Última atualização: 03/04/2019

Capítulo 1 - Baby, we built this house on memories

“Ever since we met
I only shoot up with your perfume
It's the only thing
That makes me feel as good as you do
Ever since we met
I've got just one regret to live through
And that one regret is you”

Nearly Witches - Panic! At The Disco




Back to the place
Where we used to say
“Man it feels good to feel this way”
Now I know what I mean.

— Amor? – Fui despertada pelo som suave de sua voz.
Permaneci de olhos fechados na esperança de ouvir um suspiro confessando a desistência de alguém que me permitiria dormir por mais alguns minutos, com sorte, por mais alguns dias. Quem sabe anos? Seria isso pedir demais? Afinal, nada melhor do que aproveitar um belo e ensolarado Sábado do que em uma confortável e aconchegante cama: dormindo. Porém, o único som que ouvi foram de motores e buzinas de carros. Ah, a definição de tranquilidade. Tem momentos que sinto falta de morar no interior e acordar ao som de cantos suaves de belos pássaros.
— Amor, nós vamos nos atrasar. – Agora, além de ouvir sua voz, podia sentir seus dedos mornos tirando alguns fios de cabelo selvagens que se encontravam em meu rosto. Aliás, uma bela visão de fato deveria ser.
Nada de suspiros e nada de dormir por mais alguns anos. A vida não está sendo fácil para você, .
— Cinco minutos? – Implorei.
, levanta de uma vez! – Esbravejou.
Paciência nunca foi uma de suas virtudes, e eu admito que não podia resistir as oportunidades de vê-lo se exaltar, na brincadeira claro, para então ver seu sorriso aberto me chamando de chata, pra não dizer coisa pior, seguido de um beijo que eu tanto amava.
— Tão querido quanto um coice de cavalo. – Falei sorrindo sem abrir meus olhos.
— Você sabe há quanto tempo estou tentando te acordar? – Dizia em tom de revolta, mas eu sabia que ele não era um bom ator.
— Mas dormir é tão bom! — Gemi. — Você deveria experimentar algum dia. – Disse enquanto abria meus olhos e o via revirando os seus.
Ele permaneceu deitado na cama ao meu lado apoiando seu rosto em uma de suas mãos e o cotovelo no travesseiro. Olhava fixamente pra mim de forma séria, apesar de não conseguir disfarçar a doçura em seus olhos. E que olhos! Eram tão grandes e delicadamente redondos, eu os achava o par de “coisas” mais lindas que o universo já havia criado. Universo que eu também podia ver refletido em seu olhar, principalmente quando eu sabia que eu era a única que seus olhos podiam enxergar.
Eca, as vezes me surpreendo com o quão bregas meus pensamentos podem ser quando o assunto é aquele homem. Tudo bem, , acabou sua cota mensal de romantismo.
Cota anual talvez?
— Já é meio-dia, precisamos nos arrumar logo se ainda temos alguma esperança de almoçar. – Seu rosto se contorceu em uma careta em sua tentativa de fingir uma seriedade. Obviamente falha. Ao menos alguém deveria manter o controle para que a Bela Adormecida não atacasse novamente com seu sono pesado.
— Bom dia pra você também, . – Abri um sorriso preguiçoso e estiquei meus braços como uma criança que aguarda a mãe lhe entregar seu brinquedo favorito, isso misturado a um espreguiçamento involuntário. Logo ele se aproximou com um sorriso bobo e eu envolvi sua nuca com meus braços, indo de encontro a seus lábios.
Senti suas mãos envolverem a minha cintura enquanto ele se posicionava sobre mim, me dando seu bom dia padrão em forma de um amoroso beijo. Logo, o beijo foi se tornando mais quente e sua mão foi descendo e se posicionando em meu quadril.
, nós vamos nos atrasar. – Disse calma, acariciando seu cabelo enquanto aproveitava sorridente os breves beijos que dava em meu pescoço.
— Cinco minutos? – Implorou.
, você sabe que vai demorar mais que isso. – Eu dizia em meio a uma risada.
— Nós ainda tempos tempo, não temos? – Desistiu do meu pescoço e choramingou enquanto se afastava e me lançava um olhar de cachorro pidão.
— Você ainda quer almoçar? – Coloquei meus dedos no queixo e o olhei como se essa fosse uma pergunta que a resposta seria muito difícil de ser encontrada.
Comida. Comida sempre foi nosso ponto fraco.
— Eu sei que você quer. – Fez bico antes de rolar para o meu lado. Talvez apenas o meu ponto fraco.
Soltei uma risada e me apoiei em seu peito, lançando vários beijos em sua bochecha e lábios.
— Eu te compenso quando voltarmos, o que acha? – Fiz a proposta.
— Okay, okay! Apenas vá se arrumar logo. – Disse emburrado.
— Te amo! – Lancei mais um beijo em sua bochecha.
Levantei rapidamente antes que ele pudesse mudar de idéia e acabássemos passando a tarde toda ali mesmo. Não que fosse uma má idéia, era de minha preferência também.
Caminhando em direção ao banheiro, me perdi em pensamentos das várias possibilidades em que poderíamos aproveitar a nossa tarde ali mesmo, soltando um longo suspiro logo em seguida ao concluir que tomaríamos o rumo em que nenhuma delas ocorreria, pois todo sábado eu tinha um compromisso com algumas amigas, um compromisso chamado: Moonlit Waltz.
Esse era o nome do segundo amor da minha vida, digo segundo porque resmungaria se me ouvisse dizer que era o primeiro, apesar de ele saber muito bem que não existe nada, nem ninguém, com quem ele precisasse se preocupar. Não por ele ser convencido, bom, talvez um pouco. Ok, talvez muito. Mas por eu ser apaixonada demais, pra não dizer obcecada, por ele pra conseguir enxergar qualquer outra pessoa de outro modo.
Bom, isso tudo não vem ao caso, apenas não consigo me conter quando o assunto é o . Nada demais em se perder em devaneios por ter alguém em seu coração, não é mesmo? Isso que minha grande surpresa foi a descoberta de que eu tinha um pra início de conversa, portanto, devo aproveitar esse fato ao máximo.
Mas Moonlit Waltz, certo? Esse era o nome da banda que eu havia formado com algumas amigas meses atrás após ter me mudado pra Nova York.
— Amor, você consegue algo melhor que isso. – Disse enquanto reparava, no espelho do banheiro, em como estava o estado do meu ser após essa bela noite de sono. Tão bela que eu me encontrava no total oposto.
Mas eu ainda parecia melhor do que o caos implantado na pia. O mármore branco mal era visível com o tanto de utensílios espalhados e coisas que sequer pertenciam ao recinto. Quem deu mesmo a ideia de homens viverem sozinhos sem a devida supervisão dos pais? Uma noite, realizei uma fuga silenciosa do quarto para fazer um breve assalto à geladeira e me deparei com o controle da TV a cabo repousando no porta ovos da mesma. Controle, aliás, que havíamos passado o dia todo a procura, sem sucesso. É claro que minha fuga silenciosa resultou no condomínio inteiro acordado com a gargalhada de gralha que soltei ao encontrá-lo naquele local.
— Cala a boca! – Ouvia o grito fraco vindo do quarto.
Aposto que no tempo em que me desloquei do quarto ao banheiro ele já estava pronto e faria questão de expor o quanto eu demorava ao me arrumar, mas era ele que era rápido demais pra efetuar tal manobras. Pra variar, mais uma pessoa que era mais rápida que Barry Allen, the fastest man alive.
Ao avaliar meus cabelos, percebi como encontravam-se quebradiços. É triste ter as pontas do cabelo com um platinado maravilhoso, mas destruídos por conta de uma noite de sono em que eu não conseguia me manter parada, assim como todas as outras noites. Nunca entendi essa minha hiperatividade noturna. Muitas vezes derrubei da cama por conta da necessidade de controle de toda a área que meu subconsciente decidiu ter.
Ainda estou aguardando minha coroação como Rainha dos Lençóis.
Puxei todo meu cabelo para um lado e permaneci cinco minutos com um olhar de luto para aquele estado revoltoso em que o mesmo se encontrava. Namoro com há tanto tempo e mesmo assim sempre me esqueço de trazer produtos de importância diária, para o cabelo, claro, para sua casa. Trago somente o básico para maquiagem, isso que ele já reclama que há mais coisas minhas do que dele aqui.
Não que qualquer produto que eu trouxesse fosse caber nesse pandemônio instaurado, que no caso era a pia dele.
— Descobri o motivo de você demorar tanto pra se arrumar, , passa uma eternidade olhando para o cabelo! – Disse encostado na porta, olhando pra mim com reprovação pelo reflexo do espelho que se encontrava paralelo com a porta.
— Mas olha pra ele, amor! Eu cuido dele com tanto amor e carinho pra ele já amanhecer dessa forma? – Fiz drama ao me virar drasticamente, ficando de frente a ele.
Após passar os dedos pela extensão de meus fios, os peguei pelas pontas e comecei a balançá-los pelo seu rosto.
— Fica lindo de qualquer jeito, assim como você. – Disse rindo enquanto tentava se defender dos ataques capilares.
— Mesmo? – Perguntei ao cessar os movimentos e iniciando o pior de meus ataques: o olhar pidão.
— Mesmo, mesmo. – Sorriu com ternura.
Ele se aproximou pra me dar um beijo, mas fomos interrompidos.
— Vocês são tão melosos. – Disse Gabs soltando um suspiro de revolta enquanto nos separava e passava entre nós banheiro adentro.
— Também te amo. – Disse sorrindo para Gabriel enquanto me encostava em .
— Eu sei. – Me mandou um beijo antes de ligar a água da torneira e mergulhar seu rosto.
Gabriel era meu melhor amigo e, é irônico dizer, mas sua acidez e sarcasmo são dois pontos que tornam sua personalidade extremamente cômica, ele sabe muito bem dosá-los e usá-los da melhor forma. Mas isso é apenas uma fachada para a doçura pisciana que se encontra em seu coração, mesmo que encontrada bem lá no fundo. O considero como 1/3 de minha alma gêmea, 1/3 porque apesar do termo ser “alma gêmea”, nós sempre dissemos que a alma foi separada em três: Eu, Gabs e Nicky, a guitarrista do Moonlit Waltz. Somos inseparáveis, sempre fomos, e se tornou nosso agregado após o início do nosso namoro dois anos atrás. Quando Nicky se mudou pra Nova York, era óbvio que eu e Gabs a seguiríamos pra cá, com motivos muito concretos admito. Nicolle sempre foi extremamente talentosa em tudo que decidiu fazer, eu a admirava tanto, principalmente porque nos conhecemos com poucos anos de vida e eu a via como uma irmã mais velha por conta dos três anos de diferença que existiam entre nós. Quando decidiu se focar na guitarra, eu a via tendo um futuro brilhante na música, seus dedos pareciam fazer mágica em forma de som, era algo maravilhoso de se ver e de se ouvir. Por conta disso, decidiu tentar a sorte em Nova York e montou uma banda com algumas garotas, mas nunca esteve contente com as vocalistas que encontrava, talvez o motivo tivesse sido o fato de estar mal acostumada com a minha voz de quando tocávamos de brincadeira em nossa cidade natal. Apesar de não ser sério, foi por conta disso, e dela, que nutri um amor maior por cantar e decidi me aprofundar. Certo dia, em uma das visitas que fiz a ela em sua nova cidade, resolvi acompanhá-la em um dos ensaios para relembrar os velhos tempos, não que esses fossem tão antigos assim. Como estavam em atrito com a vocalista na época, a mesma não havia ido ao ensaio e Nicolle me pediu para que a substituísse.
— Não quero tocar minha guitarra para uma voz que não seja a sua! — Nunca esquecerei das palavras que saíram da boca da minha melhor amiga aquele dia, muito menos da intensidade em seu olhar ao dizê-las. Como eu poderia dizer não quando sentia a seriedade emanar de todo o seu corpo? Naquele momento me senti formigar dos pés ao couro cabeludo, e até hoje não sei como consegui manter o microfone em minhas mãos, não sei dizer se aquilo foi causado pela intensidade de Nicolle, pelo meu amor em cantar, por ser a sensação de que era aquilo que eu realmente deveria perseguir em minha vida ou todas as opções ao mesmo tempo. Me sinto arrepiada toda vez que lembro daquele momento, e admito que também não desejo cantar para uma guitarra que não seja a dela. E foi assim que me tornei a vocalista honorária da banda, que não possuía nome ainda na época. Nós decidimos dividir um apartamento e eu me mudei assim que passei em um curso de Contabilidade aqui na cidade e ao encontrar um trabalho de meio período. Gabs e decidiram tomar o mesmo rumo, com um pouco de influência minha, eu confesso.
Já os dois garotos nunca estiveram contentes com a cidade em que morávamos por inúmeros motivos, e aqui eles teriam mais oportunidades de finalmente encontrarem um objetivo concreto em suas vidas, e eu mal podia esperar para vê-los desabrocharem finalmente. Nada melhor do que ver as pessoas especiais em nossa vida estando contentes com as escolhas que fazem em suas próprias, e a mudança para Nova York foi a primeira delas.
— Um banheiro é muito pouco pra um apartamento com vocês dois nele. – Lançou .
— Já sabemos o que procurar quando formos morar juntos! – Eu disse brincando. Apesar de ter um ligeiro fundo de verdade. Ligeiro.
— Você já praticamente mora aqui! – Disse enquanto apoiava o queixo em minha cabeça.
Porque quando se é baixo, você serve de mesa para as pessoas. Já acostumada, olhei pra cima e sorri largada.
Após algumas insistências de para fazer com que eu e Gabs nos apressarmos, algo que já era de costume, finalmente terminamos e almoçamos rapidamente antes de correr para conseguir chegar ao metrô a tempo. Praticamente engoli a comida e grunhi por não ter a possibilidade de saborear com calma aquele macarrão com molho branco que tanto amo.
Precisávamos chegar na hora para aproveitar bem o tempo de ensaio, principalmente porque em uma semana nós faríamos nossa primeira apresentação, então não tínhamos tempo a perder com todas reunidas.

