Natal no Aeroporto


Véspera de Natal e eu sozinho num aeroporto. Meio deprimente, não? Pois é. Moro em Londres há um ano, mas apesar de ter nascido aqui mesmo, minha família toda mora na Itália, onde eu morei desde que eu me conheço por gente. Então minha mãe me obriga voltar nas datas comemorativas. Estava sentado naquelas cadeiras da sala de espera quando aquelas mulheres com voz de aeroporto (por que será?) falou no alto-falante:
- Sentimos informar, mas todos os vôos foram cancelados em função da nevasca.
Que ótimo, passar o Natal sozinho em um aeroporto era tudo que eu queria! São nessas horas que eu odeio o clima de Londres. Escorreguei na cadeira bufando, tentando aceitar a situação. Senti uma pessoa sentando ao meu lado, fazendo o mesmo. Olhei para o lado e vi que era uma garota, mas não uma garota qualquer, ela tinha uma beleza diferente. Não era loira de olhos azuis nem nada do tipo. Tinha cabelos castanhos compridos com cachos nas pontas, grandes olhos pretos e pele branca. Era diferente, mas muito bonita. Ela parecia tão aborrecida quanto eu, e já que estava lá, por que não puxar um papo?
- Também vai ter que passar o Natal no aeroporto? – perguntei com um sorriso simpático.
- É o que parece – respondeu ela, sorrindo de volta. Além de tudo, ela tinha um sorriso lindo. Meu Deus, a guria era perfeita?
- - apresentei-me, estendendo a mão para ela.
- – ela disse, fazendo o mesmo.
- Você não é daqui, é? Tem um sotaque diferente...
- Não, sou do Brasil. Vim estudar aqui há alguns meses. E você, qual a sua história?
- Também não sou daqui, minha família é da Itália. Vim para Londres para estudar também, não queria passar a vida toda em um lugar só – respondi, olhando para as que passavam.
- Legal, nunca estive na Itália, mas sempre quis conhecer! – ela disse animada. Ótimo, parece que agradei. Não, o que eu tô pensando? Acabei de conhecê-la.
- Então, quer dar uma volta? – sugeri um pouco tímido. Não costumo chamar meninas para sair, apesar de que isso não possa ser chamado exatamente de encontro. – Não deve ter muita coisa interessante aqui, mas eu não gosto muito de ficar parado, não sei você...
- Também não gosto de ficar parada – disse ela, já se levantando e estendo a mão para mim.
Ficamos passeando pelo aeroporto por horas, já que não tinha nada para fazer. As outras pessoas que estavam na mesma dormiam nos bancos ou até no chão, encostadas em suas malas, provavelmente esperando que o tempo passasse logo e que elas pudessem ir para suas casas.
E eu e (já estou íntimo) nos sentamos em um banco, pois já estávamos cansados de ficar andando por todo aeroporto.
- Então, você veio estudar o que aqui? – perguntei, tentando começar uma conversa, porque aquele silêncio era desagradável.
- Música, na Escola de Artes de Londres. No Brasil, não tem tantas oportunidades para a música. Eu tentei entrar para a Julliard em NY, mas o teste é muito difícil e acabei não passando. Mas Londres também é ótima, sempre quis morar aqui um tempo – ela falou, passando os dedos no cabelo. – Mas e você, veio estudar o quê?
- Meus pais queriam que eu estudasse medicina. Bom, grande coisa. Até parece que eu tenho cara de médico. Resolvi estudar música também.
- Ah fala sério – ela disse toda empolgada. Coisa que ela era muito. Empolgada, eu quero dizer. – Isso é tão legal. Música. Eu queria tanto montar uma banda. – Seus grandes olhos pretos brilhavam. – Na verdade, eu tinha uma banda quando morava no Brasil. Apesar de que nunca tocamos nem em algum bar na esquina. Que seja, nós éramos uma banda.
- E por que não são mais?
- Porque minhas amigas decidiram seguir outras carreiras. Não entendo mesmo como alguém decide estudar engenharia sendo que tem a oportunidade de estudar música. Realmente não faz sentido.
Assenti com a cabeça. A verdade é que falava demais. Não que eu esteja reclamando, claro. Ela é mesmo uma ótima companhia, melhor do que ficar a noite inteira olhando para aquele grande cartaz sobre o que não se pode levar em vôos internacionais. Quer dizer, quem é que vai levar mesmo um canivete no bolso? Bom, talvez algum terrorista ou alguém assim. É, faz sentido. Mas então, voltando para ... Ela é mesmo uma boa companhia, apesar de falar muito. Eu estava me divertindo com ela. Bom, se diversão para você for passear pelo aeroporto no Natal enquanto espera que seu vôo seja liberado para que você possa passar a semana na casa da sua mãe na boa e velha Itália. Na verdade, não é muito a minha. Mas era a melhor coisa considerando que a minha outra opção era dormir em cima da minha mochila. E, convenhamos, ela não é muito confortável.
