A História nunca acabou

Última atualização: 01/08/2019

Capítulo Um

Não havia nada para fazer naquela tarde. Eu estava sentada perto de uma das janelas que davam para a rua da avenida, à espera da minha melhor amiga fazer o nosso pedido.
Era um dia especialmente frustrante. Apetecia-me fazer alguma coisa e ao mesmo tempo não queria fazer nada.
Se a Alex não me tivesse forçado a vir tomar um café com ela, eu provavelmente não teria saído do quarto e ficaria a olhar para o teto a pensar em mil e uma coisas que eu queria fazer, mas não fazia.
Odiava a sensação de impotência que de vez em quando me consumia. Fazia-me sentir estúpida e parva.
Vinte e três anos e sem rumo na vida. Era assim que eu me sentia na maioria das vezes, ainda que ninguém me visse com esses olhos.
Não imagino sequer como é possível tanta gente acreditar e ver em mim coisas que eu nunca encontrei.
Sempre fui bastante autocrítica, confesso, mas eu sabia o que era e o que não era!
Puxei o lábio inferior e olhei para a direita. A Alex vinha na minha direção, com uma bandeja na mão e dois mocaccinos.
- Não sabia se ias querer de caramelo, por isso preferi não arriscar. – disse pousando a bandeja na minha frente. – Estás estranha hoje!
- Eu estou estranha sempre! – respondi com um meio sorriso. – Eu sou estranha, aliás!
- Nunca pensei outra coisa sobre ti, . – pegou na palhinha preta e deu-me outra para a mão. – O que vamos fazer hoje depois de sairmos daqui? – perguntou causalmente.
- Como assim o que vamos fazer hoje? – estreitei os olhos. - Disseste que querias tomar um café, não disseste que era para sair.
- Já devias subentender que quando digo “Vamos tomar um café”, eu quero dizer, vamos sair de casa e voltar na hora de jantar!
Suspirei em desagrado, sem medo de parecer incomodada com o rumo dos nossos planos. – Não quero fazer nada.
- Desde quando? – cruzou os braços na frente do peito e olhou-me inquisitiva.
- Desde quando o quê?
- Desde quando é que não queres fazer nada! Sempre foste a primeira a querer sair de casa .
Desviei o olhar para a rua. Odiava que a Alex me fizesse perguntas daquelas, especialmente quando estava a cinquenta centímetros de mim, sentada na minha frente a estudar cada um dos meus movimentos.
- Se é por causa dele, eu juro que te mato. – soou zangada – Estou farta desse teu humor de caca por causa do Van der Wood.
Odiava admitir que ela tinha razão, mas não conseguia disfarçar o mau humor.
Antes que eu pudesse abrir a boca para contestar ela fez questão de me por um dedo nos lábios. – Tu tens de o esquecer , ele seguiu em frente como já deves ter notado e tu devias fazer o mesmo. Se bem me recordo foste tu que puseste um ponto final na situação!
- Eu nunca disse que queria um fim.
- Mas não fizeste nada para melhorar as coisas quando percebeste que estavam a descarrilar. – constatou – Não o podes culpar por ter desistido de algo que parecia não ter mais futuro.
- Mas Alex, ele disse que…
- QUE PRECISAVA DE FICAR ALGUM TEMPO SOZINHO, EU SEI! – falou alto o suficiente para atrair a atenção de alguns curiosos à nossa volta – Mas apareceu outra pessoa , e tu não podes culpá-lo por isso.
- Não quero falar desse assunto. Nem de nenhum outro assunto que seja acerca dele, que me faça pensar nele ou seja lá o eu for. Simplesmente não quero!
- Ótimo. – pegou no meu copo e colocou lá a outra palhinha – Somos duas a não querer.
Era difícil admitir para mim mesma que eu era a principal culpada pela situação que eu estava a passar, mas eu nunca imaginei que as coisas fossem acabar desta maneira.
- Não respondeste há minha pergunta ainda.
- Sobre? – levantei uma sobrancelha.
- O que vamos fazer depois dos moccas.
- Vamos comprar alguma coisa para amanhã à noite. – falei a primeira coisa que me veio à cabeça.
- Tu vais à festa da Mia amanhã? – soou tão surpresa quanto eu.
- Vamos! – confirmei já meia arrependida do meu impulso.
A Alex sorriu meiga e pousou a mão sobre a mesa para que eu pusesse a minha por cima. – és a minha melhor amiga, e de todas pessoas, a minha favorita, eu não quero que ninguém nem nada interfira na tua felicidade, ok? – concordei com a cabeça. – Não deixes que o passado interfira no teu agora, muito menos no teu futuro.
- Certo. – tentei responder com um sorriso.
-

