CAPÍTULOS: [Prefácio] [1] [2]









Última atualização: 21/01/2017

Prefácio


O que você já deixou de fazer por ser mulher?
Você já deixou de falar palavrão?
Você já foi impedida de sentar de forma confortável?
Já deixou de ir a algum lugar porque iria voltar sozinha?
Deixou de beber em uma festa por medo do “Boa noite, Cinderela”?
Já evitou uma roupa que gosta por medo de assédio? Ou de falarem mal de você?
Quantas vezes atravessou a rua por medo de alguma pessoa andando atrás de você? E quantas vezes ficou em casa por medo de sair à noite?
Você já foi preterida em algum emprego por ser mulher?
Eu já passei por todas essas situações. Qualquer mulher já passou por mais de uma dessas algumas vezes.
E essa é a história de quando eu resolvi me vingar por todas nós.



Uma proposta inesperada


A crise na economia brasileira afetou todo o conglomerado de empresas privadas, causando cortes orçamentários e redução de pessoal, criando pânico em todos os pobres assalariados sem estabilidade.
Eu trabalhava no escritório de uma grande empresa bancária na época. Dez anos de casa e um rendimento muito bom. Todas as agências da região que era de minha responsabilidade haviam batido a meta de vendas nos últimos dez meses e esse era um feito e tanto em anos normais, mas em era de crise... Era estupendo.
Para falar a verdade, eu e meu ego estávamos esperando uma promoção a qualquer momento.
Acho que nunca poderia ter previsto o que aconteceu, que aquilo estava vindo voando em direção à minha cabeça. Por alguns momentos, me esqueci da realidade que gritava ao meu redor desde que eu viera ao mundo: eu era mulher. E estava fadada a sofrer por causa disso.
É claro, houve uma complicação. Há pouco mais de dois anos, tive um affair com um rapaz no escritório. Não foi o primeiro que me envolvi no trabalho, embora eu sempre tentasse evitar, esse tipo de coisa sempre acabava acontecendo. Eu tinha a cabeça nas nuvens e era só um homem razoavelmente interessante demonstrar que gostava da minha companhia e eu já estava arrastando-o em uma série de piscadelas, charmes e decotes abusados até que acabássemos dividindo um edredom.
Nunca houveram muitos problemas, até Vinícius. Porque, bom, Vinícius era chefe de todo o escritório.
E casado.
Começamos a dança do acasalamento apenas algumas semanas após ele assumir o cargo; estava vindo da grande São Paulo por algum motivo a qual eu nunca me atentei de perguntar. Ele era bonito, inteligente, tinha umas ideias loucas e novas que amarraram minha atenção no segundo em que pus meus olhos nele. Não demorou muito até que ele pusesse os olhos em meus decotes abusados e passasse a ouvir minhas sugestões.
Por dois meses, ficamos nessa de trocar elogios e cantadas baratas. Eu sabia que ele era casado, então, e fiquei um pouco balanceada. Entre meus colegas, porém, rolava um boato de que o casamento dele não ia muito bem e que a esposa tinha ficado em São Paulo e também algo sobre o divórcio já estar em andamento. Não que eu tivesse interesse em algo sério com ele, na verdade, mas me sentiria mal pela esposa caso acontecesse. Aquele boato foi o suficiente para que meu bom senso me abandonasse e eu voltasse a investir em Vinícius.
Ele era alto e forte – forte no estilo um pouco gordo. Parecia um grande urso, imponente e respeitável, do tipo que só a presença põe ordem no lugar. Tinha os olhos em cor de amêndoa e seu cabelo e barba (quase sempre muito bem feita) já tinham os sinais dos seus quarenta e poucos anos, com alguns fios grisalhos. Mas isso era só a cereja no topo: sua inteligência sempre fazia com que minhas pernas parecessem gelatinas e eu tinha que respirar de forma bem ridícula para acalmar meu coração antes das reuniões.
Um dia, ele me chamou para jantar. Um jantar de negócios, ele disse, para definir uma estratégia para as agências que eu comandava, em uma das regiões mais pobres de Santos. Um jantar de negócios, ele disse. Eu fingi que acreditei e vocês também podem fingir que foi isso que aconteceu.
Ele me levou em um restaurante caro, pago pela empresa. Conversamos sobre as estratégias durante os primeiros dez minutos e ele começou elogiando meu cabelo. Quando viu que eu estava gostando e dificilmente o denunciaria por assédio, as coisas começaram a tomar outro rumo e a noite acabou em seu apartamento. Não era muito distante do que eu divido com a minhas amigas, mas infinitamente maior e mais luxuoso. O que eu tenho a dizer sobre aquela noite é que sua cama era muito confortável e, bem, ele fazia as coisas direito.
O clima no escritório parecia favorável para mim, ele sempre ouvia meus projetos e me colocava acima dos outros. Estava tão feliz... Saímos por cerca de três meses antes que ele me chamasse para conversar e dizer que não poderíamos nos ver mais por motivos de ética no trabalho. Os outros começavam a suspeitar, ele disse, mas jamais deixaria de me tratar do jeito que eu merecia; eu tinha realmente boas ideias e era muito bonita e inteligente, ele disse. Seria como se nada tivesse acontecido, precisava ser assim. Bom, realmente foi assim.
Paramos de sair e ele passou a me ignorar nas reuniões, claro. Imaginei que duraria um tempo, para fingirmos que nada havia acontecido, então permaneci calada e passei a nem sugerir mais nada, mas a continuar a fazer meu bom trabalho sozinha, com minhas próprias estratégias, apesar de ser recomendada a seguir outras. Não demorou nem um mês para a esposa retornar de São Paulo. Fiquei sabendo, após isso, que ela apenas estava demorando para conseguir transferência de sua faculdade e da escola das crianças. Precisaram terminar o ano escolar para conseguir com mais facilidade, nenhum divórcio jamais tinha sido mencionado em algum momento do relacionamento deles.
E eu, claro, tinha sido usada.
Foi duro por algum tempo. Piorou quando um dos meus colegas, que havia me chamado para sair e eu recusei (agora muito mais assustada em ter um relacionamento com alguém no trabalho depois do que eu estava passando) espalhou o boato de que eu e Vinícius transávamos, mas que agora eu tinha sido jogado fora. A parte que doeu era que era verdade, claro. Tive alguns dias ruins em que eu me trancava no banheiro para chorar e continuar fingindo que tudo estava bem.
Minhas amigas insistiram que eu largasse o emprego muitas vezes. Eu estava infeliz, não era o máximo de infelicidade que eu já tivera, mas estava infeliz. Arrastava-me para fora da cama até o trabalho como se estivesse indo para forca, e isso era completamente diferente da animação que Lisbela e Bianca tinham para ir trabalhar, e até mesmo eu há algumas semanas antes daquele incidente.
Em algum momento, o boato se dissipou e virou algum sussurro distante incômodo de fofocas de banheiro. Vinícius começou a me tratar como uma funcionária normal e parou de me ignorar totalmente – era claro que não ouvia mais todas as minhas sugestões, mas uma ou outra eram colocadas em prática. A vida pareceu a voltar aos eixos e, com isso, voltei a amar meu trabalho.
Alguns rapazes tentaram se aproximar de mim após tudo se acalmar. E, bom, as coisas ficaram esquisitas. Os dois primeiros a me chamarem para sair, foram transferidos sem aviso prévio para uma unidade mais afastada – para agências, o que era uma espécie de rebaixamento. O terceiro foi demitido. Houve um quarto, que quando eu o abordei perguntando se estava tudo certo para o nosso encontro, gaguejou e disse que não iria dar certo. Foi quando eu pude ver o padrão. Cheguei a lançar alguns olhares magoados para Vinícius: por que ele achava que era dono da minha vida sexual?
Foi mais ou menos por aí que a crise nos acertou com força e eu me rebolei para manter os meus índices de sucesso e metas. Comecei a passar menos tempo no escritório e mais tempo nas agências, conversando com os funcionários cara a cara. No chão de fábrica, como dizem. Estive na boca do lobo, assumi a pressão junto com os meus gerentes e caixas e, ao contrário de toda a rede, nossos números subiram. Meus outros colegas tinham dificuldade para sequer manter as mesmas metas de antes da crise e eu estava decolando.
Também criei um costume de festas e baladas por aquele ano. Minhas amigas quase não conseguiam me acompanhar. Bianca era mais na dela, mais calma, e Lisbela, apesar de querer me acompanhar quase sempre, tinha uma dificuldade de encontrar lugares acessíveis e, bom, nunca era exatamente fácil levá-la para uma festa. As pessoas não eram sempre preparadas para lidar com ela.
Depois de quase um ano com aqueles resultados maravilhosos, vagou um cargo similar ao de Vinícius. Na verdade, devido à crise e aos cortes de pessoal, o rendimento do banco havia caído pela metade e criou-se um cargo para que pudesse ser feita uma análise mais acertada da região da baixada santista. Vinícius, que cuidava de toda aquela área, teria suas funções divididas pela metade com uma nova pessoa. E, bom, eu estava pronta para a minha promoção. Era a escolha óbvia, não era?
Quando, em uma manhã de quinta-feira, Vinícius me chamou em sua sala assim que eu cheguei no escritório, eu já estava me imaginando em uma sala gigantesca com uma cadeira de recostar e uma pilha de papéis de dados para analisar. Estava empolgadíssima.
