Última atualização: 20/04/2018
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Prefácio

Dizem que poucos minutos antes de morrer, sua vida inteira passa diante dos seus olhos como um grande flashback de momentos marcantes. Dizem que é possível ver os rostos das pessoas mais amadas e revisitar os lugares mais emblemáticos.
Se isso era realmente verdade, por que então tudo o que conseguia enxergar era um borrão preto? Se isso era realmente verdade, onde estava o grande topor se tudo o que conseguia sentir era pânico e angústia? Se essa premissa era verdade, por que as vozes que ouvia no fundo do seu subconsciente não eram das pessoas amadas e sim, tão hostis?
Precisava saber porque tinha certeza de que estava prestes a morrer.
Não era possível que tudo aquilo não fosse resultar na sua morte, visto que era isso que verbalizavam impiedosamente no pé do ouvido. Não era possível que aquele formigamento no topo da cabeça fosse normal ou que aquele aperto no peito fosse injustificado. Tentou puxar o ar, mas seus pulmões pareciam não obedecer aos comandos do cérebro.
Assim como todos os outros órgãos.
Tentou abrir os olhos, tentou gritar, mas nada surtiu efeito. Sentia-se preso dentro do próprio corpo, debatendo-se furiosamente sem que isso resultasse em nenhum movimento dos seus membros. Como poderia estar tão consciente e ao mesmo tempo tão imóvel? Parecia estar preso dentro de um sonho enquanto acordado…
Paralisia do sono.
Em algum lugar, no meio do turbilhão que estava sentindo, algo em sua mente despertou repetindo os conceitos daquilo que lera em alguma revista de psicologia há algum tempo atrás. Não os escute, você só está dormindo, vai ficar tudo bem, você precisa acordar. Repetiu para si mesmo, talvez numa tentativa de acalmar o próprio coração que martelava dolorosamente contra o peito, desesperado por não conseguir recuperar os movimentos, embora estivesse consciente.
Estava tão consciente, que conseguia ouvir o barulho de um salto alto vindo ao encontro do chão de pedra. Tão consciente, que conseguia distinguir um zunido distante que ecoava pela sala escura num misto de vozes pressurosas.
TEC. TEC. TEC.
Com toda força que ainda tinha restado, tentou emitir um grito que ficou preso num nó na garganta. Não conseguia ouvir nem sinal da própria voz emudecida em meio ao caos que sua mente se encontrava. O coração parecia saltar contra o peito, aquela angústia sufocante semelhante a tentar incessante e inutilmente respirar embaixo d’água. Nada fazia efeito, não era possível que isso não significasse a morte.
Na paralisia do sono, nada adianta fazer além de esperar.
TUM. TUM. TUM.
Enquanto isso, uma conversa entre cochichos e murmúrios acontecia no corredor.
– Já está quase na hora, Dr. Crouch – A enfermeira dizia num tom hesitante.

– Quase… quase… A essa altura ele já deve estar acordando – O médico respondeu numa voz grave e pensativa.
– Deus nos ajude! Tomara que dessa vez ele não dê outro ataque daqueles – A mulher sussurrou numa voz entrecortada cheia de receio.
– Não se preocupe, mesmo que esteja desperto, ele ainda estará grogue por conta dos sedativos. Hoje não nos causará problema algum. Mas tenha paciência com ele, Watson. Leve em consideração tudo que está passando.
A conversa cessou no momento em que os dois entraram no quarto, iluminando o cubículo pela luz artificial vinda do corredor.
– Ele parece estar acordando… – Uma vez feminina sussurrou. – Será que já é capaz de nos ouvir?
– Sr. ? … Pode me ouvir?
Sentia como se algo estivesse o arrastando de volta para a realidade. A luz clara do corredor atingiu seu rosto bruscamente, obrigando-o a franzir o cenho incomodado e só esse gesto foi o suficiente para provocar suspiro nas três pessoas presentes naquele quarto.
Seus movimentos estavam de volta.
Ele estava vivo.
E estava devidamente acordado.
? Se está me escutando aperte minha mão.
sentiu a mão do Dr. Crouch embaixo da sua e tentou apertá-la, mas seu corpo parecia pesado e imensamente dolorido por baixo das amarras em que seus braços estavam presos. Provavelmente tinha sido sedado novamente. Não conseguia se movimentar direito pois eles tinham medo dele, medo da sua reação, medo que ele fosse se tornar violento. Mais uma vez.
Com um esforço enorme, pressionou seus dedos na mão do Dr. Crouch, fazendo o médico sorrir satisfeito.
– Ótimo, ele está nos ouvindo! – Disse empolgado o Dr. para uma nada empolgada enfermeira, que parecia apreensiva e agora se escondia atrás do corpo do médico mais velho. – , por favor... Tente abrir os olhos.
Era como se um trem tivesse passado pelo seu corpo, pela forma como ele estava dolorido. O sedativo deveria ter sido muito forte para ter o debilitado daquela forma. Com muita dificuldade, apertou os olhos franzidos antes de conseguir abri-los. Bateu as pestanas algumas vezes, desnorteado, sentindo-se potencialmente incomodado com o excesso de claridade no quarto antes escuro.
Demorou um certo tempo para que ele pudesse se acostumar com a iluminação, rolou os olhos pelo local cirurgicamente limpo e branco, antes de conseguir detectar os rostos do Dr. e da Enfermeira que o encaravam pacientemente, esperando alguma reação sua. Seu coração ainda batia descompassado pelo susto e pela experiência deplorável de instantes atrás.
– Quer nos dizer alguma coisa, Sr. ? – Perguntou o Dr, parecendo um pouco mais apreensivo agora.
Sim, ele queria.
Queria falar muitas coisas, fazer muitas perguntas. Aquela conversa ainda martelava em sua cabeça, mas viria a falar disso novamente mais tarde. Todo o resto poderia esperar. Só existia uma dúvida em sua cabeça em meio aquele turbilhão de perguntas que realmente importava.
O questionamento mais importante era sobre ela.
Onde ela estava? O que havia acontecido com ela? Ela estava bem? Quando iria poder vê-la?
Sua garganta estava seca, mas mesmo assim ele tentou falar com muita dificuldade.
– Onde ela está? – Sua voz parecia rouca, estranha aos seus próprios ouvidos, parecia estrangulada. – Onde ela está, doutor?
Doutor Crouch e a enfermeira Watson se entreolharam de forma temerosa. Esperavam por essa pergunta, mas ao mesmo tempo temiam esse momento.
Com muita cautela medindo bem as palavras, Dr. Crouch falou, quase hesitante, instintivamente recuando dois passos:
– Ela... não está aqui. Receio que você não poderá mais vê-la.
E aquele pesadelo parecia mais real do que nunca… Tudo começou novamente.


I

My body feels young but my mind is very old




Seis meses antes...


Som de buzinas, falatório, discórdias de trânsito e chuva intensa. Tudo isso podia ser ouvido na Regent Street no seu habitual engarrafamento matinal. Todos estavam agitados, falando ao telefone, brigando com alguém ou para o mundo. Todas as pessoas tão concentradas em suas tarefas diárias; reclamando da vida, sobre o atraso para o trabalho, a escola das crianças...
Todas, menos .
Na quente e confortável cabine do seu Audi com as janelas fechadas, além de ficar longe do clima invernal de Londres, estava alheio a qualquer barulho que não fosse vindo do som do seu carro. Ouvindo Half the World Away do Noel Gallagher, murmurava baixinho a letra da música enquanto esperava o congestionamento de carros aliviar.
Um dos motivos para não se estressar todas as manhãs com esse engarrafamento, era porque ele já estava acostumado. Mesmo que saísse de casa meia hora mais cedo, ficaria preso naquele mesmo trajeto. Estava ficando impossível sair pra qualquer coisa que fosse, pois sempre havia uma quantidade absurda de carros pelas ruas. Ele estava até considerando a hipótese de ir de metrô ao trabalho, mas por essa ideia em prática já era outra coisa. Já faziam dois anos em que pensava nessa alternativa, mas toda manhã, no entanto, pegava as chaves do carro e enfrentava o mesmo engarrafamento, afinal de contas, aquilo já havia virado uma rotina.
Mas, para falar a verdade, tudo na vida de havia se tornado uma rotina. Não fora sempre assim, no entanto. Não saberia dizer quando o hábito havia começado, mas a verdade é que, mesmo quando se deu conta disso, não se esforçou para mudar, apenas deixou que as coisas continuassem sendo como estavam, sem que ele tivesse tempo para surpresas ou contratempos que não fossem em horários devidamente programados.
Há dois anos ele acordava às 06h. Há dois anos ele saia de casa às 07h, enfrentava o mesmo engarrafamento, chegava ao trabalho às 08h, planejava vendas, assinava contratos, participava de reuniões, planejava mais vendas, atendia clientes e via as mesmas pessoas.
Almoçava todos os dias às 13h no mesmo restaurante, o mesmo pedido, e voltava para o trabalho, onde não tinha horário fixo para sair, apesar de ser sempre em torno das 20h, embora não houvesse necessidade para tanto.
Ao chegar em casa, normalmente às 21h, encontrava a janta pronta, feita por sua empregada Isobel, assistia algo que nunca dava importância na televisão, e dormia todos os dias 00h em ponto.
Como todo hábito, depois de formado, era difícil de largar. Já estava acostumado e gostava de sua rotina, algumas pessoas diziam que a vida dele era em função do trabalho, mas ele não se importava com isso, afinal de contas, amava o que fazia. Fazia o que amava ou aprendeu a amar o que fazia? já não sabia mais a diferença entre isso e nem onde se encaixava.
A verdade era que também não se importava mais.
Trabalhava numa grande companhia de seguros e em crescimento recorde, havia se tornado vice presidente em apenas cinco anos. Essa ascensão repentina não se dava apenas pelo fato de ser um jovem prodígio com mestrado e doutorado ou dedicação total e extrema com o negócio e os compromissos. Outros fatores decisivos e não menos importantes tinham sido essenciais para que tivesse se tornado tão benquisto pelo chefe.
Mas ele não gostava de pensar nisso.
O estacionamento de funcionários da Whistler’s Company já estava quase cheio quando estacionou seu Audi, pegou sua maleta, deu bom dia ao porteiro, e seguiu até os elevadores.
Algumas moças da recepção suspiraram quando ele passou, como sempre faziam. E como sempre, eram totalmente ignoradas. Toda vez que entrava no campo de visão das recepcionistas, secretárias e quaisquer outras funcionárias, elas tinham dificuldade de concentração no trabalho, mas ele simplesmente não ligava, passava por todos, dava bom dia e seguia até sua sala para mais rotina de trabalho.
Enquanto se aconchegava na sua confortável poltrona, do outro lado da sua sala, duas secretárias discutiam para ver quem iria levar a prancheta do dia para o “chefe”.
– Eu já disse, Elle! Eu sou a secretária do Sr. , portanto, eu levo a prancheta para ele. – Dizia Norah Spellman, uma mulher negra de feições meigas e olhos amendoados, na porta da sala de . Em suas mãos estava a prancheta e em seu rosto uma expressão chateada.
– Desde quando eu me importo com sua função aqui ou tenho que me reportar a você? Eu sou gerente nessa empresa, e tenho que falar com , portanto, eu posso muito bem entregar enquanto você vai caçar outro serviço pra fazer, quem sabe lhe entregar um café? Esse é o trabalho de secretárias. – Elle Simons, uma loira dos olhos azuis e corpo escultural, falou com um tom de desprezo, fazendo questão de diminuir o trabalho da outra.
Norah ergueu as sobrancelhas e abriu a boca para falar algo, mas não conseguiu proferir palavra alguma. Tinha se ofendido com a forma que Elle havia lhe tratado. Não podia-se dizer, no entanto, que ela não estava acostumada, visto que todos os dias as duas trocavam farpas e como sempre, Norah era esnobada por sua posição inferior na hierarquia da empresa.
– Ninguém está te impedindo de ir falar com ele, mas acontece que eu estou tentando fazer meu trabalho. – Fora tudo que ela conseguira dizer, com a voz fininha e uma expressão visivelmente chateada.
Elle deu uma risada sarcástica, jogando sua cascata de cabelos loiros para trás, lançando um olhar maldoso para a colega.
– Desde quando seu trabalho é se oferecer pro patrão? Você pensa que eu sou cega? Vejo como você fica arrumando seus cabelinhos ressecados toda vez que está prestes a entrar na sala dele. Você não tem chances, empregadinha, se enxerga! – Elle praticamente vomitou as ofensas em Norah, sua voz elevada ¼ por conta do sarcasmo proferido.
– Como é que é? Não seja tão venenosa, Simons!!! Só estou tentando fazer meu trabalho e você não está deixando – Norah exclamou visivelmente magoada, tentando segurar algumas lágrimas. Nesse ponto algumas pessoas próximas já podiam escutar a conversa das duas e se amontoavam entre as mesas espichando as cabeças por entre os computadores para ver melhor.
– Você é cínica, das piores, se faz de santinha, mas no fundo é uma vaca.
– Olha aqui sua cobra, você não... – Começou Norah com a voz esganiçada, extremamente ofendida e com as maçãs do rosto completamente ruborizadas, mas foi interrompida por uma voz grave que ecoou no corredor assustando a todos.
– Agora chega, vocês duas.
O presidente, ou como os funcionários gostavam de o chamar “O poderoso chefão” Edmund Whistler estava parado no corredor e observava as duas funcionárias com um incontestável ar de reprovação nas suas feições duras.
– Sinceramente, vocês são pagas pra brigar por uma prancheta? – Ralhou o chefe olhando diretamente para as duas, alguns funcionários ao redor pararam para ouvir: nada era melhor do que ver o patrão dar sermão em outros.
– Srtª Spellman, não devia ter entregue o relatório ao ? – Sr. Whistler direcionou o olhar para Norah, fazendo–a ruborizar ainda mais e adquirir cor de beterraba.
– Eu estava prestes a fazer isso, Sr. Mas a Elle me interrompeu para m…
– Agilizar o seu serviço, pois você tem muitas coisas a fazer. – Interpelou Elle, ficando um passo à frente, mostrando-se disposta.
– Srtª Simons, não está sendo paga pra supervisionar o serviço alheio, faça apenas seu trabalho e Srtª Spellman vá entregar a prancheta ao . – Era impossível descrever o olhar de satisfação que Norah deu à colega. Estava com a mão na maçaneta quando a voz do Sr. Whistler ecoou novamente.
– Aliás, Norah, deixe isso comigo, preciso mesmo falar com . – Sr. Whistler tomou a prancheta das mãos da estupefata secretária, sob o sorriso maldoso de Elle enquanto abria a porta – Aproveite para adiantar o seu serviço, de volta ao trabalho todos vocês.
E entrou na sala, batendo a porta as suas costas.
– Bom dia, .
estava ligando seu notebook quando notou o uso do seu sobrenome pelo chefe que adentrava a sala sem a menor cerimônia.
– Whistler, bom dia. – Cumprimentou com um meio sorriso levantando–se de sua cadeira para saudar o outro – O que faz aqui tão cedo?
– Suas duas amáveis admiradoras estavam brigando para te ver, então acabei com a graça delas e vim aqui eu mesmo. – Respondeu Edmund, com um tom exageradamente natural recebendo um olhar desconfiado de – Você sabe como é, um dia terei de demiti-las por sua culpa, você causa muito alvoroço.
– E você veio aqui só pra me entregar minha prancheta? Ou só pra me passar um sermão, como se eu tivesse culpa do comportamento delas duas? Sabe que eu não correspondo. – começou, sentando-se em sua cadeira e indicando uma outra em frente a sua mesa para que Sr. Whistler se sentasse.
Por um momento, achou engraçado aquela cena, ele na mesa do chefe e Edmund sentado do outro lado.
Edmund suspirou uma vez, sentando-se na cadeira indicada por , depositou a prancheta que pegara de Norah na mesa, apoiou o cotovelo no braço da cadeira, alisou o bigode com a mão e só depois, então, encarou o outro que esperava pacientemente.
Muitas coisas se passavam pela cabeça do presidente da Whistler’s Company naquele momento.
Edmund Whistler não era velho, tinha 65 anos de idade, mas em muitos aspectos aparentava estar na faixa dos 50. Era um patrão imparcial, não aceitava injustiças; era sério, calmo na maior parte do tempo, mas quando se irritava os seus funcionários faziam questão de manter distância.
Como homem era religioso, um pouco excêntrico, ligado a família, viúvo, pai de três filhas e avô de um menino. Era um bom amigo, engraçado, atencioso e prestativo, mas gostava de se isolar algumas vezes, sem que ninguém soubesse explicar o motivo.
Havia algo no modo como Edmund olhava pra que o deixava preocupado. Uma expressão cansada que o fazia parecer bem mais velho do que ele realmente era.
– Eu estou velho e cansado demais pra isso, – Edmund disse depois de algum tempo em silêncio.
– O que houve, Ed?
Não é comum um chefe chamar seu empregado pelo apelido, e menos comum ainda que o empregado tenha esse mesmo tratamento para com seu chefe. Mas a relação entre Ed e era além de patrão – empregado, presidente e vice-presidente. Havia mais coisa nisso.
– Você sabe, é o vice CEO dessa empresa, na minha ausência você comanda, isso sem contar que você vai se casar com a minha filha, e tomar essa empresa como seu direito…
– Ah, Ed.. Não comece com esse papo de sucessor, você não está velho! – desviou daquele assunto. A verdade era que não estava ansioso para tomar o lugar de presidente da empresa, muito menos quando Edmund jogava seu noivado com a filha dele para ser uma válvula de escape.
Não entenda mal, sentia muita gratidão por ter sido tão bem aceito na família de Charliet Whistler a ponto do pai dela não exigir um contrato de separação total de bens no acordo pré-nupcial. Era de se esperar que, ao construir uma empresa tão bem-sucedida, o homem quisesse preservar seu legado isentando qualquer pretendente das suas filhas dos bens do seu negócio. O que não aconteceu com .
Mesmo sem que essa fosse sua vontade, Edmund Whistler tinha tanto apreço e tanta confiança por , que para ele era um alívio deixar a empresa nas mãos do genro, visto que nenhuma das três filhas demonstrara o menor interesse em dar continuidade a empresa que ele construiu do zero.
– O que eu estou tentando te dizer é que no seu comando as ações dessa empresa cresceram num número elevado, você pensa na direção certa, é jovem e tem disposição. Eu já tive meu momento, tenho dinheiro suficiente pra passar o resto de minha vida esbanjando o conforto pelo qual eu trabalhei esses anos.
“Ainda tenho muito o que viver, eu construí esse império, comecei a trabalhar cedo, estudei muito, fui pobre e depois de sacrifício fundei essa empresa, e trabalho nela há 30 anos. Dediquei–me para dar um futuro pra minha família, não acha que eu mereço um descanso? Depois que a Susan morreu minha vida ficou apagada, quero aproveitar o tempo que tenho para colher os frutos do que plantei, ou tudo isso terá sido em vão.”
Durante o discurso de Edmund, permaneceu calado. Boa parte das coisas que Sr. Whistler dizia se aplicavam a ele também. Muitas pessoas lhe diziam isso, mas ele não se importava, gostava do que fazia e não via problema em viver em função disso.
– Isso se aplica a você também, . – Sr. Whistler verbalizou os pensamentos de – Admiro seu compromisso e aprovo o seu trabalho, mas devo dizer que trabalha demais, mais do que necessário. Agora que será o CEO, o Matthew assumirá o seu cargo e você poderá relaxar mais. Eu sei que gosta do seu trabalho mas pode gostar de fazer outras coisas, por exemplo... Sair com sua noiva.
“Começou”, pensou , cansado. Odiava quando Edmund começava a misturar as coisas colocando Charliet no meio. Às vezes, pensava que boa parte do afeto e boa estima que Edmund tinha por ele era por causa do seu noivado com sua filha, tinha medo que se algo desse errado com ela, sua carreira naquela companhia fosse comprometida.
– Você conversou com ela não foi? – Perguntou com uma voz monótona, visualizando o sorriso quase culpado que Sr. Whistler exibia.
– Digamos que sou um pai preocupado com a tristeza da filha – O mais velho respondeu simplesmente.
– Eu ligo pra ela. – murmurou, se sentindo desconfortável com a mudança de assunto. Era estranho conversar sobre o relacionamento com o sogro.
– E vocês namoram pelo telefone? – Sr. Whistler debochou, fazendo com que lhe lançasse um olhar de poucos amigos, o que ele ignorou – Você é jovem, tem apenas vinte e oito anos, e é um rapaz brilhante. Sei que fará o certo. Encontrará tempo para administrar essa empresa e para cuidar da sua futura esposa, mãe dos herdeiros dessa companhia.
abriu e fechou a boca algumas vezes, mas não sabia o que dizer. Estava encurralado. Ele sabia que Edmund o tinha como filho, não apenas pelo fato de estar de compromisso marcado com a filha dele, mas por ter demonstrado interesse na empresa, em seguir a carreira que nenhuma de suas filhas quis. Por isso que ele aprovou com entusiasmo e ainda incentivou o namoro e o noivado de com Charliet, para que sua empresa ficasse em boas mãos e que tivesse um herdeiro da família para tomar posse do seu “Império” (como ele mesmo costumava dizer) que havia construído do nada. Ainda que as filhas tivessem por direito participação nos lucros da companhia, não podia contar com Cameron querer dar sucessão – o neto tinha apenas seis anos de idade. E preferia morrer a ver outra pessoa assumir o cargo de CEO nomeada pelo conselho.
Edmund ficou em silêncio esperando uma resposta que não veio de . Respirou fundo algumas vezes e se levantou rumando em direção a porta de saída. Estava com a mão na maçaneta quando se lembrou de outra coisa.
– Catherine vai dar um jantar lá em casa hoje para comemorar o noivado dela com o Peter. Apareça às sete e meia. – E sem dar tempo de receber uma resposta, saiu, fechando a porta atrás de si.
suspirou e relaxou na cadeira, afundando no acolchoado. Inclinou-se para frente e para trás mirando o teto pensando a respeito da conversa nada convencional que tivera com Edmund Whistler.
Muita coisa tinha acontecido rápido demais nesses últimos anos. Se parasse para analisar sua vida – coisa que há muito desistira de fazer – ficaria surpreso com quantas reviravoltas tinham acontecido desde o momento que entrara na faculdade até o momento atual.
Para muitas pessoas, era considerado um garoto prodígio. Era aquele tipo de rapaz que gerava comentários da família dos outros como “você ainda está na faculdade? O já tem doutorado e ganha…” Evitava a todo custo pensar nisso, era uma ironia e tanto devido ao seu passado.
A verdade era que na vida de as coisas simplesmente foram acontecendo. Ele era um rapaz muito inteligente e extremamente perfeccionista e dedicado a qualquer coisa que se propunha a fazer. Por isso, não foi tanta surpresa ser laureado na faculdade e ter iniciado o mestrado logo em seguida, ainda enquanto trainee de uma multinacional. Tampouco fora surpresa quando iniciou o doutorado – era o caminho esperado por todos.
Ter iniciado um relacionamento com Charliet nada tinha a ver com sua carreira na W.C. Pelo menos, era isso que tentava convencer a si mesmo toda vez que pensava a respeito. Com Charliet tinha sido por amor, o fato dela ser filha do CEO da companhia era apenas desvio de percurso. Um desvio que acabou norteando sua carreira para além dos seus sonhos e suas vontades.
Não que tivesse algum sonho.
Era de se esperar que tendo a idade que tinha e tendo conquistado tudo que tinha conquistado, era um homem feliz e realizado. Mas a verdade é que a cada dia que se passava, se tornava um pouco mais apático a tudo aquilo que estava acontecendo.
Aquela conversa com Edmund Whistler tinha despertado algo dentro dele. A perspectiva de tornar–se CEO da Whistler’s Company era – até aquele momento– apenas conversa. Não imaginava que aconteceria tão rápido, não imaginava que precisaria ter isso consolidado em tão pouco tempo, até porque, não imaginava que Edmund iria querer afastar–se da própria companhia tão rápido.
Agora tinha duas coisas para pensar a respeito. Não bastava pensar que iria tornar-se CEO de uma das maiores empresas do país, também iria se casar em alguns meses.
Não saberia dizer para qual das duas coisas estava menos ansioso.

***

A única coisa que gostava nos dias que tinha jantar na casa dos Whistler’s era que ele podia sair mais cedo do trabalho, assim não precisava enfrentar o engarrafamento na volta para casa.
Não é como se não gostasse de ir para lá, porque ele até gostava. Todos lhe tratavam muito bem, as filhas do Sr. Whistler eram muito receptivas, assim como seus respectivos parceiros.
Christine, a filha mais velha, era muito educada, era mais calada e um pouco introspectiva quando não a conheciam muito bem. Depois de um tempo se mostrava uma pessoa um tanto excêntrica e muito amável. O marido dela, Bill, era um homem sem muitos atrativos físicos, mas era a alma gêmea de Christine, em alguns aspectos eram simplesmente iguais, e em outros extremos opostos; ele era engraçado, exagerado e bastante extrovertido. O casal tinha um filho de seis anos chamado Cameron, por quem tinha um carinho especial.
Catherine, era a do meio, cujo noivado seria comemorado essa noite. Ela era uma graça. Bem no início havia demonstrado um certo interesse em , mas desistiu ao perceber que esse interesse era compartilhado por sua irmã mais nova. Catherine tratava muito bem, era muito alegre e criativa, tinha uma certa dificuldade em se apegar em relacionamentos por ser tão sonhadora e uma romântica incorrigível, mas havia jurado que com Peter era diferente para ela, ele era o “amor de sua vida”. tinha um carinho muito grande por ela.
E por último, havia Charliet.
Ela era, como sabemos, a noiva de .
O romance começou quando entrara para companhia e num desses jantares de confraternização da empresa, acabaram se conhecendo. Na época, era um rapaz jovem e aparentemente animado e alegre. Tirava piadinhas com as pessoas, e esse seu bom humor e motivação que fizeram com que ele chegasse tão longe na empresa, e caísse nas graças de Edmund.
Não demorou muito para ser convidado para os jantares particulares na casa do seu chefe, onde suas filhas estavam presentes. No começo fora Catherine quem demonstrara interesse por , mas depois que descobriu o interesse de sua irmã, passara a tratar de forma amigável, tentando junta-lo com Charliet, que depois de um tempo ganhou o coração de , por ser de todas as formas possíveis diferente das irmãs.

Não muito fisicamente, já que todas elas possuíam os mesmos traços do rosto e a mesma cascata de cabelos castanho ondulados. Mas apenas Charliet herdara os olhos azuis misteriosos da mãe.
Ela não era excêntrica e exagerada, não era falante, mas também não era completamente introvertida. Era calma, e carinhosa, apesar de não ser tão romântica e sonhadora como a irmã, era decidida e muito parceira.
Se divertiam muito juntos no início do namoro, eram o famoso casal perfeito. Para , Charliet era uma dessas sortes grandes de uma vez na vida. Por ser tão tímida nunca havia namorado antes, não por falta de iniciativa por parte dos rapazes.
Mas com o tempo e as responsabilidades do trabalho, as coisas mudaram. A distância que tinham, as poucas horas juntos, por mais que tentassem negar, não havia mais paixão, nem o sentimento de conquista pelo menos não da parte de . Sentia um carinho muito grande por ela e tinha a certeza de que era uma mulher para se casar e ter muitos filhos, possuía uma boa índole e era uma moça respeitável, com todos os valores que admirava em uma mulher, além de que era a filha do seu chefe e grande amigo. Não que estivesse com ela apenas para possuir status na empresa, não era isso, ele apenas não sentia mais por ela o mesmo de antes, na verdade o relacionamento de havia se tornado o que era agora toda a sua vida: uma rotina.
Mas assim como era com seu trabalho, era com o relacionamento. Uma vez que a rotina tinha se instalado, era difícil mudar.


Chegou a grande mansão dos Whistler’s às 19h10 em ponto. Estacionou seu carro e foi guiado sem precisão por Ivan, o mordomo da casa. Ivan guiou pelo corredor da casa, que era extremamente luxuosa, num misto de arquitetura medieval e moderna.
– A Srtª Charliet pediu para que o senhor a aguardasse aqui. – Ivan o mordomo avisou assim que chegaram a “sala de espera” como gostava de chamar. Não entendia a precisão de ficar esperando por Charliet ali se podia muito bem subir até o seu quarto. Já fizera isso tantas vezes...
Quando Ivan se retirou, se serviu do uísque que ficava na mesinha de canto. Pôs uma dose e misturou com gelo no copo. No segundo gole, ouviu uma voz conhecida ecoar no topo da escadaria.
– Gostei, está bonito.
Lá do alto, Charliet lhe encarava com seus profundos olhos azuis e um sorriso no canto dos lábios.
Quando ela sorria era fácil entender porque a escolhera. Fora a semelhança entre as irmãs, ela era de longe – sem favor algum – a mais bonita das três.
– Você também está – elogiou sinceramente seguindo até o pé da escada, enquanto esperava ela descer.
Ela usava um vestido azul marinho, tomara que caia, justo ao seu corpo. Era simples, mas lhe caia muito bem, ressaltava os seus olhos. Calçava um salto alto de tiras finas e seus cabelos estavam soltos em cascata.
Chegando ao penúltimo degrau, ela segurou a mão de e sem convite jogou seus braços em volta do pescoço dele, abraçando-o.
– Nós combinamos – Ela falou ao pé do ouvido dele, segurando a gola de sua camisa.
usava uma camisa azul marinho, na mesma tonalidade do vestido dela. Eles se entreolharam e riram baixinho disso.
– Ah, ai estão vocês! Venham seus pombinhos, todos estão na sala de jantar – Bill, o marido de Christine apareceu na sala, interrompendo o abraço do casal, logo depois indo embora.
– Já percebeu quanto tempo faz que você não me beija? – Charliet perguntou com uma voz mansa beijando o rosto do noivo, que riu sem emoção, aplicando-lhe um selinho contra os lábios em seguida.
– Vamos, estão esperando por nós – falou, afastando–se do abraço de Charliet, entrelaçando seus dedos nos dela.
– Você não me perguntou, mas saiba que nossa casa já está em fase de reforma – Charliet alfinetou e sentiu-se um pouco culpado por não estar a par das negociações da sua própria morada. Com a proximidade do casamento, era de se esperar que estivesse ansioso com o trabalho dos marceneiros… exceto que não estava.
– É verdade… tinha me esquecido disso. – confessou distraído e Charliet crispou os lábios incomodada.
– Não só disso, né, ? A gente tem quanto tempo sem se ver? Mais de uma semana…?
suspirou cansado, mesmo sabendo que isso chatearia Charliet ainda mais. Tivera um dia tão exaustivo no trabalho, não estava mesmo no clima de discutir a relação. Muito menos estando a caminho de um jantar de noivado: que tipo de incentivo daria aos noivos?
Freou os passos no corredor e girou de calcanhares ficando de frente para a noiva que não escondia sua insatisfação no olhar. O que não era muito característico de Charliet, normalmente ela era mais passiva e deixava as coisas passarem sem muita discussão. Se ela estava contestando deveria estar mesmo no seu limite. ressentia–se por isso, embora não soubesse o que poderia fazer a respeito.
– Seu pai veio falar comigo hoje, sabia? – começou e Charliet ergueu as sobrancelhas tentando parecer impassível.
– Vocês trabalham juntos, é de se esperar que se falem sempre… – Charliet disse com um sorriso cínico e revirou os olhos sarcástico. Os dois se entreolharam e sorriram mais amenos com a situação. Charliet suspirou derrotada e foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Char, me desculpe não estar tão presente, mas por favor deixe seu pai fora disso. É muito constrangedor discutir minha relação com meu sogro… que é também meu chefe.
– Eu não pedi para ele te falar nada, . Você sabe como meu pai é protetor, ele se preocupa com nossa felicidade. Em todos nossos anos de namoro você já me viu alguma vez falar algo sobre você com ele? – Charliet indagou e balançou a cabeça negativamente – Então! Eu não disse nada, mas ele me perguntou e eu não confirmei nem neguei… É perceptível, poxa.
soltou um muxoxo resignado e comovido pelo olhar desolado de sua noiva, puxou–a pelos ombros para um abraço. Ela envolveu seu tronco com as mãos e apoiou a cabeça no seu ombro com um biquinho chateado que normalmente faria derreter. Hoje, no máximo, achava fofo.
– Ele também veio me dizer que serei o novo CEO porque está se afastando. Sei que essa nomeação deve partir do conselho, mas tudo isso aconteceu de uma forma muito rápida, não esperava que isso fosse real, me pegou de surpresa. – confessou no abraço e Charliet ouviu com atenção. – Desculpe estar ausente, mas em breve as coisas irão melhorar…
Mas Charliet permaneceu imóvel e em silêncio. beijou o topo da cabeça dela e afastou–se apenas o suficiente para poder olhá-la de cima.
– O que posso fazer para recompensar você? – perguntou e Charliet deu um sorrisinho de canto parecendo satisfeita.
– Bom, podemos sair no final de semana para ver coisas de decoração para nossa casa! – Sugeriu e ao ver que a expressão de não se iluminou, ela completou de cenho franzido – Pelo menos finja empolgação!
revirou os olhos e sorriu. O sorriso mais pareceu uma careta.
– Decoração então, yay! – Forjou uma comemoração com a voz baixinha e Charliet riu revirando os olhos, resignada.
– Ei, casal! Hoje é o meu dia de princesa, ok? Parem de ficar namorando no corredor e venham me prestigiar! – Foram interrompidos pela Whistler do meio que entrava no corredor com uma expressão radiante. e Charliet se afastaram um pouco para sorrirem para mulher.
– Do jeito que vocês demoram com esse casório, vou furar a fila, viu? – Catherine disse em tom de brincadeira já voltando para dentro da sala de jantar. nada respondeu além de um sorriso fechado e Charliet calada estava, calada continuou.
Charliet também era boa em maquiar a verdade.
E a verdade, embora cruel, era bem simples: as pessoas podiam dizer que eles eram um casal lindo, mas não havia mais química. Eles sempre diziam que se amavam, mas era mais como se estivessem selando um contrato, e não um sentimento. A convivência, a conveniência e a comodidade tinham prevalecido nesse relacionamento.
já havia se acostumado com isso, afinal de contas toda sua vida era uma rotina, seu noivado não poderia ser diferente. Quem soubesse da sua vida provavelmente diria que ele era um velho que se acomodara, mas ele era jovem, tinha apenas vinte e oito anos.
Mas essa era a realidade do que ele havia se tornado. Um alguém que não se surpreende com nada, que não se impressiona ao ver um pôr do sol, e que não espera nada da vida que já não tenha visto. Se antes tinha sido um jovem sonhador e cheio de objetivos, hoje já nem lembrava. E quando pensava sobre o passado, dava um jeito de justificar seus pensamentos, ambições e atitudes como “bobagens de adolescente”; a vida adulta era bem diferente.
não acreditava mais em sonhos. Acreditava em oportunidades.
Mal sabia ele, porém, o que o estava aguardando muito em breve. Num futuro próximo a quantas reviravoltas seu destino estaria submetido.
Foi naquela noite que tudo começou.


II

When I sleep you’re everywhere




Havia árvores, essa foi a primeira coisa que notou. Fazia sol e podiam-se ouvir vozes de crianças brincando não muito longe. Sentiu-se desnorteado por um tempo, olhando ao redor tentando saber onde estava, mas somente localizou-se quando mirou o poste azul logo a sua frente.
Estava no parque ecológico que não ficava muito longe de sua casa.
Estranhou. O que estava fazendo ali? Faziam anos que ele não ia naquele local.
– Você fica engraçado quando está confuso – Uma vozinha lhe chamou atenção, fazendo–o virar imediatamente de costas, dando de cara com uma garota bastante bonita que o encarava com um sorriso divertido. Podia ser uma grande menina de dezesseis anos, ou uma pequena de vinte.
– Por que está sorrindo? – perguntou distraído, naquele momento saber onde estava e o porquê já não fazia mais tanta diferença.
– Não sei... – Ela respondeu despreocupada, dando de ombros, ainda o encarando com uma expressão engraçada, sem parar de sorrir.
sorriu também, embora não soubesse por que. Havia algo naquela garota que o fazia querer sorrir também, talvez fosse o brilho intenso dos seus olhos em contraste com o rubor que atingia seu rosto quando ela sorria.
Lentamente, ela se aproximou dele, ficando na ponta dos pés, para que seu rosto pudesse ficar à altura do dele. Seu sorriso mudou, de uma forma que ele não podia explicar, mas entendia que ali havia um sentimento, um significado.

Instintivamente, ele fechou os olhos, inspirando o aroma doce e floral que exalava do corpo dela, era um cheiro que já havia sentido antes, embora não conseguisse lembrar quando e onde; era inebriante e que paralisava seus sentidos, fazendo-o desejar estar ali para sempre.
Sentiu pequenas mãos tocarem seu rosto, acariciando os traços de seus lábios até os seus olhos, e de repente, sentiu pequenos lábios serem pressionados contra os seus, o surpreendendo. Na mesma rapidez que eles vieram, porém, também se afastaram deixando com a incerteza de que aquilo havia realmente acontecido.
– Por que fez isso? – Ele perguntou ao abrir os olhos, mirando-a com curiosidade, sem saber direito se estava se referindo ao semi beijo ou ao súbito afastamento dela.
– Por que eu quis – Ela respondeu de um jeito enigmático e despreocupado, fazendo–o semicerrar os olhos.
Não sabia quem era aquela garota, mas algo na presença dela lhe despertava uma sensação de conforto, algo na presença dela o relaxava, e o deixava com a sensação inebriante de paz.
– Preciso ir – Ela declarou afastando-se dele, andando de ré, ainda sem quebrar o contato visual.
se sentiu instantaneamente desesperado. Não queria que ela fosse embora, não queria que ela o abandonasse! Era patético pensar dessa forma, já que ele tinha uma noiva e obviamente não era aquela menina, mas naquele momento nada no mundo importava mais do que estar ali com sua pequena desconhecida que o fazia sentir tão bem.
– Me diga pelo menos o seu nome! – Ele pediu sem esperanças, ao vê-la tornar-se um borrão escuro.
– A voz dela ecoou bem próxima ao ouvido dele, como se estivesse do seu lado. balançou a cabeça atordoado, procurando-a, tateando cegamente em busca da garota que a essa altura havia sumido completamente.
– Volte... não... não me deixe! – murmurou algumas vezes antes de acordar completamente assustado revirando-se nos lençóis.
Sentou-se de imediato, segurando a cabeça com as mãos, porque ela parecia rodar, recobrando o fôlego.
Deslizou os dedos pelo cabelo, afastando-os do rosto. Olhou para o relógio digital na mesa de cabeceira e pode notar que eram quatro e quinze da manhã.
“Merda” xingou baixinho jogando-se na cama novamente tentando dormir, mas não havia sono, ele estava completamente desperto e ativo. Seu cérebro trabalhava a mil por hora tentando digerir as informações daquele sonho estranho, porém com sensações tão reais que até assustavam.
Quem era aquela menina? E por que tinha ficado tão encantado por ela a ponto de sentir vontade de voltar a inconsciência para descobrir mais coisas sobre ela? Era apenas um sonho, não deveria levar isso tão a sério.
Não deveria também gostar tanto de sonhar com o beijo de uma desconhecida. Estava comprometido e apesar de sonho não ser considerado como traição, sonhar com outra pessoa poderia significar muita coisa sobre seu próprio relacionamento…
E logo estava ficando paranoico. E apenas às quatro e vinte da manhã!
Já que não havia sono – ele constatou ao se levantar irritado – o jeito era acordar para vida e se arrumar para encarar mais um dia de trabalho.
Arrastou todos os afazeres enquanto podia, mas duas horas depois já estava pronto. Ainda lamentava por ter acordado tão cedo, mas uma vozinha insistente em sua cabeça lhe dizia que na verdade ele estava frustrado porque não conseguira saber quem era aquela garota do seu sonho. O que era um pensamento ridículo, afinal de contas era apenas um sonho.
Mas parecera tão real…
Uma espiada pela fresta da cortina entreaberta e pode ver que já tinha amanhecido, uma fina garoa caia e nas ruas formavam-se pequenas poças d’água. Estava frio, mas a garoa era leve e, portanto, logo mais iria estiar. Por um breve momento um pensamento ocorreu a : Por que não ir de metrô ao trabalho hoje já que acordei com tanta antecedência?
Seria bom contribuir para o meio ambiente pelo menos uma vez já que tinha acordado tão cedo. Sair sem carro, menos um automóvel emanando poluição para o ar… Talvez ter acordado bruscamente tenha também contribuindo para ativar um pouco da sua consciência ambiental há um tempo adormecida.
Era uma boa ideia, pensou ao pegar seu sobretudo e a pasta do trabalho, abrindo a porta de casa, recebendo as boas vindas do ar gélido de uma manhã londrina de inverno.
A brisa que batia do seu rosto era o suficiente para esvoaçar de leve os seus cabelos. Instantaneamente, ele apertou ainda mais o tecido do sobretudo contra o corpo. Não era uma caminhada muito longa até a estação de metrô, por isso não precisava se apressar, apenas andava ao seu modo, com a mão no bolso do sobretudo e observava a rua enquanto caminhava.
Fazia um bom tempo que não sentia uma brisa saudável bater-lhe contra o rosto, sempre tão ocupado do carro para o trabalho, do trabalho para o carro. Quase nunca saia de casa ao ar livre, nem mesmo com a desculpa de comprar algo no supermercado, até isso era Isobel quem fazia.
Avistou uma Starbucks mais a frente e subitamente sentiu um desejo intenso de tomar um cappuccino que há muito tempo não bebia. Já havia perdido as contas de quanto tempo fazia desde o último, suas doses diárias de cafeína eram proporcionadas pela cafeteira da Whistler’s Company.
E esse estava particularmente gostoso – ele notou, minutos depois quando voltara a andar com o copo do café na mão – sentia-se quente por dentro como se a bebida pudesse lhe aquecer todos os músculos.
Estava tão saboroso, cremoso, gostoso…
– AI, DROGA! – Repentinamente alguém tombou contra seu corpo na rua, derrubando seu precioso café no chão, manchando sua camisa com o líquido marrom e esquentando sua pele.
– Ai meu Deus! Por favor, me desculpe! Eu estava tão apressada que nem te vi...– Uma moça jovem falou, parecendo nervosa. Desculpou-se várias vezes embolando as palavras enquanto alternava entre gesticular atrapalhada pedidos de desculpas e tentar limpar a mancha da camisa de com um pedaço de pano do seu cachecol – Eu não te vi aqui, poxa me desculpa, eu…
Ela se perdeu nas milhares de desculpas sem saber realmente o que dizer, acabou por fim pegando o copo quase vazio de café que havia caído no chão, entregando–o de volta a , que nesse momento estava ocupado demais tentando reparar o dano ao seu conjunto Pierre Cardin.
– Se você quiser, eu lavo sua camisa, você me dá seu endereço que eu te devolvo lá..
– Tire suas mãos daí! – exclamou, empurrando com força a mão da moça quando ela fez menção de tocar o tecido da camisa dele novamente. Aquele gesto tinha feito com que o copo que ela havia apanhado caísse no chão novamente, sujando os pés dela.
Em momento algum tinha parado para olhar realmente o rosto da mulher, e por isso, não pôde notar a expressão chocada que ela tinha no rosto.
– Hey, você não precisa falar assim comigo, tá? Eu já disse que foi sem querer e eu até me ofereci para limpar sua camisa – Ela exclamou irritando-se, mas já não estava mais ouvindo, virara-se de costas e recomeçara a andar, ignorando completamente a garota que agora gritava com ele. Maldita hora que resolvera parar na Starbucks. Maldita hora que resolvera ir a pé!!! Por essas coisas que as pessoas usavam carros.
Como se aquilo não fosse o bastante, ainda tinha que aguentar a menina arrependida lhe infernizar, porque ela agora o seguia dizendo “Se quiser agora, te pago um café!”
– Olha aqui, você já manchou minha camisa, já derrubou meu café e agora está me enchendo o saco! Se queria me irritar, bom, então você conseguiu – exclamou impaciente e pedante, virando–se de frente para a moça.
Ele era geralmente uma pessoa calma, quase nunca se impacientava, mas desde que acordara daquele maldito sonho estava se sentindo estranho e mais explosivo do que o normal. Estava irritadiço e se sentindo um tanto quanto inconstante. Normalmente, era um poço de delicadeza e gentileza com as pessoas. Não se deixaria irritar tão facilmente por um simples café derrubado, mas naquele dia, em especial, tudo era capaz de lhe irritar.
Bom, pelo menos até o momento em que seu olhar foi forçado a se cruzar com o da garota desconhecida e arrependida a sua frente.
Quando seus olhos se encontraram com os dela, era como se toda sua irritação tivesse ido por água abaixo. Era como se ele tivesse se esquecido de tudo, e não conseguisse mais prestar atenção em nada, nem mesmo ao que ela dizia, provavelmente respondendo a grosseria dele.
Conseguia visualizar a boca dela abrindo e fechando, provavelmente proferindo muitas palavras que ele não saberia dizer quais. Não escutava nenhum som.
Não sabia bem de onde a conhecia, mas seu rosto era indiscutivelmente familiar. Não que fosse provável que ele a conhecesse de algum lugar, afinal de contas só de olhar para eles dois era notável uma discrepância de jeito de ser: em hipótese alguma frequentavam os mesmos lugares. Ela não se assemelhava com as pessoas que encontrava no seu dia-a-dia.
Ela parecia ter no máximo 22 anos. Com seus cabelos , possuía olhos brilhantes e uma pele bastante bonita. Pelo jeito como ela se vestia, ele podia apostar que era uma daquelas estudantes que tem aspiração em mudar o mundo. Usava uma corrente em símbolo da paz no pescoço, uma touca de crochê vermelha, uma mochila enorme da mesma cor, e casaco e roupas de cores completamente diferentes, lhe dando uma aparência totalmente estranha. Suas roupas – constatou rapidamente em seu preconceito – lhe lembravam hippies ou estudantes de humanas da universidade, que passam muito tempo fumando maconha com os amigos cheios de ideia mirabolantes anti capitalismo – Se não tivesse certeza que já tinha visto antes, iria dizer que nunca vira algo tão exótico.
– Você não ouviu uma palavra do que eu disse, não foi? – Ele foi acordado de volta a realidade pela garota que o observava atentamente com uma expressão curiosa e confusa no rosto.
– O que você disse? – perguntou desnorteado, vendo-a erguer as sobrancelhas surpresa.
– Eu disse que você é estúpido e grosseiro. – Ela respondeu receosa e desconfiada.
– Ah tá, certo... – falou automaticamente, sem prestar atenção e muito menos dar índices de se importar com a ofensa proferida por ela, ainda tentava descobrir de onde conhecia aquela pequena estranha. – Desculpe... mas nós já fomos apresentados antes?
A menina arregalou os olhos, boquiabrindo-se de repente, provavelmente achando que era louco.
– Você tem problemas mentais – Ela falou balançando a cabeça, virando-se de costas, começando a andar em sentindo contrário a ele.
– Ei, espera... eu não sou louco – foi atrás dela, mas quando seus dedos encostaram no seu braço, a garota se virou parecendo furiosa.
– Não me encosta, seu maníaco!
– E-eu não sou maníaco! – gaguejou parecendo acordar do seu transe – Por que você está agindo assim?
– Porque você está agindo assim! – Ela retrucou de volta usando as palavras dele, frisando bem o “você”.
– Assim como? – perguntou atordoado, sentindo-se bobo. Não sabia por que mas essa garota o desarmava, ela o desafiava e não parecia se intimidar com a aparência séria que ele tinha.
– Todo... Louco! Primeiro você quase me mata gritando comigo porque eu derrubei seu café e sujei sua camisa, depois fica me olhando com essa cara de drogado e fica me perguntando se eu já te conheci! – Ela tagarelou falando alto. olhou para os lados, com medo que as pessoas estivessem os encarando, mas ninguém parecia se importar com o impasse entre eles.
– Mas é porque eu acho que já te vi antes!
– Não, não viu e nem vai ver nunca mais! Adeus! – Ela exclamou irritada, virando–se de costas para e começou a andar em passos largos, afastando-se enquanto se espalhava por entre as pessoas que andavam, sumindo de vista.
ficou parado por algum tempo ainda, encarando a boina vermelha que a garota usava sumir no aglomerado de pessoas. Estava distraído e alheio a movimentação ao seu redor, ainda não sabia por que mais algo naquela garota o deixava intrigado, talvez fosse porque ela não o tratava como as outras pessoas costumavam o tratar: com submissão, como se ele fosse uma pessoa extremamente importante. Ela o tratara como uma pessoa normal, alguém que se esbarra na rua e depois a trata de forma hostil. Ela não se intimidava com , e não era como se ele pedisse ou fizesse questão desse tratamento, era só como estava acostumado as pessoas lhe tratando. Fora o fato de que ele tinha absoluta certeza de que já a conhecia de algum lugar, só não saberia dizer de onde.
apenas voltou a realidade quando uma senhora se esbarrou nele, pedindo licença. Só nesse momento então ele foi se dar conta de que estava parado no meio da calçada dificultando a passagem das pessoas que tentavam se locomover.
Tentavam ir as escolas, ao trabalho…
Na linha desse pensamento, se lembrou de onde deveria estar e ao mirar seu relógio constatou com certo desespero que estava atrasado.
– Droga... Táxi!