— Uh, foi por pouco! – Disse ofegante enquanto me apoiava na porta do metrô que havia acabado de se fechar atrás de mim.
— Tudo porque vocês enrolam demais. – Me puxou pelo braço e me envolveu contra seu corpo enquanto se segurava com a outra mão.
Quando se está com um namorado no metrô, não precisamos nos segurar em mais nada e ainda serve como barreira contra a multidão. É extremamente conveniente.
— Preciso estar bonito para o meu futuro marido. Ele pode estar aqui, agora, nesse exato momento. – Disse Gabs avaliando os seus arredores.
— Pode ser aquele velho ali. – apontou com a cabeça.
, não destrua meus sonhos juvenis. – Fingiu um drama.
— Ou pior, pode ser aquela garota. – Apontei para um canto.
— De garotas na minha vida já basta você e a Nicky. – Me olhou sarcástico enquanto eu o lançava um beijo debochado.
Após alguns minutos, finalmente chegamos ao nosso destino. Andamos rapidamente para chegar a casa de Cassandra, nossa baterista. Sobre chegar no horário? É, não foi dessa vez. Mas como sempre digo, não podemos evitar o inevitável, o importante é tentar se atrasar o menos possível.
, você falhou novamente. – Disse Tiff em tom de desapontamento. Ela sequer olhou para nós e continuou ajustando a alça de seu baixo.
— Você está culpando a pessoa errada, tampinha. – passou dando leves tapas em sua cabeça enquanto a mesma debatia seus braços na tentativa de se defender dos supostos ataques, o que me rendia algumas risadas.
— Tiff, você sabe que a culpa é dele, não posso evitar, Chronos não permite que eu chegue no horário. – Eu disse tentando separá-los.
— É por esse motivo que ele falhou! Já que você é enrolada, não podemos fazer nada, mas é o trabalho do impedir que você se atrase. – Disse séria.
não conseguiu novamente? – Disse Nicky entrando na garagem ao lado de Cass. – Estou começando a duvidar do seu comprometimento com a banda, meu querido, acho que precisamos tomar medidas drásticas. – Disse de olhos fechados em tom pensativo.
— Todo mundo erra, Nicky. – Defendeu Cassandra. - Acho que deveríamos dar mais uma chance a ele. – O olhava com pena enquanto tentava argumentar.
De repente estava se tornando um assunto sério. Isso se de fato assuntos sérios fossem abordados aqui. Apesar de Tiff ser a garota mais fechada de nós, nada de bom saía de nossas bocas quando estávamos todos reunidos.
— O Gabriel é prova de que fiz o possível para chegarmos na hora, mas estou começando a acreditar nesse papo de Chronos da , acho que ele pode ter algo a ver com isso sim. – Disse sério enquanto se sentava no sofá ao meu lado. – Não é mesmo, amor? – Me lançou um olhar como quem dissesse que se eu não o defendesse, ele não me alimentaria. Perigoso.
— Não me meta nessa, a responsabilidade é sua. Apenas lido com fatos e os fatos do momento são que você vacilou e que eu preciso urgentemente de um boy novo, enjoei dos que já tenho. – Disse Gabriel enquanto avaliava algumas fotos em seu celular. Ninguém aqui precisa vê-las para saber que tipo de fotos havia em seu álbum de figurinhas em formato eletrônico.
— Rodada. – Resmungou .
— Vivida. – Retrucou Gabs.
Após algumas risadas e besteiras ditas, resolvemos iniciar o nosso ensaio. O tempo que tínhamos era curto para aproveitar a garagem de Cass sem que os vizinhos começassem a se incomodar. Queríamos muito que nossos ensaios fossem todos no estúdio, mas tínhamos condições para bancar apenas alguns ensaios por mês no local.
Porém, nossos sonhos poderiam estar mais próximos do que nunca. Estávamos nos preparando para um concurso de bandas que ocorreria dentro de uma semana. Se passássemos, teríamos a oportunidade de nos apresentar em um show com outras bandas famosas daqui e isso aumentaria a nossa visibilidade. Mais visibilidade quer dizer mais fãs, mais shows, mais dinheiro, e quem sabe, um olheiro se impressione conosco em um desses shows! Só de pensar nisso tudo eu já sentia meu corpo cheio de energia e empolgação. Ótimos sentimentos para transmitir através de minha voz. Energia também que no fim do dia estava totalmente esgotada. Apesar de que a sensação de gastar toda essa energia com algo que amo é extremamente gratificante.
— Posso perguntar algo a vocês? – Disse Tiff enquanto arrumávamos nossas coisas para irmos embora.
— Claro, já devia ter perguntado! – Disse Nicky abrindo um sorriso na tentativa de deixar a menor mais a vontade.
— Posso trazer meu irmão para o ensaio amanhã? – Perguntou sem jeito.
O silêncio tomou conta do local, fazendo com que Tiffany nos olhasse levemente surpresa, mas não tão surpresa quanto nós estávamos. A menor nunca foi de falar muito dela mesma, mas sempre que tinha a oportunidade, enaltecia brevemente seu irmão. Podíamos perceber em suas palavras o carinho e o amor que os dois nutriam um pelo outro, apesar de nunca o termos visto. Apesar do amor, Tiff se sentia enciumada do irmão, este sendo, portanto, o motivo de ter demorado a finalmente nos apresentar ao mesmo. Apesar de não entender o motivo, creio que a única pessoa com quem ela realmente precisasse se preocupar fosse Gabs, que realmente não perdoa nem uma viva alma. Soltei uma leve risada só de imaginar o Gabs atacando o irmão indefeso da nossa baixista.
— Você irá finalmente nos apresentar a ele? O famoso irmão mais velho? Finalmente? – Podíamos perceber a empolgação repentina em Nicolle, o que deixou Tiff sem jeito.
— Bom, ele vai assistir nosso show, então achei que seria bom se ele já conhecesse vocês, então o ensaio é uma boa oportunidade.
Nossos olhos brilhavam em pensar na possibilidade de conhecer o tão falado irmão. É como dizem, a curiosidade matou o gato.
— Claro que pode trazê-lo, já devia ter feito isso! – Disse Gabs apoiando o queixo em suas mãos enquanto os cotovelos apoiavam o braço do sofá em que estava esparramado. Eu podia até ver um rabo imaginário balançando incontrolavelmente atrás dele. Um de raposa, claro.
— Você se controle! – Comandou Tiff.
— Pode deixar, madame! Não farei nada que o querido irmão não queira fazer. – Piscou a raposal.
Após nos despedirmos de Cass, fomos com o restante do Moonlit Waltz comer um delicioso e aguardado jantar no nosso querido dogão da esquina. Ah, quando a simplicidade e a gostosura se casam, não há nada melhor.
Comemos e conversamos um pouco e logo partiu cada um para sua casa, eu voltei com Nicky pois pretendíamos resolver algumas coisas da banda, mas nos encontraríamos com e Gabriel no ensaio do dia seguinte.

— Na hora! – Lancei enquanto entrava na garagem. – Isso não é bom sinal, algo terrível irá acontecer hoje! – Fingi um desespero.
— Você?! Na hora?! Isso não é bom presságio. – Disse Nicky apoiando os cotovelos em meus ombros. – Mas eu faço um trabalho melhor que o .
— Casa comigo? – Propuz.
— Quando marcamos a data? – Me olhou com um olhar malicioso.
— Antes de pensar na sua Lua de Mel, deveria pensar em como Chronos irá te punir. – Lançou enquanto nos olhava do sofá.
— Não, não, não! Vamos apenas pensar em coisas boas, principalmente porque o próximo Sábado é O dia! – Me dei o direito de afundar no peito de Nicky que me envolveu em um abraço.
Nicky era cerca de 15 cm mais alta que eu, com isso, nosso abraço era sempre muito confortável para mim. Isso, claro, quando seus longos cabelos castanhos, ondulados e extremamente cheios não me sufocavam durante o mesmo, chegaria a ser desesperador se não fosse cômico: O Ataque Capilar Parte 2. Mas dessa vez eu era a vítima, not cool.
— Mas ainda é a primeira vez que alguém faz a chegar no horário. Quer um prêmio? – Perguntou irônico.
— Quero a sua demissão. – Respondeu Nicky.
— É, , não tem mais como te defender, não é mesmo? – Lançou Cassandra enquanto ria e cumprimentava o rapaz.
Apesar de Nicky ser a deusa da banda, Camilla não ficava muito atrás. Sendo a mais alta de todas nós, possuía pernas invejavelmente lindas e longas, ao contrário dos cotocos que eu chamava as minhas, e estava sempre com um sorriso radiante e inocente no rosto. Isso em conjunto com seus curtos cabelos louros a tornavam maravilhosa, mas o que era ainda mais maravilhoso nela seria sua personalidade inocente. Cass se tornara extremamente especial para mim em um curto período de tempo, assim como Tiff, a última integrante da banda.
— É a primeira vez mesmo. – Enfantizou Gabs.
— Vocês parem! – Chorei. – Estou falando, algo terrível vai acontecer conosco! Chronos irá nos punir, nós mexemos com o curso natural da Terra, não estão vendo? – Continuei o drama enquanto me debatia nos braços de Nicky.
— Nós? Não é você que tem problemas com o relógio? Isso quer dizer que algo terrível irá acontecer apenas a você, não é? – me lançou um sorriso malicioso enquanto tentava despertar o medo em mim.
— Amor, não duvide da ira de Chronos. – Fiz bico enquanto Nicky acariciava o topo de minha cabeça como se eu fosse um gatinho que precisa ser acalmado. – Mas e a Tiff? Ainda não chegou? – Cortei o assunto na intenção de não irritar ainda mais o deus do tempo.
— Ela está chegando com o irmão dela. – Disse Cass enquanto piscava para nós.
— Ela fala tanto dele, já estava na hora. Finalmente alguém pra me fazer companhia. – Brincou .
— Ei! – Resmungou Gabs.
e Gabs apenas nos acompanhavam nos ensaios, mas enquanto brincava com o violão de vez em quando, Gabs era nosso groupie.
Nos sentamos todos no sofá e nas poltronas que se encontravam na garagem e ficamos papeando enquanto aguardávamos a chegada da baixista. Tiffany e Cassandra eram melhores amigas, as duas eram o total oposto uma da outra, Cass era escandalosa e foco de muitas brincadeiras nossas, enquanto a outra era reservada e ficava na espreita para uma brecha na maior para lançar alguma frase de efeito com foco nas besteiras que a mais alta soltava.
Estar com todas elas era tão divertido e eu mal podia esperar pelos dias que passávamos todas juntas, pois nos tornamos uma verdadeira família, a família do Moonlit Waltz, que também contava com e Gabs como nossos “acompanhantes”, vulgo agregados.
— Desculpem a demora! – Disse a pequena integrante da família que estava faltando. – Mas chegamos!
Tiffany entrou ofegante pela garagem enquanto puxava o garoto ao seu lado, que ao contrário dela, se apresentava calmo e bem arrumado, sem uma gota de suor pelo rosto.
— Esse é , meu irmão.
O garoto tirou os óculos escuros em um movimento que mais parecia um astro de rock dando atenção à suas fãs enquanto abria um largo sorriso para nós.
Naquele momento, eu nunca iria adivinhar tudo o que iria acontecer pela frente e que aquele sorriso iria se tornar um dos meus piores pesadelos. A vida é uma caixa de surpresas, e ali estava aquela que se tornaria o meu nemesis.

Hey moon, please forget to fall down
Hey moon, don't you go down



Capítulo 2 - When the day met the night

When the moon fell in love with the sun
All was golden in the sky
All was golden when the day met the night

— É um prazer finalmente conhecer todos vocês! – Abriu um sorriso enquanto falava cheio de empolgação. Aquele tipo de sorriso que poderia iluminar uma cidade inteira. – Minha irmã fala tanto de vocês que eu sentia que já os conhecia. – Riu o rapaz.
— Não é só você que tem essa sensação. – se aproximou para cumprimentá-lo. – Seja bem vindo, e, se precisar de socorro no meio dessas loucas, pode contar comigo.
Os dois trocaram sorrisos e brincadeira de uma forma que, apenas olhando para os dois, já pareciam ser amigos há tempos.
— Se ele precisar de socorro, eu vou ser a primeira a estar a disposição. – Sussurrou Nicky ao meu ouvido em um tom malicioso.
Creio eu que o rapaz causou uma boa impressão nas garotas.
— Não assuste o rapaz, . – Lançou Gabs fingindo uma inocência. – Ele não irá de precisar de socorro aqui porque iremos todos tratá-lo muito bem! Meu nome é Gabriel e sou bem mais confiável que essa duas caras do , então pode contar comigo pra tudo que precisar. – Piscou.
Uma ótima impressão.
não era muito alto, se tinha 1,80 era muito, mas a altura não era importante, isso não mudava o fato de que era de fato atraente. Enquanto mantinha seus cabelos castanhos livres e soltos, tinha um leve topete que o tornava charmoso. Admito que tinha um ar de galanteador e de quem conseguia tudo o que queria com apenas um sorriso, portanto fazia o tipo de homem que Nicky e Gabriel competiam pra ter. Aquela velha mania de sempre querer conquistar o bad boy.
Eu deveria estar me dirigindo à cozinha nesse momento pra preparar um pote de pipoca pra assistir a caçada.

Demos início ao ensaio e, enquanto e Gabriel estavam distraídos entre eles, estava sentado em uma das poltronas, olhando fixamente em meus olhos. Seu porte me causava um arrepio na espinha, estava com as pernas cruzadas e os braços nos apoios desgastados do que um dia já foi uma poltrona vermelha. Não sabia se estava me julgando ou apenas me analisando enquanto me fitava de forma tão ardente, creio que não ficaria tão nervosa com o mesmo olhar vindo do dono de uma gravadora que estivesse com nossa carreira em suas mãos. Podia jurar que se olhasse bem, veria um par de chifres vermelhos e um rabo de demônio balançando por trás dele no momento em que apoiou o queixo em uma das mãos, com o cotovelo grudado ao braço do sofá.
Por mais que me sentisse sem jeito com a situação, admito que tenha me causado um fogo interno intenso, um fogo do inferno. Mas, vendo por outro ponto de vista, era como ter uma plateia que estava ali pra nos ver, nos ouvir, me ouvir. Ser vocalista equivale a ser o centro das atenções, e não é como se eu odiasse a sensação, pelo contrário, quanto mais eu sentia que era o foco, com mais energia eu soltava minha voz. Complexo de leonina talvez? Apesar de eu não ser leonina.
O meu ascendente sim.
Mas eu não conseguia tirar os olhos daqueles orbes castanhos que me olhavam tão sérios. Entre um trecho e outro, ele lançava um sorriso de canto dependendo da forma que eu interpretava a música, admito que isso mexia com as minhas estruturas, e eu não sabia dizer o motivo ao certo.
Culpei novamente o meu ascendente. Nada como adorar ser o centro das atenções, principalmente se o seu talento atrai totalmente a atenção de outras pessoas.
Talvez eu fosse egocêntrica apenas por ser mesmo, pois assim que o ensaio terminou, toda a tensão que estava no ar havia sumido.
— Vocês estão prontas! – Exclamou vindo ao meu encontro. – Nunca as vi tão confiante quanto hoje.
— Você acha mesmo, amor? – O abracei.
— Totalmente! Já me emociono só de pensar em vê-las naquele palco. Meus filhotes estão crescendo. – Me deu um beijo carinhoso na testa.
— Filhotes uma ova, sou mais velha que você. – Disse Nicky dando uma cotovelada no rapaz.
— Falou a vovózinha. – Retrucou , fingindo uma careta.
— Vocês são incríveis! – interrompeu. – Sempre soube que a minha pequena era extremamente talentosa, mas quando está com vocês, ela libera o seu potencial. Vocês vão roubar toda a atenção na casa de shows!
Você sabe que o elogio é bom quando vem da boca de um estranho.
Bom, não tão estranho assim.

— Isso aqui está tão bom! — Mencionei em meio a garfadas furiosas.
, vou te denunciar por zoofilia, a parece um animal quanto está comendo. — Gabs soltou ao fingir uma cara de nojo e todos a mesa riram.
Estávamos reunidos na casa de Cass para jantarmos, seria a última vez antes do show, então queríamos aproveitar.
Já eu estava aproveitando de outra forma: paparicando o meu paladar.
Durante o processo, pude reparar em alguns olhares de para a minha pessoa, porém, nada que chamasse muito a minha atenção, pois permaneci com o olhar perdido nos pontos estratégicos de meu prato onde ainda havia comida, é claro que eu fazia questão de que logo não restasse sequer um grão.
Ah, a hipnose alimentar.
Despertei quando pude jurar que sentia minha pele sendo queimada por seu olhar. Todos estavam encantados e submersos em suas palavras, de fato era alguém que conseguia deixar os outros a vontade, carisma era algo que podia ser uma perigosa arma.
Hitler que o diga.
Continuava a me olhar disfarçadamente em meio a algumas palavras e eu não podia evitar o constrangimento. Quando trocamos olhares, tentei disfarçar olhando bruscamente para o prato já vazio, o que o rendeu uma risada leve que podia muito bem ser camuflada por conta do assunto que conversavam. Ele estava se divertindo com isso?
E o que de fato era isso que estava acontecendo?
Considerei a possibilidade de estar me olhando por nunca ter visto uma criatura de minha espécie antes, afinal, estava totalmente sem maquiagem, o preço que Nicky me fez pagar pra conseguir chegar na hora, e ainda parecia suada e exausta por conta do ensaio. Isso sem contar meus cabelos que pareciam o ninho de alguma criatura exótica do sul da patagônia. Um belo espécime, devia se sentir orgulhoso pela captura de tal exemplar.

— Ah, quando finalmente encontro um marido em potencial, ele não tira os olhos de você. – Choramingou Gabriel quando estávamos na cozinha apenas na presença de Nicky.
— Não é?! Me dá um pouco desse mel, ! – Complementou Nicky colocando uma de suas mãos na cintura enquanto apontava a esponja da cozinha, já gasta, em minha direção.
— Qual é! Ele nem estava olhando muito. – Não pude evitar tirar os olhos dos desenhos de flores de cobalto que se encontravam nas bordas da porcelana branca que estava em minhas mãos. O círculo azul que formava se entrelaça e tornava o desenho infinito, mantendo presa a minha atenção. Continuava a secar o prato em movimentos circulares, procurando algum indício do início ou fim dos desenhos que emaranhavam a minha mente. – Vocês estão loucos.
— Eu acho que a única pessoa que não reparou nos olhares dele foi o , mas convenhamos que o é uma porta mesmo. – Resmungou Gabs me ameaçando com um garfo enquanto ainda mantinha-se de frente para a pia.
— Uma porta que você já amou! – Provoquei enquanto batia com o pano de prato em sua bunda.
— Me agradeça sempre por abrir mão dele pra você. – Disse enquanto se defendia dos ataques. – Convenhamos que você nunca teria chances se eu não tivesse feito isso, né querida.
— Você deveria estar me agradecendo até hoje por poupar sua vida e não tê-lo jogado na frente de algum carro para eliminar concorrência né, Gabs!
Fomos interrompidos por Nicky que entrou entre nós dois e puxou o pano de prato das minhas mãos.
— Então já que você está feliz com o , podemos ficar com o né? – Seus olhos brilhavam, Nicky não perdia uma oportunidade sequer.
— Como se vocês precisassem pedir a minha permissão, né? Vão lá, quero ver a guerra. – Lancei um beijo para os dois. – Que o melhor vença.
Eu deveria começar as apostas? Apesar da banda estar toda ouriçada pela chegada do novato, sei que a guerra seria apenas entre o Gabs e a Nicky, Cassandra já o conhecia e nós sabíamos que ela era o ser mais denso e inocente que esse mundo já havia concebido, então estava fora de cogitação.
Por mais que admitisse que fosse atraente, eu na verdade não entendia esse alvoroço todo pelo garoto, ele era sim muito bonito, mas nada demais. Muito bonito, charmoso, carismático, galanteador. Deus! E aquele sorriso? Nada demais, . E não digo isso por já ter encontrado minha cara metade. Bom, talvez. O amor é cego, não é mesmo?

