Capítulo 1 - The breakup
Janeiro de 98
O bar estava quase vazio naquela noite. A jukebox tocava uma velha música country que nem se dava o trabalho de reconhecer. O cheiro de madeira envelhecida e álcool barato pairava no ar, mas ele só conseguia prestar atenção em uma coisa: , sentada à sua frente, prestes a ir embora. Mesmo com a expressão preocupada em seu rosto, a garota estava linda.
Ela brincava com a borda do copo, os dedos traçando círculos lentos na condensação fria do vidro. conhecia aquele gesto. Era o que ela fazia quando estava nervosa, quando tentava encontrar as palavras certas. Mas não existiam palavras certas para aquilo.
— Você não precisa ir — ele disse, a voz falhando levemente, tentando não soar desesperado.
suspirou, desviando o olhar. Ele odiava quando ela fazia isso, porque significava que já tinha tomado uma decisão.
— Eu preciso, . Você sabe que eu preciso. É o meu sonho, sempre foi. Essa é a minha chance.
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado, confuso. Ela sempre falava disso, sempre quis mais, mas ele nunca achou que isso significaria deixá-lo para trás.
— E eu? — a pergunta saiu mais amarga do que ele pretendia. — Você está mesmo disposta a jogar tudo isso fora? A jogar a gente fora?
Ela fechou os olhos por um instante, como se estivesse reunindo forças para responder. Quando os abriu, havia lágrimas ali.
— Você nunca vai me entender? Eu não tô jogando nada fora, . Eu amo você. Mas eu também preciso fazer isso por mim.
— E eu sou o quê? Um obstáculo? — Ele balançou a cabeça, rindo sem humor. — Que merda, , eu achei que era a gente contra o mundo.
Ela franziu os lábios, segurando as próprias mãos sobre a mesa, como se aquilo pudesse impedi-la de tremer.
— A gente é. Mas eu não posso deixar de ser eu só pra continuar sendo nós.
Ele queria dizer que isso não fazia sentido, que era uma desculpa, que ela só estava tentando justificar o fato de estar indo embora. Mas, no fundo, sabia que era verdade. sempre foi a garota que queria o mundo inteiro, e ele… bem, ele só queria ela.
— Amar alguém não é suficiente agora? — Sua voz saiu mais baixa, quase um sussurro.
Ela estendeu a mão sobre a mesa, tentando tocar a dele, mas ele recuou. Isso doeu mais do que qualquer outra coisa.
— Você vai me odiar por isso — sussurrou, e ele viu a dor transbordando nela.
E naquele momento, algo dentro dele se fechou. Ele sentiu o medo, a dor, mas ao invés de implorar para que ela ficasse, fez o que sabia fazer de melhor: se protegeu, fugiu.
— Talvez seja melhor assim — disse, cruzando os braços. Seu peito queimava, mas sua voz saiu fria. — Talvez seja melhor se eu te odiar mesmo. Vai ser mais fácil me acostumar sem você.
A expressão de se partiu. Por um segundo, parecia que ela ia desistir de tudo, que ia ficar. Mas então, com um último olhar, ela pegou sua bolsa e se levantou.
sentiu um impulso irracional de segurá-la, de dizer que largaria tudo, que iriam dar um jeito mesmo à distância, que não importava o que acontecesse, ele não queria perdê-la.
Mas não disse nada.
hesitou por um instante na porta, esperando que ele falasse algo. Que pedisse para ela ficar. Mas ele não pediu.
Ela ergueu o queixo, piscou algumas vezes, como se estivesse se obrigando a não chorar, e então saiu. Sem olhar para trás.
Ele ficou ali, imóvel, vendo a mulher que mais amava desaparecer no escuro da noite. Sentindo um buraco se abrir dentro dele. Ele jurou que superaria. Que seguiria em frente.
Mas anos depois, ele ainda se perguntava o que teria sido se tivesse feito algo.
Nunca a esqueceu.
E, se pudesse voltar no tempo, teria feito tudo diferente.
Ele olhou para o horizonte enevoado, perdido nos próprios pensamentos. Há muito tempo, ele achou que poderia odiá-la, que superar seria fácil. Mas a verdade era outra. Ele nunca a odiou. Nunca seria capaz.
A garota com quem teve tantos momentos felizes e genuínos. A mulher que sempre esteve ao seu lado, que ria das suas piadas ruins, que segurava sua mão nos dias difíceis. A única pessoa que realmente o fez sentir que havia algo além de um futuro previsível e sem graça.
E ele a deixou ir. Deixou escapar a única coisa que importava. E tudo porque teve medo.
Ele queria voltar no tempo, queria ter segurado seu rosto, olhado em seus olhos e dito que a amava antes de tudo. Que o sonho dela nunca foi bobo, como ele tantas vezes deixava transparecer, mesmo sem querer. Que ela sempre o apoiou, sempre acreditou nele, e ele deveria ter feito o mesmo. Deveria ter dito que a felicidade dela era mais importante do que qualquer outra coisa.
Mas, ao invés disso, ele se fechou, se protegeu, e viu a mulher que mais amava sair pela porta sem olhar para trás.
passou a mão pelo rosto, respirando fundo. O tempo não esperava por ninguém. As coisas que eles perderam nunca poderiam ser recuperadas. Mas isso não impedia o arrependimento de queimar em seu peito toda vez que se permitia lembrar.
No começo, eles tentaram manter contato. ligava sempre que podia, perguntando como ele estava, contando sobre as novidades de sua nova vida. Ele tentava agir como se estivesse bem, como se não doesse ouvi-la tão longe, como se ainda fossem os mesmos. Mas não eram.
A relação entre eles foi se despedaçando aos poucos. As ligações ficaram mais curtas, as mensagens mais espaçadas. Ele passou a acreditar que tinha simplesmente deixado de tentar, que o esqueceu de vez. Não sabia que, naquela noite, ela chorou até dormir, sentindo-se expulsa da vida dele. Que, mesmo depois de anos, ainda olhava o telefone e se perguntava se deveria tentar mais uma vez. Mas nunca teve coragem.
Capítulo 2 - Reunited
O vento frio cortava através das árvores secas enquanto ajustava a mochila nas costas. O peso já era familiar, assim como a sensação de estar sempre atento, sempre preparado para o pior. O mundo não perdoava distrações. E, depois de tantos anos, ele também não.
Os dias eram um ciclo de sobrevivência: comida, abrigo, segurança. Mas algumas noites eram piores do que outras.
Ele seguiu pelos destroços de um antigo supermercado abandonado, revistando prateleiras vazias e esquivando-se dos vidros quebrados no chão. estava em algum lugar lá fora, mantendo a vigia, enquanto ele tentava encontrar algo útil. A maioria dos lugares já tinha sido saqueada anos atrás, mas de vez em quando um ou outro enlatado ficava esquecido num canto escuro.
se abaixou para pegar uma mochila rasgada no chão quando um barulho o fez congelar.
Passos.
Lentos, leves, cuidadosos. Mas não infectados.
Ele se virou de imediato, a mão firme no cabo da arma, pronto para qualquer coisa. Mas nada o prepararia para o que encontrou.
Uma mulher estava a poucos metros dele, parada entre as prateleiras destruídas. Seu corpo estava tenso, em alerta, e a respiração dela era contida, preparada para reagir. As roupas que usava estavam gastas, sujas de poeira e sangue seco, mas sua postura continuava firme, segura. Um rifle pendia de suas costas, pronto para ser usado a qualquer momento, e um revólver repousava firmemente em sua cintura, ao alcance da mão.
O que realmente fez o coração de falhar por um segundo foram os olhos dela.
Ele os conhecia.
O tempo podia ter passado, mas aqueles olhos eram os mesmos que o encararam anos atrás, na última vez em que ele sentiu algo além de dor. Os mesmos olhos que um dia o fizeram acreditar que o mundo ainda tinha algo de bom.
Por um instante, esqueceu onde estava. Esqueceu o apocalipse, os anos de violência, o peso das perdas. Tudo que viu foi ela.
Mesmo exausta, mesmo coberta de sujeira, continuava linda. Seu rosto estava levemente mais maduro, marcado pelos anos de luta, mas os traços que ele conhecia ainda estavam lá. A pele, que ele lembrava de acariciar em noites tranquilas. Seus olhos —aqueles olhos— ainda tinham a mesma intensidade, carregados de algo que ele não sabia nomear, mas que reconheceu imediatamente.
E o cabelo… bagunçado, desalinhado pelo tempo e pela pressa da sobrevivência, mas ainda bonito. Sempre foi. Uma mecha caiu sobre seu rosto enquanto ela respirava fundo, e por um instante, sentiu um impulso irracional de estender a mão e colocá-la de volta no lugar, como fazia antes.
O tempo podia ter passado, o mundo podia ter desabado ao redor deles, mas continuava sendo .
— ? — A voz de saiu rouca, incrédula, quase um sussurro.
A mulher demorou um momento antes de reagir. Ela piscou algumas vezes, como se estivesse vendo um fantasma. A respiração acelerou. Os lábios se entreabriram levemente, e percebeu que ela estava tentando encontrar palavras, mas nenhuma parecia suficiente.
E então, finalmente, num fio de voz carregado de surpresa e algo mais profundo, ela respondeu:
— …
O silêncio entre eles era denso, carregado de algo que nenhum dos dois conseguia nomear naquele momento. Não havia mais a cidade pequena e pacata de antes. Não havia mais desculpas ou brigas sobre o futuro. Só havia o agora. E o agora era um mundo que tentava matá-los todos os dias.
— Eu… Eu achei que você estivesse morto — finalmente disse, a voz embargada, os olhos varrendo o rosto dele, como se tentasse confirmar que era real.
sentiu um nó no peito, mas não respondeu de imediato. Ele também achou que nunca mais a veria. Mas ali estava ela. No meio do nada, como um eco do passado que ele tentou esquecer.
surgiu da entrada do mercado, a arma em punho, a postura alerta. Mas quando seus olhos pousaram em , sua expressão se transformou num misto de surpresa e alívio.
— ? — Ele exclamou, abaixando a arma imediatamente.
Antes que pudesse reagir, atravessou a distância entre ela e e o abraçou com força. riu, um som genuíno, aliviado.
— Caramba, menina, achei que nunca mais ia te ver — ele disse, afastando-se apenas o suficiente para olhar para ela.
— Eu também — ela sorriu, sincera. — Você está bem? O que aconteceu com você depois de tudo?
observava a cena com o maxilar travado. nunca o abraçaria assim. Não depois de tudo. Mas vê-la ali, radiante ao reencontrar , despertou algo dentro dele. Um incômodo que ele não queria nomear.
— Passei um tempo nos Vagalumes — ela continuou, agora se dirigindo aos dois irmãos. — Encontrei por um tempo, mas depois seguimos caminhos diferentes. Eles tinham estrutura, um propósito… mas não era pra mim.
assentiu.
— Sei bem como é. Saí faz um tempo também.
olhou para . Pela primeira vez desde que se reencontraram, eles tinham um momento para realmente se encarar. A pergunta veio antes que ela pudesse evitar.
— E você, ? O que aconteceu com você?
Ele hesitou. Não sabia por onde começar. Não sabia se queria começar.
— Sobrevivi — foi tudo que disse.
soltou um riso fraco e cruzou os braços.
— Sempre direto ao ponto, hein? Algumas coisas nunca mudam.
— Algumas coisas mudam demais — rebateu, o olhar preso ao dela.
O silêncio se prolongou por um instante, carregado de tudo que não foi dito. olhou de um para o outro e suspirou.
— Acho que a gente devia sair daqui antes que algum desgraçado nos encontre. Dá pra botar o papo em dia no caminho.
assentiu e começou a caminhar, mas sua mente ainda estava presa em . No jeito como ela olhou para , na forma como sorriu para ele.
Afinal, o que mais tinha mudado?
Capítulo 3 - Jealousy
A caminhada até o abrigo improvisado foi silenciosa. O barulho de passos sobre folhas secas e galhos quebrados era o único som que os acompanhava. seguia ao lado de , conversando em sussurros sobre os tempos nos Vagalumes, trocando histórias sobre os caminhos que percorreram.
mantinha-se um pouco atrás, atento ao ambiente, mas incapaz de ignorar a familiaridade entre os dois.
Era estranho.
Ele sempre soube que e combinavam. No fundo, sempre achou que ela era a versão feminina do irmão: engraçada, animada, esperançosa. Até mesmo durante o fim do mundo, ainda conseguia rir, encontrar algo para se agarrar. Assim como , ela enxergava um propósito além da sobrevivência.
E … Bem, nunca foi assim.
Ele era realista, fechado, duro. sempre tentou convencê-lo a enxergar o mundo de forma diferente, mas ele nunca conseguiu. Agora, observando os dois lado a lado, conversando com facilidade, rindo baixinho de algo que ele não ouviu, uma sensação incômoda cresceu em seu peito.
Talvez, no final das contas, eles fizessem mais sentido juntos.
Quando finalmente chegaram ao esconderijo, uma casa de dois andares destruída pelo tempo, largou a mochila perto da lareira apagada e se sentou em uma cadeira velha. olhou ao redor, como se estivesse memorizando o espaço.
— Vocês dois ficaram juntos esse tempo todo? — ela perguntou, puxando uma cadeira para si.
deu de ombros.
— Nem sempre. Nos separamos algumas vezes. Mas é teimoso demais pra morrer.
soltou um riso nasalado.
— Isso eu sei bem.
bufou e pegou um cantil dentro da mochila, tomando um gole antes de finalmente encará-la.
— E você? Como diabos sobreviveu esse tempo todo?
Ela inclinou a cabeça, observando-o.
— Eu sempre fui boa em me virar, . Você deveria saber disso.
Ele estreitou os olhos. era forte, determinada, mas o mundo agora era cruel. Ele sabia que devia ter sido mais difícil para ela do que deixava transparecer.
sorriu, tentando aliviar a tensão.
— Olha, se tem alguém nesse mundo que pode dar trabalho até pra um apocalipse, é essa mulher aí.
sorriu, mas havia algo nos olhos dela que não conseguiu decifrar. Algo que o fazia sentir que, por mais que estivessem no mesmo lugar, ainda estavam a quilômetros de distância um do outro.
E ele não sabia se algum dia conseguiriam se encontrar novamente.
A noite caiu sobre o abrigo, e a tensão entre os três parecia crescer junto com as sombras projetadas pelo fogo fraco que conseguiu acender. mantinha-se distante, observando e rirem de algo que ela contou. O jeito como se entendiam, como compartilhavam histórias… aquilo o incomodava mais do que deveria.
— E aí, ? Você lembra disso? — perguntou, rindo. — Ou sua memória já tá falhando?
ergueu os olhos, fingindo indiferença.
— Difícil esquecer quando vocês dois nunca me deixavam em paz — resmungou, cruzando os braços.
sorriu, virando-se para ele com um olhar provocador.
— Você que se irritava fácil demais. Eu e só tentávamos te ensinar a relaxar um pouco.
bufou, mas, no fundo, lembrava bem de como era. O jeito leve de e a forma como ela e compartilhavam o mesmo tipo de humor o deixavam louco. E agora, ver os dois se reencontrando como se o tempo não tivesse passado… aquilo incomodava.
se levantou, pegando a arma e a lanterna.
— Vou buscar mais lenha antes que o fogo morra. Tentem não se matar enquanto eu não tô aqui. — Ele lançou um olhar divertido para os dois antes de sair pela porta.
Agora, restavam apenas e , o silêncio entre eles preenchido apenas pelo estalar da lenha queimando.
