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"You make me feel loved. You make me feel angry. You make me feel pain. You make me feel."

Capítulo 34 – Turning Point

IMPORTANTE: É necessário ter lido o especial de Natal Bite Me – Miracles (Seção Especiais – Natal).

’s POV

Já que listas pareciam estar na moda ultimamente, estava na hora de eu fazer a minha:

Coisas erradas na minha vida:
1 – Não sou humana, não sou vampira;
2 – Não lido bem com sentimentos (quando consigo tê-los);
3 – Não lido bem com pessoas;
4 – Não lido bem com nada, na verdade;
5 – O Mestre provavelmente já viajou e eu não consegui pará-lo;
6 – me ama;
7 – me ama;
8 – . Me. Ama
9 – E eu havia o machucado tanto...

Não, melhor não entrar nesse assunto. Já andava me punindo o suficiente pelo fato, que a bem da verdade ainda nem havia sido totalmente processado na minha mente. Eu não estava nem um pouco pronta para deliberar sobre aquilo. Era melhor pular para o número seguinte:

10 – Preciso ensinar meus amigos a se defenderem, pois não consigo defendê-los eu mesma;

Parecia bem claro naquele momento que a culpa era minha. Ali, me alongando após uma seção de treino com eles e os observando fazer o mesmo, não tinha como não aceitar o fato de que, se não fosse por mim, nenhum deles estaria em perigo. Todos faziam parte de uma organização de caça a vampiros, claro, mas nenhum deles era um caçador. Mas graças à obsessão que o Mestre parecia ter por mim, a segurança de todos estava em risco.
Se eu conseguisse parar o Mestre, eles não viveriam sob o risco de se tornarem modos daquele vampiro me atingir. Mais do que isso, se eles não fossem meus amigos, suas vidas estariam fora de perigo.

11 – Minha autoaversão;
12 – Minha quase secreta tendência ao melodrama;

Eu provavelmente teria adicionado mais coisas à lista se a porta da sala não tivesse sido aberta.
- Hey! – disse Aramis, rindo e me olhando meio surpreso ao adentrar o lugar – Isso é novidade.
Respondi com um olhar confuso.
- São três horas da tarde. Nunca te vejo aqui nesse horário. – Ele esclareceu. Voltando o olhar para os outros quatro, acrescentou – Boa tarde, pessoal.
Enquanto todos respondiam – um “todos” que surpreendentemente incluía –, levantei e fui até Aramis.
- Você não se importa, né? – perguntou o garoto – Que a gente treine aqui? Meus irmãos já estão vindo. A não ser que a gente vá atrapalhar...
- Não, relaxa, a gente já terminou aqui. E já disse que vocês podem usar essa sala quando quiserem. Ela não é minha ou nada assim. – bom, não oficialmente. Mas aquilo não vinha ao caso.
- Obrigado. – disse ele, sorrindo – A outra vive sempre lotada. Foi um inferno voltar a usá-la enquanto essa estava interditada.
Eu desviei o olhar. Não me fazia bem lembrar o que exatamente havia levado Miles a interditar a sala para consertos. Principalmente após o que eu havia descoberto no Natal.
- De nada. – eu disse, tentando retribuir o sorriso. Ele abaixou o olhar, ainda meio sorrindo, e trocou o peso entre os pés de forma desconfortável.
- Eu sinto sua falta, sabe? – disse ele, de repente, como em uma súbita descarga de energia. Eu o encarei, meio surpresa com o comentário aleatório – Quero dizer, eu quase não te vejo mais.
- Eu sei. – respondi, respirando fundo – Eu só ando meio ocupada. Todos nós, na verdade.

Todos nós, claro. Mas eu mais que os outros.

13 – Eu havia me tornado uma máquina de caçar.

A rotina insana de trabalho que eu havia começado na semana anterior havia apenas piorado nos últimos três dias após a festa de Natal. Antes meu empenho era apenas uma forma alternativa de fugir dos meus problemas. Ao invés de usar como anestesia da realidade, eu usava meu trabalho, e isso de certa forma me distraía, me impedia de sentir falta dele. Mas após a maldita lista de , eu tinha um novo problema. Mais especificamente, os problemas 6, 7 e 8.

Ele me amava. E eu simplesmente não sabia lidar com aquilo.

Ao menos não de forma saudável.

Foi assim que eu transformei a mim mesma em um robô. Eu acordava de manhã cedo, ia para o QG, metia a cara nos relatórios das outras organizações, treinava meus amigos às vezes e saia para caçar com Athos e Porthos. Em determinado ponto da noite, voltava com eles para a sede apenas para esperar todos dormirem, voltar para rua e caçar sozinha até as primeiras luzes da manhã. Depois dormia por três, quatro horas, quando muito, e começava tudo de novo. Comia quando dava tempo, mal relaxava. Sabia que, mesmo com minha constituição paranormal, aquilo acabaria me fazendo mal, mas não me importava. Meu trabalho era a única coisa que ainda podia dar certo na minha vida. Deter o Mestre era meu único objetivo. Com um pouco de esforço, podia me forçar a esquecer todo resto e focar apenas aquilo.
- Essa história do Mestre anda deixando todo mundo ocupado mesmo. – disse Aramis. Havia quase me esquecido que estávamos conversando – Tá todo mundo treinando mais do que nunca. Até sua equipe, pelo visto. – concluiu ele, olhando confuso para os meus amigos. Só agora parecia ter lembrado que nenhum deles era um caçador.
- Eu to treinando eles. – expliquei – O Mestre anda demonstrando uma certa particularidade por mim, e nada impede que ele use meus amigos pra me atingir. Eles precisam estar preparados.
- Entendo. – disse Aramis, assentindo – Tem certeza que a gente pode ficar aqui? Se você quiser mais tempo pra treiná-los...
- A gente já terminou aqui, sério. – eu insisti – Eles estão apenas se alongando.
- Ok, mas amanhã a gente vem um pouco mais tarde. – prometeu Aramis – Viemos mais cedo hoje pra não atrapalhar o e a Paris.

O quê?

- Atrapalhar o e a Paris? – eu perguntei, tentando manter minha voz neutra.
- É, às quatro. – diante do meu olhar ainda confuso, ele continuou – O treino da Paris. Você tava aqui no primeiro, lembra? Quando a gente se conheceu.
Eu lembrava, claro. Mas com tudo que acontecera desde então, simplesmente não havia considerado a possibilidade de que havia continuado as aulinhas de luta daquela piranha.
- Ele dá aulas pra ela sempre? – eu perguntei, tentando soar desinteressada.
- Mais ou menos uma vez por semana desde aquele dia. Achei que você soubesse.
Não, eu não sabia. Não sabia por que geralmente ainda estava no meu quarto às quatro da tarde. Não sabia porque, mesmo com todo o tempo que havíamos passado juntos nos últimos dois meses, o desgraçado não havia mencionado sequer uma palavra sobre isso.
Ok, eu não gostava de conversar com ele sobre coisas pessoais. E sim, ele não me devia explicações, principalmente após tudo que eu fizera com ele. O fato de que não devíamos satisfações um ao outro havia sido uma das minhas condições no nosso acordo, inclusive. Nenhum compromisso.
Mas, droga, era Paris. Ele sabia que tínhamos uma história. Por isso não comentara nada comigo, pois sabia que ia me irritar. Ao invés de tomar coragem e admitir que estava fazendo algo que eu desaprovava, havia ficado quieto como um bom covarde. Dormindo comigo em um momento e no outro confraternizando com a inimiga. O filho da puta havia escondido aquilo de propósito e agido pelas minhas costas. De novo. Eu já devia estar me acostumando.
- , você tá bem? – perguntou Aramis. Parte da perturbação em minha mente devia ter se refletido em meu rosto. , há poucos metros de mim, também me olhava estranho. Droga. Eu precisava começar a me controlar melhor.
- To bem, claro. – eu respondi, com um sorriso falso – Só um pouco cansada. Acho que vou voltar para o meu quarto. – antes que e Paris cheguem, ou vou acabar cometendo duplo assassinato.
Me despedi de Aramis e dos outros, mas quando me aproximava da porta, Athos e Porthos apareceram.
- Baixinha! – disse Porthos, bagunçando meu cabelo. De uns tempos pra cá ele havia começado a me tratar como a uma irmã mais nova, o que era estranho. Ele não era muito mais velho que eu, embora fosse sim muito mais alto. Na frente de Porthos, eu parecia uma anã.
- Deixa ela em paz, Porthos! – disse Aramis, rindo, porém parecendo meio nervoso.
De súbito, a recente familiaridade de Porthos comigo deixou de parecer esquisita. Aramis devia ter contado aos irmãos seu interesse por mim. Talvez Porthos realmente achasse que eu era sua futura irmã.
O Cromwell do meio parou de mexer no meu cabelo, embora não por causa de Aramis. Ele simplesmente havia acabado de avistar Tara.
- Tara! – ele exclamou, indo até a garota e esquecendo que eu existia. Típico.
- , exatamente a garota que eu estava procurando. – disse Athos, assim que o irmão se afastou – Preciso te pedir uma coisa.
- O quê? – eu perguntei, enquanto observava Porthos conversando com uma Tara envergonhada enquanto , no canto da sala, parecia prestes a socar alguma coisa. Não que isso fosse preocupante. O máximo de dano que causaria com um soco seria quebrar a própria mão.
- Será que eu posso usar essa sala pra dar uma festa hoje mais tarde? É meu aniversário.
- É seu aniversário? Parabéns! Por que você não disse nada antes, caramba? – eu perguntei, dando um tapinha no braço dele.
- Ai! É meu aniversário e eu apanho? – ele perguntou, rindo.
- Desculpa, eu não sou nada boa nisso. – eu disse, abraçando-o sem jeito – Parabéns. E claro que pode usar a sala, mas por que não pediu um salão ou algo do tipo pro Miles?
- Porque um salão significaria que a Organização inteira seria convidada e que eu dependeria da Direção pra organizar comidas, bebidas, etc. Você sabe como são as festas aqui. Quero algo pequeno, pra uns 30 ou 40 amigos. Só gente que eu realmente gosto e bebidas variadas e liberadas! – disse ele, abrindo os braços, animado.
Eu sorri, entendendo. Festas eram algo restrito na Organização, afinal, aquilo se tratava de um local de trabalho. Embora qualquer um pudesse organizar uma festa de aniversário, por exemplo, poucos o faziam, pelos motivos que Athos mencionara. Havia regras demais, coisa que acabava com qualquer possibilidade de diversão. No Natal e no Ano Novo as regras afrouxavam um pouco, o que resultava em festas quase decentes que contavam com a presença da grande maioria. Fora isso, as pessoas costumavam comemorar datas importantes fora do prédio.
- Você sabe que isso é proibido. – eu disse, porém sem me importar muito.
- Eu sei, Aramis fez questão de me lembrar disso durante a semana inteira. – disse o garoto, parecendo chateado – Mas só vem gente de confiança, que sabe que tudo deve ser mantido em segredo. E juro que amanhã eu arrumo a sala e coloco tudo no lugar novamente. O Miles nem está aqui, então mesmo se alguém perceber, não vai dar em nada!
Bom, aquilo era verdade. Miles havia viajado para a Irlanda de manhã cedo, para trabalhar com a Organização irlandesa enquanto o Mestre estivesse por lá. Eu duvidava seriamente que ele fosse conseguir alguma coisa, mas não havia dito nada.
- Ok, ok, só to me certificando de que você sabe o que está fazendo. – eu disse, rindo.
- Eu sei, pode ficar tranquila. Você vem, certo?
- Alguém precisa caçar enquanto vocês enchem a cara. – eu respondi.
- Pouquíssimos outros caçadores foram convidados, . As ruas estarão seguras. Por favor, vem. Vai ser legal.
Eu estava prestes a inventar outra desculpa, mas não consegui continuar.

14 – Tenho um fraco pelo sorriso patenteado dos Cromwell.

- Ok, ok, eu apareço. Mas não vou ficar muito tempo. – eu cedi, um pouco irritada. Era impossível dizer não quando um daqueles três te golpeava com aquele sorriso bonito, feliz e quase infantil.
- Isso! – ele exclamou, abraçando-me – Vai ser divertido, eu prometo.
- Certo. Tenho que ir agora. – eu disse, beijando a bochecha dele de forma nada habitual. Aniversário significava alguns privilégios, na minha opinião – Vejo você mais tarde.
- To contando com isso. – disse ele – Garanto que você vai se divertir essa noite, Miss .

15 – Aquela frase havia me dado um péssimo pressentimento.

Xx

’s POV

Quando entrei naquela sala de treinamento junto a Paris e vi todos os amigos de ali, pensei que minha hora havia chegado. Sabia que ir para lá mais cedo havia sido uma péssima ideia. Felizmente, porém, a dona da mão que empunharia a estaca não estava ali com eles.

Talvez Deus ainda tenha alguma piedade de mim.

Eu não estava fazendo nada errado, obviamente. Era livre pra ajudar uma amiga, e não tinha direito nenhum sobre mim. Havia, no entanto, dois problemas: o primeiro era o fato de que, apesar de insistir que não devíamos satisfações um para o outro, no fundo ela acreditava que eu devia satisfações para ela, mesmo não aceitando o contrário. E o segundo era que, bem... Parte de mim gostava que ela pensasse assim. Se demonstrava algum interesse no que eu fazia ou deixava de fazer, significava que ela se importava. Mesmo que só um pouco, ela se importava.
Isso não significava, é claro, que eu planejava esfregar minha amizade com Paris na cara dela. Vê-la incomodada ou, com um pouco de sorte, enciumada não valia o risco de receber uma estaca no peito.

Oh. Uau. Por um segundo eu esqueci totalmente da nossa nova realidade.

não enfiaria uma estaca no meu peito. Não mais. Aparentemente, ela agora acreditava que eu era feito de vidro.
Eu costumava sonhar com o dia no qual acreditaria nos meus sentimentos. Tinha todas essas fantasias idiotas nas quais ela finalmente enxergava que eu era o cara certo pra ela. Meus olhos haviam se aberto um pouco nas últimas semanas, e eu finalmente começara a perceber a chance incrivelmente real de que talvez nunca chegasse perto de me amar. Mas ainda assim, até o Natal eu ainda nutria a esperança de que, quando ela soubesse, ao menos começasse a me enxergar com outros olhos. Mesmo se nunca me amasse, eu ficaria satisfeito se ela ao menos dedicasse a mim alguma espécie de afeto.

Eu havia sido estúpido. O ódio e o desprezo de antes eram bem melhores que esse... Medo.

Era isso. Eu havia conseguido. finalmente me temia, e céus, eu odiava isso.
Ela não estava me ignorando como das outras vezes, embora eu não mais a visse com frequência. sempre parecia ocupada, e como não mais patrulhávamos juntos, apenas nos encontrávamos nas reuniões e treinos da equipe dela.
Acho que seria melhor se ela me ignorasse. O jeito que me olhava agora me embrulhava o estômago. Ela parecia um cachorrinho assustado quando se dirigia a mim. Estava mais do que óbvio que ela não sabia como lidar com a situação. Ela não podia mais negar meus sentimentos, e agora parecia perdida, sem saber o que fazer comigo. O pior de tudo era o modo como ela agora parecia pisar em ovos nas poucas ocasiões nas quais nos falávamos diretamente. Cada palavra, cada gesto parecia calculado, como se ela tivesse medo de dizer a coisa errada e acabar me machucando.
Talvez eu devesse estar feliz. Ela obviamente andava se esforçando para não ser desagradável. não brigava mais comigo, não me ofendia, não me lançava olhares irritados e nem me desrespeitava de forma nenhuma. Ela não agia de forma exatamente simpática comigo, mas também não me maltratava mais. A caçadora podia não ter muita familiaridade com amor, mas parecia respeitar imensamente o sentimento nos outros. Era uma atitude comum naqueles que nunca foram muito amados, eu sabia bem. Desde que ela entendera a veracidade do que eu sentia, não mais pisava nos meus sentimentos. Era nobre da parte dela, é claro, porém as razões por trás de tal atitude acabavam me machucando mais do que qualquer coisa que já havia me dito.

Ela tinha pena de mim.

Não existem palavras capazes de expressar meu ódio por esse fato. tinha pena de mim. Eu via isso por trás de cada ação dela, cada cuidado que ela tomava ao interagir comigo. Eu havia me tornado o boneco de vidro que ela havia danificado e que agora a causava arrependimento. Agora que ela enxergava o que havia feito comigo, parecia ter pena de mim por tudo que eu sofrera por amá-la. não sentia prazer em ferir meus sentimentos, pois afinal não era má pessoa. Mas também não era aquela pessoa que andava se forçando a ser nos últimos dias.
A caçadora que eu conhecia não parecia um bichinho assustado. Não segurava a língua por pena, não mudava sua atitude pelos outros. Aquela nova versão me perturbava, pois não era a mulher que eu amava. Era uma fantasia que ela vestira para tentar lidar com tudo que acontecia.
Eu sentia falta das brigas, das palavras duras, do ódio nos olhos dela. Por bem ou por mal, sempre foi cheia de paixão. Aquele comportamento cuidadoso não combinava com ela. Eu sentia falta da minha caçadora, irritante, desagradável, maldosa, convencida... Pelo menos quando brigávamos eu sabia que a atingia, que provocava o fogo dentro dela, que a fazia jogar fora as máscaras. Uma grande parte de mim estava morrendo de vontade de irritá-la de alguma forma. Talvez se eu a fizesse me odiar novamente, ela voltasse ao normal e jogasse fora toda aquela pena e culpa. Toda aquela... Condescendência. Se ela me odiasse, ao menos me respeitaria. Qualquer coisa era melhor do que o que eu tinha agora.
- Uau, nunca vi esse lugar tão lotado. – disse Paris, enquanto eu fechava a porta atrás de nós. A garota olhou a sua volta por uns momentos até parar seus olhos em Athos – AHHH, PARABÉNS! – gritou ela, rindo, correndo até o garoto e praticamente pulando em cima dele.
- Paris... Ar... – disse o mais velho dos Cromwell, fazendo com que a loura afrouxasse seu aperto.
- É seu aniversário? – eu perguntei, aproximando-me deles – Por que não disse nada antes?
- Isso foi exatamente o que a falou. Será que ninguém pode simplesmente me dar parabéns como a Paris aqui? – reclamou Athos.
- Desde quando você quer ser agarrado por mim, Athos? – eu perguntei, rindo, recebendo um olhar feio como resposta.
- A gente te deu parabéns. – disse Porthos, apontando de si para Aramis.
- Nós aqui também. – acrescentou , em nome do resto.
- É meu aniversário, vocês não deviam estar me contrariando. – reclamou o garoto.
- Começo a lembrar por que dia 28 de dezembro é o pior dia do ano. – disse Porthos – Vinte e quatro horas ouvindo esse tipo de comentário.
- Parabéns. – eu disse a Athos, para parar a discussão.
- Hey, escuta, vai atrapalhar muito se a gente ficar aqui também? – perguntou Paris, passando os olhos mais uma vez pela sala incomumente lotada – Porque a gente pode voltar mais tarde...
- Não, relaxa. – por incrível que pareça, foi quem respondeu, sem nenhum veneno na voz – A gente já tá saindo. Vão ser só vocês e os Cromwell mesmo.
- Oh, obrigada. – disse a loira, sorrindo para , que retribuiu com um sorriso fraco. Tinha algo de muito errado naquela cena.
Enquanto os Cromwell e Paris continuavam a conversar e os amigos de arrumavam as estacas e bastões que haviam usado no treino, fez sinal com a cabeça para que eu me juntasse a ela no canto do aposento.
- O que foi? – eu perguntei, sendo respondido por um tapa forte no braço – Ai!
- Você tá tentando causar ciúmes na ou irritá-la ou alguma idiotice do tipo? – perguntou a garota, parecendo irritada – O que eu te falei sobre tentar machucar minha amiga?
- Mas eu não... Do que você tá falando?
- Você e a Paris aqui! Se isso é algum esquema pra provocar a , eu juro que...
- , respira! – eu disse, controlando-me para não sacudi-la – Isso não tem nada a ver com a caçadora. Eu venho treinando a Paris há um tempo. E nem está aqui, como você acha que eu faria ciúmes a ela? Força do pensamento?
- Ela sabe. Aramis contou pra ela que vocês estavam vindo. Dá pra dizer com segurança que ela não gostou muito da ideia.

Aramis. Claro. Nem sei por que me surpreendo.

- Bom, não foi de propósito. – eu disse, por entre os dentes, enquanto tentava me lembrar dos motivos pelos quais matar o Cromwell caçula era uma má ideia.
- Tá tudo bem aqui? – perguntou Tara, juntando-se a nós.
- Tudo azul com bolinhas amarelas. – disse , com um sorriso forçado – Estamos apenas discutindo a presença do e da Paris aqui.
Os olhos de Tara se voltaram para a garota em questão, do outro lado da sala. Ela suspirou e pareceu ponderar um pouco antes de voltar a se dirigir a mim.
- Você sabe que ela é afim de você, não sabe? Quero dizer, Paris.
- Sei. – eu respondi, também olhando para Paris – Mas mesmo isso não sendo da conta de ninguém, podem ficar tranquilas. Não tem nada acontecendo entre nós. Ela é uma garota legal e eu não vou usá-la dessa forma. Não faço esse tipo de coisa.
- Ótimo. – disse .
- “Ótimo”? – eu perguntei – Só isso? Não vai insistir que na verdade Paris é uma pessoa horrível, que nós nos merecemos, etc?
e Tara trocaram um olhar.
- O que foi? – eu perguntei.
- Nada. – disse Tara – É só que...
- Na sua opinião, a Paris uma pessoa horrível ou não? – perguntou .
- Claro que não, mas esse não é o ponto. Vocês são amigas da caçadora, que odeia a Paris. Não deviam estar tomando o partido dela ou algo assim?
- Ok, eu vou te dizer uma coisa, mas você tem que prometer nunca abrir a boca sobre isso pra , certo? – disse . Eu assenti – Bom, em primeiro lugar, eu vou sempre estar do lado da , não importa a situação. Sempre. Mas isso não significa que eu concorde com todas as opiniões dela.
- Você conhece a Paris, não conhece? – disse Tara – Quando a não está por perto, como ela é?
Diferente era a resposta. Pelo que eu havia observado desde que me juntei à Organização, parecia considerar Paris algum tipo de monstro. O problema, no entanto, era que eu nunca a vira ser nada além de legal quando não estava próxima a . De fato, todas as coisas desagradáveis que eu a havia escutado dizer haviam sido ou em presença de ou conversando sobre a caçadora. Fora isso, Paris sempre parecia bem-humorada e simpática.
- Ela não é má pessoa, essa é a verdade. – admitiu – É simpática com todo mundo, com todos os amigos da , inclusive. Ajuda a todos como pode... Mas disso você sabe. Ela não seria amiga de pessoas como os Cromwell se fosse ruim.
- Mas por que ela é diferente com ? – eu perguntei. Eu sabia bastante sobre a briga das duas, claro, mas nunca havia realmente entendido. A Paris daquela história e a Paris que eu conhecia eram pessoas totalmente diferentes. Eu nunca teria me tornado amigo da garota cruel que enxergava.
- Bom, começou quando elas eram crianças. – disse – A Paris fazia piadinhas com o fato de a ser híbrida, assim como praticamente todas as outras crianças. Você sabe como são pirralhos. Dizem coisas maldosas, não tem muita noção do que machuca de verdade... E o fato é que um dia todo mundo acaba amadurecendo e deixando esse tipo de besteira de lado. Mas no caso delas foi um pouco diferente. – parou e respirou fundo – Eu não sei exatamente o que aconteceu. Acredito que nem elas se lembrem. Mas em algum ponto da história, algo que Paris disse deve ter atingido mais do que o que as outras crianças diziam, porque pareceu passar a focar toda a raiva nela. Se tornou uma espécie de guerrinha, e quando eventualmente todo mundo cresceu, a rixa entre elas continuou. A culpa é da Paris por ter começado, claro... Mas, bem, você conhece a . Ela não é exatamente a pessoa mais amigável do mundo. Não dá pra deixar de pensar que, se ela tivesse lidado com Paris como lidava com as outras crianças, as coisas não teriam chegado a esse ponto. Com os outros, só respondia às ofensas, mas com Paris... Você já deve ter ouvido a história do nariz quebrado. Entre as duas, a coisa era séria, até mesmo física. E nesses casos, Paris sempre acabava levando a pior, é óbvio. – ela fez uma expressão de dor em simpatia – Cada briguinha, cada provocação só aumentava o ódio dos dois lados, e acabou dando nisso. Quando crescemos, Paris começou a se sentir incomodada com a atenção masculina que recebe, assim como a admiração geral da Organização. é temida aqui, mas acima de tudo é vista como uma espécie de heroína. Mas por outro lado, começou a ressentir a liberdade que Paris tem e a facilidade com que todo mundo parece gostar dela.
- E o que era uma briguinha de crianças se tornou uma inimizade entre adultas. – eu assenti.
- Isso. Uma faz vir à tona o que há de pior na outra. – disse Tara – Não to dizendo que Paris é uma santa, mas também não é o demônio que a pinta. É só uma garota com defeitos. Só uma garota normal.
- gosta de pensar em si mesmo como a vítima, e era assim no começo, mas a coisa já chegou a um ponto em que Paris é atacada tanto quanto ataca. – acrescentou – Não tem mais lado certo ou errado na história das duas. Elas não são mais crianças, a briguinha infantil não existe mais. Se tornou algo totalmente diferente. – suspirou mais uma vez e balançou a cabeça – O ponto é: a coisa toda é bem relativa. Eu nunca serei amiga da Paris ou algo do tipo, porque estou cem por cento com a , mas isso não significa que eu odeie a criatura e queira o mal dela. Eu ajudo a a xingar até a quinta geração da garota, mas não passa disso. Pra mim ela é só alguém que minha melhor amiga odeia. E que pelo visto tem um péssimo gosto pra homens.
- Como se você pudesse falar muita coisa. – eu disse, sinalizando com a cabeça. Diante do olhar surpreso e assustado de , eu acrescentei – Antes que você me pergunte, ninguém me contou. Percebi sozinho. É bem óbvio, na verdade.

É, fazia dias que eu estava com vontade de devolver aquela frase pra ela.

buscou então confirmação no olhar de Tara, que assentiu com expressão de quem pede desculpas. Ela suspirou em rendição antes de voltar a me encarar.
- Bom, em primeiro lugar, não é da sua conta. E em segundo, o coração quer o que o coração quer.
- Não to julgando. – eu disse, erguendo as mãos em sinal de inocência – Ok, talvez um pouco. Mas só porque, se não se importa que eu diga, você pode conseguir coisa muito melhor do que aquele cara.
- Isso foi um elogio? – perguntou ela, levantando uma sobrancelha.
- Assim como você, eu gosto de dizer o que penso. Então, sim. To dizendo que você é atraente demais pro .
- É, ok. Seria legal se ele também pensasse assim. – disse a garota, revirando os olhos.
- Provavelmente pensa. – eu respondi, dando de ombros.
- Não, não pensa. Ele não me vê dessa forma.
- Bom, o que você esperava? – eu disse – Você é a amiga de infância dele que cresceu e ficou linda. Claro que ele não te considera uma opção. Ele provavelmente nunca se deixou te considerar uma opção. Aos olhos dele, você só o vê como amigo, além de ser boa demais pra ele. Quero dizer, olha pro cara. Ele nunca se arriscaria dessa forma, provavelmente não tem confiança pra isso. É mais fácil se esconder atrás do que pensa que sente pela . Atração sobrenatural de um humano por uma híbrida com uma missão como a dela, que a coloca em um patamar acima de todo o resto? É perfeito. Ele sabe que nunca vai chegar ao nível dela, sabe que não tem a menor chance. Por ser algo impossível, ele se agarra nisso, assim tem uma desculpa pra nunca correr atrás de nada real. Típica característica dos inseguros.
- Você é bom nisso. – disse , após alguns segundos de silêncio.
- Já fui humano e já tive a idade dele, só isso. – eu respondi.
- A diz que eu preciso demonstrar o que sinto.
- E por incrível que pareça, é um bom conselho. – eu disse, surpreso – Tem certeza que foi ela quem disse isso?
- Não começa. – avisou – E mesmo que seja um bom conselho, é difícil.
- O que é difícil? – dessa vez foi Tara quem se pronunciou – Rir das piadas idiotas dele, não implicar com cada coisinha que ele diz, olhar nos olhos quando estão conversando, inventar razões pra tocar nele... É o que as pessoas fazem.
- Posso saber como você sabe disso, Maclay? – eu perguntei, cruzando os braços e me voltando para Tara. Eu sabia que ela não era Meredith, mas mesmo assim... Era difícil não vê-la como minha irmãzinha mais nova às vezes.
- Quem é você, meu pai? – disse ela, em um de seus raros ataques de impertinência. Voltando-se para , ela acrescentou – Só esquece que ele é o e aja como você agiria com qualquer outro cara.
- E como eu sei se vale a pena? – disse – Já parou pra pensar que talvez ele simplesmente não se interesse por mim?
Tara olhou pra mim então, e meu primeiro instinto foi dizer um sonoro “não”. Eu estava cansado de bancar o conselheiro daquele bando. Eu estava por aí há muito mais tempo que eles, era verdade, mas isso não significava que eu devesse minha experiência à sociedade. Na verdade, seria até melhor se eu parasse de me meter na vida deles. A julgar pelo modo com o qual eu lidava com minha própria vida amorosa, eu não era lá a melhor pessoa para aconselhar alguém.
Mas o fato era que, nos casos de e , eu realmente podia ajudar. E olhando para Tara naquele momento, eu não podia deixar de me lembrar das palavras dela em nossa última conversa.

Os amigos significam o mundo pra ela, mas você ao menos tenta ter uma boa relação com algum deles?

Ela estava certa. Se eu continuasse a me manter afastado dos amigos de , nunca conseguiria ter uma boa relação com ela. Eu precisava dar uma chance aos imbecis.
Respirando fundo, me coloquei diretamente em frente à .
- Ele está olhando? – eu perguntei à Tara.
- Não agora, mas toda hora ele e lançam um olhar curioso para cá. Acham estranho você e estarem se falando, imagino.
- Perfeito. – eu disse, voltando-me novamente para a melhor amiga de , é o seguinte. Eu preciso que você finja que o que eu estou dizendo agora é a coisa mais interessante que você já escutou na vida. Preste atenção em tudo que eu falar. Isso, agora sorria e abaixe o olhar como seu eu tivesse acabado de te deixar encabulada. – eu disse, observando-a fazer exatamente o que eu pedi – Ótimo. Agora olhe pra mim... – eu disse, aproximando uma mão do rosto dela – Bem nos meus olhos... – eu disse, pegando uma mexa do cabelo dela e colocando-a atrás de sua orelha – Agora sorria de novo e se afaste um pouco. – enquanto ela se movia quase imperceptivelmente para longe de mim, eu perguntei a Tara, porém sem desviar meu olhar da garota à minha frente – E aí?
- E aí que eu acho melhor a gente esconder as estacas. O rosto dele tá vermelho. – respondeu Tara.
- Não. Olha. – eu disse, assim que percebi a intenção de – Vai estragar tudo. Mas aí está sua resposta. Você tem uma chance. Uma chance enorme. Meu risco de vida é prova disso.
- E o que eu faço agora? – ela perguntou.
- Sorria pra mim de novo, dê meia volta e vá falar com os Cromwell. Deixe o sofrer um pouco antes de voltar a se dirigir a ele. Mas não flerte com ninguém. Ele acabou de te ver recebendo um avanço meu, mas resistindo. É importante que ele tenha certeza que você tá livre, porém não sem opções. É essa combinação que pode dar coragem pra ele agir quando você der espaço. Ele ao mesmo tempo precisa saber que a chance existe e que se não aproveitá-la, vai perdê-la. Agora vai.
- Ok... Obrigada. – ela disse, e algo no leve sorriso que ela me lançou pareceu... Verdadeiro. E se aquilo não era estranho o suficiente, ainda havia o fato daquele sorriso ter de alguma forma me alegrado. Desde quando ajudar garotas sem segundas intenções me deixava feliz?
- Isso foi bem legal da sua parte. – disse Tara, com um orgulho na voz que me deixou constrangido.
- É como você disse, me aproximar dos amigos de para entrar na vida dela. Tudo parte do meu plano maligno de conquista.
- Certo. Boa sorte se convencendo disso. – disse ela, rindo – Mas por falar em , como estão as coisas?
- Bem... Bem mal. – eu respondi – Tão mal que eu sinto falta da época quando ela me cumprimentava com um soco. Ao menos eu sabia que era com ela que eu estava lidando, e não com um robô feito de culpa.
- O problema é que ela não é um robô, né? Por mais que acredite poder ser. – disse Tara, suspirando – Eu to preocupada, . Muito preocupada.
- Com o quê? – eu perguntei, confuso.
- . Eu sei que você não anda a vendo tanto, mas já deve ter percebido o cansaço nos olhos dela. De uns tempos pra cá ela não para mais. Está saindo dos limites, abusando da própria energia. Quando não tá caçando, tá treinando a gente ou pesquisando ou sei lá. Eu to com medo, . Se ela continuar nesse ritmo...
Eu havia percebido que algo estava errado, é claro. Sabia inclusive o que havia acontecido para deixá-la daquele jeito. Só não havia considerado até agora a extensão do problema. Céus, como eu podia ser cego às vezes.
precisava de um refúgio, de um cobertor de segurança. Era assim que ela lidava com os problemas, e era isso que eu costumava ser pra ela. Por todo tempo no qual ela me usou, fez isso para escapar de todo o resto. Agora que ela não tinha mais a mim e que, de fato, apenas tinha mais um problema, voltara suas atenções pra outro tipo de fuga: seu trabalho, sua missão, seu propósito de vida. Eu devia ter antecipado isso.
- Você falou com ela sobre isso? – eu perguntei a Tara – Ela escuta você.
- Não, não escuta. não escuta ninguém. – disse ela, parecendo cansada – Mas talvez você devesse falar com ela.
- Oh, claro. – eu disse, sarcástico – Do jeito que as coisas estão, isso vai ajudar muito. E mesmo sem isso, nossas conversas nunca acabam bem. só entende ações, não palavras.
- Então aja! – disse Tara, encarando-me com determinação nos olhos – Tire ela daqui, . Só por um tempo. Esse lugar está matando ela.
- O quê? – eu perguntei, surpreso – Tara, você andou bebendo de novo? Como você espera que eu tire daqui?
- É quase ano novo, Miles está fora da cidade, ninguém acharia estranho. Eu podia dizer pra equipe que foi atrás de uma pista ou algo do tipo. Só... Tire ela da cidade por uns dias. Ela precisa de uma folga pra voltar a respirar. Se ela continuar desse jeito, vai acabar ou fazendo uma besteira ou deixando uma tragédia acontecer por descuido. A precisa de novos ares, . Precisa ir pra um lugar onde não tenha uma missão, só assim vai colocar as coisas sob perspectiva. Aqui na Organização tudo pode parecer urgente e perigoso. Fora desse lugar, a pressão com certeza diminuiria.
- Quer saber? É uma ótima ideia. Faz perfeito sentido. Só uma coisinha não se encaixa aí... – eu disse, forçando um sorriso – O que diabos te faz pensar que iria a algum lugar comigo?
- Tá brincando? Se tem uma pessoa no mundo capaz de tirá-la daqui, é você.
- Como? Sequestro? – eu perguntei, cético.
- Não exatamente... – respondeu Tara, pensativa – , entenda. Você é a única pessoa no mundo pra quem a não guarda segredos. Porque ela não se importa de te dizer verdades que machucam... Ou pelo menos não costumava se importar. Mas mesmo com a nova resolução dela de não pisar mais em você, a verdade é que em sua presença ela usa menos máscaras do que com o resto de nós. Porque...
- Porque minha opinião importa menos. Meus sentimentos importam menos. – eu completei, poupando Tara de dizer a verdade dura – Ela não esconde nada de mim porque o que eu penso sobre ela não interessa. Eu sei disso. É o tipo de coisa que me faz sentir querido e importante. – eu disse, sem poupar o sarcasmo.
- Eu sei que é péssimo. – disse Tara, assentindo – Mas de certa forma, também é bom. É uma das razões pelas quais precisa de você por perto. Com você ela não precisa fingir ser outra pessoa.
- Não precisava. Agora só o que ela faz é fingir ser outra pessoa.
- Isso vai passar, eu tenho certeza. E mesmo agora... , a está com problemas. E você sabe que ela nunca aceitaria a ajuda de um amigo. Isso significaria admitir que ela está com problemas, e não sabe fazer isso. Se tem alguém capaz de convencê-la a se dar umas férias, esse alguém é você. Só assim ela não vai sentir a necessidade de fingir que não precisa disso.
- Ok, mas nada disso muda o fato de que não iria a lugar nenhum comigo. Não posso simplesmente sugerir a ideia pra ela. A resposta seria “não”, mesmo se eu perguntasse mil vezes.
- É aí que entra a parte do sequestro. – meu queixo deve ter caído, pois ela se apressou em continuar – Eu já disse, não exatamente. Não é um sequestro. Você só tem que inventar uma desculpa e fazê-la entrar em um carro com você. Vai ser bem mais fácil convencê-la a continuar se ela só descobrir no meio do caminho. Eu juro, , ela não vai te fazer dar meia volta. Vai te xingar de um milhão de nomes e agir como se não tivesse escolha, mas não vai dar pra trás. Vai até ser bom pra vocês. A raiva talvez a faça parar de agir de forma esquisita com você.
- Ainda resta o fato de que ela nunca entraria em um carro comigo. Não agora. – eu insisti.
- Essa é a parte fácil, na verdade. Diga que você encontrou um ninho nos limites da cidade, que encontrou uma pista sobre o Mestre, sei lá. Do jeito que ela está, não vai nem piscar antes de se agarrar a oportunidade de matar alguma coisa.
- A “coisa” pode muito bem acabar sendo eu. – eu reclamei.
- Você sabe que ela não faria isso. Confia em mim, . Vai dar certo. – disse ela, resoluta – E além do mais, você precisa sair daqui também. Você só vai pra Irlanda em Janeiro. Por acaso preciso te lembrar que o bando do Mestre sabe onde você mora? O que você acha que vai acontecer se de alguma forma eles descobrirem o que você planeja? É bom que você passe um tempo afastado.
- Talvez, mas...
- Você realmente está arranjando desculpas pra não passar dias e dias sozinho com fora de L.A.? Onde ela não vai ter como evitar você? Onde vocês vão poder conversar e resolver de uma vez por todas essa estranheza? Será que você não percebe que essa pode ser sua única chance de pelo menos fazê-la voltar a te olhar nos olhos sem parecer que vai sair correndo?

Tara definitivamente sabia argumentar.

- Certo. Você venceu, eu vou tentar. Mas acho que isso não vai dar em nada.
- E eu acho que vai. É o que vocês dois precisam. Acredite, eu sei.
- E essa é exatamente a questão. – eu disse, subitamente curioso – Você sabe. Você sempre sabe, Tara. Sabe o que todo mundo precisa, o que sentem. Como você faz isso?
- Eu já te disse. Eu vejo...
- Auras. É, você me disse. Mas não é só isso. – eu insisti, encarando-a com seriedade – Você tá escondendo alguma coisa. Ninguém é tão bom em ler as outras pessoas. Eu tenho alguns insights de vez em quando, mas você? É como se você conseguisse enxergar dentro das pessoas. Isso não é normal. Esse tipo de percepção não é natural.
- Eu tenho prática, só isso. – disse ela, impassível. Algo em sua postura deixou claro para mim que eu não conseguiria arrancar nada dela.
- Ok. Se você não quer me dizer, não vou insistir. Confio em você, Tara, mas não pense que eu não sei que tem mais nessa história do que simples leitura de auras ou sei lá. E se você resolver confiar em mim um dia, eu vou estar aqui. Você pode me contar qualquer coisa.
- Não tem nada pra contar. – ela insistiu – E eu confio em você. Agora se me dá licença, eu preciso ir.
Se eu já não soubesse que havia algo errado antes, a irritação dela teria sido o suficiente para abrir meus olhos. Observando-a se afastar e sair da sala com o resto da equipe de , eu tive a certeza de que ela escondia algo.
Eu havia dito que ela podia confiar em mim, e por isso esperaria até que ela me contasse. Manteria, porém, meus olhos abertos e se algo parecesse estranho...

Aí eu descobriria. Tara me contando ou não, eu descobriria.

Xx

’s POV

- Hey. Posso entrar? – perguntou , com metade do corpo detrás da porta e metade já dentro do meu quarto.
- Já entrou. – eu disse, porém sem maldade.
- Bom, se você quisesse ficar sozinha, teria trancado a porta. – disse ela, fechando a porta atrás de si e indo sentar-se em minha cama.
- Regra número um de convivência com : privacidade só é possível com fechadura e chave. – eu disse, rindo um pouco.
- Não enche. – disse ela, jogando um dos meus travesseiros em minha direção.
- To brincando, você sabe disso.
- Na verdade não está, mas tudo bem. É a verdade. – disse ela, dando de ombros.
Ela não acrescentou mais nada, e eu franzi as sobrancelhas.
- Então...? – eu perguntei.
- Então o quê, criatura?
- A que devo a honra da visita? – eu perguntei, cruzando os braços.
- Não posso simplesmente vir ver minha amiga?
- . – eu disse, de modo significativo.
- Ai, tá bom! – disse ela, revirando os olhos e deixando o tronco cair pra trás, ficando deitada em minha cama – Athos pediu pra eu passar aqui e garantir que você apareça na festa.

16 – Meus amigos tem o dom de me estressar.

- Imaginei que ele faria algo do tipo. – eu disse, tentando não parecer irritada. A última coisa que eu precisava era descontar em toda a frustração e culpa que eu andava acumulando nos últimos dias.
- Bom, você pode culpá-lo? Pelo que você está usando, dá pra perceber que pretende escapar. – ela disse, e eu abaixei o olhar para minha camiseta e meus jeans.
- O que tem de errado? – eu perguntei, confusa.
- São roupas de caçar.
- Sim, e é o que eu pretendo fazer depois de sair da festa. Já falei pro Athos que só vou dar uma passada rápida lá.
- E você não pode passar aqui e trocar de roupa? – perguntou .
- Ok, o que tem de errado com as roupas, ó grande personal stylist? – eu perguntei, e dessa vez fui eu quem revirou os olhos.
- É o que você sempre usa! – disse , erguendo os braços em frustração – Será que não dá pra aproveitar a oportunidade e se arrumar um pouquinho pra variar?
- Não tem por quê. E de qualquer forma, não tenho muitas roupas que não sejam jeans e camisetas. E shorts, claro.
- Ok, número um: ninguém precisa de motivo pra se arrumar e dois: claro que você tem outras roupas. E a saia que eu te dei de Natal? Eu sei que você gostou dela.
Era uma minissaia de seda preta e sim, eu havia gostado bastante dela. Ficava ótima em mim, mas não era o tipo de coisa que eu queria usar em um lugar onde Aramis e provavelmente estariam. A saia era um pouquinho provocante, e eu não queria passar a impressão errada. Não queria que ninguém pensasse que eu estava usando roupas sexys pra tentar seduzir alguém.
- Meio que passa a ideia errada, não acha? – eu disse – Quero dizer, minha intenção é passar despercebida pela festa, falar com Athos e sair. Meio difícil fazer isso em uma minissaia de seda.
- Besteira. – disse , levantando e abrindo meu armário – Desde quando você dá a mínima pro que pensam sobre o que você veste?
Desde que disse que me ama. Eu pensei. Não queria ele reparando em mim, e não queria que ele visse outros caras reparando em mim. Eu estava tentando fazer a coisa certa, pra variar. E a coisa certa não incluía a possibilidade de ele pensar que eu o estava provocando.

Não que ele fosse pensar que eu o estava provocando. não era esse tipo de cara. Ou pelo menos eu não achava que era.

Eu não respondi, e apenas observei estender a saia e uma blusa azul marinha de alcinha sobre a minha cama.
- Eu não vou vestir isso, .
- Por que não?
- Porque não. Já disse, não tenho por que me arrumar.
- Claro que tem. Todo mundo vai se arrumar. Eu, a Tara... Paris. – disse , em seguida começando a analisar as próprias unhas – Paris provavelmente está há horas se arrumando. Provavelmente quer ficar bonita pro ...
- Provavelmente. – eu concordei, fechando a mão em um punho.
- Aham. – disse , em tom distraído – Mas ela está tentando conquistá-lo, né? Faz sentido. Ela não ia suportar se alguém chamasse mais a atenção dele ou algo assim. – disse ela, dando de ombros. Eu a encarei, meio confusa. nunca foi a pessoa mais normal do mundo, mas aquele comportamento era esquisito até pra ela – Bom, eu vou me arrumar. Você devia fazer o mesmo. A parte mais difícil eu já fiz, agora a escolha é sua. Te vejo lá. – dizendo isso, ela saiu.
Eu contemplei as roupas sobre minha cama, pensando no que fazer. Eu não ia usar aquilo. Não havia o menor motivo para parecer bonita. Eu não tinha nenhum cara na minha vida. Não queria nenhum cara na minha vida. Não precisava parecer sexy. Não havia motivos. Nenhum motivo. Motivo nenhum. Nada.

Nada além da imagem mental de Paris e...

Eu grunhi, levando as mãos a cabeça.