***


O dia estava sendo particularmente longo na opinião de , as horas pareciam se esticar e suas tarefas pareciam durar segundos, porque ele logo estava sem nada pra fazer novamente, balançando–se na cadeira do seu escritório. Adorava seu trabalho e o ambiente do seu escritório, mas hoje tudo o que ele mais queria era não estar ali. Estava hiperativo e falante, o que não era comum, Elle e Norah que já gostavam de passar por sua sala, hoje evitavam o máximo que podiam, devido a impaciência em que se encontrava.
De fato, não sabia por que estava tão inquieto, mas tudo o que ele conseguia fazer era perambular pelo seu escritório com o pensamento distante e ele nem sabia direito no que. Alguns flashes passavam por sua cabeça, mas nada era concreto, apenas imagens distintas, desconexas seguidas por vozes estranhas sussurrando coisas que ele não reconhecia.
sacudiu a cabeça como se quisesse espantar aqueles pensamentos que lhe afligiam, queria muito saber o que eram aqueles flashes na sua cabeça, não podiam ser memórias porque ele tinha certeza que não se lembrava dessas coisas. E para completar toda a estranheza da situação, vez ou outra, aquele sonho voltava a atormentar sua mente…
Bufou irritado ignorando uma voz na sua cabeça, achava tudo aquilo muito ridículo, só podia estar louco. O dia estava estranho por completo e tudo o que ele desejava era que acabasse.
Olhou no relógio, feliz em notar que já eram 17h, pelo menos tinha uma boa desculpa para sair do escritório mais cedo, afinal de contas viera sem carro. Não sabia por que, mas estava agoniado e ansioso, não queria nada além de ir correndo para casa.
pegou sua pasta em cima da mesa, deixando para trás sua sala, pronto para encerrar mais um dia de trabalho, com pensamentos desconexos rondando em sua mente.

Não sabia explicar o porquê, mas as iniciais pareciam surgir em todo o local que ele olhava…


III

Just tell me why you’re here and who you are



A grossa camada de neve que cobria os carros e telhados fora derretida com a repentina elevação da temperatura durante a madrugada. A mudança de ares não agradou particularmente as crianças, que assistiram seus bonecos e anjinhos de neve serem derretidos e levados para longe. Mas, para , aquilo pouco importava.
Não que não gostasse de neve, ele a adorava, mas dirigir com uma pista escorregadia não era aquilo que ele poderia chamar de ponto alto do dia. Embora subisse alguns graus no termômetro, a temperatura ainda estava gélida. O que não impediu que as pessoas saíssem de casa para aproveitar um dia do inverno londrino. Uma dessas pessoas era , embora o motivo que o impedira de ficar em casa fora Charliet.
Era domingo e, portanto, um dos pouquíssimos dias – se não o único – em que não precisava pisar na Whistler’s Company para fazer o que quer que fosse. O que não passou despercebido por Charliet, que logo tratou de programar uma saída para o casal, silenciando todos os protestos de e toda a programação habitual que envolvia cinema – jantar – motel – casa. Hoje ela queria fazer algo diferente: Procurar mobília para a nova casa deles. não poderia estar mais insatisfeito.
Então, lá estavam eles passeando pela cidade entrando de loja em loja e visitando todo tipo de coisa. Desde mobílias até decoração. As vezes se distraiam vagando o olhar por coisas bobas. tinha que admitir: Era fácil de se entreter observando tantas coisas que nem sabia que existia, mas que de repente parecia precisar bastante. Eram tantas opções! Apesar disso, Charliet não podia dizer que era uma boa companhia, porque tudo ele respondia com “hum” e “legal”, suspeitava até que a rabugice fosse de propósito, visto que tinha flagrado o noivo muito empolgado com uma poltrona reclinável de 10 mil euros.
- Então, o que achou desse quadro aqui? – Charliet perguntou exibindo uma tela particularmente feia e pitoresca na opinião de . Ele não entendia muito bem de arte, a única coisa que podia dizer é que parecia que o pintor havia ficado muito bêbado, jogado algumas cores em cima da tela e pronto. Franziu o cenho fingindo analisar a obra de arte – assistiu em algum filme e achou que poderia colar – pensando numa maneira culta de dizer que tinha achado aquilo uma bosta.
- Não sei... Me parece muito... profundo... intenso, sabe? Tem certeza de que quer algo dessa profundidade na nossa casa?
- Não... Você tem razão. Só queria saber sua opinião mesmo. Na verdade achei feio, parece que ele ficou bêbado e derrubou tinta acidentalmente na tela – Charliet disse despreocupada, colocando a tela de volta no local, andando serenamente por outros corredores. ficou parado admirando a noiva e naquele momento lembrou-se porque havia se apaixonado por ela em primeiro lugar. Deixou escapar um sorriso sincero e relaxou mais um pouco, resolvendo abandonar a pose de desinteresse. Já que estava ali, podia ajudar, não é?
- O que acha dessa aqui? Eu achei tocante – Charliet perguntou apontando para uma outra tela. Essa era com toda certeza mais bonita e verdadeiramente profunda de sentimentos. sorriu e aproximou-se da pintura para analisar seu preço, logo deixando seu sorriso murchar e afastando-se com uma careta. Mais tocante que a obra era o preço: to-can-te.
- Achei feia. – Disse por fim, dando de ombros ao observar Charliet revirar os olhos com um risinho.
- Vou aqui fora fumar um cigarro e já volto, tá? – avisou recebendo um olhar de reprovação da noiva – que ele fez questão de ignorar. Sabia que ela não gostava do seu hábito, ele mesmo pretendia parar com isso, mas precisava que fosse aos poucos.
- Pelo menos masque um chiclete quando for voltar – Charliet disse quando se afastou sem dizer mais nada. Suspirando fundo, ela voltou a observar as pinturas. Não sabia mais o que fazer para manter o noivo interessado.
rumou entre as seções de decoração em direção a saída do estabelecimento. Sentiu-se muito mais aliviado quando abriu a porta da rua e sentiu a brisa fria soprar-lhe o rosto. Suspirou fundo e fechou os olhos com força, inspirando profundamente o ar fresco que estava prestes a ser poluído pela fumaça do seu cigarro.
Sabia que estava agindo de uma maneira insuportável – tinha essa consciência. Queria ser uma pessoa melhor, mais entretida, mas não conseguia ficar na presença de Charliet sem se sentir entediado. E ela estava se esforçando, ele percebia isso. Só não conseguia mais entender porque as coisas não fluíam mais e o porquê de não estar nem um pouco empolgado com a ideia de se casar em um ano.
Deu uma última tragada no seu cigarro e esmagou a butuca com a sola do sapato. Retirou um dos chicletes do bolso e girou nos calcanhares para voltar ao estabelecimento, mas, ao fazer isso, surpreendeu-se ao sentir algo sólido bater contra o seu corpo e um baque surdo de algo caindo no chão, contra os seus pés que latejaram de leve.
- Desculpe-me! – Pediu apressado quando notou uma massa de cabelos esvoaçarem por seu rosto. Imediatamente, abaixou-se para apanhar os livros que haviam caído, embora a garota tivesse sido mais rápida: suas mãos ágeis apanharam dois dos três livros que haviam caído. O terceiro – de longe o mais velho e surrado – se encontrava nas mãos frouxas de , que, atordoado, ainda pedia desculpas.
- Desculpe! Não vi você se aproximar e ... – Ao assimilar o pedido de perdão de , a garota ergueu imediatamente a cabeça, fixando o olhar em , numa expressão muito surpresa, quase chocada. E fora isso que fizera com que não terminasse sua frase. O espanto, o choque, a surpresa haviam o desconcentrado. Não era mesmo possível que fosse ela ali na sua frente. Quando a garota finalmente assimilou a tamanha coincidência que havia acontecido, sua expressão passou de surpresa para desgosto e desprezo, como se nada naquele universo a tivesse desagradado mais do que esbarrar em . Imediatamente ela se levantou com a expressão lívida, enquanto nada pode fazer além de rir amargamente da enorme obra do karma.
- Você – Ela resmungou entredentes e os olhos semicerrados enquanto se levantava calmamente.
- Eu – Ele respondeu relaxado. Seu tom de voz era sereno, embora ele estivesse surpreso com tamanha coincidência.
- Você não tem mais o que fazer não? Ficar se batendo em mim agora virou praxe foi? – Ela soou azeda desafiando com o olhar, jogando a massa de cabelos para trás.
Nem sabia o porquê, mas aquele momento fez com que prestasse mais atenção na aparência da menina. Ela era indiscutivelmente muito bonita. Tinha grandes olhos que combinavam perfeitamente com as maçãs rosadas do seu rosto, preenchidas por sardas. A boca era pequena e os lábios finos estavam crispados, sua fúria contrastando muito bem com os cabelos grandes e ondulados naquele momento mais vívidos do que nunca banhados pela fraca luz do sol.
- Para falar a verdade, você quem se esbarrou em mim da primeira vez. Derrubou meu café, sujou minha roupa e me atrasou para o trabalho – ressaltou, parando de observar a aparência da garota para voltar a prestar atenção na conversa – Então, acho que hoje estamos quites. Podemos começar do zero.
Riu um pouco ao notar a bobagem que havia acabado de falar.
A garota olhou desnorteada para , sua pose astuta havia falhado um pouco e ela o admirava como se fosse um louco. “Quem começa do zero com um desconhecido na rua?” imaginava que fosse isso que estivesse passando pela cabeça dela naquele momento.
- Tanto faz – A menina revirou os olhos impaciente. – Da próxima vez olha por onde anda. – Concluiu ríspida, a cada momento se desagradando mais da presença de , que naquele momento se sentiu um tanto quanto culpado por ter sido tão grosseiro com ela no primeiro contato deles.
- Vê se olha por onde anda também – Ele respondeu, embora seu tom de voz fosse completamente diferente do dela. Ele estava despreocupado e educado.
- Adeus – Ela respondeu, virando-se de costas deixando com uma sensação esquisita de dejavú.
ficou parado por mais alguns instantes observando a garota se afastar passando sem dificuldade pelas pessoas ao redor. Não sabia a razão pela qual estava ali parado contemplado seus cabelos se distanciarem ao longe, no entanto, ali continuou até que ela sumisse completamente de vista. Só então, livre do estado catatônico de surpresa e incredulidade, que ele notou um peso na sua mão que não estava ali há alguns minutos atrás.
Com uma expressão surpresa ele contemplou o livro velho e surrado que apanhara do chão quando se esbarrara na menina. Aparentemente ela estava com tanta pressa e ele tão chocado que não deram conta daquele livro. ergueu o olhar novamente, tentando inutilmente localizar a menina que já estava fora do seu campo de visão. Considerou por um momento a hipótese de ir atrás dela, mas sabia que não iria achar.
Mirou o livro por um tempo. Era verde musgo e sua capa era camuçada com alguns rasgões e letras douradas em alto-relevo. Era um tanto quanto precário e desgastado e em seu título podia-se ler: Livro dos sonhos. passou a ponta dos dedos pela capa dura e consumida pelo tempo. Lentamente, abriu a capa vendo rabiscos e mais rabiscos só na primeira página. Percorreu os olhos pela contracapa e finalmente achou, numa caligrafia redonda e caprichada uma identificação.
Este livro pertence a .
” Esse era o nome da pequena desconhecida. Com um sorriso enviesado, contemplou o livro por alguns instantes, sentindo-se estranhamente quente por dentro e com uma sensação enorme de dejavú.
- Pelo tempo que você está aqui fora, seu pulmão já está mais cansado do que o do Wiz Khalifa, já posso te internar? – ouviu a voz de Charliet soar próxima e virou-se surpreso para a entrada da loja, rindo um pouco da comparação que ela tinha acabado de fazer. Colocou o livro no bolso interior do sobretudo e se aproximou da noiva, depositando um beijo na sua testa.
- Você não cansa de me deixar sozinha, né? – Charliet perguntou com uma voz ressentida que fez o estômago de revirar desconfortável.
- Desculpe, acabei me distraindo aqui fora – Respondeu sinceramente, ainda sem conseguir tirar aqueles grandes olhos e aquela cascata de cabelos da sua cabeça. O peso do livro no bolso em seu sobretudo pareceu triplicar.
- Acho que escolher obras de arte não foi bem uma programação legal, né? – Charliet falou com uma voz estranha e uma pequena careta se formou sem suas feições, fazendo sorrir, achando a atitude fofa.
- Sempre tem o cinema e o teatro – Ele respondeu aproximando-se dela segurando nos seus ombros, fazendo-a encara-lo com a expressão triste.
- Eu queria fazer algo diferente – Respondeu visivelmente magoada. Foi a vez de suspirar. Sabia que Charliet tentava salvar o noivado de todas as formas possíveis e que aquele estava sendo um esforço apenas dela. Teria que dar mais valor à Charliet.
- Vem, sei de um lugar bacana para irmos – falou, abraçando-a de lado, andando em direção ao carro.

***
dirigia calmamente pelas ruas de Londres, sua atenção no percurso estava redobrada por conta do seu novo companheiro no banco do carona. Aconchegado numa caixinha pequena encontrava-se um cachorrinho pug serelepe que agora dormia serenamente por cima das pequenas patinhas indefesas.
Alternando um olhar entre ele e a pista, sorriu ao pensar na tarde agradável que havia tido com Charliet. Não podia dizer que isso era um praxe já que esses momentos se tornaram cada vez mais raros. Havia sido uma ótima ideia visitar a feira da cidade, dessa forma, fora arrastado por Charliet para observar os pequenos bichinhos que estavam sendo colocados para adoção. Caso perdido.
Bastou apenas um olhar entre o pug e para o rapaz saber que aquele cachorro iria lhe pertencer. Foi um olhar tão forte de entrega e cumplicidade que o cachorrinho havia ficado super eufórico, brincalhão e cheio de lambidas. O que arrancou boas risadas de e suspiros felizes de Charliet. Haviam conversado sobre quem teria a guarda do bichinho até se casarem e a mulher chegou a conclusão de que precisava ficar com ele. Além de ser uma companhia para a vida solitária, ela tinha esperança que aquele animal pudesse amolecer um pouco o coração de , que parecia tão gélido e impenetrável nos últimos tempos.
Ao chegar em casa, organizou as compras que haviam feito num petshop para o seu novo companheiro. Tinha que confessar que não fazia a menor ideia de como cuidar de um cachorro, mas as compras tinham sido muito mais prazerosas do que obras de artes e mobília para a casa nova.
- Pronto, você vai dormir aqui, Kenobi – O rapaz falou já sentindo-se um pouco pateta por conversar com o cachorro, ainda mais quando este estava tão sonolento que apenas se aninhou quieto na nova caminha que fora colocada por aos pés da cama do quarto dele.
suspirou cansado, porém muito satisfeito com o fim do dia. Tinha certeza que cuidar de um cachorro seria um novo desafio, mas estava estranhamente empolgado com a tarefa. Retirou os sapatos chutando-os pra longe e afastou o sobretudo dos ombros pensando em tomar um banho relaxante e dormir. Quando o sobretudo escorregou por seus braços, ouviu o barulho de algo contra o chão, virando-se para checar se Kenobi havia acordado, encontrando o livro velho que havia esquecido na mão dele.
Aproximou-se do objeto, apanhando-o do chão para dar mais uma analisada. Sentou-se na beirada da cama e resolveu folhear algumas páginas apenas por ter sido tomado por uma curiosidade intensa que normalmente não estaria ali. Acreditava que pelo título, aquele era um livro muito pessoal. “Livro dos sonhos” quem tem algo desse tipo? Quais seriam os sonhos de ? E por que, por que estava curioso a respeito disso?
Folheou entre páginas e páginas de desenhos, colagens de revistas, flores ressecadas e algumas frases em outro idioma que não saberia reconhecer. Quanto mais folheava aquelas páginas, mais conectado se sentia com aquela menina. Eram tantas frases parecidas com as que ele costumava escrever, músicas que ele costumava ouvir... Era como se estivesse vendo um eu do passado.
“Sonho número 1: Estar engajada em quantos movimentos sociais for possível”
leu aquela frase e sorriu quente por dentro. Instantaneamente foi bombardeado por algumas lembranças que há muito tempo não invadiam sua mente.

FLASHBACK 10 ANOS ATRÁS

corria pelo pátio da universidade com tanta pressa que se esbarrava em diversas pessoas ao longo do seu percurso. Gritava “desculpe” “foi mal” por cima dos ombros, mas não parava para ver quem tinha derrubado ou quais objetos deixara cair no chão. Estava atrasado para aula de economia de novo. Prof Peterson com toda certeza iria reprova-lo naquela matéria e não teria nenhuma desculpa para colar dessa vez.
Com os cabelos bagunçados, as bochechas enrubescidas e completamente ofegante, ele adentrou na sala de aula fazendo um barulho absurdo com a porta ao escancara-la. Trinta rostos viraram para encara-lo com expressões julgadoras e debochadas. não se importou. A garganta estava tão seca e o coração tão acelerado que ele só precisava se sentar e fazer aquela prova.
- Sr. , o que o senhor pensa que está fazendo? – A voz do Prof. Peterson ecoou pela sala no mesmo instante em que se jogava numa cadeira no canto mais escuro do recinto.
- Vim fazer a prova, professor – respondeu calmamente, embora já estivesse de olhos fechados esperando a bronca que estava por vir a seguir. Respirou fundo algumas vezes tentando recobrar o fôlego e abriu os olhos a tempo de ver Adley lhe lançar um olhar pesaroso. O amigo havia percebido que ele estava em apuros mais uma vez.
- Por favor, Sr. , queira me acompanhar até aqui fora, sim? – Prof. Peterson falou enquanto se dirigia para a porta da sala, abrindo-a e dando passagem para , que levantou de sua cadeira a contragosto e seguiu o caminho indicado pelo professor.
- Professor, me desculpe, eu sei que eu estou errado e me atrasei, mas eu estava na reunião da... – começou a falar, mas foi interrompido pelo dedo indicador do Prof. Peterson na sua boca.
- , eu sei muito bem que você estava na reunião do núcleo estudantil. Aprecio seu engajamento com os movimentos da universidade, mas estou incerto se o senhor sabe qual é seu verdadeiro foco aqui. Ou se o senhor está invertendo suas prioridades. – Sr. Peterson falou analisando com atenção.
- Mas professor! Eu sou presidente da comissão, precisava organizar os protestos da semana q...- Interrompido novamente.
- Sr. , eu serei bem claro com o senhor. Essa sua juventude eufórica, militante e ativista me emociona, verdade – Sr. Peterson começou a falar, sua voz transbordava um tédio profundo – Mas você está para reprovar em economia, uma matéria importantíssima para seu desenvolvimento na universidade. O senhor está em Oxford, sabe quantos jovens gostariam de estar no seu lugar e com suas oportunidades? O senhor não quer se tornar um executivo? Então faça por onde!
suspirou fundo contendo a vontade absurda de dizer um “não”. Não sabia mais se queria ser um executivo, não sabia o que estava fazendo naquela universidade, cursando aquelas matérias, tendo que lidar com aquelas pessoas quando o mundo parecia precisar muito mais dele enquanto ativista. Não conseguia se visualizar num terno, trabalhando horas e horas para uma empresa com zero de responsabilidade social. Porém, não verbalizou seus pensamentos. Precisava fazer aquela prova ou teria sérios problemas com seus pais. Eles esperavam tanto do seu futuro.
- Sei que você quer se envolver em quantos movimentos sociais conseguir dar conta, mas preciso que esteja focado nas minhas aulas e não se atrase. Vou te dar a chance de fazer essa prova hoje, mas da próxima vez, é isso, estará reprovado. Estamos entendidos? – Sr Peterson concluiu seu sermão e assentiu com a cabeça a contragosto. Tinha que admitir – e agradecer – que fosse benquisto pelo professor. Se fosse outro aluno ele certamente estaria reprovado nesse momento.
Cansado da correria e frustrado pelo sermão, voltou para a sala de aula e sentou em sua cadeira, apanhando o papel da sua prova. As questões eram fáceis – ele nem tinha estudado, mas saberia responder sem problemas. Um sorriso enviesado escapou por seus lábios enquanto começava a responder a prova, seu pensamento estava na reunião que tivera com o centro acadêmico naquela tarde. O protesto teria o apoio de estudantes de todos os núcleos... Ele estava no caminho certo.

FIM DO FLASHBACK

riu baixinho com a lembrança. Recordar do seu eu dez anos mais jovem era cada vez menos recorrente. O que o despojado e ativista diria se o visse hoje? “Eu provavelmente não teria paciência para conversar comigo mesmo naquela época, eu era irritante” pensou com prepotência, folheando algumas páginas do livro de , encontrando uma foto dela colada em uma das páginas. Parecia ter sido retirada em algum protesto. A menina segurava um autofalante e estava com um semblante forte no meio de um grito de guerra. Alisou um pouco a foto pensando que a de hoje e de dez anos atrás poderiam ter sido grandes amigos. Ela lhe lembrava uma versão mais jovem, mais engajada, mais sonhadora.
Mais feliz.



IV

What the hell am I doing here? I don’t belong here…


Duas semanas se passaram tão rapidamente que até se surpreendeu ao olhar o calendário e perceber que o grande dia finalmente havia chegado. Há dois anos vinham negociando com importantes empresários chineses as ações de uma companhia de tecnologia de ponta. Depois de contratos, telefonemas e barganhas, os chineses finalmente decidiram conceder uma reunião apropriada, desbravando-se no Reino Unido para tratarem dos negócios pessoalmente. Todos na Whistler’s Company estavam vibrando. Era um grande dia.
E não podia estar mais desanimado.
Não conseguia entender o porquê de estar tão abatido e indiferente àquela negociação. Tinha plena consciência de que tinha sido o maior responsável por esta façanha – investira tempo, dinheiro, lábia e todo o seu mandarim. Há meses essa negociação era a única pauta na W.C, estava animado, achou que estaria empolgado... Até não estar mais.
Porém, com todo seu desânimo nada característico – não pelo menos quando o assunto era trabalho – ainda assim, lá estava ele. Engravatado e alinhado às 8h em ponto no seu escritório na W.C. Como era de se esperar, no aclamado dia do encontro, a empresa estava um caos, as pessoas não conseguiam se concentrar, os cochichos pressurosos ecoavam pelos corredores, ansiosos de expectativas.
Era muito óbvia a explicação para todo esse fervor – se conseguissem essas ações lucrariam tanto que todos os funcionários receberiam gordas bonificações no final do ano. O Natal seria mais feliz em todas as famílias de empregados da Whistler’s Company. Tudo estava sendo milimetricamente programado. Ainda assim, no entanto, algumas pessoas pareciam alheias a esse fato, a exemplo de Norah e Elle, que não davam sossego em suas irritações nem mesmo num dia como este.
A única pessoa que parecia não estar se importando tanto com essa negociação, era justamente aquela que deveria estar mais empolgada – . Perdera as contas de quantas mãos apertou lhe desejando boa sorte naquela manhã. Não sentia como se precisasse de sorte, estava tudo sob controle. De fato, estava tão calmo, tão impassível que até se assustava. “Eu deveria estar ansioso” – mas não estava. Na verdade, se tinha uma coisa que estava sentindo naquela manhã, esta coisa era tédio. O mais profundo tédio.
Seu tédio e desinteresse – no entanto – foram interpretados erroneamente por Edmund como autoconfiança. Isso foi o suficiente para deixar o CEO orgulhoso, ou pelo menos, foi o que pareceu quando ele entrou no escritório em algum momento naquela manhã.
- , meu querido, os chineses chegaram – Edmund disse exaltado chamando atenção do seu genro que estava distraído folheando as páginas de um livro velho e surrado.
Folhear o livro de sonhos de havia se tornado um hábito no decorrer daquelas duas semanas.
Inexplicavelmente.
- Ah, que ótimo – disse num sorriso sem emoção, fechando o livro e voltando sua atenção para Sr. Whistler.
- Ânimo meu jovem! Hoje vamos ficar ainda mais ricos! E com sorte, no fim deste dia, você será o dono dessa empresa! – Edmund disse dando tapas fortes encorajadores nas costas de , que murchou seu sorriso sem emoção.
Havia outro grande motivo para aquele dia ser um grande dia. Com o fechamento daquele contrato, se tornaria também o novo CEO da Whistler’s Company.
Aquele era o sonho dos seus pais, aquela era sua vida, era o seu grande objetivo, não era? Não era? Por que então estava daquela forma? Por que, então, tudo o que ele mais queria era sair correndo e desaparecer no mundo? Por que, POR QUE estar na Whistler’s Company, sua empresa, seu lar, estava parecendo tão chato e monótono logo num dia tão importante quanto aquele? levou meses para descobrir a resposta desta pergunta.
- Vamos, lá, Ed. Menos, bem menos – falou, colocando sua mão por cima do ombro do mais velho, o abraçando de lado sem toca-lo realmente, enquanto o guiava para fora do seu escritório, rumando para grande sala de reuniões da W.C.

Depois de muito bate papo, novas negociações e valores, finalmente chegou o resultado que todos esperavam: A Whistler’s Company era, finalmente, a dona das ações da Cheng’s. Na sala de reuniões tudo ocorreu da forma mais profissional possível, apenas alguns apertos de mãos e sorrisos controlados. Mas, bastou apenas os chineses saírem para que os funcionários da W.C se reunissem para saber o que havia acontecido na reunião e, quando a notícia fora dada, os gritos podiam ser ouvidos em todo o edifício.
perdeu as contas de quantos abraços ele participou, de quantas mãos apertou. Todos queriam falar com ele, queriam um pedaço dele. Afinal, ele fora o grande protagonista de toda essa conquista para empresa. era, de fato, um rapaz de ouro. O jovem prodígio da Whistler’s Company.
Elle fez questão de o abraçar três vezes. Norah apenas lhe sorriu de longe. Havia champanhe sendo aberto para todo lado, muita gritaria, muita gente sendo promovida, muitas ligações para familiares e precisava fingir que estava com cisco nos olhos toda vez que precisava os fechar com força para evitar de revira-los de tédio. O que diabos estava acontecendo com ele? A W.C era sua vida, por que estava tão sem emoção por lá?
- Eu construí essa empresa há 30 anos. – Seu devaneio foi interrompido pela voz grave de Edmund Whistler – Nela, depositei meu sangue, suor, lágrimas e dinheiro. Construí um império que durará gerações. Construí um lugar responsável por gerar tantas oportunidades de emprego para pessoas incríveis como vocês – Ele disse, erguendo sua taça numa saudação simbólica aos seus funcionários, que lhe encaravam com admiração e respeito – Nada poderia me satisfazer mais do que ter trilhado esse caminho ao lado de pessoas de bem, que me acompanharam nas alegrias e nos fracassos – Uma pequena pausa no discurso para vivas, aplausos e assovios.
“Muitos de vocês, eu mesmo quem contratei. Existem pessoas aqui que estão comigo desde o dia número um. Outras, que estão há pouco menos de uma semana. Mas acredito que todos, todos vocês contribuíram para que a Whistler’s Company fosse o que é hoje. Sou muito grato pela equipe que criei. Vocês são demais.”
Mais uma pausa para aplausos e vivas, ainda mais altos. A essa altura do campeonato algumas pessoas já tinham os olhos marejados.
- Mas existe um momento em que um rei precisa passar sua coroa – Edmund disse num tom brincalhão que fez com que todos os presentes na sala rissem em uníssono. Sentiriam falta do jeito brincalhão do fundador da empresa. , no entanto, não riu. Remexeu-se desconfortável no seu lugar, sentindo-se absurdamente incomodado por todos aqueles olhares que agora o perfuravam intensamente.
- Há seis anos atrás eu conheci um jovem alegre, ousado e com os ideais mais inusitados que eu já vi. No início, confesso, pensei que não daria certo. Muito rebelde, muito revolucionário, cheio de ideias mirabolantes. – Edmund disse saudoso, relembrando o tempo em que conheceu , recém formado, novo, cheio de perspectivas diferentes para o futuro. Ao relembrar dessa época, , no entanto, sentiu um bolo se formar na sua garganta. O que estava acontecendo?
“Mas ele conquistou minha confiança, mostrou-se muito eficaz e visionário desde então. Conquistou nossa amizade e, claro, o amor da minha filha” – Algumas pessoas ao redor soltaram alguns risinhos e “own”, tinham Charliet e como modelo de casal perfeito de tão “fofos” que pareciam juntos. Elle Simons, ao ouvir essa declaração, revirou os olhos e soltou um bufo audível, que foi prontamente ignorado por todos.
- Esse jovem, que conquistou meu respeito e admiração, hoje é como um filho para mim. Por favor, peço uma salva de palmas para o meu sócio, genro, amigo e mais novo diretor interino da Whistler’s Company, !
ouviu o ‘clap clap’ e apenas sorriu amarelo para algumas pessoas que insistiam em gritar “discurso”. Mas, por sorte, Norah Spellman veio em seu socorro quando gritou:
- O discurso do Sr. será na cerimônia!
sorriu sinceramente para sua secretária e ela retribuiu de maneira cúmplice. sabia dos sentimentos dela por ele – não eram segredo – e sabia que eram verdadeiros. Talvez fosse por isso que gostasse tanto dela, era a coisa mais parecida de uma amiga que tinha atualmente. Estranho, sempre fora tão rodeado de amigos antes do seu trabalho.
A comemoração durou. Eram 15h e a empresa estava fechada para demais serviços em prol da negociação. A ausência de trabalho e festa na firma alegrava os funcionários que estavam tagarelando, comendo, bebendo e aproveitando o raro momento de folga. , no entanto, não estava mais aguentando isso. Preferia bem mais estar em casa, jogado no seu sofá, assistindo algum filme na netflix. Tocou no braço de Norah, guiando-a até um canto longe do barulho e da falação.
- Nor, eu vou sair, ok? Qualquer coisa diz que eu não estava me sentindo muito bem. Diz ao Ed que eu vou passar na casa dele mais tarde sim – confessou baixinho para sua secretária, que sorriu compreensiva, concordando com a cabeça.
Esse era um dos muitos motivos pelos quais gostava sinceramente de Norah. Ela não o questionava, ela apenas compreendia.
Esquivou-se de algumas pessoas, finalmente encontrando a saída para seu escritório. Pegou sua carteira, as chaves do carro e girou nos calcanhares, pronto para ir embora, quando lembrou-se do livro de que ainda estava em cima da mesa. Por curiosidade, voltou a folhear o livro, rapidamente encontrando a página que estivera lendo mais cedo. Nas últimas semanas tinha visto fotos, letras de músicas, pensamentos desconexos, mas, hoje, havia um sonho.
2. Nunca me vender para o dinheiro – Sempre me doar
Alguma coisa em pareceu despencar. Sentiu-se instantaneamente nauseado, como se um golpe tivesse sido desferido contra o seu abdômen. Uma porrada doeria menos do que aquela frase, justo naquele momento – ele tinha certeza. Inevitavelmente, algumas lembranças incômodas adentraram sua mente sem o menor convite.

FLASHBACK – SETE ANOS ATRÁS


- EU NÃO QUERO IR! EU NÃO VOU ME INSCREVER NESSE PROCESSO SELETIVO IDIOTA! – bradou pela enésima vez naquele dia. Sua voz estava falha e sua visão embaçada por conta das lágrimas de fúria que insistiam em inundar seu rosto. Estava inconformado!
- VOCÊ NÃO TEM QUERER! NÓS PAGAMOS O SEU ESTUDO, É O MÍNIMO QUE VOCÊ PODE FAZER! PENSA QUE EU VOU TE BANCAR PRA SER UM MACONHEIROZINHO DE MERDA METIDO A REVOLUCIONÁRIO? VAI TRABALHAR SIM – Sr. berrou igualmente transtornado. Suas veias estavam saltadas e sua saliva preenchia o ar conforme falava. O cheiro de álcool exalava de um jeito que deixava nauseado.
- QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA ME CHAMAR DE MACONHEIRO DE MERDA? SEU BÊBADO DESGRAÇADO – berrou descontrolado. Sabia, antes mesmo de sentir o punho cerrado do seu pai contra o seu rosto, que tinha dito a coisa errada. Talvez não fosse mentira, seu pai era sim um bêbado desgraçado, porém, ainda assim, era o seu pai.
O sangue quente jorrou por seu rosto e a onomatopeia de ossos se partindo, bem como a dor dilacerante que sentia, lhe indicavam que havia acabado de ter o nariz quebrado. Fechou os olhos com força e elevou as mãos ao rosto, sentindo as lágrimas de fúria se transformarem em dor, humilhação, tristeza. Sentiu braços mais delicados lhe tomarem para um abraço protetor e soube, mesmo sem abrir os olhos, que estava sendo amparado por sua mãe, que gritava descontrolada:
- PAREM COM ISSO, VOCÊS DOIS! PARE COM ISSO, DAVID, NÃO ESTÁ VENDO QUE ESTÁ MACHUCANDO O SEU FILHO? – Ela dizia protetora e zelosa, mal sabendo que a maior dor que estava sentindo naquele momento não tinha absolutamente nada a ver com aquele nariz quebrado.
- Ele precisa aprender a me respeitar! Vai trabalhar sim, vai ser executivo sim! – David respondeu num tom de voz um pouco mais baixo, embora seu timbre ainda estivesse elevado. Sua voz estava um tanto quanto embargada por conta do choro. A bebida o deixava mais emotivo e irritadiço do que o normal – Se você me acha tão bêbado de merda assim, seja diferente de mim. Foi pra isso que investi caro nos seus estudos, pra você ser rico e não precisar ficar mendigando para pagar estudos do seu filho ingrato metido a revolucionário!
parou de tentar impedir as lágrimas de caírem e simplesmente chorou copiosamente. Sentia-se um lixo. Estava com tudo pronto para passar um ano na Angola, iria participar de uma ONG e ajudar crianças. Queria ter essa experiência antes de embarcar de vez no mercado de trabalho. Não que ele pretendesse ser um desempregado ou viver de caridade e movimentos sociais a vida toda, não, ele pretendia trabalhar – desde que utilizasse seus conhecimentos para algo que trouxesse ganho para outras pessoas. Queria se doar.
Mas, não podia ser ingrato com seus pais. Seu pai havia se esforçado para pagar seus estudos durante muitos anos, há pouco tempo havia sido enxotado da empresa que trabalhara nos últimos 15 anos, saindo sem um centavo no bolso – tudo havia sido investido na educação de . Desde então, havia exagerado na bebida e depositado em toda expectativa do mundo. As brigas em casa eram cada vez mais frequentes.
Encarou, com muita dificuldade, o papel a sua frente. Seus olhos embaçados de lágrimas e seu rosto raso de sangue miraram o envelope com o timbrado da KLP’s Company, mais uma multinacional que estava abrindo processos seletivos para jovens recém formados. Seu sonho ficaria para trás pela última vez. Sua família precisava dele – Precisavam de dinheiro.

FIM DO FLASHBACK


suspirou profundamente, fechando o livro e o guardando no bolso do sobretudo que estava dobrado no seu braço. Aquelas lembranças dolorosas deveriam permanecer guardadas em sete chaves no baú da sua memória. Há sete anos atrás fora aprovado no processo seletivo da KLP’s Company, onde foi um trainee de sucesso, alvo de olheiros no mundo dos negócios. Um desses olheiros o convidou para fazer uma entrevista na Whistler’s Company um tempo depois e a partir daí sabemos como a história se desvela. Como havia mudado durante esse tempo...
Cansado do dia exaustivo que ainda estava longe de acabar, reuniu seus pertences e saiu furtivamente pela porta do seu escritório. Mirando de um lado a outro na intenção de observar alguém vindo em sua direção, não aguentaria apertar mais nenhuma mão nem receber mais nenhuma congratulação. Estava farto.
Não é necessário repetir – mais uma vez – que nem sempre fora assim. Nem sempre fora do tipo que se excluía das diversões, afinal, durante um bom tempo, ele fora aquele que as proporcionava. De uns tempos pra cá, mais do que nunca, estava se tornando uma pessoa diferente até mesmo para os seus próprios olhos. Seu desânimo e apatia estavam começando a lhe incomodar potencialmente, embora não pudesse fazer nada a respeito.
A verdade era que, quanto mais rodeado de pessoas estivesse, mais sozinho ele se sentia.

Neste momento, já livre da pressão de estar no interior da W.C, dirigia calmamente pelas ruas da cidade a caminho de casa. Alguns raios fraquíssimos de sol iluminavam o céu, o que era praticamente um milagre devido ao tempo nublado e sempre coberto de neve. Aproveitou esse clima estiado para abrir a janela do carro e deixar alguns raios solares invadirem a cabine, esvoaçando seu cabelo e clareando sua mente.
Não estava muito longe de casa, estava passando pela rua do parque ecológico, que não ficava muito distante da sua rua quando viu algo que lhe chamou bastante atenção. O choque foi tão grande que quase bateu o carro, tamanha fora sua freada brusca. Não podia ser. De jeito nenhum que podia ser. Pela terceira vez?
No entanto, apesar de contra todas as possibilidades, lá estava , sentada no gramado logo a frente. a reconheceu pela massa de cabelos vívidos e pelos traços do rosto que perambulou seus sonhos por mais vezes que ele gostaria de admitir na última semana. Algo no modo como agia fez com que paralisasse, encostando o carro no acostamento próximo a calçada. Ela sorria, mas não era um sorriso que ele já tinha visto em alguém antes, o que era absurdamente contraditório, porque tudo naquela menina lhe dava uma sensação de familiaridade. Por mais paradoxal que fosse, aquele sorriso absolutamente desconhecido e novo, era, no entanto, como um velho amigo de .
nunca soube explicar o que lhe fez descer daquele carro naquela tarde pouco ensolarada. Quando questionado, no futuro, nunca soube responder muito bem o que o motivou a desligar o motor do seu carro e andar em passos vacilantes e hipnotizados ao encontro da mocinha. Algo nela prendia sua atenção de uma maneira absurdamente perturbadora. Talvez fosse pelo fato de que a vida parecia brincar com ele, colocando em seu caminho nos momentos mais inusitados possíveis. Talvez fosse porque algo nela lhe trazia a estranha sensação de familiaridade. Talvez fosse porque o livro dela havia lhe interessado mais do que gostaria de admitir. Fosse porque fosse, o fato é que andou até , observando milimetricamente cada movimento da moça com todo interesse do mundo.
- Oi – Ele cumprimentou debilmente, sentindo-se um completo idiota.
Quando os olhos e faiscantes de cruzaram com os seus, soube que tinha sido impulsivo e irracional. Não conhecia aquela menina, não fazia ideia de quem ela era. Não importava qual a sensação estranha e sobrenatural que ela lhe passava, não a conhecia. Não havia absolutamente nada para justificar seu comportamento de andar até uma completa desconhecida – com quem esbarrara tragicamente duas vezes na vida – e lhe dizer um oi. Muito menos quando o primeiro encontro deles havia sido absurdamente desastroso.
- Você só pode estar brincando comigo! ODIN, O QUE EU FIZ PRA MERECER? – A menina bradou irritada, fechando o caderno que estava em seu colo com força. afastou-se dois passos para trás, pego de surpresa pela súbita irritação da menina a sua mera presença.
- Odin quem? – Ele balbuciou debilmente, sentindo-se mais idiota a cada milésimo de segundo que passava. Algumas pessoas olharam para eles com a expressão de censura, possivelmente do berro que dera, presumiu. Futuramente, aquela cena lhe faria fechar os olhos e rir amargurado da vergonha alheia.
- ODIN! – Ela repetiu revirando os olhos de uma maneira assustadora, irritadíssima – O que diabos você está fazendo aqui?
- Estou andando pelo parque – deu de ombros, e olhou para o chão furtivamente. Quem sabe não era muito tarde para cavar uma cova e morrer alí mesmo, não é?
- Bom, vejo que dessa vez pelo menos não está se esbarrando em ninguém, parabéns – debochou, soltando um risinho de escárnio e não pode evitar soltar um riso baixo também, sentindo-se um pouco mais relaxado.
- Vejo que você não está sendo desastrada também – respondeu contendo um sorriso mínimo, mordendo o próprio lábio inferior. revirou os olhos mais uma vez e levantou-se num salto ficando há alguns centímetros de distância de .
- O que você faz aqui?
pensou por um momento numa resposta adequada para aquela pergunta, visto que nem ele mesmo sabia qual era. Não havia sido guiado por nenhuma razão ao encontro de . Pelo menos, por nenhuma razão que soubesse ou entendesse. Mas, para sua sorte, sua perspicácia era uma ótima qualidade, bem como sua expertise em improvisos.
- Vim te perguntar se você não deu por falta de nenhum pertence seus nas últimas semanas, falou prontamente e admirou com satisfação a expressão chocada da menina que fora totalmente pega de surpresa.
- C- Como você sabe meu nome? E meu sobrenome? – Ela gaguejou, visivelmente perplexa. Mirava como se fosse um ser extraterrestre. Havia surpresa, pânico, choque, medo e assombro na sua expressão.
- Estou com uma coisa que eu creio que pertença a você – respondeu simplesmente, ao mesmo tempo que sentia algo dentro de si despencar. Não queria entregar o livro dela. Não sabia o porquê, não entendia porque parecia tão importante, mas folhear aquele livro tão misterioso e enigmático havia sido seu hobby favorito nas últimas semanas. Maldita hora que dera com a língua nos dentes! Maldita hora que fora ao encontro de ! Agora teria que devolver seu livro.
- O que? – arfou ainda confusa. Não estava mais com a expressão raivosa, agora, no entanto, parecia visivelmente chocada com tamanha revelação. estava retirando, relutantemente, do bolso interno do sobretudo (o qual ele vestira ao sair do carro) o livro surrado de capa verde musgo, fazendo o queixo de despencar.
- Meu livro!!! – Ela exclamou maravilhada estendendo as mãos para retomar o objeto que lhe pertencia. pôde perceber pela expressão dela que aquele livro tinha um significado muito importante. Era especial, ele podia sentir, visto que ele mesmo estava encontrando sérias dificuldades em devolver algo que nem ao menos lhe pertencia.
- Você deixou cair no outro dia. Tentei ir atrás de você, mas acabei não conseguindo te devolver – respondeu sinceramente observando levar o livro próximo ao seu rosto e fechar os olhos com ternura, como se estivesse abraçando o objeto inanimado. – Vi o nome na contracapa e deduzi que fosse seu nome.
- Obrigada! – Ela disse visivelmente mais amável e agradecida. Ofereceu à o primeiro sorriso sincero de muitos que ela viria a lhe dar – Muito obrigada! Quando te vi, pensei que fosse uma pessoa muito ruim, mas se você veio até mim para entregar um livro que guardou mesmo sendo de uma desconhecida, deve ser uma pessoa pelo menos um pouco boa – Ela respondeu rapidamente, atropelando as próprias palavras, fazendo rir um tanto quanto abobalhado.
- De nada. Eu normalmente não sou tão mal humorado como você viu no outro dia. Me desculpe.
- Tudo bem, estranho. Era pra acontecer – Ela disse tranquilamente dando de ombros fazendo franzir o cenho, levemente acometido pela confusão das suas palavras.
- O que você quer dizer? Digo, foi uma imensa coincidência, de fat...
- Não existem coincidências. Não neste caso – respondeu sabiamente fazendo franzir as sobrancelhas ainda mais. Estava começando a achar aquela menina maluca – Se você esbarrou em mim pela segunda vez e ficou com o meu livro, era para você lê-lo, se você veio até mim, era para devolver. Coisas assim não acontecem em vão. Este livro tem uma magia incrível!
ficou paralisado um momento, encarando meio abobalhado a menina a sua frente. Era isso, ela era louca, ele tinha certeza. Mas até que era uma louquinha bonitinha e que parecia fazer um pouco de sentido. Era mesmo muita coincidência que aquele livro fosse parar na sua mão, lhe fazer relembrar tantas coisas do passado e então, encontrar a dona novamente.
- Então, quer dizer que nós estávamos destinados a nos conhecer? – perguntou num tom de voz divertido, fazendo gargalhar gostosamente. Algo naquele timbre de voz fez com que tivesse vontade de fechar os olhos e ouvir aquele som para sempre. Que coisa mais estranha!
- Estávamos sim.
- Prazer, .
- Olá, . Prazer, .
Eles estenderam as mãos e num aperto mútuo selaram a apresentação, rindo um pouco ao fazê-lo. sentia-se tão estranho, tão quente de repente. Um segundo de silêncio e ele pensou bobamente que não sabia o que fazer em seguida.
- Bom, e agora? Nos tornamos amigos? – Ele perguntou numa expressão confusa e apenas riu, balançando a cabeça negativamente.
- Não vamos abusar da sorte.
- E então, acabou? – Ele perguntou acompanhando o riso da menina que lhe lançou um sorriso terno e agradecido com seu objeto recuperado em mãos.
- Agora você segue seu rumo e esperamos pela próxima ‘coincidência’ do destino – Ela disse, fazendo aspas com as mãos e fez uma careta engraçada, achando aquela menina doida a cada segundo que passava, porém, não menos fascinante. No entanto, sentia-se um tolo por não querer despedir-se dela. Nas últimas semanas, o livro de havia sido como um velho amigo.
- Bom, então... Tchau. – Ele disse um tanto quanto vacilante, afastando-se da menina, lançando-lhe um sorriso incerto.
- Até logo, . – Ela respondeu divertidamente, dando de costas e seguindo seu caminho em seguida.

Enquanto caminhava em direção ao seu carro, em passos lentos e despreocupados, se perguntou o porquê de não ter oferecido uma carona para . Porém, algo dentro de si despertou, dizendo que talvez não fosse uma boa ideia essa proximidade com uma pessoa que ele não conhecia e não sabia absolutamente nada sobre.
Ou talvez, quase nada.
Afinal, conhecia os sonhos de . Havia algo mais pessoal do que conhecer os sonhos de alguém?


V

You’re everywhere to me, when I close my eyes it’s you I see



Honrando sua excentricidade, Edmund Whistler investiu numa enorme festa em comemoração a sua aposentadoria e troca de gestão da W.C. Os preparativos para a ocasião estavam sendo feitos há meses. Tudo milimetricamente organizado, pensado e planejado a encargo de Christine, sua filha mais velha.
Perfeccionista e crítica como era, Christine cuidava de cada mínimo detalhe do evento. Desde a logística da cerimônia até o guardanapo utilizado nas mesas. Não existia outro assunto a ser discutido na casa dos Whistlers que não fosse aquela festa. E coitado daquele que não demonstrasse interesse o suficiente no planejamento, precisaria encarar horas de sermões e olhares fuzilantes de Christine. Neste caso, sabíamos o que estava precisando enfrentar.
- Chris, eu já te disse, para mim tanto faz se terá canapés ou não, eu não vou comer mesmo – Ele respondeu depois de muita insistência, alguns dias antes da festa. Estavam todos reunidos na enorme sala de estar da mansão dos Whistlers, provando alguns comes e bebes para fazer os ajustes finais do buffet.
- ! Será que você pode parar de pensar apenas em você mesmo? – Christine disse com uma voz esganiçada visivelmente ofendida. Bill, por trás da esposa, lançou um olhar penoso em direção a , dando de ombros como quem sente muito, mas não pode fazer nada a respeito. Charliet, ao lado de , parecia travar uma dura batalha consigo mesma para não cair na gargalhada.
- Tudo bem, canapés então – respondeu dando de ombros, aceitando educadamente da bandeja que Christine tinha nas mãos, passando por cada um.
- Ótimo! – Ela disse, facilmente satisfeita, recolhendo a bandeja com os canapés e indo em direção a uma outra com alguns mini cupcakes. Ao observar o que ela faria, virou-se para Charliet com os olhos arregalados e os lábios crispados demonstrando seu espanto e pavor. Charliet reprimiu uma risada nasalada e, ao perceber o olhar de águia da irmã mais velha, logo apressou-se em disfarçar com uma tosse seca.
- Agora quero que vocês provem os cupcakes! Redvelvet, carrot cake, tiramisú... Provem, provem! Quero saber o que vocês mais gostam – Christine disse animada passando a bandeja para todos na sala, ignorando deliberadamente quando revirou os olhos.
- Irmã, desse jeito eu vou engordar e não caberei no meu vestido! – Catherine disse, embora tivesse pego dois cupcakes de uma só vez, lambuzando-se na cobertura.
- Christine, seja prática, encomende todos – Edmund respondeu abocanhando um dos bolinhos, fechando os olhos e suspirando em seguida – Expexialmentxe exe, de limon! – Completou de boca cheia.
- Definitivamente o redvelvet! – Charliet disse de olhos fechados, provando o doce. lançou um olhar para a noiva e sorriu um pouco ao notar seus lábios melados de cobertura. Num impulso, aproximou-se para lhe dar um beijo, lambendo um pouco do creme e limpando a boca de Charliet, que sorriu surpresa com o gesto espontâneo.
- É, o redvelvet! – concordou, trocando um sorriso cúmplice com Charliet, que parecia bem mais animada agora.
- Ótimo! – Christine falou novamente, recolhendo a bandeja que agora estava vazia – Bom, acho que isso é tudo! Agora acho que está tudo certo. – Disse satisfeita, sentando-se ao lado de Bill ao sofá, que já tinha seus braços abertos esperando pela esposa.
- Me lembre de ficar longe de você durante todo o dia da festa, Chris. – disse num tom de voz divertido, fazendo com que Charliet lhe lançasse um olhar furtivo de lado, um tanto quanto animada por vê-lo mais solto e menos carrancudo – Do jeito que te conheço, vai estar regulando até minha roupa. – Completou, arrancando risadas dos demais presentes.
- Pode apostar que vou mesmo. É minha obrigação me certificar de que o novo CEO da Whistler’s Company esteja devidamente trajado, apresentável, cheiroso e bonito – Christine respondeu prontamente, embora sorrisse também.
- Ah, se é para ficar bonito e cheiroso pode ficar tranquila, o vai tirar de letra – Charliet disse afetuosa, acariciando o rosto do noivo, que lhe lançou um sorriso singelo e fechou os olhos com o carinho. Há algumas poltronas de distância, Edmund admirava a cena com felicidade.
- Bom, se vocês não precisam mais de mim, vou me retirar. Estou exausto – Edmund disse, levantando-se num suspiro cansado. Automaticamente levantou-se também, assumindo como uma deixa para ir embora. Porém, antes que pudesse verbalizar suas despedidas, sentiu um aperto quente de Charliet em sua mão.
- Dorme aqui – Ela pediu baixinho quando ele se virou para olha-la. Naquele olhar, sabia exatamente o que ela queria. E embora estivesse cansado e farto de tanto provar os aperitivos de Chris, naquele instante um acréscimo de afeto por sua noiva pareceu surgir, já que a proposta lhe soou bem atraente, diferente do que costumava ser ultimamente. Num aceno mudo de cabeça, concordou com a proposta.


