braços dele à noite?

Bom, ele estava a meros dez passos de distância agora. Acho que eu descobriria em breve.

Eu tentei parecer calma enquanto continuava a andar. Esforço inútil. Ele sabia, é claro que sabia. Prova disso era que ele mesmo não parecia lá muito tranquilo. Lutando contra a vontade de sair correndo, eu deixei que os dez passos se transformassem em sete... Quatro...

Um.

Estávamos frente a frente, tão próximos que era possível tocá-lo. Mas eu não devia tocá-lo... Ou devia?

Prédio da Organização. Pessoas poderiam ver. Não seja estúpida, .

Não, tocar não era uma opção. Mas eu não fazia ideia do que dizer, de forma que por alguns poucos porém longos segundos, ninguém disse nada.

- Caçadora. – se pronunciou, finalmente, acenando a cabeça. Eu tentei não suspirar em alívio.
- . – eu respondi, da mesma forma.
Mais alguns segundos de silêncio.
- Eu tava só... – disse ele, de repente, levando a mão à nuca no símbolo internacional de garoto sem jeito – Dando uma volta.
Ok, aquilo era estranho. O fato de sentir a necessidade de se explicar só podia significar que ele não estava simplesmente “dando uma volta”. Pra sorte dele, no entanto, eu não tava no clima de interrogatório.
- Ok. – eu respondi, simplesmente. Com medo do silêncio voltar, eu acrescentei – Acabei de voltar da sala do Miles. Ele adorou sua ideia. Tá todo empolgado contatando Deus e o mundo. Talvez a gente descubra algo sobre o Mestre finalmente.
Eu podia jurar que vi uma sombra passar por aqueles olhos . Mas tão rápida quanto veio, ela sumiu.
- Oh. Isso é ótimo. – disse ele, sem emoção.
- É... – eu concordei. Céus, aquilo era incômodo. Eu precisava ir embora – Bom, eu preciso... – apontei vagamente para frente, deixando aquilo no ar.
- Claro. – concordou ele, saindo da minha frente. Me sentindo a criatura mais desajeitada do planeta, eu comecei a me afastar.
- Espera. – disse ele, em tom ansioso. Mas não foi isso que me fez parar.

Não. O que me fez congelar e queimar ao mesmo tempo foi a sensação dos dedos dele segurando meu pulso.

Sempre será assim, uma voz na minha mente dizia. Você nunca vai se acostumar. E ele vai continuar te tocando e você nunca será capaz de se manter forte. Você está condenada e nem ao menos se importa. Que espécie de caçadora é você?
Eu virei um pouco a cabeça, mas ao invés de encará-lo fixei meu olhar em nossas mãos. largou meu pulso como se esse o tivesse queimado... Meu ato sendo o suficiente para lembrá-lo onde estávamos e quem éramos.
- Eu vou te ver essa noite? – ele perguntou, sem me encarar.

Oh, ele tinha que perguntar isso...

- A gente vai se encontrar para a patrulha. – eu respondi, ciente do quão estúpido aquilo soava. Céus, para alguém que tinha como profissão matar vampiros eu era bem covarde.
- Você entendeu o que eu quis dizer. – sim, eu havia entendido. Só não sabia como responder.
- Eu não posso. – eu respondi, respirando fundo – A quer conversar comigo mais tarde e...
- Tudo bem. – disse , mudando de postura em questão de segundos. Em um piscar de olhos a vulnerabilidade havia dado lugar ao que eu só podia definir como frieza.
- Eu não podia simplesmente...
- Tudo bem, caçadora. – ele me interrompeu, no tom mais calmo do universo. Como se a segundos atrás não tivesse me feito a pergunta mais desconfortável do mundo. Como se não se importasse – Te vejo mais tarde pra cobrirmos a rota, então.

E foi embora.

Enquanto eu permaneci parada tentando entender o que havia acabado de acontecer.

Xx

- Eu sei que eu já disse isso mil vezes, mas... Meu Deus, ele é a cara do Aramis! – disse , pela milésima vez desde que havíamos começado a assistir “O Retrato de Dorian Gray”.
- Assustador, né? – eu disse, distraída enquanto rodava a colher no meu pote de sorvete. Havia desistido de tentar prestar atenção no Ben Barnes na tela. Minha mente estava cheia demais, como o de costume. costumava dizer que eu pensava demais, analisava demais as coisas sem necessidade, e em parte era verdade. Mas o que eu podia fazer? Lidar com mil problemas ao mesmo tempo vinha sendo minha realidade há mais de dez anos. Claro que eu pensava obsessivamente em cada probleminha... Eu não conhecia outra vida.
No momento minha cabeça girava em torno do Mestre, dos segredos que eu escondia dos meus amigos, da Organização em perigo e OH MEU DEUS O QUE TINHA DE ERRADO COM O ?!

Ok, então talvez eu estivesse obcecada com apenas um problema.

Mas aquilo não era normal. Não era normal. não era indiferente a mim. Não podia me ignorar agora que eu finalmente havia aceitado ele na minha vida – de certa forma. Ele já havia me ignorado antes, é claro. Já havia sido frio e distante, mas isso quando eu o machucava (o que, eu admito, acontecia bastante). Mas eu não o havia machucado dessa vez. Acredite, eu conheço . Sei quando atinjo ele, e essa não era uma dessas ocasiões. Ele não era uma florzinha delicada. Uma rejeição bem explicada da minha parte não o deixaria magoado. Pelo contrário, só o daria mais vontade de me fazer mudar de ideia.

E esse era o problema. Porque não foi bem assim que aconteceu.

Ele não me ignorou, não foi frio comigo ou nada parecido. Mas durante toda a patrulha daquela noite ele não. Tentou. Absolutamente. Nada.
Nenhuma indireta. Nenhum sorrisinho provocante. Nem um mísero toque inapropriado. Nada. Não que eu quisesse que ele tentasse algo. Eu não podia, por causa da . Mas ele não devia ter simplesmente aceitado assim tão fácil. Era até um pouco ofensivo. O que, de repente ele não achava mais que valia a pena me provocar até eu perder a cabeça?

Na verdade ele nem precisava. Pelo pensamento anterior percebe-se que eu já perdi a cabeça há muito tempo.

Eu estava confusa. E irritada. Irritada porque fizera exatamente o que eu havia sugerido ao dizer que não podia acontecer nada naquela noite. Havia aceitado o fato. Mas ele nunca fazia isso, e aquilo não fazia sentido e eu não estava gostando nada daquela história. não devia ser capaz de simplesmente aceitar ficar longe de mim. Devia ficar me perseguindo e tentando conseguir minha atenção.

Às vezes eu acho que não presto.

E às vezes eu tenho certeza.

- Então, ele tá solteiro? – perguntou, de repente. Bom, de repente pra mim, que estava em meu mundinho particular.
- Quem, o Ben Barnes?
- Não, acéfala. O Aramis. Tem namorada, ou tá afim de alguém...?
Eu não consegui responder imediatamente. Apenas voltei a encarar meu sorvete que a essas horas já não passava de uma sopa de chocolate. Isso foi resposta o suficiente para .
- Oh meu Deus, é inacreditável! – disse jogando os braços pra cima em um gesto exagerado de frustração. Felizmente eu a conhecia o suficiente para reconhecer que aquilo em sua voz era divertimento, e não vontade de me matar.

Ok, talvez um pouquinho de vontade de me matar.

- Não é minha culpa! – eu disse, de forma defensiva – São os feromônios ou sei lá. Gilbert diz que essa atração é uma espécie de vantagem de predador. Uma “arma”. Só queria saber que tipo de “arma” é essa.
- Ahn, a melhor do mundo? – disse , e aquilo fazia sentido – Qual caçador melhor do que aquele que atrai suas presas para si sem o menor esforço?
- Bom, no meu caso é inútil. Não funciona em vampiros, já que vem da minha metade podre.
E aquela era a grande piada. Humanos eram atraídos pela minha parte vampira. E eu tinha sérias desconfianças de que o que mais atraíra os dois vampiros na minha vida fora minha parte humana. Era a triste verdade sobre as pessoas nesse planeta. Todos queriam o que pela lógica não deviam querer.
- Não começa com a auto-aversão. – disse , mesmo só sabendo da parte vocalizada – Quem tem que se sentir mal aqui sou eu. Com você e a Tara monopolizando todos os homens desse lugar, o que sobre pra mim?
- Ninguém reivindicou o Athos ainda.
- O que usa rabo-de-cavalo?
- Esse mesmo. – eu confirmei.
- Ótimo. Ele nem vai saber o que o atingiu. – disse ela, com tanta determinação que eu não pude deixar de rir.
- Espera, desde quando você tá caçando homem? Achei que estava focando os esforços no .
- É diferente. – disse ela.
- Diferente como? – ok, ela estava começando a me confundir.
- Eu amo o , ok? É verdade. Mas as coisas com ele não andam, e eu sou uma garota com necessidades. – em tom solene, ela acrescentou – Eu preciso de SEXO.

Aquilo era o que eu mais amava em . Com ela não havia rodeios.

- E você não pode ter isso com o ?
- Sim, mas eu não posso simplesmente me atirar no . Acabaria com qualquer chance que eu poderia ter com ele.
- Como assim? – eu perguntei – Acho que ter uma mulher se atirando em cima dele é a cantada perfeita para o . E para a maioria dos homens.
- Sim, mas aí a base do relacionamento seria sexo. E não é isso que eu quero. Eu amo o . Eu quero ficar com o . Relacionamentos baseados em sexo raramente se tornam mais do que isso. E pior, acabam rápido. O interesse acaba rápido.

Acho que é desnecessário dizer para onde meu pensamento se voltou imediatamente.

Mas o fato era que aquilo fazia sentido. Muito sentido, na verdade. E como meu ego já vinha sofrendo golpes a noite inteira, não foi difícil entrar na paranoia.
Talvez fosse isso. Talvez o interesse tivesse acabado. Talvez para ele a graça de tudo aquilo fosse correr atrás de mim, me ganhar, me convencer. E agora aquilo não era mais realmente necessário, era?
Eu não conseguia suportar a ideia, mas não por motivos nobres. Eu simplesmente já não sabia viver sem a certeza de que faria qualquer coisa para me ter. Eu podia detestar muitas coisas sobre ele e sobre a nossa relação, mas não aquilo. Eu adorava saber o quanto me queria pois aquilo me dava poder. Confiança. Ter aquele tipo de poder sobre um homem normal já seria intoxicante, mas sobre ... Um vampiro, lindo, já legendário... Era uma sensação poderosa demais para simplesmente abandonar. Eu gostava de tê-lo na palma de minhas mãos porque aquilo me fazia me sentir bem, não importando o quanto aquilo provavelmente o machucasse.
Não machuca. É desejo, e não amor. Ele não sabe o que é amor. Era assim que eu tentava me consolar. Como se fizesse alguma diferença a causa do meu poder sobre ele. O importante era que eu o tinha e brincava com o fato. Brincava com ele, como uma criancinha que captura uma borboleta. Eu o mantinha comigo prendendo suas asas porque, por mais que soubesse que aquilo era errado, era egoísta demais para libertar a criatura que eu tão surpreendentemente havia conseguido prender.
Eu nunca fora uma pessoa muito boa, mas aos poucos estava me transformando em um monstro.

Prova disso era minha capacidade de perceber isso e não tentar melhorar.

- Ok, eu sei que prometi não forçar a barra, mas é difícil quando eu sei que você não tá realmente aqui. – disse .
- Eu fiz de novo, né? – eu perguntei, culpada.
- Eu só queria saber o que é que te deixa tão absorta em pensamentos. Eu sei que tem alguma coisa te preocupando muito, eu não sou idiota.
- , eu não...
- Relaxa, eu falei sério quando disse que você não precisava me dizer nada se não quisesse. Mas se quiser eu to aqui. – ela respirou fundo – Você pode confiar em mim, , pra qualquer coisa. Eu vou sempre tá aqui por você.
- Eu sei. Eu confio. – eu disse, mesmo sabendo que aquilo não era verdade. Eu escondi a cabeça entre as mãos, cansada de toda aquela mentira, mas também pronta para continuá-la – Não é nada demais. É só o estresse. Esse lugar, e a segurança de todo mundo, e o Mestre, e...
- .

Eu ri. Juro, não deu pra segurar. Mas não foi uma risada feliz.

- Não. Por incrível que pareça, anda sendo o menor dos meus problemas.
- Não, eu quis dizer... . Ligando pra você. – disse ela, em um tom estranho.
Eu levantei a cabeça, confusa, apenas para me deparar com segurando meu celular que vibrava. O nome de dominava a tela.

Era só o que me faltava.

Eu não reagi imediatamente, e o celular parou de vibrar.
- Ele desistiu. – disse .
- Não. Caiu na caixa postal. Ele vai tentar de novo. – eu respondi, mas minha voz não parecia minha. Eu estava paralisada em puro e inesperado pânico.
O telefone voltou a tocar, e olhou pra mim, visivelmente sem saber o que fazer.
- Atende. – eu disse, de repente.
- O quê?
- Atende. – minha voz era minha de novo, e estava totalmente histérica – Eu não posso falar com ele. Por favor, atende. Inventa uma desculpa. Por favor...
- Ok, calma. – disse ela, respirando fundo e levando o celular até o ouvido – ?
Eu tentei recobrar a calma. Eu não podia suportar a ideia de falar com agora. A culpa. Era algo que eu não havia previsto, esse pânico de falar com ele. Como se apenas ouvindo minha voz ele fosse capaz de saber. Sobre , sobre tudo. E mesmo se não fosse, eu não podia falar com ele. Não depois de tudo que eu fiz, não sendo a pessoa horrível na qual eu havia me tornado. nunca amaria aquela . A que dormia com monstros. Pior, a que usava o monstro. A garota que no fim das contas era o verdadeiro monstro.
- Ela ainda não voltou. Esqueceu o celular aqui. – dizia – Aham... Desde quando eu preciso explicar o que to fazendo no quarto da minha amiga? Ainda mais pra você. O que você quer? – por um momento ela apenas escutou – É, a gente sabe. Achamos que ele ia contatar você também... Sim, mas por que ligar pra ela? É com o Miles que você deve manter contato. Ele é o centro da operação. Não, cala a boca! Sério, me escuta. Você vai voltar pra cá? Vai vir falar com ela pessoalmente? É, foi o que eu pensei. Então para. Para de ligar pra ela. Ou você se afasta de vez ou volta pra cá. Isso não é justo com ela. Vai cuidar da sua vida, . A Hope provavelmente tá te esperando. – e com essas palavras ela desligou.
- O que ele queria? – eu perguntei.
- Você ouviu. Miles falou com a equipe dele, incluiu eles na rede de informações. Ele ligou pra dizer que tá tomando providências em Nova York. Desculpa esfarrapada, claro.
- Claro. – eu disse, meio entorpecida.
Ela olhou pra mim, e sua expressão, antes irritada, suavizou.
- Você tá bem? – ela perguntou.
- Aham. – eu respondi – Eu to ficando acostumada.
- Eu to orgulhosa de você. – disse ela – Sério. Há um mês atrás você teria agarrado esse celular e não desgrudaria dele nem se sua vida dependesse disso. Mas você disse não. O não tem o direito de fazer esse tipo de coisa com você, e to orgulhosa por você estar percebendo isso.
Eu imaginava o que diria se soubesse dos meus reais motivos. Da culpa que tornara impossível sequer pensar em falar com . Aposto que ela não teria orgulho de mim se soubesse. Muito pelo contrário.
- É... Será que a gente pode não falar sobre isso? – eu praticamente implorei – Vamos só... Assistir o filme. Ok?
Ela sorriu pra mim, o sorriso triste de quem tentou ajudar aquele que não quis ser ajudado.
- Claro. – disse , pegando o controle e voltando as cenas que nós havíamos perdido – Se isso que vai te ajudar... Claro.

Aquilo não ia me ajudar. Mas nada no mundo iria.

Xx

’s POV


Em geral, eu estava satisfeito comigo mesmo.

Eu havia feito exatamente o que me mandara fazer. Ela não poderia ficar comigo essa noite? Ok. Eu obedeci a segunda condição dela. Ela controlava tudo, se ela dizia não, era não. Nada de tentar fazê-la mudar de ideia. Eu havia me comportado perfeitamente a noite inteira. Fui indiferente, não a provoquei, não tentei absolutamente nada. Nem sequer demonstrei alguma insatisfação com a decisão dela. Fiz tudo como ela mandara.

E eu sabia, oh eu sabia que aquilo a deixaria louca.

A parte mais difícil havia sido não rir da confusão estampada no rosto dela. Ela havia se preparado para lidar com a minha habitual insistência, era óbvio. Mas ela não havia gostado nem um pouco de não ter sido contrariada. Ela queria que eu tivesse me rastejado, ela se divertia com aquilo. Mas não daquela vez. Tara tinha razão, eu precisava me respeitar mais, e era aquilo que eu faria. Por isso também não a havia ignorado. Falei normalmente com ela, ajudei como sempre na patrulha... Apenas não tentei nada. Como se não me importasse nem um pouco se a teria comigo ou não naquela noite.
Eu sabia dos problemas com autoconfiança que ela tinha, mas também estava cansado de alimentar o ego dela. Havia resolvido deixar a vadia se preocupar um pouco. Havia sido bom ver a frustração dela pela minha falta de iniciativa naquela noite. Era bem feito. Quem mandou não saber o que queria?
Eu estava caminhando para casa, animadamente deliberando se devia ou não manter a falta de provocações por mais um tempo quando o vi próximo a minha porta.

A animação morreu imediatamente. Era Godfrey.

Ele veio até mim e me entregou um envelope.
- Preciso lembrá-lo das regras? – perguntou ele.
- Se eu avisar alguém ou tentar qualquer coisa contra vocês meu segredo é revelado, eu morro, morre, a Organização morre, o mundo explode etc etc. – eu disse, revirando os olhos e tentando não parecer preocupado.
- Bom saber que estamos nos entendendo. – disse ele, sorrindo – Sabe, eu quase confio em você.
- Por isso veio sozinho dessa vez? – eu perguntei, em tom casual.
- Oh, eu não estou sozinho. – disse Godfrey, em tom distraído – Mason está aqui em algum lugar. Ele é particularmente bom em ocultar sua presença de vampiros que não o conhecem direito. Por isso foi especialmente designado para ser seu vigia.
Bom, eu já sabia que, assim como , eu também estava sob vigilância. Mas não pude deixar de me perguntar por que Godfrey havia revelado tanto.

Era óbvio, na verdade. Porque eu não podia fazer absolutamente nada a respeito.

- Onde eu deixo a resposta para essa? – eu perguntei, olhando para o envelope. Era melhor acabar de vez com aquilo.
- Não tem resposta. Você vai entender quando ler. Tudo está explicado. – ele disse – Bom, foi um prazer revê-lo, . – ele acrescentou, em seguida fazendo uma pequena mesura. Eu não pude decidir se aquele era um ato de real cortesia ou pura provocação. Godfrey era aquele tipo de pessoa – Até a próxima. – e dizendo isso, ele se afastou.
Eu levei a carta para dentro, sentindo meu bom humor de antes morrer um pouco mais a cada segundo. Eu tinha quase esquecido que agora era um agente duplo. Um traidor.
Era melhor acabar com aquilo de uma vez.

,

Fico feliz em saber que não é totalmente estúpido. Ótimo. As coisas serão mais fáceis assim. Siga minhas instruções com cuidado e todos sairemos desse acordo satisfeitos.
Sei por fontes confiáveis que a caixa da qual preciso está no quarto de , escondida em uma parede. Tenho razões para acreditar que ela não sabe da existência dessa caixa, então o aconselho a procurar aberturas atrás de enfeites que estejam no quarto desde antes de este ser ocupado por . Assim que a encontrar, ligue para o número atrás desse papel. Godfrey te dirá o local ao qual você deverá trazer a caixa.
Não acho que seja necessário relembrá-lo o que você tem a perder se não fizer o que digo. Portanto, tome cuidado com suas ações. Estamos te observando. Qualquer tentativa de avisar a alguém sobre nós ou qualquer ameaça de qualquer espécie será severamente punida. Isso vale também para qualquer tentativa de abrir a caixa. Esta deve ser entregue no momento e nas condições nas quais for encontrada. Tente segurar sua curiosidade.

Tenho sua vida em minhas mãos. Não me force a esmagá-la.

Eu.

Eu precisei me segurar para não socar a parede.

Eu havia pensado que as coisas não poderiam piorar. Ingenuidade da minha parte, mas eu havia tido esperança de que aquilo era o pior que poderia acontecer. Mas agora...
Estava no quarto dela. Embaixo do nariz dela. Algo precioso para o Mestre, que provavelmente nos ajudaria muito. E eu teria que tirar esse objeto de lá e entregá-lo a ele. Teria que roubar algo do quarto de e dá-lo ao seu pior inimigo. Porque a traição precisava ficar ainda mais vil e pessoal.
Ela nunca me perdoaria se descobrisse. Então eu faria o possível para que aquilo nunca acontecesse. Mais um segredo fundamental que eu esconderia dela. Mais uma traição. Ela tinha razão em me odiar. Os segredos que eu trazia comigo podiam mudar a vida dela e mesmo assim eu os escondia. E mesmo que os mais importantes eu estivesse proibido de contar por um acordo, um feitiço, não fazia diferença. Eu havia me metido naquela situação por egoísmo. Eu merecia aquela culpa que me matava.
Eu chutei um baú de roupas em pura frustração, fazendo o objeto voar pelo aposento subterrâneo e se chocar contra uma parede, quebrando. Eu precisava sair dali antes que destruísse aquela cripta que eu chamava de casa. Mas para onde ir? Eu me recusava a vagar pela cidade sabendo que Mason estava em meu encalço. Só me restava a Organização. Ir até o prédio não era um problema, mesmo sendo seguido. O Mestre provavelmente sabia muito bem onde ficava o prédio, da mesma forma que eu sabia mesmo antes de entrar lá pela primeira vez. O problema nunca fora a localização, e sim a forma de entrar na parte subterrânea da construção. O lugar era uma fortaleza.

E eu podia usar uma fortaleza naquele momento.

Tomando minha decisão, eu larguei a carta sobre minha mesa e voltei para a noite de Los Angeles.

Capítulo 30 – Power Play

’s POV

Dormir era o tipo de privilégio que alguém como eu não devia ambicionar.

Não adiantava tentar, minha mente simplesmente não desligaria. Meus olhos não fechavam por mais de segundos, porque o que me mantinha desperta era algo que simplesmente não parava. E não, eu não estava falando de roncando ao meu lado, por mais que aquilo também fosse um pouco incômodo. O que não me deixava dormir era o excesso de energia nervosa que me atacara pouco tempo depois da ligação de .
Eu não queria lidar com aquilo. Com nada daquilo. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa que me impedisse de pensar. Eu estava inquieta e meu corpo parecia implorar para que eu me levantasse, me movesse, saísse, quebrasse algo, fizesse qualquer coisa para liberar aquela agitação.
Eu tentei virar pra um lado. Pro outro. Tentei meditar. Lembrei a última palestra de Gilbert sobre História do Vampirismo na América, e nem isso me deu sono. Por fim levantei, coloquei uma blusa de alça e uma calça de moletom qualquer, peguei meu celular e saí do quarto, tendo cuidado para não acordar .
Segui para a sala de treinamento, porque para onde mais eu poderia ir? Aquele lugar era mais meu refúgio do que meu próprio quarto. Talvez alguns rounds contra o saco de areia me relaxassem o suficiente para dormir. Parecia uma boa ideia.

Tão boa, de fato, que não fui a única a tê-la.

Eu não estava de todo surpresa ao ver ocupando meu saco de pancadas. Nos últimos tempos ele andava passando quase tanto tempo quanto eu naquela sala. Mas o fato de ele estar ali, no meio da madrugada, esmurrando o saco de pancadas como se esse fosse a causa de todos os seus problemas era meio preocupante.
Ele não estava bem, isso era óbvio. Eu tinha experiência com pessoas estressadas, tendo sido uma minha vida inteira, então sabia reconhecer os sinais. O jeito como ele socava, os sons que ele emitia... não estava simplesmente irritado, ele estava seriamente perturbado com algo. E, droga, como eu queria saber o quê. Parte de mim se sentia curiosa o suficiente para perguntar, mas a outra parte era racional o suficiente para me segurar. Perguntar seria o mesmo que dizer que eu me importava, e aquilo eu não podia fazer.
Ele sabia que eu estava ali, mas não parecia querer se dar ao trabalho de reconhecer minha presença. Eu tinha certeza que ele havia me escutado abrir a porta. Tinha certeza que ele sentia meu cheiro, minha presença... Mas ele continuava a agir como se estivesse sozinho.

Infelizmente para ele, eu sou . E eu detesto ser ignorada.

- Boa noite, . – eu disse, em voz alta e clara, com um toque de doçura e uma tonelada de sarcasmo.
Ele socou o saco com mais força que antes, fazendo com que a corda que o prendia ao teto rompesse e o objeto voasse até o outro lado da sala.
Eu arregalei os olhos e dei um passo instintivo para trás, odiando a mim mesma por ter me assustado. Mas era como se o som da minha voz o tivesse irritado, e aquilo não fazia sentido. Eu podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas tinha certeza absoluta que não havia feito nada para irritá-lo daquela maneira nas últimas vinte e quatro horas. O que quer que tivesse perturbando não podia ser culpa minha.
Ele estava parado ainda de costas para mim e ofegava, o que no caso dele era engraçado. Ou talvez não. O que quer que tivesse levado o vampiro a subitamente inalar bizarras quantidades de oxigênio não podia ser algo bom.
Ele virou a cabeça para trás, finalmente me encarando.
- O que você está fazendo aqui? – ele perguntou, tirando as luvas que tinha nas mãos e as devolvendo à prateleira no canto da sala.
- Levando em conta que eu moro aqui e essa é a minha sala de treinamento, eu que devia estar fazendo essa pergunta. – eu disse, sentando no banco simples de supino.
Eu esperei que ele retrucasse com um comentário engraçadinho. Mas, para meu profundo choque, apenas respondeu minha pergunta.
- Não consegui dormir. – disse ele, simplesmente. Eu não estava gostando nada daquilo. Mais cedo naquela noite , embora não tivesse flertado comigo como o habitual, de resto havia se comportado normalmente. Agora, porém, seu tom estava frio, distante. Tinha alguma coisa acontecendo e eu precisava saber o quê. Mesmo que minha presença ali estivesse claramente o incomodando.

Bom, o problema era dele. Eu não pretendia ir a lugar nenhum.

- E por isso você decidiu vir até aqui destruir minha sala de treinamento? – eu perguntei, cética, ignorando o fato de que aquela havia sido a minha ideia inicial também. Bom, menos a parte da destruição.
- Era ou isso ou a minha cripta. – murmurou ele, que havia pego o saco de pancadas caído e o prendia com uma nova corda.
- O quê? – eu perguntei, franzindo a testa.
- Nada, caçadora. – disse ele, em tom de quem não quer conversa – Não imagino que você tenha vindo até aqui pra papear, de qualquer forma.

Ele estava me mandando calar a boca? Era isso mesmo?

O atrevimento daquele desgraçado não conhecia limites.

- Qual é o seu problema hoje? – eu explodi – O que eu fiz dessa vez pra machucar seus sentimentos delicados? – ok, ironizar os assim chamados “sentimentos” dele era golpe baixo. Mas eu não dava a mínima. Ele é que havia me chamado para a briga, afinal de contas.
- Tem que ser por você, né? – ele perguntou, rindo – Eu não posso ter nenhum outro problema. Você simplesmente não consegue aceitar o fato de que talvez o mundo não gire ao seu redor, consegue?
- Bom, é em mim que você está descontando seu mau humor. Só posso assumir que o problema é comigo. Você tá esquisito desde cedo, qual é o problema?
- Oh, é isso então. – disse ele, com aquela risada irritada que eu detestava – Quer saber, ? A culpa não é minha se você não sabe o que quer. Ficou irritada por que eu aceitei seu “não” como um “não”? Essa era uma das suas condições, não era? Ao invés de ficar me cobrando explicações você devia estar tentando decidir o que quer, porque sinceramente, tá ficando difícil te esperar chegar a uma conclusão.
E de repente eu soube exatamente o que queria.

- Brigar. – eu disse, em um surto de inspiração.
- O quê? – ele perguntou, confuso.
Era bem simples, na verdade. Eu queria que ele me quisesse. Eu odiava o fato de ele ser capaz de resistir, de aceitar uma recusa minha sem tentar me fazer mudar de ideia. Toda atenção que ele havia me dado nos últimos meses havia me acostumado mal. Eu me tornara dependente daquilo, da sensação de ser especial, de ser o maior desejo de alguém. Eu era dependente de ser dependente de mim, se é que aquilo fazia sentido. Por isso qualquer sinal de independência dele me incomodava profundamente.
Por sorte, porém, eu sabia o que fazer para virar o jogo a meu favor novamente. Afinal, eu conhecia todos os botões de . Sabia exatamente qual apertar para conseguir o que eu queria.
- Você perguntou o que eu quero. Brigar com você, é isso que eu quero.
Ele riu, incrédulo.
- Não sei se você percebeu, amor, mas nós estamos brigando. – disse ele, em tom desagradável – Já conseguiu o que queria.
- Você não entendeu. – eu disse, pulando do banco no qual estava sentada e me aproximando dele – Brigar de verdade. Uma luta, . Eu e você. Aqui e agora.
- Por quê? – ele perguntou, me olhando desconfiado.
- Bom, eu sou uma adversária melhor que o saco de pancadas, te garanto isso. E foi você mesmo que disse que já era hora de voltar com os treinos. – eu atravessei os últimos passos, até estarmos a poucos centímetros de distância. Fiz questão de olhá-lo nos olhos antes de continuar – E então, ? O que vai ser?

’s POV

Ela estava planejando algo. Eu conhecia aquele brilho nos olhos dela. tinha alguma motivação oculta para aquilo, eu tinha certeza.
A coisa esperta a fazer seria sair dali. Eu não estava com cabeça para os nossos joguinhos, não naquela noite. Eu devia ter ido embora assim que ela abriu a porta. Mais que isso, não deveria nem ter vindo aqui, para início de conversa. Devia ter mantido minha distância simplesmente porque no momento mal conseguia suportar olhar para ela. A garota que eu amava. A garota que eu estava traindo. Não era culpa dela, mas era como se fosse. A proximidade de naquele momento me lembrava o quanto eu detestava a mim mesmo. Então, por consequência, eu a detestava também.
Eu devia ir embora. E eu teria ido embora se não fosse por um pequeno detalhe: estava certa. Ela era uma adversária muito melhor que o saco de areia. E todo meu ser estava implorando por violência.

Eu a segurei pelos ombros e empurrei-a com força, fazendo com que ela se chocasse contra o banco. Acho que aquilo era resposta o suficiente.

Ela se levantou imediatamente, assumindo sua postura de luta e me fuzilando com os olhos. Fiz questão de lançar a ela meu sorriso mais desagradável. O que ela esperava, um aviso?
- Pelo visto suas noções de ética continuam as mesmas. – disse , me acertando com um chute no estômago.
- Ética? – eu perguntei, bloqueando os ataques descuidados de com facilidade. Raiva a deixava mais forte, porém mais desleixada – Acho que já tenho uma lição nova pra você, caçadora. Jogue sujo ou você perde.
- Oh, sério? – disse ela, me dando uma joelhada bem no meio das pernas. Eu devia ter previsto isso – Obrigada pelo conselho.
- Filha da puta. – eu disse, gemendo de dor enquanto ela me dava um segundo para me recuperar. Pelo menos isso.
- Sujo o suficiente pra você? – perguntou ela, com um sorriso sacana e um brilho excitado nos olhos.
A parte triste era que eu não podia nem ao menos me irritar de verdade com quando ela me dava aquele sorriso. Eu nunca a via feliz de verdade, e sabia que o puro prazer que ela obviamente sentia ao lutar era o mais próximo de felicidade que ela era capaz de alcançar. O sorriso sacana e maldoso era o único sorriso verdadeiro que ela conseguia dar, e ele mexia comigo. Fazia meu coração ameaçar bater novamente. Convertia todos os meus desejos em vontade de tocá-la, beijá-la, segurá-la em meus braços...

... E era exatamente isso que ela queria, não era?

Eu quase ri. Era impressionante, realmente. Ela simplesmente não conseguia se controlar. Ao menor sinal de que ela talvez não fosse o centro absoluto dos meus pensamentos, se desesperava. Eu já devia ter imaginado que aquele era o motivo da luta repentina. Ela sabia que uma boa briga me excitava e, por mais que eu odiasse admitir, eu era facilmente manipulável quando excitado.

Era isso que a caçadora queria. O tempo inteiro era isso que ela queria.