Eu queria que ele olhasse pra mim, e não pra ela. Era algo estúpido e egoísta, mas era o que eu sentia. Não queria voltar com . Não queria provocar . Só não queria que ele olhasse pra Paris. Era tão estranho assim?
E pra piorar tudo, eu estava com tanta raiva. Tanta, tanta raiva daquele vampiro desgraçado que andava ajudando Paris pelas minhas costas. Então sim, uma partezinha de mim queria que ele me visse. Não era uma parte muito grande, mas estava lá, querendo que ele sofresse. Querendo que ele me quisesse sem poder me ter. Eu tinha o direito de ser imatura, não tinha? Eu não queria realmente provocar ... Só incomodá-lo um pouquinho.
Quer saber? Dane-se. Eu pensei. Nos últimos dias, andava tomando cuidado extra pra não ferir os sentimentos dele ou causar falsas esperanças, mas aquilo era idiotice. Eu não devia nada a . Ok, então ele me amava. O problema era dele. Não fazia sentido começar a tomar todas as minhas decisões levando em conta as reações de a elas. Seria legal me arrumar um pouco. Eu quase nunca fazia isso, então por que não? Eu era livre, não precisava dar satisfações a ninguém, muito menos a . estava certa, desde quando eu me importava com o que os outros pensavam? Não estava nem aí se tivessem a impressão errada. Eu era , e fazia o que bem entendia.

Tomando minha decisão, peguei as roupas e entrei no banheiro.

Xx

Eu odeio festas.

Não entenda errado. Quando se trata de boates cheias de desconhecidos, não há problemas. Me perder no meio de um bando de gente que eu nunca mais vou ver na vida é uma das únicas formas que eu conheço pra relaxar. Gosto do anonimato, pois com ele é fácil acreditar que sou só mais uma na multidão. Só mais uma garota, em nada diferente de todas as outras.
O problema surge quando sou forçada a encarar pessoas que eu conheço em situações informais como aquela festa de Athos. Eu sei quem eles são e eles com certeza sabem quem eu sou. Não dá pra fingir que eu pertenço àquele grupo de pessoas, pois a simples proximidade deles não me deixa esquecer que, não importa o que eu faça, eu nunca serei como eles. Vinte e um anos de convivência me ensinaram isso.

17 - Abrir a porta do que costumava ser minha sala de treinamento e ver dezenas de rostos conhecidos era o tipo de coisa que me fazia querer sair correndo.

Acho que eu teria mesmo saído correndo se Aramis não tivesse se aproximado.
Não que ele estivesse ajudando muito, é claro. Ele simplesmente parou na minha frente e me olhou daquela maneira aturdida que me incomodava profundamente.
Eu não havia exagerado. Não havia feito nada no cabelo e mantive a maquiagem bem básica. As roupas e a sandália de salto – a única que eu tinha – eram só o que havia de novo. Eu não costumava me arrumar pra nada dentro da Organização. Separava o que tinha de melhor para minhas escapadas no meio da noite – pra beber, pra dançar, pra arranjar um idiota que passasse a noite comigo... Lá fora eu me permitia ser o que quisesse. Mas aqui eu não podia fazer isso. E estava começando a lembrar o porquê.

18 – Atração sobrenatural.

Eu odiava aquilo. Odiava como eles me olhavam, como Aramis me olhava. Odiava porque não era a mim que eles queriam. Assim como vampiros, eu exercia aquele tipo estranho de fascínio sobre humanos, coisa que geralmente simplificava a caça por vítimas. E era isso que eles queriam, o ser sobrenatural. Não era algo normal, e não tinha nada a ver comigo em particular. Não era minha personalidade, meu jeito, nem mesmo o meu corpo que causava aquilo. Era a magia imposta, coisa que ninguém conseguia controlar. Eles se sentiam atraídos pela parte de mim que eu mais odiava. E por causa deles, aquela era a parte que acabava me definindo.
- Você vai ficar me encarando assim a noite toda? – eu perguntei, abraçando meu próprio corpo de maneira desconfortável. Eu sei que ele não tinha culpa, mas era ruim do mesmo jeito.
- Desculpa. – disse ele, balançando a cabeça como se saindo de um transe – É só que... Você tá tentando causar um surto de ataques do coração ou algo do tipo? – perguntou ele, sorrindo, e eu derreti um pouquinho.

A porcaria do sorriso Cromwell de novo.

- quase me obrigou a me arrumar um pouquinho. E você tá tentando dizer que eu to bonita? – eu perguntei, retribuindo o sorriso.
- Bom, santa ! – disse ele, alargando o sorriso – E eu to tentando dizer que você é linda. – ele respondeu, ao mesmo tempo me deixando sem graça e me fazendo me sentir bem melhor. A minha natureza podia até causar a atração, mas não havia colocado aquela afeição nos olhos dele, e nem o forçara a dizer aquele tipo de coisa – Agora vem comigo, seus amigos já estão aqui. – dizendo isso, ele agarrou minha mão e começou a me guiar por entre os convidados.
Enquanto Aramis me guiava para perto dos outros, eu tentei tranquilizar minha própria mente. Não era como se eu fosse um monstro terrível e a única coisa atraente em mim fosse minha metade sobrenatural. Ok, eu não era a pessoa mais legal do mundo, e definitivamente não me comunicava bem com os outros, mas eu tinha qualidades. E mesmo para os que não me conheciam, não podia ser só magia, podia? Eu não era feia. Nem um pouco feia, na verdade. E minhas pernas definitivamente ficavam ótimas com o salto alto e aquela saia. Então nem tudo era devido ao fato de eu ser híbrida, certo? Se fosse, e nunca teriam se apaixonado por mim. Talvez eu simplesmente devesse parar de arranjar motivos para me odiar.

Era o mínimo que eu poderia fazer, já que, eu logo descobriria, certa pessoa já me odiava o suficiente por nós dois.

Xx

’s POV

Eu a odiava. Eu o odiava. Eu odiava todos ele. Eu odiava tudo.

Quem diria. Eu havia sido reduzido a um adolescente revoltado.

Ela estava linda nessa noite, e isso me deixava irritado. Eu era um babaca e sabia disso, mas não tinha como evitar. Ela estava linda e não era pra mim. Nunca era pra mim. Eu era só o cara fadado a observá-la de longe, em um canto da sala escondido pela pequena multidão que ali se reunira.
Ele havia tocado a mão dela. Ela sorrira pra ele. Sorrira pros outros também. Era só pra mim que ela não sorria daquele jeito, o que era ridículo. Por bem ou por mal, eu era a pessoa mais próxima a ela. Ou ao menos costumava ser, antes de ela acreditar em mim.
Agora ela usava máscaras comigo também, e eu era só mais um. Meus pensamentos de horas antes voltaram com força total. Era melhor quando ela tinha ódio de mim. Ao menos então eu era especial. Mais especial que ele, de qualquer forma.

Aramis a queria. E eu queria a cabeça decepada de Aramis.

Aquela ira era tão forte quanto imbecil. Claro que ele a queria. Do mesmo modo que eu a queria. Ela era pecado coberto por seda e eu a queria. Como sempre, mais do que nunca, eu já nem sabia. No momento eu era feito apenas de desejo e ódio, e era difícil não simplesmente puxá-la pelo braço como um homem das cavernas e tirá-la da vista da concorrência. Aquele tipo de ciúme não era saudável, é claro. Não era nem natural. Era o monstro irracional dentro de mim gritando por posse. Eu não queria ninguém olhando pra ela, detestava a ideia de que algum babaca pudesse sequer imaginar tocá-la. Ela era minha.

Minha... Boa demais pra mim, mas minha... Nunca vai querer ser minha... Não importa, nada importa... Eu não a mereço... Ela é minha...

Meus pensamentos estranhos e confusos foram interrompidos por uma mão tocando meu ombro.
- De nada. – disse . Sob meu olhar confuso, ela revirou os olhos – O que foi? Acha que a teve um surto de inspiração e resolveu se produzir? – balançou a cabeça – Escuta, eu não sei direito o que tá rolando entre vocês, mas eu fiquei te devendo uma hoje. Então resolvi ter uma conversinha básica com a minha amiguinha ali. Acho que você conhece. Está secando ela desde que chegou. – os lábios dela se curvaram em um sorrisinho sarcástico – O que, aliás, significa que você aprovou o resultado final. Então estamos quites, certo? Eu dei um passo na direção certa com o e você tem a oportunidade de vislumbrar a 2.0. Vislumbrar e... Algo mais. Ew. – disse ela, franzindo o nariz como se com nojo – Me ignore, eu to meio bêbada. E não precisa agradecer. – dando um tapinha final no meu ombro, ela começou a se afastar, apenas para dar meia volta e acrescentar – Só pra constar, eu ainda sou contra. Mas você foi legal hoje, merece se divertir um pouquinho... Céus, eu to prostituindo minha melhor amiga. – pareceu perturbada por um momento, apenas para no segundo seguinte dar os ombros como quem não se importa – Bom, não é como se ela não fosse aproveitar. Cuida dela direitinho, sanguessuga. – dizendo isso, ela finalmente se afastou.
Agradecer. O que eu tinha para agradecer? Se achava que aquela situação me beneficiava de alguma forma era porque não entendia mesmo o que existia entre mim e . O que, no momento, era nada.

Acho que esse foi o gatilho.

Isso e o fato de ver começar a se dirigir à porta da sala. De um momento para o outro, várias coisas começaram a ficar claras em minha mente. Perversamente claras. Foi uma experiência curiosa, sentir aquela linha de pensamento se estabelecendo, ideias se ligando de forma cruel até a decisão estar tomada. O plano de ação que eu tinha agora era sádico, de certa forma. Ruim. Agir como eu planejava agir era errado e oh, eu sabia que haveria consequências. Eu devia ir embora. Se havia um toque sequer de decência em mim, eu não devia seguir adiante. Se eu queria provar a que era alguém digno do respeito e do carinho dela, devia apenas deixá-la em paz.

Meu problema, é claro, é que eu não era um grande pensador.

Agir por impulso e não deliberar sobre as consequências de meus atos sempre foi meu maior defeito. Eu era o oposto de : eu não era bom em refletir, de forma que os pensamentos sobre o quão errado era o que eu estava prestes a fazer foram ofuscados pelo meu impulso imbecil de agir. Parte de mim sabia que era errado. Parte de mim sabia que eu provavelmente colocaria tudo a perder. Mas só mais tarde eu realmente entenderia tudo isso.

Por hora eu só era capaz de segui-la.

Fique tranquila, . Eu vou cuidar dela direitinho.

Xx

’s POV

- Eu continuo achando que é perda de tempo, só isso. – insistia , teimoso.
- Não, não é. – eu insisti, irritada – É a única coisa que a gente pode fazer no momento, nerd. Eu também não gosto de ficar enfurnada naquela sala lendo relatórios todo dia, mas é importante. Já desconfiamos que o Mestre esteve na França e em Portugal nos últimos dois anos. Sabemos que ele acabou de partir pra Irlanda. Não é muito, mas já é algo. Quanto mais conhecermos a trajetória dele, mais chances teremos de atribuir uma identidade a esse cara. É só ir juntando as pecinhas do quebra-cabeça.
- Não. Não, não. – disse , voltando a se aproximar de nós, carregando a milésima latinha de cerveja da noite – Você não estão falando de trabalho. É impossível. Eu devo ter ouvido errado.
- Não é minha culpa se o nerd aqui insiste em reclamar do trabalho. – eu tentei me defender.
- E daí? Resolvam isso amanhã. – disse ela, balançando a cabeça – Vão viver um pouquinho. Sabe como é, conversar sobre assuntos interessantes, dançar... Você devia ir dançar, .
- Não to com a mínima vontade de dançar. – eu disse, olhando a minha volta. Já era ruim demais estar ali. Dançar com o povo da Organização só deixaria as coisas mais desconfortáveis.
- Bom, eu to. – disse , agarrando a mão de e, sem maiores explicações, arrastando o garoto para longe.
- Hey, eu também não quero dançar não! – reclamou o garoto. Ela virou pra ele, uma expressão de raiva quase irracional no rosto. já havia bebido mais do que deveria.
- Ok, então. Dane-se. Eu acho alguém que queira dançar comigo! – explodiu ela, sumindo no meio da multidão. Depois de um suspiro irritado, a seguiu.
Eu me permiti um sorriso. Bom sinal. Talvez as coisas ali começassem a dar certo. Era bonitinho o modo como eles brigavam tanto simplesmente por gostarem um do outro...

... O que era uma exceção. Pessoas que brigam muito geralmente não gostam uma da outra e têm razões muito sérias para brigar, é claro.

Infelizmente, esse pensamento não evitou que minha mente se voltasse para .
Eu gostava dele? Era uma boa pergunta. Eu sabia que não o amava. Nesses últimos tempos já nem tinha mais certeza se ainda amava . Muita coisa havia acontecido com meu coração, coisas que o fizeram se fechar. Amar novamente estava fora de cogitação, pois era algo que eu havia desaprendido. Em algum ponto da minha história eu havia perdido a capacidade de amar por puro medo. Me tornara tão boa em rechaçar o sentimento que já não conseguia mais senti-lo.
Gostar, porém, era diferente. Gostar fazia sentido de um modo que amar não fazia. A meu ver, o amor é um sentimento irracional por natureza. Não se escolhe a quem se ama. Mães costumam amar seus filhos por piores que eles sejam. Pessoas às vezes continuam a amar seus parceiros mesmo após serem traídas ou abandonadas. No geral, o amor não faz sentido, não é lógico... Acontece por acontecer, sem a menor explicação. É como a minha atração sobrenatural, de certa forma. Mas ao invés de por magia, o sentimento é imposto arbitrariamente pela simples natureza humana.
A lógica só surgia no gostar. Enquanto o amor é incondicional e absoluto, o ato de gostar de alguém é algo mais controlável. Gostar é admirar a personalidade, o jeito, até a beleza de alguém. Gostar é entender uma pessoa e apreciá-la pelo que ela é. Você não escolhe quem ama, mas de certa forma escolhe quem gosta, em um processo quase consciente. Gostar era cérebro enquanto amar era sangue e coração. Gostar era algo que eu ainda era capaz de fazer.
A pergunta, então, voltava: eu gostava de ? Às vezes. Não era sempre, mas em algumas poucas ocasiões eu havia me flagrado apreciando a companhia dele. O sexo não contava, claro, já que era puramente físico, mas... De vez em quando, quando ele me fazia rir ou me dizia algo que provava que ele se importava, eu era capaz de gostar dele. Não acontecia o tempo inteiro, mas às vezes...

Às vezes eu gostava de .

- Ela tá certa. – disse para mim, puxando-me de volta para a conversa – Acho que a gente pode adiar assuntos de trabalho até amanhã.
Quem dera eu fosse capaz de fazer isso. Mas não tinha problema, eu era perfeitamente capaz de me preocupar em silêncio.
- Tudo bem. – eu disse, dando de ombros – Desde que você tenha consciência de que amanhã começa tudo de novo. Ir pro QG, destrancar os relatórios, recomeçar de onde...
- Destrancar? – me interrompeu – Como assim, “destrancar”?

Eu fechei os olhos, implorando por calma.

- ... – eu comecei, devagar – Você trancou os relatórios na salinha de depósito, não trancou?
- Eu deveria? – perguntou ele, com um risinho nervoso.
- O que eu e Gilbert te falamos pra fazer?! – eu perguntei, agora estressada pra valer.
- Pra eu cuidar dos relatórios e desligar a luz da sala quando saísse, já que eu fui o último a sair. Vocês não falaram nada sobre trancar os relatórios em algum lugar!
- Você viu a gente tirando eles do cofre! – eu exclamei – , qual é o seu problema?! Esqueceu que a gente desconfia – eu abaixei a voz – que exista um traidor nesse lugar? Qualquer um seria capaz de arranjar a chave da sala, entrar lá e sumir com algum relatório relevante! Por isso guardamos no cofre, pois só nós temos a combinação. Esse raciocínio é difícil demais pra você, por acaso?
- Desculpe, eu nem pensei nisso. Só organizei os papéis na mesa e tranquei a sala.
- Me dá a chave. – eu disse, estendendo a mão – Eu e você vamos voltar lá agora, separar os relatórios e guardá-los no cofre pra amanhã.
O garoto hesitou. Eu estava prestes a perguntar o que havia de errado quando Tara, até então calada, se pronunciou.
- Tá tudo bem, . Pode ir, não tem problema. Mesmo.
- A gente tá esperando uma música lenta. – explicou , ao perceber que eu não havia entendido – Porque a gente não sabe dançar batidas rápidas.
- Eu falei que queria dançar e o se ofereceu. Mas tá tudo bem, é sério. Não precisa ficar só por isso, você já foi um cavalheiro por se oferecer. – eu quase ri. Claro, Tara, ele se ofereceu sem segundas intenções. Só pra ser gentil. Vai nessa.

Pra alguém tão perceptiva, Tara podia ser bem tapada de vez em quando.

Eu estava prestes a perguntar por que eles não pediam que o DJ amador colocasse uma lenta de vez quando notei que era Porthos quem estava encarregado das músicas novamente. É, pedir ajuda a ele estava fora de cogitação.
Eu suspirei frustrada. Pra alguém que tem fama de pedra de gelo, meu coração até que é bem mole.
- Ok. Me dá a chave, eu vou na frente. Você me encontra lá embaixo.
O nerd pareceu prestes a me abraçar em gratidão enquanto me entregava a porcaria da chave. Pro bem dele, era melhor que conseguisse fazer algum progresso com Tara. Se eu tivesse sendo boazinha à toa, aquele moleque ia apanhar.

Xx

Em defesa de , ao menos ele havia organizado os arquivos direito.

Eu havia o mandado descer comigo tendo a certeza de que a arrumação dele estava uma bagunça, mas agora era forçada a dar o braço a torcer. O nerd organizara tudo direitinho, só restava arrumar as pilhas em pastas e trancá-las.
Levei tudo para a salinha de depósito quase anexa à sala principal do QG e coloquei todas as pastas sobre uma mesa. Aquele lugar funcionava como uma espécie de arquivo, e era composto principalmente de um cofre escondido atrás de um quadro em uma parede, de uma mesa grande encostada na parede em frente à porta e de um sofá velho de frente para a parede do cofre. Havia também pilhas e pilhas de papéis organizados pelo chão, arquivos e informações em geral que havíamos acumulado durante meus anos de caça.
Eu estava acabando de ajeitar a última pilha de relatórios quando escutei a porta se abrindo.
- Tarde demais, nerd. Muito obrigada. – eu disse, sarcástica. Não havia sido um trabalho particularmente difícil, mas a ajuda do aspirante a Romeu teria sido útil. Estava tentando não reclamar muito, no entanto. Havia sido por uma boa causa.

Em alguns segundos, a falta de resposta começou a ficar esquisita.

Estava prestes a me voltar para ele quando escutei aquele som. Devia ter percebido antes, é claro. Devia ter sentido a presença dele imediatamente. Talvez fosse a rotina suicida dos últimos dias que bagunçara meus sentidos. Ou talvez aquela presença vampírica em particular simplesmente se tornara familiar demais para me deixar em alerta. Fosse o que fosse, porém, não havia desculpas que justificassem eu não ter sentido a nuvem negra que entrara com ele naquela sala.
Bom, ao menos eu podia me consolar com o fato de que perceber antes não teria mudado muita coisa. Minha situação era quase tão inevitável quanto simples.

A porta havia fechado. E aquele não era .


Capítulo 35 – Respect


’s POV

Eu não me virei para encará-lo. Na verdade, não movi um músculo. Mas não precisava vê-lo para saber que tudo em sua presença era frio. Acho que foi esse frio que me congelou no lugar, de costas para ele, minhas mãos sobre a mesa começando a suar.
- O que está fazendo aqui? – eu perguntei, mesmo sabendo. Todos os meus instintos estavam me dizendo que o que estava ali não era exatamente o mesmo que me mandara aquela carta no Natal. Aquele não era o com o qual eu me sentia segura. Aquele era o que tentara me matar em uma fábrica abandonada.
A resposta dele foi um risinho desdenhoso, abafado. Aquele riso que ao mesmo tempo gelava minha espinha e esquentava meu sangue.

Ele cobriu os poucos passos que nos separavam, parando logo atrás de mim.

- Vai fingir que não sabe? – ele perguntou, em voz baixa, colocando uma mão em meu quadril.
- Não toca em mim. – eu disse, com a voz surpreendentemente firme.
- Vá em frente e me impeça. – desafiou ele, apertando meu quadril levemente. Para meu desespero, minhas mãos permaneceram grudadas na mesa. Quando ele estava por perto, era como se meu corpo parasse de me obedecer.
Eu queria impedi-lo. Queria querer impedi-lo, na verdade. Eu daria qualquer coisa para ser capaz de simplesmente empurrar a mão dele e ferir aquele ego do tamanho do mundo, mas eu não conseguia. Por mais clichê que fosse, realmente era mais forte do que eu. Minha mente queria uma coisa, mas meu corpo queria algo bem diferente.
Eu respirei fundo, tentando ignorar o toque dele e a proximidade de seu corpo. Seria mais fácil se as coisas ainda fossem como antes, se eu pudesse simplesmente deixar rolar e tratá-lo como um cachorro depois. Não que ele não merecesse, já que era ele quem iniciara aquilo mesmo sabendo qual era minha posição em relação a nós dois. Mas eu não era cruel. Ele me amava, e agora eu sabia disso. Pisar nele tendo aquilo em mente era algo além da minha capacidade.
- , por favor... – eu pedi, calmamente, sentindo os dedos dele alisarem a pele descoberta acima do cós da minha saia. O filho da puta não tava ajudando – Eu só quero ficar sozinha, ok?
Ele riu de novo, o som soando um pouco mais perigoso do que da última vez. Por mais estranho que fosse, era esse fato que o tornava de certa forma hipnótico.
- Sozinha? – ele murmurou no meu ouvido, seu corpo inclinado sobre o meu – Vestida desse jeito? Quem você tá tentando enganar, caçadora? Você resolve andar por aí praticamente nua e espera que eu não perceba suas intenções?

“Não que ele fosse pensar que eu o estava provocando. não era esse tipo de cara. Ou pelo menos eu não achava que era.”

Meus próprios pensamentos de algumas horas atrás voltaram com força total, me machucando. Pelo visto eu estava enganada.
A forma grossa e irritada como ele falou aquilo doeu. Doeu porque me fez me sentir pequena. Pior que isso, me fez me sentir um objeto.
As pessoas geralmente se sentiam atraídas por mim pelo que eu representava e, como eu já havia concluído, aquilo me incomodava por não ter nada a ver com quem eu era como pessoa. Por isso, eu devia admitir, no fundo eu sempre gostei do fato de se sentir atraído por mim, já que ele era imune ao que havia de sobrenatural. O fato de ele me querer fazia com que eu me sentisse uma pessoa, uma mulher. E no entanto lá estava ele, me objetificando como todos os outros. Não por ser híbrida, mas pelo o que eu estava vestindo.
Pode parecer estranho para alguns. Era estranho pra mim também. Mas por algum motivo eu havia esperado mais de . Havia esperado que ele entendesse, talvez? Entendesse que eu podia vestir o que bem entendesse sem ter necessariamente sexo em mente. Entendesse que talvez eu só quisesse me sentir bonita para mim mesma. Entendesse que aquilo não dava a ele o direito de me encurralar numa sala vazia por se sentir provocado. Entendesse que o que ele havia dito havia me deixado desconfortável, me feito me sentir mal mesmo eu não tendo feito nada de errado. Ele podia desfilar pelos corredores sem camisa se quisesse, e ninguém pensaria nada de errado. Mas eu colocava uma saia curta, de repente era alguma espécie de vadia? Já era ruim o suficiente entender que a maioria das pessoas pensaria que eu tinha “intenções”, mas ? O fato de mostrar aquele tipo de misoginia foi como um soco no estômago. Doeu, de forma que, como sempre, eu abafei a dor e preenchi o espaço com raiva. Raiva era algo com o qual eu podia lidar.

Só havia uma falhinha no meu raciocínio. Me prender à dor teria me dado forças para resistir a . Raiva, no entanto, servia de combustível para aquela atração indesejada.

- Se você pensa que eu me arrumei pra você, ... – eu comecei, irritada, praticamente cuspindo o nome dele como não fazia há dias. , porém, me interrompeu.
- Oh, talvez não seja por mim... – disse ele, uma de suas mãos lentamente descendo para minha coxa. Ele parecia subitamente mais relaxado, e eu imediatamente entendi o porquê. Era a primeira vez em dias que eu era grossa com ele. Que espécie de sadomasoquista doente era ele? Era possível que ele preferisse que eu o tratasse mal? – Talvez não seja para ninguém em particular. – ele afastou meu cabelo da minha orelha, encostando os lábios nela da forma mais suave possível. O idiota sabia que eu gostava da boca dele. Sabia que eu gostava de cada centímetro do corpo dele, na verdade – Talvez, apenas talvez, você só tenha resolvido desfilar por aí, se mostrando pra todo aquele bando de babacas sabendo que ninguém resiste a você. – ele acrescentou, em uma voz que tentava fazer soar do habitual jeito sexy e perigoso, de um jeito que seria ridículo em qualquer outro cara, mas funcionava com ele. O problema, é claro, era que eu sabia. Conhecia cada variante daquela voz e sabia como ninguém identificar irritação nela. estava com ciúmes. Estava com raiva. Bom, pelo menos aí estávamos na mesma página, o que não era necessariamente bom. Odiar uma pessoa que te atrai geralmente torna essa pessoa irresistível. Ódio e desejo são coisas que se misturam com facilidade, talvez por ambas serem sensações poderosas e irracionais.
- O que você tá tentando dizer? – eu perguntei, querendo matá-lo, beijá-lo, senti-lo contra mim, machucá-lo... Eu não conseguia decidir, e minha cabeça doía. Eu o queria e não queria, e aquilo me confundia, da mesma forma que minha incapacidade de resistir direcionava parte da raiva que eu sentia para mim mesma. Aquilo era tortura. Pura tortura psicológica que devia parar. Mas eu não conseguia parar, mesmo sabendo o quanto aquilo tudo me fazia mal.
- Eu to dizendo que você estava procurando algum imbecil pra levar pra sua cama. – ele respondeu contra a minha orelha, dessa vez sem se preocupar em ocultar a ira. Seu toque, no entanto, continuava suave, sua mão começando a subir por entre minhas pernas. E foi assim, sentindo a pele dele contra a minha e sua respiração descompassada e desnecessária em meu ouvido que eu me forcei a empurrar toda a racionalidade para o fundo de minha mente. Não ia adiantar nada questionar a situação no momento. Ele já tinha vencido. Ia doer mais tarde, ia me derrubar de novo, voltar para me assombrar, me causar culpa, mas já era tarde. Ele havia vencido e eu o queria. Eu lidaria com as consequências depois – E, sorte sua... O imbecil sou eu.
Foda-se. Deixa ele me machucar. Deixa-me machucá-lo. Pessoas como nós só servem pra machucar os outros mesmo.
Minhas mãos espalmadas contra a mesa relaxaram e eu deixei minha cabeça cair um pouco para frente. Era o máximo que eu me permitia fazer para mostrar que não o impediria de continuar. Senti aproximar mais ainda seu corpo do meu, deixando uma de suas mãos subir por meus braços até meus ombros, em seguida enrolando meus cabelos e os afastando de meu pescoço. Seu toque era tão carinhoso que me fazia querer socá-lo.
- Tira a camisa. – ele pediu, seus lábios agora acariciando meus ombros expostos enquanto sua mão entre minhas pernas começava a ultrapassar o elástico da minha calcinha.
Eu não me movi, parte por vontade de contrariá-lo e parte porque não tinha certeza se manteria o equilíbrio se tirasse as mãos da mesa. Se ele queria se livrar da minha camisa, que fizesse isso ele mesmo. Eu podia ter me rendido, mas isso não significava que pararia de enfrentá-lo. Afinal, foi ele quem quis tornar o sexo nosso novo campo de batalha.
O grunhido irritado que ele emitiu contra meu ombro soou me deixou saber que ele havia entendido. Para meu extremo aborrecimento, no entanto, ao invés de soltar meu cabelo, ele liberou a mão que estava por baixo da minha saia. Precisei morder os lábios para impedir que algum som de contrariedade escapasse. Não daria a ele aquele gostinho.
A mão dele desceu as alças da minha camisa e sutiã com força, em seguida se fechando nada gentilmente sobre meu seio. Eu quase sorri ao perceber que havia conseguido fazê-lo acabar com aquela delicadeza hipócrita. Ele havia me encurralado contra uma mesa até eu ceder. Essa era a realidade. Ele não tinha o menor direito de bancar o amoroso. A situação era crua demais pra isso.
Ele puxou meu cabelo, forçando-me a virar o rosto. Inclinando a cabeça, me beijou como se quisesse me devorar. Eu retribui o beijo apenas tempo o suficiente para matar a vontade que estava sentindo há dias antes de morder o lábio inferior de com força, fazendo-o sangrar. Com uma exclamação de dor, ele afastou o rosto, encarando-me com raiva. Sustentando o olhar dele, eu lentamente lambi o sangue de em meus lábios.
- Tem certeza que é assim que você quer? – disse ele, em tom seco, seus olhos fixos na minha boca. Ótimo. Ele havia entendido.
- Só to continuando o que você começou. – eu respondi, deixando que a raiva transparecesse na voz. Eu não ia deixá-lo mascarar o que estava acontecendo ali, nem esquecer tudo que ele acabara de me dizer – Você diz palavras cruéis. Será que essa é a única dureza da qual você é capaz? – eu perguntei, sabendo que ele poderia interpretar aquilo de duas maneiras. Ambas serviriam.
- Encosta seu corpo na mesa. – disse ele, ríspido, naquela voz que parecia lava. Não era um pedido, não era uma ordem. Era um desafio.
- Não. – eu disse, aceitando-o.
Acho que é desnecessário dizer que segundos depois metade do meu corpo se encontrava de bruços na mesa, a lateral do meu rosto e meus seios colados à madeira. Não, eu não o obedeci. Mas ainda tinha a mão em minha cabeça, que usou para me empurrar para frente antes que eu pudesse protestar, em seguida largando meus cabelos e prendendo meus pulsos contra minhas costas com uma mão. Eu pensei em me soltar só pra irritá-lo, mas pensei melhor. Aquele ângulo era péssimo pra minha coluna, mas seria bem mais fácil para esconder minhas reações.
Sem soltar minhas mãos, levantou minha saia e desceu minha calcinha até o meio das pernas com um puxão. Não demorou até eu sentir os dedos dele deslizando para entre minhas pernas. Eu mordi os lábios e fechei os olhos com força, recusando-me a deixá-lo saber que depois da semana horrível que eu havia tido seu toque era o paraíso.
- Eu te odeio. – eu disse, conseguindo evitar que minha voz tremesse. Eu precisava dizer e ele precisava ouvir, pois naquele momento era a mais pura verdade. Se ele podia ferir minha autoestima, eu podia ferir os sentimentos dele.
- Odeia? Vamos ver... – disse ele, divertido – Coração acelerado, respiração ofegante e, é claro... – os dedos dele me penetraram de súbito, encontrando-me vergonhosamente pronta pra ele. Corpo traidor. Ele quase não tinha me tocado e eu já parecia um sorvete derretido – Tudo isso pra mim. Tenho certeza que você me odeia. – concluiu ele, sarcástico.
- Não é por você. – eu neguei apenas para irritá-lo, em seguida soltando meus braços e erguendo meu corpo, voltando a apoiar minhas mãos na mesa. Meu ato de rebeldia, no entanto, apenas tornava tudo mais ridículo, já que eu nem fingi tentar afastá-lo.
- Oh, eu acho que é por mim... – murmurou ele contra o meu ouvido, em seguida beijando a curva da minha orelha.
O som do zíper dele abrindo parecia alto no cômodo silencioso. Ele me penetrou devagar, com uma suavidade que contrastava enormemente com as palavras duras que ele havia dito antes. Eu quase conseguia esquecer que se tratava do mesmo homem ao senti-lo deslizar em mim com calma, fazendo meu corpo inteiro tremer e minhas mãos fraquejarem sobre a mesa. Eu quase queria deixar que tudo continuasse daquela maneira, seus movimentos me hipnotizando aos poucos, queimando meu corpo inteiro, a mão dele prendendo meu cabelo novamente, beijando minha nuca e meus ombros quase com reverência, grunhindo baixinho contra minha pele. Eu podia deixar aquilo durar, deixar o orgasmo ir chegando aos poucos, aproveitar a sensação maravilhosa de tê-lo em mim novamente. Mas não, na verdade eu não podia, pois o homem que estava ali era o mesmo que havia acabado de me tratar feito lixo. Eu estava com raiva dele, raiva de mim, raiva do mundo, como sempre, e precisava do que não prestava. Do que me ajudaria a exorcizar toda aquela energia raivosa dentro de mim. Então eu fiz o que sabia fazer melhor.
- Você já tá fazendo alguma coisa? Porque eu não to sentindo nada.
Eu consegui o efeito desejado. Para alguém supostamente tão confiante, com certeza sabia reagir como um adolescente inseguro quando eu fazia piadinhas.
Ele apertou meu quadril com força, de um jeito que deixaria marcas. Do jeito que geralmente me fazia enfiar as unhas nas costas deles para me vingar. Ou retribuir o favor. A triste verdade é que ambos gostávamos de dor muito mais do que admitíamos.
A força da investida seguinte dele expulsou o ar dos meus pulmões. Não era mais nem menos do que eu podia aguentar. Era exatamente o que eu precisava. Ao menos no sexo sempre era exatamente o que eu precisava, e eu sabia que eu era o que ele precisava. Acho que precisávamos compensar pelo resto de nossa relação de alguma forma.
- E agora? – ele perguntou, começando um novo ritmo, fazendo com que a mesa na qual eu ainda me apoiava batesse com força contra a parede.
Eu mantive meus olhos fechados com força, minhas mãos forçando tanto a mesa que eu tive medo de quebrá-la. Eu queria gritar, queria fazer algum som, queria libertar a tensão crescendo dentro de mim, mas permaneci quieta. odiava quando eu não respondia aos toques dele abertamente. E oh, naquele momento eu queria que ele sentisse bastante ódio. O filho da puta não merecia saber o quanto exatamente eu gostava de tudo aquilo.

O problema é que não desistia fácil.

Ele endireitou a postura e empurrou meu corpo para frente, mudando o ângulo de penetração, acertando todos os lugares detestavelmente certos. Meus músculos imploravam para que eu os contraísse de propósito em volta dele, mas isso seria ainda pior que gritar.
- Me aperta. – ele pediu, com a voz tensa. Tinha me esquecido que ele lia minha mente. Ou outras partes do meu corpo, na verdade.
Eu tentei não ouvir a voz dele, mordi meus lábios com força para me concentrar em outra coisa, qualquer coisa que não fosse ele.

E então ele deu um tapa na lateral do meu quadril.

Meus músculos se contraíram por impulso. Doeu, mas isso não era o pior. O pior era o prazer que eu sentia. Mas do que isso, o pior era saber que havia conseguido exatamente o que queria. Novamente. Driblando a minha vontade e ao mesmo tempo fazendo com que eu gostasse.
Eu ouvi os sons presos na minha garganta escaparem da dele. Ele me deu outro tapa, e eu precisei de todas as minhas forças para não pedir pra ele repetir. Minha cabeça doía. Meu corpo pegava fogo.

Minha cabeça queria paz. Meu corpo só queria ele.

- Idiota. – eu disse, com dificuldade, porque precisava dizer algo – Imbecil, filho da puta, desgraçado, nojento, sanguessuga...
- Xinga. – respondeu ele, novamente contra a minha orelha. Acho que parte dele pensava que se ele falasse perto o suficiente, de alguma forma as palavras permaneceriam comigo – Pode xingar. Você sabe que isso só excita mais a ambos.
Ele me deu outro tapa e eu me rendi. Acho que gemi o nome dele. Talvez tenha gritado. É difícil dizer com certeza, já que o mundo estava explodindo a minha volta. Explodindo dentro de mim. Por um momento meus conflitos se evaporaram e só existia eu. Apenas eu, segura em uma bolha de prazer, de sensações puramente físicas. Eu me foquei em meu corpo, primeiro no prazer, depois na languidez de alguém que não se deixava relaxar a algum tempo.

Eu me permiti sentir meu próprio corpo e nada mais.

’s POV

Eu a coloquei sobre a mesa.

Ela não estava dormindo, mas eu a ajeitei sobre a mesa como se tivesse. Eu me sentia estranho, o que não era normal. Eu havia acabado de ter um orgasmo, ao mesmo tempo que ela. Geralmente isso me fazia me sentir bem, mas não dessa vez. Eu sentia aversão de mim mesmo sem saber por quê. Havia algo se contorcendo em meu estômago. Eu tentei não me concentrar nisso. Sabia que no momento em que prestasse atenção naquilo, estaria perdido.

Como alternativa, me concentrei nela.

Naquele momento, ela era mais do que nunca uma contradição. Seu coração e sua respiração aceleravam enquanto seu corpo permanecia calmo, seus olhos fechados, como se não quisesse acordar. E eu sabia que ela não queria. Sabia que se dependesse da vontade de ela dormiria e não acordaria nunca mais. Sabia que eu era parte do motivo.

A coisa no meu estômago se contraiu mais ainda.

Lutei para continuar me concentrando em . Olhei para ela, a blusa parcialmente abaixada, a saia torta, o rosto corado. Ela era linda. Senti minha ereção voltar quase imediatamente. Parte do motivo era a própria , óbvio. A outra parte era o que meu corpo aprendera com ela. Quando sem outra saída, deixe o sexo te tirar de si mesmo.

Era melhor ignorar meu estômago e focar em algo mais embaixo.

Eu dei a volta até ficar de frente para as pernas dela e as puxei para mim devagar, de forma que ela só tocasse a mesa da cabeça ao quadril. Eu coloquei as pernas dela em volta da minha cintura. Não precisei segurá-las na posição – a própria as manteve lá.
Eu me inclinei até ela, beijando seu colo e seu pescoço com carinho. Uma voz dentro de mim dizia que esse era o modo de pedir desculpas, de consertar tudo. Mas consertar o quê? Eu não queria saber. Eu não queria pensar.
- Eu quero você. – eu murmurei para ela, subindo os beijos para o seu rosto – Eu posso ter você? Por favor, me deixa ter você... - sem poder resistir, eu levei uma mão até a coxa dela, segurando-a enquanto começava a mover meu quadril contra o de , roçando minha ereção contra ela.
grunhiu baixinho. Eu esperei que ela respondesse. Ela entreabriu os olhos devagar, parecendo exausta.
- Acho que não consigo me mexer muito. – ela murmurou, em voz sonolenta.
- Eu consigo cuidar de nós dois... Se você deixar... – eu praticamente implorei. Por algum motivo, eu precisava ouvir a permissão dela mais do que precisava do ato em si.
Ela suspirou e assentiu com a cabeça, colocando os braços ao redor do meu pescoço com um esforço que parecia sobre-humano. Ela realmente estava exausta, e, no entanto, havia consentido. Eu sabia o porquê, é claro. Assim como eu, estava tentando fugir de algo. Fugir da mesma coisa que eu.
Eu a penetrei devagar, sabendo que ela estava sensível, e olhando para o rosto dela o tempo todo. Ela havia fechado os olhos novamente, e mordia o lábio inferior enquanto emitia sons baixinhos com a garganta. Era a coisa mais sexy que já havia visto.
Eu me movia com cuidado, ainda a beijando, bebendo cada som que ela produzia, cada sinal de prazer, deixando que as reações dela me guiassem. Essa vez era só pra , e, no entanto, parecia melhor que a outra. Ainda tinha algo de muito errado no ar, mas ainda assim era melhor.
Eu me deixei perder nos gemidos dela, no som molhado da fricção dos nossos corpos, no leve ranger da mesa... Concentrei-me nos pequenos sons para não ouvir os pensamentos que teimavam em querer me dizer o porquê exatamente essa vez estava sendo melhor do que a outra.
Ela gozou pouco tempo depois, e eu a segui após alguns segundos. Deixei meu corpo descansar sobre o dela, dentro dela, até senti-la adormecer. Levantei-me com esforço e a peguei no colo, levando-a até o sofá no canto da sala. Era bem mais confortável do que a mesa, e caso alguém viesse até aqui, pareceria que ela simplesmente havia resolvido tirar um cochilo. Ajeitei suas roupas, assim como todo o resto da sala, incluindo recolher os papéis que haviam caído no chão e limpar as marcas que havíamos deixado. Agia sem pensar, agia por agir, por me sentir perdido. Eu estava errado, o sexo não consertara nada. Eu já devia ter aprendido que entre nós dois o sexo nunca era a solução, só o problema. Eu estava começando a me sentir doente, os pensamentos cada vez mais difíceis de serem ignorados.

Uma vez que o lugar parecia mais uma vez inocente, saí de lá, tentando não pensar.

Xx

Aparentemente, meu poder de não pensar só funciona quando eu não quero que funcione.

Eu não sou bom em reprimir coisas. Eu tento, claro. Céus, como eu tento, mas o problema, mais uma vez, é que eu não sou . Ela é ótima em reprimir coisas, já eu... Eu explodo muito fácil.
Os pensamentos me venceram no meio do caminho. Quando cheguei ao quarto subterrâneo, já estava destruído. Irônico, não? Sou perfeitamente capaz de esquecer que tenho um cérebro antes de fazer alguma merda, mas depois... Depois, quando já é tarde demais, meus pensamentos voltam com força total.
Eu estava tremendo. Sentia-me enjoado, o que é notável para um vampiro. Eu não conseguia entender. Aquilo definitivamente não havia sido a pior coisa que eu já fizera com , e ainda assim... Ainda assim minhas próprias palavras e ações ecoavam em minha mente.

Eu a havia machucado. Havia a humilhado. Havia feito tudo de propósito.

Eu menti antes. Eu entendia perfeitamente o porquê estava sentindo tanta aversão a mim mesmo. Havia feito exatamente o que Tara havia me acusado de sempre fazer. Usar sexo contra . Usar a atração que ela tinha por mim para conseguir o que eu queria. E dessa vez, o que eu queria era humilhá-la.
Eu soquei a parede de pedra a minha frente uma vez. Depois outra. Quando dei por mim, já estava aumentando cada vez mais um buraco na parede ao lado da minha cama com meus punhos. Eu parei e olhei para minhas mãos ensanguentadas. Nunca antes daquele momento eu havia realmente compreendido o fato de que era um monstro. Do que significa ser um monstro.
Eu havia sentido raiva dela. Havia desejado que ela também sentisse raiva de mim. Egoísmo, sem dúvida. Eu gostava de ser importante para . Então se não podia ter seu amor, queria ao menos seu ódio. Queria ser o centro dos pensamentos dela de um jeito ou de outro. Ela não tinha o direito de ter pena de mim. Ou ela me amava, ou me odiava. Eu não era capaz de permitir uma terceira alternativa.
Eu fui atrás dela porque sabia que ela não resistiria. Sabia a manipular fisicamente como mais ninguém. Disse ao nerd que ele podia continuar na festa e fui atrás dela mesmo sabendo que ela não queria que eu fosse. Mesmo sabendo que era importante pra ela ficar longe de mim. Eu sabia que o que nós tínhamos não fazia bem a ela. Um cara legal teria respeitado isso e a poupado do arrependimento que ela com certeza sentiria. Um cara legal saberia manter a distância e evitaria fazê-la sofrer. Mas você já deve ter lido contos de fada o suficiente para saber que o monstro nunca é um cara legal.
Um monstro de conto de fadas é capaz de machucar a princesa. O monstro é capaz de dizer palavras duras para humilhá-la, diminuí-la. Dizer que o monstro faz isso porque a ama e está magoado justifica alguma coisa? Claro que não. Só piora a situação. Só me faz pior do que qualquer outro monstro. Pois contos de fadas, afinal, nunca são tão complexos quanto a realidade. E o que eu fiz estava além das capacidades de qualquer vilão de histórias infantis.

Eu havia feito acreditar que eu a amava. Quer mais crueldade que isso?

Eu finalmente a havia convencido da verdade, apenas para feri-la emocionalmente em seguida. Era isso que tornava o que acontecera hoje pior do que tudo que eu já havia feito. Para , quem a machucara no passado era um monstro sem sentimentos. Dessa vez, quem a machucara era o homem que a amava.
O que isso faria com a cabeça dela, com sua autoestima, se esse era o modo como o homem que a amava a tratava? O que ela iria pensar? Se ela já devia estar confusa e perturbada antes, como se sentiria agora? Eu havia esperado finalmente acreditar nos meus sentimentos para fazer a coisa mais vil e mesquinha que podia fazer. Que tipo de monstro eu era?

Acho que ela estava prestes a me responder.

