Última atualização: 18/04/2019
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Capítulo 1


Não foi difícil encontrar o endereço. Ainda que o GPS tenha nos levado para uma rua sem saída, da qual demoramos a sair, com a ajuda de alguns moradores do bairro logo chegamos à república em que passaria a morar pelos próximos anos.
— Nos mande mensagens todos os dias.
— Mãe...
Meu pai havia me ajudado a carregar as malas para o quarto em que dividiria com outra garota. Minha mãe havia ficou conversando com Verônica, a veter que nos recepcionou. Ela mora na República Rainha de Copas há quatro anos e tenho certeza de que tranquilizou minha mãe nos poucos minutos que gastei para deixar minhas bolsas em cima da cama. Sei disso porque antes de descermos do carro minha mãe havia me feito prometer que ligaria para ela todas as noites antes de dormir.
— E não hesite em nos ligar quando quiser.
Ela me abraçou com lágrimas nos olhos enquanto meu pai já a esperava dentro do carro. Meu pai não é um homem muito afetuoso, tampouco gostava de abraços, mas podia jurar que seus olhos estavam marejados quando deu partida no carro e foi embora.
Verônica me esperava do lado de dentro com um sorriso nos lábios.
— Desculpe pelas perguntas que minha mãe deve ter te feito...
— Não se preocupe, você não é a primeira pessoa da república que vai morar sozinha pela primeira vez. É natural que seus pais fiquem preocupados.
Balancei a cabeça em sinal de concordância.
Verônica me levou para um pequeno tour pela casa em que iria morar pelos próximos anos.
— A maioria das meninas não voltou das férias ainda – ela explicou. Quando chegamos ao segundo andar, no quarto em que eu ficaria, disse – Como sua colega de quarto ainda não chegou, pode escolher a cama que você quiser. Ela também é caloura.
— Obrigada – disse, sem comentar o fato de que já havia escolhido a cama da direita, sem ter pensado na possibilidade de alguém já estar ocupando aquele quarto.
— Vou deixar você arrumar as suas coisas. Qualquer coisa é só me chamar, o meu quarto é o último do corredor.
Verônica é a única garota que tinha um quarto só para ela. Explicou-me que o quarto do final do corredor, uma bela suíte com cama de casal e guarda roupa embutido, era passado para garota mais antiga da casa, sempre que a antiga dona do quarto se formava e ia embora. Perguntei-me se algum dia eu teria direito a dormir naquela suíte.
Enquanto tirava as coisas da mala recebi uma mensagem de .
é meu melhor amigo desde sempre. Estudamos juntos desde o ensino primário, quando tínhamos apenas dez anos, e não consigo me lembrar da minha vida quando ainda não andávamos juntos.
Na mensagem ele perguntava “ei, como você está?” seguida de uma carinha feliz e um joinha no final. Resolvi responder a mensagem com uma foto minha em frente ao armário já com algumas coisas pessoais. Foi nesse momento que a porta abriu.
— Olá, você deve ser , certo? – ela disse. – Sou sua colega de quarto.
— Apenas – respondi – Qual o seu nome?
— Meu nome é . Você pode me chamar exatamente assim. Não gosto de apelidos – ela disse rindo.
se aproximou e me abraçou, me dando um beijinho no rosto. Não perguntou como decidiríamos em qual cama cada uma ficaria, ela sabia que eu já havia escolhido a minha, já que cheguei mais cedo.
— Ei, posso arrumar as minhas coisas no armário também?
— Claro!
Enquanto a ajudava a colocar todos os seus sapatos dentro de um espaço pequeno demais para a quantidade de coisas que ela havia levado, me contou que também nunca havia morado sozinha, e que sua mãe estava disposta a sacrificar todas as suas economias da poupança para comprar um pequeno apartamento só para ela, pois não suportaria a ideia de ver a filha morando em uma república cheia de bardeneiros irresponsáveis – palavras da sua mãe, não dela. Foi preciso algumas sessões extras com a psicóloga para que sua mãe entendesse que já era uma mulher crescida e poderia muito bem se virar em uma república apenas de garotas.
Ainda lhe contava sobre minha família – como o fato de, apesar de ter uma irmã mais velha, ser a única a ser tratada como um bebê, já que minha mãe nunca pediu à Marina para ligar para casa todas as noites antes de dormir quando ela passou em uma faculdade em outro estado – quando chegamos ao anfiteatro da faculdade.
A República Rainha de Copas ficava a pouco mais de dois quarteirões da universidade, o que nos permitia ir andando até lá. Mais do que isso, o prédio do curso de Direito era logo o primeiro, perto da entrada, o que era ainda mais vantajoso para nós. O anfiteatro também era próximo à entrada, mas não tão próximo assim, motivo pelo qual eu já tinha gotas de suor escorrendo pela testa quando finalmente escolhemos nossos lugares – nem tão perto e nem tão longe do palco. Apenas torcia para que ninguém muito alto se sentasse na minha frente.
A primeira palestra do dia foi clara no sentido de que a faculdade seria essencial para a nossa formação não apenas profissional, mas também pessoal. A professora palestrante ainda garantiu que os veteranos de todos os cursos costumavam ser muito solícitos quando o assunto era ajudar novos alunos.
— Fiquem à vontade para procurar pelos coordenadores dos seus cursos, assim como os monitores. Eles estarão sempre prontos para lhes ajudar.
Prova do que ela dissera eram os muitos grupos de veteranos nos esperando do lado de fora do anfiteatro. Foi fácil identificar os grupos de moradores de repúblicas, os times de futsal, vôlei e basquete e também os grupos das atléticas de cada curso já que cada rodinha usava uma camiseta diferente para serem facilmente identificados.
— Ei, pessoal do Direito! Acompanhem-me!
— Acho que estão falando conosco – comentou ao meu lado.
Mexi a cabeça em concordância, e junto com outros calouros – eu sabia que eram calouros, pois pareciam tão perdidos tanto nós duas – seguimos o rapaz que havia gritado por nós.
Fomos até uma área verde, perto do campo de futsal. Vários alunos já nos esperavam – os quais, percebi, eram veteranos, pois não tinham olhares confusos, mas confiantes, eufóricos com o que o novo ano prometia.
— Sejam bem vindos, calouros! Nós somos seus veteranos e estamos aqui para lhes dar as boas vindas! – uma garota falou alto. Atrás dela, vários veteranos gritaram e bateram palmas, alguns estouraram balões de confete, o que me fez rir.
— Estamos passando uma lista entre vocês para que nos passem seus números de celular, isso vai facilitar a nossa interação – outra garota falou. – Como tradição do curso, cada veterano vai adotar um calouro para lhe dar auxílio no primeiro ano na faculdade. Para ser algo justo, costumamos fazer um sorteio, mas como sabemos que muitos de vocês já têm amigos que estudam aqui há mais tempo, podem se unir a eles, se quiserem.
Imediatamente algumas duplas foram feitas. Pessoas sorridentes que cumprimentavam seus amigos veteranos com tapinhas nas costas ou abraços apertados. Coincidentemente eu também conhecia um veterano dali. Mas em vez de receber uma frase de boas vindas, o que ele disse foi:
— Está atrasada, . Dois anos, para ser mais exato.
. Meu ex-vizinho.
Quer dizer, é claro que ele teria que mencionar o fato dele ter entrado par a faculdade logo após terminar o Ensino Médio, enquanto eu precisei continuar estudando por mais dois anos antes de conseguir passar no vestibular.
E falando em dois anos, esse é exatamente o tempo que não o via.
— Não acredito nisso, . Acredito que os dois últimos anos foram essenciais para que eu pudesse amadurecer, não que você saiba o que isso significa, obviamente.
Meu ex-vizinho e ex-melhor amigo.
Tudo bem, talvez o termo “melhor amigo” seja um pouco exagerado. e eu nunca fomos melhores amigos, mas fomos amigos. Amigos muito próximos. Fazíamos parte do mesmo grupinho desde a quarta série. Sempre fomos eu, , , Liz, Lucas e Marina, minha irmã mais velha.
Costumávamos nos reunir na minha casa, onde morávamos Marina e eu, ou na de – meu vizinho na época. Marina às vezes levava Luena, uma garota da sua sala, para brincar conosco, mas ela não parecia gostar muito do nosso grupo, e o nosso grupo definitivamente não gostava dela também.
Se tivesse que contar o número de vezes que dormiu lá em casa, ou que deixou que eu passasse a noite na sua, eu não poderia o fazer, pois perderia a conta facilmente.
— Sabe, , eu poderia me oferecer para adotar você, mas sei como você pode ser uma garota difícil, sem falar no quanto você é nervosinha quando quer. Mas não tenho tempo de lidar com os seus dramas, então...
Tudo o que consegui fazer foi revirar os olhos para, logo em seguida, responder:
— Sabe, , eu poderia aceitar ser sua caloura, mas sei como você é um garoto mimado e inconsequente, que acredita que o mundo gira em torno do próprio umbigo. E, bem, como não estou disposta a gastar o tempo com os seus dramas, tudo o que posso dizer é não, obrigada.
ergueu as sobrancelhas, surpreso. Talvez não estivesse esperando pela minha resposta ácida. E se for bem sincera comigo mesma, eu também não esperava por essas palavras.
! – ouvi gritarem o meu nome. Fiquei nas pontas dos pés, porque havia muita gente na minha frente, e ergui a mão para que me encontrassem.
Um garoto chegou sorridente ao eu lado e se apresentou como Brian. Brian, logo percebi, era do time de futsal da faculdade, assim como . Sabia disso porque ambos usavam a mesma camiseta do time.
— Parece que não é o seu dia de sorte, . Brian não é uma boa opção como veterano – sussurrou ao meu ouvido enquanto Brian correu até a mochila para pegar seu celular – Mas como sou um cara com um coração de ouro, vou lhe dar uma única chance de pedir por favor.
— Por favor o quê?
— Por favor, que eu seja seu veterano.
Olhei para . era bem mais alto do que eu, e olhar seu rosto exigia que eu inclinasse o pescoço em direção ao sol. Coloquei a mão na frente dos olhos para respondê-lo:
— Pensei que você tivesse dito que não queria ter que lidar com os meus dramas.
começou a dizer alguma coisa, mas Brian chegou neste momento, roubando a minha atenção. Ele anotou o meu celular no seu, e passou seu número para mim. Brian prometeu que ainda naquela semana já me mandaria todo o material que ele usou para estudar no seu primeiro ano na faculdade. Mal agradeci pela gentileza, quando ele voltou a dizer:
— Ei, o que acha de ir a uma festa hoje à noite?
— Uma festa? No meio da semana? – perguntei meio surpresa.
Se fosse sincera comigo mesma, minha surpresa era dupla: uma festa no meio da semana e no primeiro dia de aula? Acho que isso era estar na faculdade, afinal de contas. Brian riu divertido antes de me responder.
— Não se preocupe, a primeira semana não costuma ter aula, apenas palestras e atividades de integração. Amanhã vocês vão conhecer a bateria do nosso curso, mas a apresentação vai ser só depois do almoço.
, acho que deveríamos ir a essa festa – disse ao meu lado. Nem havia percebido que minha colega de quarto havia voltado para perto de mim – O que você acha?
não é do tipo de sai à noite durante a semana – disse em tom de deboche. Não me dei ao trabalho de olhar para ele, tampouco me preocupei em respondê-lo. Com um sorriso maior do que meus lábios eram capazes de formar, respondi a Brian:
— Claro que vou, não poderia pensar em nada melhor para fazer hoje a noite.
Aquilo não era totalmente verdade, já que conseguia sim pensar em coisas melhores para fazer a noite como, por exemplo, terminar de arrumar as minhas roupas no armário e descobrir a senha do wi-fi da república para terminar a quinta temporada de The Black List.
Mas a cara de surpresa de após a minha resposta foi o que me fez ignorar qualquer preocupação que eu pudesse ter. Além disso, um pouco de integração não faria mal, não é?