Ela tinha que me dominar, me colocar de volta na palma de sua mão. Afinal, não podia perder o controle ou o mundo explodiria. Ela sabia exatamente o que fazer para me colocar de volta em sua teia, e abusava desse conhecimento sem nenhuma vergonha.
Será que aquilo era o castigo divino do qual as igrejas falavam? Bilhões de mulheres no planeta e eu tinha que me apaixonar justo por aquela?
Eu ataquei sem pensar, pegando-a de surpresa. Eu nem ao menos pensava nos golpes que dava, agindo por puro instinto. Estava funcionando, no entanto. era apenas capaz de recuar e me bloquear de forma precária, já que eu não a dera um segundo sequer para se reagrupar. Essa era a nossa grande diferença. perdia o controle quando sentia raiva, mas eu havia aprendido a converter o sentimento em uma forma de arte.
Para meu azar, no entanto, era boa no que fazia, de forma que não demorou muito até que ela arranjasse uma oportunidade para revidar. Seu punho veio em direção ao meu rosto e eu o segurei. Aproveitando o apoio, girou o corpo e me acertou com um chute para trás, me lançando a uma distância razoável.
Ela virou novamente para me encarar, os punhos em posição e uma expressão confiante no rosto. Eu odiava aquilo, a presunção, o excesso de confiança... se achava imbatível. Não importava quantos erros ela cometesse no meio de uma luta, ela não perdia aquela certeza absoluta de que ia vencer. Aquilo me irritava mais do que deveria, pois o excesso de confiança dela não era apenas chato, era perigoso. De alguma forma eu sabia que seria essa noção de grandeza que a derrubaria algum dia.
Ela bloqueou meu primeiro soco com facilidade, mas levou o segundo no estômago.
- Qual foi a primeira coisa que eu te ensinei, ? – eu perguntei, segurando a perna dela de forma a bloquear a tentativa de chute – Nunca subestime seu adversário.
Eu puxei a perna dela, esperando acabar com seu equilíbrio. , no entanto, jogou o peso do corpo para frente no momento que eu a puxei, me fazendo cambalear para trás e soltá-la. Ela não perdeu tempo e aproveitou a súbita vantagem, me acertando no rosto duas vezes em uma rápida sucessão com ambos os punhos.
- Digo o mesmo. – disse ela, acertando mais um soco.
Eu consegui bloquear o quarto e, segurando o rosto da caçadora dos dois lados, bati minha cabeça contra a dela com força. Dessa vez foi quem cambaleou para trás, e antes que ela conseguisse recuperar o equilíbrio, eu a empurrei com força, fazendo com que ela caísse no chão.
Foi o fim da minha sorte. Eu pulei sobre ela, mas com um pouco de impulso ela conseguiu fazer com que rolássemos no chão com facilidade, parando em cima de mim. Ela conseguiu completar mais alguns socos antes que eu segurasse seus braços e nos girasse novamente.
Ela ficou por cima novamente. Eu fiquei por cima novamente. Eu prendi os braços dela com força contra o chão. Ela me beijou.

Ela me beijou.

Simples assim. Como se fosse a coisa mais normal a se fazer em uma situação como aquela.

Ela levantou um pouco a cabeça, seus lábios tocaram os meus e quando eu dei por mim já estava correspondendo com aquela ânsia que parecia nunca ter fim. Era melhor quando era ela quem me beijava, e isso era tão raro. Tão raro que eu não podia simplesmente resistir, não importando as circunstâncias anteriores àquele momento. E daí se ela estava agindo de caso pensado? quase nunca tomava a iniciativa em me tocar de modo não violento, e eu não podia simplesmente ignorar a situação. Era a regra mais básica de todas: quando a garota que você ama te beija, você corresponde. Não existe outra opção.
Eu soltei os braços dela, levando minhas mãos até sua cabeça e embrenhando meus dedos em seus cabelos. As mãos dela foram imediatamente para as minhas costas, suas unhas roçando minha pele através do material da camisa. Ela não estava fingindo. Segundas intenções à parte, realmente me queria. Eu podia afirmar aquilo pelas batidas de seu coração, pelos sons que escapavam de sua garganta, pelo modo como seu corpo procurava tocar o meu de todas as formas possíveis. me queria, e por mais que aquilo não fosse tudo o que eu queria, era o suficiente por enquanto.
Passando minha mão por debaixo de seu joelho, eu guiei a perna dela até minha cintura. Havia começado a descer meus beijos por seu pescoço quando nos girou, de forma a deitar sobre o meu corpo. Eu teria nos invertido novamente se não fosse pelo súbito toque de mãozinhas quentes e impacientes contra minha barriga, puxando minha camisa para cima com avidez, como se a peça de roupa fosse ofensiva. Eu levantei meus braços para ajudar, completamente de acordo em eliminar todas as barreiras possíveis entre minha pele e a dela. Ela voltou a me beijar após atirar minha camisa longe, e minha mão imediatamente encontrou a alça da camiseta dela, a puxando para baixo com força. Eu precisava tocá-la e nada mais no mundo importava. Já havia esquecido completamente o que estávamos fazendo antes.

Isto é, até o punho dela acertar com força a minha costela.

- Não tão rápido, sanguessuga. – disse ela, rindo e se levantando.
Eu não entendi de imediato. Em um segundo ela estava ali e no outro ela estava em pé a minha frente e minha costela doía. Mas então eu olhei direito para , e o cabelo bagunçado, os punhos em riste e o sorriso no rosto deixaram tudo claro.

Então era assim que ela queria jogar? Por mim tudo bem. Já sabia o quanto aquilo podia ser divertido.

- Golpe baixo, . – eu disse, me levantando.
- O beijo ou o soco? – ela perguntou, rindo enquanto começávamos a circular um ao outro.
- Os dois. – eu disse, continuando a caminhar pela borda do círculo invisível, sem tirar os meus olhos dela por um segundo sequer.
- Bom, foi você quem disse para jogar sujo. Só usei minhas técnicas. – disse ela, em um tom de voz que apenas parecia relaxado. Eu sabia que ela estava tão ligada quanto eu, no entanto. Ambos estávamos apenas esperando por uma brecha, um vacilo, por menor que fosse, para atacar.
- Se você usar a primeira em uma luta real eu vou ter que matar o filho da puta. – eu disse, me arrependendo em seguida. Aquele era o tipo de demonstração de ciúmes que não queria escutar.
Ela ficou tensa por um segundo, o sorriso sumindo do rosto. Eu não ousei aproveitar a oportunidade para atacar.
- Matar o filho da puta é o objetivo. – disse ela após um momento, parecendo relaxar – E você não pode se meter em nada.
A mensagem foi sutil o suficiente, mas eu sabia que ela não estava falando sobre eu me meter nas brigas dela. Estava me lembrando que eu não tinha direito de sentir ciúmes. Estava me lembrando das malditas regras.
Podia ser bem pior, é claro. Ela podia ter insistido no meu deslize, mas havia resolvido deixá-lo passar e voltar ao que estávamos fazendo. Eu quase suspirei aliviado. A última coisa que eu queria no momento era discutir de verdade com ela. As coisas estavam começando a ficar interessantes.
- Só me explique uma coisa, pequena. – eu disse, ansioso para mudar de assunto, enquanto voltávamos a circular – Seu único objetivo era me fazer te largar?
- Mais ou menos. – disse ela, parecendo esquecer o momento desconfortável – Também queria me livrar da sua camisa. Você é mais tolerável sem ela.
Eu decidi não comentar a leve alfinetada. Ela não fez escândalo pelo meu comentário possessivo, nada mais justo do que deixar aquela passar também.
- Tem certeza que eu não vou te distrair? – ok, então “deixar passar” não era a escolha certa de palavras. Mas ao invés de me ofender, eu havia transformado o comentário dela em uma provocação.
- Hm... Não. – disse ela, após fingir pensar por um segundo. Eu havia aproveitado essa segundo para atacá-la, mas estava pronta. Ela conseguiu bloquear o soco que eu havia preparado poucos centímetros antes do impacto, e assim voltamos a velha rotina de golpe – bloqueio – golpe. Nós combinávamos muito, e em uma luta aquilo era frustrante. Podíamos passar horas tentando pegar o outro desprevenido, sem sucesso.

Só me restava tentar distraí-la.

- Admita, você se concentra melhor quando eu estou vestido. – eu disse, me abaixando para evitar um chute giratório de .
- Não tenho nada pra admitir. – disse ela, bloqueando todos os golpes de uma sequência com a qual eu ingenuamente havia esperado pegá-la de surpresa – E você devia ter cuidado com esse seu ego. A verdade pode acabar machucando.
- Olha quem está falando de ego. – eu disse, conseguindo acertá-la com um soco de direita, porém levando um chute que, embora mal dado, havia acertado minha coxa – Não consegue nem admitir que eu te distraio. Seu ego é o maior nessa sala, . Você seria capaz de quebrar o pescoço só pra manter o queixo erguido.
- Ou eu posso simplesmente tentar quebrar o seu. – ela disse, partindo para cima de mim com súbita determinação.

Resumo de uma longa história: ela tentou. Não conseguiu.

Estávamos de volta ao empate irritante.

- Vamos lá, caçadora. – eu disse, frustrado – Se solta um pouco. Soco, bloqueio, soco... É só isso que você tem pra mim?
Para minha extrema infelicidade, eu era um excelente estimulador. Ao ouvir minhas palavras, definitivamente se “soltou”, me acertando com uma combinação tão aleatória de golpes que eu só fui capaz de me desviar de um.
Confiante, ela me socou na mandíbula e girou o corpo, tentando me acertar na barriga com o cotovelo.

Aquele foi o erro dela.

Ela devia ter aprendido na noite da fábrica que aquele golpe não era o forte dela. Essa era a terceira vez que ela falhava em me acertar com ele, e eu sabia que não seria a última. não desistiria até aprender aquela cotovelada. Eu precisaria ensiná-la, do contrário ela a usaria na prática até pegar o jeito. Era a droga do excesso de confiança novamente. tinha certeza absoluta que conseguiria mais cedo ou mais tarde, por isso insistia.
Eu havia a prendido em meus braços de costas para mim, uma mão em sua cintura, outra segurando seu seio deliberadamente. Meus dois braços imobilizavam os dela. se debateu tentando se soltar, mas meu aperto era firme. Eu podia tentar fazê-la parar, mas eu estava gostando da forma como os movimentos dela a faziam se esfregar em mim. Eu apertei meu braço contra a cintura dela com um pouco mais de força, pressionando-a contra a minha virilha de forma a deixá-la saber exatamente o quanto eu estava gostando do esforço dela.
- Vai dizer que isso não te distrai? – eu murmurei no ouvido dela, abaixando as alças de sua camisa e seu sutiã com força. Ela continuou a se debater e, com o braço que eu havia liberado ao puxar as alças, começou a tentar empurrar meu braço em sua cintura. Não preciso nem dizer que se ela realmente quisesse se soltar estaria aplicando muito mais força do que estava.
Eu abaixei as alças o máximo possível e agarrei seu seio sem nenhuma gentileza, prendendo seu mamilo entre meus dedos e o estimulando. Ela parou de lutar, amolecendo nos meus braços e deixando a cabeça cair para trás em meu ombro. Aproveitando a súbita exposição de seu pescoço, passei a distribuir leves mordidas pela coluna deste, fazendo-a gemer meu nome de forma tão provocante que eu precisei apertá-la com mais força em meus braços, precisando sentir o calor dela invadir cada centímetro do meu corpo. Incapaz de me segurar, aliviei a pressão em sua cintura de forma a descer minha mão para o meio de suas pernas. Eu precisava tê-la tremendo de prazer em meus braços ou acabaria explodindo.
No momento em que meu braço deixou sua cintura, a mão de agarrou minha nuca e, flexionando o corpo, lançou o meu para frente, me fazendo cair de costas no chão aos seus pés, com uma força que teria quebrado a coluna de um humano.
- Primeira lição, . Nunca subestime seu adversário. – disse ela, enquanto eu me levantava – Você não me excita tanto quanto pensa.
Eu a encarei sem saber se queria quebrar seu pescoço ou arrancar suas roupas. Aquela garota virava minha cabeça com facilidade, e eu sabia que era recíproco. podia dizer o que quisesse, mas todos os meus sentidos a desmentiam. Não era tão fácil para ela resistir. Naquele momento ela me desejava tanto quanto eu a desejava. A caçadora podia negar à vontade, eu não me importava. Na verdade até preferia. Tudo aquilo havia começado porque eu não havia corrido atrás dela mais cedo, então só havia um jeito de resolver a situação. se faria de difícil e teria o que queria. Se ela queria ser a caça, eu não me incomodava nem um pouco em ser o caçador. Ela podia fugir o quanto quisesse.

Assim seria ainda melhor quando eu a tivesse gemendo e se contorcendo embaixo de mim.

’s POV

Eu era uma lutadora. Uma defensora dos mais fracos. Uma guerreira da luz contra a escuridão, ou qualquer outra definição clichê e brega como essa. Eu era alguém que exterminava o mal.

Então por que o mal me excitava tanto?

Era o brilho puramente perverso nos olhos de que me fazia ter certeza de que aquele joguinho valia a pena. Que por mais difícil que fosse, resistir até levar ao limite da sanidade seria mais satisfatório do que simplesmente parar de lutar. Era errado o modo como o perigo esquentava meu sangue e acelerava meu coração, mas aquilo era mais forte que meu senso de moral.

A verdade era que meu senso de moral era bem fraco não importando a situação. Mas você entendeu meu ponto.

- Você sabe que vai pagar por isso, não sabe? – disse ele, enquanto se levantava.
- Pagar pelo quê? Por te arremessar como o trapo inútil que você é? – eu perguntei, sorrindo.
- Oh, ofensas. Esse não é o tipo de comportamento que uma boa menina deveria ter. – ele estava sorrindo também, e eu soube o que ele diria antes mesmo de as palavras deixarem sua boca – Será que eu vou ter que te curvar sobre o meu colo novamente?
Ele quase conseguiu me fazer perder o controle. O idiota sabia o quanto aquele incidente no meu quarto ainda me envergonhava. Morder a isca, porém, apenas pioraria a situação, e naquele raro momento de clareza eu entendia isso perfeitamente. Talvez fosse pelo fato de estarmos ali, lutando em minha sala de treinamento, onde tudo me lembrava que aquela era a minha área de especialização. Ou talvez fosse aquele sede por poder que vinha crescendo em mim desde o início de minha história com . Fosse o que fosse, o fato era que eu não estava disposta a deixar dar todas as cartas. Estava mais do que na hora de começar a virar aquele jogo.
- Não sei... Talvez seja a sua vez de apanhar pra aprender a se comportar. Se você for bem bonzinho talvez eu nem use o chicote.
Eu não fazia ideia de onde eu tinha tirado aquilo, mas serviu para conseguir o impossível: calar a boca de . Ele me encarou com os olhos arregalados, obviamente surpreso e...

Oh. Eu não estava esperando por aquilo.

Ele havia gostado da ideia. Se eu perguntasse ele negaria, mas eu vi a expressão no rosto dele. havia perdido o controle por apenas um segundo, mas foi o suficiente para eu perceber que a ideia o excitava, mesmo que contra a vontade. Quem diria, o vampiro que tanto se orgulhava de nunca ter cedido o controle para ninguém no fundo gostava da ideia de ser subjulgado. O dominador era na verdade um submisso reprimido.
Oh, eu estava adorando aquilo. Definitivamente algo no qual se pensar mais tarde. No momento, é claro, eu estava meio ocupada.
Tirar proveito do choque de foi fácil, mas não demorou até que ele se recuperasse o suficiente para balancear a luta. Mas o que antes havia sido uma competição de precisão e controle havia se tornado uma demonstração de ferocidade. parecia ter começado a levar as coisas mais a sério depois da minha sugestão que obviamente o deixara furioso. Os golpes dele me atingiam por todo corpo, e eu já previa os hematomas que teria pela manhã. O que me consolava era o fato de que ele teria tantos quanto eu.
Na primeira oportunidade que tive, o atingi com uma série de chutes. Um para trás, um frontal, um circular, um alto... O alto foi o problema. agarrou minha perna, a encaixou em seu ombro pelo tornozelo e me empurrou contra a parede, jogando seu corpo contra o meu.
Eu mal tive tempo de recuperar o ar que havia sido roubado dos meus pulmões com o impacto. Antes mesmo que eu pudesse manifestar de alguma forma a dor da colisão, senti entre minhas pernas, investindo sua pélvis contra a minha apenas uma vez, com força, enquanto segurava meu quadril em posição com uma mão e com a outra ainda prendia meu pé.
Eu arfei em surpresa, minhas mãos automaticamente agarrando seus ombros e meus olhos fitando seu rosto. O babaca tinha um sorriso carregado de maldade no rosto e, sem esperar por nenhum tipo de sinal verde da minha parte, repetiu o movimento, mais devagar dessa vez, me deixando sentir por mais tempo o material áspero do jeans contra o algodão macio da minha calça. Os olhos dele prenderam os meus, tornando impossível que meu olhar se desviasse. Não havia outra cor no mundo se não a daqueles olhos brilhantes, cheios de segredos, cheios de promessas... Ele estava jogando baixo. Mas naquele momento eu não me importava.
Decidindo que outro breve intervalo não faria mal, eu deixei que minhas mãos subissem por seu pescoço, emoldurando seu rosto antes de lançar meus lábios contra os dele, beijando-o com força. Confiando na força de para me segurar, com um pouco de impulso levantei minha perna que ainda tocava o chão e a prendi em sua cintura, melhorando o ângulo entre nossos corpos.
Era difícil não perder totalmente o controle, e eu detestava isso. Detestava gostar tanto da forma como o corpo dele pressionava o meu contra a parede. Do toque ainda frio de suas mãos contra cada parte de mim que alcançavam. Mais do que tudo, porém, eu odiava estar beijando-o naquele momento.
O problema não era o beijo em si. Minha mente já estava de certa forma em paz com a ideia de beijar . Mas naquele momento eu sentia as presas dele alongadas e aquilo me perturbava por todas as razões erradas.
Ele raramente me beijava com as presas alongadas. Era algo que ele podia controlar na maior parte das vezes, e eu desconfiava que o fazia para me deixar esquecer que eu estava beijando um vampiro. Sensações intensas como muito ódio ou muita excitação tiravam o controle delas da vontade dele, e eu imaginava que no momento a causa fosse uma combinação de ambas sensações. Geralmente, no entanto, tinha poder o suficiente sobre sua natureza para tentar evitar que eu me lembrasse dela. Evitar que eu o odiasse.

Ele era um idiota.

Não era ele quem eu odiava naquele momento.

Eu gostava. De tudo aquilo. Do jeito como elas arranhavam de leve meus lábios, do lembrete de com quem exatamente eu estava lidando... Aquilo me excitava. O monstro me excitava tanto quanto o homem, e eu odiava aquele desejo em mim. nunca havia me mostrado nada além de seu lado humano, mas me fizera conhecer a real natureza de um vampiro, e eu gostava. Parte de mim respondia intensamente àquilo, e era justamente a parte que eu costumava me recusar a reconhecer. Eu odiava aquilo, odiava sentir aquilo, e mais do que tudo odiava o modo como aquilo me fazia me sentir impotente, indefesa.

Eu era uma caçadora. Sem minha força, eu não era nada.

As mãos dele começaram a subir a barra da minha camisa e eu deixei que ele a tirasse. Eu podia fazer isso. Estar com não precisava significar me render completamente. Eu podia manter o controle. E não apenas sobre mim mesma.
Ok, o roçar das presas dele contra a parte não coberta dos meus seios não estava ajudando muito a minha resolução. Eu não podia deixar ele me morder. Em primeiro lugar porque aquilo significaria perder a luta, e em segundo... Bom, em segundo significaria perder a luta não declarada que travávamos por trás da batalha física. Estava na hora de mudar a situação.
Segurando a cabeça dele, guiei seus lábios novamente até os meus. Desci minha perna ao redor da cintura dele com calma, para que ele não percebesse. Quando tive certeza de que estava suficientemente distraído, mordi com força o lábio inferior dele, ao mesmo tempo em que conectava os lados das minhas mãos com força contra as junções de ambos os seus ombros com o pescoço. O impacto e a dor fizeram com que ele perdesse um pouco o equilíbrio, o suficiente para fazê-lo cambalear um pouco e me permitir soltar minha perna. Apoiada novamente sobre meus dois pés, chutei-o para longe com força, aproveitando a breve distração para alcançar uma estaca em uma prateleira próxima.
- É como você me disse naquele primeiro treino. Sempre tenha sua arma ao seu alcance. E já que eu obviamente fiz com que você se armasse... – eu falei, em tom despreocupado, deixando o duplo sentido no ar.
Ele pareceu confuso por um segundo, e eu tentei não rir. Lógica se tornava um pouco mais difícil para vampiros quando os instintos tomavam conta. Eventualmente, no entanto, o olhar perdido se cerrou levemente e, com presas estendidas e raiva evidente, ele rosnou pra mim. Dessa vez eu não consegui controlar o riso. Naquele momento ele parecia mais bicho do que gente, e por mais que o rosnado fosse sexy, a situação era meio engraçada.
, porém, não parecia compartilhar da opinião. Ao ouvir minha risada ele avançou em minha direção, mas eu fui mais rápida. Larguei por um momento a estaca e, com um salto, me agarrei com as duas mãos à barra de musculação acima da minha cabeça. Minhas pernas imediatamente agarraram o pescoço dele e, largando o suporte, me deixei cair para trás, apoiando as mãos no chão e lançando o corpo dele para frente com as pernas. Caindo de bruços contra o chão, ouvi o impacto que causou ao atingir o solo e tentei me levantar antes que ele se recuperasse. Péssima ideia. O sangue que correra para o meu cérebro enquanto eu ainda estava de ponta-cabeça ainda não tivera tempo de descer, de modo que a tonteira bloqueou minha tentativa de ficar de pé.

E minha capacidade de reagir ao que aconteceu em seguida.

Quando dei por mim já estava sendo lançada contra o topo do armarinho no qual guardávamos algumas armas. estava sobre mim no momento seguinte, e eu perdi as esperanças. É isso, eu pensei, irritada. Ele vai ganhar de novo.
Tudo o que ele precisava fazer era me morder ou simular uma mordida. Aquela era a nossa regra, um golpe que seria mortal em uma briga real encerava a luta. Naquele momento eu tinha certeza de que ele não perderia essa chance.

Ao que parece, no entanto, minha tendência a superestimá-lo era tão grande quanto a de subestimá-lo.

A boca dele não tocou meu pescoço, e sim meus lábios. Foi mais um ataque do que um toque, mas o resultado era o mesmo. Ele havia se deixado distrair. Havia desrespeitado seu próprio conselho e agora iria perder.
Ele me queria mais do que queria a vitória, e era nisso que ele estava errado. Nossa relação era o que era em parte por causa disso. Eu era o ponto fraco de . A razão pela qual ele se deixava ser usado.

Eu detestava me sentir fraca ocasionalmente. Me perguntava como devia se sentir sendo o fraco o tempo todo.

Os beijos dele eram insistentes e seu corpo aos poucos se ajustava a procura da melhor maneira de se deitar sobre o meu. Eu ainda tinha espaço o suficiente para me mover, no entanto, espaço esse que eu tinha total intenção de usar. Diferente de , vencer era só o que me importava. E aquele pensamento me tornava capaz de resistir a ele.
Erguendo meus joelhos até meus seios, forcei meus pés com força contra o estômago do vampiro, conseguindo tirá-lo de cima de mim. Me levantando, recolhi a estaca que permanecia largada no chão e, com uma breve sequência de chutes, consegui tê-lo contra a parede.
Em poucos segundos eu estava diante dele. Em poucos segundos a ponta de minha estaca estava pressionada contra seu peito.

Em poucos segundos eu conseguira ganhar a luta.

- E aqui termina a lição. – eu murmurei, jogando de volta para ele as palavras que ele me dissera em nosso primeiro treino. A sensação de vingança foi quase tão boa quanto a que senti da última vez. Quando pude dizer a que ele não era “bom o suficiente”. Na manhã de nossa primeira noite juntos eu havia devolvido a ele as palavras que haviam me diminuído como nada antes em minha vida. Agora eu devolvia a ele também as palavras que me fizeram questionar pela primeira vez minhas habilidades como caçadora. Não havia mais nada que ele pudesse dizer para me destruir. Após muito tempo, eu finalmente era capaz de reconhecer a total extensão do meu poder. Não só como caçadora, mas como mulher.
Por mais alguns segundos nada foi dito. Minha respiração, errática devido ao exercício, começou a normalizar. O mesmo aconteceu com a de , que lentamente parecia readquirir controle total sobre si mesmo. Seus olhos que antes pareciam um pouco selvagens voltaram a exibir o olhar intenso e inteligente com o qual eu estava acostumada.

E eu não havia movido minha estaca.

Eu já podia largá-la. Já havia ganhado. Mas por alguma razão eu não conseguia movê-la. Todo meu corpo havia relaxado, porém minha mão continuava a pressionar o pedaço de madeira contra o peito nu do vampiro a minha frente.
Quando pareceu perceber isso, a tranquilidade do momento se extinguiu. O olhar dele recaiu sobre a arma e foi como se algo estalasse no ar. Cada centímetro do meu corpo pareceu entrar em alerta, e eu pude sentir ficando tenso da mesma forma.
Ele voltou a me encarar, seus olhos se erguendo novamente para encontrar os meus como se para transmitir uma mensagem. Uma pergunta, na verdade. A pergunta. A expressão no rosto dele era impassível, mas eu sabia no que ele estava pensando.
- Acha que eu não sou capaz? – eu perguntei, em voz baixa, porém firme. Com um pequeno passo, aproximei um pouco mais nossos corpos, mantendo a estaca em posição.
- Sinceramente? Eu já não sei mais. – disse ele, sem esboçar nenhuma reação.
Eu não respondi. Lá estávamos nós, frente a frente, a vida dele literalmente em minhas mãos. O ar a nossa volta parecia tenso, elétrico. Naquele momento, estava claro para mim que eu poderia matá-lo se quisesse. Claro, havia o acordo de e Miles. Meu chefe havia me proibido de matar o vampiro, mas sinceramente, o que aconteceria comigo se eu desrespeitasse aquela ordem? Miles não me botaria para fora da Organização. Eu não sabia o porquê era tão importante para ele que permanecesse vivo, mas duvidava que fosse algo que me renderia mais do que uma reprimenda e alguns meses cumprindo algum castigo. Em suma, eu podia matar . Por todo esse tempo no qual ele estivera aqui, eu poderia tê-lo matado a qualquer momento que quisesse.

Essa era a questão, é claro. Eu queria?

- Você vai? – ele perguntou, finalmente.
- Não sei. Acha que eu devia? – eu rebati, sem querer perder a oportunidade de brincar com ele.
- Não cabe a mim responder isso. Você quer?
E estávamos de volta à pergunta de um milhão de dólares.
Não, eu não queria. Claro que eu não queria, não realmente. Eu ainda odiava , ainda carregava dentro de mim algumas feridas que ele causara, mas não queria matá-lo. Por mais que ainda o visse como o monstro que infernizara minha vida por tanto tempo, não podia mais matá-lo, simplesmente porque havia mais em jogo do que cerca de um ano atrás. não era mais só o monstro... Ele era alguém que eu conhecia. Alguém por quem eu me sentia atraída. Alguém que dormira comigo mais de uma vez. Querendo eu ou não, se tornara parte da minha vida, e eu não podia matá-lo.
Eu pressionei a estaca contra o peito dele com um pouco mais de força, fazendo-o sibilar em surpresa. Meus olhos se cravaram nos dele, tentando fazer com que ele me entendesse. Não, ele não iria morrer ali. Não havia motivos para isso. Seria um desperdício, inclusive. Para que dar um fim àqueles olhos, àquela boca, àquele corpo? Por que matar um vampiro tão intensamente atraente quando este não era uma ameaça?
Eu empurrei a estaca um pouco mais, até onde a ponta começava a furar a pele do vampiro. parecia ter entendido que eu estava brincando ele, pois apenas continuou sustentando meu olhar. Os lábios dele então se curvaram em um leve sorriso... O meu sorriso. Aquele que fazia meu corpo pegar fogo e meus joelhos tremerem. Não que eu fosse deixar ele perceber o efeito que tinha sobre mim, é claro. Muito pelo contrário. Minha reação àquele sorriso foi apenas segurar a estaca com mais força e, lentamente, começar a descê-la pelo corpo de .
A ponta da estaca traçava um caminho vermelho intenso pelo peitoral pálido do vampiro. Ele tinha os olhos fechados e as sobrancelhas franzidas no que só podia ser dor. A mão de agora segurava meu pulso, mas ele não fazia força para parar meus movimentos. Ele sentia a dor, mas não iria reclamar dela. gostava daquilo. Gostava da dor.
- Meu pequeno masoquista. – eu murmurei, divertida, em tom de zombaria.
- Não sou seu “pequeno” nada. – ele retrucou por entre os dentes, em tom ofendido. Homens e seus egos facilmente machucáveis.
Minha mão livre tocou então a parte nada pequena de sua anatomia por sobre a calça, e o arquejo que eu não havia conseguido arrancar dele pela dor finalmente escapou de seus lábios. Acho que eu estava perdoada.
A estaca descia agora pela barriga de , enquanto com a outra mão eu o massageava devagar por cima do material dos jeans. Não era exatamente o tipo de toque do qual ele precisava, e eu sabia muito bem disso. Era a minha vez de provocá-lo.
Os olhos dele continuavam fechados e a expressão em seu rosto era a de alguém sob o melhor tipo de tortura. Eu continuei a atormentá-lo até a ponta da estaca atingir a barra da calça de . Parei então completamente meus movimentos, deixando que minhas mãos caíssem devagar até estarem novamente junto ao meu corpo.
A baixa exclamação de protesto que proferiu então soou como música para meus ouvidos. Os olhos dele voltaram a se abrir, e o que eu vi neles me pegou de surpresa. Ao invés do habitual olhar sexy, perigoso e cheio de promessas, o que aqueles olhos me comunicavam no momento era o desespero de quem implora por algo. Ele estava totalmente vulnerável. Sabia que não podia fazer nada até que eu largasse a estaca, sabia que estava sob o meu poder. Pela primeira vez, quem estava no comando era eu.
A mão de que ainda segurava meu pulso passou a massageá-lo devagar, em um pedido mudo para que eu soltasse a arma. Eu a segurei por mais alguns momentos, de forma totalmente deliberada. Eu queria prolongar a tensão no ar, alimentá-la até que estivesse prestes a estourar. Meu coração parecia querer escapar do meu peito, minha respiração tornara a ficar difícil...

Sem aguentar mais, eu deixei que a estaca caísse.

