Última atualização: 07/02/2019

Capítulo 1 - Baby, we built this house on memories

“Ever since we met
I only shoot up with your perfume
It's the only thing
That makes me feel as good as you do
Ever since we met
I've got just one regret to live through
And that one regret is you”

Nearly Witches - Panic! At The Disco




Back to the place
Where we used to say
“Man it feels good to feel this way”
Now I know what I mean.

— Amor? – Fui despertada pelo som suave de sua voz.
Permaneci de olhos fechados na esperança de ouvir um suspiro confessando a desistência de alguém que me permitiria dormir por mais alguns minutos, com sorte, por mais alguns dias. Quem sabe anos? Seria isso pedir demais? Afinal, nada melhor do que aproveitar um belo e ensolarado Sábado do que em uma confortável e aconchegante cama: dormindo. Porém, o único som que ouvi foram de motores e buzinas de carros. Ah, a definição de tranquilidade. Tem momentos que sinto falta de morar no interior e acordar ao som de cantos suaves de belos pássaros.
— Amor, nós vamos nos atrasar. – Agora, além de ouvir sua voz, podia sentir seus dedos mornos tirando alguns fios de cabelo selvagens que se encontravam em meu rosto. Aliás, uma bela visão de fato deveria ser.
Nada de suspiros e nada de dormir por mais alguns anos. A vida não está sendo fácil para você, .
— Cinco minutos? – Implorei.
, levanta de uma vez! – Esbravejou.
Paciência nunca foi uma de suas virtudes, e eu admito que não podia resistir as oportunidades de vê-lo se exaltar, na brincadeira claro, para então ver seu sorriso aberto me chamando de chata, pra não dizer coisa pior, seguido de um beijo que eu tanto amava.
— Tão querido quanto um coice de cavalo. – Falei sorrindo sem abrir meus olhos.
— Você sabe há quanto tempo estou tentando te acordar? – Dizia em tom de revolta, mas eu sabia que ele não era um bom ator.
— Mas dormir é tão bom! — Gemi. — Você deveria experimentar algum dia. – Disse enquanto abria meus olhos e o via revirando os seus.
Ele permaneceu deitado na cama ao meu lado apoiando seu rosto em uma de suas mãos e o cotovelo no travesseiro. Olhava fixamente pra mim de forma séria, apesar de não conseguir disfarçar a doçura em seus olhos. E que olhos! Eram tão grandes e delicadamente redondos, eu os achava o par de “coisas” mais lindas que o universo já havia criado. Universo que eu também podia ver refletido em seu olhar, principalmente quando eu sabia que eu era a única que seus olhos podiam enxergar.
Eca, as vezes me surpreendo com o quão bregas meus pensamentos podem ser quando o assunto é aquele homem. Tudo bem, , acabou sua cota mensal de romantismo.
Cota anual talvez?
— Já é meio-dia, precisamos nos arrumar logo se ainda temos alguma esperança de almoçar. – Seu rosto se contorceu em uma careta em sua tentativa de fingir uma seriedade. Obviamente falha. Ao menos alguém deveria manter o controle para que a Bela Adormecida não atacasse novamente com seu sono pesado.
— Bom dia pra você também, . – Abri um sorriso preguiçoso e estiquei meus braços como uma criança que aguarda a mãe lhe entregar seu brinquedo favorito, isso misturado a um espreguiçamento involuntário. Logo ele se aproximou com um sorriso bobo e eu envolvi sua nuca com meus braços, indo de encontro a seus lábios.
Senti suas mãos envolverem a minha cintura enquanto ele se posicionava sobre mim, me dando seu bom dia padrão em forma de um amoroso beijo. Logo, o beijo foi se tornando mais quente e sua mão foi descendo e se posicionando em meu quadril.
, nós vamos nos atrasar. – Disse calma, acariciando seu cabelo enquanto aproveitava sorridente os breves beijos que dava em meu pescoço.
— Cinco minutos? – Implorou.
, você sabe que vai demorar mais que isso. – Eu dizia em meio a uma risada.
— Nós ainda tempos tempo, não temos? – Desistiu do meu pescoço e choramingou enquanto se afastava e me lançava um olhar de cachorro pidão.
— Você ainda quer almoçar? – Coloquei meus dedos no queixo e o olhei como se essa fosse uma pergunta que a resposta seria muito difícil de ser encontrada.
Comida. Comida sempre foi nosso ponto fraco.
— Eu sei que você quer. – Fez bico antes de rolar para o meu lado. Talvez apenas o meu ponto fraco.
Soltei uma risada e me apoiei em seu peito, lançando vários beijos em sua bochecha e lábios.
— Eu te compenso quando voltarmos, o que acha? – Fiz a proposta.
— Okay, okay! Apenas vá se arrumar logo. – Disse emburrado.
— Te amo! – Lancei mais um beijo em sua bochecha.
Levantei rapidamente antes que ele pudesse mudar de idéia e acabássemos passando a tarde toda ali mesmo. Não que fosse uma má idéia, era de minha preferência também.
Caminhando em direção ao banheiro, me perdi em pensamentos das várias possibilidades em que poderíamos aproveitar a nossa tarde ali mesmo, soltando um longo suspiro logo em seguida ao concluir que tomaríamos o rumo em que nenhuma delas ocorreria, pois todo sábado eu tinha um compromisso com algumas amigas, um compromisso chamado: Moonlit Waltz.
Esse era o nome do segundo amor da minha vida, digo segundo porque resmungaria se me ouvisse dizer que era o primeiro, apesar de ele saber muito bem que não existe nada, nem ninguém, com quem ele precisasse se preocupar. Não por ele ser convencido, bom, talvez um pouco. Ok, talvez muito. Mas por eu ser apaixonada demais, pra não dizer obcecada, por ele pra conseguir enxergar qualquer outra pessoa de outro modo.
Bom, isso tudo não vem ao caso, apenas não consigo me conter quando o assunto é o . Nada demais em se perder em devaneios por ter alguém em seu coração, não é mesmo? Isso que minha grande surpresa foi a descoberta de que eu tinha um pra início de conversa, portanto, devo aproveitar esse fato ao máximo.
Mas Moonlit Waltz, certo? Esse era o nome da banda que eu havia formado com algumas amigas meses atrás após ter me mudado pra Nova York.
— Amor, você consegue algo melhor que isso. – Disse enquanto reparava, no espelho do banheiro, em como estava o estado do meu ser após essa bela noite de sono. Tão bela que eu me encontrava no total oposto.
Mas eu ainda parecia melhor do que o caos implantado na pia. O mármore branco mal era visível com o tanto de utensílios espalhados e coisas que sequer pertenciam ao recinto. Quem deu mesmo a ideia de homens viverem sozinhos sem a devida supervisão dos pais? Uma noite, realizei uma fuga silenciosa do quarto para fazer um breve assalto à geladeira e me deparei com o controle da TV a cabo repousando no porta ovos da mesma. Controle, aliás, que havíamos passado o dia todo a procura, sem sucesso. É claro que minha fuga silenciosa resultou no condomínio inteiro acordado com a gargalhada de gralha que soltei ao encontrá-lo naquele local.
— Cala a boca! – Ouvia o grito fraco vindo do quarto.