- Então, a nossa banda até que era boa, sabe? Nós só não tivemos muitas oportunidades. Quer dizer, a Caterina escrevia umas letras muito boas mesmo – Sei, a Caterina, aquela minha amiga íntima – e eu até que era boa na guitarra. Tudo bem, não era nada. Mas aposto que se montássemos uma banda agora eu seria melhor. É, eu andei ensaiando.
- Você toca guitarra? – De tudo o que ela disse (e pode acreditar, foi muita coisa mesmo), essa foi a única parte que me chamou a atenção.
Não me culpe por não estar sendo atencioso com uma garota que estava sendo tão, hm, simpática comigo. Mas você também estaria se: a) estivesse preso em um aeroporto em plena véspera de Natal, b) sua mochila não fosse confortável o suficiente para que você pudesse dormir em cima dela, c) o chão também não fosse lá uma coisa muito confortável (não que eu tenha experimentado deitar no chão. Mas as pessoas que estavam de fato deitadas lá pareciam estar sofrendo muito. Além do mais, eu pisei no chão e isso já é o suficiente para saber se ele é ou não confortável. Eu acho), d) você estivesse com fome e frio e nenhuma das lanchonetes do aeroporto estivesse aberta. Era de se imaginar que os donos dessas lanchonetes saberiam que, por causa da nevasca, muita gente ia dormir no aeroporto e que (e isso é um fato) quando as pessoas não têm nada para entreter suas horas, elas simplesmente comem. Bom, azar é deles, que deixaram de arrecadar muito mesmo com isso.
- Sim, sim. – balançou a cabeça, sorrindo toda empolgada (o quê? Ela, empolgada? Que calúnia). – Não que eu seja uma super guitarrista. Mas eu tento. E às vezes, eu consigo. Algumas músicas, sabe...
- Sei, sim – cortei-a antes que começasse a contar sobre como foi aprender alguma dessas músicas. – Eu também toco. .
- É mesmo? – Ela sorriu, remexendo-se no banco, ao meu lado. – Nós podíamos montar uma banda. Aliás, em que parte de Londres você mora?
- No norte. – Quero dizer, eu acho que é o norte. Nunca fui muito bom com a rosa dos ventos.
- Ai, que maravilha. Eu também. Nós podemos mesmo montar uma banda. E eu estou falando sério.
- É, talvez. Mas pra falar a verdade, eu já tenho uma banda.
- Sério? Que tudo. Como é o nome?
- Nós não temos um nome. – Bom, na verdade temos. Mas só sabemos escrevê-lo. Nada de pronunciá-lo.
- Ah... – pareceu desanimada. Pensei em tirar uma foto. Quer dizer, aquilo era um momento inédito mesmo. Tirando a primeira vez em que a vi, mas eu entendo totalmente, já que ela tinha acabado de descobrir que ia passar a véspera de Natal em um aeroporto. De fato, sua desanimação durou apenas um minuto. – Que tal The Sweet? Sorry Figure? – E então, ela começou a fazer uma lista dos possíveis nomes para a minha banda.
- Er, ... – Cutuquei seu braço, interrompendo-a. Ela me encarou de um jeito estranho.
- Ah, desculpa. Estou falando de mais, não é mesmo?
- Claro que não – menti.
- Você está mentindo. – Ela revirou os olhos, de um jeito meio assustador, para falar a verdade.
- Não estou – menti de novo. É claro que eu não ia dizer na cara dela que ela é pior do que um papagaio. Pior no bom sentido. Quer dizer, se ele tiver um. Bom sentido, eu quero dizer.
- Está, sim. Eu sei – ela falou, parecendo conformada com aquilo.
- Como você pode afirmar com tanta certeza? – perguntei.
- Porque você está estalando os dedos. E é óbvio que esse é seu tique.
- Meu o quê? – perguntei, totalmente confuso.
Do que diabos ela estava falando? É verdade, eu estava mentindo. Mas só estava estalando meus dedos, dude, grande coisa. A cada minuto com essa menina, ela fica mais estranha. Mas lembrando: eu não estou reclamando.