O baque da madeira contra o chão nos tirou da inércia. Eu atirei meus braços em volta de seu pescoço enquanto com os seus enlaçava minha cintura. Eu deixei que ele me beijasse pela milésima vez naquela noite, e ainda assim como se fosse a primeira. Eu devia estar me acostumando, mas não estava. Se o mundo fosse um lugar justo, eu estaria me cansando do vampiro. Estar com deveria saciar aquela necessidade nada saudável que eu sentia por ele, e não aumentá-la. Antes de tudo começar, eu havia contado com o fato de aquilo se tratar de uma atração passageira. Agora temia talvez nunca mais ser capaz de dizer não.
Eu estava novamente contra a parede, o corpo de pressionado contra o meu, me deixando sentir a firmeza de cada músculo sobre mim. Eu estava presa sob o peso dele, meus seios esmagados contra seu peitoral, sua pele roubando o calor da minha, e até sentir a mão de escorregando por minha barriga eu jurava que entre nós não havia espaço sequer para ar. No entanto o infeliz parecia ter conseguido o impossível, e sem aviso começou a descer os dedos para dentro da minha calça.
Agarrando os cabelos de sua nuca, puxei a cabeça de para trás, de forma que ele pudesse me encarar.
- Sem gracinhas. – eu disse, ofegando – Sem provocações. E não ouse parar como da última vez ou eu vou matar você. Eu não to a fim de brincadeiras. – concluí, em tom sério. E, céus, dizer aquilo foi bom. Era a sensação de poder novamente, de ser capaz de mandar nele. Eu nunca me sentira tão confiante em toda minha vida.
- Nem eu. – disse , puxando meu braço de forma a me fazer soltar sua cabeça e o prendendo contra a parede. Ele obviamente não gostava de receber ordens. O que foi que ele havia me dito algumas noite atrás mesmo? “Eu nunca fui submisso na vida, amor.” Assim como naquela fez, eu senti a vontade de mudar aquilo. Sabia que teria que ser algo gradual, um passo de cada vez, mas no momento soube que acabaria conseguindo. Era , afinal. Ele podia lutar o quanto quisesse, mas com o tempo acabaria fazendo exatamente o que eu queria.
Como se para confirmar meus pensamentos, a mão dele deslizou para dentro de minha calcinha.
- Isso é sério o suficiente para você? – murmurou no meu ouvido, dois de seus dedos me invadindo antes que eu pudesse responder.
Eu enterrei minhas unhas em seus ombros, sentindo o mundo girar por um momento. Meus joelhos me faltaram, mas o corpo de sobre o meu me manteve de pé. Eu estava mais do que pronta para ele, porém o movimento súbito havia me pegado de surpresa. Ele definitivamente parecia decidido a seguir minhas ordens. Ao invés do aumento gradual de intensidade com o qual eu estava acostumada, mal me deu tempo para respirar antes de começar a movimentar seus dedos, seu toque firme, sua determinação evidente. Não tive sequer um segundo para assimilar a situação antes de me ver dominada pelas sensações das quais havia me tornado escrava, tentando tanto quanto podia refrear meus gemidos para não inflar ainda mais o ego daquele desgraçado.
- Ou talvez... – ele ainda estava falando – Talvez você tivesse em mente algo como isso? – os dedos dele se curvaram em mim ao mesmo tempo em que a parte de baixo de sua palma passou a se friccionar contra meu clitóris.
Eu queimei. Queimei como ele queria que eu queimasse, queimei como eu sempre queimava quando ele estava por perto, quando me tocava. Era ridícula a intensidade com a qual eu desejava aquele toque. Eu nunca desejara o toque de um homem como desejava o de . E o jeito como ele olhava pra mim, mesmo agora... Meus olhos queriam se fechar, mas o resto de mim não deixava. O modo como me olhava me fazia querê-lo ainda mais. Eu precisava dele em mim, em cada parte de mim, precisava me perder nele e esquecer quem eu era.
- Responda, ... Eu to te dando o que você quer? – ele perguntou, e eu sabia que ele estava tentando virar o jogo – Era disso que você precisava? Por favor, pequena... Me diga que é isso que você quer. – os dedos dele continuavam a se mover, me fazendo querer dizer o que ele quisesse, fazer o que ele quisesse... Coisas que eu nunca imaginei ser capaz de desejar, coisas que assustavam até a mim mesma – Você tem alguma ideia de como é te tocar? É assim que você se sente quando se toca? Droga, caçadora... – ele começou a distribuir beijos leves por meu pescoço, seus lábios provocando minha pele com o mais superficial dos toques – Adoro sentir você... Preciso ter você de novo. Em mim, em volta de mim, me apertando, me machucando. – ele sabia o que sua voz fazia comigo, o quanto ela mexia com os meus sentidos. Por isso ele insistia em falar. Sabia que aquilo acabava com a minha sanidade – Eu posso te ter de novo? Por favor, diga que eu posso te ter de novo...
Eu queria dizer. Queria que ele parasse o que estava fazendo, que se livrasse de suas calças e me penetrasse com força, que investisse contra mim naquela parede até eu perder os sentidos. Eu precisava dele mais perto, o mais perto possível, pois nada nuca era perto o suficiente, mas aquilo não ia acontecer agora. Aquele era o modo dele pedir desculpas. Era o modo que ele tinha de apagar de vez o que acontecera no banheiro. Ele não pararia dessa vez, e nós precisávamos daquilo. Nossa relação disfuncional precisava que o acontecimento que eu trouxera de volta com meu aviso fosse superado de vez.
- Você gosta quando eu te toco? Quando eu faço isso? – os dedos dele se torceram em mim, e eu deixei escapar um soluço de prazer – Você sabe que eu não vou parar, não sabe? Nunca mais. Eu prometo, pequena, prometo... – os lábios dele desceram até meu seio e, afastando meu sutiã, se fecharam em volta de um dos meus mamilos, me fazendo literalmente ver estrelas.
Eu não durei muito tempo depois disso. Os movimentos dos lábios dele imitavam a velocidade de seus dedos e em pouco tempo eu me senti explodir em um milhão de pedacinhos, dominada por sensações tão ridiculamente fortes que por um segundo eu achei que fosse desmaiar. Mas continuava a falar comigo, e embora naquele momento eu fosse incapaz de entender o que ele dizia, o som da voz dele me segurou em um estado de consciência.
Ele continuava a beijar a área entre meus seios e meu pescoço em meio as palavras que pronunciava, mas não foi isso que me fez voltar totalmente a mim. Não, o som do meu celular tocando foi o que cuidou daquele assunto.
imediatamente se endireitou a minha frente, colando sua testa a minha como se o ato fosse me impedir de sair dali. Eu tentei falar, mas seus lábios sobre os meus engoliram as palavras.
- ... – eu insisti, entre beijos.
- Não. Não é importante. – disse ele, inflexível.
- É o toque da . Ela acordou e viu que eu saí. – eu disse, mas minha dedução não pareceu surtir efeito sobre ele.
- E daí? – perguntou , mordiscando meus lábios – Você inventa uma desculpa...
- Com certeza eu vou inventar uma desculpa, mas se não fizer isso agora ela vai desconfiar. É capaz de vir me procurar.
O telefone parou de tocar, apenas para recomeçar alguns segundos depois.
- Quem ela é, sua mãe? – perguntou, irritado.
- Não. – eu disse, aproveitando a distração dele para empurrá-lo – Ela é minha melhor amiga e eu acabo de sumir misteriosamente no meio da nossa festa do pijama. Ela sabe que eu não costumo fazer esse tipo de coisa. – e pra piorar, eu sabia que ainda estava meio traumatizada com o que quase acontecera comigo na noite em que tentei seguir os capangas do Mestre. Depois da minha experiência de quase morte ela passara a perguntar muito mais sobre minhas patrulhas. Chegara a tentar me fazer ligar para ela toda vez que eu voltasse, mas até ela teve que admitir que aquilo era exagero.
Eu segui para o banco no qual havia deixado o telefone, pegando o aparelho. Arrisquei um último olhar a . Ele estava recostado contra a parede, os olhos fechados e a cabeça jogada para trás. Sua postura exalava aborrecimento. Ou frustração. Luta por autocontrole? Eu não conseguia definir. Talvez um pouco dos três.
Respirando fundo, eu atendi o telefone.
- Oi, . Problema? Não, eu só desci pra... Vir pra cozinha. É, eu fiquei com fome. – eu disse, fazendo uma careta ao pronunciar a desculpa esfarrapada – Eu já vou subir de novo. Aham, pode voltar a dormir. Tá, tchau.
Eu desliguei o telefone, evitando encarar . Eu sabia o que viria em seguida.
- Deixa eu adivinhar... – disse ele, em tom desagradável, ainda recostado contra a parede – Você precisa ir?
- A tem o sono mais leve do planeta. Eu realmente preciso ir. – eu respondi, indo até onde minha blusa se encontrava largada no chão e a vestindo – Se eu demorar pra voltar ela vai desconfiar de alguma coisa.
- Oh, claro. É essa a desculpa da vez? – perguntou ele. Fiz questão de presenteá-lo com meu pior olhar assassino.
- Eu não preciso de desculpas e você sabe disso. Nós temos um acordo. Eu não tenho por que fugir.
- Desde quando você precisa de motivos? faz o que quer, e que se danem os outros. – disse ele, devolvendo meu olhar.
- Eu não preciso ficar aqui escutando isso. – eu disse, dando as costas e seguindo para a porta. Ele estava começando a abusar. Desde quando eu devia satisfações a ?
- Isso, vai mesmo. É o que você sempre faz, não é? – ele disse, e eu parei. Algo dentro de mim me dizia para ir embora, mas eu ignorei aquela faísca de sanidade – Você já teve o que queria de mim, pra que ficar mais tempo? Quem se importa com o que eu quero, o que eu preciso? Eu estou cumprindo minha parte do acordo, não estou? Não fui atrás de você. Nem estou agindo como se isso fosse mais do que um simples acordo. Eu faço tudo o que você quer e o que eu ganho em troca? Nada. Nada além da sua total incapacidade de enxergar alguém no mundo que não seja você.

As palavras dele me irritaram daquele jeito que só a verdade conseguia.

Talvez eu pudesse me esconder atrás de outros motivos para a irritação. Como o fato de ele estar me cobrando. Como ele ousava? Como ousava me culpar pelos meus erros?
É, não dava para fugir da verdade, porque era ela mesmo que me irritava. Eu não gostava que me culpassem pelas coisas, mesmo quando elas eram minha culpa. Para mim era insuportável que me jogassem na cara meus defeitos, meus erros. As palavras de haviam me enchido de ira porque ele estava certo. Porque eu sabia que ele tinha todo direito de reclamar. Porque eu sabia que estava errada mas detestava admitir.
Mas havia também uma outra razão para minha raiva. Algo no tom de voz dele, no modo como ele me desafiava... sempre fazia aquilo, e eu estava cansada. Toda vez que eu experimentava algum poder sobre ele o vampiro se apressava em contestá-lo. Podia ser egoísmo da minha parte, mas eu precisava saber como era exercer autoridade, ter ele sob o meu comando. Eu tinha domínio sob sob muitos aspectos, mas queria mais. A viciada em controle que existia em mim precisava daquilo.
A raiva me deu determinação. Era como eu havia concluído antes: aos poucos eu podia manipular a ceder o poder ao qual ele se agarrava com unhas e dentes. O poder sobre o lado físico da nossa relação, que por sinal era a essência do que quer que fosse aquilo que nós tínhamos. Eu só precisava dar o primeiro passo e, no momento, o aborrecimento com era impulso o suficiente para me lançar em ação.
- Você está me questionando? – eu perguntei, em tom despreocupado, sem encará-lo.
- Bom, sim. – ele respondeu, confuso mas ainda irritado.
- Eu vou perguntar novamente. – eu disse, me voltando para e lentamente seguindo em direção a ele – Você está me questionando?
- , o quê...
- Quieto! – eu interrompi, vencendo o resto da distância entre nós. Com uma mão agarrei pelo pescoço, imobilizando-o contra a parede. Ele me encarou um pouco assustado, e eu gastei um segundo saboreando o momento – Quem você pensa que é? Me diga, . Desde quando acha que tem o direito de cobrar qualquer coisa de mim? – eu perguntei, usando o tipo de voz que geralmente reservava para assustar os vampiros que caçava: uma cadência calma e um tom controlado, porém com mais do que um simples toque de ameaça.
Ele não respondeu. Talvez porque minha mão firme ao redor de sua garganta tornasse as coisas um pouco difíceis. O ângulo pelo qual eu o segurava o forçava a manter o pescoço esticado de forma provavelmente desconfortável, mas nem ao menos tentava escapar. Ele sabia que eu era mais forte que ele. Se eu quisesse, podia quebrar seu pescoço em questão de segundos. Aquilo provavelmente não o mataria, mas o deixaria incapacitado por um bom tempo.
- Devia estar agradecido por eu permitir que você me toque. – eu continuei, em voz baixa, meus lábios agora contra sua orelha – Poucos tem essa chance. E um morto-vivo assassino como você não merecia sequer olhar na minha direção. – eu prendi o lóbulo de sua orelha com os dentes por um segundo, sendo recompensada pelo tremor que correu pelo corpo frio do vampiro a minha frente – Mas você gosta de poder me tocar, não gosta? Gosta do calor. Gosta do que eu provoco em você. – eu continuei, beijando a área logo abaixo de sua orelha. Eu estava gostando daquela inversão de papéis mais do que havia pensado. Sabia que precisava voltar para o meu quarto em breve, mas podia gastar mais uns dez minutos ali sem que isso tornasse as coisas suspeitas. Se tudo corresse como eu planejava, não duraria nem isso – E mesmo assim você insiste em reclamar. Talvez você prefira que isso acabe de uma vez. Talvez seja melhor nunca mais te deixar encostar um dedo em mim. – eu deslizei os dedos de minha mão livre pelo arranhão profundamente vermelho que minha estaca havia deixado de seu peito até sua barriga. grunhiu, mas não em protesto – Talvez assim você finalmente aprenda a ficar quietinho e a obedecer sua dona. – meus lábios então desceram para o ombro mais delicioso do planeta. Eu não prestava atenção suficiente naqueles ombros. Precisava corrigir isso.
estava tenso sob meu toque, e não só por bons motivos. Eu tinha certeza que ele não havia gostado nada do meu comentário sobre ser sua dona. Isso, é claro, significava que eu precisaria insistir ainda mais no assunto.
- A verdade dói, não é? Eu sei bem disso. De uns tempos pra cá o objetivo da sua vida vem sendo me convencer desse fato. – sem a menor pressa comecei a descer o zíper da calça dele – O que te incomoda é saber que você é meu. Meu vampiro. Minha propriedade. – eu o toquei então, de forma delicada, minha mão envolvendo seu pênis sem aplicar sequer a menor das pressões. mordeu os próprios lábios para se manter quieto, mas a teimosia dele apenas fortaleceu minha determinação. Era hora de colocar na mesa as cartas mais fortes – O que foi? Não gosta de ser referido como um objeto? Mas você gosta disso! – eu disse, sorrindo e mantendo minha mão parada de propósito – Eu tenho uma teoria, sabe. Sobre você e o seu masoquismo. Eu não acho que ele se restrinja ao que é físico. – minha mão começou então a se mover, e ficando na ponta dos pés eu rocei meus lábios aos de – Você gosta de dor em todas as suas formas. É por isso que você acha que me ama. Porque eu te machuco. Porque eu te trato mal e no fundo você adora isso. – ele estava duro como pedra em minha mão e aquilo tinha que ser doloroso. A cada palavra minha ele pulsava, apenas confirmando tudo o que eu dizia, embora seus olhos permanecessem fechados, sua testa franzida em uma inútil tentativa de mascarar a verdade – Você gosta quando eu piso em você, gosta de ser humilhado... Você tem ideia do quanto isso é doentio? Você se irrita, mas gosta quando eu digo que você é meu brinquedinho. Meu vibrador ambulante. Faz você querer me matar, não é? Mas também faz seu sangue correr mais rápido. Te faz querer me jogar contra alguma superfície plana e me fazer engolir minhas palavras. – ele se debateu um pouco então, e eu pressionei um pouco mais minha mão contra seu pescoço. Ele parou, finalmente abrindo os olhos e me encarando – Na-na-na-na-não. – eu continuei, em tom brincalhão – Não dessa vez. Dessa vez você vai ficar quietinho.
Eu havia afrouxado minha mão em seu pescoço quando ele parara de se debater, deixando-o um pouco mais livre do que antes. Livre o suficiente para falar.
- E se eu não ficar? – disse ele, em tom de desafio, a voz um pouco estrangulada.
- Simples. – eu disse, largando seu pescoço e imediatamente fixando meus lábios ao começo do arranhão em seu peito, ao mesmo tempo em que passava meu polegar sobre a ponta úmida de sua ereção – Se você não fizer o que eu digo, eu vou parar.
Dizendo isso, comecei a percorrer com os lábios o arranhão que havia feito com a estaca.

’s POV

Meu ódio por ela era tanto que queimava minhas entranhas.

Sim, ela estava certa. Sobre tudo. Sobre eu ser dela, sobre a humilhação... Embora, ao contrário dela, eu não tivesse certeza de que “gostar” era o termo mais apropriado para descrever minha relação com o costume que ela tinha de pisar em mim. As palavras de Tara ainda estavam frescas em minha memória: “Você deixa ela te tratar como um cachorro, e no fundo... No fundo você não se importa. No fundo você acha isso normal. Afinal, a Coraline também te tratava assim, não tratava? De alguma forma, no fundo você se acostumou com isso. Ser tratado como lixo é o que você espera do amor. É o que você acha que merece.” Era a verdade, e eu não podia negar. Então sim, talvez de alguma forma eu gostasse daquilo, mas apenas do modo como nos ligamos emocionalmente aos hábitos. Nenhuma mulher na minha vida havia me tratado como mais do que um capacho. Cora, por mais que tenha permanecido comigo por anos, sempre deixou claro que não me amava. Por mais que ela agisse como uma companheira, nunca agia com carinho, e de vez em quando me feria de propósito com atos e palavras apenas para me lembrar qual era o meu lugar. Eu estava acostumado a ser visto como inferior, a ser pisado por Cora, então é claro que meu corpo e mente respondiam a quando ela fazia o mesmo. Era o amor que eu conhecia. O único tipo que havia aprendido.
O fato de ter percebido isso e usar o fato contra mim me fazia odiá-la. Não o suficiente para matar meu amor. Apenas para aumentar meu desejo.
Os lábios dela torturavam a área sensibilizada pelo arranhão, tocando-a devagar, sensualmente, sua respiração quente me fazendo perder a cabeça. Eu estava a ponto de explodir e ela sabia disso. Sua mão em minhas calças se movia devagar em pura provocação. Não era daquilo que eu precisava. Meu corpo pedia por força, velocidade, um tipo de intensidade que me consumisse. Eu queria me perder na garota a minha frente, mas ela não permitiria isso. Segundo ela, eu era seu brinquedinho.

E definitivamente parecia decidida a brincar.

Vadia sádica, era o que eu pensava enquanto tentava me controlar. Ela me acusava de ser masoquista, mas esquecia de mencionar seu sadismo. Se eu gostava de sofrer, ela gostava de machucar. Ela estava se divertindo me vendo sofrer, piorando minha situação que já estava insuportável e dolorosa. Eu precisava desesperadamente de alívio, mas ela me negava isso. Já estava excitado desde o começo de nossa luta, sofrera suas provocações, a assistira tremer e se contorcer com meus dedos em seu corpo... Eu precisava dela. Precisava do jeito como ela me fazia me sentir vivo.
Desesperado, eu agarrei sua nuca, tentando trazer os lábios dela até os meus novamente. Ela se livrou facilmente da minha mão, me lançando um olhar irritado.
- Nada de movimentos bruscos. – disse ela, afastando os lábios de minha barriga rapidamente antes de voltar a descer seus beijos – Não tenta nenhuma gracinha ou eu vou parar. – ela parou novamente para ajeitar as pernas, se ajoelhando no chão – Mas você pode falar. – continuou ela, em tom bem mais suave, quase vulnerável – Na verdade eu quero que você fale. Que me ajude. Tudo bem? – ela perguntou, erguendo os olhos para mim.
Assenti, sem saber com o que estava concordando. Eu sinceramente não sabia onde ela queria chegar.

Eu estava sendo um pouco lento para entender o óbvio.

Em minha defesa, porém, eu podia argumentar que naquele momento não era para o cérebro que meu sangue corria. Tesão me deixava um pouco burro.
Quando ela afastou sua boca e mãos do meu corpo para descer meus jeans, no entanto, tudo ficou claro.
Eu olhei para ela sem acreditar. Teria perguntado algo estúpido se ainda fosse capaz de controlar minha própria voz. Aquela era ali, não era? Vai ver eu não estava acordado. podia ter me nocauteado mais cedo e agora eu estava sonhando com uma das minhas fantasias mais frequentes. Ou eu podia estar delirando. Tudo isso faria mais sentido do que aceitar que aquilo fosse realidade. Porque a que eu conhecia nunca se ofereceria para fazer algo tão não egoísta quanto sexo oral. Altruísmo só era parte da vida da caçadora quando ela estava trabalhando. No resto do tempo aquele não era o estilo dela, principalmente não comigo. nunca me tocava sem querer que eu a tocasse de volta. Nunca dava sem querer receber. Nunca vinha atrás de mim sem fazer com que tudo fosse sobre ela. Ela certamente nunca havia se oferecido para fazer nada do tipo.

Há poucos segundos eu a havia acusado de não dar a mínima para o meu prazer. Agora lá estava ela.

Lá estava ela. Correndo os dedos distraidamente pela extensão de meu pênis, sua expressão pensativa, insegura. Oh, merda. Aquela era a primeira vez dela, não era? Qualquer vestígio de raiva por sumiu. A deusa a minha frente estava prestes a realizar uma das minhas maiores fantasias com ela. E pra melhorar era algo que nenhum outro filho da puta havia experimentado.
Meu lado loucamente possessivo estava incontrolável, mas o imbecil romântico não estava disposto a sair totalmente de cena. Eu precisava me certificar de que estava totalmente confortável com a situação.
- ... – eu chamei, minha voz falhando. Fechei os olhos, engoli em seco e tentei novamente – Você tem certeza?
Eu era um palhaço. Um imbecil. Mas me preocupava demais com ela para forçá-la a algo a que não estava pronta.
Diga que sim, diga que sim, diga que sim... Eu implorava mentalmente. Não tinha certeza se sobreviveria se ela dissesse não. Passara noites e noites em claro pensando naqueles lábios, no jeito como me beijavam, no quão macios eram... A intensidade com a qual eu queria senti-los me deixava atordoado.
- Aham. – disse ela, fechando seus dedos ao redor do meu mastro novamente e recomeçando seus movimentos – Eu to curiosa. Já há um bom tempo, na verdade.

Acho que eu não sobreviveria aquilo de qualquer jeito.

- Você... Pensou sobre isso? – eu perguntei, tentando manter a calma. Só de imaginar ela considerando me tocar daquela maneira me fazia perder o controle.
Algo em meu tom de voz, no entanto, parecia ter denunciado o quanto aquela ideia me afetava. De um momento para o outro a postura de mudou, a menina insegura dando novamente lugar à mulher que havia me prendido contra a parede e me declarado como sua posse.
- Pensei. – admitiu ela, me olhando nos olhos sem o menor traço de vergonha, o sorriso em seus lábios sendo a definição pura maldade – Algumas vezes. Quando estava sozinha. Na minha cama, no escuro...
Eu joguei minha cabeça para trás, com um gemido de rendição que a fez rir. O que estava acontecendo ali? Desde quando era capaz de falar aquelas coisas? Ela não costumava tomar a iniciativa daquele jeito. Onde ela havia arranjado confiança o suficiente para agir daquela forma?
Eu não devia estar deixando aquilo acontecer. Não assim, não deixando que ela detivesse todo o controle. Era eu quem devia seduzi-la, e não o contrário. Aquele era o único poder que eu ainda detinha sobre ela, e se deixasse ele começar a se partir, logo não teria nada. Estaria completamente nas mãos de . Se eu tivesse o mínimo de amor próprio, devia tentar virar o jogo naquele momento.

O problema era que eu não podia.

Era algo no fato de vê-la daquele jeito, tão segura de si, tão confortável com o poder. Aquilo me excitava de uma forma totalmente surpreendente. Eu não estava acostumado a ceder o controle. Temia a mera ideia, na verdade, mas com ... Parte de mim sentia culpa por ter ajudado a minar a autoconfiança da caçadora meses atrás. Vê-la superando aquilo aos poucos e saber que eu havia ajudado era uma sensação deliciosa. Eu nunca admitiria em voz alta, mas estava curioso. Mal podia esperar para ver até onde ela iria.
- Isso parece doloroso... – ela disse, sua mão ainda me tocando, se movendo devagar, me envolvendo em calor e apenas piorando minha situação – É por minha causa?
A pergunta soou inocente, mas o olhar dela estava bem longe disso. Eu engoli a resposta irritada que tive vontade de dar. É, era por causa dela. Estava duro como pedra, ao ponto de sentir dor, tudo porque uma garotinha cruel havia resolvido tirar a noite para me enlouquecer.

Ao invés disso, eu apenas assenti.

- Coitadinho. – disse ela, sem o menor traço de pena – Isso ajuda? – as mãos de se afastaram, e eu quase protestei. Quase. Antes que eu pudesse sequer abrir a boca, senti o contato da língua de contra meu pênis.

As coisas que eu gritei em seguida quase fizeram corar até a mim.

- Posso aceitar isso com um sim? – ela perguntou, mas eu não pude responder. Minha voz foi tomada de mim quando, no segundo seguinte, começou a me lamber como uma gata.
Eu não conseguia decidir se estava no céu ou no inferno. A língua dela percorria toda minha extensão, de forma curiosa e que, por incrível que pareça, beirava a inocência. Ela nunca havia feito aquilo antes... Era só para mim. Algo só nosso, e aquilo estava me fazendo perder a cabeça. Mas não era o suficiente. Eu precisava que a boca dela me envolvesse, precisava senti-la me sugando, e sua língua apenas me torturava com promessas.
Quando ela fechou os lábios ao redor do topo do meu pênis e sugou devagar, eu perdi o que restava da minha dignidade.
- ... Eu preciso... – ela repetiu o gesto, e eu tornei a perder a habilidade da fala.
- Precisa do quê? Que eu te deixe entrar? – ela perguntou, roçando os dentes bem de leve contra a pele sensível da cabeça, me fazendo soluçar e choramingar como se fosse um adolescente recebendo o primeiro boquete – Peça “por favor”.
Oh, claro que ela faria isso. Era a vingança dela, não era? A última coisa que faltava.
Não importava o quanto eu dissesse a mim mesmo que aquilo não significaria nada, que não viraria a balança de poder entre nós a favor dela, era tudo mentira. Aquilo era um começo. Eu estava deixando experimentar um poder sobre mim que acabaria levando à minha ruína.
- Por favor. – eu implorei, já sem dignidade alguma. Eu a queria demais para tentar ser forte – Por favor, ...
- Hm... Não. Quero te ver se contorcer mais um pouco. – disse ela, sem perder mais nem um segundo antes de retornar ao que fazia, sua língua me provocando de forma insuportável, suas mãos descendo e tocando meus testículos. Eu não ia aguentar por muito mais tempo.
- Por favor, pequena... – eu pedi, tremendo – Minha linda... Por favor... Por favor...
- Não. – disse ela, em tom de quem estava adorando aquilo.
Mas ela não tinha como saber realmente o quanto me afetava. Se soubesse a extensão do meu sofrimento, a expressão levemente satisfeita em seu rosto ficaria evidente. Entre nós dois era eu quem devia ser capaz de me controlar. Eu era o mais experiente, afinal, mas me reduzia a um babaca que tomava atitudes idiotas. Atitudes como, em puro desespero, tentar tocar em mim mesmo, já que não parecia querer ajudar.
Ela apenas afastou minha mão, parecendo irritada.
- Nem pense nisso. O que foi que eu disse sobre movimentos bruscos?
- Pequena, por favor. – eu implorei uma última vez, em um murmúrio. Umedeci meus lábios subitamente secos enquanto tentava transmitir com os olhos a seriedade da minha situação.
Ela me encarou por um segundo, suas pupilas dilatadas e sua respiração acelerada. Claro que ela sentia prazer naquilo. Como eu havia dito antes, vadia sádica.
- Só porque você pediu com jeitinho. – disse ela, em tom de zombaria, tremulando os cílios inocentemente antes de envolver toda minha extensão com sua boca.
Sentir apenas língua dela me tocando havia sido uma sensação assustadoramente poderosa, mas aquilo era ainda melhor. Precisei de toda minha força de vontade para não me mover com força em sua boca quente, úmida e... Céus, aquilo não ia durar, ia? Se eu resistisse cinco minutos antes de explodir ficaria surpreso.
Ela estava começando a me chupar devagar, em um ritmo tentativo, e eu me forcei a não apressá-la. Não haviam se passado nem cinco segundos e eu já estava arquejando e gemendo por ela. Eu não conseguia parar de olhá-la, a visão do que ela fazia sendo uma das mais eróticas da minha vida. Os olhos dela também estavam em mim, e a intensidade neles me fez lembrar de seu pedido.
- Continua... – eu comecei, parando em seguida. Ela havia começado a enrolar sua língua em volta do meu pênis a cada movimento para dentro, e eu tive dificuldades para manter a coerência – Continua desse jeito... Só acelera um pouco... Isso. – eu disse, jogando minha cabeça para trás e sem querer a batendo com um pouco de força na parede. Eu nem senti a dor – Você é perfeita. Porra, você é perfeita. Sua mão… – sem nem me deixar terminar, envolveu com a mão a parte que não cabia em sua boca, movendo ambas em sincronia.
Com a outra mão recomeçou a tocar meus testículos, e sem que eu pudesse me controlar me vi agarrando seus cabelos.
Ela não reclamou, e eu me vi dividido entre puxar as mechas macias em minha mão com força ou acariciar seus cabelos. Parte de mim queria extravazar as sensações, mas outra parte só queria agradecê-la de alguma forma, por mais estúpido que aquilo soasse.
Ela aprendia incrivelmente rápido, eu precisava admitir. Eu queria poder prolongar a experiência, mas tinha consciência de que seria impossível. Havia, no entanto, algo que eu precisava experimentar antes de deixar que aquilo terminasse.
- Tenta relaxar sua garganta... – eu pedi, tentando evitar que minha voz tremesse – Agora tenta me deixar ir mais fundo e... – sem aviso, eu senti os músculos de sua garganta se contraindo a minha volta. Eu urrei uma sequência impressionante de palavrões com a sensação. Ela fez novamente, aos poucos estabelecendo um novo ritmo – Como... Puta que pariu, . Continua… Por favor, continua. Suga suas bochechas um pouco… Ohh, assim. Você é incrível, pequena... Pode usar seus dentes um pouco, só tenha cuidado...
Eu precisava me segurar. Meu corpo precisava desesperadamente de alívio, mas ao mesmo tempo eu me recusava a deixar aquilo acabar. podia nunca fazer aquilo de novo, e minha única lembrança seria a de como eu apenas durei alguns minutos e acabei de vez com a pouca honra que eu ainda tinha. Aparentemente, no entanto, me fazer perder o controle era o plano de . Ela fazia exatamente o que eu queria sem precisar de muitas explicações, e se somássemos a isso o modo como ela havia me provocado mais cedo, eu só podia concluir que ela não queria que eu durasse. Era mais uma batalha, então... Uma que eu não tinha a menor intenção de perder. Só havia, porém, um problema.

Eu havia esquecido que agora jogava sujo.

’s POV

Eu havia aumentado a velocidade sem o menor aviso.

Era meio cruel da minha parte, na verdade. Eu sabia que mal estava se segurando, mas eu já estava cansada de brincadeiras. O tempo de atraso justificável para voltar ao meu quarto estava quase estourando.
Eu não me culpava por ter perdido a noção do tempo, no entanto. Eu não havia antecipado o quanto acabaria gostando daquilo. Havia decidido fazer aquilo em um momento de excesso de confiança, enquanto a adrenalina ainda corria por meu corpo. Havia feito por curiosidade e, por fim, para ver se poderia continuar exercendo poder sobre ele mesmo após um ato submisso de minha parte.

O último motivo acabou se provando idiota. Havia descoberto rapidamente que aquele não era um ato nem um pouco submisso.

Eu sempre havia associado sexo oral a algo que dava poder ao homem. No entanto lá estava eu, de joelhos, e a onda de poder que eu experimentava não se igualava a nada que eu havia sentido antes. Eu tinha total domínio sobre , e havia me viciado naquela sensação em questão de segundos. Os olhos dele estavam fechados, sua expressão contorcida no que parecia ser uma mistura de prazer e sofrimento e sua boca articulando sons dos mais variados e sem sentido. Ele parecia perdido em um outro mundo e eu sabia que se parasse agora o deixaria louco. Naquele momento faria qualquer coisa por mim... Qualquer coisa. Entender aquele fato era algo inebriante.
- Pequena, para. – disse ele, de repente, seu tom urgente – É sério, eu vou gozar. – bom, isso é óbvio, eu pensei, sem entender aonde ele queria chegar – , eu não vou aguentar mais muito tempo. – ele avisou de novo. Por que ele...?

Oh, claro. Ele achava que precisava avisar.

Aquilo me irritou muito mais do que devia. Teoricamente aquele era um ato legal da parte dele. Me avisar para me dar tempo de... Bom, de afastar minha boca. Mas o modo como ele falou demonstrava o que ele havia assumido ser verdade. Ele não achava que eu fosse engolir. Provavelmente pensava que eu era inocente demais, inexperiente demais, despreparada demais. Aquilo me deu raiva. Não queria tentando me proteger, principalmente com relação a algo que eu queria fazer até o fim.
- ... – ele chamou de novo, mas o olhar que lancei a ele foi o suficiente para calar sua boca. Eu era capaz de lançar um olhar assassino para ele ao mesmo tempo em que o chupava. Aquilo devia ser um dom.
Quando aconteceu, poucos segundos depois, foi melhor do que eu pensava. Não que eu achasse que fosse ser ruim, apenas... Pensei que deixá-lo fazer aquilo fosse ser pior, ou ao menos um pouco nojento.

Fazer “aquilo”, eu pensei, irritada comigo mesma. Deixá-lo gozar na sua boca, . Se você é capaz de fazer, deve ser capaz de dar nome ao ato também.

Minhas tendências ao eufemismo não eram importantes, no entanto. O que importava é que não foi. Nojento, quero dizer. Por incrível que pareça, não foi. Talvez fosse por se tratar de , com quem eu já tinha bastante intimidade, mas... Pareceu algo normal. Os livros eróticos de banca de jornal, no entanto, estavam todos errados. O gosto não era bom, só não era ruim. Era algo que eu conseguia fazer sem problemas. Toda a polêmica em cima daquele assunto subitamente me pareceu idiota.
estava largado contra a parede, parecendo mal ser capaz de suportar o peso do próprio corpo. Ele escorregou até o chão lentamente, até estar da mesma altura que eu. Seus olhos estavam fechados e eu tinha quase certeza de que o vampiro não estava totalmente consciente. O orgasmo dele havia durado um tempo impressionante pra um cara, e a julgar pelas coisas que ele havia berrado, tinha sido intenso o suficiente para nocauteá-lo.
Eu ajeitei seus jeans só para o caso de alguém entrar ali antes que ele acordasse, o que não era muito provável. Era a minha sala de treinamento, afinal. Eu sabia que devia acordá-lo eu mesma, mas não queria. Quantas vezes havia sido eu naquela situação? Era bom ser a pessoa acordada para variar um pouco. O final perfeito para uma experiência perfeita. Apenas para desencargo de consciência, no entanto, ajeitei a posição dele, ainda recostado contra a parede, de forma a deixá-lo mais confortável.
- ? – ele murmurou, para minha extrema surpresa, quando eu já estava de pé e seguindo em direção à porta.
- ? – eu respondi, em voz baixa, consciente de que ele não estava realmente acordado.
- Você tá bem? – ele perguntou, sua voz bêbada de sono. Eu não pude deixar de rir.
- To sim. E você?
Ele escorregou os centímetros que faltavam até estar deitado no chão e espreguiçou-se.
- Hhmmhmm – ele respondeu, com um sorriso bobo no rosto. O som parecia a mistura de um grunhido, um ronrom e um gemido. Me peguei retribuindo o sorriso dele.
- Eu preciso ir. – avisei, observando-o se ajeitar no chão.
- Precisa? – ele perguntou, ainda de olhos fechados, seus lábios formando um meio bico.
- Preciso. – eu respondi.
- É totalmente necessário? – perguntou ele, no mesmo tom sonolento.
- Aham.
- Mas eu... Não quero que você… – ele adormeceu antes que pudesse completar a frase.
- Eu sei. – eu respondi, para ninguém em particular.
Não. Eu não ia tornar aquilo algo difícil. Não estragaria a noite adicionando a ela qualquer sentimento de culpa. Estava cansada de todas as experiências boas da minha vida virem acompanhadas de algo ruim.

Eu não podia extinguir as dores que já tinha. Mas podia evitar que novas surgissem.

Depois de uma noite baseada em exercício de poder, nada mais lógico do que começar a dominar minha própria vida.
- Boa noite, . – eu disse, e saí daquela sala me sentindo forte pela primeira vez em muito tempo.