Aposto que no tempo em que me desloquei do quarto ao banheiro ele já estava pronto e faria questão de expor o quanto eu demorava ao me arrumar, mas era ele que era rápido demais pra efetuar tal manobras. Pra variar, mais uma pessoa que era mais rápida que Barry Allen, the fastest man alive.
Ao avaliar meus cabelos, percebi como encontravam-se quebradiços. É triste ter as pontas do cabelo com um platinado maravilhoso, mas destruídos por conta de uma noite de sono em que eu não conseguia me manter parada, assim como todas as outras noites. Nunca entendi essa minha hiperatividade noturna. Muitas vezes derrubei da cama por conta da necessidade de controle de toda a área que meu subconsciente decidiu ter.
Ainda estou aguardando minha coroação como Rainha dos Lençóis.
Puxei todo meu cabelo para um lado e permaneci cinco minutos com um olhar de luto para aquele estado revoltoso em que o mesmo se encontrava. Namoro com há tanto tempo e mesmo assim sempre me esqueço de trazer produtos de importância diária, para o cabelo, claro, para sua casa. Trago somente o básico para maquiagem, isso que ele já reclama que há mais coisas minhas do que dele aqui.
Não que qualquer produto que eu trouxesse fosse caber nesse pandemônio instaurado, que no caso era a pia dele.
— Descobri o motivo de você demorar tanto pra se arrumar, , passa uma eternidade olhando para o cabelo! – Disse encostado na porta, olhando pra mim com reprovação pelo reflexo do espelho que se encontrava paralelo com a porta.
— Mas olha pra ele, amor! Eu cuido dele com tanto amor e carinho pra ele já amanhecer dessa forma? – Fiz drama ao me virar drasticamente, ficando de frente a ele.
Após passar os dedos pela extensão de meus fios, os peguei pelas pontas e comecei a balançá-los pelo seu rosto.
— Fica lindo de qualquer jeito, assim como você. – Disse rindo enquanto tentava se defender dos ataques capilares.
— Mesmo? – Perguntei ao cessar os movimentos e iniciando o pior de meus ataques: o olhar pidão.
— Mesmo, mesmo. – Sorriu com ternura.
Ele se aproximou pra me dar um beijo, mas fomos interrompidos.
— Vocês são tão melosos. – Disse Gabs soltando um suspiro de revolta enquanto nos separava e passava entre nós banheiro adentro.
— Também te amo. – Disse sorrindo para Gabriel enquanto me encostava em .
— Eu sei. – Me mandou um beijo antes de ligar a água da torneira e mergulhar seu rosto.
Gabriel era meu melhor amigo e, é irônico dizer, mas sua acidez e sarcasmo são dois pontos que tornam sua personalidade extremamente cômica, ele sabe muito bem dosá-los e usá-los da melhor forma. Mas isso é apenas uma fachada para a doçura pisciana que se encontra em seu coração, mesmo que encontrada bem lá no fundo. O considero como 1/3 de minha alma gêmea, 1/3 porque apesar do termo ser “alma gêmea”, nós sempre dissemos que a alma foi separada em três: Eu, Gabs e Nicky, a guitarrista do Moonlit Waltz. Somos inseparáveis, sempre fomos, e se tornou nosso agregado após o início do nosso namoro dois anos atrás. Quando Nicky se mudou pra Nova York, era óbvio que eu e Gabs a seguiríamos pra cá, com motivos muito concretos admito. Nicolle sempre foi extremamente talentosa em tudo que decidiu fazer, eu a admirava tanto, principalmente porque nos conhecemos com poucos anos de vida e eu a via como uma irmã mais velha por conta dos três anos de diferença que existiam entre nós. Quando decidiu se focar na guitarra, eu a via tendo um futuro brilhante na música, seus dedos pareciam fazer mágica em forma de som, era algo maravilhoso de se ver e de se ouvir. Por conta disso, decidiu tentar a sorte em Nova York e montou uma banda com algumas garotas, mas nunca esteve contente com as vocalistas que encontrava, talvez o motivo tivesse sido o fato de estar mal acostumada com a minha voz de quando tocávamos de brincadeira em nossa cidade natal. Apesar de não ser sério, foi por conta disso, e dela, que nutri um amor maior por cantar e decidi me aprofundar. Certo dia, em uma das visitas que fiz a ela em sua nova cidade, resolvi acompanhá-la em um dos ensaios para relembrar os velhos tempos, não que esses fossem tão antigos assim. Como estavam em atrito com a vocalista na época, a mesma não havia ido ao ensaio e Nicolle me pediu para que a substituísse.
— Não quero tocar minha guitarra para uma voz que não seja a sua! — Nunca esquecerei das palavras que saíram da boca da minha melhor amiga aquele dia, muito menos da intensidade em seu olhar ao dizê-las. Como eu poderia dizer não quando sentia a seriedade emanar de todo o seu corpo? Naquele momento me senti formigar dos pés ao couro cabeludo, e até hoje não sei como consegui manter o microfone em minhas mãos, não sei dizer se aquilo foi causado pela intensidade de Nicolle, pelo meu amor em cantar, por ser a sensação de que era aquilo que eu realmente deveria perseguir em minha vida ou todas as opções ao mesmo tempo. Me sinto arrepiada toda vez que lembro daquele momento, e admito que também não desejo cantar para uma guitarra que não seja a dela. E foi assim que me tornei a vocalista honorária da banda, que não possuía nome ainda na época. Nós decidimos dividir um apartamento e eu me mudei assim que passei em um curso de Contabilidade aqui na cidade e ao encontrar um trabalho de meio período. Gabs e decidiram tomar o mesmo rumo, com um pouco de influência minha, eu confesso.
Já os dois garotos nunca estiveram contentes com a cidade em que morávamos por inúmeros motivos, e aqui eles teriam mais oportunidades de finalmente encontrarem um objetivo concreto em suas vidas, e eu mal podia esperar para vê-los desabrocharem finalmente. Nada melhor do que ver as pessoas especiais em nossa vida estando contentes com as escolhas que fazem em suas próprias, e a mudança para Nova York foi a primeira delas.
— Um banheiro é muito pouco pra um apartamento com vocês dois nele. – Lançou .
— Já sabemos o que procurar quando formos morar juntos! – Eu disse brincando. Apesar de ter um ligeiro fundo de verdade. Ligeiro.
— Você já praticamente mora aqui! – Disse enquanto apoiava o queixo em minha cabeça.
Porque quando se é baixo, você serve de mesa para as pessoas. Já acostumada, olhei pra cima e sorri largada.
Após algumas insistências de para fazer com que eu e Gabs nos apressarmos, algo que já era de costume, finalmente terminamos e almoçamos rapidamente antes de correr para conseguir chegar ao metrô a tempo. Praticamente engoli a comida e grunhi por não ter a possibilidade de saborear com calma aquele macarrão com molho branco que tanto amo.
Precisávamos chegar na hora para aproveitar bem o tempo de ensaio, principalmente porque em uma semana nós faríamos nossa primeira apresentação, então não tínhamos tempo a perder com todas reunidas.