- Me chamou, chefe? – Bati em sua porta aberta com um sorriso confiante. Vinícius levantou o olhar dos papéis que analisava e tampou a caneta iluminadora que usava para apontar algumas coisas do que lia.
- Bom dia, – ele disse, virando-se para mim. – Pode entrar, e feche a porta, por favor.
Olha, uma conversa sigilosa. Parecia extremamente promissora. Abri ainda mais meu sorriso enquanto fechava a porta e caminhei até a cadeira à frente de sua mesa, me sentando. Vinícius uniu suas mãos por sobre a mesa e me analisou com um olhar de águia. Foi mais ou menos por aí que eu achei que as coisas não podiam estar tão certas quanto eu achava que estavam.
Meu coração disparou.
- , você está em nossa empresa há cerca de dez anos, passou por diversos cargos e subiu rapidamente. Começou como estagiária, ficou algum tempo como caixa e logo foi subindo. Aos 24, você era a mais nova super-intendente do país. E estagnou.
Pronto, eu estava de olhos arregalados agora. Estagnar não era uma palavra muito boa, mas será... Será que ele estava sugerindo que eu deveria içar voos mais altos agora? Parecia uma boa continuação de discurso.
“Não é que seus resultados não sejam bons, eles são um dos melhores da baixada santista, mas você dificilmente demonstrou maturidade comportamental em seu ambiente de trabalho... E a maneira com que você se envolve com... Hm... Colegas de trabalho é um pouco perigosa e, certamente, nem um pouco recomendada”.
Como assim? Minha cabeça estava gritando pela hipocrisia que eu estava ouvindo. E desde quando minha vida pessoal interferia em meu trabalho? E não fora ele mesmo quem se envolvera comigo? Mesmo casado?
“Estive ouvindo reclamações dos meus superiores e do RH sobre boatos que rolam na empresa com o seu nome. Tenho certeza que você já ouviu alguns deles e não cabe a mim repeti-los para você. Estive brigando pela sua competência por meses a fio, tentando mantê-la como minha funcionária pelos resultados que eu tinha como comprovar que você dá e, bom, tudo seria mais fácil se eu não soubesse que parte dos boatos são... Verdade.”
Não. Não. Isso não podia estar acontecendo comigo. Não podia.
“Semana passada, você chegou pós feriado com cheiro de bebida no escritório. Não demonstrou estar bêbada e fez seu trabalho bem, como sempre, mas o Sérgio Augusto estava aqui e, junto aos boatos anteriores de sua conduta, ele me perguntou como eu poderia mantê-la trabalhando aqui. Você sabe, nossa empresa é tradicional e não aceita determinadas coisas e determinados comportamentos; você esteve andando por cima da linha do limite por boa parte do seu contrato”.
Sérgio Augusto era o superior de Vinícius e eu jamais soubera que ele estava no escritório naquele dia. Eu realmente tinha chegado cheirando a bebida – tinha ido à uma festa de aniversário de um dos colegas de Bianca e Lisbela tinha conseguido derrubar cerveja em meu cabelo. Eu não fazia ideia de como aquilo tinha acontecido, mas o cheiro permanecera depois de lavar meu cabelo. Não tinha nada que eu pudesse ter feito; apenas tentei mascarar com um perfume, mas, aparentemente, não tinha dado certo.
“Seu aviso chegou na primeira hora da manhã. Preciso que você assine e retire suas coisas o mais rápido possível. O agendamento da baixa da carteira está feito e você vai ter que procurar a Carina no sindicato. Eu ou alguém do RH devemos estar lá para dar a tua baixa. Sinto muito”.
Eu devia estar tendo um pesadelo. Era a única explicação lógica para me mandarem embora depois do tanto que eu rendia para aquele inferno de lugar. Não tinha como ser qualquer outra coisa... Eu...
- Isso é uma pegadinha, não é? – Eu perguntei, sem me importar nem um pouco com o meu orgulho. – Você já viu meus gráficos? Eu estou fazendo o dobro das metas toda merda de mês, o segundo colocado mal consegue bater as metas! Vocês têm o que na cabeça? Cocô?
Vinícius esfregou as têmporas e respirou fundo, tentando manter a paciência perante o meu mal comportamento claro e óbvio.
- , eu sei bem como é sua competência, mas um bom funcionário tem que ter boa conduta também, o que não é o seu caso. Você mal conversa com seus colegas de trabalho e quando o faz, é para discutir a plenos pulmões por coisas pequenas. Suas roupas nem sempre estão no padrão da empresa – ele apontou para mim e o que eu vestia, uma saia social no meio da coxa e uma blusa de botões com dois de cima abertos, além de um sapato fechado de salto que era bem confortável. – Você atrai seus colegas, sai com eles... Eu estive tentando afastar quem se aproxima de você com outros interesses para abafar os boatos, mas você não se corrige. Todos os feedbacks dos últimos anos têm pontuações sobre seu comportamento e suas roupas... Eu tentei manter você, você é uma ótima funcionária e tem ótimas características, mas isso foi um pedido de cima e eu não pude mais argumentar. Você mesma fez sua forca.
- Eu fiz minha forca quando dormi com você, achando que você era um cara legal, triste por estar se separando da esposa. Mas sou eu que tenho conduta ruim, não é? Não o cara que dorme com as colegas de trabalho às escondidas da esposa, né? Você acha que eu não sei da Sthefany? Da Carla? É esse tipo de conduta que a empresa tradicional quer de seus funcionários mesmo? Entendi tudo!
Levantei-me com fúria e tive que contar até dez para não virar o monitor do computador na cara dele.
- , por favor... Se acalme.
Ah, ele queria que eu me acalmasse porque eu tinha certeza que toda a repartição estava ouvindo aquilo. Se eu ia me afundar, eu pretendia arrastá-lo junto.
- Você é uma merda de um canalha, Viny – eu disse, chamando-o pelo apelido que o chamava quando estivemos juntos. – Talvez eu faça uma visita para a sua esposa assim que eu conseguir sair dessa espelunca.
Pisei para fora do seu escritório batendo a porta com força – quem ainda não tivera a atenção em mim até aquele momento... Bom, agora estava me observando também. Fui até a minha mesa e comecei a recolher meus objetos pessoais – dois porta retratos: um com uma das únicas fotos da minha mãe que eu tinha e um com as minhas amigas. Um carregador de celular em formato de sapato de salto vermelho, uma caixa de guloseimas e barrinhas de cereais que eu deixava escondido em uma das gavetas, além da minha carteira e da chave reserva do meu apartamento e do carro que eu dividia com as minhas amigas. Havia também uma pequena agenda telefônica com números de emergência. Estava tudo dentro da caixa de guloseimas antes que Vinícius tivesse atravessado o escritório até a minha mesa, na intenção de me conter.
- , vamos conversar com calma...
- Eu não vou conversar mais merda nenhuma sobre essa hipocrisia escrota dessa empresa. É ridículo. Ainda bem que eu estou indo embora. Não vou ficar nem mais um segundo nessa espelunca de merda. Fujam enquanto podem, meninas – gritei para as minhas colegas.
Vinícius, se fosse capaz de ficar vermelho, teria ficado, mas seu tom de pele escura apenas empalideceu um pouco com minhas ameaças vazias e minha gritaria sem sentido.
- Você nem assinou seu aviso! – Ele tentou segurar-me pelo pulso.
Sacudi-me até que ele me soltasse, com fúria. Um dos porta-retratos – o da minha mãe – caiu no chão e se espatifou. Um colega próximo pegou e colocou na caixa novamente para mim, me dando um sorriso quase compreensivo. Teria sorrido de volta, se pudesse, mas eu estava em puro fogo de ódio.
- É esse o problema? – Marchei com a caixa de volta a sala de Vinícius e rabisquei meu nome no papel que estava em cima da mesa. O “Bonfim” ficou quase irreconhecível dentre o malabarismo para manter a caixa e a raiva que dominava meu corpo. Vinícius estava entrando em seu escritório novamente quando eu terminei. Joguei o contrato na cara dele, deixando o estupefato quando eu passei por ele como um furacão.
Entrei no elevador tremendo de raiva e apertei o botão do térreo tantas vezes, pensando que talvez isso fizesse o elevador chegar mais rápido ao seu destino e acabasse logo com a minha humilhação. Assim que a porta do elevador fechou, achei ter escutado alguns gritos e palmas, mas dificilmente saberia se era pelo furacão que eu causei ou por eu ter sido demitida.
Eu achava que era o primeiro caso.
Mas talvez fosse só meu ego.

- Você realmente foi falar com a esposa dele? – Bianca estava horrorizada.
Lisbela riu e nós nos encaramos em um momento quase telepático. Na verdade, após sair do escritório, eu tinha passado na delegacia onde ela trabalhava e desabafado um pouco com ela. A partir dali, ela tinha me incentivado a procurar a esposa de Vinícius, mas eu estava um pouco com medo de que ele já a tivesse alcançado-a para me impedir. Então, alguns momentos mais tarde, Lisbela tinha o email e o whatsapp da esposa dele e, bom, nós encaminhamos algumas fotos comprometedoras. Para bom entendedor, uma imagem vale mais que mil palavras e uma palavra já bastaria.