Ela o observou por um momento antes de falar.
— Você não mudou nada, sabia? Ainda fica emburrado quando não tem o controle da situação.
franziu o cenho.
— E você ainda gosta de cutucar até irritar os outros.
riu baixinho, cruzando as pernas enquanto jogava um galho no fogo.
— Sinto falta disso, às vezes — admitiu, sua voz mais suave. — De ter alguém que me conheça tão bem.
respirou fundo. Ele não sabia o que dizer para isso. Tudo dentro dele gritava que deveria se manter distante, que não adiantava remoer o passado. Mas, naquele momento, olhando para sob a luz tremulante do fogo, ele não conseguia negar que sentia o mesmo.
O silêncio se prolongou entre eles, denso, como se cada faísca do fogo carregasse uma lembrança não dita. mexeu nos próprios dedos, sentindo a tensão no ar. desviou o olhar por um instante, como se buscasse coragem para dizer algo.
— Você está bem, ? — ela perguntou, baixinho.
Ele soltou um suspiro, esfregando o rosto com a mão.
— Defina "bem" — respondeu, com um meio sorriso cansado. — Sobrevivendo. Como todo mundo.
Capítulo 4 - Feelings
observou com atenção, os olhos analisando cada detalhe de seu rosto marcado pelo tempo. Ele parecia exausto, como se carregasse o peso do mundo nos ombros, e de certa forma, carregava. O silêncio entre eles se estendeu, quebrado apenas pelo estalar do fogo na lareira improvisada.
— Sobrevivendo — ela repetiu, mordendo o lábio inferior, pensativa. — Eu sei como é.
bufou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Aposto que sabe. Você sempre teve essa mania de querer provar que dava conta de tudo sozinha.
Ela ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— E você sempre teve essa mania de tentar carregar o mundo nas costas. Como se ninguém mais fosse forte o bastante pra dividir o fardo.
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, pegou o cantil de uísque e tomou um gole. balançou a cabeça, soltando um suspiro.
— Você ainda pensa em mim? — ela perguntou, a voz baixa, hesitante, como se a resposta pudesse machucá-la.
a olhou nos olhos por um longo momento antes de desviar o olhar para o fogo.
— Se eu disser que não, você acreditaria?
Ela esboçou um sorriso fraco, nostálgico.
— Não.
O silêncio voltou a se instalar, mas dessa vez era diferente. Não havia apenas mágoa ou ressentimento ali, mas algo mais profundo, algo que os dois tentavam ignorar há anos.
— Durante esse tempo… você e … — começou, tentando soar indiferente, mas a pergunta escapou antes que pudesse evitá-la.
franziu a testa.
— O que tem eu e ?
apertou os punhos levemente, sentindo-se irritado por até mesmo perguntar aquilo.
— Vocês passaram muito tempo juntos nos Vagalumes… Imagino que tenham se aproximado.
o encarou por um instante antes de soltar um riso baixo, quase incrédulo.
soltou um riso baixo, desviando o olhar para o fogo. — O que você acha, ? — disse apenas, sem confirmar nem negar nada.
Ele não respondeu. Não queria admitir que a ideia de perdê-la para , de alguma forma, o incomodava mais do que gostaria.
se levantou, andando até a janela quebrada. O vento gelado da noite soprava, bagunçando seus cabelos escuros. Ela abraçou a si mesma, como se tentasse conter algo dentro de si.
— Eu pensei em você todos esses anos — confessou, sem olhar para ele. — Mais do que deveria. Mais do que queria. Mas no fim, o mundo continuou girando, e a gente teve que seguir em frente.
se levantou lentamente, cruzando os braços.
— E seguiu? — perguntou, a voz baixa, rouca.
Ela fechou os olhos por um instante antes de se virar para encará-lo. O fogo projetava sombras suaves em seu rosto, tornando-a quase etérea sob a luz trêmula.
— Eu tentei — sussurrou.
Ele engoliu em seco, sentindo algo apertar seu peito. Tudo o que queria era cruzar a distância entre eles e segurá-la, sentir que algo do que perderam ainda podia ser recuperado. Mas sabia que não era tão simples assim.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta se abriu de repente, e entrou carregando um punhado de lenha.
— Awnt, ainda estão vivos — brincou, sem notar a tensão no ar.
e se afastaram, cada um voltando para seu próprio espaço, como se a conversa nunca tivesse acontecido.
Os dias que se seguiram foram marcados por deslocamentos constantes. , e avançavam por estradas destruídas e cidades em ruínas, buscando suprimentos e abrigo seguro. A tensão inicial entre e permaneceu, mas aos poucos, pequenas trocas de olhares e momentos de cumplicidade surgiam entre os dois.
Em uma pequena cidade esquecida, encontraram um velho depósito militar parcialmente saqueado, mas ainda com algumas surpresas úteis. encontrou munição, desenterrou algumas facas afiadas e se deparou com um revólver em boas condições. Sempre fora boa de mira — seu pai a ensinara a atirar quando tinha 16 anos. Mas, ao longo dos anos, aprendeu a preferir o arco. Diferente das armas de fogo, as flechas podiam ser recuperadas e reutilizadas, e o silêncio era uma vantagem inestimável.
Ao anoitecer, encontraram uma casa relativamente segura e decidiram passar a noite ali. Pela primeira vez em muito tempo, conseguiram uma refeição decente. O cheiro da comida, mesmo simples, trouxe um conforto inesperado.
— Nunca pensei que ia me emocionar com feijão enlatado — brincou, pegando uma colherada.
— Não me acostumaria — murmurou, mas havia um brilho diferente em seu olhar.
sorriu, levantando a lata como se fosse um brinde.
— Ao apocalipse, que faz a gente valorizar pequenas coisas.
Eles riram baixinho. Por um instante, não eram apenas sobreviventes. Eram três pessoas compartilhando um momento de normalidade em um mundo destruído.
No dia seguinte, o grupo seguia em direção a um antigo posto avançado onde, segundo , poderiam encontrar mais suprimentos. O clima era frio, e o vento cortava suas roupas desgastadas. Durante o caminho, lançou um olhar rápido para e soltou um comentário sarcástico.
— Só não fica pra trás, . Não quero ter que salvar você de novo.
Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Engraçado, . Mas relaxa, da próxima eu salvo você.
riu baixo, mas antes que pudesse responder, um som estranho ecoou pela floresta.
Estaladores.
Eles se aproximavam rápido, atraídos pelo menor ruído. e prepararam as armas, mas , mais ágil, já puxava seu arco. Subiu silenciosamente em uma pequena estrutura desmoronada e se posicionou, preparando a flecha.
Armas nunca foram estranhas para .
Desde pequena, seu pai a ensinou a atirar. Não foi por necessidade, nem por obsessão com segurança. Foi porque ele acreditava que saber manusear uma arma significava ter uma chance quando as coisas dessem errado.
E ele estava certo.
Ela aprendeu a caçar com ele, a ter paciência, a controlar a respiração antes de puxar o gatilho. O cheiro da pólvora e o peso do rifle nunca foram desconfortáveis. Pelo contrário, eram familiares.
Mas o apocalipse exigiu que ela aprendesse muito mais do que isso.
Armas de fogo eram úteis, mas as balas… essas acabavam rápido demais.
Foi assim que começou a treinar com o arco. Era silencioso, eficaz, e o melhor de tudo: podia recuperar as flechas.
No início, errava o alvo constantemente, frustração acumulando a cada tentativa fracassada. Mas insistiu, aprimorou sua mira, aprendeu a calcular o vento, a tensão da corda, a trajetória da flecha.
Até que um dia, não errou mais.
E então, aprimorou ainda mais.
Aprendeu a esculpir suas próprias flechas, afiando a madeira com uma adaga que nunca largava. Era sua ferramenta de trabalho e sua defesa contra o maior perigo do apocalipse: os humanos.
Os infectados eram previsíveis. As pessoas, não.
Foi com essa mentalidade que ela se tornou uma sobrevivente.
Os infectados surgiram entre as árvores. disparou contra um, derrubou outro com um tiro certeiro, mas mais deles vinham na direção do grupo. manteve a respiração controlada e soltou a primeira flecha. O projétil atravessou o crânio de um clicker antes que ele pudesse alcançar .
— Belo tiro! — exclamou, desviando de um ataque.
derrubou outro, mas uma sombra se movia rápido em sua direção. prendeu a respiração e atirou novamente. A flecha cravou no pescoço do infectado, que caiu a poucos centímetros de .
Ele se virou, surpreso, olhando para ela.
— Nada mal — admitiu, limpando o suor da testa.
sorriu de canto, recuperando suas flechas no chão.
— Eu avisei, . Da próxima, eu salvo você.
Ele soltou um riso baixo, balançando a cabeça, enquanto se certificava de que a área estava segura. Mas, no fundo, sentiu algo diferente ao vê-la ali, forte e confiante. E, por mais que tentasse ignorar, seu coração bateu um pouco mais forte.
Capítulo 5 - Água quente
Alguns dias depois, teve que se afastar do grupo, prometendo reencontrá-los em um local específico marcado no mapa. A despedida foi rápida, mas carregada de preocupação. e continuaram sozinhos, enfrentando o clima cada vez mais hostil.
Uma nevasca começou a se formar, tornando impossível seguir viagem. Os ventos cortantes e a baixa visibilidade os forçaram a procurar abrigo. Depois de vasculharem algumas casas abandonadas, encontraram uma que parecia promissora. Dentro dela, uma porta no chão chamou a atenção de .
Ao abri-la, depararam-se com um bunker subterrâneo. Tudo estava intacto—uma verdadeira cápsula do tempo, feita para resistir ao fim do mundo. Prateleiras abastecidas, roupas masculinas e femininas dobradas em um canto, e o melhor de tudo: um banheiro funcional com água quente.
— Quem quer que tenha planejado isso… Nunca conseguiu chegar a tempo — murmurou, olhando ao redor.
assentiu, fechando a porta atrás deles. O calor do bunker contrastava com o frio cortante do lado de fora. Pela primeira vez em muito tempo, poderiam descansar sem medo.
Enquanto a tempestade rugia lá fora, revirava as prateleiras do bunker, reunindo suprimentos. Para a surpresa de ambos, encontrou ingredientes simples, mas suficientes para cozinhar algo de verdade. Com um suspiro, começou a preparar a comida, suas mãos experientes trabalhando em silêncio, cortando os ingredientes com precisão quase automática.
O som da água correndo no banheiro ecoava pelo bunker. Ele tentou não pensar nisso. Tentou focar no que estava fazendo, mas era impossível ignorar que estava a poucos metros dali, tomando um banho quente pela primeira vez em semanas.
A água quente escorria por sua pele, levando embora a sujeira, o sangue seco e o peso dos últimos dias.
fechou os olhos e suspirou profundamente, sentindo os músculos relaxarem sob o vapor. Fazia meses — talvez mais de um ano — desde a última vez que teve o luxo de um banho quente. Não um banho apressado em um riacho gelado mas um banho de verdade.
Ela deixou a cabeça pender para trás, permitindo que a água molhasse completamente seus cabelos, os fios grudando em sua pele. Por um instante, ela se sentiu quase humana de novo.
Se pudesse, ficaria ali para sempre.
Mas o mundo lá fora não permitia esse tipo de coisa.
Nunca permitiu.
Abriu os olhos devagar, observando o vapor se acumular ao redor dela. Se deu conta de quantas vezes, nos últimos anos, desejou momentos como esse. Não apenas o banho, mas a sensação de segurança. De normalidade.
A verdade era que se acostumou a viver no limite, a sempre estar com um pé na sobrevivência e outro na solidão.
Houve momentos em que ela deixou alguém entrar—por uma noite, talvez duas. Pequenos relacionamentos que não eram realmente relacionamentos, apenas momentos de fuga em meio ao caos.
Nenhum deles durou. Nenhum deles era para durar.
Quando a solidão se tornava grande demais, quando o peso do mundo ficava insuportável, ela se permitia esquecer.
Esquecer que nada era permanente.
Esquecer que no dia seguinte tudo poderia desmoronar.
Mas na manhã seguinte, sem falha, a realidade sempre a alcançava.
E então, ela seguia em frente.
Talvez fosse melhor assim. Sentir demais significava perder demais.
Ela passou as mãos pelos braços, sentindo o calor da água contra a pele. Seus dedos roçaram levemente a pequena cápsula sob a pele na parte inferior do braço — o implante que garantiu que ela não precisaria se preocupar com gravidez por um bom tempo.
Se ao menos transar no apocalipse fosse seu maior problema…
Mas pelo menos, isso nunca foi um risco real. O governo tratou de resolver isso antes que o mundo afundasse de vez.
Ela se lembrava do anúncio, das transmissões de rádio nas zonas de quarentena, dos cartazes colados em postos militares. "Controle populacional preventivo", foi como os militares descreveram. Mas o que realmente significava era outra coisa.
Significava que havia crianças demais nascendo para morrer cedo demais.
Crianças sendo infectadas.
Bebês transformados antes mesmo de aprenderem a falar.
E o governo decidiu que não podia deixar isso continuar.
Foi então que desenvolveram a cápsula injetável—um implante anticoncepcional projetado para durar décadas.
Uma única dose.
Uma única escolha, feita por elas… Ou por alguém no lugar delas.
Mas não lamentava. Na época, parecia a única decisão sensata que o governo tomou antes de tudo desmoronar.
Ela nunca quis trazer uma criança para esse mundo. O máximo que fez foi tentar encontrar algo para se agarrar no meio dele.
Mesmo que fosse passageiro.
Mesmo que fosse apenas por uma noite.
Ela deslizou as mãos pelo rosto, afastando a água.
Mas então, havia .
E nunca foi passageiro.
Nunca foi apenas uma noite.
Ela mordeu o lábio e balançou a cabeça, frustrada consigo mesma.
Por que ainda pensava nele?
Por que, depois de tudo, ele ainda estava ali, em sua mente, no meio do vapor quente, como se fizesse parte dela?
soltou um suspiro e desligou a água, sentindo o frio do bunker invadir sua pele molhada.
Era melhor se vestir e sair logo dali.
Porque o problema de tomar um banho quente depois de tanto tempo era simples.
Fazia você lembrar de coisas que nunca deveria ter esquecido.
Depois de um tempo, a porta se abriu, e o vapor quente escapou pelo corredor frio.
ergueu os olhos — e congelou.
emergiu do banheiro, os cabelos ainda úmidos, algumas mechas caindo soltas ao redor do rosto. A pele limpa parecia quase brilhar sob a luz fraca do bunker, destacando os traços que ele conhecia tão bem. As roupas que encontrou no armário — uma camiseta simples e uma calça confortável — eram comuns, mas nela pareciam diferentes.
E então, por um instante, sentiu como se tivesse voltado no tempo.
Dez anos antes.
Quando tinham 21, quando ela saía do banho nos domingos preguiçosos e o encontrava na cozinha, quando ele roubava um beijo seu antes mesmo que ela pudesse se sentar para comer. Por um momento, o apocalipse desapareceu. Não havia sangue em suas roupas, nem cicatrizes em suas peles, nem anos de distância entre eles.
Era só . Igual a antes.
Ela percebeu o olhar dele e sorriu de leve, como se sentisse o ambiente diferente entre os dois.
— Acho que podemos nos dar ao luxo de uma noite tranquila — disse, puxando uma cadeira.
piscou, despertando da lembrança. Passou a faca sobre a tábua de madeira, voltando a cortar os ingredientes, mas sentia o olhar dela sobre ele.
o observava, os olhos acompanhando cada movimento. Havia algo fascinante na forma como ele manuseava a faca com precisão, como se aquilo fosse natural para ele. Era um lado dele que ela não via há anos.