— Uh, foi por pouco! – Disse ofegante enquanto me apoiava na porta do metrô que havia acabado de se fechar atrás de mim.
— Tudo porque vocês enrolam demais. – Me puxou pelo braço e me envolveu contra seu corpo enquanto se segurava com a outra mão.
Quando se está com um namorado no metrô, não precisamos nos segurar em mais nada e ainda serve como barreira contra a multidão. É extremamente conveniente.
— Preciso estar bonito para o meu futuro marido. Ele pode estar aqui, agora, nesse exato momento. – Disse Gabs avaliando os seus arredores.
— Pode ser aquele velho ali. – apontou com a cabeça.
, não destrua meus sonhos juvenis. – Fingiu um drama.
— Ou pior, pode ser aquela garota. – Apontei para um canto.
— De garotas na minha vida já basta você e a Nicky. – Me olhou sarcástico enquanto eu o lançava um beijo debochado.
Após alguns minutos, finalmente chegamos ao nosso destino. Andamos rapidamente para chegar a casa de Cassandra, nossa baterista. Sobre chegar no horário? É, não foi dessa vez. Mas como sempre digo, não podemos evitar o inevitável, o importante é tentar se atrasar o menos possível.
, você falhou novamente. – Disse Tiff em tom de desapontamento. Ela sequer olhou para nós e continuou ajustando a alça de seu baixo.
— Você está culpando a pessoa errada, tampinha. – passou dando leves tapas em sua cabeça enquanto a mesma debatia seus braços na tentativa de se defender dos supostos ataques, o que me rendia algumas risadas.
— Tiff, você sabe que a culpa é dele, não posso evitar, Chronos não permite que eu chegue no horário. – Eu disse tentando separá-los.
— É por esse motivo que ele falhou! Já que você é enrolada, não podemos fazer nada, mas é o trabalho do impedir que você se atrase. – Disse séria.
não conseguiu novamente? – Disse Nicky entrando na garagem ao lado de Cass. – Estou começando a duvidar do seu comprometimento com a banda, meu querido, acho que precisamos tomar medidas drásticas. – Disse de olhos fechados em tom pensativo.
— Todo mundo erra, Nicky. – Defendeu Cassandra. - Acho que deveríamos dar mais uma chance a ele. – O olhava com pena enquanto tentava argumentar.
De repente estava se tornando um assunto sério. Isso se de fato assuntos sérios fossem abordados aqui. Apesar de Tiff ser a garota mais fechada de nós, nada de bom saía de nossas bocas quando estávamos todos reunidos.
— O Gabriel é prova de que fiz o possível para chegarmos na hora, mas estou começando a acreditar nesse papo de Chronos da , acho que ele pode ter algo a ver com isso sim. – Disse sério enquanto se sentava no sofá ao meu lado. – Não é mesmo, amor? – Me lançou um olhar como quem dissesse que se eu não o defendesse, ele não me alimentaria. Perigoso.
— Não me meta nessa, a responsabilidade é sua. Apenas lido com fatos e os fatos do momento são que você vacilou e que eu preciso urgentemente de um boy novo, enjoei dos que já tenho. – Disse Gabriel enquanto avaliava algumas fotos em seu celular. Ninguém aqui precisa vê-las para saber que tipo de fotos havia em seu álbum de figurinhas em formato eletrônico.
— Rodada. – Resmungou .
— Vivida. – Retrucou Gabs.
Após algumas risadas e besteiras ditas, resolvemos iniciar o nosso ensaio. O tempo que tínhamos era curto para aproveitar a garagem de Cass sem que os vizinhos começassem a se incomodar. Queríamos muito que nossos ensaios fossem todos no estúdio, mas tínhamos condições para bancar apenas alguns ensaios por mês no local.
Porém, nossos sonhos poderiam estar mais próximos do que nunca. Estávamos nos preparando para um concurso de bandas que ocorreria dentro de uma semana. Se passássemos, teríamos a oportunidade de nos apresentar em um show com outras bandas famosas daqui e isso aumentaria a nossa visibilidade. Mais visibilidade quer dizer mais fãs, mais shows, mais dinheiro, e quem sabe, um olheiro se impressione conosco em um desses shows! Só de pensar nisso tudo eu já sentia meu corpo cheio de energia e empolgação. Ótimos sentimentos para transmitir através de minha voz. Energia também que no fim do dia estava totalmente esgotada. Apesar de que a sensação de gastar toda essa energia com algo que amo é extremamente gratificante.
— Posso perguntar algo a vocês? – Disse Tiff enquanto arrumávamos nossas coisas para irmos embora.
— Claro, já devia ter perguntado! – Disse Nicky abrindo um sorriso na tentativa de deixar a menor mais a vontade.
— Posso trazer meu irmão para o ensaio amanhã? – Perguntou sem jeito.
O silêncio tomou conta do local, fazendo com que Tiffany nos olhasse levemente surpresa, mas não tão surpresa quanto nós estávamos. A menor nunca foi de falar muito dela mesma, mas sempre que tinha a oportunidade, enaltecia brevemente seu irmão. Podíamos perceber em suas palavras o carinho e o amor que os dois nutriam um pelo outro, apesar de nunca o termos visto. Apesar do amor, Tiff se sentia enciumada do irmão, este sendo, portanto, o motivo de ter demorado a finalmente nos apresentar ao mesmo. Apesar de não entender o motivo, creio que a única pessoa com quem ela realmente precisasse se preocupar fosse Gabs, que realmente não perdoa nem uma viva alma. Soltei uma leve risada só de imaginar o Gabs atacando o irmão indefeso da nossa baixista.
— Você irá finalmente nos apresentar a ele? O famoso irmão mais velho? Finalmente? – Podíamos perceber a empolgação repentina em Nicolle, o que deixou Tiff sem jeito.
— Bom, ele vai assistir nosso show, então achei que seria bom se ele já conhecesse vocês, então o ensaio é uma boa oportunidade.
Nossos olhos brilhavam em pensar na possibilidade de conhecer o tão falado irmão. É como dizem, a curiosidade matou o gato.
— Claro que pode trazê-lo, já devia ter feito isso! – Disse Gabs apoiando o queixo em suas mãos enquanto os cotovelos apoiavam o braço do sofá em que estava esparramado. Eu podia até ver um rabo imaginário balançando incontrolavelmente atrás dele. Um de raposa, claro.
— Você se controle! – Comandou Tiff.
— Pode deixar, madame! Não farei nada que o querido irmão não queira fazer. – Piscou a raposal.
Após nos despedirmos de Cass, fomos com o restante do Moonlit Waltz comer um delicioso e aguardado jantar no nosso querido dogão da esquina. Ah, quando a simplicidade e a gostosura se casam, não há nada melhor.
Comemos e conversamos um pouco e logo partiu cada um para sua casa, eu voltei com Nicky pois pretendíamos resolver algumas coisas da banda, mas nos encontraríamos com e Gabriel no ensaio do dia seguinte.