Ouvi um som vindo do túnel, seguido pelo cheiro dela. Havia sido mais rápida do que eu pensava.
Deixei-me cair sentado sobre a cama e a esperei. Senti-me grato por isso segundos depois, quando ela apareceu. Havia algo diferente no rosto dela. Algo que teria me feito cair de joelhos e pedir perdão pela minha existência se eu ainda estivesse de pé.
Ela permaneceu parada de pé por um longo momento, encarando-me. Seus olhos desviaram rapidamente para minhas mãos ensanguentadas, em seguida fitando o chão. Eu não disse nada. Apenas esperei. Conhecia a linguagem corporal de . Sabia que o que estava por vir era sério.
Depois do que me pareceu uma eternidade em silêncio, eu resolvi falar.
- ... – eu comecei, no tom mais calmo que pude.
- Cala a boca. – disse ela, porém sua voz também soava calma. Ela voltou a me olhar – Você gosta de conversar, não gosta? Vive reclamando que eu fujo, que não discuto as coisas com você. Bom, eu estou prestes a te fazer desejar nunca ter tentado conversar, . Porque dessa vez eu vou falar. Vou falar tudo que está engasgado aqui dentro, e você vai ouvir, querendo ou não.
Eu assenti, sentindo meu coração congelar. Poucos segundos depois, ela continuou.
- Eu me sinto mal, sabe? – disse ela, em um raro momento de total honestidade. A que estava ali não era a habitual carcereira dos próprios sentimentos. Eu sabia que estava vislumbrando a garota por trás das muralhas – Sobre tudo isso entre nós. Sinto culpa, claro. Mas ao menos eu posso dizer com toda a sinceridade que eu não sabia. Não sabia como você se sentia em relação a mim. Ok, você disse mil vezes, mas de que adiantava? Pode me chamar de burra, de cabeça dura, do que você quiser, mas eu não acreditava. Eu sou uma caçadora, . Eu odeio vampiros. Essa foi a criação que eu tive, o primeiro valor que eu aprendi. Vocês pra mim são monstros. Eu pra mim sou um monstro. Então sinto muito se meu primeiro instinto não foi atribuir sentimentos a uma criatura que eu fui ensinada a ver como uma fera perigosa. – ela abaixou o olhar e riu, e o som perturbado daquela risada me feriu profundamente – Você deve achar que foi fácil com . Mas me responda, , por que minha primeira e única noite com ele acabou coincidindo com a época na qual você e Cora estavam na cidade? já estava aqui há um bom tempo, mas quando eu finalmente me deixei ter sentimentos por ele, já era tarde. Eu levei uma eternidade pra confiar em . Outra para vê-lo como aliado, e uma muito maior pra me permitir amá-lo. Não foi fácil, e ainda não é fácil. Eu preciso lutar contra tudo no qual eu acredito para ver você como pessoa, , para ver a mim mesma como pessoa. Mas eu to tentando. Eu sinto culpa, e ando fazendo o possível pra te tratar com respeito. Me afastei de você porque sei que só vou te machucar. Não é o que você quer ouvir, mas é a verdade. – ela voltou a me encarar – Só o que eu tenho pra te oferecer é dor, . Então me afastar de você é um gesto de compaixão. É pra proteger a nós dois. Você não merece estar com alguém que não te ama, e eu não mereço a culpa por estar usando você.
Ela parou e respirou fundo, e eu soube o que viria a seguir. não estava ali para se desculpar. Claro que não. Naquela noite, quem havia errado era eu.
- Essa é a parte interessante, na verdade. – disse ela, finalmente – A culpa. Minha culpa... Eu estive tão entretida me sentindo mal por tudo que eu fiz com você que acabei não percebendo tudo o que você fez comigo. Minha culpa me pareceu tão grande que eu acabei não enxergando a sua. Mas ela estava lá, desde o começo... Quer saber, ? Eu errei. Eu errei muito, mas você também errou.
Eu não podia olhar pra ela. Não podia aguentar ouvi-la ecoar as palavras que Tara me dissera, que eu dissera a mim mesmo milhares de vezes. Porque eu sabia aonde eu havia errado. Só me doía admitir.
- Olha pra mim. – disse ela, sem alterar a voz, e eu olhei. Eu não podia negar aquilo a ela – Eu sei que eu abusei de você, mas você abusou de mim também. Céus, eu fiquei tão cega! – disse ela, levando as mãos à cabeça – Eu era inocente, acho. Se eu não contar você, preciso admitir que tenho menos experiência do que gosto de admitir. Eu aceito minha parcela de culpa aqui também, porque eu te deixei agir daquele jeito. Eu não lutei, não tentei resistir, não soube defender meu próprio valor, talvez por não saber que eu o tinha... Eu deixei. Deixei você usar sexo contra mim desde o começo. Você entende o que eu to dizendo? Essa foi sua estratégia desde o começo, desde o dia em que você voltou. Apelar pra atração entre nós, transformá-la em algo que eu não podia resistir. Transformá-la nisso. – os olhos dela estavam começando a se avermelhar também e eu engoli o nó na minha garganta. Era isso. Ela finalmente estava enxergando o que eu mesmo levei séculos para enxergar – Você jogou sujo, . E eu, imbecil que sou, acabei te deixando se safar com algumas coisas tão incrivelmente perturbadoras que eu não entendo como não percebi antes. Por exemplo, será que eu preciso te lembrar do que aconteceu na noite em que você se declarou pra mim? Do fato de que você tocou em mim enquanto eu estava inconsciente? O fato de você ter talvez salvado a minha vida, de ter cuidado de mim não justifica isso.
- Eu não ia...
- Ir até o fim? É, eu gosto de acreditar que não. Mas isso não muda nada. Na verdade, só sustenta o meu ponto. – ela fez questão de me olhar nos olhos antes de continuar – Você acredita que tem direitos sobre o meu corpo, sobre mim. Acredita que é perfeitamente ok tocar em mim, me agarrar pelos cantos, me bater ou morder às vezes sem consentimento verbal ou ao menos claro só porque eu me sinto atraída por você. , você me fez desmaiar e me acorrentou a sua cama uma vez. Já tentou me matar, já me colocou no seu colo e me bateu sem que eu dissesse que estava tudo bem. Se eu acabei me envolvendo depois na situação ou não, não importa. Você não pode simplesmente assumir esse tipo de coisa. Eu desejo você? Sim. Eu quero desejar você? Não. Só porque meu corpo quer uma coisa, não significa que minha mente queira ou esteja preparada pra isso. Eu quero você, o tempo todo, com uma intensidade ridícula e você sabe disso. Se aproveita disso. Mas o que você não entende é que não vale a pena. Por melhor que seja o sexo, a carga de sensações ruins que me atinge depois não vale a pena. Eu me sinto culpada por acreditar que sou eu quem está usando você. Me sinto ridícula e fraca por não conseguir resistir. Me sinto humilhada, culpada e sozinha... Sinto vergonha, medo e coisas que eu nem entendo. E nada disso vale a pena. Nós dois... Eu não nego que é incrível enquanto está rolando, que não faz tudo parecer pequeno em comparação, mas quando acaba... Quando acaba, e eu preciso me olhar no espelho de novo, dói.
Ela estava chorando de novo, e não parecia perceber isso. Céus, quantas vezes eu a fizera chorar nos últimos dias? Mais do que na vida inteira da caçadora, provavelmente.
- Não era essa minha intenção. – eu disse, com a voz fraca, mesmo sabendo que não significaria nada. Ela estava certa e eu devia ter percebido aquilo antes. Eu a amava tanto, e ao mesmo tempo a odiava tanto que ao longo do caminho esquecera algumas coisas. Coisas como respeito e autocontrole. Cora havia me ensinado que quando um vampiro quer algo, só o que precisa fazer é pegar o que deseja. Simples assim. Mas não era, certo? Não era e eu acabara fazendo tudo errado.
- O que não era sua intenção? Usar sexo como arma? Abafar totalmente minha curiosidade por controle porque você simplesmente precisa ser o dominante e morre de medo de perder isso? Me fazer sentir subordinada a você em qualquer atividade remotamente sexual? Me perseguir pelos cantos, me provocar, me seduzir quando eu não estava pronta pra nada disso? Será que você não entende que foi esse o problema? – a voz de havia começado a tremer um pouco, porém por mais estranho que fosse, aquilo apenas pareceu dar a ela mais força – Você usou sexo como meio de aproximação, como modo de me conquistar. Eu odiava você, e ao invés de tentar mudar isso, sua ideia brilhante foi me seduzir primeiro. se sentia atraído por mim também, mas ao contrário de você, ele teve a presença de espírito de entender que o coração de alguém não se conquista pelo corpo. Eu não estou dizendo que você teria tido uma chance se tivesse sabido esperar, porque só Deus sabe como ferrou com meu lado emocional. O que eu quero que você entenda é que nós não estaríamos nessa situação hoje se você tivesse paciência, se tivesse sabido se controlar, se não tivesse me agarrado na chuva e depois feito uma declaração de amor que eu não estava pronta pra escutar. Se não tivesse insistido na sedução. Se tivesse tentado ser talvez não meu amigo, mas alguém que eu pudesse respeitar. Você ao menos teve um plano de ação?
Não. Essa era a verdade. Eu apenas havia seguido meus impulsos, como fizera minha vida inteira, e fui traçando um plano ao longo do caminho. Sem preparação, sem pensar nas consequências... Sem pensar em porcaria nenhuma. Talvez se eu fosse um pouco mais inteligente, teria percebido antes que meu modo de agir apenas a faria se sentir daquele jeito. Atraída por mim, porém ainda me vendo como um monstro. Claro que estava confusa, quem não estaria? Eu havia a colocado em guerra contra si mesma, criado vontades que se opunham dentro dela. Sem perceber, eu havia cavado minha própria cova.
- Eu não estava pronta, . – disse ela, ao ver que eu não falaria nada – Não estava pronta pra querer você daquela maneira, pra ver aquela atração inicial se transformar no meu calcanhar de Aquiles. Você usou meus desejos contra mim, e agora eu não sei mais resistir a você, mesmo querendo. Mas é só a parte física que te quer. Isso é suficiente pra você? O que você ama, afinal, eu ou o meu corpo? Hoje naquela sala, foi só ele que você teve.

Havíamos finalmente chegado ao centro do problema.

Ela não continuou de imediato, e eu pensei no que poderia dizer pra ela. Como me desculpar? Será que havia alguma forna de me desculpar? “Me perdoe, , por ter te encurralado em uma sala vazia e humilhado você por ter sentido meu orgulho ferido”? Algo me dizia que aquilo não ia ser bem aceito.
- A parte irônica da situação é que eu sinceramente acreditei que você seria incapaz de fazer uma coisa como aquela. De me julgar pelas roupas que eu usava, de sentir que tinha o direito de me abordar naquela sala por pensar que eu estava te provocando. Acho que essa foi a pior parte, a decepção. Quando eu finalmente acredito que você me ama, você resolve me machucar daquela maneira. Ferir minha moral, minha autoestima, de forma não tão diferente da última vez. Ou você não se lembra do “boa o suficiente”? É a nossa frase, não é? O maior exemplo do quão doentia é a nossa relação. – ela riu, e cada vez eu gostava menos daquela risada – A diferença é que dessa vez você não me magoou por me fazer pensar que eu não tinha valor sexualmente. Não, dessa vez a ideia foi que eu tenho valor sexualmente. Que eu sou essa coisa que você pode agarrar e pressionar contra alguma superfície plana sempre que sente vontade. – ela havia se levantado, e agora caminhava lentamente, de um lado para o outro – Eu abusei de você de muitas formas, . Pisoteei seus sentimentos, ri do seu sofrimento, te humilhei... Mas você abusou de mim ao usar sexo como forma de opressão. Ao me ajudar a carregar algo que devia ser puramente prazeroso com consequências insuportáveis. Ao não respeitar meu tempo, ao forçar sobre mim um bilhão de sensações de uma só vez. Pra alguém que não está acostumada a sentir nada, , a montanha russa que é estar com você é coisa demais. Me faz mal. Sua impaciência me faz mal, o fato de você não entender nossas diferenças me faz mal. Você sente tudo e se joga, se deixa levar, não tem medo de se queimar. Eu não sou assim, mas você não aceita isso. Acha que se continuar insistindo eu vou mudar de ideia. Mas a forma com a qual você escolheu agir só me machuca, só me afasta de você. Se você sente por mim o que diz que sente, você não pode continuar agindo desse jeito. Você tá me machucando. Você está fazendo com que eu te machuque e machuque a mim mesma, e pra mim chega. Chega.

Ela parou por um segundo, como se organizando os pensamentos, e me encarou.

Era como se eu pudesse ouvir algo estalar de repente. Um clique que vinha de . Algo aconteceu naquele momento, algo que eu não entendi de imediato. Algo que parecia ter acontecido apenas dentro dela. O modo como a caçadora me olhava, com a cabeça inclinada e os olhar... Atento? Perceptivo? Eu não sabia definir. Mas naquele momento eu senti como se ela entendesse algo que eu não entendia.

Mais tarde eu entenderia que, naquele momento, finalmente havia tido uma tomada de consciência.

- Apesar de tudo, acho que te devo um agradecimento. – disse ela, o tom de voz calmo, tentativo, enquanto aos poucos se aproximava de onde eu ainda me encontrava sentado sobre a cama – Você me fez enxergar uma coisa hoje. Me fez ver que eu não preciso aguentar esse tipo de coisa. – ela sorriu – Não preciso perdoar seus erros só porque eu errei também. Hoje você me fez perceber que eu posso e devo me defender. Que diferente de você, eu não sou o tipo de pessoa que cala a boca e aguenta abuso. Você me deixou pisar em você porque me ama. Eu não vou deixar você pisar em mim por nada nesse mundo. – ela estava cada vez mais próxima, e era como se algo tivesse mudado em seu rosto, em seu jeito. Havia algo novo e irresistível no modo como começara a se portar – Eu posso não ter o mínimo de amor próprio, mas a partir de hoje eu tenho respeito por mim mesma, e ai de quem não me respeitar também. Então obrigada, . De certa forma, ao tentar tirar todo o meu valor, você me devolveu parte dele. Me fez enxergar que eu não preciso aguentar sua obsessão machista por controle, que eu não preciso me importar com o abandono de , que não tem por que dar a mínima pro que aqueles idiotas da Organização pensam ou não de mim. Eu não sou um objeto, não sou uma atração de circo, e quem decide se eu sou mulher ou monstro sou eu. – ela estava bem na minha frente agora e, sem aviso, sentou-se sobre minhas pernas, trazendo seu rosto pra bem perto do meu. Ela ainda estava sorrindo um pouco, e seus olhos brilhavam como se ela tivesse acabado de fazer a maior descoberta do século. O que, de certa forma, era exatamente o que tinha acontecido – Eu não preciso que nenhum de vocês me defina. Não preciso deixar que as opiniões e ações de vocês guiem minha vida. Eu to cansada de sofrer pelas babaquices que os homens da minha vida colocam na minha cabeça. Eu to cansada de me sentir insuficiente, e acima de tudo, to cansada de me sentir mal por ter te colocado numa situação na qual você escolheu ficar. Eu não te forcei a me amar . Não pedi seus sentimentos. Então quando eu te digo não, não tem por que me sentir mal por você ficar choramingando pelos cantos. A escolha foi sua. Eu não posso ser responsável pela sua felicidade. Então, a partir de agora, se eu respeitosamente te afastar de mim, é melhor que você retribua o respeito. Do contrário... – com uma mão, ela segurou meu ombro e empurrou meu corpo pra trás, me fazendo ficar deitado sobre a cama. Porém, apesar do que possa parecer, não havia nada de sexual naquele gesto. O jeito como ela me olhava naquele momento não era com desejo. E a estaca que ela agora posicionava sobre o meu peito certamente não parecia um fetiche.
Eu não movi um músculo. Muito pelo contrário, até arrisquei um sorriso. Já havíamos estado naquela situação antes, e eu sabia como aquilo terminava. Ela não ia me matar. Era ali. Ela não tinha aquilo em si. Não me mataria daquela forma, não iria...

A estaca desceu de surpresa, penetrando meu coração antes mesmo que eu pudesse gritar.

Céus, eu queria gritar, mas o ato repentino de havia tirado todo o ar dos meus pulmões. A dor era insuportável, inimaginável... Tão poderosa que eu só me sentia capaz de desejar que acabasse de uma vez. A qualquer segundo agora... A qualquer segundo eu estaria morto, e aquilo finalmente pararia de doer. Tudo finalmente pararia de doer.

Mas os segundos se passaram, e a dor não parou.

Quando eu entendi que não estava prestes a morrer, abri os olhos, dando de cara com a face inexpressiva de .
Ela puxou a arma, e senti-la deixando meu corpo doeu tanto quanto senti-la me furando. Dessa vez eu gritei. imediatamente cobriu o buraco em meu peito com meu lençol, pressionando o material contra mim de forma a estancar o sangue.
- Estaca de plástico. – ela explicou, ao perceber meu olhar confuso e aflito. Pegando minha mão, a colocou no lugar da dela no lençol – Mantenha a pressão por um tempo, até seu corpo começar a se curar. – dizendo isso, ela se afastou da cama.

Simples assim.

se afastou como se não tivesse acabado de me enfiar uma estaca no meu coração. Como se não tivesse me dado o maior susto de toda a minha existência. Apenas se levantou e me deu as costas. E ainda assim eu não consegui ressenti-la.
Ela podia ter feito pior. Verdade seja dita, ela devia ter feito pior. Eu entendia agora. Entendia o que a havia feito sofrer. Mais ainda, reconhecia que a havia humilhado e, em seguida, a subestimado. Isso não aconteceria de novo. Por bem ou por mal, havia deixado sua mensagem clara: ela exigia respeito.

Parte de mim sentia orgulho dela, na verdade. A outra parte sentia vergonha de mim.

Ela parou de frente para a escada que a levaria ao andar superior e hesitou, como se quisesse dizer algo. Um cara otimista esperaria um pedido de desculpas. Por sorte, eu era tudo menos otimista.
- Eu falei sério. – disse ela, finalmente, porém sem necessidade. A estaca havia parecido séria o suficiente – Não duvide por um segundo sequer disso. Estou disposta a sair desta cripta e fingir que o dia de hoje não aconteceu. A meu ver, estamos quites. Mas isso não significa que você possa esquecer o que eu disse. Eu falei sério, e acredite, eu tenho coragem para ir até o fim. Então se houver uma próxima vez... Não se engane, será de madeira.

Dizendo isso, ela saiu.

’s POV - OFF

Xx

Estava frio e ele estava com fome.

O frio não devia incomodá-lo, mas incomodava. Talvez por ser tão novo. Havia sido transformado a menos de um ano, e em muitas coisas ainda se assemelhava a um humano. Ainda não sabia usar direito a maior parte de suas novas habilidades, porém uma delas ele dominava com perfeição.

Ele sabia se alimentar.

E sentia tanta, tanta fome... Segundo seu criador, o tal Mestre não permitia que vampiros se alimentassem em sua área. Por segurança ou alguma idiotice do tipo, não importava. A única coisa que importava era que ele e seu criador haviam passado o dia inteiro escondidos no bagageiro de um avião com outros vampiros de forma a chegarem em Los Angeles. Tudo porque aparentemente o Mestre era algum tipo de messias que eles deviam seguir. O jovem vampiro não entendia direito, mas aquele que o criara havia sido bem claro ao explicar o quanto era importante ajudar àquele vampiro e seu exército a derrubarem a Organização, coisa que ele nem sabia direito o que era.
Se afastar das áreas mais movimentadas da cidade para se alimentar estava fora de cogitação. Sua fome era muito grande. Talvez, se ele fosse cuidadoso, ninguém descobriria que havia quebrado uma regra...
O vampiro observou a multidão no centro da cidade a procura da vítima perfeita. A achou rapidamente. Uma linda garota loira, que andava apressadamente segurando um envelope contra o peito. Seu rosto parecia apreensivo e ele se perguntou o que levaria uma moça de aparência tão delicada a sair sozinha àquela hora da noite em uma cidade como Los Angeles. Teve sua resposta em seguida, ao observá-la depositar seu envelope na caixa dos Correios, localizada na esquina. Quem ainda mandava cartas hoje em dia? E o que era tão importante que fazia com que a garota olhasse de um lado para o outro como se para se certificar de que não havia sido seguida?

Bom, dentro de alguns instantes não importaria mais.

Ele a seguiu até uma rua deserta antes de atacá-la. Em poucos segundos a tinha contra uma parede, e tirou um momento para saborear o medo nos olhos da garota. Sempre fazia isso. Era como um ritual.

Naquele dia, porém, devia ter aproveitado sua vantagem enquanto a tinha.

Pois no momento que gastou por motivos estúpidos, o medo nos olhos da garota deu lugar à determinação. Em seguida, o jovem vampiro sentiu algo apertando sua garganta. O problema, no entanto, é que não havia nada apertando sua garganta.
A pressão invisível, porém, parecia apenas aumentar enquanto a garota não parava de encará-lo. Ele a largou, cambaleando para trás e levando as mãos ao pescoço. A sensação ficava mais dolorosa a cada segundo.
Era ela quem estava fazendo isso, embora o vampiro não pudesse imaginar como. Mas ele sabia o que aconteceria em seguida. Havia tido a terrível intuição que muitos têm antes de morrer. Que ele mesmo havia tido em sua primeira morte.
A pressão separaria sua cabeça de seu corpo.
Ele se sentiu subitamente grato ao perceber que estava desmaiando graças à dor. Não esperava esse tipo de piedade divina por uma criatura como ele, mas era grato por ela. Não queria estar consciente por nem um milésimo de segundo antes de seu pescoço se partir de verdade.

Sentindo a escuridão o dominar, ele fechou os olhos, sua última visão na terra tendo sido os olhos extremamente de Tara Maclay.


Capítulo 36 – Resolution


’s POV

Eu cheguei a achar que ela não viria.
Quero dizer, não havíamos nos separado em bons termos na última vez que nos falamos, cerca de três dias atrás. Meu peito ainda doía pela estaca que ela havia enfiado ali, embora eu tivesse certeza de que aquilo era apenas psicológico. Meu corpo havia sarado. Minha mente, não.
Eu não a culpava, no entanto. Não totalmente. De certa forma, já estava em paz com o fato. Não devia tê-la encurralado naquela sala como fiz. Era o que Tara havia me dito no Natal: eu explorava as fraquezas de . Havia dado um grande passo ao finalmente convencê-la de que eu a amava, apenas para meter os pés pelas mãos e voltar à estaca zero. A culpa era da minha maldita natureza impulsiva. Pensar que estava me provocando daquele jeito havia me feito enxergar tudo vermelho. Mas ok... O erro era meu. O discurso dela havia me feito entender que eu havia escolhido a estratégia errada. Tirar vantagem da atração que ela tinha por mim podia ser o modo mais fácil de estar perto dela, porém havia acabado a afastando emocionalmente. “Eu não estava pronta, , ela havia dito. Talvez se eu tivesse esperado um pouco mais, mostrado que eu não era um monstro antes de obrigá-la a encarar a atração que existia entre a gente...
Bom, não havia sentido em chorar pelo leite derramado. Restava agora remediar o que havia acontecido, e eu tinha uma boa ideia de como começar: uma resolução de Ano Novo. Eu nunca mais faria nenhum avanço sem ter um convite alto e claro da caçadora. Era uma promessa que eu fizera a mim mesmo, e dessa vez estava mais do que disposto a cumprir.
Era isso que tornava o que eu estava fazendo tão confuso. Por bem ou por mal, eu e havíamos chegado a um entendimento no meu quarto. Ela tinha limites, tinha o direito de escolher o que fazer sem que eu forçasse a barra.
O problema é que o que eu estava prestes a fazer podia ser interpretado como forçar a barra.
Essa não era minha intenção, e dessa vez a situação era um pouco diferente. O que eu estava ali para fazer não tinha nada a ver com nós dois, e sim com a ideia de Tara. precisava de férias, e eu era o único capaz de tirá-la da Organização por uns dias.
O modo como a caçadora vinha agindo nos últimos tempos era preocupante. Ela sempre fora dedicada ao trabalho, mas seu comportamento agora se assemelhava à obsessão. não duraria muito tempo se não parasse e respirasse um pouco. Se a exaustão não a fizesse perder uma luta, seria o estresse que a faria explodir. A vida que ela andava levando não podia ser saudável.
O problema, é claro, era que não enxergava isso. Tara me disse que havia tentado convencê-la a tirar uns dias de folga, mas a caçadora nem ao menos a dera tempo ou espaço para se aproximar. Isso me forçava a seguir com nosso plano B.
Era bem simples, na verdade. Como Tara havia sugerido, eu telefonara para e a avisara sobre um “ninho de vampiros” possivelmente conectado ao Mestre. A ironia no fato de eu ter dado a ela uma isca ridiculamente semelhante a que havia dado na noite da fábrica não havia me escapado. Dessa vez, porém, era diferente. Pela primeira vez na vida, eu não tinha segundas intenções. Só queria afastar daquilo tudo antes que ela acabasse se matando.
Sim, eu estava mentindo para ela de novo, mas dessa vez seria por pouco tempo. Eu estava falando sério quando disse que eu e havíamos chegado a um entendimento. Eu a respeitaria, e não só na questão física. O que ela havia dito sobre superar a influência dos homens de sua vida havia me atingido em cheio, porque eu era um dos babacas que a fizera se sentir pequena. Ela merecia mais do que isso, e por esse motivo eu não podia forçá-la a ir comigo se ela não quisesse.
Ela tinha o direito de fazer as próprias escolhas. Meu papel ali seria simplesmente levá-la para longe o suficiente da cidade, de forma que sua decisão sobre continuar ou não estaria livre da influência que Los Angeles exercia. Dentro dos limites da cidade, as responsabilidades de pareciam gigantes. Fora, ela poderia colocar as coisas em perspectiva. E se mesmo assim ela quisesse voltar, eu a traria de volta.
Ela havia lidado surpreendentemente bem com a minha ligação. No começo, havia parecido meio relutante, talvez porque aquela havia sido nossa primeira conversa real desde a fatídica noite do aniversário de Athos. Mas a ideia de conseguir algo contra o Mestre devia ter sido tentadora demais para que minha caçadora a recusasse. Ela havia aceitado me encontrar para que eu a levasse até o ninho inexistente, parecendo ter esquecido totalmente do que acontecera na última vez.
Oh, ela ficaria furiosa quando percebesse ter caído na mesma armadilha duas vezes. Essa seria a parte mais difícil do plano: convencê-la a não voltar quando já estivesse longe o suficiente e descobrisse que, de certa forma, estava sendo sequestrada. Bom, não “de certa forma”. Eu a levaria para longe pelo bem dela, mas a levaria contra a vontade, de qualquer maneira.
Ela me odiaria, mas isso não era novidade. Minha esperança era que o temperamento dela se acalmasse após perceber que eu não estava fazendo aquilo por mim. Não planejava tentar nada com ela, não queria confrontá-la e forçá-la a conversar sobre nós. Dessa vez, eu só queria ajudar. Talvez não como um amigo, mas ao menos como o parceiro dela. Nada além disso. Não pretendia ser mais do que um companheiro de viagem.
Além disso, não tinha como ela ter mais raiva de mim do que já tinha. andava visivelmente irritada comigo, embora não estivesse me tratando tão mal quanto teria no passado. Após finalmente entender que eu a amava, a caçadora parecia ter extrema relutância em me magoar. Aquilo mostrava um tipo de caráter que eu não havia esperado encontrar em . Ela podia não me amar, podia me detestar, mas não queria me ferir a não ser que fosse necessário. Com a exceção do infeliz incidente da estaca de plástico, até andava me tratando bem. Claro, “bem” para a ela significava ser fria, agindo como se minha presença não fizesse diferença e raramente me dirigindo alguma palavra, mas podia ser pior. Eu andava considerando como bom sinal a ausência de olhares feios e ofensas.
Quando ela começou a demorar, achei que não fosse mais aparecer. Já estava prestes a ligar para ela quando a vi se aproximando.
parou a poucos metros de onde eu e o carro que arranjara estávamos, sem dizer nada. O que ela podia dizer afinal? “Oi”? Soaria estranho. Havíamos conseguido chegar a um ponto no qual era impossível definir o que éramos um para o outro. Sempre fora difícil, porém agora parecíamos ter estragado tudo de vez. O que existia entre nós havia se tornado uma teia de sentimentos e ações mal resolvidas, de forma que não dava para definir como devíamos agir. Pela lógica, devíamos estar gritando e trocando ofensas, mas acho que ambos estávamos desconfortáveis demais para isso.
— Eu quero saber como você arranjou o carro? — ela perguntou, de repente, em tom indiferente, olhando para meu mais novo Mustang 66 preto.
Quando você se vê em uma relação que não consegue explicar, tem apenas duas saídas: discutir o assunto até que faça sentido ou agir como se o problema não existisse.
Adivinha o que estávamos prestes a fazer?
— Provavelmente não. — eu disse, enquanto acariciava o capô. Havia sido amor à primeira vista. Quando voltássemos, eu pretendia deixá-lo na garagem da Organização junto à minha moto.
— Certo. — disse ela, revirando os olhos daquele sua maneira já quase patenteada. A indiferença na voz continuava forte, como se minha própria existência fosse irrelevante para ela — Esse ninho de vampiros é muito longe daqui?
— Alguns minutos fora dos limites da cidade. — eu menti — Se sairmos agora, chegaremos logo.
— Ok. — disse ela, se aproximando do carro e abrindo a porta do carona — Tem certeza de que esse troço anda?
— Muito melhor do que esses carrinhos que fazem hoje em dia. — eu garanti, me sentindo ofendido em nome do Mustang — Esse bebê é um clássico, caçadora. Da época em que carros eram feitos para durar.
— Às vezes eu esqueço que você estava vivo nos anos 60. — disse ela, entrando no carro enquanto eu fazia o mesmo. jogou a bolsa que carregava no banco de trás, o que provocou um som forte de metal batendo contra metal. Eu olhei para ela, minha sobrancelha levantada em indagação — Correntes. — esclareceu a caçadora — Fiz enfeitiçá-las para que vampiro nenhum as quebre. Talvez a gente consiga pegar um para interrogar.
Eu assenti, tentando não parecer culpado, e liguei o carro.
Era estranho fingir que o fato de estarmos conversando não era estranho, se é que isso faz sentido. parecia ter escolhido ignorar todos os nossos problemas, e eu estava seguindo o exemplo dela. Era melhor daquele jeito. Estávamos prestes a passar horas sozinhos dentro de um carro, e se ela focasse em assuntos desimportantes, podia facilmente evitar o que realmente tínhamos para falar. estava fingindo que nada havia acontecido para não precisar falar sobre isso. Aquilo era tão típico dela que chegava a ser engraçado.
Não que eu estivesse ansioso para puxar os assuntos sérios com ela. Podia até imaginar a coisa toda se desenrolando: “Então, . Você terminou comigo porque estava me usando, e, para piorar, descobriu que eu realmente te amo. Isso não mudou nada, mas te fez sentir um pouco culpada. Mas aí eu enlouqueci e me aproveitei de você em uma sala isolada. Irritada, você invadiu meu quarto no meio da noite e enfiou uma estaca de plástico no meu peito. Eu sinceramente não acho que nossa relação possa ficar mais doentia. Hey, que tal passar alguns dias de férias comigo?
Por algum motivo, eu não achava que aquilo fosse funcionar muito bem.
— Às vezes sinto falta dos anos 60. — eu retomei o assunto, tentando não pensar na realidade dura — Principalmente quando ligo o rádio. — eu disse, sentindo falta da época na qual cantores não eram escolhidos por sua habilidade de dançar.
— Essa coisa ao menos tem um rádio? — ela perguntou, mexendo no painel enquanto eu começava a dirigir.
— Tem. — eu respondi — Mas só pega duas estações. Nada que eu não possa consertar depois.
— Consertar? Você pretende ficar com essa lata velha? — disse ela, me encarando, em choque — Você não costumava ter uma BMW?
— Tive que abandonar, chamava atenção demais. — respondi — Mas acho que prefiro esse, de qualquer forma. Não é um carrinho de playboy. Esses Porsches e BMWs de hoje em dia só tem valor monetário. Já Mustangs, Desotos, Impalas... Esses sim são carros com verdadeira classe.
— Nossos conceitos de “classe” são obviamente diferentes. — disse ela — Ok, eu volto atrás no que disse antes. Posso saber de onde você tirou essa... relíquia?
— De um show de Monster Truck1, acredita? Iam deixá-lo ser esmagado por um trator! — eu respondi, ainda incrédulo — O motor estava perfeito, o interior também... Ele só precisa de uma pintura e alguns pequenos ajustes para ficar como novo.
— “Como novo” é bondade demais, não acha?
— E o que você sabe sobre carros? — eu perguntei, subitamente mal-humorado.
— O suficiente para saber quando estou pegando carona em uma lata de sardinha. — respondeu, e eu precisei de toda minha força de vontade para calar a boca e não deixar aquilo evoluir para uma discussão.
Pelos dez minutos seguintes, nenhuma palavra foi dita naquele carro. Seria pedir demais que aquela paz fosse durar, é claro.
— Já estamos chegando? — indagou , enquanto revirava distraidamente sua estaca nas mãos. Eu engoli em seco.
— Não. Espere mais uns dez minutos. — eu disse, temendo pela minha vida. O fato de ela já ter a arma em mãos não seria muito bom para minhas chances de sobrevivência quando ela finalmente descobrisse o que eu estava fazendo. Já havíamos saído dos limites da cidade, então era questão de tempo até tudo começar a parecer suspeito.
Não se passaram nem dois minutos antes de falar de novo.
— E agora?
— Ainda não, caçadora. — eu respondi, em meu tom mais paciente.
— Onde exatamente está esse ninho? — ela perguntou, e ao contrário de mim, era o próprio retrato da impaciência.
Meu erro foi ter demorado demais para pensar em uma resposta.
... Pra onde você tá me levando? — ela perguntou, e algo em seu tom de voz me fez pensar no cronômetro de uma bomba relógio.
10, 9, 8...
— Pro ninho de vampiros? — eu ofereci, me sentindo estúpido.
7, 6, 5...
— Tente de novo, agora falando a verdade. — ela mandou.
4, 3, 2...
— Eu... Ãhn... Bem... — eu balbuciei, antes de desistir com um suspiro — Ok. Você me pegou. Considere-se sequestrada.
1... Zero.
— De novo?! — ela exclamou, porém sem gritar. Na verdade, parecia até um pouco... entediada? Ok... Aquilo havia sido bem anticlimático.
— Como assim, “de novo”? — eu perguntei — Nunca te sequestrei antes.
— Ah, não? E do que você chama aquele incidente com as correntes no seu quarto algumas semanas atrás?
Eu pensei naquilo por um momento.
— Desespero. — respondi, sincero.
Ela grunhiu, escondendo o rosto nas mãos. Talvez ela não gostasse que respondessem suas perguntas retóricas. Ou talvez só não tivesse gostado da resposta.
— Dá meia volta e me leva pra casa antes que eu precise te matar. — disse ela, em tom cansado.
— Ok, me escuta. “Sequestro” foi uma palavra muito forte, na verdade...
— Eu não quero saber. — disse ela, como quem não está pra brincadeiras — Me leve pra casa ou pare essa porcaria e me deixe descer.
— Ok, me escuta...
— Não. — ela interrompeu — Não tenho o menor interesse em ouvir qualquer que seja seu plano idiota. Acabou, . Lembra disso?
— Você tá entendendo errado. — eu insisti — Não tem plano nenhum. Quero dizer, nenhum que envolva o que você está pensando. Não estou fazendo isso por nós, , só por você. Não quero ficar parado assistindo você se matar naquela Organização.
— Obrigada pela preocupação, mas eu estou bem. — disse ela, em tom desagradável — Agora me leve para casa.
— Ok, só me escuta antes, e se quando eu terminar você ainda quiser voltar, eu te levo. Mas não minta, eu sei que você não está bem. Todo mundo já percebeu que você não está bem. — eu suspirei, querendo bater minha cabeça contra o volante — Há quanto tempo você não come direito, dorme direito? Pelo que eu ando observando, duvido que você tenha se permitido mais de quatro horas de sono por dia nessa última semana. Você não para, caçadora. Quando não está patrulhando, tá treinando ou pesquisando ou fazendo sei lá o quê... Tudo menos cuidar de você. Será que você não percebe que, se continuar assim, não vai ser nada útil em um confronto com o Mestre? Você tá abusando da própria energia, e uma hora vai acabar entrando em pane. Mesmo se seu corpo resistir, sua mente não vai. Você precisa relaxar, passar um tempo longe da Organização, respirar novos ares.
— Eu tenho um trabalho a fazer. — disse ela — E quem disse que eu quero relaxar?
— Eu sei que você não quer. Mas seus amigos querem, e você precisa. E é aí que eu entro. — respondi, lançando a o sorriso que eu sabia que ela odiava — Eu não estou te sequestrando, mas estou facilitando a sua escolha. Você já está no carro, já está tudo arranjado. Não foi você quem planejou nada disso, então não precisa se sentir culpada. Se quiser, ponha a culpa em mim.
— É isso que você está me oferecendo? Um passe livre de consciência? — perguntou — Eu não posso mais aceitar isso. As coisas são diferentes agora. Já disse, não quero mais usar você. Não é certo.
— Já disse que isso não é sobre nós, caçadora. — falei, tentando ignorar a ferida aberta na qual as palavras dela tocavam — Eu prometo não encostar um dedo em você, se isso te tranquilizar. Eu só quero que relaxe um pouco. Amanhã é Ano Novo, e eu não vou deixar você passar a data trabalhando.
— Não tô com saco pra festas, . — disse ela, suspirando.
— Então não iremos a uma festa. Podemos simplesmente ir pra alguma praia e assistir os fogos da cidade. Mas você não vai trabalhar. Vamos passar os próximos dias na estrada.
— E como você espera que eu justifique esses dias para Miles?
— Já está tudo explicado. Miles está fora da cidade se reunindo com as demais sedes da Organização, lembra? E, de qualquer forma, ele acha que eu estou em Nova York de novo há dois dias. Por isso venho evitando a Organização desde sábado. E quanto a você, Tara vai avisar a todos que você está explorando uma pista que recebeu sobre a possível localização de ninhos conectados ao Mestre fora da cidade. Quando a notícia chegar a Miles, ele não vai ficar nada feliz por você não tê-lo avisado, mas não há o que ele possa fazer para te punir. Afinal, você prometeu que, se obtiver confirmação, vai esperar reforços antes de agir.
— Oh, eu prometi? — perguntou ela — Interessante. E Tara tá metida nisso, claro. Não sei por que ainda me surpreendo.
— Não reclame, tivemos até o cuidado de inventar desculpas separadas para nossas respectivas ausências apenas para evitar suspeitas sobre nós dois. — eu salientei — Você não tem motivos para voltar, . É só até o dia 4, depois te trago de volta. Não acha que tirar alguns dias de folga vai te fazer bem? Pelo amor de Deus, , tente relaxar ao menos uma vez na sua vida. Não vai te matar, eu juro.
Ela ficou quieta por alguns segundos, e eu soube que estava ficando sem argumentos.
— E você espera que eu passe esses dias apenas com a roupa do corpo? — indagou ela, cruzando os braços.
— Não. Vamos parar na primeira loja de conveniências que encontrarmos. Se não me engano, tem um Walmart um pouco mais à frente, nessa estrada. Compraremos o que quer que você precise.
— Com o dinheiro de quem? — eu devia ter esperado que ela fosse perguntar isso.
— Meu dinheiro. — respondi, em tom falsamente leve.
— Que você se esforçou para ganhar? — ela perguntou, sarcástica.
— Roubar a carteira de um babaca rico sem poder usar violência requer bastante esforço, se você quer saber.
— Então você admite que é dinheiro roubado?
— Sim, é dinheiro roubado. Mas ninguém saiu machucado na história, então nem tente fingir que se importa.
suspirou e fechou os olhos, mas não tentou me corrigir.
— Ok, compras. E depois? — ela perguntou, me surpreendendo.
— Depois arranjaremos um hotel para passar o dia. Só posso dirigir à noite. — eu lembrei, e ela assentiu.
— Eu sei que vou me arrepender disso. — disse ela, finalmente cedendo. Precisei me controlar para não demonstrar o quanto o fato me agradava.
Vampiros que se respeitam não fazem dancinhas felizes, por mais que tenham vontade.
— Não vai, eu te prometo. — falei, sem conseguir evitar sorrir para ela — Acabará me agradecendo.
— Veremos. — disse ela, antes de virar o rosto para a janela.
Por um milésimo de segundo, pude jurar que vi um sorriso nos lábios de .

Xx

’s POV

Eu não sou idiota, se é isso que você está pensando.
Eu sabia que não havia ninho nenhum. Ora, a besta não havia nem ao menos se preocupado em inventar um motivo muito diferente do da noite na fábrica. Ele realmente achava que eu ia acreditar naquilo?
O que, é claro, nos leva à questão: se eu sabia que era uma armadilha, por que havia ido?
Os motivos eram vários. O primeiro e mais óbvio foi a curiosidade. Eu me recusava a acreditar que aquela era mais uma tentativa de de me deixar sozinha para... Bom, você sabe. Ele não tentaria nada naquilo de novo, não tão pouco tempo depois da nossa conversa. Eu sabia que ele havia entendido meu lado, e por isso queria saber o porquê, exatamente, de ele querer que eu fosse encontrá-lo. Não havia sido ingênua, no entanto. Por mais que confiasse que não faria nada comigo, sabia que havia uma chance de eu estar errada. Por isso trouxera as correntes. Um passo em falso e assistiria o nascer do sol preso a um poste. Eu sabia que não conseguiria me forçar a matá-lo diretamente, a assisti-lo morrer. Não depois de tudo que passamos juntos. Por isso, se ele provasse ser um monstro, eu havia criado um modo de lidar com o problema indiretamente. Felizmente, aquilo não seria necessário.
O segundo motivo era um pouco mais complicado. Eu vim porque precisava vir. Porque, diferente do que havia dito, eu sabia que aquilo não tinha nada a ver com meu trabalho.
Eu estava chegando ao meu limite, e sabia disso. Nos últimos tempos, havia me jogado de cabeça na caça, nas pesquisas, porque minhas obrigações eram só o que me restava, só o que me movia. O problema é que eu não aguentava mais. Não havia contado com o fato de que aquilo tudo seria demais para mim. A verdade era que, se não tivesse aparecido, eu provavelmente teria feito algo idiota, como desaparecer ou... Bom, não vem ao caso.
O que importa é que , por mais incrível que pareça, estava certo. Eu estava exausta, e o esgotamento que sentia me fazia ir contra meu bom senso e desejar que me fizesse esquecer do mundo. Eu estava pronta para aceitar qualquer escapatória que o vampiro me oferecesse, mesmo sabendo que me render ao vício apenas me machucaria mais no futuro. Por sorte, a oferta dele havia sido surpreendentemente decente. O plano de não envolvia nenhum tipo de contato físico entre nós, apenas alguns dias de folga, o que era exatamente o que eu queria, embora nunca fosse admitir isso em voz alta. Tinha inclusive feito acreditar que precisava me convencer a passar alguns dias longe de todo o estresse. Eu tinha uma reputação pela qual zelar, afinal. Minha raiva inicial, no entanto, havia sido verdadeira. Em minha defesa, porém, ele não deveria ter usado a palavra “sequestro” e esperado que eu não entendesse tudo errado.
Devia ser estranho o fato de eu estar disposta a passar tempo com ele mesmo após o que havia acontecido da última vez que havíamos nos encontrado. Mas o fato é que eu realmente estava começando a nos considerar quites. Eu havia o machucado seriamente, dessa vez fisicamente, e a expressão no rosto dele havia me marcado, embora eu não gostasse de admitir. Talvez eu tivesse ido longe demais, mas eu havia sentido a necessidade de fazer um gesto que consolidasse o fim daquela relação doentia que nós tínhamos. O caminho que eu e estávamos trilhando não teria levado a nada além de tragédia. Estávamos machucando um ao outro, e, na noite do aniversário de Athos, havíamos atingido o ápice. Ele havia me ferido emocionalmente, eu o ferira fisicamente, mas de certa forma isso havia igualado o placar. A partir de agora, as coisas teriam que ser diferentes. Talvez essa viagem ajudasse a nos ensinar como agiríamos um com o outro a partir de agora. Afinal, ainda trabalhávamos juntos. O convívio era inevitável, mas não precisava ser como antes. parecia disposto a tentar algo novo, então eu podia fazer o mesmo.
Eu já havia desligado meu celular e permitido que ele me fizesse sumir completamente do mapa. E se nesse tempo eu não fosse obrigada a ter que lutar contra os avanços de , melhor. Eu precisava admitir que meu corpo não ficaria feliz com a ideia, mas minha mente seria capaz de dormir em paz.
Bom, paz completa eu só teria se estivesse sozinha, mas essa não era uma possibilidade. O fato de que precisava me acompanhar não foi algo questionado por mim ou justificado por ele, já que isso significaria tocar em um assunto que precisava permanecer apenas implícito. Eu tenho tendência a me comportar de forma autodestrutiva, e ultimamente andava agindo de modo preocupante até para mim. Provavelmente não havia demorado até lembrar das últimas vezes nas quais eu me aproximara do ponto sem volta. A vez na qual eu fui atrás do bando do Mestre sozinha. A na qual eu saí correndo no meio de uma tempestade e quase morri de hipotermia. Ou alguma das mil vezes na qual saí despreparada à noite em busca de confusão, até mesmo bêbada. Eu não confiava na minha capacidade de ficar sozinha no momento. provavelmente sentia o mesmo. A gente não precisava discutir o assunto.
Não levou muito tempo até vermos o Walmart do qual havia falado. Havia um daqueles estandes de sorvete do McDonald’s junto à entrada da loja. Me flagrei encarando desejosa a imagem de uma casquinha de chocolate enquanto me dirigia com ele para as portas automáticas.
— Você quer sorvete? — perguntou , obviamente percebendo para onde havia se dirigido meu olhar.
— Não. — eu disse, rápido demais.
Ele parou e me encarou.
— Sim, você quer. — disse ele, balançando a cabeça como se incrédulo e seguindo para o estande — Podia ter simplesmente falado. Esse é o ponto de estarmos aqui, te fazer relaxar e aproveitar a vida por pelo menos alguns dias. Mas esse é o seu problema, não é? Você sempre nega a si mesma o que quer. Já tá virando algo automático.
A verdade naquelas palavras era o que tornava tudo insuportável.
— Bom, nem tudo o que eu quero é certo. — eu retruquei, parando ao lado dele em frente à bancada. Não devia ter tocado naquele assunto, mas fora ele quem havia começado.
voltou a me encarar, seu sorriso mais desagradável firme no rosto.
— Achei que estávamos falando de sorvete, mas se quiser discutir nossa relação, vá em frente.
Merda, eu não devia ter falado aquilo. Realmente, realmente não devia. Era uma má ideia. Aquilo tudo era uma má ideia. O que eu estava fazendo ali, afinal, viajando com ? De todas as pessoas do mundo, ele era a menos indicada para aquele tipo de situação. Onde eu estava com a cabeça? Céus, eu precisava dar um fim naquilo e voltar pra casa. Precisava fazer alguma coisa. Não sabia o quê, mas precisava.