***
O cantar dos pássaros chamou sua atenção de primeira. Uma brisa leve esvoaçou seus cabelos e um feixe de luz ofuscante do sol incomodou seus olhos. Levantou-se um pouco desnorteado, sentindo um pinicar de grama recém cortada incomodar seu corpo. Piscou algumas vezes, encontrando dificuldade em focalizar alguma coisa a sua frente devido a claridade que criava fosfenos a sua frente.
- Até que enfim, pensei que dormiria para sempre! – Sobressaltou-se ao ouvir uma voz próxima do seu ouvido. Com esforço, coçou os olhos e conseguiu focalizar uma menina a sua frente que lhe encarava com um sorriso doce, apreciando seu momento de confusão. conhecia aquele sorriso.
- Onde eu estou? – perguntou um tanto quanto desnorteado, observando a paisagem ao seu redor. Conhecia aquele parque, ficava há algumas ruas de distância da sua casa.
- Você está no meu lugar favorito dessa cidade, sentado embaixo da minha árvore – A menina respondeu simplesmente, observando milimetricamente cada gesto de , parecendo apreciar bastante a confusão em que o rapaz se encontrava. Quando ele parou de admirar os arredores, focalizou na mocinha e passou a admira-la com mais atenção.
Seus cabelos alaranjados estavam presos numa trança bem feita e seus olhos estavam mais do que nunca, num perfeito contraste com seus cabelos vívidos. Estava sentada e recostada sob o tronco de uma árvore enorme, cuja as folhas protegiam da enorme claridade do sol.
O que não fazia o menor sentido, visto que estavam no inverno e aquela árvore deveria estar seca e o tempo completamente nublado.
- O que eu estou fazendo aqui? – perguntou debilmente, sentindo-se um tanto quanto desnorteado por não conseguir lembrar como havia chegado ali e nem como estava na presença daquela menina. - ?
- A quem você está querendo enganar? – perguntou docemente, sua cabeça um pouco reclinada para o lado e um sorriso compreensivo brincando em seus lábios. sentiu-se estranho, sentiu-se gelado por dentro, em contraste com o ambiente quente e confortável em que estava.
- O que você está querendo dizer? – Ele indagou, engolindo em seco, sem entender absolutamente nada.
- Você está apenas se enganando. Quanto mais cedo aceitar isso, melhor. – respondeu, dando de ombros, encostando-se no tronco da árvore, dando um impulso para se levantar, deixando sentado sob a grama com um semblante confuso.
- Onde você vai? – Ele perguntou, levantando-se de sobressalto, observando a menina fazer menção de se afastar.
- Eu não vou a lugar algum, você já deveria saber disso. – Ela respondeu ao mesmo tempo que andava em passos lentos para trás, ainda sem quebrar o contato visual com , que permanecia estático no mesmo lugar sem conseguir se mover, embora estivesse tentando alcança-la.
- O que você quis dizer? – perguntou um pouco mais alto, observando se tornar um ponto distante, quase engolida pela claridade ofuscante do sol.
- Eu quis dizer que está na hora de acordar – Ouviu a voz de bem próxima ao seu ouvido e assustou-se, olhando para os lados embora ela já tivesse sumido completamente.
- ? ?
- Está na hora de acordar, .
- Espere, volte aqui!
- , acorda, acorda, acorda, acorda!
despertou sobressaltado, sentindo as mãos de Charliet sob seus ombros, sacudindo-o com força. Observou desnorteado o ambiente ao seu redor: Estava sob a quente e confortável cama de Charliet, em seu quarto mal iluminado pelos primeiros raios de sol do dia que acabava de amanhecer.
- Char, o que foi? – Ele perguntou um tanto quanto zonzo, sentando-se assustado na cama, sentindo seu coração acelerar e comprimir seu pomo de adão.
- Você estava tendo uma espécie de pesadelo, estava falando coisas desconexas – Charliet falou, afastando-se um pouco de para observa-lo com um olhar receoso. Parecia certificar-se de que ele não iria começar a gritar ou agir de uma forma estranha.
- O que eu disse? – Ele perguntou um tanto quanto incerto, sentindo-se imensamente desconfortável de repente. Desde quando falava durante o sono?
- Algumas palavras desconexas e você repetiu “” algumas vezes – Charliet respondeu baixinho, lançando um olhar que deixou absurdamente desconcertado, parecia que estava sondando seu comportamento – O que é ? – Acrescentou um tanto desconfiada, ao mesmo tempo que sentia algo gelado percorrer sua garganta.
- Hm, não faço a menor ideia – Mentiu, dando de ombros e fingindo indiferença, embora seu coração estivesse acelerado. Não conseguia acreditar que estava verbalizando seus sonhos...
Charliet sustentou o olhar penetrante por alguns segundos, sondando as expressões faciais de – o que estava o deixando imensamente desconfortável – até se dar por vencida e finalmente suavizar seu semblante ao receber um selinho rápido nos lábios.
- Foi só um sonho besta que eu nem lembro o que era – garantiu, sentindo-se um péssimo mentiroso – Vem, vamos voltar a dormir, ainda é madrugada – Acrescentou, puxando Charliet para a cama novamente, colocando-a deitada de costas para ele, abraçando-a por trás em conchinha, coisa que não fazia há séculos.
Enquanto observava Charliet dar-se por convencida e finalmente adormecer em seus braços, repassava o sonho na sua cabeça novamente.
Por que, em nome de Odin, não conseguia retirar dos seus sonhos?

***
Os dias seguintes se passaram sem nenhuma novidade, sem nenhum encontro inesperado, sonhos ou pesadelos. Seus dias foram preenchidos com a mesma rotina monótona e acolhedora a qual já estava acostumado. A única coisa que fazia de diferente era passear com Kenobi por alguns minutos na rua de casa. Tudo seguia normalmente.
Sem que pudesse dar conta, o grande dia da cerimonia havia chegado. Durante alguns anos em sua vida, divagou como seria e como se sentiria no dia em que finalmente se tornaria o CEO de uma grande companhia como a W.C. Porém, nenhum dos seus maiores devaneios se comparava com a realidade: Total desânimo e apatia.
podia dizer com toda certeza que não se sentia nem remotamente animado com a perspectiva de herdar uma grande empresa e muito menos em ser alvo dos holofotes por uma noite inteira – odiava ser o centro das atenções. No entanto, essa noite era toda dedicada para ele. Seus pais, para sua infelicidade, haviam saído do interior justamente para prestigia-lo neste momento importante e agora estavam hospedados em sua casa.
Sua mãe, a Srª Samantha era só sorrisos, abraços, beijos e mimos para todos os lados. Seu pai, Sr. David , um pouco mais recluso e singelo, apenas lançava olhares carregados de emoção e orgulho, embora não verbalizasse em nenhum momento os seus verdadeiros sentimentos em relação a essa noite – sentia-se imensamente envergonhado.
- Nossa, filho, como está linda a decoração – Sua mãe exclamou deslumbrada assim que chegaram ao grande clube onde estava acontecendo o evento. – Que paraíso!
Neste momento, até que ultimamente havia se tornado a apatia em pessoa, tinha que concordar. Até mesmo o tempo parecera contribuir para o sucesso da noite, que estava com uma temperatura seca e agradável, o céu repleto de estrelas e nenhum indício de chuva. O grande clube havia sido iluminado com lindos varais de luzes que contrastavam bem com as mesas de forro branco ornamentadas com arranjos de flores. Christine havia caprichado.
Falando no diabo...
- ! Ainda bem que te encontrei, Norah precisa falar com você, ajustar os últimos detalhes do seu discurso! – Christine tagarelou, puxando pelo braço e já recomeçando a andar na direção oposta quando finalmente notou os pais do rapaz observando atentamente tudo ao redor – Oh, me perdoem! Boa noite Srs ! – Completou timidamente, ruborizando instantaneamente. Seus cabelos estavam presos num coque bem feito e a maquiagem forte realçava seus olhos. O vestido longo e dourado de paetês parecia ter sido feito especialmente para ela.
- Boa noite, minha querida! Parabéns pela decoração da festa, está tudo muito bonito. E você está linda! – Srª disse afetuosamente, cumprimentando Christine com um abraço. A outra apenas acenou com a cabeça em agradecimento ainda um tanto quanto envergonhada.
- Obrigada, Srª ! Sinta-se a vontade, vou indicar os seus lugares que estão reservados e depois vou roubar seu filho por uns instantes... Venham comigo.
Quando seus pais finalmente estavam acomodados na grande mesa dos Whistlers, foi arrastado ao encontro de Norah Spellman, sua secretária, para os ajustes finais do seu discurso. Não adiantou pedir, implorar ou barganhar para que esse discurso fosse evitado. Toda a imprensa estava presente no grande evento e queriam detalhes sobre a aposentadoria do poderoso Edmund Whistler, e, é claro, saber mais sobre o novo CEO da companhia. Não havia salvação.
- Como está o novo chefão? – Uma voz delicada soou atrás de si, sobressaltando-o. virou-se para trás, dando de cara com Charliet, que sorria divertidamente. Norah, que estava ao lado de , encolheu-se abraçando a pasta com as anotações, sentindo seu rosto ruborizar e um peso enorme comprimir seu coração.
- Char, não me chame assim – pediu baixinho num muxoxo desesperado, semicerrando os olhos ao perceber a noiva cair na gargalhada – É sério.
- Vê se desmonta essa cara feia, vai beber alguma coisa. Hoje você vai precisar cumprimentar muitas pessoas. – Charliet disse ajeitando o nó na gravata de , sendo milimetricamente analisada por Norah, que sentia-se triste a mera presença da mulher. pareceu não notar esse fato. Estava ocupado demais sentindo pena de si mesmo.
- Pronto. Está bonito – Charliet disse sorrindo, aplicando um selinho delicado nos lábios de , ao mesmo tempo que Norah fechava os olhos com força.
- Você está linda – disse sinceramente observando na roupa que Charliet usava. Estava deslumbrante em um vestido prateado, longo e decotado. – Não acha que esse decote está um pouco exagerado não? – Completou, demorando seu olhar nos seios de Charliet, que estavam bem ressaltados sob o tule.
Charliet apenas revirou os olhos divertida, limitando-se a sorrir, dessa vez dirigindo-se a Norah, que ainda estava entre eles, mais vermelha do que nunca.
- Viu o que preciso aguentar, Srtª Spellman? – Charliet brincou e Norah deu um risinho sem graça, apressando-se em disfarçar seu ciúmes – Espero que o não tenha feito má vontade com esse discurso – A Whistler mais nova completou educadamente, arrancando um sorriso sincero de Norah, que limitou-se a rir baixinho balançando a cabeça negativamente enquanto revirava os olhos.
- Vocês me dão licença? Vou no bar, preciso beber alguma coisa para encarar essa noite – disse afastando-se rapidamente das duas, ignorando os protestos de Charliet de que ele precisava estar sóbrio para não fazer vexame na sua primeira noite como CEO. Um copo de whisky não faz mal a ninguém.
dirigia-se lentamente ao bar, parando para cumprimentar algumas pessoas durante o percurso. Todos pareciam querer falar com ele, tocar nele, um pedaço dele. Depois dessa noite, se tornaria um jovem ainda mais influente no mundo dos negócios. Previa a quantidade de pessoas que lhe pediriam oportunidade de emprego, previa a quantidade de currículos que estariam sobre sua mesa na próxima segunda-feira.
Estava distraído pensando nisso quando sentiu uma bandeja bater contra o seu peitoral e um barulho de vidro espatifando no chão lhe chamou a atenção.
- Nossa, me desculpe senhor... eu estav...
- Me desculpe, eu estava distraí...
E em questão de segundos, com uma fisgada no coração e um frio horrível lhe percorrendo a espinha, reconheceu aquela voz. Mais um baque surdo fora ouvido, indicando que dessa vez a bandeja tinha caído das mãos frouxas de , que encarava com súbito espanto, os lábios formando um “O”.
- Será possível uma coisa dessas? – exclamou assustada, os olhos esbugalhados encaravam como se ele fosse de outro mundo. Tinha certeza que a expressão dele estava sendo refletida no rosto dela naquele momento, tamanho era seu espanto.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntaram ao mesmo tempo, os semblantes confusos, assustados e incrédulos. Ao darem por conta do uníssono, apressaram em explicar, novamente, ao mesmo tempo.
- Eu estou trabalhando
- Esta é a festa do meu trabalho
Encararam-se perturbados por alguns instantes e deu um meio sorriso nervoso do momento de embaraço. ainda o observava como se ele fosse um extraterrestre. Num suspiro, sentenciou:
- Você primeiro.
- Bom, é óbvio, não é? Eu estou trabalhando. Estou como garçonete – respondeu prontamente apontando para seu uniforme preto e branco, completamente formal e diferente dos seus habituais trajes descontraídos e despojados. sentiu uma súbita e desconhecida vontade de rir, porém, reprimiu o desejo pigarreando ao ouvir a pergunta dela – E você?
- Bom... – Ele começou um tanto quanto desconfortável, embora seu humor tivesse elevado um pouco mais com a estranha coincidência. Não que fosse confessar, de qualquer modo – Bom, essa festa é da empresa que eu trabalho. A Whistler’s Company.
Neste momento, uma voz gutural ecoou atrás deles chamando a atenção de .
- , a grande estrela da noite! Como se sente, meu rapaz, como se sente? – foi envolvido pelo abraço apertado de Elias King, um empresário milionário pomposo e gorducho, que dava palmadas firmes nas suas costas. sentiu suas bochechas em brasas, completamente envergonhado. – Grande dia, huh? – O homem falou, sorridente ao se afastarem, dando mais uma palmada no ombro de , afastando-se em direção ao bar sem direcionar um olhar se quer para , como se ela não estivesse entre eles.
arregalou ainda mais os olhos e engoliu em seco, parecendo extremamente desconfortável de repente. Abriu e fechou a boca algumas vezes, só então, dando-se conta da bandeja e dos cacos de vidro no chão.
- Bom, bom, desculpe-me senhor falou, frisando a palavra “senhor”, ao mesmo tempo que abaixava-se rapidamente para recolher a bandeja e os cacos de vidro no chão. Ao perceber que estava se abaixando para ajuda-la, apressou-se em dizer: - Não, senhor, não precisa se indispor, é o meu trabalho.
ergueu o corpo um pouco desnorteado com a quantidade de escárnio proferido naquelas palavras. Podia jurar que havia uma pontada de fúria contida e certo ressentimento na voz de . Com uma expressão confusa, perguntou rapidamente assim que a menina se colocou de pé.
- O que foi?
- Bom, agora está explicado de onde vem tamanha arrogância. – respondeu prontamente, como se aquela resposta já estivesse na ponta da sua língua afiadíssima - Você de fato é um engomadinho metido a besta que se acha superior.
arregalou os olhos e boquiabriu-se espantado por tamanho desrespeito ser oferecido tão gratuitamente. Piscou um tanto quanto assustado achando ter perdido alguma coisa, recebendo um olhar firme e penetrante de , carregado de desprezo.
- P... Por que você está me dizendo isso? V-você não me conhece! – falou baixinho, sentindo-se potencialmente ofendido por suas palavras cortantes. sacodiu sua cabeleira para trás contendo um suspiro, forçando uma expressão educada.
- Desculpe-me, senhor. Não foi minha intenção ofende-lo. – Disse teatralmente numa voz mais baixa e fina, claramente num deboche que irritou profundamente.
- Você é muito desaforada, sabia? Eu não te fiz absolutamente nada! – Exclamou irritado, odiando cada pedaço daquele rosto bonito e desaforado de que agora tinha um sorrisinho petulante brincando nos lábios.
- Perdão, senhor eu deixei cair algum vidro sobre o seu precioso terno? O senhor vai me demitir ou só dar outro chilique daqueles?
- Ah então ainda é sobre isso? Eu já pedi desculpas, achei que estava tudo bem – arregalou os olhos e bufou cansado, achando aquela menina louca a cada segundo que passava. Se bem conseguia recordar, o último encontro com ela havia sido pacífico. Tinha até lhe devolvido o livro dos sonhos.
Mas não parecia estar ouvindo, ou pelo menos não parecia se importar com suas palavras. Numa reverência exagerada, curvou-se diante de o máximo que pôde e, quando voltou a se erguer, lançou o olhar mais desprezível possível e virou-se de costas, richicoteando os cabelos em seu rosto, deixando-o completamente desnorteado.
Emburrado e ofendido, retornou para sua mesa, abandonando a ideia de ir ao bar, receando dar de cara com novamente e lhe dizer uns bons desaforos. Aquela menina maluca, bipolar e desaforada! O ódio que estava sentindo dela naquele momento era palpável. Achou por bem manter-se distante do whisky, não queria descontar sua raiva na bebida e fazer vexame no discurso. Seria um prato cheio para aquela petulante desbocada ter do que rir no fim da noite.
A festa se passou sem mais nenhum incidente ou encontro inesperado com . manteve-se o mais distante possível daquela cascata de cabelos e daqueles olhos penetrantes. Não que tenha sido muito difícil: não viu nem rastro de no que se seguiu o resto da noite.
Muitas mãos foram apertadas, muitos abraços foram distribuídos e até mesmo algumas lágrimas, estas, no entanto, eram todas de Edmund Whistler, que parecia estar fazendo muito bom proveito da sua festa de despedida. O seu discurso acalorado e sincero, elevara boa parte da plateia as lágrimas. Já o discurso de , no entanto, havia sido mecanicamente bem decorado e apresentado sob aplausos, não que alguém tivesse percebido a apatia em suas palavras – já estava acostumado com o público, embora não estivesse nos seus melhores dias.
A gota d’água para o mau humor de foi o abraço que recebeu do seu pai, logo após o seu discurso. Ter que vê-lo subir ao palco e falar algumas palavras no microfone, debulhando-se em lágrimas e explanando o imenso orgulho do seu filho, foi uma imensa humilhação para , não que alguém tenha percebido. Todos aplaudiram e até ficaram um tanto quanto emocionados.
Não sabia explicar o porquê, mas, de repente, aquele ambiente parecia estar o sufocando. O que era irônico, visto que estavam num clube ao ar livre numa noite estrelada e completamente bem ventilada. sentia-se claustrofóbico, sentia-se nauseado. Por alguma razão que ainda desconhecia, as palavras de ecoavam por sua cabeça e era possível ouvir sua voz ecoando no seu ouvido, repetindo insistentemente os desaforos proferidos horas atrás. Não só uma, mas bem umas dez vezes, flagrou-se espalmando o ar, tentando espantar inutilmente a voz de do ambiente, embora tivesse plena certeza que estava impregnada na sua cabeça.
Nem mesmo Charliet conseguira o distrair. Havia o puxado algumas vezes para dançar e embora relutante, fez o gosto dela para manter as aparências. Era perceptível o quanto as pessoas suspiravam e cochichavam sobre eles quando estavam juntos. Depois de três músicas, murmurou um “banheiro” no ouvido de sua noiva e se distanciou, rumando para uma parte mais afastada do jardim, ansiando mais do que nunca pelo seu cigarro.
Quando já estava distante o suficiente para não ser incomodado, retirou o maço de cigarro e o isqueiro do bolso, sua mão tremia levemente quando colocou o cigarro nos lábios, acendendo-o rapidamente, aspirando profundamente da fumaça tóxica, relaxando instantaneamente. Ou quase instantaneamente.
- Isso mata, sabia?
sobressaltou-se assustado ao ouvir a voz baixinha de ecoar atrás de si. No choque, havia deixado o cigarro cair no chão e agora encontrava-se imensamente irritado.
- Ah, não, você de novo não! Some daqui! – rosnou sacodindo as mãos em sinal de despacho para que saísse de perto. Porém, ela permaneceu imóvel, sua expressão estava contida e difícil de decifrar. resmungou entre dentes – Você é surda? Veio dizer outro desaforo?
- Não, graças a Odin escuto muito bem, obrigada – Ela respondeu simpática, o timbre contido e educado, sem sinal de falsidade – Vim pedir desculpas.
- Pedir des...?
- Sim – deu de ombros, como uma criança pequena malcriada que finalmente confessa suas peripécias – Fui muito arrogante com você.
piscou desnorteado algumas vezes e logo depois semicerrou os olhos, encarando com desconfiança, observando enquanto ela parecia balançar sob os calcanhares, as mãos cruzadas por trás do corpo, sustentando seu olhar com o semblante impassível.
- Você é louca, só pode ser – Ele concluiu por fim, depois de observa-la por alguns segundos. reprimiu uma risadinha e relaxou os braços.
- Não... Estive observando seu discurso e acabei concluindo que fui preconceituosa com você... Mais uma vez – Ela respondeu despreocupada, ciente de estar sendo milimetricamente observada pelo olhar incrédulo e cauteloso de .
- E o que te fez perceber que eu não era um... Como foi mesmo que você me chamou? – fingiu pensar, seu tom de voz soava completamente irônico. Por alguns segundos teve certeza de ver um sorriso escapar dos lábios de
- Engomadinho metido a besta – repetiu marotamente, parecendo travar uma dura batalha consigo mesma para não rir na cara de . Ela deu de ombros mais uma vez e inclinou a cabeça para o lado, admirando o semblante confuso e enraivado de – Você não me parecia muito orgulhoso no seu discurso. Na verdade, me atreveria a dizer que não parecia nem um pouco sincero. Nem muito menos feliz.
pareceu ter sido atingido por um soco no estômago. Fora pego de surpresa com aquelas palavras. Não sabia que seu desânimo havia sido tão evidente.
- Não se preocupe, acho que ninguém mais percebeu – respondeu prontamente, verbalizando seus pensamentos num segundo.
franziu o cenho, sentindo-se mais exposto do que havia se sentido em sua vida inteira. parecia o analisar por inteiro e de uma maneira bizarra, parecia estar conectada em sua mente, parecendo saber exatamente naquilo que ele estava pensando.
- Sua namorada é muito bonita – disse de repente, assustando mais uma vez.
- Você...?
- Vi vocês juntos. Ela me parece muito elegante – respondeu e estreitou os olhos em busca de alguma ironia no seu tom de voz, mas ela parecia genuinamente sincera – Gostei do decote.
revirou os olhos impaciente, lembrando-se do decote de Charliet que ia quase até metade da barriga.
- Achei exagerado.
- Ainda bem que você não tem que achar nada, né – respondeu num tom sapeca e bufou irritando-se novamente.
- Claro que eu tenho que achar, eu sou o noivo dela e você não tem nada a ver com iss...
- Você é noivo, não é dono. – interrompeu calmamente e antes que pudesse abrir a boca para falar novamente, completou – Não é engomadinho metido a besta, mas é machista.
- Olha, se você veio aqui para me criticar por mais alguma coisa, vai dando o fora, estou farto de você e seu morde e assopra. Você não me conhece, não sabe nada sobre mim. Não sei porque a vida anda achando engraçado colocar você no meu caminho, mas estou cansado de ter que me desculpar por ter sido grosso com você uma vez, você é chata várias vezes.
bradou grosseiramente esperando uma explosão de , que certamente não veio. Observou um tanto quanto desconcertado a menina sorrir meigamente e permanecer em silêncio durante o seu desabafo, não parecendo se alterar nem um pouco com sua grosseria.
- Peço desculpas pela invasão, mas não pelo que eu disse – disse, dando de ombros mais uma vez. Aquele gesto estava começando a dar nos nervos de – Hoje não está sendo um bom dia, confesso que fui mal educada com você.
ficou calado e imóvel, sustentando o olhar de , procurando mais uma vez por traços de deboche, sem sucesso. Quando pareceu convencido da sinceridade dela, resmungou um “Tudo bem” desconfortável, já se preparando para voltar para a festa, quando ela perguntou, aparentemente sem conseguir mais se conter:
- Por que você insiste tanto em aparentar ser uma coisa que você não é?
piscou algumas vezes, sentindo novamente um soco no estômago. Conversar com era uma montanha russa de sensações estranhas. Não conseguiu sustentar o olhar da menina, embora não soubesse exatamente o porquê. Pensou um pouco na pergunta, ainda sentindo-se pego completamente de surpresa.
- Digo, você não me pareceu tão feliz engomadinho assim. Por que insiste numa coisa que visivelmente não está te fazendo bem? – perguntou numa curiosidade educada. ainda sentia-se desnorteado demais com a pergunta repentina para conseguir formular uma boa resposta.
- Você... Você não me conhece, . – respondeu baixinho sem sinal de grosseria ou rispidez. Fora pego tão de surpresa que não sabia exatamente o que responder diante uma acusação daquelas.
- Tem razão. Como posso conhecer alguém que não se conhece? – replicou num sorriso compreensivo e sentiu-se gelado por dentro, sua mente trabalhava há milhões por hora, completamente desnorteado.
- Acho que você está se enganando, mas tudo bem – completou andando em passos lentos para trás, afastando-se. Instantaneamente foi envolvido por uma atmosfera de dejavú, deixando-o completamente desconfortável e confuso.
- O que você disse? – Ele perguntou num sussurro, observando enquanto apenas sorria docemente, dando de ombros pela última vez, enquanto afastava-se, já virando de costas.
- Boa noite, .
- Ei, volte aqui... – chamou, mas a menina já voltava correndo de volta para a festa, logo sumindo de vista entre as mesas e o monte de pessoas, deixando com uma sensação horrível de vazio por dentro e diversas perguntas bombardeando sua cabeça.
Quem era ? Por que ela parecia estar em todos os seus lugares, incluindo seus sonhos? Por que ela dizia as coisas mais estranhas possíveis?
E, principalmente, por que ela parecia saber exatamente aquilo que ele estava pensando?


VI

Just tell me how I got this far?



Desde que se entendia por gente, sempre soube que na verdade não era uma pessoa muito sociável.
Na infância, enquanto seus coleguinhas brincavam de grudar massa de modelar nos cabelos das meninas, tentava recriar seus personagens favoritos com as próprias mãos. Enquanto seus colegas rabiscavam os desenhos de qualquer jeito, empenhava-se em pontilhar tudo nos mínimos detalhes e, quando ocasionalmente falhava, chorava, rasgava o papel, e tentava tudo novamente até ficar perfeito.
Na adolescência, enquanto os meninos da sua idade competiam para ver quem perdia a virgindade primeiro, entretinha-se com seu violão. Poderia passar horas e horas compondo músicas que ninguém, além de Joffrey – até então, seu único amigo – ouviria.
Na transição da adolescência ao início da fase adulta, precisou usar sua melhor máscara sociável para conseguir sobreviver. Sobreviver não apenas a faculdade que não queria cursar, como também a situação que encontrava quando estava em casa. O pai desempregado e entregue ao alcoolismo, a violência doméstica que sofria, os abusos, os maus tratos, a constante lembrança de que era uma criança estranha fizeram com que se esforçasse ao máximo para ser aceito.
Na faculdade, buscou fazer parte de todos os núcleos estudantis possíveis. Embora não tivesse a menor dificuldade com cálculos e economia, seu verdadeiro dom parecia ligado ao mundo artístico, revolucionário e abstrato como tudo em sua mente parecia funcionar. Mas, precisava de mais do que isso para ser considerado um cara bacana. Ele já era bonito, ainda que não percebesse e não ligasse, era inteligente, talentoso, mas não tinha habilidade nenhuma em manter amizades e azarar garotas.
Até então, na faculdade, somente Adley era seu amigo. Mas isso não era o suficiente. Não era o suficiente para camuflar um olho roxo quando voltava de casa, não era o suficiente para deixa-lo em paz.
Enquanto assistia sua vida se tornar um caos e seus sonhos serem jogados por água abaixo, esforçou-se o máximo possível para ser um rapaz sociável como todos esperavam que ele fosse. Na faculdade, frequentou todas as festas possíveis e impossíveis. Aprendeu a fazer piadas sem graça, aprendeu a flertar – ainda que desajeitadamente -, aprendeu a beber, a fumar e a conhecer as sensações de cada uma das drogas que estavam sendo usadas na época.
se tornou um cara bacana.
estava cercado de pessoas que o achavam um cara bacana.
E no entanto, nunca havia se sentido tão sozinho.
Assistir os seus sonhos serem massacrados diante dos seus olhos foi um marco importante em sua vida. Ser o piadista, o extrovertido, brincalhão e divertido não era mais necessário. Não na posição que almejava alcançar. Não na nova vida que precisava seguir. Ao deixar a fase de jovem adulto, aos poucos foi perdendo a máscara sociável, abraçando sua verdadeira essência solitária.
Isso até conhecer Charliet Whistler. A filha do seu chefe e uma das mulheres mais lindas e virtuosas que já tinha conhecido na vida.
Charliet era, para todos os efeitos, uma das maiores conquistas da vida de . Como uma luz no fim do túnel e uma calmaria em meio a tormenta. Ela era a pessoa com a voz doce e um perfume suave que aparentava ser uma princesa herdeira de um império, mas dava tudo por um hot-dog da esquina ao invés do caviar. Ela era companheira de cerveja, conversas existencialistas e sexo de qualidade.
Em muitos aspectos, não se considerava merecedor de uma mulher como ela. Mas, ainda assim, assistiu aos poucos sua vida se desvirtuando dos trilhos. Ainda que a amasse com todo coração, assistiu-se distanciar da mulher com quem escolhera passar o resto de sua vida.
Os cabelos grandes e rebeldes foram cortados e alinhados.
Os tênis foram substituídos por sapatos sociais.
As calças dois números maiores e as camisetas de bandas foram substituídas por terno e gravata.
As tardes acariciando as cordas do seu violão foram substituídas por pilhas e pilhas de contrato.
Seu sonho de mudar o mundo tinha acabado.
Bem como sua vida.
Tudo o que havia era mera existência. Nada no universo seria capaz de surpreende-lo ou tirar o fôlego novamente. Nada, nem mesmo uma bebida quente, um beck bem bolado, uma carreira de cocaína, bala, doce e em nem tampouco mulher alguma.
Nada, além do seu trabalho. Era a única coisa que havia restado.
Conformado em sua dor, abraçou a solidão.
Isso até aparecer em seus sonhos, perturbar sua mente e bagunçar suas memórias, fazendo-o reviver involuntariamente dias e dias da sua vida, perguntando-se como deixara chegar ao ponto que chegara.
“Como é possível conhecer alguém que não se conhece?”
- Sr. ? Sr. ? , eu tô falando com você! – despertou dos seus devaneios pela voz de Elle Simons que estalava seus longos dedos com unhas vermelho sangue a sua frente – Tá me ouvindo?
- Ah, desculpe Simons, o que você disse? – pigarreou empertigando-se na sua cadeira.
- Você estava balbuciando, falando sozinho. Tem certeza que tá tudo bem? – Elle perguntou semicerrando os olhos, sondando as reações do chefe.
- Falando sozinho? – perguntou sentindo um nó se formar na sua garganta. Não era a primeira vez que repetia as frases de em seus sonhos e devaneios.
- É, murmurando... Bom, enfim, eu estava falando sobre as ações da...
- Não é o momento ideal em investir. – respondeu taxativamente, fechando a pasta que Elle mostrava a sua frente, deixando-a com uma cara de taxo, boquiaberta e chocada.
- Mas...
- Eu já analisei essa proposta, é minha palavra final. – organizou os papéis, deu uma batidinha com eles na mesa e estendeu a mão entregando-os para Elle, que ainda permanecia parada a sua frente boquiaberta.
- Sr. ... – Elle começou, mas ao ver a expressão do chefe, resolveu mudar a abordagem, usando um tom mais ameno e suave. – ...
ergueu uma das sobrancelhas, levemente surpreso pelo uso do seu apelido tão informal e pela voz sedosa que Elle estava usando para falar com ele.
- Você está estressado. Está sob pressão, agora com esse novo cargo existem muitas responsabilidades nas suas costas. – Elle ia dizendo com uma voz mansa, enquanto movimentava-se lentamente até a cadeira de , ficando por trás dele, passando suas mãos por cima dos ombros do rapaz, que permanecia com o cenho franzido.
- Eu sei o que fazer para te relaxar. – Elle afastou o paletó de , de modo que seus dedos pudessem pressionar os ombros do rapaz por cima da camisa de botão, numa massagem lenta e cheia de segundas intenções. – Você precisa de um pouco de atenção. – Elle foi dizendo enquanto descia sua mão pelo peitoral de , conforme se abaixava para que seus seios encostassem na orelha do chefe.
- Elle, o que você está fazendo? – perguntou num tom de voz entediado, fechando os olhos para evitar de revira-los, segurando a mão da mulher que já descia ousada por sua barriga.
- Ué, está esquecendo dos velhos tempos? – Elle perguntou maliciosa e afastou a mão dela, levantando-se da cadeira e andando o mais distante dela possível.
- Isso foi há séculos atrás, Elle. Eu ainda estava solteiro, estávamos bêbados, foi apenas uma noite e já passou. Eu tenho a Charliet hoje, você sabe disso. – respondeu taxativamente, segurando nos dois lados da cintura, olhando para a moça com um tom de censura.
- Aaaargh! Eu não me conformo! Ela é tão sem sal! – Elle quase cuspiu ao se referir a Charliet, por quem nutria uma repulsa imensa.
- Ela é minha noiva. Você tem que se conformar. E respeitar. Não gosto que falem mal dela. – respondeu secamente. Sua lealdade fez Elle revirar os olhos e bufar com desdém.
- Sério? Sua noiva que todo mundo já percebeu que você não ama mais. É patético o relacionamento de vocês. Todo mundo saca e comenta nas suas costas, só não tem coragem de te dizer.
- O que você quer dizer com isso?
- Que todo mundo comenta sobre a frieza do relacionamento de vocês. E existem até apostas que vocês não vão se casar coisa alguma, sabia? – Elle soltou venenosamente e respirou fundo, tentando conter a raiva repentina que sentia não só dela, como de todos que falavam da sua vida por aí.
- Simons, sai da minha sala antes que eu te demita.
- O quê? – Elle perguntou perplexa e passou uma das mãos pelo cabelo com impaciência.
- Não sei se você sabe, mas essa empresa agora é minha. E eu coloco quem eu quiser pra fora. Quem falar mal da Charliet está fora dela. Quer ser a primeira? Não me teste.
Elle Simons pensou em responder alguma coisa, mas algo no tom de voz de lhe fez perceber que ele não estava para brincadeiras nem falsas ameaças. Suspirando fundo, contendo o desejo de dizer uns desaforos, Elle recolheu a papelada em cima da mesa e deu as costas rumando para porta da sala em completo silêncio.
- E a partir de hoje você só se refere a mim por Sr. . Feche a porta quando sair. – completou, voltando a se sentar na cadeira.
Temendo por seu emprego, Elle engoliu seu orgulho e saiu da sala fechando a porta atrás de si, deixando um absorto em pensamentos.
Apesar da petulância de Elle, não poderia deixar de pensar no que ela tinha acabado de dizer. Ter pessoas cochichando sobre as esquisitices dele nunca fora surpresa, e, depois de um tempo, deixaram de ser um incômodo. Mas ter pessoas cochichando sobre Charliet, era um desconforto imenso para ele. Ainda mais por saber que era o responsável por tais rumores. Por não estar fazendo-a feliz. Por saber que apesar de cruéis, as más línguas tinham razão: o relacionamento deles estava fadado a acabar.
E não havia nada que pudesse fazer a respeito.

***


adorava dirigir à noite.
Gostava de contemplar a beleza da sua cidade reluzindo sobre as luzes dos postes, dos faróis dos carros e das janelas dos prédios. Quanto mais tarde fosse, melhor. Não precisava se preocupar com o trânsito tendo a pista livre só para ele.
Era um pouco mais de meia noite quando ele se deu conta do horário e resolveu sair da Whister’s Company para ir para casa. Perdera a noção do horário estando tão absorto nas suas novas demandas. Havia marcado uma reunião extra com os conselheiros e depois ficara até um pouco mais tarde revisando algumas papeladas.
Sentia-se cansado. Apesar de satisfeito com o desempenho que tivera e com a produtividade do dia, sentia-se esgotado física e psicologicamente. Tudo o que conseguia pensar era em tomar um banho quente, comer alguma coisa e ir direto para cama.
O sinal a sua frente se fechou e instantaneamente relaxou no volante, encostando sua cabeça no banco sentindo suas costas doerem. Aumentou um pouco o volume ouvindo os primeiros acordes de Yellow do Coldplay ecoarem pelo carro.
Deixou seu olhar vagar pela paisagem a sua volta. Não havia muito o que se ver nesta rua em especial. Estava tudo mal iluminado e a única coisa que podia enxergar era um ponto de ônibus deserto.
No entanto, algo chamou a atenção de . Algo verde se movia sobre o banco do ponto, grande o suficiente para ser uma pessoa sentada e encolhida. Apertou os olhos tentando enxergar melhor, apenas pela curiosidade de saber quem seria a pessoa corajosa o suficiente para estar sentada sozinha naquele lugar deserto e perigoso.
Somente quando o pacote verde se movimentou, pôde perceber a cascata de cabelos vívidos. Reconheceu, aos poucos, a silhueta de uma mulher. Abraçada em posição fetal, se encolhia movimentando-se para frente e para trás.
Aquela era sem dúvida alguma, .
sentiu-se gelado de repente. Apreensivo, tenso, em sinal de alerta. O que ela estava fazendo aquela hora da noite encolhida e sozinha num ponto de ônibus deserto e mal iluminado?
foi desperto pelo som da buzina do carro que estava atrás do seu, dando-se conta no seu momento de contemplação que o sinal já estava aberto novamente. Não sabia dizer muito bem o porquê de estar fazendo aquilo, mas seu instinto falou mais alto. Acelerando um pouco, afastou-se da pista rumando para o acostamento o mais próximo do ponto de ônibus, onde estacionou o carro e desceu.
A claridade dos faróis acesos chamou a atenção de , que ergueu a cabeça assustada numa careta cega.
Somente quando seus olhos se acostumaram com a claridade, ela pôde reconhecer a silhueta de que agora andava em sua direção.
- O q-que você está fazendo aqui? – Ela perguntou trêmula. Assustada e friorenta.
- Eu é quem te pergunto. O que você está fazendo aqui a essa hora e sozinha? – revidou visivelmente preocupado. Talvez o tom de voz de tivesse sido tão sincero que pareceu relaxar involuntariamente. Ele não tinha intenção de te fazer mal.
- É uma lo-longa hist-tória. – respondeu com a mandíbula trêmula de frio. percebeu que sua camisa de flanela era fina demais para dar conta do frio cortante daquela noite. Ela deveria estar congelando!
Instantaneamente, aproximou-se da menina retirando seu sobretudo e colocando por cima dela, que naquele momento não parecia desbocada nem orgulhosa o suficiente para negar a gentileza. Ela estava roxa de tanto frio.
- Sei que sou um completo estranho, e você não confia em mim. Mas você não deveria estar aqui sozinha uma hora dessas, é perigoso. Venha, vou te dar uma carona até sua casa. – ofereceu e permaneceu imóvel no banco, lhe encarando de maneira desconfiada e assustada. percebeu que uma lágrima solitária manchava o rosto tão bonito da menina.
Aquela imagem lhe partiu um pouco o coração. Nos poucos momentos que estivera com a garota, lhe parecera tão firme. Vê-la vulnerável foi uma surpresa desagradável e naquele momento sentia raiva de algo ou de alguém que pudesse ter lhe feito mal.
- Não quero te fazer mal. Não sou um maníaco nem nada.
- Isso é o que todos dizem. – respondeu prontamente e deu um sorriso de lado, concordando.
- Se você quiser, posso pedir um táxi e esperar aqui com você até que ele chegue. – ofereceu e lhe encarou com uma emoção difícil de decifrar.
- Você não vai embora mesmo, não é?
- Não vou te deixar aqui sozinha.
- Já te ocorreu que eu posso ser uma maníaca ou perigosa? Você também não me conhece. – falou sombriamente e jurou ter sentido um arrepio percorrer sua espinha.
- Bobagem, você está indefesa e vulnerável, não faria mal a uma mosca. – Ele respondeu num tom falsamente divertido e riu amargurada.
- Você está me subestimando. Talvez seja essa minha intenção, te fazer de besta e arrancar seus órgãos e vender no mercado negro.
- Tudo bem, vou correr o risco. Posso pedir seu táxi? – falou retirando o celular do bolso e suspirou, limpando a lágrima que ainda escorria do seu rosto.
- Não precisa. Eu acredito em você. – Ela respondeu, levantando-se do banco ainda trêmula de frio, agarrada ao sobretudo de como se estivesse agarrando-se a vida.
- Vai aceitar minha carona? – Ele perguntou surpreso e ela balançou a cabeça em afirmação.
Quando se aproximou do carro, abriu a porta do carona para ela, estendendo uma mão para que ela entrasse. Assim que ela estava segura sentada no banco, fechou a porta e andou rapidamente até o seu lugar, preocupado em dar partida no carro e sair daquele lugar mal iluminado e perigoso em que se encontravam.
- Então, o que fazia naquele banco a essa hora? – perguntou calmamente assim que deu partida no carro. Sentia-se estranho por estar tendo uma conversa real com , não apenas esbarrões, ofensas, preconceitos e nem muito menos frases desconexas e misteriosas durante seus sonhos estranhos.
- É culpa do Justin, meu namorado. – respondeu num suspiro fundo e cansado, afundando-se no banco do carona, parecendo mais infeliz do que jamais havia visto alguém ser. Sua expressão estava derrotada e ela parecia muitos anos mais velha. Uma áurea turva e carregada estava apoderando-se de naquele momento.
- Ele te fez alguma coisa? – perguntou gentilmente enquanto apertava os nós dos dedos no volante com um pouco mais de força. reprimiu uma fungada de leve e percebeu que ela fazia um esforço gigantesco para não chorar. – Tudo bem se você quiser chorar.
- Eu não choro. Chorar é coisa de gente patética. – Ela respondeu secamente e suspirou, sorrindo pacientemente enquanto dirigia, balançando a cabeça em negação.
- Não existe problema nenhum em chorar. Isso não te faz fraca. Na verdade, você me parece muito forte. – soltou sem pensar e não pode discordar de , quando ela disse petulante.
- Você não me conhece.
- Tem razão, me desculpe. – Ele respondeu envergonhado e pronto para seguir o resto da viagem em silêncio, apenas seguindo o caminho indicado por ela.
Alguns minutos se passaram de “esquerda, direita” e ouviu suspirar ruidosamente mais uma vez.
- Me desculpe. Fui grosseira mais uma vez. – Ela disse de repente e surpreendeu-se positivamente, um pouco menos constrangido.
- Tudo bem, você está triste.
- Isso não justifica. – Ela respondeu e permaneceu em silêncio. – Ele é um babaca... Nós brigamos e ele me expulsou do carro. Me deixou sozinha no banco.
- Ele te deixou sozinha por conta de uma briga? – perguntou horrorizado vendo afirmar com a cabeça, sentindo-se humilhada, forçando uma expressão dura.
- E as minhas coisas estão com ele. Minha bolsa, meu celular, dinheiro, tudo. Só tenho a chave da minha casa no bolso. – explicou e sentiu uma raiva fulminante desse tal Justin crescer dentro de si. Que cara babaca! Como alguém que se preze deixa uma mulher sozinha, desprotegida, sem suas próprias coisas, a mercê de marginais e estupradores num ponto de ônibus vazio e escuro numa rua deserta a essa hora da noite?
- Suponho que a essa altura do campeonato ele seja um ex, não é? – perguntou involuntariamente e notou por reflexo, o corpo de remexer desconfortavelmente ao seu lado. Ela permaneceu calada – Você vai conti
nuar com ele? – complementou incapaz de se conter, visivelmente chocado. - Não é tão simples, ok? Nós somos de brigar muito, eu já tô acostumada. – respondeu na defensiva e boquiabriu-se sem se preocupar em esconder seu choque e desaprovação.
- Você não dever...
- Não fala sobre o que eu devo ou não fazer, nem fala como se você me conhecesse ou soubesse algo sobre minha vida! Você não entende! Não é fácil. – bradou irritada e arqueou as sobrancelhas e deu de ombros, calando-se novamente.
suspirou mais uma vez, passando as mãos pelo rosto e afastando os cabelos.
- Arhg, me desculpe mais uma vez, é só que esse é um assunto que eu não gosto de falar.
- Não tem problema, você tem razão, não é da minha conta, não me importo com o que você faz ou deixa de fazer da sua vida. – respondeu amuado e deu um meio sorriso, animando-se um pouco.
- Não parece, se não se importasse, não teria parado o carro e nem me ofereceria carona. Nem estaria com raiva de um cara que nem conhece.
- Não seja tão convencida. Eu faria isso por qualquer pessoa. – revirou os olhos e riu baixinho.
- Será?
- Sim, faria. Esse sou eu. E ok que você tem um relacionamento complicado com um imbecil que te larga sozinha a mercê de qualquer tipo de perigo só por uma briga boba de namorados. E ok que você defenda ele, não tenho nada a ver com isso.
- Você deve me achar uma idiota. – respondeu com um risinho amargurado e balançou a cabeça em negação.
- Não te acho idiota, só não entendo por que continuar com uma pessoa que não te ama da forma como você merece. Nem te trata bem. – respondeu simplesmente.
- Vai ver é pelo mesmo motivo que sua noiva continua com você. – revidou e arregalou os olhos, sendo pego de surpresa com aquela acusação. Quem aquela atrevida pensava que era para falar do seu relacionamento com Charliet?
- Eu jamais faria isso com ela! Não existe a menor comparação! Nós nem brigamos! – exclamou ultrajado e apenas revirou os olhos, rindo debochada.
- Ok, talvez não briguem mesmo. Mas eu observei a forma como você olhava pra ela, na verdade, a forma como não olhava. E ela tentando chamar sua atenção e você sendo frio. Por que será que ela continua com você, se você não a ama da forma que ela merece?
sentiu um peso enorme cair sobre suas costas ao ouvir a segunda pessoa dizer naquele mesmo dia que ele era frio com Charliet. Uma coisa era aquilo se tornar visível para Elle, que de certa forma conhecia e tinha mais convívio com o casal. Outra coisa era , uma estranha que só os vira uma vez na vida ter aquela mesma impressão.
- Não fale do que você não sabe. Você não conhece nosso relacionamento. – respondeu enraivado e abriu os braços e fechou os olhos com cinismo, numa clara expressão de “eu disse”.
- Ótimo, agora chegamos num ponto em comum. – Ela respondeu e fechou a cara ainda mais.
- Ok, não direi uma palavra sobre seu namoro. Não está mais aqui quem falou.
O resto do trajeto passou em completo silêncio. Cada um absorto nos seus próprios pensamentos e sentimentos. sentia-se ultrajado, incomodado, inconformado, enraivado e envergonhado. Como era petulante! Como ela era irritante e como ela podia ter razão? Ela não o conhecia. E no entanto parecia conhece-lo tão bem.
- Onde você mora? – foi acordado do seu devaneio pela voz de , que ecoou mais dócil e calma do que há alguns segundos atrás. Que menina bipolar!
- Há algumas ruas, perto do parque. - respondeu mal humorado e assentiu incomodada olhando pela janela do carro. suspirou, sentindo-se muito grosseiro – E você? Já estamos chegando?
- Hm... Não, na verdade estou um pouco arrependida de ter vindo.
- Preferia ter ficado sozinha lá? Posso fazer o retorno. – respondeu fulminante, mas apenas sorriu docemente, negando com a cabeça. – Então o que é?
- Nós somos pessoas muito diferentes. – Ela se resumiu a dizer e não pode concordar mais.
Mas, na verdade, o motivo pelo qual dissera que eles eram diferentes, não era bem aquele que estivera pensando. Assim que seguiu as coordenadas dadas pela garota, foi parar num bairro humilde e não muito bem frequentado. As ruelas escuras e desertas indicaram que tinham chegado ao destino. apontou para sua casa e pôde constatar que era dessa diferença a qual ela se referia. Classes sociais completamente opostas. Numa casinha minúscula, mal pintada e tijolos do lado de fora no final da rua, morava .
- Bom, é aqui que eu fico. – Ela disse assim que ele freou o carro, estacionando bem em frente a porta da sua casa.
- Ok... Boa noite.
- Obrigada, . – falou com uma voz baixa e sincera, carregada de gratidão. Não havia sinal de deboche, ironia, sarcasmo e nem tampouco a irritação que era característica dela.
- Tudo bem... Não há de quê, sério. Não quis me meter em sua vida, desculpa. – disse sinceramente e apenas sorriu, assentindo com a cabeça.
- Também não quis me meter na sua. Me desculpe.
Os dois sorriram um para o outro. Um sorriso singelo e sincero. estendeu a mão a que aceitou, sacudindo-a.
- Tchau, ! Boa noite. – disse, saindo do carro, batendo a porta atrás de si e correndo até o portão de sua casa.
Somente quando ela já estava dentro de casa, arrastou com o carro, dando meia volta para sair daquele bairro e ir em direção a sua casa. A cabeça fervilhando de pensamentos.
Embora não quisesse admitir, desejou que pudesse esbarrar com novamente algum dia. Ainda não conseguia decidir se gostava ou não da garota, mas com certeza havia algo sobre ela que despertava seu interesse.


VII

First impressions



Contrariando suas expectativas secretas, um mês se passou sem que tivesse o menor sinal da presença de .