— Amor? – Chorei. – Ainda está acordado?
Era a madrugada de sexta pra sábado. 02h37 pra ser mais exata.
— Não. – Respondeu .
— Não consigo dormir. - Chorei novamente enquanto entrelaçava minhas pernas em torno de seu tronco.
Ele estava deitado de costas pra mim e eu estava agarrada nele feito um filhote de macaco.
— Percebi. – Disse em meio a resmungos enquanto tentava se virar para mim.
Como notado, tenho dificuldades pra dormir, o que piora quando estou ansiosa. E na véspera de um show que poderia mudar muitas coisas em nosso futuro, eu sequer conseguia pregar os olhos.
— Não precisa se preocupar tanto, vocês vão se sair muito bem. Você vai conseguir, amor. – Disse com carinho enquanto se virava pra mim e posicionava seu braço embaixo do meu pescoço.
— Mas e se alguma coisa der errado? Não posso me dar ao luxo de errar num dia tão importante. – O olhei séria.
, eu estarei aqui pra te apoiar, dando certo ou errado. Você sabe que essa não vai ser a única oportunidade, muitas outras virão e eu estarei ao seu lado em todas elas. Confie em mim quando digo que você tem um potencial incrível. – Deu-me um beijo carinhoso na testa. – Eu posso vê-la indo longe, mas eu tenho certeza que esse caminho que você irá trilhar irá começar no show de amanhã. Confie em si mesma! – Me deu um peteleco no mesmo local que beijou.
— Ai! – Passei a mão na testa onde havia sido atacada, causando um leve riso vindo de .
Ele me deu um longo selinho como pedido de desculpas e voltou a me olhar com ternura.
— Vai confiar em mim? – Perguntou enquanto colocava sua testa na minha.
— Como não confiar depois de tudo isso que o ouvi dizer? – Coloquei minha mão em seu rosto enquanto olhava fixamente em seus olhos. – Te amo, .
Eu já mencionei o quanto amo esses olhos, não mencionei? Toda vez que vejo esse olhar terno, eu sinto como se todo o peso do mundo saísse das minhas costas. Todas as coisas com que eu me preocupava não existiam mais. era meu amor, meu melhor amigo e meu porto seguro, eu me sentia mais segura em seus braços do que em qualquer outro local, era como se o seu amor me protegesse de todos os males do mundo. E essa cama velha em que estávamos deitados era o nosso forte, não importasse quantos problemas tivéssemos, se brigávamos, se o mundo estivesse pesando nossas almas, era sempre aqui que terminávamos para nos refugiar, nos apoiar, nos revigorar e nos amar. Curávamos as feridas um do outro aqui mesmo. Eu tinha apenas 21 anos e já me sentia a pessoa mais sortuda do mundo por ter encontrado um amor que muitos não encontram em uma vida toda. O que mais eu poderia pedir?
Ah, uma carreira de sucesso.
— Uma hora a gente tem que pagar os pecados, não é mesmo? Espero que esses dois anos de namoro já estejam garantindo meu lugar no céu, porque não foi fácil. – Brincou.
— Idiota! – Rolei para cima do garoto e o lancei vários beijos em meio a muitos sorrisos.
— Também te amo, amor.

Acordei atrasada.
Tínhamos que chegar na casa de shows durante a tarde para a passagem de som, coloquei o despertador pra tocar de manhã para não haver nenhum atraso, mas eu infelizmente estava muito cansada pois tive uma noite muito agitada após muitas palavras de amor ditas, portanto nem ouvi o despertador tocar, muito menos o que já havia aprendido a ignorar o mesmo. Como ele chegava ao trabalho na hora? Vai ser um eterno mistério pra mim.
— Ainda temos uma hora! – Disse o garoto enquanto vestia as calças da maneira mais rápida que podia.
— Você está mesmo dizendo isso pra mim? – Disse em desespero enquanto corria para o banheiro.
Não é possível que não haja um dia importante em que eu não precise correr contra o relógio. Tomei banho o mais rápido que pude e deixei para fazer a maquiagem e terminar de me arrumar para parecer um ser humano quando estivesse no local.
O ruído característico que meu celular estava soltando ao vibrar contra o couro da jaqueta de era suficiente pra saber que eu iria ser morta por todas as minhas companheiras assim que eu pusesse os pés no galpão onde ocorrerão as apresentações.
— Vamos, ! — O vi desligando o meu aparelho e o colocando novamente em seu bolso.
Peguei tudo que estava ao alcance de minhas mãos e joguei dentro da mochila preta surrada pelo tempo. Saímos correndo porta a fora, nos deparando com um frio gelado não muito comum dos dias de Março. Apesar da pressa, sentia o mundo a minha volta em câmera lenta, minhas bochechas sentiam algumas gotas de chuva que caíam dos céus nublados da cidade cinza. A sensação da pele fria em contato com as gotículas me acalmava e me dava a certeza de que hoje tudo ocorreria bem.
— O dia está lindo hoje! — Sorri olhando as nuvens escuras que pairavam sobre nós.
— Você está oficialmente louca. — Ouvi dizer.
O que torna um momento belo não é a estética sobre ele, e sim as coisas que fazemos acontecer para que se torne de fato inesquecível.

Meus dedos estavam gelados. O camarim do galpão era pequeno e abafado, todas estavam desesperadas para manter suas maquiagens intactas apesar da insistência de algumas gotas de suor em descerem por suas têmporas.
Mas meus dedos estavam gelados.
Numa tentativa falha em conter meu nervosismo, repousei meus olhos em Nicky, a mesma estava debruçada em uma bancada de madeira manchada que se encontrava em toda a extensão da maior parede do recinto, seus cantos estavam todos roídos e esburacados, não sabia discernir se aquilo havia sido trabalho de cupins ou de algum integrante nervoso e sem auto-controle antes de se apresentar.
A tentativa da garota ao estar naquela posição era de finalizar os retoques de um delineado tão negro quanto meus pensamentos nesse momento. O objetivo era aproximar-se o máximo possível do longo espelho pregado à parede, as marcas e manchas causadas pelo tempo podiam contar histórias de grandes músicos que já começaram da mesma maneira como também estávamos começando.
Evitei encarar meu reflexo empoeirado pois sabia que ficaria em frangalhos se visse o nervosismo estampado em meu semblante. Sentia o corpo inteiro frio como se estivesse nevando dentro do recinto fechado, já os calafrios que percorriam minha espinha me davam a sensação de que dentro de alguns segundos eu estaria estirada no chão sujo e molhado do local.
Isso se eu não vomitasse primeiro, ou me urinasse, ou os dois ao mesmo tempo.
Acho que os dois ao mesmo tempo.
— Eu não vou conseguir! — Segurei-me nas bordas do assento da cadeira de plástico onde estava sentada, tão forte quanto se minha vida dependesse de nunca levantar dali.
Todas pararam bruscamente o que estavam fazendo, isso se de fato estivessem fazendo alguma coisa. Tiffany e Cass se entreolharam e logo mudaram seu foco para Nicky, de forma desesperadora como se pedissem ajuda apenas com o olhar. A guitarrista estava paralisada, com a cabeça pendendo levemente para o lado, enquanto me fitava através do reflexo do espelho.
Sem piscar.
Eu podia muito bem ver estampada em sua testa a frase “Calculando Rota”.
Nicolle nunca teve dificuldades de comunicação, pelo contrário, na maioria das vezes é difícil fazer com que se cale. Sempre tinha as respostas pra tudo na ponta de sua língua e era a primeira a não medir esforços nos momentos que outros necessitavam de consolo. Portanto, ver minha melhor amiga, alguém que sempre sabia o que dizer, congelada daquela forma como se sua mente estivesse tão nebulosa quanto a minha, me fez perceber que todas estavam nervosas à sua maneira, mas evitavam transparecer isso. Bom, até o primeiro comentário de desespero. Meu, no caso. Cassandra segurava na barra da camiseta larga que Tiffany estava usando como forma de apelo. A peça de roupa contrastava com o porte delicado que a pequena apresentava ter, mas era de sua preferência por motivos de mobilidade, como costumava dizer, a mesma odiava tocar com roupas justas. Era muito admirável ver como uma garota que parecia ser tão miúda, com aquelas mãos e dedos pequenininhos, manuseava e dominava tão bem e com tanta graça um instrumento tão longo quanto o baixo.
— Tiff, eu vou morrer! — Dizia Cass à menor, com os olhos esbugalhados como se fossem saltar das órbitas.
— Cassandra, se recomponha! — Levantou-se rapidamente, fazendo seus curtos cabelos na altura do ombro esvoaçarem. Podia jurar que logo aqueles fios começariam a se arrepiar involuntariamente e alcançariam o teto baixo do camarim, como um gato com nervos à flor da pele. Um daqueles bem filhotes.
Mas tudo isso não pelo nervosismo com o show, mas por Cass a tirar do sério.
A baixista lançou-me um olhar vazio, mas eu podia jurar que via as palavras “Ajude-me” em suas pálpebras toda vez que piscava lentamente em minha direção.
Provavelmente o pedido de ajuda era pra evitar que cometesse um homicídio se a mais alta continuasse a escandalizar-se em sua volta.
— Vai dar tudo certo! — Tentei esbravejar, apesar da falha em minha voz que fez a frase parecer um sussurro.
— Tenho certeza que você consegue frase mais genérica que essa, . — Soltou Tiffany, ácida, após alguns segundos de silêncio, com as mãos na cintura como se acabasse de ouvir um absurdo.
Soltei uma gargalhada e corri ao outro lado do recinto para a abraçar. Uma corrida que me rendeu grandes três passo para alcançá-la. Minha cota de exercícios mensais está feita.
— Você é uma boba, . — A menor retribuiu a risada e me envolveu com seus braços em um movimento cheio de ternura.
— Agora você! — Apontei para Cass, que me olhou assustada com os lábios trêmulos, algo perceptível por serem muito carnudos, além de estarem vermelhos como o sangue. Não creio que existiu sequer um dia que a vi sem estar usando o característico batom vermelho.
Seus olhos se esbugalharam, como nunca antes, no momento em que a agarrei pelos cabelos, uma mão em cada lado de sua cabeça.
— Você é a melhor baterista juvenil que eu conheço, você é linda e vai subir naquele palco pra deixar todos loucos com essas suas pernas de modelo! — Cuspi as palavras em sua cara com a delicadeza de um jumento. — Vocês são minhas musas e nós vamos conquistar todos aqui de um jeito ou de outro.
— Vai dar tudo certo! — Nicky gritou de onde estava.
— Vai dar tudo certo sim! — Retruquei aos berros.
A mais alta veio ao meu encontro e me abraçou, não pude evitar de apertá-la forte mesmo estando com medo de abarrotar sua camisa. Dessa vez não precisei me defender de seus cabelos pois os mesmos estavam presos em um alto rabo de cavalo que faziam seus cachos castanhos caírem até a metade das costas. Nicky parecia a empresária da banda, era sempre muito chic por conta de seu sonho de tornar-se uma madame no futuro. Usava uma calça preta justíssima de cintura alta que acentuava suas curvas, a mesma ia por cima da camisa social branca, aberta em um decote provocador.
Deus a deu muitos atributos.
Tudo isso sendo fechado com chave de ouro com o sapato preto de salto meia-pata que usava. É claro que ela seria a primeira a entrar no palco para fazer uma boa impressão, Nicky era nosso cartão de visitas.
Fiz sinal para que as outras duas integrantes se juntassem a nós. Ali estávamos, as quatro integrantes abraçadas como uma bela família tentando não sofrer de um ataque de nervos coletivo.
Família que tem ataque de nervos unida, permanece unida.
Em meio a palavras chorosas e de consolo, notei um súbito silêncio com a ausência do som abafado e latejante que indicava uma banda ativa ao palco.
— Moonlit Waltz, é a vez de vocês! — Disse um rapaz de boné preto ao abrir a porta que ligava o camarim ao palco.
E desmaiei.
Bom, na verdade não, mas senti como se minha mente tivesse desligado.
— Meu Deus! Somos nós! Meu Deus! Meu Deus! — Cass jogava as mãos pra cima em um ato de desespero que jogou no lixo nosso momento de calma anterior.
Soltei um gritinho em resposta à loira, foi o máximo que pude proferir, meu estado de espírito também não era dos melhores.
— Vamos! — Disse Nicky enquanto se posicionava atrás do rapaz de boné que nos guiaria até o palco e indicaria o momento em que pudéssemos adentrá-lo.
Comecei a ajustar os garters em minhas coxas para que não caíssem no palco. É impossível usar certos acessórios quando se tem coxas grossas. Meias ⅞? Mas nem pensar! A gente dá apenas um passo e elas enrolam até o joelho, esse tipo de meia-calça só serve para pernas mais finas como as de Cass e Tiff, ou modelos chinesas de lojas online.
Apertei os acessórios e mudei o foco para o cropped branco que estava usando. Branco era uma cor ótima para acentuar o volume farto que possuía no peito, mas só nessa área também, pois se fosse uma camiseta ou até mesmo um vestido, eu ficaria parecendo um balão.
Garotas, parem de cismar tanto com o corpo de vocês.
A peça não possuía mangas, mas tinha uma gola alta. Puxei a mesma como se estivesse me sufocando, mas sei que a sensação era apenas pelo nervosismo.
Virei de costas para o espelho para me certificar de que a polpa de minha bunda não estivesse aparecendo por conta do shorts preto de cintura alta que estava usando. Como aquele era um local mais farto que as demais partes do corpo, tinha medo de parecer obscena com um shorts curto como aquele. Nada demais também se parecer.
Tudo bem, , você consegue. Disse isso a mim mesma enquanto bati com meu salto tratorado no chão como prova de que estava decidida. Andei em direção às meninas e me posicionei como última da fila.
A escada que ligava o camarim à lateral do palco era curta e fechada, sentia como se fosse ter um ataque claustrofóbico ali dentro, mas sabia que era só pela sensação de estar próxima ao local.
— E com vocês, a quarta banda da noite: Moonlit Waltz!
Luzes. Muitas luzes vindas pelas frestas do pano que separava a entrada para o palco. Fechei os olhos e permaneci com a sensação de vê-las.
Gritos. A Nicky entrou, ela entrou.
— Te amo, ! — Cass sussurrou antes de entrar, a última antes de mim.
Segundos de silêncio inundavam o meu peito, e eu permaneci intacta, apenas aguardando a minha deixa.
E então, um estrondo. Um estrondo tão forte que me fez despertar de meus devaneios, parecia que estava sincronizado com meus batimentos cardíacos. Era a Cass, a loira começou com a magia que fazia com a bateria, só aquele instrumento estava sendo tocado, com as mesmas batidas sendo repetidas.
Tum, tum, tum, tum.
Oito tempos depois, Tiff juntou-se a ela. Os sons graves que os instrumentos faziam em conjunto me davam a sensação de que meu coração sairia pela boca a qualquer instante, a tensão era visível pela veia de meu pescoço que estava prestes a saltar e abandonar meu corpo.
Quatro.
Engoli meu coração e me certifiquei de que permaneceria no seu devido local durante os próximos 4 minutos.
Três.
Peguei o microfone das mãos do rapaz de boné.
Dois.
Passei os dedos pela raiz de meus cabelos e os joguei para a minha direita, fazendo um volume com o platinado.
Um.
Entrei com a minha voz em conjunto com a guitarra da Nicky, andei até o meio do palco como se aquele piso de madeira me pertencesse, mas a sensação de fato era de estar flutuando.
Eu estava no automático, como se tivesse perdido controle do meu corpo. Acho que até da minha vida. Já por fora, agia como se dominasse aquela cidade. De onde tirei tanta confiança para esboçar? Não faço a mínima idéia, não sentia mesmo como se tivesse controle daquilo. Será que vendi a minha alma em algum momento? Nunca terei certeza, a única certeza que tive ao pôr os pés naquele palco, era de que pertencia àquele lugar.
Em meio a luzes, gritos e muito gelo seco, notei um sorriso no meio da multidão escura que nos aclamava. E foi assim que, no meu primeiro show, me perdi profundamente no olhar de .

Soft hearts, electric souls
Heart to heart and eyes to eyes
Is this taboo?