E , por mais que tentasse, não conseguia afastar a sensação de que, mesmo que por um instante, ele ainda era o mesmo cara que um dia a amou.
— Desde quando você cozinha? — perguntou, quebrando o silêncio. — Você parece bom nisso.
Ele bufou, mexendo a comida na panela.
— Só faço o básico pra não morrer de fome. Mas considerando o que a gente comeu nos últimos dias, acho que isso aqui vai parecer um banquete.
Ela riu e se levantou, aproximando-se devagar. Ao se aproximar, notou algo que a fez arquear a sobrancelha.
— Você está… Cheiroso? — comentou, surpresa.
parou por um instante e olhou para ela com um meio sorriso.
— E isso é ruim? Achei umas coisas no banheiro. Xampu, perfume… não sei, achei que podia aproveitar a oportunidade.
soltou um riso baixo, cruzando os braços.
— Não, não é ruim. Só… inesperado. A última coisa que imaginei era você de banho tomado e cheirando bem em pleno apocalipse.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Bom, você também está diferente. Parece até outra pessoa sem toda aquela sujeira e sangue seco.
Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo indignação.
— Você está dizendo que eu estava fedendo?
soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Tô dizendo que você tá sempre bonita, só que agora dá pra ver melhor.
O comentário a pegou de surpresa. piscou, sem saber se era só mais uma provocação ou se havia algo a mais ali. O olhar dele estava fixo no dela, intenso como sempre, mas havia uma suavidade diferente, um reconhecimento silencioso do que ele nunca tivera coragem de admitir.
sorriu, mas quando percebeu, já estava perto demais. O cheiro dele de fato estava ali, limpo, diferente do habitual. Algo nela se remexeu com aquela proximidade.
Ele aparentava ser o mesmo de antes, tão forte, mais maduro, mas ainda assim bonito. Estava bem ali, diante dela, exatamente como era no passado, quando namoravam. Algo no peito de apertou. Uma memória vívida, um resquício do que já haviam sido.
Flashback on
O rádio tocava baixinho no fundo, preenchendo a pequena sala com uma melodia suave. O sol da tarde invadia o ambiente pela janela entreaberta, dançando sobre o sofá onde estava deitada, os pés apoiados no colo de . Ele, distraído, traçava círculos preguiçosos na pele dela enquanto folheava uma revista qualquer.
— Você não tá lendo nada disso, né? — perguntou, espiando por cima do próprio livro.
— Hm? — desviou o olhar da revista e ergueu uma sobrancelha. — Claro que tô.
— Ah, é? Então me diga o que fala esse artigo aí.
olhou para a página, claramente sem ter ideia do que estava escrito, e bufou.
— Tá, talvez eu não esteja lendo. — Ele jogou a revista de lado e deslizou a mão pela perna dela. — Mas, pra minha defesa, é difícil me concentrar com você aqui jogada desse jeito.
sorriu, fechando o livro e se sentando ao lado dele.
— Quer que eu vá embora, então? — provocou, fingindo se levantar.
segurou seu pulso antes que ela pudesse ir longe.
— Nem pensar. — Sua voz saiu rouca, carregada de um tom carinhoso que ele raramente usava.
Ela sentiu o coração acelerar. Ainda se surpreendia com a maneira como conseguia fazê-la se sentir segura e ao mesmo tempo inquieta. Ele não era do tipo de homem que falava muito sobre sentimentos, mas quando olhava para ela daquele jeito, dizia tudo sem precisar de palavras.
— Então o que vamos fazer? Ficar aqui sem fazer nada até o sol se pôr? — ela perguntou, inclinando-se para ele.
— É um bom plano, não acha? — sorriu de lado, puxando-a de leve para seu colo.
riu, deslizando as mãos pelos ombros dele, aproveitando a proximidade.
— Isso é o que eu gosto em você. Preguiçoso, mas sabe o que quer.
— E o que eu quero agora — ele murmurou, os lábios roçando contra os dela — é ficar aqui com você.
E então ele a beijou, devagar, saboreando o momento. Não havia pressa, nem medo do que estava por vir. Apenas eles dois, juntos, em um mundo que ainda não havia desmoronado.
A música mudou, um ritmo lento e suave preenchendo a sala. se afastou um pouco, os olhos brilhando com uma ideia repentina.
— Vem cá. — Ela se levantou, puxando pela mão.
— O que foi? — Ele franziu a testa, hesitante.
— Vamos dançar.
soltou uma risada baixa.
— Você sabe que eu sou um péssimo dançarino.
— Não importa. — Ela entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele, encostando o corpo no dele. — Eu só quero sentir você aqui comigo.
Ele suspirou, vencido, e segurou sua cintura, guiando-a em um ritmo preguiçoso pelo carpete da sala. Era desajeitado, mas não se importava. Apoiada contra o peito dele, sentia o coração de batendo firme, constante.
— Isso tá me parecendo uma armadilha — ele brincou, murmurando contra o cabelo dela.
— E se for?
— Então eu não quero sair dela.
sorriu, fechando os olhos enquanto se deixava levar pela melodia e pelo calor do corpo de . Naquele instante, nada mais existia além dos dois.
A música embalava o momento, cada nota parecendo ditar o ritmo dos passos lentos e desajeitados de . sentia o calor das mãos dele em sua cintura, firmes, mas gentis, como se ele estivesse segurando algo precioso.
Os olhos de desceram até os lábios dela, e por um instante, ele hesitou. Mas percebeu. E não queria esperar.
Então, sem pensar muito, ela se ergueu ligeiramente na ponta dos pés e o beijou.
Foi um toque suave no início, apenas uma leve pressão dos lábios, mas logo correspondeu, aprofundando o beijo com uma ternura que a fez suspirar contra ele. O mundo do lado de fora daquelas paredes não importava. Apenas o calor de seus braços, o sabor familiar, a sensação de que estavam exatamente onde deveriam estar.
Quando se separaram, manteve a testa colada à dela, os dedos roçando suavemente a lateral de seu rosto.
— Você é perigosa, sabia? — murmurou, um sorriso brincando no canto dos lábios.
— Por quê? — ela perguntou, ainda de olhos fechados, aproveitando cada segundo da proximidade.
— Porque me faz querer esquecer do mundo lá fora.
abriu os olhos devagar, encontrando o olhar intenso de . Ele raramente dizia essas coisas, mas quando dizia, fazia com que cada palavra carregasse um peso profundo.
respirou fundo, como se estivesse guardando aquele momento dentro de si.
— Eu te amo, .
Ela sorriu, os olhos brilhando.
— Eu também te amo, .
Ele a puxou para outro beijo, mais intenso, mais cheio de certezas. O rádio continuava tocando baixinho, e eles dançaram ali, no meio da sala, sem pressa, sem medo. Apenas os dois e o amor que, naquela noite, parecia ser a única coisa que importava.
Flashback off
notou a forma como ela o olhava, os olhos analisando seu rosto com um misto de nostalgia e curiosidade. O ar ao redor deles pareceu ficar mais denso, carregado de algo que ambos conheciam, mas evitavam há anos.
— … — começou, a voz rouca, mas então desviou o olhar, pigarreando e se afastando ligeiramente. Pegou uma colher e mexeu a panela, como se nada tivesse acontecido. — A comida tá quase pronta. Melhor a gente comer antes que esfrie.
piscou, surpresa com a mudança repentina de assunto. Ela conhecia bem aquela tática dele. Fugir antes que algo se tornasse grande demais para lidar.
Ela sorriu de canto, sabendo que, mais tarde, aquilo ainda voltaria à tona.
Depois de comerem, decidiu explorar um pouco mais o bunker. A estrutura era grande para um abrigo improvisado, e ela sentia curiosidade sobre quem teria preparado aquele lugar tão bem antes do mundo desabar. Vasculhando um dos armários, encontrou uma velha caixa de madeira trancada. Com um pouco de esforço, forçou a fechadura e a abriu.
Dentro, encontrou um álbum de fotos antigas e um pequeno gravador de fita. Franziu a testa, intrigada, e pegou os objetos antes de voltar para a cozinha, onde lavava o que haviam usado para comer.
— Olha só o que eu achei — disse, colocando a caixa sobre a mesa.
secou as mãos e se aproximou, examinando o conteúdo com interesse. Pegou o gravador, analisando-o com cautela, e depois olhou para as fotos. Algumas mostravam uma família, um casal sorrindo ao lado de uma criança pequena. Havia algo melancólico naquele achado.
— Parece que alguém planejou esse bunker para durar — comentou ele, virando uma das fotos. — Mas nunca chegou a usá-lo.
assentiu, pegando o gravador.
— Será que ainda funciona?
Ela apertou o botão de reprodução e, depois de alguns segundos de chiado, uma voz masculina rouca começou a falar.
“Se alguém encontrar isso… significa que eu não consegui. Preparei esse lugar para minha família, mas o mundo lá fora é cruel. Espero que quem quer que esteja ouvindo possa ter uma chance melhor do que eu tive.”
O silêncio entre os dois se prolongou quando a gravação terminou. olhou para , sentindo um peso diferente no ar. Ele suspirou e passou a mão pelo rosto.
— Parece que ninguém sai ileso dessa porra de mundo — murmurou.
Ela colocou o gravador de volta na caixa e o observou. A luz fraca do bunker realçava as linhas de seu rosto, os traços endurecidos pelo tempo, mas ainda assim familiares. sentiu um aperto no peito antes de dizer:
— Você acha que… se as coisas tivessem sido diferentes, estaríamos aqui agora?
ergueu os olhos para ela, surpreso com a pergunta. Ele a analisou por um instante, como se ponderasse a resposta certa, mas no fim apenas disse a verdade:
— Eu não sei. Mas tem muita coisa que eu faria diferente se pudesse.
assentiu, sentindo o coração acelerar. Algo entre eles tinha mudado, algo que não podiam mais ignorar. Sem pensar muito, ela se aproximou um pouco mais, os olhos presos aos dele.
O silêncio se prolongou entre eles, preenchido apenas pelo som do vento rugindo lá fora. desviou o olhar por um instante, como se buscasse algo para dizer, mas não recuou. Seus olhos se encontraram novamente, e por um breve momento, tudo ao redor deixou de importar.
— Eu também faria muita coisa diferente — ela murmurou, sua voz mal passando de um sussurro.
engoliu em seco, desviando o olhar para o álbum de fotos sobre a mesa. Passou os dedos sobre a capa desgastada, pensativo. Havia algo dolorosamente familiar naquela sensação—o peso das lembranças, das escolhas que não poderiam ser desfeitas.
— Você se arrepende? — perguntou, cruzando os braços. Não havia acusação em sua voz, apenas uma curiosidade genuína.
suspirou, demorando a responder.
— De algumas coisas, sim — admitiu. — Mas não sei se… se teria sido diferente. O mundo já tava desmoronando antes de tudo isso.
Ela assentiu, mordendo o lábio. Sentou-se ao lado dele e pegou o álbum, folheando as páginas. As fotos mostravam momentos felizes, rostos desconhecidos que haviam desaparecido antes mesmo que tivessem uma chance real de lutar.
— Esse cara tentou salvar a família dele — disse ela, apontando para a foto do casal. — Planejou tudo, se preparou… mas não conseguiu.
passou a mão pelo rosto.
— Ninguém está realmente preparado pra esse mundo. A gente só sobrevive.
observou a maneira como ele falava, como se estivesse se convencendo daquilo. Mas ela sabia que era mais do que apenas sobrevivência. Sempre foi.
— A gente pode fazer mais do que só sobreviver, — ela disse, suavemente.
Folheou as páginas do álbum, parando em uma imagem do casal que havia preparado o bunker. Eles sorriam, alheios ao que o mundo se tornaria.
— Você acha que eles conseguiram, pelo menos por um tempo? — perguntou.
olhou para a foto e suspirou.
— Quero acreditar que sim. Que eles tiveram pelo menos um pouco de paz antes do fim.
Ela assentiu, fechando o álbum e se recostando contra a mesa. Seus ombros tocaram levemente os de , e ele não se afastou. O contato era estranho, novo, mas ao mesmo tempo familiar. Como se, depois de tudo, aquilo ainda fizesse sentido.
E então, num impulso que pareceu inevitável, seus lábios se encontraram. O beijo se prolongou, profundo e carregado de sentimentos há muito tempo reprimidos. sentiu o calor de contra ele, suas mãos deslizando para sua cintura de maneira hesitante, mas firme. Não havia mais passado ou futuro naquele momento, apenas o agora.
Mas então, de repente, ele se afastou.
A respiração de estava pesada, seus olhos escuros e intensos, mas carregados de algo que não conseguiu decifrar de imediato. Ele passou a mão pelo rosto, desviando o olhar, como se estivesse lutando consigo mesmo.
— Eu não posso — murmurou, a voz rouca.
franziu o cenho, ainda sentindo o gosto dele em seus lábios.
— O que foi? — perguntou, tentando entender.
balançou a cabeça, soltando um suspiro frustrado.
— Eu não aguento mais perder pessoas, . Não posso… não posso me permitir isso. Não é tão fácil assim.
Ela se manteve em silêncio, observando-o. Ele parecia tão forte, tão impenetrável para o resto do mundo, mas agora, diante dela, estava quebrado. Cada palavra carregava um peso enorme, como se ele estivesse tentando segurá-lo há anos.
— … — ela começou, mas ele a interrompeu.
— Eu matei demais. Vi gente demais morrer. Eu… eu não posso fazer isso de novo. Não posso arriscar perder você também. E pior ainda… não posso ser a razão de mais sofrimento.
O coração de apertou. Ela sabia que ele carregava coisas que nunca compartilhava, que o mundo havia transformado em um homem fechado, endurecido. Mas vê-lo admitir aquilo em voz alta, com tanta dor na voz, era diferente.
Ela se aproximou devagar, hesitante, mas não recuou. Sabia que ele queria fugir, que era assim que ele lidava com a dor. Mas ela não estava disposta a deixá-lo se afastar tão facilmente.
— , olha pra mim — disse, suavemente.
Ele hesitou antes de erguer os olhos para ela. Havia medo ali, um medo real. De perder, de se apegar, de se permitir sentir outra vez.
— A gente já perdeu muita coisa. Mas isso aqui — ela tocou a mão dele sobre a mesa, seus dedos roçando suavemente nos dele — isso ainda é real. Ainda estamos aqui. Juntos.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um instante. Quando os abriu, havia algo diferente ali. Uma aceitação lenta, um entendimento silencioso.
— Isso não vai ser fácil — ele avisou.
— Nada nunca é — respondeu com um meio sorriso. — Mas acho que podemos lidar com isso. Juntos.
segurou a mão dela dessa vez, apertando levemente.
E naquela noite, ele não fugiu.
A tempestade lá fora rugia, o vento uivando contra as paredes do bunker. Lá dentro, o calor era confortável, e pela primeira vez em muito tempo, se sentia… segura.
estava deitado ao lado dela, os dois compartilhando um cobertor grosso que encontraram no armário. O espaço entre eles era mínimo, seus corpos aquecendo um ao outro.
Ela podia ouvir sua respiração, sentir a firmeza de seu peito subir e descer lentamente.
— Você tá acordado? — ela sussurrou, a voz quase inaudível no silêncio do abrigo.
demorou um segundo antes de responder.
— Tô agora.