Um mês sem esbarrões e encontros inesperados no meio da rua. Um mês sem aqueles cabelos vívidos, os olhos misteriosos e o sorriso debochado que invadiram seu sono por mais vezes do que gostaria de admitir.
A vida estava na mesma rotina de sempre. Para todos os efeitos, estava tudo bem.
Exceto que não estava.
Agora com o cargo de CEO, comandava todas as grandes decisões da Whistler’s Company, isso significava bater o martelo e dizer não para muitas pessoas. Algo que ele nunca gostou de fazer.
Ser o CEO significava ser ainda mais bajulado em troca de favores pessoais e profissionais. Significava ser convidado para todos os eventos da alta sociedade e disputado pelas revistas para uma entrevista exclusiva. Apesar de toda essa atenção, no entanto, não se sentia mais amado, mais querido ou mais respeitado. Pelo contrário, mais do que nunca ouvia cochichos maldosos pelos corredores, mais do que nunca sentia sua nuca arder com olhares fuzilantes e invejosos atrás de si.
Era com esse pensamento perambulando por sua mente que estava deitado em sua cama, de barriga para cima, às 7h, em plena segunda-feira. Em sua rotina milimetricamente pensada, essa hora ele já não deveria mais estar deitado. No entanto, não sentia vontade alguma de ir trabalhar.
Em todos os anos que trabalhava na W.C, conseguia contar nos dedos as vezes que tinha faltado. Nenhuma delas por motivos fúteis como “Não estou a fim de ir hoje”.
Só o pensamento de não ter que pisar na Whistler’s Company foi capaz de revirar as entranhas de . Sentia-se empolgado com a simples perspectiva de não fazer nada. De repente, uma série de acontecimentos fictícios bombardearam a cabeça de com um futuro utópico em que ele decidia não ir trabalhar e ficar em casa.
Um dia inteiro sem reuniões. Um dia inteiro sem aturar as investidas ou as provocações de Elle, um dia sem decisões importantes, sem bajular pessoas sem caráter atrás de ações e favores. Um dia inteiro sem conceder favores a pessoas que não gostavam dele verdadeiramente. Um dia inteiro sem precisar usar terno, gravata e ser o CEO da Whistler’s Company.
Um dia inteiro sendo apenas ser .
Quem quer que ele fosse, que agora já nem lembrava mais.
Tateou o criado mudo em busca do celular, digitou uma mensagem para Norah pedindo para cancelar todos seus compromissos para a tarde e suspirou ruidosamente, sentindo-se aliviado instantaneamente, sem nem ao menos se dar ao trabalho de verificar a resposta dela.
Sentia-se rebelde, transgredindo regras.
Com a mesma rapidez que essa chama de felicidade se acendeu nele, no entanto, ela foi apagada. O que iria fazer o dia inteiro sem trabalhar? O que pessoas normais fariam? Olhou para Kenobi que brincava alegremente com uma bolinha ao seu lado. Há quanto tempo seu cachorro não via a luz do dia? Seria saudável dar um passeio pelo parque que ficava há poucos metros de sua casa.
O mesmo parque que encontrara sentada sob uma árvore há semanas atrás.
Mas, não poderia ser.
Mas, e se?
Com um frio na barriga, levantou-se de sobressalto sentindo-se empolgado de repente.
- Vamos, Kenobi! Vamos passear. – Sentenciou observando o cachorro saltitar alegremente em sua direção.

***


caminhava tranquilamente pelo parque segurando a coleira de um animado e serelepe Kenobi que parecia ter ganhado na loteria canina brincando ao ar livre. Desajeitadamente caçava borboletas, cheirava e lambia crianças e atraía diversos olhares e carinhos por onde passava. Por mais distraído que fosse, pôde perceber como recebia mais olhares cobiçosos pela companhia do cachorro. Algumas mulheres passavam por perto para alisar as dobrinhas do seu pug e sorriam abertamente para o dono como se tivessem alguma esperança de conseguir “o telefone do Kenobi”, sem sucesso. Até alguns rapazes lhe lançaram olhares amistosos, mas não se importou. Nunca se importava.
Continuou o seu trajeto despreocupadamente até avistar uma árvore estranhamente familiar. Não costumava perambular pelo parque e nem lembrava de ter passado mais do que uma hora dentro dele, mas a sensação de conforto e segurança que sentia ali era tão certa que continuou andando naquela direção. Instintivamente rolou os olhos pelo local, mesmo sem saber exatamente pelo que procurava, tentando afastar o desapontamento minúsculo que tentava invadir seus pensamentos.
Ao se aproximar do tronco da árvore, Kenobi pulou alegremente e logo levantou uma de suas patinhas para urinar. franziu o cenho e sorriu estranhamente. Não lhe parecia certo deixar o cachorro fazer xixi naquela árvore. Mas ao mesmo tempo, não parecia coerente impedir Kenobi de saciar suas vontades na natureza. Seus pensamentos foram interrompidos por uma voz tão familiar quanto aquela árvore, que assim como ela, também habitava seus sonhos há um bom tempo.
E a voz de não parecia nem um pouco contente.
- O que você pensa que está fazendo? Deixando seu cachorro fazer xixi na MINHA ÁRVORE? Xô monstro, xô! – girou nos calcanhares sentindo um formigamento estranho na barriga ao encarar uma massa de cabelos esvoaçantes chicotearem o ar enquanto a menina andava apressada em sua direção.
- Ei, não fale assim com ele! – exclamou, mas Kenobi já tinha terminado seu serviço e caminhava desajeitadamente na grama como se não tivesse feito nada de errado.
- Você deixa seu cachorro fazer xixi na MINHA ÁRVORE e quer que eu faça o quê? – bradou irritada e bufou debochadamente.
- Não enxerguei uma placa escrito “essa árvore pertence a uma raposa estressadinha”. revidou e riu satisfeito ao ver arregalar os olhos com o apelido. – Além do mais, ele é um cachorro, ele precisa fazer as necessidades dele na natureza.
- Argh! Cachorros são nojentos! Por que você não adota um gato que faz as necessidades numa areinha ao invés de pagar uma fortuna por um cachorro de raça e ainda ajuda a financiar essa crueldade com os animais? – disparou a falar.
- E quem te disse que eu comprei? Eu adotei! Sua linguaruda impertinente! – respondeu imediatamente, tomado pela raiva iminente que sentia da garota. Quase arrependeu-se de ter explodido ao visualizar a expressão ofendida de , mas não durou muito tempo porque logo ela se recompôs.
- Linguaruda coisa nenhuma! O que é que você quer? Uma salva de aplausos por ser um engomadinho metido a besta que uma vez na vida fez algo de bom para o mundo?
- Você se acha a dona da verdade, não é? Sei o que você pensa sobre mim. Que eu sou um engomadinho de família rica, mimado e que segui a carreira dos meus pais, que eu sempre tive os melhores carros, as garotas mais bonitas e que não dou valor a nada. – disse amargurado e ergueu uma sobrancelha como se dissesse “E não é?”. – Você está muito enganada a meu respeito.
- Que seja! E você acha que eu sou uma rebelde sem causa metida, universitária maconheira que na verdade não passa de uma menina mimada que não reconhece os próprios privilégios, preconceituosa, linguaruda, enxerida, grosseira e que se acha a dona da razão. Mais alguma coisa?
- Na verdade, tenho sim. – ponderou e semicerrou os olhos. – Esqueceu de acrescentar que você é estressadinha.
rolou os olhos e fez uma careta e reprimiu uma risadinha nasalada. Ficaram em silêncio por alguns segundos observando, enquanto Kenobi mordia algumas flores ali por perto.
- E então, você de novo... O que faz por aqui? Pessoas do seu porte não deveriam estar trabalhando dia de hoje? – perguntou num tom de voz mais ameno quebrando o silêncio e sorriu dando de ombros.
- Benefícios de ser chefe, eu posso faltar a hora que eu quiser.
- Aah, os problemas da burguesia... – disse em tom falso de divagação e riu mais uma vez divertindo-se.
- Você se acha tão diferente assim de mim... Mas até pouco tempo atrás eu era assim como você. – respondeu e percebeu com satisfação chocar-se.
- O que? Impossível! Você e eu não temos nada a ver um com o outro.
- Eu também quis acreditar nisso. Na verdade, confesso que te acho irritante justamente porque você me lembra um pouco de mim mesmo quando mais novo. Cheio de planos mirabolantes e revolucionários querendo mudar o mundo e quebrar a cabeça dos conservadores sem perceber que eu também estava sendo radical demais... – confessou e admirou-se por estar se explicando para e mantendo uma conversa sincera com ela. Não devia explicações para ela, não a conhecia. Não a conhecia.
não sabia por que era tão difícil colocar em sua mente que ele não conhecia e, portanto, não podia dizer nada sobre ela ou sobre qualquer semelhança entre os dois que não fosse fruto de mero preconceito formado.
- Confesso que depois que te vi na festa da Whistler’s Company, passei a te achar diferente também. E quando você me deu a carona... – disse um pouco menos arredia. – Como você se tornou um engomadinho metido a besta então?
- Você tira conclusões precipitadas sobre coisas que não conhece. Você me viu uma vez, esbarrou em mim num dia ruim e pronto: foi o suficiente para concluir que eu era uma pessoa arrogante e mesquinha que não se importa com ninguém além de mim mesmo. Me viu interagindo com minha noiva uma vez e concluiu que sou machista e não lhe dou a devida atenção. Me viu de terno e gravata, recebendo posse num cargo alto de uma empresa e concluiu por conta própria que eu era um engomadinho metido a besta que não dá a mínima para os fracos e oprimidos e achou que eu iria te julgar por uma moradia inferior. Você tem muito o que aprender.
desabafou antes mesmo de conseguir refrear os pensamentos. Era isso que inevitavelmente acabava acontecendo quando estava na presença de : para o bem ou para o mal, sempre acabava sendo ele mesmo.
ficou calada por alguns instantes, apenas absorvendo as palavras de como se tivessem sido ditas em um linguajar rebuscado que ela não conseguia entender. Disfarçou seu momento desconcertado com um sorriso mínimo.
- Talvez eu tenha. Mas talvez você tenha regredido bastante nos seus aprendizados. Como você pode ter sido uma pessoa tão engajada e agora seja tão engomadinho? Isso me soa hipócrita!
- Sabe o que me soa hipócrita? Você pagar de feminista, mas ter um relacionamento com um cara merda que te larga no meio da rua sozinha numa noite deserta e ainda se recusar a falar mal dele! Antes de apontar as falhas dos outros, por que você não se olha no espelho?
não precisava ter visto os olhos marejados de para saber que tinha pegado pesado em suas palavras. Sabia que tinha ido longe demais e não fazia ideia do porquê estar tão impulsivo naquele dia. lhe dava nos nervos! Era respondona, irritante, preconceituosa, dona da razão, debochada, mas, ainda assim, não merecia ter seu relacionamento visivelmente abusivo sendo esfregado em sua cara de maneira tão dolorosa por uma pessoa desconhecida. sabia que tinha pisado na bola.
- Me desculpe, eu não quis dizer isso.
- Você quis sim e você disse. – respondeu duramente com os olhos marejados. Inclinou um pouco a cabeça para cima e empinou quase que imperceptivelmente o nariz numa clara tentativa de não deixar as lágrimas caírem. Respirou fundo antes de responder ao olhar arrependido de .
- Mas não tem problema, você tem razão. Eu falei da sua vida, fui intrometida e tirei conclusões precipitadas onde não devia e você fez o mesmo.
- Não, eu passei dos limites, me desculpe, não sei o que veio na minha cabeça. – continuou sentindo-se péssimo consigo mesmo. Tinha certeza que essa era a hora que iria sair correndo e eles nunca mais iriam se esbarrar de novo.
- Por que? De qualquer forma, você tem razão. Justin não é coerente com o que eu penso, acredito e sei que mereço. – deu de ombros num sorriso visivelmente magoado – Mas não é fácil, ok? Nunca ache que esse tipo de escolha é fácil.
- Não acho que seja. Mas é que você é uma menina tão...
- Tão o que? Mimada, revoltada e estressadinha? Vai ver não é exatamente esse tipo de cara que eu deveria atrair para minha vida? – respondeu num bufo de escárnio e acenou negativamente com a cabeça.
- Não. Você é uma pessoa cheia de sonhos tão bonitos e tanta sede de viver. E tem um bom coração, não deveria atrair esse tipo de pessoa na sua vida e nem deveria permitir que continuassem nela. – respondeu sentindo a veracidade daquelas palavras lhe atingirem em cheio.
- Como você pode dizer essas coisas sobre mim? Você não...
- Eu conheço seus sonhos. Tem algo mais íntimo do que isso? – respondeu antes que pudesse evitar e quase se arrependeu do que disse ao ver a expressão no rosto de mudar. Ela estava ruborizada. Uma sensação nova que ele ainda não tinha visto no semblante da garota. Ela estava envergonhada. Encantadoramente envergonhada.
- V- Você leu? – Ela perguntou embora já soubesse a resposta.
- Li sim, não achei que fosse te ver novamente para devolver e acabei me envolvendo com ele. É como você disse certa vez, ele é mágico. – respondeu francamente e sorriu fracamente por ouvir a resposta dele.
- Obrigada.
- Isso significa dizer que você me desculpa pelo que eu disse? – perguntou ainda incerto e deu uma risadinha baixa sem deboche e sem escárnio. sentiu algo dentro de si despertar. Já escutara aquela voz doce antes.
- Sim, percebi que independente dos meus esforços, não consigo ter raiva de você por muito tempo. – respondeu dando de ombros e sorriu aliviado.
- Mas se te interessa saber, eu não estou mais com ele, ok? – continuou e ergueu o olhar para ela parecendo espantado com essa informação. – Terminei com ele há algumas semanas, mas agora ele não sai do meu pé. Tem sido difícil.
ficou em silêncio por alguns segundos com o repentino desabafo da garota que já não podia dizer que era uma desconhecida. sabia mais coisas a respeito de do que sabia de vários colegas de trabalho com quem convivia há anos.
- Você está bem? – perguntou e deu de ombros, indiferente.
- Já estive pior. Sei que vai passar.
- Vai sim, tudo sempre passa. E se você precisar de ajuda para tirar ele do seu pé, conte comigo. – disse divertido e riu retirando uma mecha de cabelo do rosto.
- Por que você é tão legal comigo às vezes? Digo, eu sou sempre tão grossa e tão cheia de preconceitos com você e no entanto, das vezes que você pode ser legal, você é simplesmente legal. Por que? A gente nem se conhe... – ia questionando quando foi interrompida por .
- Sabe, eu não aguento mais isso. Estamos constantemente dizendo “você não me conhece” “a gente nem se conhece” e no entanto, estamos sempre nos batendo na rua, derrubando coisas no chão, brigando, ofendendo, descobrindo... Acho que sei mais coisas sobre você do que sobre muita gente que convive comigo. Além do mais, nunca é tarde para mudar essa realidade. E sobre eu ser legal com você... Bom, eu sou assim. Eu acho.
respondeu e sorriu. Não lembrava qual tinha sido a última vez que tinha feito uma gentileza gratuita para alguém, mas sabia que esse tipo de comportamento não era totalmente estranho a sua personalidade. Sempre fora muito altruísta e preocupado com os sentimentos das pessoas ao seu redor. Conhecidas ou não.
- Você é uma pessoa estranha, . – disse e sorriu por perceber que não era o único a lembrar o nome e sobrenome de batismo.
- Você está com tempo? Digo... está ocupada? – perguntou e franziu o cenho incerta.
- Na verdade, eu vim aqui para estudar. Costumo sentar nas raízes dessa árvore para estudar. – explicou, antes de mudar o tom de voz para um levemente acusatório. – Isso se o seu cachorro não tivesse mijado tudo.
- Ok, ok. Quer dar um passeio? Te desafio a um jogo. Você pode estudar depois. – propôs sentindo-se animado de repente. Não sabia de onde essas oscilações de humor estavam vindo, mas estava aprovando essa em particular. Descobriu que ter uma conversa cordial e educada com era mais produtivo do que brigar e proferir ofensas.
- Um jogo? – Ela questionou com as sobrancelhas arqueadas.
- Sim, de perguntas e respostas para quebrar as primeiras impressões falhas que tivemos um sobre o outro. E ai, você topa?
- Você tá falando sério? – perguntou numa expressão cômica e riu despreocupado da incredulidade dela.
- Por que não? Não estamos sempre desafiando o destino nos esbarrando por aí? Pelo menos hoje vamos nos despedir conhecendo um pouco mais além de um engomadinho metido a besta e uma raposinha estressadinha. – respondeu dando de ombros.
- Por que raposinha? – perguntou de repente e riu.
- Essa é sua primeira pergunta, então?
- Não, não vale.
- Ok, sua primeira pergunta. – riu vendo revirar os olhos. Segurou a coleira de Kenobi e guiou o cachorrinho de volta para o passeio, sendo seguido por .
- Bom, raposinha porque você me lembra uma raposa a primeira vista. Aposto que já te disseram isso. – respondeu e acenou negativamente – Não? Nunca? Nossa, que pessoas sem senso de semelhança.
- Vai, sua vez. – disse rindo e sorriu.
- Por que você não gosta de cachorros?
- Aaaargh! Por que eles são muito bobos! Se você brigar com um cachorro ele vai voltar abanando o rabo em dois segundos. E os humanos costumam gostar de cachorros porque não gostam de ter ordens contrariadas, gostam de ser amados. Eu prefiro os gatos. Gatos fazem o que querem, são independentes e te amam se quiserem, não porque são pertences.
- Mas nem todo cachorro gosta de todo mundo! – revidou e abanou a mão como se aquele fato fosse sem relevância.
- Seu cachorro por exemplo, não foi com a minha cara. E a recíproca foi verdadeira. Mijão!
- Como você pode resistir a essa carinha cheia de dobrinhas? – disse pegando Kenobi no colo e quase esfregando no rosto de que fez careta e riu se afastando.
- Ele parece um monstrinho. – Ela respondeu observando colocar o cachorro no chão novamente.
- Você é má, não confio em quem prefere gatos do que cachorros. – respondeu e acenou um até logo com a mão e eles riram.
- Sua vez. – disse.
- Qual sua cor favorita? – perguntou e sorriu.
- Azul! E a sua?
- Isso já vale como sua próxima pergunta? – perguntou e acenou negativamente com a cabeça rindo. – Argh, ok. Depende do meu humor. Eu gosto muito de vermelho hoje... Sua vez.
- Qual sua banda favorita?
- Coldplay! – respondeu animada e fez uma careta com o nariz que não passou despercebida pela garota. – O que foi? Nem vem, eles são ótimos.
- Eles são no máximo ok. Eu ainda prefiro Radiohead. – respondeu simplesmente e bufou revirando os olhos impaciente.
- Sabia que dá para apreciar as duas bandas sem precisar ficar comparando?
- Sabia que Coldplay imita Radiohead?
- Não imita não!
- Imita sim!
- Não imita não!
Em meio a discussões, risadas e perguntas, e agora sabiam um pouco mais um sobre o outro do que apenas primeiras impressões frustradas que não passavam com veracidade a espontaneidade um do outro. Descobriram as diferenças e principalmente as semelhanças.
Tanto quanto adoravam o filme Wall-E, choraram com o final de Toy Story III, adoravam comer pizza gelada no café da manhã, eram viciados em café, gostavam de dormir ouvindo música clássica, tinham lido Tolstoy, Bauman e Nietzsche, amavam pop rock, eram fãs de cinema antigo, tocavam violão e não tinham tanta facilidade em socializar com pessoas.
- Você tem cara de ser uma pessoa super sociável entre os ricos. Daqueles cheios de amigos e etc. – disse depois de descobrir que assim como ela, também era uma pessoa pouco sociável.
- E você tem cara de líder de sala, da moderadora do grupo feminista do facebook, cheia de curtidas nas fotos. – respondeu e riu gostosamente.
Além disso, ficou abismada em saber que já fez parte de grêmio estudantil, foi líder em manifestação e sonhava em fazer trabalhos filantrópicos pelo mundo antes de seguir alguma carreira. omitiu a parte do pai alcoólatra, mas contou rapidamente sobre pressões familiares e como desistiu dos sonhos que outrora foram tão importantes em sua vida.
- Sua noiva... Como a conheceu? – perguntou minutos depois quando sua vez chegou novamente.
coçou a nuca de repente ao se lembrar de Charliet. Não havia mandado nenhuma mensagem ainda e ela provavelmente já sabia que ele não tinha ido trabalhar e ficaria preocupada. Rapidamente resumiu a história já tão conhecida: filha do chefe, jantares, drinks, encontros, apaixonaram-se e iriam se casar. Ponto final.
- Você a ama? – perguntou e deu um sorriso amarelo.
- Agora é a minha vez.
- Eu pulo a minha vez, sem problemas. Você a ama?
- Não é assim que funciona a brincadeira!
- Você a ama?
ficou em silêncio desconfortável por alguns segundos. Era para ser um jogo divertido e espontâneo entre duas pessoas desconhecidas que estavam tentando sair desse patamar. Era para perguntar sobre cor favorita, cheiro favorito, comida, bebida, livros e coisas bobas que passavam despercebidas no dia a dia. Por que tinha que complicar fazendo perguntas tensas como seu passado ou seu relacionamento com Charliet?
- Amo sim. – Ele respondeu por fim já dando indícios de que iria fazer sua pergunta.
- Tem certeza? – perguntou sem se conter, mas fez uma cara de “não tá mais aqui quem falou” quando recebeu o olhar de .
- Tenho. Charliet é uma mulher virtuosa que eu admiro, respeito e confio. Se for para me casar com alguém, quero que seja com ela. – respondeu simplesmente e sorriu sem graça, parecendo se dar por satisfeita na resposta.
Continuaram com aquele joguinho por mais algumas perguntas bobas até que Kenobi começou a pular nos pés de implorando por colo. O ânimo e euforia por estar passeando tinham finalmente passado e ele estava exausto querendo sua tigela de água, seu potinho de ração e uma soneca dos justos.
- O tempo passou e eu me distrai. Acho que é hora de voltar. – sentenciou e sorriu em concordância tamborilando os dedos sobre os livros que carregava nos braços.
- Sim, eu preciso estudar.
- Nossa, eu nem te perguntei do que é que você faz faculdade! – deu-se conta e sorriu serelepe.
- Essa fica para próxima vez então.
sorriu e foi acompanhado por . Ele estendeu a mão para cumprimentar a garota que logo aceitou e apertou sua mão em resposta.
- Acho que foi o encontro mais produtivo. – disse e riu.
- Foi sim, acho que o destino deve estar satisfeito.
- Acha que isso foi obra do destino? – perguntou num tom de voz divertido, embora também se questionasse verdadeiramente sobre isso.
- Claro, quando uma coisa tem que acontecer, acontece. Não é normal uma pessoa se esbarrar em outra seis vezes aleatoriamente, não é mesmo? – respondeu e franziu o cenho pensando sobre isso.
- Bom... Então... Até a sétima vez, eu acho. – despediu-se e notou que se moveu sob os calcanhares parecendo incerta, escolhendo palavras para dizer o que queria dizer. – O que foi?
- Sabe aquilo que você me disse sobre se eu precisasse de ajuda para despistar o Justin? – começou a perguntar com a voz incerta e um tanto quanto constrangida. acreditava que ela não estaria falando sobre aquilo a menos que não fosse muito importante.
- Sei, o que tem?
- Está de pé? Estava falando sério? – perguntou esperançosa e assentiu calmamente sorrindo ao ver os olhos dela brilharem.
- O que você precisa?
- Será que... Será que você p-poderia me acompanhar num lugar? – gaguejou e franziu o cenho confuso. – Não, não agora, mas num evento...
- Evento? – Ele repetiu incerto e assentiu positivamente.
- Sim, queria que o Justin me visse com uma pessoa nova. Uma pessoa que ele nunca tivesse visto antes, porque ele já conhece todos do meu ciclo social extremamente limitado. E eu preciso que ele acredite, que seja um cara bonito também... E a verdade é que você não é desagradável aos olhos. – disparou a falar ruborizando intensamente, desconfortável por estar pedindo aquilo e riu divertido, embora também estivesse sem graça.
- Você está me convidando para ser seu par num encontro? – perguntou admirado e assentiu com a cabeça, apressando-se a explicar:
- E eu sei que você tem noiva! Não precisa se preocupar, você estaria me fazendo um favor imenso, nada em troca... Quer dizer, putz, eu posso te pagar, mas você não precisa de dinheiro e... Ah, eu to falando merda, você já fez coisa demais por mim, deixa pra lá, péssima ideia. – foi se atrapalhando nas palavras enquanto ponderava o pedido.
- Eu vou.
ergueu o olhar incrédulo para e boquiabriu-se ao notar a expressão serena e pacífica do rapaz que parecia convencido de que era a coisa certa a ser feita.
- Sério?
- Sim. Se isso vai fazer ele sair do seu pé, então tudo bem. Serei seu par.
- Mas... Por quê? – perguntou sem conseguir acreditar e ficou confuso novamente.
- Por que o que? Porque você me pediu!
- Eu sei, mas não faz o menor sentido! Além do mais...
- , aprenda a receber as coisas de bom grado, sim? – interrompeu e a garota ruborizou novamente. – Eu irei, é só me dizer que tipo de evento, quando, onde e o local e onde te busco. A Charliet entenderia. – Essa última sabia que era uma mentira deslavada. Talvez ela até entendesse o relacionamento doentio de e a solidariedade com a outra mulher, mas não conseguia enxergar como Charliet poderia ser otimista em ter seu noivo envolvido nisso. Para todos os efeitos, era melhor ela não saber. Era só um favor inocente a uma amiga recém feita que precisava de ajuda. Ou uma conhecida por quem tinha empatia.
- Puxa... Obrigada, , não sei como te agradecer, de verdade! – disse parecendo extremamente sincera e visivelmente agradecida.
- Tudo bem, você pode começar parando de me chamar de engomadinho metido a besta. – disse e riu marotamente.
- Isso não vai dar, só se você parar de me chamar de raposinha estressadinha.
- Acho que podemos ser só e por enquanto, o que acha? – sugeriu e riu concordando.
- Só e está bom para mim. – respondeu e sentiu um formigamento por seu pescoço esquentando suas orelhas. Mas resolveu ignorar.
- E então, que tipo de evento?


VIII

It’s like you’re my mirror



Pela terceira vez naquela semana, acordou assustado de um pesadelo.
Assim como acontecera nas ocasiões anteriores, as batidas descompassadas do seu coração contra a caixa torácica obstruíram sua respiração, o deixando suado e ofegante contra os lençóis úmidos.
E assim como das outras vezes, não conseguia se recordar do sonho no momento em que abria os olhos. Arriscou um olhar para o criado mudo para ver aquilo que já desconfiava que veria.
O relógio analógico indicava o mesmo horário dos outros dias.
04:15
Frustrado e exausto, largou-se contra os lençóis, puxando um travesseiro até o seu rosto, tentando - sem sucesso- pegar no sono novamente.
Não estava acostumado a ter insônia e pesadelos, e muito menos em não conseguir recordar deles ao amanhecer. Sentia um padrão se estabelecendo e preocupava-se com a qualidade do seu sono - ou, neste caso, a ausência dele - agora que estava ocupado um cargo de maior responsabilidade na Whistler’s Company.
Até havia comentado com Charliet sobre os sonhos estranhos e a insônia, em consequência, precisou ouvir um sermão sobre alimentação saudável e boa gestão de tempo para não cair no estresse e na correria do dia a dia.
Falar era fácil.
Angustiado e emburrado, levantou-se da cama a contragosto, disposto a preparar um café e torcer para aguentar um dia cheio de reuniões sem ter dormido nem três horas durante à noite.
A caminho da cozinha, digitou o botão do telefone e deixou que a secretária eletrônica transmitisse as mensagens que havia recebido durante a noite.
Sorriu fraco enquanto preparava o café ouvindo a voz amorosa da sua mãe. Só mesmo ela para lhe deixar recados.

Beep.

- Oi, … Er, . Aqui é , . Lembra?
Assustado com a voz que saíra do seu aparelho, deixou a cafeteira cair na pia e correu para a sala para ouvir o recado, ainda incrédulo que fosse ela, mesmo que tivesse se identificado e conhecesse aquela voz.
-... Você me deu seu telefone para que eu te informasse do… evento. - A menina fez uma pausa ao proferir a última palavra e entendeu que ela estava envergonhada. - Argh, nem acredito que eu realmente estou te pedindo isso, mas é que eu não consigo pensar em outra pessoa para recorrer. A verdade é que eu não tenho muitos amigos e… Arghhh! Eu-não-deveria-estar-dizendo-isso - interpelou-se e podia jurar que as bochechas dela tinham ruborizado no momento em que verbalizara aquelas palavras.
Imediatamente, a imagem de corada de vergonha apareceu na sua mente e sorriu sentindo-se quente por dentro.
- Enfim, você ofereceu ajuda e eu vou querer. Você está disponível na quinta-feira às 20h? É algo estúpido e idiota, e você pode se vestir de… ah, só seja você mesmo… engomadinho metido a besta.- reprimiu uma risadinha de zombaria e revirou os olhos, embora também estivesse sorrindo.
- Idiota - resmungou baixinho para si mesmo.
- E ah, valeu mesmo, . Prometo que vou te recompensar de alguma forma. Er… é isso. Tchau! Até quinta.

Beep.

sentiu um formigamento estranho nas pernas e um embrulho no estômago ao ouvir o sinal de que a mensagem de tinha terminado. Não conseguiu prestar atenção nos outros recados que vieram depois, um zunido ecoava nos seus ouvidos e sua cabeça fervilhava com pensamentos.
Que tipo de evento era esse? “Algo estúpido e idiota”, mas que claramente era importante para . Se não fosse importante, não estaria pedindo. Não conhecia muito bem a garota, mas tinha uma grande impressão de que era uma pessoa orgulhosa o suficiente para não aceitar ajuda de um desconhecido.
O que o levava para outro pensamento, não tão agradável: esse tal Justin devia ser mesmo um pé no saco.
não era o tipo de garota que parecia levar desaforo para casa, e era visível que esse rapaz conseguia intimida-la. E agora, , precisava intimidá-lo. Ainda que fosse apenas com sua mera presença. Será que isso seria o suficiente?
Se parasse para analisar friamente a situação, se sentiria um completo imbecil. Que ideia de girico sair com uma garota que ele não conhecia para intimidar um ex namorado abusivo que a perseguia? E se esse Justin fosse um rapaz perigoso? E se a própria não fosse alguém confiável? Eram perguntas pertinentes que não saberia solucionar, mas não precisaria se dar ao trabalho porque não eram exatamente esses questionamentos que estavam bombardeando a mente de . De uma maneira que não conseguia explicar, sentia que precisava fazer isso. Que deveria ajudar .
O que não conseguia parar de pensar era como iria explicar aquela situação toda para Charliet?


***


Não iria explicar.
Estava decidido.
Charliet não entenderia, sentiria ciúmes - embora soubesse que não havia o menor cabimento, afinal de contas, ele e não tinham absolutamente nada a ver. Não existia a menor possibilidade de algum envolvimento com . Só o pensamento já fazia revirar os olhos, sacodir a cabeça e espantar qualquer imagem que aparecia na sua mente. Eles eram exatamente o tipo oposto. Não se atrairiam um pelo outro.
Para , era claro como água que só estaria saindo com para ajudá-la. Mas sabia que Charliet não veria dessa forma.
Então, para enviar eventuais conflitos e poupando-se de justificativas, sermões e DRs desnecessárias, decidiu não contar.
Seria só mais um jantar com possíveis clientes em prospecção. Não era tão difícil de acreditar. Sua rotina já era tão corrida que Charliet estava acostumada em não ser respondida no whatsapp ou ter seus convites desmarcados por conta de algum compromisso de trabalho.
se sentiu mal por isso. Não queria falhar com Charliet e sabia que talvez no lugar dela, se sentisse chateado. Mas estava fazendo tudo aquilo por uma boa causa. Iria ajudar uma amiga necessitada.
Não que fosse sua amiga. Essa seria uma amizade completamente improvável.
Assim como qualquer outro tipo de relacionamento com ela.
Não, não era ajuda a uma amiga.
Era uma ajuda ao próximo.
Uma boa ação.
era uma boa pessoa.
Não era?
- Sr. , está tudo bem? - acordou do seu transe num sobressalto, deixando seus papéis caírem de suas mãos, sendo despertado pela voz de Norah Spellman.
- N..Norah! - gaguejou assustado, abaixando-se para recolher os papeis do chão, batendo com a testa na quina da mesa do seu escritório. - OUTCH!
- ! - Norah exclamou pesarosa ao ver os papeis caindo no chão novamente, quando elevou suas mãos até a testa que ficou imediatamente avermelhada. - Me desculpe, não quis te assustar! É que eu já estava falando com você há um tempo e você estava balbuciando, parecia estar falando sozinho.
massageou a testa e aproveitou para esconder o rosto entre as mãos, sentindo seu rosto ruborizar constrangido por ter sido pego falando sozinho.
- Eu estava falando sozinho? Nem percebi…
- Sr. . - Norah começou num tom de voz contido e suave e suspirou fundo. Sabia que aquele tom de voz estava atrelado a algum conselho ou comentário de censura. Mas diferente de Elle, Norah era uma pessoa doce e preocupava-se verdadeiramente com ele. Tinha liberdade para tal. - Você está estranho nos últimos dias. Tem certeza que está tudo bem?
- Estranho como? - perguntou, ainda sem encarar Norah, aproveitando-se enquanto a mulher abaixava-se para recolher os papéis por livre e espontânea vontade - Obrigado, Nor.
- Estranho do tipo… Atordoado. Essas olheiras vão virar acessório do seu look diário qualquer dia desses. Está dormindo direito? Se alimentando?
- Você está parecendo a Charliet - bufou revirando os olhos e Norah imediatamente adquiriu um tom vermelho pimentão no rosto. Estava sendo comparada com a noiva do cara por quem era apaixonada, que por acaso era seu chefe.
- N.. Não quis ser invasiva. - Gaguejou sentindo-se boba.
- Não está sendo, só está se preocupando comigo. Entendo e agradeço por isso, mas está tudo bem - respondeu taxativamente e um tanto quanto seco. Norah engoliu em seco, assentiu uma vez e deu as costas rumando para fora do escritório.
- Olha… Acho que o sr. tem tudo para ser um bom CEO para essa companhia. Só não deixe esse trabalho engolir você, ok? Se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo - Norah disse num sorriso fechado e lançou um olhar carregado de gratidão para sua secretária, sentindo um pouco de remorsos pela maneira seca que havia lhe tratado.
- Obrigado.
E com um estalido mínimo, ouviu a porta se fechar quando ela saiu deixando-o sozinho no seu escritório imenso com uma papelada a sua frente que demandava total atenção.
suspirou fundo reorganizando suas pastas, quando sentiu a vibração do seu celular na sua mesa. Lançou um olhar cheio de expectativas para o display do aparelho e murchou um pouco ao ver a foto de Charliet sorrindo indicando que ela estava ligando.
- Oi, Char - Atendeu um pouco a contragosto.
- Hm… Te liguei num mal momento? Sua voz não está muito boa - Charliet perguntou meio incerta do outro lado da linha. Embora não quisesse admitir, Charliet o conhecia muito bem.
- Não, só exaustão de trabalho mesmo - respondeu sentindo-se um péssimo mentiroso. Não que a exaustão não fosse verdade, até era. Mas o motivo principal do seu desânimo não era esse. Ele sabia. E sentia que Charliet sabia também.
- Entendi… Eu só liguei para dizer que estou com saudade e que te amo. - Charliet respondeu e sentiu sua consciência pesada de repente. Ela era uma mulher maravilhosa e ele não a estava valorizando da maneira que sabia que ela merecia. Era um completo babaca e tinha total noção disso.
- Eu também amo você, Char. Me desculpe por estar ausente. A vida anda estranha ultimamente. - falou sinceramente sentindo uma repentina e inusitada vontade de abraçar sua noiva.
- Se estivermos juntos, estaremos bem, certo? - Charliet relembrou uma frase que lhe dissera no início do namoro e ele sorriu consigo mesmo. Parecia fazer parte de uma outra vida.
Ficou em silêncio por alguns segundos pensando nas palavras que ela tinha lhe dito e ouvindo sua respiração bater contra o telefone, internalizando o quanto estava sendo ingrato.
Charliet era uma mulher linda que onde quer que passasse, atraia os olhares dos homens. Não por seus atributos físicos, mas porque a presença dela era simplesmente estonteante. Era uma mulher incrível por dentro e por fora e ela o amava com todo coração. Ele tinha tudo aquilo que sempre quisera em uma pessoa e no entanto não estava dando valor o suficiente. Precisava se esforçar para pensar nas coisas certas.
- Desculpe por isso. - disse e não era apenas pela ausência. Não conseguia entender porque estava se sentindo tão culpado, mas uma vozinha dentro da sua cabeça lhe dizia que Charliet merecia um pedido de desculpas.
- Conversamos melhor sobre isso depois, agora vai trabalhar. Vou resolver minha vida por aqui. Só liguei porque estava com saudade mesmo - Charliet respondeu com uma voz falsamente animada e sorriu esperando se sentir mais aliviado por ela não estar lhe cobrando nada hoje.
Porém, essa sensação de alívio não veio nem mesmo quando se despediram e desligaram o telefone.
Do contrário do que esperava, não se sentia mais satisfeito ou mais feliz em poupar desculpas esfarrapadas e justificativas. Não se sentia menos culpado, não se sentia mais merecedor do amor dela.
Não sabia de onde vinha esse sentimento de culpa tão gritante dentro do seu coração. Talvez fosse porque sabia que não estava sendo totalmente sincero com Charliet. Ou talvez fosse (embora ele nunca fosse admitir, se este fosse o caso) porque o único pensamento que conseguia se concentrar era no encontro que teria com na quinta-feira às 20h.


***


acordou ansioso na quinta-feira do tal evento.
Ainda não sabia do que se tratava, mas de acordo com as recomendações de , não precisaria ser alguém além dele mesmo. Não que ele soubesse o que isso significava, a essa altura do campeonato.
No trabalho, o dia pareceu se arrastar. Estava tão agitado que todas suas tarefas eram feitas tão rapidamente que logo em seguida ele já estava ocioso e procurando outras coisas para se ocupar. Tentava o máximo possível manter a mente focada, assim não teria tempo para pensar e divagar a respeito do que estava se metendo. Não queria ser racional. Não agora.
Porque se fosse racional - uma vozinha insistente lhe dizia - não estaria indo ao encontro de uma menina completamente desconhecida, desbocada, preconceituosa e que nem gosta de você! Por que está indo ajudar uma rebeldezinha fedelha a se livrar de um ex namorado babaca? Não pode ficar bancando o super-herói, você nem conhece o relacionamento deles! Não sabe o que ela fez, não sabe nem quem ele é! O que espera ganhar com isso? O respeito dela? Admiração? Gratidão? Ela não vai mudar a opinião a seu respeito, ela te acha um engomadinho metido a besta.
E por que você se importa tanto com o que ela pensa sobre você?

E era justamente esse tipo de questionamento que queria evitar. Não queria pensar muito sobre isso, porque sabia que se sentiria um completo babaca irracional. Não sabia por que sentia tanta necessidade de ajudar . Não sabia por que ela provocava tanto incomodo com suposições e achismos a respeito da sua personalidade. Não costumava se importar com a opinião alheia, mas quando ela colocava todas aquelas coisas em perspectiva o acusando de ser um engomadinho metido a besta, sentia-se angustiado.
Talvez fosse porque uma parte de si ainda sentia uma identificação muito grande com . Uma identificação do seu passado, era verdade, mas ainda assim uma identificação. Esse jeito rebelde, transgressor e sem papas na língua. Esse humor ácido e aquela sagacidade que eram tão características em si mesmo. Talvez porque sentia medo que o julgamento de fosse, de certa forma, um julgamento de si mesmo.
Como se, se conseguisse mudar a opinião dela a seu respeito, mudaria também sua própria opinião sobre si mesmo.
Talvez se sentisse menos culpado por seu “eu” do passado não se sentir tão orgulhoso do seu “eu” do presente.
E era nesse momento que seu ego entrava em conflito.
Que motivos você teria para se envergonhar? Olhe para você! É o CEO de uma grande empresa. É rico, poderoso, jovem, influente, bonito e tem uma mulher incrível ao seu lado. Não existe nada para se envergonhar. Não deveria dar ouvidos a uma mimada metida a revolucionária. Ela não conhece nada da vida.
Nem deveria estar se esforçando tanto para ajudá-la… Ela nem merece.
E novamente a ansiedade consumia seu juízo. Não queria ter que pensar tanto. Parecia um pouco irracional agora, mas no momento em que encarara aqueles olhos , a promessa parecia ter feito total sentido. Todas às vezes em que a ideia absurda desse evento passava por sua cabeça, se lembrava do estado deplorável que encontrara no ponto de ônibus há algum tempo atrás. Sozinha e desamparada no frio, abandonada no deserto da noite por um babaca que agora a perseguia.
Fosse quem fosse, achasse o que achasse a seu respeito, não merecia isso. Ninguém merecia. E se pudesse fazer algo para ajudar, faria. Estava decidido.
E foi com essa decisão em mente que saiu da empresa mais cedo, agitado e ansioso. Ninguém ousou a questionar sua ausência em alguma reunião, todos aprenderam rápido até demais a evita-lo nos dias que estava mais hiperativo. conseguia ser muito ríspido quando queria.
Passou em casa rapidamente e pensou pouco sobre o que vestir: calça social, camisa de botão e um blazer pareciam estar de acordo com o que lhe dissera. Com um sorriso enviesado, pensou se estaria engomadinho o suficiente para ela.
Não foi difícil achar a casa dela. Gravara o endereço em sua memória no dia que lhe oferecera uma carona para casa quando o tal do Justin a deixara sozinha na rua. Não entendia muito bem a natureza desse relacionamento, mas algo dentro de si parecia lhe dizer que estava prestes a descobrir.
Parada na porta da humilde casa, recostada no portão de ferro, uma senhorinha encarava o carro de com os olhos cheios de pés de galinha semicerrados.
- Eu acho que seu amigo chegou, querida. - Ouviu a senhorinha falar por cima dos ombros enquanto estacionava o carro. - E uau, ele é um gato! - Ela completou num tom mais baixo, não o suficiente para não ouvir. Ele riu baixinho sentindo o rosto mais quente ao ouvir a voz de gritar um “vovó” exasperada enquanto saía da casa.
saiu do carro e caminhou devagar até o portão de ferro, ao encontro da senhora que lhe lançava um olhar minucioso, cheio de curiosidade e excitação.
- Olá, boa noite - cumprimentou educadamente sorrindo com simpatia. A avó de deu um suspiro baixinho e estendeu a mão para apertar a de .
- Boa noite, meu querido. Você deve ser o . falou bastante de você. Eu sou a avó dela, Eleanor.
apertou a mão enrugada e macia da avó de , contemplando seu sorriso enrugado cheio de covinhas, sentindo instantaneamente confortável, apesar da situação constrangedora. Uma energia completamente familiar emanava daquela senhora desconhecida.
- Boa noite, Srª. , é um prazer conhecê-la - Cumprimentou educadamente em sua voz sedosa.
- Oooh e além de tudo é tão refinado e educado! - Exclamou Srª sem o menor sinal de constrangimento - Dessa vez você arrumou um partidão, hein, nena?
- VOVÓ!
ouviu berrar e poderia jurar que ela estava tão vermelha quanto ele naquele momento. Embora estivesse envergonhado, não podia deixar de rir da descaração da senhora. Ela parecia tão espontânea!
- Por favor, vovó, pare de importunar o , sim? - A voz de estava um pouco mais próxima e desviou o olhar da avó da menina para procurar a origem do som.
Parada na soleira da porta, uma mulher incrivelmente deslumbrante encarava Eleanor com uma expressão de censura.
Se não reconhecesse aquela voz, aqueles olhos e os cabelos , provavelmente diria que nunca tinha visto aquela mulher antes. Mas a conhecia.
estava simplesmente linda.
E quase irreconhecível.
Longe das roupas descombinantes e coloridas demais, não parecia nenhum pouco com a menina que ele conhecera há algum tempo atrás. Suas calças e camisetas foram substituídas por um vestido longo e verde escuro que além de realçar suas curvas, contrastava perfeitamente com seus olhos vívidos e brilhantes. Os tênis surrados foram substituídos por saltos e os cabelos soltos e rebeldes agora eram uma cascata de cachos grossos que desciam apenas por um lado da cabeça.
estava boquiaberto e visivelmente impressionado com a mudança drástica da menina. Menina. Nem conseguia se referir a ela daquela forma no momento. Quantos anos tinha? Não sabia, mas sempre se referia a ela como se fosse nova demais. Nesse momento, só conseguia enxergar uma mulher incrivelmente linda e totalmente desconhecida aos seus olhos.
- Terra chamando ! - Alguma coisa estalou diante dele e piscou os olhos desnorteado com a aproximação tão repentina de , que estava há apenas alguns centímetros do seu rosto. Não tinha reparado que os olhos dela eram tão grandes… Será que era a maquiagem que deixava os traços dela ainda mais nítidos? Sua boca estava ainda mais corada que o normal devido ao batom…
- ! - estalou outra vez e sacodiu a cabeça, vermelho como um pimentão por ter sido flagrado a encarando. - Você está bem? Tá parecendo catatônico.
- Er, eu estou bem, estou bem. - Disse sem graça, desviando o olhar de por alguns segundos. A presença dela tornou-se desconcertante. Não parecia certo, ficou esperando o momento em que a verdadeira sairia detrás de uma moita e desabaria em gargalhadas diante da confusão dele.
- Ele só está te admirando, nena. Está te achando bem gostosa! - A voz da Srª despertou os devaneios de fazendo-o enrubescer ainda mais ao ter seus pensamentos verbalizados em voz tão alta e descriteriosa.
- Nena! Pare com isso, vai matar o rapaz de vergonha. O que eu te disse sobre comportar-se? - ralhou com a avó, embora os cantos dos seus lábios estivessem minimamente repuxados, escondendo um sorriso presunçoso.
suspirou.
- Você está bonita - disse forçando um tom mordaz de indiferença. riu perversamente.
- Você está… bom, você. Engomadinho! - Ela disse azeda e revirou os olhos. Pronto, se restava alguma dúvida, agora ela tinha sido sanada. Aquela era a mesma de sempre. - Mas pelo menos hoje serviu um propósito. Você está ótimo.
- Qual a ocasião? - perguntou enquanto abria a porta para Srª entrar no carro.
- Minha formatura. - respondeu dando de ombros com descaso.