— Na hora! – Lancei enquanto entrava na garagem. – Isso não é bom sinal, algo terrível irá acontecer hoje! – Fingi um desespero.
— Você?! Na hora?! Isso não é bom presságio. – Disse Nicky apoiando os cotovelos em meus ombros. – Mas eu faço um trabalho melhor que o .
— Casa comigo? – Propuz.
— Quando marcamos a data? – Me olhou com um olhar malicioso.
— Antes de pensar na sua Lua de Mel, deveria pensar em como Chronos irá te punir. – Lançou enquanto nos olhava do sofá.
— Não, não, não! Vamos apenas pensar em coisas boas, principalmente porque o próximo Sábado é O dia! – Me dei o direito de afundar no peito de Nicky que me envolveu em um abraço.
Nicky era cerca de 15 cm mais alta que eu, com isso, nosso abraço era sempre muito confortável para mim. Isso, claro, quando seus longos cabelos castanhos, ondulados e extremamente cheios não me sufocavam durante o mesmo, chegaria a ser desesperador se não fosse cômico: O Ataque Capilar Parte 2. Mas dessa vez eu era a vítima, not cool.
— Mas ainda é a primeira vez que alguém faz a chegar no horário. Quer um prêmio? – Perguntou irônico.
— Quero a sua demissão. – Respondeu Nicky.
— É, , não tem mais como te defender, não é mesmo? – Lançou Cassandra enquanto ria e cumprimentava o rapaz.
Apesar de Nicky ser a deusa da banda, Camilla não ficava muito atrás. Sendo a mais alta de todas nós, possuía pernas invejavelmente lindas e longas, ao contrário dos cotocos que eu chamava as minhas, e estava sempre com um sorriso radiante e inocente no rosto. Isso em conjunto com seus curtos cabelos louros a tornavam maravilhosa, mas o que era ainda mais maravilhoso nela seria sua personalidade inocente. Cass se tornara extremamente especial para mim em um curto período de tempo, assim como Tiff, a última integrante da banda.
— É a primeira vez mesmo. – Enfantizou Gabs.
— Vocês parem! – Chorei. – Estou falando, algo terrível vai acontecer conosco! Chronos irá nos punir, nós mexemos com o curso natural da Terra, não estão vendo? – Continuei o drama enquanto me debatia nos braços de Nicky.
— Nós? Não é você que tem problemas com o relógio? Isso quer dizer que algo terrível irá acontecer apenas a você, não é? – me lançou um sorriso malicioso enquanto tentava despertar o medo em mim.
— Amor, não duvide da ira de Chronos. – Fiz bico enquanto Nicky acariciava o topo de minha cabeça como se eu fosse um gatinho que precisa ser acalmado. – Mas e a Tiff? Ainda não chegou? – Cortei o assunto na intenção de não irritar ainda mais o deus do tempo.
— Ela está chegando com o irmão dela. – Disse Cass enquanto piscava para nós.
— Ela fala tanto dele, já estava na hora. Finalmente alguém pra me fazer companhia. – Brincou .
— Ei! – Resmungou Gabs.
e Gabs apenas nos acompanhavam nos ensaios, mas enquanto brincava com o violão de vez em quando, Gabs era nosso groupie.
Nos sentamos todos no sofá e nas poltronas que se encontravam na garagem e ficamos papeando enquanto aguardávamos a chegada da baixista. Tiffany e Cassandra eram melhores amigas, as duas eram o total oposto uma da outra, Cass era escandalosa e foco de muitas brincadeiras nossas, enquanto a outra era reservada e ficava na espreita para uma brecha na maior para lançar alguma frase de efeito com foco nas besteiras que a mais alta soltava.
Estar com todas elas era tão divertido e eu mal podia esperar pelos dias que passávamos todas juntas, pois nos tornamos uma verdadeira família, a família do Moonlit Waltz, que também contava com e Gabs como nossos “acompanhantes”, vulgo agregados.
— Desculpem a demora! – Disse a pequena integrante da família que estava faltando. – Mas chegamos!
Tiffany entrou ofegante pela garagem enquanto puxava o garoto ao seu lado, que ao contrário dela, se apresentava calmo e bem arrumado, sem uma gota de suor pelo rosto.
— Esse é , meu irmão.
O garoto tirou os óculos escuros em um movimento que mais parecia um astro de rock dando atenção à suas fãs enquanto abria um largo sorriso para nós.
Naquele momento, eu nunca iria adivinhar tudo o que iria acontecer pela frente e que aquele sorriso iria se tornar um dos meus piores pesadelos. A vida é uma caixa de surpresas, e ali estava aquela que se tornaria o meu nemesis.