Capítulo 2


Já havia escurecido quando e eu nos revezamos para tomar banho. Dividir o banheiro com uma desconhecida não foi tão ruim como pensei, mas então me lembrei que na próxima semana iria dividir o banheiro com cinco meninas diferentes, quatro das quais nem conhecia ainda, e que talvez a minha ideia de divisão não fosse permanecer a mesma.
Ainda com a toalha enrolada no corpo, me peguei parada em frente ao armário que dividia com . Que roupa eu deveria usar na primeira festa universitária? Segurei um vestido de renda na mão. Talvez fosse muito. Uma calça jeans, talvez? Estava ventando lá fora, e eu poderia sentir frio mais tarde. Deveria escolher uma sapatilha? Eu não poderia colocar salto alto para uma festa universitária, poderia? Não tinha muito certeza de como deveria me portar em eventos assim e isso estava me deixando aflita.
já estava pronta. Voltou do banheiro com a maquiagem feita, usando um short jeans, camiseta do AC/DC e tênis vans.
— Ainda não está pronta?
— Estou indecisa sobre o que usar... – senti as bochechas corarem. Em cima da minha cama estavam todas as roupas que tinha arrumado dentro do meu armário horas mais cedo.
— Você não precisa se preocupar muito com isso, sabia? Em festas de faculdades você pode usar a roupa que quiser, desde um vestido longo com uma rasteirinha, o jeans rasgado que nunca coloca para lavar ou a calça social que você usou o dia todo no estágio.
Já mais tranquila, deixei me ajudar a escolher minha única saia jeans – a mesma que tenho desde os quinze anos de idade – uma blusa de alcinha que tinha pegado emprestado da minha irmã, mesmo ela não sabendo disso, e tênis all star. Nunca me senti tão eu mesma como naquele momento.
Antes de sairmos de casa, e eu tiramos várias fotos, algumas das quais mandei para e para Marina. Junto com a foto que mandei para escrevi uma promessa de que não deixaria as festas serem frequentes na minha vida, já que pretendia me dedicar muito aos estudos. Para Marina, apenas pedi para que ela não ficasse brava por ter pegado sua blusinha, além de prometer que não deixaria que derrubassem cerveja nela.
Por sorte Marina não estava online, o que significa que demoraria para visualizar a mensagem e que sua lição de moral sobre não pegar as coisas dos outros sem pedir antes ficaria para mais tarde.
Logo quando chegamos encontrou alguns amigos.
— Miguel, Sara, oi! – ela gritou acima da música. Miguel e Sara se aproximaram para nos cumprimentar, momento em que minha colega de quarto me apresentou, bem... Como sua colega de quarto.
— Esta é , pessoal. Somos colegas de quarto na república em que estou morando – disse animada – Onde estão Monique e Giovane?
— Entraram pelos fundos para terminar de tirar os instrumentos do carro.
balançou a cabeça em sinal de concordância e segui seu movimento, mesmo não entendendo o que eles haviam dito.
— Vamos ajudá-los a terminar de arrumar as coisas. Nos vemos mais tarde, ! – Sara se despediu dela com um beijinho no rosto. – Tchau, , foi um prazer conhecer você. Espero que goste do nosso som.
E foi então que entendi o que eles quiseram dizer sobre arrumar os instrumentos. Bem, eu já deveria ter desconfiado, afinal, Sara tinha uma caixa de violão nas costas.
— Eles têm uma banda, sabe? – começou a dizer – Eu os ajudei a compor algumas músicas.
Ergui as sobrancelhas, impressionada.
— Por que você não faz parte da banda?
riu antes de me responder.
— Porque não sei tocar nenhum instrumento e sou péssima cantando. Sou boa em escrever coisas, então prefiro ficar só na caneta e no papel mesmo – começamos a rir juntas quando olhou para algo atrás de mim – Ei, seu veterano chegou junto com o seu amigo.
Não precisei olhar para trás para saber a quem ela se referia como “meu amigo”. Tampouco tive tempo de falar que não é meu amigo. Há muito tempo ele não é meu amigo. E confesso que às vezes me questionava se algum dia ele havia sido.
Brian me cumprimentou com um largo sorriso e apoiou o braço nos meus ombros. Me distraí do desconforto por ter um braço que não conhecia em cima dos meus ombros quando começou com suas gracinhas.
— Ei, , não se assuste por estar em um lugar com mais de três pessoas, ok? Isso é comum em festas. – soltei minha risada mais irônica antes de respondê-lo:
— A única coisa que me assusta aqui é a possibilidade de ter que ficar olhando para a sua cara de prepotente a noite inteira, .
nada respondeu, apenas estreitou os olhos.
— Ei, ei, nada de brigas hoje – Brian disse tentando melhorar a situação de desconforto que se instalou – Vamos beber, sim? Aqui, pode ficar com o meu copo, eu vou pegar outro para mim – disse me oferecendo o copo que tinha nas mãos.
Mal tive tempo de agradecer – ou recusar, o que teria sido mais sensato da minha parte – e Brian já havia sumido em meio à multidão.
Ficamos apenas e eu, mas estava muito ocupada conversando com algumas pessoas que conhecia, ou que havia acabado de conhecer, eu não saberia dizer. Ela tinha muita facilidade em conversar com pessoas novas.
— Se eu fosse você, eu não beberia desse copo – ouvi dizer atrás de mim.
Bem, talvez não estivéssemos apenas e eu – e suas novas ou velhas amizades – mas , eu e .
— Por sorte você não sou eu, então... – foi a resposta inteligente que eu dei. revirou os olhos.
— Estou apenas tentando ser legal, ok? E estou dizendo, você não deveria beber algo que nem conhece – Foi a minha vez de revirar os olhos.
— Talvez você não tenha percebido, mas já não sou mais uma criança, o que significa que conheço cerveja há muito tempo – e para provar o que havia dito, tomei um gole, me esforçando para não fazer careta com o gosto amargo.
— Tudo bem, você está por conta própria então. – foi a sua resposta.
Pensei que ele fosse embora ou fosse procurar o restante dos seus amigos, mas continuou do meu lado, mesmo que olhasse para todos os lugares, menos para onde eu estava.
— Ei, gatinha, gostou da bebida? – Brian perguntou assim que voltou com mais um copo nas mãos.
— Achei meio amargo... – comentei, o que era verdade. Eu sabia que cervejas eram amargas e por isso não gostava de beber, mas aquela estava muito forte. Provavelmente era alguma marca que eu não conhecia, o que não seria difícil de acontecer, já que não conhecia quase nenhuma marca de cerveja.
Brian riu divertido, como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada de todos os tempos.
— Venha, vou te levar para conhecer o restante do time de futsal.
Brian, novamente com o braço apoiado nos meus ombros, me levou para junto a um grupo de garotos que falavam alto demais. Alguns usavam a camiseta do time de futsal do Direito, outros tinham tatuagens removíveis no rosto. Reconheci o mascote do time nas tatuagens.
nos acompanhou em silêncio, e percebi que assim ele permaneceu por um longo tempo. Nem mesmo abriu a boca para me apresentar para seus amigos, para dizer que já nos conhecemos há tempos, que já fomos amigos quando éramos crianças. Apesar de ter ficado chateada com a sua atitude, não fiquei surpresa. Não esperaria nada diferente vindo de .
Os garotos foram muito legais comigo e logo correram para me apresentar seus calouros, já que estudaríamos na mesma sala pelo próximo semestre. Eu estava tão envolvida nas conversas aleatórias, que nem percebi que já não estava mais conosco, tampouco percebi que minha cerveja havia chego ao fim.
— Aqui, pode beber da minha – Brian me ofereceu. Ele estava sendo tão legal comigo, mas tão legal, que me senti sortuda por ter sido sorteada por ter ele para ser meu veterano.
Minha cabeça estava uma verdadeira festa de emoções. Eram tantos pensamentos juntos e misturados, tanta empolgação... Não conseguia pensar em outro momento em que tenha me sentido assim antes. Euforia. Eu estava eufórica, o coração batendo tão rápido que quase doía. E para ser sincera comigo mesma, aquela estava sendo a melhor sensação do mundo.
, você não deveria beber mais.
Precisei despender muita energia para me concentrar em quem havia dito aquilo para mim. Mas quem poderia ser? Não Brian. Brian só queria que eu me divertisse naquela noite. Brian estava sendo muito legal comigo, um cavalheiro, eu diria.
... – ouvi me chamarem novamente. – , já chega.
E neste momento o copo já não estava mais em minhas mãos. Olhei em volta pensando onde eu poderia ter deixado o copo. Será que o deixei cair? Foi quando vi com dois copos nas mãos. Ele estava com tanta sede assim?
— Ei, esse copo é meu! – gritei com ele. Gritei de verdade, muito, muito alto. Mais alto do que o necessário. Mas eu precisava ter certeza de que ele me ouviria.
— Eu sei, e é por isso que vou jogar isso fora.
Minha cabeça estava girando, talvez não devesse ter rodado no mesmo lugar segundos antes. Mas é que eu precisava achar o meu copo!
— Você não vai jogar nada fora! – e quando puxei o copo para mim, parte do liquido caiu na blusinha da minha irmã, a mesma blusinha que prometi que não deixaria cair nada.
E pensar na minha irmã me fez lembrar... Espera, lembrar o quê? Já tinha esquecido.
— Ainda não entendi o que você está fazendo aqui, – eu disse com a voz meio enrolada. virou o rosto para mim, com atenção – O seu grupo de amigos não é aquele? – apontei para onde seus amigos estavam, o que me fez perceber que eu havia me afastado do grupo em algum momento. Quando foi que isso aconteceu mesmo? Eu não saberia dizer – Então o que está fazendo aqui? Volte para os seus amigos e me deixe em paz!
não me respondeu e, mesmo se tivesse respondido, eu não teria escutado. Estava próxima demais do palco improvisado, onde os amigos de tocavam uma música que eu não conhecia. Em um segundo me perguntava se também tinha ajudado a escrever aquela música, e no segundo seguinte percebi que estava, de fato, sozinha, pois já havia voltado para perto dos seus amigos.
Aquela imagem, em meio a tantos garotos que eu não conhecia, parecendo estar tão confortável, trouxe memórias do Ensino Médio. Memórias de quando via andar com seu novo grupo de amigos, um grupo diferente do que costumávamos ter. Porque costumava ser do meu grupo ou, melhor dizendo, eu costumava ser do grupo dele. Éramos amigos, e então, num certo dia, já não éramos mais.
Ele já não cumprimentava mais ao passar perto de mim, quando preferia fingir que não me conhecia, nem pedia mais meus cadernos emprestados. As vezes nos esbarrávamos no corredor, mas em seus olhos não havia nenhum reconhecimento. Era como se ele não soubesse mais quem eu era ou, pior, já não se importasse mais com quem eu fui.
Vê-lo naquele grupo fez-me perceber que não, as pessoas não mudam com o tempo. continuava sendo o mesmo garoto de sempre.
— Ei, gatinha, quer ir comigo até a cozinha pegar mais disso? – Brian disse balançando o copo vazio na frente do rosto.
— Não, obrigada, eu ainda tenho – lhe mostrei meu copo ainda pela metade.
— Mas você poderia pelo menos me fazer companhia, não é mesmo? – ele insistiu.
Eu não queria sair dali, estava me divertindo com as músicas da banda que até agora não sabia o nome. Mas Brian tinha um sorriso fácil. Seus olhos brilhavam com expectativa e ele estava sendo tão legal comigo que resolvi lhe fazer companhia por alguns minutos.
Eu estava agitada, não conseguia ficar parada no mesmo lugar. Sabia que o clima ali dentro estava quente, mas eu deveria estar suando tanto como estava? Minhas mãos estavam tão inquietas que quase deixei o copo cair mais de uma vez.
Brian pegou uma nova cerveja de dentro do freezer, despejando parte do liquido no seu copo e a outra parte deixou em cima da mesa para quem mais quisesse. Antes de sairmos da cozinha, entretanto, puxou um saquinho de dentro do bolso e jogou um pozinho colorido dentro do seu copo.
Sei que estava bêbada. Sei que poderia estar vendo coisas que não estavam acontecendo de fato. Sei que não deveria confiar tanto na minha visão, mas automaticamente fiquei confusa.
— O que você está fazendo? – me vi perguntando, minha língua demorando em formar as palavras, minha voz muito enrolada, totalmente o oposto do meu coração que vibrava no ritmo da música, batendo tão rápido que parecia que iria sair do peito a qualquer momento. Brian riu antes de responder.
— Não se preocupe. Isso é apenas uma forma de prolongar a nossa noite.
Eu estava eufórica demais para questionar o que estava acontecendo, mas uma voz no fundo da minha mente me dizia que aquilo não parecia certo. Que eu não deveria continuar bebendo o que ele me oferecia. Que Brian não parecia mais estar sendo tão legal como alguns minutos antes.
— Não, obrigada. Acho que parei por hoje – e então joguei o meu copo, ainda com cerveja e seja lá o que for que estava misturado a ela, no lixo.
... Não seja chata. A noite está apenas começando. Além disso, você gostou do que eu te dei para beber, não gostou?
Pensei por um segundo. Eu gostei? Não gostei do sabor, obviamente. E não estava gostando nenhum pouco da sensação de estar caindo. Brian imediatamente colocou o braço ao redor da minha cintura. Percebi que não estava apenas tendo a sensação de estar caindo, mas estava, de fato, indo para o chão.
— Quer beber alguma coisa, ?
Foi então que percebi o que estava acontecendo.
— Não quero nada que venha de você. Não quero beber mais nada. E quero que você tire as mãos de mim! – tentei afastar seu braço, mas não tinha forças nas mãos. Estava entrando em um estado de torpor, a euforia diminuindo rapidamente.
, está tudo bem...
Brian estava próximo, muito próximo. Próximo demais, eu diria. E o desconforto que senti por ter seu braço em cima dos meus ombros foi triplicado porque não queria que aquele garoto ficasse próximo de mim por nem mais um segundo.
— Sai daqui – eu disse empurrando ele.
— Ei, o que está acontecendo aqui?
! estava aqui. iria me ajudar.
— Nada que te interesse – ouvi Brian respondendo a ela. E quando voltou sua atenção para mim, antes que ele pudesse se aproximar demais novamente, peguei o copo da mão dele e virei todo o liquido na sua cara.
— Você está louca, garota? – ele gritou. Não tive tempo de responder, entretanto. apareceu nesse exato momento. – Caramba, olha o que a sua amiguinha fez!
Quis responder que eu não era amiguinha de , mas não o fiz. pegou a minha mão e me levou para o lado de fora da casa, dizendo que iria me levar embora. Tudo o que pude fazer foi abraça-la, como forma de agradecimento.
Só percebi que não estávamos sozinhas quando se ofereceu para nos acompanhar até em casa.
— Não quero sua carona. Você também bebeu. Seria irresponsável entrarmos no carro com você agora – eu disse pausadamente.
— Eu não vim de carro porque moro aqui perto. Vocês vieram andando?
Eu não respondi a ele, mas sim.
— Moramos a dois quarteirões daqui.
— Tudo bem, eu vou com vocês até lá. Vai ser bom para andar agora, vai ajudar a passar o efeito da droga.
Droga foi o que ele disse.
Efeito da droga. Eu estava sob o efeito de alguma droga?
Meu deus, eu nunca fumei nem mesmo cigarro. Nunca fiquei nem bêbada! Bem, pelo menos até essa noite. Como poderia ter feito uso de droga?
Já no quarto, foi quem me ajudou a tirar minha roupa para que eu pudesse tomar banho. De fato, caminhar pela rua, sentindo o vento bater no rosto e depois tomar um banho gelado foi ótimo para eliminar os efeitos da droga do meu organismo.
Saí do banheiro já vestindo meu pijama da Corvinal. disse que ficou satisfeita com a minha escolha de casa, apesar de não me lembrar dela ter comentando qual era a sua. Esperava que me lembrasse de perguntar isso a ela amanhã.
ligou para você, mas não se preocupe, eu não atendi – disse.
estava no meu quarto. estava no meu quarto.
— Não sabia que ainda conversavam. Vocês ainda são amigos?
Se a minha mente estava atordoada até aquele momento, a voz de foi o bastante para que uma onda de pensamentos e memórias me inundasse. E isso fez com que eu explodisse de raiva.
— Isso é tudo culpa sua – eu disse com os dentes cerrados.
, que até então estava em pé, ao lado da minha cama, olhando para as minhas fotos no criado-mudo, me olhou com a testa franzida.
— O que quer dizer com culpa minha?
— Você... – andei até ele com o dedo apontado para o seu peito – Você é a pior pessoa que eu já conheci na vida!
Só percebi o quanto tinha gritado quando senti a garganta arder.
já não tinha mais a testa franzida, mas seus olhos estavam arregalados de surpresa.
, do que você está falando?
. Ele me chamou de . Há quanto tempo ele não me chamava assim? Não conseguia me lembrar.
— Você sabia que Brian estava me dando bebida batizada? Que eu estava bebendo não apenas cerveja, mas também alguma outra droga que eu não faço ideia do que possa ter sido?
— É claro que eu sabia. Brian sempre batiza o que ele toma nas festas.
Ele sabia. Mas é claro que ele sabia!
Senti minha pele esquentando. Estava fervendo em raiva.
— E você não achou que seria interessante me dizer isso, seu idiota? Sei que não somos mais amigos, mas pensei que você teria o mínimo de caráter para me informar de que eu estava sendo drogada, porra!
— Eu disse pra você não beber! Disse várias vezes, mas você não me ouviu! – ele disse também alterado, elevando o tom de voz, como se ele estivesse no direito de ficar nervoso com alguma coisa ali.
— Eu achei que você só estava implicando comigo! – porque é isso que ele sempre fazia. sempre implicava comigo. – Se quisesse mesmo me ajudar, deveria ter falado “ei, , sabe essa cerveja aí que você tá bebendo? Pois é, não é só cerveja” – fiz voz grossa tentando imitá-lo.
também estava perdendo a paciência. Prova disso era seu cabelo todo bagunçado por conta de suas mãos inquietas que apertavam os fios de cabelo.
— Espera, você queria que tudo isso acontecesse, não é? – eu perguntei, entrando em uma linha de pensamento que não deveria. Numa linha de pensamento que me faria dizer coisas das quais poderia me arrepender mais tarde. – Você queria que isso acontecesse só para poder tirar onda com a minha cara!
, acho que você me conhece bem o suficiente para saber que eu jamais faria algo desse tipo com alguém, especialmente com uma amiga minha.
tinha o tom de voz sério, grave. Ele já não gritava mais, e nem eu. Porque a vontade de chorar me abateu, e por conta dela eu já não tinha força para gritar.
— Mas nós não somos mais amigos, não é mesmo?
não respondeu, mas eu sabia que ele queria falar algo, apesar de estar se segurando.
...
— Por favor, vá embora. Vá embora e não fale mais comigo. Sei que não vai ser algo difícil de se fazer, já que foi exatamente o que você fez nos últimos cinco anos.
Pensei que ele fosse insistir em dizer que era inocente, mas não disse nada. Também não me olhou uma última vez antes de sair do meu quarto, bater a porta e ir embora.
Bem, não era a primeira vez que ia embora da minha vida.