***


seguiu as direções que lhe passava, rumando até o edifício em que a faculdade dela funcionava. Enquanto dirigia em silêncio, se perguntava quanta coisa ainda havia para descobrir sobre .
Ela estava se formando em biologia numa faculdade pública e era uma espécie de aluna prodígio. Prestava atenção em algumas partes da conversa entre ela e a avó enquanto dirigia tentando absorver os pensamentos desconexos em sua mente.
- Me admira muito que aquele Justin tenha se formado também. Notas tão horríveis… - Srª ia dizendo e sentiu uma fisgada boa no estômago ao ouvir o tom de voz que ela usara para se referir aquele Justin.
bufou e revirou os olhos, como se aquele fato fosse irrelevante, mas sabia que Justin a deixava perturbada. Afinal de contas, era por isso que ele estava lá. Para posar ao lado de e não deixar que o ex namorado a importunasse.
- Espero que ele não cause nenhum problema hoje, com aquele gênio todo. Ele nunca te viu com outra pessoa, ainda mais um namorado tão lindo e refinado. - Srª disse e sentiu seus músculos se retesarem no volante. Ao seu lado, se remexia inquieta.
Namorado?
fuzilou de canto de olho e percebeu ela se encolher no banco do carona parecendo sem graça.
Quando finalmente chegaram, disparou para fora do carro livrando-se da sua avó prevendo uma possível explosão de , que tinha se tornado carrancudo durante todo o percurso.
- Nena, que tal ir se sentar? Guarde um lugar para o ! - disse afetuosa, enquanto estava de costas para elas, com as mãos na cintura andando para lá e para cá olhando para cima.
- Eu disse alguma coisa de errado, querida? - Eleanor perguntou desconcertada e apenas abanou a cabeça.
- Ele só está com ciúmes do Justin, você sabe como é. - cochichou, não o suficiente para não ouvir. Ele suspirou ruidosamente.
- Ok, ok, eu já vou. Guardarei seu lugar, querido! - Eleanor disse afetuosamente antes de ir escolher lugares nas fileiras de cadeiras.
- Você ficou MALUCA? - bradou no instante em que Eleanor desaparecera de vista.
- Me desculpe! O que você queria que eu dissesse? Ela precisa acreditar que você é meu namorado, ou isso não vai dar certo! - respondeu rapidamente visivelmente desconcertada e nervosa.
- Isso o que, exatamente? Essa não era parte do combinado!
- Nena é linguaruda, se ela não acreditasse em mim possivelmente deixaria escapar alguma coisa. - se explicava em tom de súplica. Era estranho aos ouvidos de esse novo tom de voz dela, sempre tão segura, debochada e indiferente.
- , eu sou noivo! - sibilou entre dentes e apressou-se a concordar com a cabeça - Se alguém me reconhecer aqui, eu estarei encrencado. Como você pode ver, é difícil ser noivo de uma pessoa e namorar com outra!
- Eu sei! Eu sei! Mas nós não namoramos de verdade, então pode ficar tranquilo que eu sei que você é fiel e bacana e só está me fazendo um tremendo favor. - disse fervorosamente e franziu o cenho por um momento. Aquela voz não combinava com ela, nunca tinha a visto tão nervosa e inquieta.
- Eu nunca vou ser capaz de te agradecer o suficiente e eu sei que é um sacrifício imenso estar aqui comigo e com minha avó linguaruda. Mas pode ficar tranquilo que ninguém aqui vai te reconhecer, somos completamente diferentes das pessoas que você está acostumado a lidar - continuou dizendo e revirou os olhos prestes a interromper, quando ela colocou os dedos frios em seus lábios pedindo por silêncio. O coração dele deu um salto. - Eu tô falando sério. Não tô sendo debochada nem nada, só estou sendo grata. Depois de hoje eu juro que não vou mais atrapalhar seu caminho.
- Não seja idiota… - murmurou desconcertado com o tom de súplica dela.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, foram interrompidos por uma voz entrecortada ecoando ao lado deles.
- …? O que você está fa…
e viraram-se ao mesmo tempo para olhar um rapaz alto e esguio que os encarava boquiaberto. Os olhos fixos na mão de que ainda estava sob o rosto de , franzindo a testa para a aproximação entre os dois.
Justin.
Instintivamente, passou os braços em volta da cintura de e sustentou o olhar do rapaz, sentindo seu coração martelar contra caixa torácica pela adrenalina do momento. Permitiu-se encarar Justin por um momento com contida curiosidade. Não conhecia muito bem, mas o pouco que conhecia era totalmente averso aquele rapaz. Além de desengonçado, alto e magro demais, os olhos fundos de olheiras permanentes, cabelos bagunçados e sujos, ele parecia um daqueles rapazes que eram atirados em reformatórios por problemas com drogas.
- Oi, Justin - falou e pôde perceber como tentava manter sua voz firme e estável. Aquele rapaz realmente a assustava. aumentou o aperto em volta do corpo dela.
- Quem é esse cara, ? Que porra é que você tá fazendo? - Justin deu dois passos para frente e sentiu tremer minimamente contra seus braços.
- Meu nome é e ela está abraçada a mim, tem algum problema? - falou calmamente sem se sentir intimidado pelo rapaz. Não conseguia sentir nada além de aversão.
- Eu falei com você, seu merda? Quieto aí antes que eu quebre a porra dos seus dentes. Solta minha namorada! - Justin lançou um olhar mortal para a mão que mantinha despreocupada na cintura de .
- Eu não sou nada sua! - gritou irritada.
- Shh, tudo bem, meu amor. Ele só está tendo uma dificuldade em encarar a realidade diante dele. - disse calmamente, acariciando o rosto de . A pele que entrava em contato com a dela parecia pinicar. Justin urrou de frustração e avançou até eles.
deu dois passos para trás e colocou atrás de si, de maneira protetora.
- EU VOU QUEBRAR SUA CARA! - Justin berrou irritado, chamando a atenção de alguns professores e seguranças ao redor.
- Ei, ei, ei, o que está acontecendo aqui? Sr Foley, por favor se acalme, quer perder seu direito de colar grau? - Um senhor se aproximava tentando apaziguar a situação. A julgar pelos trajes, era um dos professores.
- Eu ainda não terminei com vocês - Justin apontou para e e foi empurrado para fora pelo professor.
- Terminou sim. Fique longe dela - disse em tom de aviso sem nenhum traço de brincadeira por seu semblante.
O professor tinha conseguido afastar Justin, que àquela altura estava soltando fogo pelas ventas. A confusão tinha se dispersado quando percebeu que ainda estava com o braço ao redor de de forma protetora. Dando-se conta disso, afastou-se um pouco desconcertado.
- Acho que fomos convincentes… - Disse casualmente e suspirou pesarosa.
- Acho que sim, convincentes demais.
- Não era isso que você queria? - perguntou confuso e ela acenou com a cabeça tristemente.
- Sim, mas não esperava que vocês brigassem. Só queria que ele te visse comigo. Não quero que ele te cause problemas - disse preocupada.
- Você tem mesmo muito medo desse rapaz né? Deixa ele vir, ele não me intimida.
- Você não sabe do que ele é capaz - disse sombriamente e revirou os olhos.
- Drogadinho de merda.
- Não diga isso, , sério. Não quero que ele interfira na sua vida, então não provoque.
- Você quem queria que ele nos visse juntos!
- Tudo bem, não provoque tanto. - disse e deu um sorrisinho a contragosto. se sentiu um pouco mais aliviado. Estava sendo estranho vê-la tão diferente do seu normal. - Toda aquela historinha de meu amor e pegar no meu rosto era realmente necessária? - Ela continuou num tom de voz mais azedo e riu abertamente. Agora sim ela estava de volta.
- Admita, você gostou.
- Argh, achei piegas demais! Não precisava essa melosidade toda! - Ela bufou do jeito birrento de sempre e sabia que o pior já tinha passado.
- Se você não gostou, era mais fácil ter me soltado. Mas não… me abraçou ainda mais! - Ele acusou zombeteiro.
- Eu só estava provocando o Justin! - se defendeu, embora tivesse ficado um pouco ruborizada.
- Tudo bem, não precisava provocar tanto. - jogou as palavras contra ela e lhe lançou um olhar furioso, quase como se estivesse estudando a possibilidade de lhe dar um tapa na cara.
- Argh! Não sei como o Justin acreditou mesmo que eu estivesse com você! Você é tão irritante, nós não temos química alguma! - Ela disse irritada e levantou as sobrancelhas fingindo ultraje.
- Claro que ele acreditou! Um rapaz sério, bem vestido e apresentável. Educado e um gato, aprovado até pela avó! - zombou e revirou os olhos, sorrindo perversamente depois.
- Sei, um gato educado que ficou todo bobalhão de boca aberta porque me viu de vestido. Não conseguia nem respirar direito, estava me achando bem gostosa… Palavras da avó! - sorriu maliciosamente ao ver ruborizar violentamente e gaguejar logo perdendo as palavras.
- Argh! Você é irritante! - disse amuado enquanto entoava uma gostosa gargalhada.
- O que foi, o gato comeu sua língua? - Ela disse marotamente.
- Você não tem um diploma para pegar não? - disse abanando as mãos para que ela saísse de vista, começando a andar pelo mar de pessoas.
- Onde você vai? - perguntou parando de rir, confusa por vê-lo sair.
- Pegar meu lugar para o espetáculo, onde mais eu iria? - respondeu girando nos calcanhares e ergueu as sobrancelhas surpresa.
- Achei que você fosse embora depois de cumprir seu papel. - Ela respondeu.
- Quer que eu vá embora? - Foi a vez de erguer as sobrancelhas, mas respondeu rapidamente.
- Não! - E logo ela apressou-se em continuar - Não foi o que eu quis dizer.
deu de ombros.
- Bom, não vou perder a oportunidade de ver você tropeçar na beca e cair de cara no palco. - Ele respondeu rindo e lhe lançou um olhar fulminante novamente.
- Idiota! - Ela disse quando ele lhe deu as costas.
- Estressadinha! - Ele respondeu ainda sorrindo e ela deu uma risadinha a contragosto, vendo-o se afastar para sentar-se ao lado da sua avó.
- Engomadinho metido a besta!!!!

A cerimônia aconteceu de maneira breve e pacífica. Justin e sentaram distantes um do outro e não se cruzaram em nenhum outro momento. divertiu-se abertamente ao lado da Srª , que fazia piadinhas sobre outros formandos e dava gritinhos sempre que lançava seus olhares furtivos.
” Um dos professores da banca chamou.
E ela se levantou graciosamente para pegar o canudo. Virou-se para a plateia, levantou o dedo do meio e sorriu de orelha a orelha correndo para fora do palco, fazendo gargalhar abertamente. Era bem o estilo de dizer “foda-se esta merda!” na banca de professores cheios de olhares reprovadores.
Algo no brilho do olhar dela lembrava ele mesmo há anos atrás.
Sentia como se estivesse olhando no espelho.
Exceto que a imagem refletida era muito mais bonita e atendia pelo nome de .
Ou, para , raposinha estressadinha.


Capítulo IX

I recognize the way you make me feel




Do contrário da maioria das pessoas, não odiava os dias de segunda–feira. Para falar a verdade, ele até gostava. Significava recomeço de ciclos, novas oportunidades e menos correria. Comparado aos dias de sexta–feira, o clima no ambiente da Whistler’s Company ficava calmo, ameno e alheio a correria com todos voltando dos seus finais de semana e com caras de ressaca.
Mas a segunda–feira daquela semana em questão estava sendo completamente atípica.
Só até às 10h, ele já tivera que atender 15 telefonemas – isso sem contar outros dois que foram rejeitados e filtrados por Norah. Precisou sair 20 minutos atrasado para o almoço porque tivera que se reunir emergencialmente com dois gestores para falar sobre finanças. E pela tarde a correria estava tão ruim quanto ou pior do que pela manhã.
Não era apenas a correria que causava o estranhamento naquele dia. Alguma coisa estava diferente na Whistler’s Company, não saberia dizer o que. Estava acostumado em ser foco das atenções pelos corredores, mas naquele dia em específico, estava causando um desconforto além do normal. Duas ou três vezes checou a aparência no reflexo de algum espelho buscando alguma anormalidade que justificasse a quantidade de olhares que estava recebendo. Tudo parecia normal para ele.
– Elle, tem alguma coisa errada com minha aparência hoje? – perguntou quando a mulher passou por ele mais tarde naquele mesmo dia. Simons lançou um olhar lascivo de cima a baixo e sorriu perversamente deixando o CEO constrangido e arrependido de ter feito a pergunta.

– Muito pelo contrário. Por que a pergunta?

– Nada não, tive a impressão de que estavam me olhando estranho. Achei que pudesse ter uma meleca no meu nariz ou meu zíper pudesse estar aberto – respondeu dando de ombros e Elle franziu o rosto.
– Eca, , você é estranho. Um desperdício uma beleza dessas numa pessoa assim – Ela disse num tom de desprezo e reprimiu uma risadinha.
– Perdeu o amor ao emprego? – Ele perguntou num tom de voz descontraído e Elle deu de ombros.
– Se você me demitir hoje terá que lidar sozinho com os jornalistas.
bufou e imediatamente seu semblante, esmoreceu. Não queria lembrar que tinha concordado em conceder uma entrevista para uma revista de economia que estava na sua cola há meses.
– Elle… – começou com tom de voz manhoso.
– Nem começa, eu não vou te safar dessa. Cada um com seus problemas.
– Elle, por favor! – pediu em tom de súplica, mesmo sabendo que aquilo não ia levar a lugar algum. Não podia mais adiar aquela entrevista.
– Me dá um aumento ou me dá seu corpo, fora isso nada feito – Elle respondeu, espevitada, e revirou os olhos já dando as costas a mulher que riu gostosamente atrás de si.
– Um dia eu vou te demitir por isso – respondeu sem olhar para trás.
– Mas esse dia não será hoje, vou ensinar para os repórteres o caminho da sua sala!

suspirou cansado quando os jornalistas finalmente deixaram sua sala, duas horas depois. Estava exausto daquele dia e ele ainda estava longe de acabar. Mal teve tempo de recostar a cabeça na cadeira quando a porta da sua sala se abriu novamente revelando uma Norah super elétrica.
– Sr , esses papéis vieram da contabilidade e precisam da sua assinatur…
– Norah, o que você faz quando está tendo um dia extremamente irritante e cansativo? – interrompeu lançando um olhar derrotado para Norah que deixava os papéis na sua mesa.
– Quê?
– O que você faz quando está tendo um dia extremamente irritante e cansativo? – repetiu a pergunta e sustentou o olhar de Norah que parecia catatônica – É, quando eu estou com raiva e solto os cachorros em você e te deixo com raiva também… Quando você quer xingar a Elle por ter implicado com você… Não sei, quando você tem um dia péssimo de trabalho o que é que você faz?
Norah pareceu pensar se aquela pergunta fazia parte de alguma pegadinha ou se era mesmo seguro responder. Sustentou o olhar de por alguns segundos e não vendo traços de brincadeira na expressão dele, resolveu falar embora muito incerta.
– Bom, quando eu estou com muita raiva, costumo ir na academia e dar alguns socos no saco de pancadas – Deu de ombros quando arqueou as sobrancelhas verdadeiramente surpreso.
– Você luta? Nossa, eu jamais poderia imaginar.
– Não, não luto. Quer dizer, fiz umas aulas de boxes aqui e ali, mas nada para valer. Mas na academia que eu malho tem um saco de pancadas e as vezes ajuda bastante bater nele, sabe.
– Você já imaginou o meu rosto nele na hora de bater? – perguntou com curiosidade e Norah corou dando um sorrisinho mínimo. – Uau.
– Só algumas vezes – Ela confessou timidamente, mas não estava bravo. Reconhecia que era bastante irritante e difícil de conviver as vezes.
– Além disso, se eu estiver triste ou coisa assim, chamo uma amiga e vamos beber alguma coisa e falar mal de todos vocês – Norah continuou e deu um sorriso desconfortável ao imaginar a quantidade de coisas que seus funcionários já falaram de ruim sobre ele. – Está tendo um dia difícil?
– Sim. Acabei de entrar para a porcentagem de pessoas que odeia as segundas.
– Por que não liga para algum amigo e sai para beber alguma coisa ou jogar conversa fora? – Norah perguntou e sentiu–se triste de repente por pensar que talvez já não tivesse mais amigos para isso.
Joffrey tinha sido seu único amigo durante sua infância e adolescência. Até que conheceu Adley na faculdade, apresentou um ao outro e ficaram bons amigos ainda que Joffrey não tivesse tido a chance de ingressar a faculdade. Por esse fator, talvez, os caminhos tenham se distanciado tanto. Já fazia mais de dois anos que não via Joffrey e só se comunicava através de mensagens de celular que demorava uma eternidade de responder. Pelo que sabia, o amigo estava na Nova Zelândia desbravando o mundo como era seu sonho.
Adley era um pouco mais recente, embora estivesse tão ausente da vida de quanto. Tinha se casado e era pai de uma linda menininha e pelo que sabia, morava em Liverpool e quase nunca estava na cidade. Fazia meses desde a última vez que tinham se visto para beber num pub numa das estadias dele por Londres.
Ficou triste em perceber que seu ciclo social era formado por pessoas da Whistler’s Company ou derivados dela. Norah era a coisa mais próxima que ele podia ter de uma amiga dentro da empresa, embora agora soubesse que ela ocasionalmente socava sacos de pancadas imaginando seu rosto – e que também era secretamente apaixonada por ele.
Fora isso, tinha suas cunhadas e Bill. Bill era um cara legal, engraçado e muito prestativo, mas não conseguia conversar com ele por muito tempo antes de ficar entediado. E apesar de gostar das suas cunhadas, não conseguia se imaginar ligando para Catherine ou Christine para esvaziar a cabeça e reclamar sobre o trabalho que tinha sido proporcionado pelo pai delas… e seu sogro.
O que também descartava Charliet disso. Por mais que gostasse dela, não parecia certo recorrer num momento desses. Precisava de alguém irresponsável, disponível e alheio a qualquer pessoa ligada a Whistler’s Company.
A ideia veio tão rápido quanto um flash na cabeça de .
Embora fosse completa loucura!
– Obrigado pela dica, Norah. Vou assinar esses documentos antes de sair, mas por favor, cancele qualquer coisa para mim hoje. Não tô a fim – disse em tom taxativo e Norah entendeu que era fim de papo. Sem dizer mais nada, saiu da sala deixando um turbilhão de pensamentos.
Fazia uma semana desde a formatura de e desde então, não tinham se visto ou falado. Parecia loucura pensar nela nesse momento, mas se tinha uma pessoa que ele poderia jurar ser capaz de distrair sua mente da W.C esse alguém era , ainda que fosse para irritá-lo por um motivo diferente. E ela estava devendo uma…
Afinal, tinha ido até sua formatura para livrar a barra do idiota do ex namorado dela. Justin era um ser asqueroso e ridículo e fez o que pôde para ajudar de extrema boa vontade, mas fora a própria quem dissera que se algum dia ele precisasse de qualquer coisa, era só ligar.
Encarou o celular se sentindo um pouco bobo e muito agitado por dentro. Era mesmo um dia muito esquisito para ele sentir vontade de ligar para uma pessoa que ele mal conhecia para espairecer dos estresses que a vida de CEO proporcionava. Mas além de tudo aquilo, sentia–se sozinho e por mais que não gostasse de admitir, era capaz de fazê-lo sentir como ele realmente era. Havia algo estranho na áurea daquela menina.
Sem dar a chance de pensar duas vezes e acabar desistindo, sentindo uma corrente elétrica passar por todo corpo, procurou o nome dela na lista de contatos e colocou o telefone na orelha sentindo o coração disparar na boca.


***


– Mas olha que coisa engraçada temos por aqui, alguém desceu do pedestal e resolveu recorrer para a plebe! – zombou enquanto fechava o portão de casa indo em direção ao carro de estacionado na sua rua. Enquanto revirava os olhos e ria, ele abriu a porta do carro para ela entrar.
– Por favor, não me faça arrepender dessa decisão.
– Mas então, que repente foi esse? – Ela disse sentando–se no carro e avaliando com uma expressão engraçada no rosto. O cheiro dela invadiu a cabine e sentiu–se inebriado por um momento.
– Estava me sentindo um pouco rebelde. – Ele respondeu dando de ombros, dando partida no carro.
– O que foi? A vida de engomadinho finalmente começou a cansar você? – perguntou divertida e deu de ombros novamente.
– Eu não sou quem você acha que eu sou, .
– Talvez eu saiba mais sobre você do que você acha que eu sei – respondeu sabiamente e deu de ombros mais uma vez.
– Talvez saiba mesmo, por isso que te chamei.
– E então, para onde quer ir? – perguntou ajeitando–se no banco.
– Não sei, você não é a rebelde aqui? Me diga – respondeu dando de ombros novamente, recebendo um tapa de – EI?
– VOCÊ QUER PARAR DE DAR DE OMBROS? Nossa que coisa irritante – A menina falou fuzilando com o olhar e ele apenas limitou–se a rir, já sentindo–se mais leve do que quando deixou a Whistler’s Company.
Não sabia por que, mas tinha se sentido muito nervoso quando ligara para . Toda vez que pensava nela ou nessa estranha ligação que tinham, se sentia muito estranho. Porque era mesmo tudo estranho. Eles nunca tinham se visto e de repente viviam se esbarrando. Não se falavam, mas parecia que se conheciam há anos. Antes de falar com ela se sentia nervoso, no entanto estando no seu carro enquanto dirigia sabe Deus para onde, ele sentia–se extremamente confortável, entorpecido e em paz.
– Ei, quantos anos você tem? – perguntou assim que cessaram o riso, vendo apertar os botões do seu rádio freneticamente.
– Quantos anos você acha que eu tenho? – Ela revidou finalmente parando numa estação que tocava a melodia de uma música que poderia jurar que nunca tinha escutado na vida.
– Mentalmente ou fisicamente? – Ele perguntou quando ela começou a se mexer estalando os dedos no ritmo da música. Ao ouvir a pergunta dele, ela estendeu um dedo do meio sem parar de dançar, fazendo gargalhar gostosamente.
O som foi tão espontâneo que o assustou por um momento. Quanto tempo fazia que não ouvia o som da própria gargalhada?
– Mentalmente uns 15, você é muito aborrecente. – respondeu sorrindo e não se deixou abater.
– Hm, mentalmente você deve ter uns 65, um velho rabugento e ranzinza – Ela rebateu perversamente e apenas sorriu tranquilo. Ok, tinha merecido.
– Fisicamente… – começou e lançou um olhar de canto para que chacoalhava os cabelos ao ritmo da música. Ela parecia muito novinha, mas quando lembrava–se dela vestida para a formatura dias atrás, poderia dizer que era uma outra pessoa. Ruborizou um pouco ao recordar de Eleanor e de como ela tinha o envergonhado verbalizando seus pensamentos – Sei lá, uns 23.
sorriu meigamente e deu de ombros fazendo rir. Era impressionante como seu humor estava mais leve longe do trabalho.
– Tenho 20 anos – respondeu simplesmente e acenou positivamente com a cabeça em silêncio. Ao perceber que ele tinha ficado um pouco pensativo, perguntou – E você, quantos anos tem? 40? – Completou com uma risadinha tentando descontrair.
– Vou fazer 29 em alguns meses – respondeu lembrando–se de repente que faltava pouco para janeiro chegar e, portanto, pouco tempo para seu aniversário. Estava ficando velho.
– O que foi, tá se sentindo velho? – perguntou verbalizando os pensamentos de mais uma vez.
– Um pouco, na verdade. Mas não quero falar disso – respondeu sinceramente. Em pensar que foi na idade de que toda sua vida começou a mudar… A verdade é que havia se acostumado tanto com o trabalho, os cursos e com a rotina que tinha se esquecido dos seus sonhos e do quanto havia mudado o foco das coisas.
– Tudo bem! E então, decidiu para onde vamos? – perguntou desviando o assunto para águas menos perigosas – Puxa, eu realmente não sou um exemplo para as crianças… Vovó sempre disse “não fale com estranhos, não pegue carona com desconhecidos” e olha só eu quebrando as ordens.
riu alto mais uma vez, sendo acompanhado por deixando o clima leve novamente.
– Não sei mesmo. Fora o parque, qual outro lugar você gosta de ir? – perguntou e pensou por um momento.
–Você está se sentindo estressado, cansado e quer fazer algo estúpido e irresponsável para aliviar a mente, certo? – Ela fez uma pergunta retórica e coçou o próprio queixo, a expressão iluminando–se de repente – Poderíamos ir patinar no gelo!
– Quê? Claro que não, eu sou péssimo nisso! Além do mais eu estou todo engravatado e…
Mas não pareceu ouvir uma palavra do que ele tinha dito. Agora já tagarelava animadamente sobre a frente do museu e como o tempo frio estava contribuindo para patinação.
– Aaaah, já está tudo decorado para o Natal, está perfeito! Está decidido. – Entoou animadamente.
eu não estou vestido para isso! – argumentou e fechou a cara fuzilando o mais velho com o olhar.
– Você queria minha ajuda para distrair, esperava que eu fizesse o quê?
pensou por um momento, realmente não fazia ideia do que pretendia fazer com , não podia dizer uma programação que fosse do agrado de ambos, mas certamente patinar no gelo não estava nem na lista de possíveis planos.
– Não sei – Respondeu sinceramente – Mas patinar no gelo está fora de cogitação.
– Não está nada, nós vamos para lá.
– Ei, o favor quem me deve é você, eu que escolho o que iremos fazer.
– Ótimo, então diga o que iremos fazer – pressionou e bufou um pouco desesperado por pensar que estava finalmente perdendo essa batalha.
– Por favor…
– Está decidido, vamos patinaaaar! – Ela exclamou animadamente e ele afundou no banco do motorista, fazendo as vontades dela sabe Deus lá o porquê.


Assim que chegaram na frente do museu, tratou de pegar os patins e entregou animadamente para que sorriu timidamente para a atendente que o olhava com uma expressão engraçada. Provavelmente julgando seus trajes sociais e sua companhia que destoava completamente dele. poderia ser facilmente confundida com uma irmã mais nova. Vestia suas roupas coloridas, seus símbolos de hippie e tinha os cabelos soltos em cascata e tagarelava animadamente.
Foi preciso muito esforço para que conseguisse se manter de pé na pista. Estava quase achando que tudo aquilo fazia parte de um plano doentio de para desmoralizá-lo em praça pública, mas ela continha as risadinhas e sempre estendia a mão quando ele caia. Numa dessas vezes que ela estendeu a mão, sentiu uma descarga elétrica passar por todo seu corpo quando a pele dela entrou em contato com a dele, visto que era mais quente que o normal.
– Viu? Não é tão difícil assim… – disse depois de um tempo, quando já conseguia deslizar sem cair. Ele sorriu a contragosto, duro demais para fazer movimentos bruscos e acabar de cara no chão novamente.
– Até que não é tão ruim – Ele confessou.
– E então, se sente mais relaxado? – perguntou e acenou positivamente com a cabeça.
– Por que você está fazendo isso por mim? Digo… Fora o fato de achar que me deve algum favor, você nem me conhece direito. – perguntou por pura curiosidade, embora estivesse muito grato por ela estar ali. reprimiu uma risadinha.
– Lembra que quando você se ofereceu para me ajudar com o Justin eu te fiz essa mesma pergunta?
– Lembro…
– Então. Acho que é isso que chamam de empatia, se colocar no lugar do outro. Você se compadeceu da minha situação com um relacionamento conturbado… E eu me compadeci por você, acho que é isso.
– É isso que eu não entendo, por que você se compadeceu por minha situação? – insistiu na pergunta e franziu o cenho – É… porque eu sou um “engomadinho” na sua visão. Você estava com uma pessoa que te fazia mal, normal que eu fosse empático com você. Mas eu não sou, teoricamente, a personificação de tudo que você mais detesta? Porque você seria empática comigo?
– Eu não detesto você. começou enfatizando as palavras e sentiu um arrepio que provavelmente era derivado do tempo frio – E eu estou tentando mudar essa minha posição de ser preconceituosa com as pessoas. Existe mais no coração e na cabeça de cada um do que o que aparenta ser por fora.
– Que eu sou um engomadinho metido a besta por fora isso eu já sei, mas o que você acha que tem no meu coração? – perguntou num tom de voz divertido, embora contivesse sua curiosidade ardente sobre o que achava a seu respeito.
– Isso só você pode responder, eu posso apenas supor – Ela respondeu simplesmente e sentiu–se gelado por dentro. Impressionante como sempre tinha algumas frases de efeito tão assertivas.
– E você supõe…
– Que você deve ter tido suas boas razões para ter mudado tanto o foco da sua vida como mudou. – respondeu e deu um meio sorriso – No dia que você me entregou o livro de volta eu percebi que você era alguém diferente.
– O seu livro dos sonhos?
– Sim. E você veio todo sem jeito me chamando pelo nome, demonstrou tanto interesse em me devolver, mas ao mesmo tempo foi todo relutante como se quisesse ficar com ele… Percebi que tinha se identificado pelo menos um pouco e fiquei intrigada a seu respeito. Além de toda coincidência da gente estar sempre se batendo…
quis dizer que concordava com aquilo e que também achava muita coincidência que tivesse sonhado com uma “N.B” misteriosa que tinha o mesmo olhar de , o mesmo cabelo e o mesmo tom de voz, mas preferiu não dizer nada, não queria assustá–la com as estranhezas que nem ele mesmo entendia.
– Seu livro é muito interessante, você tem sonhos muito bonitos… – resumiu–se a dizer.
– Isso é injusto, você conhece um pouco dos meus sonhos, mas eu não conheço os seus.
– Eu já te disse, queria viajar o mundo, fazer ações filantrópicas… – respondeu referindo–se ao dia que Kenobi fizera xixi na árvore de , promovendo mais um encontro entre eles.
– Mas profissionalmente falando, o que você queria fazer? – insistiu na pergunta e pensou por um tempo.
– Eu já quis ser um rockstar – Respondeu com sinceridade, rindo em seguida. sorriu um pouco. – Eu passava maior parte do meu tempo tocando violão, então queria ser vocalista de alguma banda.
– Eu queria ser professora – disse e arriscou um olhar de canto para ela, receoso que isso tirasse seu equilíbrio, mas parecia estar fluindo bem na patinação. Não era tão ruim quanto esperava.
– E o que te impede de ser? Você ainda é nova– disse e sorriu.
– Nada me impede, mas a vida muda num piscar de olhos, né?! Por enquanto tenho que cuidar da nena, ela está um pouco doente… – respondeu e percebeu que não deveria aprofundar nesse assunto por agora.
– Eu também já quis ser professor. Eu era bom aluno de história – relembrou sorrindo.
– Sua noiva não se importa de você estar aqui… comigo? – perguntou de repente mudando totalmente o rumo do assunto fazendo com que virasse o rosto desnorteado para olhá-la, consequentemente provocando um desequilíbrio que o levou estatelado no chão.
– AI!
– Machucou? – freou suavemente seus patins, ajudando a se reerguer. Deslizaram até a bancada principal para que pudessem descalçar os patins.
– Não, mas acho que já chega de patinar por hoje – respondeu desfazendo–se do calçado, sentando na arquibancada próxima massageando os pés.
– E então, sua noiva… – insistiu e remexeu–se um pouco desconfortável. Não gostava de falar sobre Charliet com , não parecia certo.
– Hm, não sei. Ela não sabe que estou aqui – Respondeu sinceramente e observou pelo canto do olho franzir o cenho.
– Ela sabe que você foi na minha formatura?
– Hm, não…
– Você não acha que no lugar dela ficaria chateado? – perguntou e pôde perceber um milésimo de julgamento no tom de voz que ela tinha. Suspirou cansado sentindo todo o estresse do dia abater novamente retirando a atmosfera descontraída e feliz do ambiente.
– Não sei, . Não é como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada, não é? Não estamos fazendo nada demais… Somos… amigos? Não sei – respondeu mais para si mesmo do que para a mocinha, que não parecia prestar atenção no que ele dizia.
– Quando vocês vão se casar? – disparou novamente começando a deixar impaciente.
– Argh, que fixação é essa pelo meu relacionamento, ? Não sei quando vamos nos casar, não sei nem se vamos nos casar!
Ficaram em silêncio por alguns segundos, dando–se conta do que tinha acabado de verbalizar em voz alta. parecia uma criança pequena que tinha feito perguntas demais. Parecia pesarosa por estar incomodado, mas fervilhando de curiosidade com outros cem “Por quês” dentro da sua cabeça. Já sentia-se espantado e um pouco angustiado por ter colocado as coisas desse modo, até aquele momento nunca tinha questionado esse grande acontecimento em sua vida.
– Não foi isso que eu quis dizer… – Começou atrapalhado, mas espalmou o ar e deu um meio sorrisinho.
– Você não tem que se explicar para mim, só fiquei curiosa, desculpe.
– Por que esse assunto te intriga tanto? – perguntou verdadeiramente interessado na resposta e deu de ombros.
– É porque você parece tão feliz no seu relacionamento quanto é no seu trabalho – respondeu e sentiu como se estivesse sendo socado no estômago.
– Eu não sou infeliz no meu trabalho! – rebateu e levantou os braços numa expressão engraçada e defensiva.
– Eu não disse que você era, você está se defendendo assim porque quer – Ela respondeu e antes que ele abrisse a boca para falar outra coisa novamente, ela apressou–se a continuar – Mas eu não quero te irritar falando disso, o objetivo era você relaxar, certo?
abriu e fechou a boca algumas vezes pensando no que responder, mas depois resolveu deixar para lá. Não queria focar ainda mais naquele assunto.
– E por falar em relacionamento, o Justin ainda tem te importunado? – perguntou e fez uma careta. Touchê!
– Foi na minha casa umas duas vezes, mas nena colocou ele para fora. Aparentemente ele se sente ameaçado com sua presença. Seu teatrinho foi convincente – respondeu e riu baixinho.
– Sabemos que se eu resolver mudar de vida, pelo menos posso ser ator – disse e pareceu iluminar de repente.
– Então tem chances de você mudar de vida?
– Quem sabe, a vida é uma caixinha de surpresa – respondeu embora soubesse que aquelas palavras não queriam dizer absolutamente nada. Ele não ia mudar nada na vida e sabia muito bem disso. – Bom, acho que está na hora de irmos, né?
– Estou morrendo de fome, podemos parar no drive thru de alguma McDonalds pelo caminho? – perguntou e arqueou as sobrancelhas parecendo surpreso. – Que foi?
– Nada, é que eu tinha uma impressão de que você fosse vegetariana, vegana e tudo o mais – respondeu rindo de alguma coisa que só fazia sentindo na sua própria cabeça e deu um sorrisinho culpado.
– Ainda não tive força de vontade o suficiente, mas um dia quem sabe vegetariana, vegana não. Não é todo mundo que pode se dar ao luxo de escolher o que vai comer né? A gente come o que tem na mesa – respondeu levantando–se e sorriu calmamente para ela. se tornava cada vez mais fascinante a cada posicionamento. Difícil acreditar que aquela menina tinha apenas 20 anos de idade.

dirigia a caminho da casa de em meio a risadas e o volume baixo do som do seu carro com os bancos cheios de sacolas da McDonalds, segurando o volante entre uma mordida e outra do seu grand cheddar mcmelt.
– Nossa, mais uma das coisas que estou desconstruindo a seu respeito. Imaginei que um cara como você só comesse nos restaurantes que eu nem sei pronunciar, com dinheiro que dá pra pagar uns seis meses de aluguel da minha avó – disse depois de engolir uma porção realmente grande do seu big tasty, fazendo revirar os olhos sorrindo.
– Realmente, faz muito tempo que eu não comia um sanduíche desses. – confessou fazendo rir. Evitou olhar para a bagunça que estava no seu carro antes que ficasse com gastura de tanta sujeira, normalmente era tão limpinho e nunca comia no carro. Hoje queria ser rebelde, estava fazendo uma exceção.
Quando estacionou em frente a casa de , observou a garota revirar na mochila procurando por alguma coisa.
– Tem algo que eu quero te dar, pera ai – Ela explicou, retirando o cinto e mexendo sem parar nos seus pertences. Cavou fundo até achar o que estava procurando. Com um sorriso singelo, ergueu um livro verde camurçado e estendeu para que pegou um pouco receoso.
– É sério que você está me dando isso? – perguntou contemplando o Livro dos Sonhos com um brilho diferente no olhar. Estava incrédulo, mas animado com a perspectiva de folhear aquele livro misterioso e especial novamente.
– Considere como um empréstimo sem data de devolução. – respondeu brincalhona – É sério, pode ficar por um tempo, acho que talvez pode te fazer algum bem – Assegurou, visto que ele continuava um pouco receoso de aceitar.
alisou a capa do livro, revirando-o de cima a baixo com um sentimento que era difícil de decifrar. Desviou os olhos para e sorriu ao vê-la sorrir também. Instantaneamente sentiu-se feliz por um dia tê-la conhecido, mesmo que isso tivesse significado estragar seu conjunto Pierre Cardin. Sem pensar e sem pestanejar, destravou seu cinto de segurança e envolveu com os braços, pegando–a totalmente de surpresa.
– Que… – Ela ia dizer quando ele lhe deu um beijo estalado na bochecha e tão rápido a abraçou, tão rápido a soltou também, lhe lançando um sorriso tímido de puro agradecimento.
– Obrigado – Ele disse sentindo seu rosto em chamas. Tinha certeza que estava vermelho como beterraba porque estava sorrindo de um jeito engraçado enquanto observava sua expressão.
– Não tem de que, – Ela respondeu docemente e abriu a porta do carro para sair – Espero que esteja mais relaxado hoje – Ela completou fechando a porta, debruçando–se sobre a janela aberta.
– Obrigado por hoje – respondeu e acenou quando ela se afastou.
Enquanto dirigia para casa, tentava por tudo não pensar sobre o dia de trabalho que o aguardava amanhã na Whistler’s Company. Sabia que toda essa rebeldia iria resultar num trabalho redobrado que precisaria demandar para outras pessoas no dia seguinte. Tinha tido um momento verdadeiramente agradável ao lado daquela mocinha e espantava–se por pensar que era a primeira vez que não tinham brigado nem proferido desaforos um para o outro. Aquele parecia ser o começo de uma estranha e improvável amizade.
O cansaço físico e o esgotamento mental daquele dia exaustivo tinham finalmente tomado conta de quando ele estacionou o carro na garagem de casa. Estava precisando urgentemente de um banho e de uma ótima noite de sono. Iria se arrastar para dentro buscando exatamente isso quando deu–se conta da sujeira que se encontrava na cabine do seu carro. Sacos e sacos de lanche, copos de coca cola e potes de sorvete. De jeito nenhum deixaria aquele lixo todo para limpar no dia seguinte.
Estava se sentindo rebelde, mas nem tanto.
Cansado e louco por um banho, apressou–se a limpar todos os resquícios de sujeira do carro, fazendo tudo o mais rápido e perfeito que podia para que conseguisse, quem sabe, folhear algumas páginas do Livro dos Sonhos antes de dormir profundamente.
E, quem sabe, se desse sorte, sonhar com N.B.


Capítulo X

In my dreams you’re with me


Kenobi repousava em sono profundo com a cabeça recostada na perna de , que acariciava as orelhas do cachorro. Era um dos raros momentos que podia dedicar um tempo para o bichinho de estimação que passava a maior parte do dia sozinho ou aos cuidados de Isobel. estava deitado na cama de barriga para cima, exausto demais para vestir-se depois do banho, coberto apenas por uma toalha. Havia chegado da casa de Charliet há apenas algumas horas e agora, enfrentava a preguiça de ajeitar-se para dormir.
estava mexendo no seu celular, respondendo as mensagens das pessoas e filtrando as solicitações de amizade das redes sociais como há muito tempo não fazia. Além da rotina super corrida e cansativa, não se interessava muito em socializar na internet e quase nunca postava alguma coisa que não fosse referente a alguma conferência ou evento da Whistler’s Company. Apesar de ser uma pessoa pública, não fomentava conteúdo para notas de imprensa por livre e espontânea vontade. Até mesmo as fotos que Charliet, ocasionalmente o marcava, demorava meses para ver ou responder.
Sua cunhada, Catherine, sempre dizia que era possível saber tudo sobre a vida de uma pessoa através do que ela postava em suas redes sociais, talvez fosse por isso que não tinha a mínima vontade de ser um usuário assíduo de Facebook ou Instagram. Não queria ninguém sabendo sobre sua vida e não tinha curiosidade o suficiente pela vida de alguém a ponto de vasculhar informações em perfis alheios.
E foi naquele raro momento de atualização de ferramentas online que um pensamento fugaz invadiu a mente de .
Antes que pudesse refrear ou até mesmo entender aquela súbita curiosidade que lhe invadiu, abriu o aplicativo do Facebook do seu celular e na lupa de busca inicial digitou “ ”. Com o coração levemente acelerado e sentindo uma fisgada anormal nas entranhas, procurou entre as opções alguma foto da menina de cabelos e olhos que há algum tempo tinha se tornado uma incógnita na sua vida.
procurou por alguns minutos sem sucesso algum. Não parecia haver nem sinal de em nenhuma rede social. Que pessoa normal não teria conta no Facebook? Pensou e riu amargo em seguida com tamanha coincidência… Não que pudesse ser considerado uma pessoa normal. Será que , assim como ele, também era avessa a socializações online? Não se surpreenderia com mais essa coincidência entre eles.
Assim como fazia com frequência há alguns dias, abriu o aplicativo do Whatsapp e clicou na foto de ícone de . A conversa aberta não tinha nenhuma mensagem, mas já tinha o número dela salvo no celular e vez ou outra, clicava na foto do perfil e admirava os traços da menina com quem estranhamente estava criando um vínculo que nem ele mesmo entendia.
E que não queria admitir.
era bonita. Isso já tinha verbalizado em voz alta - não que fosse preciso, visto que seus pensamentos, ao vê-la de vestido de formatura, tinham sido tão bem traduzidos pela desbocada Srª . Não, antes mesmo daquele vestido azul já tinha percebido nos traços delicados do rosto dela. Nos olhos, na pele bonita e com sardas, na boca fina e vermelha…
sentou-se na cama tão rapidamente que ficou tonto por alguns segundos. A linha irracional dessa constatação era perigosa e ele recusava-se a pensar nisso por mais tempo.
Por mais estranho que pudesse soar, aqueles encontros inesperados estavam rendendo no início de uma conexão esquisita, porque por mais que fosse capaz de eleva-lo ao extremo de irritação, também era alguém com quem conseguia se sentir em paz só de estar na presença.
Ela era apenas uma menina jovem, cheia de sonhos bonitos e aspirações de vida como ele fora há muito tempo atrás. E era apenas isso. não podia negar que admirava a mocinha e a forma como ela levava a vida. E era apenas isso. Uma admiração pelos seus sonhos.
debruçou-se na cama para alcançar o encadernado surrado de capa verde musgo que agora habitava seu criado mudo. Folhear O Livro Dos Sonhos de era sua nova leitura noturna favorita.
folheou por entre algumas colagens retiradas de revistas e catálogos com fotos de lugares que ainda sonhava em conhecer. Nova Zelândia, porque era grande fã de O Senhor dos Anéis e queria conhecer a vila Hobbit - recordou com um sorriso de uma das primeiras viagens que fizera com Charliet e do quanto tinha ficado encantado com a paisagem do local. Tailândia, porque ela queria muito saber se as águas da Phi Phi Island eram tão azuis quanto nas fotos… - E eram mesmo, sabia bem disso. Também tinha realizado um sonho quando pisou naquela areia branca pela primeira vez.
Entre os lugares que sonhava em conhecer, reconhecia algumas paisagens de locais que já tinha visitado e vez ou outra flagrava-se descobrindo novos destinos que nunca fizeram parte de nenhuma das suas viagens e nunca nem passaram por sua cabeça. Por último, a foto de um céu noturno manchado de verde em um contraste deslumbrante. Na legenda, a letra redonda de escrevera:

Não posso morrer sem conhecer a aurora boreal na finlândia!

riu ao ler a legenda porque conseguia ouvir a voz de tão claramente em sua cabeça lendo aquelas palavras que foram escritas por ela num momento de animação. Voltou a deitar-se na cama sem se preocupar em se vestir e continuou folheando o livro despreocupadamente, encantando-se ainda mais por a cada nova página…


apertou os olhos e encolheu-se em posição fetal, aninhando os braços e pernas para proteger-se do frio. A terra a beira do lago Inari estava coberta de neve e pouco podia se ouvir ao redor de onde estava. Apenas uma vozinha suave que ecoava próxima ao seu ouvido, ao mesmo tempo que sentia mãos delicadas o abraçarem ao redor dos ombros, trazendo consigo o conforto de um cobertor quente.
- Você precisa respeitar o frio de Nellim, . – disse sentando-se no chão ao lado dele, aninhando-se no cobertor, deitando a cabeça em seu peitoral.
- O que estamos fazendo aqui? – perguntou abraçando pelos ombros, aquecendo seu rosto por cima dos cabelos dela.
- Não é óbvio? Estamos aqui para ver esse espetáculo maravilhoso que é a aurora boreal. – respondeu dando de ombros como se fosse óbvio com aquela vozinha de quem sabe tudo. olhou para o céu na esperança de encontrar indícios do jogo de luzes em contraste com o negro noturno, mas só o que conseguia enxergar era o brilho das estrelas.
- E cadê? – perguntou bobamente e riu gostosamente.
- Paciência, já já começa…
Ficaram em silêncio por alguns minutos apenas apreciando a companhia um do outro, abraçados, protegendo-se do frio da noite finlandesa. remexeu-se por baixo do abraço de e ergueu o rosto o suficiente para aplicar um beijo delicado na bochecha do rapaz que sentiu as entranhas fervilharem com o toque.
- Senti sua falta, faz um tempo que você não vem me ver… – disse no seu tom de voz doce e apertou a menina ainda mais em seus braços.
- Não é culpa minha, eu sempre tento… – respondeu sinceramente e sorriu travessa.
- Olhe, já vai começar! – Ela apontou para o céu chamando a atenção de que instantaneamente olhou para cima entusiasmado.
O céu transformou-se em um espetáculo diante dos olhos fascinados de . As luzes esverdeadas dançavam entre as estrelas num fenômeno de tirar o fôlego. O jogo de luzes se transformava numa cortina de cores como ele nunca tinha visto antes.
- Sabe o que os finlandeses dizem a respeito da aurora boreal? – ouviu a voz de desperta-lo do seu transe e a contragosto, desviou o olhar do céu para encarar a beleza igualmente estonteante da menina.
- O que? - Perguntou interessado.
- Há uma lenda que diz que existe uma grande raposa de fogo mágica que quando balança a cauda, envia faíscas para o céu. Os finlandeses chamam a aurora de revontulet, que significa fogos de raposa. – explicou enquanto ouvia atentamente, intrigado, como ela sempre falava coisas interessantes. Poderia passar a vida inteira ouvindo sem nunca se entediar.
- Raposa, uh? – arqueou uma sobrancelha e arreganhou um sorriso deixando todos os dentes a mostra.
- Lembrou de alguém? – perguntou e revirou os olhos embora estivesse sorrindo.
- Quando é que você vai começar a admitir para si mesmo como está se sentindo em relação a isso?
sentiu suas entranhas se revirarem com o questionamento tão abrupto de . Por que ela sempre tinha mania de lançar perguntas tão enigmáticas, mas também tão assertivas?
- Não sei do que você está falando… – desconversou e riu mais uma vez.
- Tem certeza que não sabe? – moveu-se embaixo de , saindo do abraço fazendo com que o cobertor que os envolvia caísse no chão coberto de neve. observou a menina ajoelhar-se na sua frente aproximando-se de maneira suspeita, de modo que seus rostos ficassem a poucos centímetros de distância.
A respiração já estava falha e ofegante e apesar do frio cortante que fazia, por dentro sentia-se aquecido como sempre se sentia quando ficava a uma distância tão curta. Tão curta que podia observar cada traço do rosto dela. Nos olhos, na pele bonita e com sardas, na boca fina e vermelha…
levou as mãos delicadas ao rosto de que sentiu a pele pinicar com o toque gelado dos dedos macios dela acariciando sua bochecha. Fechou os olhos instintivamente quando a respiração dela inebriou seus sentidos, a boca tão próxima, tão convidativa…
Quando os lábios de pressionaram-se contra os seus, não hesitou em aprofundar o beijo. Nem a aurora boreal era mais interessante do que estar ali nos braços dela. Mas se os braços fossem um pouquinho mais quentes… Estava tão frio ali…
E o hálito de estava com gosto de ração de cachorro…
acordou do sonho com Kenobi lambendo todo seu rosto com animação. Mal teve tempo de conter as investidas do seu cachorro e murmurar uns “sai daqui, para com isso” e sentiu seus músculos retesados de tanto frio.
Com dificuldade, levantou-se para fechar a fresta da janela que tinha ficado semiaberta e deixava a corrente do ar gélido invernal passar pelo quarto mal iluminado. Com o corpo rígido, abriu o guarda roupa em busca de algo para vestir, tendo em vista que adormecera completamente nu, enquanto folheava o livro de .
.
Já devidamente agasalhado e protegido pelo calor que emanava do seu aquecedor ligado, voltou a emaranhar-se nos lençóis procurando voltar para o sonho de onde nunca gostaria de ter acordado. Até porque, preferia mil vezes sonhar que estava nos braços de do que ter que ficar desperto imerso em pensamentos noite adentro sobre tudo que aquele sonho significava.
Ele sabia o que significava.
Só não queria admitir.

***


estava mais distraído do que o habitual naquela tarde. Em meio a reuniões e contratos, vez ou outra flagrava-se pensando no sonho que tivera com na noite passada. Por muito tempo recusou-se a pensar nos sonhos enquanto estava acordado, até porque, não queria admitir que gostava da aproximação que tinha com uma garota que só existia quando estava adormecido. Se fosse parar para pensar racionalmente naquilo tudo, se acharia muito louco, tendo em vista que era um rapaz comprometido e tinha traços muito peculiares iguaizinhos aos de uma pessoa que ele conhecia…
Fazia quase uma semana desde que o levara para patinar no gelo e tinha o emprestado o Livro Dos Sonhos. Uma semana que o único contato que tivera com a estranha-não-tão-estranha-quase-amiga fora resumido em folhear as páginas do livro verde surrado. Era estranho perceber que quanto mais lia daquele livro, mais conectado sentia-se com . E essa conexão as vezes era assustadora. Fazia com que sentisse coisas estranhas.Como por exemplo, saudade de conversar com ela.
Apesar de ter milhares de coisas para fazer no trabalho, não controlou o impulso irracional de mandar uma mensagem para a menina. Já estava com a janela do Whatsapp aberta há alguns minutos, encarando a foto que já conhecia todos os detalhes.


Que a graça de Valar proteja você

enviou e riu sozinho, um pouco nervoso por estar se sentindo tão bobo. Bloqueou o telefone e jogou-o de qualquer jeito na mesa, não querendo ficar com ele por perto para ver a resposta. Sentia-se muito irracional de repente… que ideia idiota mandar mens..
O aparelho vibrou.


AAAAAA NÃO ACREDITO QUE VOCÊ GOSTA DE SENHOR DOS ANÉIS TAMBÉM. NÃO É QUE VOCÊ TEM ESPERANÇAS???

gargalhou tão alto da mensagem da menina que tinha certeza que algumas pessoas do lado de fora da sua sala podiam ouvir. Deu uma conferida pelas portas de vidro e acionou o controle do painel para escurecer os vidros.


Não precisa gritar.


Desculpa, me empolguei com seu bom gosto. Anda lendo meu livro neee?

sentiu suas bochechas corarem, mas não tinha como negar. Afinal, ela tinha entregado o livro por uma razão, não é mesmo?


Folheei uma coisa ou outra. É bom para passar o tédio.

enviou um emoji com o dedo do meio e riu mais um pouco.


Não me faça arrepender de ter dado meu livro para você. Sonhos são coisas pessoais, guarde com carinho.

“Guarde com carinho” releu três vezes antes de responder.


São muito pessoais mesmo, ainda me pergunto por que entregou a mim.


Também não sei, tive impressão de que você precisava mais dele do que eu.


Como assim?


Sei lá, não quero bancar psicóloga nem nada, mas talvez isso te inspire a lembrar dos próprios sonhos que já teve.

ficou sem responder por alguns minutos, apenas por não saber o que dizer, como sempre acontecia quando conversava com . Às vezes era difícil de acreditar que aquela menina tinha apenas 20 anos de idade.

Bom, isso quando ela não ficava clamando por Odin, falando com árvores, implicando com seu cachorro ou surtando por conta de uma banda.


Inspirou. Lembrei que também não posso morrer sem assistir a aurora boreal.