Hey moon, please forget to fall down
Hey moon, don't you go down



Capítulo 2 - When the day met the night

When the moon fell in love with the sun
All was golden in the sky
All was golden when the day met the night

— É um prazer finalmente conhecer todos vocês! – Abriu um sorriso enquanto falava cheio de empolgação. Aquele tipo de sorriso que poderia iluminar uma cidade inteira. – Minha irmã fala tanto de vocês que eu sentia que já os conhecia. – Riu o rapaz.
— Não é só você que tem essa sensação. – se aproximou para cumprimentá-lo. – Seja bem vindo, e, se precisar de socorro no meio dessas loucas, pode contar comigo.
Os dois trocaram sorrisos e brincadeira de uma forma que, apenas olhando para os dois, já pareciam ser amigos há tempos.
— Se ele precisar de socorro, eu vou ser a primeira a estar a disposição. – Sussurrou Nicky ao meu ouvido em um tom malicioso.
Creio eu que o rapaz causou uma boa impressão nas garotas.
— Não assuste o rapaz, . – Lançou Gabs fingindo uma inocência. – Ele não irá de precisar de socorro aqui porque iremos todos tratá-lo muito bem! Meu nome é Gabriel e sou bem mais confiável que essa duas caras do , então pode contar comigo pra tudo que precisar. – Piscou.
Uma ótima impressão.
não era muito alto, se tinha 1,80 era muito, mas a altura não era importante, isso não mudava o fato de que era de fato atraente. Enquanto mantinha seus cabelos castanhos livres e soltos, tinha um leve topete que o tornava charmoso. Admito que tinha um ar de galanteador e de quem conseguia tudo o que queria com apenas um sorriso, portanto fazia o tipo de homem que Nicky e Gabriel competiam pra ter. Aquela velha mania de sempre querer conquistar o bad boy.
Eu deveria estar me dirigindo à cozinha nesse momento pra preparar um pote de pipoca pra assistir a caçada.

Demos início ao ensaio e, enquanto e Gabriel estavam distraídos entre eles, estava sentado em uma das poltronas, olhando fixamente em meus olhos. Seu porte me causava um arrepio na espinha, estava com as pernas cruzadas e os braços nos apoios desgastados do que um dia já foi uma poltrona vermelha. Não sabia se estava me julgando ou apenas me analisando enquanto me fitava de forma tão ardente, creio que não ficaria tão nervosa com o mesmo olhar vindo do dono de uma gravadora que estivesse com nossa carreira em suas mãos. Podia jurar que se olhasse bem, veria um par de chifres vermelhos e um rabo de demônio balançando por trás dele no momento em que apoiou o queixo em uma das mãos, com o cotovelo grudado ao braço do sofá.
Por mais que me sentisse sem jeito com a situação, admito que tenha me causado um fogo interno intenso, um fogo do inferno. Mas, vendo por outro ponto de vista, era como ter uma plateia que estava ali pra nos ver, nos ouvir, me ouvir. Ser vocalista equivale a ser o centro das atenções, e não é como se eu odiasse a sensação, pelo contrário, quanto mais eu sentia que era o foco, com mais energia eu soltava minha voz. Complexo de leonina talvez? Apesar de eu não ser leonina.
O meu ascendente sim.
Mas eu não conseguia tirar os olhos daqueles orbes castanhos que me olhavam tão sérios. Entre um trecho e outro, ele lançava um sorriso de canto dependendo da forma que eu interpretava a música, admito que isso mexia com as minhas estruturas, e eu não sabia dizer o motivo ao certo.
Culpei novamente o meu ascendente. Nada como adorar ser o centro das atenções, principalmente se o seu talento atrai totalmente a atenção de outras pessoas.
Talvez eu fosse egocêntrica apenas por ser mesmo, pois assim que o ensaio terminou, toda a tensão que estava no ar havia sumido.
— Vocês estão prontas! – Exclamou vindo ao meu encontro. – Nunca as vi tão confiante quanto hoje.
— Você acha mesmo, amor? – O abracei.
— Totalmente! Já me emociono só de pensar em vê-las naquele palco. Meus filhotes estão crescendo. – Me deu um beijo carinhoso na testa.
— Filhotes uma ova, sou mais velha que você. – Disse Nicky dando uma cotovelada no rapaz.
— Falou a vovózinha. – Retrucou , fingindo uma careta.
— Vocês são incríveis! – interrompeu. – Sempre soube que a minha pequena era extremamente talentosa, mas quando está com vocês, ela libera o seu potencial. Vocês vão roubar toda a atenção na casa de shows!
Você sabe que o elogio é bom quando vem da boca de um estranho.
Bom, não tão estranho assim.

— Isso aqui está tão bom! — Mencionei em meio a garfadas furiosas.
, vou te denunciar por zoofilia, a parece um animal quanto está comendo. — Gabs soltou ao fingir uma cara de nojo e todos a mesa riram.
Estávamos reunidos na casa de Cass para jantarmos, seria a última vez antes do show, então queríamos aproveitar.
Já eu estava aproveitando de outra forma: paparicando o meu paladar.
Durante o processo, pude reparar em alguns olhares de para a minha pessoa, porém, nada que chamasse muito a minha atenção, pois permaneci com o olhar perdido nos pontos estratégicos de meu prato onde ainda havia comida, é claro que eu fazia questão de que logo não restasse sequer um grão.
Ah, a hipnose alimentar.
Despertei quando pude jurar que sentia minha pele sendo queimada por seu olhar. Todos estavam encantados e submersos em suas palavras, de fato era alguém que conseguia deixar os outros a vontade, carisma era algo que podia ser uma perigosa arma.
Hitler que o diga.
Continuava a me olhar disfarçadamente em meio a algumas palavras e eu não podia evitar o constrangimento. Quando trocamos olhares, tentei disfarçar olhando bruscamente para o prato já vazio, o que o rendeu uma risada leve que podia muito bem ser camuflada por conta do assunto que conversavam. Ele estava se divertindo com isso?
E o que de fato era isso que estava acontecendo?
Considerei a possibilidade de estar me olhando por nunca ter visto uma criatura de minha espécie antes, afinal, estava totalmente sem maquiagem, o preço que Nicky me fez pagar pra conseguir chegar na hora, e ainda parecia suada e exausta por conta do ensaio. Isso sem contar meus cabelos que pareciam o ninho de alguma criatura exótica do sul da patagônia. Um belo espécime, devia se sentir orgulhoso pela captura de tal exemplar.