’s POV - OFF

Xx


- Ele recebeu a nova carta. – disse Godfrey, recostando-se contra a porta do aposento que acabara de adentrar – A reação foi... Bem, foi a esperada. Segundo Mason, parecia muito perturbado. Ele o seguiu até a rua ao prédio da Organização, mas não quis arriscar se aproximar mais.
- Fez bem. – disse o homem sentado na única poltrona da sala – São muitos os boatos sobre aquele lugar. Segundo nossa informante, Roger Miles tem mais camadas de segurança do que inicialmente imaginamos. Não quero vocês naquela área, não por enquanto.
- Eu sei. – disse Godfrey, cruzando os braços e encarando o chão a seus pés. Sua mente estava cheia, mas o vampiro não ousava vocalizar suas preocupações. Embora Godfrey não temesse o Mestre, sabia que alguns assuntos não deveriam ser abordados. O melhor a fazer era mudar o rumo da conversa – Acha que ele pegará a caixa essa noite?
- Não. Ele precisa de tempo para digerir a situação. é leal a . Ou tenta ser, sempre que possível. Eu não antecipei algo assim acontecendo, mas acredito que no futuro isso possa nos ser vantajoso. Quando a hora chegar, a lealdade dele pode ser útil.
- Sobre a hora certa... – começou Godfrey, cauteloso – Os outros estão ficando impacientes.
- Quanto a isso eu não posso fazer nada. Ainda é muito cedo.
- Devo confessar que às vezes me pergunto se a espera é realmente...
- Godfrey. – interrompeu o Mestre, sem alterar o tom de voz. Não era preciso. Um vampiro como o Mestre não precisava de muito para impor respeito – Você sabe. Os outros podem questionar a espera, mas você sabe da verdade. Sabe que não podemos fazer nada por enquanto.
- Talvez seja possível seguir outro caminho e ainda assim alcançar os objetivos. – disse Godfrey, odiando a si mesmo pela sugestão.
- Não. – respondeu o Mestre, sua voz séria, convicta – Nós esperaremos. Até que ela esteja aqui não há nada que possamos fazer. Sem ela não haverá ataque. Sem ela não temos a menor chance de derrubar a Organização. Vamos esperar o tempo que ela precisar, e se algum dos outros tiver algum problema com isso... Mande que venham reclamar a mim.
Com um aceno, Godfrey se retirou. Ele já estava com o Mestre tempo o suficiente para saber quando desistir de argumentar. Havia sido uma tentativa fraca, de qualquer forma. Godfrey sabia que o Mestre tinha seus motivos para confiar nela daquela forma e, embora Godfrey não confiasse, nunca questionaria o julgamento do Mestre. Havia um motivo pelo qual todos eram tão fiéis ao líder. Um motivo pelo qual, embora reclamassem da espera quando sozinhos, nenhum vampiro no exército jamais ousaria vocalizar alguma insatisfação em presença daquele que reunira todos eles.

Era uma questão de lealdade.

Lealdade cega, irracional, mas verdadeira e pura. Para Godfrey parecia impossível entrar em contato com o Mestre e não ser envolvido pela aura de poder e respeito que ele exalava. Não era algo natural... Pelo contrário, Godfrey tinha certeza absoluta de que o poder de inspirar nos outros lealdade era uma habilidade especial daquele vampiro. Ele conhecia as lendas. Sabia que quanto mais antigo o vampiro, mais habilidades ocultas ele desenvolvia. Mais força ele adquiria. Mais perigoso ele se tornava.
Quando a hora chegasse, a Organização não teria sequer tempo de entender o que a atingiu.

E então Roger Miles e companhia finalmente entenderiam o que acontece quando se brinca com alguém como o Mestre.

Capítulo 31 – Twisted Games

’s POV

Só pra deixar claro, eu sabia o quanto estava errada.

Eu tinha um trabalho a fazer. Naquela manhã haviam chegado os primeiros relatórios vindos de diversas partes do mundo. Já havia se passado mais ou menos uma semana desde que eu conversara com Miles sobre a ideia de e ele a colocara em prática. As demais Organizações do mundo haviam começado suas próprias pesquisas sobre o Mestre, e no momento eu me encontrava na sala do meu QG, rodeada pelos meus amigos e por milhares e milhares de papéis. Por segurança, havíamos decidido analisar nós mesmos os resultados preliminares que haviam chegado, já que a ameaça de um traidor ainda pesava sobre nossas cabeças e a possibilidade de o ajudante do Mestre se encontrar naquela sala era bem menor do que em toda a Organização. Para me dedicar à análise, eu havia sido dispensada da patrulha naquela noite.
Aquilo significava, é claro, que eu devia estar trabalhando. O maço assustador de folhas em minha mão precisava ser lido com cuidado, e anotações precisavam ser feitas. Todos a minha volta pareciam estar dando o melhor de si.

Ou quase todos.

Porque, entenda, eu tinha consciência de estar errada. Mas que culpa eu tinha se ele não permitia que eu me concentrasse?
Eu não havia lido sequer uma palavra do texto em minhas mãos. Ao invés disso, me encontrava em meio a um jogo estúpido e perigoso com .
Tudo havia começado de forma inocente. Graças a Tara, havia sido convidado a analisar os textos conosco. Segundo Gilbert, aquilo era uma boa ideia, já que tornaria o processo mais rápido. O que meu mentor falhava em perceber, no entanto, era que a presença de ali não significava um leitor a mais, e sim um a menos.
Eu não conseguia me concentrar. No começo foram os olhares furtivos, quase impossíveis de se ignorar. Em minha defesa, porém, eu tentei. Tentei ignorá-lo, tentei fingir que não me importava, cravei meus olhos no texto que segurava e me esforcei para extrair dele algum sentido. A cada pequeno intervalo, no entanto, eu sentia os olhos de em mim e sabia o que estava em sua mente. Sabia porque também não conseguia pensar em outra coisa.
Havíamos estado juntos quase todos os dias dessa última semana. Nossa rotina noturna consistia em despistar os Cromwell, patrulhar um pouco, voltar para a sede e nos trancarmos na sala de treinamento sob o pretexto de treinar. Na verdade, nem sempre era só um pretexto. Às vezes lutávamos um pouco quando a noite de caça não esquentava suficientemente o nosso sangue.

Mas lutar não era a razão pela qual queríamos estar a sós.

E nossas roupas nunca permaneciam em nossos corpos por mais de um round.

Eu já havia me conformado com o fato de que encontrava estímulo na violência. E lutar com , ou ao lado de , sempre resultava naquela necessidade absurda de tocá-lo, de tê-lo me tocando e de esquecer o resto do mundo. Eu nunca antes havia me dado conta do quão frustrante meu trabalho costumava ser antes de chegar. Acumular aquele nível de tensão e não ter com quem extravasar agora me parecia insuportável.
O sexo era mais do que bom, era libertador. Eu podia descontar o que quisesse em sem grandes consequências. Ele me dava a liberdade, e eu não hesitava em usá-la. Canalizava e exorcizava todas as minhas frustrações no ato, sendo capaz então de experimentar alguns momentos de perfeita paz.
Era errado, eu sabia, mas com um pouco de esforço eu era capaz de ignorar aquela partezinha do meu coração que sangrava toda vez que eu usava para me sentir melhor. Às vezes eu podia ver nos olhos dele o quanto a situação o machucava, e aquilo aumentava um pouquinho aquela culpa inconveniente em mim. Eu era capaz de abafá-la, no entanto. Tinha esperanças de que, se eu continuasse a fingir que ela não existia, aquela sensação ruim um dia fosse embora.
Aquele não era meu problema imediato, no entanto. Três dias atrás a sala de treinamento havia sofrido algumas infelizes consequências de nosso entusiasmo. Alguns equipamentos haviam quebrado e conseguimos derrubar várias das barras que ficavam presas às paredes... Não me pergunte como. Mas ao contrário do que se possa imaginar, nosso problema não foi explicar os incidentes. Dizer que aquilo foi o resultado de uma luta era uma justificativa que convenceria qualquer um sem nossa criatividade sexual. Miles e os outros aceitaram aquilo sem problemas. Consequentemente, porém, a sala ficaria interditada para reparos.

Resultado: nos últimos dois dias, e eu não havíamos tido onde nos encontrar.

Ele andava extremamente relutante em me deixar ir para sua cripta. Ao questioná-lo sobre isso, a única resposta que obtive foi um rápido “não é seguro” e uma mudança de assunto antes que eu pudesse continuar a indagá-lo. Eu nem ao menos podia reclamar, já que também não o aceitava em meu quarto. Já havia permitido aquilo uma vez e não podia deixar acontecer novamente. Era íntimo demais. O tipo de coisa que poderia dar a ele falsas esperanças. Mais falsas esperanças do que ele já parecia ter.

Reprima, . Reprima.

O que importava era que, nas últimas 48 horas, não havíamos tido nada além de momentos roubados durante as patrulhas, que serviam apenas para incrementar nossa frustração. Para pessoas normais, 48 horas talvez pudessem ser classificadas como “pouco tempo”. Para nós, no entanto, andava sendo um teste de sanidade.
Eu devia simplesmente admitir que tinha um problema e procurar tratamento. Aquele... Vício em uma pessoa não era normal. Mas eu não conseguia resistir. Eu gostava do meu vício. Não conseguia lutar contra ele.
Era por isso que me olhava, disfarçadamente, enquanto fingia prestar atenção no que lia. O vampiro estava sofrendo tanto quanto eu. Ele era melhor em fingir, mas eu conseguia decifrá-lo com facilidade. Ele não dava a mínima para o texto. Só estava ali para tentar me enlouquecer.
Se eu ao menos tivesse tido como fugir dos olhares dele quando começaram, a situação não teria chegado àquele ponto. Mas o desgraçado escolhera se sentar no sofá diretamente a minha frente, de forma que foi impossível evitá-lo.

Seu olhar parecia beijar minha pele da forma que seus lábios não podiam. Como poderia eu ser culpada por retribuir?

Aquilo rapidamente se tornou uma competição para ver quantos olhares proibidos nós conseguiríamos passar sem sermos flagrados. Por cima das folhas ele me lançava breves e provocantes sorrisos que eu tentava ao máximo não retribuir. Era quase impossível, no entanto. Eu me sentia boba e irresponsável como uma garotinha fazendo algo proibido pela primeira vez. A sensação era boa demais para resistir.
Confesso que fui eu quem resolveu levar as coisas para o nível seguinte. Não fiz nada demais, no entanto... Apenas afastei meu cabelo do pescoço em um gesto falsamente distraído, inclinando minha cabeça para o lado em seguida. Um ato perfeitamente inocente, mas que para tinha mais de uma conotação interessante.
Ele não demorou para revidar. Mantendo seus olhos fixos em meu pescoço, o vampiro começou a correr os dedos pela coluna do seu, devagar, gentilmente, da maneira sedutora como ele me tocava quando queria me convencer a fazer algo. Não tinha como não imaginar que era o meu corpo que aqueles dedos tocavam e por um momento eu quase me deixei hipnotizar pelos movimentos de sua mão. Com um pouco de esforço, porém, consegui desviar meus olhos de , voltando-os para o resto da sala. Ninguém parecia estar prestando atenção a nós, o que era um alívio.
Aquilo me deu um pouco mais de coragem. Umedecendo meus lábios devagar, eu em seguida levei a caneta que segurava até eles, mordendo a tampinha delicadamente e evitando olhar na direção de de propósito. Eu não precisava encará-lo para saber que seu olhar estava fixo nos meus lábios. O modo como pude percebê-lo pelo canto do olho se ajeitando na poltrona desconfortavelmente me dizia tudo que eu precisava saber.
- Vocês tem certeza que vale a pena ficar lendo esses textos? – disse , quebrando o silêncio da sala – Quero dizer, nós nem sabemos se tem algo importante neles.
- Esse é o objetivo de lê-los, . – respondeu Gilbert, sem desviar os olhos dos papéis – Descobrir se há algo útil neles.
- Eu sei, mas não acho que isso vai nos levar a algum lugar. – insistiu o garoto.
- Eu concordo com o nerd. – disse , porém olhava para mim – Não importa quanto tempo a gente passe aqui, duvido que sairemos satisfeitos.
Dizendo isso, ele disfarçadamente desceu sua mão por seu abdômen até finalmente descansá-la em um ponto estrategicamente próximo a sua virilha, tornando impossível para mim perder o real sentido de suas palavras.

De uma hora pra outra o aposento ficou extremamente quente.

O desgraçado deve ter percebido para onde meu olhar havia se direcionado, pois quando finalmente voltei a encará-lo ele fingia ler o texto com um sorrisinho convencido no rosto. Eu considerei aquilo um desafio.
Suspirando um pouco alto, eu estiquei meus braços como quem se espreguiça demoradamente, alongando toda a parte de cima do meu corpo.
- Com sono, ? – perguntou Tara, e eu podia jurar que aquilo no tom de voz dela era sarcasmo. Será que a garota havia percebido o que...?

Não. Claro que não. Eu estava ficando paranoica.

- Aham. – eu disse, arriscando um olhar para , que parecia absorto em contemplar a área que ia de meus seios até minha barriga. O idiota não estava nem mais tentando disfarçar – Nada de interessante aqui, to ficando com sono.
Eu apenas estressei as palavras um pouco, porém minha alfinetada camuflada pareceu funcionar. Ele sabia reconhecer um desafio implícito tão bem quanto eu.
- Desculpe se falhamos em te entreter, caçadora. – disse , parecendo relaxar sobre a poltrona na qual estava, levando suas mãos para trás de sua nuca e deixando os excelentes braços que ele tinha propositalmente flexionados. Quando ninguém parecia estar olhando, ele ergueu rapidamente as sobrancelhas, como se dizendo que era a minha vez.
- Tudo bem, . – eu disse, descruzando e recruzando as pernas devagar, deixando que a barra do meu short subisse um pouco. Aquilo visivelmente chamou a atenção dele – Você não seria capaz de me entreter, de qualquer maneira. A não ser que estivesse sofrendo e gritando de dor. Isso seria bem divertido.
- Calem a boca os dois. – disse Gilbert, sem tirar os olhos do texto que lia. Sua voz, no entanto, deixava claro que era melhor levá-lo a sério.
- Desculpa. – eu disse, antes de voltar meus olhos novamente para o texto. Não que eu conseguisse ler as palavras a minha frente. O joguinho com estava me deixando agitada demais para aquilo.
Ele estava fingindo ler outra vez, só pra me irritar, certamente. Eu tamborilei meus dedos contra minha perna de forma inquieta enquanto pensava no que fazer. Se eu tivesse algo parecido com juízo tentaria me concentrar no trabalho e esquecer do vampiro à minha frente. Mas eu era idiota e provocar era divertido.
- Sanguessuga, me passa os brownies? – eu disse, em voz alta, voltando a quebrar o silêncio da sala. Por um momento eu achei que Gilbert fosse jogar os papéis que segurava para cima em frustração. Ao invés disso, ele apenas os bateu contra a mesa antes de se levantar e praticamente marchar até a mesa no canto da sala onde ficavam sua fiel garrafa de Whisky e alguns copos.

Ainda nem eram cinco horas da tarde e eu já estava fazendo Gilbert beber. Ops.

Eu olhei a minha volta, culpada, percebendo que todos disfarçavam o riso enquanto mantinham as cabeças praticamente enfiadas nos textos. Todos menos , na verdade, que me ofereceu o prato com brownies com um sorriso insuportável no rosto. Ah, mas o idiota não iria manter aquele sorriso por muito tempo.
Sob a desculpa de pegar o prato, deixei que meus dedos encostassem nos dele em um toque tão suave que mal podia ser sentido. Deixei que permanecessem um segundo a mais do que o extremamente necessário naquela posição antes de afastá-los novamente ao trazer o prato para mim.
Eu me demorei em levar o brownie até os lábios e lentamente envolvê-lo por eles, em seguida o partindo em uma mordida delicada. Me esticando para devolver o prato à mesa, arrisquei olhar para . Sua cabeça estava abaixada, mas seus olhos levemente franzidos seguiam cada movimento meu. Eu sorri docemente para ele antes de voltar a me ajeitar no sofá. Isso aí, sanguessuga. Vá em frente e deseje ser um brownie.
Ao meu lado, virou uma página de seu texto e suspirou, erguendo os olhos pelo que devia ser a primeira vez em um bom tempo e olhando a sua volta.
- Estão bons? – ela me perguntou, em voz bem baixa, apontando com a cabeça para o prato que eu acabara de largar.
Eu engoli o que restava do chocolate e, consciente de que Gilbert estava voltando para perto de nós, respondi em tom igualmente baixo.
- Aham. – eu disse. Tomada por um súbito surto de coragem, eu continuei – Estão razoáveis, mas... Não é a melhor coisa que eu já tive na boca.

Eu disse aquilo mesmo? Pela expressão no rosto do vampiro, devia ter dito.

O queixo de havia caído vários centímetros e seus olhos pareciam meio nublados. Eu não sabia se devia me sentir grata ou não pela audição vampírica dele.
Lá fora. Agora. Ele gesticulou com os lábios.
Como? Eu respondi.
Inventa alguma coisa. Continuou ele, me encarando como se me desafiasse a dizer não. Como se eu pudesse negar algo a ele quando o desgraçado assumia aquela postura séria e sexy.

Droga, eu me odiava em horas como aquela.

Olhei à minha volta, buscando alguma desculpa para dar. A solução perfeita, ironicamente, estava bem no meu colo.
- Hm, Gilbert? – eu chamei, em tom cuidadoso – Acho que os relatórios estão quase acabando. Quer que eu vá buscar o resto na sala de Miles?
Os relatórios estavam bem longe de acabar, mas aquilo não vinha ao caso.
- Na verdade, essa é uma excelente ideia. – respondeu ele, e eu não soube ao certo se ele realmente acreditava naquilo ou se só me queria fora dali – Não sei quantos sobraram, no entanto. Tem certeza que consegue trazer tudo sozinha?

Naquele momento eu senti uma vontade extrema abraçar Gilbert.

- Não tenho certeza. – eu respondi, tentando não parecer animada. Na verdade tinha certeza que podia trazer tudo sozinha, mas aquilo também não vinha ao caso – , tá na hora de você fazer algo útil.
- Eu to fazendo algo útil, . – disse ele, apontando com a cabeça para os textos e fazendo cara de entediado. Eu contive o riso. Ele era bom naquilo.
- Disso eu duvido muito. – eu respondi – Acho que é mais seguro deixar você com o trabalho braçal. Ler deve ser uma atividade muito complexa pra ameba que você tem no crânio.
- Oh, entendi porque você se ofereceu pra pegar o resto dos relatórios. Os textos estão difíceis pra você, caçadora? Quer que eu te traga um livro com desenhos?
- Para fora, os dois, AGORA! – exclamou Gilbert, como se fôssemos crianças, apontando para porta.
Eu tinha 21 anos. tinha mais de um século. Normalmente, nenhum de nós toleraria receber ordens daquele jeito. Algo na voz de Gilbert, porém, nos teria feito correr para a porta mesmo se não quiséssemos sair dali. Meu mentor era aquele tipo de pessoa.
A escada que separava meu QG do resto da Organização tinha formato de caracol e se encontrava em uma passagem delimitada pela porta para a sala no começo e outra para o corredor da Organização no topo.
Eu atravessei a porta primeiro e subi as escadas praticamente correndo, dois degraus por vez. Parei apenas quando cheguei no meio do caminho, no quadrado consideravelmente espaçoso que servia como intervalo da escada. Encostando-me no corrimão, apoiei minhas mãos neste enquanto esperava por ele. não demorou a me alcançar.

Levamos apenas um momento para processar o fato de que estávamos finalmente sozinhos.

Em questão de segundos eu estava sentada sobre o corrimão, com entre minhas pernas e seus lábios devorando os meus como se não nos beijássemos há anos.
- Você tava tentando me matar lá dentro? – ele perguntou, seus lábios descendo para o meu pescoço enquanto suas mãos corriam por minhas coxas.
- Foi você quem começou. – eu lembrei, levando uma mão para sua nuca e a outra para suas costas, faminta por toque.
- A gente não pode continuar assim. – disse ele, em seguida levando os lábios de volta aos meus, calando minha resposta.
- Nenhum lugar... – eu finalmente disse, entre beijos – Seguro no... Prédio... – agora ambas as minhas mãos corriam por suas costas, aos poucos avançando para baixo de sua camisa. Eu adorava as costas dele. Adorava sentir os músculos se moverem contra minhas mãos, sentir a dureza deles por baixo da pele fria.
- Aqui é seguro. – insistiu , abrindo o zíper do meu short. Eu segurei a mão dele, assustada.
- Estamos no meio da escada! Alguém pode chegar a qualquer momento! – eu argumentei, mas ele desceu o zíper mesmo assim.
- Eu só preciso te tocar um pouquinho. – ele disse, enquanto levantava minha blusa até os seios – Só um pouquinho, eu prometo...
Eu conhecia o “pouquinho” de . Conhecia bem. Mas antes que eu pudesse sequer pensar em reclamar ele pôs sua mão em volta de um de meus seios, enquanto com a outra invadia meu short. O que saiu da minha boca então não foi um protesto, e sim um gemido alto rapidamente abafado por sua boca contra a minha.
- Shh... – disse ele, ao afastar seus lábios novamente – Não acho que alguém possa nos ouvir, mas não precisamos arriscar. – a testa dele estava contra a minha, e suas palavras não passavam de sussurros. Os dedos dele desceram lentamente para o fundo úmido de minha calcinha – Droga, pequena, olha o quanto você tá molhada... Foi o beijo que te deixou assim? – eu neguei com a cabeça. Ele havia começado a correr seus dedos para cima e pra baixo devagar, e no momento eu não confiava na minha voz – Quando, então? Quando você ficou molhada pra mim?
- Quando você me olhou. – eu admiti, minha voz traidora voltando e deixando aquilo escapar antes que eu tivesse a chance de pensar melhor.
Ele respirou fundo, seus dedos se movendo mais rapidamente contra o material da minha calcinha.
- Desde aquilo? – ele perguntou, sua voz um pouco estrangulada – Você tá assim desde que eu cheguei? Esse tempo todo? – Eu assenti com a cabeça, sentindo as mãos dele em meu corpo ficarem cada vez mais ávidas – E no que você pensou? No que pensou quando eu olhei pra você? Me diz pequena, por favor, me diz...
- Eu... – tentei começar, minha voz um pouco trêmula. Senti um pouco de vergonha pelo que estava prestes a dizer, mas a vontade de ver qual seria a reação de foi mais forte – Eu pensei que ia morrer se não tivesse você em mim logo.
Com um grunhido que beirou um rosnado, me largou, suas mãos tentando abrir a própria calça de forma apressada e desajeitada. Eu voltei a segurar as mãos dele, dessa vez as imobilizando.
- , não. – eu disse, sem fôlego – Aqui não.
- Mas eu preciso de você. – ele praticamente choramingou, seu corpo inteiro tremendo – Você não faz ideia do que tá fazendo comigo, . Só um pouquinho, eu juro. Eu posso ser rápido. – disse ele, em tom ansioso, implorando com os olhos – Só um pouco, ninguém vai saber. Eu posso ser bem rápido. Posso te fazer gozar mais de uma vez em menos de cinco minutos. Por favor, pequena... – ele voltou a me beijar, intercalando as palavras com os toques de seus lábios – Vai ser bom, eu prometo. Prometo que você vai ver estrelas. E ninguém vai saber...
Eu queria dizer sim. Queria mais do que qualquer coisa deixar que ele tirasse o meu short e me tivesse ali, a poucos centímetros dos meus amigos. Mas as consequências seriam graves demais para fazer valer a pena arriscar. Eu não podia permitir que fôssemos descobertos.
- Não. Não dá. – eu disse, empurrando minhas mãos contra seu peito até ele se afastar – É arriscado demais, não dá.
- Então me deixa ir até seu quarto. – ele pediu, desesperado.
- Já disse mais de uma vez que não. – eu lembrei, enquanto tentava retomar o controle sobre mim mesma, coisa que não era fácil com ele ainda tão próximo – , vai praquela parede.
- O quê? – ele perguntou, confuso.
- A parede oposta a essa. Encosta nela. – eu insisti.
- Por quê?
- Porque com você aqui eu não to conseguindo pensar. – respondi, de forma meio abrupta. Respirando fundo, continuei em tom mais ameno – Por favor, .
Meu “por favor” pareceu fazer efeito, pois ele fez o que eu pedi. Eu estava certa, com espaço entre nós minha cabeça ficava mais clara. Aquele desgraçado deixava tudo nublado e confuso quando estava por perto. Essa era, na verdade, uma das razões para eu procurá-lo às vezes. tinha o poder de espantar todos os pensamentos complicados quando me tinha em seus braços.
Eu respirei fundo, sentindo meu coração batendo forte no peito. Eu precisava me acalmar. Não poderia ir até a sala de Miles daquele jeito.
- Eu não consigo fazer nem a mim mesma gozar em menos de sete minutos. – eu comentei a promessa que ele havia feito, depois de um tempo, apenas para quebrar o silêncio enquanto ajeitava minhas roupas.
- Cinco minutos. Mais de uma vez. – garantiu ele – Quer apostar?
- Não agora. – eu respondi, sabendo que aquela seria uma aposta que eu acabaria perdendo.
Por mais alguns segundos, só o que se ouviu na escada foram as nossas respirações descompassadas.
- A sala de treinamento vai estar liberada de novo em dois dias. – eu disse, ainda tentando me acalmar.
- Isso é muito tempo. – ele reclamou, ainda me olhando daquele jeito que não facilitava em nada a situação.
- Não é. – eu disse, porém sabia que era – E a culpa é sua, de qualquer modo.
- Minha culpa? Quem foi que derrubou a barra da parede?
- Bom, não foi minha culpa! Você que me fez me segurar nela enquanto... – eu parei de falar, odiando o fato de estar corando. Flashes de mim mesma com os braços erguidos até a barra e as pernas ao redor da cintura de me impediram de continuar a descrever a situação.
- E você vai dizer que não valeu a pena? – perguntou ele, com meu sorriso favorito nos lábios.
- Isso não vem ao caso. – eu murmurei, sem encará-lo – Teve a estante também.
- Meu corpo quebrou a estante, sim. Mas tenho a vívida memória de você me empurrando contra ela e arrancando minha camisa.
- E a máquina de supino? – eu perguntei, cruzando os braços e sorrindo um pouco.
- Ok, essa fui eu mesmo. Mas não posso ser considerado responsável pelo que faço quando essa boquinha sorridente tá me chupando. – disse ele, em seguida vindo em minha direção – O que me lembra... Quanto está a contagem mesmo? Três meus e quatro seus? – ele perguntou, enganchando um dedo na linha da cintura do meu short – Acho que estou te devendo outro... Beijo. – murmurou ele, naquele tom de voz macio que me fazia perder a cabeça. Daquela vez, no entanto, eu estava preparada.
- Você vai poder pagar quando tivermos a sala novamente. – eu disse, segurando a mão dele e a afastando do meu short – Pra parede, .
- ...
- Parede. – eu disse, decidida, apontando para a parede oposta a minha.
- Você diz que eu sou ruim, mas a cruel aqui é você, . – resmungou ele, porém fazendo o que eu mandei.
- Eu sei, eu sei, sou uma pessoa horrível, blá blá blá. Agora cala a boca e me espera aqui enquanto eu vou buscar os diários. – eu disse, recomeçando a subir as escadas.
- E por que eu não posso ir com você? Achei que esse era o motivo de eu vir junto. O motivo oficial, quero dizer.
- Não é seguro. – eu respondi.
- , ninguém vai desconfiar de alguma coisa só porque eu estou te ajudando a carregar diários.
- Você entendeu errado. – eu disse, em tom falsamente paciente – Não é seguro porque daqui a até a sala de Miles têm pelo menos duas salas de depósito e um armário de vassouras.
Eu o encarei significativamente e o olhar dele escureceu de maneira perigosa ao entender aonde eu queria chegar. Seus lábios se curvaram lentamente e eu soube que era melhor sair dali rápido.
- Esse seu sorriso acaba de confirmar o que eu estou dizendo. Espere aqui.
Por alguns momentos eu realmente achei que ele fosse me obedecer. Quando eu finalmente cheguei ao corredor, porém, me alcançou.
- Falei pra você esperar lá embaixo! – eu sibilei, irritada.
- Calma, caçadora, eu não vou com você. Tenho coisas a fazer, na verdade.
- Que coisas? – eu perguntei, cética. De uma hora para outra ele havia arranjado compromissos?
- Bom, primeiro preciso passar no banheiro. – disse ele, com o sorriso mais filho da puta do mundo nos lábios. Eu revirei os olhos.
- Vampiro pervertido. – eu disse, em meu tom mais reprovador.
- Como se você fosse uma santa. – disse ele, colocando uma mexa do meu cabelo atrás de minha orelha – Não faça essa cara, você é a culpada por todo meu desconforto. E além disso eu ainda preciso passar na cozinha, ver se eles ainda tem o estoque de emergência de sangue. Alguém não anda tendo como me alimentar nos últimos dias.
- E depois? – eu perguntei, tentando não me deixar afetar pela proximidade dele.
- Depois eu acho que vou dar uma volta. – disse ele, suspirando e fechando os olhos como se caísse em si antes de se afastar – Convenhamos, isso não está dando certo. Se eu tiver que passar mais tempo perto de você sem poder te tocar, eu juro que vou explodir.
Eu entendia bem o sentimento, mas aquilo não me impediu de reclamar.
- Você simplesmente vai embora enquanto eu vou ter que ficar aqui ajudando na pesquisa?
- Não é como se nós estivéssemos ajudando muito. Na verdade, eu só to te distraindo. E se você está preocupada com o que os outros vão pensar, duvido que achem estranho se eu fugir da pesquisa. Acho que estão até esperando isso.
- Mesmo assim. Eu não posso fugir. Isso é injusto. – eu disse, franzindo a testa.
- Injusto é você estar perto de mim e continuar vestida, coisa que não vai durar muito se continuar fazendo essa carinha de irritada. Tem noção do quanto você fica sexy assim?
Eu revirei os olhos novamente, sem saco para piadinhas e sem perder a expressão de irritação. Devo ter feito um bico sem querer, pois no momento seguinte fui surpreendida por mordendo meu lábio inferior.
- ! – eu exclamei, olhando nervosamente de um lado para o outro e o afastando de mim – Tá maluco? Alguém pode ver!
- Que foi? Ele tava me provocando... – disse ele, ainda olhando para minha boca, prestes a repetir o ato. Eu o empurrei novamente.
- Você tá certo, é melhor ir dar uma volta mesmo. Mas volte em duas horas, vou começar a treinar minha equipe hoje.
Aquilo pareceu trazê-lo de volta à realidade.
- Espera, o quê? – perguntou, parecendo surpreso – Você me quer nos treinos?
- Aham. Não pense que vai escapar. – eu respondi, séria. A cara de desespero dele, porém, quase me fez rir.
- Por quê? – perguntou , como se sentisse dor – Pra que você vai precisar de mim? Você sabe que seus amigos não me suportam. Desde quando você me quer perto deles?
- Desde nunca. Na verdade, te quero bem longe deles, mas nesse caso a coisa é diferente. – eu respondi, com minha melhor expressão séria – Se eu vou ter que aturar treinar iniciantes, me recuso a sofrer sozinha. Você vai estar lá em duas horas e vai ajudar se eu precisar, estamos entendidos?
- Certo. – disse , e dessa vez foi ele quem fez um biquinho. Naquele momento pude entender completamente o vampiro. Também estava tendo problemas em resistir àqueles lábios.
Ele estava certo, a gente não podia continuar assim. Uma hora ou outra um de nós explodiria e aí... Melhor nem pensar. Eu não me responsabilizava pelos acidentes que poderiam acabar acontecendo.

Não preciso nem dizer os tipos de possíveis “acidentes” que começaram a passar em rápida sucessão por minha mente, preciso?

Eu apenas permaneci ali, parada, encarando enquanto me via incapaz de resistir pensar no que faria com ele se pudesse. Não demorou muito até que os sinais de contrariedade no rosto dele dessem lugar àquela fome que se igualava a minha. Eu era incapaz de dizer quanto tempo passamos daquele jeito, mas foi que finalmente quebrou o encanto.
- Ok, é melhor eu ir antes que acabe fazendo uma besteira. – disse ele, fechando os olhos e respirando fundo – Te vejo mais tarde, caçadora.
então deu as costas para mim, prestes a se afastar. A quebra do contato visual devia ter aliviado um pouco minha tensão, mas na prática não foi bem assim. A visão de de costas era quase tão boa quanto a dele de frente.
Ele tinha uma ótima bunda. Tipo, ótima mesmo. Não era justo um cara ter uma bunda como aquela, e os jeans que ele usava pareciam apenas favorecê-la.

Eu não pude resistir. Tudo aconteceu em milésimos de segundo e, quando eu vi, já a havia apertado.

- Ai! – exclamou, surpreso, se voltando novamente para mim e parecendo chocado. A expressão no rosto dele eliminou toda a minha vergonha.
- Que foi? – eu disse, em tom provocante, enquanto passava por ele – Ela estava me provocando.
Pude dar vários passos antes que o choque de desse lugar a uma risada incrédula. Eu sorri para mim mesma. Poucas coisas no mundo eram tão boas quanto surpreender e deixá-lo sem palavras.
- Duas horas, sanguessuga. Não se esqueça. – eu disse, encarando-o uma última vez antes de virar o corredor e desaparecer de vista.