Viu? Pelo menos para alguma coisa eu servi. =D

ia responder a mensagem, mas foi interrompido pela batida na porta da sua sala. Guardando o celular e devolvendo a iluminação natural das paredes, contemplou a imagem de Norah aparecer no seu campo de visão. Ela carregava mais uma pilha de contratos e uma expressão não muito agradável.
- Licença, Sr. , mas vim trazer uma papelada que o Sr. Johnson mandou, segundo ele, é pauta para reunião de amanhã. – Norah disse adentrando a sala e deixando apenas uma pasta na mão de .
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou com as sobrancelhas arqueadas. Não era todo dia que Norah se referia a ele como “Sr. ” e aquela expressão cansada.
- Hm, nada não. – Ela desconversou.
- O que foi que a Elle fez dessa vez? – perguntou, já supondo, visto que a maioria dos desagrados de Norah eram referentes a Elle.
- Dessa vez nada, graças a Deus.
- Então… O que foi? – insistiu. Gostava bastante de Norah e algo na expressão dela não estava agradando-o, ela parecia incomodada, cansada e irritada, embora não quisesse transparecer.
Norah suspirou cansada.
- Eu prometi que não iria te contar nada… Não quero intrigas pro meu lado… – Norah começou e endureceu a expressão.
- Pode desembuchando, o que foi que falaram de mim agora?
sabia que todas às vezes que seu nome caia numa das rodinhas de fofoca da Whistler’s Company, Norah sempre ia em sua defesa. Não era segredo para ninguém a lealdade que a secretária tinha para com ele, sempre tomando suas dores.
- , eu não sei de nada, então preciso que você não comente nada com ninguém, ok? – Norah pediu, já se rendendo.
- Nor, até parece que eu dou trela para a fofoca que esse pessoal faz de mim. Mas dessa vez, você parece bem chateada, então acho que foi coisa séria. Desembuche logo de uma vez.
- É que eu estava passando pela sala do Sr. Vermond e ouvi ele falando com alguém sobre te destronar… acho que ele estava falando com o Sr. Whistler. – Norah respondeu num murmúrio e pensou um pouco na informação antes de rir despreocupado.
- Ah, era isso? – Fez com descaso e Norah fechou a cara, emburrada.
- Não leve na brincadeira, ele estava com muita raiva.
- Norah, Richard é um velho caquético e bobão que não consegue admitir derrota. Ele já nem está trabalhando como deveria, quando o cargo surgiu eu sabia que esse tipo de coisa aconteceria, não me sinto nem um pouco ameaçado por ele, mas agradeço sua lealdade. Não se preocupe.
Mas Norah não parecia estar convencida disso.
- O que foi, mais alguma coisa? – perguntou e Norah se coçou incomodada.
- É só que o jeito como ele falou com o Sr. Whistler, era como se tivesse em poder para exigir alguma coisa, como se sei lá… pudesse ter algo concreto contra vocês, sabe? Como se estivesse ameaçando…
- Ameaçando? – perguntou levemente intrigado.
- Sim.
pensou por um tempo no que Vermond poderia ter contra ele, não chegando em nenhuma conclusão que fizesse sentido.
- Relaxa, Norah. Ele é só um velho recalcado, está tudo bem. Mas obrigado por me informar – respondeu com um semblante tranquilo e embora não estivesse 100% convicta do que o seu chefe falava, Norah resolveu não insistir. Sem dizer mais nada, deixou a sala de que agora estava levemente inquieto sobre o assunto.
Por mais limpa que sua consciência estivesse a respeito da sua conduta na W.C, estava intrigado sobre o que Richard Vermond poderia ter contra ele para usar como ameaça a Edmund Whistler.
E o que poderia ter de tão importante para deixar Sr. Whistler em suas mãos.


Capítulo XI

You can’t give me the dreams that was mine anyway



[N/A: Aconselho já deixarem Run - Snow Patrol carregando]


- Já está bonito, já está ótimo!
estava ajeitando o nó da gravata observando seu reflexo no grande espelho do seu escritório quando ouviu uma voz conhecida ecoar pela sala.
Com um meio sorriso, virou-se para encarar a figura robusta de Edmund Whistler, que entrava sem a menor cerimônia dispensando a cortesia de bater na porta.
- Edmund! Que surpresa boa… – disse com um sorriso torto, o sarcasmo contido na sua voz. Não estava nem um pouco surpreso por vê-lo por ali.
- Ah, hoje tem reunião do conselho. Quis passar para ver o pessoal… sabe como é. – Dar uma checada se você está fazendo o seu trabalho corretamente. Uma vozinha ecoou em sua cabeça completando perversamente a frase de Edmund.
- Sei. – limitou-se a responder, voltando sua atenção para o espelho enquanto vestia o terno.
- E então… como estão as coisas? – Edmund perguntou de maneira casual, mas podia perceber a curiosidade contida na voz do sogro.
- Me diga você… Soube que já foram reclamar de mim. – respondeu com um sorriso manso, lançando a Edmund um olhar de “sim, já estou sabendo” que fez o magnata da Whistler’s Company suspirar derrotado.
- Ah, então você já está sabendo…
Sim, sabia. Se havia uma coisa que não passava despercebido naquela empresa, essa coisa era fofoca. Quando se tem tantas demandas, metas e prazos para cumprir, é de se esperar que as pessoas estejam tão focadas em fazer o próprio serviço que nem se deem ao trabalho de especular e espalhar coisas sobre a vida alheia. Essa premissa não tinha veracidade na Whistler’s Company: lá sempre havia espaço para fofoca. Se você não fazia parte do grupo que espalha o boato, provavelmente é protagonista da estória.
sempre era protagonista nas fofocas. Deveria estar - e estava - acostumado com elas. Primeiro sobre seus affaires com funcionárias, depois sobre seu envolvimento com a filha do poderoso chefão e em seguida sua ascensão tão inesperada - e rápida - na companhia. Era alimentar esperanças na bondade das pessoas que agora que era CEO da companhia estaria livre do veneno delas.
Normalmente tratava de fofocas com exímia maestria: descaso e indiferença. Pelo menos era isso que tentava incutir na sua própria cabeça quando um boato começava, mas não conseguia deixar de se sentir incomodado com os olhares nos corredores. Dava o dobro de si para compensar qualquer infortúnio e logo as pessoas encontravam outro alvo para falar sobre. Tentava se manter alheio ao falatório, mas sempre absorvia alguma informação com Elle ou Norah, que ocasionalmente deixavam escapar alguma coisa.
A fofoca da vez era que Richard Vermond estava insatisfeito com a “desvalorização” do seu trabalho e clamava que era novo e imaturo demais para “merecer” aquele cargo que demandava uma pessoa “mais velha” “mais experiente” “eu dei minha camisa por essa companhia, estou aqui há 20 anos!” - o boato que corria era que essas palavras tinham sido cuspidas enquanto ele entoava ferozmente com suas têmporas a ponto de explodir.
- Tudo bem, eu já esperava que isso fosse acontecer. – disse dando de ombros enquanto alinhava o tecido do terno. Edmund parecia desconcertado.
- Eu também esperava, Richard é um homem ambicioso, não ia engolir quieto essa história.
- Richard é um bobo chorão que correu para debaixo das suas asas na primeira oportunidade que teve, porque não tem coragem de me dizer nada. Está por todos os cantos suspirando, dando indiretas e revirando os olhos. – respondeu com impaciência. – Honestamente, eu só não demiti o cara por sua causa.
- Não faça isso! – Edmund apressou-se a dizer. Suspirou fundo folgando um pouco o nó da gravata quando lhe lançou um olhar desconfiado erguendo uma sobrancelha. – Ele é um funcionário exemplar, está conosco há tantos anos… Seria um desserviço enorme.
- Não disse que vou fazer, disse que tenho vontade. Sei que ele é amigo da família e trocou a fralda das suas filhas e essas baboseiras todas, mas é bom ele começar a produzir, ou nem bonificação ele terá e todo esse choramingo terá sido em vão. – respondeu recolhendo as pastas de cima da mesa.
- , vamos lá… Ele está conosco há tanto tempo…
- Ed, por que você faz tanta questão dele? Por que ele foi até você reclamar sobre alguma coisa? Se fosse qualquer outra pessoa, você teria agido de forma diferente. Por que Richard? Matt também é amigo da família e está tranquilo com minha antiga posição. – perguntou cruzando os braços enquanto observava Edmund torcer os nós dos dedos visivelmente desconfortável.
- Ele é do financeiro, você sabe… – Edmund murmurou baixinho e ergueu as sobrancelhas.
- E daí?
- Nada, é só que… ele, ele sabe tanto sobre nós. – Edmund respondeu tentando manter o tom casual, mas estreitou as sobrancelhas.
- E dai? – repetiu a pergunta. – Temos alguma coisa a temer por acaso?
- Não! – Edmund disse rapidamente elevando o tom de voz. Pigarreou e empertigou-se antes de continuar num tom mais formal. – Claro que não, não seja tolo.
- Então qual é a grande questão? Sua decisão foi feita, a hierarquia permanece e Richard precisa parar de se lamentar.
- Eu sei, garoto, eu sei… Só… Só não seja tão ríspido com ele, ok? Dê-lhe um tempo. – Edmund disse num tom diplomático e revirou os olhos.
- Ed, eu não tenho paciência para massagear o ego de um velhote frustrado e invejoso. Estou aqui para trabalhar e produzir, foi para isso que você me colocou aqui, não foi? – perguntou num tom impaciente e Edmund concordou com a cabeça a contragosto.
- Ótimo, então me deixe fazer meu trabalho. Richard pode chorar e essa empresa pode fofocar o quanto quiser. – respondeu taxativamente, dando uma leve batidinha com sua pasta na mesa, indicando a porta com ela logo em seguida. – Vamos?
Edmund revirou os olhos e deu uma risadinha baixa.
- Você está se achando.
- Eu sou o CEO, eu posso. – disse em tom de brincadeira colocando os óculos escuros e dando um sorriso torto e Edmund revirou os olhos gargalhando em seguida.
Andaram juntos pelos corredores da companhia até chegarem na sala de reuniões que já estava com sua mesa imensa quase completa com todos os membros do conselho e respectivos diretores. ainda estava rindo de alguma piada que Edmund tinha contado quando ouviu o grito empolgado de Norah ecoar correndo pelo corredor que andara segundos atrás.
- Sr , Sr ! Parabéns!
virou o rosto para olhar para sua secretária que corria esbaforida em sua direção balançando um papel na mão.
- Parabéns, parabéns! – Repetia sem parar.
- Parabéns pelo que, mulher? – Edmund perguntou em tom de riso. – Seu aniversário é hoje?
- Claro que não. – revirou os olhos e sorriu amistoso para Norah. – O que foi?
- Saiu… a indicação! – Norah recobrou o fôlego e estendeu o papel para - Recebi um fax agora. A lista dos indicados para Empreendedor do Ano! – Norah guinchou alegremente.
Todos os rostos presentes na sala de reuniões viraram-se para encarar de uma só vez.
- Meu nome? – perguntou surpreso e chocado, tomando o papel das mãos de Norah que sorria exultante.
E lá estava seu nome.

- CEO Whistler’s Company.

E as cenas a seguir foram só borrões na mente de . Foram tantas vozes ao mesmo tempo, tantos apertos em seu ombro, tantos abraços, tantos olhares de diferentes sentimentos. O papel caiu das suas mãos frouxas e esvoaçou até o chão. Sua expressão devia parecer muito chocada porque conseguia ouvir risos baixinhos brincando do seu estado catatônico.
- Tragam um champagne! – Matt, seu vice, gritou.
- Esse é meu garoto! – Edmund berrava.
Mas não conseguia sair do estado de torpor que tinha entrado. Naquele momento, parecia que o chão não era tão sólido, que as pessoas ao seu redor eram apenas borrões e as vozes eram tão distantes que pareciam falar do fim de um túnel. Lá no final da sua consciência, uma voz fininha lhe dizia que ele talvez devesse estar feliz. Mas não conseguia sentir felicidade.
Não conseguia sentir absolutamente nada.
Estar imerso na sua própria consciência não lhe permitiu ser alheio ao fato de que há algumas cadeiras de distância, Richard Vermond lhe lançava um olhar carregado de inveja… e fúria.



FLASHBACK - 5 ANOS ATRÁS

- ? – inclinou a cabeça para o lado para olhar Elijah através da tela do computador, sentado na mesa a sua frente. – Cara, qual é mesmo a senha que desbloqueia esse sistema? Tô com uma dúvida aqui.
- Tente XBC4, na semana passada funcionou. – voltou a endireitar-se na cadeira voltando sua atenção para o computador a sua frente.
- ? – suspirou ao ouvir o uso do seu nome novamente. Qualquer dia desses enlouqueceria. Girou a cadeira para trás e fez sinal com a cabeça para Lilly que lhe olhava com uma expressão de súplica. – Onde é que eu acho os arquivos de Laos? Eu já vasculhei por todas as pastas e não acho!
- Já tentou na rede compartilhada? Tem uma sessão só destinada para transações desse tipo. Busca pelo código L2010 e você acha. – respondeu pacientemente e observou o semblante de Lilly iluminar quando ela finalmente teve acesso aos arquivos.
- Obrigada, ! Você é o melhor! – Ela disse animadamente quando ele balançou a cabeça contendo um risinho, arrastando a cadeira de volta para o computador.
- Sr. ? – Uma voz grossa ecoou pela sala e suspirou ruidosamente.
- Meu Deus… de novo? O que foi agora? – Disse num tom de impaciência, virando-se para o local de onde a voz tinha surgido, engolindo em seco ao ver o Diretor Lanter lhe encarar com uma das sobrancelhas erguidas. – Ah… diretor.
- Pode me acompanhar por favor, Sr. ? – Pediu educadamente o Diretor Lanter, ao que concordou com desânimo.
- Por favor, sente-se. – Lanter pediu quando entraram na sua sala. sentou na poltrona indicada olhando para o diretor com uma expressão desconfiada.
- Bom, , como você sabe, Maynard Fletcher está se aposentando. – Sr. Lanter disse e assentiu positivamente com a cabeça. Maynard Fletcher era o gestor da sua equipe e sentia um carinho especial por ele. – E sabe também que a vaga dele vai estar disponível.
permaneceu calado enquanto o diretor continuava seu discurso.
- Sabe que aqui na Whistler’s Company nós prezamos pela meritocracia, não sabe? – assentiu mordendo a língua para evitar de dizer tudo aquilo que pensava sobre “meritocracia”. – Isso significa dizer que estivemos de olho em você. Seu trabalho tem sido formidável dentro da empresa e a equipe já parece se reportar mais a você do que a Fletcher.
deu um sorriso amarelo e coçou a nuca desconfortável. Não podia negar - era verdade. Não se passava um só dia em que não ouvisse seu nome pelo menos 15 vezes.
- Bom, nós estávamos pensando em alguém para assumir o posto dele e foi quase unanimidade na diretoria que você deveria ser o escolhido. – Lanter disse com um sorriso e apesar de surpreso com a nomeação, não sentia muita dificuldade em saber quem tinha sido oposto aquela decisão. O diretor Vermond nunca tinha ido com sua cara…
- É claro que você é muito novo e tem muito o que aprender, mas estamos confiantes de que pode ser um bom gestor. É um cargo de muita responsabilidade, é claro que também com mais benefícios salariais, mas com uma carga muito maior de trabalho. Acha que está pronto para isso?
ouviu com atenção, sentindo-se estranho por dentro. Era bacana saber que seus esforços estavam sendo percebidos, mas sentia que sua carreira dentro da Whistler’s Company estava levando um rumo cada vez mais distante daquele que traçara para si mesmo. O plano inicial era juntar dinheiro o suficiente para deixar uma parte para seus pais e a outra para focar no seu intercâmbio social.
Uma coisa era deixar de ser trainee para ser gerente… Outra coisa era ser gestor! O salário aumentaria consideravelmente e poderia ajudar ainda mais os seus pais. Poderia ficar cada vez mais próximo do seu objetivo, só precisaria se esforçar um pouco mais. Valeria a pena, não valeria? Até que gostava do que fazia dentro da Whistler’s Company.
E ficar por lá também seria ficar mais próximo de Charliet.
O coração deu um solavanco ao pensar na filha do presidente Whistler. Desde que a conhecera no último jantar da empresa, não conseguia desviar os pensamentos dela. E ainda mais agora que a garota estava fazendo um estágio voluntário no escritório do pai durante as férias… Poderia vê-la com ainda mais frequência…
- Seria uma honra para mim, Sr. Lanter. Estou muito lisonjeado que tenham pensado em mim. – disse rapidamente, levantando-se para apertar a mão do diretor Lanter que sorria radiante para ele.
- Estou feliz que pense assim, . Tenho certeza que você vai longe, meu garoto. Se continuar trabalhando assim, não demorará muito para conquistar os holofotes também. lançou seu sorriso fechado por pura educação.
Sabia que esse futuro de empreendedor estava com os dias contados.
Era só enquanto corria atrás dos seus sonhos.
Não duraria muito tempo na Whistler’s Company.

FIM DO FLASHBACK



[N/A: Podem dar play na música!]

E agora era CEO.
Indicado ao prêmio de empreendedor do ano.
Mas que momento inoportuno para essas recordações bombardearem sua mente! E que péssimo timing Norah surgir com essa notícia bem na frente de Vermond numa reunião do conselho!
Sua visão ficou turva e a sala de reuniões pareceu rodar. Conseguia sentir mãos puxando-o para abraços, sentia os tapas nas costas e as felicitações dos seus diretores e funcionários. Mas as congratulações não eram tão claras quanto as vozes que ecoavam em sua mente.
“Eu não quero me inscrever nesse processo seletivo idiota” O amuado e jovem parecia gritar a plenos pulmões nas suas recordações. “Eu não quero me tornar um executivo, eu não nasci para ser formal e todo engravatado como você quer que eu seja”.
Você é uma vergonha para si mesmo.
Uma voz cruel ecoou em sua mente e sentiu como se estivessem socando seu estômago. Por que não conseguia se sentir feliz com aquela notícia? Por que não estava satisfeito com o progresso do seu trabalho? Por que não conseguia se sentir orgulhoso de si mesmo com todo reconhecimento que estava recebendo por tudo que havia batalhado na Whistler’s Company? Estava feliz, tinha se acostumado com aquela rotina. Por que de repente esses pensamentos e recordações do passado o atormentavam tanto?
Como um borrão em sua mente, viu a imagem de um livro surrado. “O livro dos sonhos” que apanhara da garota de cabelos certa vez. Uma garota jovem, revolucionária, cheia de vida e de sonhos. Sonhos que eram tão parecidos com os que costumava ter.
Ela tem razão a seu respeito, sabia? Você é mesmo um engomadinho metido a besta. Mas ei, pelo menos agora você é o Engomadinho do Ano.
- Com licença! – pediu, abrindo espaço entre as pessoas até chegar a porta de vidro da sala de reuniões.
- O que foi, Sr. ? – Norah perguntou preocupada notando pelo semblante de que ele não estava bem. Parecia atordoado, os olhos saltados das órbitas.
- Eu… preciso sair. – murmurou abrindo a porta ignorando todos os olhares curiosos sobre si.
- Mas… temos reunião do conselho! – Sr. Whistler interpelou parecendo tão atordoado quanto Norah pelo comportamento estranho de .
- Adiem ou façam sem mim, preciso… sair. – respondeu e sem dar tempo de mais alguém dizer qualquer outra coisa, saiu da sala em disparada sentindo-se incomodado com os olhares que o seguiam por todo corredor.
Todos na Whistler’s Company pareciam estar olhando para ele.
apressou o passo e ignorou os elevadores, correndo até as escadas de emergência. Desceu em disparada sem nem ao menos se dar ao trabalho de parar para recobrar o fôlego. Sua cabeça funcionava a mil por hora, tantas vozes e recordações bombardeando sua mente deixando-o completamente aturdido. O celular vibrou algumas vezes no seu bolso, mas ignorou. Não se sentia minimamente inclinado a falar com alguém nesse momento.
Estava ofegante quando chegou no estacionamento da W.C e destravou o carro antes mesmo de chegar até ele. Estava ansioso para deixar aquele lugar.
pisou fundo no acelerador quando finalmente deixou a rua da empresa. Gotas frias de suor escorriam da testa e ele abriu os vidros deixando que o ar gélido entrasse pela cabine do carro na esperança que esvoaçasse seus pensamentos como fizera com o papel que anunciava sua indicação para um prêmio idiota que ele nunca quisera, nunca fizera questão. Parecia estranho como aquela oscilação de humor acontecera de uma hora para outra. Até algumas horas atrás estava brincando tranquilamente sobre ser o CEO de uma grande companhia e agora não suportava nem ao menos respirar o mesmo ar que as pessoas que estavam lá.
dirigia sem a menor noção para onde estava indo. Só percebeu que estava chorando quando sua visão ficou turva e precisou parar no acostamento do parque porque não conseguia mais enxergar o caminho a sua frente.
O parque.
É claro.
Frustrado e em agonia, esmurrou o volante a sua frente tentando descarregar toda raiva que sentia e não conseguia nem entender porque. Queria arrancar aquele volante com suas próprias mãos! Queria destruir alguma coisa! Qualquer coisa que fizesse aquela voz que ecoava insistentemente em sua cabeça se calar. A voz que dizia que ele finalmente estava entendendo o que tinha feito com sua própria vida. Que não se conhecia mais. Que não deveria ter o menor orgulho do que tinha se tornado.
De repente, respirar pareceu uma tarefa árdua. Nem mesmo com as janelas abertas era possível inspirar ar suficiente para preencher seus pulmões sufocados. Se sentia claustrofóbico. Num movimento brusco, abriu a porta e a fechou com brutalidade, caminhando em disparada para dentro do parque sentindo seu coração martelar dolorosamente contra o peito.
Nem sabia o que estava fazendo naquele lugar e nem porque estava correndo tanto, mas não se importava. Já que estava lá, faria algo para aplacar a agonia que o corroía por dentro. Precisava destruir alguma coisa, queria quebrar alguma coisa.
Com um sorriso perverso, encontrou o alvo perfeito bem na sua frente. Uma árvore de troncos grossos que ele conhecia tão bem. A árvore que parecia plantada nos seus sonhos há mais tempo do que gostaria de admitir. Uma árvore estúpida e idiota que representava naquele momento tudo que mais odiava na vida.
A árvore de .
Sem nem pensar duas vezes, disparou contra a planta, sem se importar se pareceria louco ao olhar de outras pessoas ao redor. Chutou o tronco com força e soltou um urro de dor em seguida. A árvore permanecia intacta, é claro. O mesmo não podia se dizer do seu pé que agora latejava dolorosamente. deu um pulo e segurou um dos galhos com força, puxando-o para baixo fazendo pressão o suficiente para ouvir a rachadura que sinalizava que estava conseguindo quebrar alguma coisa. Com um sorriso triunfante, ele continuou…
- EM NOME DE ODIN, O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – sentiu o sangue congelar dentro do seu corpo no momento em que ouviu o berro irritado de ecoar. Com o galho quebrado na mão, ele girou nos calcanhares para encarar a menina que corria em sua direção com os olhos rasos de lágrimas. – O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? VOCÊ TÁ QUEBRANDO MINHA ÁRVORE?
Ela estava exatamente como lembrava no primeiro encontro que tiveram, meses atrás. Os cabelos rebeldes caiam livremente numa cascata vívida. As mesmas roupas cheias de cores remendadas e o mesmo estilo meio hippie que ele lembrava. Vê-la assim, correndo em sua direção lívida de fúria e vestida daquele jeito só deixou ainda mais amargurado. Ela era a personificação de toda sua raiva.
- Eu quero quebrar ess… – Mas não conseguiu terminar sua frase porque já estava esmurrando seu peitoral com toda força que podia. Parecia leve como uma pluma, nem saiu do lugar. Ela pareceu perceber que sua agressão física não estava levando a nada porque se recompôs, pensou por um segundo e logo tomou o galho da mão de , batendo nele com força.
- AI!
- O que… você… pensa… que… está… FAZENDO? – Ela golpeava com o galho enquanto as folhas que ainda tinham sobrevivido caiam murchas no chão.
- PARA, CHEGA! – tomou o galho da mão dela com força, jogando-o a metros de distância.
Os dois se fuzilavam com o olhar, as narinas infladas e as respirações ofegantes. foi a primeira a quebrar o silêncio mortal.
- O que você está fazendo? O que diabos deu em você?
- O que deu em mim? O que deu em… VOCÊ! O QUE DEU EM MIM FOI VOCÊ! – bradou irritado, afastando-se dela o suficiente para poder gesticular exageradamente apontando para a árvore.
- Hãn? O que eu te…
- EU ESTAVA BEM! EU ESTAVA EM PAZ, EU ESTAVA FELIZ ATÉ VOCÊ CHEGAR. VOCÊ, SEU LIVRO DE SONHOS IDIOTAS E ESSA ÁRVORE ESTÚPIDA. – berrou enfurecido e empalideceu ficando muda de repente. respirou fundo e tremeu dos pés à cabeça enquanto tentava manter a compostura. – Você… Você com seus julgamentos idiotas. Você se acha tão melhor do que eu. Bom, adivinhe? Você está errada. Você não é nada. Perto de mim, você é um nada. Eu sou o presidente de uma das maiores empresas desse país e eu nem tenho trinta anos ainda! E você? O que você é? Além de uma menina presunçosa, arrogante, metida e que acha que consegue me ler e me entender. Arrghhh… Eu.. odeio… você! E toda essa sua pose de revolucionária ridícula e tudo que você trouxe pra minha vida.
escutou todo o desabafo de com uma expressão mortificada. Sua boca em formato de “O” demonstrava com exatidão todo choque com o momento. Seus olhos marejados pelo momento de raiva agora demonstravam toda mágoa que tinha infringido nos seus sentimentos. Os minutos que se seguiram foram de total silêncio, só quebrados pelo som da respiração ruidosa que tentava recompor.
- Você não sabe nada sobre mim. Nada! Sim, eu já fui jovem e estúpido como você. Cheio de sonhos bobos de mudar o mundo e coisa assim. Mas sabe o que aconteceu comigo? Eu cresci! Eu cresci! É isso que acontece com a gente, a gente cresce, vira adulto, passa a ter responsabilidades, contas para pagar e não há nada errado com isso! Eu sou feliz, ok? Eu tenho um trabalho que gosto, eu vou me casar em breve com uma mulher incrível e eu sou feliz! Eu… sou… feliz! – terminou seu desabafo entre dentes prendendo a todo custo o choro que estava se formando em seu peito. fez menção de se aproximar, mas num impulso se afastou com os olhos vermelhos em brasas. – NÃO! Não venha me dizer que eu estou dizendo isso para me auto afirmar ou tentar usar sua psicologia para cima de mim. Você não me conhece! Você não é capaz de me ler, me entender.
- Eu não ia… – começou a dizer, mas não permitiu que ela continuasse a falar.
- Você não pode me dar os sonhos que já foram meus.
pareceu ter sido atingida como um raio com as palavras de . Sua expressão que antes demonstrava surpresa e mágoa, rapidamente foi se transformando num misto de raiva e frustração.
- Não me culpe por ser um frustrado! – Ela gritou enfurecida e revirou os olhos, colocando as duas mãos na cintura, respirando com dificuldade por conta das lágrimas.
“Você tá reafirmando tanto que está feliz então porque se deu ao trabalho de sair do seu pedestal, ou melhor… de uma das maiores empresas desse país para vir dizer para mim, uma nada, uma ninguém, que você é feliz? Que você tem tudo? Você só precisa falar isso em voz alta para me fazer acreditar naquilo que nem você mesmo acredita. E eu não preciso de psicologia nenhuma para te dizer isso. Eu não fiz nada além de esbarrar com você na rua, NADA. VOCÊ foi estúpido comigo. VOCÊ me tratou feito lixo. E depois pegou o MEU livro do chão e leu porque QUIS! Eu não te dei nada, você leu porque quis…”
- Você não ficou chateada quando eu disse que li! Eu nem sabia se iria te ver de novo! - interrompeu.
- Naquela ocasião, eu achava que você pudesse ser diferente. Eu quase me senti culpada por ter te julgado tanto. De qualquer forma, eram MEUS sonhos, não seus. Eu não estava te dando nada. Se você desistiu dos seus eu não posso fazer nada.
- Eu não desisti dos meus…
- NÃO ME IMPORTA! – berrou e deixou sua frase morrer na metade. As lágrimas agora fluíam livremente pelo rosto dela. – NÃO ME IMPORTA QUAIS SÃO SEUS SONHOS, SE ELES SE REALIZARAM OU NÃO, VOCÊ NÃO PODE MENOSPREZAR OS MEUS SÓ PORQUE VOCÊ FOI COVARDE DEMAIS PARA SEGUIR SEU CORAÇÃO. VOCÊ NÃO PODE CULPAR AS PESSOAS POR SER UM INFELIZ E POR TER UMA VIDA MISERÁVEL.
e se encararam pelo que pareceu uma eternidade. Ambos com olhos vermelhos e lágrimas furiosas e magoadas manchando as maçãs dos rostos. As respirações ofegantes e os olhares amuados.
- Você me odeia tanto porque eu sou tudo aquilo que você era. Eu sou tudo aquilo que você desistiu. E eu não tenho culpa de te lembrar tanto de quem você deixou de ser. – disse numa voz entrecortada e sentiu mais lágrimas se formarem nos seus olhos ao ser atingido pela veracidade daquelas palavras.
- E você me odeia tanto por que? Por que você faz tanta questão de ser desagradável comigo e me julgar? – perguntou sem nenhum sinal de raiva na voz. Sentia-se derrotado.
- Eu não… odeio… você - respondeu, mas estava visivelmente desconcertada. Parecia ter sido pega de guarda baixa. – Eu só estava certa sobre você o tempo inteiro. E quando eu achei que você fosse diferente… você vem e me diz essas coisas.
- Você não estava certa sobre mim! Você não sab…
- De novo essa conversinha de que eu não sei nada sobre você? Eu sei que você tem 28 anos e é presidente de uma companhia milionária. Sei que você está noivo de uma pessoa que já amou e que precisa reafirmar para todo mundo que é tão poderoso porque na verdade é infeliz com a própria vida. – interrompeu e suspirou fundo. – A razão para você me odiar tanto é porque, na verdade, você odeia a si mesmo. – Ela sentenciou numa voz gélida e quase pôde sentir a temperatura do ambiente diminuir. Seu corpo tão cheio de adrenalina pareceu ser sugado das energias vitais e o sangue pareceu ser drenado de todo seu sistema. – Mas não se preocupe, eu não pretendo te atormentar ainda mais. Fique longe do meu caminho e eu tenho certeza que não cruzarei mais o seu. Fique longe daqui, fique longe da minha árvore e não tente destruir o que é importante para mim só porque você é miserável demais para conviver consigo mesmo. Volte para sua vida perfeita e finja que nunca nos conhecemos.
- , eu…
- Eu agradeço toda ajuda que você me deu em relação ao Justin. Vou dizer a ele que não deu certo, éramos diferentes demais. – Ela frisou a última parte com sarcasmo, suas palavras pareciam doses do veneno mais poderoso. – Não vai ser difícil para ele de acreditar.
- Escuta, eu...
- Sai daqui, . Vai espalhar toda essa sua negatividade em outro lugar. – disse friamente e fechou a boca com um suspiro.
Sem dizer mais nada, recolheu o blazer do seu terno do chão, lançou um último olhar carregado para e deu as costas a menina que sentava no tronco da sua árvore favorita com os olhos rasos de lágrimas. Nenhuma palavra seria suficiente para descrever a sensação de vazio que sentia naquele momento. Toda raiva, fúria, angústia e frustração foram descarregadas e agora não tinha sobrado nada. Sentia-se a pessoa mais infeliz do mundo, exatamente como descrevera.


Mais tarde naquele mesmo dia enquanto estava deitado em sua cama acariciando as dobras de Kenobi e repassando os acontecimentos daquela tarde na sua cabeça, entendia por que se sentiu tão perdido. Não adiantou dirigir por horas, destruir uma árvore, descarregar suas frustrações em uma pessoa inocente e nem se embebedar num bar. Não adiantava tentar fugir porque não conseguiria se livrar da única pessoa que estava causando toda aquela dor em seu coração.
Ele mesmo.
E não adiantava culpar as pessoas erradas por suas escolhas do passado. Não adiantava transferir suas frustrações para alguém que ainda tinha tanta coisa para viver, que ainda estava tão cheia de sonhos e tanta sede de mudar o mundo. Corroído pela culpa, não conseguia pregar os olhos.
“Fique longe do meu caminho e eu tenho certeza que não cruzarei mais o seu.”
As palavras de ecoavam nos seus ouvidos com tanta clareza que era quase como se ela estivesse ali do seu lado. suspirou fundo tentando afastar os pensamentos que ferviam de arrependimento. Estava livre, não precisaria se preocupar, ela era apenas uma garota que da mesma forma que aparecera na sua vida, também desapareceria. Tudo voltaria ao normal.
Nunca mais precisaria vê-la.
Mas não poderia estar mais equivocado.
Em seus sonhos, continuaria presente.
Mais do que nunca.
Olhou por cima do ombro e suspirou fundo ao contemplar O Livro Dos Sonhos no criado mudo ao lado da sua cama. Esticou o braço para alcançar o livro, mas não teve coragem de abri-lo. Não era digno de algo que era tão sagrado assim para alguém, não depois de ter pisado sem pena nos sonhos dela. Ao invés de folheá-lo como faria em uma noite comum, trouxe o livro para perto de si, abraçando-o contra o peito.
Aquele livro era hoje a única coisa que ele tinha de .


Capítulo XII

For reasons unknown


não saberia dizer qual sentimento prevalecera dentro de si ao checar o relógio do criado mudo e constatar que eram 06h15 da manhã e, portanto, tivera sua primeira noite bem dormida em muito tempo. Apesar de ter conquistado a proeza de um sono sem sonhos, ainda precisaria comparecer a Whistler’s Company porque o final de semana não tinha chegado. “Pense pelo lado positivo, hoje pelo menos é sexta feira”. Tinha a sensação de que aquela semana em particular tinha se arrastado além do normal, era um alívio que estivesse acabando.
Livrar-se dos pesadelos, ainda que por uma noite, era um motivo para comemorar. Não importava se para isso tinha que recorrer a ajuda de remédios fortes. Havia sido uma medida desesperada para repousar e finalmente ver-se livre da cascata de cabelos vívidos e dos olhos que perambulavam por seu sono de diversas formas diferentes ao longo daquela semana.
Ainda que não tivesse o menor sinal da presença dela enquanto estava acordado, aquela menina parecia fazer morada nos seus sonhos da maneira mais bizarra possível. Apesar de nunca admitir isso em voz alta, a pior parte dos sonhos era quando ele finalmente acordava e percebia que todo aquele clima pacífico, harmonioso e de risadas entre eles não passava de um descarrego do seu subconsciente tomado de culpa.
“Já passou, era só um sonho, esqueça isso!” Dizia para si mesmo toda madrugada tentando desesperadamente pegar no sono novamente e tirar aquela menina da cabeça. Sabia que tinha falhado com ela, que havia descontado seus problemas em alguém que era inocente… Mas se pelo menos ela não fosse tão irritante! Ainda assim, não tinha culpa, não merecia o seu descarrego. E de que adianta se arrepender? Vai atrás dela para pedir desculpa? NÃO. Não tinha o menor cabimento. Então vai dormir. E isso se repetia toda noite.
E as olheiras passaram a fazer parte do seu visual diário.
Até que uns comprimidos para dormir passaram a ser atrativos demais.
A fim de afastar esses pensamentos da cabeça, levantou-se para receber os carinhos do seu pug que já estava dando pulinhos na ponta da sua cama. Os momentos que tinha paz e esquecia tudo a sua volta era quando estava com Kenobi. Que presente bem dado de Charliet.
Charliet…
Há um tempo atrás, ela era justamente seu ponto de paz, equilíbrio e felicidade. Como as coisas mudaram tanto em tão pouco tempo? Precisava fazer algo a respeito da loucura que estava sua vida ultimamente.
Precisava canalizar sua culpa para as pessoas certas. Por que se sentir culpado em ter sido grosseiro com uma menina birrenta e respondona e não com sua noiva amável e atenciosa? Precisava se redimir com Charliet. Talvez assim tudo voltasse a ficar bem novamente.
Foi com esse pensamento martelando a cabeça que criou coragem para levantar-se da cama para encarar mais um dia de trabalho árduo na Whistler’s Company. Depois da habitual rotina matinal, estava engravatado e alinhado no seu escritório pontualmente às 08h, distraído demais em seus próprios pensamentos para concentrar-se como deveria nas suas atividades.
Sua cabeça estava cheia e dentre os pensamentos desconexos que vez ou outra vagavam sem permissão para uma árvore de galho destruído e uma menina estressadinha de cabelos e olhos , tentava manter a compostura para decidir o que deveria fazer a respeito da sua vida naquele momento.
Certo ou errado, para o bem ou para o mal, a verdade era que aquela distração estava agora fora do seu alcance. Tinha a opção de dedicar-se com empenho ao trabalho e ao relacionamento com Charliet, já que isso era o que tinha lhe restado. Ou… acabar com tudo isso e fazer o que? sabia que estava inquieto com alguma coisa, mas não sabia se existia algo que pudesse ser feito.
Foi desperto dos seus devaneios por seu vice CEO, Matt, que entrou em sua sala sem a menor cerimônia, falando alto como lhe era de costume.
- Fala, grande ! – Matt saudou entusiasmado e forçou um sorriso virando a cadeira para cumprimenta-lo.
- Matthew… A que devo a honra? – perguntou após um pigarro.
- É sobre o Vermond, cara. – Matt respondeu despejando-se na poltrona a sua frente e franziu o cenho finalmente atento ao assunto. O que aquele velhote estava aprontando dessa vez?
- O que foi?
- Bom, você sabe que o cara não ficou nada satisfeito com sua nomeação. Que a propósito parabéns, cara. Precisamos comemorar, vê se dessa vez você não sai correndo feito uma garotinha assustada – Matt disse risonho e revirou os olhos tediosamente. Em seu coração, um aperto característico o fez lembrar de um certo alguém que diria uns bons desaforos para a comparação machista do vice. Sai da minha cabeça!
- O que ele andou aprontando? – perguntou categórico e Matt bufou.
- Ele não vem trabalhar há dois dias. Pedi para Graham do RH ligar para ele e a resposta foi icônica “não estou a fim de ir” – Matt respondeu com escárnio e arqueou as sobrancelhas surpreso.
- Ele realmente está implorando para ser demitido, impressionante.
- Mas é aí que tá! Eu comentei isso com Sr Whistler ontem e ele me disse que era para eu deixar o velho em paz porque ele precisa de um descanso! Um descanso, ! Vê se pode! – Matt continuou ultrajado e sentiu uma pontada estranha no estômago.
- Você ligou para Ed só para falar isso? – perguntou potencialmente incomodado, mas Matt não percebeu.
- Claro que não, ele esteve aqui ontem, está esquecido? – Matt disse como se fosse óbvio e sentiu o desconforto aumentar.
- Ele esteve aqui? Que horas? Não passou por minha sala não.
- Sério? Que estranho. Ele ficou um tempo tentando me convencer de que não era para eu me incomodar com Vermond, mas fala sério! O cara tem uma equipe inteira para gerir! Por isso vim ver o que você achava de tudo isso.
pensou por um momento em qual justificativa Edmund Whistler poderia ter para comparecer na empresa pela segunda vez naquela semana já que estava oficialmente afastado dos negócios e não tivera uma reunião se quer do conselho que precisasse se fazer presente. Será que não confiava em o suficiente? Será que estava tramando algo em suas costas? Será que estava percebendo o constante desânimo e as confusões que o genro estava vivendo? não sabia dizer, mas estava potencialmente incomodado e desconfiado que estivessem agindo por suas costas e tinha uma sensação muito forte de que era algo para prejudica-lo de alguma forma.
- Peça para Graham emitir oficialmente uma advertência para Richard Vermond – disse obstinado e Matt o lançou um olhar apreensivo – E foda-se se o Whistler achar ruim. Se ele quisesse gerir a própria empresa que não tivesse dado o fora e me deixado aqui. Vermond não vai ter tratamento diferente de nenhum outro funcionário só porque ele acha que merece qualquer coisa. E pode deixar bem claro que se ele tiver algum problema pode vir se resolver comigo. Vou adorar assinar a carta de demissão dele.
verbalizou tudo aquilo num tom tão enfurecido que Matt não se atreveu a contestar.
- Está tudo bem, ? – Perguntou preocupado e o CEO franziu o cenho enraivado.
- Eu estou de saco cheio! Estou de saco cheio dos olhares, das piadinhas e das indiretas do Vermond. Ele é um incompetente invejoso que é incapaz de alcançar o próprio sucesso sozinho apenas porque não tem mérito nenhum. Detesto lidar com pessoas assim – E estou cansado do Whistler acobertando esse asqueroso de merda pelas minhas costas. Gostaria de completar, mas manteve o resto de compostura que ainda tinha. Suspirou fundo, girou a cadeira e levantou-se em direção a janela. Matt entendeu a deixa para sair da sala sabendo que sua visita já tinha causado confusão demais a cabeça de .
- Vou fazer o que você pediu. Fica frio, . Vai dar tudo certo – Matt disse antes de se retirar da sala e respirou fundo mais uma vez.
Todo dia um problema diferente para resolver naquela companhia e ultimamente todos pareciam estar conspirando as suas costas. Não era algo sólido que pudesse provar, apenas sentia. Sentia os olhares nos corredores, os cochichos por onde passava e agora essa relutância de Vermond ao seu trabalho. Tudo isso seria meramente suportável se não fosse essa omissão de Edmund Whistler. sentia-se traído por pensar que o sogro pudesse ter qualquer tipo de envolvimento nisso.
- É que eu estava passando pela sala do Sr. Vermond e ouvi ele falando com alguém sobre te destronar… acho que ele estava falando com o Sr. Whistler. – Norah respondeu num murmúrio e pensou um pouco na informação antes de rir despreocupado.
- Ah, era isso? – Fez com descaso e Norah fechou a cara, emburrada.
- Não leve na brincadeira, ele estava com muita raiva.
- Norah, Richard é um velho caquético e bobão que não consegue admitir derrota. Ele já nem está trabalhando como deveria, quando o cargo surgiu eu sabia que esse tipo de coisa aconteceria, não me sinto nem um pouco ameaçado por ele, mas agradeço sua lealdade. Não se preocupe.
Mas Norah não parecia estar convencida disso.
- O que foi, mais alguma coisa? – perguntou e Norah se coçou incomodada.
- É só que o jeito como ele falou com o Sr. Whistler era como se tivesse em poder para exigir alguma coisa, como se sei lá… pudesse ter algo concreto contra vocês, sabe? Como se estivesse ameaçando…
andou de um lado para o outro na sala tentando pensar em algo que fizesse sentido, mas não encontrou vestígios em sua mente de uma conduta que não fosse exemplar dentro e fora da Whistler’s Company, pelo menos durante o tempo que estava por lá. Tinha sido um funcionário exemplar, um bom gestor, um ótimo diretor e considerava-se um presidente razoável. Levando em consideração o caos que sua mente se encontrava nos últimos tempos, seu trabalho estava até melhor do que o esperado. Pelo menos melhor do que o de muitos funcionários daquela empresa.
Por que Whistler iria cair em qualquer conversa de Vermond? Ele era leal a , não era? Não tinha sido ele mesmo quem fizera tanto gosto pelo cargo de CEO? Não era ele quem se preocupava tanto com seu relacionamento com Charliet? Por que iria participar de qualquer tramoia que envolvesse Vermond?
foi interrompido dos seus devaneios pela segunda vez naquela manhã. Mas naquele momento, desejou que tivesse sido por Matt e não pelo barulho estridente do telefone que tocava na sua mesa. Futuramente, desejaria nunca ter atendido aquela ligação. Mas, assim o fez.
- – Cumprimentou e aguardou. Inicialmente, ninguém respondeu. tentou novamente – Alô?
Alguns chiados foram emitidos do outro lado da ligação e balançou o telefone em mãos achando se tratar de uma falha de contato. Quando estava prestes a desligar, ouviu a voz do outro lado dizer.
- Eles estão armando contra você.
Como se todo sangue tivesse sido drenado do seu corpo, sentiu-se instantaneamente gelado por dentro. Congelou a expressão mortificada com o telefone tão colado a orelha que era capaz de fundir-se ao objeto.
- Quem está falando? – Perguntou com uma voz rouca e assustada, o coração martelando dolorosamente no peito.
- Eles querem ver você longe… – A voz continuou e precisou se esforçar para reconhecer, porém sem sucesso. Tinha certeza que nunca tinha escutado aquela voz antes. Era medonha, parecia sair de um filme de terror ou de um programa de computador mal feito. – Eles estão atrás de você…
Tu. tu. tu. tu.
continuou plantado com o telefone no ouvido pelo que pareceram horas a fio, tão catatônico que estava. Nunca tinha passado pela experiência de receber um trote, por menor que fosse. E aquele tinha acontecido em um momento tão oportuno, exatamente enquanto estava pensando sobre isso. Quem era aquela pessoa? Como parecia saber exatamente o que estava em sua mente?
Um pensamento incoerente passou pela cabeça de e por uns instantes considerou a possibilidade de ter alguma câmera instalada no seu escritório. Embora parte de si rejeitasse esse absurdo, não pôde evitar um olhar rápido pelas paredes da sala vasculhando indícios de que estava sendo observado. Colocou o telefone de volta ao gancho e passou a mão pela barba mal feita confuso demais para entender o que tinha acabado de acontecer ali.
Demorou uns bons minutos para que conseguisse se acalmar por completo. Tentou se convencer de que era só mais uma das armadas de Vermond ou de algum funcionário desocupado da W.C. Fez uma ligação para o ramal de Norah querendo saber se ela tinha passado alguma ligação para sua sala, mas a secretária disse que não. Estranho.
Não teve muito tempo para pensar a respeito daquela estranheza, porque logo depois Elle Simons invadiu sua sala com diversos repórteres em seu encalço para mais uma entrevista sobre a indicação de empresário do ano, varrendo para longe suas preocupações e intuições a respeito do ocorrido.
Eles estão atrás de você…

***

Enquanto dirigia para o caminho tão conhecido da mansão dos Whistler’s, pensava sobre as primeiras vezes que frequentara aquele lugar. Pensava sobre Charliet e todas as coisas que tinham passado juntos e como tudo mudou ao longo dos anos. Pensava nela, para evitar que uma outra mulher invadisse sua cabeça sem sua permissão.
Pensava sobre como a troca de olhares e flertes com Catherine pareceu completamente sem contexto no momento que pousou os olhos sobre Charliet. Como a mera presença dela podia deixa-lo desconcertado. Como tudo nela era atrativo para ele. Cheiro, olhar, toque, gosto…
Nunca foi um rapaz muito romântico, mas se era verdade essa coisa de “alma gêmea”, acreditava fielmente que Charliet era a sua. Ela era o amor da sua vida e no entanto não parecia mais ser o suficiente hoje em dia. Deveria estar feliz e não estava.
E nem sabia o motivo!
bufou de frustração enquanto dirigia e balançou com força o volante como se quisesse arranca-lo. Às vezes tinha tanta raiva de si mesmo! Não conseguia se entender! Por que estava sendo tão ingrato? Por que as coisas estavam tão difíceis? Como se não bastasse os problemas que precisava enfrentar dia após dia na Whistler’s Company, seu relacionamento também estava fracassando diante dos seus olhos. Parecia que tudo que tocava virava pó. Ultimamente sentia-se com o dom de estragar qualquer coisa.
Aumentou o volume do som do carro até que a guitarra da banda começasse a incomodar. Queria ficar tão absorto na música para que não tivesse capacidade para pensar em mais nada.