Capítulo 3

A dor de cabeça veio antes mesmo de abrir os olhos. A vontade de vomitar, entretanto, só se manifestou quando arrisquei uma olhada no celular para ver as horas. Passava do meio dia. O gemido que soltei foi pela dor de cabeça, pelo meu estômago embrulhado e pelo fato de ter perdido todas as palestras no segundo dia de aula.
Sentia-me uma péssima aluna.
Em cima do criado mudo havia um bilhete, e ao lado dele dois remédios.

Hey colega de quarto, numa escala de 0 a 10, o quão péssima você está se sentindo? Se a resposta for acima de seis, tome o comprimido para dor de cabeça. Se a resposta for acima de oito, tome os dois comprimidos, eles irão te ajudar a ficar de olhos abertos sem querer amaldiçoar a luz do sol.
Assim que as palestras terminarem voltarei para ver como você está. Qualquer coisa me mande uma mensagem no celular.
Beijinhos


Como dava nota onze para a minha atual situação, tomei os dois comprimidos. tinha sido gentil a ponto de deixar um copo com água ao lado dos comprimidos.
Fiquei sentada na cama, a cabeça encostada na parede, os olhos fechados, enquanto esperava o efeito do remédio. Foi nesse momento que as memórias começaram a chegar.
Lembrei-me da festa e de Brian. Lembrei-me da cerveja excessivamente amarga que Brian me ofereceu e então fechei os olhos com força. Se arrependimento matasse... Não podia acreditar que no meu primeiro dia na faculdade fiz o que minha mãe havia me dito a vida toda: não beba nada do copo de ninguém. E o que eu fiz? Exatamente o contrário.
Peguei o celular de novo. Haviam algumas ligações perdidas, uma de Marina, provavelmente para reclamar de eu ter pegado sua blusinha sem pedir permissão – a mesma blusinha que eu derramei cerveja noite passada, e esperava, de verdade, que não ficasse manchada – e duas de . Lembrava-me do fato de ter ligado na noite passada. Lembrava-me porque me avisou.
E foi então que as palavras cruéis que disse a ele vieram à tona. As palavras podem ter sido maldosas, mas não me arrependia delas. não pode querer ser meu amigo, e então me ignorar por cinco anos, e depois aparecer preocupado no meu quarto querendo, sei lá, ser meu amigo de novo. Não pode.
Se bem que... Pensando bem... Talvez minhas palavras tenham sim sido pesadas demais. Quer dizer, não é como se ele tivesse culpa de alguma coisa. Eu sabia que não tinha. Ou, pelo menos, acreditava nisso. Eu sabia que o de cinco anos atrás não deixaria que uma amiga fizesse uso de entorpecentes sem o seu consentimento e, apesar de não o conhecer mais, sabia que, pelo menos nesse aspecto, ele continuava o mesmo.
Será que deveria falar com ele? Apesar de o meu orgulho dizer que não, minha consciência dizia que sim. Iria procurar por ele assim que as pontadas na cabeça passassem.
Deitei na cama de novo. No criado mudo havia uma foto minha com Marina no restaurante que fomos quando foi divulgada a lista de aprovados no vestibular. Eu estava tão feliz, e minha irmã tão orgulhosa.
Ao lado dessa foto, me abraçava pelos ombros enquanto eu ria de alguma piada que ele havia contado. Ele tirou a foto sem que eu percebesse.
Sempre gostei de ter fotos com os meus amigos. Não apenas fotos digitais, facilmente deletadas no celular, mas fotos impressas, emolduradas em diferentes modelos de porta-retratos. No meu quarto, em casa, tinha tantos porta-retratos que minha mãe acabou comprando um painel magnético para que eu pudesse colocar minhas fotos presas em imãs, sempre reclamando de como era difícil tirar a poeira de todas as minhas bugigangas.
Quando mais nova, eu costumava ter muitas fotos, o que justificava o painel magnético pregado na parede do quarto. Mas nos últimos anos, quando decidi guardar a maioria das minhas lembranças em caixas bem escondidas no armário, achei melhor dar embora o painel e voltar a ter apenas porta-retratos. Já não fazia mais sentido guardar fotos de pessoas que não faziam mais parte da minha vida.
As coisas começaram a mudar no Ensino Médio. Logo no primeiro dia, quando meus amigos e eu descobrimos que, pela primeira vez, desde a quarta série, não estudaríamos juntos na mesma sala.
— Fala sério, cara! Esses professores estão tirando uma com a nossa cara?
foi o primeiro a reclamar. Apesar de ter ficado magoada, pois queria continuar junto ao meu grupo de amigos, eu não poderia reclamar, afinal e eu acabamos na mesma sala.
— Ei, vamos nos encontrar no refeitório, beleza? – disse antes de entrar na sala de aula, enquanto , Liz e Lucas estavam parados em frente à porta da frente, onde estudariam – Quem chegar primeiro pega uma mesa com cinco cadeiras.
Esse tinha sido o pensamento mais lógico: continuaríamos juntos nos intervalos, e então combinaríamos o que fazer na parte da tarde. Não havia motivo para nos afastarmos. Mas antes mesmo das provas bimestrais começarem, nós já não nos sentávamos mais juntos.
ainda era meu amigo. Nada mudou entre nós. Mas Liz, que começou a namorar um menino da sua sala, preferia passar suas tardes na casa dele e não mais na minha, como antigamente. Lucas sempre foi a pessoa mais desligada e, ao mesmo tempo, mais animada do grupo. Não perdia a chance de me convidar para sentar com ele e seus novos amigos – amigos do seu irmão mais velho – mas eu não tinha coragem. Quer dizer, aqueles garotos estavam no último ano, falavam alto demais, e mastigavam com a boca aberta, além disso, eu não entendia nada sobre os papos de meninos que eles tinham.
, que sempre implicou comigo por qualquer coisa, passou a simplesmente me ignorar. Assim, de um dia para o outro, era como se ele nem mesmo me conhecesse mais, e aquilo doeu. nunca havia pedido desculpas pela briga que havíamos tido no baile de formatura, no final do ano passado. Mesmo assim, pensei que continuaríamos a ser como antes, mas não pensava da mesma forma.
Mesmo vendo aquelas pessoas se afastarem, uma a uma, não tive coragem de jogar nossos momentos registrados em fotos fora. Quer dizer, não nos afastamos porque brigamos, mas apenas porque seguimos caminhos diferentes. E por este motivo guardei as nossas fotos em uma caixa, apenas como lembrança do que vivemos juntos um dia.
Estava mandando uma mensagem a quando chegou.
— Ei, colega de quarto. Como está se sentindo?
Eu ainda estava com meu pijama da Corvinal, deitada na minha cama, sem escovar os dentes e sem coragem de olhar no espelho para ver a situação do meu cabelo. Mas pelo menos a dor de cabeça tinha passado. Também ignorei o fato de que passava das quatro horas da tarde.
— Estou bem – respondi. se sentou na sua cama, ficando de frente para mim. Não tive coragem de olhar para ela – Estou com muita vergonha da noite passada, e eu entendo completamente se você quiser trocar de quarto.
juntou as sobrancelhas.
— Por que eu faria isso?
— Bem, talvez porque nem nos conhecemos e você já cuidou de mim no meu primeiro dia na faculdade, na nossa primeira festa...
— Não se preocupe – ela disse abanando a mão como se não fosse importante – Eu teria feito o mesmo com qualquer outra pessoa no seu lugar, especialmente se fosse mulher – e então suspirando, ela continuou – Estou cansada de ver homens se aproveitando de nós.
Balancei a cabeça em concordância. Brian não estava sendo legal comigo, estava sendo um perfeito idiota, isso sim.
— Eu deveria ter desconfiado de que tinha alguma coisa naquela bebida...
— Ei, você não tinha como desconfiar de que estava batizada se você nunca tinha usado antes. Você não tem que se culpar de nada, ouviu?
— Certo...
— Foi a sua primeira vez? – ela perguntou curiosa.
— Com drogas? Sim. E posso te garantir que foi a minha última também – garanti. Nunca mais queria ter a sensação de falta de controle da noite passada.
Quando finalmente tive coragem de me levantar, fui até o armário separar uma roupa para vestir depois do banho, e foi nesse momento que vi a situação do meu cabelo. Não resisti ao impulso de gemer em desespero, especialmente porque lembrei que não tinha colocado o condicionador na mala, tendo prometido para mim mesma que seria a primeira coisa que compraria quando chegasse em São Paulo. Bem, não foi a primeira coisa que fiz ao chegar em São Paulo.
— Ei, posso perguntar uma coisa? – disse da sua cama.
— Claro – tentava fazer um coque no meu cabelo, mas o frizz estava grande demais.
— Aquele garoto que nos acompanhou ontem, ... Você já o conhecia?
— Sim, nós nos conhecemos desde que somos crianças. foi meu vizinho até os doze anos – será que se eu conseguia fazer uma trança para ir ao supermercado?
— E por que ele não a escolheu para ser sua caloura? – ela perguntou curiosa.
— Porque não somos mais amigos. Há muito tempo – completei.
já não mexia mais no celular. Sentou na cama, com a coluna reta, e me olhou com atenção.
— O que houve entre vocês?
— Para ser sincera eu não sei – suspirei desistindo de fazer qualquer coisa no meu cabelo – Quando éramos crianças ele pegava bastante no meu pé, mas eu também o irritava. Sabe como é, coisa de criança. Depois crescemos e ele ficou mais chato, se é que isso era possível, e então no Ensino Médio nós paramos de nos falar, com exceção das vezes que nos esbarrávamos no corredor, o que sempre acabava sendo motivo pra gente discutir por algum motivo idiota.
se concentrava nas minhas palavras, e parecia estar montando um quebra cabeça.
— Vocês já namoraram?
— O quê? – perguntei assustada. – Deus me livre!
Percebi que a minha risada em vez de irônica saiu nervosa. Nunca, em mil anos, poderia imaginar-me relacionamento de forma romântica com . Ele não era esse tipo de garoto, nunca foi.
— Eu namorei a minha melhor amiga.
E aquilo foi o bastante para cessar a minha risada. E então, tudo o que pude dizer foi:
— Espera, você é lésbica?
Me arrependi na hora pela pergunta. Não porque recriminava minha curiosidade, mas pela escolha da palavra e pela entonação de curiosidade que usei. Não queria que pensasse que eu estava a julgando.
— Não gosto de me rotular, mas se você quer saber, costumo me atrair pela pessoa, não pelo órgão genital que ela carrega. Então sim, gosto de sair com meninas e meninos – ela disse – Algum problema?
— Nenhum! – garanti. E como percebi que ela acreditou em mim, disse – De qualquer forma, nunca foi meu melhor amigo. Foi apenas meu amigo.
Deixei de fora o fato de que talvez tenha havido uma época em que tive uma quedinha por ele. Mas essa época logo passou, especialmente quando o Ensino Médio chegou e ele se tornou o maior babaca de todos.
— E as outras pessoas do seu grupo? – ela perguntou curiosa, como se nunca tivéssemos parado de falar de mim para falar dela por um instante.
— Ah, cada um foi para um lado. acabou entrando em uma faculdade na nossa cidade, ele conseguiu bolsa integral – comentei – Liz também foi para a mesma faculdade, mas não acho que eles mantêm contato, pelo menos nunca me disse nada. Lucas conseguiu bolsa de estudos em uma faculdade em outro estado, e e eu viemos para cá. De qualquer forma, só mantivemos a amizade e eu. é meu melhor amigo.
— E você já namorou ele?
— Não! – eu disse rindo, dessa vez sem o toque de nervoso – era apaixonado pela minha irmã quando mais novo, mas ela era mais velha do que ele. Mesmo se eu quisesse, acho que nunca teria uma chance com ele.
ainda é apaixonado pela sua irmã? – continuou com seu interrogatório, em busca de mais peças para seu quebra cabeça particular.
— Não. Acho que ele gostava mais da ideia de ser apaixonado por uma garota mais velha do que, de fato, ser apaixonado por Marina.
— Então você tem uma chance com ele.
Balancei a cabeça em negativa.
e eu somos apenas amigos. Sempre fomos assim, e não quero que as coisas mudem – não pareceu acreditar em mim, então preferi mudar de assunto – Me conte sobre a sua melhor amiga. v deu de ombros antes de responder.
— Não há muito o que dizer. Éramos melhores amigas, me apaixonei por ela, namoramos por um tempo e então ela me largou para voltar com o ex. Foi o fim do nosso namoro e da nossa amizade.
Mordi o lábio me arrependendo por ter perguntado.
— Sinto muito.
— Não se preocupe, isso já faz muito tempo – ela disse despreocupada, mas pude perceber que falar sobre aquilo lhe trouxe memórias doloridas.
Desistindo totalmente de tentar arrumar o meu cabelo, peguei a minha toalha e uma muda de roupa, indo para o banheiro. Antes de sair, entretanto, pedi a que me emprestasse seu condicionador.
— Claro, pode usar – e antes que eu fechasse a porta do quarto ela gritou – Ei, o que acha irmos a uma pizzaria aqui perto? Veronica que nos chamou, dizendo que mais duas moradoras da república chegaram hoje.
Não precisei pensar muito para responder, especialmente com o meu estômago roncando de fome.