Quando cheguei a casa já passava um pouco das oito e meia. A minha irmã estava sentada na sala demasiado atenta à televisão para me notar.
Como de costume ela não tinha feito nada para jantarmos e eu tive de improvisar alguma coisa.
Tomei banho sem grandes pressas e jantei junto dela, enquanto assistia a um episódio de Teen Wolf. Quando acabei de comer fui para o meu quarto, como sempre e percorri as minhas redes sociais para me manter um pouco atualizada sobre o que se tinha passado ao longo do dia, quando a Mia ligou-me…
- Oi Mia.
- Oi , tudo bem? Desculpa estar a ligar-te já tão tarde, mas a Alex disse-me que afinal vens à festa amanhã, fiquei contente por saber!
Sabia que estava a ser sincera. A Mia era uma pessoa doce e calorosa, gostava de fazer toda a gente se sentir bem, especialmente quando sabia que alguém estava a passar por algum momento complicado, como o meu, por exemplo.
- Vou sim! – sorri, mesmo sabendo que ela não podia ver – Acabei por mudar de ideias.
- Fico feliz, a sério! Só que há uma coisa que quero que saibas antes.
Pude sentir o tom cauteloso com que falou, deixando-me automaticamente alerta para o que me ia dizer. – Diz!
- O também vai e provavelmente vai levar a namorada com ele.
Engoli em seco aquela notícia sem saber o que responder ou como reagir.
- Eu entendo se isso interferir com os teus planos acerca de ir , e acredita que só lhe disse que podia trazer companhia quando tu me deste a certeza de que não vinhas, eu nunca te iria por nesta posição, sabes bem disso. Sei que é difícil para ti e…
- Mia! – quase gritei o seu nome do outro lado da linha – Não te preocupes. Eu vou na mesma.
- A sério? – perguntou surpresa – Não tens de vir se não quiseres.
- Eu vou. – repeti mais para mim mesma.
- Que bom! – exclamou – Então já sabes, amanhã nove horas em minha casa. Vais jantar lá, certo?
- Pode ser.
- Ótimo, então amanhã vemo-nos. Beijinho.
- Beijo.
E desliguei.
-