Xx

’s POV


Eu adiei minha volta ao QG o máximo que pude. Quando finalmente desci aquelas escadas novamente, mais ou menos três horas depois, o lugar já estava transformado. Boa parte dos móveis que antes ocupavam o centro da sala haviam sido afastados, liberando uma área considerável para que o suposto treino acontecesse. estava de pé de frente para Tara e e parecia passar a eles as ideias básicas. Os outros três estavam espalhados por cadeiras e poltronas ao redor da sala, o que era compreensível. Gilbert não precisava de treino nenhum, tendo sido o treinador de , e e já estavam ali a tempo o suficiente para saberem bem do que aquilo tudo se tratava.
- Perdi alguma coisa? – eu perguntei para ninguém em particular, sentando em uma poltrona o mais distante dos outros o possível. Se precisasse de mim, chamaria. Só Deus sabia o quanto eu torcia para que ela não precisasse.
- Perdeu boa parte do monólogo da e o Gilbert berrando com a gente que arrastar os móveis ia acabar arranhando o piso. Foi emocionante. – respondeu , parecendo extremamente entediada enquanto lixava suas unhas.
- Primeiro: cala a boca, . – disse – Segundo: você tá atrasado. Terceiro: não enche, . E quarto... – ela voltou seu olhar para Tara e – Onde eu estava mesmo?
- Estacas. – respondeu Tara, sorrindo.
- Certo. – disse ela, tirando uma estaca de sua bota e a mostrando aos dois – Isso é uma estaca. A estaca é sua amiga. Se virem alguém com presas rosnar pra vocês, usem isso.
- Eles são novos, . Não retardados. – disse , rindo.
- Vocês pediram para eu explicar tudo, não pediram? Então, to explicando. Se acha que faz melhor, pode vir aqui. – rebateu , parecendo bem irritada. Oh, aquilo já estava divertido. Há quanto tempo ela havia começado? Meia hora, uma hora, talvez? A paciência de já devia estar prestes a estourar. Se tudo desse errado, o espetáculo com certeza poderia ficar bem interessante.

A criatura mais intolerante do mundo tendo que ensinar seu trabalho a alguém? Eu devia ter vendido ingressos.

- Calma, foi só um comentário. – disse , erguendo as mãos em sinal de rendição e ainda rindo.
- Guarde seus comentários. – voltando-se para Tara e novamente, ela continuou – Vampiros só morrem de três formas. Madeira perfurando o coração, fogo ou decapitação. Cortar cabeças é um procedimento difícil, e fogo pode ser perigoso, a não ser que você consiga lançar o vampiro contra a luz direta do sol. Mas pra vocês eu sugiro a estaca ou isso. – ela retirou o revólver do coldre em sua cintura, o mostrando a eles – Mas usem apenas balas de madeira. Balas de verdade podem machucar bastante, mas não são mortais. Se só tiverem balas normais, porém, mirem na cabeça. Os deixará incapacitados tempo o suficiente para que vocês possam fugir.
- Espera um pouco. – disse , incrédulo – Um tiro na cabeça só os deixa incapacitados por um tempo? Mas e a perfuração no cérebro? Como isso não tem consequências mais sérias?
- A gente se recupera rápido. – eu respondi antes que pudesse – E nos recuperamos totalmente, a ponto de sermos capazes de regenerar pequenas áreas do corpo, até mesmo o tecido cerebral. Não é a complexidade da área que influencia a regeneração, e sim o tamanho.
- Quando você diz “regeneração”... – começou , lentamente se voltando em minha direção – Você não está falando o que eu acho que você está falando, certo? Quero dizer, você não pode recriar partes do seu corpo... Né?
- Bom, não partes inteiras, como um braço. – eu respondi – Mas um dedo ou um pedaço de uma orelha, isso sim.

Todos, exceto Gilbert, me olharam como se eu tivesse acabado de anunciar ser o receptáculo de Satã.

- Eles crescem de novo? – perguntou, parecendo assustado – Como a calda de uma lagartixa?
Eu me recusei a responder aquilo.
- Vocês não ensinam nada nesse lugar? – eu perguntei para Gilbert. Aquilo era uma informação básica.
- Nós tentamos. – respondeu ele – Não é nossa culpa se alguns escolhem não ouvir.
- Não é nossa culpa se suas aulas dão sono. – foi quem respondeu em nome dos demais, antes de voltar a lixar suas unhas como se nada tivesse acontecido. A completa falta de tato daquela garota precisava ser admirada.
Eu esperei para ver o que Gilbert responderia, mas este, embora visivelmente ofendido, permaneceu calado.
- Ok... – disse , depois de alguns segundos de silêncio – Vampiros regeneram partes do corpo. Acho que já ouvi todas as bizarrices possíveis.
- Porcos tem orgasmos de trinta minutos. – disse , de repente, sem erguer os olhos de sua lixa – Existiu uma galinha que viveu sem cabeça por dezoito meses. O músculo mais forte do corpo é a língua. Alguns leões acasalam até cinquenta vezes em um dia. Vampiros regeneram partes do corpo.

piscou algumas vezes, parecendo tão chocada quanto o resto de nós.

- Ok, agora eu ouvi tudo.
- Sobre essa história da língua... – eu comecei a perguntar a , porém fui interrompido por .
- Dá licença, eu to no meio de uma aula aqui! – disse ela, parecendo extremamente perturbada por todas as razões erradas. Oh, sim, a mente dela havia ido ao exato ponto onde a minha havia chegado. Eu fiz o possível para não rir.
- Estávamos falando sobre armas. – disse Tara, sempre prestativa, ao ver que não conseguiria retomar a explicação sozinha.
- Armas, claro. – disse , balançando levemente a cabeça – Apenas tiros no peito com balas de madeira funcionam.
- E se atirarmos no pescoço? – perguntou – Separar a cabeça do resto do corpo adianta, não adianta?
- Decapitação é eficiente, mas nesse caso você precisaria de uma pontaria perfeita. O tiro precisaria cortar completamente a ligação do pescoço com o resto da coluna. Mas se você achar que consegue, vá em frente.
- Então decapitação realmente funciona, certo? – perguntou Tara – Cem por cento das vezes?
- Se completa, sim. Afinal, nenhuma criatura vive sem cabeça.
- A não ser a tal galinha que...

O olhar que me lançou então extinguiu minha coragem de continuar.

- ... Não é importante. – eu conclui, desviando meus olhos. A caçadora estava começando a sucumbir à irritação e eu não era idiota o suficiente para provocá-la naquele estado.
Felizmente, ao que parece eu não era o único ali com bom senso.
- Quer saber? – disse , levantando de sua poltrona, provavelmente tendo percebido também as ondas de estresse vindas da garota – Eu acho que a já explicou coisa o suficiente por hoje. Podemos continuar amanhã sem problemas, certo? Que tal usarmos o resto da noite para descansarmos, relaxarmos um pouco?
- Tá dizendo que eu preciso relaxar? – perguntou , sem perder sequer um segundo.
- Não! – disse o garoto, arregalando os olhos por um momento – Não, to dizendo que estamos todos cansados. Passamos a tarde inteira com a cabeça enfiada em milhares de textos. Já são quase oito horas da noite. Acho que devíamos fechar o dia assim.
- Enquanto a ainda não arrancou o olho de ninguém. – murmurou e eu reprimi o riso. Por sorte, a audição de não era tão boa quanto a minha.
- Mas nós nem fizemos a parte prática. Liberamos todo esse espaço à toa? – insistiu.
- Não tem problema. Sério. – disse o garoto, quase com veemência.
O modo como ele disse aquilo pareceu deixá-la desconfiada. A caçadora correu o olhar pela sala, como se esperando que alguém falasse alguma gracinha ou fizesse algo suspeito. Após alguns segundos, porém, pareceu relaxar.
- Ok, então. Vou estar no meu quarto se alguém precisar de mim. – disse ela, antes de dar as costas e sair da sala.
- Sobrevivemos! – disse , levantando os braços em comemoração após dar tempo de se afastar – Sério, a velocidade com a qual o temperamento da esquenta me choca. Você chegou muito perto de receber uma estaca no peito, morto-vivo. O jeito que ela te olhou gelou minha alma.
- Eu to acostumado. – respondi, levantando e seguindo o caminho que havia seguido.
- Ei! – exclamou – Não vai ficar pra ajudar a rearrumar esse lugar?
Eu o encarei longamente, deixando que a pergunta se respondesse sozinha antes de me retirar daquela sala. Uma coisa era ter que suportar aquele povo por . Outra muito diferente era bancar o colega prestativo.

Minha moral podia até ter decaído bastante nos últimos tempo, mas aquilo seria uma nova definição de fundo do poço.

Xx

Eu podia ter pego os túneis para voltar para casa, mas preferia caminhar pela superfície. A noite de Los Angeles estava fresca, graças à proximidade do inverno. Eu não costumava reparar muito no tempo, mas a convivência com havia mudado aquilo em mim, de certa forma. Segundo aquela temperatura fresca, quase fria, era ideal para caçar. Ela vivia reclamando do calor de Los Angeles, do suor, do desconforto... gostava de reclamar sobre o tempo.

Assim como gostava de reclamar sobre tudo.

Eu estava um pouco surpreso com ela, na verdade. Seu comportamento no treino não foi nem de longe tão ruim quanto eu pensei que seria. Provavelmente, no entanto, aquilo só acontecera pois não tivera tempo o suficiente para perder de vez a calma.
havia sido inteligente ao interromper o treino naquele ponto. Deixar conduzir tudo sozinha não havia sido uma boa ideia: ela não tinha a menor vocação para instrutora. Faltava a ela paciência e tato, coisas com as quais a caçadora nem ao menos se importava suficientemente para tentar adquirir. Para minha extrema infelicidade, estava claro que eu e Gilbert precisaríamos interferir da próxima vez. Por pior que fosse aquela ideia, ajudar aqueles imbecis com certeza seria melhor do que ter que aturar se martirizando por ter matado um deles em uma crise raivosa. Eu bem sabia que aquilo podia sim acabar acontecendo.
Nesses últimos dias a caçadora andava mais estressada do que o normal e eu tirava um pouco de satisfação do fato de ser em parte o culpado por aquilo. Ela sentia minha falta. Ao menos no sentido físico, sentia minha falta tanto quanto eu sentia a dela. Aquilo a deixava irritada, insatisfeita, frustrada e eu sabia, oh, eu sabia como fazer com que todas aquelas coisas fossem embora. Eu sabia relaxá-la como nada mais no mundo podia. Sabia quando tocá-la, como tocá-la, o que ela gostava e não gostava... Eu prestava atenção, estava aprendendo e, se pudesse, já teria resolvido aquele problema por nós dois. Mas eu não podia, podia? não me queria em seu quarto e eu não podia arriscar tê-la em minha cripta ou em qualquer lugar fora das paredes da Organização. O Mestre não estava nem mais disfarçando o fato de me ter sob vigilância, e o lugar aonde eu dormia era de conhecimento geral de seu bando. Eu me considerava relativamente seguro por hora, já que no momento tinha mais valor para ele vivo do que morto. Não ousaria, porém, arriscar a vida de . Por mais claro que estivesse o fato de que o Mestre a queria viva por hora, eu não sabia quando isso mudaria.
Se não fosse tão cabeça dura, nós nem teríamos um problema. Mas ela insistia em não permitir minha presença em seu quarto. Acho que o segredinho sujo com o vampiro era algo relegado a encontros violentos contra uma parede qualquer ou sobre o chão empoeirado, e não à cama dela. convenientemente se esquecia de eu já ter estado lá, de que eu conhecia seu mundo, seus bichinhos de pelúcia e seu péssimo gosto para DVDs. Esquecia que eu já havia a tido naquele lugar, e mesmo antes disso já a levara para sua cama em meus braços. se esquecia que invadir sua intimidade era algo que eu já havia feito, por mais que ela tentasse se convencer do contrário. Me impedir de frequentar seu quarto não mudava o fato de eu já estar na vida dela, na mente dela, no corpo dela. Se a caçadora achava que fechando as portas para mim bloquearia seu coração, tudo bem. Mas ela não podia interferir no modo como eu já havia mexido em seu mundo.
Eu nunca a via tão calma como nos poucos segundos nos que ela se permitia deitar em meus braços antes de colocar de volta a armadura e me afastar novamente. Os momentos nunca duravam, mas eu vivia por eles. O coração dela acelerava, sua respiração ficava descompassada e, nos preciosos segundos que levava para se recuperar de um orgasmo, ela era minha. Aquilo era quase nada, mas para quem não tinha nada, “quase” significava o mundo. não me odiava quando tinha sua cabeça contra meu peito enquanto esperava o mundo parar de girar. Ela não me odiava quando eu sussurrava alguma besteira em seu ouvido para fazê-la rir baixinho. Eram tão raros os momentos nos quais ela não me odiava que eu precisava aproveitá-los quando os tinha. Não duravam muito, mas enquanto duravam eram o paraíso.
Eu sabia que era um brinquedo, uma válvula de escape, uma coisa que usava para se sentir melhor. Ela não se importava comigo ou com meus sentimentos, mas eu não podia fazer nada a respeito. Acho que a maioria das pessoas não entenderia isso. Me achariam patético, na verdade. “Por que você não luta?” “Por que deixa que as coisas permaneçam como estão?” “Se ela te faz tão mal, por que não a deixa?” Essas eram as coisas que as pessoas costumavam pensar sobre gente como eu, embora raramente verbalizassem tais pensamentos. Afinal, você não pode ser mau com vítimas de relacionamentos abusivos.
Eu estava em um relacionamento abusivo? Estava, embora um que se escondesse por trás de um acordo que apenas existia para tranquilizar a consciência de . Mas, embora ela tentasse negar, o que tínhamos era um relacionamento, e um bem longe de ser saudável. Eu não negava minha parcela de culpa naquilo, é claro. Às vezes quem assumia o papel abusivo era eu. Na primeira vez que a havia mordido, não esperara ela me dar permissão. Quando estive em seu quarto também não esperei para saber se ela me deixaria ou não colocá-la de bruços no meu colo. Agi por raiva, desespero, e por mais que em todas as ocasiões tivesse tido certeza que ela gostaria do que eu estava prestes a fazer, aquilo não era justificativa. Eu sabia que estava errado. Não era nenhum santo e não queria me fazer de vítima. A única diferença entre mim e era que o meu abuso era físico, enquanto o dela geralmente era psicológico e emocional.

Para ela, era só um jogo.

Ela brincava com a minha cabeça, mesmo eu sabendo que não fazia de propósito. A crueldade de era inconsciente. Ela não queria me machucar, eu sabia disso, mas algo nela parecia achar que devia. Me punia por fazê-la me querer. Me punia por ela e por mim.
E eu não podia pará-la. Dizer a ela a verdade significaria perdê-la e eu não podia suportar a ideia. Era isso que as pessoas não entendiam. Por isso, no fundo julgavam quem nunca havia tentado parar aqueles que os exploravam emocionalmente. As pessoas não entendiam o que era o desespero por afeto, a esperança inútil de fazer com que a pessoa amada retribua o sentimento. Talvez se eu deixar que ela me machuque ela vai me amar um dia. Você nem ao menos se importa com a dor. Pelo contrário, você a aceita. De certa forma, aprende a amá-la. Se aquilo é tudo que o ser amado está disposto a te dar, ainda assim é bem melhor do que nada. Não poder ter mais do que aquilo não significava que era melhor ter menos.
Aquilo era falta de amor próprio, eu sabia. Concordava inteiramente com o que Tara havia dito ao tentar me ajudar. Talvez se eu me desse algum valor as coisas pudessem ser diferentes. Se eu tentasse conversar com , talvez pudesse mudar a situação. Na última vez que eu havia aberto meu coração para ela, na infeliz noite chuvosa, o resultado havia sido catastrófico. Dessa vez, porém, quem sabe eu não obteria um resultado diferente?
Seria bom ter aquela resposta, mas eu sabia que nunca a conseguiria. Afinal, além de todos os motivos já mencionados, havia também o fato de eu ser um covarde.
É muito mais fácil trepar com alguém do que dizer pra essa pessoa o quão sozinho você se sente, o quão agradecido você está por ela existir. Era bem mais fácil me esconder no corpo de do que implorar para que ela me explicasse o que havia de errado comigo. Era simplesmente mais fácil.
Quando dei por mim já havia chegado à porta de casa. Entrei com a vã esperança de conseguir deixar os pensamentos ruins do lado de fora. Infelizmente não foi possível, e aquela pontada no coração me acompanhou até o nível inferior.
Puxando uma cadeira, me sentei de frente para a minha mesa, contemplando a confusão de papéis e cadernos sobre ela. Desenhos se misturavam a textos ruins e poesias incompleta. Eu havia tentado escrever para ela, mas não conseguia. Meu pouco talento parecia ter morrido com minha vida humana. Não que fizesse diferença, é claro. provavelmente detestaria se eu escrevesse sobre ela e eu nunca teria coragem de mostrar nada que produzisse. Apesar disso, a atividade era boa para me manter ocupado. Era uma pena eu não estar inspirado o suficiente para me enganar. Pelo visto naquela noite não havia nada capaz de me fazer fugir da realidade.
A cripta estava fria, ou talvez fosse só eu. Não importava, fosse qual fosse o caso, eu sentia a falta dela. era meu raio de sol, e por mais efêmero que fosse, servia para iluminar e esquentar tudo à sua volta ao mesmo tempo que me queimava mortalmente. Eu a queria ali, a queria agora, apesar de todo o sofrimento. Talvez por causa de todo o sofrimento. Se em nada mais, naquilo nós combinávamos. Queimávamos juntos com uma intensidade que eu nunca antes havia experimentado. Eu era escravo de seu corpo, de seu cheiro, do modo como ela me fazia sentir. Se só o que tínhamos era sexo, ao menos o sexo era maravilhoso.
Ela tinha o dom de me deixar duro com um olhar, um sorriso... Menos que isso, até. Bastava pensar nela para que meu corpo respondesse. Ela costumava fazer piada com o fato de eu sempre parecer pronto para ela, e a verdade é que eu sempre estava mesmo. Quando estava perto, cada parte do meu ser era afetada. Meu corpo pedia o dela, meu coração doía e minha mente girava.
Peguei o celular que havia deixado sobre a mesa algumas horas atrás e comecei a revirá-lo distraidamente em minhas mãos. O havia roubado pouco tempo depois de receber a carta do Mestre, já que precisaria ligar para ele quando a hora chegasse. Precisei trocar a linha por uma pré-paga sem contrato assim que o número foi bloqueado, claro, mas a vantagem de se ter uma linha relativamente segura havia compensado o gasto de dinheiro.
Eu só tinha dois números naquele aparelho: o dela e o do Mestre. A ironia da situação não passava despercebida por mim.
Eu havia pensado em tentar rastrear o número que o Mestre havia me dado, mas não valia a pena. Além de ser perigoso desobedecer a ordem de não tentar nada contra ele, seria também inútil. Aquele vampiro não seria idiota o suficiente para me dar um número que pudesse me fornecer alguma informação útil. Provavelmente estava usando um aparelho descartável.
Eu estava prestes a trair e não era nem capaz de conseguir uma informação que pudesse me redimir. Ela estava certa em me tratar como objeto; eu não valia mais que isso. Tinha até bem mais do que merecia.
Então por que me martirizar? Por que ficar ali, sentado, sentindo pena de mim mesmo? Querendo e sofrendo por isso, me privando do contato. Ela me queria também. Havia uma coisa que certamente queria de mim, então por que não deixar que ela tivesse? Com um pouco de esforço, talvez eu pudesse vencer os impedimentos que nos separavam naquela noite. Na verdade, eu sabia exatamente como fazer isso.

Acessando a agenda do celular, eu pressionei o número de .

Capítulo 32 – Night Callers

’s POV

Não vou nem fingir que tentei relaxar.

Desde que eu me entendo por gente, sempre tive pessoas me dizendo que eu precisava me acalmar. Como se fosse fácil. Tente meditar ou contar até dez quando todos a sua volta nutrem milhares de expectativas sobre você. Fosse como caçadora, como objeto de uma profecia ou como amiga, todos sempre esperavam algo de mim. Atingir as expectativas dos outros era difícil, mas eu tentava. Por mais ridículo que fosse, eu tentava, e aquilo tornava minha vida mais difícil. Eu aprendera a me sentir culpada por ter outros problemas, por sentir raiva, revolta, dor, como se de alguma forma aquilo me desviasse de meu propósito, meu motivo para existir. É claro que eu vivia estressada. Eu vivia dividida entre odiar quem eu era e tentar ao máximo ser essa pessoa. Estresse era como uma segunda natureza.
Sim, eu sabia que havia quase passado dos limites no QG. Já estava perdendo a cabeça com meus amigos muito antes de chegar – atrasado, diga-se de passagem, mesmo após meus contínuos avisos para ele chegar na hora. Havia respondido torto a várias perguntas idiotas e cortado sem dó vários comentários inúteis. Eu não era uma pessoa paciente. Nunca fora e nunca seria. E nos últimos dias andava um pouco mais grossa que o normal, por algum motivo.

Não, eu não sabia o motivo. Não mesmo. Cala a boca.

Estar com ele me deixava mais calma, era inegável. Mas isso não significava que eu ficava pior sem ele. Aquilo era completamente absurdo e eu me recusava a perder meu tempo considerando aquela ideia ridícula. Eu tinha mais o que fazer. Tinha a noite de folga. Havia acabado de tomar um longo banho. Podia ver um filme, ler um livro, afiar minhas estacas, praticar minha pontaria na sala de tiro...

... Podia ir vê-lo, também, é claro.

Não. Não. Ele nem me queria lá, andava deixando isso bem óbvio. Não, eu ia ficar bem aqui.
Para reforçar meu ponto, cruzei os braços e me sentei em minha cama, decidida a não me mover até que a vontade idiota de ver passasse. Porque vê-lo não era algo simples. Ir até lá implicaria dar explicações, falar com ele... Em um mundo ideal eu e nunca precisaríamos conversar. Ele apareceria e desapareceria da minha cama em um passe de mágica, quando eu bem entendesse. Aquilo era justo com ele? Não. Mas quem disse que eu preciso ser justa? Eu não sabia agir daquele jeito. Ser ruim fazia mais meu estilo.

Fiquei sentada sobre minha cama como uma criancinha irritada até ouvir meu telefone tocar.

Peguei o aparelho, feliz pela distração.
Oh, claro. Como se fosse ser fácil assim.
- Hey, caçadora.
Em outra vida eu devo ter sapateado na mesa da Santa Ceia ou algo parecido.
- Se ligou pra pedir que eu te encontre em uma fábrica abandonada, desista. – eu disse, sem rodeios. Pude ouvi-lo rindo do outro lado da linha.
- Não liguei pra pedir nada, , mas não minta para si mesma. Você não se importaria nem um pouco em estar sozinha comigo em algum lugar novamente.
- Na verdade, eu to feliz de não estar sozinha com você no momento. Seu ego deve estar consumindo todo o ar do ambiente. – eu rebati, sem perder tempo.
- Hm, não é verdade. Mas garanto que se você tivesse aqui eu te daria motivos pra sentir falta de ar. – disse , e eu praticamente podia ver o sorrisinho nos lábios dele.
- Promessas, promessas. – eu provoquei, com um falso suspiro – O que você quer, ? E de onde você tá me ligando?
- Não te contei? Tenho um celular agora.
- Oh? E quem foi o coitado que teve que perder o dele para tornar esse fato possível? – eu perguntei ao cleptomaníaco.
- Não sei, não faz diferença. E nem finja que se importa com isso porque eu sei que suas noções de moral não são tão boas.
- Não preciso fingir nada, e você não respondeu minha outra pergunta. O que você quer? – eu perguntei novamente, deitando na cama. Se eu bem conhecia , aquilo ia demorar.
- Não sei. Fiquei entediado. – respondeu ele.
- E eu com isso? – perguntei, enquanto encarava o teto – Você não tem nenhum amigo vampiro ou algo do tipo?
- Oh, claro. Sou o vampiro mais popular de Los Angeles. – disse ele, sarcástico – Eu trabalho pra Organização, amor. Duvido que alguém da espécie me queira por perto.
- E você quer que eu, o quê? Sinta pena? – eu sabia que estava sendo escrota, mas não podia evitar. provocava aquilo em mim sem precisar tentar.
- Claro que não, . Que Deus nos proteja se algum dia você decidir gastar com outra pessoa a pena que sente de si mesma.

Ok, eu sabia que tinha merecido aquela. Mas não fazia diferença.

- Se ligou só pra me irritar, é melhor parar por aí. – eu avisei, me controlando para não simplesmente desligar na cara dele.
, no entanto, pareceu sentir isso, pois gastou um longo momento respirando fundo.
- Na verdade, é exatamente o contrário. Liguei pra te acalmar.
A resposta foi tão inesperada que eu nem fui capaz de pensar em uma resposta malcriada.
- O quê? – eu perguntei, confusa.
- Você me pareceu estressada hoje mais cedo. – explicou ele – Então pensei que talvez pudesse ajudar.
- E como você espera fazer isso? – eu perguntei, rolando um pouco na cama – Te garanto que o som da sua voz não vai ajudar em nada.
- Em primeiro lugar, você sabe que gosta da minha voz. E em segundo, também sabe o que eu posso fazer pra te acalmar. – respondeu ele, sem parecer afetado por minhas palavras.
- Não nego que isso possa ser verdade quando estamos próximos, mas como esse não é o caso...
- Sua falta de imaginação me surpreende, . Não preciso estar perto de você para te fazer esquecer todos os seus problemas.

E então a ficha caiu, quase tarde demais.

- Por favor não esteja sugerindo o que eu acho que você está sugerindo. – eu pedi, fechando os olhos e sacudindo a cabeça, sem conseguir acreditar.
- Sabia que você não era tão boba quanto parece. Mas só pra evitar confusões, o que acha que estou sugerindo?
- Algo que eu não vou fazer. – eu respondi.
- Por que não? – perguntou, como um menininho contrariado. Minha mente traidora desejou poder ver o provável bico que ele trazia nos lábios.
- Porque não. – eu insisti – Eu não vou fazer sexo com você por telefone.
- Você não precisa dizer nada se não quiser. – disse ele – Se preferir, eu posso apenas falar o que você deve fazer.
- Eu não vou “fazer” nada! – eu retruquei, com voz firme. , porém, não respondeu. Por alguns momentos só o que eu ouvi foram os distintos sons de movimento, seguidos por...

Ah, não.

- , o que você pensa que tá fazendo? – eu perguntei, um pouco irritada.
- O que você disse que não vai fazer. – o vampiro respondeu, simplesmente.
- Você me enoja. – eu disse.
- Não é verdade.
- Eu vou desligar.
- Vá em frente.
Ele sabia que eu não ia desligar. Claro que eu não ia desligar, hipocrisia tinha limites. Depois de tudo que nós já havíamos feito, implicar com masturbação seria ridículo.
- Continua falando comigo. – ele pediu, quando eu parei de responder.
- Não. – eu disse, enrolando uma mecha de cabelo nos dedos.
- Então eu vou falar com você. – disse ele – Primeiro, tire o short.
- , já disse que não vou fazer isso. – eu disse, porém menos resoluta do que antes – E como você sabe o que eu estou vestindo?
- Porque você é previsível, e sim, você vai. Sabe muito bem que tá precisando disso tanto quanto eu. – disse ele – Vamos lá, caçadora. Não é como se eu fosse contar para alguém.
- Mesmo se eu precisasse, posso muito bem fazer esse tipo de coisa sozinha. – respondi, porém brincando com o botão do meu short.
- Aham, e seria muito menos divertido. – disse , e eu não tive como discordar – Mas já que você levantou o assunto, vamos falar sobre isso. Quero saber tudo sobre como você se toca.
- Você é doente. – eu disse, porém rindo.
- Você pensa em mim? – ele perguntou, e eu pude ouvir sua respiração ficando mais pesada.
- Às vezes. – sempre.
- O que você me imagina fazendo?
- Já disse que não vou jogar esse jogo com você, .
- E por que não? Não é nem de longe a coisa mais comprometedora que já fizemos, . – disse o vampiro, naquela voz macia que ele adorava usar contra mim – Se você se toca enquanto pensa em mim, por que não pode fazer o mesmo enquanto escuta minha voz?
- Porque eu já disse que não. – insisti, porém com a voz carregada de promessa.
- É, eu ouvi. Agora tira o short.
- Não. – eu disse, enquanto abria o zíper e descia os shorts.
- Certo, agora a camisa.
- Você tá me vendo?! – eu perguntei, sentando imediatamente e olhando à minha volta como uma perfeita idiota. Nem me passou pela cabeça que as chances de estar escondido no meu quarto eram inexistentes.
- Não. – disse ele, rindo – Mas agora eu sei que você fez.
- Eu te odeio. – eu declarei, porém tirando minha camisa.
- Mas me quer mesmo assim. – ele retrucou, ainda rindo um pouco – Se já tirou a camisa, me descreva sua lingerie.
Eu suspirei, desistindo de discutir com ele.
- Sutiã preto, calcinha rosa.
- Seja mais específica. – oh, claro. Havia esquecido do vasto conhecimento que o idiota tinha sobre minhas roupas íntimas.
- A calcinha é a simples de cetim. O sutiã é o de lacinho, com fecho na frente.
- Oh, eu adoro esse. – disse ele, e eu revirei os olhos. O babaca dizia isso sobre todos – Tira ele também.
Fiz novamente o que ele pediu, me sentindo um pouco chocada comigo mesma. Eu realmente estava prestes a fazer aquilo? Meu desespero havia atingido aquele ponto?
Eu to sozinha, eu disse para mim mesma. O ponto positivo de se estar sozinha é fazer o que bem entende. Eu to sozinha e é só uma voz no telefone.
- Pronto. – eu disse, enquanto me ajeitava na cama.
- Você... Você tirou mesmo? – ele perguntou, parecendo surpreso e esperançoso. Pelo visto ele estava esperando que eu fosse desistir.
- Aham... – eu disse, no tom de voz mais sexy que fui capaz de fazer. Se nós íamos mesmo fazer aquilo, eu não seria a única a ser afetada.
- Droga, ... Toque o seu corpo por mim. – pediu ele, sua voz falhando – Faça o que eu não posso fazer, pequena. Se acaricie como se fosse eu, como se sua mão fosse a minha. Se toque como eu te tocaria.
- E como você me tocaria? – eu perguntei, em tom falsamente tímido, tocando meu abdômen distraidamente.
- Do jeito que você gosta. – ele respondeu, daquele jeito que costumava fazer meus joelhos tremerem – Passaria meus dedos por cada pedacinho seu que eu pudesse alcançar. Seus seios, seu estômago, seus quadris, suas pernas... Acariciaria até mesmo áreas que você nunca imaginou serem capazes de fazer seu corpo vibrar. – minha mão seguia os movimentos dele, e eu me vi apertando minhas pernas uma contra a outra, me deixando levar pela voz de – Por favor, diz alguma coisa, . – o modo como ele pediu isso, sua voz tensa e cheia de desejo, tornou impossível dizer não.
- O quanto você me quer nesse exato momento?
- Mais do que você pode imaginar. – ele respondeu, em tom meio desesperado.
- Continua me tocando, então. – eu pedi, com a voz trêmula.
- Seus dedos. Quero que você os leve até seus mamilos, mas antes disso umedeça-os na sua boca. – o ouvi respirando pesado do outro lado da linha – Ponha seus dedos na boca e sugue-os. Passe sua língua por eles também, daquele jeito que você faz comigo. Do jeito que me faz perder a cabeça e te implorar pra não parar. Céus, caçadora, já te disse que você tem um dom pra...
- Não precisa completar essa frase. – eu disse, o interrompendo logo após tirar os dedos da boca com um pequeno estalo.
- Por que não? Só to falando a verdade. Não banque a menininha inocente, . Você é tudo menos isso.

E naquele momento, no meio da noite, eu tive uma daquelas ideias que sempre parecem péssimas à luz do dia.