Ela sorriu de leve, seus olhos ajustando-se à meia luz enquanto virava um pouco o rosto para observá-lo. Ele estava próximo, tão próximo que bastaria um pequeno movimento para seus lábios se tocarem.
O silêncio entre eles era denso, carregado de algo que se arrastava há anos, algo que nunca tinham coragem de encarar de frente.
levou a mão até o peito dele, sentindo o calor de sua pele sob a camisa.
— Você sempre foi quente assim ou eu que tô congelando? — brincou, a voz suave.
soltou um riso baixo, rouco.
— Deve ser o frio.
Ela deslizou os dedos levemente sobre o tecido, sentindo os músculos tensos sob sua palma. Ele não recuou, apenas observou-a no escuro, como se tentasse decidir até onde aquilo iria.
aproximou-se um pouco mais, sua perna roçando contra a dele de propósito.
— Isso aqui… — ela murmurou, os olhos descendo até os lábios dele por um breve instante. — Ainda faz sentido pra você?
não respondeu de imediato. Ele apenas ergueu a mão, roçando os dedos devagar pela lateral do rosto dela, depois descendo para a linha do queixo. O toque era hesitante, como se estivesse testando a realidade daquilo.
Então, sem dizer nada, ele a beijou.
Não houve pressa, não houve desespero. Foi profundo, lento, carregado de tudo que eles não disseram em todos aqueles anos.
suspirou contra seus lábios, os dedos apertando a camisa dele, puxando-o para mais perto. retribuiu, sua mão deslizando pela curva da cintura dela, os dedos pressionando sua pele através do tecido fino da camiseta que ela vestia.
O calor entre eles cresceu, a respiração tornando-se mais pesada, mais entrecortada. Os corpos se encaixaram naturalmente, como se aquele momento sempre tivesse estado à espera deles.
quebrou o beijo por um instante, sua testa tocando a dela enquanto respirava fundo.
— Tem certeza? — sua voz saiu baixa, rouca, carregada de algo que sabia que era mais do que desejo.
Ela não hesitou.
— Sempre tive.
a puxou para mais perto, seus lábios explorando o pescoço dela devagar, sentindo o arrepio que percorreu sua pele. se encaixou contra ele, as mãos deslizando pelas costas dele, os dedos traçando caminhos conhecidos e ao mesmo tempo novos.
a puxou para mais perto, os beijos se aprofundando, as mãos explorando a curva da cintura dela. O calor entre os dois aumentava, a respiração ficando mais pesada.
Dessa vez, ele não recuou.
Naquela noite, o mundo exterior desapareceu completamente. O calor do bunker contrastava com o frio intenso lá fora, e pela primeira vez em muito tempo, e se permitiram esquecer a brutalidade da realidade. Entre beijos urgentes e carícias hesitantes, cederam ao desejo reprimido por anos, encontrando consolo um no outro. Foi intenso, foi necessário. Por algumas horas, eles não eram apenas sobreviventes.
não hesitou mais. Ele a puxou para mais perto, e seus lábios se encontraram novamente, dessa vez sem pressa, sem dúvidas. O beijo começou lento, exploratório, mas logo se tornou mais intenso, carregado de tudo que ficou preso entre eles por anos.
deslizou os dedos pela barba dele, sentindo a aspereza contra sua pele. Era familiar e, ao mesmo tempo, novo. era diferente do homem que ela conheceu tantos anos atrás — mais endurecido, mais calejado pelo mundo — mas ainda era ele. Ainda era o cara que sabia exatamente como fazê-la se perder no momento.
Ele segurou seu rosto com firmeza, os polegares acariciando suavemente suas maçãs do rosto antes de descê-los para a linha do maxilar. Seu toque era quente, cuidadoso, mas cheio de um desejo contido por tempo demais.
Quando os lábios de abandonaram os dela e desceram lentamente pelo pescoço, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O frio do bunker já não importava mais.
Ela fechou os olhos e sussurrou contra a pele dele:
— Nunca pensei que a gente teria isso de novo.
parou por um instante, os lábios ainda próximos ao pescoço dela. Sua respiração quente contrastava com o frio do ambiente.
— Nem eu — ele admitiu, sua voz rouca e carregada de sinceridade.
abriu os olhos, buscando os dele na penumbra do bunker.
— Você já pensou em como teria sido… se eu nunca tivesse ido embora?
hesitou por um segundo antes de soltar um suspiro. Ele passou os dedos pelos cabelos dela, afastando uma mecha solta de seu rosto.
— O tempo todo.
Ela mordeu o lábio, sentindo o coração apertar um pouco.
— Eu também.
Ele a encarou por um instante, como se tentasse memorizar cada detalhe, cada expressão. Como se estivesse tentando entender como, depois de tanto tempo, depois de tudo o que perderam, ainda conseguiam se encontrar ali, naquele momento.
deslizou as mãos por suas costas, trazendo-a ainda mais para perto, e se permitiu se encaixar contra ele, sentindo o calor de seus corpos juntos.
— Não sei o que vai acontecer depois disso — ele murmurou, a voz baixa contra o ouvido dela.
Ela sorriu de leve, os dedos traçando pequenos círculos no peito dele.
— Então vamos pensar só no agora.
não discutiu. Afinal, o agora era tudo o que eles tinham.
E, pela primeira vez em muito tempo, isso parecia suficiente.
Capítulo 6 - Cat and mouse
O frio da manhã chegou antes mesmo que o sol despontasse no horizonte. O bunker ainda estava mergulhado na penumbra, mas a tempestade lá fora havia diminuído. O silêncio era absoluto, exceto pelo som da respiração ritmada de , ainda adormecida ao lado de .
Ele já estava acordado. Há algum tempo.
E sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que encarar a realidade.
se afastou dela devagar, sentindo o calor do corpo dela desaparecer quando saiu debaixo do cobertor compartilhado. Vestiu a camisa e passou as mãos pelo rosto, respirando fundo. Sua mente estava pesada, sobrecarregada com um turbilhão de pensamentos.
Ele não deveria ter cedido. Não deveria ter deixado aquilo acontecer.
O que quer que tivesse existido entre eles no passado… já não cabia mais no mundo em que viviam agora.
O amor era um luxo que ninguém podia se dar ao direito de ter. Porque tudo, mais cedo ou mais tarde, se tornava perda.
Com esse pensamento, ele se levantou e foi até a cozinha improvisada, começando a revirar os suprimentos. Manteve-se ocupado, os ombros tensos, os movimentos bruscos e automáticos. Focar na sobrevivência era mais fácil do que lidar com o que sentia.
Atrás dele, se remexeu no colchão, sentindo o frio ao seu lado. Quando abriu os olhos, a primeira coisa que percebeu foi a ausência de ao seu lado.
A segunda coisa foi o cheiro de café sendo preparado.
Por um breve momento, um sorriso quase escapou por seus lábios. Mas então, ao se virar para observá-lo, seu coração afundou um pouco no peito.
Ele estava diferente.
Não era apenas a maneira como evitava olhar para ela. Era o silêncio frio. A rigidez nos ombros. A forma como ele se movia como se a noite anterior nunca tivesse acontecido.
sentiu um gosto amargo na boca antes mesmo de dizer qualquer coisa.
— Então é assim? — sua voz soou mais magoada do que pretendia.
parou o que estava fazendo por um segundo, mas não se virou.
— Assim como?
Ela se sentou, puxando o cobertor ao redor do corpo, tentando conter a frustração crescente.
— Você simplesmente acorda e finge que nada aconteceu?
Ele ficou em silêncio por um momento, depois soltou um suspiro e continuou mexendo no café.
— Eu não tô fingindo nada.
— Não? — ela riu, mas sem humor. — Então o que é isso? Você não consegue nem olhar pra mim, .
Ele finalmente se virou, o olhar cansado e fechado.
— O que você quer que eu diga, ?
Ela o encarou por um momento antes de se levantar, cruzando os braços.
— Eu quero que você pare de fugir.
— Eu não tô fugindo.
Ela soltou um riso incrédulo.
— Ah, por favor! Você sempre faz isso. Sempre recua quando alguma coisa te assusta.
passou a mão pelo rosto, claramente irritado.
— Você acha que isso é simples? — sua voz saiu mais áspera do que ele pretendia. — Isso aqui, a gente… isso não muda nada, . O mundo ainda tá uma merda lá fora. Ainda podemos morrer amanhã.
Ela engoliu em seco.
— Então, pra você, foi só… um erro?
hesitou. Ele sabia que, se dissesse a coisa errada, a machucaria mais do que queria.
Mas, no fundo, ele precisava afastá-la.
— Foi um momento — ele disse, simplesmente.
O silêncio que se seguiu foi avassalador.
sentiu o peito apertar, os olhos ardendo, mas se recusou a chorar. Apenas assentiu lentamente, mordendo o lábio enquanto desviava o olhar.
— Entendi.
sentiu um incômodo crescer em seu peito, uma culpa silenciosa que o corroía. Mas ele não podia se permitir ceder de novo.
se virou, pegando suas roupas e vestindo-as rapidamente, sua expressão endurecendo.
— Sabe o que é engraçado? — ela disse, sem olhá-lo. — Por anos, me perguntei se algum dia te veria de novo. Se ainda sentiria alguma coisa por você.
Ela prendeu a respiração, tentando conter a onda de emoções que a atingia. Quando se virou para ele, seu olhar estava frio.
— Mas acho que estava errada. Você não é mais o homem que eu amei.
sentiu aquelas palavras atingirem fundo, mas manteve sua expressão impassível.
— Isso nunca foi sobre amor, . Isso foi só… sobrevivência.
Ela piscou algumas vezes, sentindo um nó na garganta.
E, naquele momento, algo dentro dela quebrou de vez.
Sem dizer mais nada, pegou sua mochila e saiu do bunker, deixando para trás com sua própria miséria.
Ele queria ir atrás dela.
Mas, mais uma vez, escolheu o caminho mais fácil.
E a deixou ir.
O ar gelado atingiu assim que ela deixou o bunker, mas o frio do lado de fora era nada comparado ao que sentia por dentro.
Seus passos eram rápidos, determinados, como se quisesse se afastar de antes que perdesse a pouca dignidade que ainda lhe restava. O peito apertava, mas ela se recusava a chorar.
A poucos metros dali, estava empilhando lenha perto da entrada, os olhos semicerrados por causa da claridade fraca da manhã. Ao vê-la se aproximar apressada, ele franziu o cenho.
— Qual a pressa? — perguntou, jogando um pedaço de madeira no chão.
parou por um instante, mas não respondeu.
Se dissesse qualquer coisa naquele momento, sua voz provavelmente trairia o que estava sentindo.
a observou por um segundo a mais, percebendo o jeito tenso de seus ombros, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— ?
Ela apenas passou por ele, apertando a alça da mochila, mantendo o olhar fixo no caminho à frente.
suspirou, passando a mão pelos cabelos. Ele podia não saber exatamente o que aconteceu ali dentro, mas conhecia o irmão bem o suficiente para imaginar.
Ele olhou para a entrada do bunker, onde provavelmente ainda estava fingindo que nada aconteceu.
E balançou a cabeça, frustrado.
— Filho da puta.
continuou andando, os passos firmes e rápidos, sem olhar para trás. Se parasse, talvez hesitasse. Talvez mudasse de ideia. Mas ela não queria dar a esse poder sobre ela de novo.
O frio cortava seu rosto, e a neve rangia sob suas botas, mas nada disso a incomodava tanto quanto o buraco no peito que ele deixou.
Ela não sabia para onde exatamente estava indo—só sabia que precisava sair dali.
Deixá-lo para trás.
Deixá-los para trás.
No bunker, se manteve ocupado. Pelo menos, tentou.
Limpou a faca. Organizou os suprimentos. Mexeu na arma que nem precisava de manutenção. Qualquer coisa para não pensar na forma como saiu sem olhar para trás.
O silêncio foi quebrado quando entrou abruptamente, fechando a porta com força.
— Você tem merda na cabeça, é isso?
não olhou para ele.
— Bom dia pra você também.
bufou, jogando as luvas em cima da mesa.
— Ela passou por mim sem dizer uma palavra. E dá pra ver que tá puta. O que você fez?
continuou mexendo na arma, evitando o olhar do irmão.
— Nada.
— Ah, claro. Porque a saiu no meio da neve, sozinha, sem motivo nenhum.
cruzou os braços, estreitando os olhos.
— Você afastou ela, né?
não respondeu.
soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
— Você é inacreditável, sabia?
largou a arma e finalmente ergueu os olhos. Seu olhar era duro, mas o conhecia bem o suficiente para ver o que estava por trás daquela expressão.
— Você quer que eu faça o quê, ? Que finja que isso aqui é um conto de fadas?
bufou.
— Ninguém tá falando de conto de fadas, . Mas, pelo menos uma vez, você podia parar de agir como se sentir alguma coisa fosse um erro.
apertou a mandíbula.
— Você não entende.
— Entendo, sim! — rebateu. — Você realmente quer isso? Você só tá arrumando outra forma de se machucar.
abaixou o olhar por um instante, os punhos cerrando ao lado do corpo.
suspirou, passando a mão pelos cabelos. Ele não queria brigar, mas odiava ver o irmão se destruindo desse jeito.
— Você já perdeu muita coisa, . Mas tá prestes a perder mais uma. E, dessa vez, a culpa vai ser toda sua.
O silêncio se instalou entre os dois.
pegou sua mochila e foi até a porta. Antes de sair, lançou um último olhar para o irmão.
— Decide logo o que você quer. Antes que seja tarde demais.
parou na porta, esperando alguma reação de , mas tudo que recebeu foi o silêncio teimoso de sempre.
Ele suspirou, esfregando a nuca, já prestes a sair, quando ouviu a voz do irmão atrás dele.
— Se está tão preocupado assim, por que não vai atrás dela?
O tom de era seco, desafiador, mas havia algo a mais ali. Algo que reconheceu imediatamente: medo.
riu, um som sem humor, e se virou para encará-lo.
— Sabe de uma coisa? Talvez eu devesse mesmo.
não respondeu. Não tinha uma resposta.
deu um passo à frente, sem desviar o olhar.
— Porque pelo menos eu sei reconhecer quando alguém vale a pena.
tinha uma expressão de surpresa no rosto mas não disse nada.
— Você acha que tá protegendo ela se afastando? Que está se protegendo? — continuou. — Mas tudo que está fazendo é se condenar a ficar sozinho.
Ele balançou a cabeça, decepcionado.
— Só não reclama quando perceber que perdeu a última coisa boa que ainda tinha.
E, com isso, abriu a porta e saiu.
ficou ali, sozinho, sentindo que, talvez dessa vez, realmente tivesse ido longe demais.
O frio cortava como lâminas afiadas, mas não se importava. Tinha uma missão agora.
Seguiu os rastros deixados por na neve, os passos fundos e apressados, até finalmente avistá-la.
Ela estava sentada sobre um tronco caído, de costas para ele, os ombros levemente curvados.
diminuiu o ritmo, se aproximando sem pressa.
— Eu sei que você me ouviu chegando, então nem tenta fingir surpresa.
soltou um riso nasalado e balançou a cabeça.
— Você pisa igual um cavalo, . Dava pra ouvir de longe.
Ele sorriu e sentou-se ao lado dela, esfregando as mãos para se aquecer.
— Você tá bem?
Ela não respondeu de imediato. Manteve o olhar perdido na paisagem à sua frente, onde a neblina se misturava com os galhos retorcidos das árvores cobertas de neve.