Eu me voltei para o atendente e pedi uma casquinha.
Bom, aquilo era alguma coisa. Não o que eu precisava fazer, mas mesmo assim.
— Quer saber? — eu disse, de repente, voltando a olhar para — Quem você pensa que é para me criticar? Como se você fosse muito melhor do que eu!
— Bom, pelo menos eu não saio por aí me negando tudo que quero! “Oh, olhe, eu quero aquilo! Mas não vou me deixar ter porque aí não terei como reclamar da minha existência patética!”.
Oh, ele não devia ter dito aquilo. Já devia saber que meu melhor mecanismo de defesa era o ataque. Ele havia tocado naquela ferida, e eu não podia ser considerada responsável pelo que jogaria na cara dele dali pra frente.
— Oh, claro. Porque isso é muito pior do que ser alguém que engole o próprio orgulho e depois fica pelos cantos sentindo pena de si mesmo! — eu exclamei, sabendo que aquilo estava indo longe demais, porém sem conseguir me importar. Eu ainda tinha muita coisa entalada na garganta, e tava mais do que na hora de botar pra fora — “Oh, tadinho de mim! Me faço de tapete e reclamo quando pisam em mim!”.
— Ah, e você não sente pena de si mesma? — ele perguntou, rindo — É, talvez não. Não dá pra sentir pena de alguém que a gente odeia. Olha, caçadora, antes de te conhecer, eu pensava que eu não gostava muito de mim, mas comparado a você... — ele sacudiu a cabeça, ainda rindo, irritado — Eu não tenho nem metade da autoaversão que você tem!
— É claro que eu me odeio! Eu sou o tipo de pessoa que se deixou ser tocada por você! — eu gritei, apenas para machucá-lo. Uau, fazia um bom tempo que eu não sentia realmente aquela vontade de feri-lo.
— Ah, é? Então talvez eu devesse me odiar pelo mesmo motivo! Não haja como se fosse uma pessoa melhor do que eu, .
— Eu sou uma pessoa melhor do que você. — eu disse, mesmo sem ter certeza se acreditava mesmo naquilo.
— E por quê? O que te faz melhor do que eu?
— Tudo! Você... Você tentou me matar mais de uma vez! — eu acusei.
— Enquanto você nunca tentou me matar, né? — disse ele, em tom sarcástico — Matar um ao outro era a nossa função! Estou falando de crueldade. Do tipo que você mostrou quando me acusou de não ser “bom o suficiente” logo após nossa primeira vez!
— Eu só disse aquilo porque você disse antes! Mas claro que você esqueceria isso. Bem conveniente. Você é bom em esquecer coisas, não é, ? Em agir como se elas nunca tivessem acontecido? Você reclama da forma como eu te trato, como se não merecesse tudo o que eu já fiz. Como espera que eu trate bem um cara que já tentou machucar meus amigos?
— Isso foi antes! — ele exclamou, parecendo exasperado — As coisas mudaram! E isso não justifica tudo. Não justifica o modo como você me humilhou quando eu me declarei pra você!
— Ah é, me desculpe. Esqueci que depois daquilo você se tornou um príncipe. — eu disse, e foi minha vez de ser sarcástica — Nunca arremessou o suporte de uma máquina contra mim, por exemplo. — ok, era golpe baixo arrastar a noite na fábrica para aquela discussão, mas eu precisava dizer aquilo. Nunca havia esquecido aquele ato em particular dele. Havia sido o momento no qual eu realmente entendera que queria me matar.
— Eu posso te garantir, caçadora, que se aquele suporte tivesse te atingido, teria doído muito menos do que todas as vezes nas quais você deixou claro que eu não passava de um brinquedo!
Ok, ouch. Como se eu já não me sentisse culpada o suficiente por aquilo.
Minha resposta foi berrar a primeira coisa que me passou pela cabeça.
— Você sugou meu sangue até eu desmaiar e aí me acorrentou à sua cama! — eu acusei, furiosa.
— Você enfiou uma estaca de plástico no meu peito! — ele respondeu à altura.
— Ãhn... Com licença? — disse uma voz desconhecida.
Ambos nos voltamos para o atendente, que segurava minha casquinha e nos olhava, assustado.
Oh, merda.
— Nós... Ãhn... — eu comecei, sem saber o que dizer.
— Nós acabamos de fugir do hospício. — disse , pegando a casquinha das mãos do homem, deixando o dinheiro sobre o balcão e dando as costas. Não perdi sequer um segundo antes de segui-lo.
— Hospício? — eu perguntei, enquanto praticamente enfiava a casquinha na minha mão e seguia para a porta da loja.
— Consegue pensar em algum jeito melhor de explicar nós dois?
— Na verdade, não. — eu respondi, mordendo a casquinha e me sentindo mil vezes mais confortável andando ao lado do vampiro. Depois de tudo que havia acontecido e do modo como estávamos distantes desde que ele confessou ter tido contato com a gangue do Mestre pelas minhas costas, eu não sabia mais como agir perto dele. O clima de trégua tentativamente amigável que havia se estabelecido quando eu concordei em seguir viagem com ele era estranho. Mas gritar e trocar acusações? Aquele era terreno conhecido. Briguinhas e provocações eram o modo como nos comunicávamos e, se eu quisesse ser honesta, precisaria admitir que era a forma como gostávamos de nos comunicar. Aquela discussão com havia tirado um peso das minhas costas. Eu podia lidar com a proximidade dele. Não precisávamos tentar ser bonzinhos e legais, apenas sermos nós mesmos e infernizar a vida um do outro.
Talvez nosso lugar realmente fosse o hospício.

Xx

’s POV


— Ok... — eu disse, já na loja de departamentos — Eu tenho quase dois mil dólares, então pode pegar o que quiser.
— Quantas carteiras você roubou? — ela perguntou, me olhando assustada.
— Só três. Fui dar uma volta de Beverly Park2. — eu respondi, sorrindo.
— Bom, pelo menos você não está roubando gente pobre. — disse ela, terminando o sorvete e seguindo para o departamento de roupas.
— Considere-me o Robin Hood de L.A. — eu brinquei, a seguindo. parecia mais confortável, e eu estava grato por ela não parecer se importar com o fato de estarmos gastando dinheiro roubado. Com a exceção de assassinatos, a noção de moral de era tão deturpada quanto a minha, por mais que geralmente ela tentasse ocultar o fato.
— O que você está fazendo? — ela perguntou, quando eu me juntei a ela próximo às roupas — Vai ficar me seguindo?
— Bom, considerando o fato de que quem está com o dinheiro sou eu... Sim.
— Só me dá uma parte e vai esperar lá fora. — disse .
— Você quer que eu fique parado lá fora enquanto você passa só Deus sabe quanto tempo aqui dentro? Sem chance.
, eu sei que você é hiperativo, mas eu não posso fazer compras com você do lado.
— Por que não? Eu posso ajudar.
— Não pode não. — disse ela, enfática.
, eu não vou te atrapalhar, só...
— Não é isso...
— Caçadora...
— Eu não vou te deixar me ajudar a escolher lingerie! — exclamou ela de repente, atraindo alguns olhares para nós.
Só então eu percebi a parte de calcinhas e sutiãs há alguns metros de nós.
Ok, uma loja de departamentos não é como uma boutique de lingeries. As peças eram em sua maioria bem simples, mas mesmo assim... Observar selecionar pedacinhos de tecido delicados e facilmente arrancáveis não faria bem à minha resolução de Ano Novo. Peças simples, coloridas, com rendas, com enfeites. Algumas ridiculamente minúsculas. Era tão fácil imaginá-la usando praticamente todas elas...
Ok, eu precisava sair dali.
— Eu te espero na parte de comidas. — eu disse, dando as costas e me afastando o mais rápido possível.

Xx

’s POV


Eu o encontrei alguns minutos depois, examinando as prateleiras de bebidas alcoólicas. Típico.
— Já? — ele perguntou, sem se virar para mim, analisando atentamente uma garrafa de Whisky.
— Aham. Não vi necessidade de ser muito seletiva. — eu disse, balançando os ombros e olhando os itens que havia colocado em uma cesta de compras. Três camisetas, uma branca, uma preta e uma vermelha. Dois shorts jeans. Um pijama. Um par de chinelos. Algumas meias. Dois sutiãs e um pacote de calcinhas simples. Uma mochila para guardar tudo depois. Eu estava determinada a não me arrumar muito, então havia mantido tudo o mais simples possível. Fora as roupas, eu só havia pegado uma escova de cabelo, um kit com escova e pasta de dentes e um potinho de creme hidratante, a única vaidade que me permiti. Passei longe de perfumes e maquiagem. A única pessoa que eu veria bastante nos próximos dias era . Eu não ia fazer esforço e ficar bonita para ele.
— Ótimo. — disse ele, começando a encher a própria cesta com garrafas e mais garrafas de diferentes bebidas.
— O que você pretende fazer, encher uma piscina com isso? — eu perguntei, sem saber se ria ou se ligava para o Alcoólicos Anônimos.
— Nós vamos passar quase uma semana juntos, caçadora. Não acho que vamos sobreviver se eu estiver sóbrio o tempo todo. — disse ele, levantando a cesta e seguindo para as estantes de comida.
— Vai dividir, pelo menos? — eu perguntei, o acompanhando.
— Oh, claro. Porque você e álcool são uma combinação excelente. — disse ele, sarcástico.
— Cala a boca. — foi minha resposta eloquente, enquanto começávamos a percorrer a seção de comidas. Era melhor não aprofundar aquele assunto.
O tempo que eu gastei de menos no departamento de roupas acabei gastando de mais no de comidas. Acho que até aquele momento eu não tinha percebido o quão esfomeada estava. Fora aquele sorvete, a única coisa que eu havia comido o dia inteiro havia sido um sanduíche que eu roubara da cozinha no almoço. Como resultado, eu acabei pegando praticamente um de cada produto nas estantes, sob o olhar assustado de , que só pegara para si um saquinho de amendoim.
— Que foi? — eu perguntei, mas ele apenas continuou encarando a segunda cesta de compras que eu havia pegado para colocar a comida — Eu gosto de chocolate. E queijo.
— Eu notei. — ele respondeu, ainda olhando para a cesta que praticamente só tinha produtos de chocolate e queijo — Como você... Quero dizer, sei que você só é meio humana, mas é só isso que você come? Porcarias industrializadas? Dá pra sobreviver disso?
— Quer que eu pegue uma salada, mamãe? — eu disse, revirando os olhos. Eram as minhas férias. Eu não ia deixá-lo julgar meus hábitos alimentares.
, é sério. Eu to passando mal só de olhar pra essa cesta.
— Que bom que não é você que vai comer nada disso. — eu disse, começando a escolher batatas fritas até me deparar com uma de sabor churrasco. Era a que eu menos gostava, mas também era a favorita de um dos meus melhores amigos. Eu peguei uma sacola, analisando a embalagem e tentando lembrar se era ou que gostava daquele sabor.
Por incrível que pareça, foi assim que começou.
Por mais que eu tentasse me lembrar, não conseguia. Havia me esquecido completamente daquilo, assim como de tantas outras coisas. Qual era a cor favorita de ? O que andava assistindo na TV? Fazia séculos que eu não passava tempo com eles. Com eu até conversava e assistia filmes de vez em quando, mas e ? Qual fora a última vez que nós fizemos algo não relacionado a trabalho juntos?
— Caçadora, onde você tá? — eu ouvi perguntar, meio brincando e meio preocupado, enquanto eu não desviava o olhar do pacote que segurava.
— Eu sou uma péssima amiga. — eu respondi, em voz baixa.
— Você conseguiu essa informação no pacote de batata fritas? — perguntou , confuso, olhando para o pacote por cima do meu ombro como se procurasse algo escrito nele.
— Eu nem consigo lembrar qual o sabor preferido dos meus amigos. — eu continuei, ignorando — Eu não converso com eles. Não como antes. Faz séculos que não presto atenção neles. Faz séculos que eu não presto atenção em ninguém. Eu sou péssima.
— Você vive ocupada, . Eles entendem. Desde que o Mestre apareceu, as coisas andam caóticas.
— Começou bem antes disso. A culpa é minha. É tudo culpa minha. Eu sou a caçadora. — Isso é tudo que eu sou, eu pensei. Uma máquina. Um robô que só tem uma função. Eu soltei o pacote de batatas como se ele pegasse fogo — , como eles me suportam? Como você me suporta? Por que vocês não desistem de mim?
— Porque eles são seus amigos. — disse ele, parecendo preocupado. Em alguma parte da minha mente eu entendia aquilo. Reconhecia o quão atordoada eu devia estar soando — E eu... , olha pra mim. Olha pra mim. — ele insistiu, após eu ignorá-lo da primeira vez — Você tá entrando em choque. Fugiu do que anda sentindo por tempo demais. Tá tudo bem, vai passar, você só precisa respirar fundo. Você desaprendeu a relaxar. É por isso que estamos aqui, lembra? Você precisa de um tempo longe de L.A. pra colocar as coisas sobre perspectiva. Deixar a caçadora descansar e reencontrar a que tá presa embaixo de todas essas camadas de problemas. Essa é a sua missão aqui. Vai ficar tudo bem, eu te prometo. A gente vai sair daqui e encontrar um bom quarto de hotel pra você. Eu te garanto, você vai ficar bem após uma boa noite de sono. Há quanto tempo você não dorme por mais de 8 horas?
— Eu não lembro. — eu disse, me sentindo desorientada. Meu coração havia acelerado de uma hora para a outra. Aquela havia sido a gota d’água e eu estava à beira de um colapso. O estresse dos últimos dias finalmente estava me derrubando. A traição de . Tudo o que acontecera no aniversário de Athos. O fato de o Mestre estar na Irlanda negociando reforços e eu não poder fazer nada quanto a isso. O sentimento de inutilidade, vulnerabilidade. Solidão. As noites sem dormir. Os dias sem comer direito. A gradual perda dos meus amigos. Eu me sentia doente.
— Ok, não importa. — disse , a preocupação clara em sua voz — Tá tudo bem agora. Ok? Vem comigo.
Eu assenti com a cabeça ou ao menos acho que assenti. Minha cabeça doía. Senti começar a me guiar para algum lugar. Eu não conseguia determinar para onde. Por que estava tão quente aqui? Onde eu estava? O que estava acontecendo?
Eu comecei a ver algumas coisas. Imagens estranhas, imagens familiares. Uma leoa em uma jaula. Eu em uma jaula. Pessoas rindo pelas minhas costas. Meus amigos, longe... Eu não alcançava. me abraçando. me abraçando. As presas dele no meu pescoço. Uma música. Minha canção de ninar favorita...

Take a little star and put it in your pocket…3
(Pegue uma estrelinha e coloque-a no bolso)


Eu correndo para o mar. Alguém me observando brincar no parquinho. Pessoas mortas por minha culpa. Vítimas de algum vampiro que eu não pegara. Eu lutando. O Mestre salvando minha vida. A droga da música.

Save it for the rainy days…
(Guarde-a para os dias chuvosos)


A canção foi ficando mais alta... Mais alta. Ensurdecedora.
E então tudo ficou silencioso.

1 — Monster Truck é um show no qual um trator esmaga veículos menores com suas rodas.
2 — Uma das vizinhanças mais ricas de L.A.
3 — Essa é uma das canções que o vampiro menciona escutar a caçadora cantar enquanto a leva bêbada para o quarto no capítulo 13. Por que eu estou dizendo isso? Pode ser só uma curiosidade. Ou pode ser importante.


Capítulo betado por Caroline Cahill.



Capítulo 37 — Promises


’s POV

Ela estava inconsciente há quase 20 horas.
Os batimentos cardíacos e a respiração estavam normais, por isso eu parara me forçara a me acalmar. Ela só estava dormindo. Quando o corpo finalmente permitiu-se desligar, a exaustão tomou conta.
Isso, no entanto, não suavizava a situação. Ou a minha culpa. não havia entrado em choque psíquico por causa de uma porcaria de pacote de batatas fritas. Indiretamente, eu havia feito aquilo com ela.
A caçadora havia começado a agir de forma preocupante depois que eu confessei parte da minha traição. Tudo o que acontecera nos dias seguintes, no Natal e na festa de Athos, apenas serviram para piorar a situação.
Eu sabia que não era o único responsável pelo estresse de , mas havia sido eu quem perturbara o frágil equilíbrio da caçadora daquela vez. Ela sufocava tudo o que sentia, e quando as coisas começavam a ficar grandes demais para serem ignoradas, desastres como esse aconteciam.
Ela havia desmaiado ainda dentro da loja. Tive que carregá-la para o carro com a ajuda de um funcionário enquanto os demais computavam nossas compras. Disseram para eu levá-la para o hospital, mas eu não podia fazer isso. Um exame mais apurado revelaria facilmente a real espécie de . E, além disso, eu conseguia escutar seus sinais vitais. Ela era forte. Ficaria bem. Só precisava descansar.
Eu havia parado no primeiro hotel de beira de estrada que encontrei, alugando dois quartos ligados por dentro por uma porta, que eu havia deixado aberta desde que chegamos. Minha vontade era pegar apenas um quarto e monitorá-la mais de perto, porém eu sabia que não apreciaria a ideia quando acordasse.
O resto da noite e o dia seguinte não haviam sido calmos. Tive que entrar no quarto dela três vezes para acalmá-la, pois começara a gritar e se debater. Em uma das vezes, precisei segurar seus braços para fazê-la parar de se arranhar. Ela havia permanecido inconsciente durante todos os incidentes. Nas últimas sete horas, porém, havia se acalmado, o que me possibilitou dormir um pouco.
Eu havia acordado novamente há uns dez minutos, e consegui me forçar a levantar da cama para aquecer um dos pacotes de sangue que eu trouxera em um cooler no microondas. O relógio do aparelho marcava sete horas da noite. Eu já estava me conformando em passar o Ano Novo naquele quarto de hotel quando ouvi a voz dela no quarto ao lado.
? — ela chamou, em tom ansioso. Eu corri para a porta.
estava sentada na cama, alerta, olhando os seus arredores e parecendo um pouco assustada. Seus olhos me encontraram e ela pareceu se acalmar um pouco.
— Você desmaiou no Walmart. — eu respondi antes que ela perguntasse, usando a voz mais calma que eu tinha — Acho que entrou em algum tipo de estado de choque. Você tava exausta, então eu te trouxe aqui e te deixei dormir. Você ficou inconsciente por umas 20 horas, mas tá tudo bem. Você está bem.
Ela assentiu devagar, parecendo processar as informações aos poucos. Sua respiração e batimentos cardíacos começaram a voltar ao normal.
— Eu fiz isso? — ela perguntou, estendendo os braços arranhados na minha direção.
— Sim. — eu respondi — Você estava gritando.
— Acontece às vezes. — ela disse, suspirando — Eu costumo acordar, no entanto. Acho que estava cansada demais dessa vez — ela levou as mãos à cabeça — Você não devia ter visto isso. Desculpa.
— Tá tudo bem. — eu disse, mais do que surpreso com o pedido espontâneo de desculpas — Não é novidade. Já aconteceu comigo mais vezes do que eu gosto de admitir. — o olhar curioso dela me fez perceber o que eu acabar de revelar — Então, o que você quer fazer hoje? — eu perguntei, rápido demais em minha tentativa de mudar de assunto.
— O quê? — ela perguntou, confusa. Eu não podia culpá-la. Há alguns segundos, estávamos discutindo transtornos de sono, e agora eu a indagava sobre passeios.
— Daqui a pouco é Ano Novo, caçadora. — eu esclareci — O que você quer fazer?
— Oh. — ela disse, balançando a cabeça como se tentasse reorganizar as ideias — Ano Novo. Viagem. Claro. — ela assentiu para si mesma — E eu não sei. No momento, eu só quero tomar um banho e lavar essas roupas suadas e amassadas. E comer alguma coisa. Céus, eu tô morrendo de fome.
— Ok. — eu respondi — Faz isso então. A lavanderia é do lado da recepção, e eu deixei suas compras aí do lado da sua cama. E depois... Bom, se você quiser, a gente pode fazer o que eu sugeri ontem. Ir pra uma praia ou algo assim. Ou não. Você que sabe.
— Eu gosto de praias. — ela assentiu, ainda parecendo meio confusa — Do mar.
— Eu sei. — eu disse, lembrando do maldito quadro no quarto dela e tentando não ceder sob a enxurrada de culpa que senti — Bate na porta do meu quarto quando estiver pronta. — dizendo isso, eu fechei a porta e me pus a planejar o que faria em seguida.

Xx

’s POV


Eu queria agradecer a ele, mas não iria.
Não iria porque seria estranho. “Obrigada por tomar conta de mim enquanto eu estava em choque. Choque que não estamos discutindo”. Ele havia sido decente o suficiente para não me forçar a falar sobre o assunto. E eu já estava envergonhada demais só de pensar pelo que o fizera passar. Meus ataques noturnos costumavam ser bem violentos e, somado a isso, o fato de que eu entrei em curto-circuito no meio de uma loja de departamentos era o suficiente para me fazer querer cavar um buraco e me esconder nele por bastante tempo. Mas não havia insistido em entender o que havia acontecido, e esse era mais um motivo pelo qual eu me sentia grata.
Eu estava no banco do carona do Mustang, usando minha nova camiseta vermelha, um short e os chinelos que havia comprado. O resto das coisas estava na mochila nova, no banco de trás, já que seguiríamos viagem rumo a lugar nenhum.
No momento, porém, ele estava me levando para uma praia. Eu não havia me oposto à ideia, e não apenas por estar confusa na hora em que ele sugeriu ou pelo fato de gostar de praias. Na verdade, eu simplesmente não queria dizer não a ele. Não depois da noite anterior. Eu podia não ser capaz de me forçar a agradecê-lo, mas podia fazer aquilo. Um gesto de boa vontade. O estabelecimento de uma trégua que começou quando eu aceitei tê-lo como companheiro de viagem.
Eu não estava prestando muita atenção no caminho, por isso apenas percebi que havíamos saído da estrada quando estacionamos no pé de um morrinho de pedra.
— Eu achei que íamos para uma praia. — eu perguntei, abrindo a porta do carro e saindo após ver fazer o mesmo.
— E nós vamos. Esse é um atalho. — ele explicou, olhando para a subida de pedras — Acha que aguenta uma pequena escalada? — ele sinalizou com a cabeça para a subida de pedras.
Em vez de validar aquela pergunta idiota com uma resposta, eu segui para as pedras.
O morro era pequeno e bem inclinado, de modo que não levou nem três minutos para subirmos. Ao chegarmos lá em cima, deixei que me guiasse por entre as árvores que ocupavam o topo do morro. Já estava prestes a perguntar por que estávamos atravessando o que parecia ser uma mata fechada quando finalmente chegamos a uma área aberta.
Era uma espécie de pico, e, olhando para baixo, eu podia ver uma pequena praia deserta. Era bonito. Não o tipo de beleza que vai parar nas revistas de turismo, mas bonito. E, mais importante, calmo.
— Como você encontrou esse lugar? — eu perguntei, olhando a minha volta e me sentindo grata pela minha visão apurada. Além da lua e de algumas luzes ao longe, quase não havia iluminação naquele lugar.
— Perguntei ao dono do hotel se ele conhecia algum lugar calmo e bem isolado por essas bandas. Ele me explicou o caminho para cá. Eu vim conferir enquanto você se arrumava. — ele respondeu.
— Como não tem ninguém mais aqui? Ou lá embaixo? — eu perguntei, apontando para a praia.
— Porque eu mostrei minhas presas e fiz todo mundo sair correndo. — disse ele, sério. Eu estava prestes a repreendê-lo quando ele revirou os olhos e continuou — Você realmente não tem um pingo de senso de humor. É brincadeira, caçadora. Não precisa me dar o olhar de morte. Duvido que muita gente conheça um pico no meio de uma estrada, e, quanto à praia, é pequena. É necessário ser tão antissocial quanto nós dois pra vir para cá em vez de para lá. — ele disse, apontando uma praia maior no horizonte, na qual eu podia ver luzes de fogueiras — Tá tendo uma festa de Ano Novo ali. Com fogos e a palhaçada toda. A visão daqui não vai ser a melhor, mas pelo menos a gente evita a multidão.
— Não estou no clima para multidão mesmo. — eu disse, me sentando na grama.
— Eu sei. E o público estragaria o que a gente veio aqui para fazer.
Eu apenas olhei para ele, meu queixo caindo um pouco. Não era possível. Ele não podia...
— E dizem que eu que tenho a mente suja. — disse ele, balançando a cabeça — Respira, caçadora. Não é nada disso que você tá pensando.
— Quem disse que eu pensei algo? — eu perguntei.
— Sua cara de espanto. Levanta. — ele pediu.
— Por quê? — eu perguntei, porém me levantando.
— Por ontem. — ele disse, simplesmente.
Estava bom demais para ser verdade. Claro que ele ia acabar me forçando a encarar algo que eu não estava pronta para encarar. Era a especialidade dele, não era?
— Eu não quero falar sobre isso. — eu disse, impassível.
— Eu sei, e você não precisa. Porque nada que a gente conversar vai mudar nada. Não é como se você não entendesse por que entrou em crise ontem, ou por que tem ataques durante a noite. E eu não estou falando dos motivos específicos, e sim do geral. Esse tipo de coisa acontece porque você não sabe como expressar seus problemas, botar tudo pra fora. — ele olhou para mim de forma estranha. Como se soubesse pelo que eu estava passando. Como se entendesse — É difícil, porque sentimentos não são coisas que você pode simplesmente colocar em palavras. A gente pode explicar as situações que os provocaram, mas o que elas fazem a gente sentir? É impossível. É por isso que as pessoas gritam, choram ou partem para a violência. Pois só assim dá pra exteriorizar aquilo que é indefinível.
— Nada disso explica o que eu tô fazendo aqui. — eu disse, um pouco menos dura do que antes.
— Você já teve vontade de gritar, caçadora? Não contra o travesseiro ou enquanto está dormindo. Gritar de verdade, urrar, quebrar tudo. Você já quis gritar e não pôde por medo de alguém te ouvir? Já esteve naquela situação em que queria explodir, mas teve medo de que alguém viesse ver o que estava acontecendo? Eu já. É horrível, não é? É como se algo ficasse preso na nossa garganta, dia após dia, crescendo cada vez mais. Mas você não pode colocar pra fora, porque, em uma cidade grande, todo mundo ouve tudo. Não há paz, solidão. Você abafa o que sente por vergonha de botar para fora, exibir para todos à sua volta.
— Aonde você quer chegar? — eu perguntei, detestando o modo como as palavras dele me atingiram.
— É simples. O que aconteceu ontem e hoje mais cedo não foi um fato isolado. É algo que vai se repetir várias vezes, pelo tempo em que você continuar a sufocar o que sente. Você precisa colocar isso pra fora, e por isso eu te trouxe aqui. — ele disse, abrindo os braços — Não tem ninguém por perto além de mim, caçadora. Ninguém vai ouvir ou te ver perdendo o controle. Você pode ir em frente e fazer o que quiser.
— Como assim? Fazer o quê? — eu perguntei, confusa.
— Eu não sei. Gritar. Chutar. Socar o que tiver pela frente. O que for necessário pra tirar esse desespero, essa ira de dentro de você. Eu não tô dizendo que isso vai te curar, que você vai parar de acordar gritando no meio da noite. Mas é um começo. Você precisa colocar essa tensão pra fora, porque só assim vai ser capaz de começar a lidar com os problemas que a causam.
— Eu não posso simplesmente começar a gritar, .
— Claro que pode. — e, dizendo isso, ele pegou uma pedrinha e jogou contra a minha perna.
— Ai! — eu exclamei, o olhando como se ele fosse louco.
— Bom começo. Mais alto agora.
— O que há de errado com você?!
— Muitas coisas, mas isso não vem ao caso. Estamos aqui para lidar com o que há de errado com você. — disse ele — Mas acho que você precisa de incentivos. Sem problemas, a gente pode conversar. O que acha de começarmos por ?
— Cala a boca, . — eu avisei, sentindo a fúria começar a surgir na base do meu estômago.
— Assunto delicado? Imagino que sim. Ser abandonado nunca é divertido.
— Eu mandei calar a boca! — eu insisti.
— Ok, ok. Quer falar do que então? Dos seus pais? Do fato de você não ser humana? Do Mestre?
, para. Eu tô te avisando.
— Vamos falar de trabalho então. De caça. Como você se sente tendo essa responsabilidade? Sabendo que nunca vai poder parar de caçar?
— Cala a boca!
— E todas aquelas vítimas de vampiros? O fato de que a próxima sempre pode ser alguém que você conhece. Um amigo seu.
— CALA A BOCA!
— Ou você. Oh, não, na verdade você gostaria disso. Você tá tão perdida que adoraria que algo assim acontecesse. Esse é o problema, não é? Você se odeia. Tudo pelo que você passou te fez se odiar. É por isso que esse ódio todo está dentro de você. Porque ele é direcionado a si mesma.
— CALA A BOCA! — eu gritei, caindo de joelhos no chão e escondendo a cabeça nas mãos. Eu continuei gritando. Gritei o mais alto que pude. Gritei por mais de vinte anos de raiva acumulada. Raiva de mim, raiva dos outros, raiva da vida. Gritei até minha garganta não aguentar mais, até não ter mais forças para gritar.
O silêncio que se instaurou em seguida durou alguns minutos, até quebrá-lo com uma simples pergunta:
? Você tá bem?
— Não. — eu respondi, e teria rido da pergunta se pudesse. Mas risos não combinavam com aquela energia que eu estava sentindo, energia que havia sido despertada em meio a meus gritos. Eu havia tocado algo dentro de mim tão profundo que eu nunca antes havia percebido. Uma espécie de ira pura, dominante. Eu estava tremendo com ela, sentindo-a se espalhar pelo meu corpo. O nó na minha garganta havia sumido, mas no lugar dele havia surgido outra coisa. Uma sede de violência que queria ser saciada.
— Do que você precisa? — perguntou , dessa vez fazendo a pergunta certa.
— Eu quero machucar alguma coisa. — eu admiti, com uma voz que não parecia a minha, mas confessava meus desejos mais profundos. Eu queria causar dor. Queria machucar alguém da mesma forma que estava machucada.
não respondeu, o que me forçou a levantar a cabeça e encará-lo.
— Vai em frente. — disse ele, me olhando nos olhos.
— Não. Você não. — eu disse, me levantando. Eu não podia ferir . Já havia o machucado o suficiente por uma vida inteira.
E ele me amava. Eu podia ver isso com clareza naquele momento, na intensidade nos olhos dele. Ele me amava e faria qualquer coisa por mim. Até me deixar descontar toda aquela fúria que eu sentia nele.
Eu não podia machucá-lo. Não agora. Não novamente.
— Eu não me importo. — ele insistiu, e aproximando de mim — Eu entendo. Você quer bater em algo, não quer? Ou alguém. Alguém que sinta dor, alguém que você possa fingir que é você mesma. Eu não me importo, caçadora. Não tenho medo de dor, você sabe disso.
— Eu não posso machucar você. — eu insisti, balançando a cabeça.
— Não? Bom, eu posso machucar você. — ele disse, me empurrando pelo ombro.
— Não faz isso. — eu pedi, lutando contra todos os instintos que me incitavam a me defender. Eu nunca havia deixado alguém me bater sem revidar e sabia disso. Estava usando isso.
— Eu não vou deixar o que aconteceu ontem acontecer de novo. — disse ele, convicto, me olhando com uma seriedade que me assustava — Se é disso que você precisa pra exorcizar seus demônios, que seja. — ele me empurrou de novo — Eu não vou parar até você tirar todo esse peso de dentro de você. — outro empurrão. E mais outro.
No quinto empurrão, eu o empurrei de volta.
No momento que eu o vi cambaleando para trás, algo mudou dentro de mim. Um estalo vindo da origem de todo aquele ódio. Minha metade vampira. Meus instintos animais. Minha sede de sangue.
Antes que eu desse por mim, me vi socando o abdome de uma vez. E mais outra. E outra, até eu não consegui mais parar. O vampiro não movia um músculo, apenas me deixava despejar toda minha frustração nele, em socos seguidos, mal dados, com toda força que eu ainda tinha. Em algum ponto, eu comecei a chorar. Novamente, pela milésima vez nos últimos tempos, eu comecei a chorar. E na medida em que os soluços aumentavam, meus punhos paravam, até eu me deixar cair na frente de , apenas evitando o chão devido aos braços dele, que se fecharam em volta do meu corpo, me segurando.
Eu não sei por quanto tempo deixei que ele me abraçasse. Só sei que, em algum ponto, minhas lágrimas secaram e eu comecei a perceber algumas coisas. Como as palavras de conforto que ele sussurrava para mim, que soavam estranhas, doloridas. Ou a forma como ele se mantinha de pé, como se aquilo exigisse um esforço sobre-humano.
Eu me afastei um pouco, secando minhas lágrimas. Antes que pudesse interferir, eu segurei a barra da camisa dele e a levantei.
Não. Eu pensei, enquanto cambaleava para trás, sentindo meus olhos arderem com as lágrimas que ameaçavam voltar a cair. Eu tapei minha boca com a mão. Não.

Eu tinha quase certeza de que tinha quebrado uma das costelas dele.
, se acalma. — disse ele, e eu ri. Ri de nervoso, de desespero. Eu havia feito aquilo com ele e era quem me consolava.
— Eu te machuquei. — eu disse, com minha risada maníaca — Eu quebrei sua costela. Típico. O que eu não quebro ou destruo, afinal?
— Não tá quebrada. — disse ele, sentando-se sobre uma pedra perto da beira do pico. As palavras dele soavam abafadas, mas determinadas — E mesmo se tivesse, sabe quantas vezes eu quebrei as costelas ou outras partes do corpo nos últimos cem anos? Eu falei sério quando disse que não me importo. Te ver sofrendo dói mais que qualquer machucado que você possa causar com seus punhos. Entre o que aconteceu ontem e uma costela contundida, eu escolho a costela umas mil vezes.
— Eu enfiei uma estaca em você, lembra? — eu disse, minha voz tremendo enquanto eu me aproximava dele — E hoje você me deixa te bater. Você gosta quando eu te maltrato? Por que você me deixa te machucar desse jeito?
— É diferente. — disse ele — A estaca eu não pedi. Não me preparei para aquilo. Isso foi pra te ajudar. Você teve meu consentimento.
— Abuso é abuso, . — eu disse, meus olhos ainda ardendo, mas as lágrimas se recusando a cair, como se eu não merecesse aquele alívio — O fato de você estar tentando me defender agora só piora a situação. Será que você não percebe que precisa parar? Você acha que está me ajudando, mas não está. Não preciso que você valide tudo que eu faço, , preciso que você seja sincero e me diga quando eu estou errada, quando fui longe demais. Do contrário, eu não vou conseguir ser nada além disso. Eu sou um monstro.
— Não, não é. — negou ele — Você é metade vampira. É assim que a gente funciona. Violência. Raiva. São parte da nossa natureza. Você só precisa aprender a controlar essas coisas.
— Aprender como? Machucando você? — eu perguntei, odiando-o por ser tão compreensivo.
— Você não me machucou, . Acredite quando eu digo, isso não é nada. Tô acostumado a sofrer dez vezes isso e continuar de pé. Eu vou ficar bem. Eu me curo rápido.
— Vai se curar mais rápido com isso. — eu disse, sentando-me ao seu lado e oferecendo meu pulso.
Em vez segurar a minha mão e levá-la aos lábios, ele apenas olhou para mim.
— Se eu te morder agora, vai doer. — ele avisou, e eu entendi o que ele queria dizer. Para que não doesse, ele teria que dar o outro tipo de mordida. A mais... íntima. A que, dada nossa situação atual, só deixaria tudo mais confuso.
— Eu sei. É o mínimo que eu posso fazer. — eu disse, e ele não insistiu. Apenas pegou meu pulso e cravou as presas nele.
Ele não estava exagerando quando disse que iria doer. Doeu. Pela primeira vez, não havia nada de sensual na mordida de . Doeu muito, da forma que não costumava doer, mas eu não ousei dizer um “ai”. Eu devia aquilo a ele.
Ele sugou apenas duas vezes antes de retirar as presas e fechar os furos com a saliva. Eu trouxe meu pulso de volta para o meu colo e permaneci ali, sentada ao lado dele em silêncio, pelo que pareceu uma eternidade.
— Como você tá se sentindo? — ele perguntou, finalmente quebrando o silêncio.
— Eu tô ok. — eu respondi — Doeu, mas eu já tive piores.
— Não tô falando disso. — disse — Além da culpa, como você tá se sentindo?
Eu precisei pensar um pouco sobre aquilo. A verdade era que eu estava... bem. Ok, talvez não bem, mas melhor. Por mais que fosse horrível admitir aquilo, dadas as circunstâncias, eu precisava admitir que estava certo. Depois de extravasar aquela raiva, saciar aquela sede de violência, eu comecei a me sentir melhor. Como se um peso que eu vinha carregando há dias tivesse subitamente deixado meu corpo.
— Mais leve. — eu admiti, envergonhada. Parte de mim queria mentir, fingir que eu me sentia péssima, mas eu não queria ser desonesta com ele.
— Viu? Eu te disse. — ele falou, sorrindo — E olha. — levantou a camisa, e a marca nas costelas dele, que antes era roxa, tinha agora uma cor avermelhada — Já estou me curando. Disse que não era nada.
Como ele conseguia fazer aquilo? Agir como se a situação fosse leve, como se tudo o que tinha acontecido fosse normal. Não era. Aquilo tudo era tão errado. Eu havia machucado alguém que passara praticamente um dia inteiro cuidando de mim, e, por algum motivo deturpado, aquilo me fazia me sentir melhor.
Mas não era machucá-lo que me fazia me sentir melhor. Não, na verdade aquele era o único fato que fazia com que eu me sentisse mal no momento. Era o alívio daquela fúria dentro de mim que estava me deixando leve, fúria essa que só soube ser transmitida através dos meus punhos. Era a violência na minha natureza, aquilo que eu vinha negando existir há tanto tempo. Meu lado vampira. A essência da minha autoaversão, mas uma parte inegável de quem eu era.
Naquele momento, sentada ao lado de nos últimos minutos do ano, eu finalmente percebi. Eu precisava aceitar aquela parte de mim ou então o ciclo continuaria a se repetir. Eu continuaria a perder a cabeça. Continuaria a ter ataques de fúria violenta. Continuaria machucando as pessoas à minha volta. Estava mais do que na hora de parar de fingir ser humana. Aquilo era o que eu queria ser, e não o que eu era. Minha real natureza era híbrida, e o que eu tinha de humana, tinha em igual parte de vampira. Aquela era uma realidade imutável, e uma com a qual eu precisava aprender a conviver.
Naquele momento, eu tinha uma resolução de Ano Novo. Era hora de explorar a vampira dentro de mim. De conhecê-la. Sem a ajuda dela, seria impossível me encontrar, atingir a superfície do mar de mágoas no qual eu havia me afogado.
Por sorte, eu não precisaria fazer nada disso sozinha. Ou ao menos era isso que o vampiro ao meu lado havia me levado a acreditar.
? — dessa vez fui eu quem quebrou o silêncio.
— O que foi? — ele perguntou.
— Me promete uma coisa, antes que o ano termine. — eu pedi — Promete que não vai mais me deixar te machucar.
...
— Só me promete isso, ok? É o único modo de perdoar a mim mesma. Por favor. Isso tem que acabar.
— Já disse que você não me machucou. — ele insistiu.
— Machuquei sim, mais de uma vez. Mas não vou machucar mais. Essa é a minha promessa, mas eu também preciso da sua. Então promete, ok? Promete e a gente deixa tudo isso para trás.
— Ok, se isso significa que você vai parar de se culpar, eu prometo. E prometo também que não vou mais machucar você. Tá mais do que na hora da gente estabelecer um cessar-fogo.
— Certo. Temos um acordo, então. — eu disse e, poucos segundos depois, os primeiros fogos começaram a estourar. Já devia ser meia-noite.
— Feliz Ano Novo, pequena. — disse ele, e meu primeiro impulso foi insistir para que ele não me chamasse assim. Mas eu havia acabado de fazer uma promessa. Eu podia deixar aquilo passar, pelo menos daquela vez.
— Feliz Ano Novo, . — eu respondi, observando os fogos iluminarem o céu noturno.

Capítulo betado por Caroline Cahill.




Capítulo 38 — Words


[N/A: É importante ter lido o especial de Ano Novo “Bite Me – A New Life”, Sessão “Especiais”, “Especiais de ano novo”. Esse capítulo contém alguns trechos da música Mad World, de Gary Jules.]

’s POV

Por vários minutos, só o que fizemos foi olhar o céu.

Não havia muito o que dizer. Além disso, eu gostava daquele silêncio, pois era do tipo confortável. Não havia tensão no ar. Momentos como aquele, perto de , eram mais raros que estrelas cadentes. Era necessário aproveitar.
Eu só desviei meu olhar dos últimos fogos de artifício quando me ofereceu uma garrafa de champanhe. Eu a reconheci como uma das que ele havia comprado na noite anterior, mas isso não era o mais importante sobre ela. Não. O fato mais curioso sobre aquela garrafa era ela já estar pela metade.
Eu comecei a raciocinar. Antes de sairmos, enquanto colocávamos as coisas no carro, havia terminado uma garrafa de uísque. Julgando que ele guardara o champanhe para a virada do ano, isso significava que havia consumido ao menos uma garrafa e meia de bebidas alcoólicas, havendo a possibilidade de ter bebido mais antes de termos saído do hotel. Só foi necessário apurar um pouco o meu olfato para reconhecer o cheiro de álcool vindo dele e chegar a uma conclusão bem simples.

As ações dele essa noite haviam sido facilitadas por aquilo que chamam de “coragem líquida”.

Ele não estava bêbado, é claro. Longe disso. Se já era complicado me embebedar, embebedar um vampiro completo requeria forte determinação e muitas garrafas. No entanto, provavelmente havia recorrido ao álcool para relaxar e eu devia ter percebido isso antes. O modo como ele nem piscou antes de me incentivar a liberar minhas frustrações nele, o modo como havia me olhado nos olhos sem vacilar por nem um segundo. Ele havia se preparado antes de me trazer aqui.
Após dar um pequeno gole no champanhe e devolvê-lo, eu o observei virar a garrafa como se nem sentisse. Ok, fazia sentido o rapaz ter bebido antes de chegarmos aqui. O que não fazia sentido era o fato de ele parecer determinado a continuar.
- , mais devagar. Isso não é água.
- Eu não bebo água, caçadora.
- Você entendeu o que eu quis dizer – eu disse, sem paciência para gracinhas. – Não é sangue também, então pode ir parando, porque eu não estou a fim de passar meu ano novo carregando um vampiro bêbado morro abaixo.
- Não, não é sangue – disse ele, olhando para a garrafa. – Bem que podia ser. Às vezes, eu gosto de misturar as duas coisas. Já lhe contei que inventei minha própria receita de sangria? – frente à minha expressão de nojo, ele suspirou. – Relaxe, caçadora. E, quanto a precisar me carregar, pode ficar tranquila. Não estou bêbado e não vou precisar que você retribua esse favor em particular tão cedo.

Olhei para ele com o habitual desejo assassino nos olhos antes de me voltar mais uma vez para o mar.

O efeito calmante da paisagem trouxe à tona a pergunta que já vinha se formando em minha mente desde a nossa chegada.
- Por que você me trouxe aqui? – perguntei. parecia prestes a começar mais um discurso sobre como eu precisava daquilo, etc., etc., então me apressei a acrescentar. – Quero dizer aqui, especificamente. Por que uma praia?
- Você gosta de praias, não gosta?
- Sim, e você já deixou claro que sabe disso. Mas como?
- Eu só... Sei – respondeu, parecendo genuinamente confuso. – Estranho. Eu só tinha certeza de que você ia gostar. Vai ver é aquele quadro no seu quarto – ele fez uma careta, como se tivesse dito algo errado, e virou mais um gole da garrafa. Antes que eu pudesse questioná-lo, continuou. – Além disso, parece familiar. Ano novo na praia. Acho que já fiz isso antes.
- Bom, foi uma boa escolha – eu respondi, balançando os ombros. – Gosto do mar.
- Eu odeio – respondeu ele, pegando uma pedrinha do chão e a jogando lá embaixo, acertando em cheio o castelo de areia que alguma criança deixara para trás.
- Por quê? – perguntei, antes de me dar conta do que estava fazendo. Ele voltou os olhos para mim por um segundo, claramente pego de surpresa. Mostrar o mínimo de interesse sobre as origens dos sentimentos de não era algo que eu fazia com frequência.
Parte dele devia ter entendido que era melhor não me fazer pensar sobre meus motivos, pois ele não questionou minha pergunta... Ou talvez a bebida o tivesse afetando mais do que aparentava. Fosse o que fosse, apenas voltou a olhar o mar e, depois de alguns segundos, começou a falar.
- Meu pai era marinheiro – disse ele, rindo em seguida. – Um comandante da Marinha Real Britânica, mais precisamente.
Ok, história nunca havia sido meu forte, mas aquilo não soava como pouca coisa. Se o pai dele tinha um alto cargo na marinha, na Inglaterra do século XIX, aquilo significava que havia nascido rico. Não incrivelmente rico, mas mesmo assim... Alguém que havia tido acesso à alta sociedade vitoriana.

Olhando para o vampiro ao meu lado, que usava uma jaqueta de couro, jeans surrados e destruía castelinhos de areia, aquilo era difícil de imaginar.