Capítulo 3 - We're swimming with the sharks until we drown

And you know that you feel it too
'Cause it's nine in the afternoon
And your eyes are the size of the moon

— Eu quero uma tecladista. — Mencionei antes de colocar o canudo do grande copo em minha boca.
— Hm. — Disse enquanto terminava de mastigar. — Como chegou a essa conclusão, ? — Nicky perguntou enquanto limpava suas mãos nos guardanapos após finalizar suas batatas-fritas repletas de gordura e sal.
Deliciosas de fato.
— Quando ouvi certas bandas no concurso, tive a certeza de que era isso que estava faltando para nós. Não vê, Nicky? Com uma tecladista, ficaríamos finalmente completas. — Estava tão empolgada que quase apertei o conteúdo do copo plástico tão forte que quase o explodi em meu rosto.
— Concordo com a ! Estamos buscando algo puxado pro pop e pro indie, certo? — Soltou Cass enquanto tentava, nem um pouco disfarçadamente, pegar uma das batatas de minha bandeja.
— Você não faria isso se realmente valorizasse sua vida. — Tiff olhou de soslaio, de Cass para mim, contendo o riso.
— Qual é! , agora você me ama o suficiente pra dividir suas batatas-fritas comigo, não é? — Me olhou com cara de cachorro pidão enquanto abria um largo sorriso que poderia cobrir seu rosto inteiro.
— Não. — Retruquei seca.
! — Disse manhosa, prolongando a vogal central.
— Tiffany, controle o seu cão! A Cassandra está muito pidona ultimamente. — Cutuquei suas pernas por baixo da mesa.
— Meu nada, quem achou ela abandonada na rua foi a Nicky! — Tiff passou a bola.
— Ei, ei, ei! Achei que tínhamos concordado de que só ficaríamos com ela se todas se comprometessem em cuidar dela! — Disse Nicky batendo o copo na mesa.
— Ei, me tira fora dessa, eu cheguei depois! — Mal terminei a frase e Nicolle já me olhou com a morte nos olhos. — Tudo bem, tudo bem. Só uma, e só dessa vez! — Disse ao entregar uma das minhas últimas batatas à Cass, que a devorou e se deu por satisfeita.
— Eu vou matar vocês! — Disse Cass aos risos após desintegrar a batata em sua boca.
Havia se passado 3 dias desde o concurso e ainda não sabíamos o resultado, pois o mesmo só seria divulgado dentro de duas semanas. É claro que a ansiedade estava nos matando, mas estávamos transformando isso em energia pra pensar em novas idéias, acordes, letras e outras coisas que ajudariam o Moonlit Waltz a melhorar. Eu entrei com a proposta de uma nova integrante.
— É o ? — Fui pega de surpresa com a pergunta de Cass, que não foi direcionada a mim.
— Sim! Estamos conversando bastante desde o dia do ensaio. — Nicky disse empolgada com o celular em suas mãos, enquanto esticava o pescoço se certificando de que Tiff ainda estava no banheiro.
E claro que não pôde disfarçar o sorriso bobo que estava estampado em seu rosto.
Também não pude evitar de sentir um leve desconforto, mas nada preocupante.
— Passei o seu contato pra ele, . — Nicolle comentou calmamente enquanto eu quase cuspia coca-cola por todas as bandejas dispostas pela mesa.
— Você o que? — Questionei enquanto tentava abrir um pacote de guardanapos.
— Ele disse que você era a única da banda que ele não tinha o contato ainda, e que devia nos avaliar pra saber se somos boas influências pra sua pequena, delicada e querida irmã. — Que no caso era mais um gato selvagem capaz de arrancar nossas cabeças com uma só mordida. Mas um gatinho bem filhote. Nicky colocou o celular na mesa bruscamente. — Qual é? Nós somos maravilhosas, é claro que somos boas influências, não é mesmo? — Finalizou a pergunta e aguardou um retorno meu e de Cass, mas permanecemos em silêncio enquanto nos entreolhávamos. — Ou talvez não. — Nós três rimos em uni som após a constatação. — Mas voltando, , tudo bem eu ter passado seu número a ele?
— Claro, sem problemas. — Antes mesmo de finalizar a frase, senti algo em meu colo vibrar.

“Então quer dizer que a vocalista do Moonlit Waltz é boa demais pra nós, reles mortais? Hahah”

Não reconheci o número origem daquela mensagem, mas soube pela foto do perfil quem era. Soube muito bem. Rápido ele, não?

“Nunca! Eu sou um anjo na Terra! Haha E por que diz isso?”

Segundos após a mensagem ser enviada, já havia recebido um retorno.

“Um anjo, né? Bom, pra começar, todos pegaram meu contato na casa de shows. Menos você, sem contar que parecia estar fugindo de mim. Com medo de algo, ? ;)”

Maldito pretensioso.

“Mas o senhor é convencido, não é Sr. ?”

“Hahahahah Sou realista, é diferente. Relaxa, , eu não mordo tão forte.”

“Tudo bem, sempre carrego comigo uma mordaça. ;)”

“Garota preparada! Sinto que vamos nos dar muito bem!”

“Hahahah Você é um idiota!”


Casa de shows, né? Retomei as lembranças daquele dia enquanto estava no metrô a caminho de casa, com a cabeça pesada de uma Nicolle adormecida em meu ombro direito. Como era tarde, não tinham tantas pessoas amontoadas para usar o meio de transporte, pelo contrário, então pudemos nos sentar até chegarmos ao nosso destino. Mantive o olhar perdido nos flashes que passavam nas janelas por conta da velocidade do veículo em movimento, flashes que me lembravam daquele dia.
Me recordo de luzes, muitas luzes. Quando você pensa em shows, logo imagina uma multidão de pessoas se esbarrando e lutando para chegar à frente do palco para ficarem o mais próximas possíveis de seus ídolos maravilhosos. Isso, em um local quente e abafado, só poderia resultar em suor, muito suor, muito calor humano e muito suor novamente. Eu inclusive já saí encharcada, da cabeça aos pés, quando fui assistir alguns. O que não te dizem é sobre a sensação que os ídolos maravilhosos sentem naquele momento, sobre como é estar na pele deles enquanto estão lá enlouquecendo os fãs. Enquanto esses sofrem com o empurra-empurra, os ídolos sofrem apenas por estarem existindo ali, não é tão maravilhoso quanto parece ser.
Bom, na verdade é maravilhoso sim.
Mas, fisicamente falando, não é. As luzes nos queimam como um sol forte de verão, 5 minutos no palco e senti que meu corpo havia derretido e que minha alma permanecia lá até este exato momento, derretida e impregnada naquele piso de madeira velho.
Agora imagine seus ídolos famosos, em um palco gigantesco, contando com equipamentos de luz bem melhores e em maior número do que os do galpão em que nos apresentamos.
Por um período de 60 minutos, pra mais.
É , você ainda é fraca, precisa treinar essa resistência ao calor, ou vai morrer antes do tempo sob às luzes dos holofotes.
Mas pensando bem, até parece ser uma morte bem glamourosa. Talvez não seja má idéia.
Voltando àquele dia, acho engraçado como minha mente ficou completamente vazia em um dos momentos mais importantes e felizes de minha vida. Cantei com tudo que havia em mim, e não podia enxergar nada que não fossem os olhos dele. Apesar de desviar muitas vezes, olhava o fundo do galpão, mas não enxergava nada além de um preto profundo. Tentei decifrar aquele mar de cabecinhas em minha frente, procurando , mas meus olhos sempre repousavam sobre os de , como se fossem a luz no meio daquela escuridão. É estranho como o olhar de um completo desconhecido possa ser tão confortável, porém desconfortável ao mesmo tempo.
Assim que a música finalizou, ouvi um som que parecia não ter sido captado por meus ouvidos até o exato momento em que parei de me concentrar na música.
Era o som de gritos. Muitos gritos. Eu mal podia acreditar na sensação de ter gritos vindos em nossa direção, por nossa causa. E então, mesclado aos ruídos, ouvimos aplausos. Naquele momento ouvi a melhor coisa de minha vida, a mistura de gritos com palmas resultava em um paraíso auditivo para mim. Meus olhos se encheram de lágrimas, virei-me para Nicky sem conseguir conter a emoção, e a encontrei com a mesma expressão que eu, abraçando sua guitarra vermelha com os olhos rasos d’água.
— Nós fomos o Moonlit Waltz! Muito obrigada! — Mal terminei a frase e pude ouvir o alvoroço do público.
Fizemos todas uma leve reverência e saímos do palco saltitantes como quatro crianças que finalmente receberam o presente que pediram o ano inteiro para o Papai Noel. No corredor a caminho de volta ao camarim, passamos pela próxima banda que iria se apresentar e os desejamos boa sorte.
Entramos a base de gritos pela porta do pequeno recinto, não conseguindo nos conter. Nos abraçamos e choramos muito por essa conquista, parecia pouco, mas nós sabíamos o quanto tínhamos nos esforçado para chegar até aqui, e não falo de uma caminhada a partir do momento em que estávamos juntas, mas tudo que veio antes disso e que nos fez trilhar o caminho da música. A sorte que tínhamos era a de termos nos encontrado e formado nossa família, Deus sabe o quão difícil é achar integrantes que tivessem a química pessoal e musical que tínhamos.
Nicky e Tiff guardaram seus instrumentos e seguimos para o ponto de encontro que marcamos com os rapazes, um local mais afastado do palco, e portanto, sem sinal de qualquer aglomeração de pessoas. O canto continuava escuro e abafado e as paredes pretas estavam descascadas em uma mistura de branco e cinza. De fato era um galpão antigo e não havia indícios de uma reforma recente, ou de qualquer reforma.
— Vocês foram incríveis! — me pegou de surpresa, dizendo isso enquanto me abraçava forte por trás, afundando em meus cabelos.
Quando me virei a ele, notei que seus olhos se encontravam marejados com a emoção de nos ver no palco. O envolvi em um terno abraço e ficamos assim por alguns longos segundos, antes de sermos interrompidos.
— Com licença! Somos melhores amigos antes de vocês serem namorados. — Quando me dei por conta, Gabriel estava atrás de , o fuzilando com os olhos enquanto mantinha as mãos em sua cintura como forma de indignação.
Assim que enxotou o rapaz do abraço, Gabs veio ao meu encontro e nos abraçamos tão forte que podia sentir que meus órgãos esfarelariam dentro de segundos se não nos afastássemos. E não nos afastamos.
Meu melhor amigo sabia o quanto aquilo era importante pra mim, pra nós, e não nos desejava nada além do sucesso. E também porque se eu me tornasse rica e bem sucedida, isso acarretaria numa vida maravilhosa para Gabs em que eu o bancaria como minha madame e o faria viajar conosco durante as turnês. Fizemos um acordo, foi em troca disso que ele me liberou o .
Enquanto os dois garotos congratulavam as outras meninas, soltou os pequenos ombros da irmã e veio em minha direção, me envolvendo em um forte abraço também.
Da última vez que constei, abraços de 5 segundos não costumavam dar a sensação de durar 50 minutos, e mesmo sendo um fato irrefutável, a sensação de terem se passado 50 minutos em 5 segundos continuava a mesma. Não havia notado como suas costas eram largas até esse momento, e a jaqueta de couro, gelada ao meu toque em contraste com o calor dentro do local, caía muito bem sobre ele. Seus cabelos estavam soltos dessa vez e cheiravam tão bem quanto o forte perfume masculino que emanava de seu corpo. O odor era tão agradável que poderia permanecer à mercê dele por 50 minutos de fato. Ou 50 anos.
Quando me dei por conta, nos afastamos, porém continuou perigosamente próximo, de forma que os pêlos dos meus braços arrepiaram-se em alerta. Seus olhos estavam profundamente conectados aos meus, podia jurar que contavam uma história, eu só não conseguia decifrar qual.
Me peguei pensando, por um milésimo de segundo, como seria ter os filhos daquele homem. Não, não, não. Não tê-los, apenas fazê-los. Eu devo ter ficado com uma cara de boba olhando pra ele, pois como se pudesse ler meus pensamentos, o rapaz sorriu de forma que parecia estar se dando por vencido.
Céus, ! Você é comprometida! Além de não saber como reagir, nem onde enfiar a minha cara, gostaria de voltar no tempo e evitar pensar as besteiras que pensei. Pra minha sorte, logo após me lançar o sorriso de vitória, o garoto mudou totalmente sua expressão ao me dar alguns tapinhas no ombro.
— Vocês estavam incríveis mesmo! Particularmente, gostei bastante da sua voz, é imponente e você é capaz de alcançar notas incríveis e super limpas. Como um companheiro cantor, conheço bem as dificuldades de execução de algumas, realmente passei a te admirar muito depois de hoje. Pode me considerar um fã. — Piscou após a última constatação.
— Agradeço muito! Foram anos de treino. — Ri. — Mas espera, você canta também?
— Bom, no chuveiro sim. — Riu. — Eu costumava ter uma banda também. Aliás, fui eu que coloquei a Tiff no caminho da música.
— Ah! Então devemos agradecê-lo por ser responsável pela existência da melhor baixista que conhecemos? — Perguntei.
— Claro! — Colocou uma mão no peito estufado. — Aceito oferendas e homenagens como forma de agradecimento. — Piscou.
— Você vai ver só a homenagem que vou te dar. — Ri ao dar um leve empurrão em seu ombro, gerando a ele uma gargalhada.
, suas atitudes são péssimas perto de pessoas que você possa ter um leve interesse. Sorte a dele conseguir fazer com que as pessoas se sintam à vontade em sua volta tão rápido quanto a velocidade que levávamos para piscar, seu magnetismo era de fato surpreendente. E sorte a minha que sou uma garota comprometida, certo? Então deveria começar a agir como tal, e logo!
Procurei com a cabeça e logo que o vi, me locomovi pra perto dele, abraçando forte seu braço como apelo para que a Terra me trouxesse de volta à realidade. Após os acontecimentos, tentei evitar qualquer interação possível com , no máximo sorrindo ou acenando com a cabeça, quando necessário. E foi assim até nos despedirmos.

Durante a semana tentei me concentrar em meus deveres e afazeres, mas contabilidade era o inferno na Terra. Por que eu tinha decidido estudar algo relacionado a números sendo que os odeio? Bom, adoro vê-los na minha conta bancária, mas apenas isso também.
Acontece que meu pai tinha uma pequena empresa de contabilidade em sociedade com meu tio, algumas vezes ele me levava para acompanhá-lo e me escravizar, me fazendo ajudá-lo a finalizar algumas folhas de pagamento. Colocar em prática é algo divertido, mas estudar estatística, cálculo e várias baboseiras por ano era exaustivo. E isso que eu mal havia começado.

“Aula chata. :x mal vejo a hora de ir pra casa jogar.”

Parece que o estava passando pelo mesmo sofrimento que eu.

“Nem me fale! To tendo estatística agora! Bleh. E você?”

“Cálculo I. Espero que você fique famosa logo e consiga me bancar pra eu passar o dia todo fazendo vários nadas.”

“Vários nadas? , você vai ser dona de casa, vai precisar fazer várias comidinhas pra mim, quero chegar em casa e ser surpreendida por banquetes toda vez.
E pudim! Vários pudins!”

“Mais alguma coisa, princesa? Quer que eu te espere de aventalzinho também?”

“Mas é claro! Avental e nada mais.”

“E aí você acordou né, ? HAHAHA”

Depois que o respondi com várias palavras belas de xingamento, não obtive retorno. Provavelmente muito ocupado em sua aula, fazer o quê. Ele não estando muito ocupado se engraçando com alguma colega bonitona, por mim está tudo certo. Rezo todos os dias para que ele não cruze com uma garota alta, com pernas longas e finas e um abdômen negativo, que no caso é o tipo de garotas que o gosta. O total oposto de mim. Bom, contando que essa suposta garota não tenha uma cabeleira colorida, por mim está tudo certo. E ela não sendo super cool que o faça rir muito de seus papos interessantes, tudo certo.
Kate, vou chamá-la de Kate. Se Kate não for ciumenta, então será o par perfeito para , e aí não terei chances. Terei que aceitar o fato de que o perderei para sempre e irei morrer de tanto chorar na porta da igreja do casamento deles, então terão que fazer um espaço dedicado à mim na escadaria do local sagrado, com uma foto minha onde pessoas irão colocar flores coloridas e irão chorar a perda de uma artista em ascensão, ou chorar por medo de que ocorra o mesmo com elas. Na minha lápide escreverão “Aqui jaz . Trocada por alguém melhor.”
Tentando afastar esses pensamentos exagerados de insegurança de minha cabeça, decidi checar minhas outras mensagens, e alguém em particular me chamou a atenção. Não lembrava que estava conversando sobre assuntos bobos com , impressionante como esse garoto consegue transformar uma conversa boba que você acha que não irá render, em uma super discussão de um assunto que você normalmente não teria com outros seres humanos. Prefiro nem comentar sobre as besteiras que estavam sendo ditas e que me renderam muitas risadas anteriormente. Decidi interromper o assunto que conversámos para falar de outra coisa.