Acordei com a luz do sol a ferir-me os olhos. Odiava quando me esquecia de fechar os cortinados de noite, acabava sempre por acordar duas horas mais cedo do que o habitual e depois de acordada, nada me fazia dormir outra vez.
Como ainda era bastante cedo saí para correr.
Gostava de manter uma rotina matinal. Para mim era quase sagrada, especialmente porque eu não tinha grandes certezas de nada e a maior parte do meu tempo era passado a tentar procurar coisas novas para fazer e conhecer. Por isso eu acreditava que se me disciplinasse todas as manhãs a fazer algo para o meu próprio bem, ajudava-me a manter-me sã pelo resto do dia.
Quando cheguei perto do parque da cidade, abrandei o passo e fui a caminhar até perto de um banco de jardim.
Queria evitar pensar na festa de logo à noite e no inevitável encontro que ia ter com o e a nova namorada.
Era a primeira vez que o ia ver desde a nossa última discussão em Março. Já se tinham passado três meses e tudo parecia ainda demasiado recente para ser remexido.
Eu sabia que ia doer vê-lo com alguém e sabia que havia uma hipótese consideravelmente grande de eu não saber lidar com a situação, mas eu não podia fugir. Tudo o que eu sempre fiz foi escapar dos problemas, evitar os momentos hostis e tensos. Era uma covarde por o fazer constantemente, mas o medo sempre falava mais alto.
Nunca me achei forte o suficiente para encarar as coisas de frente, no entanto desta vez eu não tinha escapatória e no meu interior eu sabia que era algo pelo qual eu tinha de passar.
Levantei-me do banco e fui dar uma última volta ao parque antes de regressar a casa.
A minha irmã já estava acordada quando cheguei. Entrei na cozinha para preparar o meu pequeno-almoço e ela estava sentada a comer torradas.
- Bom dia bela adormecida.
- Oi. – respondeu seca, na sua própria maneira de falar – Onde foste?
- Onde vou sempre, porquê?
Vi a Marie olhar-me de lado, para verificar que eu estava a usar roupa de desporto – Acordaste cedo hoje!
- É. - concordei – Esqueci-me de fechar as cortinas, levei com o sol nas trombas.- sorri – E lixei-me!
- És uma triste.
- E tu uma irmã de merda!
- Algo que temos em comum. – disse escondendo a vontade de rir – O que vais fazer hoje?
Peguei em duas bananas e numa faca. – Nada! Vou ficar em casa a escrever provavelmente e no final da tarde vou-me preparar para a festa na casa da Mia.
- Sempre vais?
- Ya! Parece que vou conhecer a nova namorada do . – pus as bananas cortadas em pedaços dentro do liquidificador.
- Sério? – arregalou os olhos. – Boa sorte mana.
“Bem que vou precisar”, pensei.
-

O dia foi-se arrastando como tinha previsto, não tive paciência para escrever (como já imaginava), nem vontade de assistir nenhuma série e por incrível que pareça, eu não via a hora de poder preparar-me para o jantar na casa da Mia.
Quando a Danielle chegou trouxe com ela uma quantidade exagerada de chocolate, o qual eu recusei na mesma hora.
- Não sei porquê tanta paranoia com o peso , tu estás super em forma. Um bocadinho de chocolate não te ia fazer mal nenhum.
- Danielle eu já disse que não! Não insistas.
A minha irmã olhou-nos de lado e entrou no closet. – Ela gosta de ser azeda Dany, não vale a pena insistir com aquela que resiste a uma lasanha feita pela nossa mãe!
Girei os olhos e ignorei o comentário.
- O que vais usar ?
- Eu acho que vou com o casaco de cabedal dourado e calças e t’shirt pretas. Mas ainda não tenho a certeza. – mordi o lábio inferior, tocando no casaco.
- Adoro as tuas roupas. É tudo diferente.
Sorri para a minha amiga e fui-me sentar na frente da penteadeira para me maquilhar.
- tens de me maquilhar hoje, preciso de ir super gostosa! Acho que o Eliot vai aparecer depois do jantar e eu quero que ele saiba o que anda a perder.
- Danielle para de tretar com a minha irmã se faz favor e vem ajudar-me a escolher uma roupa. – falou a Marie de dentro do closet.
- Já vai sargento! – bufou.
-