O fato de eu estar olhando para ele, obviamente esperando o resto da história, pareceu despertá-lo da espécie de transe no qual entrara. Mesmo quando falou, porém, sua voz manteve uma qualidade distante, como se viesse de quilômetros de distância dali.
- Ele viajava muito. E viagens naquele tempo, até mesmo de navio, levavam meses... Em alguns casos, até anos – o rapaz pegou outra pedra, dessa vez acertando a torre. – Um dia... Bom, eu tinha seis anos e ele estava prestes a viajar de novo. Para Índia, eu acho. Não lembro direito. Só lembro que ele ia perder meu aniversário e eu estava chorando. Para me consolar, o cara disse que pelo menos estaria de volta para o Natal, que traria presentes... Esse tipo de coisa. Então eu parei de chorar e ele foi embora.
Quando ficou claro que não voltaria a falar sem incentivo, juntei coragem para perguntar. Não que fosse necessário, claro. Era bem óbvio o que devia ter acontecido.
- E o que aconteceu? – eu indaguei. Ele piscou os olhos e balançou um pouco a cabeça, como se tivesse adormecido por um instante.
- Bom, o final você já deve ter ouvido em um milhão de histórias parecidas. É bem clichê, se você parar para pensar. Novembro começou, terminou e nenhuma notícia dele. Eu não me preocupei, claro. Era criança e ele havia dito “Natal”... Na minha mente, era possível que ele aparecesse magicamente na manhã do dia vinte e cinco. Eu ia olhar pela janela e ver a carruagem dobrando a esquina. Não tinha dúvidas disso.
- Mas isso não aconteceu – eu disse, quando o rapaz parou de falar de novo. Eu podia entender a certa relutância de em falar daquilo, mas ele parecia não se importar com meus esforços de arrancar a história dele. não parecia triste ou chateado. Apenas distante.
- Não. Foram meses até chegarem notícias. Encontraram partes dos destroços da frota dele. Os corpos perdidos em alguma tempestade – balançou a cabeça. – Não era incomum, naquele tempo. Naufrágios e navios perdidos eram coisas praticamente rotineiras. Eu me lembro da minha mãe chorando e do vaso favorito dela estilhaçado. Ela havia perdido o equilíbrio e esbarrado nele. Quando a governanta me levou até a sala, achei que ela estava chorando por causa do vaso.
- Eu sinto muito – disse, porque é só isso que se pode dizer ao ouvir esse tipo de coisa.
- Está tudo bem. Faz literalmente mais de um século que isso aconteceu – ele respondeu, sorrindo um pouco. – Mas é isso. Desde então, nunca gostei do mar.
- Faz sentido. Ele levou o seu pai – eu disse, abraçando meus joelhos.
- “Levou” sendo a palavra-chave – ele respondeu.
- Eles nunca encontraram o corpo? – era horrível, mas eu precisava perguntar. negou com a cabeça.
- Antes que você pergunte, não, é impossível alguém ter sobrevivido. Os destroços foram encontrados em alto mar, com nenhuma ilha por perto. Por muito tempo, escolhi acreditar que meu pai era como Robinson Crusoé e estava vivendo aventuras em alguma parte do mundo. Aí fui para a escola e aprendi mais sobre Geografia e tempestades – ele riu novamente. – Mas, mesmo assim, eu poderia encarar a situação muito mais facilmente se houvesse um corpo. Algo para enterrar, um túmulo para visitar. Eu nem falo por mim, mas pela minha mãe e minha irmã.
- Você tinha uma irmã? – perguntei, novamente sem pensar. Era estranho perceber o quão pouco eu conhecia da vida de .
- Meredith – ele respondeu, assentindo com a cabeça. – Ela merecia mais, assim como a minha mãe – virou-se para mim de repente. – Minha mãe perdeu o pai cedo. Ela teve exatamente dois homens na vida dela: eu e meu pai. Dois homens, mas nenhum corpo para enterrar. O marido desaparecido no mar e o filho... Simplesmente desaparecido. Ao menos eu deixei algo para trás. Uma poça de sangue em um beco, junto com meus óculos caídos e um pedaço da minha roupa. Acho que perdi um botão também, enquanto Cora arrastava meu corpo para longe dali – pareceu irritado de repente. – Nunca a perdoei por isso, na verdade. Já que ela era “tradicionalista”, podia ao menos ter deixado minha mãe enterrar meu corpo.
Aquela última afirmação não fez sentido nenhum para mim e eu decidi que iria indagá-lo sobre aquilo depois. No momento. não seria possível. Questionar sobre seu pai já havia sido desconfortável e eu sentia que ele seria bem mais relutante em falar sobre aquilo. E, além disso, não era justo da minha parte aproveitar a possível influência do álcool no organismo sobrenatural dele para arrancar informações.

Mas desde quando eu queria informações sobre ?

Era algo a se pensar. Quando exatamente eu passara a me interessar por quem realmente era? A traição dele ao se aproximar do mestre pelas minhas costas poderia ter me feito perceber que o vampiro se tratava de um indivíduo com as próprias motivações, e não apenas meu capacho. O entendimento dos sentimentos dele por mim poderia tê-lo humanizado aos meus olhos de certa forma. Ou talvez a noite do aniversário de Athos tivesse despertado em mim a necessidade de entender aquela criatura que era tão perturbada quanto eu. Fosse o que fosse, havia nascido em mim uma curiosidade, uma vontade de entender de verdade o vampiro mais frustrante que eu já havia conhecido.
- Quer sair daqui? – perguntou de repente. Eu assenti. Continuar isolada com ele naquela pedra era perigoso demais, a julgar pelo caminho que meu pensamento começava a seguir.

Xx

’s POV


- Você tem alguma ideia de para onde a gente está indo? – ela me perguntou no banco do carona.
- Na verdade, não. Pensei em apenas continuar seguindo a estrada. Talvez parar em algum lugar, comer alguma coisa. O que acha?
- Eu, comer alguma coisa? Sim. Você comer alguma coisa? Definitivamente, não – respondeu ela com uma sombra de um sorriso. Revirei os olhos.
- Eu quis dizer comida humana, caçadora. Não diria não há umas batatas fritas no momento. E você teria a chance de pedir comida de gente, se quisesse.
- Em primeiro lugar, meus salgadinhos e meus doces são comida de gente. E, em segundo, melhor prevenir do que remediar. Até onde eu sei, você poderia muito bem ter algum tipo de tradição assassina de ano novo. Morder alguém logo depois da meia-noite.
- Nenhuma tradição assassina. Pode ficar tranquila.
- Ok, mas estamos fora de L.A., fora dos limites do acordo. Não tem nenhuma parte sua querendo colocar os dentes no pescoço de alguma garotinha indefesa?
Eu olhei para ela então. tinha o cabelo preso em um rabo-de-cavalo alto que desnudava completamente seu pescoço. Eu sentia o cheiro da sua pele, lembrava o gosto dela, sentia suas veias pulsando...

Ela estava certa. Eu realmente queria colocar os dentes no pescoço de certa garotinha. Mas ela era tudo, menos indefesa.

Eu a havia mordido cerca de uma hora antes, mas aquilo era diferente. Minha vontade naquele momento não tinha nada a ver com fome, não era provocada por nenhum instinto assassino e definitivamente não era nada boa para minha resolução de ano novo.
Só com o consentimento alto e claro da caçadora, eu lembrei a mim mesmo, forçando-me meu olhar de volta para a estrada – o que era o mais responsável a se fazer, na verdade. Mesmo com a estrada vazia e meus reflexos inumanos, era melhor não provocar o destino.
Ideia irônica vinda de um motorista que consumira quantidades absurdas de álcool antes de entrar no carro. Porém, eu ainda não sentia nenhum efeito físico forte. No estado em que estava, ainda tinha mais controle motor, atenção e reflexos mais rápidos do que o de qualquer humano cem por cento sóbrio.
- Se eu não a conhecesse, diria que você está me incentivando a encontrar vítimas, .
- Só estou o testando – ela respondeu, dando os ombros.
Tomando a decisão inteligente novamente, resolvi mudar o rumo da conversa.
- De qualquer forma, voltando à sua pergunta inicial, o melhor a fazer é continuar seguindo em frente mesmo. Temos que encontrar um hotel e eu só posso dirigir de noite.
- Se a gente pegar uns cobertores para você se proteger da luz no banco de trás, eu posso dirigir de dia.
Eu ri. Alto.
- O que foi? – ela perguntou, claramente ofendida. – Eu sei dirigir. Ok?
- É, me contaram – eu respondi, ainda rindo.
- Não sei o que lhe disseram, mas eu dirijo bem. Ok?
- Infelizmente para você, existe uma grande diferença entre dirigir bem e ser uma boa motorista – eu respondi, lembrando a conversa que tivera com e Tara alguns dias atrás.

- O problema da não é o volante, os pedais, o painel e nada do tipo – disse Tara. – Ela domina o procedimento de dirigir, tem bom senso de direção, bons reflexos... Bons até demais...
- Ela dirige como uma lunática – resumiu , sempre direta.
- Também não é para tanto. É só que... confia demais nas próprias habilidades e não é a pessoa mais cuidadosa do mundo... E gosta um pouquinho demais de velocidade...
- Ela é uma ameaça à saúde e ao patrimônio público, Tara. Você nunca esteve em um carro com ela. Ok? – disse . – Eu achei que ia morrer.
- Ela nunca esteve em um acidente... – argumentou Tara.
- Por que todos os outros carros pulam para fora do caminho quando a veem se aproximando!


Desnecessário dizer que ela nunca, NUNCA ia tocar no volante do Mustang.
- Você nunca nem me viu dirigir! – exclamou ela, claramente contrariada. – Vai simplesmente confiar no relato dos outros?
- Eu nem precisava dos relatos. As expressões horrorizadas no rosto de todos quando “” e “carro” estão na mesma frase são o suficiente para mim.
- Ah, entendi. Você está com medo.
- Caçadora, nem tente. Apelar para o meu orgulho não vai funcionar. Gostei desse carro e não estou disposto a deixar você acabar com ele. Escutei as histórias de horror. Ok?
- Covarde.
- Já disse. Não vai funcionar. E, se tiver algum problema com isso, vá reclamar com a .
- Ótima amiga essa daí. Eu dirijo bem. Ok? Não é minha culpa se algumas pessoas não aguentam nada acima de sessenta por hora. Vou ter uma conversa com ela quando voltar. A não devia ficar espalhando histórias por aí.
- Acho que o direito de contar as suas aventuras no volante são uma compensação aos pesadelos que você deu a ela.

A palavra havia escapado da minha boca naturalmente e eu só me dei conta dela tarde demais.

“Pesadelo” é uma palavra inocente. Ou era, até a noite passada. Agora, ela servia de gatilho para trazer à mente aquilo que não estávamos comentando.
Eu suspirei, sentindo a atmosfera no carro mudar. Teria que acontecer mais cedo ou mais tarde. Era melhor acabar com isso de vez.
- ? – ela me chamou, o olhar agora no próprio colo. Mais precisamente, nos antebraços arranhados sobre ele. O que viria a em seguida obviamente não podia ser bom. – Posso lhe perguntar uma coisa?
Eu devia dizer “não”. Sabia muito bem o que ela iria perguntar. Eu havia conseguido mudar de assunto mais cedo, mas dessa vez não teria jeito.
Algo em mim, no entanto, me fez assentir com a cabeça. Sentia-me confortável, corajoso, incentivado pelo mesmo impulso que me fizera discutir a morte do meu pai com naquela noite. A única explicação plausível era que a bebida estava começando a fazer efeito. Estava ao menos me dando a coragem para falar abertamente com ela.
- Sobre o que você falou mais cedo... – ela começou hesitante. – Você disse... Quero dizer, quando eu estava... Você disse que já tinha acontecido com você. Os...

Gritos? Pesadelos? Autoflagelações noturnas?

- Sim – eu respondi, poupando a ela o trabalho de nomear os ataques noturnos. Ninguém disse mais nada por alguns segundos.
- , se você não...
- Lembra quando eu lhe disse que minha mãe não teve um corpo para enterrar, caçadora? – eu a interrompi, sentindo a vontade súbita de contar aquilo para ela. Sabia que me arrependeria no dia seguinte. Aquele era o tipo de coisa que me deixaria extremamente vulnerável. Ela provavelmente me acharia fraco, mas, naquele momento, eu queria falar. Nunca havia contado aquilo para ninguém e um século é tempo demais para ficar sem desabafar – Bom, isso não quer dizer que eu não tive um túmulo – a moça olhou para mim confusa. Eu respirei fundo antes de continuar. – Como eu já disse antes, Cora é tradicionalista.
- Isso deveria fazer sentido para mim? – ela perguntou, ainda parecendo totalmente perdida.
- Seu mentor devia ter lhe ensinado isso.
- Em defesa do Gilbert, ele provavelmente tentou.
Ambos sorrimos por um segundo, mas sorriso nenhum podia sobreviver quando o assunto era aquele.
- Ok. Pequena aula de história. Na antiguidade e na Idade Média, não era tão comum a convivência de criador e criatura. Quando um vampiro transformava um humano, geralmente apenas abandonava o corpo em algum lugar. Alguns tinham sorte e eram enterrados, ficando protegidos do sol e completando a transformação em segurança. Outros davam azar e ou ficavam expostos ao sol ou eram cremados. Não demorou para que se percebesse que os vampiros que eram enterrados eram aqueles que se transformavam. Então se chegou à conclusão de que, para completar o processo, os corpos deviam ser enterrados em perfeito estado de conservação. Hoje em dia, nós já sabemos que isso não é necessário, que basta drenar, dar sangue e proteger o corpo do sol para que a transformação se complete, mas alguns vampiros ainda gostam de manter a tradição.
Eu olhei para . Seria engraçado em outro contexto o modo como a expressão dela gradualmente passava de neutra a totalmente horrorizada.
- Você está tentando me dizer que...
- É – eu a interrompi novamente. Acho que não conseguiria suportar ouvir outra pessoa verbalizar aquilo. – Ela podia ter dado meu corpo para a minha família, mas não. Acho que ela nunca nem pensou nisso. Mas... É. É isso – eu continuei, em um tom falsamente leve, tentando aliviar a situação. A simples tentativa era grotesca. – Cora me enterrou vivo.

’s POV

Eu não sabia o que dizer.

Era uma ideia comum, não era? Vampiros rastejando para fora de túmulos? A ficção estava cheia de imagens de mortos-vivos saindo da terra. Até fora da ficção... Eu sempre tive essa ideia vaga de que alguns vampiros se levantavam de seus túmulos. Sempre patrulhava cemitérios por esse exato motivo.
Mas era diferente. Uma coisa era pensar em uma coletividade hipotética, vampiros que eu não conhecia e que haviam tido esse tipo de introdução a suas novas vidas. Eu nunca havia parado para pensar sobre isso, sobre o fato de eles terem literalmente sido enterrados. Era uma ideia que nunca me incomodara, pois eu não os conhecia.
Algo muito diferente era olhar para o vampiro ao meu lado e absorver essa informação. Aquele era . Sarcástico, estranhamente sensível, irritantemente sexy, verborrágico, com um péssimo gosto para carros e mulheres. Ele era alguém. Alguém que eu conhecia e, em algum ponto da vida (ou, melhor dizendo, da morte), havia sido enterrado e de alguma forma saíra do caixão. O que antes parecia uma noção vaga à qual eu era indiferente agora se tornara algo real e horripilante.

Eu não sabia o que dizer. Felizmente, no entanto, não precisava dizer nada.

- Ok. Não vivo, óbvio – ele continuou a falar com uma risada estranha. A tentativa de suavizar o ambiente era inútil, principalmente quando eu podia ver suas mãos apertando o volante como se o universo dependesse disso; – Mas quase isso. É uma coisa curiosa sobre vampiros, na verdade. Quando somos transformados, não percebemos imediatamente o que somos. Não é como se tivéssemos uma consciência imediata de que nos tornamos outro tipo de criatura. Quando acordamos como vampiros, nós não percebemos. Achamos que ainda somos humanos. Eu achei que era humano.
- Você achou que ia morrer.
- Eu acordei e não conseguia ver nada. Vampiros enxergam bem no escuro, mas é impossível enxergar quando não há nem um vestígio de luz. Eu mal tinha espaço para me mover... Não conseguia respirar direito. Não sabia como tinha parado ali, não sabia que já estava morto. Eu achei que estava morrendo sufocado naquele caixão. Comecei a gritar, chorar, chutar a tampa, mas sabia que ninguém ia me ouvir. Até que eu consegui quebrar a madeira. Já tinha minha força. Só não tinha percebido ainda. A terra começou a cair e eu continuei socando, chutando, tentando me levantar, tentando lutar...
O modo como ele parou de falar de repente foi estranho, levando em conta que até ali as palavras de haviam se comportado como o ar que sai de um balão estourado: todas de uma vez, imediatamente, como se aliviadas por poderem finalmente deixar o cativeiro. Ele devia ter percebido isso, pois agora parecia se conter, como que esperando eu acrescentar algo àquele diálogo bizarro. Eu tentei pensar em algo para dizer, mas era difícil quando minha mente insistia em girar em torno da mesma ideia.
Foda-se , eu pensei. Melhor colocar as cartas na mesa de uma vez.
- Como você pôde ficar com ela por todos esses anos? – eu honestamente não conseguia entender. Sempre soube que a relação de e Cora era abusiva, mas o fato de que já havia começado assim... O que levava uma pessoa a suportar esse tipo de coisa?
- Porque, quando eu consegui me levantar, ela estava me esperando – disse simplesmente. Levou alguns segundos até ele elaborar. – Não pense que eu não entendo o que você deve estar pensando, mas é complicado, . Foi o pior momento da minha vida e, quando eu me libertei, a primeira coisa que vi foi ela. Uma das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Minha criadora. Foi como fugir do inferno e vislumbrar o céu. Eu era jovem. Eram outros tempos, caçadora. Era inocente, inexperiente. E existe algo entre criador e criatura, uma ligação... No momento em que eu a vi, aquele sentimento me dominou. Mesmo quando ficou claro quem ela era e o que ela havia feito, não importava. Eu era um vampiro agora e aquilo devia ser normal... Eu não entendi que era crueldade. Entende? Fiquei envolvido demais. A primeira impressão dela, como a paz após a tempestade, a ligação criador-criatura, meu próprio romantismo... Eu achei que fosse amor. Por mais de cem anos, achei que fosse amor. E acho que era, sim, uma forma de amor. Só não a que eu achava que era.
Ele arriscou um olhar para mim pelo canto do olho, quase imperceptível, mas eu notei. Notei e entendi exatamente o que ele estava tentando dizer.

Senti uma necessidade esmagadora de mudar de assunto.

- Até quando os pesadelos duraram? – eu perguntei.
Odeio admitir, mas levei vários segundos para entender o que o silêncio dele significava.
- Oh, perfeito – eu disse com uma risada que machucava minha garganta, levando as mãos ao rosto.
- ...
- Não. Isso é ótimo – eu disse, levantando o rosto e balançando a cabeça. – Não para nunca. Perfeito. Eu não sei por que estou surpresa.
- Diminui. Bastante – disse ele, tentando me consolar. Era meio tarde para aquilo.
- Mas não vai embora.
- Nada “vai embora”, . Nada que nos afeta de verdade. Acontecimentos deixam marcas. Você só precisa aprender a lidar com essas marcas e seguir em frente. Não, elas não vão sumir, porém com o tempo não vão machucá-la tanto. É a vida, caçadora. As coisas nunca são perfeitas, mas elas melhoram, se você deixar.
- Não é o suficiente.
- Eu sei – foi só o que ele disse. Acho que não dava para acrescentar nada mais que aquilo. Era a realidade. Não havia nada que ninguém pudesse fazer.
Eu fechei meus olhos, tentando me concentrar em algo que não fosse aquele balde de água fria que eu sentia descer sobre mim. Meus dedos começaram a traçar os rastros vermelhos nos meus braços, rastros que sumiriam em breve, mas que eu inevitavelmente recriaria. havia ligado o rádio e eu me concentrei na sequência de fragmentos e músicas que ecoavam pelo carro, enquanto ele procurava uma boa estação.

...Familiar faces, worn out places, worn out faces…

- Espere – pedi de repente, antes que ele pudesse trocar de estação novamente. O dedo dele congelou sobre o botão. – Eu gosto dessa música.
Por um segundo, ele pareceu querer dizer algo, mas continuou calado. Encostei a cabeça ao vidro da janela, meus dedos agora brincando com o colar de rosa negra no meu pescoço, enquanto eu olhava a estrada, a rápida sucessão de postes iluminados, as poucas estrelas no céu. Existia algo melancólico em atravessar uma estrada deserta de carro à noite... Ou talvez fosse apenas a melodia da música influenciando minha percepção.

And I find it kind of funny,
(E eu acho meio engraçado,)
Find it kind of sad
(Acho meio triste,)
The dreams in which I'm dying are the best I 've ever had.
(Os sonhos nos quais estou morrendo são os melhores que já tive.)
I find it hard to tell you,
(E eu acho difícil lhe dizer,)
I find hard to take,
(Acho difícil aguentar,)
When people run in circles. It’s a very, very…
(Quando as pessoas se esforçam por nada, esse é realmente, realmente...)
Mad world, mad world.
(...Um mundo louco, um mundo louco.)


Eu devo ter me deixado hipnotizar pelo momento, pois a voz de no segundo seguinte teve o efeito de um choque.
- Você gosta disso? - ele perguntou em tom incrédulo.
- Sim. Por quê?
O rapaz balançou a cabeça.
- Não me surpreende que você queira se matar, caçadora. Olhe o tipo de coisa que você escuta.
Eu fiquei em silêncio por um momento, experimentando uma estranha mistura de raiva, mágoa e choque. Não conseguia acreditar que ele havia acabado de dizer aquilo para mim.
- O quê? – foi só o que eu consegui expressar.
- A música. É o troço mais depressivo que já escutei na vida. Ajuda a entender porque você vive com essa nuvem negra sobre a sua cabeça.
Ok. Ele não podia ter bebido o suficiente para não saber o que estava dizendo. E talvez eu não devesse ter perguntado sobre os pesadelos, mas isso não justificava aquele comportamento. O comentário de havia sido tão aleatório que era difícil processar a situação. Ele não podia realmente estar culpando uma música pelos meus problemas.
- Você está louco? Como você diz esse tipo de coisa para mim? – seria possível ele já ter esquecido o que acontecera ontem? E, mesmo se tivesse, poderia ter esquecido a conversa que havíamos tido nem cinco minutos atrás?
- Digo o quê? Que isso é música de suicida? – ele respondeu. Ok. O cara estava indo longe demais e de propósito. Eu só não fazia ideia do porquê.
- Essa é a coisa mais insensível que você poderia dizer para mim.
- Então você quer que eu seja todo cuidadoso com você tendo esse fundo musical de tragédia no ar?
Aquilo era injusto. Eu nunca havia pedido que ele fosse cuidadoso comigo. Se tinha uma coisa que eu odiava, era ser tratada como uma boneca de porcelana e o rapaz sabia disso. Eu não conseguia entendê-lo. Por que ele estava tentando me machucar?
- Eu não quero nada de você. E isso não é...
- O hino dos suicidas? – ele sugeriu.
- !
- Trilha sonora para cortar os pulsos? – o homem tentou novamente, fazendo uma leve careta, como se soubesse que estava extrapolando.
- !
- Topo das paradas em velórios? – tentou pela terceira vez e eu bufei com uma risada que me pegou totalmente de surpresa.

Quando começou a rir também, eu finalmente entendi que era aquilo que ele estava tentando fazer.

Eu não conseguia parar de rir. Da vida, de mim, de . De tudo. De uma hora para a outra, tudo parecia extremamente ridículo e engraçado. Existem momentos na vida nos quais suas únicas opções são rir ou chorar. havia se certificado de que minha saída seria rir.
- Por quê? – perguntei, sabendo que não precisaria elaborar.
- Seu senso de humor é tão doentio quanto o meu – ele respondeu simplesmente.
Eu ri novamente, sentindo a nuvem negra que definitivamente não tinha nada a ver com “Mad World” lentamente se afastar de mim. O rapaz havia percebido para onde meus pensamentos estavam me levando depois de ouvir o que ele dissera. Havia encontrado um modo de me fazer rir de mim mesma. Um modo estranho e até meio agressivo, mas talvez o único que funcionaria comigo.
- A música é legal – ele admitiu finalmente, com um leve sorriso ainda nos lábios. – Triste, mas bonita. Bonita de um jeito trágico. Como... – conteve-se imediatamente. A pausa súbita, no entanto, só fez com que a comparação dele ficasse mais óbvia, pela segunda vez naquela noite. Mais óbvia até do que se ele tivesse articulado a palavra.

Como você.

Eu senti uma onda de sentimentos me envolver e fiquei desorientada por um segundo. Estava desacostumada a realmente sentir meus próprios sentimentos. Principalmente meus sentimentos por .
A onda não foi de amor, nem de ódio, nem de pena. Era algo mais complicado e mais desconhecido do que tudo aquilo. Algo que me fez voltar por um segundo à festa de Athos e à pergunta que eu fizera a mim mesma.

Sim. Eu gostava de .

Naquele momento, eu realmente gostava do vampiro. De quem ele era. E aquilo me assustava como poucas coisas no mundo eram capazes de fazer.
Dias atrás, eu já havia chegado à conclusão de que ainda era capaz de gostar de pessoas, senão amá-las. Gostar era um processo quase racional. Gosta-se por mérito, enquanto se ama por... Bom, não há motivo nem controle. O amor simplesmente acontece, mas gostar de alguém... Gostar realmente de alguém não tem a ver com você e, sim, com o outro. Eu podia contar nos dedos as pessoas das quais realmente gostava. E, se era uma delas, significava que havia coisas nele que me atraíam de diferentes formas. E aquele era um caminho perigoso a se seguir.
Observando trocar a estação do rádio após o fim da música, eu fiz o que sabia fazer melhor: racionalizar o sentimento, empurrá-lo para algum canto escuro dentro de mim e ignorá-lo até me esquecer dele.

, afinal, era como o rádio.

Era como quando você escuta o começo de uma música e aumenta o volume, mas aí lembra que odeia essa música e se sente idiota por tê-la feito tocar ainda mais alto. Às vezes você até balança a cabeça no ritmo dela ou canta a primeira estrofe, e então sente vergonha por tê-la curtido mesmo por um instante. Se alguém tivesse visto, você teria que explicar por que estava escutando justamente aquela música, já que ela obviamente era péssima. Como ele era péssimo. E ele era, certo? Se havia coisas nele que me atraíam, era apenas porque o rapaz estava lá e porque havia estado lá no passado. Como a música que o interessa apenas por ser familiar.
Eu olhei novamente para ele, que ainda sorria levemente. Merda. Eu teria que fazer melhor do que isso, se quisesse fazer aquela súbita simpatia por ir embora. Estava ficando cada vez mais difícil mentir para mim mesma.
- O que foi? – ele perguntou. Percebi que havia ficado parada o encarando por tempo demais.
- Nada – respondi. Droga. Aquilo era só o que me faltava.
- Você estava me olhando de um jeito estranho.
- Eu estava... Pensando.
- Sobre? – ele perguntou com uma sobrancelha levantada.
Em pânico, tentei pensar no que dizer em seguida. Por sorte, a solução perfeita me veio como um milagre. Eu sorri.
- Oh, nada... É só que você disse que uma das razões para ter ficado com Cora era a sua inocência.
- E?
- ... Você morreu virgem? – eu perguntei, tentando não rir.

Por um segundo, ele quase perdeu o controle do carro.

Precisei morder meus lábios para esconder o sorriso, enquanto ele permanecia calado, o olhar fixo na estrada. Após alguns segundos, o homem suspirou.
- Eram outros tempos, caçadora...
Eu comecei a rir de novo.
- Não é tão engraçado – disse ele emburrado, quando ficou claro que eu não ia parar de rir tão cedo.
- É, sim – respondi. – Oh, meu Deus. Espere até eu contar para o !
pisou no freio com força e me encarou com um olhar assassino. Por algum motivo, aquilo só me fez rir mais.
- Se alguém daquela Organização ficar sabendo disso, nunca encontrarão o seu corpo.
- Suas ameaças costumavam ser mais assustadoras – eu disse, sorrindo.
- Isso é por que elas costumavam ser sérias – disse, ainda emburrado, voltando a dirigir.
- Ou talvez você simplesmente esteja perdendo o jeito – retruquei, tentando manter o assunto em uma zona confortável. – Já não parece mais tão perigoso.
- Oh, eu vou lhe mostrar o que é perigoso, garotinha...

Era uma vez a zona de conforto.

Ele parou de falar imediatamente. De uma hora para outra, o carro voltou a parecer silencioso, abafado, pequeno. Engraçado como uma simples frase podia fazer isso. Ok. Definitivamente, não tão simples. O fato era que, dado o nosso passado, uma promessa como aquela nunca soaria inocente.
Eu sabia muito bem o quão perigoso ele podia ser e isso não tinha nada a ver com violência. Bom, talvez um pouquinho de violência, mas você entende aonde quero chegar. O rapaz não precisava me mostrar o quanto era perigoso, pois o maior perigo que representava estava no fato de que eu queria que ele me mostrasse. Eu queria que me provasse pela milésima vez como era capaz de me incendiar com um toque. Queria um lembrete da ameaça que ele representava à minha saúde mental.
A insinuação dele não havia sido consciente, claro, mas talvez por isso mesmo tenha sido pior. Por serem involuntárias, aquelas palavras revelaram com mais clareza aquilo que nós estávamos até então tendo tanto sucesso em abafar, esconder, ignorar, simplesmente porque haviam partido do inconsciente. Por não terem sido filtradas, tinham apontado para aquela realidade que permanecia por trás de todas as nossas interações. Havia um passado ali. Uma história. E, mais do que tudo, existia aquela atração, aquela coisa entre nós que eu não sabia nomear.
Merda. Merda, merda, merda. Eu estava em um carro com ele. Inferno. Estava em uma viagem com ele, longe de tudo e de todos. Será que poderia existir alguma realidade na qual nós voltávamos para casa em alguns dias sem que nada acontecesse entre nós? Será que aquela era uma possibilidade? Eu obviamente não havia pensado o suficiente no assunto antes de concordar com aquela ideia idiota.
Era tarde demais, no entanto. Eu só precisava agir como uma adulta madura e ser forte. Eu e já havíamos feito merda demais. Era hora de tentar algo novo, algum modo de conviver sem nenhum tipo de tensão.

Bom, era fácil falar.

- Olhe só! – disse de repente, em um tom animado demais para ser sincero. – Civilização! Deve ter um bar ou restaurante aqui perto.
“Cardiff-by-the-Sea” informava uma placa na estrada. Aparentemente, uma comunidade litorânea da cidade de Encinitas, em San Diego County. Pela primeira vez naquela viagem, eu me dei conta de que estava em outro distrito. Pode parecer pouca coisa, mas para mim, que nunca havia me afastado muito de Los Angeles, aquilo era uma novidade.

Triste, eu sei.

Da janela da lata velha de , Cardiff-by-the-Sea parecia o típico município litorâneo visto na TV. Construções baixas, grandes espaços abertos, casas... Extremamente diferente do amontoado de edifícios, do trânsito caótico e das multidões de pessoas com as quais eu estava acostumada. Mesmo em noite de ano novo, o lugar parecia tranquilo em comparação.
estacionou próximo a um dos primeiros bares que avistamos. Havia uma quantidade considerável de bares e restaurantes próximo à orla – sem dúvida em consideração aos turistas e viajantes que paravam ali no caminho para atrações mais interessantes, como Laguna ou Solana Beach. Seria fácil encontrar um hotel por ali.
O bar estava cheio, mas ainda havia algumas mesinhas vazias. Optamos por uma bem discreta em um canto próximo à cozinha.
Por incrível que pareça, foi apenas quando a garçonete sorridente veio anotar nossos pedidos que me dei conta do que aquilo devia parecer. Lá estava eu, sentada de frente para , com a pequena mesinha circular entre nós. Como em um encontro.
Precisei me segurar para não sugerir que fôssemos para a bancada do bar. Eu obviamente não estava no clima para dividir o mesmo espaço com outras pessoas, de forma que falar alguma coisa seria admitir que aquela situação era desconfortável, o que com certeza só a deixaria mais desconfortável.
Que se dane, eu pensei. Ninguém aqui me conhece mesmo. E daí se acharem que ele é meu namorado? Eu sei a verdade, sabe a verdade... Só seria lógico me sentir incomodada se houvesse algum motivo para isso. E não há, porque não há mais nada entre eu e .
pediu uma garrafa de uísque e eu fiquei quieta. Se vocalizasse a minha crescente preocupação com a quantidade de álcool ingerida por ele, aquilo pareceria mais ainda um encontro.

...Não que eu me importasse se aquilo parecia um encontro, graças aos motivos já expostos. Nenhuma preocupação. Não mesmo.

Mas, só por segurança, era melhor agir como se eu não desse a mínima para o que ele fazia ou deixava de fazer.
Eu deixei meu olhar correr pelo modesto cardápio oferecido pelo bar. Até aquele momento, não havia me dado conta do quanto estava faminta. Durante meu período autodestrutivo em L.A., antes da intervenção de , eu andava comendo pouco, dormindo pouco e trabalhando muito. Ontem à noite, tomara um sorvete com e depois passara o dia inteiro desacordada. Havia comido um pacote de salgadinhos antes de deixarmos o hotel, mas só isso. Embora estivesse com fome, senti-me tão envergonhada pela ideia de que havia presenciado meu ataque de pânico que não consegui comer muito. Agora, no entanto, meu estômago começara a protestar minha negligência.
Optei por um cheeseburger triplo, uma porção bem grande de batatas fritas com cheddar e bacon e uma Coca-Cola. me encarou com os olhos arregalados e eu respondi com a minha melhor expressão decidida. Eu sabia o que estava fazendo e ele obviamente nunca precisara alimentar uma híbrida com fome antes.
A garota terminou de anotar nosso pedido e, com outro sorriso e a promessa de que já voltava com as nossas bebidas, nos deixou a sós novamente.
Enquanto eu me forçava a ignorar o desconforto da situação, não parecia fazer esforço nenhum. Pelo contrário, o vampiro parecia extremamente à vontade, como se aquilo fosse o tipo de coisa que nós fizéssemos com frequência. Eu devia ter confiscado algumas das garrafas dele mais cedo. Se tivesse bebido tanto quanto , provavelmente estaria me sentindo confortável também.
Sem querer, eu me peguei observando pequenos detalhes sobre ele, como o modo como seu olhar percorria o ambiente, como se avaliando o resto do bar, ou a forma como a má iluminação no canto onde estávamos o fazia parecer menos pálido. Notei a forma como ele apoiava os cotovelos na mesa, favorecendo os bíceps parcialmente ocultados sob as mangas justas da camiseta. Eu conhecia aqueles braços. Sabia o que era tê-los em volta do meu corpo, sabia a força que tinham. Conhecia as mãos que agora levantavam o copo com a dose de uísque que a garçonete acabara de servir. Conhecia os lábios que tocavam a borda.
Eu conhecia . Intimamente, biblicamente. Eu não conseguia ignorar essa realidade e seguir em frente. Sempre havíamos sido ou inimigos, ou amantes. Às vezes ambos. Estar ali sentada com ele em público era uma situação nova. Território nunca antes explorado. Não era surpreendente o fato de eu me sentir estranha. Estava começando a perceber que passara a noite inteira conversando com . Sem socos, sem beijos. Apenas palavras que faziam com que eu sentisse que meu conhecimento sobre ele havia passado do puramente físico para o assustadoramente espiritual.
- É a segunda vez que a pego me encarando essa noite – disse ele de repente, despertando-me de meus devaneios. À minha frente, agora, havia uma lata de Coca e um copo quase cheio. – O que foi?
- Nada – eu menti, pegando a garrafa de uísque e adicionando dois dedos da bebida ao meu copo, tentando disfarçar minha súbita raiva de mim mesma por ter sido flagrada novamente. Coca-Cola combinava mais com rum, mas eu não estava em condições de reclamar. – Estava apenas tentando avaliar o quão bêbado você está.
Ele sorriu e abaixou o copo.
- Continuo mais lúcido que qualquer um nesse bar – disse.
- Isso não é uma resposta.
- Você não me fez uma pergunta – ele retrucou imediatamente.
- Não. Eu lhe fiz várias. – corrigi, minha mente voltando para a preocupação anterior. – Acho que passei a noite inteira lhe fazendo perguntas.
- Verdade. Você tirou bastante informação de mim hoje. Acho que seria justo me deixar fazer algumas perguntas também, não?
- Tem algo específico que você queira saber? – perguntei, tentando não soar muito defensiva.
- Talvez – respondeu ele, dando os ombros e tomando outro gole da bebida.
Ele aparentava ser a personificação da indiferença, mas eu sabia que tinha algo em mente. Bebendo um gole da minha Coca batizada em busca de coragem, tomei uma decisão.
- Ok. Eu tenho uma ideia. Vou responder qualquer pergunta sua com a condição de que continue respondendo qualquer pergunta minha. Como um jogo – eu sugeri. Tinha consciência de que aquele era um movimento arriscado, mas havia tido uma ideia. Eu ainda precisava de respostas para algumas perguntas, perguntas estas que não surgiriam naturalmente em nenhum outro contexto. Era injusto continuar tirando vantagem do vampiro alcoolizado, mas essa poderia ser minha última chance de falar com um cem por cento honesto e sem medo de sê-lo.
- E como se ganha esse jogo? – o rapaz perguntou, parecendo divertido.
- É um jogo da verdade, . Ninguém sai ganhando – eu respondi com meu melhor sorriso sardônico.
- Tudo bem. Estou mais do que acostumado a perder – ele consentiu finalmente. – Primeiro as damas.
- Certo. Você está bêbado? – perguntei, mantendo o sorriso e optando por uma fácil para baixar a guarda dele.
- Sim – ele disse, tomando outro gole de uísque como se para me desafiar. – Mas continuo em pleno controle de minhas faculdades mentais.
O homem continuava bem articulado e parecia manter o domínio completo de seus movimentos, porém seus olhos já começavam a ficar avermelhados. Eu não ia deixá-lo dirigir novamente. Se fosse o caso, procuraríamos um hotel a pé mesmo.
- Minha vez. Por que você gosta do mar? – perguntou, aparentemente decidindo também começar por algo fácil.
- Vários motivos – eu disse, brincando com um gelo no meu copo. – Ele está em todo lugar, no mundo inteiro. Pode ser calmo ou perigoso. É bizarramente profundo, mas nós só somos capaz de ver a superfície. Gosto do mar porque ele sabe guardar os próprios segredos. Até hoje, noventa e cinco por cento do oceano permanece inexplorado. Pode ter qualquer coisa lá embaixo. É interessante. Entende? A ideia de que a qualquer momento ele pode nos surpreender.
- Imprevisível como o próprio oceano – ele disse, com o olhar distante, parecendo estar citando alguém.
- O quê? – perguntei, sem entender.
- Eu não sei. Essa frase me veio à mente. Acho que já escutei isso em algum lugar.
- Ok... – eu disse, resistindo à vontade de tirar o copo das mãos dele. – De qualquer forma, é por isso – concluí. Não era só por isso, mas havia coisas que deveriam permanecer secretas... Como o fato de que há exatos dez anos eu senti uma ridícula atração pelo mar e quase o deixei tirar minha vida. Como o fato de que eu ainda hoje sentia aquela vontade de deixar que ele me levasse de vez.
já se preocupava demais com as minhas tendências suicidas. Quanto menos ele soubesse sobre os pensamentos sinistros que rondavam a minha mente, melhor.
- Eu tenho uma para você – eu disse, lutando para afastar aquela linha de pensamento. – Por que essa viagem? E, antes que você comece a falar do que eu preciso, não é disso que quero saber. Quero que você deixe de lado as razões altruístas e me diga por que você quis me trazer. Por menor que seja, sempre há um motivo egoísta por trás de uma ação nobre. Eu preciso saber qual é o seu.
- Achei que fosse óbvio – disse ele, pegando uma batata do prato enorme que haviam acabado de colocar em nossa mesa junto com meu cheeseburger. – Vou para a Irlanda assim que nós voltarmos. Por um lado, não poderia ir embora sabendo que você continuaria tentando se destruir. Eu seguiria com esse plano de qualquer jeito, mas aí aconteceu tudo aquilo – disse ele, sem me encarar. Andávamos evitando aquele assunto em particular. – O incidente com a estaca serviu para deixar tudo mais urgente. O motivo principal continuava o mesmo, mas, sim, você está certa. Havia um motivo secundário egoísta, porém nada do que você possa estar imaginando. Eu não tenho segundas intenções, . Já disse isso. Escutei tudo que você falou... E é por isso que eu precisava mais ainda ajudá-la, para lhe provar que eu posso mudar. Não para ter você de volta ou nada do tipo. Estou controlando minhas esperanças. Só precisava harmonizar a nossa situação, fazê-la me odiar menos talvez. Não queria sair do país com toda aquela situação caótica entre nós. Acho que esse foi meu modo de consertar as coisas.
Eu assenti, tentando focar minha atenção no meu sanduíche. Eu entendia o lado dele e, embora nunca fosse admitir, também me sentiria mal se aquela briga tivesse sido nossa última interação antes de ele viajar.
- Você sempre come tanto assim? – disse de repente, pegando-me totalmente de surpresa. Era um jeito meio abrupto de mudar de assunto, mas eu apreciava o gesto. Era ou isso, ou um silêncio constrangedor.
- Essa é a sua pergunta? – eu indaguei, observando dar os ombros como resposta e roubar outra batata minha. – Bom, na verdade não. Não preciso de muita comida ou de comida muito saudável. Meu organismo é resistente. O problema é que ultimamente ando me esquecendo de comer, então essa é uma mistura de fome e gula. Mas não se engane. Eu aguentaria comer o dobro disso aqui, mesmo sem precisar.
- Não sou idiota o suficiente para duvidar disso – disse ele, enchendo o copo agora vazio com mais uísque.
Eu dei mais algumas mordidas no cheeseburger, enquanto pensava na próxima pergunta. estava pegando leve comigo de propósito, o que era preocupante. Ele devia estar preparando o terreno para algo sério e, se eu fosse esperta, terminaria aquele jogo agora. Infelizmente, porém, eu não era esperta e também estava juntando coragem para fazer uma pergunta em particular.
- Vamos ver... O que você acha dos meus amigos? – perguntei, decidindo enrolar mais um pouco.
- Gosto da Tara. Tolero o . Admiro a franqueza da . Respeito o Gilbert. Detesto o – rebateu sem nem piscar. Estava claro que ele já havia pensado no assunto e tirado suas conclusões há bastante tempo.
- Acredite. sente o mesmo – eu disse, rindo.
- Eu tenho minhas dúvidas. Especialmente pelo modo como vem andando ultimamente, de nariz empinado e cheio de tensão sexual mal resolvida. Acho que ele me quer.
- Você acha que todo mundo o quer.
- Não posso fazer nada se é verdade – disse ele simplesmente, tomando um gole de seu copo como se sua afirmação fosse tão incontestável quanto o céu ser azul. Eu balancei a cabeça, decidindo não furar a bolha de vaidade dele. Era só não compartilhar as insinuações de com que todos sobreviveriam.
Eu esperava que ele fosse fazer a pergunta seguinte imediatamente, porém o vampiro parecia mais interessado em esvaziar mais uma vez o copo.
- ? É a sua vez – eu lembrei, desistindo de esperá-lo.
- Eu sei. Estou pensando.
- Só pergunte de uma vez – eu disse, suspirando sob o olhar confuso dele. – Eu sei que tem algo específico que você quer saber. Pare de enrolar e pergunte logo – hipócrita, eu sei. Faça o que eu digo, mas não o que eu faço.
- Ok – ele concordou, desviando o olhar para o próprio colo. – Você acha que vai me perdoar algum dia?

Eu devia ter ficado quieta.

Ele não precisava especificar pelo que eu precisava perdoá-lo. Por aquela noite, por algumas outras... Pela parte dele na confusão que se tornara a nossa relação. Pela porcentagem da culpa que não era minha.
Eu respirei fundo antes de responder.
- Bom, eu não posso perdoá-lo. Posso?
- Por quê? – a expressão de cachorro chutado no rosto dele me fez querer me bater.
- São duas perguntas, mas eu vou deixar, porque devia ter formulado minha resposta melhor. Eu não posso perdoá-lo, , porque você não me pediu perdão.
Ele realmente não havia pedido. Havíamos falado sobre muitas coisas desde a noite anterior, mas não sobre aquilo. Algumas horas atrás, havíamos até prometido não machucar mais um ao outro, porém aquele pedido não havia surgido. Eu não havia o culpado por isso, claro. Não tinha esperado algum pedido de desculpas, porque também devia um a ele. Metade da culpa era minha, afinal. Eu já havia deixado claro que sentia muito, mas isso era fácil. Arrependimento envolve uma pessoa. Perdão envolve duas.
- Você está certa – disse ele finalmente. – Acho que com tudo que aconteceu... O pedido estava tão implícito que esqueci que não o havia verbalizado.
- Pedir perdão não é algo que fique implícito, . É um ato de coragem.
- Deixe-me reformular a pergunta, então – disse ele, finalmente erguendo o olhar até sustentar o meu. – Você me perdoa, caçadora?
Eu senti raiva por um momento. Cala a boca, idiota. Você não devia estar pedindo isso. Não vê que eu lhe devo um pedido de desculpas também? Seria tão fácil agora. Ele já havia feito o mais difícil. Bastava eu dizer algo como “só se você me perdoar também”. Céus, eu nem precisava usar a palavra perdão. “Vai fazer o mesmo por mim?”. Seria tão simples, se eu não fosse tão covarde... Porque eu estava certa. Pedir perdão era um ato de coragem, coragem essa que eu não tinha. Eu podia até mostrar arrependimento, mas era incapaz de pedir o envolvimento dele, de mostrar que me importava com o que ele sentia. Era incapaz de admitir que obter o perdão dele faria diferença para mim.
Não podia pedir desculpas a ele... Mas podia fazer a segunda melhor coisa.
- Eu o perdoo.
Existem momentos na vida que ficam gravados em nossa memória para sempre. Aquele era um deles. Eu sabia que, por mais que tentasse, nunca seria capaz de esquecer o modo como os lábios de formaram um pequeno sorriso, como sua expressão se encheu de alívio. Ele apenas sorriu para mim, de modo tão aberto e tão sincero que eu senti meu coração pesar de culpa. Lá estava ele, olhando-me como se eu fosse um milagre, como se tivesse dado a ele algo especial. Será que não percebia que o que eu havia feito não era nada demais? Que ele também merecia um pedido de desculpas? Como era capaz de se sentar ali comigo e, com um sorriso, menosprezar tudo de errado que eu havia feito? Não precisava ouvir as palavras para saber que ele também me perdoava, que perdoava tudo que eu fazia de antemão.
Como o rapaz conseguia me olhar daquele jeito? Eu podia passar horas na frente do espelho, mas nunca encontraria aquilo que parecia ver. Os sentimentos dele não faziam sentido nenhum. Eu com certeza não os merecia e, pela lógica, ele nem devia ser capaz de senti-los. Em uma tentativa desesperada de defesa, tentei encontrar um novo alvo para aquela negatividade que eu direcionava a mim.