Capítulo 4

Após uma semana de palestras e atividades – das quais consegui fugir da maioria – as aulas finalmente começaram. Enquanto a maioria dos alunos – especialmente veteranos – se lamentava com o fim das integrações entre os cursos, eu vibrava de expectativa com o início das aulas.
Muitos alunos nem mesmo levaram caderno no primeiro dia, alegando que tinham todo o material que precisariam naquele semestre no computador, cortesia dos seus veteranos. Isso fez com que me lembrasse de Brian. Pensar no seu nome já era o suficiente para que meu estômago embrulhasse, mas preferi ignorar a sensação e procurá-lo durante o intervalo.
Eu não sabia qual era a sua sala, mas sabia que Brian era do time de futsal do curso de Direito. E como os horários dos treinos eram divulgados para nós, com o objetivo de que os alunos fossem incentivar o nosso time mesmo nos treinos, eu sabia que, agora, ele estaria no campo de futsal.
E, bem, eu estava certa, afinal. Brian se alongava no campo, em meio a um grupo de garotos que eu não conhecia. Parei atrás dele chamando pelo seu nome, mas ele não ouviu. Resolvi então lhe cutucar o ombro, o que também foi ignorado por ele. Irritada, pois sabia que Brian estava me ignorando de propósito, puxei seu braço até que ele ficasse de frente para mim.
— O que você quer, garota?
A raiva me sobre na hora.
— Eu quero o material de apoio que você ficou de me passar na semana passada – quando você prometeu que me daria todo o suporte que eu precisasse, logo antes de começar a me embebedar com cerveja batizada, completei em pensamento.
— Você só pode estar brincando – ele diz com desdém – Eu não vou te passar nada. Não depois da forma como fui tratado naquela festa.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas para absorver o que ele me disse. Espera, ele realmente disse o que eu pensei ter ouvido?
— Espera, você me drogou, e está reclamando de não ter sido bem tratado?
Ele revirou os olhos antes de responder.
— Você sabia o que estava usando.
— Não, eu não sabia! E quando te questionei e me recusei a beber, você tentou me forçar.
Ele novamente revirou os olhos, dessa vez parecendo sem paciência com a conversa.
— Não sei do que você está falando.
Fala sério, aquela conversa estava mesmo acontecendo?
— Você está se ouvindo? – perguntei, já sentindo as bochechas corarem pela raiva – Você tentou me beijar a força!
Foi naquele momento que percebi que todo o time de futsal estava prestando atenção na nossa conversa. Alguns garotos do time balançaram a cabeça como se o que eu falasse fosse um absurdo, mas outros expressaram surpresa. Eu sempre soube que garotos se protegiam, independentemente do que acontecesse, então ver a surpresa e a desaprovação em alguns rostos foi uma satisfação.
Brian também percebeu as reações divididas entre os amigos, então como resposta ele riu alto, debochado.
— Eu não tentaria beijar uma garota como você, muito menos a força – e a forma com que me olhou fez com que me sentisse pequena em meio a aqueles garotos – Tenho pelo menos doze conversas no WhatsApp de meninas esperando uma resposta minha sobre sair hoje à noite. Eu não preciso forçar nada com ninguém para ter o que eu quero.
E aquilo foi o ápice.
— Sinto muito que existam pelo menos mais doze garotas que estão perdendo tempo com um traste como você – eu respondi com a voz mais sarcástica que pude. E com um sorriso mais falso do que a escova progressiva que fiz aos quinze anos, continuei – A faculdade não tem uma política antidrogas?
Foi nesse momento que o semblante de Brian mudou. De sarcástico foi para preocupado.
— Será que o treinador sabe que você usa drogas nas festas em que vai? Sei que atletas não podem usar drogas.
Se antes os garotos do time estavam tomando cuidado para não expressarem suas reações com a nossa conversa, agora não poupavam os comentários de reprovação. Eles sabiam, assim como eu, que se qualquer jogador fosse pego usando drogas, não poderia mais jogar.
— Olha, sai do meu pé, ok? Apenas me deixe em paz e eu finjo que não te conheço – foi o que Brian respondeu com os dentes cerrados, falando baixo, perto de mim, com o intuito de não dar o que o time falar.
Aquilo apenas me deixou boquiaberta.
— E quem vai me orientar esse ano?
Brian revirou os olhos bufando.
— Olha, isso é uma tradição do curso de Direito, e nem são todos os cursos que fazem isso, o que significa que você vai sobreviver sem alguns resumos. Além disso, se quer tanto ajuda, procure outro veterano. Você não é amiguinha do ?
Abri a boca para responder que não, eu não era amiguinha do , quando Brian completou.
— Vai falar com ele e me esquece, garota.
E então, como se nada tivesse acontecido, ele simplesmente me deu as costas e foi embora, se esquecendo do aquecimento que fazia poucos minutos atrás.
Acompanhei os passos de Brian até perdê-lo de vista. E foi neste momento que percebi que estava ali, acompanhando toda a discussão. Mal tive tempo de formular o pedido de ajuda que faria a ele, quando ouvi sua voz dizendo:
— Se está pensando em pedir minha ajuda, pode tirar o cavalinho da chuva. Não sou babá de ninguém – ele disse sério, sem o usual tom de ironia na voz – Até porque sei que você não iria querer ajuda de um cara como eu, não é? Você deixou bem claro na semana passada que não quer a minha ajuda.
O peso das palavras da noite passada caiu sobre mim. A culpa me abateu, e eu estava pronta para lhe pedir desculpas pelas palavras malditas quando ele continuou:
— Além disso, eu já tenho uma caloura, e não perderia tempo tentando ajudar alguém que não quer.
Revirei os olhos, sentindo a culpa sendo substituída pelo orgulho.
— Eu não pediria a sua ajuda nem se você fosse a última pessoa da Terra. Posso muito bem me virar sozinha.
— Claro, claro – ele respondeu – Boa sorte com as provas.
E então voltou para onde seus amigos estavam, já no meio do campo, para se reunir com o treinador.
A bagunça de sentimentos foi instantânea. A raiva era a mais predominante, raiva de Brian, raiva de . Raiva dos garotos em geral. Eu odiava garotos. E então a culpa foi facilmente substituída pela tensão. é um completo idiota e não merece que me sinta culpada por ele. A tensão, entretanto, somada com a ansiedade, fez com que eu mandasse uma mensagem para explicando o que tinha acontecido. Fiz questão de exagerar no drama no que se referia ao meu medo por não poder mais contar com um material de apoio.
Não precisei aguardar muito pela resposta de .

Gata, não se preocupe. Aposto que Brian não teria muito o que oferecer, de qualquer forma. Além disso, tudo o que eu receber do meu veterano irei passar para você. Promessa de dedinho.


E aquilo foi o bastante para me acalmar e diminuir o ritmo dos batimentos do meu coração.
estava certa, Brian não tinha cara de ser do tipo estudioso e que tem vários materiais alternativos para complementar o seu estudo. Ele tinha mais cara de que pedia o caderno de alguém emprestado, na véspera da prova, e estudava por meio de xerox.
Ouvi um apito ao longe e então o treino do time de futsal masculino começou. Algumas pessoas estavam sentadas nas arquibancadas, e pude reconhecer algumas garotas da minha turma.
Eu gostava de futsal, de verdade. , , Lucas e eu sempre assistíamos a todos os jogos da Copa do Mundo na casa de Lucas, pois seu pai tinha uma televisão de quase cem polegadas. Liz e Marina não gostavam de assistir aos jogos, então elas só se encontravam conosco quando tinha jogo do Brasil.
E foi apenas por isso que procurei um lugar na arquibancada para que pudesse me sentar, longe do sol, mas com uma boa visão do campo. Aos quinze minutos do primeiro tempo, meu celular tocou. me ligava.
— E aí, , como está sendo o primeiro dia de aula? – ele perguntou animado.
Resisti ao impulso de comemorar um gol feito por para responder ao meu amigo.
— Lembra que te contei sobre aquele veterano, Brian, que iria me ajudar nos estudos esse ano? – perguntei mesmo sabendo que sabia de quem eu estava falando.
— O mesmo idiota que fez você usar algum tipo de droga ilícita sem que você soubesse? – ele perguntou – Sei muito bem. Só não sei ainda porque você não foi à polícia dar queixa desse cara.
Revirei olhos antes de respondê-lo.
— Já falamos sobre isso. Não vou dar queixa dele simplesmente porque não quero arrumar confusão logo na minha primeira semana de aula. Além disso, nada aconteceu. me ajudou.
E também, mas deixei esse detalhe de fora.
— De qualquer forma, o que eu queria te contar é que procurei ele hoje, Brian. E você acredita que ele pediu para eu esquecer ele, enquanto ele iria fingir que não me conhece?
soltou uma risada irônica.
— Não me surpreende essa atitude. Esse cara é da pior espécie dos caras idiotas.
— Eu sei! – adorava conversar com , pois ele sempre me entendia. Além disso, não ficava do lado dos garotos apenas por também ser garoto. Ele sempre ficava do meu lado da história – é outro que não mudou nada. Continua o mesmo egoísta prepotente de sempre. Acredita que ele nem mesmo tentou me defender?
ficou em silêncio do outro lado da linha. Precisei chamá-lo duas vezes para ter certeza de que a ligação não havia caído.
— Espera, de que está falando? – ele perguntou confuso.
E foi então que me lembrei de que não tinha contado a que havia reencontrado na faculdade. Nem mesmo passou pela minha cabeça comentar algo assim com ele, afinal, que importância teria na nossa conversa?
– respondi – Você sabe de quem estou falando – o lembrei – Vocês ainda são amigos, não são?
novamente demorou a responder, o que me fez pensar que o sinal deveria estar ruim e a mensagem deveria demorar a chegar até ele.
— Sim, a gente ainda conversa às vezes – ele respondeu – Tinha me esquecido de que agora vocês estudam juntos.
— Nós não estudamos juntos. Não temos nenhuma aula juntos, eu acho – pensei na possibilidade de estar repetindo alguma disciplina do primeiro ano – Ele está dois anos na minha frente e adivinha, ele fez questão de jogar isso na minha cara! Acredita nisso?
— Então... Vocês estão se falando de novo? – não compartilhou da minha indignação pela babaquice de .
— Não exatamente. Nossas conversas não são muito diferentes das que tínhamos na escola.
O que significava que não, nós não conversávamos, com exceção, é claro, de quando se fazia necessário. Além disso, nossas poucas palavras, de alguma forma, sempre terminavam em algum tipo de provocação.
— Talvez fosse bom se vocês conversassem por aí. Ter alguém conhecido, especialmente veterano, é realmente uma boa vantagem na faculdade, .
Revirei os olhos. Eu não precisava da amizade de para me dar bem na faculdade. Prova disso é que não precisei dela para me dar bem no ensino médio. A diferença, talvez, fosse que no ensino médio eu conhecia todos os meus professores, e também todos os alunos do meu ano, já que estudamos juntos a vida toda. Mas esse era apenas um detalhe pequeno.
— Eu não preciso da ajuda de na faculdade, , não se preocupe.
, eu sempre me preocupo com você.
A foi a intensidade na sua voz, e tom o sério que ele usou, que me fez suspirar no final.