- A gente mandou um email – eu lhe disse. – Ele vai ter o que merece.
Bianca estava andando de um lado para o outro, de nervosismo. Eu revirei os olhos e Lisbela rolou para fora do caminho da nossa amiga. A roda prendeu um pouco no tapete, mas ela logo se desvencilhou. Era sinal que a peça deveria desaparecer assim que ela fosse para o quarto e a tarefa seria obviamente minha, já que Bianca sequer prestara atenção naquele pequeno incidente.
Para entender um pouco da nossa dinâmica, eu devo voltar ao fato de que nos conhecemos no orfanato. Bianca e eu demos entrada no lugar quase ao mesmo tempo; ela era um pouco mais de um mês mais velha que eu. Foi abandonada pela mãe um pouco depois de um mês de vida. Eu, que só tivera a minha mãe, fora sobrevivente de um incêndio na maternidade que nasci. Lisbela apareceu alguns anos mais tarde, seus pais tinham sido assassinados. Dentre nós, ela tivera mais sorte: ganhara uma pensão bem considerável do pai, que era militar. Pensão, esta, que ela tentara manter depois dos 21 anos, quando se encerrou. Ela estava terminando a faculdade e não tinha para onde correr e, bom, seu namorado, que trabalhava justamente com benefícios, a convenceu que seria bom fraudar alguns documentos para ela continuar com a pensão. Eles invadiram o escritório durante a noite com a desculpa de que ele havia esquecido o celular. Lisbela, então, invadiu a rede de computadores, como uma boa hacker, quase formada em engenharia da computação, e alterou alguns dados para conseguir sua pensão por mais alguns anos.
A fraude foi descoberta em um pente fino poucos meses mais tarde. Ela e o namorado foram presos. Bianca e eu estávamos nos formando na faculdade bem naquele ano, as duas aos trancos e barrancos, e eu já estava trabalhando no banco. Nós duas morávamos na capital do estado e Lisbela estava em Santos. Ela não durou nem seis meses na prisão: em um motim, acabou levando um tiro na coluna que a deixou paraplégica. Fez um acordo com a polícia local que a liberou da prisão e, por algum motivo, acabou trabalhando na delegacia de crimes virtuais da cidade. Eu pedi transferência para Santos porque ela precisava de cuidados para se adaptar e Bianca começou a distribuir currículos nas escolas e cursos da cidade. Foi mais ou menos assim que as três chiquititas perdidas acabaram morando juntas em Santos.
Tudo o que nós tínhamos era adaptado para Lisbela. O apartamento, o carro, nossos horários... Nós éramos a família uma da outra e nós cuidávamos uma da outra de uma forma que eu não saberia colocar em palavras. Éramos tão diferentes, na maior parte do tempo, mas aquelas eram minhas irmãs. Eu nem exatamente as escolhi – foi o acaso do abandono e das mortes, além de todas as coisas ruins que passamos juntas e nos sustentamos para que fosse mais fácil –, mas eram minhas.
Bianca era a sensível. Havia uma teoria em mim e em Lisbela que sua insegurança vinha do fato da mãe tê-la abandonado –depois de ter lhe passado uma doença durante a amamentação. Ela era professora de inglês e português, também trabalhava com traduções de livros nas horas vagas. Era doce, sensível e adorava crianças. Era voluntária em alguns orfanatos, também. Lisbela era mais bruta, e Bianca achava que isso era porque ela andava mais com homens na maior parte do dia, ela não tinha cuidado com o que dizia e não era muito organizada, o que nós relevávamos bastante, mas vivia dando problemas em casa. Eu era a foguenta, a esquentadinha, a safada, devoradora de homens e arrasadora de festas.
Como a gente funcionava? Bom, esse é um dos mistérios do universo que, um dia, eu irei de desvendar.
- Você pode ter destruído um casamento, sabia? – Bianca ralhou comigo, mesmo que tivesse sido Lisbela a clicar no botão de enviar do email. – Ele tem filhos, , o que você tava pensando?
Eu tinha um discurso inteiro para fazer, mas Lisbela rolou para frente de mim, ficando de frente para Bianca e levantou a mão, pedindo permissão para falar. Sabia que dificilmente meus argumentos acalorados pela raiva fariam Bianca entender meus motivos, permiti que Lis o fizesse por mim daquela vez. Não que ela fosse muito centrada, também, mas por não estar diretamente envolvida, talvez fosse uma escolha melhor.
- Quem destruiu o casamento foi ele, dormindo com um monte de mulher. A só avisou para a esposa que ele era um canalha, que mal há nisso? – Ela fez uma manobra e virou-se para mim. – Se algum cara estiver me enganando e você souber, por favor, me avise, sim?
Eu estava quase rindo, mas sabia que uma gargalhada naquele momento faria Bianca ficar zangada (mesmo que isso fosse quase raro o suficiente), logo agora que ela começava a ceder ao nosso ponto. Bianca parou de andar de um lado para o outro e encarou Lisbela com raiva, o que era engraçado. Parecia um gatinho com seus grandes olhos esverdeados demonstrando mágoa sem perder a fofura.
- Mas os filhos deles não têm culpa. Nem a mulher dele tem culpa – ela pontuou.
Isso encheu meus pulmões de raiva. Eu tinha ficado com Vinícius apenas porque achei que ele estava se separando. Ele tinha deixado a entender que sim e, com a família morando em outra cidade, pareceu-me óbvio que estava falando a verdade. Então tudo começou a dar errado e eu percebi que ele estava mentindo. Era minha culpa, então? Não dele, mas minha e de sua esposa? Ou só minha?
- Exatamente! – Eu e Lisbela falamos. Nos encaramos por um momento, com sorrisos no rosto, ela virando a cabeça por cima do ombro para me olhar. Continuei. – Por que a esposa dele tem que continuar a conviver com esse cara, sem saber que ele é um canalha ridículo? Eu me livrei dele e achei que era melhor dar um aviso a ela. Foi só isso. A partir de agora, é com ela, o que ela vai fazer e tudo mais. Ela pode querer continuar com ele também, se quiser. Só que vai estar ciente do que ele faz.
Bianca não pareceu muito convencida, mas algo em seu rosto me informou que seus argumentos não durariam muito mais. Ela só estava chateada que havia algum risco de crianças acabarem se afastando do pai – como nós mesmas fomos privadas de tais carinhos.
- Você só fez isso porque ficou com raiva de ser demitida, – Bia continuou ralhando comigo. – Isso não foi certo.
Mordi meu lábio porque, bom, ela tinha razão. Eu não tinha argumentos contra aquela lógica, estava ardendo em raiva e queria me vingar de Vinícius de alguma forma – aquela foi a única coisa que encontrei. Por sorte, Lisbela estava do meu lado da batalha e puxou aquela parte do argumento para ela.
- O motivo não foi nobre, mas a atitude foi – Lisbela levantou o braço e curvou a mão como se estivesse apresentando um produto. Coloquei minha carinha sorridente sobre sua palma, piscando meus olhos para Bianca, que revirou os seus. – Dê um ponto pra ela.
Bianca suspirou e deixou cair os ombros, finalmente desistindo de guerrear conosco por algo que não poderia ser mudado. Nossa gracinha tinha feito com que ela abandonasse a batalha e arriscasse um sorriso idiota no rosto, como se não conseguisse lidar conosco e nossas palhaçadas.
- Tudo bem, vai – disse. – Vou dar um desconto. Mas ainda não acho certo.
- Ótimo! – Lisbela bateu palmas. – Agora vai colocar uma roupa menos moça do campo porque a gente vai sair pra comemorar.
- Comemorar o quê? – eu perguntei, meio risonha, meio chateada.
- A sua libertação das garras do mercado econômico! – Lisbela riu e eu tive que espelhá-la.

Apesar dos primeiros dias depois da minha demissão terem parecido mais como férias, logo o ócio me pegou em um péssimo momento. Ficamos eu e Preguiça em casa, enquanto Bianca e Lisbela trabalhavam.
Ah, antes que eu me esqueça: apesar de eu ter um bocado de preguiça em meu corpo às vezes, Preguiça é o nome da gatinha de Bianca, que ficava me fazendo companhia.
O problema todo era que eu sempre gostei de trabalhar e sempre trabalhei. Desde que ainda estávamos no orfanato, tínhamos nossas tarefas e eu gostava de fazê-las. Depois que comecei a trabalhar para conseguir meu sustento e continuar na faculdade, não parei mais. Estive na mesma empresa por quase uma década inteira e agora tudo tinha sido tirado de mim.
Acabei em uma coisa bem triste: jogada no sofá, com uma gata deitada na minha barriga e fazendo maratonas de séries nem tão boas assim na Netflix.
Mas o pior de tudo era que, embora minha rescisão contratual tivesse me dado algum montante de dinheiro, eu tinha uma vida um pouco cara para os padrões do desemprego e o dinheiro começou a escoar dos meus dedos enquanto eu pagava as contas remanescentes de quando ainda estava empregada. E ainda tinha o valor que pagávamos pelo apartamento e, bom, depois de dois meses paradas e três entrevistas sem sucesso, eu não tinha mais muito o que oferecer para minhas amigas. Estava morrendo de vergonha de falar para elas que, se eu pagasse minha parte do apartamento mais um ou dois meses, não teria o suficiente para comprar nem comida para casa ou gasolina para o carro. E o seguro desemprego era muito abaixo do que eu costumava receber.