— Já estive pior — disse por fim.
assentiu devagar, respeitando o tempo dela.
Ficaram em silêncio por alguns instantes, apenas ouvindo o vento uivar. Então, suspirou, apertando os próprios braços como se tentasse se proteger de algo muito maior do que o frio.
— Sabe o que é pior? Eu sabia que ia ser assim. Eu sabia que ele ia se fechar de novo, que ia tentar fingir que nada aconteceu.
não precisou perguntar quem era "ele".
— sempre foi assim — disse, a voz calma. — Só conhece uma maneira de lidar com as coisas: empurrando pra longe.
Ela soltou uma risada seca.
— Pois é. E eu, idiota, achei que dessa vez pudesse ser diferente.
olhou para ela, vendo a mistura de cansaço e mágoa em seu rosto.
— Você nunca foi idiota, . Só tem esperança.
Ela bufou.
— O que, nesse mundo, é quase a mesma coisa.
sorriu de lado, observando-a por um momento antes de falar:
— Eu sempre achei engraçado como vocês dois são opostos e, ao mesmo tempo, tão parecidos.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Ah, é?
Ele assentiu.
— Você tem o coração que perdeu há muito tempo. Sempre teve. Mas ele tem uma coisa que você não tem.
Ela estreitou os olhos.
— E o que seria?
— Medo.
ficou em silêncio, absorvendo aquelas palavras.
continuou:
— Você se joga nas coisas, mesmo sabendo que pode se machucar. Ele? Ele passou a vida fugindo de tudo que podia fazer ele sentir alguma coisa.
Ela suspirou, esfregando o rosto com as mãos.
— Isso cansa, sabia? Tentar alcançar alguém que só sabe correr.
passou um braço pelos ombros dela, num gesto confortável, sem segundas intenções. Ele era em tantos aspectos, mas ao mesmo tempo tão diferente.
Mais leve. Mais sincero. Mais aberto.
E, naquele momento, percebeu que conversar com ele era… fácil.
— Você não precisa correr atrás dele — disse, suavemente. — Se ele quiser, ele que corra atrás de você.
Ela soltou um longo suspiro, inclinando a cabeça levemente contra o ombro dele.
— Isso nunca vai acontecer.
não disse nada. Apenas ficou ali com ela, oferecendo companhia, sem pressa, sem pressão.
E pela primeira vez naquele dia, sentiu que talvez não estivesse tão sozinha assim.
O caminho de volta ao bunker foi silencioso. não precisou insistir muito para convencer a voltar—o que, para ele, já era um milagre.
Ela ainda estava magoada, mas no fundo sabia que não podia simplesmente pegar sua mochila e desaparecer no meio do nada sem os recursos certos. Isso não seria uma prova de força — seria burrice.
Ao chegarem à entrada, lançou um olhar discreto para ela.
— Vai ficar tudo bem?
respirou fundo, ajustando a alça da mochila no ombro e jogando um olhar rápido para o bunker.
— Eu tô aqui só pra pegar o que preciso.
soltou um suspiro.
— É, mas e depois?
Ela não respondeu.
Não queria pensar no depois.
Quando desceram até o bunker, estava sentado à mesa, afiando uma faca com os cotovelos apoiados no tampo de madeira. Ele ergueu os olhos assim que os viu entrar, e a surpresa em seu rosto foi evidente.
. De volta.
Ela o ignorou completamente. Passou direto por ele sem nem ao menos lançar um olhar, indo direto para o canto onde havia deixado suas coisas.
observou a interação silenciosa e sentiu a tensão no ar como uma faca afiada.
pigarreou, desviando o olhar para .
— Como diabos você conseguiu fazer ela voltar?
deu de ombros.
— Magia.
não riu. Apenas observou de relance, sentindo o peito apertar com a maneira fria como ela o tratava.
— A gente vai precisar de mais suprimentos antes de sair — continuou. — E eu vou tomar um banho.
Ele olhou para , que ainda estava de costas, mexendo na mochila.
— Você devia aproveitar e descansar um pouco.
Ela apenas assentiu, sem realmente dar atenção.
continuou observando-a, esperando que ela dissesse algo para ele. Mas não deu esse luxo. As únicas palavras que trocou com ele foram as estritamente necessárias.
— A gente parte ao amanhecer — ela disse, enquanto conferia sua arma.
apertou a mandíbula.
— Certo.
Nada mais foi dito.
Capítulo 7 - Survivors
Depois que tomou um banho e pegou roupas limpas, os três deixaram o bunker e partiram rumo ao ponto de encontro marcado no mapa.
A caminhada foi longa e silenciosa. sentia ao seu lado, mas era como se ela não estivesse ali.
Ela não fazia perguntas, não olhava para ele, não tentava provocar ou arrancar alguma reação sua.
E, de alguma forma, isso o incomodava mais do que qualquer briga que pudessem ter tido.
Porém, tudo mudou quando avistaram uma pequena construção no meio da estrada—um antigo posto de gasolina parcialmente destruído, com alguns destroços e uma caminhonete capotada na entrada.
foi o primeiro a perceber que algo estava errado.
— Aquele lugar não parece abandonado.
estreitou os olhos. Havia pegadas frescas na neve.
E então, uma voz ecoou do lado de dentro.
— Eu não acredito… ?
O coração de travou no peito.
Aquela voz.
Uma mulher saiu do posto, vestindo um casaco grosso e uma mochila surrada nas costas. Seus cabelos estavam um pouco mais curtos do que ele se lembrava, mas os olhos… os olhos eram os mesmos.
Ela sorriu.
— Caramba… quanto tempo.
Sofia.
sentiu o estômago revirar.
Ele havia falado tanto sobre ela no passado—mal, na maioria das vezes. Sempre descreveu Sofia como alguém egoísta, manipuladora, alguém que ele nunca queria ter por perto de novo.
Mas agora, ali, no meio do nada, ela parecia outra pessoa.
Mais doce, mais humilde.
Mudada.
Ou, pelo menos, era isso que ela queria que acreditassem.
Sofia olhou para e depois para , sorrindo de leve.
— Amigos seus?
cruzou os braços, observando a interação com olhos atentos.
limpou a garganta, sem saber exatamente como reagir.
— Esse é meu irmão, — ele disse, hesitante. E então, finalmente olhou para . — E essa é…
Ele parou.
O que ele diria?
Sofia ergueu uma sobrancelha, percebendo a pausa.
— E essa é…?
manteve a expressão impassível.
— — ela disse simplesmente, sem dar mais explicações.
Sofia sorriu.
— Bom conhecer vocês.
E então, virou-se para novamente, os olhos brilhando com algo que não soube decifrar.
— Acho que temos muito o que conversar.
sentia que o ar ao redor dele havia ficado mais pesado.
O olhar de Sofia sobre ele era intenso, e sentiu um incômodo imediato ao ver a maneira como a mulher sorria. Não era apenas surpresa por encontrá-lo—havia algo mais.
Algo calculado.
, sempre o mais observador, percebeu a mudança de humor de e imediatamente.
— Então, Sofia — ele começou, cruzando os braços — o que diabos você tá fazendo por aqui?
Ela sorriu, ajeitando a alça da mochila.
— Sobrevivendo, como todo mundo. Esse posto tava abandonado, então resolvi ficar por um tempo. Tá difícil achar um lugar seguro hoje em dia.
permaneceu em silêncio, apenas estudando a mulher. Ela era bonita, sem dúvida, e parecia mais arrumada do que qualquer sobrevivente que já tinham encontrado. Seu casaco estava sujo, mas não tão surrado, e suas mãos não pareciam calejadas como as de alguém que viveu no mundo lá fora por tempo suficiente.
Algo ali não fazia sentido.
— E você? — Sofia continuou, ainda focada em . — Como tá? Faz tanto tempo…
limpou a garganta, desconfortável.
— Tô vivo.
O sorriso dela cresceu um pouco.
— Isso já é um milagre.
sentiu a mandíbula travar. A forma como Sofia o olhava… como se só existisse ele ali.
desviou o olhar para o posto, tentando sair da situação.
— Você tá sozinha?
Sofia assentiu.
— Sim. Meu grupo foi dizimado há algumas semanas. Desde então, tenho vagado por aí. Mas agora que encontrei vocês… talvez possamos viajar juntos. Como nos velhos tempos.
O incômodo de se transformou em algo mais forte.
Nos velhos tempos?
Ela lançou um olhar para , esperando que ele negasse imediatamente. Mas ele não disse nada.
Nada.
percebeu a hesitação do irmão e decidiu cortar a conversa antes que as coisas piorassem.
— Bem, a gente só parou pra dar uma olhada e seguir viagem.
Sofia olhou diretamente para , ignorando .
— Pra onde estão indo?
desviou o olhar.
— Isso não importa.
bufou baixinho. Então, quando era ela perguntando, ele sabia cortar logo a conversa?
Sofia pareceu perceber que não estava exatamente sendo bem recebida, então ergueu as mãos em um gesto pacífico.
— Relaxa, . Eu só tô feliz de ver um rosto familiar.
Ela então olhou para e sorriu de leve.
— Você é a namorada dele?
O ar pareceu congelar.
encarou Sofia, os olhos fixos nos dela. Por um instante, ela pensou em dizer algo sarcástico, mas então se lembrou da manhã anterior.
Se lembrou de dizendo que aquilo não significava nada.
Ela ergueu um ombro, indiferente.
— Não.
virou o rosto na direção dela, a expressão carregada de algo que ela não soube decifrar.
Sofia olhou de um para o outro, como se tentasse entender a dinâmica ali, mas apenas sorriu.
— Hm. Que interessante.
quis socá-la.
— Bom, a gente já ficou tempo demais aqui — interrompeu, visivelmente cansado daquela interação. — Precisamos seguir viagem.
Sofia inclinou a cabeça.
— E eu posso ir com vocês?
abriu a boca para responder, mas foi mais rápida.
— Não.
Os olhos de Sofia se estreitaram por um segundo, mas sua expressão logo voltou a ser amigável.
— Sabe, … — ela começou, sua voz leve, como se não tivesse ouvido a negação de . — Eu tava pensando… talvez eu possa ir com vocês por um tempo.
ergueu os olhos para ela, mas antes que pudesse responder, bufou.
— Ah, claro. E por que exatamente a gente levaria você?
Sofia sorriu, ajeitando a alça da mochila.
— Eu sei caçar, sei onde encontrar suprimentos e tenho coisas para trocar. E, sendo bem honesta… — ela olhou ao redor, como se estivesse fazendo um grande favor — acho que vocês gostariam de mais uma arma no grupo.
cruzou os braços, desconfiado.
— A gente já se vira bem sozinhos.
Sofia soltou um suspiro dramático, jogando o cabelo para trás.
— Olha, eu sou só uma mulher sozinha nesse mundo fodido. E, vocês sabem, a gente sempre atrai mais problemas do que gostaria. Ter homens por perto me dá mais segurança… e, em troca, eu posso conseguir mantimentos pra gente.
parou de andar.
Ela se virou devagar, estreitando os olhos para Sofia.
Homens por perto?
sentiu a tensão no ar, mas antes que dissesse qualquer coisa, ele simplesmente deu de ombros.
— Pode ser útil.
O choque de foi instantâneo.
Ele nem sequer pensou. Nem hesitou.
olhou de um para o outro e suspirou.
— Porra, …
Sofia sorriu, satisfeita.
— Ótimo.
E foi assim que, sem qualquer discussão, ela passou a fazer parte do grupo.
Mas não ia deixar aquilo passar em branco.
A oportunidade veio algumas horas depois.
Durante a caminhada, foi à frente com Sofia, analisando o caminho e mantendo a vigia. percebeu o momento e se aproximou de , os passos firmes e cheios de intenção.
— Então é assim agora? — A voz dela cortou o silêncio.
olhou para ela, já esperando uma discussão.
— Assim como?
Ela riu sem humor, parando na trilha para encará-lo de frente.
— Você aceita Sofia no grupo como se fosse a coisa mais natural do mundo?
franziu o cenho.
— Ela pode ser útil.
cruzou os braços, balançando a cabeça.
— Engraçado. Porque você passou anos falando sobre como ela era manipuladora, egoísta e aproveitadora. Mas hoje? Hoje ela aparece com um sorrisinho e um "Oi, " e, de repente, ela é útil?
Ele respirou fundo.
— , não é assim.
— Não? Então me explica, . Porque, sinceramente, eu devo estar perdendo alguma coisa.
Ele ficou em silêncio por um momento, sem resposta.
sentiu o peito apertar.
— Você nem hesitou — ela continuou, a voz mais baixa, mas carregada de decepção. — Nem parou pra pensar se isso era uma boa ideia.
passou a mão pelo rosto, irritado.
— Eu fiz o que achei certo.
Ela deu um passo mais perto, os olhos presos nos dele.
— Ou você fez o que foi mais fácil?
O maxilar de travou.
— Você acha que eu sou algum idiota que se deixa enganar fácil?
segurou o olhar dele.
— Eu acho que você é um idiota, sim. Mas não porque foi enganado. Porque você escolheu ignorar o que estava bem na sua frente.
sentiu as palavras acertarem fundo.
E, dessa vez, ele não teve mais argumentos.
soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça antes de se afastar.
— Eu espero que essa sua decisão não nos custe mais do que você imagina.
Ela se virou e seguiu na trilha, deixando para trás.
E, pela primeira vez, ele se perguntou se realmente tinha tomado a decisão certa.
Capítulo 8 - Irmão
O silêncio entre eles depois que deixaram o posto se estendeu.
lançou olhares discretos para , que andava com passos firmes, claramente irritada. Ele não precisava perguntar nada—sabia que a situação tinha afetado mais do que ela queria demonstrar.
caminhava um pouco atrás, perdido nos próprios pensamentos. Ele sabia que estava furiosa. Ele sentia isso na forma como ela não olhava para ele, como sequer falava.
Depois de quase uma hora andando, finalmente não se aguentou.
— Tá tudo bem aí, ?
Ela soltou um riso curto.
— Perfeita.
suspirou.
— …
— Nem começa, .
ergueu as mãos.
— Beleza, então. Vou andar um pouco na frente. Se decidirem se matar, só avisem antes, tá bom?
Ele acelerou os passos, deixando os dois para trás.
respirou fundo.
— Você quer dizer alguma coisa?
parou de andar e se virou para ele.
— Na verdade, não. Só queria agradecer por me lembrar exatamente por que eu parei de insistir nisso.
Ele franziu o cenho.
passou a mão pelo rosto, exasperado.
— O que você queria que eu fizesse, ? Que fosse grosso e mandasse ela se foder?
Ela riu, sem humor.
— Não, . Eu queria que você fosse sincero.
Ele a olhou, confuso.
— Como assim?
apertou os punhos.
— Eu queria que você me olhasse e dissesse que aquilo que aconteceu entre nós significou alguma coisa.
congelou.
— …
— Mas não precisa — ela interrompeu, seu tom voltando a ficar frio. — Porque eu já sei a resposta.
Ela se virou e continuou andando, deixando para trás, parado no meio do caminho.
Foi aí que ele percebeu que talvez estivesse prestes a perdê-la de vez.
logo percebeu que não era só boa com armas—ela gostava de usá-las.
Caçar virou um passatempo inevitável nas saídas para suprimentos, e os dois rapidamente transformaram isso em um jogo.
— Dois sanduíches que eu acerto antes de você.
ergueu uma sobrancelha e sorriu de lado.
— Dois sanduíches de graça? Fechado.
riu, posicionando o rifle enquanto puxava a corda do arco, os dois competindo como se o mundo lá fora não estivesse em ruínas.