“Sabe, acho que você deveria aparecer no ensaio amanhã.”

“U A L! Já está me chamando para um encontro, ?”

“HAHAHAHAHA Você anda sonhando muito acordado, . Não, é que estava comentando com a Nicky sobre como seria legal ter alguns feats masculinos em nossas músicas, pensamos em , mas já que você comentou ser um bom cantor, por que não, né?”

“Um ótimo cantor.”

“Hahaha Convencido! Vá ao ensaio e veremos se é mesmo. ;) Sem contar que seria uma ótima companhia para o .”

“Sou uma ótima companhia para todo mundo, . Tem certeza que quer que eu vá? Porque vocês não vão querer que eu vá embora nunca.”

“Acho que ao invés de irmos ao ensaio, eu deveria levá-lo a um psicanalista.”

“Olha, acho que você é uma garota fora do normal. Geralmente garotas gostam de ir a cinemas, jantares, bom, a lugares românticos em um primeiro encontro, mas um psicanalista?”

“Eu sou única, , nunca irá encontrar alguém como eu em sua vida. ;))) Você pode tirar prints dessa conversa e vendê-los quando eu for famosa. Ficará riquíssimo.”

“HAHÁ! Quem é o convencido agora??”

“Sabe, estou começando a entender porque Nicky gostou de você.”

“Hm, vocês conversam sobre mim então?”

“Não é novidade pra ninguém o climão que tá rolando entre vocês né?”

“E o que vocês andaram conversando, hein? Conte-me tudo, esconda-me nada!”

, . O que é conversado no papo das garotas, fica no papo das garotas.”

“Me considere uma garota então. Vamos lá! Me conte!”

“Ahhh! Então quer dizer que você quer ser uma das garotas então?”

“Ain, sou tão linda quanto vocês, ta?”

“HAHAHAH Que linda a belíssima Brenda .”

“HAHHAHAHAHA BRENDA ! Essa é a primeira vez que me chamam por meu verdadeiro nome, estou muito emocionada.”

E foi em meio a muitas besteiras que consegui sobreviver às aulas durante a manhã. Confesso que conversamos direto até o momento em que tive que entrar no meu trabalho, pois meu turno estava prestes a iniciar. Trabalhava durante a tarde em uma cafeteria no centro de Manhattan que geralmente não tinha tanto movimento. O salário não era tão bom, mas era o suficiente pra sobreviver. Pelo menos o uniforme era uma gracinha. Como o foco era doces e confeitos enfeitados e bonitos, o interior do recinto e seus empregados deveriam estar de acordo. As paredes e decorações eram todas em tons pastéis que davam uma leveza ao local. É o tipo de café que eu e Nicky adoramos, pois somos atraídas por coisas bonitas e fofas mais do que pela comida boa. Meu uniforme era um vestido rosa pastel, sem mangas, que ia até um pouco acima do joelho, com duas faixas brancas verticais na linha do busto que estavam em toda a extensão do vestido. E claro, um avental branco cheio de babados amarrado em minha cintura.
— Bom dia, flor do dia! — Nicky adentrou o vestiário com seu uniforme azul bebê.
— Mas já é tarde, Nics! — Disse enquanto guardava meus pertences no armário.
— Me deixa, ! — Me puxou para um abraço.
Foi minha melhor amiga quem conseguiu esse trabalho pra mim. Quando vim visitá-la em Nova York em uma de suas primeiras semanas morando aqui, resolvemos fazer um tour por cafés com decoração bonitinhas e nos deparamos com esse, e claro que Nicky os infernizou até que a contratassem. Foi com esse mesmo método que resolveram me dar uma chance de entrevista de emprego, então assim que me deram a resposta positiva, fiz minhas malas e vim rumo ao sucesso. Bom, claro que fazer café e decorar doces não é bem o sucesso que eu queria, mas é um degrau rumo ao que almejo, então permaneço plena em meu caminho.
Passei a tarde angustiada por não poder dar uma olhadinha nas mensagens do meu celular, e assim que o turno finalizou, me despedi de Nicolle e seguimos rumos opostos, pois hoje eu passaria a noite no apartamento dos meus garotos. Chegando ao meu destino, me deparei com com o rosto quase colado na tela do computador.
— Oi amor. — Disse enquanto deixava minhas coisas em cima de sua cama.
— Oi, meu anjo. — As palavras saíram de sua boca mas os olhos mantiveram-se colados na tela.
— Evento? — Perguntei.
— Evento.
Ao ouvir suas palavras, fui em sua direção e deixei um beijo marcado em sua bochecha antes de ir ao quarto de Gabriel. No local, vi o mesmo deitado em sua cama com o notebook em seu colo, então me esgueirei para baixo das cobertas com ele enquanto o empurrava um pouco mais para o lado.
— E então, o que vamos ver hoje? — Questionei.
— Hoje você quer algo sério ou mais trash? — Independente da resposta, sabia que ele estava se referindo a tipos de filme de terror, pois é o que gostamos de assistir juntos. — Porque estava pensando em assistir Suspiria de novo, é um clássico! Veja esse print de uma cena que adoro! — E então mostrou uma imagem na tela que nos rendeu muitos risos.
— Pode apostar que quero esse mesmo! — Fiz a escolha.
— Boa garota. — Piscou reluzente.
Porém, antes de iniciarmos a sessão de filmes, decidi responder algumas conversas em meu celular. Bom, não algumas, apenas uma.
— Gabs, está acontecendo algo estranho. — Mencionei sem tirar os olhos do celular, enquanto permanecia encostada no amigo.
— O que te aflige, meu anjo? — Brincou com a forma que me chamou.
— Bom, estou conversando muito com uma pessoa, e estou achando estranho. A conversa está fluindo tão bem.
“Uma pessoa” uma ova, você sabe que eu estou grudado ao seu lado nesse exato momento e por conta disso eu consigo ver a tela do seu celular também, né ? Eu sei exatamente sobre quem você está falando.
— Não é errado, Gabs? — Indaguei um tanto medrosa.
— Você está falando algo de errado com ele?
— Nada demais, apenas besteiras. Mas você sabe que não sou muito de papo, as únicas pessoas com quem tenho esse tipo de relação são com você, a Nicolle e o .
— Então você não tem com o que se preocupar! Só vai, . E me mostra tudo isso aí, menina, me deixa ver tudo.
E foi assim que, ao invés de passarmos a noite assistindo a filmes de terror trash, Gabs passou a noite assistindo minha conversa com , tão empolgado quanto eu, os dois embrulhados no mesmo cobertor, olhando para uma pequena tela de celular.

. , acorde. — Podia sentir as palavras sendo ditas enquanto alguém me balançava levemente.
— Hm. — Grunhi.
, já está na hora, vamos. — Reconheci a voz, era .
— Que horas são? — Falei enquanto esfregava os olhos.
— Hora de ir. Desculpe não ter dormido contigo hoje, o evento acabou tarde, e quando vim aqui, você já estava capotada com o Gabriel. Bom, e eu não quis te acordar.
— Sem problemas, amor. — O puxei pelas bochechas até que nossos lábios se encontrassem em um rápido selinho.
— Sai, hétero. — Disse Gabs enquanto empurrava levemente pra longe da cama.
— Bom dia pra você também, princesa. — Disse se vingando, jogando Gabriel pra fora da cama.
— Você por acaso quer morrer? — Falou tentando se desvencilhar da coberta que estava emaranhada em suas pernas, que acabou sendo jogada pra fora da cama junto com ele. — Sorte a sua que não posso cometer um homicídio hoje, estou muito ansioso pra ver aquele irmãozão da Tiffany pra arriscar isso sendo preso.
— Você precisa ser mais rápido ou vai perdê-lo para a Nicolle, hein. — Riu enquanto saía correndo para fora do quarto para desviar de um travesseiro sendo arremessado contra ele.
— É mais fácil eu perdê-lo pra do que pra Nicky. — Sussurrou. — Ai! — Disse ao ser pego de surpresa por uma cotovelada minha.
Nos arrumamos e comemos depressa e seguimos em direção à casa de Cass. Chegamos, certamente, atrasados, porém todos estavam sentados no sofá e poltronas conversando como bons amigos e nem perceberam nosso atraso, sequer nossa chegada. O que eu não contava era que meu olhar procurava desesperadamente por alguém, senti um alívio enorme no peito quando encontrei esse alguém sentado no sofá em meio a Nicolle e Tiffany. Quando o garoto percebeu nossa chegada, nossos olhares cruzaram e seu sorriso se iluminou como se também ansiasse por minha presença. Seu sorriso aberto retrocedeu para um mais controlado, com o canto da boca, e sua mão levantou em um aceno com os dedos indicador e médio. Meu peito se encheu com uma sensação boa que preferi ignorar por hora.
O que diabos você está fazendo, ?

When the moon found the sun
He looked like he was barely hanging on
But her eyes saved his life in the middle of summer



Capítulo 4 - Far Too Young to Die

Fixation or psychosis?
Devoted to neurosis now

Blá, blá, blá.
O ensaio já havia acabado, então estávamos todos jogados nos sofás e poltronas dispostos no canto da garagem, mas não conseguia me concentrar na conversa que estava rolando, não depois do que acabou de acontecer, não depois de ouvir a voz dele.
Sua voz era suave mas extremamente potente, quando senti seu agudo, podia jurar que uma corrente elétrica havia passado por todo meu corpo. Eu não sei o que aquele homem estava fazendo em uma garagem conversando com meninas bobas e desconhecidas ao invés de estar um palco cantando para milhões de pessoas e sendo um rockstar enquanto muitas garotas gostosas e sofisticadas o esperam no camarim.
— Física?! — Nicolle quase gritou. — Você é físico?
Sua pergunta se direcionava a , e foi nesse momento que voltei a prestar atenção na conversa.
— Sim, sou veterano da Universidade Columbia. — Meu queixo só não caiu no momento em que ele disse isso porque sou muito boa em manter cara de paisagem. O cara além de parecer um rockstar que parece ter uma saúde muito boa, era também um gênio? Ah, esse homem não existe, só pode ser brincadeira.
— Impressionante, então homens gatos que também são inteligentes existem mesmo? Não é um mito? — Gabs lançou a frase da poltrona onde estava deitado com as pernas por cima das braçadeiras. Todos rimos, mas fez algo que me deixou desconfortável. Ele abriu um sorriso largo, descruzou as pernas e esticou seu braço pelo encosto do sofá. Quando percebi isso, meu corpo endureceu na hora. Espero que ninguém tenha percebido isso.
— Bom, não posso garantir que seja um gênio, mas a percepção de gato é algo individual, para alguns sou, e para outros não. — E foi assim que direcionou o olhar para o lado. Claro que eu continuei fitando-o, mas meus olhares eram direcionados a seu topete, ou orelha, bom, qualquer lugar de sua cabeça, menos seus olhos, qualquer lugar que evitasse fazer qualquer tipo de contato visual acidental, coisa que estava acontecendo muito essa tarde.
Desde que nos sentamos, acabamos não trocando muitas palavras, mas os olhares eram frequentes. Muitas vezes entre risos e palavras aleatórias, nos encarávamos e muita coisa poderia ser dita apenas através daquele contato visual que durava milésimos de segundos. Eram olhares ternos e eu sentia ansiedade em observá-lo cada vez mais, mas tentava evitar pois eu sabia o quão errado isso poderia parecer. — O que você acha, Nicky? — E foi assim que ele perguntou à pessoa que estava ao seu lado, que havia encostado a cabeça no braço do garoto. Meu desconforto aconteceu pois não era eu ali em seu lado.
, você precisa se internar. Seu namorado está bem ali, lindo, sentado no chão, tendo a orelha incomodada pelos pés de uma Cass selvagem.
Estávamos os três no mesmo sofá, e eu nos cantos e Nicolle no meio. Nossos olhares geralmente aconteciam quando Nicky ria e se abaixava, desobstruindo nossa visão e nos fazendo conversar através do olhar como se fossem as únicas oportunidades que teríamos nessa vida.
— Acho que gato é pouco pra te definir, . Já sobre a questão de ser gênio, conheço alguns métodos científicos pra gente comprovar se é mesmo. Só preciso fazer alguns exames e testes.
— Opa, vamos brincar de médico então? — Piscou.
Ele piscou. Pra Nicolle. Todos sabem o que uma piscada quer dizer nessa situação. E ele piscou! Reitero que foi pra Nicolle!
Na sua cara, Gabriel. Tá vendo como é a Nicky quem ele quer?
Como se tivesse lido minha mente, Gabs me olhou como se falasse “Paciência, minha criança. Paciência.”
Conversa mental é o poder que você ganha quando encontra sua alma gêmea, assim, vocês podem se entender e conversar apenas com o poder de suas mentes, a única coisa necessária é que conectem os seus olhos uns nos outros para que as palavras sejam transmitidas de cérebro para cérebro. As vezes nem a conexão dos olhos é necessária, frequentemente Nicky e eu pensamos igual mesmo estando a km de distância.
— É sério? Na minha frente, ? — Tiffany soou revoltada, mas sabíamos que era brincadeira.
— É verdade. Cuidado com suas palavras, pois temos menores de idade no recinto. — fingiu sussurrar essas palavras, e logo após finalizá-las, teve de desviar de uma almofada que foi arremessada por Tiff.
Enquanto todos riam e conversavam entre si, tentei desviar a atenção do incômodo que sentia, mas sem sucesso. Meu corpo parecia que ia entrar em combustão espontânea em segundos se eu continuasse sentada ali. Esse sofá sempre me incomodou assim? Parecia que quanto mais eu sentia o tecido aveludado ao toque dos meus dedos, mais impaciente eu ficava. O cheiro do mofo também não estava ajudando.
— Bom, já está ficando tarde, né? — Fingi um bocejo para que pudesse convencê-los de que precisava ir embora.
— Meu amor ta cansadinho, é? — levantou de onde estava e caminhou em minha direção. — Quer ir pra casa, ? — Me puxou do sofá e me envolveu em um abraço.
— Quero. — Fingi uma voz manhosa enquanto aninhava minha cabeça em seu peito. Percebi que todos se levantaram para ir embora, preguiçosamente, mas levantaram.
, a melhor atriz desde Meryl Streep. E Emily Blunt, Anne Hathaway, Bryce Dallas. Meu Deus, eu amo a Bryce Dallas, quando eu crescer quero ser igual a personagem que ela fez em Jurassic World, a Claire. Ser uma mulher belíssima, com um cabelo impecável, poderosíssima que administra um parque de dinossauros, corre na cara de um tiranossauro rex com um puta salto fino e ainda por cima namora o Chris Pratt. De tudo isso, se eu simplesmente namorasse o Chris Pratt, eu já morreria feliz. Ah, mas eu gosto de muitas atrizes, se eu for pontuar todas, irei morrer pensando. Mas não posso deixar de mencionar a Viola Davis também e a Fernanda Montenegro, que mulheres.
Okay, foco .
Nos despedimos de todos e fomos os primeiros a ir embora. Minha despedida foi simples e curta para não levantar suspeitas.
Suspeitas? Mas suspeitas de que? Não há nada acontecendo, . Nada! A não ser a vontade de e Nicolle de enfiarem a língua um na garganta do outro, então você não tem com o que você se preocupar! E esse último fato mencionado não vai te preocupar também! Eles formam um belo casal, e é óbvio que entre um botijão de gás, vulgo eu, e a mulher mais linda e gostosa do mundo, a Nicolle, é claro que ele ficaria interessado pela segunda opção. É óbvio! Você tem que parar de dar atenção ao que o Gabriel diz, e principalmente parar de se preocupar com isso porque você tem um namorado! Um namorado que você ama e que te ama, e é isso.
Pela segunda vez em cinco minutos: Foco, !
Bom, talvez não cinco minutos, pois quando me dei conta, já estávamos na estação de trem e não faço a mínima ideia de como cheguei aqui.
— Tô vendo que você ta meio amoadinha mesmo, . É por causa de ontem? — estava me abraçando enquanto esperávamos o metrô.
— Claro que não! Ela dormiu abraçadinha com a delícia que é o meu corpo, deveria ter acordado felizíssima por ser a única garota a conseguir essa proeza. — Gabs dizia com as mãos na cintura.
— Você fala isso como se muitos homens tivessem feito essa proeza né. — riu maldoso.
— Olha aqui!
Gabriel começou seu discurso de indignação, mas eu apenas ri enquanto estava confortavelmente posicionada no abraço de meu namorado.
— Mas então. — cortou o amigo. — Vamos passar no mercado antes de ir pra casa? Posso fazer aquele nachos lasanha que você tanto gosta como pedido de desculpas. — Se afastou um pouco de mim para colocar as duas mãos em minhas bochechas e me olhar com aquela cara doce que eu não resisto. — O que você acha, amor?
— Você me tem na palma da sua mão né, sempre sabe como me agradar. — Fiz bico.
— É só falar sobre comida que você já vira a pessoa mais feliz do mundo, . — Riu. — Não posso dizer que é difícil.
Olha aqui! — Imitei Gabs e os dois garotos riram.
— Vaca. — Gabriel mostrou a língua pra mim.
— Piranha. — Retribuí o gesto.
— Com muito orgulho. — O garoto fingiu jogar os cabelos com as mãos. No caso, fingiu porque não tem cabelos, é quase careca, se fosse bombado poderia ser um sósia do Vin Diesel.
Quando entramos no metrô, conseguimos lugares para sentar e eu e ficamos abraçadinhos como um casal de lêmures se protegendo do frio. Ele massageava as minhas mãos e alisava meus dedos com muita calma e delicadeza, era uma sensação tão boa que se eu fosse um gato, só me faltaria ronronar.
Ficamos ali em silêncio até chegarmos em nosso destino, apenas aproveitando o momento. Não precisamos falar nada pois estávamos na presença de alguém com quem o silêncio era confortável, conectados por nosso amor mútuo. É algo que dificilmente você encontra na vida, e eu não jogaria fora essa relação de amor, amizade, companheirismo, respeito e confiança por nada, nem ninguém, nesse mundo.