Eu adiei ao máximo, até a semana que elas recebiam o pagamento, e chamei-as para conversar. Preparei um jantar bem legal, macarrão com almondegas e fiz um agrado de comprar um vinho para amolecer o coração delas. Após estarmos as três satisfeitas com a refeição, Bianca já me encarava com olhos suspeitos antes de eu começar a contar sobre meus problemas financeiros para elas.
- Posso cuidar da casa enquanto isso. Eu limpo, lavo a roupa de vocês, faço a comida... É só até eu conseguir outro emprego, então eu pago todas as prestações que eram minhas pra vocês... Eu...
Estava tão envergonhada. Eu era a que ganhava melhor de nós três e sempre estava lá para as emergências. Eu tinha comprado o carro para Lisbela quase sozinha quando fui promovida para super-intendente e nunca tinha pedido dinheiro emprestado para ninguém. Estava me sentindo super mal sobre aquilo tudo.
- , pelo amor de Deus, você não precisa nem pedir – Bia atravessou a mesa em uma corrida só e passou os braços ao redor de mim enquanto eu escondia o rosto, envergonhada.
Lisbela rolou em nossa direção também e senti sua mão esfregando meu braço em uma demonstração de carinho desajeitada.
- , a gente já meio que sabia que isso ia acontecer – ela murmurou. – Tá tudo bem, a gente vai manter tudo em ordem até você conseguir um novo trabalho. Não precisa pagar a gente não.
- Claro que preciso! – Exclamei, desvencilhando-me do abraço de Bianca. – Eu vou dar um jeito, eu... Posso fazer docinhos. Posso vender docinhos. Meus docinhos são bons, não são?
Pela cara que Lisbela fez: ela não queria me dizer que não eram. Urg, eu precisava de um novo plano.
- Você não precisa pagar nada por enquanto, – Bia insistiu. – É sério. A gente vai dar conta. Só relaxa e continua procurando o emprego. Pode fazer a comida, se quiser. Mas de resto, não tem problema.
Eu balancei a cabeça negativamente com tanta força que foi uma surpresa ela não ter desencaixado e saído rolando por aí.
- Não é justo – eu murmurei. – Eu posso pegar café pra vocês, é sério. Qualquer coisa que vocês precisarem, eu faço. Qualquer coisa mesmo.
- Você vai limpar minha bunda? – Lisbela perguntou.
- Quase qualquer coisa – corrigi, fazendo-a cair na gargalhada.
Bianca, porém, estava absorta em seus pensamentos e mordeu o lábio com as minhas palavras. Sabia que ela precisava de algo e me curvei para ela, querendo saber logo o que era. Cutuquei-a, sorrindo, passando uma tranquilidade para que ela pudesse falar.
- Tem um cara – ela murmurou, envergonhada. Lisbela assoviou, empolgada. Não era comum Bia “ter um cara”. – Ele é professor também, tem duas turmas no inglês e a gente conversou algumas vezes. Ele me chamou pra sair e ele parece legal, mas eu tô com medo, sabe, de falar pra ele... E ele não querer mais sair comigo.
- Bia, se ele não quiser sair com você por causa disso, ele não te merece – murmurei.
Ela se sentou na cadeira ao meu lado, parecendo derrotada. Já tinha se magoado algumas vezes por conta da mesma situação e não era surpresa que se sentisse tão insegura quanto aquilo agora.
- Eu sei, mas eu meio que entendo. Quero dizer, você não se assustaria se um cara te dissesse que é soropositivo?
- Bia... – Murmurei. Aquele era um assunto tão delicado, Bia era sempre super sensível quanto aquilo. Só descobriu aquela situação já quando maior de idade e ela ainda era virgem, o que nos levou a crer que a mãe havia lhe passado durante a amamentação, antes de lhe entregar para o orfanato. E isso tinha afetado ela de todas as formas. – Eu ficaria com cuidado, sim, mas não ia exatamente me assustar. A gente sabe como funciona.
- Mas ele pode não saber, e, sabe, não tem muita gente falando sobre isso – ela parecia realmente chateada e com medo. – Mas e se você saísse com ele e dissesse que é soropositiva em meu lugar? Se ele não ligar, tudo bem, melhor pra mim, mas e se ele... Se ele... Bom, você ia me poupar de mais uma humilhação.
- Ai, Bia... – Murmurou.
Lisbela estava quieta até aquele ponto e eu encarei-a por um momento. Ela deu de ombros porque compreendia os pontos. Eu mesma compreendia. Só estava chateada da minha amiga sofrer tanto na mão de caras que não a mereciam.
- Você disse que faria qualquer coisa – Bia me acusou.
- Quase qualquer coisa – Lis a corrigiu. – Ela se recusou a limpar minha bunda.
- Você não pode fazer isso? – Bia a ignorou. – Por mim?
Mordi a boca por dentro e suspirei profundamente. Se eu podia livrar minha amiga de uma decepção?
- Tudo bem – eu concordei. – Como eu encontro esse cara?



O papel chamuscado


Seguir as instruções de Bianca para encontrar Diego, o tal professor de inglês por quem ela estava interessada, foi uma das coisas mais ridículas que eu já fiz. Para começar, ela queria me avisar quando ele saísse do curso para que eu o seguisse e, então, ela queria que eu o seduzisse a ponto dele me convidar (ou eu convidá-lo) para um local mais discreto e, antes de irmos, contar para ele que eu era soropositiva.
Ou seja, se ele topasse, o que eu faria? Bianca tinha tanta certeza que ele não toparia estar com alguém soropositivo (vide suas experiências anteriores) que nem se dignara a me oferecer um plano B para o caso dele aceitar e, por conta disso, eu me sentia prestes a furar o olho da minha irmã.
Afinal, com todo o meu charme, que escolha ele teria além de me acompanhar?
Eu, é claro, fiz tudo diferente do que ela me disse para fazer. Enquanto Bia estava na escola e Lis me mandava mensagens desesperadas por atualização da delegacia, eu me encontrava na cafeteria do outro lado do curso de inglês, para onde Bia só iria no horário da tarde, encarando a foto que ela me mandara dele. Era bonitinho, não o meu tipo de cara bonitinho, mas parecia combinar com Bianca. Tinha olhos escuros e cabelo castanho claro, levemente encaracolado em cachos grossos, dando, ao seu rosto triangular, um aspecto quase angelical. Tinha uma tez que parecia, para mim, indiano. Ou árabe. Um rosto agradável de se olhar, sem dúvidas.
Assim que decorei suas feições, comecei a encarar a rua, na esperança de encontrar o tal do Diego saindo da escola para o almoço. As crianças haviam saído há cerca de dez minutos e Bianca me alertara que ele dava aula nos três turnos hoje, então teria que sair em algum momento e eu estava pronta para colocar meu plano em prática.
Meu café já estava um pouco frio quando vi Diego cruzar a saída do curso, olhando para os lados. Havia um semáforo bem em frente ao curso e ele parou no mesmo, aguardando abrir. Dei uma pequena corrida e me encontrei aguardando do outro lado da rua, também. Tirei o celular da bolsa e fingi me distrair lendo mensagens, fingindo não notar que o sinal para pedestres tinha aberto. Quando Diego estava quase a minha frente, eu dei um pulo e uma guinada de corrida para dar tempo de atravessar e deixei meu café ir todo contra a blusa dele.
Bia tinha me dito que Diego era um cara legal. Caras legais jamais resistiam à mocinhas desastradas.
- Ai, meu Deus, me desculpe! – Empertiguei-me ao redor dele, tirando um guardanapo de dentro da bolsa e já passando por cima da sua camiseta, tentando secar. Ele era magrinho e não tinha quase nenhum músculo, mas esse não era um problema meu.
Diego riu do meu desajeito e me pegou pelos braços, puxando-me do meio da rua, com o sinal quase abrindo para os carros, para a calçada. Um galante, educado, legal, simpático e protetor: Bia podia casar, ele tinha minha aprovação automática.
- Não foi nada, está tudo bem – ele me assegurou, soltando meus braços e sustentando o sorriso tranquilizador.
- Eu destruí sua camisa – choraminguei, deixando-me soar dengosa, muito mais parecida com Bia do que comigo mesma. – Por favor, olha só você, eu... Tem algo que eu possa fazer?
Ele ainda estava sorrindo, mas parecia levemente sem jeito com a minha atenção, fazendo o sorriso vacilar nos cantos do seu rosto.
- Não, é sério, eu...
- Já sei! – Exclamei, pegando-o pela mão e interrompendo-o. – Eu moro aqui pertinho, tenho certeza que tem uma camisa do meu ex-namorado lá que cabe em você.
A verdade era: eu não tinha um ex-namorado há um bom tempo e certamente não tinha nenhuma roupa de um ex disponível, mas havia quase certeza que uma das camisas masculinas de Lisbela caberia em Diego sem nem pestanejar.
Diego parecia ainda mais sem jeito enquanto eu o puxava pela calçada, em direção ao nosso prédio, que ficava a dois quarteirões dali.
- Não precisa... – Ele tentou murmurar.
Naquela altura do campeonato, eu já tinha notado que ele era um pouco passivo e que qualquer mulher com um pouco de boa vontade iria dominá-lo. Era bom que fosse Bianca, doce e tranquila, do que alguém mais parecida comigo ou Lisbela, com uma personalidade mais forte: isso provavelmente ofuscaria o pobre e doce Diego.