Os momentos de caça eram leves, cheios de risadas abafadas e provocações sutis. Diferente da tensão constante que ela sentia ao lado de .
, aliás, não estava nada satisfeito.
Nos primeiros dias, ele tentou ignorar. Tentou se convencer de que não se importava com o fato de e estarem se divertindo enquanto ele remoía tudo sozinho.
Mas era difícil fingir indiferença quando voltava das caçadas rindo, os olhos brilhando de adrenalina.
— Vocês dois parecem crianças. — resmungou certo dia, cruzando os braços enquanto afiava uma de suas flechas recém-esculpidas.
, deitado no chão com um chapéu cobrindo o rosto, apenas riu.
— Alguém tem que se divertir por aqui.
sorriu, mas diferente das outras vezes, dessa vez mirou diretamente em .
— Acho que algumas pessoas esqueceram como faz isso.
Os olhos de se estreitaram.
percebeu a tensão e se fez de desentendido.
— Bom, vocês podem continuar discutindo aí. Mas amanhã eu ganho de novo.
riu, testando a ponta afiada da flecha com o polegar.
— Vamos ver, cowboy.
observou, o incômodo crescendo dentro dele.
Não gostava daquela aproximação.
E odiava ainda mais o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, parecia não precisar dele.
A neve cobria o chão como um cobertor espesso, abafando o som dos passos de e enquanto se moviam pela floresta. O frio cortante não os incomodava tanto quanto a adrenalina da caçada.
— Ok, regra número um — disse, baixinho, agachado ao lado de enquanto observavam um cervo entre as árvores. — Dessa vez, sem flecha na bunda do animal.
arqueou uma sobrancelha, segurando o riso.
— Isso aconteceu uma vez.
— E eu nunca vou esquecer.
Ela revirou os olhos, ajustando a postura e puxando a corda do arco lentamente.
— Dessa vez, vai ser perfeito.
ficou em silêncio, apenas observando. Havia algo fascinante na maneira como manejava o arco—concentração absoluta, respiração controlada, firmeza no olhar.
Soltou a flecha.
O cervo caiu no primeiro impacto, e assobiou, impressionado.
— Agora sim.
sorriu, satisfeita.
— Eu sou melhor do que você. Já aceitou isso?
colocou a mão no peito, fingindo ofensa.
— Melhor do que eu? Em quê? Em atirar ou ser insuportável?
Ela soltou um riso e deu um leve empurrão no ombro dele.
— Vamos pegar isso antes que algo chegue antes da gente.
Os dois caminharam até o animal abatido e começaram a preparar a carne. , com sua adaga sempre à mão, começou a cortar com precisão, enquanto separava o couro.
— Isso foi sorte.
— Não, isso foi talento.
observou manejando a lâmina com precisão, e um pensamento passou por sua mente.
— Você se lembra da primeira vez que nos encontramos?
Ela sorriu levemente, sem tirar os olhos do que fazia.
— Claro. Você me irritava tanto quanto seu irmão.
— Mentira. Você sempre gostou mais de mim.
Ela riu.
— Bom, pelo menos você falava mais.
limpou as mãos na neve e se recostou contra um tronco caído.
— Acho engraçado como a gente sempre teve muito em comum. Ao contrário de você e , que parecem polos opostos.
parou por um instante. Ela sabia que era verdade. Desde que se conheciam, sempre foi o mais aberto, mais leve, mais fácil de conversar.
era outra história.
Ela suspirou, pegando a carne e se levantando.
— Vamos voltar antes que algum desgraçado tente roubar nosso jantar.
assentiu, mas o olhar dele dizia que essa conversa ainda não tinha acabado.
Ao retornarem, mal teve tempo de respirar antes de avistar Sofia e , próximos demais.
Sofia estava encostada na parede, inclinada para frente, as mãos levemente apoiadas na camisa dele, claramente o encurralando.
E ?
Ele não estava se afastando.
O estômago de revirou.
Sem hesitar, ao passar entre os dois, ela deu um pequeno empurrão no ombro de Sofia, firme o suficiente para deslocá-la um pouco do caminho.
— Com licença. — sua voz saiu calma, mas afiada.
Sofia olhou para com um sorriso divertido.
— Desculpa. Não sabia que estava no caminho.
não respondeu. Apenas continuou andando até a cozinha improvisada, jogando a carne sobre a mesa com um pouco mais de força do que o necessário.
apenas riu.
— Você não gostou nem um pouco disso, né?
pegou uma faca e começou a limpar a carne.
— Eu não ligo.
— Não? Então por que empurrou a coitada?
Ela revirou os olhos.
— Porque ela é uma metida.
— E porque ela tava bem próxima do .
cortou a carne com um pouco mais de força do que deveria.
— Eu não dou a mínima para o que ele faz.
observou-a por um instante antes de puxar uma cadeira e se sentar, cruzando os braços.
— … a gente se conhece há tempo suficiente pra você saber que eu não sou burro.
Ela respirou fundo.
— , só me ajuda a preparar essa carne.
Ele pegou a faca, mas não deixou o assunto morrer.
— Você já pensou que talvez você e o nunca tenham sido certos um pro outro?
parou por um instante, estreitando os olhos para ele.
— O que você quer dizer com isso?
suspirou.
— Você sempre foi mais parecida comigo do que com ele. Você se diverte, ri, tem esperança. O … ele sempre foi um cara fechado. Mesmo antes do mundo acabar.
Ela engoliu em seco.
— Eu amei ele, .
Ele assentiu.
— Eu sei. Mas amar alguém não significa que essa pessoa te faz bem.
desviou o olhar.
percebeu que tinha tocado em algo profundo.
Ele sorriu de leve.
— Só acho engraçado. No fim das contas, eu e você sempre fomos mais parecidos.
Ela suspirou, finalmente relaxando um pouco.
— É, talvez seja verdade.
O silêncio se instalou por um momento, mas não era desconfortável.
Eles continuaram preparando a carne juntos, enquanto o mundo lá fora, e os sentimentos bagunçados de , esperavam pela próxima tempestade.
O som da lâmina cortando a carne era quase hipnótico, o calor da cozinha improvisada trazendo um contraste bem-vindo contra o frio lá fora. estava concentrada nos cortes, mas, mesmo sem olhar, sentiu se aproximar por trás.
— Você está errando o ângulo. Aqui, deixe eu te mostrar.
A voz dele saiu baixa, rouca, próxima o suficiente para arrepiar sua nuca.
Antes que pudesse reagir, sentiu as mãos de guiarem as suas, firmes, mas sem pressa.
Ele estava quente.
Mesmo com as roupas de inverno, o calor do corpo dele irradiava contra o dela. Era um tipo de proximidade que não esperava sentir ali, naquele momento.
Ela prendeu a respiração por um segundo, absorvendo o toque, a forma como o peito dele roçou levemente suas costas quando ele se inclinou para guiar a lâmina.
— Assim. — Ele ajustou sua pegada no cabo da faca. — Se cortar com esse ângulo, aproveita melhor a carne.
assentiu lentamente, mas mal ouviu o que ele disse.
Seu coração bateu um pouco mais forte quando o rosto dele ficou perto demais de sua orelha. O perfume discreto de sabão e couro veio de encontro ao seu nariz, misturado com algo mais profundo, algo que era simplesmente .
Ela piscou algumas vezes, sentindo um calor estranho subir por seu peito. era bonito. Sempre foi.
Mas agora, ali, tão perto, parecia que ela estava realmente notando isso pela primeira vez.
— Tá prestando atenção? — perguntou, um sorriso perceptível na voz.
se obrigou a se concentrar.
— Claro.
Ele riu, mas não se afastou de imediato.
E então, o som irritante de alguém pigarreando alto quebrou o momento.
Os dois viraram a cabeça ao mesmo tempo, encontrando parado na entrada da cozinha, os braços cruzados e o olhar fixo neles.
— Tô interrompendo alguma coisa? — disse, a voz carregada de algo que não quis interpretar.
, ao contrário dela, não perdeu a compostura.
Ele apenas sorriu e deu um leve aperto nas mãos de antes de se afastar.
— Não, cara. Só ajudando aqui. Você quer dar uma mão também?
não respondeu de imediato. Seu olhar passou de para , como se analisasse algo que o incomodava profundamente.
, por sua vez, ergueu o queixo e sustentou o olhar dele.
— Se for pra ajudar e não ficar só olhando, fique à vontade.
apertou a mandíbula, mas não disse nada. Apenas pegou uma faca e começou a cortar um pedaço de carne com mais força do que o necessário.
riu baixinho ao lado de .
— Isso vai ser divertido.
E pela primeira vez naquela noite, realmente achou que poderia ser.
A noite caiu sobre o alojamento atual do grupo, e o frio se intensificou, obrigando todos a se recolherem. foi o primeiro a ir dormir, resmungando sobre como merecia descansar depois de carregar o grupo inteiro nas costas. Sofia desapareceu logo depois, alegando cansaço e deixando e para trás, apenas os dois e o crepitar da fogueira.
ficou sentada perto das chamas, o olhar perdido no fogo dançante. O calor do dia ainda pulsava em sua pele, resquícios da proximidade com , mas agora, na quietude da noite, era quem ocupava sua mente.
E, para sua surpresa, ele quebrou o silêncio primeiro.
— Você e andam bem próximos ultimamente.
A frase veio com um tom neutro, mas sentiu a pontada de algo mais profundo ali.
Ela ergueu uma sobrancelha, um pequeno sorriso surgindo nos lábios.
— E você e Sofia também.
Era estranho como, mesmo depois de tudo, havia momentos em que ele ainda se sentia familiar. Como se a sombra do passado pairasse entre os dois, trazendo lembranças de noites parecidas, quando o mundo ainda fazia sentido.
passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro.
— Não é a mesma coisa.
— Não? Porque do meu ponto de vista, parece bem parecido.
olhou para ela, e por um momento, houve algo quente naquele olhar.
Algo que fez o peito de apertar.
— Eu nunca achei que ia te ver de novo. — Ele finalmente admitiu, a voz mais baixa, quase relutante.
Ela desviou o olhar para as chamas.
— Eu também não.
O silêncio se alongou, mas dessa vez carregado de algo que ambos tentavam evitar.
limpou a garganta, como se tentasse reunir coragem para dizer algo mais, mas antes que pudesse, falou:
— Se estamos sendo sinceros… por um momento, achei que essa conversa ia terminar de um jeito diferente.
Ele franziu o cenho.
— Que jeito?
Ela deu de ombros.
— Com a gente finalmente admitindo alguma coisa.
ficou em silêncio.
E foi naquele instante que soube.
Soube que ele não ia dizer nada.
Que ele ia continuar fugindo.
Que eles estavam presos em um ciclo que nunca terminaria.
O aperto em seu peito rapidamente se transformou em frustração.
— Sabe o que é engraçado, ? — sua voz saiu mais ríspida do que pretendia. — Você age como se quisesse consertar as coisas, como se quisesse que tudo voltasse a ser como antes… mas na primeira oportunidade, você se fecha de novo.
Ele passou a mão pela nuca, irritado.
— Porque não é tão simples assim, .
Ela soltou uma risada sem humor.
— Ah, claro. Porque nada nunca é simples pra você, né?
se levantou abruptamente, os olhos agora cheios de algo mais sombrio.
— Você não entende.
— Não, . Eu entendo perfeitamente. — se levantou também, cruzando os braços. — Você quer o controle de tudo. Quer decidir quando as coisas importam e quando não importam. Quando pode sentir e quando não pode.
Ela balançou a cabeça, rindo de forma amarga.
— Mas a verdade é que você sente, sim. Você só tem medo.
apertou os punhos ao lado do corpo, a expressão fechada.
— E talvez você devesse ter mais medo também.
O silêncio caiu entre eles.
O fogo crepitava, lançando sombras distorcidas sobre seus rostos, mas o frio da noite agora era interno.
engoliu em seco.
Não havia mais nada a dizer.
Virou-se e saiu, sem olhar para trás.
E ficou ali, sozinho, olhando para o fogo como se ele fosse responder alguma coisa.
A manhã chegou fria, o ar carregado de um silêncio que pesava mais para alguns do que para outros.
, por exemplo, estava se divertindo.
Ele acordou cedo e encontrou sentada perto da fogueira apagada, afiando as pontas das flechas recém-esculpidas. O cabelo bagunçado, a expressão concentrada… Mas algo nela estava diferente.
Ela parecia mais leve.
Já ?
Bom, parecia prestes a quebrar alguma coisa.
Ele estava do outro lado do acampamento, fingindo estar ocupado com uma arma, mas sabia que ele estava de olho.
sempre esteve de olho.
sorriu sozinho. Ele não sabia da conversa da noite anterior. Não sabia que o que havia entre ele e agora era um laço diferente, algo forte, mas sem complicações.
E não ia contar.
Se queria remoer aquele ciúme até o osso, ótimo.
Mas talvez pudesse apressar o processo.
Ele se espreguiçou e caminhou até , bagunçando o cabelo dela de propósito.
— Dormiu bem, garota?
Ela resmungou, afastando a mão dele.
— Você não cansa de ser chato?
— E você não cansa de perder pra mim?
Ela ergueu uma sobrancelha, aceitando a provocação.
— Se acha que pode me vencer, então prova.
Caçar era essencial, mas naquele dia, ela simplesmente não queria.
— Podem ir sem mim. — Ela disse, sem tirar os olhos da lâmina deslizando pela madeira. — pode ir com Sofia. Até que ela é útil.
O comentário foi dito casualmente, mas carregava uma provocação proposital.
O silêncio que se seguiu valeu a pena.
tentou conter o sorriso. Sofia que acabara de acordar, por outro lado, não conseguiu esconder a satisfação.
, como esperado, revirou os olhos.
— Que ótimo. Você resolve ficar e ainda quer me empurrar pra uma situação pior.
deu de ombros.
— Ou você pode ir sozinho. Você escolhe.
Ele bufou, cruzando os braços, claramente incomodado.
Antes que o clima ficasse pior, entrou em ação.
Ele se abaixou ao lado de , pegando um galho do chão e cutucando sua perna com ele.
— Certo, então eu vou te carregar nas costas.
Ela franziu o cenho, olhando para ele.
— O quê?
— Se você não quer andar, eu te carrego. Mas você vai comigo.
Ela riu, balançando a cabeça.
— , nem ferrando.
Ele se levantou e estendeu as mãos.
— Você me conhece. Se eu falei, eu faço.
O brilho divertido nos olhos dele a fez suspirar. Droga. Ele sabia exatamente como convencê-la.
Ela jogou a flecha para o lado e levantou, batendo as mãos na roupa.
— Tá bom. Mas se eu cansar, você realmente vai me carregar.
sorriu, satisfeito.
— Fechado. Não precisa levar nenhuma arma. Só vem comigo. Se aparecer alguma coisa, eu resolvo.
Aquela frase, dita com tanta confiança, fez seu coração pular involuntariamente.
Ela abriu a boca para retrucar, mas nada saiu.
percebeu.
E sorriu.
— Viu? Nem tudo precisa ser difícil o tempo todo.
Ela mordeu o lábio para esconder o sorriso.
Mas por dentro?
Por dentro, estava bagunçada.
Ao lado da fogueira, passou a mão no rosto, exasperado.
Ele sabia que estava jogando com ele. E o pior de tudo?
Estava funcionando.
E ?
Ele apenas fechou os olhos por um instante, tentando ignorar o aperto no peito.