- E se eu fosse? – eu perguntei, em voz baixa, um pouco incerta.
- Fosse o quê?
Eu não devia fazer aquilo. Era uma ideia idiota. Devia apenas deixar as coisas como estavam, simplesmente descrevendo o que eu deveria fazer. Mas a ideia já havia me mordido e eu não era capaz de deixá-la para lá.
- Inocente. – eu disse, respirando fundo – Se eu não fosse exatamente a pessoa que você conhece. Se eu fosse uma garotinha totalmente inocente. O que... – eu engoli em seco – O que você faria comigo?
E daquela forma, eu levei a situação toda para um novo nível. Com poucas palavras, eu havia dado a ele uma história.
Deixar que ele me dissesse como me tocar era uma coisa. Aceitar participar de uma fantasia com ele era outra, bem mais perigosa. Mas era tarde e eu estava cansada, estressada, esgotada. Era tão errado assim o fato de que naquele momento eu não queria ser eu mesma? O que havia de errado em abraçar a chance de por alguns momentos poder ser alguém totalmente diferente? Alguém inocente? Alguém que não se importaria em deixar tomar o controle por um tempo? Eu só queria poder respirar um pouco sem toda aquela culpa que me esmagava toda vez que eu estava prestes a relaxar. A culpa por não estar lutando, não estar sofrendo, não estar agindo como uma caçadora de vampiros. Naquele momento, eu só queria poder ser alguém que eu não era.
não disse nada por alguns segundos, provavelmente sem conseguir acreditar no que eu estava obviamente sugerindo. Quando ele falou, no entanto, não foi para pedir confirmação. Ele não comentou, não riu, nem me fez encarar o que eu havia dito de qualquer maneira, e eu me senti grata por isso. apenas entendeu, como sempre entendia.
- Eu iria até você. – disse ele – Esperaria até ficar bem tarde. Até ter certeza que você estaria dormindo, quentinha e protegida pelas muralhas desse seu castelo subterrâneo. Eu passaria por debaixo dos narizes de todos os seus guardiões. Miles, Gilbert, todos os outros... Ninguém perceberia meus esforços pra chegar até a garotinha de ouro deles. Ninguém me veria chegando na calada da noite e invadindo seu quarto.
Eu joguei minha cabeça para trás, mordendo meus lábios com força. Merda. Eu não devia estar gostando daquela ideia.
- E... – eu comecei a dizer, lutando para controlar minha própria voz – E depois?
- Eu fecharia a porta devagar, tiraria minha camisa e me aproximaria de você sem fazer barulho. Subiria na sua cama com cuidado para não te acordar, e então olharia para você. Você sempre fica linda dormindo, pequena. Eu tocaria seu cabelo e desceria minha mão por seu ombro, acariciando seu braço por cima da manga da sua camisola. Ela seria branca, ou azul-clara, bem longa e delicada.
Eu tive que rir então, quebrando o momento. Aquilo já era ridículo.
- Eu não tenho nenhuma camisola assim. – na verdade eu tinha uma camisola branca, mas não era nada como ele havia descrito.
- Na minha fantasia você tem. – insistiu ele, parecendo emburrado – Agora me deixa continuar porque eu to ocupado aqui.
Eu ri de novo, mas não disse mais nada.
- Como eu estava dizendo, eu tocaria seu braço, depois seu quadril, e voltaria a subir, agora por sua barriga. Eu odiaria o tecido que te esconde, o cobertor que te cobre, o ar que te toca do modo como eu não posso, como eu não deveria querer. Eu levaria minha mão ao seu rosto, descendo por seu pescoço até o vale entre seus seios. Você começaria a despertar devagar, porém rapidamente retomaria a consciência ao perceber que era eu quem estava ali. Seus olhos se encheriam daquele fogo, daquela ira que tanto me atrai. Você se levantaria rapidamente da cama e começaria sua típica performance de caçadora ofendida.
A voz de havia assumido uma qualidade baixa, envolvente, quase hipnotizante. Me vi facilmente arrastada para a história, esquecendo o resto do mundo.
- “Típica”? – eu perguntei – Por quê? O que eu digo pra você?
- Você não diz, você grita. Pergunta o que eu penso que estou fazendo ali. Exige que eu vá embora. Me dirige todos os xingamentos que você conhece e ameaça enfiar uma estaca no meu peito de uma vez por todas. O que você não entende é que isso apenas me faz te querer mais, caçadora. Você fica irresistível quando está irritada. O modo como você cora, a intensidade da sua respiração, o perigo no seu olhar... Eu nunca consigo resistir. Eu me levanto de sua cama, mas não para ir embora. Vou até você, mas não para te atacar. Não, a última coisa que eu tenho em mente é te machucar de alguma forma. Meus braços te envolvem, prendendo você contra mim enquanto eu te beijo.
- Eu não te deixaria me beijar tão facilmente, inocente ou não. – eu disse, brincando distraidamente com o elástico de minha calcinha.
- Claro que não, você é teimosa. Inicialmente iria se debater e tentar se soltar, mas por sorte eu teria conseguido te imobilizar bem. Se seus esforços fossem realmente sérios, no entanto, talvez eu não conseguisse te prender. Mas não eram, e por isso aos poucos parariam.
- Eu estaria curiosa. – eu disse, um pouco hesitante. Oh meu Deus, eu realmente estava prestes a fazer aquilo – Claro que estaria curiosa. Seria uma sensação nova. A pressão do seu corpo contra o meu seria boa, e o toque de sua boca contra a minha me deixaria tentada. Talvez um beijo não fosse nada demais. Talvez aquilo eu pudesse permitir.
- Eu te sentiria relaxar em meus braços e aceitaria aquilo como uma permissão. Eu te beijaria devagar, cuidadosamente, saboreando o momento. Meus lábios provariam os seus longamente, minuciosamente. Minha língua tocaria a sua de forma lenta, provocante, tentando fazer com que você se entregasse, tentando seduzir a parte de você que ainda resistia. Eu te beijaria até te ter derretida em meus braços, seus joelhos tremendo, seu coração querendo fugir do peito. Quando finalmente te sentisse amolecida e maleável contra mim, te pegaria no colo e te levaria de volta para sua cama.
- E o que você faz comigo? – eu disse, usando o presente de propósito. Estava cansada daquele clima de hipóteses.
- Eu te deito outra vez sobre o seu colchão, sem parar de te beijar. Não posso arriscar que você perceba o que está acontecendo. Eu pego o seu lençol e, antes que você possa reagir, amarro seus braços ao estrado da cama.
Tava demorando, eu pensei, revirando os olhos. Claro que ele usaria minha ideia de garotinha inocente para brincar de macho dominante. Eu entraria no jogo dessa vez, mas na próxima ele pagaria por aquela gracinha. Ah, como pagaria.
- Isso acaba com a minha distração. Eu puxo meus braços, testando os nós que me prendem, e percebo que com um pouco de força posso rasgar o cobertor e me soltar. Me surpreendo, porém, ao não fazer isso. Eu estou furiosa com você, mas parte disso vem do fato de que ainda estou curiosa. Uma parte de mim quer saber até onde você pretende ir, que tipo de coisas você pode fazer comigo. Eu só preciso fingir pra mim mesma que não sou capaz de me soltar. Desse modo, não importa o que aconteça, serei capaz de tranquilizar minha consciência na manhã seguinte. – eu disse, me aproveitando do fato de que sabia o quanto aquilo o irritava. Moldando minha voz no tom mais sonso possível, continuei – Não é minha culpa se o vampiro malvado estava se aproveitando de mim.
- Você sabe o que acabou de fazer, não sabe? – ele perguntou, ofegante.
- Aham... – eu disse, mordendo os lábios para não rir. Se havia algo no mundo que motivava , era aquilo. Ele odiava o modo como eu o culpava por tudo e negava querer aquilo tanto quanto ele. Aquilo feria o ego delicado do vampiro, mesmo em situações como a na qual estávamos. Ao mesmo tempo, porém, aquilo parecia excitá-lo de certa forma, transformando a coisa toda em uma combinação perigosa.
- Ótimo. – disse ele, voltando imediatamente para a história – Eu percebo o que você faz e entendo o que deve estar se passando por sua cabeça. Por um momento me vejo enfurecido. Se você pensa que pode me usar e sair disso ilesa, está muito enganada. No princípio eu só pretendia brincar com você um pouco. Pretendia ver até onde poderia levar minha caçadora ingênua, mas agora? Agora a situação era outra. Eu te faria entender o que acontece com garotinhas que se acham mais espertas que todo mundo. Como eu já te disse uma vez, te faria queimar e te faria gostar disso. Eu teria você, de novo e de novo, até que você não pudesse mais me negar. Passaria a noite inteira naquela cama, usaria e abusaria de cada pedacinho de você, te faria me querer mesmo quando seu corpo não aguentasse mais o menor dos movimentos.
As palavras dele me fizeram tremer da cabeça aos pés em expectativa. Oh, sim, agora as coisas ficariam interessantes.
- Eu vejo você me olhando como se estivesse prestes a me devorar e me debato mais um pouco contra os nós que me prendem. Estou assustada, mas mesmo assim não consigo me forçar a sair dali. O medo me excita, na verdade. Tento me convencer de que posso te fazer parar quando quiser. Não te deixarei ir muito longe. Eu havia me convencido de que estava presa e incapaz de ser considerada responsável pelo que quer que aconteça, mas pretendia voltar a ser capaz de me defender assim que você começasse a passar dos limites. Eu superestimava minha capacidade de resistir e tinha certeza de que não te deixaria fazer nada muito comprometedor comigo.
- Eu praticamente sinto o cheiro do seu medo misturado ao desejo que seu corpo exala. Sorrindo, eu lentamente subo pelo seu corpo, apoiado em minhas mãos e joelhos, até estar a sua altura. Me sento sobre suas coxas, porém sem largar meu peso sobre você, apenas prendendo seu quadril entre minhas pernas. Colocando minha mão na base do seu quadril, a subo por sua cintura, segurando seu seio e em seguida começando a abrir os botões de sua camisola.
- Eu começo a me debater com mais força do que antes. – eu disse, tentando manter o controle sobre minha própria voz. Sem perceber, havia deixado que minha mão escorregasse para dentro de minha calcinha – A sensação... A sensação da sua palma contra o meu corpo faz cada célula do meu corpo pegar fogo e isso faz com que minha mente se revolte. Eu estou gostando disso mais do que deveria. Sou incapaz de me forçar a pará-lo, mas preciso ao menos oferecer algum tipo de resistência.
- Oh, eu gosto da sua resistência. – disse ele, e se não tivesse tão absorta na história, teria sido capaz de identificar os sons de movimento do outro lado da linha – É o que deixa tudo interessante. Ninguém gosta de uma perseguição fácil.
- É isso que você tá fazendo? – eu perguntei, arfando enquanto tirava minha calcinha e lentamente começava a dirigir meus dedos para entre minhas pernas – Me perseguindo?
- Até o dia em que eu morrer, pequena. – ele declarou – Você está se tocando? – o tom levemente desesperado na voz dele quase me fazia acreditar que estava prestes a hiperventilar.
- Mmhm. – eu gemi em acordo, sabendo que seria inútil negar – Continua... – eu pedi, incapaz de evitar o tom manhoso em minha voz.
- Oh, merda. Merda. Você tem alguma ideia do que saber disso faz comigo? – ele perguntou, respirando pesado por alguns segundos – Ok. Eu estou abrindo sua camisola. Botão por botão, aos poucos te revelando para mim.
- Eu mando você parar. – eu disse, movendo meus dedos bem devagar, querendo que aquilo durasse – Eu luto contra o lençol novamente. Te chamo de pervertido, de nojento, te xingo de tudo o que passa por minha cabeça e exijo que você tire suas mãos de mim. Mas você não faz isso. Apenas continua a abrir os botões enquanto me lança aquele sorriso que me faz esfregar minhas coxas em frustração. – eu disse, surpreendendo a mim mesma. Havia sido difícil no começo, mas agora conseguia responder a de igual para igual – Eu não consigo mais tentar resistir de forma convincente. Continuo a te mandar parar em tom de quem implora para você não fazer isso, enquanto coro envergonhada e escondo meu rosto contra o travesseiro como uma boa menininha inocente.
Com um enorme senso de satisfação, ouvi um estalo do outro lado da linha, como se tivesse derrubado o aparelho. Eu havia adicionado aquele último comentário apenas porque sabia que o deixaria maluco.
- O rubor em seu rosto e colo me fazem perder a cabeça. – disse o vampiro, finalmente, e agora era ele quem arfava – Eu paro de abrir sua camisola na altura do seu estômago e simplesmente afasto o material aberto do seu tronco, expondo sua barriga e seios para os meus olhos. Minhas mãos e boca atacam seu corpo em seguida, acariciando e apertando seus seios, mordendo e beijando seu estômago, seus mamilos, tudo o que eu sou capaz de alcançar. Eu sabia que devia tentar ser gentil, mas sou incapaz de me controlar quando seu sangue colore sua pele te forma tão tentadora, quando seu cheiro invade minhas narinas e desafia minha sanidade. Eu quero agarrar e morder cada pedacinho do seu corpo, então continuo a fazer exatamente isso.
- Eu grito seu nome, agora sem nem mais pensar em escapar. – eu disse, com dificuldade, percebendo finalmente que a voz dele não estava nem de longe tão trêmula quanto a minha. Aquilo só podia significar que eu era a única ali me tocando. Pensei em perguntar o porquê de ele ter parado, mas no momento tinha coisas mais importantes para fazer – Meu corpo inteiro parece quente e não consigo entender as coisas que estou sentindo. Eu me contorço sobre a cama, procurando por algo, algum tipo de fricção. Eu não sei do que preciso, mas sei que é algo que você pode me dar.
- “Você gosta disso?”, eu pergunto, enquanto brinco com um de seus mamilos entre meus dedos. “Me diga o que você está sentindo, caçadora.
- “Eu me sinto estranha.” – respondi, acelerando um pouco meus dedos.
- “Estranha como?”, eu pergunto, descendo minha mão por seu corpo até descansá-la entre suas pernas. “Sente algo aqui?
Por um momento eu pensei ter ouvido um som de buzina vindo do outro lado da linha, mas devia ser apenas minha imaginação.
- Eu... Arqueio minhas costas e... Aceno com a cabeça. – eu disse, perdendo rapidamente minha capacidade de responder direito.
- “O que você sente? Descreve pra mim, ou eu não vou poder te ajudar, pequena. É algo quente? Uma sensação gostosa? Por favor, diz que sim. Não me faz parar agora.
- “É bom... Eu não sei o que é, mas é bom.” – eu respondi, felizmente sendo capaz de continuar no personagem – “Eu preciso...
- “De que? Diz pra mim, caçadora. O que você quer?
- “Que você me toque.” – eu disse, e grunhiu alto.
- Eu agarro a barra da sua saia, levantando ela com força e arrancando a sua calcinha. Me coloco entre as suas pernas, segurando seu quadril e me esfregando em você com força, deixando que sinta meus jeans contra sua pele desprotegida, enlouquecendo ao sentir o material umedecer com o contato. “Isso? É isso que você queria, caçadora?
- Mais... – eu pedi, já sem distinguir entre mim e a personagem, meus dedos sendo péssimos substitutos para o que eu realmente desejava.
- “Você quer mais?”, eu pergunto, porém não te deixo responder. Ao invés disso, solto suas mãos e abro minha calça, me posicionando entre suas pernas antes de começar a penetrá-la.
- ... – foi só o que eu disse, me agarrando em cada uma de suas palavras, deixando que elas me levassem para uma realidade onde era ele quem me tocava, e não meus próprios dedos.
- Você estaria tão molhada... Céus, eu posso praticamente sentir o quanto. Seria uma tortura não simplesmente meter em você de uma vez e com força. – disse ele, sua voz agora trêmula – Mas eu não ia querer te machucar, então iria devagar. Bem devagar... Girando meus quadris a cada centímetro, deixando que você se acostumasse comigo, tentando não me perder no calor... Na forma como você me aperta...
- ! – eu repeti, agora como uma exclamação enquanto me sentia cada vez mais próxima. Eu queria que ele estivesse ali. Por que ele não podia estar ali? Eu queria que...
- , me deixa ir até aí. – não foi um pedido, mas o tom desesperado em sua voz também não deixava aquilo ser uma ordem.
- Ok. – eu consenti, incapaz de dizer não a ele.

A linha ficou muda no segundo seguinte.

- ? ?! – eu chamei, quase gritando em frustração. Parei de me tocar imediatamente, sentindo meu corpo inteiro tremer de ódio e aflição. O filho da puta não podia ao menos terminar o que fazia antes de vir para cá? Ele levaria pelo menos uns vinte minutos para chegar aqui. Eu teria que ficar esperando esse tempo todo?
Meus pensamentos foram interrompidos por duas batidas urgentes em minha porta.

Pelo visto não teria que esperar nada.

Não tive nem tempo de me irritar com a presunção daquele desgraçado. Os sons que eu havia pensado escutar no telefone agora faziam sentido. O tempo inteiro, estava vindo para cá. O idiota sabia que eu acabaria deixando ele entrar.
Vestindo uma camiseta grande qualquer para o caso de ser outra pessoa no corredor, corri para a porta e a abri.
Devia estar chovendo bastante lá fora, pois o cabelo e as roupas de estavam encharcados. Eu não dei a ele a chance de explicar, no entanto. Antes mesmo que ele pudesse abrir a boca para dizer algo, o puxei para dentro do quarto pela gola da camisa, bati a porta com força e o joguei contra a parede ao lado desta.
- ... – isso foi tudo que ele foi capaz de dizer antes que meus lábios cobrissem os dele. gemeu baixo contra minha boca antes de agarrar minha cintura e levantar meu corpo. Sem perder tempo, envolvi o quadril dele com as pernas, deixando que ele me encostasse contra a parede como apoio. Eu agarrei a barra de sua camisa, levantando o material úmido descuidadamente e arranhando o peito de no processo.
- Minha gatinha tá com a garras de fora hoje. – ele brincou, enquanto eu terminava de me livrar da camisa e chupava seu pescoço molhado.
- Cala a boca, , ou eu terei que calá-la por você. – eu disse, enquanto o ajudava a tirar minha camiseta.
- Vai em frente. – desafiou ele, me lançando aquele sorriso delicioso. Eu embrenhei minhas mãos em seus cabelos encharcados e voltei a beijá-lo.
Uma das mãos dele começou a descer por minha barriga em direção a virilha, mas eu a parei a tempo.
- Não. – eu disse, simplesmente, mordendo meus próprios lábios e tentando transmitir com o olhar o que eu não queria dizer em palavras. Ele pareceu entender, pois no segundo seguinte seus olhos escureceram e ele assentiu, abrindo o zíper de sua calça e a descendo um pouco em seguida.
começou a me penetrar devagar, porém me apoiando em seus ombros eu desci meu quadril com força contra o dele, o envolvendo completamente em apenas um movimento.
- ... – o modo como ele suspirou meu apelido o fez parecer a palavra mais especial do planeta. Tentando lutar contra os tremores do meu próprio corpo, voltei a erguer meu quadril tentativamente, fazendo-o deslizar quase totalmente para fora de mim antes de descer e capturá-lo outra vez. Eu repeti o movimento com dificuldade, a falta de suporte fazendo meu corpo deslizar para baixo na parede. , parecendo acordar de seu breve estupor, percebeu isso e me segurou pela cintura com firmeza, erguendo meu corpo um pouco ao mesmo tempo em que empurrava seu quadril contra o meu com força, como se querendo me pregar contra a parede.
Eu gritei, sem conseguir me controlar, e a mão de imediatamente tapou minha boca.
- Shh... – ele murmurou no meu ouvido, começando a acelerar o ritmo de suas estocadas – Eu sei que as paredes daqui filtram bem o som... Mas estamos bem ao lado da porta, pequena. Melhor não abusar da sorte.
Eu consegui olhar feio para ele mesmo com meus olhos lacrimejando um pouco, porém não reclamei. Mordi a palma de sua mão gentilmente, gemendo contra ela e me sentindo grata por não precisar me preocupar em conter meu tom de voz. Eu nunca conseguiria, não com ele se movendo em mim daquele jeito, girando seus quadris a cada investida enquanto com a língua traçava minha jugular.
- Tão bom... – ele disse contra o meu pescoço – Melhor que qualquer fantasia. – os movimentos dele ficavam mais intensos a cada segundo, seus quadris batendo contra os meus enquanto seu tronco, molhado pela chuva e pelo meu suor, deslizava contra o meu com facilidade.
- Me beija. – eu pedi, após arrancar a mão dele da minha boca. Ele mordiscou meus lábios antes de beijá-los, levando uma mão até minha nuca para manter minha cabeça em posição. Eu me sentia entorpecida, tonta, chegando cada vez mais próxima de um orgasmo que com certeza me atingiria com força assustadora. pareceu perceber isso, pois afastou um pouco o corpo, mudando levemente o ângulo de penetração e levando seu polegar até o meu clitóris.
Voltei meus olhos entreabertos para e ele sorriu um pouco para mim, suas pupilas dilatadas, seus cabelos molhados bem bagunçados e suas presas um pouco estendidas. Sem aviso, minhas costas arquearam contra a parede, meus músculos tremendo e se apertando ao redor de enquanto o orgasmo tomava controle do meu corpo. Eu achei que fosse gritar, mas fui incapaz de achar minha própria voz. continuou a me estimular, beijando levemente meu pescoço enquanto não cessava seus movimentos em mim. Seu peito, agora um pouco mais distante de mim, roçava levemente contra os meus mamilos a cada investida em um toque tão sutil que servia apenas para incrementar a sensibilidade neles. Eu solucei de prazer, cravando minhas unhas nos ombros dele enquanto acelerava seus movimentos em mim. Ele atingiu o clímax ao mesmo tempo em que eu me recuperei do meu, seu corpo inteiro ficando tenso e suas presas descendo contra meu pescoço. Eu estremeci com a sensação, gemendo baixo enquanto tomava o controle dos movimentos por ele, me movendo devagar até o sentir relaxar contra mim.
Eu descansei minha cabeça contra o ombro de enquanto ele retirava as presas de meu corpo, lambendo languidamente meu pescoço.
A sensação me atingiu com um raio. Em um momento eu respirava calmamente contra o pescoço do vampiro e no seguinte uma vontade intensa tomou conta de mim. Era algo primitivo, poderoso, uma espécie de ira misturada com sede que me deixou sem ar por um momento. Meus olhos se viram grudados à jugular de enquanto cada célula do meu corpo parecia implorar para que eu o mordesse, para que eu enfiasse meus dentes em sua pele e a rasgasse, deixando que o sangue dele corresse para meus lábios. Eu queria machucá-lo, possuí-lo, marcá-lo, como se minha vida dependesse daquilo. Nunca antes em toda a minha existência eu havia sentido nada parecido. Era uma sensação assustadora, mas ao mesmo tempo em que senti medo eu me senti... Livre. Aquela espécie de raiva animal parecia estar trazendo consigo o tipo de liberdade e satisfação que só aqueles que já se entregaram totalmente à ira conhecem. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas tinha certeza absoluta que não era algo relacionado a minha metade humana. Apavorada, eu escondi meu rosto no ombro de , tremendo violentamente enquanto esperava que aquilo passasse.
- ? , o que foi? – perguntou , parecendo preocupado. Ele me levou de volta para a cama, me deitando sobre ela – O que há de errado? Fala comigo, por favor.
- Nada. – eu disse, após alguns segundos, aos poucos me sentindo eu mesma novamente. A sensação havia sumido tão inesperadamente quanto havia chegado – Eu só... Fiquei meio tonta. Só isso.
- Tonta? Caçadora, você tava tremendo e me segurando como se estivesse em pânico.
- Eu passei um pouco mal, não foi nada. Deixa pra lá. – eu insisti, tentando disfarçar o quão abalada me sentia. Eu não queria falar sobre aquilo com . O que quer que aquela sensação significasse, era algo relacionado a minha metade vampira, e eu não queria entrar naquele tipo de assunto com ele. Seria como admitir que tínhamos uma espécie em comum, coisa que eu era incapaz de fazer. Pior do que isso, falar sobre aquilo com seria abrir as portas para um tipo de intimidade que eu não queria que tivéssemos.
- , eu te conheço. Por favor, fala comigo. – ele pediu novamente, deitando ao meu lado.
- Já falei que não foi nada, . – eu repeti – Deixa pra lá. Se continuar a insistir no assunto, vou ter que te botar pra fora.
Eu respirei fundo, conseguindo por hora afastar aquele acontecimento da minha mente. Daria um jeito de abordar o assunto com Gilbert no dia seguinte. Não poderia fornecer detalhes, mas talvez pudesse dar a ele uma ideia geral do que estava acontecendo. E então ele se enfiaria no meio dos livros e sairia com uma solução, ou ao menos uma explicação para mim. Ele sempre fazia isso, dessa vez não seria diferente. Tudo iria ficar bem.

Eu realmente queria acreditar naquilo.

- Espera, isso quer dizer que você não vai me botar pra fora de qualquer jeito? – ele perguntou e eu tentei não suspirar aliviada. Havia conseguido distraí-lo com sucesso.
- Não se acostume. – eu respondi, um pouco seca – É só por hoje, e você não pode passar a noite. Pela manhã meu quarto volta a ser território proibido.
- Ah sim, entendo. Você não vai me chutar agora, só mais tarde. – respondeu ele, em tom desagradável. Eu fechei os olhos, desejando poder afundar naquele cochão. Era minha culpa. Eu que havia sido grossa primeiro. Ainda estava abalada pelo surto violento e estava descontando nele. tinha o direito de responder, mas se eu deixasse aquilo seguir daquela forma, a noite não terminaria bem.
- Por favor, não começa. – eu pedi.
- Não to começando nada. – disse ele, com cara fechada.
A culpa me atingiu novamente, tão forte que por alguns momentos não fui capaz de abafa-la. estava magoado. Estava daquele jeito porque sabia que teria que ir embora em algumas horas. Ele sabia que só estava ali por sexo e aquilo com certeza devia fazer mal a ele. Ser usado não pode ser uma boa sensação.
Eu fechei os olhos, tentando fazer aquilo sumir. A cada dia que passava aquela sensação ruim dentro de mim parecia piorar, como se meus esforços para não senti-la apenas a intensificassem. Acumular aquilo em mim não era saudável e eu sabia que quando finalmente tivesse que encarar o egoísmo das minhas ações relacionadas a , aquilo me feriria de morte. Por isso eu fugia, por isso me escondia da verdade. Eu estava usando alguém, machucando alguém, mas enquanto conseguisse não pensar sobre isso, seria capaz de impedir que toda a dor que eu causava chegasse também a mim.
- Só temos mais algumas horas. – eu disse, como a covarde que era – Você realmente quer gastá-las chateado comigo?
Isso, . Passe para a manipulação. Essa é uma atitude muito decente, você está de parabéns.
me encarou longamente, como se tivesse mil coisas para me dizer e se controlasse para mantê-las não ditas. Eu obviamente não era a única ali reprimindo o que sentia. Eu abafava o sofrimento por usá-lo e ele abafava o sofrimento por ser usado. Éramos um triste par de covardes.
Ele me beijou então, e eu soube que ignoraríamos o problema mais uma vez. Ele me beijou e eu me deixei levar, fingindo que não havia nada errado, fingindo que poderíamos consertar tudo com sexo. me beijou para se esconder e eu o beijei para fugir. Não havia nada errado. Tudo iria ficar bem.

Eu realmente, realmente queria acreditar naquilo.

Xx

’s POV


Quando eu abri meus olhos, a primeira coisa que percebi foi que ainda estava no quarto de . Segundo o relógio na cabeceira da cama dela, eram duas e meia da manhã. Eu devia ter apagado por mais ou menos meia hora.
estava dormindo também, era óbvio. Se estivesse consciente, não teria deixado que eu sequer fechasse meus olhos. Por sorte, porém, ela havia dormido antes de mim, logo após nossa terceira vez. Só por isso eu ainda não havia sido chutado para fora do quarto.

Tecnicamente, eu estava sozinho no quarto dela.

Oportunidade perfeita, eu pensei, amargo. E por que não? Eu já a estava traindo de todas as formas possíveis. Por que não aproveitar o fato de que ela dormia para pegar a maldita caixa?
Eu observei as paredes à minha volta enquanto me levantava da cama. Apenas dois quadros não combinavam com o resto da decoração: uma pintura de uma praia e um desenho emoldurado de uma borboleta negra. Não pareciam algo que tivesse pendurado ali, então deviam estar na parede desde o tempo do antigo ocupante. Aquilo não significava nada, é claro. Mesmo tendo mantido aqueles quadros ali, o esconderijo da caixa poderia estar em qualquer pedaço de qualquer parede. A caçadora tivera 21 anos para mudar móveis e quadros de lugar. Mas o Mestre havia pedido especificamente que eu procurasse atrás de coisas que não parecessem pertencer a , o que me levava a crer que seu informante havia dado a ele informações que não haviam sido passadas a mim.
Optei pela borboleta primeiro, simplesmente por achar que combinava mais com a situação. A parede atrás do quadro, porém, parecia bem firme. Passei então para o quadro da praia e, ao retirá-lo da parede e bater nesta cuidadosamente, pude ouvir um eco.
O buraco na parede parecia ter um formato retangular e pequeno. Arrancando cuidadosamente o papel de parede, descobri que o que tampava o esconderijo era uma tábua de madeira. A desloquei, tentando fazer o mínimo de barulho possível para não acordar .
A caixa era só o que havia no esconderijo. Era um belo objeto, feito de madeira e decorado com pequenas flores de tinta azul. Tinha aproximadamente quinze por vinte centímetros, era achatada e fechada por um grande cadeado.
Eu segurei a caixa em minhas mãos e a sacudi devagar. O objeto dentro dela mal se moveu, o que indicava que, assim como a caixa, era algo retangular e achatado. Eu quase ri, sentindo o desespero me dominar. Eu sabia o que estava lá dentro. Fazia todo o sentido do mundo.

Eu estava segurando o diário perdido.

O diário que fizera o Mestre invadir a biblioteca externa da Organização. O diário que e os outros haviam procurado por todo o prédio. Estava ali o tempo todo, embaixo do nariz da caçadora, implorando para ser achado até finalmente ser. Eu tinha em mãos talvez a única fonte de informações sobre o Mestre. Se aquele vampiro parecia tão desesperado para por as mãos naquele objeto, só podia significar que aquelas páginas guardavam algum segredo. Um segredo que, pelo visto, continuaria oculto.
estava certa o tempo todo. Havia um traidor dentro da Organização fornecendo diários de caçador ao Mestre.

Ela só não sabia que o traidor era eu.

Se eu tentasse violar o cadeado, o Mestre perceberia. Se o entregasse a , ele cumpriria suas ameaças. Eu estava em suas mãos, não tinha para onde correr. Se não entregasse a ele aquela maldita caixa, tudo estaria perdido. Eu estava segurando talvez a melhor pista que teríamos sobre o Mestre e estava prestes a entregá-la de bandeja ao próprio.
Eu recoloquei a tábua no buraco da parede e rependurei o quadro, que por sorte era grande o suficiente para tapar o estrago que eu havia feito com o papel de parede. Agora era só torcer para não ter a mania de tirar aquela pintura da parede de vez em quando.
Catei minhas roupas pelo aposento, me vestindo enquanto tentava afastar os sentimentos de desgosto comigo mesmo. Eu não merecia estar ali. Não merecia a garota que estava dormindo a poucos metros de mim, totalmente inconsciente do que acontecia a sua volta. Ela estava certa, tão horrivelmente certa sobre tudo. Eu não prestava. Eu merecia o desprezo que ela tinha por mim.
Resisti ao impulso de ir até , beijar sua testa e cobri-la. Também não merecia aquele momento roubado. Eu estava traindo a confiança da caçadora e já era ruim demais ter me permitido vir aqui esta noite. Tocá-la, beijá-la, e depois me aproveitar de sua inconsciência para agir contra ela. Eu precisava ir embora.

Já havia errado o suficiente.

Xx

Por sorte havia parado de chover. Esperei estar bem longe da Organização para finalmente pegar meu celular e ligar para o número que me havia sido dado. Depois de três toques, alguém o atendeu.
- Sou eu.
- Já tem o que queremos? – foi a voz de Godfrey quem respondeu.
- Sim.
- Ótimo. 6900 Seville Avenue, Huntington Park, apartamento 303. Venha imediatamente e nem pense em avisar alguém.
- Estou a caminho. – eu disse, desligando o aparelho.
O endereço me levou a um prédio na área centro-sul de Los Angeles, um gueto, mas eu já estivera em piores. A construção de aparência antiga possuía apenas três andares, cada qual com quatro apartamentos. Não havia elevadores, de forma que precisei usar as escadas.
Bati na porta do 303 e a voz de Godfrey me mandou entrar.
O lugar não era muito grande. Consistia de uma sala/cozinha, um banheiro em um canto e um aposento com a porta fechada no outro. O lugar estava totalmente vazio a não ser por uma televisão, um sofá cercado por sacolas fechadas, alguns colchões e uma mesa a um canto, próxima a um refrigerador. E, é claro, pelos quatro vampiros espalhados pelo local.
Pude perceber de cara que aquele não era o esconderijo oficial do bando, e sim um endereço temporário, provavelmente reservado para ser um ponto de encontro seguro quando eu os entregasse a caixa. Um local que eles poderiam revelar quando a hora chegasse sem grandes consequências. O resto do exército não estava por perto e o estado do local deixava óbvio que eles não estavam ali há mais de uma semana.
Hector e Drigger assistiam TV no sofá enquanto Mason ocupava a mesa, parecendo concentrado em algo que escrevia. Godfrey havia se aproximado para me receber e era o único que se preocupara em reconhecer minha presença ali.
- É essa? – ele perguntou, olhando para a caixa que em minhas mãos. Eu assenti e a entreguei para ele – Espere um segundo. – disse o loiro, seguindo até o aposento fechado. Só então eu entendi quem era o provável ocupante daquele quarto.
Fiz o máximo que pude para não parecer nervoso enquanto observava Godfrey abrir e fechar a porta do aposento ao adentrá-lo. Não consegui ver nada, mas era óbvio que o Mestre estava ali conosco.

A um aposento de distância.

Tentei me concentrar em sentir sua presença, mas apenas pude perceber breves ondas de poder antes de perder a conexão. Ele estava se escondendo de mim, era óbvio. Poucos vampiros eram capazes disso. Mas eu podia dizer com certeza que o Mestre era um homem, e muito poderoso.
Apurei meus ouvidos tentando escutar algo, mas os únicos sons que vinham do quarto eram de movimento. Me senti terrivelmente inútil. Eu provavelmente era o primeiro da Organização a chegar tão perto assim do Mestre, porém não podia fazer nada. Qualquer esforço meu resultaria em morte certa.

Meus pensamentos foram interrompidos pela risada alta de Hector.

Aparentemente, não fui o único a me distrair. O som de Mason respirando fundo me fez encará-lo a tempo de vê-lo com os olhos fechados e uma expressão irritada no rosto enquanto amassava o papel no qual escrevia. Ele acrescentou a bola de papel à meia dúzia de outras sobre a mesa e encarou Hector, irritado.
- Será que é pedir demais um pouco de silêncio? – disse o vampiro.
- Não foi nem engraçado. – acrescentou Drigger, olhando da TV para Hector.
- Eu rio do que quiser, o quão alto eu quiser. – disse Hector – E Drigger, para de enrolar e leva o lixo para fora de uma vez. O cheiro está começando a me incomodar.
- Esse prédio não tem lixeira, cara. – choramingou o adolescente – Eu vou ter que descer os três andares.
- E? – perguntou Hector – Não seja preguiçoso, não é tão longe assim.
- Ah, é? Então por que você não desce? – argumentou o garoto.
- Um, porque o pirralho aqui é você. E dois, porque eu quero ver se a garota vai escolher o vampiro ou o lobisomem. – disse Hector, os olhos fixos na TV.
- O vampiro. O mundo inteiro sabe que ela escolhe o vampiro. Eu não acredito que você tá assistindo isso. – reclamou Drigger.
- Eu faço o que quero. Agora leva o lixo pra fora. – rebateu Hector, voltando sua atenção novamente para a TV.
Com um suspiro, o garoto recolheu as sacolas do chão e seguiu para a porta, não sem antes parar próximo a mesa de Mason.
- Posso jogar isso fora também? – perguntou Drigger, em voz baixa, apontando para os papéis amassados. Aparentemente ele ainda não tinha moral suficiente para desobedecer o pedido de Mason por silêncio.
O vampiro mais velho emitiu um som de concordância, obviamente sem ter prestado nenhuma atenção no que o adolescente havia dito. Estava de novo seriamente entretido no que escrevia.
Drigger então abriu uma das sacolas e jogou os papéis dentro, saindo em seguida do apartamento sem que os demais prestassem atenção.