- Ah, por favor, me deixe ajudar você, eu acabei com a sua camisa. Eu posso lavar ela também. Tenho uma secadora de roupas, vai ser super rápido, eu prometo – eu parei e virei-me de frente para olhá-lo e estendi minha mão para ele, vendo-o quase ceder. – A propósito, meu nome é , a destruidora de blusas.
Isso fez Diego rir e eu soube que ele estava na minha. Apertou minha mão, mas, ao invés de sacudi-la, ele levou-a a boca e encostou seus lábios em minha pele.
- Diego, senhora. É um prazer.
Oh, certo. Senti minhas bochechas queimarem com sua atitude nem um pouco usual. Ele tinha um charme clássico e eu quase conseguia começar a ver porque Bianca estava tão encantada nele e o porquê ficaria magoada caso ele a rejeitasse.
Pisquei meus olhos algumas vezes, perguntando-me em que século eu estava, mas acabei por sorrir. Diego sorriu de volta e eu suspirei, voltando-me o olhar para sua camisa.
- Acho que não pode ser um prazer, não com sua blusa nesse estado – murmurei. – Vamos, é aqui pertinho.
Joguei o resto do café no lixo com um sorriso de batalha vencida enquanto arrastava Diego pela mão para o meu apartamento e ele murmurava que mesmo com a camisa estragada, era um prazer. Conversamos sobre a violência no bairro e eu murmurei que estava contente em ter uma companhia masculina para caminhar para casa – não era realmente mentira. Eu sempre levava algumas cantadas pesadas quando fazia aquele caminho e Bia já havia sido assaltada ao voltar do curso para casa. Com Diego ali, parecia que eu estava invisível aos caras toscos que sentavam perto do jornaleiro para soltar gracinhas para qualquer uma que passasse.
- Belo apartamento – Diego murmurou após subirmos pelo elevador e entrarmos no quarto.
Nosso apartamento era grande, sim, foi uma escolha que fizemos, pagar mais caro por um ambiente que fosse mais fácil de adaptar para Lisbela, então, além de grande, a decoração minimalista dava um ar de ainda mais espaçoso. Ainda faltavam alguns anos para quitarmos o financiamento daquele lugar, mas cada grama de dinheiro tinha valido a pena para que nossa amiga se sentisse acolhida pelo menos ali, visto que sair era sempre complicado para ela. Bia e eu até decidimos que, se algum dia fôssemos nos mudar, deixaríamos o apartamento para Lis, sem custos. Ela, claro, não sabia disso e não aceitaria com facilidade, mas aquele lugar tinha sido escolhido a dedo para ela e adaptado com todos os cuidados; a gente não abriria mão de deixá-la sem aquele conforto.
- Obrigada – agradeci, trancando a porta. – Pode ficar à vontade, eu vou pegar uma camisa pra você se trocar e já venho!
Entrei rapidamente no quarto de Lisbela e corri para a sua arara de roupas. Tentamos dar-lhe um guarda-roupa, no primeiro ano, mas era um bocado complicado porque era tudo alto e Lisbela não conseguia alcançar as roupas sozinha. Ela gostava de fazer as coisas sem ajuda e aquilo estava atrapalhando, então substituímos o armário por dois gaveteiros baixos e uma arara. Seu quarto era todo cheio de corrimões e suportes para ela se locomover para a cama e era a única suíte da casa, com o banheiro todo adaptado: a verdade era que nós ficamos com um pouco de inveja da cadeira que tinha no chuveiro de Lisbela e quase colocamos uma no nosso banheiro também.
Peguei uma camisa quadriculada que, se comparássemos os ombros musculosos de Lisbela com a estatura magra de Diego, era possível que acabasse larga nele; então caminhei de volta para a sala.
Diego estava parado na estante da TV com uma foto em suas mãos. Ah, eu tinha me esquecido daquelas fotos... Tinha cinco fotos nossas na porta de vidro do armário da TV, duas de quando erámos crianças, uma da época da faculdade e duas depois que começamos a morar juntas. A que estava em suas mãos era a minha favorita: eu estava sentada no colo de Lis na cadeira de rodas com uma garrafa de vodka na mão e Lis e eu estávamos claramente bêbadas e felizes, Bianca estava atrás, como se estivesse empurrando a cadeira e também exibia um sorriso afetado – não tinha bebido o suficiente para ficar bêbada naquela noite, mas também não era muito forte para o álcool e qualquer coisa a deixava alegrinha.
Diego me ouviu e virou-se para mim, com a foto em mãos. Eu tinha um olhar culpado no rosto e tentei não vacilar muito, o que era um pouco difícil diante dos seus olhos escuros sinceros.
- Conheço Bianca – ele disse.
Eu entendi o tom na hora: ele estava interessado nela e tinha ficado levemente interessado em mim, mas não iria fazer uma brincadeira com nós duas, se nos conhecíamos o suficiente para que todas as fotos da sala terem o rostinho dela. E, se tivesse que escolher alguém, estava claro que ele escolheria ela. O que era ótimo.
Eu já disse que ele era um cara legal?
Resolvi abandonar o plano e ser sincera.
- Eu sei – murmurei, matando a personagem que eu criara para interagir com ele. – Troca de roupa. Vamos conversar sobre isso. Fiz um ensopado de batata com linguiça que está ótimo, vou só esquentar – não dei espaço para que ele reclamasse e ele não o fez, como imaginei. Ele era muito bonzinho e ainda parecia confuso e curioso. Apontei para o corredor. – Segunda porta à esquerda. Você pode deixar a camisa suja lá, eu vou pedir para Bianca te entregar qualquer dia. Assim que tirar a mancha de café, o que imagino que não seja fácil.
Diego tinha uma expressão clara de quem queria conversar naquele minuto, mas concordou com a cabeça, um pouco perdido, e marchou em direção ao banheiro. Caminhei até a cozinha que, na verdade, era parte da sala. Demolimos a parede que dividia os dois cômodos para facilitar a locomoção de Lisbela e a única coisa que dividia os ambientes era uma mesa de quatro lugares que, às vezes, usávamos para jantar (mas a maior parte da utilização dela era para Bia corrigir as provas dos seus alunos). Reuni os papéis que estavam ali em uma pilha e coloquei em cima da geladeira. Peguei um pouco do ensopado, que estava mormo, coloquei em uma vasilha de vidro e pus no micro-ondas por um minuto. Tirei o arroz de dentro do forno e levei para a mesa de jantar. Dois pratos, alguns talheres e uma jarra de suco depois, Diego saiu do banheiro no momento em que eu acrescentava o ensopado.
- O cheiro está delicioso – ele disse, tentando conter a tensão que demonstrara ao meu olhar.
- Pode se servir – eu disse a ele, fazendo o mesmo.
Sentamos à mesa de jantar com nossos pratos e ele começou a comer em silêncio, claramente sem jeito. Encarou-me, dentre as garfadas, enquanto eu ainda em havia encostado em minha comida.
- Então... – Começou, parecendo reunir um bocado de sua vontade só para proferir aquela palavra. – Sobre a Bia...
- Bia gosta de você – eu disse, sem rodeios. Bianca talvez me matasse por causa daquilo, mas não havia mais sentido em continuar com a farsa, a verdade era a melhor das opções.
Diego parou com um garfo a meio caminho da boca e, por um segundo, pareceu perdido e confuso, mas abriu um sorriso sincero e concordou com a cabeça diante de minhas palavras nada sutis.
- Também gosto dela – disse. – Quero dizer, imagino que estamos falando do mesmo sentido e, bom... Eu estava pensando em chama-la pra sair qualquer dia desses e...
Ele era realmente fofo, tinha ficado nervoso e desatado a falar, mas eu não tinha acabado meu discurso ainda, então levantei uma mão, interrompendo-o.
- Sim, sim, Bia é adorável. – Concordei. – Mas, antes de você se atrever a se aproximar e quebrar o coração da minha irmã, eu gostaria de te contar algumas coisas. – Ele concordou com a cabeça. – Bia e eu nos conhecemos em um orfanato, bebês, ainda. Chegamos basicamente ao mesmo tempo, eu tinha dias e ela tinha um mês, mais ou menos. – Diego concordou com a cabeça, com os olhos arregalados, claramente nunca tinha escutado nada parecido com aquilo. – Quando saímos para fazer faculdade, Bia achou que tinha problemas hormonais e fez uma série de exames, onde acabou descobrindo que é soropositiva. Apesar do que seus ex-namorados apontaram algumas vezes, ela nunca tivera relações sexuais antes de descobrir aquilo, o que nos levou a concluir que ela adquiriu isso na gestação ou no mês de amamentação que passou com sua mãe. E é por isso que nós estamos aqui: Bia realmente gosta de você. Ela está com medo de você maltratar ela como todos os outros caras de quem ela gostou e contou sobre isso. Ela, na verdade, me pediu para que eu provocasse seu interesse e contasse que eu era soropositiva, mas resolvi que você é um cara legal e que merecia ouvir a verdade. A partir de agora, espero que você realmente seja legal como eu acho que é. Existem maneiras seguras de se ter um relacionamento e relações sexuais com uma pessoa soropositiva. Bia toma todas as precauções que ela pode tomar e você pode pesquisar na internet se for se sentir mais seguro. Pode me perguntar o que quiser, também e eu também posso te passar o contato da médica dela, que pode tirar qualquer dúvida que você possa sobre isso. É claro, é sua escolha se quiser seguir com isso: Bia está acostumada com caras fugindo dela quando ela conta. O que eu peço pra você é o seguinte: se você estiver com medo disso ou qualquer outra coisa, não lhe diga nada duro, não a magoe mais do que ela já foi magoada. Isso é tudo o que eu te peço.