Olhei nos olhos dele, tentando pôr em uso meu coração de pedra.

Vampiro. Assassino. Inimigo.

- Se você pudesse voltar a matar, faria isso? – eu perguntei de repente, precisando de um motivo para odiá-lo.
- Já esclarecemos isso, não? – disse ele, pego de surpresa por minha pergunta abrupta. – Qualquer vida que eu tirasse a machucaria. Eu já lhe disse isso.
Sim, eu lembrava. O cartão de Natal vazio. A compreensão de que ele nunca mais machucaria ninguém para não me machucar. A intensidade de sentimentos que havia me deixado sem palavras. Não era daquilo que eu precisava agora.
- Não é por consciência então. Não é por achar ser errado – eu insisti, decidida a continuar naquele caminho. – Você se arrepende pelas pessoas que matou?
- Isso já é outra pergunta.
- Você também fez duas seguidas. Arrepende-se pelas pessoas que matou? – perguntei de novo, sem dar espaço para que ele continuasse argumentando.
Por favor, . Diga que não. Mostre que é um monstro... Por favor.
- Meu arrependimento vai trazê-las de volta? – ele respondeu com outra pergunta, pegando-me desprevenida.
- Não.
- Exato. Arrependimento é perda de tempo – disse, parecendo irritado.
De modo doentio, no nosso mundo doentio, aquilo fazia sentido. , porém, não era o único ali irritado. Além de não ter me dado a resposta que eu queria, o fato de não se mostrar arrependido de seu passado me causava raiva. Ao mesmo tempo em que eu queria que ele fosse um monstro para justificar a dor que eu causara, detestava a ideia devido a tudo que havia entre nós.
- Se você pudesse escolher, teria sido transformado? – perguntei, decidindo considerar o questionamento dele como um turno.
- Sim – ele respondeu, olhando nos meus olhos, sem elaborar a resposta. – Você sente prazer matando vampiros?
- Sim – admiti, sustentando o olhar dele – Isso o incomoda?
- Não. Você tem ideia do quanto é hipócrita?
- Sim. Se você pudesse escolher, teria se apaixonado por mim?
- Nunca. Se você pudesse escolher, sentiria algo por mim?
- Não – nós nos inclinávamos mais para a frente a cada pergunta, aproximando-nos mais um do outro. – Você ainda me odeia?
- Um pouco. Se não eu, acha que é capaz de amar alguma outra pessoa?
- Não. Você acha que eu sou uma boa pessoa? – meu tom de voz havia começado a aumentar.
- Não. Você acha que é uma boa pessoa? – perguntou ele na mesma altura.
- Não. Eu o faço sofrer?
- Sempre. Você se importa?
- Sim. Sua vida seria melhor sem mim?
- Com certeza. Por que a pergunta?
- Porque estou tentando entender po rque você me ama! – eu exclamei, sentindo uma enxurrada de energia sendo liberada com aquelas palavras.

Com certeza era impressão minha, mas eu senti o mundo parando à nossa volta.

- Por que você me ama? – eu perguntei, agora de forma suave. O ritmo acelerado havia me impulsionado a finalmente expor a questão que rondava minha mente desde o começo da noite. Mais que isso, desde que eu reconhecera os sentimentos de como sendo verdadeiros. Fazia apenas uma semana, mas eu sentia como se quisesse fazer essa pergunta há séculos. Talvez, em algum recanto oculto da minha mente, eu soubesse a verdade desde o início. Talvez aquela questão estivesse apenas esperando um pouco de coragem para ser expressa.
endireitou o corpo na cadeir,a como se tivesse levado um choque, afastando-se de mim de maneira abrupta. Era compreensível. Eu mal era capaz de aceitar os sentimentos dele, de forma que a última coisa que o vampiro esperava de mim era algum tipo de questionamento sobre aquele assunto. Minha tendência a evitar falar de coisas do tipo era fato conhecido, mas aquela era uma situação especial. Eu precisava saber.
Por quê? Simples. Porque eu não entendia. Porque, como eu já disse, não fazia sentido. Eu precisava saber o que exatamente era aquilo que eu não conseguia encontrar quando olhava no espelho. O que havia em mim digno de ser amado.
- Sinto muito, caçadora – respondeu , finalmente, em tom distante. – Mas eu já estou cansado de tentar provar o que sinto.
- Não é isso o que eu quero. Eu sei que você me ama, – eu disse, em voz baixa, remexendo a comida com o garfo. – Já clarificamos esse ponto. Lembra? Eu só não sei... Quero dizer, só não entendo...
- Por que eu a amo? – ele repetiu minha pergunta, dessa vez de forma suave, como que finalmente entendendo. Assenti.
Será que eu realmente queria uma resposta para aquela pergunta? Não. Claro que não. Mas precisava perguntar de qualquer maneira. Eu tinha aquela fagulha de esperança. Esperança de que ele seria capaz de me explicar o que havia em mim digno de ser amado. Esperança de que a resposta dele seria o suficiente para me fazer entender o que havia de bom em mim.

Mais do que tudo, esperança de que aquele entendimento faria com que eu começasse a me amar também.

Xx

’s POV


Eu não devia responder, por vários motivos.

Um, eu não sabia a resposta. E, não, isso não tinha nada a ver com a quantidade de álcool que já havia ingerido. Eu era um bêbado bem lúcido, na maior parte do tempo. Não era esse o problema. Entenda, é fácil apontar as coisas que você ama em alguém, mas o motivo pelo qual você se apaixonou? Essa não é uma pergunta que se responda com facilidade.
Dois, e se ela não gostasse da resposta? E se eu falasse besteira e destruísse aquela aceitação dos meus sentimentos? E se ela decidisse que minha resposta não era aquela de um apaixonado? Voltaríamos à estaca zero.
Três, e mais importante... Simplesmente não podia responder. Havia prometido parar de insistir, de impor meus sentimentos, mas eu simplesmente não era capaz de falar sobre o que eu sentia por ela de forma objetiva. Se abrisse a boca, o poeta ia falar mais alto e despejar o coração. Consequentemente, ela correria para as colinas. Era coisa demais para ela.

Eu não podia responder... Mas podia ser sincero.

- Você sabe muito bem que eu não sei a resposta. Só o que eu poderia dizer é o que sinto e você não quer ouvir isso.
- Não, não quero – ela admitiu. – Mas preciso. Um dos maiores motivos que me levaram a duvidar de você por tanto tempo é que eu não consigo... Não consigo entender. Eu só quero entender.

Oh, merda.

Eu sou capaz de resistir a tortura. Aguento maus tratos por bizarros períodos de tempo. Aguento fome, aguento dor, aguento desespero. O que eu nunca havia sido capaz de aguentar era um pedido de ajuda sincero vindo de .
Eu podia ver nos olhos dela. A caçadora realmente queria entender. Por que exatamente eu não sabia, mas parecia importante para ela. Pela primeira vez, a garota queria que eu dissesse a verdade e era eu quem hesitava. Talvez, se estivesse sóbrio, teria alguma chance de resistir. No meu atual estado, no entanto, a chance era de uma em um milhão.
Tomei um longo gole direto da garrafa. Eu era um babaca. Claro que faria o que ela havia pedido, mesmo reconhecendo a chance real de que aquilo iria destruir aquela espécie de paz que havíamos encontrado. Ela já havia se afastado de mim uma vez por não querer me machucar. Se tivesse ao menos uma vaga ideia da extensão dos meus sentimentos por ela, não saberia lidar com a situação. Ela não se perdoaria e voltaria a me tratar como um boneco de porcelana. Da última vez que isso aconteceu, perdi o controle e tomei medidas drásticas... Achei que seria melhor tê-la me odiando e quase coloquei tudo a perder. Acabei levando uma estaca de plástico no peito como punição. Se eu falasse a verdade, o que aconteceria agora?
Eu respirei fundo, enchendo meus pulmões do oxigênio do qual eu não precisava. Tomando mais um gole para me dar coragem, eu a encarei, buscando as palavras certas.
- , só fale. Ok? – disse ela, após alguns segundos, revirando os olhos. – Não quero uma grande declaração de amor. Quero... Sei lá, fatos. Coisas que eu possa entender.
- Esse é o problema, . Você não pode entender. – eu disse, suspirando. – Nem eu entendo. Desculpe, mas não posso lhe dar fatos. Não posso explicar por que o mundo para quando você olha para mim. Ele vai embora. É como se surgisse uma bolha ao nosso redor e, fora dela, está o mundo, seus amigos, meu passado... Tudo que diz que eu não devia estar sentindo o que estou sentindo – quase deixei minha voz tremer, mas consegui me conter. Merecia manter aquele mínimo de dignidade, ao menos. – E parece... Parece que não posso respirar, que me esqueci como respirar, e eu entro em pânico por que esqueço que não preciso. Não tem como ficar perto de você e não sentir que eu... – levei as mãos ao rosto, rindo do ser ridículo que havia me tornado – Eu esqueço que estou morto. Juro. Às vezes até sinto meu coração bater. E todas as razões pelas quais eu sei que não podemos ficar juntos perdem o sentido, e eu começo a ter certeza de que trocaria todas as minhas lembranças de dias ensolarados por um sorriso seu. Só um sorriso sincero. É uma mistura de paz, de paixão e de várias coisas totalmente novas. E eu me sinto novo... Como se não fosse apenas um monstro. Como se ainda fosse capaz de ser um homem – parei um segundo, juntando coragem para olhar para ela. Eu havia falado demais. Como sempre, havia me deixado levar e esquecido a hora de fechar a boca. Podia ouvir o coração dela batendo em pânico. Conhecia a expressão de bichinho acuado que encontraria no rosto de . – Bom... Você queria saber o que eu sinto. Isso não é nem de perto o total. São apenas palavras ou o que eu consigo colocar em palavras. Mas palavras nunca são o suficiente. Você me pede para explicar, porém a fala não é a linguagem certa. Amor só é entendido quando mostrado, sentido. Para entender, você não teria que me ouvir – eu baixei a voz então, parte de mim desejando que ela não escutasse o que viria a seguir – Teria que me deixar amá-la.
Finalmente deixei meus olhos encontrarem os dela. parecia perdida. Como eu suspeitava, a garota havia pedido a verdade, mas não sabia o que fazer com ela.

O som de um cliente bêbado quebrando um copo umas duas mesas à frente quebrou o encanto.

- Eu... Eu preciso ir... Lá fora... – balbuciou ela, levantando-se com pressa.
- Caçadora...
- Eu vou voltar – disse ela, sem olhar para mim. – Confie em mim. Eu só preciso... Vou voltar. Ok? Pode me esperar aqui.
Eu a observei seguir parar a porta do bar, uma sensação de derrota me dominando. Parte de mim queria impedi-la, mas eu já estivera nessa situação mais de uma vez. sempre fugia e eu sempre perdia parte do meu coração toda vez que a observava se afastar. Quantas vezes eu já não a observara partir? Quantas vezes já ficara parado e a deixara ir, sentindo-me impotente, incapaz de mudar a situação? Eu havia aprendido minha lição há muito tempo, porém, por puro masoquismo, continuava me colocando na mesma situação, de novo e de novo.
Tentando me distrair, peguei meu celular e respondi a uma mensagem de Tara, que pedia notícias, com uma mentira: Estamos bem. Está tudo bem. Bem? Eu não me lembrava da última vez que havia me sentido realmente bem. Estava tudo péssimo. Era cruel que, após ter sido partido várias vezes, após ter cada caquinho roubado por , meu coração ainda sentisse dor. Quantas pancadas ele era capaz de aguentar antes de parar de se importar? Antes de ficar dormente de vez?
Peguei a garrafa à minha frente, decidido. Se a natureza não era piedosa o suficiente para me anestesiar, eu mesmo teria que tomar uma atitude.

’s POV – OFF

Xx


- Nem sinal deles – disse Mason em tom cuidadoso.
- Já são duas noites! – exclamou Godfrey. – Alguma coisa deve estar acontecendo. Aqueles dois não parariam de sair com o resto dos caçadores por nada.
- Godfrey, acalme-se. O Mestre adiou sua volta. Tenho certeza de que vamos resolver a situação até lá – disse Mason, colocando a mão no ombro do loiro.
- Eu sei – disse Godfrey, colocando a mão sobre a do outro em um raro gesto de afeto. – Sei que estou exagerando, mas não ter notícias dos dois é preocupante. O Mestre gosta de se manter atualizado sobre eles. Não quero preocupá-lo quando voltar. Ele já tem preocupações o suficiente e Siobhan não está ajudando, ao que parece.
- Se... Acalme – disse Mason, sorrindo de leve. – Não há nada que você possa fazer e o Mestre vai arranjar um jeito. Ele sempre arranja. Vai dar tudo certo. Ok? E você não está ajudando ninguém parado aqui, imerso em sua própria paranoia. Já está tarde. O melhor que podemos fazer é voltar para casa e ir para a cama.
- Isso é um convite? – perguntou Godfrey com um meio sorriso. – Você não estava cansado de casualidade?
- Talvez seja um convite. Talvez eu só queira dormir – disse Mason, rindo. – E, de qualquer forma, não é como se eu fosse arranjar um namorado ou uma namorada no meio de uma guerra iminente. Infelizmente, a vida não é como aqueles romances adolescentes que o Hector adora.
Godfrey riu e acompanhou o moreno de volta ao mais recente ninho. Sua preocupação, no entanto, não desapareceu. Ele gostava de pensar em si mesmo como um estrategista e gostava de manter as coisas sobre controle. Ultimamente, no entanto parecia que tudo estava tomando um rumo caótico. Pela primeira vez em décadas, Godfrey questionava sua decisão em acompanhar seu Mestre, o homem que o havia acolhido quando seu próprio criador lhe virou as costas. Na teoria, o plano havia parecido bem simples, mas o vampiro agora temia que eles tivessem subestimado a força da Organização e superestimado o poder de persuasão do Mestre.

Havia escuridão no horizonte e, pela primeira vez em sua existência como vampiro, Godfrey tinha um mau pressentimento sobre isso.

Xx

Tara guardou o celular, sentindo-se um pouco aliviada. Pelo menos ambos ainda estavam vivos, o que era bom sinal. Se e haviam conseguido evitar se matar por vinte e quatro horas, talvez conseguissem encarar o resto da viagem com a saúde intacta.
Ok. Talvez não intacta. Um dos dois inevitavelmente ia acabar socando o outro em algum momento, mas mesmo assim. O que importava é que permanecessem vivos.
Com um suspiro resignado, Tara caminhou de volta para a escrivaninha de seu quarto. Precisava continuar a escrever.

E é isso que teria feito, se uma mulher não tivesse subitamente se materializado entre a garota e a mesa.

- Assustei você? – perguntou a engraçadinha, enquanto Tara ofegava, uma mão no peito como se para impedir que seu coração pulasse para fora.
- Quantas vezes eu já lhe disse pra não fazer isso? – disse a loira, tentando se recuperar. – Custa anunciar sua presença de maneira mais delicada?
- Oh, desculpe – disse a aparição, irônica, enquanto parecia suspirar. – Eu bateria na porta, mas... – ela levou o punho fechado para a superfície da mesa de Tara, como se fosse bater na madeira, porém sua mão atravessou o objeto. Ela sorriu inocentemente para a loira, enquanto essa revirava os olhos.
- Isso não significa que precise simplesmente se meter na minha frente quando eu menos espero. Você tem péssimos modos, até para um fantasma.
- Já disse que não sou um fantasma – disse a mulher, ofendida. Jogando os cabelos para trás e levantando o queixo, ela continuou. – Sou um espírito elevado. Se fosse um fantasma, seria bem mais fácil ser vista e eu não estaria aqui a perturbando.
- Exato. Você precisa de mim e dos meus sentidos paranormais, então seria ao menos educado ser um pouco mais delicada – retrucou Tara em tom vitorioso. – E a que devo a visita?
- Nada de especial. Só quero saber se você tem notícias dos dois.
- Não é mais fácil simplesmente aparecer por lá? Eles não podem vê-la.
- Eu aprendi da maneira difícil a nunca espiar e quando eles estão sozinhos – disse ela com uma careta.
- Oh – Tara assentiu. – Bom, eu acabei de receber uma mensagem de e eles estão bem. está bem. Foi uma boa ideia tirá-los daqui.
- Eu sei – disse a mulher, mais para si mesma do que para Tara. – Eu só fiquei com medo de que eles...
- Matassem-se? – completou Tara, rindo. – É, eu também. Mas acho que eles estão conseguindo controlar a situação – depois de um segundo, ela completou. – Eu acho... Quer dizer, sei que ele é o cara certo para ela. Vai ajudá-la.
- Eu sei – assentiu a mulher. – Gosto de . Tive a oportunidade de conversar com ele dez anos atrás. Salvei a vida dele, na verdade. Eu juro. Aquele cara até tem boas qualidades, mas no fundo é uma mula dramática... Mas eu gosto dele – completou ela, ao perceber o olhar feio de Tara.
- Ele foi uma boa surpresa – disse a loira. – E é meu parente, então corte os comentários maldosos.
- Ok, ok – disse a mulher, olhando à sua volta. Seus olhos pararam sobre a escrivaninha de Tara. – Escrevendo? A essa hora?
- Fazer o quê? – disse Tara, contornando a mulher e se sentando à frente da escrivaninha – O trabalho de uma agente tripla não acaba nunca – concluiu a loira em tom derrotado.
- Não pense em si mesma dessa forma – disse a aparição, percebendo o conflito da garota. – Você está lutando por um lado. O nosso lado. Encare o resto como um mal necessário.
- Ajudaria se eu soubesse um pouco mais sobre os nossos objetivos – retrucou Tara. – Eu confio em você. Confio mesmo... Mas ajudaria não agir no escuro o tempo todo.
- Você tem uma visão mais clara do que realmente está acontecendo do que a maioria dos envolvidos, Tara. Eu lhe diria mais, se pudesse, mas só de estar aqui já estou forçando os limites do que posso ou não fazer. Uma vez que você morre e se torna o que me tornei, a ideia é se desligar disso tudo. Eu só estou aqui por esse ser um caso especial, mas isso é tudo o que eu posso fazer – ela disse em tom cansado e Tara assentiu. As duas se encararam por alguns segundos. Suspirando, a mulher finalmente deu as costas para Tara. – Eu preciso ir.
- Espere – disse a loira. – Sobre o que você disse antes, sobre não poder aparecer para outras pessoas... Eu sei que já falamos sobre isso, mas não tem como você conseguir uma exceção com quem quer que governe essas coisas? Estou preocupada com ela – disse Tara, suspirando. – não confia nos amigos. Eu sei que ela tem , mas está apenas começando a perceber isso. Você não precisaria dizer nada sério para ela. Só... Seria bom para ver você. Ela se sente desamparada. O pai está morto, a mãe está morta, a única família que ela tem é a própria equipe... Não é preciso ter meus poderes para imaginar como ela se sente. Você devia falar com ela. Isso ajudaria. Tudo que eu vejo dentro dela me indica isso.
A mulher demorou um pouco a responder.
- Um dia – disse ela finalmente. – Quando chegar a hora certa. Quando ela precisar de mim mais do que nunca, vou estar lá. Mas por enquanto... – suspirou e continuou, resoluta. – vai ficar bem. Ela é forte. Afinal, puxou a mim.

Lançando um último sorriso a Tara, Marie voltou a desaparecer.



Capítulo 39 – The Art of Seeing Things Clearly



’s POV


Eu não estava fugindo, ok? Só precisava de um pouco de espaço.

Não é uma fuga se você tem toda a intenção de voltar. Eu só queria colocar meus pensamentos em ordem antes de precisar encará-lo novamente.
carregava o coração nas mãos, nos olhos. O transmitia nas palavras sem o menor esforço. Era difícil lidar com isso. Eu sei, eu havia pedido que ele me mostrasse... algo. Que me fizesse entender. E agora eu só precisava de um pouco de espaço para isso. Não conseguia pensar ou formular qualquer tipo de reação com ele me olhando daquela maneira tão ridiculamente nua, sem medo de se expor.

Eu não era muito boa com sentimentos. Se não sabia nem lidar com os meus, como poderia lidar com os de outra pessoa?
Eu caminhei um pouco, tentando não me afastar demais para não acabar me perdendo. Havia uma pracinha perto do bar, e eu deixei que meus pés me levassem até uma área com balanços. Sentei em um deles, me sentindo um clichê em carne e osso. Era típico. Garota desequilibrada em um parquinho de crianças, à noite, tentando reencontrar parte do que havia perdido. Inocência, confiança, amor próprio... Qualquer coisa.
Em que ponto da minha vida eu havia me tornado... Isto? Quando havia se tornado tão difícil entender, ou sequer aceitar que alguém me amasse? Não por precisar me amar, não por me conhecer desde sempre... Por que era tão difícil conviver com a ideia de que alguém havia me conhecido já como um desastre e me amado mesmo assim?

Ele me amava tanto.

Era assustador. Não era nem só as palavras dele, embora a força destas ainda me tirassem o ar. Era o modo como aquele vampiro as dizia, o sentimento por trás de cada afirmação, os gestos dele, o olhar... me amava. Ele realmente me amava, e eu não sabia o que fazer.
Fora diferente com . Eu era mais nova, menos consciente de quem eu era. E não era como . me amava também, eu nunca havia duvidado, mas ele era mais fechado. Mais parecido comigo. Na época eu era mais confiante, e ele era bem controlado. Agora eu havia me tornado mais fechada, e o novo vampiro na minha vida transmitia o que sentia com todo o seu ser. Ele me oferecia sentimento demais no momento no qual eu me via menos preparada para aceitar.
Eu suspirei e balancei a cabeça. Não adiantava nada ficar ali remoendo aqueles pensamentos. Decidida a me distrair, resolvi checar meu celular pela primeira vez em mais de 24 horas.
O fato de só haver duas mensagens novas não lidas era um atestado do quão popular eu era. Fiquei irritada por um momento. Era ano novo, eu havia ido embora sem me despedir de ninguém e a única alma que se importava em me mandar uma mensagem era Tara? Ok, eu sabia que ela havia arranjado uma desculpa e explicado a todos o meu sumiço. Sabia também que meu relacionamento com tecnologia era péssimo e que as pessoas evitavam tentar falar comigo pelo celular, mas mesmo assim. O fato de ninguém ter tentado me incomodava.
Eu abri as mensagens de Tara:

Hey! Tudo bem com vocês aí? Mandem notícias. Mesmo se você estiver irritada comigo.

acabou de me responder. Feliz ano novo!


Eu pensei em responder dizendo que não estava irritada (mesmo ela e tendo planejado isso pelas minhas costas), mas não estava no clima. Estava colocando o celular de volta no bolso quando vi alguém se aproximando.
Era uma mulher. Entre 30 e 40 anos, asiática, usando uma saia longa, sandálias e uma camiseta. Ela carregava uma bolsa grande e cantarolava enquanto andava.
Quando estava quase chegando à grande mesa de piquenique no meio da praça, ela finalmente notou minha presença.
- Oh, oi! Feliz ano novo! – disse ela, sorrindo – Você se importa se eu te fizer companhia? Essa bolsa pesada tá me matando e eu preciso descansar um pouco.
- Fique à vontade. – eu respondi, felizmente parando antes de acrescentar “a praça é pública”. Vindo de mim aquilo não pareceria amigável.

Não sei se você já percebeu, mas minhas habilidades sociais são inexistentes.

A mulher ignorou o banco da mesa de piquenique e sentou-se sobre a superfície desta, cruzando as pernas em pose de índio. Ao abrir a bolsa gigante, ela pareceu se atrapalhar, o que fez com que o conteúdo que trazia caísse no chão, entre a mesa e o banco.
- Droga! Já é a segunda vez hoje!
Eu não saberia dizer por que fiz o que fiz em seguida. Eu não era o tipo de pessoa prestativa. Não que eu tivesse algo contra ajudar os outros, mas ajudar significava interagir, e eu não era muito boa nisso. Então você pode imaginar a minha surpresa quando me vi indo até aquela desconhecida e a ajudando a recolher suas coisas.
- Obrigada. Eu sou um desastre ambulante. – disse ela, rindo e me estendendo a mão – Meu nome é Vinh.
- Vinh? – eu perguntei, me arrependendo em seguida. Lembra quando eu disse que não tinha habilidades sociais? Está aí a prova.
- Isso. É vietnamita, assim como os meus pais. Significa “glória”.
- Desculpa. Meu nome é . – eu respondi, apertando a mão dela.
- Prazer em conhece-la, e não se preocupe. A maioria das pessoas estranha. – disse ela, dando de ombros.
Eu sorri. Era estranho, mas algo de repente fez com que eu me sentisse à vontade. Havia alguma coisa... Eu não diria familiar, mas alguma coisa reconhecível em Vinh. Eu nunca havia sentido nada parecido antes.
Ok, talvez uma vez, com aquele vampiro mirim Drigger. Mas mesmo assim, não era a mesma coisa. Era uma sensação igualmente estranha, mas de um jeito diferente.
Tentando não pensar nisso, eu continuei entregando a Vihn seus pertences. Um baralho de tarô. Uma tigela de prata. Um saquinho com runas.

Ok, havia um padrão ali.

- Às vezes eu leio a sorte das pessoas. – disse ela, notando meu interesse. Ficava cada vez mais claro que Vinh não via problemas em compartilhar informações sobre si com uma completa estranha – Quando eu preciso de dinheiro, ou quando quero. Faz parte do pacote hippie seminômade. Quer que eu leia a sua?
- Não, obrigada. Já tenho preocupações o suficiente com o presente. – eu disse, tentando não soar grosseira.
- A maioria das pessoas adora saber do próprio futuro, especialmente no ano novo. – riu Vinh – Você tem certeza? Posso ler sua palma. Por conta da casa, como agradecimento pela ajuda.
Eu pensei em negar novamente, mas que mal faria? Talvez ela fosse apenas mais uma charlatã bem-intencionada. Nada até agora me garantia que ela era como ou Tara. Eu não tinha nada a perder.
- Ok. – eu disse, estendendo minha mão a ela – Mas não me diga nada sobre o meu futuro.
- Pedido estranho. – disse a mulher, sorrindo e pegando minha mão – Mas eu acho que te entendo. Quando eu leio pra uma pessoa, eu não vejo o futuro dela. Vejo o presente e traço suposições sobre o futuro mais provável, o destino do caminho que se está seguindo. Você disse que se preocupa demais com o presente. É só disso que você quer que eu fale? – antes que eu pudesse responder, ela continuou, olhando para a minha mão – Você está perdida. Confusa.
- Isso é um eufemismo. – respondi, um pouco divertida. Eu já não entendia nada que estava acontecendo na minha vida, então sim, estava confusa.
- Você corre perigo, mas sabe disso. – continuou Vinh, não parecendo ter me escutado – Eu vejo uma figura. Um homem. A ameaça que ronda sua vida. Ele gosta de manter você sob controle, por isso te vigia. Você é parte importante dos planos dele, mas ainda assim... Você tem motivos para acreditar que ele se importa com você. Não é verdade.

Ok, aquilo estava ficando um pouco assustador.

Ela havia descrito o Mestre. Só podia ser. Eu sabia que ele me vigiava, e já havia até me contatado. E desde que ele poupara minha vida, acreditava sim que por algum motivo ele se importava comigo. E agora aquela mulher dizia que não era verdade. Mais que isso, afirmava que eu desempenhava algum papel importante nos planos do Mestre. O interesse dele por mim havia sempre estado claro, mas aquilo colocava as coisas sob uma perspectiva diferente.
- Você foi traída recentemente. – continuou a mulher, antes que eu pudesse reagir – Mais do que imagina. Mas existem mais traições, traições que você ainda não descobriu. Pessoas muito próximas a você guardam segredos. Sim, isso inclui a sua família postiça. Seu amante... Algumas dessas pessoas te amam, mas estão traindo sua confiança. Não confie em ninguém.
Eu não queria acreditar. Quis soltar minha mão, perguntar como ela sabia daquilo. e Tara nunca foram capazes de descobrir coisas assim, muito menos lê-las nas minhas mãos. No entanto, ficava cada vez mais claro que Vinh não era uma leitora de palmas comum. Ao observar atentamente, dava para perceber que ela não estava realmente olhando para nada. Seus olhos estavam sem foco, e sua voz parecia vir de muito longe.
- Eu vejo... Culpa. – continuou ela – Por tantas coisas... Mais recentemente, porque você não pode amá-lo. Não quer amá-lo. Mas esse não é o problema. O centro do seu conflito é a realidade que você não quer admitir. Você pode não querer amor, mas quer a ele. Você o quer na sua vida e isso está te matando de medo. Medo do que isso pode se tornar...
- PARA! – eu gritei, finalmente conseguindo juntar forças para puxar minha mão. Vinh pareceu desorientada por alguns segundos.
- Desculpe. – disse ela, balançando a cabeça – Você... Sua energia... Era como se estivesse gritando. Eu acabei ficando envolvida demais. Desculpe se te assustei.
Eu permaneci parada, ofegante, tentando decidir o que fazer. Talvez eu devesse confrontá-la, pois ela claramente não era a hippie inocente que parecia ser. Porém, demonstrar que eu entendia de certa forma o que havia acontecido ali seria revelar que eu também era mais do que uma garota comum.
- Quem... O que é você? – eu disse, finalmente. Talvez aquela pergunta fosse confusa o suficiente para ser confundida com a surpresa de uma humana.
- Não vou responder isso, mas também não vou te fazer a mesma pergunta. – diante da minha falsa surpresa, a mulher continuou – O pouco que você me deixou ver deixou claro que há algo especial em você. – explicou ela – E que você não é uma ameaça para mim. O contrário também é verdade, mas eu vou deixar seus instintos te convencerem disso.
De fato, fora o medo que eu senti quando ela começou a falar aquelas coisas, nada em Vinh havia acionado minhas defesas. Eu nem havia percebido que ela era sobrenatural também até ficar ridiculamente óbvio.
- Você parece saber bastante sobre os meus instintos. – eu disse, jogando verde.
- Eu só sei o que eu vi, e foi muito pouco. Geralmente eu sou capaz de controlar o que vejo, mas quando olhei dentro de você foi como tivesse aberto o portão de uma represa. Algumas coisas simplesmente me atingiram, exigiram vir à tona. Imagino que tenham sido as coisas nas quais você mais pensa, ou talvez as que mais reprima. Em alguns casos, as duas ao mesmo tempo.
- Você o viu? – eu perguntei, antes de poder me controlar.
- O vampiro? Alguns flashes. – eu não me surpreendi com a familiaridade com a qual Vinh usou aquele termo. Se ela tinha magia como e Tara, era esperado que ela soubesse das outras coisas estranhas que existiam nesse planeta – O suficiente para entender que é complicado. Você não pode oferecer o que ele quer, mas também não consegue se manter afastada.
- Bom, não é como se ele facilitasse a situação. – eu disse um pouco irritada, mas permaneci parada ali, de frente para ela. Tinha total consciência de que devia estar me afastando daquela desconhecida, voltando para o bar atrás de , mas não conseguia juntar forças para isso. Era uma mistura de exaustão com um estranho senso de... Confiança? Havia algo naquela mulher que me fazia confiar nela. Ela emanava uma espécie de força que tornava ridiculamente fácil até para uma pessoa como eu falar com ela. Eu duvidava que aquilo fosse algo natural, mas não conseguia forçar a me importar. Apesar do fraco protesto vindo do meu inconsciente, eu não conseguia lutar contra a vontade de continuar ali.
Talvez aquilo fosse bom, no final das contas. Vinh era suspeita, para dizer o mínimo, mas eu estava cansada. Meus pensamentos estavam uma bagunça, e embora eu tenha corrido de para ficar a sós com eles, agora via que não era capaz de processá-los ou entende-los. Não sozinha.
- Não é com ele que você está irritada. Ao menos não apenas com ele. – continuou a mulher – Seu problema é consigo mesma. Você não quer amá-lo, mas ao mesmo tempo se irrita por que não conseguiria se quisesse.
- Eu estou quebrada. – eu disse, de forma súbita e veemente – Ninguém gosta de estar quebrada. Então sim, eu me irrito.
- Pessoas não quebram, . Nós não somos máquinas.
- Eu sou. – eu insisti, lentamente sendo tomada pelo turbilhão de emoções que vinha se acumulando em mim há um tempo – Eu não consigo amar mais ninguém. Eu sou como um cofre com a fechadura quebrada. O que estava dentro dele continua lá, mas nada de novo entra.
Eu amava meus amigos. , , Gilbert... Se havia algo que eu ainda podia afirmar, era aquilo. Mas embora ultimamente houvesse diversas novas pessoas na minha vida, como Tara, os Cromwell e até , eu não me sentia capaz de amar nenhum deles. Meu coração havia se fechado para o mundo, trancando dentro dele o que lá já estava e se recusando a aceitar alguém novo. Eu gostava daquelas pessoas. Sim, até de , parte do tempo. Mas amar?

Eu estava quebrada.

- Por isso a culpa, certo? – perguntou Vinh – Você carrega bastante culpa, uma boa parte em relação ao vampiro. Você não consegue aceitá-lo. Por um lado, o amor dele te faz se sentir culpada por não poder reciprocar. Por outro, você se irrita por ele ser capaz de sentir o que sente e você não. Claro, essa irritação apenas de deixa mais culpada. É um ciclo infinito.
- Afirmações bem elaboradas e específicas para alguém que diz ter visto muito pouco. – eu disse, um pouco irritada.
- É parte do que eu faço. – a mulher se defendeu, erguendo as mãos em sinal de rendição – Não sou vidente, . Já disse, para dizer o futuro preciso primeiro entender o presente, que monto a partir dos fragmentos desordenados que eu encontro aí dentro. É um processo que exige bastante suposição e um pouco de criatividade. Por sorte, eu sou boa em entender as pessoas. – aquilo me fez pensar em Tara e seu irritante hábito de saber tudo o que se passa dentro de todo mundo. Talvez aquela habilidade fosse algo comum entre bruxas, embora Vihn não houvesse se identificado como tal – De qualquer forma, é só uma suposição. Só você sabe se eu estou certa ou não.
Ela estava, mas eu não precisava admitir aquilo. Afinal, ela era uma desconhecida. Se não fosse, eu não teria deixado aquele assunto se desdobrar.
- Eu não devia estar falando sobre isso com você. – foi minha única resposta.
- Você obviamente quer falar sobre isso com alguém. – disse Vihn, dando de ombros – Os problemas que você fica remoendo quase me sobrecarregaram. Estavam desesperados para escapar. E se for pra falar com alguém, não é melhor que seja uma pessoa que não te conheça, não te julgue e, melhor, que não possa discutir isso com ninguém?

Era difícil argumentar com aquela lógica.

- Ele é parecido demais comigo, este é o problema. – eu confessei, finalmente – E às vezes não é parecido o suficiente. É como um espelho. Eu me vejo nele, mas ao contrário.
era meu reflexo. Éramos similares em muitas coisas, de fato, mas não éramos iguais. O vampiro era o meu contrário em diversos aspectos, como havia provado alguns minutos atrás. O coração dele não batia, sua pele era fria, mas por dentro ele ardia em uma intensidade assustadora de sentimentos. Ele não tinha pulso, mas tinha uma infinidade de emoções que não sentia a necessidade de esconder. Já eu era o exato oposto. Estava viva por fora e morta por dentro.
- Faz sentido. – disse Vinh, com a serenidade aparentemente inabalável que estava começando a me irritar – Seus problemas para aceitá-lo, quero dizer. Poucas pessoas no mundo são capazes de realmente amar o que veem no espelho. São poucas as que focam nas boas qualidades. A maioria só vê o que há de ruim. Talvez as coisas que você não gosta nele sejam aquelas que não gosta em si mesma.
Era fácil ver que se eu seguisse aquele raciocínio, acabaria concluindo que ela estava certa. Afinal, meus dois maiores problemas com tinham a ver com ele ser um vampiro e um assassino.

Olá. Meu nome é , e eu sou uma híbrida que ganha a vida matando vampiros.

Imagino que esteja claro porque era melhor ignorar a lógica de Vinh.
- Os motivos são irrelevantes. – eu afirmei, um pouco defensiva – Não tenho a menor necessidade de entender porque funciono como funciono. Só quero descobrir o que fazer agora. Como agir.
- Infelizmente eu não posso te dizer o que fazer.
- Eu não perguntei. – eu retruquei, desistindo de tentar ser educada.
- Não. Mas não foi embora ou me mandou calar a boca ainda, o que me diz que você quer ajuda. Só não sabe pedir.
- E você acha que pode me ajudar?
- Sinceramente? Não. – ela sorriu – Mas como eu já disse, sou boa em entender as pessoas. Posso tentar te ajudar a se ajudar, pelo menos.
- Você não seria a primeira pessoa a tentar. Acredite, não é fácil.
- Eu estou percebendo. Vamos começar com algo fácil. O que você quer?
- No momento? Entender por que eu sinto que posso confiar em você. Isso não é normal, especialmente para mim. Eu te conheço a menos de meia hora, e no entanto me sinto compelida a te contar coisas que eu não tenho coragem de contar para os meus melhores amigos. Por que?
- Ok. Pra provar que eu sou digna dessa confiança, eu vou ser honesta com você. – disse Vinh, me olhando nos olhos – Você está certa, não é normal. O motivo pelo qual você se sente incrivelmente confortável perto de mim é que eu estive na sua mente. Eu não sei explicar exatamente por que, mas é um efeito colateral comum. Eu acho que a mente começa a me conceptualizar como parte dela, por eu ter estado nela. Parte de você acha que ao falar comigo, está falando consigo mesma.
- Talvez. Mas eu senti uma conexão estranha com você mesmo antes disso.
Vinh continuou a me encarar, parecendo querer dizer algo. Após alguns momentos, porém, ela suspirou e desviou o olhar.
- Bom, isso eu não posso explicar.
Tive vontade de perguntar se aquele “não posso” implicava uma incapacidade ou a falta de uma permissão, mas desisti. Se ela fosse me dizer algo, já teria dito, e no momento eu já tinha a mente cheia demais para me preocupar com aquela mulher.
- É seu dia de sorte. – eu retruquei – Estou cansada demais. Não vou insistir.
- Ok. Eu tenho que ir de qualquer maneira, então é bom que não queira insistir. – ela sorriu e se levantou, porém não se afastou – Mas, se me permite uma última pergunta, o que você quer, então? E não fuja da questão dessa vez. Não interessa o que você quer nesse exato momento, e sim o que você quer de verdade.

O surpreendente é que a resposta era bem simples.

Talvez por estar cansada, talvez por estar, de certa maneira, falando comigo mesma, naquele momento eu era capaz de ver as coisas de forma bem direta e simplificada. Eu pensei em tudo que havia acontecido nas últimas horas, cada palavra trocada e cada pensamento, e tudo me pareceu claro. Sem os conflitos, medos e todas as demais preocupações que geralmente poluíam aquele assunto, a resposta me pareceu simples.
- Ele. É isso que eu quero. Mas existe um mundo de complicações que impedem que isso aconteça.
- A boa notícia é que nós já estabelecemos que as complicações partem de você, então está nas suas mãos resolvê-las.
- Eu não posso me forçar a ser uma namorada amorosa ou o que quer que ele queira, Vinh.
- Isso é o que você acha que ele quer. Já se preocupou em perguntar a ele? – ela sorriu, ajeitou a mochila e começou a se afastar. Não deu mais que três passos, porém, antes de parar, suspirar e se voltar para mim – Um último conselho. Eu não conheço o seu vampiro, mas pelo que eu consegui entender o que ele quer é você. E imagino que o que ele não quer é ser maltratado. Então talvez se você for capaz de controlar esse seu temperamento adorável, possa ter o que quer sem culpa. Até um dia, . – dizendo isso ela voltou a se afastar, tão tranquila quanto havia chegado.

Eu sentei no banco da mesa, um pouco desorientada. Não podia ser simples assim, podia?

A razão principal para eu ter terminado tudo com havia sido o fato de não querer machucá-lo. Claro, havia o fato de ele ter traído minha confiança, e a questão do uso de sexo como arma da parte dele, mas no fundo eu me afastei por não suportar fazê-lo sofrer. O que Vinh dissera, no entanto, fazia sentido. queria que eu o amasse, claro, mas talvez não fosse aquilo que o machucasse. Talvez o problema fosse o modo como eu o tratava.

O fato de isso nunca antes ter passado pela minha cabeça diz muito sobre mim.

Eu nunca havia considerado a hipótese de que eu não precisava corresponder aos sentimentos dele para tratá-lo com respeito. Nunca havia percebido que não precisava pisar no vampiro para me proteger. Existia um meio termo. Talvez fosse o suficiente pra ele se eu permanecesse completamente honesta e o tratasse... Bom, não como a um amigo, mas como uma pessoa. Mesmo quando estávamos “juntos”, eu nunca havia deixado de vê-lo como o inimigo que ele já não era, por isso meu modus operandi havia continuado a ser maltratá-lo de todas as maneiras possíveis. Talvez se eu consertasse isso, houvesse uma chance.
Eu me levantei e comecei a andar pela pracinha. Perdi a conta de quantas voltas completei tentando digerir aquela realização. Se eu mudasse a forma como via , poderia mudar a forma como o tratava e aquilo poderia ser o começo de algo. Uma trégua, uma parceria, o que quer que fosse. Poderia ser o fim da culpa.

Mas e a traição dele?

Eu já havia o perdoado por aquilo. Ele havia se aproximado do Mestre pelas minhas costas, ok, mas ao menos havia conseguido informações. E eu duvidava que ele fosse me trair daquela maneira de novo...

Mesmo? Você sabe que ele esconde coisas de você...

Verdade. Eu sentia que estava escondendo algo de mim desde que ele havia reaparecido na minha vida. Sem contar os outros milhares de segredos que ele parecia guardar. Mas o quão sério tudo aquilo poderia ser? Se eu fosse totalmente honesta, admitiria que também escondia coisas dele.

E faz bem. É como Vinh disse, não confie em ninguém.

Eu não preciso confiar totalmente nele. Só preciso confiar o suficiente para que isso dê certo.

Ele é um vampiro. Um assassino.

Enquanto ele continuar na Organização, não pode matar ninguém. É só eu não pensar no passado dele. Não é como se eu fosse me casar com ou algo do tipo. Eu estava pensando em algo mais próximo do que éramos antes de todo o drama. Parceiros com benefícios, talvez.

E o modo como ele fez você se sentir? O modo como ele usou sexo pra te subjugar, te controlar, te humilhar...

Ele realmente havia abusado da atração que existia entre nós para me manter perto dele. Havia tomado certas liberdades que nunca foram concedidas. Mas eu já resolvera aquele assunto. Com uma estaca de plástico, se me lembro corretamente. Tenho a distinta impressão de que ele aprendeu a lição.

Você acha que as coisas podem mudar?

Talvez.

Eu precisaria conversar com ele, é claro. Essa era a parte difícil. Seria necessário antes de mais nada ver se era aquilo que ele queria. Estipular regras, limites... Não dava para continuarmos de onde paramos, e isso não era apenas pelo modo como eu o tratava, mas pelo qual ele me tratava também. Se algo acontecesse entre nós, precisaria ser diferente. Eu não ia continuar engolindo aquele comportamento sempre dominante de . Não deixaria ele me agarrar quando bem entendesse, me beijar para calar minha boca, nem nada do tipo. Eu queria parte do controle. Afinal, se eu estava disposta a começar a respeitá-lo, precisaria que ele me respeitasse também.

Foi nesse momento que, como se vinda do nada, uma onda de pânico me dominou.

Eu apoiei uma mão em uma árvore próxima, tentando respirar, tentando não deixar a situação evoluir como evoluíra na noite anterior. Com um pouco de esforço, consegui regular minha respiração e manter meu foco, talvez porque o gatilho dessa vez havia sido diferente.
Eu não estava debatendo se devia ou não conversar com e acertar as coisas entre nós. Não, eu já estava decidida e apenas tentava justificar minha decisão para mim mesma. Tentar explicar o quanto essa ideia me assustava seria impossível. Aquilo não era uma hipótese, não era uma opção. Eu, , estava prestes a aceitar de volta na minha vida.

Isso se eu não entrasse em curto-circuito antes, é claro.

Após alguns minutos inspirando, expirando e tentando não pensar no que aquilo significava, eu voltei a me sentir como eu mesma. No entanto, se eu continuasse ali sozinha, isso não duraria muito.
Ok, hora de arrancar o band-aid, eu disse a mim mesma. Minha decisão já havia sido tomada, e quanto mais eu demorasse para agir, mais difícil seria. Já estava mais do que na hora de voltar.
Essa ideia apenas ganhou força quando eu chequei o horário no meu celular, levando um susto. Quase quatro e meia da manhã. Eu havia deixado sozinho naquele bar por quase três horas.
Eu apressei o passo em direção à entrada do bar, focando toda minha atenção em um plano de ação. Seria fácil. Eu encontraria o vampiro, nós sairíamos do bar e eu deixaria o assunto surgir naturalmente. O que poderia dar errado?