Capítulo 5

e eu estávamos há pouco mais de uma semana na capital, em São Paulo, e já nos havíamos nos tornado fiéis clientes da pizzaria que fica na rua de trás da República Rainha de Copas. Prova disso foi o Sr. Nelson, dono da pizzaria, nem mesmo nos oferecer o cardápio logo após escolhermos uma mesa perto da janela, mas apenas nos perguntar “a mesma de sempre, meninas?”, no que respondemos “sim, Sr. Nelson”.
Fala sério, quem tem uma pizza que pode ser chamada de “a mesma de sempre” depois de ir apenas três vezes à pizzaria? Aparentemente eu podia.
Naquela noite o veterano de estava conosco, e elogiou a nossa “escolha de sempre”.
— Nunca havia comido pizza de lombinho canadense com catupiry e ovo. Isso é realmente muito bom – ele comentou com a boca cheia – E essa borda recheada com mozarela... Hm...
Eu não poderia concordar mais.
Caio, que estava no último ano da faculdade de Direito, e mal saía de casa pois estava estudando para prestar o Exame da Ordem, lhe entregou duas pastas com dez divisórias cada, perfeitamente organizadas. Suas anotações e resumos estavam separados por matéria, e cada pasta era referente a um semestre, sendo que ali havia todo o material que ele havia usado no primeiro ano na faculdade.
— Apenas tenha cuidado com as minhas anotações, elas são preciosas – ele disse com seriedade na voz – Elas já ajudaram muitos calouros antes de você, e pretendo usá-las para salvar outros que virão no futuro.
— Você é tão organizado com as suas coisas... – comentou admirada – Parece .
— Ei, como você sabe que sou organizada com as minhas coisas?
revirou os olhos e deu um sorriso de lado antes de responder.
— Seu estojo tem mais canetas coloridas e post its do que uma papelaria – ela disse como se fosse óbvio.
De fato, não tinha como negar isso.
— Me deixa adivinhar – Caio apontou o dedo para mim – Você é virginiana?
— Com ascendente em gêmeos – respondi satisfeita – E você?
— Virgem, com ascendente em sagitário, lua em capricórnio e vênus em leão – ele respondeu orgulhoso – Organização é o meu sobrenome.
Nós dois rimos da cara assustada de . Ela não fazia ideia do que estávamos falando.
— Ei, Caio, você se importaria se eu emprestasse suas anotações para também?
— De jeito nenhum – ele balançou a cabeça – Mas por quê? Ninguém te adotou?
— Na verdade um veterano havia me adotado, mas ele me dispensou depois de ter sido um completo babaca comigo e eu ameaçar contar para o treinador do time de futsal que ele faz uso de drogas.
Caio soltou um assovio surpreso como resposta.
— Não se preocupe. No que eu puder ajudá-la, eu irei. Fique a vontade para me ligar quando precisar.
— Obrigada – eu agradeci sentindo meu peito ficar mais quentinho.
Não ficamos fora até tarde, afinal, ainda estávamos na primeira semana de aulas e causar uma boa impressão nos professores, não chegando atrasada, era importante.
Estava chegando no prédio do Direito quando um rapaz estendeu um folheto. No folheto havia informações sobre uma festa que ocorreria naquele final de semana. A festa era voltada para os calouros, como forma de integração dos novos alunos com os mais antigos. Segundo as informações do folheto, os novos alunos deveriam estar acompanhados de seus veteranos para, além de não precisar pagar para entrar, poderem participar dos jogos.
Imediatamente lamentei o fato de precisar pagar vinte reais da minha mesada para ir numa festa em que poderia entrar de graça, se não tivesse sido sorteada para ser adotada por um idiota como Brian.
— Você vai? – ouvi perguntar ao meu lado.
Havíamos acabado de adentrar no prédio e encontramos Caio logo no início do corredor.
— Olá, meninas! Como estão? – ele nos cumprimentou – Ei, vocês vão a essa festa, não é?
Apenas tive tempo de balançar a cabeça em concordância, quando Caio voltou a falar com animação.
— Apostei com o meu namorado quem venceria as provas. O vencedor terá direito a escolher o vinho que quiser, sem limite de preço – ele disse com um sorriso empolgado. Seus olhos brilhavam de ansiedade – Não estou disposto a perder de jeito nenhum, especialmente porque pretendo fazê-lo gastar o salário do mês no vinho mais caro que a vinícola puder oferecer.
— Uau, que exigente – comentei rindo.
— Se não for para ganhar um vinho importado eu nem aposto!

***


, você me prometeu roupas baratas. Esse é o único motivo pelo qual eu aceitei viajar quase duas horas para conhecer a sua cidade.
Aquela era a terceira vez que me lembrava da promessa que eu havia feito: roupas boas, porém baratas. Muito baratas. A minha cidade tinha muitas lojinhas similares às boutiques de São Paulo, mas que cobravam um terço do preço.
Aproveitamos que não teríamos aula naquela tarde para comprarmos a roupa que usaríamos no sábado à noite, mas antes de iniciarmos as nossas compras, paramos no shopping para nos encontrar com . dizia estar ansiosa para conhecê-lo e eu sabia que não via a hora de avaliar a minha nova amiga.
— Não vejo a hora de me formar – disse enquanto esperávamos nossos pratos ficarem prontos. prestava atenção no painel da senha, ansiosa pelo almoço, depois de duas horas de viagem sem que o ônibus fizesse uma parada no posto – Vocês acabaram de entrar na faculdade, vão ver como o tempo vai passar rapidinho.
— Assim espero! – comentou – Uma semana de aula já foi o bastante para me fazer desejar estar de férias.
Ri dela. Será possível que sou a única pessoa que gosta de ir às aulas? Que fica ansiosa para conhecer os professores e conta os dias para as férias acabarem?
— Sei o que você está pensando, disse com um olhar divertido – E você é a única pessoa no mundo que sente saudades da escola quando está de férias.
— Você é esquisita – disse rindo.
— É a minha esquisita preferida – disse – Mas ainda é muito esquisita.
Não soube como responder . Por uma fração de segundo senti as bochechas corarem por dizer que era sua esquisita preferida, e no instante seguinte comecei a rir junto dele por ter me chamado de esquisita.
Estávamos tentando convencer a não ir até o balcão do restaurante reclamar pela demora dos nossos pratos, quando uma amiga de chegou na mesa. Precisei piscar várias e várias vezes para ter certeza de que a pessoa ali, parada do meu lado, e falando com o meu melhor amigo, era Liz.
Liz, a garota que foi minha melhor amiga desde a quarta série.
Liz, a garota que dormia na minha casa em dias pares, porque em dias ímpares dormíamos na sua casa.
Liz, a garota que parou de falar comigo quando começou a namorar no Ensino Médio.
Liz, a garota que estava parada do meu lado fingindo não me reconhecer. E sim, eu sabia que ela estava fingindo, pois percebi que ela me olhou três vezes seguidas, sempre pelo canto do olho.
— Que coincidência te encontrar aqui – ela disse. Mas não para mim, para – Mandei uma mensagem no seu celular, mas acho que você não recebeu.
se mexeu desconfortavelmente na cadeira.
— Você recebeu o meu e-mail? Te enviei o esboço do meu projeto – ela disse ainda fingindo não me conhecer.
Não que eu tivesse intenção de deixála seguir me ignorando.
— Não sabia que você estava cursando arquitetura – eu disse.
Liz pareceu ter levado um susto. E com um sorriso fraco, o qual não chegou até seus olhos, virou-se para mim, respondendo:
— Não estou. Estudo designer gráfico e por isso usamos alguns programas de computador em comum. está me ajudando.
Chacoalhei a cabeça lentamente, em sinal de concordância.
— E você, , ainda está fazendo cursinho?
Senti as bochechas queimarem. Ela sabia que eu tinha entrado na faculdade, que estava cursando Direito, o curso que sempre sonhei, na universidade que sempre batalhei para ingressar. Ela sabe porque me segue no Instagram e visualizou os meus stories, não que eu tivesse lhe contado ou algo do tipo, até porque já não éramos mais amigas há vários anos.
— Na verdade estou cursando Direito. Foi difícil, mas pelo menos consegui uma vaga em uma das melhores universidades da América Latina. Então acho que os anos de cursinho valeram a pena.
Quase pude sentir o veneno escorrer no canto da minha boca, mas não me importei.
Liz preferiu não responder à minha provocação, que nada mais foi que uma resposta à sua provocação. Ela então se despediu de nós com a desculpa de que encontraria algumas amigas para almoçarem juntas.
Mal esperei que Liz sumisse da nossa vista para perguntar a desde quando os dois mantinham contato.
Quer dizer, eu sei que fazíamos parte do mesmo grupo quando mais novos e que até alguns anos atrás éramos todos muito amigos, mas quando Liz se afastou de mim ela também se afastou de todo o grupo, com exceção, talvez, de . Mas isso foi apenas porque eles namoraram por um tempo. Depois que terminaram, ouvi dizer que Liz nem mesmo olhava mais na sua cara.
— Eu te disse que encontrei com ela na faculdade o ano passado – respondeu na defensiva. Percebi então que minha pergunta havia saído como uma acusação.
Bem, eu estava o acusando mesmo, mas apenas de ter mantido aquilo em segredo.
— Vocês estudam juntos? – perguntei de forma mais suave, tentando não deixar evidente minha curiosidade.
— Não – ele respondeu. – Ela nem mesmo me cumprimentava nas vezes em que nos encontrávamos na faculdade, mas então esse ano ela me procurou e pediu ajuda para mexer com um programa.
— Hm... – comentei – E vocês têm mantido contato desde então?
— Não... Sim... Bem, mais ou menos. Eu estou a ajudando a montar um projeto para a faculdade. Ela tem dificuldades com alguns programas, e como mexo com eles há alguns anos, não vi mal em ajudá-la.
O encarei por alguns segundos antes de responder.

— É porque não tem mal nenhum em ajudar uma pessoa que precisa de ajuda – respondi com um sorriso falso.
De fato, eu não havia gostado de saber que meu melhor amigo estava andando com a minha ex-melhor amiga. Mas não queria deixar esse sentimento transparecer.
— Me fale sobre a festa de sexta-feira – ele pediu, tentando mudar de assunto.
— Pois é, está bem ansiosa – comentei – Você deveria vir!
— Eu até gostaria, mas preciso terminar um trabalho esse final de semana – lamentou – Mas ei, não deixe de me chamar para a próxima!
E foi nesse momento que a nossa senha foi chamada. Assustei-me com o grito de vitória que deu e e eu precisamos segurar a risada ao perceber que o senhor ao nosso lado se engasgou com o grito da minha colega de quarto.