Eu, por outro lado, havia prestado bastante atenção.

Antes que pudesse desenvolver um plano de ação para a ideia que acabara de ter, no entanto, ouvi a porta do quarto voltar a se abrir e Godfrey sair por ela, agora sem a caixa.
- Aparentemente está tudo certo. O Mestre agradece a sua cooperação. – disse Godfrey, com um sorriso que eu não conseguia definir como sendo sarcástico ou sincero.
- Posso ir então? – perguntei, tentando disfarçar a ansiedade.
- Pode. Mas nem pense em ficar aí embaixo esperando algum de nós sair. Ou voltar mais tarde. Se sentirmos sua presença próxima a esse local novamente consideraremos isso uma traição. Imagino que você lembre a punição para traição.
- Lembro. – eu disse. Como se tivesse passado pela minha cabeça tentar segui-los ou algo do tipo. Sabia que agora deixariam aquele lugar em breve, mas não era estúpido o suficiente para achar que um vampiro como o Mestre não perceberia facilmente estar sendo seguido – Vocês vão parar com as visitinhas agora? Vão me deixar em paz?
- Sim... Ao menos por enquanto. – disse Godfrey, sorrindo. Dessa vez não havia dúvidas quanto ao sentimento por trás daquele gesto – Eu não relaxaria totalmente, no entanto. Nunca se sabe se acabaremos precisando de você novamente.
Eu não tinha como responder aquilo, tinha?
Deixei aquele lugar sem dizer mais nada, porém com um plano em mente. Não um plano, na verdade... Apenas uma tarefa.

Havia avistado algumas latas de lixo próximas ao prédio quando ainda o procurava. Agora só precisava de um pouco de sorte.

O destino parecia ter decidido me compensar por tudo que andava me acontecendo, pois ao me aproximar da área com as lixeiras avistei Drigger vindo em minha direção, agora sem as sacolas. O garoto me lançou um olhar feio, porém passou direto. Ainda devia estar irritado por eu ter batido a cabeça dele com força contra uma lápide.

Algumas pessoas guardam mágoa por motivos totalmente supérfluos.

Esperei ele se afastar antes de correr para as latas de lixo. Estava longe o suficiente para não ser visto do prédio, e desde que não passasse muito tempo ali, não teria problemas.
Abri a tampa dos dois latões, e por sorte as sacolas de Drigger eram facilmente identificáveis sobre o resto do lixo. Recolhi a sacola azul na qual vira o garoto jogar os papéis e, ao invés de levá-la comigo, a abri e retirei os papéis antes de voltar a amarrá-la, jogando-a de volta na lixeira. Não queria correr o risco de os demais perceberem tardiamente o erro de Drigger e resolverem conferir se eu havia vindo atrás das sacolas.
Pelo modo como Mason parecia concentrado naqueles papéis, era óbvio que se tratavam de algo importante. Ao errar um palavra o vampiro havia amassado o trabalho e começado tudo de novo, como se perfeição fosse algo de extrema importância. Havia grandes chances daquilo ser algo relacionado ao Mestre, talvez algo importante o suficiente para compensar minha traição. De qualquer forma, eu precisava saber.
Andei por dez minutos antes de julgar minha distância daquele prédio segura o suficiente e então desamassei os papéis. A primeira coisa que percebi foi que aquela era a mesma caligrafia das cartas que havia recebido. Eu tinha quase certeza que a caligrafia, além do estilo de escrita, havia sido diferente nas cartas que eu recebera se comparadas as que recebera. Aquilo explicava a diferença: no meu caso, Mason havia sido o escrivão do Mestre.
Todos os papéis eram compostos de textos bastante parecidos, às vezes parando em um erro, às vezes com seu conteúdo rabiscado como se o autor tivesse decidido reformular o texto. O mais completo dizia o seguinte:

A Sua Majestade, Rainha Siobhan,

Meu mestre deseja por meio desta comunicar o quão agradecido se sente por Vossa Majestade ter aceitado ouvir sua proposta. Já foram iniciadas as preparações para a viagem e, embora o local de embarque em vosso avião seja um pouco distante de onde nos encontramos, meu mestre será capaz de estar lá no próximo dia 27. Vossa preocupação com a segurança é compartilhada por todos nós.
É com pesar, no entanto, que meu mestre precisará recusar a oferta de permanecer mais de três dias em seu país. A situação em Los Angeles o impede de se afastar por mui


Depois disso havia um risco no papel, provavelmente resultado do susto que Mason havia levado com a risada de Hector.

Eu me sentei sobre um banco próximo, pesando a informação que tinha em mãos.

Para um leigo, aquelas poucas palavras não significariam quase nada. Para mim, no entanto, o sentido daquela carta era claro. E assustador.
Embora o texto fornecesse diversas informações extras, era o nome “Siobhan”1 que deixava tudo claro. Qualquer vampiro conhecedor da história de sua espécie sabia quem era a “Rainha” Siobhan. Afinal, ela não era ninguém mais, ninguém menos do que a líder da maior comunidade vampírica do planeta.
Localizada na Irlanda, a comunidade era conhecida não só por seus grandes números como também pelo poder de muitos dos seus integrantes. Os vampiros irlandeses viviam escondidos entre os humanos, espalhados por todo o país, mas cada um respondia à Siobhan. Em nenhum outro país era possível ver tamanha integração entre a espécie. Simplesmente porque nenhum outro vampiro além de Siobhan havia conseguido convencer os conterrâneos a tê-lo como líder.

Bom, talvez um outro.

Mas o plano do Mestre, ao menos por hora, parecia ser somente derrubar a Organização, e não dominar os Estados Unidos. De fato, se fossem essas as intenções dele, nunca teria contatado a rainha da Irlanda. Siobhan provavelmente não gostaria da ideia de um vampiro exercendo poder absoluto sobre um país mais poderoso que o dela.
Seria um duelo de titãs, na verdade. A fama da comunidade irlandesa era apenas superada pela fama da rainha em si. Siobhan havia adotado vários nomes em vários locais ao longo dos séculos, estando por trás de grandes acontecimentos da história da civilização. Corria um boato, inclusive, de que sua identidade humana havia sido também uma rainha. Mais precisamente, a rainha Cleópatra.

Mas aquilo não passava de um boato. Se fosse verdade, significaria que Siobhan tinha mais de dois mil anos de idade.

E aquele pensamento era assustador demais para ser sequer considerado.

O importante era que Siobhan era extremamente poderosa e influente, de forma que um contato entre ela e o Mestre era algo terrível e perigoso. A possibilidade nunca havia sequer me passado pela cabeça, já que nos últimos séculos a rainha havia deixado claro sua recusa em se envolver com o resto do mundo. Qualquer vampiro era aceito por sua comunidade, mas qualquer assunto fora de suas fronteiras não era de seu interesse. No entanto, ela havia aceitado ouvir alguma proposta do Mestre. Uma proposta que provavelmente seria um pedido de ajuda.
Nós sabíamos que tinham vampiros vindo de vários lugares para auxiliar o Mestre. Era por isso que Organizações no mundo inteiro haviam sido avisadas mesmo antes de começarem a trabalhar em conjunto. Mas se o Mestre conseguisse o apoio da Irlanda, tudo estaria perdido. Nós tínhamos vantagem em números no momento, mas se os irlandeses interferissem a coisa toda atingiria proporções catastróficas.
Eu precisava pensar. Tentar impedir a viagem do Mestre seria inútil. A essas horas ele já havia deixado Huntington Park. Se eu não sabia onde ele estava agora, não saberia onde ele estaria no dia 27. O dia em questão era provavelmente o próximo dia 27. Estávamos no dia 17, e se o Mestre enviasse a carta pedindo urgência, essa chegaria em no máximo três dias. A falta de tempo justificava o comportamento de Mason e significava que eu tinha mais ou menos uma semana para decidir o que fazer.
Eu revirei o papel em minhas mãos, pensando. O fato do Mestre ter escolhido uma carta manuscrita como meio de comunicação não me surpreendia. A existência de Siobhan não era segredo para as autoridades humanas irlandesas, assim como a existência de vampiros era fato conhecido pela maior parte dos líderes estaduais do mundo. Parte do motivo pelo qual a rainha não tomava parte em problemas fora de seu país era que isso ajudava a mantê-la escondida do poder humano. Sua influência sobre os demais vampiros a colocava no radar do governo da Irlanda, fato que a forçava a viver reclusa com seu clã. Eu ouvira dizer que a Organização da Irlanda havia obtido permissão para monitorar meios de comunicação como internet e linhas telefônicas de forma a localizar a rainha, mas o mesmo não podia ser feito tão facilmente com o correio de papel. Cartas realmente pareciam ser a melhor forma de comunicação, se você era importante o suficiente para saber o endereço ao qual mandá-las. Esse privilégio era reservado aos líderes vampiros regionais da Irlanda e, aparentemente, ao Mestre. Quanto a ser manuscrita, devia ser uma simples questão de classe.
Eu devia me considerar com sorte, é claro. O destino havia posto em minhas mãos informações preciosas, embora eu não soubesse o que fazer com elas. Drigger havia sido incrivelmente tolo ao jogar aqueles papéis fora tão descuidadamente, e os demais haviam sido ainda piores por não terem percebido. Eu tinha certeza que, nas mãos certas, aquela informação seria muito mais do que útil. Infelizmente, porém, eu não era a pessoa certa para decidir o que fazer com aquilo. Eu precisava falar sobre o que havia descoberto com alguém, era óbvio. Precisava traçar um plano de ação.

Precisava contar a .

E essa era a parte irônica da situação, pois minha sorte se mostrava também como azar. A informação que chegara a meu conhecimento era também o motivo pelo qual eu precisaria confessar minha traição. Aquele era o meu castigo, porque se eu ainda tinha uma fibra de decência em mim, precisaria abrir o jogo com e arriscar destruir o que tínhamos. Não era nem um risco, na verdade. Era uma certeza. nunca me perdoaria e, se eu a perdesse de vez, nunca seria capaz de perdoar a mim mesmo.
Eu levantei do banco com um salto e continuei o caminho que fazia antes, mais por necessidade de movimento do que por pressa de chegar em casa. Eu não fazia o tipo que ficava parado deliberando sobre problemas. Eu precisava de ação, era impaciente, e isso não fazia de mim um bom planejador. era prova de como eu raramente conseguia seguir meus planos até o fim. Essa, na verdade, era uma das razões pelas quais eu precisava dividir minhas descobertas com alguém que seria capaz de fazer algo útil com elas.
Eu sabia que precisava falar com , só não sabia quando ou como. E até descobrir isso, não havia nada que eu pudesse fazer.

Palavras bonitas, não? Boas para mascarar o fato de que eu estava fugindo da situação.

Adiar o inevitável era uma ideia idiota, mas nem minha impaciência natural parecia querer contrariá-la. Pelo contrário, tudo em mim me incitava a esperar, a pensar melhor, a tentar encontrar uma saída, um jeito milagroso de deixar saber sobre o Mestre e Siobhan sem me comprometer. Eu sabia que aquilo não aconteceria, mas o fato não me fazia mudar de ideia. Eu era um covarde, sabia disso. Mas enquanto não falasse a verdade, seria o covarde que tinha a garota.

Digam o que quiserem, mas aquilo era muito melhor do que ser um corajoso sozinho.

1 - Pronuncia-se "Shován".

Capítulo 33 – Truth, Lies And All In Between.

’s POV

- Posso entrar? – eu perguntei, esgueirando minha cabeça pela fresta da porta de Gilbert após bater. Às seis horas da tarde, Gilbert costumava se trancar em seu escritório e afundar no meio de milhares de textos. Eu havia passado o dia inteiro tentando juntar coragem para vir falar com ele, e essa havia me parecido a melhor hora.
- Claro, , entre por favor. – disse ele, tentando arrumar os papéis espalhados por sua mesa.
Eu me sentei de frente a ele, observando um pouco divertida a tentativa inútil do meu mentor em deixar o ambiente mais apresentável.
- Você não devia estar com os outros? – perguntou ele – Achei que tivessem decidido se reunir para decidir como continuar os treinos.
- Nós já fizemos isso. – eu respondi – Vamos continuar com as “aulas” apenas para Tara e . e já sabem o bastante. Faremos uma tentativa hoje e os levaremos para a patrulha conosco. Só um pouco, para eles observarem mesmo. E evitaremos as áreas mais perigosas.
- Você quer dizer você, e eles? Tem certeza que isso é sensato?
- Oh, não. Não, não iremos todos juntos. e não conseguiriam ficar muito tempo em presença um do outro sem que tudo acabasse em derramamento de sangue. Não, está levando por uma rota e daqui a pouco eu levarei por outra para não nos encontrarmos.
- E eles aceitaram bem isso? – perguntou Gilbert, me olhando um pouco cético.
- não pareceu muito feliz com a ideia, mas acho que ficou aliviado por não ter que passar tempo com . também não gostou, mas entendeu meus motivos.
Ele sorriu, franzindo um pouco a testa e adotando uma expressão pensativa.
- O que foi? – eu perguntei, após ele não dizer nada por alguns segundos.
- Oh, nada. – ele garantiu, balançando a cabeça e parecendo voltar à realidade – Só estava pensando em como o mundo dá voltas. Há alguns meses você nunca sequer consideraria a hipótese de deixar sozinha com . Hoje em dia até sugere isso.
Eu fiz o máximo que pude para não desviar meu olhar, envergonhada. Aquilo seria suspeito.
- Ele não pode machucá-la, tem um acordo com Miles. E ele sabe que se tentasse qualquer coisinha eu o caçaria e mataria. Acho que por hora podemos considerar como “seguro”.
- Eu também penso assim. – concordou ele – Venho pensando muito no assunto, na verdade. O que quer que tenha trazido para nosso lado, veio em boa hora. Acho que ter um vampiro conosco é algo bem útil. Ele ainda parece relutante em ajudar, mas isso anda melhorando. Talvez, com o tempo... – ele interrompeu o que ia dizer, como se tivesse pensado melhor – De qualquer forma, acho que ter ele aqui é algo extremamente vantajoso. Pense em todas as informações que ele poderá dividir com a Organização assim que resolver interagir mais conosco?
Eu contive um sorriso. Claro que Gilbert gostava da ideia de ter por perto. O estudioso nele não podia resistir à oportunidade de aprender mais sobre vampiros interagindo com um. Havia sido a mesma coisa com quando ele ainda estava aqui.
- E eu estou orgulhoso de você. – continuou ele, me pegando de surpresa – Confesso que esperava que você fosse lidar com a situação de forma imatura, como lidou no começo. Mas, por mais que você ainda viva brigando com , percebo que a relação de vocês anda melhorando. Uma atitude madura de sua parte, sem dúvidas. Está fazendo o melhor da situação na qual se encontra. – ele deve ter percebido algum traço de culpa na minha expressão, pois em seguida perguntou – Você e estão se dando melhor, não estão?
Eu senti o rubor subir por minhas bochechas e abaixei um pouco a cabeça, deixando meu cabelo cair para frente para esconder a vermelhidão em meu rosto.
- É, nós estamos... – dormindo juntos – Nos dando melhor sim.
Não dava para não me sentir culpada, claro. O fato de eu estar aceitando melhor a situação com não tinha nada a ver com maturidade. Eu só havia descoberto que agarrá-lo pelos cantos o tornava muito mais suportável.
Foi a voz de Gilbert que quebrou o silêncio que se instaurou por alguns segundos.
- Imagino que você não tenha vindo aqui apenas para me avisar sobre o novo plano de treinos. – disse ele, em voz suave, e eu o encarei meio culpada. Nos últimos tempos parecia que só o que eu sentia era culpa por tudo – Eu te conheço desde que você era um bebê, . Sei quando você tem algo para me dizer.
- É só que... – eu comecei a dizer, parando para respirar fundo antes de continuar – Nos últimos tempos eu venho me sentindo... Estranha.
- Estranha como? – ele perguntou, confuso.
- Eu ando sentindo umas coisas. Coisas que eu geralmente associo com vampiros. – pronto, eu havia dito. Nem foi tão difícil assim. Eu obviamente não podia falar pra ele sobre o sentimento insano de posse que eu as vezes tinha sobre , ou sobre meu surto na noite anterior, ou sobre minha atração doentia por mordidas e tudo o que tinha a ver com o vampiro em . Mas talvez, se eu fosse vaga o suficiente, Gilbert poderia me ajudar a entender ao menos um pouco o que estava acontecendo comigo.
Ele me encarou longamente, como se não soubesse ao certo o que dizer em seguida.
- Você quer dizer sede de sangue e coisas do tipo? – ele perguntou, finalmente.
Meu primeiro impulso foi dizer não, mas eu me controlei. Negar aquilo não seria honesto da minha parte.
Eu não tinha sede de sangue do tipo que me fazia querer morder alguém ou algo do tipo. Não, nada perto disso. O incidente na noite anterior havia sido um fato isolado. Mas eu gostava do sabor do sangue... Sempre havia gostado, mesmo só tendo experimentado o meu próprio em ocasiões nas quais havia me ferido. E de uns tempos para cá, eu havia me tornado mais curiosa sobre o assunto. Já havia me flagrado observando pessoas e pensando em como seria... Quero dizer, se eu tivesse presas... Como seria morder alguém. Ia além de pura curiosidade, na verdade. Era quase um desejo. Se era tão bom quando me mordia, como seria morder alguém? Como ele se sentia quando me mordia? Era melhor para ele ou pra mim?
Sem encarar Gilbert, eu assenti.
- Isso... Não me surpreende, na verdade. – disse ele, retirando seus óculos e os limpando na barra da camisa. Esse era o jeito dele de lidar com situações embaraçosas – , por mais humana que você pareça, você é metade vampira. Eu sempre me perguntei quando isso começaria a ficar mais evidente. – ele me encarou então, curioso – Você tem alguma ideia de por quê agora? Algo deve ter despertado isso em você, estimulado esse lado. Alguma ideia do que possa ter sido?
Oh, eu sabia exatamente o que havia sido. Ou melhor, quem havia sido. Mas aquela era outra coisa que eu não podia revelar a Gilbert.
- Não. – eu menti, porém dessa vez não me senti culpada.
- Bom, tem que haver algo. – disse ele, pensativo – Há anos eu venho pesquisando sobre as possíveis consequências que sua natureza dupla poderia ter. As poucas conclusões às quais eu cheguei são hipotéticas, na verdade. Em um caso de hibridismo como o seu não dá para se ter certeza de nada sem observação, e você é o único caso para estudo. Eu posso continuar pesquisando, procurar no corpus de textos sobre vampiros algo que possa ser aplicado no seu caso, mas você precisa ter em mente que qualquer ajuda que eu possa te dar pode não ser muita coisa. O que você quer saber, realmente?
- Eu só quero entender. – eu disse, suspirando – É como se eu não me conhecesse mais. Eu só queria entender essas coisas, controlar alguns impulsos que eu tenho.
- Por que você não fala com ? – ele perguntou em tom calmo, como se fosse a sugestão mais óbvia do mundo. Para alguém que não conhecia minha história com , devia ser mesmo.
- Com ?! – eu exclamei, minha voz um pouco estridente. Aquilo não. Tudo menos aquilo.
- Se existe alguém no mundo que pode entender o que são impulsos vampíricos, esse alguém é , . – disse ele, pacientemente.
Ele não entendia, era claro. Não podia imaginar que aquela possibilidade era impensável. Eu não podia conversar com sobre aquilo, simplesmente porque não podia conversar com sobre nada. Nós não conversávamos. Conversar sempre resultava em brigas. Nós simplesmente não éramos bons naquilo. O único lugar no qual nos entendíamos completamente era na cama, por isso tínhamos tanta dificuldade em nos mantermos longe dela. Conversar significaria... Mais. Seria expor minhas preocupações para , deixar ele me ajudar. Seria um passo em uma direção perigosa. Falar com sobre aquilo faria dele mais do que um parceiro de patrulha e um amante ocasional. Não o tornaria meu amigo, mas seria algo que implicaria maior proximidade. Algo que daria a ele falsas esperanças.

Era engraçado, na verdade. Eu o usava sem a menor vergonha, mas conversar com ele seria dar “falsas esperanças” ao vampiro. Muito lógico da minha parte.

Engoli o mais recente surto de culpa e tomei minha decisão. Eu não podia falar com . Preferia continuar confusa a arriscar abrir uma porta para ele que eu talvez depois não conseguisse fechar.
- Eu vou pensar sobre isso. – menti novamente, consciente de que aquilo era só o que eu fazia nos últimos tempos – Mas agora eu preciso ir. está me esperando. – dizendo isso, eu me levantei, subitamente ansiosa para sair dali.
- Pense mesmo, por favor. Mas fique tranquila, eu tentarei descobrir o máximo que puder. Até lá, só tente se manter calma, tudo bem? O que você está sentindo é natural. Enquanto se mantiver calma, poderá continuar a ter controle sobre si mesma.
Eu assenti, lançando a Gilbert um falso sorriso antes de sair. Eu realmente havia achado que Gilbert poderia me ajudar, mas estivera enganada. Seu conselho era a maior prova que eu poderia ter disso. Enquanto eu mantivesse a calma, teria controle sobre mim mesma.

Mas o que fazer quando eu nem mais sabia o que era calma ou controle sobre mim mesma?

Xx

’s POV


A situação era mais do que desconfortável.

Eu devia ter pensado em alguma desculpa. Sinto muito, , não posso levar sua melhor amiga para a patrulha. Preciso me livrar das teias de aranha da cripta. É o lado ruim de se morar embaixo da terra. Não que fosse colar, é claro, mas eu podia ter tentado. Aquilo era simplesmente horrível.
Podia ter sido pior, eu sabia. Pelo menos não havia precisado lidar com . A ideia idiota de poderia ter acabado em tragédia, mas ela teve o bom senso de me mandar com . Embora eu sinceramente não acreditasse que levar os dois para a patrulha fosse resultar em algo útil, tínhamos mais chances de sairmos todos vivos se continuasse longe do meu caminho.

Não se engane, porém. O fato de ser melhor estar com não significava que a situação era menos insuportável.

O silêncio desconfortável não era como o que eu experimentava às vezes com . Com a caçadora, o silêncio era sempre resultado da tensão. Com , não falávamos simplesmente por não termos nada a falar.
O som chato de sucção que vinha do canudo do refrigerante dela só piorava as coisas. Eu pensei em informá-la que o barulho alertaria os vampiros, mas pensei melhor. Se eles viessem até nós graças ao som, eu os mataria, pois aquele era o objetivo da coisa toda. Se fugissem, eu não me importava. E além do mais, contrariar só levaria à problemas. A última coisa que eu precisava era que ela corresse para a amiguinha reclamando de mim e dando a motivos para brigar comigo. Eu e estávamos em um bom momento e eu não queria estragar isso.

“Bom momento” se ignorássemos o fato de que eu havia traído sua confiança.

Eu devia falar a verdade para ela. Mais do que isso, com o que havia descoberto, precisava falar a verdade. O problema era o que aconteceria quando eu revelasse a ela o que fiz. Eu podia inventar uma história, claro, mas não importava o quão criativo eu fosse, no fim precisaria concordar que para descobrir o que havia descoberto, me aproximara do Mestre pelas costas de . E aquilo a deixaria enfurecida.
Eu não sabia o que fazer. Precisava contar a sobre os Siobhan, mas não podia revelar nada sobre a caixa que eu roubara. Ela não só não me perdoaria pela traição como indagaria os motivos que me levaram a ela, e aquilo eu não podia mesmo revelar. O Mestre me chantageara ameaçando revelar a minha primeira traição. A que me trouxera a Organização. A que eu era impedido de revelar por um contrato mágico.

Eu não estava em um beco sem saída. Estava em meio a uma estrada na qual ambas as direções levavam a problemas.

- Quer um gole? – disse , de repente, me pegando de surpresa. Por um momento havia esquecido que ela estava ali.
Eu a encarei como se ela tivesse acabado de afirmar ser o demônio.
- Quer ou não? – ela insistiu, estendendo o copo de coca-cola na minha direção – Vampiros podem beber coisas normais, né?
Eu assenti com a cabeça, pasmo, pegando o copo da mão dela em um gesto automático. Havia algo profundamente errado naquela situação.
- Você me odeia. – eu disse, de repente, antes mesmo de processar as palavras.
- Sim. – disse ela, simplesmente, me encarando sem entender.
- Por que você me ofereceu refrigerante se me odeia?
- Sei lá. Educação? – disse ela, dando de ombros – Além disso, tem refrigerante demais aí, to cheia. Devia ter comprado o médio, mas o grande tava em promoção.
Eu assenti novamente, continuando a andar ao lado dela.
- Mas não entenda errado. – avisou – Eu odeio mesmo você. Isso é só um refrigerante.
- Bom saber. – eu disse, contemplando o copo – Tem certeza que não jogou veneno nisso aqui?
- E funcionaria em você, por acaso? – disse ela, revirando os olhos – Não, não joguei veneno aí. Não nego que jogaria, se pudesse. Seria um pagamento justo para tudo que você já fez contra mim e contra os outros.
- Você fala como se eu tivesse matado seu cachorro ou algo do tipo.
- Não. Você só ameaçou minha vida e a dos meus amigos. E preciso te lembrar do sequestro?

Ah, é. Tinha isso.

- Isso... Faz quase um ano. E eu não te machuquei. – eu tentei me defender – Apenas... Te tranquei em um porão por algumas horas enquanto esperava do outro lado da cidade.
- E o que teria acontecido comigo se tivesse caído na sua armadilha e morrido? – perguntou ela, cruzando os braços.
Eu suspirei, levando uma mão aos cabelos.
- O que você quer que eu faça? Peça desculpas?
- Seriam sinceras?
- Não. – eu admiti – Você era uma desconhecida, sua melhor amiga estava no meu caminho, eu fiz o que tinha que fazer. Eu sou um vampiro, lembra?
- Como poderia esquecer? – perguntou – É um dos motivos pelos quais não confio em você, assim como os outros.
- Vocês não tiveram problemas para confiar em . – eu argumentei.
- Bom, pra início de conversa não colocou nenhum de nós em perigo – sob meu olhar cético, ela se corrigiu – Antes de Cora bagunçar a cabeça dele, eu quis dizer.
- Mesmo assim. Um vampiro resolve trabalhar com caçadores e todo mundo simplesmente aceita a situação? Comigo foi um drama horroroso e a maioria ainda não confia em mim. Mas recebeu plena confiança imediatamente. Me explica como isso é justo?
- Não foi assim tão fácil. E “plena confiança” é um pouco de exagero. Mas já tinha experiência com caçadores, trabalhou com vários free-lancers. A luta dele contra a própria espécie já era conhecida por todos há anos. Ele tinha todo tipo de recomendações. Você, por outro lado, não inspira muita confiança. Seu passado é mais sujo do que meu all-star e ninguém engoliu essa sua súbita mudança de lado.
- Se você conhecesse o passado de , me acharia um santo. Mas não vou discutir. Você pode confiar em quem quiser.
- E desconfiar de quem eu bem entender. – acrescentou ela. Eu resolvi não comentar.
Continuamos a caminhar lado a lado, sendo agora eu o responsável pelos sons irritantes de canudo. Revirando os olhos, eu joguei o canudo longe junto com a tampa do copo.
- Então... – disse , após alguns momentos, apenas para preencher o silêncio desconfortável.
- Então... – eu respondi, da mesma maneira vaga, aproximando o copo dos lábios para dar um gole. Não estava com cabeça para pensar em assuntos.
- Então. – repetiu , olhando distraidamente para as estrelas acima de nós – Há quanto tempo você vem dormindo com a minha melhor amiga?

Eu cuspi todo o refrigerante na grama à minha frente.

- O quê? – eu perguntei, tossindo. Eu devia ter escutado errado. Era impossível ter perguntado o que eu achava que havia perguntado.
- Desculpa. – disse ela, rindo – Eu fiz de propósito. Vi você dar um gole e resolvi ver se conseguia te fazer engasgar como nos filmes. Achei que vampiros não pudessem engasgar.

Nós podemos quando somos confrontados com perguntas que não esperávamos ouvir nem em um milhão de anos.

- Eu... Ahn... – estava claro o quão bem eu estava lidando com a situação.
- , relaxa. Eu sei. – disse, calmamente. Ela estava calma até demais – Quero dizer, provavelmente não sei tudo. Mas sei que tá rolando algo entre vocês. Não sou idiota.
- Você... Sabe. – eu estava tendo dificuldades para absorver aquela informação.
- Sei. É bem óbvio, na verdade. Não que a enxergue isso. Eu amo aquela criatura, mas o modo como ela subestima a inteligência de todo mundo me dá raiva.
- Como...? – eu perguntei, no mais absoluto choque que já havia experimentado. Eu devia ter tropeçado e caído por um portal para outra dimensão. Era impossível eu estar tendo aquela conversa no mundo real.
- Como eu sei? Eu já disse, é bem óbvio. Vocês dois ficam se comendo com os olhos pelos cantos e acham que ninguém vai perceber? E as brigas? Antigamente vocês discutiam de verdade, o tempo inteiro. Hoje em dia forçam as discussões mais ridículas para disfarçar, tipo ontem quando foram pegar os diários. Vocês acham que tão disfarçando bem, mas isso só deixa vocês mais óbvios. – disse ela, revirando os olhos.
- Óbvios. – eu repeti, ainda chocado.
- Sim, mas relaxa. – disse ela – Os meninos são meio lentos pra essas coisa, mas eu? Eu teria que ser cega para não perceber. Tenho quase certeza que a Tara sabe, também. As evidências são muitas. Como se não bastassem os olhares, o jeito de vocês quando estão próximos, ainda tem a . Ela está diferente de um tempo pra cá. Está com um brilho diferente, uma postura menos tensa. O tipo de coisa que eu associo a orgasmos. – disse , como se estivesse discutindo o tempo e não a vida sexual de sua melhor amiga com o vampiro que ela acabara de admitir odiar – A acha que eu não sei. Conheço aquela vaquinha, ela gosta de acreditar que ninguém presta atenção nela. Que seus amigos são todos cegos, que não procuram conhecer a “verdadeira ”. Isso dá motivos a ela para odiar a si mesma e ao mundo todo. Acreditar nisso dá a ela a chance de ser a heroína trágica e incompreendida. Aquela ali adora um drama, por mais que negue isso.
- E por que você não diz pra ela que sabe? – eu perguntei, tentando afastar o assunto da minha relação com e aproximá-lo da relação de com a caçadora.
- Porque é ela quem tem que me contar. – suspirou – E pode acreditar, eu ando fazendo de tudo para que ela me conte. Canso de dizer que ela pode confiar em mim, dividir qualquer coisa comigo... Incluí seu nome em vários assuntos, cheguei até mesmo a levantar a hipótese de você ter algo com a Tara apenas para ver se ela falava alguma coisa. Nada adianta. Ela não confia em mim.
- Claro que ela confia.
- Não, ela só acha que confia. não confia em ninguém. Não de verdade. – ela respondeu, seu olhar distante – Eu só queria que ela dividisse as coisas comigo. Eu sou a melhor amiga dela, caramba. Ouvir esse tipo de coisa é a minha função. Como eu posso aconselhar e apoiar se não me dá essa chance? Ao invés de se abrir comigo, ela me afasta como faz com todo mundo. E ainda por cima se esconde atrás da certeza de que eu sou burra o suficiente pra não perceber que tem algo novo na vida dela. Ela acha que eu não vou entender, tem medo da minha opinião sobre o assunto. Se ela confiasse em mim, não teria medo da minha reprovação.
- Ok. Mas se você não se importa que eu pergunte... – eu disse, procurando as melhores palavras para abordar aquele assunto – Cadê a sua reprovação? Você não devia estar contra a coisa toda?
- Oh, eu estou. – garantiu ela – Claro que eu estou. Eu acho que a perdeu o juízo completamente. Quero dizer, dormir com você? Será que ela não lembra de nada que aconteceu alguns meses atrás? – perguntou , sacudindo a cabeça em descrença – Claro que eu desaprovo. Quando comecei a perceber os sinais pensei seriamente em bater com a cabeça dela contra parede até fazer aquele cérebro voltar a funcionar. Mas depois pensei melhor e... Bom, não vou dizer que entendi, mas fiquei em paz com o assunto.
- Como assim? – agora eu estava realmente curioso.
- Como eu já disse, eu conheço a . Por isso sei que o que há entre vocês provavelmente não passa de sexo. – disse ela, simplesmente – não daria o coração dela assim, de bandeja. Principalmente depois de tudo que aconteceu com , e pelo fato de que estamos falando de você. Eu sei que ela ainda te odeia e também sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se estivesse apaixonada, eu saberia. Como não está, eu não me preocupo. Só um pouco, claro.

parecia saber de muita coisa. Será que sabia o quanto suas palavras torceram a faca que vivia cravada em meu peito?