- Ainda bem que vieram! – a Mia abraçou-me de lado, calorosa – Está tão bonita ! – afastou-se para me dar uma olhada – Adoro quando fazes esses caracóis.
- Obrigada Mia. – sorri. – Chegámos muito tarde? – perguntei quando vi a sala-de-estar movimentada.
- Não! Ainda faltam cinco minutos para a hora combinada, a Alex é que veio mais cedo para me ajudar com o assado e trouxe atrás dela metade do pessoal para ajudar com a decoração.
- O Eliot vem?
- Vem Dany! – a Mia respondeu travando um riso. – Agora entrem e ponham-se à vontade, eu vou chamar a Alex que deve andar às voltas na cozinha.
A minha irmã foi na frente, ladeada pela melhor amiga e eu dei meia volta para ir à casa de banho.
A porta estava fechada, mas eu conseguia perceber que a luz estava acesa. Encostei-me contra a parede do corredor e esperei um par de minutos até ouvir o trinque da porta.
- Boa noite. – cumprimentei a rapariga morena.
Ela sorriu em resposta e respondeu. – Boa noite!
- Eu não acho que te conheço, certo? – levantei uma sobrancelha – Sou a .
O seu sorriso meigo alargou-se um pouco mais.- É pouco provável que me conheças. Eu sou a Emma, é um prazer .
- O prazer é todo meu.
Olhamo-nos por um meio segundo e então ela desviou-se do batente da porta. – Desculpa, tu a querer ir à casa de banho e eu aqui parada.
- Oh sem problema. – passei por ela. – Bem, até já! – rimo-nos e fechei a porta.
-

Podia ouvir gargalhadas vindas da sala de estar, mas antes mesmo de eu entrar, a Alex chamou-me.
- !
- Diz. – olhei para a minha melhor amiga. Ela usava um vestido azul-escuro, com um decote generoso. – Estás bonita, já agora!
- Oh! – riu – Obrigada!
Virei-me para entrar na sala, mas a mão dela puxou-me.
- Ele está lá dentro . - arregalei os olhos e emiti um som agudo de concordância. – Eu achei que te devia dizer antes de entrares, para não apanhares nenhum choque, sei lá!
- Certo. – concordei. – Entra na minha frente então, por favor.
Ela fez o que lhe pedi. Segurando a minha mão, a Alex levou-me a atravessar a porta da sala, onde todos os meus amigos estavam.
Todos os meus amigos e o , sentado numa poltrona, perto da janela, com a Emma no seu colo.
- Puta merda. – maldisse alto o suficiente para receber um olhar repreensivo da minha melhor amiga. – A Emma é a namorada do .
- Tu conhece-la? – arregalou os olhos.
- Conheci há 5 minutos atrás, na porta da casa de banho.
- vais sair de trás da Alex ou vou ter de te arrastar para o centro da sala? – Melanie, a amiga tresloucada da Mia, adorava ser inconveniente.
Girei os olhos e ignorei o comentário desagradável.
- Ignora-a. – pediu-me a Alex.
Anui em concordância e indiquei há minha melhor amiga que se afastasse da minha frente.
- Boa noite pessoal! – exclamei em meio tom, evitando ter de cumprimentar um a um.
Sabia que todos estavam a pensar o mesmo. Eu não queria correr aquela sala a dois beijos estalados em nenhuma bochecha, porque eu estava na mesma sala que o meu ex-namorado e a sua nova namorada. E eu claramente era a idiota que não tinha superado o término da relação e ele era o felizardo que tinha seguido em frente com alguém que parecia encaixar apenas perfeitamente do lado dele.
Chegava a ser irónico. Ele não era amigo de nenhuma daquelas pessoas até eu o ter apresentado a cada uma e agora, eu sentia-me a mais naquele círculo.
- COMER! – a Mia gritou da cozinha. – COMER MINHA GENTE, COMER!
Fechei os olhos numa inspiração, agradecendo a Deus por aquele timing perfeito.


Continua...



Nota da autora: Desde já agradeço o benificio da duvida, sei que como autora portuguesa, o meu portugues pode confundir um pouco, mas eu vou tentar procurar adaptar um pouco a minha escrita ao PT de BR. Para quem não está a par, para além desta história, tenho mais uma no site, o nome é Lady Rebel e se vocês se sentirem curiosas para dar uma olhada, força! Adoraria que me dessem um feedback ao longo dos capítulos para eu saber que estão a acompanhar... obrigada também a`minha beta, pelo trabalho em rever todos os capítulos e betá-los.
Beijos de Luz,
Carol.





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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