— Será que vai demorar muito pra ficar pronto? — Perguntei pois o cheiro da comida estava me matando. Aquele cheiro de muita gordura aquecida que faz seu estômago revirar de ansiedade.
— Calma, esfomeada. — Riu . — São só 5 minutos até derreter o queijo.
— Mas é muito tempo pra minha fome. — Choraminguei me jogando por cima dele, que estava sentado em um colchão que havíamos jogado no chão da sala.
— É melhor alimentá-la antes que ela decida se alimentar da gente. — Gabs falou enquanto montava o videogame na TV, disposta frente ao colchão.
— Canibalismo não! Você sabe que tenho pavor de zumbis, de virar zumbi ou ser comida por um zumbi. O máximo que posso fazer é comer esse colchão. — Dei de ombros como se a última constatação fosse algo totalmente fora do meu controle.
— Já sei o que podemos jogar hoje. — Mencionou . — O que acham de Resident Evil*?
— Amor, você realmente não presta atenção em mim né. — O olhei com reprovação.
— O seu desespero é o meu entretenimento, amor. — Disse me puxando pelas bochechas e me dando um selinho antes de levantar e seguir para a cozinha.
O nachos que fizemos, no caso, que o e o Gabriel fizeram enquanto eu dava apoio moral pois sou uma negação na cozinha, era denominado nachos lasanha. Isso porque ao invés de fazer os recheios separadamente, montamos tudo em uma forma com várias camadas de recheio, como se fosse uma lasanha mesmo. O resultado é a melhor coisa já provada na história da humanidade, além de batatas fritas do McDonald’s.
Ouvir o barulho da porta do forno ser aberta e fechada me deixou ainda mais ansiosa, e jurava que poderia morrer de felicidade quando vi caminhar com dois pratos nas mãos. Comida é sempre a definição de felicidade.
— Pra mim? Obrigado! — Disse Gabs em pé ao lado da TV, fingindo estar lisonjeado.
— Engraçadão! — debochou. — Já deixei um prato separado pra você, pode pegar lá. — E então entregou um dos pratos pra mim.
— Eu te amo tanto. — Respondi em agradecimento.
— Eu sei. — Ria.
Tentei evitar a depressão ao finalizar aquela montanha de gordura saturada que me fazia engordar 10kg por garfada. Se comida é felicidade, o fato dela acabar é a definição de tristeza, é algo muito triste mesmo. Queria ser capaz de comer um boi e mesmo assim não engordar uma grama sequer, eu passaria o dia todo comendo sem culpa, esse sim seria o melhor super-poder que alguém poderia desejar ter. Bom, ter hidrocinese também deve ser sensacional, como a Mera. Sempre sonhei em ser uma sereia e ter o mar ao meu lado, no estilo de uma fusão da Ariel com a Moana, mas ser a rainha de Atlantis me parece ser mais tentador.
Decidimos que iríamos jogar Mario Party*, mas não posso dizer que foi uma boa opção.
, pára de me prejudicar! — Claro que eu não usei a palavra “prejudicar”.
— Se eu sou melhor no jogo a culpa não é minha. — Ria enquanto se concentrava no jogo.
— Você realmente vai fazer de tudo pra ganhar de mim? Você tem certeza que é isso que você quer fazer? — Ameacei.
— Mas eu já ganhei duas vezes só hoje. — Piscou.
— Então você não precisa ganhar mais uma vez! Eu já não jogo mais Mario Kart com você por esse motivo. — Falei séria.
— Eu te amo mesmo você sendo esse poço de competitividade que você é. — Tentou se aproximar pra me dar um beijo, mas me afastei.
— Não me rela. — Estava realmente mal humorada.
— O bom de ter uma vida fracassada, é que quando eu fracasso no jogo eu nem me importo mais. — Disse Gabs pra aliviar o clima, já que ele era o último colocado e estava bem longe de nós, apenas se ferrando com todas as armadilhas do jogo.
Ficamos algumas horas nos entretendo, e passando raiva, então decidimos dormir quando o completou 4 vitórias. Estava deitada na cama, virada para a parede como forma de protesto para que ele não cometesse aquelas atrocidades comigo novamente quando ouvi o barulho metálico da chave sendo passada na porta, endureci, mas permaneci fitando a gélida parede branca. O movimento que o colchão fez por conta do peso de subindo sobre o mesmo não me abalou e permaneci intacta. Bom, não por muito tempo, logo em seguida ele retirou o lençol que estava me cobrindo, de forma lenta, fazendo os pêlos dos meus braços e pernas se arrepiarem conforme o tecido fosse sendo retirado e minha pele entrasse em mais contato com o ar mais frio. O que me fez abrir mão de meu orgulho foram os beijos que ele começou a dar em meus ombros enquanto alisava delicadamente a minha coxa. Não resisti e me virei para ele.
— Te amo mesmo você sendo louca. — As palavras saíram firmes de sua boca, mas de forma doce.
— Te amo mesmo você sendo um cuzão. — Retruquei, mas com ternura.
E assim nossa noite acabou da melhor forma possível. O dia seguinte foi mais tranquilo e com menos ataques de competitividade, passamos o dia todo embaixo das cobertas enquanto nós três assistíamos a filmes de terror e documentários sobre um serial killers que invadia casas com as pessoas dentro, o que me deixou com medo até mesmo de tomar banho com a pequena janela aberta. Nunca se sabe quando vai ter um serial killer à espreita, gravando você em seus momentos mais íntimos. Nunca tive tanto medo de tomar banho quanto tive aquela noite.
Me preparei psicologicamente pra voltar para o apartamento que divido com a Nicky e ter que encarar a realidade de que teria uma semana cheia de entregas de trabalhos. Passarei a semana toda com minha agenda cheia de trabalho, faculdade, trabalho, mais trabalho, faculdade, faculdade, faculdade e mais faculdade de novo. Não aguento mais ter responsabilidades, será que eu poderia ganhar na loteria sem nem mesmo precisar apostar?
E foi assim mesmo que os dias foram passando, eu não via a hora de chegar em casa e precisar me preocupar em ter relação apenas com seres que não fossem humanos, como o gato que eu e a Nicky adotamos.
E não estou me referindo a , e sim a Salem, nosso gatinho preto. Mas falando em , como não foi novidade, também passamos esses dias conversando como se fôssemos amigos há anos. Bom, não são de todos os seres humanos que eu preciso de férias. Descobrimos que temos muitos gostos em comum e linhas de pensamento parecidas, não é a toa que a conexão foi feita de forma tão rápida. Novas amizades não fazem mal a ninguém, certo?

“Acabei meu turno mais cedo hoje e vou aproveitar pra passar tomar aquele famoso chocolate quente do café que fica na frente do Central Park. :9”

Descobri que ele trabalhava em um café também, mas um mais tradicional, não era tão cheio de frufrus como o meu. contou que costumava ganhar gorjetas extras por conta de seu carisma e por geralmente cantar para seus clientes. Já estava até mesmo recebendo pedidos e dedicatórias, e algumas garotas até mesmo iam ao café só pra vê-lo. Ele é de fato um rockstar, só está no lugar errado. Como é possível que não descobriram seu talento ainda?

“Eu AMO aquele café! Sou louca por tudo que está no cardápio! T-T”

“Por que não dá uma passada lá também? Pode me encontrar lá.”

“QUERIA MUITO! Mas não posso, tenho que finalizar um trabalho pra amanhã. Eu não aguento mais! Deus, me leva.”

“Hahahah meus pêsames”

15 minutos depois recebi uma notificação no celular de que o garoto havia me enviado uma foto, quando abri, era uma foto do chocolate quente sobre uma mesa no canto do café. Podia ver uma parte da janela ao lado com algumas gotas de chuva. Era um ótimo dia pra tomar aquela bebida que aquecia até mesmo a alma.

“Olha a tortura! Vai me fazer passar vontade mesmo?”

“HAHAHAH ainda dá tempo de você vir! Eu pago pra você sem problemas.”

“Eu não posso mesmo. ): Mas isso não impede de você me trazer, né? Eu mereço oferendas, posso ficar famosa em breve!”

“Quem merece oferendas são deusas e rainhas, .”

“E quem disse que eu não sou??”

“Eu nunca disse que não é, Vossa Majestade. ;)”

“HAHAHA GOSTEI! Então seja um bom servo e faça oferendas à sua rainha.”

“Mas é pra já! Me passa o seu endereço.”

Congelei no momento em que disse isso. Provavelmente era brincadeira, eu acho, é difícil dizer quando o assunto é o , eu nunca sei quando aquele exagerado está brincando ou não.

“Que? Por que?”

“Vou levar um chocolate quente pra minha rainha, oras.”

“Para de me iludir, . Isso não é coisa que um servo faz.”

“Hahahah Relaxa, . Vai me passar seu endereço ou vou ter que dar um jeito de conseguir de outra forma?”

Se eu já estava congelada antes, agora me tornei o próprio Polo Norte.

, para de brincadeira, vai.”

Mas não obtive mais resposta, mandei diversas mensagens depois dessa e ele sequer visualizou. Comecei a me sentir completamente desesperada, pois já era muito tarde e nem sinal dele.

“CASS, ME AJUDA!”

“O que aconteceu, ?”

Expliquei o que aconteceu à ela e a reação dela parecia ser mais desesperadora que a minha.

“COMO ASSIM ELE TÁ INDO AÍ?”

“EU NÃO SEI SE É VERDADE! Você conhece ele há mais tempo que eu porque é amiga da Tiff há mais tempo. ISSO É ALGO QUE ELE FARIA?”

“E COMO É QUE EU VOU SABER? EU SÓ VI ELE ALGUMAS VEZES, NÃO É COMO SE EU FOSSE A MELHOR AMIGA DELE! EU SOU APENAS AMIGA DA IRMÃ DELE!”

“O QUE EU FAÇO, CASSSSSSSSSSSSSS?”

“Fala com a Tiff! Ela deve saber de alguma coisa! Pode ser que ele tenha ido pra casa e não te falou nada, ela pode te confirmar se ele ta torturando você!”

É, isso é algo que ele faria, me deixar desesperada achando que vou dar de cara com ele aqui, quando na verdade está no conforto de sua própria casa, se alimentando do meu desespero.

“Eu vou te matar, .”

Mandei a ele antes de tentar falar com sua irmã.

“Calma , provavelmente ele só está brincando contigo. A Nicky ta em casa?”

“Não, Tiff! Ela foi no cinema com o Gabriel.”

“... Bom, eu não estou em casa também, mas vou tentar falar com o papai pra ver se ele está por lá.”

Fiquei aguardando a resposta da garota enquanto roía todas as unhas de minhas mãos.

.”

“Oi meu amorzinho, ele tá em casa?”

“Tá sim, o papai disse que ele ta jogando no computador com uns amigos, por isso ele não deve ter te respondido. Fica tranquila, ta?”

“Tiffany, eu te amo, mas eu vou matar o seu irmão.”

“Eu te ajudo.”

Após Tiffany me tranquilizar, pude finalmente parar de roer as unhas e finalmente voltar aos meus trabalhos depois de uma hora perdida em total desespero. Confesso que no início estava fazendo pesquisas relacionadas ao trabalho, mas quando vi, minha página do Google Chrome estava com várias abas abertas sobre torturas medievais e execuções de servos que traíam ou faziam algo contra a coroa. Não posso dizer que sou piedosa, ou que perdão seja o meu forte.
Foi enquanto lia as pesquisas que ouvi o barulho do interfone, provavelmente era a Nicky tendo esquecido mais uma vez sua chave. O que ela faria se eu não estivesse em casa?
— Você esqueceu sua chave mais uma vez? — Perguntei ao atender o interfone.
— Olha, se você quiser me dar uma cópia, não vou ter como negar. Mas não acha que estamos indo rápido demais?
Quando ouvi a voz vinda do outro lado do interfone, voltei a sentir a sensação de me tornar o próprio Polo Norte.
? — Gaguejei e precisei de um tempo pra raciocinar. — Eu já estou descendo! — E desliguei o interfone.
É claro que eu não ia permitir que ele subisse para o apartamento a essa hora da noite, enquanto eu, uma garota bela e frágil, estivesse sozinha em casa.
Uma garota que tem namorado!
Estava tão nervosa que esqueci que desci em meu pijama, e o melhor, pantufas de coelhos cor-de-rosa.
Cheguei rapidamente à porta do prédio, porém não avistei sequer uma alma. Quando o abri e olhei aos arredores, vi o garoto sentado nos degraus que levavam à calçada.
— Rápida. Estava ansiosa em me ver? — Riu cínico.
— Cretino! — Falei quase sem fôlego por descer as escadas rapidamente. — O que está fazendo aqui?
O garoto se levantou e ficou próximo a mim, apesar de não ser tão alto, seu porte era incrível e quase me intimidou.
— Vim trazer uma oferenda à minha rainha, eu lhe disse. — E então levantou uma garrafa preta enquanto seu sorriso me deixava praticamente cega de tão luminoso.
A única coisa que pude fazer no momento foi engolir em seco enquanto meu coração batia tão rápido que poderia saltar de meu peito a qualquer instante.

I've never so adored you
I'm twisting allegories now
I want to complicate you
Don't let me do this to myself

*Resident Evil é uma franquia de jogos de terror de sobrevivência à zumbis para várias plataformas. Os filmes, com o mesmo nome, são baseados nos jogos, apesar da Alice não ter nada a ver com nada.
*Mario Party é um jogo competitivo que simula um tabuleiro com vários minigames, é o melhor jogo pra acabar com amizades. Se você tem um coleguinha com quem você não queira mais ter relações, mas não sabe como cortar o(a) coitado(a), sugira jogar Mario Party com ele e veja a magia acontecer. É mais eficiente que War.


Capítulo 5 - Haven't you people ever heard of closing a goddamn door?!