Capítulo 6

Como um perfeito cavalheiro, Caio foi até a nossa república sábado à noite para nos buscar para a festa. Apesar de estarmos indo a pé, Caio ofereceu ambos os braços para nós, os quais aceitamos com um pequeno floreio exagerado.
Naquela noite a festa seria em uma chácara, perto do campus da universidade. Caio nos garantiu que não precisaríamos nos preocupar em sujar nossas roupas, mas também achou melhor nenhuma de nós usarmos sapatos abertos.
— Só por precaução – ele havia dito.
Caio estava animado para a festa e, mais ansioso, para as provas. Ele andava apressado pois não queria chegar depois que o namorado. Segundo ele, vencedores devem chegar cedo.
— Ei, Anita!
— Oi, Caio!
Anita era uma das responsáveis pela portaria e, por ser da turma de Caio e morar na casa ao lado da dele, deixou que nós cortássemos a fila enorme que se formava em frente à porta.
Caio e colocaram uma pulseira de papel verde, ligadas por uma fita frágil.
— Esta é a primeira prova da noite – Caio explicou – Devemos chegar ao final da noite com a fita ainda intacta. As duplas que romperem a ligação estarão fora do jogo.
Por um momento lamentei o fato de não poder participar dos jogos, mas então me lembrei de quem seria meu parceiro caso jogasse e o arrependimento foi embora mais rápido do que chegou.
Caio foi até o bar para pegar bebida para nós três.
— Vamos esperar você aqui, ok? – tinha encontrado um lugar estratégico, perto do DJ, mas ao mesmo tempo longe das caixas de som.
— Preciso ir com Caio, . Estamos conectados, lembra? – e então levantou o braço para provar o que estava dizendo.
— Pensando bem, acho que vou com vocês, então – disse lamentado pelo fato de que perderia meu lugar estratégico. Pelo menos seria melhor do que ficar sozinha ali dentro.
Segui Caio e , os quais andavam de mãos dadas, tomando cuidado para não romperem a fita.
— Vejam se não é meu querido namorado perdedor, senhoras e senhores – Caio disse ao chegar na fila do bar. Caio beijou um rapaz alto e moreno, com cabelos espetados e olhos claros, que levava um sorriso travesso nos lábios.
— O único perdedor que vejo aqui é você, meu amor! – Bartolomeu, namorado de Caio, disse após beijar o namorado nos lábios. – E esta é Judite, minha caloura, parceira nesta noite e vencedora dos jogos.
Judite corou ao ter nossa atenção focada em si.
se apresentou, enquanto segurava a risada por Caio ter sussurrado em seu ouvido que tinha certeza de que seu namorado e Judite não iriam durar nem mesmo até o final da segunda prova.
— Você não era a caloura de Brian? – Bartolomeu perguntou pra mim. E diante da minha confirmação, continuou – Você não deveria ligar para as coisas que ele fala. Brian é um idiota.
Não tinha como contestar isso.
— Sabe, ninguém do time gosta realmente dele. Infelizmente Brian é um bom goleiro e há muito tempo não temos um bom teste para goleiros. Até mesmo o treinador vive reclamando dele, mas não há muito o que fazer. Pelo menos ele nos levou à vitória ano passado, defendendo três de cinco pênaltis.
— Você também é do time de futsal? – perguntei curiosa.
— Sim, ele é. Mas juro que é o menos idiota dos caras do time – Caio falou brincando.
Bartolomeu fez cara de ofendido, mas respondeu:
— É verdade. O pessoal do futsal pode ser bem idiota às vezes.
Foi neste momento que o cara mais idiota do time de futsal – depois de Brian, obviamente – chegou.
cumprimentou Bartolomeu com um tapinha das costas e apertou a mão de Caio. Cumprimentou Judite e com um beijinho no rosto e, quando chegou a minha vez, se limitou a levantar as sobrancelhas e me dar um alô. Os demais caras do time, que chegaram junto a , entretanto, foram muito simpáticos e não deixaram de me cumprimentar com um beijinho no rosto como fizeram com as outras meninas.
— Pessoal, cuidado com o que dão para beber, pode ser perigoso – ele disse em tom de brincadeira. Brincadeira esta que foi extremamente de mau gosto.
— Isso não tem graça, . Você não deveria fazer piada disso – eu disse séria.
— É, cara. Pegou pesado – disse um dos caras do time, que eu ainda não sabia o nome, pois eram muitos e não consegui decorar o nome de todos.
imediatamente ficou sem graça. O sorriso presunçoso foi substituído por um olhar culpado. Com os olhos baixos e a voz tímida, ele pediu desculpas, as quais não respondi, pois não queria aceitar as suas desculpas. E queria que ele ficasse por mais tempo se sentindo culpado.
— Ei, onde está a sua caloura? – Caio perguntou para quebrar o clima pesado que se instalou em nosso pequeno grupo.
— Não tenho mais uma caloura. Lucia, acho que era o nome dela, foi aceita em uma faculdade federal, que não me lembro o nome, e se mudou. Pelo que entendi a faculdade fica mais próxima à sua cidade, então ela preferiu voltar para casa.
— Então você não vai participar da nossa aposta? – um dos caras do time perguntou.
— Mas é claro que eu vou! Aposto no Gustavo e no calouro dele – ele disse apontando para o rapaz que me defendeu minutos antes – Acho que todos vocês vão ser eliminados do jogo rapidinho.
— Cara, você não pode apostar se não jogar – outro garoto respondeu.
— Mas é claro que eu posso! Não vou jogar, mas estou como observador.
— Não, são as regras – Bartolomeu disse decidido, encerrando a discussão.
também está sem parceiro para os jogos – Caio comentou após um segundo de silêncio – Vocês poderiam participar juntos.
Imediatamente fiquei dividida entre expectativa pela oportunidade de jogar e pesar por ser a única chance de poder participar das provas.
— Eu agradeço, mas se quiser participar dos jogos ele terá que arrumar outra parceira – eu disse antes que ele pudesse falar qualquer gracinha que eu sabia que ele tinha em mente.
não é do tipo de trabalha em grupo – ele disse.
Revirei os olhos antes de responder a ele.
— Sou ótima trabalhando em grupo, diferente de você, que quer liderar o grupo em vez de trabalhar em equipe.
— Pelo menos eu lidero, diferente de você, que só sabe dar ordens.
— Eu não dou ordens!
Nossa pequena discussão se tornou o centro das atenções do nosso grupo. E do restante da festa, já que o DJ escolheu esse exato momento para pausar a música para avisar que a próxima prova começaria em breve.
— Ok, se vocês não querem jogar, tudo bem. Não precisam discutir por causa disso – Caio disse sem graça, provavelmente por acreditar ter sido culpa sua a nossa pequena discussão. O que Caio não sabia, entretanto, é que e eu sempre discutíamos, e o único culpado era e sua falta de educação idiota.
— Não é que eu não quero. Eu quero, mas não sei se quer jogar também. Especialmente se for comigo – disse colocando as mãos no bolso.
Novamente não resisti ao impulso de revirar os olhos para ele.
— Se essa é a questão, você não deveria fazer suposições, mas perguntar a mim se quero ser sua parceira hoje à noite.
ficou surpreso com a minha resposta. Prova disso é o fato dele ter erguido as sobrancelhas, sem conter o sorrisinho que ele tentava conter.
, você quer ser minha parceira nas provas hoje à noite?
Eu já tinha a minha resposta antes mesmo dele perguntar. Mas apenas para fazer suspense, e para fazê-lo esperar, fingi pensar. Todo o time de futsal começou a bater no balcão do bar, como se fosse um tambor, na expectativa da minha resposta. A verdade é que eles também já sabiam como eu iria responder àquilo.
— Claro, . Vai ser divertido.


Capítulo 7

Estava presa a há vinte minutos e algumas coisas já haviam acontecido. Por exemplo, duas pessoas já tinham esbarrado em mim, sendo que a última quase havia me feito cair, o que teria arrebentado a fita que ligava e eu. Além disso, uma garota pulou no pescoço de , jogando-o contra a parede, o que também quase fez a nossa fita arrebentar – eu tinha certeza de que ela não havia percebido que ele estava ligado a mim, e acho que mesmo que tivesse percebido, isso não teria feito a menor diferença para ela.
Mas a pior parte, sem dúvida nenhuma, foi reclamando que precisava ir ao banheiro.
— Você chegou há menos de meia hora! — eu reclamei.
— Eu e os rapazes fizemos um esquenta antes de virmos para cá. Estou apertado.
, eu não vou entrar no banheiro masculino com você!
Qual era o problema dele, afinal? Será que não conseguia controlar a própria bexiga, pelo amor de Deus?
— Não se preocupe, é só você ficar virada para o outro lado enquanto eu me alivio.
E foi nessa noite que eu acabei descobrindo algo que nunca queria ter sabido. No “outro lado”, dos banheiros masculinos, também tem mictórios, o que significa que não importa para onde você olhe, sempre haverá algum rapaz com as calças abaixadas.
Estávamos há quase cinco minutos discutindo sobre a primeira prova. acahava que eu não conseguiria dar conta do beer pong e tudo o que pude fazer foi revirar os olhos, como sempre.
— É claro que eu consigo beber cerveja, . Não sou nenhuma criança.
Seja lá o que ele fosse responder, acabou desistindo no instante em que a primeira dupla vencedora do jogo recebeu um broche feito de papelão com os dizeres “não somos perdedores!”.
— Vem, é a nossa vez — eu disse tomando a frente e seguindo até um dos lados da mesa.
O DJ havia diminuído o volume da música e o som que preenchia o local se dividia entre os gritos de incentivo dos alunos que haviam apostado dinheiro nos jogos e as vaias das duplas que ainda esperavam a sua vez para jogar.
— Preparado?
respondeu com uma piscadinha, sem tirar do rosto o sorriso de lado. Quis dizer a ele para não ser tão confiante, ter cautela, mas não tive tempo para isso.
acertou a primeira bolinha dentro do copo da dupla adversária e o pessoal foi à loucura. Até aquele determinado momento, não tinha me dado conta de como era popular entre os alunos. Era como se estivéssemos no Ensino Médio novamente. Com a diferença de que em vez de ver à distância com seus amigos, agora eu fazia parte do centro das atenções junto com ele.
O calouro adversário mal terminou de tomar a cerveja do copo e seu parceiro veterano lançou a bolinha, também acertando um dos nossos dez copos. virou o conteúdo em um só gole, virando-se para mim.
— Vamos lá, , é só mirar. Não pode ser tão difícil — ele disse com o rosto praticamente colado no meu.
— Quer calar a boca e deixar eu me concentrar?
Não olhei para ele, estava focada em acertar o meu alvo. E foi isso que eu fiz. Assim que a bolinha caiu dentro de um dos copos, e eu, juntos, gritamos e jogamos as mãos para o alto. E foi assim que sucedeu o jogo.
acertou a próxima rodada, mas perdeu a terceira. Eu acertei todas as minhas bolinhas nos copos de cerveja, assim como o veterano da dupla adversária. O outro calouro, entretanto, não era muito bom de mira.
mal o esperou que eu terminasse de tomar o meu copo de cerveja – já quente e amarga, devo comentar – para acertar a última bolinha que nos levou à vitória. Gritamos juntos e, ao mesmo tempo, nos abraçamos. Foi automático, instintivo. Estávamos comemorando. E quando nos demos conta da aproximação, tive certeza que ele sentiu o mesmo desconforto que eu. Pelo menos o fato dele ter se afastado de mim sem me olhar nos olhos mostrou que ficou tão constrangido quanto eu.
Quer dizer, nós não éramos amigos, não éramos nem mesmo colegas. Éramos apenas parceiros. E uma parceria, devo acrescentar, de apenas uma noite.
Recebi o broche de papelão com os dizeres “não somos perdedores!” e demos lugar para a próxima dupla, Caio e .
— Até que você não é tão ruim de mira, .
Juntamo-nos aos demais estudantes que assistiam à partida. Os rapazes do time de futsal eram os mais barulhentos, especialmente porque haviam apostado a favor de Caio e contra Bartolomeu, o qual não perdia a chance de vaiar o namorado cada vez que ele se abaixava para mirar um copo à frente.
— Fala sério, . Eu acertei mais bolinhas do que você.
— Só porque bebi mais copos que você. A cerveja deixou a minha visão embaçada. Caso contrário, você não teria ido melhor do que eu, .
Quase bufei e revirei os olhos para ele. Mas então me virei para e percebi que ele estava sorrindo. Não um sorriso presunçoso, mas um sorriso leve. estava brincando comigo.
sempre me chamava de quando queria me irritar, o que acontecia, basicamente, o tempo todo.
Quando mais nova, eu não entendia porque precisava ter dois nomes quando todos os meus amigos tinham apenas um. Nunca gostei que me chamassem por ambos os nomes. Sempre foi apenas ou apenas . para os meus amigos e familiares, para os professores. somente era usado por meus pais quando ficavam bravos. sabia que eu não gostava de ser chamada por ambos os nomes e o fazia de propósito. Ele sempre o fez. Por isso comecei a chamá-lo de , já que não tinha nome composto.
chegou até nós usando o broche de “não somos perdedores!”.
— Estou ansiosa para a próxima prova — ela disse rindo. Caio, atrás dela, recebia tapinhas nas costas de todos os garotos do time, enquanto Bartolomeu o cumprimentava com um beijo singelo e com a promessa de que ele iria gastar todo o salário de Caio com o vinho mais da vinícola após ganhar aquele jogo.