Diego me encarava com uma expressão abobalhada e, ao perceber que eu havia terminado, levou o garfo a boca e mastigou demoradamente a comida, provavelmente pensando no que diria a seguir. Por mim, estava tudo bem e também voltei-me para a minha comida. O momento passou e acabamos por terminar nossos almoços em silêncio, enquanto estávamos claramente perdidos em pensamentos.
Ele olhou o relógio quando acabou de comer e se levantou.
- Eu preciso ir – disse. – Obrigado pelo... Hm... Pela comida e a camisa. E os conselhos.
- Disponha – eu disse, me levantando também para acompanha-lo até a porta, porém, ele permaneceu parado, indeciso. – Sim?
- Hm... Você pode... Ahn... Me passar o telefone? Da médica, quero dizer.
Eu quase prendi a respiração. Arrisquei um sorriso e concordei com a cabeça levemente, encantada que estivesse, pelo menos, disposto a pesquisar sobre o assunto. Como eu tinha entendido no primeiro momento, ele realmente era um cara legal e eu estava empolgada com a possibilidade de Bia conseguir um pouco de felicidade por aqueles dias que não viessem das crianças que ela ensinava e cuidava, que eu sabia que era um bocado melancólico porque ela queria ser mãe, mas isso envolvia tantas complicações que era quase totalmente inviável nos métodos tradicionais.
- Claro – eu disse. – Fui até a geladeira e peguei o telefone da médica de Bia. Ao lado do telefone, na sala, anotei o número da médica e o meu próprio, entregando para Diego. – Qualquer coisa, é só ligar.
Diego concordou com a cabeça e sorriu docemente para mim.
- Obrigado... Pela sinceridade e por me explicar – ele disse. – Eu... Hm... Não mudei meus pensamentos sobre Bia. Vou chamá-la pra sair qualquer dia, mas... Gostaria de... Hm... Pesquisar um pouco. Pra saber como... Sabe?
Concordei. Tínhamos chegado à porta e eu sorri para ele, confortando-o. Por Deus, que ele fosse o cara legal que Bia estivera procurando aquele tempo todo. Ela só tivera um namorado sério até então, que não terminara por conta da condição dela – porque ele tinha a mesma condição e eles se conheceram por grupos de apoio na internet. Os outros, todos, tinham fugido apavorados. Covardes.
- Você nunca deve chamá-la de aidética – eu instruí e ele concordou com a cabeça. – Ela gosta de margaridas e violetas, chocolate amargo, filmes antigos e sabonetes do Boticário. Você pode levá-la ao cinema, ao boliche, pra um jantar simples ou numa biblioteca ou livraria. Ela vai adorar qualquer uma dessas opções.
Ele sorriu, parecendo aliviado, como se eu tivesse acabado de tirar um peso de seus ombros, facilitando para ele com uma lista de coisas que eu aprendera sobre Bia durante a vida toda dela.
- Obrigado – ele murmurou mais uma vez. E realmente quis dizer isso. – Eu vou... Entrar em contato com minhas dúvidas.
Concordei com a cabeça, enquanto ele se virava para ir embora.
- Diego – chamei-o mais uma vez. Ele virou-se para mim, ainda estava com um sorriso no rosto, o que indicava um bom sinal, apesar da expressão de confusão pelo excesso de informação – Se você quebrar o coração dela, eu quebro a sua cara – ameacei.
Ele riu.
- Parece justo – concordou. – Até mais, . Foi... Realmente... Um prazer.

Lisbela estava me atentando para contá-la o que havia acontecido com Diego desde o momento em que eu fora buscá-la na delegacia, às 18h. Isso se a gente não fosse contar as exaustivas mensagens que ela havia me enviado durante o dia e eu, prontamente, ignorei a todas.
- Lis, espera a Bia chegar – eu implorei, pela milésima vez.
Seria mais fácil se eu tivesse cedido e deixado a história escapar de meus lábios, mas eram assuntos pessoais de Bia e minha integridade moral dizia que era injusto que outra pessoa, mesmo Lis, soubesse do que havia acontecido antes dela.
Comprei comida japonesa com os poucos reais que sobraram no meu falecido ticket refeição para que Lisbela me deixasse em paz por algum momento. Após isso, fui tomar um banho e me demorei o suficiente para evitar Lisbela e suas constantes perguntas sagazes que tiravam o que havia acontecido pouco a pouco de mim.
Bia só chegou em casa por volta das 22h30, com as bochechas vermelhas e o cabelo um pouco desgrenhado. Eu estava parada, encostada na quina da parede entre a sala e o corredor que levava aos quartos, torcendo para conseguir ver um pouco de TV sem que Lisbela percebesse minha presença (o que realmente havia acontecido, visto que ela estivera distraída com seu celular) e tive que conter uma risada quando Bia levantou o olhar da chave e encarou a nós duas com a maior expressão de culpa no rosto. Estivera tentando esgueirar-se em silêncio, provavelmente esperando que já estivéssemos na cama – Lisbela normalmente já estaria, pelo menos.
- O que aconteceu? – Eu perguntei a ela, enquanto Lisbela soltava uma gargalhada alta pela minha pergunta estúpida.
Bia, claro, tentou desconversar e jogou a bola de volta para mim, enquanto se sentava na poltrona, claramente cansada. Ou de pernas bambas. Vai saber.
- O que você fez? – Perguntou.
Respirei fundo e dei a volta na sala, sentando-me ao lado de Lisbela no sofá. Ela estava um pouco deitada, na verdade, e eu aproveitei para ajeitar suas pernas de maneira que ela ficasse mais confortável, ao que ela agradeceu com um olhar.
- Eu disse a verdade pra ele – murmurei. – Comecei como a gente combinou – corrigi, rapidamente, vendo o olhar de Bia. – Mas eu enganei ele e trouxe ele aqui pra casa, então ele viu nossas fotos e eu fui sincera com ele. Ele parece um cara legal, Bia, dá pra ver só de olhar pra ele. Disse que iria te chamar pra sair depois que... Ele estudasse um pouco sobre o assunto, eu acho.
Diego tinha me mandado duas perguntas por mensagem durante a tarde, o que eu tinha respondido prontamente e com facilidade, demonstrando que estivera pesquisando, provavelmente, durante seus intervalos entre as aulas.
- Você disse a ele sobre mim? – Ela pareceu embasbacada. – Ele disse que almoçou com uma amiga minha e eu imaginei que você podia ter contado que éramos amigas, mas... Você contou sobre mim e ele disse...
- Ele disse, Bia, que gosta de você e que isso não mudou – não tinha sido exatamente daquela forma, mas ver o sorriso de Bia foi impagável. – Só disse que ia estudar um pouco sobre o assunto, o que é compreensível, na verdade, e muito bom... Pra segurança de vocês dois, né? Ele é legal, de verdade, faço muito gosto.
- A Bia tá apaixonadinha! – Lis levantou as mãos no ar, soltando uma gargalhada. Bia jogou uma almofada em sua barriga enquanto nós duas ríamos e ela corava ainda mais.
- O que aconteceu? – Perguntei, vendo a expressão sonhadora em seu rosto.
Era bem claro o que havia acontecido, na verdade. Estava em cada partícula e luz refletida na pele de Bia, mas eu queria saber como. Queria detalhes. Ao contrário de Bia e Lis, eu nunca tivera um romance de verdade, só alguns sexos casuais que duravam um pouco mais tempo. As poucas vezes que havia me apaixonado, ainda no orfanato, não tinha sido correspondida. Minha vida romântica era em um total de zero conquistas. Nunca tivera tempo para criar um relacionamento com muitos laços e, bom, me casar e morar junto com outra pessoa era algo que sempre achei que traria muitos problemas... Principalmente para Lis. E eu gostava da minha vida como ela era.
- Ele me chamou pra tomar um café depois das aulas – ela murmurou com um sorriso sonhador e vi a expressão dela ser espelhada por Lisbela e senti que eu estava fazendo a mesma coisa. Nossos laços eram fortes daquele jeito: se uma estivesse feliz, as outras também estariam. – Nós conversamos sobre muitas coisas, ele mencionou ter conhecido uma amiga minha hoje, mas só falou isso e eu fiquei com medo de perguntar. Achei que, talvez, ele estivesse me sondando pra saber mais de você. Então ele me perguntou se eu queria que ele me acompanhasse até em casa e eu disse que tudo bem e ele veio pra cá sem me perguntar o caminho e, então, quando a gente chegou aqui no prédio...
- Quanto tempo durou o amasso de vocês? – Lisbela perguntou, sem papas na língua. – Foi na rua mesmo? Vocês não transaram, transaram?
- Bela! – Ralhei com ela. Porém, estava rindo.