- Seu tique. Todo mundo tem um. Quando mente, você faz alguma coisa, ou seja, seu tique. Alguns são mais visíveis, como o seu. Outros nem tanto, como o meu.
Encarei-a. Porque, de verdade, sem querer ser mal educado nem nada, mas qual é o problema dessa menina?
- E qual seria o seu?
- Haha, boa tentativa. Você acha mesmo que eu vou falar? Para não poder mentir perto de você? – Ela riu.
Devo dizer que, nesse momento, eu meio que deixei todo o negócio de ela ser estranha e falar de mais para lá. Porque ela fica muito linda rindo. Já que seus dentes são todos brancos e retos e seus lábios são grossos e rosados. E quando ela ri, inclina a cabeça para trás de um jeito que seus cachos batem no seu rosto quando ela volta a cabeça para a posição normal.
- Falando nisso, que horas são? – apontou com a cabeça para o relógio no meu pulso. Falando nisso? Nós estávamos falando nisso? Viu o que eu disse? Estranha!
- São duas e meia – falei, sem me dar conta do que isso significava. Até que começou a pular no seu banco e abanar os braços de uma forma bem histérica, mas meio fofa. Fofa? Estou virando gay. Matem-me.
- Já é Natal. Já é Natal faz tempo. AAH, É NATAL, CARA! – Ela continuava pulando tanto que toda a fileira de bancos balançava, o que fez com que um cara tão barbudo quanto Jesus que estava deitado no banco mais da ponta acordasse e nos olhasse com uma cara muito feia. Segurei os ombros de .
- Sim, sim. É natal, muito lindo. Mas para de pular porque o Jesus ali está com cara de quem vai nos bater e não é assim que eu quero passar o meu Natal.
Ela parou instantaneamente.
- Eu também não queria passar meu Natal em um aeroporto. Fiquei mesmo muito chateada no começo. Queria demais passar meu natal com o Jack. Mas agora até que está sendo legal. Quer dizer, você é legal.
Jack? Ah, legal, ela tem namorado. E eu reparando em como o cabelo dela balança quando ela ri. Eu sou mesmo o cara mais patético que existe. Minha ex-namorada, a Tina, tinha mesmo razão quando terminou comigo porque, como ela disse, “Eu sou bobo de mais”.
- É, acho que sim.
- Não, sério. Olha só... – Ela remexeu na sua bolsa e tirou um caderno de lá. É impressionante o tanto de coisa que as mulheres carregam em suas bolsas. Tirou também uma caneta e anotou alguma coisa. Arrancou a folha do caderno e me entregou. – Eu quero que você me ligue quando voltar de viagem, tá bom?
Garanti a ela que ia ligar, apesar de não saber se ia mesmo fazer isso. Quer dizer, ela é linda, simpática e tudo mais. Só que eu não sei se isso supera toda essa coisa de ser estranha, falar muito e ainda ter namorado. É, tá legal, supera, sim.
Então ela fez uma coisa muito estranha. Estranha se você considerar o fato de que nós nos conhecemos há apenas algumas horas, e que foi em um aeroporto porque nossos vôos atrasaram por causa de uma nevasca e etc. Mas eu meio que gostei, apesar do Jack e de tudo mais. me abraçou bem forte e praticamente gritou “feliz Natal, ”, o que fez com o que Jesus olhasse feio mais uma vez para a gente. Mas, dessa vez, eu nem me importei. Você começa a se importar com coisas mais sérias quando tem uma gata com os braços em volta do seu pescoço.
Balbuciei um “feliz Natal” para ela também. E, então, Jesus já não nos olhava mais com uma cara feia. Ele meio que nos olhava cheio de... ternura. Não sei se seria bem essa palavra. Para falar a verdade, não sei muito bem o que isso significa, mas sempre usam quando se trata de Jesus, eu acho. Então, o fato de Jesus nos olhar com ternura foi meio irônico. Considerando que o Natal é o nascimento de Cristo.
Ficamos conversando por mais uma hora, eu acho. Quer dizer, falava. Eu apenas fazia algum comentário ou respondia a perguntas. Não posso dizer que foi a coisa mais legal para se fazer no Natal. Mas, com certeza, foi bem melhor do que ficar na casa da minha mãe ouvindo comentários como “você está tão magro. Não tem comido todas as refeições diárias não é? Eu já disse, você tem que voltar a morar com a mamãe”. Além do mais, a é meio engraçada com o seu jeito de falar e o seu sotaque brasileiro.
Depois de um tempo, ela acabou dormindo com a cabeça apoiada no meu ombro. Fiquei olhando para ela por um tempo, mas estava com muito sono mesmo, já que tinha acordado muito cedo, então apenas inclinei minha cabeça para trás e dormi também.