But my heart, it don't beat, it don't beat the way it used to
(Mas meu coração, ele não bate, ele não bate como antes)
And my eyes, they don't see you no more
(E os meus olhos, eles não te veem mais)
And my lips, they don't kiss, they don't kiss the way they used to
(E os meus lábios, eles não beijam, eles não beijam como antes)
And my eyes don't recognize you no more
(E os meus olhos não te reconhecem mais)
For reasons unknown; for reasons unknown
(Por razões desconhecidas…)

Bufou enraivado e diminuiu novamente o volume do som revirando os olhos para a letra da música. Era só o que faltava! Parecia que todas as coisas estavam se comunicando com ele, dando mensagens subliminares para que tentasse entender a gravidade da situação. Estava dirigindo para casa de Charliet, mas nem sabia o que faria quando chegasse lá. O que diria para ela? Pelo que exatamente pediria desculpas? Iria simplesmente beija-la, leva-la para cama e tentaria descontar todos os problemas e coisas não ditas em sexo?
Que frustração!
pisou fundo no acelerador e baixou os vidros do carro, sentindo a lufada de vento frio bagunçar seus cabelos e pinicar seu rosto. Sentia tanta raiva, tanta frustração, tanta mágoa! Estava se tornando uma pessoa que abominava e que sempre criticara. Além de todo peso da responsabilidade de uma carreira de sucesso e uma vida workaholic antes dos 30, ainda precisava lidar com esses assuntos do coração…
E seu estômago embrulhava novamente, revirando e fervilhando de remorsos por ter descontado todos os seus problemas em alguém cujo único defeito era parecer uma versão mais nova dele mesmo antes de todas essas escolhas. “Quem sou eu e o que eu estou me tornando?” E ele já nem conseguia responder essa pergunta.
De repente a ideia de atirar o carro num poste e morrer não parecia tão ruim assim. Na verdade, parecia bem atrativa. O que fazer quando se acorda um belo dia e olha para o lado e vê que a pessoa que você jurou que passaria o resto da vida já não é mais alguém que você deseja? O que fazer quando as borboletas no estômago param de farfalhar as asas? O que fazer quando se quer salvar esse sentimento? Quando se quer desesperadamente fazer com que esse fogo arda em chamas de novo? não sabia responder essa pergunta.
A única coisa que sabia era que não estava mais se reconhecendo. Alguma coisa parecia ter despertado dentro dele, mas não conseguia entender o que. “Vai ver é a crise dos 30 que chegou antecipada” ouviu a voz de Joffrey ecoar na sua cabeça, recordando a conversa que tiveram no telefone durante a semana. “Ou vai ver você está encantadinho por essa menina misteriosa e não quer admitir”. Bufou e revirou os olhos assim como tinha feito quando ouvira a opinião do amigo. Não era de se abrir e expor a vida para alguém, mas sentiu a necessidade de conversar.
Talvez fosse mesmo a crise dos 30 que todos diziam. Mas a maioria das pessoas chegava nessa idade frustrada por não ter realizado a metade dos sonhos que pretendia aos 20. Já , era o oposto. Era CEO de uma das maiores empresas do país, era rico, tinha uma casa enorme que não precisava, dirigia um carro de luxo e estava noivo de uma mulher linda. Tinha conquistado TUDO que muitas pessoas venderiam a alma para ter e ainda se sentia frustrado.
Diminuiu a velocidade do carro quando chegou a portaria do condomínio e arrumou os cabelos bagunçados tentando recobrar o fôlego.
- Tão cedo aqui, Sr. ? – O porteiro da guarita cumprimentou e deu um meio sorriso, questionando-se a mesma coisa.
- Charliet, você tem visita… Venha, , ainda não tomamos café da manhã, junte-se a nós! – Catherine cumprimentou com um abraço no momento em que ele entrou na sala principal da mansão Whistler.
- Já vou, Cath. Mas preciso falar com a Char primeiro – respondeu e Catherine ergueu a sobrancelha desconfiada.
- Assunto sério uma hora dessas da manhã? Por favor, não rompa o noivado antes de comer um croissant – Catherine respondeu brincalhona, embora o traço de preocupação ainda não tivesse deixado seu olhar. sorriu para tranquiliza-la.
- Não tem nada a ver com isso, relaxe.
- Bom, ok. Vou comer… estou faminta – E dizendo isso, acenou dando as costas e saindo da sala.
- ? – Uma voz doce e suave ecoou pela sala e virou-se para encarar Charliet que o olhava com uma expressão confusa – O que faz aqui tão cedo? Por que não me ligou?
demorou o olhar na noiva por alguns segundos esperando sentir alguma coisa que o motivasse a fazer o que estava prestes a fazer. Apesar de estar de camisola, com cabelos bagunçados e sonolenta, Charliet era inegavelmente linda. E ele a amava. Não tinha a menor dúvida quanto a isso quando a olhava tão de perto.
Suspirou fundo e se aproximou, tomando sua noiva pela mão.
- Eu tenho sido um idiota com você e vim te pedir desculpas – começou e Charliet ergueu as sobrancelhas mais confusa ainda – Eu tô trabalhando demais, resolvendo milhares de coisas ao mesmo tempo e sei que acabei te negligenciando. Desculpe não ser o cara que você merece...Eu sei que deveria te valorizar mais, participar mais, eu não sei o que está acontecendo comigo, eu só…
E perdeu as palavras quando Charliet se aproximou e aplicou um beijo delicado na sua bochecha. Se encararam por alguns segundos e só percebeu que estava chorando quando seus olhos não focalizaram mais Charliet com tanta facilidade. Sentiu o toque suave dela sob seu rosto, limpando duas grossas lágrimas que caíram. Sua garganta estava engolfada num nó. Achou que se sentiria melhor pedindo desculpas para ela. Mas seu pedido de desculpas não parecia estar sendo feito para a pessoa certa.
- Eu amo você, . E eu tô aqui se precisar de mim. Não fica pensando que eu tô desesperada para me casar ou que a gente precisa decidir tudo agora. Tá sendo um ano muito importante e carregado para você. Eu sei que as coisas mudaram muito, mas a vida é assim, né?
“Às vezes a gente faz planos, traça metas e acha que quer uma coisa da vida e de repente num click as coisas mudam. As prioridades invertem, a vida dá várias voltas e tá tudo bem também. Eu tô aqui por você se precisar conversar. Sei que toda essa coisa de CEO bagunçou você, sei que não era isso que queria para sua vida, mas seu caminho mudou. Só não deixa isso afastar a gente, não me afasta… Eu tô aqui se precisar conversar, não precisa ser um fardo.”
ouviu tudo atentamente e suspirou fundo, fechando os olhos com força. Que babaca tinha sido. Como estava afastando uma mulher madura, parceira e que o amava tanto?
- Eu te amo muito – disse com o cenho franzido e Charliet continuou a encara-lo sem sorrir. O tom de voz que ele usava para falar aquilo era quase como se estivesse tentando se convencer disso.
- Nós não precisamos marcar uma data agora, sabe disso, não sabe? – Charliet falou numa vozinha fina e a encarou com uma expressão confusa.
- Que? Nã…
- A gente não precisa marcar data agora, . Não tem pressa. Não quero que nosso casamento seja um abate. Quero que seja uma escolha consciente e feliz. E se não for assim, se for mais um dos caminhos que a vida muda, então que a gente mude também. – Charliet respondeu e sentiu seu coração apertar de maneira dolorosa. Ela era tão madura, tão centrada e decidida.
- Não quero cancelar nada. – disse rapidamente e Charliet quase sorriu aliviada, mas manteve sua expressão séria – Nós vamos fazer dar certo, sem pressão, sem abate. Vamos passar mais tempo juntos e eu prometo mudar.
Charliet o encarou por alguns minutos parecendo incerta e então, algo no olhar de pareceu convencê-la da sinceridade dele. Ela sorriu.
- Tudo bem, vamos conversar mais, ok? Não precisa passar por nada sozinho – Ela disse de maneira suave e a abraçou fortemente. Ficaram abraçados por alguns minutos até que foram interrompidos por um ronco discreto da barriga de Charliet.
- Desculpa – Ela disse se afastando quando riu – Acordei faminta, vamos tomar café da manhã, por favor? Nina fez aquele bolo que eu amo! – Charliet convidou e sorriu percebendo-se cheio de fome de repente.
- Vamos, eu não pretendia ir embora. Vou passar o dia com você – Respondeu dando de ombros, recebendo um beijo estalado de uma Charliet radiante.


Apesar de estar sendo agradável passar um tempo com Charliet, não conseguia se livrar da sensação de mal-estar. Às vezes estava rindo de alguma piada que Bill tinha contado quando percebia seu sorriso esmorecendo por conta de um aperto no peito. As vezes estava brincando com Cameron e era tomado por uma apatia que não sabia de onde vinha, mas que não conseguia se livrar. Apesar de ter decidido investir no relacionamento com Charliet, ainda sentia como se algo não estivesse no devido lugar.
- Você está pensativo de novo… Tá tudo bem? – Foi interrompido pelos seus devaneios pela voz de Charliet que sentava-se ao seu lado na varanda da mansão Whistler.
pensou um pouco antes de responder. Queria fazer as coisas darem certo com Charliet e, portanto, sabia que precisava trabalhar um pouco melhor no quesito honestidade e diálogo. Embora houvessem questões que nem ele mesmo entendia direito.
- Mais ou menos… – Respondeu incerto e sentiu a mão de Charliet acariciar seu rosto.
- Tem a ver com a indicação para o prêmio de Empresário do Ano? – Charliet perguntou e sentiu como se estivessem socando seu estômago. Aquele era um assunto delicado, principalmente por conta de todas as situações que decorreram depois daquilo. suspirou fundo.
- Eu sei que eu estou sendo ingrato, eu deveria me sentir feliz com isso… Só não consigo. – respondeu com sinceridade.
- Eu te entendo, de verdade. – Charliet falou calmamente e direcionou um olhar de canto para a noiva, surpreso com a compreensão daquilo. – Sério. Sei que você evita conversar comigo sobre isso porque eu sou filha do meu pai…. – Charliet deu um risinho e sorriu fraco, sentindo um gosto amargo na boca a menção de Edmund Whistler. Queria poder dizer umas coisinhas a respeito do seu pai, Charliet. – Mas eu percebi como toda essa transição acabou fugindo do seu controle. Não me esqueci que quando nos conhecemos você não planejava todo esse futuro dentro da W.C.
- Não planejava, mas queria… Acabei querendo.
- Mas será que você quis pelos motivos certos? – Charliet perguntou e franziu a sobrancelha.
- Como assim?
- Sei lá, naquela época estávamos nos envolvendo bastante e eu lembro que você fazia tudo o que fosse possível para estar perto de mim – Charliet riu recordando-se saudosa do começo do namoro.
- Eu confesso que no começo foi sim porque queria ficar próximo de você, mas depois acabei pegando gosto pela coisa…
- Pegou gosto pela coisa ou acabou se acostumando com o que você tinha? – Charliet perguntou e não soube responder. Charliet suspirou fundo e parou o carinho na nuca do noivo para colocar o cotovelo no sofá e apoiar a cabeça com o punho, olhando-o com uma expressão difícil de decifrar.
- Sempre tive medo disso, sabe? Que a mesma coisa que nos aproximou também fosse aquela que iria nos distanciar. – ela disse e sentiu seu coração comprimir um pouco. - Me desculpa…
- Não é sua culpa, , eu só não queria que você tivesse se jogado de cabeça nisso por mim porque eu não queria ser responsável por sua frustração.
- Mas você não é responsável por nada disso, Char!
- Eu sei que não tenho culpa, mas de certa forma foi o que aconteceu. Essa coisa toda de se relacionar com a filha do seu chefe acabou te levando para um rumo que você não queria, mas que não soube como evitar. Só que além de não ter te deixado tão feliz profissionalmente, fez com que você acabasse se afastando de mim afetivamente também. - Charliet explicou e sentiu-se um lixo por completo. Nunca tinha parado para pensar dessa forma, mas sabia que apesar de não concordar com ela, o que sua noiva dizia tinha razão. Inconscientemente ele acabou afastando a única pessoa que teria sido capaz de compreendê-lo no meio de toda aquela confusão.
Charliet teria acompanhado qualquer que fosse o seu sonho ou escolha de futuro.
aproximou seu rosto do dela e acariciou os traços do rosto que ele tanto amava. Beijou suas bochechas, seus olhos, sua testa, seu queixo e por fim sua boca.
- É só a crise dos trinta, Char. Já já vai passar. – respondeu num tom mais leve e Charliet riu, embora ainda tivesse traços de tristeza em seu olhar.
- Tá tudo bem mudar, . Você não precisa estar sempre em conflito entre quem você foi e quem você é hoje. Se você acabou se acostumando, aceitando ou querendo… Não faz diferença. A diferença é o que você vai fazer com isso hoje. A gente sempre tem a escolha, só não se culpe por não ser mais aquele menino que eu conheci. Os sonhos também mudam…
Sonho ainda era uma palavra delicada para . Mas sabia que Charliet tinha razão.
- Obrigado. – disse depois de um tempo, acariciando as bochechas da noiva, encarando-a com um olhar terno.
- Amo você – Ela respondeu com um sorriso meigo e sorriu sentindo-se um pouco mais leve, aproximando seus rostos novamente para iniciar outro beijo.
Porém, enquanto seus lábios estavam nos de Charliet e suas mãos no corpo dela, a mente de estava distante da mulher que estava ao seu lado. Embora tivesse a plena convicção de que amava Charliet, esse amor hoje parecia muito mais fraternal do que o que demanda um relacionamento de marido e mulher, que estavam prestes a se tornar. Charliet era linda e tinha um corpo que muito agradava , mas o toque já não era mais o mesmo, ainda que não quisesse admitir para si mesmo e muito menos para ela, a verdade era que já não havia mais paixão.
tentava não pensar nisso por muito tempo, visto que sabia e acreditava piamente que paixões são passageiras e podem reacender a qualquer momento. E era nisso que estava tentando apostar ao investir no relacionamento com Charliet. Talvez se começasse a ser sincero com ela, se estabelecessem mais diálogos, então aquela chama poderia se reacender.
Mas a verdade era que estava tentando desesperadamente tapar o sol com a peneira. A chama até poderia reacender se suas intenções fossem verdadeiras e não apenas para evitar lidar com aquilo que não deixava sua mente um só segundo. Não queria ter que pensar de forma racional naquilo que não fazia sentido nem mesmo para ele. E seus esforços para fazer dar certo com Charliet não iriam a lugar algum se ele não conseguia ser sincero com ela 100%, visto que, se fizesse isso, teria que contar a respeito de uma pequena desbocada de olhos e cabelos que entre as maiores bagunças que tinha feito em sua vida, seu conjunto Pierre Cardin ficava esquecido em último lugar.
Tentava tanto, tanto, tanto, não pensar nela. Mas falhava só pela tentativa. Ao tentar não lembrar dela, de alguma forma, já fazia com que ele estivesse pensando nela. Quando não tinha mais jeito, quando não conseguia negar para si mesmo que estava com o pensamento longe, tentava convencer a si mesmo de que isso estava acontecendo apenas por um sentimento de culpa, porque querendo ou não, sabia que tinha magoado os sentimentos dela.
Se colocou no lugar dela algumas vezes e isso doeu mais do que deveria. Eles estavam finalmente bem, se conhecendo melhor, criando um vínculo estranho, porém muito agradável de amizade. Para além das reflexões e o despertar da consciência dos seus sonhos e futuro profissional, ela também tinha trazido motivos para rir e para relembrar o som da própria gargalhada, há tempos esquecida na garganta. E apesar de arrependido, não tinha motivação o suficiente para ir até lá pedir desculpas. Talvez fosse melhor assim. Cortar pela raiz.
Mas não era uma má pessoa. E isso estava corroendo-o por dentro. Não conseguia reconhecer esse rapaz irritadiço que estava se tornando. Por um momento lembrou-se de Justin e sentiu-se infeliz por ter sido tão injusto com ela, que já tinha sofrido tanto com alguém antes. E ela não merecia…


Mais tarde, naquela mesma noite, revirou na cama pela terceira vez, incapaz de pregar os olhos. Ao seu lado, Charliet estava deitada usando apenas a camisa dele, os olhos fechados numa expressão suave. tentava dormir e se livrar daqueles pensamentos inoportunos, mas sem sucesso.
Quando finalmente conseguiu pegar no sono, seus sonhos foram traduzidos no seu lindo pesadelo favorito, embora de maneira traiçoeira, visto que, em sua inconsciência, verbalizou num murmúrio incontáveis vezes os nomes que evitava pensar a todo custo quando estava acordado.
.
Imerso nos seus sonhos, não pôde ver que ao seu lado, Charliet franzia a sobrancelha e apertava os olhos com força, incapaz de controlar duas grossas lágrimas que caíam por seu rosto ao ouvir o homem que amava dizer nome e sobrenome de outra mulher, pela terceira vez, dormindo nu ao seu lado.


Capítulo XIII

Smile, even though your heart is aching


[N/a: Recomendo deixarem carregando “Smile” de Tony Bennett]

Tinha total consciência que esta estava sendo a pior semana de toda sua vida.
Nem mesmo a pressão da faculdade, os desentendimentos com seu pai e os primeiros anos de multinacional tinham sido tão frustrantes quanto aquela maldita semana. Parecia que todas as coisas estavam conspirando para dar errado e estavam dando. Era um efeito dominó.
A começar pelo primeiro atraso de em todos os anos de Whistler’s Company.
Nunca tinha se atrasado, nem mesmo no fatídico dia que tinha derrubado café em sua roupa. Não que alguém ainda se desse ao trabalho de controlar sua folha de ponto, mas era famoso por sua assiduidade e exímia maestria em pontualidade. Há alguns dias estava sofrendo com uma insônia miserável e uma dessas noites em claro resultou em um atraso de duas horas do seu horário de trabalho.
O que culminou numa reunião fracassada e ocasionalmente um contrato milionário perdido.
Precisou se exilar em sua sala porque não aguentava mais os olhares repreensivos e críticos das pessoas que esperavam tanto pela bonificação resultante daquela negociação. estava se sentindo o verdadeiro Grinch para as crianças amantes do Natal. A reunião tinha sido presidida por Matt que apesar de ser muito bom no que fazia, não tinha a menor noção de como conduzir, visto que estava por dentro de todas as informações. E não adiantou barganhar, não haveria uma outra chance.
não estava acostumado a fracassar no trabalho. Já tinha fracassado em tanta coisa em sua vida, pelo menos no trabalho tinha a certeza de estar fazendo o certo. Hoje nem isso. Faltava apenas alguns dias para o recesso de fim de ano e portanto na semana em que precisava ser mais produtivo estava um caco por dentro.
Afundou na cadeira sentindo-se um completo inútil infeliz. A última vez que estivera num dia tão corrido e conturbado tinha contado com um apoio extra para anima-lo. Foi incapaz de conter um sorriso ao recordar daquela segunda-feira atípica em que o levara para patinar no gelo.
- Nossa, mais uma das coisas que estou desconstruindo a seu respeito. Imaginei que um cara como você só comesse nos restaurantes que eu nem sei pronunciar, com dinheiro que dá pra pagar uns seis meses de aluguel da minha avó – disse depois de engolir uma porção realmente grande do seu big tasty, fazendo revirar os olhos sorrindo.
- Realmente, faz muito tempo que eu não comia um sanduíche desses. – confessou fazendo rir.
Riu baixinho com a lembrança, recordando-se da bagunça que fizeram no carro com sacos de lanche para todo lado enquanto engatavam numa conversa despreocupada e animada. Aquela conversa tinha sido um pouco antes de lhe emprestar o Livro Dos Sonhos. Com um suspiro, deixou o sorriso vacilar quando desviou o olhar para o encadernado surrado verde musgo em cima da sua mesa de trabalho. Apesar de não ter coragem para abri-lo, o livro agora o acompanhava para cima e para baixo onde quer que estivesse.
Não sabia explicar exatamente o porquê desse comportamento quando o assunto era . Não sabia o que tinha acontecido e nem como as coisas tinham chegado ao ponto que chegaram, mas a verdade é que era cada vez mais difícil mantê-la longe do pensamento e não havia como negar. Talvez fosse porque ela era a única pessoa no meio daquele antro de falsidade e interesse que ainda tinha coragem e culhões para dizer a verdade do que pensava sem se importar com as consequências.
Amava Charliet, ela era uma pessoa de muitas virtudes, mas não era uma mulher de pulso firme, pelo menos não quando o assunto era ele. Ela era um pouco passiva e silenciava suas opiniões para não desagradar . Coisa que jamais faria. Ele poderia arrancar os cabelos se quisesse, ela continuaria sendo irreverente sem medo de expressar o que pensava e faria com que ele a ouvisse, por bem ou por mal.
Precisou refrear esse pensamento porque logo estaria comparando as duas e isso não tinha o menor cabimento. Charliet era sua noiva e era… nada. não era nada.
- Você… Você com seus julgamentos idiotas. Você se acha tão melhor do que eu. Bom, adivinhe? Você está errada. Você não é nada. Perto de mim, você é um nada. Eu sou o presidente de uma das maiores empresas desse país e eu nem tenho trinta anos ainda! E você? O que você é? Além de uma menina presunçosa, arrogante, metida e que acha que consegue me ler e me entender. Arrghhh… Eu.. odeio… você! E toda essa sua pose de revolucionária ridícula e tudo que você trouxe pra minha vida.
fechou os olhos e apoiou a cabeça entre as mãos, os cotovelos sobre a mesa. Lembrar dessa discussão ainda amargurava seu coração. Porque não precisou de muito tempo depois da poeira baixar para perceber que tudo o que dissera tinha sido uma grande mentira. Não era feliz antes de conhecer e se depois dela essa infelicidade tivesse se intensificado isso só significava que ela tinha - mesmo sem querer - aberto seus olhos a respeito do que sua vida tinha se tornado. E talvez preferisse viver na ignorância. Porque ter conhecimento das coisas demandava atitudes. Atitudes que não sabia se tinha coragem para tomar.
- EU ESTAVA BEM! EU ESTAVA EM PAZ, EU ESTAVA FELIZ ATÉ VOCÊ CHEGAR. VOCÊ, SEU LIVRO DE SONHOS IDIOTAS E ESSA ÁRVORE ESTÚPIDA!
O Livro.
ergueu a cabeça e arriscou um olhar para o Livro dos Sonhos, única coisa que restara para provar a si mesmo que não tinha sido apenas um devaneio da sua cabeça. Andava com ele como um amuleto sem querer admitir para si mesmo que ainda nutria esperanças de que ela fosse aparecer para reivindicar o objeto que lhe pertencia - não que ele tivesse desejo de devolver. Só queria vê-la mais uma vez.
Por dias manteve aquele livro por perto sem coragem de abri-lo. Por dias tudo o que fizera fora acariciar o camurçado surrado de capa dura criando inúmeras teorias sobre como ele tinha surgido e há quanto tempo ela o tinha. Aquela semana estava sendo insuportável e aquele dia talvez fosse o pior de todos. Se não tivesse sido tão imbecil poderia mandar uma mensagem despretensiosa para e roubar algumas horas do dia na companhia da mocinha, mas agora nem isso - estava devidamente bloqueado no whatsapp. A única coisa que restava era o livro dela e aquela vontade intensa de saber mais sobre sua dona.
Sentindo todas suas terminações nervosas ativadas como fios desencapados, abriu o livro de , eletrizado pela perspectiva de sentir-se perto dela novamente, ainda que através daquele objeto que certa vez ela tinha se referido carinhosamente como mágico.
folheou por entre sonhos e anotações sentindo-se quente por dentro, como há um tempo não se sentia. O coração batia descompassado e chegava a doer contra a caixa torácica, mas ele não parou. Repetiu o gesto algumas vezes até achar uma página desenhada em azul que lhe chamou atenção.
Para os dias tristes
leu o título e sentiu suas entranhas revirarem. Aquela página era apropriada para o momento. Correu o olhar por toda extensão e ergueu as sobrancelhas surpreso por reconhecer ali a letra de uma das suas músicas favoritas na adolescência, só então dando-se conta de quanto tempo tinha que não a ouvia. Rapidamente recolheu o celular do bolso e conectou o bluetooth na caixa de som da sala e escureceu ainda mais as paredes.

[N/a: Coloquem a música para tocar e aproveitem essa lindeza]

Afastou a cadeira o suficiente para apoiar os pés na mesa, ajeitou-se confortável e apoiou a nuca no encosto, encarando o teto depois de inspirar profundamente ao reconhecer a melodia responsável por acalma-lo nos maiores momentos de tormenta da vida. Essa era só mais uma entre as deliciosas coincidências que tinha para compartilhar com . Que bom saber que ela gostava daquela música, era especial para ele.

Smile,
(Sorria,)
Though your heart is aching
(embora seu coração esteja doendo)
Smile, even though it’s breaking
(Sorria, embora esteja se quebrando)
When there are clouds
(Enquanto houver nuvens)
In the sky, you’ll get by
(No céu, você sobreviverá)

fechou os olhos e balançou a cadeira lentamente como se estivesse dançando no ritmo da música. Apesar de ter embalado os momentos mais tristes de sua vida, aquela música não o deixava angustiado e muito menos infeliz. Ela representava todo o desejo de melhora, a esperança de dias melhores e acalento para alma na tormenta que se encontrava sua mente. Tinha sido uma feliz e oportuna lembrança recordar daquela canção tão antiga e tão bonita.
Em uma espécie de sinestesia, através daquela música pôde sentir tão evidentemente em seus lábios o gosto do bolo de chocolate que sua mãe costumava fazer nos domingos de férias. As férias que seu pai não estava em casa e, portanto, conseguia ter paz. Viu com clareza os tons de azul turquesa e sentiu seu coração quente e tomado por uma tranquilidade completamente alheia ao momento turbulento que estava vivendo.
Por alguns minutos desligou-se da Whistler’s Company, da perspectiva de se tornar Empresário do Ano (esperava que pelo menos o fiasco da reunião contribuísse para que isso não acontecesse, embora não fosse admitir em voz alta) desligou-se das suas diferenças com Charliet e a pressão de casar-se em menos de um ano e apenas focou naquela música que representava tanto em sua vida.
Como podia dizer que tinha sido responsável por trazer infelicidade para sua vida, se era graças a ela que conseguia também ter memórias tão agradáveis quanto aquela? Como podia ter se voltado contra a menina que de todas as coisas que tinha feito, a única culpa era fazer sentir-se cada vez mais como ele mesmo? Estava tão mal acostumado a ser alguém novo que havia se esquecido suas origens e aquela mocinha desbocada e destemida tinha sido a responsável por gerar o conflito entre quem ele realmente era e quem havia se tornado.

Light up your face with gladness
(Ilumine seu rosto com felicidade,)
Hide, every trace of sadness
(Esconda qualquer traço de tristeza,) Although a tear
(Embora uma lágrima)
Maybe ever so near
(Possa estar sempre próxima.)
That’s the time you must keep on trying
(É o momento em que você precisa continuar tentando.)
Smile
(Sorria,)
What’s the use of crying?
(Qual o motivo de chorar?)
You’ll find that life it’s still worthwhile
(Você vai perceber que a vida ainda vale a pena,)
If you just smile
(Se você apenas sorrir)

Poucas pessoas do seu ciclo social atual sabiam, mas música era uma das únicas coisas que conseguia se conectar. Apesar de ter se fechado para quase tudo que envolvia seu passado, sempre teve sentidos apurados para músicas e uma das habilidades que mais se orgulhava era de conseguir tirar com facilidade qualquer melodia no violão. Que saudade sentia do seu violão… que saudade sentia de passar horas dedilhando os acordes de suas canções favoritas ou de própria autoria. E que saudade sentia de cantar… Outra coisa que poucas pessoas sabiam a seu respeito, mas tinha uma voz linda e muito afinada.
Apesar de ter sido utilizada como colete salva vidas dos momentos mais tristes e conflituosos, aquela música não trazia nenhuma recordação que não fosse boa. Representava todas as coisas bonitas que tinha conseguido extrair das dores mais profundas. E lembrar disso tinha sido bom. Tinha sido muito bom.
Tão bom que voltou a repetir aquela música três vezes durante aquele dia.
Repetiu mais uma vez no escritório e outras duas enquanto dirigia a caminho de casa depois de um expediente exaustivo que decidiu terminar três horas mais cedo por conta própria. Estava no finalzinho da tarde e sentia-se potencialmente mais aliviado e relaxado longe do ambiente enclausurante que era seu escritório. Dirigia calmamente para casa, sem pressa de chegar.
Estava tão absorto na música e nos próprios pensamentos desconexos que se assustou ao notar que o caminho que havia feito não era nem de longe o convencional e não tinha o guiado para sua casa. Parou no acostamento e arregalou os olhos ao notar que tinha dirigido por minutos de modo automático e em completa desatenção fora parar numa rua longe de ser a sua.
Não precisou de muito para reconhecer onde tinha ido parar. Apesar de só ter ido até aquele bairro durante a noite, reconhecia muito bem aquela casinha minúscula no fim da rua com tijolos e portão de ferro.
A casa de .
Você só pode estar de brincadeira...
Estava começando a ficar ridículo aquela obsessão com a menina. Não bastava o fato de habitar seus sonhos toda noite e não sair da sua cabeça um só segundo, agora estava norteando seus passos também. O que diabos estava fazendo na porta da casa dela? O que supostamente deveria fazer? Ir até lá rastejar por desculpas? Devolver seu livro?
Tá doido? E perder o único elo de ligação com ela? O livro é seu.
Ok, o livro não era dele, mas ela tinha emprestado sem prazo de devolução, não é mesmo? Se o livro fosse mesmo tão importante e especial para ela, por que teria emprestado para um desconhecido? E por que não se daria ao trabalho de pedir de volta antes de bloqueá-lo impiedosamente do whatsapp?
Impiedosamente não, você foi babaca com ela.
respirou fundo sentindo-se completamente irracional. Aquilo estava indo longe demais. Não estava pronto e não tinha motivação o suficiente para devolver o livro, por mais egoísta que isso pudesse soar. E sabia que não era apenas a falta de coragem que o impedia de pedir desculpas. A essa altura do campeonato começava a acreditar que a presença de em sua vida era perigosa. Talvez fosse melhor manter distância.
Ficou parado alguns segundos na rua da casa dela sem saber exatamente o porquê. Não sabia se inconscientemente esperava que ela saísse ou chegasse para que pudesse vê-la mais uma vez, coisa que não aconteceu. Afastou o cabelo do rosto e ligou o carro novamente, pronto para dar partida e rumar na direção correta dessa vez, quando algo peculiar chamou sua atenção e ativou suas terminações nervosas num átimo.
Num passo arrastado e desengonçado, com suas bermudas duas vezes mais largas que o normal, um rapaz se dirigia até a porta da casa de e com um arrepio horrível na espinha, constatou que aquele se tratava do ex namorado dela.
Justin.
A boca amargava só em pronunciar o nome daquele marginal. O que ele queria indo na casa dela? Seria possível que tivesse voltado para ele? Não, não conseguia conceber essa hipótese, embora também não conseguisse entender porque ela tinha começado com ele para início de conversa. Ela era tão madura, tão inteligente, tão… superior. O que tinha visto em um cara babaca e desmiolado como Justin? Apenas cinco minutos na presença dele foram o suficiente para constatar que era um completo imbecil.
Guiado por seus instintos, tornou a desligar o carro e observou de olhos semicerrados a cena que acontecia a sua frente. Justin bateu na porta da casa de uma vez, duas, três, quatro até que na quinta vez ela atendeu. Quando apareceu no campo de visão, o coração de deu um salto e bateu em disparada comprimindo seu pomo de adão. Ela estava com uma expressão diferente da que estava acostumado a ver.
Com os cabelos presos num coque malfeito, blusão largo moletom surrado e pantufas de gatinho, atendeu a porta com uma cara inchada que ou significava que tinha passado muito tempo chorando ou muito tempo dormindo. Secretamente esperou que fosse a segunda opção. simplesmente não combinava com lágrimas.
A expressão chocada e ultrajada dela respondeu os questionamentos mudos na cabeça de . Ela não tinha voltado com Justin e a presença do rapaz não era bem-vinda, a julgar pelo modo como ela tinha cruzado os braços no tronco e franzido o cenho, incomodada. não podia ouvir o que se passava lá fora, mas a julgar pelas expressões e gestos, era o início de uma discussão acalorada.
Manteve-se em alerta. Lembrava muito bem do desespero de em pedir ajuda a um até então desconhecido para tirar Justin do seu pé. Sabia que a menina não tinha muitos amigos e, portanto, ninguém a recorrer. não precisava ouvir para saber que Justin tinha gritado com , sabia disso porque a menina ergueu o dedo indicador e ele pode entender através de leitura labial ela dizer “fale baixo comigo”.
Só o ato de erguer o dedo para pedir respeito foi o suficiente para que Justin perdesse a paciência. Num gesto rápido, tomou o braço de impondo força na mão e arrastou a menina para longe da porta de casa.
E foi só o que bastou para tudo começar.
Antes que pudesse refrear seus impulsos, abriu a porta do carro e disparou para a frente da casa. O sangue fervendo e o coração martelando no peito.
- EI, EI, VOCÊ AÍ – Gritou enquanto corria em direção a casa. Justin virou-se de costas com presa em sua mão, arrastando-a junto de si enquanto ficava de frente para . – Solta ela agora.
- O que você tá fazendo aqui? – Justin verbalizou a pergunta que podia notar nos olhos de . Além de assustada com a agressão, estava também verdadeiramente surpresa com a presença de ali. Trocaram um olhar que durou apenas um segundo e sentiu algo revirar no estômago.
- Eu posso te fazer a mesma pergunta, achei que eu tivesse sido claro na formatura quando mandei você ficar longe dela. – rosnou voltando seu olhar carregado de repudio para Justin. O rapaz fechou ainda mais o aperto no braço de que fechou os olhos numa careta de dor.
- O que esse babaca tá fazendo aqui, hein ? Você não disse que vocês não tinham nada? – Justin ralhou sacudindo a menina e isso foi demais para . Geralmente não era uma pessoa explosiva e tinha contado nos dedos as vezes que tinha se envolvido numa briga, mas naquele momento já não conseguia mais pensar racionalmente. Num só movimentou puxou Justin pela gola da camisa e antes que o rapaz pudesse reagir, aplicou-lhe um soco bem no meio do nariz.
O som de ossos se partindo indicava não só que Justin estava de nariz partido como também tinha machucado a mão de acordo com a dor lancinante que sentiu no local pela força que aplicara no golpe. Sacodiu a mão no ar suspirando de dor enquanto Justin largava para dar atenção ao nariz ensanguentado.
- EU FALEI PRA VOCÊ FICAR LONGE DELA! – berrou e percebeu se retrair levando as mãos a boca de pânico.
Justin olhou para as mãos molhadas de sangue e lançou um olhar maníaco para como se estivesse analisando a alternativa de revidar o golpe e partir para briga ali mesmo. Embora tivesse milhares de motivos para abominar violência, sustentou o olhar sabendo que não iria arredar o pé enquanto Justin estivesse por lá. Não daria o braço a torcer.
- O que esse mauricinho tá fazendo aqui, ? – Justin direcionou a pergunta para a menina com a voz embargada por conta do sangue.
- Você esqueceu que ela tá comigo? Você nos viu na formatura juntos. Não importa o que ela te disse, o que importa é que eu tô aqui e eu não vou sair tão cedo. – sustentou sem se atrever a olhar para cara de e ver a rejeição e indignação dela com aquela frase. Embora soubesse da repudia que a menina tinha pelo ex namorado, não queria testar qual dos dois ela odiava mais.
- Eu não tô falando com você, mauricinho de merda.
- Você quer levar outro soco, dessa vez no olho?
- Eu vou…
- PELO AMOR DE ODIN, VOCÊS DOIS QUEREM CALAR A PORRA DA BOCA? – se manifestou parecendo ter sido desperta do estado de choque, berrando com a voz trêmula que expressava seu aparente nervoso. Ela virou-se para Justin – Eu já te disse quinhentas vezes que nós dois, eu e você, não temos nada. E nem vamos ter mais nada. Nunca mais! Me deixa em paz ou eu juro que eu chamo a polícia. Não te interessa com quem eu estou ou deixo de estar, se eu namoro ou não, não é da sua conta.
Justin rosnou e cuspiu o sangue no chão. Lentamente desviou o olhar para que começou a hiperventilar no momento que aqueles olhos o encararam com uma expressão difícil de decifrar.
- E você – Ela disse referindo-se a , a voz mais contida embora igualmente chateada - Agradeço a ajuda, mas pare de falar por mim.
- Eu… – começou e ela interrompeu friamente.
- Eu sei me defender sozinha.
preferia ter recebido um soco de Justin do que ter escutado a frieza nas palavras dela. Mas também não questionou, sabia que ela estava coberta de razão em odiá-lo e considerando tudo que tinha acontecido tinha sido até bastante educada. Justin arreganhou um sorrisinho desagradável e precisou controlar o impulso de dar outro soco que dessa vez lhe quebrasse os dentes.
- Do que você tá rindo, palhaço? – peitou e voltou seu olhar novamente para o ex namorado.
- E só para te avisar, Justin. estando aqui ou não, essa foi a última vez que você me tocou. Da próxima vez que você levantar a mão para mim, será a última vez que terá mãos. - completou friamente e o rapaz a encarou ressentido e enraivado, mas não o suficiente para incitar uma outra briga com .
- Cuidado por onde anda, mauricinho de merda. Pode acabar me encontrando por aí – Justin lançou em tom ameaçador ao passar por .
- Pro seu próprio bem eu não contaria com isso – revidou e manteve-se firme quando o outro passou tombando em seu ombro.
Quando Justin passou por eles e caminhou a passos largos pelo fim da rua, preferiu manter seus olhos na direção do rapaz do que virar-se de frente, sabendo que um par de olhos estavam o fuzilando com bastante atenção.
Antes que mais alguém pudesse dizer alguma coisa, Eleanor apareceu na porta da casa andando a passos pressurosos chamando atenção dos dois.
- Que gritaria é essa na porta da minha casa? Justin? Que esse depravado tá fazendo aqui? Achei ter escutado a voz dele – Ela franziu o cenho com cara de nojo até notar a presença de – Ah, oi, querido, que bom te ver aqui, vocês reataram então?
empalideceu sem saber o que responder. Era de se esperar que tivesse dado continuidade a mentira do relacionamento falso entre eles e devido os últimos acontecimentos precisara dar updates a avó de que tinham terminado.
- Justin esteve aqui, mas já foi embora. Tá tudo bem, nena, pode voltar para dentro – disse num tom de voz calmo tentando tranquilizar a avó, embora fosse visível que ainda estava zangada.
“Boa sorte com isso” Eleanor sussurrou para antes de entrar de volta fechando a porta atrás de si.
Um silêncio horrível e constrangedor se instalou entre eles. não sabia o que dizer e a essa altura do campeonato até uma formiga no chão seria mais interessante do que erguer os olhos e encarar o rosto de .
- O que você tá fazendo aqui? – fora a primeira a quebrar o silêncio. Num suspiro nervoso, ergueu a cabeça e retribuiu o olhar dela sentindo seus ossos dissolverem feito geleia dentro de si. Por que ela conseguia intimida-lo desse jeito que ninguém mais conseguia?
- Eu estava apenas passando quando vi o Justin te importunar e resolvi intervir – pincelou a verdade e franziu o cenho desconfiada.
- Apenas passando? O que um rapaz como você, presidente de uma das maiores empresas desse país fazia apenas passando por aí no bairro de uma ninguém feito eu? – parafraseou trechos do discurso que utilizara na última discussão e ele sentiu-se gelado por dentro. Tinha sido um merda.
- … Me desculpe. – suspirou fundo e pediu num tom de súplica, finalmente verbalizando aquilo que ensaiara dizer tantas vezes desde o fatídico dia. As palavras pareciam ter sido expurgadas feito veneno, mas o alívio foi imediato. Se soubesse, teria feito antes. – Você não merecia nada daquilo, eu estava passando por um momento ruim e descontei em você, eu só…
Mas deu as costas e fingindo não ouvir nada, se direcionou para porta de casa deixando aturdido.
- , por favor, me deixe explicar… – Ele implorou sentindo a própria voz tremer e não reconheceu o próprio nervosismo. Respirou fundo já se resignando quando a menina virou-se de frente novamente. Quase sorriu e continuou a falar, mas ela fora mais rápida. E estava furiosa.
- Explicar o que? Que você não é o engomadinho metido a besta que eu sempre disse que você era? Vai me explicar que foi um estúpido desde o primeiro dia que nos esbarramos bancando o superior porque eu estraguei seu conjunto caríssimo de terno e gravata? O que foi? Já percebeu que suas justificativas são sempre fruto de um dia ruim? Você já percebeu que eu só apareço ou sirvo para você nos seus piores dias? Ou para você descontar suas merdas ou para me usar como uma forma de aplacar solidão pelo fato de que você simplesmente não tem amigos?
engoliu em seco com aquele desabafo. Um nó tinha se formado em sua garganta e precisou se esforçar para produzir saliva porque estava prestes a engasgar. As palavras de pareciam lâminas afiadas adentrando seu coração impiedosamente. E ele merecia.
- Por que você não está em casa com sua noiva? Por que quando as coisas estão ruins você não procura por ela? – questionou e sentiu-se gelado por dentro – Eu tenho tanta pena dessa mulher, presa num relacionamento com um cara que não tem coragem de dizer que não a ama mais!
- , não misture as coisas! Eu fui imbecil com você, grosseiro, mas nada disso tem a ver com a Charliet. – respondeu tentando manter a compostura, mas a mocinha não pareceu ter escutado uma só palavra que ele acabara de proferir.
- Faz um favor e libera essa tal Charliet. Ela não merece um babaca como você – respondeu cruelmente e abriu e fechou a boca sem conseguir dizer nada, de tão ofendido que tinha ficado. Algo dentro de si dizia que estava passando dos limites, mas ele não tinha como culpa-la por isso. Ele tinha sido cruel com ela também, talvez merecesse.
- Por que você está aqui hoje? Por que algo deu errado em sua vida e você decidiu que foi injusto com a única pessoa que parecia te tirar da realidade que você vive? Da realidade que você grita a plenos pulmões que ama, mas que não tem coragem de admitir que não suporta? Eu achava que você era diferente, que tinha personalidade, mas hoje vejo que você é um covarde. E a pior característica que uma pessoa pode ter é essa.
Se quisesse jogar terra por cima de ele aceitaria ser enterrado de bom grado. As palavras dela eram cortantes, como arame farpado. E quando o silêncio finalmente se instalava, ao invés de aliviar, a dor só piorava, porque era aí que internalizava tudo que ela tinha dito. Cada palavra parecia absorver na sua pele, em cada célula do seu corpo e a voz dela se multiplicava em sua cabeça repetindo a palavra covarde centenas de milhares de vezes.
Covarde.
- Eu… – balbuciou, mas não soube o que dizer. Sentia-se tão intimidado que tudo que tinha vontade de fazer era dar as costas, sumir e nunca mais voltar. Tão covarde quanto o acusara de ser.
- Apesar de tudo, , eu não odeio você como você me odeia. Eu tenho é pena de você, deve ser horrível ser você.
E aquele tinha sido o golpe final.
abriu uma cratera no coração de e jogou sal em todas as feridas abertas. Naquele momento, ela estava o atingindo numa proporção muito maior do que podia imaginar. Estava revivendo, mesmo sem saber, seus piores fantasmas, medos, inseguranças e verbalizava de maneira cruel e tão verdadeira aquilo que mais temia. E o pior, ele não podia contestar. Fez por merecer.
- Ok – Ele disse por fim, desviando o olhar apenas porque não conseguia mais encara-la. A visão já estava turva e ele não iria desabar ali, não naquele momento.
- Boa noite – disse e virou-se de costas mais uma vez rumando para porta de casa.
- … S-só mais uma coisa – balbuciou e ela paralisou com a mão na maçaneta embora não tivesse se virado de frente para ele. suspirou e disse numa voz anormalmente rouca – Eu não odeio você.
Ficaram mais alguns segundos em silêncio assimilando as palavras que tinha acabado de proferir. Ela permaneceu de costas, impassível, o único indício de que estava escutando era a proximidade em que estavam e o tom de voz perfeitamente audível que ele estava utilizando. respirou fundo e continuou, precisava que ela soubesse disso.
- Você não é um nada. Você é muita coisa. Não deixe que ninguém te faça sentir menos do que isso, qualquer um que te faça sentir inferior é um babaca. Desculpe ter sido esse alguém.
ficou em silêncio e não saberia dizer qual teria sido sua reação a essas palavras, porque de costas ela estava, de costas ela permaneceu.
- Se cuida – Ele completou sem aguentar mais um segundo da indiferença dela, decidindo por bem que era melhor ir embora e preservar-se daquela agonia. – Não vou mais te atrapalhar - Completou virando-se de costas e sem dar tempo de ouvir qualquer resposta que não viria dela, andou a passos largos em direção ao carro sem olhar para trás.
praticamente correu até o carro e no instante em que sentou no banco do motorista, deu partida sem nem ao menos lançar um último olhar para porta da casa dela. Abaixou os vidros no mesmo instante que acelerava o máximo que podia sentindo o vento frio soprar seu rosto e pinicar sua pele, afastando as lágrimas que caiam furiosamente pelo seu rosto.
tinha razão.
E aceitar que ela tinha razão era aceitar aquilo que tentara de todas as formas possíveis e impossíveis rejeitar durante todos esses anos.
Eu achava que você era diferente, que tinha personalidade, mas hoje vejo que você é um covarde. E a pior característica que uma pessoa pode ter é essa.
sentiu seus lábios tremerem e pressionou o punho contra a boca com força, o cotovelo apoiado na janela enquanto segurava o volante firmemente com a outra mão. Não demorou muito para ouvir o primeiro soluço sofrido sair por sua garganta que ardia em brasa.
Era mesmo um covarde. Não tinha coragem para admitir que era infeliz na Whistler’s Company e que o amor que achava sentir pelo trabalho não passava de uma tentativa desesperada de se preencher daquilo que lhe fora forçado goela abaixo pelo seu pai. Era mesmo um covarde. Não tinha coragem de terminar um relacionamento fadado ao fracasso com alguém que embora amasse, não tinha mais propósitos alinhados.
Era mesmo um covarde. Por essas e todas as outras razões que ela nem fazia ideia. E ter isso verbalizado na voz dela doía ainda mais. Porque até aquele momento tentara negar a verdade que estava estampada diante dos seus olhos desde o primeiro dia que esbarrara com aqueles olhos e a cascata de cabelos na rua.
Porque até aquele momento, não tivera coragem para admitir para si mesmo que o motivo pelo qual ele não conseguia tirar do pensamento nada tinha a ver com culpa. E nada adiantava mentir para si mesmo.
tinha verbalizado sem dó nem piedade aquilo que ele aguentaria ouvir da boca de qualquer pessoa, menos da dela. Ela o repudiava, sentia pena e achava sua existência medíocre.
E ainda assim, mesmo que tivesse tentado evitar, mesmo que quisesse negar, mesmo com todos seus empenhos para cortar pela raiz, mesmo descontando nela seus infortúnios na esperança daquilo acabar, a verdade é que independente de ter coerência, de não fazer o menor sentido, ainda assim aquilo estava acontecendo. E não via mais sentido em reprimir o pensamento.
podia odiá-lo ou não o quanto quisesse.
E ainda assim, contrariando toda lógica e racionalidade, isso não mudaria o fato de que ele estava completamente apaixonado por ela.


Capítulo XIV

Antes de dar continuidade neste ponto da história, é altamente recomendável a leitura da cena spin off The Blowers Daughter


And so it is, just like you said it would be: no love, no glory

[N/a: Recomendo já irem colocando para carregar Snuff de Slipknot]


O relógio apontava pouco mais de três da tarde quando Norah Spellman entrou na sala de para anunciar que sua noiva estava do outro lado da sala esperando ser atendida. Ia abrir a boca para dar voz ao seu recado quando percebeu que algo estranho estava acontecendo com o novo CEO da Whistler’s Company. Ao invés de estar sentado na sua cadeira, digitando os documentos que lhe foram solicitados há algumas horas, estava sentado no chão no canto da sua sala. Os olhos vermelhos, que ressaltavam as lágrimas que manchavam seu rosto, estavam focando um ponto fixo na parede a sua frente.
Norah Spellman nunca esqueceu aquela fisionomia. Era de um homem derrotado. Algo de terrível estava acontecendo com o homem que ela amava e admirava e, usando o raciocínio lógico, soube do que se tratava sem ao menos precisar perguntar. Não era segredo para ninguém o escândalo. Independente da gravidade da situação, nunca tinha visto dessa forma.
… Você está bem? – Norah perguntou correndo para se agachar ao lado do CEO que pareceu se assustar com sua presença. Escondeu algo no bolso interno do sobretudo e se apressou em enxugar vestígios de lágrimas que escorriam por suas bochechas.
– Nada… – disse e estava prestes a levantar quando sentiu o toque de Norah sob suas mãos. Sustentou o olhar inquisitivo, preocupado e afetuoso da sua secretária por alguns segundos antes de suspirar fundo. Ergueu a cabeça e olhou para o teto tentando controlar outra onda de lágrimas. Aquele estava sendo um dia muito emotivo. – Eu não sei o que fazer.
, existe algo que eu possa fazer para te ajudar? O que houve? – Norah perguntou apreensiva e se assustou ao perceber que as mãos dele tremiam. deu um riso nasalado em tom auto depreciativo e negou com a cabeça.
– Sério, me deixa te ajudar.
suspirou fundo e contou até dez. Em algum ponto da sua vida escutara de alguém que fazer uma contagem mental resolvia alguma coisa em situação de crise. Fechou os olhos deixando que as duas últimas grossas lágrimas caíssem e enxugou o rosto. Abriu os olhos e manteve uma expressão decidida e séria, antes de encarar Norah profundamente, arrepiando–lhe cada fio de cabelo.
– Quer me ajudar? – Ele disse numa voz séria e ela acenou positivamente em silêncio assustado – Finja que você nunca viu isso.
– Mas… , eu… – Norah murmurou embasbacada, agachada no mesmo local observando o chefe levantar-se e ajeitar o terno, andando até sua mesa.
– Norah, eu confio em você. Essa empresa é um ninho de cobras e quanto mais eu percebo isso, mais ressentido eu fico com esse lugar. Se você se preocupa comigo e quer me ajudar, finja que nunca me viu assim. Porque é na minha fraqueza que pessoas asquerosas como Vermond se fortalecem. – respondeu e Norah franziu o cenho embasbacada, levantando-se.
– O que ele fez para provocar tudo isso?
– Não importa. Posso confiar em você a ponto de saber que meu momento não será alvo de outra fofoca nos corredores dessa empresa?
– Pode, claro que pode. Mas me diga, o que realmente aconteceu? – Norah perguntou e negou com a cabeça andando até sua cadeira.
– Vai ficar tudo bem – Respondeu simplesmente e Norah abriu e fechou a boca piscando algumas vezes. – É sério, Norah, vai ficar tudo bem, eu só estou passando por uma fase ruim.
– Tem a ver com a Charliet? – Norah perguntou incerta e ergueu o olhar para sua secretária um pouco surpreso e também incomodado.
– O quê?
– Eu soube que você demitiu o Sean porque disse que ele falou algo terrível sobre ela. Ele está negando, é claro, mas…
– Eu não quero falar sobre isso. – respondeu taxativo, controlando a tremedeira involuntária.
– D-desculpe, eu não quero ser intrometida, mas é que ela está aqui fora esperando você atendê-la e…
– Tem razão, não seja intrometida, Norah – respondeu cortante e Norah emudeceu. – Não quero ser grosseiro com você, mas isso não é da sua conta. Quando sair, pode dizer para Charliet entrar.
Norah mordeu o lábio inferior e acenou positivamente com a cabeça para indicar que entendera o recado. Empertigou-se e inspirou fundo, antes de voltar a sua postura estritamente profissional.
– Tudo bem, Sr . De qualquer forma, eu desejo que o senhor fique bem. Estou do seu lado nisso.
– Obrigado – O CEO respondeu.
e Norah trocaram um olhar cúmplice e ambos acenaram com a cabeça quando ela se virou de costas para deixa-lo sozinho em sua sala.
suspirou fundo e caminhou vagarosamente até sua cadeira, largando-se no acolchoado encarando o teto. Daria qualquer coisa para ser outra pessoa que não ele mesmo naquele momento. Daria qualquer coisa para não sentir o que estava sentindo e nem passar pelo que estava passando. Principalmente porque encontrava-se numa posição que dificilmente conseguiria sair ileso. Profissional e pessoalmente.
Desde o momento em que acordou, naquela mesma manhã, sabia que aquele não seria um bom dia. A começar pela péssima noite de privação de sono, o despertador que não tocou, o que prejudicou toda sua rotina matinal: seu trajeto até o trabalho e suas atividades como presidente daquela empresa. Estando ali, naquele momento, logo após uma crise nervosa e com sentimentos tão profundos, ele recordava-se de cada detalhe que o levara até aquele momento.
O CEO não tinha ido trabalhar de bom grado naquele dia. Na verdade, há algum tempo já não cumpria sua rotina com prazer. E depois daquele fatídico dia, tudo só iria piorar.
– Sr. , Srtª Whistler está entrando – ouviu Norah abrir a porta novamente, dando passagem para que Charliet entrasse em passos vacilantes.