- Não! – Bia respondeu, rapidamente. Então, corou. – Mas foi quase. A gente se beijou na porta do prédio e eu perguntei se ele queria entrar, mas achei que vocês iam estar aqui, então a gente foi pro play e quase rolou... Atrás da casinha de brinquedos.
- Sua depravada! – Dessa vez, fui eu que brinquei com ela e Bia estava da cor de uma maçã de tão vermelha.
- Eu nunca tinha feito nada assim – sua voz era só um pouco acima de um sussurro de vergonha. – Só foi acontecendo e... Eu pedi pra ele parar porque eu não sabia que ele sabia e eu não ia conseguir dizer ali, então... Ele me pediu um monte de desculpas, que aquele não era um comportamento adequado, mas disse que eu era linda e ele não conseguiu se segurar. – Seu sorriso era tão grande que eu suspirei, tão encantada quanto ela. – Me chamou pra sair no fim de semana. Parece que vai ter um festival de filmes antigos em São Paulo e ele perguntou se eu me importaria de irmos até lá. Como ele adivinhou, ein?
Seu olhar esperto me dizia que ela sabia que eu havia lhe dado umas dicas, mas eu não iria entregar esse pequeno segredo porque Diego ainda poderia utilizar algumas das cartas na manga que eu lhe oferecera.
Abri meus braços para ela e chamei-a.
- Ai, Bia, tô tão feliz por você – murmurei, enquanto ela se encaixava no meu abraço.
Lisbela se remexeu aonde estava, choramingando.
- Também quero!
- Vem – chamei-a, rindo.
Lis se empurrou e Bia a puxou com cuidado, abrindo espaço para ela em nosso abraço desajeitado. Quando nos afastamos, ajudei Lisbela a se sentar de volta no sofá enquanto Bia se sentava sobre a mesinha de centro.
- Eu tava falando sério – Lis disse. – Também quero.
- Deixa de ser carente, Lis, a gente já te abraçou – Bia riu.
Ela moveu as mãos de forma teatral, jogando-se no sofá. Mordi o lábio, entendendo o que ela queria antes que ela dissesse as palavras:
- Quero que você veja um cara pra mim também, – ela pediu, os olhos escuros demonstrando mais sentimento do que ela realmente queria.
Ah, bom, também era difícil para Lis. Se os caras que se aproximavam de Bia fugiam quando ela lhe contava da doença... Bom, Lis não tinha muitos pretendentes, na verdade. Parte por ela ser cadeirante, parte por ela ter uma postura fechada e, às vezes, um pouco bruta e masculina, mas eu achava que aquilo era uma fachada para se proteger de não se machucar, na verdade. Seu último namorado, ainda antes do acidente, continuava preso. E, bom, ele fora quem insistira para que ela fraudasse os documentos que acabara fazendo-a ser presa. Não era como se ela estivesse totalmente confortável para seguir um novo relacionamento, na verdade. No início da sua adaptação, logo depois que nos mudamos para o apartamento, Lis chorava bastante e sofria muito mais com sua realidade. Bia e eu contamos moedas, complicadas com o financiamento da casa e dos planos para comprar o carro, e presenteamos Lis com um gigôlo. Conversamos (na verdade, eu conversei) com vários deles até encontrar um que parecia mais doce e cuidadoso. Lis ainda o contratava umas duas vezes por ano. E eu achava que se ela tivera três casos depois do acidente... Bom, tinha sido muito.
- Achei que você fosse lésbica agora – Bia pontuou.
Lisbela revirou os olhos e eu ri. Ela se envolvera com uma garota uns meses atrás – tinha sido mais fácil que um cara, ela dissera, mas acabou que não deu certo por causa de ciúmes.
- Bissexual, Bia – Lis explicou pela milésima vez. – Gosto das duas coisas.
- Igual a , então – ela riu.
- A , não – Lis disse. – Ela é só bi de festa – brincou. O que era verdade. Normalmente, preferia homens, mas era só tomar alguns drinques que qualquer boca que aparecia era uma boca a se beijar. – Mas, ei? Você vai ver esse cara pra mim, vai? Você viu pra Bia.
Revirei os olhos.
- O que eu fiz pra merecer vocês? – Perguntei.

Lis queria uma coisa diferente que Bia e eu não estava nem um pouco empolgada com aquilo. Ela, na verdade, não sabia muita coisa sobre o cara, só que ele era bonito e musculoso e era policial. Não trabalhava na DCI, com ela, mas tinha uma amizade com um detetive de lá e passava por lá algumas vezes na semana para conversar. Ele sempre a cumprimentava e ela o achava muito bonito. Estava pensando em chamá-lo para sair e ela achava que havia uma possibilidade dele aceitar, mas ela queria saber se valia a pena – dissera que eu identifiquei que Diego era legal com facilidade, então poderia responder aquela pergunta simples para ela também.
Bom, eu não estava nem um pouco animada em investigar um policial. Quero dizer, ele deveria saber algumas técnicas de investigação, enquanto tudo o que eu tinha era uma sagacidade e um pouco de conhecimento sobre homens em geral. Havia uma possibilidade de eu conseguir uma encrenca por conta daquilo, não podia?
Demorou um pouco mais para organizar a situação do que a história com Diego. Como Lis não trabalhava diretamente com Vitor, que eu descobri vir a ser o nome do policial, ela não tinha muitas informações sobre como encontrá-lo e quais lugares ele costumava frequentar. Na verdade, ela nem sabia se ele era comprometido ou não e eu lhe perguntei algumas vezes porque ela não fazia como uma pessoa normal e ia fuçar o facebook dele. Ela me mandou calar a boca e, além de me perguntar se eu preferia Bianca a ela, me informou que já havia procurado e que não havia muita coisa sobre ele nas redes sociais e se ela quisesse saber mais, ou eu calava a boca e fazia o que ela estava pedindo ou ela teria que usar de meios extra-oficiais. Ela usava aquele termo para falar que poderia hackear alguém, embora eu soubesse que ela não fazia mais isso desde que fora presa e começara a trabalhar para a polícia. Quero dizer; não fazia isso com estranhos. Tinha certeza que ela lia meus e-mails de tempos em tempos.
E eu? Calei a boca e esperei para tentar arquitetar um plano. Conforme o final de semana se aproximava e Bia demonstrava sua animação adorável sobre o festival de filmes antigos (e acabou por se revelar em um final de semana romântico com direito a uma noite de hospedagem que rendeu piadinhas de mim e Lis e também acabamos comprando um conjunto de lingeries para ela só para vê-la corar ao abrir o pacote), Lis acabou descobrindo que Vitor e o delegado estavam marcando um happy hour com os amigos em uma casa noturna para sábado à noite. Então, após dar uma carona para Bia e Diego até a rodoviária e deixar uma Lis nervosa em casa, eu estava com a minha melhor roupa matadora a caminho da boate.
Lis, ao contrário de Bia, não se usou de poucas palavras.
- Se você tiver que transar com ele para conseguir informações, transe. Se quiser transar com ele, por mim tudo bem também. Não vai significar nada pra você, mesmo.
Apesar de serem verdade, suas palavras me magoaram um pouco. Eu me fazia de durona sedutora a maior parte do tempo, mas era um bocado chato não sentir nada por ninguém. Não ter aquela pessoa especial para fazer alguns programas diferentes e bregas tipo o que Bia e Diego estavam fazendo... Bom, era bem chato.
Ela tinha me mostrado uma foto de Vitor que pegara do facebook e eu pude reconhecê-lo no momento em que entrei no clube. Apesar de ser lotado, ele era alto e tinha uma estatura grande e forte, que demonstrava imponência. Tinha certeza que deveria ser um bom policial só por aquele porte e, pela maneira com que ele estava parado perto do bar, mesmo relaxado e com uma lata de cerveja na mão, soube que ele estava acostumado a ficar muito tempo em pé e alerta – e pude apostar que tinha um passado como segurança antes de acabar como policial. Enquanto o analisava, acabei balançando a cabeça e sorrindo: Lis tinha razão. Eu julgava bem as pessoas e tinha um bom sexto sentido. Talvez fossem os anos com atendimento ao público no banco e lidando com todo o tipo de gente, talvez fosse apenas facilidade em ler as pessoas, mesmo. De qualquer forma, ela tinha razão.
Porém, eu precisaria trocar algumas palavras com Vitor antes de saber se ele era um cara legal e teria que insistir em uma conversa para saber sobre relacionamentos, gostos e hobbies, tópicos que Lisbela me pedira para checar, além do meu próprio tópico: quão disposto ele estaria para lidar com uma pessoa com necessidades especiais, como Lisbela.
Eu não precisava de um plano para conseguir a atenção de um homem. Normalmente, quando eu queria, eu conseguia. A natureza tinha sido bem generosa comigo, na verdade, apesar de todos os percalços que a vida me enfiou. Não sabia muito de minha família, mas meu biótipo era óbvio o suficiente para que eu não tivesse muitas dúvidas: era descendente indígena, se não fosse minha mãe ou pai, era de meus avós. Minha pele era um pouco mais clara que o comum dos indígenas, mas ainda tinha o tom avermelhado e o formato e a cor de meus olhos não tinha como enganar ninguém. O cabelo, porém, embora que ainda mantivesse o liso escorrido, o preto natural dele me irritava profundamente; eu não gostava do tom, acho que era porque me lembrava da criança assustada que eu fui no orfanato (e algumas piadas sobre o filme da minha xará que havia sido lançado durante aquele período), então eu pintava minhas madeixas periodicamente de vermelho. Às vezes, mudava o tom, no momento, eu os tinha de um tom de vermelho escuro, um vinho, na verdade, que ali, naquele lugar escuro, deveria estar parecendo preto, o que, no todo, não fazia muita diferença, exceto para mim.