A resposta se mostrou clara assim que eu entrei no local.

Eu não precisei ir até nossa mesinha discreta para encontrar . Não precisei porque o encontrei imediatamente, encostado em uma mesa de sinuca e cercado por um grupo de universitários com jaquetas e camisetas da UCLA.
- , você voltou! – exclamou ele, em voz alta. Bem alta. Alta demais para uma pessoa sóbria, o que obviamente não era o caso dele.
Ótimo. Aparentemente eu precisaria lidar com um vampiro bêbado, afinal de contas. Não devia tê-lo deixado sozinho. Só Deus sabe o quanto ele devia ter bebido naquelas últimas horas.
veio até mim, uma mão fechada em torno de uma garrafa e a outra agarrando uma das minhas, de forma a me puxar para perto da mesa e de seus ocupantes, que pareciam ter saído de um filme sobre fraternidades universitárias.
- Pessoal, essa é a . , esses são os meus amigos da Delta Sigma Phi! – disse o vampiro, parecendo extremamente animado, obtendo como resposta uma sinfonia de gritos, cumprimentos e risadas.
Eu não sabia o que me deixava mais feliz: ser um bêbado alegre ou o fato de ele ter encontrado uma fraternidade de bêbados alegres. Karma, por que logo eu?
- Esse cara... – disse um dos garotos, cambaleando até nós e apoiando um braço nos ombros de – Esse cara é o cara... É o cara mais legal que eu conheço. Eu amo esse cara, e ele ama... Ele ama você. – ele disse isso com uma expressão facial que provavelmente acreditava ser solene, mas que na verdade o fazia apenas parecer com alguém que precisava ir ao banheiro com urgência – Cuida bem do , porque o amor... O amor é a coisa mais linda... Mais linda do mundo. – dito isso ele começou a chorar escandalosamente, abraçado ao vampiro que agora o consolava.
- Ele levou um fora a pouco tempo. – me informou , com uma expressão de tristeza tão genuína que, para controlar o riso, eu precisei me apegar à revelação que o garoto havia feito sem saber.
- Você estava falando de mim para eles? – eu perguntei, por entre os dentes.
- Claro! – exclamou , sem parecer preocupado – Eles são meus melhores amigos, e amigos conversam sobre tudo! – o vampiro concluiu, e eu segurei o impulso de lembra-lo de que, se não fosse pela embriaguez, aquela amizade não existiria. Playboys de fraternidade e um cara pálido vestido todo de preto, com jeito de punk? Em outro contexto aquilo teria terminado em porrada.
- A amizade é mágica! – gemeu o chorão, enquanto o passava para os braços de outro universitário – O amor é um sentimento sagradooooo... – e voltou a soluçar.
- Fico feliz que você tenha feito novos amigos, mas tá na hora da gente ir. – eu disse, no tom mais amigável que eu consegui, tentando controlar o sarcasmo na minha voz.
- NÃO! – gritou um dos garotos – Não leva ele embora! Ele ainda não nos mostrou suas presas!
Eu me voltei para com assassinato no olhar.
- Você bebeu demais, . – eu disse, com um sorriso forçado – Pessoas não têm presas, lembra?
- Sim, mas eu... – antes que ele pudesse continuar, eu agarrei seu rosto, o forçando a olhar para mim.
- Pessoas. Não. Têm. Presas.
Ele arregalou os olhos, como se finalmente tivesse entendido o que eu estava tentando dizer. se voltou para os demais, fazendo cara de criança que levou bronca.
- Eu não tenho presas. – disse o vampiro, com o olhar no chão. Murmúrios de decepção percorreram o grupo.
- Não importa! – disse o rapaz que ainda estava chorando – Nós te amamos mesmo assim! – as exclamações agora eram de concordância.
- Ok, ok, o amor é lindo, mas nós realmente temos que ir. – eu disse, revirando os olhos.
- Ei, você não manda nele! – disse outro dos rapazes, e os demais novamente concordaram.
- É! – disse – Você não manda em mim! Eu sou... Independente! Eu não faço o que você manda! Eu não sou o !
- Claro que não, não estaria bêbado em um bar tão perto de amanhecer.
- Caçadora... – disse , suspirando – Se você quer que eu seja o , me coloca em um vestido cor de rosa e acaba logo com isso! – disse , em seguida se juntando ao coro de gargalhadas que o comentário provocou.
- Ha ha, é uma menininha e deve usar vestidos rosas, misoginia é algo muito engraçado. – eu disse, revirando os olhos – Sinto muito ter que interromper a diversão, mas nós ainda temos que achar um hotel. Ou você prefere estar na rua quando o sol nascer?
- Ela está certa. – disse , parando de rir enquanto os demais me vaiavam. Ele começou o lento processo de se despedir de cada um de seus novos “amigos” enquanto eu procurava a garçonete que havia nos servido para pedir a conta.
Eu, e os alunos da UCLA éramos os últimos fregueses do bar. Além de nós, havia dois garçons e um homem de meia idade com um crachá de gerente. Imaginando que nossa garçonete havia ido embora, eu fiz sinal para o gerente, que me trouxe a conta com um sorrisinho bem desagradável.
- , a conta. – eu disse, e o vampiro começou a tatear seus bolsos em busca da carteira.
Após um minuto de busca infrutífera, eu senti o gerente colocar a mão na minha cintura.
- Sabe, existe mais de uma maneira de se pagar uma conta...

Tudo aconteceu muito rápido.

Minha reação imediata foi agarrar a mão do infeliz e torcê-la, ao mesmo tempo em que dava uma joelhada entre suas pernas, fazendo com que ele se debruçasse no chão de dor. , porém, com seus reflexos prejudicados graças ao álcool, não foi capaz de parar o punho que havia lançado em direção ao queixo do imbecil. O problema, é claro, era que como o gerente estava agora no chão, o que o soco de atingiu foi a pilastra à sua frente, que se quebrou devido à força sobrenatural do vampiro.
Houve um momento de silêncio no bar, quebrado apenas pelos ocasionais gemidos do gerente. Todos nos olhavam assustados, paralisados de surpresa, enquanto eu pensava em como explicar aquilo.
- Artes marciais! – eu exclamei de repente, em tom de Eureca!
- Isso! – disse , após levar uns três segundos para entender o que eu havia dito – Eu... Foquei meu... Chi?
Pelas expressões dos presentes, aquilo obviamente não havia colado. Bom, fora uma tentativa válida, mar era hora do plano B.

Agarrando a mão de , eu o puxei correndo para fora do bar e para longe dos humanos apavorados.

Xx

Nós só paramos de correr quando chegamos ao carro. Pela janela, eu podia ver a carteira dele esquecida em um dos bancos.
- As chaves. – eu pedi, arfando.
- Não, eu dirijo!
- , você acabou de provar que não está em condições de dirigir. Dê as chaves para mim.
- Você não vai dirigir meu carro. É meu carro. Eu que mando nele. – disse o vampiro, colocando uma mão na cintura e esticando a outra para se apoiar no carro, o que o fez perder o equilíbrio por um momento.

De jeito nenhum eu deixaria ele sentar ao volante. Não tinha a menor vontade de entrar para as estatísticas de morte no trânsito.

- Ok, nós vamos andando então. – eu disse, resolvendo assumir uma posição conciliatória. Não estava com a menor vontade de discutir com um vampiro bêbado. Antes que ele pudesse reclamar, porém, peguei as chaves da mão dele, abri o carro para pegar a carteira e fechei a porta novamente. Era melhor esperar ele dormir e depois voltar para pegar aquela lata velha. – Consegue andar sozinho? – eu perguntei, enquanto abria o porta-malas e pegava uma bolsa de sangue da caixa térmica. Ok, ele havia corrido até ali, mas não custava perguntar.
assentiu com a cabeça, e nós começamos a caminhar na direção do que parecia ser o hotel mais próximo, segundo uma placa.

Era meio ridículo, mas naquele momento eu me sentia extremamente ofendida.

Havia mais do que um pouco de vergonha naquele sentimento, é claro. Afinal, a causa era simples: da última vez que eu ficara bêbada, havia tentado agarrá-lo de todas as formas possíveis. Porém, agora que o contrário havia acontecido, lá estava , recusando minha ajuda para caminhar e seguindo o percurso ao meu lado, como um perfeito cavalheiro, sem tentar nada.
Eu não sou hipócrita, ok? Não deixaria nada acontecer mesmo se ele tentasse, pois estava bêbado. Mas o fato de ele não ter perdido o controle como eu havia perdido me ofendia em dois níveis: primeiro por me fazer parecer uma pervertida, e segundo por me fazer crer que ele não me queria.
Era idiota, eu sei disso. nunca havia escondido sua atração por mim, mas o fato de ele estar se comportando tão bem fez com que um medo irritante surgisse no meu estômago. Talvez meu discurso pré estaca de plástico tivesse atingido mais objetivos do que o desejado. Talvez ele se sentisse tão culpado agora que não conseguisse mais me ver daquela maneira.
Eu estava tão entretida com meus pensamentos que demorei até perceber que havia parado de me seguir.
O vampiro estava congelado em frente à vitrine de uma loja, olhando para algo com o queixo caído e uma expressão hipnotizada. Eu me aproximei e, embora a vitrine estivesse escurecida e coberta por uma grade, pude ver o que estava dominando a atenção do energúmeno.

Era lingerie. Mais precisamente, um manequim usando um conjunto completo de espartilho, calcinha, meia calça e cinta-liga, tudo vermelho e preto. 1

Erguendo o olhar para o letreiro apagado, li os dizeres “Fantasy – Moda Íntima e Sex Shop”. Típico.
- Você devia comprar isso. – disse , em tom embasbacado, as duas mãos apoiadas nas grades da vitrine – Foi feito pra você...
Foi naquele momento que eu entendi o que estava acontecendo.
nunca teria dito aquilo sóbrio, não na nossa situação atual. E o fato de ele sugerir aquilo agora, não de forma lasciva e sim quase inocente, provava que eu estava errada. não havia perdido o interesse por mim, apenas o estava controlando. Estava tentando me respeitar, mesmo bêbado.
Ok, era meio estranho concluir isso após ele sugerir que eu comprasse lingerie sexy, mas não estava agindo forçosamente, como o de costume. Céus, ele nem estava olhando para mim! Estava dizendo o que passava por sua mente, mas não estava se aproveitando da situação para investir em mim sem culpa.
- Eu posso comprar pra você. – continuou ele, no mesmo tom hipnotizado – Você ia ficar ainda mais linda... Eu posso comprar se você quiser, eu tenho dinheiro roubado!
Eu ri, olhando para o manequim. Não podia negar que parte de mim se sentia tentada. Era uma daquelas coisas caras e inúteis que dão vontade de comprar pelo simples fato de serem extremamente bonitas. Eu não tinha nada daquele tipo no meu guarda-roupa, já que, com exceção de algumas poucas peças que eu ganhara de , tudo que eu vestia tinha uma função prática. Eu achava muitas das minhas roupas bonitas, mas acima de tudo eram peças que eu podia usar para caçar, o que não era o caso de um espartilho.
- Deixa de bobagem, , está ficando tarde e você vai acabar torrando se não acharmos o hotel a tempo. – eu disse, começando a puxá-lo para longe da vitrine.
- Mas eu quero comprar aquilo! – reclamou ele, com a mão estendida em direção à vitrine.
- Infelizmente eu acho que eles não têm o seu número. – eu disse, rindo.
- Eu quero comprar pra você! – no momento em que essas palavras deixaram sua boca ele olhou para mim, assustado – Se você quiser. – acrescentou, rapidamente – Só se você quiser.
- Relaxa, eu deixei a estaca no carro.
- Promete que não vai buscá-la? – pediu o vampiro, em tom esperançoso, soando como uma criança.
- Prometo. – eu disse, tentando me manter séria.
Continuamos a caminhar lado a lado em silêncio, cambaleando um pouco, mas conseguindo se manter em pé. Há alguns metros eu já podia ver a arquitetura típica de um hotel de beira de estrada, com seu estacionamento e sua fila horizontal de quartos.
Pedi para me esperar do lado de fora com a bolsa de sangue e fui até a administração. A boa notícia era que haviam quartos vagos. A ruim é que apenas dois, em lados opostos do hotel, e ambos de casal.
- Vocês podem colocar uma cama de armar ao lado da de casal, pelo menos? – eu perguntei, massageando minhas próprias têmporas. A noite não estava sendo fácil.
- Claro, mas só lá pras dez... – respondeu o atendente – É só vir aqui pedir.
- Sem problemas. – eu disse, assentindo. Após passar quase um dia inteiro desacordada, sono era a última coisa que eu estava sentindo.
A primeira coisa que tentou fazer quando eu abri a porta do quarto foi se atirar na cama. Por sorte, eu consegui segurá-lo a tempo.
- Ew, não, você tá fedendo a álcool. – eu reclamei, enquanto o empurrava em direção ao banheiro – Vai tomar banho.
- Mas eu quero dormir... – reclamou o vampiro, enquanto eu atirava uma das toalhas e um roupão que estavam na cama em direção a ele.
- Que pena. – eu disse, fechando a porta do banheiro na cara dele. Depois de alguns barulhos de tropeços, batidas e resmungos, ouvi o som do chuveiro sendo ligado.
Suspirando por pura frustração, eu transferi o conteúdo da bolsa de sangue para um dos copos grandes que encontrei sobre o frigobar e coloquei-o no micro-ondas. Não fazia ideia de quanto tempo levava para esquentar sangue, então coloquei um minuto. Em seguida, liguei a televisão e me sentei sobre a cama, tentando não me irritar.
Não podia culpá-lo por ter ficado bêbado. Ele não tinha como saber sobre as epifanias que eu havia tido, as decisões que havia tomado. Eu apenas precisaria esperar um pouco mais para falar com .

Meu medo, é claro, era acabar perdendo a coragem ou mudando de ideia.

Quando a porta do banheiro finalmente se abriu, eu tirei o copo do micro-ondas e o ofereci a ele.
Por um segundo o vampiro pareceu congelado no lugar, como se não estivesse entendendo o que eu estava fazendo. Em seguida, porém, pareceu se recompor, pendurando a toalha com a qual secava a cabeça na maçaneta do banheiro e apertando com mais força o nó do cordão do roupão antes de aceitar o copo.
- O que vampiros fazem para evitar ressaca? – eu perguntei.
- Sangue. – disse ele, devagar, olhando de mim para o copo com uma expressão estranha – Se você bebe, fica bem. Se não, sofre como um humano.
- Bom, bebe, então. – eu sugeri, meio confusa.
- Você esquentou pra mim. – disse ele ante de levar a bebida aos lábios, tentando parecer desinteressado, mas falhando miseravelmente.
- Você preferia gelado? – eu perguntei, sarcástica, tentando fugir do assunto. Eu conseguia ver no jeito dele o quanto meu pequeno gesto de boa vontade parecia significar. Não era surpreendente, na verdade. Eu não costumava fazer favores para .
- Não, tá... Ótimo. – disse ele, em voz baixa, sentando-se na cama com as costas contra a parede.
- Para. – eu disse, tentando evitar revirar os olhos.
- Para o quê?
- De agir como se eu tivesse feito algo especial. Como se o menor sinal de cortesia da minha parte fosse algo gigante.
- Eu não disse nada. – retrucou ele, bebendo o conteúdo do copo e evitando me encarar.
- Você fica ainda mais fácil de ler quando está bêbado. – eu disse, me sentando ao lado dele.
arriscou um olhar para mim então, e eu quase grunhi de desespero. Lá estava aquele olhar, por trás dos olhos embaçados de quem havia bebido demais. Um olhar que parecia ver em mim algo que valia a pena.
- Por que você me olha assim? – eu perguntei, me sentindo cansada.
- Assim como?
- Como seu eu fosse algo mais do que eu sou?
- Eu acho que já respondi essa pergunta. – afirmou ele, agora colocando o copo vazio sobre a mesa de cabeceira.
- Responda de novo então. – eu pedi.
- É o tipo de resposta que você não gosta de ouvir. – em seguida, em um tom que era quase vulnerável, ele acrescentou – Não quero que você vá embora de novo.
- Eu não vou embora. Prometo.
suspirou e se ajeitou na cama, deitando a cabeça sobre o travesseiro. Quando falou, seu tom de voz era sonolento, porém firme.
- Você é mais do que pensa que é. Por isso eu consigo te olhar assim.
- Não é certo olhar assim pra quem só te machuca.
- Eu sou todo errado mesmo. – ele retrucou, dando de ombros, um leve sorriso nos lábios. Eu não pude evitar sorrir junto – E de qualquer forma, não dá pra evitar. Sabe, caçadora, sempre que você me expulsa da sua vida, me machuca ou me deixa sozinho na minha cama de manhã, eu prometo a mim mesmo que aquela será a última vez. Eu prometo que vou te arrancar do meu coração e da minha vida. Mas quando você volta, basta te olhar e eu perco toda a minha força de vontade. Um olhar e eu me apaixono por você novamente. E isso continua se repetindo, a cada momento, a cada respiração sua. Eu me apaixono por você a cada segundo que passa, . – em um ato de coragem repentina, ele esticou a mão, colocando-a sobre a minha no colchão – Por isso eu te olho desse jeito. Se você fosse tão ruim quanto pensa ser, não seria capaz de despertar esse tipo de coisa em mim.

Droga. Porque ele tinha que ter essa habilidade de transformar tudo em poesia?

Como o de costume, eu sentia algo em mim exigindo que eu tirasse a mão debaixo da dele. Eu não podia aceitar aquilo, mas não entenderia isso. Não seria capaz de enxergar que aquilo não tinha nada a ver com ele e tudo a ver comigo. Por esse motivo eu lutei para permanecer parada, olhando para nossas mãos e pensando em algo a dizer.
- Você é um bêbado romântico. – eu disse, em uma patética tentativa de fazer humor.
- Podia ser pior. – disse ele, sorrindo e afastando a mão da minha, como se percebendo meu desconforto. Eu abafei o impulso de agradecê-lo – Eu podia ter chorado. Ou tentado te agarrar.
- É, obrigada por não ter feito isso. – eu disse, rindo – Especialmente a segunda coisa.
- Eu não quero mais te machucar. – justificou ele.
Eu também não, foi o que eu quis responder, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Quando eu finalmente recuperei minha voz, a coragem já havia ido embora.
- Vá dormir. – eu disse – Você mal consegue manter os olhos abertos.
Ele assentiu com a cabeça, e eu me levantei para desligar as luzes.
- Boa noite, .
- Boa noite, .

Xx

O sol já havia nascido há algumas poucas horas quando eu finalmente saí.

Antes de pegar o carro, decidi dar algumas voltas na cidadezinha que amanhecia. Para minha surpresa, diversas lojas estavam abrindo. Município turístico, é claro. A demanda nessa época do ano devia ser alta.
Tomei café na primeira lanchonete que encontrei e dediquei o resto do meu tempo a olhar vitrines, caminhar sem rumo e dar algumas voltas no Mustang pré-histórico de . Era o tipo de coisa que eu nunca fazia em L.A. No meu mundo tudo sempre tinha um propósito. Era um pouco surpreendente como a falta de objetivos podia parecer libertadora.
Eu precisava admitir, no entanto, que não estava totalmente sem objetivos. Ainda precisava conversar com , e sem o impulso que havia sentido na noite anterior, não fazia ideia de como faria isso. Havia muito a ser resolvido, e palavras nunca haviam sido meu forte. Eu precisava arranjar um modo de comunicar a ele que queria tentar algo novo, porém não podia deixá-lo se iludir. Precisava também saber o que ele queria, e indicar o que eu queria. precisaria entender que teria que haver maior equilíbrio na parte física da nossa relação, que eu teria que confiar nele.
Confiar nele. Uau. Em pensar que há pouco mais de um dia eu havia desconfiado tanto do vampiro que trouxera correntes para prendê-lo caso ele...

Existem momentos em que tudo fica muito claro.

Foi uma mistura de três coisas. Daquela lembrança, inicialmente. Do acaso também, já que naquele exato momento eu passava de carro na frente da Fantasy, que estava abrindo. Por fim, da minha própria genialidade. Genialidade com mais do que um simples toque de pura crueldade.
O que me levou àquele ponto não importava, no entanto. Só o que importava era que, de uma hora para a outra, eu sabia exatamente o que fazer. Eu tinha um plano.

Um plano maravilhosamente terrível.

Xx

’s POV – OFF


O telefone de Vinh tocou pelo que parecia ser a milésima vez naquela noite. Esse era um dos motivos para seu ódio por tecnologia. Se as coisas continuassem assim, só chegaria ao acampamento no próximo ano novo.
Ela não pôde deixar de rir, porém, ao checar o nome na tela do aparelho. Havia trocado apenas para provocá-lo. Sabia que era perigoso caso alguém pegasse seu celular e lesse, mas mesmo assim, o novo nome pelo qual ele era agora conhecido era ridículo demais para resistir.

Em pleno século XXI, quem em sã consciência aceitava ser chamado de “Mestre”?

- Oi. – disse ela, atendendo a ligação – Você não vai acreditar se eu te contar quem eu acabei de conhecer...


Capítulo 40 - Chains and Whips



’s POV

Eu lutei para não acordar.

Oh, o que eu não daria naquele momento por uma ressaca, ou pela simples capacidade de fingir que eu estava de ressaca. Mas não, eu havia contado para ela que bastava um pouco de sangue para me deixar novo em folha, e agora precisaria encará-la ao invés de usar meu sofrimento como desculpa para permanecer deitado ali, quieto.
Eu havia falado demais. Quantas vezes havia me declarado para ela ontem? Eu era um idiota. Tudo estava indo perfeitamente bem até eu resolver abrir a boca. Eu precisava parar de beber.
Pensando bem, porém, ela não parecia ter reagido tão mal quanto o esperável. Havia até esquentado um copo de sangue pra mim. Talvez nós fossemos capazes de lidar com a situação como adultos.

A quem eu estava tentando enganar? Éramos eu e . A situação estava perdida.

Eu não precisava abrir os olhos para saber que ela estava no quarto e bem acordada. Acordada até demais, na verdade. A energia nervosa vinda de era quase tangível.
Eu suspirei, finalmente me resignando a acordar. Com muito esforço, convenci meu corpo a se mover.

Ou, melhor dizendo, teria convencido, se naquele momento não tivesse finalmente percebido que não conseguia mover meus braços ou minhas pernas.

Eu abri os olhos, assustado, e tentei puxar meus braços para baixo sem sucesso. Havia correntes prendendo meus pulsos e tornozelos à estrutura da cama, meus braços esticados até a cabeceira e meus pés às pernas de madeira.
Tentei me soltar novamente, sem sucesso. As correntes eram fortes...

“Correntes. Fiz enfeitiçá-las para que vampiro nenhum as quebre.”

Oh, claro.

As palavras de na noite em que aquela viagem havia começado ecoaram na minha mente ao mesmo tempo em que meus olhos encontravam a caçadora em questão, sentada na beira da cama com um sorriso cínico nos lábios.
- Aí está ele. Estava começando a ficar preocupada. – disse ela, em tom sarcástico. Aquelas palavras eram familiares. Eu havia as dito para . Sim, há um tempo atrás.

Quando era ela quem havia acordado acorrentada em minha cama.

Puta que pariu.

- Bom dia, caçadora. – eu disse, fingindo calma enquanto disfarçadamente inspecionava o quarto com os olhos, procurando pelo menor sinal de uma estaca, um isqueiro ou qualquer outro artifício potencialmente fatal que ela pudesse usar contra mim – Se importa em explicar por que eu estou acorrentado?
- Oh, é divertido, não é? – perguntou ela, sentando-se mais próxima de mim – Acordar e descobrir que está imobilizado? Vulnerável? – Ela estava usando meu sobretudo preto, mantendo-o completamente fechado com um cinto apertado na cintura. O tom de voz de era leve, divertido. Eu estava começando a ficar realmente assustado – Sem saber o que vai acontecer em seguida?
- Achei que já tivéssemos superado o, erm...
- Sequestro? – sugeriu ela, sorrindo.
- Isso. – eu disse, engolindo em seco.
- Não, não superamos. – disse ela, fingindo estar pensativa. Ela claramente estava se divertindo com a situação – Mas vamos superar. É por isso que estamos aqui.
- Será que eu ouso perguntar como? – embora o tom da minha voz se mantivesse leve, eu já estava me preparando para minha eminente decida direta ao inferno.
- Bom, como você já deve saber, eu ainda guardo muita... Raiva. – disse ela, ainda naquele tom alegre que gelava meu sangue. Eu era tão jovem pra morrer. Ainda nem havia completado 150! Tanta coisa no mundo pra fazer e eu aqui, sendo assassinado pelo amor da minha vida. Era um fim condizente com a vida miserável e patética que eu levara, devo admitir.
- Você? Jura? – eu brinquei. Já que ia morrer de qualquer jeito, pelo menos morreria como o filho da puta sarcástico que sempre fui.
- Sim. – disse ela, sorrindo, sem responder à provocação. Oh, merda, era pior do que eu pensava. – Mas, sabe, eu tive bastante tempo para pensar noite passada, enquanto você enchia a cara. E essa manhã também, enquanto dormia. Cheguei a certas conclusões. Ando fugindo de certas coisas. Coisas das quais não posso fugir, que só me fazem gastar tempo e energia tentando. Decidi parar de fugir, tentar algo novo. Mas para isso preciso confiar em você, o que não posso fazer com toda essa raiva dentro de mim. E que jeito melhor de se libertar da raiva do que vingança?
O sorriso no rosto dela não era nada menos que cruel, mas aquilo não importava. Nada mais importava, porque naquele momento uma fagulha de esperança se acendeu dentro de mim. Confiar em mim? Ela queria confiar em mim? Eu tentei manter minha expressão neutra, não deixar ela perceber o que havia acabado de fazer por mim. Era uma esperança. A primeira que ela havia me dado desde que tudo começara a ir por água a baixo.
- Belas palavras. Os monges budistas do Tibete teriam inveja do seu nível de iluminação. – eu brinquei, mais confiante. Ela respondia bem a provocações, e agora eu sabia que não pretendia me matar. Conhecendo , ela queria me torturar, provavelmente. Outra estaca de plástico, talvez? Uma evidência clara do quão problemática era a nossa relação estava no fato de que aquilo não me preocupava nem um pouco. Como eu já disse, estava acostumado com torturas. E se o que quer que ela quisesse fazer comigo para se vingar a ajudasse a confiar em mim, eu estava de acordo. Estava preparado.

Bom, aquilo simplesmente não era verdade. Como ficou claro em seguida, eu não estava esperando o tipo de tortura que tinha em mente.

Lentamente, ela se deslocou sobre a cama, deitando o corpo sobre o meu. Apoiando-se com um antebraço no meu peito, ela começou a deslizar os dedos da mão oposta para cima e para baixo de um dos meus braços presos.
- Eu controlaria essa língua se fosse você. – disse ela, aproximando o rosto do meu – Não está em posição de fazer gracinhas.
O tom de voz dela era perigoso, autoritário, e para meu extremo choque, meu corpo respondeu àquilo imediatamente.
Eu gostava de controle. Tanto que, em mais de cem anos, nunca havia renunciado a ele. Qualquer situação íntima que me deixasse em posição submissa sempre me parecera impensável. Mas estávamos falando de . Ela já tinha um histórico considerável de despertar em mim sensações e sentimentos que eu nunca antes imaginara.
Olhando em retrospecto, eu devia ter imaginado onde ela estava querendo chegar assim que acordei. Afinal, já havia me mostrado brevemente aquele lado dela um tempo atrás, na sala de treinamento. Mas, novamente, era de que estávamos falando. Levando em conta tudo que havia ocorrido nas últimas semanas, a ideia de que ela estava tentando me matar soava muito mais plausível do que a de que sua vingança tivesse um caráter mais... Divertido.
- Talvez eu precise de ajuda para controlá-la. – eu retruquei, um pouco hesitante. Era impossível eu estar entendendo mal a situação, mas com aquela garota todo cuidado era pouco. Durante toda aquela viagem eu havia me esforçado para não insistir no lado físico do nosso relacionamento. Qualquer iniciativa era mais que bem-vinda, mas precisava partir dela.
Ela sorriu para mim novamente, mas dessa vez, ao invés de medo, aquele sorriso levemente malicioso fez meu coração morto praticamente soltar no peito. No momento seguinte, ela me beijou.
No decorrer dos últimos meses, eu devo ter beijado algumas milhares de vezes. Eu me lembro de todas, pois todas foram preciosas. Pequenos momentos roubados de paraíso para alguém que estava destinado ao inferno. Todos os nossos beijos haviam sido inacreditáveis, mas aquele... Aquele era especial.
Os lábios dela tocaram os meus com uma suavidade nada característica. Ela os movia devagar, mas firmemente, seus dentes mordiscando meu lábio inferior, sua boca induzindo a minha a se abrir. A língua dela encontrou a minha e, naquele raro momento, não havia pressa. Mais raro ainda era o fato de que eu não estava fazendo nada para mudar a situação. No começo havia sido por medo de que qualquer movimento brusco a fizesse mudar de ideia, mas na medida em que os segundos passavam, esse receio foi se dissolvendo. Aquele beijo, a maneira como ela parecia explorar minha boca de forma calma, sensual, era intenso. Para meu extremo constrangimento, eu me deixei gemer contra seus lábios, que se curvaram contra os meus antes de se afastar.
- Não... – eu murmurei, tentando capturar sua boca novamente, mas ela já havia afastado demais o rosto – Volta aqui.
- Você também não está em posição de fazer exigências. – disse ela, o sorriso convencido ainda nos lábios.
- Por que você nunca me beijou assim antes?
- Simples. Em parte porque eu simplesmente não queria, e em parte porque você nunca me deixou te beijar antes.
- Nunca? Então tudo que aconteceu antes de hoje foi fruto da minha imaginação? – eu perguntei.
- A gente se beijou antes, sim. Mas sempre nos seus termos. Nós já falamos sobre isso. – ela se levantou, afastando o corpo do meu e voltando a se sentar sobre a cama, e eu grunhi em protesto – Esse é exatamente o problema. Você sempre tem que dominar tudo, o que faz com que eu só possa responder ao que você faz. Isso não é ruim, pelo contrário, seria hipocrisia dizer que eu não gostei de cada segundo que nós tivemos. Mas cansa depois de um tempo. Eu não sou uma pessoa submissa, . Também quero controle de vez em quando. Para equilibrar, entende?
Eu entendia. Afinal, ela já havia me explicado aquilo antes, porém não com tanta calma, quando me acusou de usar sexo como arma. O fato, é claro, era que o sexo era a única arma que eu tinha, então nunca havia me sentido tentado a dividi-la, nem com , nem com nenhuma mulher antes dela. Eu era emocionalmente vulnerável, logo, aprendera a ser sexualmente dominante como forma de equilibrar a situação. Havia sido uma atitude inteiramente consciente.
- Bem... – eu disse, finalmente – Se eu andei te impedindo de mostrar esse seu lado, você estava certa desde o início: eu sou um babaca. Agora volta aqui e me deixe mostrar meu arrependimento.
- Novamente, não é você que vai fazer exigências aqui. Já te deixei me distrair o suficiente. – dizendo isso, ela se levantou e começou a andar de um lado para o outro do quarto – Como eu estava explicando antes de você começar a tagarelar, eu andei pensando muito, e cheguei à conclusão que estou dificultando demais minha vida à toa. – ela voltou a se sentar na cama e me encarou – Essa coisa entre a gente não aceita ser ignorada. Nós somos atraídos demais um pelo outro, e não é nem só a questão física... – ela suspirou, parecendo frustrada – Eu gasto quantidades excessivas de tempo e energia tentando ficar longe de você, só para as circunstâncias nos unirem outra vez. Não importa o quanto eu lute, sempre chega uma hora em que eu fraquejo novamente, e entro novamente no mesmo ciclo vicioso de culpa e frustração, então para que lutar? Todo esse sofrimento não está fazendo bem a ninguém.
Eu apenas permaneci deitado ali, tentando não demostrar meu choque. Quem era aquela garota? Desde quando falava tão abertamente? Tive vontade de perguntar o que exatamente havia acontecido ontem à noite para provocar aquele nível de epifania nela, mas sabia que era melhor não quebrar o encantamento por enquanto.
- De qualquer forma, essa é a minha proposta. Eu quero voltar ao que éramos antes da noite em que eu descobri que você agiu pelas minhas costas.
- A noite que você retirou o convite pro seu quarto? – eu perguntei, aquela ferida ainda semiaberta.
- Exato. – disse ela, abaixando os olhos – Muita coisa aconteceu desde então. Muita coisa mudou, e eu acho que a gente já lidou com a maior parte das coisas ruins. Eu mantenho minhas três condições, embora a gente vá ter que rediscuti-las mais tarde, e eu quero ouvir suas condições também. Quero que você cumpra a promessa que me fez de não deixar que eu te machuque... Quero dizer, isso se você disser sim. – ela acrescentou, depressa, me olhando culpada. Eu tive que rir.
- Será possível que você consegue ver alguma versão dessa situação na qual eu digo “não”? – eu não podia julgá-la por partir do pressuposto que eu aceitaria qualquer coisa que ela me propusesse. Eu a amava demais pra me fazer de difícil.
Ela sorriu, um pouco sem graça, e aquele raro momento de vulnerabilidade me aqueceu por dentro. Ela, claro, não demorou a se recompor.
- Ótimo, porque ainda tem mais um empecilho no caminho antes que nós possamos entrar em um novo acordo – eu prendi o riso. Só era capaz de colocar um relacionamento em termos burocráticos – O que nos leva de volta ao porquê de você estar acorrentado à cama.
- Oh, isso. Quase tinha esquecido. – eu comentei, sarcástico.
- Nem pense em reclamar, você já fez o mesmo comigo uma vez. – disse ela, deitando-se ao meu lado na cama – Lembra daquela noite na sala de treinamento? A primeira noite que eu... – ela deixou aquilo no ar, e mais uma vez eu tive vontade de rir.
- A primeira vez que você me chupou? Fez sexo oral em mim? Boquete? – eu disse, buscando ser o mais claro o possível.
- Não há a menor necessidade de ser tão explícito. – disse ela, revirando os olhos.
- Deixa eu ver se eu entendi, me acorrentar na cama tudo bem, mas falar em sexo oral é crasso demais pra você? – eu perguntei, rindo.
- Cala a boca. – disse ela, dando um tapinha no meu braço – O que importa é que eu descobri uma coisa importante naquela noite, que eu venho querendo repetir. Não a parte cruel. – ela acrescentou, rapidamente – Não o que eu disse sobre... Bom, sobre...
- Sobre eu ser seu brinquedinho. – eu conclui para ela, novamente verbalizando o que ela não conseguia dizer – Sobre eu gostar de ser pisado. – eu suspirei, percebendo o desconforto dela – Tá tudo bem, . Já passou. Se for pra gente ficar lembrando de todas as verdades duras que já jogamos na cara um do outro, nunca vamos sair daqui.
- Sim, e é por isso que estamos aqui. Para superar. – ela respirou fundo, balançando um pouco a cabeça antes de continuar – De qualquer forma, naquela noite eu descobri um lado meu que eu não conhecia, e que você não me deu espaço pra explorar.
- Seu lado dominatrix? – eu brinquei, recebendo outro tapa.
- Cala a boca ou eu volto pra L.A. e te deixo acorrentado a essa cama. – ela ameaçou.
- Ok, desculpa, desculpa. – eu ri – Vou ficar quieto agora. Pode me seduzir o quanto quiser.
- Você acha engraçado, né? – disse ela, cerrando um pouco os olhos – Vamos ver por quanto tempo esse sorriso dura... – apoiando-se em um braço, ela deitou-se de lado, correndo os dedos para cima e para baixo na minha barriga, um sorriso levemente cruel em seus lábios. Eu engoli em seco, voltando a me dar conta do quão vulnerável eu estava naquele momento. De uma hora para a outra, “engraçado” não era mais o adjetivo que eu usaria para descrever a situação – Sabe... – ela murmurou, a boca bem próxima do meu ouvido, sua respiração quente causando arrepios em minha pele fria – Não é que eu não goste quando você me agarra, me espreme contra o seu corpo, me faz esquecer meu próprio nome... – ela enganchou uma perna sobre a minha, ao mesmo tempo em que descia a mão para logo abaixo do meu umbigo. Eu fechei meus olhos e cerrei os dentes, tentando não demonstrar o quanto eu precisava que ela descesse apenas um pouco mais o seu toque – Eu gosto quando você me faz implorar... – como se lesse a minha mente, ela desceu um pouco mais a mão, porém ignorando totalmente a ereção que já formava uma tenda incrivelmente óbvia na calça de moletom – Mas ao mesmo tempo...Eu também quero te fazer se render. – ela começou a mordiscar minha orelha, e céus, como eu queria poder mover minhas mãos naquele momento. A dela insistia em traçar uma linha de um lado para o outro sobre a minha virilha, logo acima do cós da minha calça. Eu estava usando toda a minha força para não levantar os quadris em direção a ela – Você vai gostar, eu prometo. Confia em mim. – Os lábios de agora desciam pelo meu pescoço, queimando a trilha por onde passavam. Tudo nela era calor, seus dedos contra minha pele, sua perna contra a minha, o pé que agora subia e descia contra o lado interno da minha panturrilha... Fazia um bom tempo que ela não me tocava assim, sem nenhum traço de violência. Eu podia sentir minha sanidade lentamente me abandonando.
- Confiar... em você? – eu balbuciei, fazendo uma careta de irritação em seguida. Eu tava dando bandeira demais. Tinha que tentar controlar minha voz se não quisesse dar a ela mais poder do que já tinha naquele momento. Não podia deixa-la perceber o quão profundamente aquele showzinho de controle estava me excitando – Tem certeza que eu posso?
Ela suspirou e se afastou de mim, e por um momento eu fiquei feliz por estar acorrentado, já que minha vontade era socar a mim mesmo. Eu e minha boca grande, sempre arruinando meus melhores momentos.
- Pode, . – disse ela, séria – Eu não sou idiota. Sei que você tem alguma... Coisa estranha com controle e tudo mais. – disse ela, sempre muito prolixa. Felizmente eu consegui não fazer aquele comentário em voz alta – O tipo de coisa que dá pra perceber que é da sua natureza, e não só comigo. E eu também não sou hipócrita. Se reclamo do jeito com o qual você me levou a fazer coisas que eu não estava psicologicamente preparada para fazer, não posso fazer o mesmo quando a situação se inverte. – ela suspirou novamente – Se você quiser que eu te solte, eu vou te soltar. E não vou fazer chantagem dizendo que esse é o único jeito que você vai me ter, porque sinceramente... – ela deixou os olhos correrem de cima a baixo sobre meu tórax antes de voltar a me encarar – Eu já passei do ponto no qual parar voluntariamente é uma opção. Mas eu não vou mentir, isso é algo do qual eu preciso. Se não agora, algum dia. Então o que vai ser?
Foi o modo como ela olhava para mim. Céus, a decisão já estava tomada muito antes de ela fazer a pergunta. Ela olhava para meu corpo preso àquela cama com uma fome que eu reconhecia, que se misturava à minha. Existiam muitas coisas que me excitavam nesse mundo, mas constatar o desejo dela por mim era o maior afrodisíaco do planeta.
- Como eu disse, caçadora... – finalmente respondi, me ajeitando na cama e sorrindo para ela – Pode me seduzir o quanto quiser.
Ela sorriu e se levantou da cama, levando as mãos ao cinto do meu sobretudo, que ela ainda vestia. Ela provavelmente não estava usando nada por baixo... A ideia me fez me ajeitar na cama novamente, em busca de algum tipo de alívio.
- Última chance, . Depois disso eu só vou aceitar te soltar ou parar se você disser... – ela levou alguns segundos, parecendo buscar a palavra de segurança perfeita. Quando seu rosto se iluminou em mais um sorriso maldoso, eu percebi que estava ferrado. – Se você disser “eu me rendo”.
Eu tive que rir.
- Vai sonhando, . – eu disse, confiante. Aquele era um limite que nenhum dos dois havia ultrapassado até agora. Admitir rendimento demarcaria uma vitória final naquele joguinho que vínhamos jogando desde que eu voltara para L.A. – E eu dispenso essa última chance. Faça seu pior.

E foi exatamente o que ela fez.

O sobretudo atingiu o chão ao mesmo tempo em que meu queixo atingiu meu peito. Eu estava errado, ela estava sim usando algo por baixo do sobretudo. Estava usando o conjunto completo que eu havia visto na sex shop na noite anterior.
Espartilho vermelho e preto, uma micro calcinha preta de renda, meia calça e cinta-liga. Minha mente bêbada a havia imaginado naquelas, erm, “roupas” na noite passada, assim como eu já havia passado incontáveis noites fantasiando ver em um infindável vestuário de fetiche, porém, como sempre na nossa relação, a realidade ultrapassava e muito a mera imaginação.
Ela estava perfeita. Minha caçadora, vestida daquele jeito pra mim. Por um segundo só o que eu fiz foi olhar para ela, fazendo um rubor surgir em seu rosto, o que por sua vez fez minha ereção pulsar por baixo do moletom. Eu precisava tocar nela, e precisava ser agora.
Eu me debati com força contra as correntes, mas aparentemente havia feito um bom trabalho ao reforça-las para . Não importava com quanta violência eu puxasse, elas não rompiam. Com um grunhido de raiva, eu fuzilei com o olhar.
- Me solta, caçadora. – eu mandei, em tom sério.
Ela riu, e aparentemente minha reação foi o suficiente para fazer sua confiança voltar.
- Desculpa, não ouvi as palavrinhas mágicas... – ela provocou, em seguida olhando para o próprio corpo e passando as mãos pela cintura – E você estava certo ontem à noite. Isso foi feito pra mim mesmo.
- , eu to falando sério. Me solta agora ou você vai se arrepender. – oh, e ia mesmo. Quanto mais ela demorasse pra me soltar, menos paciência eu teria ao rasgar cada milímetro de renda que cobria seu corpo, e menos piedade eu teria ao ensiná-la exatamente por que não se deve provocar um vampiro mestre.
- Nossa, que medo... – caçoou ela – Desculpa, , mas se você quer que eu te solte, vai ter que se render.
- Você sabe muito bem... – eu disse, interrompendo minha fala para puxar as correntes novamente, sem sucesso – Que eu não vou fazer isso.
- Tem certeza? – ela perguntou, pegando alguma coisa do chão e se aproximando da cama – Porque eu esqueci de te dizer que, bem, a lingerie não foi só o que eu comprei naquela sex shop. – dizendo isso, ela colocou uma sacola rosa próxima aos meus pés, contendo só Deus sabe que tipos de instrumentos de tortura.
Ok, eu precisava mudar de estratégia. Minha posição atual não era nada favorável, e eu só tinha uma arma sobrando no meu repertório: minha lábia.
- Me solta, pequena... – eu disse, dessa vez com meu tom mais sedutor e persuasivo – Você sabe o que posso fazer você sentir. Você sabe como responde ao meu toque... Solta minhas mãos e eu prometo cuidar de cada partezinha do seu corpo.
- Hm, eu não duvido... – disse ela, ficando de quatro sobre o meu corpo, pernas nas laterais do meu quadril e mãos apoiadas dos dois lados da minha cabeça. O cheiro de assaltou minhas narinas, misturado ao meu próprio cheiro na pele dela, consequência de ter ficado todo aquele tempo usando meu sobretudo. Um sentimento de posse animalesco tomou conta de mim, e mais uma vez eu tentei forçar as correntes, sem sucesso. Ignorando minhas tentativas, ela continuou, o rosto próximo ao meu – Mas agora sou eu quem vai cuidar de cada partezinha de você. – pressionou os lábios contra os meus rapidamente antes de se afastar, sentando-se sobre o meu abdômen – É justo. Afinal, você nunca me deixa explorar... – dizendo isso, ela se pressionou uma unha contra o meu ombro, descendo-a lentamente sobre meu peito, como fizera uma vez com uma estaca. A desgraçada sabia o quanto eu gostava de dor, e aparentemente estava mais do que disposta a me torturar com isso.
- Caçadora... – eu murmurei, sentindo meu corpo tremer um pouco. Eu estava errado quando disse que estava acostumado com tortura. Fogo, facas, socos, eu podia lidar com tudo aquilo. Mas sentir as coxas dela em volta de mim, sua bunda quase próxima o suficiente do meu pênis e não poder fazer PORRA NENHUMA pra mudar a situação era de enlouquecer qualquer um.
- O que foi, ? Tem algo que eu possa fazer por você? – ela perguntou, em tom inocente, ajeitando o decote do espartilho. Eu contive um gemido de frustração.
Pensei em tentar fazê-la me soltar novamente, mas aquilo já estava ficando patético e claramente improdutivo. Eu sabia qual era a única maneira de fazê-la me soltar, e não estava nem um pouco disposto a considera-la, de modo que optei pela segunda melhor opção.
- Calças... Desconfortáveis... – eu consegui dizer. Ok, aquilo era apenas parcialmente verdade, mas eu tinha esperanças de que ela se inspirasse a me proporcionar algum tipo de alívio se ficasse próxima o suficiente daquela parte da minha anatomia.
- Oh, claro. Você está vestido demais, de qualquer forma. – disse ela, levantando-se um pouco e abaixando minhas calças até as canelas, tomando um cuidado extra para não tocar sequer alguma área próxima à ereção que já começava a ficar mais do que simplesmente incômoda. Eu devia ter imaginado que não existia nem uma migalha de compaixão naquele coraçãozinho frio e sombrio.
- Mais alguma coisa? – perguntou , exibindo o sorriso mais filho da puta do universo. Eu virei a cabeça para trás e ri de puro desespero.
- Você vai me fazer implorar de novo, não vai?
- Não é que você é mais esperto do que parece? Essa é a ideia, sanguessuga.
Oh, ela parecia bem feliz consigo mesma. Mas eu ainda podia tentar reverter a situação.
- Por favor, caçadora... – eu pedi, olhando nos olhos dela. Eu precisava ser cuidadoso agora. Explícito demais e ela ficaria sem graça, vago demais e não adiantaria nada – Você sabe do que eu preciso. Eu preciso das suas mãos, eu preciso da sua boca... Céus, eu sinto falta da sua boca. Sinto falta do jeito como você me chupa, daquela coisa que você faz com a língua... Por favor, pequena, eu preciso de você.
Ela hesitou por um momento, as pupilas dilatadas, a respiração levemente acelerada. No segundo seguinte, porém, ela balançou a cabeça e deu uma risada baixa.
- Você é bom, eu preciso admitir. Mas não vai ser tão fácil assim. Você ainda não merece.
Eu tentei segurar a frustração. Juro que tentei.
- Pelo amor de Deus, do diabo, do que quer que você venere, , você tá me matando! – eu respirei fundo antes de continuar, com medo de ter ido longe demais – Só toca em mim, , onde você quiser, como você quiser, eu estou implorando. – eu admiti, sabendo que era isso que ela queria.
- Bom vampiro. – disse ela, em tom condescendente, me deixando com vontade de socar a parede – Isso eu posso fazer. Inclusive... – ela se inclinou e pegou a sacola cor de rosa, retirando algo de dentro dela – Foi por isso que eu comprei isso.
Não, não era uma estaca. Ou um isqueiro para me queimar vivo. Não, era bem pior.
Era uma pequena chibata de couro, com uma ponta em forma de coração... E a outra contendo uma pena, que acariciava com os dedos.