***


A próxima prova consistia em um jogo de vôlei. O time que fizesse onze pontos primeiro seria o vencedor.
As duplas foram divididas em times e todos os garotos do time de futsal conseguiram ficar na mesma partida, ainda que em times opostos. e eu ficamos no mesmo time, e já havia começado a se alongar.
— Eu sou um atleta, bebê. Esse jogo já está ganho — Bartolomeu disse alto. Ele estava no time adversário.
— Você pode ser bom quando tem uma bola nos seus pés, mas não é alto o bastante para ser bom no vôlei — Caio respondeu.
Bartolomeu fez falsa cara de ofendido por ser chamado de baixinho. E foi nesse momento que o jogo começou.
foi até o final da quadra para sacar a bola. Precisei dar um pulinho no momento que ele bateu na bola, ou então nosso cordão iria se romper.
e Caio passaram a correr de mãos dadas para não arrebentarem o cordão e e eu logo seguimos o seu exemplo. Minha mão começou a suar em poucos minutos e nossas mãos começaram a escorregar. então entrelaçou nossos dedos e os apertou com força.
— Nós não vamos perder esse jogo — ele disse — Eu apostei dinheiro nisso e não estou disposto a perder.
Não respondi, não tivemos tempo. A bola estava bem acima da minha cabeça e, instintivamente, a lancei para o campo adversário. A bola caiu no chão e nós comemoramos o ponto.
Uma caloura do time adversário torceu o pé e caiu, arrebentando o cordão que a ligava ao seu veterano. Em compensação, duas duplas do nosso time se esbarraram e caíram, o que também fez com que arrebentassem o cordão que os ligavam. Estávamos em desvantagem.
— A vitória está próxima, meu amor! — Bartolomeu gritou do outro lado.
— Eu sei! Ela está chegando às minhas mãos! — Caio respondeu, e então jogou a bola pra o outro lado. Foi uma tacada perfeita. A bola bateu na mão de uma garota, mas ela não conseguiu repassá-la para outro integrante do time. A bola foi ao chão e nós empatamos. Cada time, agora, marcava exatos dez pontos.
Era nossa vez de sacar a bola. foi até o final da quadra e soltou a minha mão. Antes de jogar a bola para cima, entretanto, ele se voltou para mim.
— Acho que você deveria sacar.
— Por quê? — eu era péssima em esportes, por que eu deveria sacar a bola que poderia fazer o ponto que seria a nossa vitória ou da nossa derrota?
— Porque não podemos arriscar romper o nosso cordão agora. Você é menor do que eu, então não preciso me esforçar para te alcançar. Estamos próximos da vitória. Além disso, você quase não tocou na bola.
É claro que eu quase não havia tocado na bola. Eu odeio bolas, odeio esportes. Mas fazia sentido o que dizia. Quer dizer, nosso cordão já estava por um fio. Tudo bem.
Respirei fundo algumas vezes – várias vezes, devo dizer. Girei a bola em minhas mãos suadase e lancei a bola pra frente. O time adversário deu um toque, dois toques, e no terceiro jogaram a bola com força demais. A bola foi para fora e nós pontuamos. Nós vencemos.
correu na minha direção, ainda segurando a mão de Caio, e me abraçou. Nós pulamos no mesmo lugar, comemorando a vitória. e eu também nos abraçamos e, diferentemente da primeira vez, não nos afastamos depressa, porque não foi algo constrangedor. Foi apenas... Algo natural.
Enquanto nós saíamos da quadra, outros dois times entravam. Os times da segunda quadra, ao lado da nossa, também terminaram o jogo e o time vencedor se juntou a nós para receber o broche da vitória.
A última prova seria o just dance.
— Eu sou um gênio nesse jogo — disse confiante — Tente me acompanhar, .
— Eu sempre acompanho, — ele disse com uma piscadinha marota no final.
Enquanto esperávamos o sorteio da ordem em que as duplas jogariam, me lembrei de quando éramos crianças e ficávamos na minha casa dançando no just dance. gostava tanto que insistiu para que seus pais lhe dessem o jogo também. Quando ele ganhou a versão mais recente, nossas tardes de dança passaram a ser na casa dele.
Liz sempre reclamava do fato de ficar suada demais e que isso estragava a sua chapinha. Sua mãe não a deixava fazer escova progressiva na época por ela ser nova demais. nunca tinha sido bom em dança e não tinha coordenação nenhuma para seguir os passos da televisão, mas nunca fugia de um desafio. Lucas sempre tinha sido um péssimo dançarino, ainda pior do que , mas era o que mais se divertia errando os passos e tropeçando nos próprios pés.
Marina, minha irmã, e eu sempre disputávamos as maiores pontuações. Nós éramos realmente muito boas. Será que eu ainda conseguia dançar como antigamente?
Crazy in love foi a música selecionada para e eu dançamos, e foi naquele momento que percebi que não, eu não perdi nenhum pouco do jeito para o jogo. , por outro lado, estava meio enferrujado e quase rompeu o cordão que nos ligava, o que fez todo mundo que nos assistia gritar. Mas no final da música nós ainda estávamos unidos e tivemos a maior pontuação de todas as outras duplas.
— Parece que alguém andou perdendo o jeito para o jogo — eu disse batendo o ombro em .
Ele enxugava o suor na camiseta e riu com a minha fala.
— Ainda bem que você continua sendo a melhor jogadora, porque senão estávamos ferrados.
Estava a ponto de concordar com o que ele havia dito quando percebi, de fato, o que ele havia dito. havia, realmente, feito um elogio a mim? O que será que tinha na cerveja que ele havia bebido mais cedo?


Capítulo 8

Apenas dez duplas chegaram à prova final e não foi difícil bater cada uma delas no just dance.
Caio e ficaram à frente de Bartolomeu e a sua caloura e Caio adorava repetir o fato do quão caro seria o vinho que escolheria.
— Vou querer um vinho importado. Europeu, nada de vinho chileno!
— Você vai dividir o seu vinho caro comigo? — perguntou esperançosa. — Lembre-se que eu te ajudei a ganhá-lo!
Estávamos todos sentados do lado de fora da República Rainha de Copas. e eu ainda estávamos conectados e nem mesmo havia me dado conta disso até o momento.
O caminho de volta foi todo tomado por risadas e comentários sobre as duplas que não passaram para a prova final. O objetivo do jogo era integralizar os novos estudantes com os mais antigos, mas isso não diminuía a ânsia de cada aluno em ver a vitória.
— Ei, parabéns! — disse virado para mim, enquanto Caio, Bartolomeu e conversavam sobre onde iriam para comprar o vinho. A caloura de Bartolomeu já tinha ido embora com o namorado — Foi a primeira vez que ganhei o jogo. Sabe como é, as minhas duplas nunca conseguiram me acompanhar — falou convencido.
— Nossa, devo levar isso como um elogio? — ergui as sobrancelhas. — O grandioso acabou de falar que estou à sua altura?
— Não, eu disse que você é melhor do que eu.
Acho que o choque no meu rosto foi óbvio, porque ele imediatamente continuou:
— Mas só em algumas coisas. Como na mira, por exemplo.
— E na dança — eu disse. não poderia contestar isso — E no saque.
— Não exagera.
— Você quase caiu na hora de fazer um passe — eu disse rindo, me lembrando de como todos do time prenderam a respiração naquela hora.
— Mas só porque estava tomando cuidado para não romper o nosso cordão!
Ainda rindo balancei a cabeça em concordância. Não comentei o fato de que eu também estava tomando cuidado para não romper a fita que nos ligava, mas nem por isso havia caído no chão.
Estávamos todos sentados na calçada. A caixa de cerveja que ganhamos como prêmio estava ao lado de .
— Quer dividir? — ele perguntou colocando a mão em cima da caixa, como se fosse um bem realmente precioso para ele.
— Não... Não bebo como você.
— Ei, você fala como se eu vivesse a base de álcool!
Soltei uma gargalhada.
— Você com certeza bebe muito mais do que eu — eu disse ainda rindo — Pode ficar.
— Obrigado — ele falou, e eu acreditei na sinceridade das suas palavras.
Caio e Bartolomeu logo acabaram se despedindo de nós. correu para dentro alegando que havia bebido demais naquela noite e não tivera tempo de ir ao banheiro mais cedo.
Quando percebi que estávamos apenas e eu, sozinhos, o clima que antes estava leve, ficou tenso. Pouco a pouco, a raza intimidade que havíamos criado horas antes foi se dissolvendo. Foi naquele momento que me dei conta de que estava ao lado do meu amigo de infância, do mesmo garoto que me ignorou todo o Ensino Médio. Estava pronta para dizer que também iria entrar, pois já estava tarde, quando soltou:
— Você mudou, . Está divertida, como quando era criança.
manteve o tom de voz sério. Seus olhos estavam fixos em algum ponto a sua frente.
— Eu não mudei, . Continuo a mesma pessoa.
Ele negou com a cabeça antes de responder.
— Não, você mudou de como era no Ensino Médio — e então olhando para mim, ele continuou — Você nem mesmo olhava na minha cara quando éramos adolescentes.
Não consegui evitar arregalar os olhos. Mas do que ele estava falando?
— Ei, eu não olhava na sua cara? — perguntei surpresa. — Você passou a me ignorar da noite para o dia!
— Eu nunca fiz isso.
— Fez sim — o interrompi. E então coloquei em palavras o que estava sentindo desde que o reencontrei — Eu vi meu amigo de infância, uma das pessoas mais importantes para mim, fingir que não me conhecia por três anos.
Foi a vez de ele ficar surpreso. tinha os olhos arregalados e o corpo inclinado para trás para que pudesse me olhar enquanto falava.
— Essa nunca foi a minha intenção — ele disse sincero — Apenas não queria ficar no caminho de você e . Sentia que eu estava... Não sei, sobrando.
— Você nunca esteve no nosso caminho, até porque e eu nunca tivemos um caminho! — eu disse depressa. Ele realmente achava que e eu tínhamos alguma coisa? — Sempre fomos apenas amigos.
— Pensei que vocês estivessem juntos na época.
tinha a teste franzida, como se estivesse tentando se lembrar de alguma coisa.
— Não estávamos. Nunca estivemos, na verdade — eu garanti — Quer dizer, talvez tenha me apaixonado por ele em algum momento, mas gostava da minha irmã, que nunca deu bola para ele. Mas isso faz muito tempo. Eu nunca mais me senti dessa forma com relação a .
— Verdade?
estreitou os olhos, como se não acreditasse nas minhas palavras.
— Verdade — não entendia porque era tão importante que acreditasse em mim — Mas você e Liz ficaram juntos, não é? disse que vocês chegaram a namorar.
estalou a língua e deu de ombros.
— Nós ficamos juntos por alguns meses, mas nunca oficiamos nada. Não deu certo no final.
— Sinto muito — disse sincera — Sei que você gostava muito dela.
— Ei, eu não gostava tanto assim — ele fez uma careta.
— Lembro-me que vocês eram muito, muito grudados. Ela costumava dizer que vocês foram feitos um para o outro.
Ele torceu os lábios.
— Eu gostava de Liz, mas... Na época eu gostava de outra garota também.
Voltei meu olhar para frente, balançando a cabeça em concordância. Agora a nossa conversa começava a ir por um caminho conhecido. Falar sobre o passado com , falar sobre relacionamentos com ele... Isso era estranho.
Quer dizer, sempre foi muito popular entre os garotos. E no Ensino Médio, quando as espinhas começaram a aparecer nos rostos dos meninos e continuou com a pele lisa, ficou popular entre as meninas também.
— Não vai perguntar quem é a garota que eu gostava na época?
Ri daquela pergunta.
— Aposto que a lista era grande — brinquei com ele — Será que você vai conseguir se lembrar de todos os nomes?
sorriu de lado.
— Não foi uma lista tão grande assim. Além disso, eu só gostei de verdade de uma pessoa e eu nunca fiquei com ela.
— Uau! Quer dizer que o poderoso foi rejeitado em algum momento da vida?
Se eu estava o provocando? Talvez. Quer dizer, ele merecia isso. sempre gostou de se gabar por suas conquistas e saber que ele foi rejeitado em algum momento me dava certa satisfação.
— Você me diz, . Por que me rejeitou?
Por um momento foi como se o tempo tivesse parado. Precisei piscar algumas vezes – na verdade várias vezes – para voltar à realidade. Virei-me para ele com tanta pressa, que senti o pescoço estalar.
— Como é?
Como que uma pessoa consegue gaguejar ao dizer apenas duas palavras?
— Não precisa fazer essa cara. Eu sei que você não gostava de mim desse jeito — ele deu de ombros — Você deixou isso muito claro quando não respondeu ao meu bilhete.
— Mas... Que bilhete?
Acho que minha resposta saiu no automático, porque eu ainda me encontrava em estado de choque. havia mesmo dito que gostava de mim quando éramos mais novos?
— O que eu deixei no seu caderno de Ciências. Você não se lembra? — virou todo o corpo para mim, e começou a mexer as mãos ao falar — Na oitava série você me emprestou o seu caderno para estudar, mas eu já tinha estudado, porque precisei fazer a prova uma semana antes de vocês, já que minha família iria viajar. A verdade é que eu só queria uma forma de deixar um bilhete para você.
Tentei lembrar o que ele falava, mas eu nunca havia recebido bilhete nenhum dele. Franzi a testa tentando buscar na memória da vez que emprestei meu caderno de Ciências para , mas eu sempre emprestava as minhas coisas para e , e até mesmo para Lucas e Liz às vezes. A única coisa que tinha certeza é de que nunca havia recebido bilhete nenhum dele.
poderia estar querendo tirar onda com a minha cara?
— Você não se lembra do meu bilhete? Sério que foi tão insignificante para você?
E foi a decepção no rosto que me fez perceber que não, ele não estava tirando onda com a minha cara. Meu deus, estava falando a verdade!
, eu nunca recebi um bilhete seu — eu disse sincera — O que você escreveu nele?
Ele estalou a língua e demorou alguns segundos para responder.
— Eu já não me lembro mais, na verdade.
É claro que ele se lembrava.
— Me diga — pedi de novo.
Suspirando e voltando a se sentar reto, com os olhos para algum ponto distante, ele disse:
— Em resumo, disse que gostava de você e que queria ir com você no baile de formatura.
Minha surpresa durou apenas alguns segundos, quando foi substituída pela confusão.
— Mas você foi ao baile com a Liz.
— Porque você nunca me respondeu. Pensei que você já havia combinado de ir com .
Definitivamente, eu não estava preparada para o rumo que aquela conversava havia tomado. Mais do que isso, jamais poderia estar preparada para receber uma declaração de amor de . Uma declaração atrasada, é verdade, mas ainda assim uma declaração.
— Eu nunca recebi esse bilhete, . Desculpe.
Se eu tivesse recebido, as coisas entre nós teriam sido diferentes?
— Não tem problemas. No final foi bom porque descobri que você e estavam juntos e então resolvi deixar o assunto para lá.
e eu nunca ficamos juntos, eu já disse.
Eu queria que acreditasse em mim. Ele não podia continuar pensando que foi o culpado por nós não termos ficado junto quando éramos mais novos. precisava entender que não ficamos juntos porque eu não sabia que ele tinha sentimentos por mim. Porque se eu soubesse...
— Como você poderia gostar de mim? Você sempre implicou comigo!
Lembrei-me de quando éramos crianças e ele puxava o meu cabelo quando eu corria na sua frente. Quando chegamos na pré-adolescência, gostava de implicar com as minhas roupas. Quando tínhamos algum trabalho em grupo para fazer, se recusava a ir à minha casa.
— Era exatamente porque gostava de você que eu implicava com você, — ele suspirou de novo, dando uma risadinha no final — Você só tinha olhos para na época, e eu queria chamar a sua atenção de alguma forma. Eu era uma criança e não sabia como dizer para uma garota que eu gostava dela.
Por mais estranho que toda aquela conversa estivesse sendo, o que ele dizia fazia muito sentido. Quantos filmes de comédia romântica eu já havia assistido, nos quais os meninos faziam exatamente isso, implicar com as meninas, simplesmente porque não sabiam como demonstrar seus sentimentos?
— Mas então você simplesmente parou de falar comigo! — eu disse como última tentativa de lhe questionar. Questionar-lhe sobre a veracidade de tudo o que ele me dizia.
— Ei, você também parou de falar comigo — ele se defendeu — Pensei que não quisesse mais contato depois do bilhete e da minha declaração não correspondida.
— Eu pensei... Eu pensei que você tinha feito novos amigos e por isso não quisesse mais contato com os seus velhos amigos.
— Eu sempre mantive contato com o pessoal, . Você foi a única que saiu do meu círculo de amizades. Eu fiquei triste com isso.
Prendi a respiração. As palavras dele, naquele tom de seriedade... Nem mesmo parecia o que eu conhecia. Não. Ali, na minha frente, estava uma pessoa completamente nova, uma que eu estava conhecendo naquele momento.
— Eu também fiquei. Senti muito a sua falta, .
E foi naquele momento que eu percebi a sinceridade nas minhas palavras. Por todos esses anos eu senti raiva de , muita raiva. Mas percebi, naquele momento, que toda a raiva vinha da saudade que havia deixado em mim.
Quando senti a respiração de batendo no meu rosto, percebi o quão próximos estávamos. Como isso aconteceu eu não tinha ideia. Em que momento nos aproximamos, eu também não poderia saber. Estávamos tão próximos, que poderíamos até mesmo nos beijar. Mas isso não iria acontecer. Certo?
— Preciso entrar — eu falei. Falei baixinho porque estávamos muito próximos e não havia a necessidade de falar alto.
— Tudo bem.
Não me mexi. também não se mexeu. Minhas pernas estavam paralisadas e meus braços fortemente juntos ao meu corpo. Também foi nesse momento que percebi como realmente havia sentido falta dele. Falta de conversar com , de rir com , de... De contar as sardinhas que ele tinha logo em baixo dos olhos. Falta de...
Não pude completar meus pensamentos. Não pude continuar com nenhuma linha de raciocínio que havia criado. Porque naquele momento, havia se inclinado e os poucos centímetros que nos separavam já não existiam mais. Seus lábios estavam sobre os meus, e a única coisa que pude pensar naquele momento era, “caramba, são esses lábios que nunca pude beijar por causa de um bilhete perdido?”.
Em algum momento do beijo minhas mãos foram para nos seus cabelos. me abraçava pela cintura, mas mantinha minha cabeça próxima à sua. E mesmo com a respiração falha, mesmo com meus pulmões pedindo por oxigênio, eu não queria parar de beijá-lo. O fato de continuar me puxando contra ele, ainda que nossos corpos já estivessem colados, me mostrava que ele também não queria que o beijo terminasse tão cedo.
, acho que vai chover! Opa... Desculpa. Não percebi que vocês estavam...
estava na porta. Pelo rubor em suas bochechas, estava claro o seu constrangimento por nos interromper. Por interromper o nosso beijo. O beijo que eu estávamos tendo.
e eu.
Soltei-me de no susto, me levantando rápido demais, tanto que até fiquei tonta. Ou, talvez, a tontura tenha sido causada pela respiração falha.
— Preciso entrar — eu disse.
Não esperei a sua resposta. Assim que me afastei dele, senti a nossa fita se rompendo. Nós ainda estávamos ligados e eu nem havia percebido.