No, it's much better to face these kinds of things
With a sense of poise and rationality

— O-o que é isso? — Olhei chocada como se ele estivesse me mostrando um objeto extraterrestre.
— Exatamente o que você pediu. — Riu de um jeito que me fez querer matá-lo. — Por que não experimenta? — Me entregou a garrafa e recostou-se na parede do prédio enquanto analisava as minhas reações, que não eram das melhores. Eu estava tensa e parecia mais dura que um pedaço de madeira maciço. Eu e uma porta éramos quase a mesma coisa, se algum morador aparecesse agora, provavelmente iria me confundir com a entrada do edifício.
Resolvi dar uma chance para aquele objeto alienígena em minhas mãos. Abri a tampa e cheirei o seu conteúdo.
— Você não colocou nada estranho aqui né? — Perguntei desconfiada e ele gargalhou tão alto que até o último andar poderia ter ouvido.
— Por que eu faria isso, ? — Me olhou profundamente enquanto cruzava os braços.
— Porque você é completamente maluco. — Cerrei os olhos e ele riu ainda mais.
— Olha, sobre isso eu tenho que concordar com você. — Desgrudou da parede e voltou a sentar-se em um dos degraus da escada. — Mas não sou maluco de fazer algo ruim à minha rainha. — Deu tapinhas no chão, indicando para que eu me sentasse ao seu lado. — A não ser que a punição valha a pena.
— Idiota! — Minhas palavras e minhas atitudes eram controversas, pois apesar de que pudesse xingá-lo de vários nomes, ainda assim segui suas instruções como um cachorrinho e me sentei ao seu lado docilmente.
Tirei coragem de lugares desconhecidos ao decidir tomar um gole do que havia na garrafa, e para minha surpresa, era o próprio chocolate quente docinho daquele café maravilhoso.
— Você parece surpresa. — Disse me olhando com ternura enquanto apoiava a cabeça na palma de suas mãos. Aquilo me rendeu um arrepio na espinha pois eu não lembrava há quanto tempo o não me admirava assim. Depois de um tempo de namoro, parece que algumas coisas simplesmente vão parando de acontecer, mas não deveriam né? Bom, mas agora não é hora de pensar nisso!
— Claro! Mas como você fez isso? Eles te venderam uma garrafa térmica também?
— Você é uma boba né. — Riu. — Claro que não, eu dei uma passada em casa para buscar uma antes de pegar o seu negócio.
— Vamos recapitular então. Você estava no café, foi pra casa, voltou para o café e então veio pra cá? — Perguntei incrédula.
— Isso mesmo, Sherlock. — Piscou. — Mas não se espante tanto, eu moro pertinho do Central Park, então não foi nada.
— Não me espantar? Mas você ainda teve que atravessar a cidade pra vir entregar isso pra mim! — Agora sim eu estava chocada.
Ele simplesmente deu de ombros e, para evitar o constrangimento, me aproveitei do objeto em minhas mãos e tomei mais um gole do recipiente. O conteúdo desceu me esquentando naquela noite fresca, mas tenho certeza que o calor que senti não foi por conta do chocolate quente. Quem em sã consciência faria o que ele fez para alguém que mal conhece? E ainda com o pensamento de trazer em uma garrafa térmica para que o que for que estivesse dentro, permanecesse aquecido quando chegasse nas mãos da pessoa que fosse tomá-lo. Eu poderia gritar se não estivesse paralisada pelo choque. E porque seria estranho pois eu tenho n-a-m-o-r-a-d-o.
Okay, repetir isso pra mim mesma está ficando cansativo, eu sei, mas eu preciso sempre me certificar de me lembrar disso e não me deixar levar por esse rei demônio que está ao meu lado, que mais parece um príncipe, mas eu sei que é um demônio.
— Mas então, você gostou? — Pude sentir um toque de incerteza em sua voz. Talvez ele estivesse com medo que eu o julgasse pelo que acabou de fazer. Bom, na realidade não sei ao certo, esse homem é imprevisível e é impossível pra mim conseguir ler seus pensamentos.
— Claro! Está absolutamente delicioso! — Ele pareceu aliviado assim que falei. — Nem parece que estou tomando de uma garrafa térmica, está delicioso mesmo. — Reiterei enquanto apertava a garrafa contra meu peito.
— Fico feliz por apaziguar a ira da minha rainha. — Sorriu enquanto se levantava. — Bom, eu vou indo então.
— O-oque? — Tentei disfarçar o que parecia ser decepção em minha voz.
— Está tarde e já fiz o que vim fazer aqui. Achei que seria uma ótima forma de te dar uma folga dos trabalhos sem precisar sair de casa, agora você pode voltar lá e terminar as coisas com tudo. Também não posso ficar te atrapalhando muito. — Assim que ele terminou de falar, o calor que eu sentia por dentro já havia se tornado um incêndio.
Alguém chame os bombeiros.
— Ah, t-tudo bem então. — Me levantei e o abracei involuntariamente. Abraços assim não são normais de acontecer por aqui, mas não pude evitar. — Vai com cuidado e me avise quando chegar em casa, tudo bem?
— Pode deixar, Vossa Alteza. — Ele piscou e se virou para descer as escadas. — To absolutely drive you wild, wild. She’s all out to get you.
Permaneci no topo dos degraus enquanto ele começou a cantar Killer Queen, do Queen!!
Ele estava mesmo fazendo isso?! Ele estava mesmo cantando isso pra mim enquanto ia embora?
She’s a Killer Queen. Gunpower, gelatin. Dynamite with a laser beam.
Quanto mais ele se distanciava, mais eu apertava a garrafa contra meu peito.
Guaranteed to blow your mind.
Nesse momento eu tive a certeza de que esse homem poderia me matar um dia.
Anytime.
E então não pude mais vê-lo, ou ouvi-lo mais. Minhas pernas estavam bambas o suficiente pra me fazer permanecer no topo daquelas escadas apenas na presença de um recipiente alienígena que me fez sentir coisas que eu não deveria estar sentindo. Ao menos foi ao objeto que decidi focar a culpa.

— Ele fez o que?! — Gabriel soltou como um grito.
— Shh! Eu não contei ao ainda. — Sussurrei enquanto levei minhas mãos à boca do garoto para tapá-la.
— E você realmente pretende contar? — Perguntou ao se desvencilhar de minhas mãos.
— Bom… Acho que não seria justo não contar. — Recostei-me no sofá enquanto me encolhia no mesmo.
— E por que você acha isso? — Cruzou os braços.
— Porque pareceu algo mais que… bom, que apenas amizade. — Abracei minhas pernas.
— Eu tenho que confessar que também acho que você deveria contar a ele, afinal, metade do mundo já sabe dessa história, e não seria legal chegar aos ouvidos dele através de alguém que não é você.
— Não é bem metade do mundo né, Gabs! — Fingi um chute a ele.
, convenhamos que a gente não tem contato com mais ninguém além das meninas, então praticamente o nosso mundo inteiro já sabe, que no caso são elas, só falta ele saber. Ah, e o que a Tiff disse quando você contou a ela que ele realmente apareceu na sua casa?
— Bom, não fui eu que contei a ela, foi a Cass, que aliás ficou completamente surtada com essa história. — Estiquei minhas pernas e as coloquei por cima das de Gabs. — Mas a Tiffany disse que aparentemente isso que ele fez é normal e que ele já fez com outras amigas dele antes, não quer dizer nada.
Alguns anos depois descobri que isso que ela disse era uma total mentira pois ela queria amenizar o fato do irmão ter ido no meio da noite na casa de uma garota comprometida com outro homem.
— Mais um motivo pra contar para o e se certificar de que ele não confunda a situação.
— Exatamente! Mas ah, eu tenho tanto medo, vai que ele surta? Não quero que o clima fique ruim ou que o tenha que parar de frequentar nossos ensaios.
— Você gostou desse garoto né, ?
— Claro! Mas não da forma como você está pensando. Ele é muito legal e nossas conversas fluem muito, eu me sinto muito bem quando estou com ele. Faz tempo que não tenho uma amizade nova assim, já te falei isso.
— E eu lembro muito bem que te falei que era você quem ele queria, e não a Nicky. Mas como sou uma pessoa muito benevolente, não vou falar que avisei. — Riu triunfante. — Mas eu avisei.
— Eu ainda te mato um dia. — Arremessei uma almofada em seu rosto.
— Mas tenho que confessar que eu adoraria estar na sua situação. — Arremessou de volta a almofada em meu rosto, mas me defendi.
— O que quer dizer?
, acorda! Você está vivendo a típica história clichê da garota que fica entre o garoto bonzinho e o bad boy. Eu ia adorar estar no meio de um sanduíche desses. — Ri alto ao ouvir as besteiras que Gabs falou.
— Eu não estou no meio de nada, ta? Mas se a gente for pensar através desse raciocínio, o ogro do não seria o bad boy? — Questionei.
— Exatamente. Você nunca me decepciona. — Colocou a mão no peito fingindo estar orgulhoso. — É claro que depois daquela ação linda que o fez essa semana, ele obviamente se tornaria o garoto bonzinho, apesar de fingir ser um bad boy. Tudo fachada, ele seria um ótimo gay, que desperdício. — Começou mais um drama. — Por que todos os gays em potencial preferem ficar com você?
— Talvez porque eu seja uma ótima drag queen. Eles sabem que é tudo fachada também. — Rendi algumas risadas a ele.
— Me ensina os seus truques porque com as minhas técnicas ainda tá difícil.
— Você é uma ótima drag e vai fazer muito sucesso um dia, eu tenho fé. — Tirei minhas pernas de cima dele e o abracei.
— Obrigada, madrinha drag. — Retribuiu o abraço. — Mas vem cá, a Nicky reagiu como quando contou a ela a nova do Sr. Chocolate Quente?
— Ela não se importou muito, bom, ela é toda desapegada, mas estou com medo de que ela tenha ficado sentida. Me preocupo mais com ela do que com .
, você conhece a Nicolle, se ela tivesse se sentido mal com a situação ela teria lhe contado. Fica tranquila, tá? Ela sabe que sua intenção não é, e nunca será, furar o olho dela. Veja pelo meu exemplo, mesmo eu não tendo nenhuma chance com o , quando você percebeu que estava interessada nele, você veio conversar comigo pra perguntar se tudo bem. Você perguntou se eu via problemas em você gostar do mesmo garoto que eu! Não foi nem pra saber se tudo bem ficar com ele! , quem faz isso? Você é boa demais pra esse mundo e a Nicolle sabe disso, então não se preocupe. Eu vou conversar com ela pra me certificar de que está tudo bem, tá?
— Eu te amo tanto. — O abracei novamente.
— Eu sei. — Retribuiu o abraço mas não disse que me amava também. Maldito.
— As vezes eu me pergunto se é comigo ou com o Gabriel que você namora, . — apareceu sonolento na sala.
— Você ainda tem dúvidas? Claro que é comigo, você é apenas o amante das horas vagas. — Gabs disse enquanto colocava os braços em torno de meus ombros, fingindo ser um macho alfa.
— Vaza daqui. — fingiu ir pra cima do garoto menor, que antes de sair correndo sussurrou pra mim “Essa é a sua deixa.”
— Bom dia meu amor. — Abri os braços pra que ele viesse em meu encontro, e ele veio.
— Bom dia meu xuxu. — Ficou abraçado tanto tempo que achei que havia dormido em meus braços, mas logo despertou e se afastou.
— E então, deixa para o que? — Questionou. O não mosca em serviço mesmo.
— Ah, eu queria te contar uma coisa. — Pensei em pegar em suas mãos, mas eu estava com uma tremedeira de tanto nervoso e não queria que ele notasse, sem contar o fato de que minhas mãos começaram a suar loucamente.
— Diga. — Disse seco enquanto se sentava de frente a mim.
— Bom, promete não ficar bravo? — Aposto que essa pergunta ia causar ele a ficar bravo, mas não consegui evitar de perguntar.
— Desembucha, .
Eu estava prestes a morrer de nervoso.
— Bom, é que assim. Ah, você sabe né.
. — Bastou ele falar meu nome pra eu começar a ter uma sudorese tão intensa que comecei a suar por, literalmente, todos os meus orifícios.
— Você conhece o irmão da Tiffany, né?
— Como não conhecer? O cara ta começando a ir em todos os ensaios, . — Disse apoiando o cotovelo no encosto do sofá e a cabeça em sua mão fechada em um punho.
— Bom, tá, então. É, a gente andou conversando esses dias, mas sabe, ele conversa com todo mundo, ele conversou com você?
— Não.
Meu Deus, o mundo vai acabar novamente em um dilúvio, mas vai ser causado pelo meu suor.
— Ah, sério? Ah, então, bom, ele apareceu lá em casa essa semana no meio da noite pra me levar um chocolate quente porque eu falei que estava com vontade. — Vomitei tudo tão rápido que ainda não sei como ele foi capaz de entender.
— No meio da noite? — Questionou, ainda sério.
— Sim, mas não era tão tarde assim, ah, a Tiffany falou que ele é assim mesmo e que faz isso com amigas e não tem nada de mal nisso, aposto que ele levaria pra Nicky também se ela estivesse em casa.
— Ele foi justo quando a Nicky não estava lá? — Indagou seco. Ele era o próprio deserto do Saara nesse momento e eu sentia que ia morrer nessa tempestade de areia.
— É, mas foi justo um dia que eu estava bem estressada terminando os trabalhos da faculdade, acho que foi por isso que ele acabou indo mesmo ela não estando lá. Você sabe, ele gosta da Nicky, mas estamos nos tornando amigos e nada mais. — Tentei convencê-lo.
— Bom, acho que não tem nada de mais então. — Parecia que um elefante tinha saído das minhas costas quando ele disse isso.
— Você não está bravo? — Perguntei.
— Eu confio em você, . Sei que não faria nada com ele, então não tenho com o que me preocupar.
Fiquei tão aliviada ao ouvir isso que não me contive e o abracei, mas ele não havia terminado o que tinha pra falar.
— A única coisa que me preocupo é com o que podem pensar de você. — Fiquei tão chocada ao ouvir o que saiu de sua boca que o soltei lentamente. Será que eu ouvi direito?
— O que disse?
— Você sabe, todo mundo no prédio de vocês sempre me vê por lá, eles já me conhecem, então achariam no mínimo estranho te ver com outro cara no meio da noite sendo que você tem namorado. Sendo que o cara estava levando um tipo de presente pra uma garota que tem namorado, novamente, no meio da noite, então você sabe o tipo de coisa que pensariam de você.
Fiquei tão chocada ao ouvir as palavras que saíram de sua boca que mal pude raciocinar pra responder qualquer coisa.
— Bom, pelo menos não viram vocês, né? Então você não tem com o que se preocupar. — Deu leves batidinhas em minha coxa antes de levantar para seguir à cozinha.
Eu não sei dizer se ele quis me chamar de vagabunda pelas entrelinhas ou o que, ele podia não ser a pessoa mais delicada do mundo, mas nunca foi maldoso propositalmente comigo.
Assim que sumiu do meu campo de visão, senti meu celular vibrar pelo estofado do sofá. Era o Gabs.

“Seu namorado é um grosso.”


Tenho que concordar.