Não sei se já disse isso antes, mas sou extrema e vergonhosamente sensível a cócegas.

- Não. Não, não, não! – eu exclamei, forçando as correntes novamente com desespero. Se ela tocasse aquela pena em mim e eu começasse a rir que nem um idiota, eu teria que me matar.
- Ei, calma! – ela disse, visivelmente surpresa com a minha reação – É só uma pena. Se você odiar eu paro. Confia em mim.
E, por mais bizarro que isto soe, eu confiava. Acenando com a cabeça, eu tentei me preparar.
Ela correu a ponta da pena vagarosamente de um ponto logo abaixo da minha orelha até minhas costelas, descendo pelo meu abdômen até o quadril. Eu tremi e me contorci um pouco, mas não de cócegas ou desconforto. Na verdade, para meu extremo choque, me peguei sentindo prazer com o toque macio da pena. Porém, ao mesmo tempo, eu sentia minha frustração aumentar. Já fazia pelo menos meia hora desde que eu acordara preso àquela cama, e até agora ela não havia chegado nem perto de me tocar aonde eu realmente precisava.
fez o mesmo percurso, partindo de minha outra orelha, porém dessa vez ela continuou a descer a pena, correndo a ponta macia pelo interior da minha coxa. Eu sibilei como um bicho encurralado e tentei mover minhas pernas, mas ela estava agora sentada sobre elas.
- Shh... Ou você se comporta ou eu paro. – ameaçou ela, e eu me forcei a ficar quieto enquanto ela repetia o mesmo movimento contra minha outra coxa. Eu não queria que ela parasse. Era tortura, mas eu não queria que parasse.
Lentamente, ela ergueu a pena e encostou a ponta nos meus testículos, deliberadamente traçando pequenos círculos contra minha pele.
Eu cerrei os dentes e me forcei a ficar parado enquanto ela alternava o toque da pena, subindo-a até a cabeça do meu pênis e descendo-a novamente até meus testículos.
- Tá vendo, não é tão ruim assim... – provocou ela, e eu tremi violentamente em resposta. Oh, eu pretendia responder muito mais eloquentemente quando tivesse minhas mãos soltas novamente.
Eventualmente ela pareceu se cansar de me atormentar, virando o objeto nas mãos e tocando meu peito com a ponta de coração da chibata.
- Eu já te disse que toda vez que vejo a pele do seu corpo assim, perfeita, eu sinto uma vontade irracional de deixá-la toda marcada?
- Bom, você já fez isso. Milhares de vezes. – eu respondi, e as lembranças de mordendo e arranhando cada parte de mim que ela conseguia alcançar não aliviava em nada minha ereção. Ela podia negar o quanto quisesse, mas a fera dentro de si era tão forte quanto a minha. E, embora ela aparentemente não tivesse consciência disso, a necessidade que ela tinha de me marcar era algo intrinsecamente vampiresco.
- Mas você sempre se cura... – disse ela, salientando levemente o lábio inferior em um biquinho que eu consideraria adorável, se no momento seguinte ela não tivesse batido o objeto de couro contra meu peito, com força.
Eu gritei, surpreso, ao mesmo tempo em que ela ria.
- Você gosta disso, ? – perguntou o projeto de demônio vestido de garota sentado sobre minhas coxas. Eu me recusei a dizer qualquer coisa, porque a resposta era óbvia. É, eu gostava. Do que mesmo ela havia me chamado da outra vez? “Pequeno masoquista”? Bem, ela estava certa. E, batendo a ponta de coração agora contra minhas costelas, ela continuou – Sabe, isso me lembra aquela vez em que você me colocou sobre os seus joelhos...
- Algo que eu obviamente preciso fazer de novo, já que você não aprendeu nada... – o contato seguinte do brinquedinho de me fez calar a boca, e por um momento eu tive medo. Havia falado demais. O incidente ao qual ela se referia era um que ela elencara como abuso. E, se eu fosse totalmente honesto, precisava admitir que, naquelas circunstâncias, realmente havia sido. Eu não pretendia realmente fazer aquilo de novo... Bom, não sem ter certeza que ela estava totalmente de acordo dessa vez, quero dizer.
- Se eu fosse você, ficaria quietinho, vampiro... – ela disse, os olhos escurecendo perigosamente enquanto erguia meu queixo com a ponta da chibata – Eu ainda estou disposta a deixar você sentir prazer com o seu castigo, mas isso pode mudar. – ela deu dois tapinhas de leve com a ponta de coração contra a minha bochecha, antes de voltar a descer o objeto – E você tem sorte de eu ter te acorrentado de barriga para cima. Dificulta o acesso a certas partes da sua anatomia. – para reforçar a ideia, ela bateu com a ponta de couro contra a lateral do meu quadril com mais força do que antes, acertando parte da minha nádega. Eu mordi os lábios pra conter um palavrão enquanto tentava me afastar por reflexo. As correntes, no entanto, eram muito estreitas, impedindo qualquer movimento.
Ela parecia ter gostado da minha reação, pois deixou o objeto descer de novo. E de novo.
- Você sabe o que dizer se for demais para você. – lembrou ela, enquanto começava a variar as batidas por diferentes partes do meu corpo. Eu, no entanto, não me sentia nem um pouco inclinado a fazê-la parar. Cada contato do couro contra minha pele trazia consigo uma onda de prazer que parecia ir direto para meu membro. Parecendo ler minha mente, ela acrescentou – Mas não, esse tipo de dor não te incomoda. Talvez se eu tivesse algo maior... Devia ter comprado o chicote que a moça da loja me ofereceu.
- Meu cinto está no banheiro. – eu disse, antes que pudesse me controlar. PORQUE DIABOS EU ESTAVA AJUDANDO-A!?

Sim, sim, eu sabia porquê.

- Oh, ... – disse ela, parecendo triste – Era o que eu ia sugerir, mas agora eu sei que é exatamente o que você quer. E eu não posso te deixar ditar as regras aqui. – com isso, ela largou o brinquedo de couro sobre a cama.
- Não... – eu gemi em protesto, me odiando em seguida.
- Não o quê, ? – perguntou ela, passando o dedo por uma marca vermelha próxima à minha virilha – Quer que eu te puna mais um pouco?
A filha da mãe ia me fazer pedir. Claro que ia.
- Sim. – eu respondi, por entre os dentes, sabendo que esse seria o único jeito de fazê-la continuar – Por favor.
Por sorte ela não me pediu para elaborar, voltando a distribuir alguns tapas em meu tórax com seu novo brinquedinho antes de parar novamente e apreciar seu trabalho.
- Pobre ... – disse ela, inclinando-se e assoprando devagar sobre as áreas intensamente avermelhadas da minha pele – Deixa eu aliviar esses machucados pra você.
Devagar, ela pressionou os lábios contra uma marca que deixara em minha costela, sugando-a devagar. Minhas costas se ergueram o máximo que conseguiram sobre a cama antes de voltarem a cair, ao mesmo tempo em que eu jogara minha cabeça para trás de forma que só o topo tocava o travesseiro. Sua boca passou a cobrir cada machucado que ela deixara em meu corpo, lábios e língua torturando cada pedacinho dolorido que encontravam. Eu tentei não pensar demais em todos os outros lugares por onde aquela língua quente poderia passar. Não era como se eu pudesse fazer alguma coisa para melhorar minha situação; só podia permanecer ali, com os punhos cerrados, rezando para que tivesse compaixão o suficiente para envolver com aquela boca uma das únicas partes do meu corpo que ela não machucara.
E então, sem aviso, seus lábios envolveram um de meus mamilos e eu grunhi, alto. Não era a parte que eu tinha em mente, mas eu não estava em posição de reclamar.
Os dentes dela passaram a mordiscar a pele sensível, enquanto seus dedos começaram a estimular o outro mamilo, mãos e boca fazendo em mim o mesmo tipo de carícia que eu costumava fazer nela. Os sons que escapavam da minha garganta obviamente a estavam estimulando, a julgar pelo modo como seus dentes agora desciam pelo meu peito, mordiscando com mais intensidade até que, para meu extremo choque, eu os senti se fecharem com força contra a pele logo acima das minhas costelas, tirando sangue.
levantou a cabeça imediatamente, um pouco assustada, ao mesmo tempo em que eu erguia a minha. A visão de seus lábios sujos de sangue me fez tremer da cabeça aos pés. Ela rapidamente passou a mão nos lábios, limpando, claramente tentando não sentir o gosto do meu sangue. Tentando negar quem realmente era.
- Desculpa. - ela disse, sem me olhar nos olhos.
- Caçadora... – eu comecei, gentilmente, mas antes que pudesse tranquilizá-la a respeito do que acabara de fazer, antes que pudesse lembrá-la de que aquilo não fazia dela um monstro, se levantou e foi até a estante.
- Devíamos limpar, para não infeccionar. – ela disse, em um tom falsamente despreocupado. Se ela queria fugir do assunto, deveria ter pensado em uma desculpa melhor. Afinal, eu não corria risco de infecção...
Quando ela se voltou para mim segurando a garrafa de vodca, porém, eu entendi exatamente como ela pretendia fugir do assunto.
Eu voltei a cerrar meus dentes, me preparando para a quantidade gigante de dor que ela estava prestes a infringir em mim. No entanto, não pude deixar de notar que a garrafa, na qual eu não havia tocado, estava pela metade. Isso explicava bastante coisa sobre a súbita desinibição da caçadora. Ela claramente havia se preparado enquanto eu dormia.
sentou-se sobre minha barriga novamente e abriu a garrafa, deixando o conteúdo dela cair em minha pele, fazendo a ferida arder como se pegasse fogo. Um som que se assemelhava a um uivo dolorido escapou de meus lábios enquanto meu corpo se contorcia em agonia.
- Pronto. – disse ela, sorrindo e levando a garrafa aos lábios, a confiança novamente renovada. Sua língua traçou lentamente o círculo do gargalo, como se para me causar inveja da garrafa. Funcionou perfeitamente – Quer um pouco? – perguntou ela, ao terminar de dar um gole.
- Quero. – eu respondi.
- Que pena. – ela retrucou, fechando a garrafa e largando-a sobre a cama.
Em outras circunstâncias eu poderia ter me irritado, mas naquele momento me vi distraído. Um pouco da bebida havia escorrido para o decote da caçadora e agora descia pelo vão entre seus seios, apertados para cima pelo espartilho, que deixava pouco para a imaginação. Eu lutei contra as correntes, tentando aproximar meu rosto de seu decote e limpar a vodca com a minha língua. Tão perto... Ao perceber isso, ela inclinou o corpo sobre o meu, o afastando outra vez assim que eu cheguei perto o suficiente.
- Oh, você quer eles? – perguntou ela, inocentemente, passando um dedo pelo decote. Perdendo momentaneamente a capacidade de fala, eu acenei vigorosamente com a cabeça. Como uma boa torturadora, voltou a se inclinar, porém dessa vez um centímetro longe demais. Mesmo assim, como um grande babaca, eu me forcei para frente, tentando tocá-la, tentando enterrar meu rosto em seu decote, mas era inútil. Frustrado além do que parecia fisicamente possível, eu rosnei, batendo meus calcanhares no colchão como uma criança fazendo pirraça.
Ela riu novamente. Pelo visto meu sofrimento era hilário. Eu a encarei, torcendo para que ela pudesse perceber o nível de raiva que eu estava sentindo. Já devia fazer mais de uma hora que aquilo havia começado, e por quase todo aquele tempo ela me beijara, me provocara, me machucara, fizera tudo menos dar atenção devida à ereção que nunca, em toda a minha existência, estivera mais dura, mais tensa ou mais dolorosa. Eu nunca havia ficado excitado por tanto tempo sem alguma forma de contato direto, sem qualquer tipo de alívio momentâneo. A única coisa que me acalmava eram as fantasias de vingança que passavam por minha mente, uma mais deliciosa que a outra.
- Pronto para se render? – ela perguntou, levantando o quadril e saindo de cima do meu corpo.
- Não. – eu praticamente cuspi a palavra, sentindo a raiva queimar dentro de mim. Não havia nada que ela pudesse fazer naquele momento que me faria perdoá-la.

E então ela envolveu meu membro com a mão, e eu me vi forçado a rever meus conceitos.

Eu impulsionei meu quadril para frente em um reflexo, quase não tendo tempo de registrar a sensação antes de sentir os lábios dela envolvendo a cabeça do meu pênis. O efeito foi imediato. Cada músculo, cada terminação nervosa no meu corpo parecia vibrar. Dessa vez eu precisei morder minha própria língua para evitar gritar alguma coisa que com certeza arruinaria o momento. E então seus dentes começaram a aplicar a quantidade certa de pressão na ponta, enquanto sua mão começava a se mover firme e insistentemente, e eu perdi o controle, sem me importar mais com os soluços que escapavam dos meus lábios.
Lentamente, ela começou a descer os lábios por toda minha extensão, me deixando entrar em sua boca. A velha sensação de estar no céu e no inferno ao mesmo tempo me dominou enquanto eu me perdia no excesso de estímulos: sua boca me chupando, sua mão agora acariciando meus testículos, sua língua se movendo do jeitinho que me fazia gritar... Eu senti os músculos do meu abdômen se contraindo cada vez mais. Merda, só a visão dos lábios dela me envolvendo já seria o suficiente para me fazer explodir, mas eu lutei para me concentrar. O que restava do meu orgulho deixava claro que gozar momentos após ela começar só a deixaria mais cheia de si.

Em retrospecto, eu não devia ter me segurado só para não dar a ela aquela satisfação, pois momentos depois ela provou não dar a mínima para a minha.

Ela parou de súbito, e por um momento apavorante eu senti meus olhos lacrimejarem de puro desespero. Um homem mais fraco provavelmente teria começado a chorar.
- Desculpa... – disse a sádica, em tom nada arrependido, deitando se ao meu lado e distribuindo beijos pelo meu pescoço – Você estava perto demais, e eu não posso deixar a diversão acabar tão cedo, posso?
Várias respostas me vieram à mente. Tão cedo? Eu já to aqui sofrendo há mais de uma hora! Você tem alguma ideia do nível de crueldade envolvido em parar quando eu já to assim? Diversão? Só se for pra você!
- Você... – eu tive que parar, sentindo minha voz falhar – Você me odeia tanto assim, caçadora?

levou a boca até minha orelha e sussurrou a melhor confissão do mundo.

- Eu não te odeio, .
Ok, eu podia pensar em uma confissão que seria ainda melhor, mas sabia que aquilo era sonhar alto demais. Por agora, aquilo era o máximo que eu conseguiria de .
Ela não me odiava.
Por um momento eu esqueci toda a minha frustração. O ódio dela vinha sendo o maior obstáculo entre nós dois. Claro, havia o senso de dever, a teimosia, a culpa, a auto aversão, os traumas... Mas era o ódio que a fazia querer me fazer sofrer. Se aquilo fosse retirado do caminho, talvez... Talvez ela estivesse certa. Talvez pudéssemos fazer aquilo funcionar.
- Abre a boca. – mandou ela, e eu obedeci imediatamente. Naquele momento teria feito o que quer que ela me pedisse.
Ajoelhada ao meu lado, ela colocou três dedos na minha boca. Sem questionar, eu me pus a chupá-los, tentando inspirá-la a fazer o mesmo por mim. Em alguns segundos, porém, ela afastou a mão.
- Ok... – começou ela, deitando-se de barriga para cima, com o corpo transversal ao meu, a cabeça apoiada em meu abdômen, espalhando seu cabelo por toda minha barriga – Se você gozar sem estímulo, como um adolescente inexperiente, eu juro que vou te punir. E não do jeito divertido. – ela ameaçou. Eu precisava admitir que, embora fosse um pouco irritante, eu estava gostando desse novo lado dela, menos contido, mais leve.
Eu a encarei, confuso, mas ela não pareceu disposta a esclarecer o que dissera. Maiores explicações, porém, logo se provaram desnecessárias.
- Lembra quando você me perguntou sobre como eu me tocava? – ela começou, passando os dedos que colocara em minha boca calmamente por seu ventre. Ela me olhou nos olhos, e eu esqueci completamente que não precisava respirar – Quer que eu mostre?
Antes que eu pudesse responder, seus dedos escorregaram para dentro da calcinha e um gemido longo, sôfrego passou por minha garganta.
- Não faz isso comigo, pequena... – eu implorei, impotente, forçando minhas mãos contra as correntes pela milésima vez, rezando para que dessa vez elas cedessem por milagre. Mas milagres não acontecem para criaturas condenadas ao tormento eterno. Eu estava preso ao inferno, forçado a observar o showzinho de sem poder fazer nada a respeito.
Sua mão desapareceu sob a calcinha e foi a vez de ela gemer e fechar os olhos.
- Se eu tivesse solto, podia fazer isso por você... – eu sugeri, em tom suplicante – Eu seria bom, minha linda, eu prometo...
- Eu sei. – suspirou ela, continuando a movimentar seus dedos. Eu podia sentir minha ereção pulsando na mesma velocidade de seus movimentos – Mas não... Só fala comigo.
- Falar com você? – eu perguntei, distraído pelo modo como ela tocava seus seios por cima do espartilho, claramente incomodada pela dificuldade de acesso. Ha! Carma era uma droga mesmo – Você gosta da minha voz, não gosta?
- Aham... – murmurou ela, com um leve estremecimento, a testa franzida em concentração. Eu pensei em ficar calado só por vingança, mas aquilo só pioraria minha situação. Além disso, eu queria ajudá-la. Não conseguia resistir.
- Então olha pra mim. – eu pedi, e ela voltou a abrir os olhos – Você gosta disso? Gosta de saber que eu to te observando? Que eu tenho inveja dos seus dedos? – ela assentiu, ofegante – Que eu queria que fosse o meu corpo te dando prazer? Que minha voz estivesse contra a sua orelha...
Fechando os olhos novamente, ela ganiu baixinho, seu corpo se arqueando, sua cabeça se debatendo levemente contra minha barriga. Meu corpo inteiro estava tenso, e eu lutava para não relaxar, com medo de não conseguir mais me segurar. A ameaça dela bem viva em minha mente.
- Olha pra mim. – eu pedi, precisando daquele contato, daquela conexão. Ela abriu os olhos novamente – No que você está pensando, pequena? Que sou entre as suas pernas? Que sou eu destruindo essas correntes e metendo em você até te fazer desmaiar?
Eu nem havia completado a frase antes de jogar a cabeça para traz, tensionando todo o corpo e abrindo a boca em um grito mudo. O observei, sôfrego, o corpo dela relaxar aos poucos, o suspiro saciado torturando meus ouvidos. Pela rapidez com a qual ela havia terminado, ela devia ter sido quase tão afetada pelas atividades da última hora quanto eu. A ideia, embora não proporcionasse alívio ao meu corpo, oferecia conforto ao meu ego.
- Hm... Eu estava precisando disso. – disse ela, finalmente, alongando o corpo como quem se espreguiça.
- Bom saber que ao menos um de nós está satisfeito. – eu grunhi, em tom mal-humorado.
Com um sorriso felino, ela se virou de bruços, levando os lábios à minha barriga.
- Quem disse que eu estou satisfeita? – perguntou , mordiscando a área em volta do meu umbigo.
Eu deixei uma fagulha de esperança se acender dentro de mim.
- Oh, não? – eu indaguei, tentando parecer desinteressado – E o que exatamente te satisfaria?
- Você. – disse ela, deslocando-se até minhas pernas e ajoelhando-se sobre meu corpo, com uma perna de cada lado do meu quadril – Mas eu não sei se é uma boa ideia.
- É a melhor ideia que você já teve. – eu disse, erguendo meus quadris o máximo que podia, desesperado por algum tipo de contato. Sem dizer nada, ela sentou-se sobre minhas coxas, me imobilizando – Por favor, caçadora. Só um pouco mais pra cima... Me deixa entrar só um pouquinho. Você sabe que vai gostar.
- Eu não tenho tanta certeza. Ao que parece você não vai durar muito, e isso não seria muito divertido pra mim. – disse ela, parecendo pensativa. Bom, eu não podia dizer que ela estava errada. Do jeito que eu estava, se ela sequer soprasse perto demais do meu membro era capaz de eu acabar gozando – Mas você tem sorte. Eu antecipei esse problema. – novamente, ela se debruçou sobre a sacolinha cor de rosa. Eu escutei o barulho de plástico sendo rasgado, e em seguida retirou a mão fechada da sacola – Imagino que alguém que já está no mundo há tanto tempo como você já esteja familiarizado com isso? – ela disse, abrindo a mão.

O anel de metal em sua palma fez meu sangue gelar.

Sim, eu estava familiarizado com anéis penianos. Provavelmente não havia algum brinquedo do tipo que eu não reconhecesse. Porém, todas as (poucas) vezes que eu utilizara aquele objeto em particular haviam sido nos meus termos. Eu controlava quando colocar e quando retirar. Na atual posição de vulnerabilidade na qual eu me encontrava, aquele brinquedo me assustava mais do que qualquer estaca.
- ... Não... – eu disse, balançando a cabeça enfaticamente.
- Não? Mas é tão fácil... – disse ela, segurando o anel entre os dedos – Pelo que eu entendi, as pessoas usam isso na base do pênis pra prolongar a ereção, atrasar o orgasmo. Quanto mais apertado, mais difícil fica. Esse foi um dos menores que eu achei que serviria, então deve ficar praticamente impossível. – ela abriu e fechou a argola algumas vezes, como se testando – Eu fui avisada de que ele poderia machucar seriamente um homem... Mas você é bem mais resistente do que um homem, então não estou preocupada.
- Claro que não. – eu disse, rindo sem um pingo de humor – Não é você que vai usar! E que fixação é essa em controlar meus orgasmos?
- Simples, vampiro. Eu to adorando a sensação de poder. Achei que você entendesse isso. – o sorriso em seus lábios só podia ser classificado como mau – E eu estava falando sério quando disse que não queria mais te machucar, ok? – diante da minha expressão de incredulidade, ela acrescentou – Bem, não machucar de verdade... – completou , passando os dedos por uma das marcas que ela havia deixado em meu peito – Não te machucar de algum jeito que você não goste. Se eu achasse realmente que você correria riscos, não teria comprado. – ela abriu novamente o anel e me encarou com um olhar divertido – Mas se não confiar em mim, pode ir em frente e se render.
Eu inspirei o ar em uma respiração funda e desnecessária. Eu obviamente não iria me render, e sabia que se insistisse o suficiente ela desistiria da ideia sem que eu precisasse fazer isso. Dessa forma, a culpa por eu ter simplesmente permanecido quieto e deixado ela ir em frente era toda daquela voz dentro de mim que mal podia esperar por mais tortura. Masoquista. Era isso mesmo que eu era. Talvez devesse tatuar a palavra na minha testa de uma vez. Já estava mais do que óbvio.
Fui despertado do meu monólogo interno ao sentir anel sendo fechado em torno da base da minha ereção. Eu sibilei em surpresa. A sensação não era dolorosa, exatamente, mas bem incômoda. O incômodo, porém, não era o maior dos meus problemas.
- Você me quer, ? – perguntou ela, ajoelhada sobre mim, as mãos contra minha barriga.
- Já tá cansada de saber que sim. – eu disse, exasperado. Estava cansado de joguinhos, mas ela claramente não.
- Então diz pra mim. – o olhar da caçadora, suas pupilas dilatas e sua respiração acelerada espantaram momentaneamente minha irritação. Ela realmente precisava ouvir aquilo. Eu já havia constatado o quanto saber que ela me queria me excitava, e aparentemente também era assim para .
- Eu quero você. Eu sempre quero você.
- Boa resposta. – disse ela, afastando o fundo da calcinha com uma mão e, com a outra, me guiando devagar para dentro dela.
Eu virei a cabeça para trás, puxando as correntes sem esperança, simplesmente por ser só o que eu podia fazer. A criatura cruel que agora me envolvia completamente em calor também segurava meus quadris com as mãos, prendendo-os contra a cama, garantido o controle sobre a velocidade com a qual deixaria aquilo acontecer.
Seus olhos estavam fechados, com uma leve ruga de concentração entre eles, e sua boca se mantinha parcialmente aberta enquanto ela movia seus quadris devagar, se acostumando à posição. Eu estava em conflito. Por um lado, não havia melhor sensação no mundo do que estar dentro dela. O encaixe era perfeito, ela era perfeita, como se tivesse sido criada pra mim. Como se alguém lá em cima tivesse sentido pena de me fazer passar por mais de um século de existência miserável e a enviara para me fazer conhecer o paraíso. Uma onda de calor vinda pra aquecer meu ser congelado. Ela me queimava mais do que qualquer fogo seria capaz de queimar.
Seguindo esse mesmo raciocínio, vai ver fora o diabo que enviara aquele fogo, já que parecia tão divertido me ver sofrer. A evidência corroborando aquela hipótese estava no fato de que, por mais delicioso que fosse o nosso contato, eu estava sofrendo, e era exatamente isso que ela queria. Assim que ela começara a me envolver dentro de si, eu senti meu controle evaporando, senti o começo do orgasmo que implorava para acontecer, apenas para ser inibido pela pressão incômoda e desconhecida na base do meu pênis. Isso, é claro, apenas justificava a necessidade da iniciativa cruel de . Aquele anel era como uma outra corrente. A situação toda devia ser a definição do purgatório: ter tudo o que você sempre desejou ao seu alcance, mas não poder usufruir de nada completamente.
Quando seu quadril desceu o máximo que poderia, ela abriu os olhos, me encarando. Tirando as mãos dos ossos dos meus quadris, ela subiu-as por meu peito enquanto começava a subir e descer os quadris devagar. Eu passei a acompanhá-la ao máximo que podia, feliz pelo ritmo lento. Sentia que meu corpo explodiria de outra forma, e a caçadora provavelmente estava consciente desse fato.
- Você gosta disso? – ela perguntou, e por trás do tom provocante em sua voz eu conseguia identificar uma preocupação real. A posição era nova para nós, e eu sabia que ela se sentia insegura.
Eu acenei com a cabeça, sem consegui formular as palavras. Era verdade: os movimentos lentos e exploratórios da garota eram a forma mais doce de tortura. Precisaríamos tentar de novo em uma situação na qual eu estivesse mais livre, em todos os sentidos, mas sim, eu estava gostando daquilo. Gostava do fato de que seus olhos não haviam deixado os meus nem por um segundo enquanto ela alterava levemente o ângulo a cada descida, procurando o ideal, buscando o modo de melhor estimular aquele ponto extremamente sensível dentro de si que, se eu estivesse solto, já teria encontrado há muito tempo. No entanto, não levou muito tempo até ela achá-lo sozinha.
Eu soube exatamente o momento em que isso aconteceu. Seu corpo ficou tenso, um gemido alto escapou de seus lábios e seus músculos se contraíram contra mim com força. Eu gritei, surpreso, e isso trouxe sua atenção de volta para mim.
- Esqueci que você gostava disso. – disse ela sorrindo e fazendo de novo. Dessa vez eu consegui impedir que qualquer som embaraçoso escapasse e minha boca, mas pela reação dela, meu esforço havia sido óbvio – Oh, você sentiu isso? Porque eu praticamente não fiz nada... – o tom inocente na voz de não convenceria ninguém.
- Caçadora, por favor...
- Por favor o quê, ? Para? Continua? Você precisa ser específico... – disse ela, subindo o quadril quase completamente e me apertando de novo, agora só na ponta. Eu sinceramente não sabia a resposta. Se ela continuasse eu ia acabar explodindo, mas se parasse morreria de frustração – Ok, vou facilitar pra você. Vou te fazer algumas perguntas. Se você responder, eu te recompenso. Se quiser que eu pare, é só não responder.
- Mais... Perguntas? – eu não pude deixar de pensar que se ela usasse mais esse seu aparente gosto por torturas e interrogatórios no trabalho, o Mestre já teria sido pego há muito tempo.
- Bom, tem coisas que não dá pra perguntar em uma mesa de bar... – disse ela, de um jeito recatado tão falso e incongruente com a situação atual que eu teria rido, se não estivesse em desespero – Como por exemplo, quando você diz que sempre me quer... O quanto é sempre pra você? Quantas vezes pensa em mim quando está sozinho? Quantas vezes se masturba pensando em mim?
- Todas as vezes. – eu respondi, sincero, antes de pensar melhor sobre o assunto. Ela sorriu, pressionando a cabeça do meu pênis de leve e descendo um pouco.
- E desde quando você me quer?
- Eu já disse. Desde a... Desde a primeira vez que eu vi você. – algo na expressão dela só deixava mais claro o quanto eu estava em completamente a sua mercê. Me sentindo um pouco apreensivo, eu umedeci meus lábios secos, desejando que fosse a boca dela fazendo aquilo por mim. Eu não ousaria pedir.
- É, eu sei. Só gosto de ouvir. – disse ela, rindo e me apertando de novo. Eu mordi meus lábios com tanta força que tirei sangue – Acho que você consegue imaginar a satisfação que é saber que enquanto você estava fazendo da minha vida um inferno, você me queria o tempo todo. Saber que sua vida era um inferno também... – colocando as mãos nos meus ombros, ela passou a descer as unhas por meus braços – Você pensava em mim quando estava com ela?

Oh, merda. Havíamos chegado exatamente onde ela queria.

Não era necessário especificar quem era ela, é claro. Se estávamos falando daquela época, é claro que Cora surgiria. Além disso, minha criadora havia sido a única outra mulher relevante que eu tivera na vida.
Se eu mentisse, ficaria irritada. Se eu falasse a verdade, seu ego atingiria a estratosfera.
- Sim. – eu confessei, por entre os dentes. Pronto. Agora ela sabia o quanto realmente me tinha. Agora eu estava condenado de verdade.
Ela voltou a descer os quadris completamente, me envolvendo em um aperto longo enquanto jogava a cabeça para trás. É claro que aquilo a excitava. E ainda dizia que o pervertido era eu.
- Você pensa em outras garotas? Mesmo quando está sozinho?
- Não. – eu confessei novamente, não vendo motivos pra mentir agora que ela já sabia do mais importante. Bom, se eu fosse totalmente sincero admitiria que já havia fantasiado sobre ela com outra garota, mas não queria morrer. Principalmente porque seria uma morte bem lenta se eu acabasse admitindo que a outra garota em questão era Paris.
- E o que eu faço? O que você faz? – ela havia voltado a mover o quadril em um ritmo crescente, contraindo os músculos à minha volta a cada descida, sem esperar que eu respondesse.
- O quê? – eu perguntei, sem entender, e ela arranhou meu peito com força como castigo.
- Quando você pensa em mim, o que me imagina fazendo? O que quer fazer comigo? – ela respondeu, impaciente, seus movimentos ficando mais rápidos. Ela estava chegando perto.
- Quer que eu te conte minhas fantasias? – ela assentiu, de olhos fechados.
Graças à pergunta anterior, a primeira imagem que veio a minha mente foi ela e Paris brigando em uma piscina de chocolate, e felizmente eu consegui calar a boca antes de deixar aquilo escapar. Desviei minha atenção para as outras fantasias, os devaneios que me fizeram companhia antes e depois de finalmente ter em meus braços, buscando a que fosse menos vergonhosa de admitir.
Ela me arranhou novamente, aparentemente cansada de esperar, e eu soltei o mais recorrente dos cenários que eu costumava imaginar.
- Dormindo. – eu balbuciei, fazendo-a parar e me encarar. Eu bati minha cabeça para trás, desejando que o travesseiro fosse um bloco de pedra.
- Eu dormindo? Você dormindo? – ela perguntou, com uma sobrancelha levantada.
- Não. – eu suspirei, buscando palavras para explicar – Não dormindo de verdade. Não quero você inconsciente, . – eu senti a necessidade de deixar isso bem claro, caso ela achasse que eu realmente era um monstro. Aparentemente satisfeita com a clarificação, ela voltou a se mover devagar, esperando que eu elaborasse – Lembra daquela história que eu te contei por telefone? A fantasia que você me ajudou a encenar? – ela assentiu, acelerando os movimentos – Então... Eu tive que adaptá-la para encaixar sua vontade de ser uma donzela indefesa... – ela me olhou feio, mas não interrompeu – Mas geralmente, quando eu invado seu quarto em pensamento, você não acorda assustada e irritada. Você finge que tá dormindo e me deixa fazer o que quiser... – o som do gemido de é música pros meus ouvidos. O ritmo de seu corpo contra o meu ia se intensificando, ficando cada vez mais urgente – E eu sei que você está acordada, mas finjo que não. Finjo que tenho que tomar cuidado pra não te acordar... – um grunhido longo e sôfrego ecoa pelo quarto, e, em choque, eu percebo que ele veio de mim. Má ideia. Má ideia adicionar minha fantasia favorita a uma situação na qual eu já to prestes a explodir, mas eu não consigo me controlar. Ela claramente estava gostando do que ouvia, e isso podia convencê-la a deixar aquilo acontecer de verdade algum dia – Mas eu quero te acordar, por isso te provoco. Você finge que tá dormindo pra não dar o braço a torcer, e eu te torturo devagar até te fazer se render... – eu olho pra ela, mantendo meu foco na expressão de prazer em seu rosto, em seu corpo subindo e descendo sobre o meu, cavalgando quase violentamente. Merda. Ela ia gozar a qualquer momento, e eu só podia olhar. Só olhá-la e senti-la – Não tem nada mais divertido no mundo do que seduzir você. Eu amo...
- O quê? – ela perguntou, ofegante, o rosto afogueado... Linda. Oh, inferno, eu precisava dizer.
- Eu amo sua teimosia. Eu amo seu fogo, eu... Eu amo você.

E foi então que ela gozou.

’s POV

É a voz dele. Eu dizia para mim mesma. Não as palavras. É a voz.

Afinal, eu sempre havia gostado de ouvi-lo falar em momentos mais íntimos. No dia a dia falava até demais, parecia não saber calar a boca, mas quando estávamos juntos e ele usava aquela voz que eu acreditava ser só pra mim... Quando ele dizia aquelas coisas pra mim, coisas que muitas vezes eu não tinha coragem de repetir, eu gostava. Então havia sido só uma coincidência, certo? Sua declaração e o meu orgasmo só haviam coincidido. Qualquer suposição além dessa era algo que eu não estava nem pronta para nem com vontade de analisar.
Eu levei alguns segundos (minutos? Horas? A noção de tempo fora embora com a minha capacidade de raciocinar) até voltar do estado alterado de consciência no qual eu me vi perdida. Mais algum tempo até convencer meu coração a não fugir do meu peito e minha respiração a se acalmar. O mais difícil, porém, foi convencer meus olhos a se abrirem e encararem .
Eu me surpreendi, no entanto. Estava esperando alguma reação à coincidência que acontecera. Presunção, felicidade ou o pior... Esperança. Mas nada disso aconteceu.
Os olhos do vampiro estavam fechados, seu rosto um pouco contorcido, quase como se sentisse dor. Eu o sentia pulsar dentro de mim, mas duro do que eu imaginava ser possível. Há quanto tempo eu o mantinha preso ali? Era bom ver ele se sentindo indefeso e frustrado, para variar, mas eu estava começando a ficar com pena.
Pena, no entanto, era um problema. O objetivo da minha ideia era nos igualar, e soltá-lo por pena seria humilhá-lo. Eu havia o provocado a se render várias vezes, mas apenas por saber que ele não faria isso. O único modo de manter o jogo empatado era fazê-lo escapar das correntes sozinho. Ele não conseguiria quebrá-las, mas a cama não parecia muito forte. Talvez se eu o deixasse irritado o suficiente...

Sabe aquele filtro que as pessoas têm entre ter uma ideia e pô-la em prática? Então, aparentemente o meu não estava funcionando hoje.

Eu soube imediatamente o que o irritaria mais do que qualquer outra coisa no mundo. E, sem pensar, a coloquei em prática.
Alongando meu corpo sobre o dele, eu meio falei, meio gemi as palavras seguintes enquanto o encarava.
- Hm... ...
Eu senti o corpo do vampiro se retesar sob o meu, e quando seus olhos se abriram, eu vi que havia ido longe demais. A raiva em seu olhar era quase tangível e, eu confesso, pela primeira vez no que parecia séculos eu tive uma pontada de medo de . Merda, eu tinha passado dos limites, não tinha? Ele lidara bem com todas as provocações, mas aquilo havia sido golpe baixo.
Antes que eu pudesse temer o que ele faria em seguida, deu apenas um puxão nas correntes que prendiam sua mão, com uma força que nem mesmo ele devia saber que tinha, antes daquele momento. Elas permaneceram intactas. O encosto da cama, no entanto, foi reduzido a pedaços.
Em uma fração de segundos eu estava deitada de costas na cama, com sobre mim. Eu nem vi como ele conseguiu soltar os pés. Afastando o quadril do meu apenas o suficiente para remover o anel, ele chocou seus lábios contra os meus com um rosnado, em seguida colidindo novamente sua pélvis contra a minha.
Ele não me deu tempo para respirar. Seus movimentos sobre meu corpo eram fortes, urgentes. Com uma mão ele segurava minha coxa contra seu quadril, mantendo o antebraço oposto apoiado na cama ao lado da minha cabeça. Sua boca atacava a minha, seus dentes machucando meus lábios, mas eu não me importava. Em um momento de extrema clareza, percebi que era o que eu queria.

Eu disse o que disse para despertar aquele lado dele. O vampiro em sua mais pura forma.

Ele investia contra mim de forma brutal, descontrolada, e eu ia de encontro a cada movimento da mesma maneira. Minha garganta parecia ecoar cada som que saia da dele, sons que pareciam mais animalescos que humanos. Mais fera que gente, e aquilo ressoava dentro de mim, abraçando minha própria violência, minha necessidade de machucá-lo, minha sede de sangue.

A selvageria dele era a única coisa capaz de saciar a minha.

Prendendo minhas pernas ao redor do seu corpo, eu nos virei novamente, decidida a não o deixar terminar por cima. Eu planejava fazer aquilo durar mais tempo, mas o ato de cair por cima dele havia aprofundado a penetração. Em segundos, pude sentir o terceiro orgasmo chegando.
- Goza. Agora. – eu mandei, no tom mais autoritário que consegui, me prendendo a esta última demonstração de poder. Para a minha total satisfação, ele obedeceu. Ou só não resistiu à sensação de me sentir apertando-o ao sucumbir ao clímax novamente. Mas eu gostava da ideia de tê-lo me obedecendo.
Talvez pela intensidade do estímulo, talvez por eu já estar extremamente sensível, esse orgasmo foi mais forte que os outros. Eu caí sobre , exausta, e me surpreendi ao sentir as mãos dele agarrarem meu quadril desajeitadamente, tentando me fazer continuar a mexê-lo. Foi então que eu percebi que sua ereção havia apenas suavizado um pouco. Sentindo uma mistura estranha de compaixão e presunção pela situação do vampiro, que obviamente não estava encontrando forças para continuar sozinho, eu apoiei meus antebraços em seu peito e forcei minha pélvis para cima e para baixo algumas vezes, contraindo minhas paredes em volta de seu membro para garantir que a passagem fosse bem apertada.
O segundo orgasmo de não demorou a chegar, e dessa vez eu pude prestar atenção no modo como seu corpo inteiro se tensionou sob o meu. Suas mãos apertaram meus quadris em um último surto de energia, impossibilitando que eu o levantasse, e eu me pus a decorar a expressão de prazer estampada em seu rosto, assim como os sons que escapavam de seus lábios e que se pareciam com o meu nome.
Embora eu nunca tivesse prestado tanta atenção antes, tinha certeza que nunca havia durado tanto. Até aquele momento eu nem sabia que homens podiam durar todo aquele tempo. Quando eu finalmente senti seu corpo começar a relaxar eu segurei seus ombros e nos virei novamente, deixando-o descansar o corpo sobre o meu. Ele tremia dos pés à cabeça e eu novamente senti aquela onda de poder me dominar. Aquela que me lembrava que eu havia drenado completamente as energias de um vampiro que tinha muito mais anos de experiência do que eu tinha de vida. Meu ego já havia chegado até as estrelas. A sensação era tão boa que eu até me permiti acariciar as costas de enquanto ele lentamente se recuperava.
Minutos depois ele deixou seu corpo cair para o lado, deitando-se de costas e espreguiçando o corpo lentamente.
Entreabrindo os olhos e me encarando rapidamente antes de voltar a fechá-los, ele gemeu baixinho:
- Hm... Cora...

Filho da puta.

Eu bati com força no braço de , e ele soltou um riso abafado, sem voltar abrir os olhos.
- Que foi? – perguntou ele, em tom sonolento – Não gosta do seu próprio veneno?
- Não. – eu respondi, rindo um pouco. Hesitante, eu continuei – ... Você sabe que eu só disse aquilo porque sabia que ia te irritar, certo? Eu não queria... Quero dizer, eu não estava realmente pensando em...
- Eu sei. – garantiu ele – Mas mesmo assim, no futuro, vamos concordar em banir a menção de nomes de ex da cama, ok?
No futuro. Porque haveria um futuro. Era o que eu queria, certo? Um futuro no qual nós éramos novamente o que quer que havíamos sido antes. Amantes? Soava romântico demais. Parceiros? Impessoal demais. De qualquer forma, só duas coisas estavam claras: não seríamos um casal, mas pela primeira vez também não seríamos inimigos.
- Por falar de futuro... – eu comecei – A gente precisa deixar algumas coisas claras.
- Aham. Depois. – murmurou ele, parecendo mais sonolento do que antes.
- Depois?
- Depois. – ele virou-se de lado e ajeitou o travesseiro, enterrando a cabeça nele.
- Agora não?
- Agora não. – ele parecia uma criança. Uma pessoa com o coração mais mole que o meu talvez achasse aquilo adorável.
- Por que não? – eu indaguei, sorrindo. Ok, era um pouquinho adorável.
Ele voltou a entreabrir os olhos e sorriu.
- Porque uma certa diabinha nessa cama acaba de me dar os orgasmos mais fortes da minha vida. – suspirando, ele voltou a fechar os olhos e a se ajeitar na cama – E agora eu quero dormir.
Dormir? Mas e se até ele acordar eu perdesse a coragem para continuar? E se...

Bom, não importava. Ele já estava dormindo.

Como sempre, era fácil perceber quando estava inconsciente. Era como se aquela aura de energia que sempre o seguia se apagasse de repente. Aquela vitalidade, que pela lógica ele nunca deveria ter, sumia.
Eu suspirei e me forcei a pegar a chave e retirar as correntes que ainda pendiam de seus pulsos e tornozelos. A verdade é que um cochilo agora até que viria bem. Deitando novamente na cama, eu debati recolocar o sobretudo e ir lá fora pedir a cama extra que o atendente do balcão havia me prometido, mas tive preguiça. De qualquer forma, seria estúpido. Eu podia algemar à cama (com a ajuda de quase um litro de vodca pra me dar coragem), mas dormir com ele era íntimo demais? Era idiotice.
Mesmo assim, eu me certifiquei de colocar o máximo possível de distância entre nós. Pensei em colocar um travesseiro nos separando. Pensei em pelo menos afrouxar um pouco o espartilho para ficar mais confortável.

Porém acabei dormindo antes de fazer qualquer uma dessas coisas.

Continua...




1 Pensei em um como esse.



Nota da autora: (06/03/17) Novo recorde de demora...
Eu tenho total consciência de que não mereço as leitoras que eu tenho, ok? Vocês são umas lindas. Obrigada pelo apoio e por não desistirem de mim <3 E obrigada à Gabee, por betar esse troço x.x auhauahauhauh
Vou manter essa N/a curtinha pra mandar essa att logo! Qualquer coisa é só avisar lá no grupo. Demoro um século, mas acabo vendo xD
Beijos, meninas!!!

Nota da beta: (14/03/17) Imagina, amore! É um prazer betar a sua fic. <3


Montagem com os personagens fixos


Outras fics:

The Cake [Especiais/Contos]

Sexual Healing (Sem pseudônimo) [Restritas/Finalizadas]

Down With Love |HIATUS| (Sem pseudônimo) [Restritas/Andamento]

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