— Ah, quando finalmente encontro um marido em potencial, ele não tira os olhos de você. – Choramingou Gabriel quando estávamos na cozinha apenas na presença de Nicky.
— Não é?! Me dá um pouco desse mel, ! – Complementou Nicky colocando uma de suas mãos na cintura enquanto apontava a esponja da cozinha, já gasta, em minha direção.
— Qual é! Ele nem estava olhando muito. – Não pude evitar tirar os olhos dos desenhos de flores de cobalto que se encontravam nas bordas da porcelana branca que estava em minhas mãos. O círculo azul que formava se entrelaça e tornava o desenho infinito, mantendo presa a minha atenção. Continuava a secar o prato em movimentos circulares, procurando algum indício do início ou fim dos desenhos que emaranhavam a minha mente. – Vocês estão loucos.
— Eu acho que a única pessoa que não reparou nos olhares dele foi o , mas convenhamos que o é uma porta mesmo. – Resmungou Gabs me ameaçando com um garfo enquanto ainda mantinha-se de frente para a pia.
— Uma porta que você já amou! – Provoquei enquanto batia com o pano de prato em sua bunda.
— Me agradeça sempre por abrir mão dele pra você. – Disse enquanto se defendia dos ataques. – Convenhamos que você nunca teria chances se eu não tivesse feito isso, né querida.
— Você deveria estar me agradecendo até hoje por poupar sua vida e não tê-lo jogado na frente de algum carro para eliminar concorrência né, Gabs!
Fomos interrompidos por Nicky que entrou entre nós dois e puxou o pano de prato das minhas mãos.
— Então já que você está feliz com o , podemos ficar com o né? – Seus olhos brilhavam, Nicky não perdia uma oportunidade sequer.
— Como se vocês precisassem pedir a minha permissão, né? Vão lá, quero ver a guerra. – Lancei um beijo para os dois. – Que o melhor vença.
Eu deveria começar as apostas? Apesar da banda estar toda ouriçada pela chegada do novato, sei que a guerra seria apenas entre o Gabs e a Nicky, Cassandra já o conhecia e nós sabíamos que ela era o ser mais denso e inocente que esse mundo já havia concebido, então estava fora de cogitação.
Por mais que admitisse que fosse atraente, eu na verdade não entendia esse alvoroço todo pelo garoto, ele era sim muito bonito, mas nada demais. Muito bonito, charmoso, carismático, galanteador. Deus! E aquele sorriso? Nada demais, . E não digo isso por já ter encontrado minha cara metade. Bom, talvez. O amor é cego, não é mesmo?

— Amor? – Chorei. – Ainda está acordado?
Era a madrugada de sexta pra sábado. 02h37 pra ser mais exata.
— Não. – Respondeu .
— Não consigo dormir. - Chorei novamente enquanto entrelaçava minhas pernas em torno de seu tronco.
Ele estava deitado de costas pra mim e eu estava agarrada nele feito um filhote de macaco.
— Percebi. – Disse em meio a resmungos enquanto tentava se virar para mim.
Como notado, tenho dificuldades pra dormir, o que piora quando estou ansiosa. E na véspera de um show que poderia mudar muitas coisas em nosso futuro, eu sequer conseguia pregar os olhos.
— Não precisa se preocupar tanto, vocês vão se sair muito bem. Você vai conseguir, amor. – Disse com carinho enquanto se virava pra mim e posicionava seu braço embaixo do meu pescoço.
— Mas e se alguma coisa der errado? Não posso me dar ao luxo de errar num dia tão importante. – O olhei séria.
, eu estarei aqui pra te apoiar, dando certo ou errado. Você sabe que essa não vai ser a única oportunidade, muitas outras virão e eu estarei ao seu lado em todas elas. Confie em mim quando digo que você tem um potencial incrível. – Deu-me um beijo carinhoso na testa. – Eu posso vê-la indo longe, mas eu tenho certeza que esse caminho que você irá trilhar irá começar no show de amanhã. Confie em si mesma! – Me deu um peteleco no mesmo local que beijou.
— Ai! – Passei a mão na testa onde havia sido atacada, causando um leve riso vindo de .
Ele me deu um longo selinho como pedido de desculpas e voltou a me olhar com ternura.
— Vai confiar em mim? – Perguntou enquanto colocava sua testa na minha.
— Como não confiar depois de tudo isso que o ouvi dizer? – Coloquei minha mão em seu rosto enquanto olhava fixamente em seus olhos. – Te amo, .
Eu já mencionei o quanto amo esses olhos, não mencionei? Toda vez que vejo esse olhar terno, eu sinto como se todo o peso do mundo saísse das minhas costas. Todas as coisas com que eu me preocupava não existiam mais. era meu amor, meu melhor amigo e meu porto seguro, eu me sentia mais segura em seus braços do que em qualquer outro local, era como se o seu amor me protegesse de todos os males do mundo. E essa cama velha em que estávamos deitados era o nosso forte, não importasse quantos problemas tivéssemos, se brigávamos, se o mundo estivesse pesando nossas almas, era sempre aqui que terminávamos para nos refugiar, nos apoiar, nos revigorar e nos amar. Curávamos as feridas um do outro aqui mesmo. Eu tinha apenas 21 anos e já me sentia a pessoa mais sortuda do mundo por ter encontrado um amor que muitos não encontram em uma vida toda. O que mais eu poderia pedir?
Ah, uma carreira de sucesso.
— Uma hora a gente tem que pagar os pecados, não é mesmo? Espero que esses dois anos de namoro já estejam garantindo meu lugar no céu, porque não foi fácil. – Brincou.
— Idiota! – Rolei para cima do garoto e o lancei vários beijos em meio a muitos sorrisos.
— Também te amo, amor.