Porque, por mais que tentasse, sabia que estava perdendo .
E sabia que não hesitaria em tomá-la para si se ele continuasse parado.
Depois de um tempo caminhando pararam para descansar.
esticou as pernas, apoiando-se nos cotovelos, observando-a com aquele meio sorriso despreocupado que sempre carregava.
— Sabe, pensando bem… eu seria uma ótima segunda opção.
riu, olhando para o horizonte.
— Ah, é? E por quê?
— Bom, primeiro, eu sou lindo. Isso já conta muitos pontos.
Ela revirou os olhos.
— Modesto também.
— Modesto e realista, né? Você mesma já deve ter notado. — Ele piscou para ela, provocando.
Ela riu novamente, balançando a cabeça.
— Tá, continua. Quero ver até onde vai essa teoria.
virou-se um pouco mais para encará-la de frente, os olhos brilhando com divertimento.
— Sou engraçado, confiável… sei cozinhar, caçar e contar boas histórias.
— Hm, tem razão, isso é útil.
— E, o mais importante… eu nunca, jamais, quebraria seu coração.
A última frase saiu mais suave, e por um segundo, parou de sorrir. O sol iluminava o rosto de , destacando o jeito sincero com que ele a olhava.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio.
— …
— Ei, relaxa. — Ele sorriu novamente, cutucando seu braço. — Não tô te pedindo em casamento, mulher. Tô só dizendo que se um dia quiser esquecer o … eu tô aqui.
Ela soltou um suspiro divertido.
— E se eu aceitasse?
arqueou uma sobrancelha.
— Aí eu ia ter que lidar com um irritado querendo me socar. Mas seria um preço justo.
riu, jogando a cabeça para trás.
— Você é terrível.
Ele deu de ombros, rindo junto.
— Mas sou uma excelente segunda opção.
Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas sem responder. Parte dela sabia que estava brincando… e parte dela sabia que, no fundo, talvez não estivesse.
O silêncio entre eles se estendeu, preenchido apenas pelo som distante do vento passando pelas árvores. sentiu o olhar de sobre ela e, quando ergueu os olhos, encontrou um brilho divertido misturado com algo mais intenso.
Ele se aproximou um pouco, apoiando o cotovelo no ho e inclinando a cabeça de leve.
— Então… você vai considerar minha oferta? — A voz dele era baixa, brincalhona, mas havia um desafio ali, escondido sob o tom leve.
sorriu, mordendo o lábio.
— Talvez. Vou pensar no assunto.
— Hm. — estreitou os olhos como se analisasse a resposta, então inclinou-se mais um pouco, o rosto a poucos centímetros do dela. — E como eu saberia se a senhorita tomou uma decisão?
O coração de deu um leve tropeço, mas ela não recuou. Em vez disso, arqueou uma sobrancelha.
— Acho que você teria que adivinhar.
sorriu de canto, e por um instante, os dois ficaram ali, próximos demais, as respirações se misturando no ar frio. Mas o calor do momento refletia nos olhos dele, e percebeu, de repente, como era bonito. Sempre soube disso, claro, mas naquele momento, ele parecia diferente. Ou talvez fosse ela que estivesse diferente.
Ele ergueu uma das mãos e tocou de leve a ponta dos dedos no rosto dela, o suficiente para fazê-la prender a respiração.
— Se eu fosse adivinhar… eu diria que você já tomou sua decisão.
sentiu que os lábios dele estavam tão próximos dos dela, um quase-beijo. Ela poderia ceder. Poderia beijá-lo de verdade.
Mas, em vez disso, sorriu contra a boca dele.
— Você sempre acha que sabe de tudo, né?
soltou uma risada baixa e se afastou, sem pressa, como se aquela proximidade nunca tivesse sido algo importante.
— Quase sempre.
Ele piscou para ela e se levantou, estendendo a mão.
— Vamos voltar antes que achem que a gente morreu.
aceitou a mão dele, rindo.
apenas sorriu. E quando voltaram para o alojamento, não sabia dizer se aquele quase-beijo tinha sido apenas uma brincadeira ou se havia algo a mais.
Talvez nem soubesse.
Capítulo 9 - Convivência
Os dias no alojamento eram um teste constante de paciência e autocontrole. A tempestade de neve lá fora não dava trégua, obrigando , , Sofia e a permanecerem juntos no espaço apertado por mais tempo do que qualquer um gostaria. Se a sobrevivência no mundo lá fora já era difícil, suportar aquela convivência parecia um desafio ainda maior.
e evitavam contato direto, mas era impossível ignorar a tensão entre eles. Não ajudava o fato de que e Sofia pareciam estar cada vez mais próximos, e ambos estavam cientes disso. Era um jogo silencioso de provocações, usando os outros como peças, mesmo que inconscientemente.
A convivência dentro do alojamento improvisado estava se tornando um verdadeiro campo de batalha – mas um divertido. , , e Sofia passavam os dias se provocando, como se a única forma de suportar a tensão fosse transformar tudo em uma competição velada.
Naquela noite, sentados ao redor da lareira, mexia em um pedaço de couro que usaria para reforçar as luvas. Ele suspirou dramaticamente e olhou para .
— Preciso de mãos habilidosas para isso aqui. E já que a única pessoa habilidosa aqui sou eu, estou oficialmente aceitando aprendizes. , parabéns, você foi promovida a assistente oficial. — Ele lhe entregou a tira de couro e uma agulha, um sorriso malicioso no rosto.
— Você quer que eu costure isso? — ergueu uma sobrancelha.
— É isso ou te coloco pra esfolar a caça amanhã. E eu sei que você adora isso. — piscou.
revirou os olhos, mas pegou a agulha e começou a trabalhar. , que estava encostado na parede afiando sua faca, bufou.
— Isso vai ser um desastre.
— Você pode calar a boca e me deixar trabalhar em paz? — retrucou, concentrada no couro. — Ou tá com ciúmes porque me acha mais talentosa que você?
lançou um olhar estreito para , que apenas sorriu, se divertindo com a provocação.
— Você tá pegando gosto por me irritar, né? — murmurou.
— Quem? Eu? Nunca. — respondeu com a voz carregada de ironia.
Sofia, que até então observava a cena em silêncio, riu baixinho.
— Eu acho que vocês dois precisam se beijar logo e acabar com essa palhaçada.
quase deixou a agulha cair. gargalhou alto.
— Essa foi boa! — Ele bateu a mão na coxa. — Mas, Sofia, se esses dois pararem de brigar, o universo vai colapsar. Não quero carregar esse peso na consciência.
fechou a cara, atirando um pedaço de madeira na lareira.
— Vão pro inferno, os três.
— Já estamos nele, parceiro. — piscou e apontou para a tempestade lá fora. — E, olha, a gente tá se divertindo muito mais do que você.
terminou o remendo e jogou a luva remendada para .
— Pronto. Agora você pode parar de reclamar.
examinou o trabalho e assentiu, satisfeito.
— Ótimo. E olha só, , nenhuma gota de sangue. Diferente daquela vez que você tentou consertar sua mochila e costurou o dedo junto. — Ele riu.
Sofia também riu, e lançou um olhar mortal para o irmão.
— Vocês estão insuportáveis hoje.
— Ah, não é todo dia que a gente pode tirar sarro de você e sair ileso. — apoiou os pés na mesa e cruzou os braços. — A neve lá fora tá piorando. Acho que vamos ficar presos aqui mais alguns dias. O que significa que você vai ter que aturar a gente por mais um tempo, irmãozinho.
esfregou o rosto com as mãos, exasperado, enquanto e Sofia trocavam um olhar cúmplice.
— Quem sabe, até lá, aprenda a rir de uma piada. — murmurou.
— Duvido muito. — Sofia completou, rindo.
apenas bufou, mas no fundo, por mais que reclamasse, sabia que a companhia deles tornava aqueles dias um pouco menos infernais.
Os dias se seguiam nesse embate constante. e pareciam sempre encontrar um jeito de se aproximar, rindo e trocando provocações, enquanto Sofia fazia o mesmo com . Era uma dança perigosa, onde todos fingiam que nada ali significava algo mais profundo, mas no fundo, todos sabiam.
Até que, naquela manhã específica, a tensão escalou. e estavam voltando de uma pequena expedição de reconhecimento, as bochechas avermelhadas pelo frio, quando entraram no alojamento rindo.
— O que foi? — perguntou, semicerrando os olhos.
— quase pisou numa armadilha de urso — respondeu, ainda rindo. — Você precisava ver a cara dele.
— Não foi engraçado! — retrucou, mas sua risada traía qualquer indignação.
— É, super hilário — resmungou, se levantando e pegando sua arma. — Vocês brincam enquanto o resto de nós se preocupa com o real perigo lá fora.
Sofia suspirou.
— Lá vamos nós de novo…
— Ah, qual é, — disse, cruzando os braços. — Você age como se fosse o único responsável por todo mundo.
— Porque alguém tem que ser! — ele explodiu, olhando diretamente para ela. — Enquanto você tá aí rindo com o , eu tô tentando garantir que essa porra de alojamento continue de pé e que a gente não morra congelado!
o encarou, sentindo o sangue ferver. Mas antes que pudesse retrucar, se colocou entre os dois.
— Certo, certo, vamos respirar um pouco? — disse, olhando de um para o outro. — Já basta essa tempestade do lado de fora, não precisamos de outra aqui dentro.
Os olhares continuaram intensos, até que bufou e se virou, indo para o outro lado do alojamento.
— Façam o que quiserem — murmurou.
O clima ficou pesado pelo resto do dia, mas ninguém ousou tocar no assunto. No entanto, algo dentro de dizia que essa convivência forçada ainda traria problemas… ou revelações inevitáveis.
Naquela manhã, uma decisão precisava ser tomada. Os suprimentos estavam acabando e, gostassem ou não, teriam que sair do alojamento para encontrar mais recursos.
— Certo, vamos dividir isso direito — disse, esticando um mapa improvisado sobre a mesa. — O estoque de comida tá baixo, e a madeira também não vai durar muito mais. Se essa tempestade continuar, ficamos sem nada em poucos dias.
— E sem madeira pra manter o fogo, viramos picolés — Sofia acrescentou, abraçando os próprios braços. — Precisamos agir rápido.
suspirou, passando a mão no rosto.
— Não podemos sair todos ao mesmo tempo. Alguém precisa ficar pra garantir que o alojamento continue seguro. Melhor nos dividirmos em duplas.
cruzou os braços, analisando as opções no mapa.
— Tem aquele velho posto de gasolina que vimos na última patrulha. Pode ter algo útil.
— E tem a cabana abandonada perto do riacho — lembrou. — Faz tempo que ninguém passa por lá, talvez tenha alguma lenha seca.
— Eu e vamos até a cabana — Sofia sugeriu rapidamente, lançando um olhar a . — Assim vocês podem checar o posto.
e se entreolharam, ambos claramente contrariados com a ideia de saírem juntos.
— Sério? — resmungou. — Não tem outra formação possível?
— Ou você quer ir sozinha? — rebateu, arqueando a sobrancelha.
Ela bufou, sem resposta. Não era a primeira escolha dela, mas também não via alternativa melhor.
— Ótimo, então tá decidido — disse, batendo as mãos. — A gente sai ao amanhecer. Com sorte, voltamos antes do anoitecer sem ninguém congelado ou mordido.
— Depende do humor do — murmurou, pegando seu casaco para se preparar.
apenas revirou os olhos.
— Só não me atrapalha, e a gente sobrevive.
— Que fofo, já tá me ameaçando. — sorriu de lado, pegando a arma. — Vai ser divertido.
Sofia e trocaram um olhar de cumplicidade, segurando o riso. A missão nem tinha começado e já prometia ser longa.
Lá fora, a nevasca ainda castigava a paisagem, tornando cada passo mais difícil. As duplas haviam se separado conforme o combinado, mas não demorou muito para que e Sofia encontrassem um imprevisto. Uma trilha bloqueada por uma árvore caída os obrigou a dar a volta, o que os atrasou consideravelmente.
Depois de uma longa caminhada, os quatro se reencontraram no ponto combinado, próximo ao posto de gasolina abandonado. e já haviam vasculhado o local e estavam esperando.
— Que demora foi essa? — questionou, puxando o cachecol para baixo para falar melhor.
— Tava fácil pra vocês? Porque a gente teve que escalar meia floresta — resmungou, ajeitando o casaco.
— Uma árvore bloqueou o caminho — Sofia explicou. — Tivemos que dar a volta.
, que observava ao redor, franziu o cenho ao avistar algo mais abaixo no barranco. Parecia um tipo de carga abandonada, possivelmente suprimentos. Estreitou os olhos, tentando enxergar melhor através da neve que caía.
— Ei, acho que tem alguma coisa lá embaixo — comentou, dando um passo à frente.
— Cuidado, — advertiu, já desconfiado do tom de voz dela.
Mas ela não ouviu. Curiosa, caminhou até a beirada para tentar identificar melhor o que estava ali.
Foi quando o chão sob seus pés cedeu.
A neve solta e o gelo a traíram, e num instante, ela estava despencando barranco abaixo.
Capítulo 10 - A queda
Foi tudo rápido demais. Um passo em falso, o gelo traiçoeiro sob seus pés, e de repente, estava caindo. O mundo girou, um borrão branco e marrom enquanto ela deslizava encosta abaixo, neve e terra se misturando em seu corpo. O impacto final foi seco, brutal. Ela soltou um gemido fraco antes do silêncio.
— Merda! — exclamou, já correndo na direção dela.
Mas foi mais rápido.
Antes que pudesse sequer descer o barranco, já estava lá, ahado ao lado de , a expressão rígida e tomada por preocupação.
— , fala comigo! — Sua voz era grave, intensa, enquanto ele verificava o rosto dela, os braços, o corpo. Suas mãos firmes, mas cuidadosas, buscavam sinais de fraturas.
piscou lentamente, os olhos desfocados, um vinco de dor se formando entre as sobrancelhas.
— Acho que torci o tornozelo… — murmurou, cerrando os dentes.
escorregou até eles, mas já tomava uma decisão. Sem hesitar, passou um braço sob os hos dela e o outro atrás das costas, erguendo-a do chão com facilidade.
— Ei! Eu posso andar! — protestou, sem muita convicção.
— Não vou te deixar testar essa teoria. — A voz de era dura, mas havia algo mais ali. Algo que fez engolir em seco.
bufou, observando a cena.
— Ótimo, então eu e Sofia seguimos em frente enquanto você brinca de príncipe encantado.
— Faz isso. Se puder dar uma olhada no loot que encontrou. — não tirou os olhos de , segurando-a com firmeza enquanto começava a subir de volta pela trilha.
A cada passo, a tempestade se intensificava. O vento castigava seus rostos, a neve penetrava até os ossos. sentia o calor de atravessando as camadas de roupa, seu coração martelando contra o peito — de dor ou de algo mais, ela não saberia dizer.
No alto da trilha, enquanto e Sofia se afastavam na direção oposta, ajeitou nos braços, puxando-a ainda mais para perto, protegendo-a do vento impiedoso.
A nevasca rugia ao redor deles, mas não sentia mais frio. Sentia o calor do corpo de , o cheiro familiar que, mesmo depois de tanto tempo e tantas brigas, ainda lhe causava uma estranha sensação de segurança.
Ela se remexeu nos braços dele, teimosa até o último instante.
— Me solta, . Eu consigo andar sozinha! — sua voz saiu fraca, mas carregada de desafio.