Aproximei-me do bar com uma confiança inabalável em meus saltos agulha, acostumava a andar com aquele tipo de sapato todos os dias, no trabalho, porque era o que estava pedindo de meu cargo, no código de vestimenta da empresa. Havia demorado algum tempo para sair dos confortáveis tênis e sapatilhas da faculdade para os sapatos altos e sociais, mas tinha sido bom para mim. Àquela altura da vida, era só calçar um daqueles e eu me sentia poderosa. E não foi nenhuma surpresa ao perceber olhares enquanto eu passava. Uns dois caras mais corajosos tentaram me abordar e eles eram até bonitinhos. Se eu não tivesse uma missão, provavelmente teria dado bola para qualquer um deles (ou para os dois), mas só tinha olhos para uma pessoa naquela noite e ele já havia me notado. Arrisquei-lhe uma piscadela antes de me debruçar no balcão do bar. Pedi uma caipirinha de maracujá e contei até dez. Vitor estava ao meu lado no oito.
- Eu te perguntaria se te conheço, mas tenho certeza que me lembraria se já tivesse visto você em algum lugar – ele falou, próximo da minha orelha, aproveitando-se da música alta para já começar a brincar de seduzir.
E ele tinha uma voz gostosa, rouca, que não me surpreendeu em amolecer minhas pernas. Minha bebida chegou e eu tomei um gole, antes de me virar para ele.
- E eu te perguntaria se você vem sempre aqui, mas essa é minha primeira vez, então não faria diferença.
Aquela troca de palavras era o necessário para que ele se curvasse sobre mim e grudasse nossos lábios. Suspirei e, droga, meu corpo reagiu estranhamente, apesar de ter um tempo que eu não ficava com ninguém. Acho que, apesar do aval de Lis, estaca incomodada com o interesse dela e o envolvimento que havia acabado de ter. O beijo logo encerrou e eu sorri para ele para disfarçar meu desconforto.
- Também não venho aqui sempre... – Ele murmurou.
Ele me convidou para ir para um outro canto da boate. Haviam uns sofás em uma área atrás da pista de dança e nos sentamos ali. Vitor tinha uma mão boba um pouco nervosa e demorou um total de trinta segundos para apertar meus seios. Tentei iniciar uma conversa, perguntei com o que ele trabalhava e elogiei seus músculos. Ele me disse que eu mal podia esperar para ver a rigidez de outros lugares e, bom, eu não estava envolvida o suficiente para aquele tipo de conversa começar. Tentei alguns tópicos que Lisbela tinha me pedido, ele me disse que era solteiro (não que fosse me contar, caso não fosse), que gostava de assistir futebol, malhar e praticar lutas. Foram as únicas coisas que consegui arrancar dele antes dele voltar a me atacar enfiar suas mãos por dentro da minha blusa. Ele já tinha posse dos bicos de meus seios e os apertava sem muito cuidado quando eu achei que por mim, já tinha dado o que tinha para dar. Estava com zero tesão nele e, bom... Ele parecia um pouco bruto, não que eu não gostasse de um pouco de brutalidade, com intimidade e tudo mais, mas ele parecia... Bom, ele parecia bruto do jeito errado.
- Eu... – Tentei empurrá-lo e foi uma novela a parte fazê-lo desgrudar do meu pescoço. – Preciso ir ao banheiro.
Ele sorriu maliciosamente.
- Quer companhia?
Neguei com a cabeça com vontade e procurei pela minha bolsa no sofá e acabei acendendo uma luz. Demorei um pouco para notar que havia acendido a tela e desbloqueado o celular de Vitor sem querer. Era uma conversa e tinha uma foto de uma garota pelada nas mensagens mais recentes. Não consegui ler o conteúdo, mas... A aparência da garota era de... Uns quinze anos.
Engoli a seco e fingi não perceber. Achei a bolsa no chão, aos meus pés. Como eu tinha deixado aquilo acontecer?
- Tira o sutiã antes de voltar – ele pediu. – Que aí eu posso mamar nos teus peitos deliciosos aqui mesmo... – Ele pegou minha mão e, antes que eu percebesse o que estava fazendo, colocou-a sobre sua calça, me mostrando sua ereção. – E você pode mamar no meu caralho que já está duro só de pensar nesses teus peitões.
Murmurei qualquer coisa e me levantei dali o mais rápido possível. A caipirinha tinha pego um pouco demais em mim, logo eu que tinha uma resistência alta para bebidas, derrotada por um copo. Meus pés não estavam firmes, mas, decidida, ao invés de marchar para o banheiro, parei no caixa da boate, paguei meu consumo e cruzei para a saída.
Para garantir minha saída em segurança, olhei para o canto em que Vitor estava, checando se continuava lá. Foi meu erro. Nossos olhos se cruzaram e ele se levantou, enquanto eu me apressava a sair da boate, com uma péssima sensação no estômago e a mente embaralhada.
E, merda, não havia nenhum táxi na porta.
Olhei para os lados, calculando para qual lado seria a menor distância para um ponto de ônibus que passasse algum para minha casa e, aleatoriamente, escolhi o da direita. Tentei dar uma corrida, mas meus pés moles e os saltos altos dificultaram a minha caminhada, o suficiente para que ouvisse as passadas brutas e rápidas de Vitor. Eu estava quase chegando ao ponto de ônibus, já conseguia visualizá-lo. Deveria ter alguém lá, deveria ter algum ônibus vindo...
Meu coração estava disparado na boca e eu percebi que não conseguiria chegar a lugar algum um momento antes de sentir a mão de Vitor em meu braço. Percebi que meu corpo não estava respondendo como deveria e notei que... Eu deveria ter sido drogada. Um copo de caipirinha jamais faria aquela moleira em meu corpo.
- Ei, aonde você pensa que vai, gata? – Ele me perguntou, debochado.
- Me solta – choraminguei. O pouco de força que eu tinha estava sendo usado para tentar me soltar. – Me solta – gritei, o mais alto que pude, na esperança que alguém me escutasse. Não estava tão longe da boate e, embora a música alta do lugar devesse me atrapalhar, eu tinha alguma esperança.
Vitor nem se abalou com minhas tentativas fracas de me afastar dele. Olhou para os lados da rua e me puxou para uma rua transversal, deserta e escura. Sentia meu corpo querendo desfalecer, drogado e em pânico, mas reuni minha força e repeti o mantra: eu não iria dormir, não iria desmaiar. Ia ser pior se eu o fizesse.
- Não – choraminguei. – Não, não...
Minha blusa já estava levantada e sua mão estava dentro da minha calça, tateando por dentro da minha calcinha. Meus olhos estavam começando a marejar. Espalmei minhas mãos em seu peito, tentando empurrá-lo, mas nem lhe fez cócegas.
- Para com isso, gata, você quer também... – Ele murmurou.
Sua boca estava em meu pescoço quando eu comecei a chorar, entendendo que não tinha nada que eu pudesse fazer. Eu queria ele longe de mim. Queria ele machucado. Queria...
Estava prestes a começar a gritar por socorro quando uma queimação começou em meu peito e senti meu corpo ficando um pouco mais firme, o peso em meus olhos pareceu diminuir. Um grito gutural ecoou na rua e eu demorei alguns segundos para perceber que não vinha de mim.
Vinha de Vitor.
Ele se afastou de mim, ainda gritando e eu só tive concentração o suficiente para mirar o meu salto no meio de suas pernas e ele caiu desmaiado no chão. Havia sangue onde o sapato havia encostado, mas essa não era a parte mais tenebrosa.
Sua camisa estava chamuscada em seu peito, e a pele que ficara descoberta ali... estava rosa e levemente deformada, parecia começar a inchar, também. Era claramente uma queimadura, um tipo bem ruim de queimadura.
Minha mente ainda estava um pouco devagar e a adrenalina começava a baixar, dificultando ainda mais meus pensamentos. Fechei minhas mãos em punhos, pronta para reagir caso ele se levantasse e, só então, percebi um brilho estranho vindo delas. Elas estavam em um vermelho vivo, iluminado, que me fez andar para trás em longas passadas tontas. Com um assombro de entendimento, encostei uma de minhas mãos em um cartaz colado na parede ao meu lado. O papel chamuscou ao menor dos toques e virou cinzas aos meus pés.
Minha respiração estava entrecortada quando eu voltei a encarar minhas mãos, vendo o brilho bruxuleante diminuir pouco a pouco enquanto meu corpo percebia que a ameaça havia sido exterminada por hora. Naquele momento, iluminada pelo pouco brilho que vinha de minhas mãos e diminuía pouco a pouco, me dei conta que as queimaduras causadas em Vitor tinham sido causadas, de alguma forma que eu não compreendia, pelas minhas mãos.
Três segundos depois, eu estava correndo para longe dali como se minha vida dependesse daquela fuga. E a única coisa que eu não sabia era se estava fugindo de Vitor e do que quase acontecera ou se eu estava fugindo de mim mesma.



Continua...



Nota da autora: Sem nota,




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