ALGUMAS HORAS ANTES…

Era uma atípica quarta–feira, véspera do recesso de fim de ano e todas as pessoas na W.C pareciam ter sido atingidas pelo espírito natalino: sorriam umas para as outras, compartilhavam seus roteiros de viagens, faziam favores a troco de nada e conversavam animadamente entre si. Obviamente, não fazia parte desse grupo. Em se tratando da Whistler’s Company, acreditava não fazer parte de mais nada. Sentia-se um peixe fora d’água dentro da própria empresa e era notória a discrepância entre seu humor para o dos colegas. Felizmente, as pessoas pareciam ter se acostumado a apatia dele – ninguém se importava em dirigir a palavra a ele pelo que quer que fosse e não recebeu nem um cartão de boas festas.
estava alheio aos assuntos da W.C porque estava ocupado demais lidando com os dramas da sua vida pessoal. Suas recém descobertas a respeito dos próprios sentimentos tinham rendido questionamentos infindáveis dentro da própria cabeça e toda vez que tentava tomar uma decisão, lembrava-se de alguma variável e logo a balança desequilibrava-se novamente. A verdade é que desde que o chamara de covarde, qualquer fiapo de felicidade que ele tinha, havia se esvaído.
A começar pelo fato de que a voz dela continuava ecoando em sua cabeça verbalizando tudo aquilo que ele mais temia.

Covarde
Deve ser horrível ser você
Eu tenho pena de você.

se atrasou para o trabalho, perdeu uma conferência importante com investidores dos EUA e recebeu todo tipo de olhar hostil dentro da empresa. E isso foi apenas no turno da manhã. Logo que voltou do almoço, a fim de tentar clarear as próprias ideias, teve a péssima ideia de folhear O Livro dos Sonhos de . Péssima ideia, visto que aquela atitude só serviria para confundir ainda mais os sentimentos dentro de si.

“Já que os pesadelos são reais, que pelo menos eu consiga realizar meus sonhos”

Leu na caligrafia dela e quase sorriu sofrido passando os dedos por cima do papel pensando em como até nisso se pareciam tanto. Se pelo menos soubesse que para ela era um lindo pesadelo… E quem diria que um pesadelo teria olhos tão bonitos?


Charliet

Charliet

Charliet

Como se não bastassem os problemas que precisava enfrentar todos os dias na W.C, encontrava-se atormentado com a recém descoberta do sentimento completamente indesejado que crescia por em seu coração. Coração este que já estava ocupado por Charliet, mulher com quem prometeu passar o resto da vida. Por mais apaixonado que estivesse por , ainda amava Charliet. Por mais que amasse Charliet, ela não merecia estar num relacionamento com um homem que se deixara apaixonar por outra.
E foi com esses pensamentos bombardeando sua mente que viu-se absorto numa série de recordações sobre Charliet e chegou a triste e sofrida decisão de terminar seu relacionamento de quatro anos com a filha de Edmund Whistler.
Teria dedicado um pouco mais tempo para pensar sobre essa constatação se não tivesse sido interrompido pelo toque irritante do telefone.
.
– Ligação para o senhor na sala de conferências. – Uma voz arrastada e totalmente desconhecida ecoou do outro lado. franziu o cenho. Por que Norah não filtrou a ligação?
– Passe por aqui.
– Na sala de conferências e é urgente – A voz sentenciou e antes que pudesse responder mais alguma coisa, já estava fora da linha.
Estranhando, dirigiu-se a passos lentos para a sala de conferências do outro lado do corredor. Norah não estava na sua mesa e o corredor estava anormalmente silencioso e pacífico para abrigar tantas pessoas animadas com o recesso natalino. Quem era e o que poderia querer de tão urgente?
Ao chegar na sala de conferências, tirou o aparelho do gancho e esperou alguns segundos em silêncio.
, eles estão de olho em você.
Com um arrepio característico percorrendo por sua espinha, prendeu a respiração e sentiu seu coração martelar contra o peito. Uma onda de pânico e adrenalina correu por suas veias e fez suas pernas fraquejarem. Aquela voz de novo.
– O que você quer? – Perguntou rapidamente tentando não parecer tão apavorado quanto realmente estava.
– Eles sabem o que você fez. – A voz respondeu num chiado horripilante e remexeu-se inquieto olhando de um lado a outro da sala. As pessoas pareciam absortas em seus próprios trabalhos, ocupadas demais para prestarem atenção no que se passava na sala de conferências. – Você está fodido.
– Isso é alguma brincadeira? Não tem a menor graça.
– Eles vão pegar você.
– Quem são eles? – perguntou sentindo a garganta engolfada.
– Você precisa renunciar ou eles vão afundar você.
– Que? Do que você…

Tu. Tu. Tu.

E estava falando sozinho novamente. Ainda com o aparelho próximo a orelha, permaneceu boquiaberto e embasbacado por mais tempo do que conseguiu contar. O coração batia compulsivamente, bombeando sangue por todo seu corpo que parecia ter sido eletrocutado. Suas pernas tremiam tanto que não soube como continuou mantendo-se de pé. A boca seca obrigou-o a engolir algumas vezes, rasgando a garganta. Não era a primeira vez que aquilo acontecia e se dissesse que não estava assustado com aquele trote, estaria mentindo.
Antes que tivesse tempo para pensar em alguma outra coisa, a porta da sala de conferências foi aberta revelando Sean O’Brien, gerente de finanças.
– Boa tarde, Sr. , estou atrapalhando alguma coisa? – Sean O’ Brien cumprimentou pomposo e arqueou as sobrancelhas ao mirar o semblante nitidamente mortificado que tinha.
Assustado demais para dizer qualquer coisa, precisou de um esforço sobre humano para voltar ao normal. Pigarreou, colocou o aparelho de volta ao gancho e apertou as mãos para controlar a tremedeira involuntária antes de voltar seu olhar para o rapaz que avaliava suas ações com devida atenção.
– Não, eu já estava de saída. – respondeu numa voz rouca, mas antes que pudesse sair, Sean apressou-se a falar.
– Não vou usar a sala, só queria falar com o senhor mesmo.
– Como você sabia que eu estava aqui? – perguntou rapidamente, o coração voltando a acelerar. Sean observou atentamente com uma expressão confusa contendo uma repulsa.
– Por que você não estava na sua sala e as pessoas te viram entrando aqui? – Respondeu em tom de obviedade.
coçou a cabeça, mas não pareceu convencido.
– Seja breve, por favor. Hoje não estou num bom dia. – respondeu categórico e observou o gerente de finanças assentir com a cabeça como se para ele aquilo não fosse novidade. não gostou do que viu naquele olhar, mas resolveu não dar tanta importância naquele momento.
– Vou ser breve. Só vim te dizer que recebemos uma ligação de Laos e eles não estão felizes com nossos resultados e estão ameaçando cancelar contratos.
– E isso me interessa por que…? – deixou a pergunta no ar e Sean arqueou as sobrancelhas assustado.
– Porque você é CEO dessa companhia….? – Sean falou como se fosse óbvio e revirou os olhos entediado.
– Eu sou o CEO, mas não sou diretor de relações comerciais que é o departamento que isso compete. E não entendo porque você, justo você, veio me dizer isso, Sean.
– O diretor Verm…
exibiu um sorriso fechado carregado de sarcasmo e Sean se calou amuado.
– O diretor Vermond tem algo a falar sobre as negociações de Laos? – perguntou cínico e Sean recuou dois passos, intimidado.
– Ele me pediu para dizer que…
Mas não deixouele concluir o raciocínio. Com a rapidez de um flash, a compreensão atingiu seu semblante e uma onda de raiva invadiu seu corpo, dominando-o da cabeça aos pés.
– Isso acaba aqui. – disse tomando os papeis da mão de Sean sem cerimônia andando até a porta da sala – Queira me acompanhar, por favor, O’Brien.
andou a passos largos pelos corredores da Whistler’s Company com Sean pesaroso ao seu encalço. Recebeu alguns olhares curiosos das pessoas, mas não deu importância. Passou por alguns corredores até chegar no departamento financeiro onde entrou sem cerimônia indo direto para a mesa onde Richard Vermond se encontrava. Ao notar a presença de , o diretor ergueu o olhar surpreso.
, a que devo o…
A educação, uma das maiores virtudes de , não era algo a ser elogiado hoje. Pela terceira vez naquele dia, interrompeu a sentença de alguém.
– Vermond, vejo que voltou a trabalhar… Que legal, seus dias de advertência foram produtivos? Usou a folga para repensar seu trabalho? – disparou num tom forçado de simpatia, carregado de ironia e fúria contida.
O rosto de Richard Vermond adquiriu uma tonalidade vermelho pimentão e pôde perceber uma veia saltando no pescoço do diretor, mas não se importou. Se dependesse dele, aquela veia poderia explodir e levar Richard para o inferno com ela.
– O que você quer aqui, ? – Vermond perguntou depois de um pigarro, lutando para manter seu tom de voz razoável.
– Vim aqui para acabar de uma vez por todas com essa sua birra infantil.
– Não sei do que você está falando.
– Ah, não sabe? Então beleza… Como é que dizem? Jogar a merda no ventilador? Então que seja. – disse impaciente.
– Eu sei que você está insatisfeito com minha nomeação, mas, adivinhe: NINGUÉM SE IMPORTA! Aprenda a lidar com suas frustrações sem precisar atormentar a vida dos outros! – explodiu e Vermond arregalou os olhos adquirindo uma tonalidade vermelho pimentão. As pessoas próximas pararam de fazer o que estavam fazendo para observar a situação, alarmadas.
– Como se atreve! – Vermond balbuciou aturdido.
– Eu não sei onde você pretende chegar com essas suas pegadinhas, mas eu estou de olho em você! – continuou, abandonando qualquer traço de paciência.
– Do que você está falando, seu rapaz insolente? – Vermond indagou ultrajado, as têmporas a ponto de explodirem.
– Estou falando da sua implicância comigo, com meu trabalho e da sua perseguição. Eu sei que você nunca gostou de mim, mas isso está passando dos limites! – alterou o tom de voz e as pessoas começaram a amontoar-se em torno dos dois.
– Você é louco! Eu bem disse a Edmund que você era um desequilibrado que iria afundar essa empresa com suas esquisitices!
– Não seja cínico, Vermond. Eu sei que você está tentando me amedrontar! – gritou.
– Você entrou na minha sala, está berrando comigo na frente dos meus funcionários e EU É QUEM ESTOU TENTANDO TE AMEDRONTAR? Você não está falando com coerência! – Vermond bradou em resposta e abriu e fechou a boca algumas vezes sem saber o que responder. Olhou de um lado a outro e constatou as pessoas tentarem rapidamente disfarçar que estavam observando a briga entre os dois poderosos da companhia. suspirou fundo e lançou um olhar semicerrado em fendas para o diretor.
– Não tente me subestimar, Vermond. Eu posso demitir você num piscar de olhos.
– VOCÊ NÃO TEM AUTORIDADE PARA ISSO! – Vermond berrou, cuspindo tanto que sentiu seu rosto molhado.
Ele está desafiando você.
– Pague pra ver – rosnou.
Isso mesmo, , mostre para ele quem é o dono dessa empresa.
– O que deu em você? É o sucesso subindo a cabeça? Vocês estão vendo isso? Eu disse que ele era um imaturo mimado demais para esse cargo! – Richard Vermond balbuciou olhando para os lados, chamando atenção dos funcionários que lançavam olhares indiscretos para a briga dos gigantes.
Ele está tentando colocar as pessoas contra você, não deixe!
– Não se faça de vítima, Vermond! Eu já sei que você foi falar mal de mim para o Edmund, eu não vou ficar quieto enquanto você tenta colocar as pessoas dessa empresa contra mim. Faça seu trabalho e fique longe de mim! – sentenciou apontando diretamente para o rosto ruborizado e encolerizado de Vermond.
– Se você fizesse seu trabalho corretamente ao invés de passar horas fazendo Deus sabe lá o que dentro da sua sala, talvez nós não precisássemos nos preocupar com isso! – Vermond acusou e , que já tinha dado as costas e estava a meio metro da porta, girou nos calcanhares e encarou o diretor com os olhos ameaçadores.
Agora ele foi longe demais.
– O que você disse?
Ninguém respirava dentro daquela sala.
– Eu disse – Richard pausou suas palavras suspirando fundo, sustentando o olhar do CEO – Que se você fizesse seu trabalho corretamente, não precisaríamos nos preocupar. Não faço ideia do que se passa por sua cabeça, mas com certeza a Whistler’s Company está em último lugar. Se você se preocupasse, não teríamos perdido a conta com os irlandeses. E o fiasco da reunião da semana passada? E a conferência de hoje? E você só quer saber de sair do trabalho mais cedo, fechar as portas para interferências e ficar enfurnado na sua sala!
Ele está monitorando você.
– Como eu disse – respondeu entredentes tentando recuperar o fiapo de paciência que pedia a Odin para não partir a cara de Richard Vermond – Preste atenção no seu trabalho, na sua vida. Do meu serviço cuido eu, se o conselho não achasse que não estou pronto para esse cargo, não teriam me nomeado.
– Também, comendo a filha do sócio fundador é fácil chegar onde chegou – ouviu um zunido baixinho e olhou para o lado onde Sean O’Brien cochichava com uma das estagiárias. Com o coração acelerado e um gosto amargo na boca, não pensou duas vezes antes de avançar para o gerente.
Ooooh, ele não deveria ter dito isso.
E foi então que o alvoroço começou.
– O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE? – Bradou enfurecido com a mão em punho levantado em direção a Sean, que atordoado sentou na mesa derrubando papéis e canetas para todo lado.
– E-Eu n-não disse n-nada!!!!
Briga! Briga! Briga! Briga!
– Você ficou maluco? Está atacando pessoas agora?
– Repete o que você falou!
– ALGUÉM CHAME O SEGURANÇA!
estava tão consumido pela raiva que a única coisa que conseguia pensar era em enfiar o punho na boca de Sean O’Brien e rasgar sua garganta. Sentiu alguns braços tomarem os seus, afastando-o do seu alvo. Os olhos estavam injetados e enxergou a sala toda em tons de vermelho vivo, tamanha sua raiva. Todos pareciam encará-lo com curiosidade, espanto e repudia.
– Você está demitido, O’Brien. Tem até o final do dia para tirar suas tralhas dessa empresa – disse no momento em que conseguiu se recompor, empurrando os seguranças pelos ombros, ajeitando o paletó e afastando os cabelos do rosto com um suspiro.
– M-m-mas eu não fiz nada! – Sean gaguejou e olhou de para Richard em desespero. Moleque cínico e insolente!
– Você está demitindo meus funcionários? – Vermond perguntou embasbacado e enfurecido. lançou um olhar mortal na direção do diretor que engoliu em seco.
– Sim, estou. Para isso eu tenho autoridade – O CEO respondeu taxativo – Alguém mais quer fazer comentários infelizes? – Acrescentou rolando o olhar pelas pessoas amontoadas na sala. O burburinho logo cessou, ninguém se atreveria a abrir a boca.
– Ótimo. – Disse afastando-se em direção a porta. As mãos coçavam para desferir um soco no nariz de O’Brien, mas se conteve.
– Isso não vai ficar assim, ! Eu vou convocar o conselho para falar sobre você – Vermond gritou e não se importou em virar para encará-lo novamente.
– Boa sorte. Espero que isso tenha te mostrado que eu não sou intimidável como você pensa, Vermond. – E sem dar a chance do diretor dizer mais nada, saiu da sala fechando a porta com agressividade atrás de si. Do outro lado, as pessoas correram para voltar aos seus computadores e não serem pegas bisbilhotando.
Minutos depois, todos da Whistler’s Company estavam sabendo o que tinha acontecido entre Richard Vermond e .

– Oi, .
A voz suave de Charliet Whistler chamou sua atenção e baixou seu olhar para observar a noiva que entrava a passos vacilantes por sua sala. O coração deu um solavanco e bateu acelerado quando seus olhares se encontraram. Precisou reprimir as lágrimas que queriam se formar no momento que percebeu o semblante pesaroso dela.
Encararam-se em silêncio por alguns segundos antes que se levantasse para cumprimenta-la com um abraço.
– Oi – Ele respondeu ao envolve-la contra o peito, fechando os olhos com força. Charliet não disse nada e nem tampouco devolveu o afago, estava imóvel. suspirou fundo e se afastou, andando até o sofá de couro onde se sentou e sinalizou para que a noiva se aproximasse.
– Você já sabe o que aconteceu, pelo visto. – disse analisando milimetricamente a postura da noiva. Charliet arqueou as sobrancelhas e repuxou os lábios numa expressão severa que não agradou .
– Depende do que você está se referindo. – Respondeu evasiva e sentiu o estômago embrulhar. Precisava lembrar que ela já estava esquiva e distante muito antes do escândalo entre ele e Richard Vermond durante aquela tarde.
– Soube do meu episódio com Vermond hoje? – perguntou e já estava pronto para começar a desabafar sua versão quando Charliet revirou os olhos antes de balançar a cabeça negativamente, erguendo uma mão no ar silenciando-o imediatamente.
– Eu não vim aqui para falar sobre qualquer coisa referente ao seu trabalho na Whistler’s Company, , achei que você soubesse disso.
– Eu n-não… – começou desconcertado, mas Charliet continuou. Embora fosse sempre muito bem polida e cortês, Charliet não tinha simpatia em seu timbre. Parecia obstinada.
– Eu vim aqui para acabar com essa guerra fria das últimas semanas. Achei que soubesse, precisamos conversar.
– Eu sei disso, tentei falar com você várias vezes… Te liguei, mandei mensagem, quis ir até sua casa…
– Você quis ir até minha casa? – Charliet perguntou com uma sobrancelha arqueada e pôde sentir o tom mínimo de deboche – Por que você não simplesmente foi?
– Porque eu pensei que você não quisesse falar comigo… Que estivesse me evitando – respondeu calmamente, sondando as expressões e reações da noiva.
– Exatamente, . Você pensou que eu não quisesse falar com você e simplesmente deixou para lá, não correu atrás, não veio falar comigo… Seu maior esforço foi ligar.
coçou a cabeça e franziu o cenho encarando Charliet com atenção. Talvez tivesse interpretado erroneamente os sinais dela. Sabia que aquela conversa iria chegar, mas pensou que Charliet estivesse evitando o contato por medo do relacionamento acabar… E não o contrário.
– E por que você não quis falar comigo? Por que está me evitando? – perguntou.
– Porque eu precisava pensar com calma antes de tomar qualquer decisão precipitada que nos trouxesse arrependimento e sofrimento – Charliet respondeu imediatamente e sentiu algo gelado descer a força pela garganta – Mas no fim das contas cheguei à conclusão que não valia mais a pena tentar salvar algo que você se encarregou de destruir.
O quê?
– D-do que você tá f-falando? – perguntou confuso e Charliet balançou a cabeça em negação com os lábios crispados. O olhar que ela lançava para era de um profundo desapontamento. Um olhar que ele nunca tinha visto antes e que nunca quis ser merecedor.
– Como você pode fazer isso comigo, ? Como? Por mais distante que estivéssemos, por mais corrida que fosse a nossa rotina, por maiores que fossem os nossos problemas… e olhe que nem eram grandes assim! Como você pode? – Charliet perguntou, a voz fraquejando um pouco enquanto encarava o noivo com ultraje.
– Do que você tá falando, Charliet? Eu não fiz nada – respondeu imediatamente, o coração acelerado e a respiração ofegante.
– O que foi que eu te fiz para merecer isso? Caramba, nem coragem de admitir você tem! Eu te dei a chance de me contar, eu me afastei, eu silenciei, eu vim até aqui, questionei e você ainda vai mentir na minha cara? – Charliet levantou do sofá finalmente cedendo a emoção. Os olhos estavam marejados e o queixo tremia tanto que ela precisou morder os lábios.
– Do que você está falando? – perguntou novamente boquiaberto e assustado. Por que as pessoas não paravam de o acusar de alguma coisa e iam direto ao ponto?
– ESTOU FALANDO SOBRE VOCÊ ESTAR ME TRAINDO!
Levou alguns segundos de profundo choque para que conseguisse recobrar a voz. Charliet estava com os olhos vermelhos e ao perceber a menção do noivo de levantar para amparar seu sofrimento, ela se afastou, virando-se de costas contendo um soluço audível. ouviu Charliet fungar algumas vezes, secando as lágrimas e recobrando a respiração.
– Charliet, por favor, olhe para mim – pediu levantando-se, andando em direção a noiva.
– Como você teve coragem de fazer isso comigo, , como? – Charliet perguntou furiosa virando-se de frente encarando com um olhar que partiu seu coração em mil pedaços. Como se ouvi-la chamando-o pelo nome já não fosse cruel o suficiente. – Eu sempre te respeitei, sempre dei carinho, amor, atenção, cuidado... Nós sempre tivemos uma relação pautada no respeito, como você pode fazer isso comigo?
– Charliet, eu não te trai. Eu não estou te traindo – respondeu firme sustentando o olhar dela.
– Meu Deus, como você mudou, … Como você consegue mentir olhando diretamente para mim? – Charliet perguntou mortificada e sentiu-se destruído por dentro.
– Olha para mim, eu estou falando a verdade, eu não trai você, eu nunca trai você e eu jamais trairia você! – se aproximou tocando nos ombros da noiva, fuzilando-a com o olhar. Charliet vacilou diante daquela revelação, mas não durou muito tempo.
– Eu ouvi você enquanto dormia! – Charliet disse e sentiu o chão desabar sob seus pés. De repente, o coração pareceu ter parado de bater e esqueceu como respirar.
Você está fodido.
– Você não tem noção do quanto doeu te ouvir dizer todas aquelas coisas lindas na minha casa! Porque pareceu tão sincero na hora… E eu fui tão boba para não perceber que você estava tentando me compensar, porque estava se sentindo culpado! Eu fui tão cega, por um momento eu esqueci que te conheço tão bem.
– Charliet, eu não menti em nada do que eu disse, eu realmente queria melhorar para você, eu realmente acho que estou sendo um babaca contigo…
– E VOCÊ ESTÁ MESMO! – Charliet gritou enraivada e franziu o cenho sentindo algumas lágrimas se formarem em seus olhos. Nunca tinha visto Charliet agir dessa forma, só podia imaginar o quanto tinha magoado os sentimentos dela – Mas você estava se sentindo culpado, só isso.
– Charliet…
– Você sabe o que é ouvir a pessoa que você ama dizer o nome de outra minutos depois de transar com você? – Charliet perguntou e empalideceu sentindo o coração voltar a martelar furiosamente contra o peito.
Ficou alguns segundos em silêncio sendo analisado milimetricamente pelo olhar decepcionado da mulher que tanto amava e nunca quisera decepcionar. Naquele momento, sabia que não tinha mais volta. O estrago já havia sido feito. Pensou tanto em como romper o noivado preservando os sentimentos de Charliet, mas nunca se quer cogitara a possibilidade dela estar tão danificada por dentro a ponto de desistir dele primeiro. E aquilo doía. Doía muito.
– Charliet, eu não te trai. – disse sentindo as lágrimas escorrendo pelo rosto. Charliet revirou os olhos e bufou em um deboche enraivado.
– Tá certo.
– É sério, eu não te trai. – disse novamente e pôde perceber que a noiva estava a milésimos de abandonar a classe e dar um tapa merecido no seu rosto.
– Admite logo de uma vez que você se apaixonou por outra! Dói muito mais te ver negar! – Charliet revirou um pouco histérica e suspirou fundo.
– Eu me apaixonei por outra – Ele respondeu com a voz rouca. Foi a vez de Charliet fazer silêncio.

[N/a: Coloquem a música para tocar!]

Por essa, ela não esperava.
– Então você admite – Ela disse baixinho, numa voz entrecortada, andando em direção ao sofá, não mais sustentando o peso do próprio corpo.
– Eu admito que me apaixonei por outra pessoa, mas eu não te trai. Eu nunca tive nada com ela. – sustentou, vendo-a sentar no sofá apoiando a cabeça entre as mãos, os cotovelos nos joelhos. Aquela expressão derrotada destruiu .
– Eu não acredito que isso tá acontecendo, eu não acredito que isso tá acontecendo, eu não acredito que isso tá acontecendo… – Charliet repetiu incontáveis vezes enquanto chorava com a cabeça apoiada nos braços. fechou os olhos com força numa careta tentando controlar o choro.
– Charliet, me escuta – se aproximou ficando de joelhos aos pés dela, mas Charliet não ergueu a cabeça. Ele tocou as pernas dela e ela se encolheu. – Eu não previ nada disso. Eu não fiz nada para te magoar, eu estava numa fase ruim quando ela apareceu e… – lembrou dos olhos de e seu coração pareceu sangrar. Como era possível sentir todas aquelas coisas?
“Nada aconteceu, eu juro. É mais uma coisa platônica, eu acho… Ela nem gosta de mim dessa forma. E mesmo que gostasse, eu não trairia você, eu juro!”
– E o que você faria se ela gostasse de você, então, ? – Charliet finalmente recobrou a voz, levantando a cabeça afastando os cabelos do rosto. – Quando você iria lembrar que eu existo para me dar uma posição sobre tudo isso? Eu? Charliet? Sua noiva?
– Eu ia conversar com você sobre isso, Charliet. Foi para isso que eu te liguei… – respondeu tentando corresponder o olhar inquisitivo e magoado dela.
– Acorde, ! Isso está acontecendo dentro de você há semanas! Há meses eu diria! E você me deixou participar de tudo isso, você foi até mim pedir desculpas tentando matar o sentimento por outra pessoa, você me usou!
– Não, eu não usei você! Eu escolhi você! Eu quis consertar as coisas com você! Paixões vem e vão, mas eu amo você. – respondeu exasperado quando Charliet balançou as pernas, afastando-o.
– Me escolheu e ia terminar comigo? Você não está sendo coerente!
– Eu não posso ser covarde, Charliet. E não posso te fazer sofrer como eu tenho feito. Eu estou confuso, minha cabeça está um turbilhão, você não faz ideia das coisas que eu estou passando.
– Eu saberia se você me contasse! Se você não tivesse me deixado no escuro. Isso… É culpa sua! Você deixou isso crescer no seu coração, você desistiu de mim, de nós, de tudo! Éramos nós contra o mundo, ! A gente se amava, você estragou isso!
sentiu o peso das palavras de Charliet e naquele momento foi consumido por uma estranha sensação de dejavu. Não muito tempo atrás ouviu da boca de acusações tão profundas quanto aquelas que Charliet jogava na sua cara naquele momento. Era justo, ele não merecia nenhuma das duas. Estragou todo relacionamento com Charliet se deixando apaixonar por e destruiu qualquer possibilidade de felicidade com no momento que descontara nela seus infortúnios tentando matar um sentimento que já crescia mesmo contra sua vontade. Estava frustrado com uma e se apaixonou por outra. Tentou reverter a situação e acabou magoando as duas. E agora estava sentindo o peso das suas próprias decisões.
– Me desculpe, Charliet. Eu não sei o que está acontecendo comigo… Na maior parte do tempo eu não me sinto eu – disse com o coração dilacerado. – Eu sei que estraguei tudo com você e eu me arrependo disso. Se eu pudesse voltar no tempo, teria mudado tanta coisa… Teria te escutado mais… Você tinha razão.
– Do que você tá falando? – Charliet perguntou confusa enxugando as lágrimas nas costas das mãos.
– Sobre esse trabalho, sobre esse cargo, sobre essa vida… Sobre tudo. Você sempre me conheceu muito bem e eu não cumpri minha promessa. Me desculpe.
– Eu só queria que você tivesse sido sincero comigo. – Charliet disse com a voz entrecortada e ficou de pé novamente, andando de um lado a outro da sala tentando conter o choro que se formava no peito.
Agora que aquilo estava finalmente acontecendo, a ficha pareceu cair do quão real o rompimento era. Não estava mais no imaginário, não fazia mais parte de uma divagação. Seu relacionamento com Charliet estava realmente acabando e se algum dia pensou que seria uma decisão fácil ou indolor, agora estava provando a si mesmo que estava enganado. Aquilo doía tanto que causava desconforto físico. O ar parecia carregado e o coração estava tão acelerado que o peito ardia em brasa.
sentia um pedaço de si sendo arrancado a força.
– O que diabos eu vou fazer sem você? – sussurrou baixinho, apenas para ele mesmo, mordendo o lábio inferior fechando os olhos com força. Charliet não era apenas sua noiva, era sua melhor e talvez única amiga verdadeira. Era sua conselheira, porto seguro, amparo e proteção. Não sabia mais como era a vida antes dela.
Porém, no meio de toda aquela sofreguidão, o coração ainda conseguia bombear com o pensamento em uma cascata de cabelos e olhos faiscantes. Não havia a menor dúvida do quanto já possuía seu coração e por mais que ressentisse aquele sentimento, ele era real.
– Acho que é hora de seguirmos caminhos diferentes, . A gente não está se fazendo feliz. – suspirou fundo contendo um soluço ouvindo a voz de Charliet ecoar um pouco mais calma atrás de si. Com relutância, virou-se de costas ficando de frente para a mulher que estava de pé lançando-o um olhar lacrimoso.
– Me desculpe por não ter sido homem o suficiente para você – disse e Charliet crispou os lábios segurando as lágrimas.
– Não adianta procurar culpados agora. A gente já se amou tanto, não vai ser de serventia nos despedirmos como inimigos. Eu não odeio e nem quero odiar você.
– Você foi a melhor coisa que já aconteceu em minha vida – disse numa voz falha e Charliet fez uma careta de choro antes de se aproximar para abraçá-lo com força. Ficaram abraçados por um tempo apenas sentindo os corações competindo a potência dos batimentos cardíacos. Se amavam tanto, mas não conseguiam mais sustentar esse amor.
e Charliet estavam sendo separados por algo muito maior do que o que podiam imaginar naquele momento. A culpa não estava no distanciamento deles ou no Livro dos Sonhos de . A culpa não estava nela. Mas sim no que ela representava, nos sinais que aquele sentimento avassalador estava trazendo para a vida daquele homem confuso e quebrado por dentro.
– Eu preciso ir – Charliet disse, soltando-se do abraço enxugando as lágrimas. – Fique bem e… boa sorte… com tudo.
– Fique bem também. Você merece ser muito feliz – respondeu desejando que ela saísse logo de uma vez por todas daquela sala pois sabia que não demoraria muito tempo para desabar.
Charliet já estava a meio caminho da porta quando se lembrou de algo e, a passos vacilantes, retornou na direção de remexendo em algo entre os dedos. O coração de pareceu ter sido rasgado por uma adaga afiada no momento em que ele a viu retirar o anel de noivado.
– Acho que isso não me pertence mais – Charliet disse colocando o diamante nas mãos frouxas de .
Quando ela saiu fechando a porta num estalido mínimo atrás de si, mirou o diamante por entre os dedos, lendo a escritura que colocou na aliança que ficaria no dedo de Charliet para sempre.
“Enquanto estivermos juntos, estaremos bem”
E então, desabou.

***

UMA SEMANA DEPOIS

desligou o motor, suspirou fundo e recostou-se sobre o banco do carro tamborilando os dedos sobre o volante, encarando o portão de ferro a sua frente, tentando reorganizar os pensamentos. Dirigira todo aquele trajeto no modo automático, distraindo-se enquanto podia com a decoração natalina da cidade.
O relógio apontava 20:02 do dia 31 de dezembro, gloriosa noite em que todos se reuniriam com seus entes queridos para celebrar a chegada do ano novo assim que os ponteiros indicassem a meia noite. Mas diferente dos últimos cinco anos, não tinha planos. Não quando tinha rompido o noivado com Charliet e estava passando por um momento delicado dentro da empresa do ex-sogro. Sua presença não seria esperada à mesa dos Whistlers. Seus pais estavam na cidade que se recusava a pisar novamente, mas haviam mandado um cartão de boas festas. Os amigos tinham seus próprios planos e ele encontrava-se sozinho, exceto pela companhia do pug de estimação que repousava tranquilamente no banco do carona.
Só porque você é um solitário patético, não significa que ela seja também. Ela tem apenas vinte anos, obviamente estará aproveitando alguma festa por aí.
Mas, corroído pela culpa e exausto do sentimento de inércia, resolveu tentar ainda assim. Depois do verdadeiro tormento que sua vida havia se tornado, tinha decidido fazer o possível para livrar-se do máximo de assuntos mal resolvidos que pudesse antes da meia noite. Queria começar um ano novo livre do caos que habitava sua mente.
O não você já tem, agora vá atrás da humilhação.
Sabia o que tinha que fazer, só não sabia como fazê-lo. Precisava livrar-se daquele tormento da melhor forma possível: precisava ser perdoado para então esquecê-la.
Não conseguia entender como era possível estar apaixonado por uma pessoa por quem também sentia tanta raiva, tanto ressentimento, tanta mágoa. Mas estava. Irremediavelmente. E lembrar das duras palavras dela ecoando em sua cabeça era doloroso, mas não tão doloroso quanto encarar a realidade.
não precisava de mais um incentivo para acha-la interessante. Não quando tudo o que queria era esquecê-la. Sabia que seus esforços eram falsos, visto que não ajudava muita coisa folhear o livro dela em toda e qualquer hora vaga – e não vaga – do seu dia. Aquele livro já não estava mais ajudando, não havia nada lá que já não soubesse e a cada vez que lia a caligrafia de seu coração pulsava dolorosamente.
Você é patético!
Diferente de tudo o que sabemos sobre a paixão e suas reações, não sentia-se mais feliz, mais leve ou mais esperançoso pelo fato de estar apaixonado. Atreveria-se até a dizer que passou a ser mais carrancudo. Se pudesse escolher, isso nunca teria acontecido. Como erva daninha no jardim mal cuidado, o sentimento por crescera em seu coração sem solo fértil. não sabia explicar como tinha acontecido e durante um tempo preferiu não pensar sobre porque isso demandaria atitudes.
Atitudes que ele achou que não teria coragem de tomar.
Era de se esperar que depois de romper o relacionamento com Charliet Whistler seu coração estivesse mais decidido a respeito de , mas não estava. Primeiro porque ele sabia que tinha destruído toda e qualquer chance com a garota no momento que quebrara os galhos da sua árvore na tentativa de exterminar o sentimento por ela. E segundo porque, ao sair da sua vida, Charliet havia levado consigo um pedaço do seu coração.
Você precisa ir atrás dela!
Você vai remoer esse assunto pelo resto da vida se não pedir desculpas!
Você é um babaca, covarde, egoísta e já estragou sua própria vida, não vá estragar a dela também!
Inútil!
Tomado pelo incentivo que precisava e tendo isto claro em sua mente, pegou a caixa no banco do carona, vestiu seu sobretudo e saiu do carro rumando até a porta da casa de .
– Eu já volto, camarada, só vai levar um minuto – Ele disse para o cachorro que levantou uma orelha e bufou como se desaprovasse aquela atitude.
estava fora de cogitação. Ela não queria nada com ele, não sentia o mesmo e tudo bem. estava totalmente convicto da rejeição e por isso, nem se atreveria a tentar nada com ela. Primeiro porque seu coração era um lugar inóspito e segundo porque sabia que seus sentimentos não eram retribuídos. Mas isso não significava dizer que sua atitude era justificável, tinha sido injusto, cruel e hostil com a menina e precisava se redimir por isso antes de conseguir encontrar a paz que tanto buscava.
Foi com esse pensamento em mente que ele tocou a campainha da casa dela, sentindo o caos das borboletas em seu estômago. Demorou apenas alguns segundos para que atendesse a porta e prendeu a respiração ao vê-la novamente. Um ataque cardíaco doeria menos.
Em casa na noite de ano novo. Mais outra semelhança.
Antes que pudesse abrir a boca para dizer qualquer coisa, no entanto, com a mesma rapidez que abrira a porta, também a fechara na cara dele.
suspirou fundo e revirou os olhos. Ninguém disse que seria fácil.
Ding. Dong.
Ding. Dong.
desistiu da campainha e pressionou o punho contra a porta algumas vezes.
– VAI EMBORA, SERÁ POSSÍVEL UMA COISA DESSAS? – berrou do outro lado e quase sorriu de um jeito masoquista ao ouvir a voz dela. – NEM NA NOITE DE ANO NOVO VOCÊ ME DEIXA EM PAZ?
Que saudade!
– Você pode me ouvir só por dois minutos? Só isso. – perguntou com a voz trêmula.
Impressionante como ser o CEO da Whistler’s Company não era nada comparado a estar cara a cara com . Sem pestanejar, diria que era mil vezes mais fácil barganhar acordos com empresários chineses usando todo seu mandarim do que sustentar uma conversa simples com aquela garota de vinte anos.
– Ah, não… Será possível, Odin! – Ela resmungou e a porta permaneceu fechada. não iria arromba-la, mas também não iria desistir fácil assim. Tinha certeza que estava com a orelha colada do outro lado da porta e talvez fazer isso não olhando–a nos olhos fosse ainda mais fácil. Só precisava ser ouvido.
– Eu só preciso falar com você uma última vez, só isso.
– O que foi, sua vida tá pelo avesso de novo? Sua noiva te deu um pé na bunda, seu trabalho está uma bosta e você queria alguém para conversar? Tá sem planos para hoje e resolveu checar na menina solitária e sem amigos? Cai fora! – revidou azeda e sentiu algo despencar dentro de si. Assertiva como sempre.
– Sim e não. Mas eu não vim aqui para falar de mim, vim pedir desculpas. – respondeu e pode ouvir bufar.
– Eu já disse que não estou interessada nas suas desculpas! – disse, mas não sentiu firmeza naquele tom de voz. Uma fisgada no estômago quase o fez sorrir.
– Você já ouviu falar na lenda do grande sábio espiritual Iktomi? – pigarreou interrompendo . Ela ficou muda por alguns segundos, provavelmente confusa demais com o rumo da conversa para responder qualquer coisa.
– Que? – Ela disse e tomou aquilo como incentivo para continuar. Pigarreou outra vez e se ajeitou ficando mais perto da porta. Era terrível conversar com a madeira, mas era esse tipo de coisa que estava disposto a fazer para se redimir com .
– Existem diversas versões dessa lenda, mas havia um povo indígena muito ligado a espiritualidade, eram os Ojibwe…
– Do que você está falando em nome de Odin?
– Não, Odin não está nessa história, ele é mitologia nórdica, mas fico feliz que esteja acompanhando o raciocínio.
– Você é ma…
– Continuando, os Ojibwes acreditavam que, ao cair a noite, todos estavam vulneráveis as energias boas e ruins dos sonhos. Eles acreditavam muito nos sonhos, sabe? – comentou falando mais para si mesmo do que para , ainda encostado na porta. Enquanto falava, acariciava a caixa que carregava entre as mãos. – E eles acreditavam que cada sonho deveria ser decifrado porque tinha um significado importante… Até mesmo os ruins.
Silêncio.
Bom, pelo menos ela não estava interrompendo.
– A lenda diz que mesmo os sonhos ruins têm mensagens do Grande Espírito para nós.
– Você já disse essa parte – interrompeu carrancuda e quase riu.
– Então, certa vez, o sábio Iktomi apareceu em forma de aranha para um ancião da sua aldeia e enquanto ele tecia uma teia, falava sobre os ciclos da vida. O Iktomi aranha disse “Se você trabalhar com forças boas, será guiado na direção certa e entrará em harmonia com a natureza. Do contrário, irá para direção que causará dor e infortúnios” – tentou fazer uma voz mais grossa e percebeu tossir do outro lado da porta.
– E então, depois de terminar a teia, a aranha entregou para o ancião e disse…
– Meu Deus, , eu tenho mais o que fazer, o que tudo isso tem a ver com seu pedido de desculpas?
– Eu estou chegando lá.
– Já se passaram dois minutos.
– “No centro está a teia que representa o ciclo da vida. Use–a para ajudar seu povo a alcançar seus objetivos, fazendo bom uso de suas ideias, sonhos e visões. Eles vem de um lugar chamado Espírito do Mundo que se ocupa do ar da noite com sonhos bons e ruins” – continuou e ficou em silêncio.
Ele suspirou fundo e com o coração acelerado, abriu a caixa retirando a teia que teceu durante horas naquela mesma tarde. Fazia alguns dias que pensava sobre o que fazer para se redimir com e a ideia simplesmente surgiu na cabeça. Foi uma boa oportunidade para descarregar os sentimentos tão conturbados em forma de arte.
– A história acabou? – perguntou petulante, contendo uma curiosidade mordaz. sentiu as entranhas fervilharem e as mãos suarem de repente.
Odiava estar apaixonado.
– Você precisa abrir a porta pra saber o resto – respondeu e mordeu o lábio inferior em expectativa. Agora dependia totalmente dela. Esperou por alguns segundos antes de ouvir as correntes se desfazendo e o barulho da chave contra a fechadura. O coração batia tão forte que respirar era uma ação quase impossível.
– Termine – ordenou com os olhos em fendas assim que abriu a porta com agressividade. O cabelo esvoaçou um pouco e sentiu o cheiro dela adentrar nas narinas inebriando seus sentidos. As pernas ficaram bambas como se os ossos tivessem adquirido a consistência de gelatina.
usava um moletom verde musgo que ressaltava ainda mais seus olhos. As bochechas estavam levemente ruborizadas e as sobrancelhas franzidas traduziam sua expressão nervosa.
– E-então o Iktomi teceu a-através das suas t-teias um filtro para que o ancião pudesse levar para sua aldeia e p-proteger seu povo das energias negativas do universo – gaguejou um pouco porque se desconcentrou com o olhar perfurante dela. arqueou as sobrancelhas como se perguntasse o que aquilo queria dizer e só quando ergueu o objeto entre as mãos é que foi prestar atenção no que ele segurava.
Ligado por diversos fios, um círculo grande de madeira foi retirado da caixa por e suas mãos trêmulas. levou alguns segundos para compreender do que se tratava, não conseguindo disfarçar sua surpresa ao ver o objeto da lenda sendo exposto na sua frente. O círculo de madeira tinha algumas flores pequenas perpassando pelo galho de salgueiro como trepadeiras minúsculas. Os fios na verdade formavam uma teia exatamente como a de uma aranha e na extremidade inferior bem no centro três penas foram pregadas em fios de conta.
– Isso é a representação de um Filtro dos Sonhos e segundo a lenda, ele vai proteger seus sonhos e afastar os pesadelos. – disse estendendo a teia para a menina.
ficou em silêncio observando maravilhada o Filtro dos Sonhos. quis ter o poder de ler sua mente e decifrar o que se passava por ela, mas esperou em silêncio resolvendo não pressionar ainda mais uma reação dela. Relutante, estendeu a mão para pegar o presente.
– Você fez isso? – Ela perguntou surpresa e ele afirmou com a cabeça, rapidamente. – Caramba, é lindo… – Ela deixou escapar docemente, mas logo recompôs a pose amargurada. – Não precisava.
– Eu vim pedi desculpas, vim em missão de paz. Eu sei que fui injusto com você e por mais que não tenha justificativa, só queria dizer que você apareceu na minha vida no pior momento possível. E talvez, tenha sido o mais oportuno também.
“Sei que começamos com o pé esquerdo e que eu demonstrei para você uma versão minha totalmente desagradável, mas acredite quando digo que não é isso o que sou. Eu não quero ter pendências com alguém e talvez tenha sido fruto de todo esse discurso piegas de ano novo, mas eu realmente não quero começar outro ciclo na minha vida tendo falhado tanto com alguém assim… Alguém que pensa tão ruim de mim”
– Por que para você importa tanto o que eu penso ou não ao seu respeito, ? – perguntou com a voz rouca erguendo o olhar para encará-lo diretamente.
– Porque eu gosto de você. – respondeu rapidamente e quando franziu o cenho, apressou-se a continuar – Porque você é uma pessoa boa e não merecia.
– Terminou? – perguntou impassível e suspirou, abrindo o sobretudo retirando do bolso interior um livro de capa verde que fez a expressão de iluminar, os olhos arregalados.
– Ainda não, por último vim devolver isso a você – disse estendendo O Livro dos Sonhos para a dona. pareceu mesmo ter sido pega de surpresa com essa atitude. O olhar incerto dela desviou de para o livro e de volta para numa velocidade incrível.
– O que você está fazendo? – Ela perguntou confusa e ele deu de ombros sentindo-se infeliz.
– Eu vim pedir desculpas pela forma como agi com você e também te dizer adeus. Seu livro era a única coisa que ainda nos ligava de alguma forma e eu acho que você merece tê-lo de volta, afinal de contas, é seu. Além do mais… Não existe nada aí que eu já não tenha visto antes. – respondeu com o livro estendido no ar, mas não fez menção de pegá-lo de volta.
– Foi um presente, você está devolvendo um presente? – Ela perguntou levemente ultrajada e foi a vez de franzir o cenho confuso.
– Não foi um presente, você me emprestou. E agora eu estou devolvendo, achei que você quisesse isso.
– Então é isso, a sua prova do quão patético você acha que esses sonhos são!
– O que? – perguntou confuso. era uma pessoa tão complicada! – Não tem nada a ver com isso. Eu estou devolvendo porque você deixou bem claro que não queria minha presença nem a minha amizade e eu estou finalmente respeitando isso e mantendo a distância. É seu, . Eu estou errando em devolver?
pensou por alguns segundos, potencialmente incomodada com alguma coisa que não conseguia entender. Ensaiou aquele diálogo várias vezes, mas aquela parte não estava saindo exatamente como no script da sua cabeça. Achou que iria apenas aceitar o livro de volta, bater à porta na cara dele e assim poderiam seguir a vida despedindo-se para sempre. Mas como sempre tudo a respeito dela era completamente confuso.
– O que isso significa? Que você vai parar de encher meu saco para sempre, é isso? – perguntou finalmente tomando o livro de volta com uma agressividade que não era necessária. deu de ombros.
– Sim. Estou deixando você livre de mim. – respondeu calmamente, o coração doendo ao verbalizar aquelas palavras porque eram exatamente tudo o que não queria fazer, mas que precisava.
– Bom, então… O que está esperando, cai fora. – respondeu e percebeu sua voz firme fraquejar um pouco. Ele assentiu uma vez, porém permaneceu no mesmo lugar.
– Antes de ir, só queria te dizer que você tinha razão sobre algumas coisas, mas estava completamente errada em outras.
– Se você espera que eu pergunte o que, você está enga…
– Você estava certa quando disse que eu era um engomadinho metido a besta que descontava minhas frustrações nos outros. Você estava certa quando disse que a razão para te odiar tanto era porque eu odiava a mim mesmo. Estava certa sobre meu relacionamento também, ela merecia coisa melhor e aposto que será muito feliz sem mim hoje.
– Você terminou o noivado? – perguntou visivelmente surpresa, interrompendo o desabafo de . Ele assentiu com a cabeça e logo continuou a falar, não queria lembrar de Charliet naquele momento, a ferida ainda era recente e ainda doía.
– Você estava certa sobre muitas coisas, continuou e sua voz estabilizou um pouco – Mas nunca, nunca mais me chame de covarde. Você não tem a mínima ideia do que é a minha vida e nem o que eu passei para chegar até aqui.
– Você também não tinha a menor ideia do que era a minha vida antes de me dizer aquelas coisas horríveis! – interpelou e concordou com a cabeça.
– Sim, e é exatamente por isso que eu estou aqui de novo pedindo desculpas a você. Me perdoar ou não é uma decisão sua e eu respeito. Mas foi você quem começou com os julgamentos e apontando coisas sobre minha vida unicamente baseadas no seu achismo.
– E no fim das contas esse achismo não estava correto? Pois então! Você mereceu! – respondeu e deu de ombros.
– Talvez eu tenha merecido, mas isso não significa que você agiu corretamente, você é assim comigo desde que nos conhecemos.
– Não tenho culpa, você é um babaca! – respondeu azeda e acenou positivamente com a cabeça antes de se afastar.
– Sim, e é exatamente por isso que eu estou me afastando – disse calmamente e dedicou alguns segundos para olhar uma última vez antes de se afastar pelo que ele achava ser para sempre. Queria gravar na memória os traços dela, mesmo sabendo que isso não seria preciso visto que em seus sonhos ela estaria sempre presente.
– Bom, é isso, adeus. Feliz ano novo – Ele disse dando as costas. Andou a passos lentos até o carro, as mãos nos bolsos do sobretudo, tentando conter a dor dilacerante que sentia no coração.
Não precisava ter se sentido tão mal assim, a saudade de não duraria muito tempo.
Não muito tempo porque, assim como sempre fazia, contrariou todas suas expectativas ao gritar seu nome quando estava prestes a abrir a porta do carro, sem olhar para trás.
, espera! – Ela disse correndo em sua direção – Caramba, eu vou me arrepender muito disso depois, espera aí, seu engomadinho idiota!
E agindo totalmente contra tudo aquilo que ele possivelmente poderia imaginar, ao virar-se de costas para encarar alguma ofensa remanescente da menina, a única coisa que pôde enxergar antes de sentir os braços de em volta do seu pescoço, foi um sorriso amuado e rebelde dela.




Continua...



Nota da autora: Ufa, quanto drama! Sobreviveram a esse descarrego emocional? Esse capítulo concentrou muita coisa importante de uma vez só! O que será que aconteceu depois dessa super briga do Gus e do diretor Vermond? Quem será responsável por essas ameaças constantes? E o fim do relacionamento com a Charliet, será que o Gus vai encontrar a paz que tanto busca? Bom, no que depender de Nicole a resposta é NÃO. Imprevisível como sempre, quem diria que a raposinha iria dar o braço a torcer?
Mas será que deu mesmo?
Os próximos capítulos serão um pouco mais leves comparados a esse, mas se eu disser que o pior já passou é mentira. Então, vamos para a calmaria antes da tempestade. Aproveitem muito! <3

Gostaria de aproveitar e avisar que as próximas atualizações podem demorar um pouco, visto que eu estou na reta final do meu TCC e, portanto, preciso priorizar isso ao máximo. Apresento a monografia em agosto e depois disso estarei livre para voar. Não estou dizendo que vou demorar tudo isso para atualizar, mas também não posso garantir que as atts vão permanecer tão rápidas e constantes como tem sido até agora. A única coisa que posso prometer é que ABN nunca será abandonada e que mesmo que eu demore, a att sempre vem e sempre tentarei uma forma de recompensar vocês… seja com att dupla ou, quem sabe, tripla!

Besitos molhadinhos e até a próxima!
Spin off da história: The Blower’s Daughter






Outras Fanfics:
Mysterious and Addictive
Zonas de Peligro
01. Revival
Mixtape: Shout Out To My Ex



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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