— Não enche, . — respondeu seco, sem diminuir o passo. O maxilar trincado, os olhos sombrios como a tempestade ao redor. Ele a segurava com tanta força que parecia que, se a soltasse, algo pior aconteceria.
tentou empurrá-lo, os dedos fracos agarrando o tecido grosso da jaqueta dele. Mas a dor aumentava, a exaustão pesava sobre seus ombros. O frio misturava-se ao calor febril da adrenalina em seu corpo.
— Eu disse… me sol—
A frase morreu antes de ser concluída. O mundo girou e então… escuridão.
O corpo de ficou mole nos braços dele.
parou no mesmo instante, o coração disparado em pânico.
— ?
Nenhuma resposta.
Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, batendo levemente em sua bochecha.
— Porra, ! Não faz isso comigo.
Mas ela não reagia.
Um aperto cruel se formou no peito de , algo sufocante, desesperador. Ele a puxou para mais perto, protegendo-a do vento gelado, e apressou o passo em direção ao alojamento temporário.
Cada segundo parecia uma eternidade.
Pela primeira vez em muito tempo, teve medo. Medo de que ela não abrisse os olhos. Medo de que talvez fosse tarde demais para consertar as coisas.
O mundo voltou aos poucos.
A primeira coisa que sentiu foi o calor. Algo pesado, quente e familiar envolvia seu corpo, afastando o frio que a consumira antes de tudo escurecer. Sua cabeça latejava, o corpo doía em vários pontos, mas pelo menos não estava mais ao relento.
Ela piscou, os olhos ardendo ao se ajustar à luz bruxuleante da lareira no canto do alojamento improvisado. A tempestade rugia lá fora, o vento uivando como uma fera faminta.
— Finalmente. Achei que ia ter que te chacoalhar de novo.
A voz grave e rouca de trouxe-a de volta por completo. Ele estava sentado ao lado dela, a expressão dura, mas os olhos carregando algo mais profundo. O alívio era visível, ainda que ele tentasse esconder.
tentou se mexer, mas uma dor aguda atravessou sua perna. Um gemido escapou de seus lábios, e imediatamente estendeu a mão, pressionando de leve seu ombro.
— Não força. Você torceu feio o tornozelo, e sua cabeça bateu na queda. Pode estar com uma concussão leve.
Ela respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos. As últimas lembranças vieram em flashes — a tempestade, o chão sumindo sob seus pés, a força dos braços de ao segurá-la. Depois disso, só o vazio.
— Quanto tempo eu apaguei? — Sua voz saiu rouca, quase um sussurro.
— Algumas horas. A nevasca piorou logo depois que voltamos. e Sofia seguiram em frente, então estamos presos aqui até isso passar.
Ela franziu a testa.
— foi sem a gente? — perguntou, surpresa.
— Não tínhamos escolha. Se todos ficássemos presos, poderíamos perder a trilha e o objetivo da viagem. Mas ele disse que vai deixar sinais para seguirmos depois que a tempestade acalmar.
suspirou, recostando a cabeça na pilha improvisada de roupas que servia de travesseiro.
— Ótimo. Agora estou de babá de ex-namorado rabugento. — Tentou brincar, mas seu tom saiu mais cansado do que o esperado.
ergueu uma sobrancelha, soltando um suspiro exasperado.
— É, porque eu não tenho mais nada pra fazer além de carregar você por aí e garantir que continue respirando.
Ela abriu um sorriso de canto, sentindo o alívio de poder implicar com ele, mesmo que de leve.
O silêncio se instalou por alguns instantes, apenas o crepitar da lareira preenchendo o espaço. Do lado de fora, a tempestade seguia violenta, um lembrete cruel de que não tinham outra opção além de ficarem ali juntos.
virou o rosto para observá-lo melhor. As sombras da fogueira dançavam pelo rosto de , destacando as linhas de cansaço, a tensão nos ombros, o olhar perdido em algum ponto do cômodo.
— Você parecia preocupado. — Sua voz saiu mais suave.
desviou o olhar para ela, mas demorou a responder. Quando o fez, foi em um tom mais baixo, quase relutante.
— E eu não deveria estar?
prendeu a respiração, sentindo o peso das palavras pairar entre eles. Havia algo ali, algo que sempre ficava à margem das discussões, das provocações. Um sentimento que nenhum dos dois queria nomear, mas que nunca desaparecia completamente.
Ela desviou o olhar, fixando-se nas chamas da lareira.
— Eu estou bem agora. — disse, não sabendo se queria tranquilizá-lo ou a si mesma.
— Espero que sim. — murmurou. — Porque ainda vamos ter uma conversa sobre sua mania de se meter em encrenca.
Ela sorriu de leve.
— Isso é preocupação ou só vontade de me dar bronca?
— Um pouco dos dois.
O silêncio se prolongou por mais alguns instantes. passou a mão no rosto, claramente lutando com algo dentro de si. o conhecia bem o suficiente para reconhecer quando ele estava prestes a dizer algo importante — e também quando hesitava em fazê-lo.
— Eu achei que ia te perder. — Ele finalmente admitiu, a voz baixa.
Ela virou o rosto para encará-lo. raramente dizia algo tão direto sobre o que sentia. Seu coração bateu mais forte, mas ela se forçou a manter o tom leve.
— Você já me perdeu uma vez, . Sobreviveu a isso.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Sobreviver não é bem a palavra que eu usaria.
Ela abaixou o olhar. Não queria entrar naquele assunto. O bunker, a noite que passaram juntos, a maneira como ele fingiu que nada aconteceu depois… tudo aquilo ainda era um nó na garganta.
— … — começou, mas não sabia como continuar.
Ele apertou os olhos por um segundo antes de falar.
— Eu estraguei tudo, . Eu sei disso. — Ele virou o rosto para ela, e dessa vez não desviou. — Eu fui um covarde.
Ela deixou escapar um suspiro cansado.
— Sim, foi.
— E ainda sou, talvez. — Ele passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado. — Mas não consigo olhar pra você e fingir que nada disso importa. Não mais.
Ela mordeu o lábio, sentindo uma mistura de raiva e tristeza.
— E o que você quer que eu faça com isso, ? Você teve sua chance. Várias, na verdade.
Ele assentiu lentamente, como se já esperasse essa resposta.
— Eu só precisava que você soubesse.
A sinceridade na voz dele a pegou de surpresa. Não havia desculpas vazias ou promessas que ele não poderia cumprir. Apenas a verdade crua.
respirou fundo e fechou os olhos por um momento.
— Isso não muda nada.
— Eu sei.
O silêncio se instalou entre eles mais uma vez. Mas, dessa vez, não parecia tão pesado. Apenas o crepitar da lareira preenchia o espaço entre as palavras não ditas.
E, por ora, isso bastava.
O frio continuava implacável. Mesmo com a lareira acesa, o vento cortante da tempestade parecia infiltrar-se por cada fresta do alojamento improvisado. se encolheu sob as cobertas improvisadas, mas ainda assim um tremor percorreu seu corpo involuntariamente.
, que a observava de seu lugar próximo à fogueira, franziu o cenho. Ele soltou um suspiro pesado antes de se levantar e ir até ela.
— Você tá congelando. — Ele murmurou, tirando o casaco e ajeitando sobre ela.
— Eu tô bem. — rebateu, mas seus dentes trincaram no final da frase, denunciando sua mentira.
revirou os olhos.
— Não tá nada. Anda, chega pra cá.
Ela o encarou com hesitação. O passado deles ainda pesava entre os dois, como uma sombra que nunca desaparecia completamente. Mas o frio era real e cruel, e ela sabia que não tinha muita escolha. Relutante, se moveu um pouco, e se deitou ao lado dela, envolvendo-a com o calor do próprio corpo.
No começo, o silêncio foi constrangedor. estava consciente demais da proximidade, do cheiro dele, da firmeza dos braços que a envolviam. Mas, aos poucos, a sensação de calor e segurança tomou conta, e ela acabou relaxando, deixando a cabeça repousar contra o peito dele.
— Isso não significa nada, tá? — murmurou, de olhos fechados.
soltou uma risada baixa.
— Sei. Só tô garantindo que você não congele antes da gente sair daqui.
Ela bufou, mas um pequeno sorriso escapou. O silêncio se instalou por um tempo, o som da tempestade do lado de fora sendo o único ruído além do crepitar da lareira. Então, falou de novo, sua voz saindo mais suave desta vez.
— … sobre aquele dia no bunker...
Ela tensionou levemente, mas não se afastou. Apenas esperou que ele continuasse.
— Eu sei que errei. Não devia ter fingido que nada aconteceu. — Ele hesitou antes de continuar. — Mas não foi porque não significou nada. Foi porque significou demais.
Ela abriu os olhos, encarando o tecido da camisa dele sob sua cabeça.
— Então por que agiu daquele jeito? Por que me deixou sozinha com aquilo?
suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Porque eu sou um idiota. E porque tive medo. Você merece alguém melhor. Alguém que… que não fuja.
ficou em silêncio por um momento antes de murmurar:
— Eu nunca quis alguém melhor. Eu só queria você. Mas você me fez sentir que foi um erro.
apertou os olhos fechados por um instante, a culpa pesando em seu peito.
— Nunca foi um erro, .
Ela não respondeu de imediato, mas a rigidez em seu corpo foi desaparecendo aos poucos. sentiu quando seus dedos, hesitantes, seguraram levemente a barra da camisa dele, como se precisasse de um ponto de apoio.
— A gente sempre acaba voltando um pro outro, né? — Ela sussurrou.
soltou uma risada baixa, mas havia melancolia nela.
— Sempre.
Eles ficaram assim, quietos, apenas respirando juntos. E pela primeira vez em muito tempo, se permitiu sentir que ali, nos braços de , talvez o frio não fosse tão implacável assim.
Capítulo 11 - Perigo
A tempestade havia diminuído, mas o frio ainda cortava como lâminas. acordou sentindo o espaço ao seu lado vazio. A lareira ainda crepitava, mas não estava ali.
Ela se sentou devagar, testando a força da perna ferida. Já conseguia se mover melhor, ainda que sentisse dor ao apoiar o pé. O incômodo ficou de lado assim que notou que estava demorando demais. Ele nunca saía sem avisar.
Algo estava errado.
Vestindo um casaco grosso e pegando a pistola que deixara por perto, saiu do alojamento. A neve continuava densa, cobrindo a trilha. Ela seguiu os rastros que ele deixara, ignorando a dor no tornozelo. O vento rugia ao redor, mas não o bastante para abafar um som ao longe.
Tiros.
O coração de disparou. Acelerando o passo, sentiu a adrenalina mascarar a dor. estava em perigo.
Ao se aproximar da clareira, a cena diante dela fez seu estômago revirar. Três infectados avançavam contra . Dois já estavam caídos no chão, mas o terceiro, um estalador, estava perto demais. tentava recarregar a arma, mas o monstro avançava rápido.
Sem hesitar, ergueu a pistola e atirou.
O tiro acertou a lateral da cabeça do estalador, jogando-o para trás. O corpo caiu pesadamente na neve.
Ofegante, virou-se, os olhos arregalados ao vê-la ali. Ele ainda segurava a arma, mas agora seu foco estava nela.
— O que diabos você tá fazendo aqui?! — Ele correu até ela, a fúria e o alívio misturados na voz.
— Você sumiu! — ela retrucou, respirando com dificuldade. — Eu achei que…
Ela não terminou a frase. O olhar de suavizou por um momento, mas logo voltou à dureza habitual. Ele segurou seu braço com firmeza.
— Você devia estar descansando, . Seu tornozelo…
— E você devia avisar antes de sair e enfrentar infectados sozinho! — ela rebateu, os olhos faiscando.
suspirou, esfregando o rosto sujo de sangue e neve.
— Eu só vim checar a área. Não achei que…
— Que quase ia morrer? — Ela cruzou os braços, ainda ofegante. — Você não é invencível, .
Ele abaixou a cabeça por um instante antes de encará-la de novo. A raiva dela era justificada, mas ele não sabia como admitir que ver ali, correndo perigo por causa dele, fazia seu peito apertar.
— Obrigado — ele disse, simplesmente. — Pelo tiro.
Ela respirou fundo, tentando ignorar o frio que voltava a se instalar em seu corpo.
— Só me avise da próxima vez. — Sua voz saiu mais suave. — Eu não quero… não quero perder você também.
prendeu a respiração por um momento. Depois assentiu, estendendo a mão.
— Vamos voltar. Já deu de aventura por hoje.
ainda sentia o coração martelando no peito. A imagem de , lutando ao lado dele, a mira precisa, os olhos determinados – tudo aquilo o deixava dividido entre orgulho e raiva. Mas quando ela cambaleou ligeiramente após o combate, instinto tomou conta.
Sem pedir permissão, ele a ergueu nos braços.
— ! Me coloca no chão! — protestou, se debatendo.
— Quietinha. Já chega de bancar a heroína por hoje. — A voz dele era firme, mas não havia frieza. Apenas preocupação.
bufou, cruzando os braços enquanto ele a carregava pela neve até o alojamento. O frio cortante os envolvia, mas mal sentia – a adrenalina ainda corria em seu sangue. Assim que atravessaram a porta, ele a colocou cuidadosamente no chão, certificando-se de que ela não forçaria a perna.
— Você é teimosa, sabia? — Ele suspirou, pegando algumas mantas e colocando sobre ela.
— Olha quem fala. — arqueou uma sobrancelha, mas aceitou o gesto, puxando o tecido quente para perto do corpo.
foi até sua mochila e puxou uma pequena sacola. Com um gesto um tanto envergonhado, entregou a ela.
— O que é isso? — Ela franziu o cenho, pegando o embrulho.
— Chá. Você vive reclamando do frio… achei que ajudaria. — Ele desviou o olhar, como se se sentisse tolo por aquilo.
piscou, surpresa. O calor que subiu por seu peito não tinha nada a ver com o fogo da lareira. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios enquanto abria o pacote e sentia o aroma.
— Você saiu no meio da tempestade… pra buscar isso pra mim? — sua voz veio baixa, suave.
pigarreou, como se quisesse disfarçar o peso daquilo.
— Bom… precisava de um motivo pra esticar as pernas. — Ele deu de ombros, indo até a pequena panela para esquentar a água.
o observou em silêncio, sentindo uma onda de gratidão misturada com algo que não queria nomear. poderia ser muitas coisas – teimoso, complicado, fechado – mas também era aquele que, mesmo sem admitir, atravessaria uma nevasca apenas para lhe trazer conforto.
O silêncio entre eles era preenchido apenas pelo crepitar da lareira. Depois de alguns minutos, ele serviu o chá em uma caneca e se aproximou, entregando a ela.
— Aqui. Tá quente. — Sua voz saiu mais suave desta vez.
aceitou, segurando a caneca entre as mãos frias. Tomou um gole e fechou os olhos, apreciando o calor que se espalhava por seu corpo.
— Obrigada. — Ela olhou para ele, e naquele instante, viu algo diferente em seus olhos. Algo que o fez prender a respiração.
Ele desviou o olhar, tentando manter a compostura.
— Aliás… — Ele limpou a garganta, tentando mudar de assunto. — Boa mira lá fora. Salvou minha pele.
Ela sorriu, divertida.
— Então você admite que precisa de mim? — provocou, arqueando uma sobrancelha.
revirou os olhos, mas um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— Eu admito que foi um bom tiro. Não estrague o momento.
Eles riram, e por um instante, parecia que o frio, a tempestade, os perigos lá fora não importavam. Apenas os dois, o chá quente e a lembrança de que, apesar de tudo, ainda estavam ali – juntos.