Acordei atrasada.
Tínhamos que chegar na casa de shows durante a tarde para a passagem de som, coloquei o despertador pra tocar de manhã para não haver nenhum atraso, mas eu infelizmente estava muito cansada pois tive uma noite muito agitada após muitas palavras de amor ditas, portanto nem ouvi o despertador tocar, muito menos o que já havia aprendido a ignorar o mesmo. Como ele chegava ao trabalho na hora? Vai ser um eterno mistério pra mim.
— Ainda temos uma hora! – Disse o garoto enquanto vestia as calças da maneira mais rápida que podia.
— Você está mesmo dizendo isso pra mim? – Disse em desespero enquanto corria para o banheiro.
Não é possível que não haja um dia importante em que eu não precise correr contra o relógio. Tomei banho o mais rápido que pude e deixei para fazer a maquiagem e terminar de me arrumar para parecer um ser humano quando estivesse no local.
O ruído característico que meu celular estava soltando ao vibrar contra o couro da jaqueta de era suficiente pra saber que eu iria ser morta por todas as minhas companheiras assim que eu pusesse os pés no galpão onde ocorrerão as apresentações.
— Vamos, ! — O vi desligando o meu aparelho e o colocando novamente em seu bolso.
Peguei tudo que estava ao alcance de minhas mãos e joguei dentro da mochila preta surrada pelo tempo. Saímos correndo porta a fora, nos deparando com um frio gelado não muito comum dos dias de Março. Apesar da pressa, sentia o mundo a minha volta em câmera lenta, minhas bochechas sentiam algumas gotas de chuva que caíam dos céus nublados da cidade cinza. A sensação da pele fria em contato com as gotículas me acalmava e me dava a certeza de que hoje tudo ocorreria bem.
— O dia está lindo hoje! — Sorri olhando as nuvens escuras que pairavam sobre nós.
— Você está oficialmente louca. — Ouvi dizer.
O que torna um momento belo não é a estética sobre ele, e sim as coisas que fazemos acontecer para que se torne de fato inesquecível.