Se sabia não parecia se importar muito. Se não sabia, eu precisaria me esforçar para esconder minha vulnerabilidade. Engolindo a dor, tentei dar continuidade ao assunto.
- Mesmo assim. Mesmo sem sentimentos. Isso não te perturba nem um pouco?
- Perturba, mas é algo que eu posso ignorar. – ela suspirou e me encarou – Escuta, eu entendo a , ok? Ela é uma mulher crescida que tem necessidades como todas nós. Ela passou a vida inteira lutando pelos outros, merece um pouquinho de satisfação na vida. Um pouco de diversão. E, sinceramente... – ela me olhou de cima a baixo sem a menor vergonha – Você com certeza parece diversão. Não tem como negar isso.
Eu tive que rir, apesar de tudo. Por incrível que pareça, estava descobrindo que gostava daquela garota. Ela dizia o que pensava, e eu respeitava aquilo.
- Me sinto lisonjeado. – eu disse, ainda rindo.
- Bom, é verdade. Você é atraente e tenho certeza que aprendeu algumas coisas ao longo dos séculos. Se a quer tirar proveito disso, quem sou eu pra julgar? Ela é minha amiga, não cabe a mim questionar suas decisões. Eu posso não gostar das escolhas dela, mas não vou julgá-las. Se ela me deixasse, faria o possível pra mostrar que to aqui por ela não importa o que aconteça.
Eu não sabia o que responder àquilo. estava mostrando mais maturidade do que eu esperava de algum dos amigos de . Acho que a caçadora não era a única a julgá-los precipitadamente.
- Só quero deixar claro que se você a machucar, eu te mato. Estamos entendidos? – ela perguntou, depois de um tempo.
Eu suspirei, fechando os olhos e me preparando para o que ia dizer em seguida. havia decidido me deixar saber que estava a par dos acontecimentos. Nada mais justo do que eu revelar algo também.
- Se você conhece tanto a sua amiga quanto diz conhecer, me responda isso: quem tem mais chances de machucar quem? – eu perguntei, olhando-a nos olhos. Manteria as coisas simples, mas sabia que era inteligente o suficiente para captar alguma coisa por trás das minhas palavras.
Nos encaramos por um bom tempo antes que ela quebrasse o silêncio.
- Eu não vou sentir pena de você. – disse ela, com convicção, e eu soube que ela havia entendido. Provavelmente não o fato de eu amar , mas a realidade de que para mim havia mais em jogo do que uma simples atração física.
- Nem eu quero que você sinta. – eu respondi, da mesma forma.
Ela assentiu e voltamos a caminhar. Mal demos alguns passos e voltou a preencher o silêncio.
- Mesmo assim, tome cuidado. – disse ela, sem me encarar – A verdade é que não é muito difícil machucar a . Ela já tem feridas demais. Se faz de forte, mas no fundo é muito sensível. Então cuidado com o que diz pra ela, com o que faz. Não explore as fraquezas dela, mesmo quando ela te deixar louco de raiva, coisa que com certeza vai acontecer. E faça o que fizer, não minta para ela. Como eu já disse, ela tem problemas para confiar nas pessoas. Mentiras não ajudam em nada.

Não minta para ela.

Foi naquele momento que eu tomei minha decisão. estava certa e eu precisava falar com . Se eu continuasse adiando aquilo, acabaria sendo muito pior quando ela inevitavelmente descobrisse. Algumas mentiras teriam que ser mantidas, mas eu precisava contar algo a ela. Chegaria o mais perto da verdade o possível. Precisava fazer isso agora, antes que fosse tarde demais. Quanto mais tempo esperasse, pior seria.

Mesmo eu tendo a distinta impressão de que seria péssimo de qualquer maneira.

Xx

Eu esperei por ela em seu quarto.

Sabia que não devia, é claro. detestava que eu fosse lá sem a autorização dela. Na verdade, detestava que eu fosse lá e ponto. Eu devia ter ligado ou algo assim, mas achei que seria pior. Dar a ela tempo para se preparar apenas a faria estar com a armadura levantada quando finalmente conversássemos. Pegá-la desprevenida era minha melhor chance e aquele era o melhor lugar. Talvez o único lugar no mundo inteiro onde teríamos privacidade. A irritação dela por eu estar em seu quarto e por ter aberto a porta com um grampo seria o menor dos meus problemas quando ela soubesse da verdade.
Sentado na cama dela, eu remexi o rascunho de Mason nas mãos, nervoso. Aquela era minha bandeira branca. Minha oferta de paz. Olha, , eu agi pelas suas costas mas pelo menos descobri algo útil! Você não precisa me odiar.

Não me odeie. Por favor, , não me odeie.

Ela devia ter me escutado, pois escolheu aquele momento para entrar no quarto. Vai ver foi telepatia, intuição, ou o destino tentando me dizer alguma coisa. Talvez eu devesse desistir, dar a ela uma desculpa para estar ali. Ainda havia tempo de envolvê-la em meus braços e fugir dos problemas. Seria tão fácil, e falar com ela era tão difícil... Falar sobre aquilo então seria a coisa mais difícil que eu faria na vida, mas eu não tinha escolha. Fugir agora não seria justo e tocá-la novamente enquanto não revelasse ao menos parte da verdade seria ainda pior. Eu já havia errado o suficiente com ela, já teria que esconder coisas demais... Aquilo eu precisava contar.
Assim que ela me viu, fechou a porta atrás de si apressadamente.
- O que você pensa que tá fazendo aqui? – ela perguntou, irritada – Desde quando acha que pode sair invadindo meu quarto quando bem entende? Achei que tivesse deixado claro ontem que isso não deve se tornar um hábito.
- Eu sei, mas precisava falar com você. – eu tentei justificar. Ela deve ter captado algo diferente em minha voz, pois ao invés de me dar uma resposta espertinha, apenas revirou os olhos e foi em direção ao seu cabideiro, retirando sua jaqueta e a pendurando.

Ela notou o arranhão no braço ao mesmo tempo que eu.

- O que foi isso? – eu perguntei, apontando com a cabeça para o machucado.
- Acidente de trabalho. – disse ela, analisando o corte – Encontrei um vampiro enquanto estava com . Ele deve ter me acertado e eu nem notei. O desgraçado tinha uma faca, acredita? Desde quando vampiros andam armados?
- Falta de classe, realmente. – eu tentei brincar, mas minha voz não saiu divertida. , no entanto, não pareceu reparar.
- Você e encontraram alguma coisa? – ela perguntou, aproximando-se de mim e estendendo o braço em minha direção.
- Não, foi uma perda de tempo. – eu respondi, segurando o braço dela delicadamente e levando meus lábios até a ferida.
Para alguém de fora a situação poderia parecer estranha, mas aquele andava se tornando um hábito nosso. Sempre que se machucava, oferecia a ferida para que eu a fechasse. Minha saliva a fazia cicatrizar mais rápido do que qualquer remédio humano conseguiria, e não era como se eu não adorasse o gosto do sangue dela.
Eu costumava usar aquelas ocasiões para provocá-la um pouco, mas dessa vez foi diferente. Apenas lambi o corte e soltei o braço de . A caçadora obviamente percebeu que algo estava errado, pois me encarou com a típica ruguinha entre as sobrancelhas.
- O que você quer falar comigo? – ela perguntou, séria.
Mil formas de contar o que eu precisava me passaram pela cabeça. Eu podia fazer aquilo de várias maneiras, adotar várias abordagens, mas no fim o resultado seria o mesmo. Não tinha como fugir da merda na qual eu havia me metido.

Apenas estendi a carta para ela, sem dizer nada.

pegou o papel, me olhando desconfiada por mais alguns poucos segundos antes de abri-lo e começar a ler. A pequena dobra entre suas sobrancelhas ficava mais profunda a cada linha lida pela caçadora. Ela provavelmente não entendia tudo que constava naquele pedaço de papel, mas provavelmente havia compreendido a situação de um modo geral.
- Isso... – ela perguntou, agora sentada ao meu lado, balançando a cabeça e parecendo confusa – Isso é o que eu to pensando?
- É do Mestre, sim. Mason estava escrevendo. – eu disse, sem emoção.
- Mas o que isso significa? Eu acho que já ouvi falar dessa Siobhan, mas... – ela balançou a cabeça novamente – E como isso foi parar nas suas mãos?
- Pelo que eu entendi, – comecei a dizer, optando por responder a pergunta mais fácil primeiro. Duvidava que fosse me deixar dizer mais alguma coisa após saber como eu havia tomado posse daquele papel – o Mestre está pedindo a ajuda da rainha irlandesa. Não sei o porquê, mas posso imaginar. Ele precisa de números, de músculo. Siobhan tem isso de sobra em seu território.
- Dia 27. – disse – Isso é daqui a...
- Nove dias. – eu completei – Então se você quiser pará-lo, tem pouco mais de uma semana para agir. Não acho que valha a pena, no entanto. O Mestre não é idiota e já provou ser muito bom em não ser encontrado. Duvido que possamos descobrir o local de embarque antes que ele parta. O melhor a fazer é começar a pensar em como controlar a situação, como descobrir se ele irá conseguir ou não o apoio dos irlandeses. Eu estive pensando sobre isso, tenho algumas ideias.
- Achei que os irlandeses não se metessem em assuntos estrangeiros. – disse ela – Eu não conheço bem a história, mas disso tenho certeza. E... Rainha? Ela é uma rainha? Como ela pode ser uma rainha?
- Rainha é apenas modo de dizer. Não acho que ela tenha uma coroa e “súditos”. – eu respondi – Mas ela tem poder sobre os vampiros irlandeses e, por falta de um bom título, passou a ser considerada rainha. Acho que “governadora” era pequeno demais, “presidente” liberal demais... Por conveniência, o povo dela a chama de rainha. Siobhan é a primeira pessoa na história a convencer um número tão grande de vampiros a se submeterem a seu poder. Já existiram muitos líderes de bandos numerosos, mas nunca nada assim. Nada que dominasse todo o território de uma nação. Eles são uma grande comunidade e sim, não costumam se envolver em problemas de fora. Por isso essa carta é preocupante. Se Siobhan parece disposta a ao menos ouvir o problema, é porque respeita o Mestre. E se o respeita, pode acabar aceitando sua proposta. Precisaremos estar prontos. Começar a pensar em um plano de ação. Mas antes de tudo, precisaremos descobrir tudo o que acontecer na Irlanda.
Ela assentiu, voltando a olhar o rascunho de Mason. Passaram-se alguns segundos antes que ela continuasse.
- Você tá certo. – disse ela – Sobre tudo. Faz sentido e, sim, não acho que tenha algo que possamos fazer para impedi-lo de ir até Siobhan. Vamos tentar, é claro. Vou avisar Miles, todos serão postos em alerta... Mas sim, não adiantará. Tudo que você disse está certo. Só uma coisinha parece ter estranhamente ficado de fora... – ela ergueu os olhos até os meus, me encarando como nunca antes havia encarado. Naquele momento entendi que era a caçadora, e não , quem falava comigo. Eu senti a aura de perigo e seriedade que a envolvia e me perguntei se sairia vivo daquele quarto – Como isso chegou às suas mãos, ?
- Eu a peguei em uma lata de lixo. – eu respondi, me sentindo um covarde. Pra que adiar o inevitável? Por que dar voltas em torno do assunto? Essa conversa não terminaria sem que eu contasse tudo para ela, então por que enrolar?
havia fechado seus olhos e agora respirava fundo enquanto apertava o lençol da cama com uma mão. Minha procrastinação não parecia estar melhorando muito minhas chances de permanecer vivo.
- E como você sabia em que lata procurar? – perguntou ela, em um tom precariamente controlado.
Foi a minha vez de respirar fundo. Eu não tinha para onde fugir. Era melhor acabar de vez com aquilo.
- Se eu contar, você promete que vai me deixar terminar sem me interromper? – eu perguntei, sem encará-la.
- Não preciso te prometer nada. Você vai dizer, e se eu não gostar do que você disser, você vai sair desse quarto carregado pela equipe de limpeza. Estamos entendidos? – perguntou ela, seca.
- Por favor, . – eu pedi, me sentindo exausto de repente – É só o que eu to te pedindo. Me dê a chance de explicar tudo antes de tomar qualquer decisão.
- Eu te ouvirei, se você for direto ao ponto. Tente me enrolar e eu perderei o restinho de paciência ao qual eu estou me agarrando.
- É justo. – eu assenti, engolindo em seco antes de continuar – Há pouco mais de uma semana, Godfrey me procurou. Ele disse que o Mestre precisava da minha ajuda. – eu comecei, contando a versão da história que eu havia ensaiado. Teria que deixar as cartas e a caixa fora da minha narrativa, era óbvio, então havia decidido reinventar os últimos acontecimentos. Eu só não estava contando com a dificuldade que teria em mentir para ela – Ele queria que eu me juntasse a ele. Ele... – as palavras saiam com dificuldade e eu não podia olhar pra ela. Se eu olhasse, não conseguiria continuar – Ele me deu uma semana para pensar. Mas ontem, quando eu saí daqui, Godfrey me ligou, disse que meu tempo havia acabado e me deu um endereço. Eu tinha dado a ele meu número. – eu fiz uma breve pausa, me preparando para a parte mais complicada da história. Eu teria que ser cuidadoso, ou acabaria percebendo os furos na história – Eu fui até o endereço, em Huntington Park. Ele e o resto do Quarteto Fantástico estavam lá, mas o Mestre não. Godfrey tentou me convencer a me juntar a eles, tentou me convencer a ajudá-los, disse que se o fizesse seria poupado. Disse que precisavam de mim. Não disse nada surpreendente, na verdade. Que em breve a Organização ia cair, que você morreria, que todos morreriam. Que o único jeito de me salvar seria mudar de lado. Ele falou, e falou, e falou por muito tempo. No fim eu disse não.
- E eles te deixaram ir? Simples assim? – ela perguntou, mas não havia sarcasmo em sua voz. Não havia nada em sua voz. Era assustador, na verdade.
- Aparentemente, não é minha hora de morrer ainda. – eu disse, aliviado por poder contar ao menos uma verdade – O Mestre não me quer morto por enquanto, assim como ainda não parece te querer morta. Não sei por que, mas é a verdade.
- E a carta? – ela perguntou, naquela mesma voz vazia.
- Mason a estava escrevendo em um canto enquanto Godfrey falava comigo. Ele parecia concentrado, fez vários rascunhos e os amassou em seguida. Pensei que deveria ser importante. E então Drigger levou algumas sacolas de lixo para fora e recolheu também os rascunhos. Vi minha chance e, quando saí, a aproveitei.
Ela assentiu, porém não disse nada. O comportamento da caçadora estava me assustando. Ela não era calma. era tudo, menos aquele modelo de calma e controle que agora se apresentava para mim.
- Diz alguma coisa. – eu implorei. Seria melhor se ela estivesse gritando. Pelo menos assim eu estaria em território conhecido – Diz o que você está pensando.
Ela riu então, e o som gelou meu coração.
- Eu não consigo nem começar a explicar o que eu to pensando agora, .
- Tenta. Por favor. – eu pedi.
- Eu acho que faz sentido, sabe? – disse ela, com súbita energia – Bastante sentido, na verdade. A história inteira parece ter se desenrolado perfeitamente. E é por isso que eu acho que algo aí não se encaixa. – ela estava olhando para mim agora – Tudo deu tão certo pra você, . O Mestre de repente resolve te recrutar, mas te dá tempo para pensar no assunto. Você diz não para ele, e mesmo assim os capangas te deixam sair com vida. E, oh, que sorte! Você sem querer tropeça em uma informação importante para nós!
- O que você está tentando dizer? – eu perguntei, me preparando para o que viria em seguida.
- Não estou “tentando” dizer nada. Acho que fui bastante clara. – respondeu ela.
- Você acha que eu sou um mentiroso. – aquilo não era uma pergunta.
- Ou isso ou um traidor. Eu particularmente acredito que você seja ambos.
Ela não estava gritando, estava apenas falando. Aquilo não era um bom sinal. não era tão boa em controlar sua raiva, então sua aparente calma só podia significar uma coisa.

Ela iria explodir em breve.

- Por que você não pode acreditar em mim? – eu perguntei, desesperado para convencê-la antes que fosse tarde demais – Algumas semanas atrás você mesma estranhou o fato de o Mestre não ter tentado me recrutar, lembra? Na noite em que você viu aquele diário de caçador naquela casa? Você questionou minha lealdade e praticamente me acusou de ser um traidor e eu expliquei. Expliquei que não poderia trabalhar para o Mestre graças ao acordo com o seu chefe. Me aliar a alguém que queira derrubar esse lugar seria quebrar o contrato, mas o Mestre não sabe disso. O Mestre não sabe de muita coisa. – eu fiz questão de frisar, e acho que ela entendeu o que eu queria dizer – Para ele eu sou só um vampiro que está aqui. É óbvio que ele tentaria me contatar mais cedo ou mais tarde.
- Tenho certeza que há várias formas de driblar esse acordo. – disse ela, e eu fui capaz de controlar o retraimento culpado que me denunciaria. Sim, eu não podia me aliar ao Mestre, mas podia cometer pequenas traições. Por exemplo, roubar um diário de caçador e entregá-lo ao inimigo.
- E por que você acha que eu faria isso? Achei que já tivesse deixado claro que essa guerra não me interessa, . Acredito que você já me conheça o suficiente para ao menos entender isso. Eu não dou a mínima para a minha raça. Sinceramente, nos últimos tempos a única pessoa no mundo com quem eu me importo é você.
Eu sabia que aquela não era uma boa coisa a dizer. Sabia que apenas deixaria mais irritada, mas não pude me controlar. Mesmo que quase todo o resto do que eu havia dito naquela noite fosse mentira, aquilo era verdade, e eu queria que entendesse.
- Se eu bem me lembro, na mesma noite na qual eu duvidei da sua lealdade você deixou bem claro que também não se arriscaria pela Organização. – rebateu ela.
- Isso mudou. Eu estou com vocês, completamente. – e eu estava. Era algo que eu havia entendido há um bom tempo. não vivia sem a Organização e eu não vivia sem . Se por ela eu precisasse dar minha vida por esse lugar, eu o faria sem pensar duas vezes.
Ela começou a rir novamente. Uma risada seca e desagradável que durou bem mais do que deveria. De todas as reações que poderia ter, eu não estava esperando aquela. Só o que pude fazer foi observá-la enquanto tentava entender o que aquilo significava.
- Oh, claro. – disse ela, finalmente, aos poucos parando de rir – Fico bem mais tranquila agora, de verdade. Você é completamente capaz de agir pelas minhas costas e manter contato com os capangas do Mestre, mas hey! Você tá do nosso lado. Obrigada, . Isso faz de você uma ótima pessoa.
Eu suspirei, contando mentalmente até dez. Aquilo não estava indo bem e bastaria dizer alguma coisa errada para levar tudo a perder.
- Eu sinto... – comecei a me desculpar.

Coincidentemente, aquela era a coisa errada a dizer.

- Completa essa frase e eu quebro o seu pescoço. – disse ela, os traços de humor tendo deixado por completo sua voz. Eu finalmente percebi que ela estava tremendo levemente.
- Mas, , eu...
- CALA A BOCA! – ela gritou, finalmente, botando para fora o que eu sabia já estar se acumulando dentro dela desde o início da conversa – Não ouse me chamar pelo apelido, não ouse pedir desculpas! Você agiu pelas minhas costas! – ela estava de pé agora, de frente para mim, e a expressão em seu rosto era algo que ia além da raiva – Por que você não me disse nada? Quando Godfrey te contatou, por que escondeu isso de mim? Por que mentiu pra mim? Como você espera que eu acredite em você, ? – ela ainda estava tremendo, da cabeça ao pés, e eu agradeci a qualquer deus que me ouvisse por ela não ter nenhuma arma em mãos naquele momento – Eu não confio em você. Eu nunca vou confiar em você, e agradeço por ter provado que eu estou certa nisso. Como eu posso confiar em alguém que esconde coisas de mim, que diz que está ao meu lado e ao mesmo tempo mantém contato com meus inimigos? Será que você não percebe? Você tem falado com Godfrey, . Ele tem seu número de telefone há mais tempo que eu. Você quer que eu confie em você? Me diga como!
- Eu não podia te contar nada! – eu gritei também, mesmo sabendo que estava errado – Eu não devia nem estar te contando isso! Ele me ameaçou, . Você acha que eu teria ido até lá se não estivesse em risco? Se você não estivesse em risco? Ele admitiu que tem gente me seguindo, assim como tem vigilância sobre você. Eu não podia fazer nada, ! Já estou correndo risco te contando isso agora, mas resolvi falar de qualquer forma.
- Exato, você está falando! Mas por que só agora? Se você pode falar agora, por que não antes?
Porque antes eu achava que não precisaria, seria a resposta mais honesta. Se não fosse por aquela carta, não precisaria inventar toda aquela história. Minha traição e o que me forçou a cometê-la ficariam em segredo e nós não estaríamos tendo aquela discussão. Na verdade, eu poderia ter evitado aquela discussão de várias formas. Se pensasse bastante sobre aquilo, talvez fosse capaz de arranjar um modo de convencê-la que apenas encontrei a carta em um canto ou algo do tipo. Seria quase impossível, mas ainda assim era uma possibilidade. O problema, é claro, havia sido uma coisa que eu achava que não possuía mais.

Consciência.

Eu havia traído e parte de mim queria punição por aquilo. Eu não seria capaz de seguir em frente sabendo que ela devia estar irritada comigo, então a havia dado um motivo para isso. Não podia contar a ela a verdade, então inventara uma versão bem mas branda do assunto, porém ainda assim comprometedora. Algo que a irritasse, mas que ela ainda assim fosse capaz de perdoar. Eu queria o perdão de , por alguma coisa, por qualquer coisa. Só aquilo me faria me sentir menos como um lixo.
- Eu tava tentando juntar coragem. – eu disse, me sentindo ridículo. Aquela era a pior desculpa que eu podia dar, mas era melhor do que nada.
- E você não pensou por sequer um segundo que seria muito pior esperar? – disse ela, balançando a cabeça e rindo incrédula – Eu não estaria sentindo nem a metade da raiva que eu to sentindo de você se tivesse sido honesto desde o princípio! Por incrível que pareça, eu acho que acredito na sua história. – disse ela, me fazendo odiar a mim mesmo. Acho que parte da decência que eu ainda tinha havia torcido para ela não acreditar em minhas mentiras – Não acreditei de imediato, mas não vejo por que você mentiria. Não faz sentido, eu sei que você nunca se uniria ao Mestre. Mas você mentiu pra mim e é isso que tá me fazendo usar todo o meu auto-controle pra não torcer seu pescoço. Eu não acho que já te odiei como odeio no momento.
O tom na voz dela deixava aquilo bem claro.
- Você não precisa me odiar. – eu disse, como o imbecil que era – Por favor, , eu vim aqui te contar. E além de tudo, consegui descobrir algo útil para nós. Isso não conta para nada? Você realmente acha que isso não vale nada? Eu não estou pedindo seu perdão, . Só quero que você pense sobre isso. Eu não mereço nem um pouco de crédito por estar aqui agora?
- Crédito, ? – ela perguntou, me encarando – Eu não vou te matar e não vou te entregar a Miles para que ele te mate. Não acha que isso já é mais do que você merece?
Aquilo conseguiu calar minha boca por vários segundos.
- Você não vai me entregar? – eu perguntei, surpreso. Ela suspirou, levando as mãos à cabeça.
- Eu devia. Sei que devia, mas não vou fazer isso. – ela abaixou a cabeça, parecendo cansada – Já disse, eu não acredito que você esteja do lado do Mestre. Esse não é o problema. Por pior que você seja, não te vejo se unindo a ele. Você não teria nada a ganhar com o fim da Organização. – ela voltou a me encarar – Não, eu não vou te entregar a Miles, . Você recusou a proposta do Mestre, então ao meu ver não foi a Organização que você traiu. Foi só a mim. Eu sou a sua parceira. Foi pelas minhas costas que você agiu.
- Você não vai me perdoar, não é? – eu me forcei a dizer, depois de alguns momentos. Havia dito a ela que não estava pedindo seu perdão, mas aquilo havia sido apenas outra mentira, é claro. Como já disse, queria sim o perdão de . Era a única coisa que me importava em toda aquela história.
Ela balançou a cabeça negativamente, sem me encarar, e eu pude sentir meu coração sangrando.
- E o que acontece com a gente? – eu perguntei, já sabendo a resposta.
- Nunca houve “a gente”, . – respondeu ela – Achei que você já tivesse entendido isso.
- Então o que eu fiz não precisa influenciar nada. – eu disse, começando a me desesperar – O que temos é só sexo, certo? Então nada que fazemos fora da cama precisa mudar a situação. – não era tão simples assim e eu sabia disso. Na teoria aquilo funcionaria, porém na prática seria impossível. nunca dormiria comigo se sentindo traída por mim. Podíamos colocar quantas regras quiséssemos na nossa relação, mas no fim eram as nossas emoções que sempre ditariam o rumo das coisas.
- Mesmo se eu conseguisse separar a raiva que eu to sentindo de você do meu desejo, , não faria isso. – disse ela, abraçando o próprio corpo como se buscando suporte para o que diria em seguida – No momento, esse sentimento tá me dando coragem de fazer algo que eu já devia ter feito há um bom tempo.

Ela não precisava dizer o que era. Eu já sabia.

- Você tá terminando comigo? – eu perguntei, me sentindo horrivelmente vazio.
- Não se pode terminar algo que nunca começou de verdade, . – disse ela – Mas eu não posso mais te ver. Não dessa maneira.
- Por quê? , por favor... Eu sinto muito. – eu disse, indo até ela e sentindo minhas últimas esperanças descerem pelo ralo. Eu me sentia ridículo, patético, mas estava implorando mesmo assim – Eu nunca mais vou fazer nada parecido, eu juro. Eu vou provar que você pode confiar em mim, eu...
- Esse não é o problema. – ela me interrompeu, sua voz tremendo um pouco.
- Então qual é? Me diz e eu vou resolver. – eu disse, odiando o desespero em minha voz – Eu faço qualquer coisa, , é só me dizer. Me diga o que está errado, só isso. Por que você não pode mais me ver?
- Porque eu to usando você.
A confissão veio em um sussurro, dito de forma tão baixa e delicada que era engraçado pensar no poder de destruição que tinha. Aquelas seis palavras caíram como uma bomba naquele quarto. A verdade da qual nunca falávamos, o grande problema da nossa relação. De um momento para o outro a cúpula de vidro que nos mantinha protegidos daquela triste realidade havia se partido em mil pedaços, seus cacos se espalhando por todo o local. Vínhamos fugindo daquele assunto há semanas, mas agora ele estava lá, jogado na mesa, e nada poderia ser como antes.
- Você acha que eu não sei? – continuou ela, com a voz trêmula e abraçando o próprio corpo. Eu nunca havia visto daquele jeito, tão exposta, tão vulnerável – Acha que eu não sei que você se finge de forte? Eu sei que isso te machuca, . Eu sei de tudo, eu só finjo que não percebo. O fato de eu estar te usando tá destruindo seu amor próprio, mas você não fala nada porque não quer que eu pare. E eu finjo que não vejo porque não quero ter que parar de ir atrás de você. – os olhos dela estavam vermelhos e eu podia imaginar o esforço da caçadora para conter as lágrimas – Isso me faz me odiar como nunca antes, porque eu me sinto um monstro. Será que você não entende? Eu não posso mais ficar com você porque isso tá me matando, .

’s POV

O choque no rosto dele só deixava a situação toda pior.

Eu devia estar experimentando algum tipo de alívio por finalmente colocar tudo aquilo para fora, mas encarar a verdade estava apenas me machucando. Eu havia reprimido aquela culpa por tempo demais e agora que ela havia atingido a superfície, ameaçava destruir tudo o que havia em mim.
Eu estava usando e aquilo me fazia ter nojo de mim mesma. Por pior que aquele vampiro fosse, ele não merecia o modo como eu o tratava. Ninguém merecia ser tratado como um brinquedo descartável, sem importância, e aquilo era tudo o que eu tinha para oferecer a ele. Eu não o amava e ele queria ser amado. Ele merecia respeito e só o que eu fazia era pegar as esperanças dele, usá-las e depois pisar nelas, maltratando-o, punindo-o por uma falha que era minha. Eu não conseguia resistir a ele e o culpava por isso. Pegava cada coisa boa que ele tentava me dar e a distorcia em algo horroroso. Eu devia ter dado um fim naquela história antes de ela ter a chance de começar, mas eu havia sido fraca. Meu corpo pedia o dele e eu cedia, sem pensar no resto, usando aquela atração para tentar resolver o ciclo de sofrimento que era a minha vidinha miserável. O que eu até então havia me recusado a enxergar era que estar com apenas servia como um alívio momentâneo. No quadro geral, aquilo apenas servia para incrementar meus motivos para sofrer.
Eu odiava a pessoa na qual estava me tornando. Odiava quem eu era com ele. Odiava ser a vilã da história, odiava abusar de . Aquilo já vinha crescendo dentro de mim há um tempo e agora eu não podia mais fugir. Havia finalmente encarado aqueles sentimentos horríveis e não podia simplesmente voltar a negá-los. Havia outras coisas também, é claro. Havia meu medo em relação ao meu lado vampira que parecia se desenvolver com o convívio com ele. Havia o fato de que eu detestava a ideia de estar com ele pois odiava tudo que representava. Havia minha vergonha em estar naquela situação com . Mas aquela culpa sufocante era o pior de tudo e era com ela que eu não conseguia mais lidar.
- Eu não me importo. – ele disse, de repente, e eu quis me matar.
- , por favor... – eu praticamente implorei.
- Eu não me importo, . Eu também sabia no que estava me metendo quando tudo isso começou.
- Isso não justifica nada. – eu insisti – E você se importa sim. Precisa se importar. Isso não é fácil pra mim também, mas tem que ser assim.
Aquilo era a verdade. Seria um inferno tentar ficar longe de . Se eu já não era nem capaz de passar alguns dias sem o toque dele, terminar tudo de vez seria insuportável. Eu teria que lutar contra mim mesma a cada segundo de cada dia, mas aquilo era necessário. Não era justo ter apenas partes. Se só o que eu podia dar a era o meu corpo, aquilo precisava terminar. Ele queria mais, e deixar as coisas como estavam não era certo.
- Por quê? – ele perguntou, agarrando meus braços, porém sem apertá-los. Ele não queria me machucar. Era meio irônico, na verdade – Por que, ? A gente estava indo bem até agora, nada precisa mudar...
- , me larga... – eu disse, sem olhar pra ele.
- Eu já disse que posso separar as coisas. Por favor, , me dá uma chance de te provar isso. Por favor, só me...
- PARA! – eu gritei, arrancando as mãos dele de mim e me afastando – Será que você não vê, ? Nós já tivemos essa conversa antes. Olhe pra você, implorando pra ficar com alguém que só te faz mal. Cadê o seu orgulho? É nisso que eu to te transformando? – eu perguntei, me forçando a não chorar – Será que você não vê que a gente tá se destruindo? Eu to te usando e você me deixa fazer isso. Como você espera que eu te respeite? Acha mesmo que essa coisa que temos pode algum dia evoluir pra algo positivo? Como você espera que eu te veja como homem se você me deixa te tratar como uma coisa? – eu não esperava uma resposta para aquelas perguntas, mas precisava que ele pensasse sobre aquilo. precisava perceber o quanto aquilo tudo estava errado – Por favor, pare de insistir. Acabou, . Já chega. Eu venho mentindo pra mim mesma e não posso mais fazer isso. Acabou.
- Não. – disse ele, balançando a cabeça e parecendo convicto – Eu não vou desistir assim. Eu vou continuar insistindo até você me dar uma chance. Já fiz isso uma vez e vou fazer de novo, quantas vezes precisar. Você não pode se livrar de mim assim tão fácil, caçadora. Não pode me expulsar da sua vida.
Eu o contemplei por um momento, sabendo que ele estava certo. não me deixaria afastá-lo facilmente, mesmo que fosse para o bem dele. Da última vez que eu tentara, ele lutara comigo até conseguir que eu aceitasse sua proposta. Ele era teimoso e sofria da pior doença existente: a esperança. Eu sabia o que passava pela mente dele. Mesmo sem admitir, parte de acreditava que podia me mudar. Ele estava errado, é claro. Eu não ia mudar. E mesmo tendo certeza que poderia acabar se conformando em não ser nada para mim além de sexo ocasional, eu não podia mais permitir aquilo.
Se ele queria ser difícil, tudo bem, eu podia lidar com aquilo. Seria forte por nós dois. Afinal, tudo que ele havia falado era verdade, exceto por uma coisa.

Eu podia sim expulsá-lo de minha vida.

- Eu retiro seu convite para o meu quarto. – eu disse, simplesmente, observando o choque se espalhar por seu rosto outra vez. Eu havia tido semanas para suspender aquele convite, porém só agora reconhecia aquela necessidade.
E ele entendeu. Finalmente, ele entendeu. Estava escrito no rosto de . Aparentemente, aquilo era só o que eu precisava fazer para convencê-lo de que eu estava falando sério daquela vez. Dizem que atos valem mais que palavras. Pelo visto aquilo era verdade.
- ... – disse ele, começando a cambalear para trás, em direção a porta. A retirada do convite o forçava a sair imediatamente. Ele agora me encarava como se eu tivesse o socado no estômago, me deixando saber que havia mesmo entendido o que estava acontecendo. Daquela vez meu “não” não significava “sim”. Daquela vez eu não estava em negação, não estava brincando. Era sério. Era o fim – , não faz isso. – continuou , abrindo a porta e me encarando agora pelo lado de fora – Por favor, não faz isso.
Eu fui até ele, devagar, tentando o tempo inteiro parecer forte.
- Eu já fiz. – foi só o que eu disse antes de fechar a porta, deixando lá fora um que parecia destruído.

Voltei para a minha cama e só então, finalmente, me permiti chorar.


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