Fiquei possessa com o que o me disse, mas preferi não transparecer pois a situação poderia ficar pior se ele ficasse bravo, então tentava ao máximo fazer com que ele ficasse feliz todo o tempo. Até porque quando ele ficava feliz, ele era um amor, quase um anjo. Bom, também não foi difícil não transparecer a minha ira pois logo depois ele voltou com comidinhas e mimos que não podiam me fazer ficar brava com ele por muito tempo, não quando ele era tão queridinho. Eu fui fraca e acabei não resistindo à técnica do carinho após o coice, não deveria, mas não resisti.
Mas agora eu estava feliz por outro motivo, um motivo realmente relevante. Estávamos todos reunidos na casa de um amigo da Nicky, era noite de sábado e um ótimo dia para comemorar até o sol raiar.
— Viva ao Moonlit Waltz, a mais nova banda que irá debutar no Northside Festival! Nós conseguimos, garotas! — E então Nicolle abriu uma garrafa de vodka como se fosse uma de champagne.
— Viva! — Foi um coro em unisom.
— Vodka barata ao invés de champagne. Meu Deus como odeio pobres. — Gabs ironizou a situação.
— Desculpe se não somos podres de ricos como você, senhora rica. — Nicolle disse após tomar um gole da vodka pura, o que causou arrepios até mesmo em minha alma. Ri da situação de meus dois melhores amigos, mas ria mesmo por estar tão feliz ao ponto de não conseguir me conter. Conseguimos fazer parte das poucas bandas que foram selecionadas no concurso pra tocar no festival, o mesmo aconteceria só em Junho, daqui praticamente três meses, mas ao menos teríamos tempo de ensaiar bastante, e quem sabe, conseguir uma tecladista para se juntar à banda.
— Eu vi a cara de nojo, . — apareceu sorrateiramente em meu lado, cutucando minhas costelas ao falar isso, o que meu causou alguns pulinhos numa mistura de susto e cócegas.
— Ai! — Ria de nervoso enquanto tentava me defender.
— Um passarinho me contou que a senhora é uma baita alcóolatra, , então por que a cara de nojo? — Cessou os ataques.
— Porque não era eu que estava tomando, claro. — Minha resposta causou aquele riso gostoso que só ele consegue fazer. Parecia música para os meus ouvidos. — Mentira. Eu sou boa de copo, , mas não quer dizer que eu goste de degustar álcool puro. Meu paladar é treinadíssimo para apreciar sabores gostosos, e não matá-lo com álcool puro, ou quase.
— Então a senhora Vossa Alteza tem paladar de criança e gosta de coisas adocicadas, é isso? — Perguntou em meio a mais riso. Esse homem vai me matar com toda a certeza.
— Exatamente. — Respondi séria.
— Então mais tarde vou lhe fazer uma mistura que conquista qualquer pessoa, impossível você não gostar. — Piscou.
— Quer apostar, ? — Desafiei.
— Depende do que for a recompensa. — Seu riso virou apenas um sorriso de canto e seu tom de voz fez com que o alarme em minha mente disparasse.
Perigo! Perigo iminente.
— Vamos jogar “Eu Nunca*”? — Nicolle apareceu sorrateira para nos fazer essa pergunta.
Eu estava salva.
— Não sei se estou pronto pra que você descubra meu lado negro, Nicky. — lançou a ela, seguido de uma piscada.
— É justamente isso que quero descobrir. — Retribuiu a piscada.
E então foi isso que fizemos, juntamos todos que estavam no recinto e fomos para o último andar da casa, que possuía três andares. Além das habituais pessoas, havia também o dono da casa e alguns de seus amigos, que eram conhecidos de Nicolle também.
Bom, não preciso mencionar que havia feito muitas coisas. Muitas. Sua vida sexual já era de fato como a de um rockstar, só faltava sua vida profissional também se tornar como a de um. E claro que ele e Nicky trocaram várias indiretas muito diretas durante o jogo. Já eu era a maior sem graça, pois todos sabiam que era meu primeiro namorado e que eu não havia feito absolutamente nada com ninguém antes dele, nada além de beijos, então tudo que eu havia feito, todos sabiam que era com . Constrangedor.
Quando todos já estavam meio altos, paramos a brincadeira e o grupo começou a se dispersar pelos andares da casa. Minha surpresa foi ver ainda consciente depois do tanto que teve que beber.
— Confesso que estava curiosa para vê-lo alcoolizado, , mas você me parece surpreendentemente bem depois do tanto que teve de beber. — Disse ao me aproximar dele. Eu deveria estar preocupada em querer passar mais tempo com esse rei demônio do que com meu próprio namorado?
— Ah, você não iria querer ver isso, . — Não sei se é o álcool falando, mas toda vez que ele me chama por meu sobrenome, sinto um formigamento por todas as minhas extremidades. Não creio que ele tenha me chamado por meu primeiro nome até hoje.
— Claro que quero! Você já é excêntrico normalmente, fico curiosa pra saber como você fica quando o álcool afeta seu corpo e mente. Muito curiosa. Então vem, vamos beber!
Ele apenas riu e se recostou na estante de TV que estava atrás dele e cruzou os braços.
— Mil desculpas, mas hoje não, vossa Alteza. Quero estar muito sóbrio essa noite para o que vai acontecer.
Levantei uma de minhas sobrancelhas após ouvir o mistério que havia saído de sua boca.
— Mas o que vai acontecer essa noite? — Questionei, porém, não obtive resposta. Ele apenas sorriu com o canto da boca e permaneceu a me olhar por alguns segundos. Eu odiava a forma como ele me olhava como se estivesse lendo todos os meus pensamentos, eu me sentia vulnerável e odeio essa sensação. — Bom, é-é. — Gaguejei. Eu gaguejei depois de uma olhada dessas e ele riu levemente, ele deve pensar que sou uma idiota. Posso fingir que é efeito do álcool, e talvez seja mesmo. — Bom, mas então vamos combinar de sair um dia desses só pra beber, eu quero muito ver como você fica e assim ter coisas pra usar contra você.
— Ah! A srta. está mostrando sua verdadeira face! Aposto que quer me embebedar apenas pra abusar de meu corpo depois. — Fingiu um drama. — E eu não posso negar pois devo acatar tudo que vem de minha rainha! Mas isso é abuso de poder hein!
— Você vai ver o abuso de poder na forma de um punho, ! — Ri.
, ! Por que vocês dois não se juntam a nós, vamos beber mais um pouco! — Apareceu Cass nos puxando para o meio de uma nova roda formada. Meu alerta de perigo me fez preferir dispersar dela e tentar embebedar outras pessoas, pois é isso que eu faço. Amigo alcoolizado é amigo feliz.
— Pra você! — Levei um copo bem forte pro .
— Mas quanta gentileza. Ta querendo tratamento especial mais tarde? — Piscou.
— Você sempre me dá tratamento especial, . — Dei um selinho nele.
— Obrigado, amor. — Ele sorriu ao pegar o copo e tomou um gole que esvaziou metade do mesmo. — E eu faço porque você merece, eu não poderia querer namorada melhor.
— Você só está falando isso pra garantir seu lugar no céu, né. — Brinquei.
— Ainda bem que você sabe. — Riu.
— Idiota! — Dei mais um selinho nele enquanto sorríamos.
Após algumas brincadeiras e conversas dos que ainda permaneciam na sala de jogos no último andar, avistei descendo as escadas, e o álcool me fez correr atrás do garoto.
Ao menos o culpado foi o álcool.
— Quero saber quando irei provar da tão falada mistura dos deuses. — Disse descendo os degraus atrás dele.
— Estou indo fazer agora mesmo. — Respondeu sem se virar pra mim, e assim seguimos até a cozinha.
Ele abriu a porta pra mim como um servo abre para uma rainha, fazendo uma leve reverência. Eu apenas ri e passei saltitante por ele cozinha adentro. Ele pegou algumas bebidas que estavam na geladeira e começou a trabalhar em sua misteriosa mistura que não parecia nada diferente de vodka e suco.
— Experimente. — Disse ao me entregar um enorme copo com um líquido cor-de-rosa.
— Adorei a cor. — Mencionei.
— Eu sabia que ia gostar, por isso escolhi esse sabor. — Ele riu e eu estremeci. Logo em seguida enfiei a cara dentro do copo, igual fiz com a garrafa térmica da última vez, por não saber como disfarçar quando me sentia da forma como ele fazia eu me sentir. Pra minha surpresa, assim que engoli, era como se estivesse tomando um líquido feito de balas.
— Isso é muito bom! — Tomei quase metade do copo de uma vez só.
— Calma lá, mão pesada! — Ele disse tomando o copo de minha mão. — Isso é perigoso! O gosto doce disfarça, mas eu fiz super forte. Se não tomar com moderação, logo você acorda em um país desconhecido, sem saber como foi parar lá.
— Então quer dizer que o senhor me deu uma arma, é isso? Posso usar contra qualquer um que eu queira me livrar. — Disse em tom misterioso.
— Essa pessoa não sendo eu, você pode usar essa arma livremente. — Sorriu.
Ficamos alguns segundos nos olhando em silêncio. Era incrível como nos sentíamos à vontade em situações estranhas, até mesmo depois de alguma super constrangedora.
— Eu nunca te agradeci direito pelo chocolate quente, né? — Resolvi quebrar o clima. Ou piorá-lo ainda mais.
— Não precisa agradecer, eu realmente fiz aquilo porque achei que você iria gostar. — Ele disse dando de ombros, como se a atitude que fez não fosse especial. Só que era. — Olha,
— Vocês estavam aqui! — E então o garoto foi interrompido por Cass e Tiffany. Estavam com a raiz do cabelo úmidas e as bochechas extremamente rubras, pelo jeito delas, deveriam ter descido as escadas na velocidade da luz atrás da gente.
— Eu falei que estava vindo fazer mais bebida. — falou se aproximando delas na porta.
— Ah, mas vocês demoraram um pouco, então ficamos preocupadas. — Tiff disse com um tom que tinha a intenção de não ser nada demais, porém, a aparência das duas garotas contradizia com a forma como falavam tranquilamente.
— Preocupadas com o que? — O irmão perguntou se aproximando muito da mais nova.
Você sabe, . — Tiff estava mais seca que o costume, e Cass tinha um olhar desesperado para a garota, o usual olhar esbugalhado, como se quisesse ajudar em algo, mas não soubesse de que forma fazê-lo.
Achei que íamos todos voltar lá pra cima, então peguei o copo com bebida pela metade e me aproximei dos três na porta. Aproveitei para apagar a luz e comecei a dar leves empurrões nas costas de para que saíssemos da cozinha. O que me pegou de surpresa foi o fato de o mesmo empurrar as meninas para fora do recinto e fechar a porta com nós dois ainda lá dentro.
E trancar a porta.
Dei alguns passos pra trás e ele se virou para mim. Ficamos nos olhando por mais alguns segundos e então ele começou a caminhar na minha direção, no escuro, enquanto as meninas batiam e gritavam do lado de fora da porta.
Eu não fazia ideia do que passava em sua mente, ou do que ele pretendia fazer. Quanto mais ele se aproximava, mais nervosa eu ficava, parecia que ele iria me devorar assim que me alcançasse. Seu olhar era tão intenso que me fez esquecer meu próprio nome e até mesmo quem eu era, então quanto mais perto chegava, mais eu recuava, e mais até bater com as costas nos azulejos frios da parede no fundo da cozinha.
…? — Perguntei, mas ele permaneceu em silêncio, apenas abriu um leve sorriso enquanto se aproximava mais. Eu estava me sentindo a própria Chapeuzinho Vermelho, encurralada pelo Lobo Mau. Mais uma versão moderna dos contos de fada pra lista.
— Olha só. — Ele lentamente pegou o copo que estava em minhas mãos e colocou em uma bancada marfim velha que estava à minha direita. — É a primeira vez que me chama por meu primeiro nome, .
Não pude responder, simplesmente não tive forças pra fazer nenhuma palavra sair de minha boca, apenas continuei observando seus leves movimentos enquanto torcia para que uma passagem secreta se abrisse na parede de azulejos atrás de mim. Ao menos me projetava contra a parede com uma força suficiente para que eu mesma pudesse fazer uma no caso dela não existir.
As batidas e gritos continuavam, mas eu estava tão surpresa com o que quer que estivesse ocorrendo naquela cozinha, que os barulhos pareciam apenas ruídos no fundo de minha mente. Isso até ouvirmos uma voz que nos fez despertar do transe.
— O que está acontecendo? Por que estão gritando, suas loucas? — Eu nunca iria confundir aquela voz feminina característica. E então a dona daquela voz começou a bater na porta também. — Abre aí! Quero fazer pipoca!
Nós dois apenas nos entreolhamos, ele permanecia com o mesmo olhar intenso de antes, como se nada fora do recinto estivesse o afetando. Já eu estava com um olhar assustado e parecia que tinha uma melancia travada em minha garganta, e com o máximo de esforço possível, tentei engolir enquanto meu olhar se tornava um de ternura para com .
— É a Nicolle, você deveria abrir. — Disse como um sussurro para o garoto em minha frente.
Ele não respondeu, apenas apoiou uma de suas mãos na parede, bem ao lado de minha cabeça, e com a outra pegou uma mecha de meus cabelos e a ficou alisando enquanto a fitava.
. — Tentei com todas as minhas forças falar o mais firme possível, mas minha voz saiu novamente como um sussurro. — Vocês… Vocês fariam um casal lindo, então abra logo a porta. — E assim, junto com essas palavras, com muito custo, a melancia se foi.
… — Continuou alisando minha mecha, e para minha surpresa, seu olhar parecia triste de uma forma que eu não conseguia explicar. Essa situação toda estava me deixando maluca ao ponto de não conseguir ao menos raciocinar o mínimo possível. — , só me deixe dizer uma coisa.
, é sério, você e a Nicolle seriam um casal lindo, então por favor... — Ele levantou o olhar baixo para meus olhos de forma tão brusca que parecia ter tirado todo o fôlego que ainda me sobrava.
— Como quiser, Vossa Alteza. — Disse soltando minha mecha lentamente, fazendo os fios de cabelo caírem um a um com a ação da gravidade.

— Relaxa, . — Pra minha surpresa, seu olhar brincalhão voltou, assim como seu sorriso habitual.
Antes de se virar, deu um peteleco em meu nariz e seguiu em direção à porta, a abrindo. Tiff e Cass nos olhavam desesperadas sem saber o que tinha acontecido ali.
— Vocês precisam aprender a brincar mais. — E então, deu praticamente um mata leão na irmã e seguiu a arrastando escada acima enquanto a mesma se debatia e tentava mordê-lo.
Nicolle e Cass entraram na cozinha e acenderam a luz. A primeira estava normal e foi caçar um pacote de pipoca nos armários perto de onde eu estava, e a segunda veio em minha direção com o olhar mais desesperado que a vi fazer.
— Calma Cass, quando ele trancou a porta, pediu pra eu ficar em silêncio porque ia ser divertido vê-las desesperadas. Sádico o menino . — Tentei rir da forma mais verídica possível.
— É isso que gosto nele. — Nicky soltou enquanto estava na ponta dos pés tentando alcançar o fundo do armário.
— E é por isso que vocês combinam. — Mencionei ao pegar meu copo com a mistura, logo me encostando na bancada de marfim.
Cass apenas me olhou como se buscasse uma confirmação de que realmente estava tudo bem, e eu confirmei com a cabeça enquanto sorria sem mostrar os dentes. A mesma soltou um suspiro de alívio e deu meia volta, saindo da cozinha.
— As vezes eu acho que ele está mais interessado em você. — A garota ia em direção ao microondas, mas permanecia com o olhar grudado em mim. Já eu estava rindo de nervoso de seu comentário.
— Impressão sua, tá? A gente só se dá muito bem da forma como me dou bem com você e o Gabs, por exemplo, nada além disso. — Me sentia mal por mentir para a minha melhor amiga, mas não sabia como ser sincera com ela sem que ela se sentisse mal com isso, as vezes a ignorância é uma benção.
— Menos mal então! Eu não iria querer ficar com um cara que quer pegar eu e minha melhor amiga ao mesmo tempo. — Eu estava suando de nervoso mais uma vez, lá vem o dilúvio. — Mas vem cá, você realmente acha que ele está interessado de verdade em mim, ?
— Nicolle, isso é óbvio! Eu mesma já falei isso pra ele. — Evitei contar a parte do que aconteceu antes disso. — E ele pareceu concordar.
— Não sei se é o álcool falando, mas vou fazer acontecer! — Dizia com muita empolgação.
— Você nunca precisou de álcool pra fazer acontecer, Nicolle!
— Eu amo você, ! — Se aproximou de mim e me deu um abraço firme. — Fica de olho na pipoca pra mim? Vou dar uma subidinha, preciso ir ao banheiro.
— Claro, vai lá, quando terminar eu subo e levo. — A garota me lançou uma piscada quando terminei de falar e saiu da cozinha feliz e alcoolizada.
Finalmente a sós, fiquei perdida com meus próprios pensamentos, não que fosse algo que eu pudesse evitar, afinal, minha mente estava a mil depois do que quer que tenha acontecido nessa cozinha. Fui desperta apenas quando o microondas terminou de apitar, anunciando uma pipoca fresquinha pra quem quisesse saboreá-la. Só nesse momento me dei conta que havia terminado tudo que havia no copo, sendo que nem percebi que estava tomando o conteúdo dentro dele. Perigoso, .
Peguei o saco de pipocas e o abri dentro de um pote oval de plástico, peguei o mesmo e segui em direção à escada. Chegando na metade do caminho, vi Gabs sentado no topo dos degraus que levavam ao segundo andar, pelo visto, me esperando.
— Senti o cheiro. — O garoto admitiu.
— Imaginei. Gordo. — Ri para o mesmo que fingiu me dar um chute. — A Nicky está lá em cima?
— Na real que ela estava procurando um banheiro. O dono da casa ta vomitando no que tem lá em cima.
— Mas já? — Questionei surpresa.
— Esse povo é fraco, . Faltam anos de treinamento para chegarem ao nosso nível. — Riu. — Mas disseram que havia um banheiro no quarto desse cara, provavelmente ela deve ter ido lá.
— Vamos lá! Vai que ela está passando mal também. — Disse genuinamente preocupada.
— Passando mal? A Nicolle? Você realmente conhece a amiga que tem? A Nicolle é nossa mestra, , ela já nasceu bebendo, .
— Nunca se sabe! E ela bebeu muito em pouco tempo, também não lembro dela ter comido nada hoje, acho que por isso decidiu fazer a pipoca, pra evitar um estrago. — Disse enquanto levantava o pote para o garoto.
— Vamos lá então, fica aqui no segundo andar. — Foi convencido.
O que não esperávamos era ver a cena que vimos quando entramos no quarto escuro, com dois corpos dando o maior amasso no chão, próximos à cama.
É, era um ótimo servo, ele acatou o mais rápido possível as ordens de sua rainha.

Oh, isn't this exactly where you'd like me?
I'm exactly where you'd like me, you know
Praying for love in a lap dance and paying in naivety

*Eu nunca é um jogo em que uma pessoa diz algo que nunca fez, por exemplo: “Eu nunca fiz xixi na cama” e quem fez isso, bebe uma dose de álcool. A graça do jogo não é usar frases clichês como o meu exemplo, mas focar na putaria pra desmascarar e descobrir os podres dos amiguinhos.


Continua...



Nota da autora: Alo alo ♥ Obrigada por estarem acompanhando a fic até aqui, significa muito pra mim e espero de coração que estejam gostando! Eu to amando escrever ela e ver os comentários de vocês me deixa meeeega feliz! Beijos e até a próxima att ♥

PS: Caso vocês tenham dúvida em imaginar como seria o estilo do Moonlit Waltz, imaginem a primeira fase de Marina and the Diamonds! Ela é minha maior inspiração pra banda das meninas e é o estilo que a pp está procurando!

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.


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