Meus dedos estavam gelados. O camarim do galpão era pequeno e abafado, todas estavam desesperadas para manter suas maquiagens intactas apesar da insistência de algumas gotas de suor em descerem por suas têmporas.
Mas meus dedos estavam gelados.
Numa tentativa falha em conter meu nervosismo, repousei meus olhos em Nicky, a mesma estava debruçada em uma bancada de madeira manchada que se encontrava em toda a extensão da maior parede do recinto, seus cantos estavam todos roídos e esburacados, não sabia discernir se aquilo havia sido trabalho de cupins ou de algum integrante nervoso e sem auto-controle antes de se apresentar.
A tentativa da garota ao estar naquela posição era de finalizar os retoques de um delineado tão negro quanto meus pensamentos nesse momento. O objetivo era aproximar-se o máximo possível do longo espelho pregado à parede, as marcas e manchas causadas pelo tempo podiam contar histórias de grandes músicos que já começaram da mesma maneira como também estávamos começando.
Evitei encarar meu reflexo empoeirado pois sabia que ficaria em frangalhos se visse o nervosismo estampado em meu semblante. Sentia o corpo inteiro frio como se estivesse nevando dentro do recinto fechado, já os calafrios que percorriam minha espinha me davam a sensação de que dentro de alguns segundos eu estaria estirada no chão sujo e molhado do local.
Isso se eu não vomitasse primeiro, ou me urinasse, ou os dois ao mesmo tempo.
Acho que os dois ao mesmo tempo.
— Eu não vou conseguir! — Segurei-me nas bordas do assento da cadeira de plástico onde estava sentada, tão forte quanto se minha vida dependesse de nunca levantar dali.
Todas pararam bruscamente o que estavam fazendo, isso se de fato estivessem fazendo alguma coisa. Tiffany e Cass se entreolharam e logo mudaram seu foco para Nicky, de forma desesperadora como se pedissem ajuda apenas com o olhar. A guitarrista estava paralisada, com a cabeça pendendo levemente para o lado, enquanto me fitava através do reflexo do espelho.
Sem piscar.
Eu podia muito bem ver estampada em sua testa a frase “Calculando Rota”.
Nicolle nunca teve dificuldades de comunicação, pelo contrário, na maioria das vezes é difícil fazer com que se cale. Sempre tinha as respostas pra tudo na ponta de sua língua e era a primeira a não medir esforços nos momentos que outros necessitavam de consolo. Portanto, ver minha melhor amiga, alguém que sempre sabia o que dizer, congelada daquela forma como se sua mente estivesse tão nebulosa quanto a minha, me fez perceber que todas estavam nervosas à sua maneira, mas evitavam transparecer isso. Bom, até o primeiro comentário de desespero. Meu, no caso. Cassandra segurava na barra da camiseta larga que Tiffany estava usando como forma de apelo. A peça de roupa contrastava com o porte delicado que a pequena apresentava ter, mas era de sua preferência por motivos de mobilidade, como costumava dizer, a mesma odiava tocar com roupas justas. Era muito admirável ver como uma garota que parecia ser tão miúda, com aquelas mãos e dedos pequenininhos, manuseava e dominava tão bem e com tanta graça um instrumento tão longo quanto o baixo.
— Tiff, eu vou morrer! — Dizia Cass à menor, com os olhos esbugalhados como se fossem saltar das órbitas.
— Cassandra, se recomponha! — Levantou-se rapidamente, fazendo seus curtos cabelos na altura do ombro esvoaçarem. Podia jurar que logo aqueles fios começariam a se arrepiar involuntariamente e alcançariam o teto baixo do camarim, como um gato com nervos à flor da pele. Um daqueles bem filhotes.
Mas tudo isso não pelo nervosismo com o show, mas por Cass a tirar do sério.
A baixista lançou-me um olhar vazio, mas eu podia jurar que via as palavras “Ajude-me” em suas pálpebras toda vez que piscava lentamente em minha direção.
Provavelmente o pedido de ajuda era pra evitar que cometesse um homicídio se a mais alta continuasse a escandalizar-se em sua volta.
— Vai dar tudo certo! — Tentei esbravejar, apesar da falha em minha voz que fez a frase parecer um sussurro.
— Tenho certeza que você consegue frase mais genérica que essa, . — Soltou Tiffany, ácida, após alguns segundos de silêncio, com as mãos na cintura como se acabasse de ouvir um absurdo.
Soltei uma gargalhada e corri ao outro lado do recinto para a abraçar. Uma corrida que me rendeu grandes três passo para alcançá-la. Minha cota de exercícios mensais está feita.
— Você é uma boba, . — A menor retribuiu a risada e me envolveu com seus braços em um movimento cheio de ternura.
— Agora você! — Apontei para Cass, que me olhou assustada com os lábios trêmulos, algo perceptível por serem muito carnudos, além de estarem vermelhos como o sangue. Não creio que existiu sequer um dia que a vi sem estar usando o característico batom vermelho.
Seus olhos se esbugalharam, como nunca antes, no momento em que a agarrei pelos cabelos, uma mão em cada lado de sua cabeça.
— Você é a melhor baterista juvenil que eu conheço, você é linda e vai subir naquele palco pra deixar todos loucos com essas suas pernas de modelo! — Cuspi as palavras em sua cara com a delicadeza de um jumento. — Vocês são minhas musas e nós vamos conquistar todos aqui de um jeito ou de outro.
— Vai dar tudo certo! — Nicky gritou de onde estava.
— Vai dar tudo certo sim! — Retruquei aos berros.
A mais alta veio ao meu encontro e me abraçou, não pude evitar de apertá-la forte mesmo estando com medo de abarrotar sua camisa. Dessa vez não precisei me defender de seus cabelos pois os mesmos estavam presos em um alto rabo de cavalo que faziam seus cachos castanhos caírem até a metade das costas. Nicky parecia a empresária da banda, era sempre muito chic por conta de seu sonho de tornar-se uma madame no futuro. Usava uma calça preta justíssima de cintura alta que acentuava suas curvas, a mesma ia por cima da camisa social branca, aberta em um decote provocador.
Deus a deu muitos atributos.
Tudo isso sendo fechado com chave de ouro com o sapato preto de salto meia-pata que usava. É claro que ela seria a primeira a entrar no palco para fazer uma boa impressão, Nicky era nosso cartão de visitas.
Fiz sinal para que as outras duas integrantes se juntassem a nós. Ali estávamos, as quatro integrantes abraçadas como uma bela família tentando não sofrer de um ataque de nervos coletivo.
Família que tem ataque de nervos unida, permanece unida.
Em meio a palavras chorosas e de consolo, notei um súbito silêncio com a ausência do som abafado e latejante que indicava uma banda ativa ao palco.
— Moonlit Waltz, é a vez de vocês! — Disse um rapaz de boné preto ao abrir a porta que ligava o camarim ao palco.
E desmaiei.
Bom, na verdade não, mas senti como se minha mente tivesse desligado.
— Meu Deus! Somos nós! Meu Deus! Meu Deus! — Cass jogava as mãos pra cima em um ato de desespero que jogou no lixo nosso momento de calma anterior.
Soltei um gritinho em resposta à loira, foi o máximo que pude proferir, meu estado de espírito também não era dos melhores.
— Vamos! — Disse Nicky enquanto se posicionava atrás do rapaz de boné que nos guiaria até o palco e indicaria o momento em que pudéssemos adentrá-lo.
Comecei a ajustar os garters em minhas coxas para que não caíssem no palco. É impossível usar certos acessórios quando se tem coxas grossas. Meias ⅞? Mas nem pensar! A gente dá apenas um passo e elas enrolam até o joelho, esse tipo de meia-calça só serve para pernas mais finas como as de Cass e Tiff, ou modelos chinesas de lojas online.
Apertei os acessórios e mudei o foco para o cropped branco que estava usando. Branco era uma cor ótima para acentuar o volume farto que possuía no peito, mas só nessa área também, pois se fosse uma camiseta ou até mesmo um vestido, eu ficaria parecendo um balão.
Garotas, parem de cismar tanto com o corpo de vocês.
A peça não possuía mangas, mas tinha uma gola alta. Puxei a mesma como se estivesse me sufocando, mas sei que a sensação era apenas pelo nervosismo.
Virei de costas para o espelho para me certificar de que a polpa de minha bunda não estivesse aparecendo por conta do shorts preto de cintura alta que estava usando. Como aquele era um local mais farto que as demais partes do corpo, tinha medo de parecer obscena com um shorts curto como aquele. Nada demais também se parecer.
Tudo bem, , você consegue. Disse isso a mim mesma enquanto bati com meu salto tratorado no chão como prova de que estava decidida. Andei em direção às meninas e me posicionei como última da fila.
A escada que ligava o camarim à lateral do palco era curta e fechada, sentia como se fosse ter um ataque claustrofóbico ali dentro, mas sabia que era só pela sensação de estar próxima ao local.
— E com vocês, a quarta banda da noite: Moonlit Waltz!
Luzes. Muitas luzes vindas pelas frestas do pano que separava a entrada para o palco. Fechei os olhos e permaneci com a sensação de vê-las.
Gritos. A Nicky entrou, ela entrou.
— Te amo, ! — Cass sussurrou antes de entrar, a última antes de mim.
Segundos de silêncio inundavam o meu peito, e eu permaneci intacta, apenas aguardando a minha deixa.
E então, um estrondo. Um estrondo tão forte que me fez despertar de meus devaneios, parecia que estava sincronizado com meus batimentos cardíacos. Era a Cass, a loira começou com a magia que fazia com a bateria, só aquele instrumento estava sendo tocado, com as mesmas batidas sendo repetidas.
Tum, tum, tum, tum.
Oito tempos depois, Tiff juntou-se a ela. Os sons graves que os instrumentos faziam em conjunto me davam a sensação de que meu coração sairia pela boca a qualquer instante, a tensão era visível pela veia de meu pescoço que estava prestes a saltar e abandonar meu corpo.
Quatro.
Engoli meu coração e me certifiquei de que permaneceria no seu devido local durante os próximos 4 minutos.
Três.
Peguei o microfone das mãos do rapaz de boné.
Dois.
Passei os dedos pela raiz de meus cabelos e os joguei para a minha direita, fazendo um volume com o platinado.
Um.
Entrei com a minha voz em conjunto com a guitarra da Nicky, andei até o meio do palco como se aquele piso de madeira me pertencesse, mas a sensação de fato era de estar flutuando.
Eu estava no automático, como se tivesse perdido controle do meu corpo. Acho que até da minha vida. Já por fora, agia como se dominasse aquela cidade. De onde tirei tanta confiança para esboçar? Não faço a mínima idéia, não sentia mesmo como se tivesse controle daquilo. Será que vendi a minha alma em algum momento? Nunca terei certeza, a única certeza que tive ao pôr os pés naquele palco, era de que pertencia àquele lugar.
Em meio a luzes, gritos e muito gelo seco, notei um sorriso no meio da multidão escura que nos aclamava. E foi assim que, no meu primeiro show, me perdi profundamente no olhar de .

Soft hearts, electric souls
Heart to heart and eyes to eyes
Is this taboo?





Continua...



Nota da autora: Oi amores, tudo bem? Então, essa é a primeira fic que estou me dedicando, espero que vocês gostem e sofram tanto quanto eu com esses dois boys magia. Hahaha
Estou sempre aberta a sugestões e críticas, então podem se sentir a vontade para fazê-los! Pretendo atualizar em breve, então até a próxima att! Beijinhos 💖


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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