Acordei com cutucando meu braço. Ela dizia algo como “acorda, . A mulher acabou de anunciar que os vôos já foram liberados e que o seu é daqui a vinte minutos”, mas era difícil dizer se foi exatamente isso, já que eu ainda estava com muito sono para raciocinar.
Depois de muito ser cutucado e chacoalhado por , resolvi acordar. Levantei e olhei em volta. O aeroporto estava bem diferente de ontem à noite. Ninguém dormia no chão e todas as lanchonetes e lojinhas já estavam abertas, o que me fez lembrar que eu estava com fome. Isso e os roncos estrondosos do meu estômago.
- , você não está com fome? Meu vôo é só daqui quinze minutos. Podemos comer alguma coisa antes.
Fomos para a lanchonete mais próxima do meu portão de embarque.
estava tagarelando algo sobre como era nojento eu estar comendo aquele pastel de carne porque, além de ser cheio de gordura, é de carne e a carne é de boi, um animal que já foi vivo e fazia “mu”. Juro que foram essas as palavras dela.
- Desde que eu virei vegetariana, tenho bem mais disposição para tudo, porque carne aumenta os níveis de colesterol. Sem falar, de novo, que foi um animal vivo. Eu não sei como alguém pode comer algo que já foi vivo. Isso é canibalismo. Bom, quase.
- Os leões comem as gazelas, nós comemos os bois. Isso é a lei da sobrevivência – foi o meu argumento. Porque, de verdade, é isso.
- Mas os leões não têm outra opção de alimentação como nós temos. – Ela balançou a cabeça, indignada por eu pensar assim.
- Carne tem proteínas. Se nós não comermos carne, nós vamos ficar sem proteína e isso é um fato.
- Não necessariamente. Existem muitos alimentos que substituem a proteína da carne. O leite, por exemplo.
- E o que você me diz do jeito que tratam a vaca para tirar o leite dela, hein? – perguntei, todo cheio de mim.
- Alguns fazendeiros tratam de um jeito muito humano. Ou animalesco, sei lá.
Então ela começou a falar o que fazem com os bois antes de eles morrerem para virarem a carne que eu estou comendo no meu pastel. E foi meio nojento. Tanto que eu deixei meu pastel pela metade porque não podia mais comer o meu “amigo” que faz “mu”. Não com ela falando aquilo enquanto eu comia.
Paguei a conta e fomos embora. Faltavam cinco minutos para meu vôo decolar e todos já estavam entrando. me acompanhou até o meu portão de embarque e fomos nos despedir na porta.
- Boa viagem, .
- Para você também. Que horas sai o seu vôo?
- Daqui a meia hora. Ai, meu Deus, mal posso esperar para rever a minha família, meus amigos e o Jack. Ah, mal posso esperar mesmo para ver o meu cachorro fofo.
– Espera, Jack é o seu cachorro?
- É sim. Ele é lindo, sabe...
Então, Jack era apenas o cachorro dela? E eu pensando que era o namorado lutador de caratê. Porque Jack é mesmo o nome de alguém que luta caratê, eu acho. E por isso me proibi a noite inteira de ficar pensando em como ela é linda. Não que tivesse dado certo, é claro. Mas eu tentei. E gastei meu tempo me preocupando com aquilo. Não muito, quer dizer. Mas que seja.
Talvez seja por isso que eu fiz o que fiz. Talvez por saber que ela é linda e divertida, não tem um namorado lutador de caratê chamado Jack e mora na mesma região de Londres que eu. Ou talvez apenas para mostrar a Tina, mesmo que ela não estivesse vendo, que eu não era bobo. Ou talvez para mostrar para mim, porque eu realmente acreditava ser bobo.
De todo modo, enquanto falava sobre as pessoas (e animais, no caso de Jack) eu me inclinei (porque é meio baixinha em comparação a mim) e a beijei. Devo dizer que ela pareceu assustada, mas mesmo assim retribuiu o beijo.
Então, ficamos um tempo nos beijando ali na frente do portão de embarque, até que um cara muito mal humorado, que provavelmente dormiu no chão (e, nesse caso, eu digo “bem feito, idiota”), ficou resmungando que queria passar e nós estávamos atrapalhando a passagem.
- Eu te ligo, pode ter certeza – falei para , e então entrei na frente do cara para a sala de embarque.
E devo dizer que apesar de ter passado preso em um aeroporto, esse foi o melhor Natal, porque eu conheci a minha futura namorada.



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