Capítulo 9

O dia amanheceu nublado. Coincidentemente, o tempo parecia com o meu humor: fechado. A verdade é que gostaria de dizer que tive uma noite tranquila, mas isso seria a maior das mentiras. Parte da noite fiquei acordada pensando no beijo – e na forma ridícula com que fui embora, sem nem mesmo me despedir direito de .
Quando consegui dormir tive sonhos envolvendo e eu de quando crianças, quando areamos amigos. costumava ir à minha casa pedir meus cadernos emprestados para estudar, o que sempre me deixava com raiva, pois sempre teve notas muito melhores do que as minhas.
Agora que estava acordada novamente, entretanto, meus pensamentos voltavam para o beijo. E que beijo!
Suas palavras martelavam na minha mente. gostava de mim? Queria dançar comigo no baile? Havia escrito uma carta de amor – ou, talvez, um bilhete – me convidando para o baile da oitava série? Isso não fazia sentido nenhum, especialmente pelo fato de, meses depois, ele ter me afastado complemente da sua vida, passado a me ignorar e, quando não me ignorava, passava o tempo implicando comigo.
deve ter me superado rápido, já que logo no início do primeiro ano do ensino médio estava namorando Liz. Eu mesma tive meu namoradinho, mas resolvemos ficar escondidos por um tempo, pelo menos até meus pais aceitarem o fato de que já não era mais uma criança que jogava just dance com os amigos em casa na parte da tarde. Terminamos antes de nos assumirmos para nossas famílias, entretanto. Diferente de , que sempre aparecia com uma garota nova ao seu lado, ainda que nenhuma durasse mais do que alguns poucos meses.
Por um momento me perguntei até que ponto a conversa de ontem foi verdade. poderia, muito bem, ter falo aquilo apenas por estar bêbado – o que era improvável, já que ele não havia bebido tanto assim. Ou talvez apenas para zombar da minha cara, o que também não fazia nenhum sentido.
Pensar nisso estava me deixando maluca.
Por sorte – ou talvez por azar – aquele domingo era dia de faxina na república, o que, em tese, deveria ser o suficiente para me distrair dos meus pensamentos. As perguntas de , entretanto, não me deixaram focar em tirar o pó de baixo do sofá.
- Se quer saber, você deveria ligar para ele. – ela disse. tinha uma faixa amarrada na testa para não deixar o suor escorrer pelos olhos.
Não olhei para ela para responder, estava ocupada enquanto levantava, sozinha, o sofá.
- Ei, me ajude aqui.
veio ao meu auxílio.
- É sério, vocês deveriam conversar sobre isso.
Neguei com a cabeça antes de negar verbalmente.
- Acho que não teria coragem.
Quer dizer, ele não era apenas um garoto que conheci em uma festa e troquei uns beijos. Estávamos falando de , meu ex-melhor amigo que, até ontem à noite, tinha certeza de que me odiava.
- Tenho um certo ressentimento por , sabe. Quando paramos de nos falar, foi muito doloroso para mim. Ele não pode, depois de cinco anos, sair me beijando assim e fazendo declarações do nada.
soltou o sofá, fazendo um barulhão.
- Você está certa, ele não pode. E é exatamente por isso que vocês deveriam conversar.
- Vem, me ajude a colocar o tapete no lugar. – pedi a ela.
foi parar na minha frente, e enquanto desdobrávamos o tapete, ela continuou:
- Acho muito suspeito o fato de você nunca ter recebido a carta de amor. Você não acha suspeito?
Foi a minha vez de enxugar o suor da testa com as costas da mão. Precisei beber alguns goles de água antes respondê-la.
- Não era uma carta de amor. Era só um bilhete me chamando para o baile. – eu disse rolando os olhos. – E não, não acho estranho. Quer dizer, isso estava no meu caderno. Pode simplesmente ter caído em algum lugar.
Sempre tive mania de guardar minhas coisas entre as folhas dos meus cadernos. O bilhete poderia, simplesmente, ter se perdido entre eles, ou caído no caminho.
- Meninas, vocês podem nos ajudar a recolher as folhas do quintal? – Verônica pediu em meio a uma careta.
Tínhamos combinado de dividir as tarefas, e limpar o quintal não estava entre tarefas que foram designadas a e mim. Verônica sabia disso, e por este motivo ela parecia envergonhada em nos pedir para ajuda-la.
- Monique está vomitando desde de manhã, e acabei ficando sozinha.
Monique tinha vomitado a noite inteira também, depois que chegou bêbada em casa na noite passada, mas não comentei isso em voz alta. Em vez disso, e eu apenas seguimos para os fundos da casa para ajudarmos Verônica, com a promessa de que na próxima faxina, seriamos dispensadas, como forma de agradecimento.



Quando cheguei ao quarto, depois de tomar banho, falava no celular.
- Caio, não consigo entender nada do que está falando.
Ao me ver, colocou o celular no viva-voz. Do outro lado da linha, Caio chorava e falava alto demais, rápido demais.
- Como aquela vaca pôde dar em cima dele? Bartolomeu é super gay! Qualquer pessoa percebe isso!
Franzi a testa, não tendo ideia do que Caio estava falando. E enquanto Caio chorava do outro lado da linha, e amaldiçoava “aquela garota que não sabe distinguir homem gay de homem hetero” – palavras de Caio, não minhas – me explicou baixinho:
- Não entendi direito, mas acho que a caloura de Bartolomeu deu em cima dele na noite passada.
Abri a boca em surpresa.
- Caio, você quer se encontrar com a gente? Podemos ir até algum café, se você quiser. – disse na tentativa de acalmá-lo.
- Não! – ele disse depressa. – Eu não quero sair de casa! – ele fungou. – Bartolomeu está na porta da minha casa, querendo falar comigo, e não quero dar de cara com ele.
- Espera, ele está aí na porta da sua casa? – perguntei. E diante de sua concordância, falei – Mas está chovendo!
- Isso não é problema meu! – Caio gritou do outro lado da linha.
- Caio, a culpa não é dele! – tentou dissuadi-lo.
- Eu sei que não é! Mas a quenga não está aqui para eu descontar a minha raiva nela, está?
Sabia que era errado, que Caio estava passando por um momento difícil, mas não consegui segurar a risada nesse momento. me repreendeu com o olhar, mas pude perceber que ela mesma tentava segurava o riso.
Depois de prometermos que iriamos até à sua casa passarmos a noite com ele, Caio pareceu ficar mais calmo, especialmente quando prometemos que não iriamos nem mesmo cumprimentar Bartolomeu ao passar do seu lado.
decidiu ir tomar banho antes que sua rinite alérgica piorasse por conta do pó da faxina.
Estava deitada na minha cama quando meu celular tocou. Ao olhar para a tela, não reconheci o número. Normalmente não atendo números desconhecidos já que, na maioria das vezes, são apenas atendentes de bancos tentando me convencer a abrir uma conta nova, a qual me traria diversos benefícios que eu nem mesmo sabia para o que serviam.
Todas as vezes precisava lhes explicar que era apenas uma estudante – agora universitária – que não trabalhava e não tinha renda própria, e por isso não tinha necessidade de ter uma conta em meu nome. Além disso, meu pai havia aberto uma conta para mim quando passei na faculdade, mas apenas para ter onde depositar minha mesada e o dinheiro que deveria usar para pagar minhas contas na república.
Dessa vez, entretanto, resolvi atender.
- Alô?
- , sou eu.
Eu quem?
- Desculpe, mas quem é?
- . – ele respondeu como se fosse óbvio. vNão era óbvio.
- Como conseguiu esse número? – tinha certeza que na nossa conversa da noite passada não havíamos trocado nossos números.
- Eu sempre tive o seu número.
- Sério? – eu nunca tive o número de , pelo menos não desde que ele ganhou um novo celular e trocou o número no segundo ano do ensino médio.
- Sério. Escuta, o que vai fazer hoje?
Por um momento pensei em dizer que ficaria em casa para estudar, mas só tivemos uma semana de aulas, e não havia nada para estudar. Pensei em dizer que teria que fazer um trabalho, o que não seria mentira, mas me vi respondendo a ele que não faria nada.
- A gente pode se encontrar? – ele perguntou. – É meio urgente.
Foi nesse momento que meu coração escolheu bater em disparado. A conversa da noite passada e o nosso beijo imediatamente tomaram meus pensamentos.
Lembrei que, apesar de ter acabado de tomar banho, não lavava o cabelo desde ontem, mas mesmo assim me vi combinando de encontra-lo em uma sorveteria ali perto em dez minutos.
A missão de escolher que roupa usaria ficou para , enquanto eu voltava correndo para o banheiro para dar um jeito no cabelo, já que lavar agora estava fora de questão, afinal, eu não tinha tempo a perder.


Capítulo 10

Quando cheguei à sorveteria, já me esperava. Ele havia escolhido uma mesa mais afastada, perto da janela que dava visão para a rua.
Olhando para ele assim, de longe, vendo apenas o seu perfil, me dei conta do quão pouco ele havia mudado ao longo dos anos. Ainda tinha a pele lisa, os cílios longos e os cabelos bagunçados demais. Também continuava a usar camisetas dois números maiores que o seu e jeans rasgados.
Fui pega no flagra quando se virou para a entrada e me pegou o encarando. Precisei fingir que estava arrumando o cabelo para disfarçar o rubor nas bochechas.
- Oi. – eu disse quando me sentei.
- E aí. – ele respondeu. – Desculpe te chamar de última hora, espero não ter te atrapalhado.
- Não atrapalhou. – eu garanti. Além disso, mesmo que tivesse atrapalhado, quem liga para algumas obrigações universitárias? A verdade é que estava ansiosa por aquela conversa, ainda que meu nervosismo não me deixasse parar de torcer os dedos em baixo da mesa.
- Bom... Eu tenho algumas coisas para você.
E então a minha ansiedade chegou ao pico e foi ao ponto zero na mesma velocidade quando colocou algumas pastas e cadernos em cima da mesa.
- Sabe como é, como seu veterano, é meu dever te emprestar todo o meu material dos últimos anos.
Esperava que a decepção não estivesse tão evidente no meu rosto. E então a decepção foi substituída por um misto de raiva e impaciência. Quer dizer, tudo bem, ele estava sendo atencioso, cumprindo seu papel de veterano, mas isso não justificava a sua pressa em me ver, afinal, que urgência há em me entregar alguns xerox? Será que ele não imaginou, nem por um segundo, que suas palavras ao telefone poderiam sugerir... Sei lá, algo relacionado a nós dois, e não a um monte de provas antigas?
Não pude lhe questionar, entretanto.
- Eu pensei muito na noite passada.
Ele disse isso assim, do nada.
Em um momento estava me dando suas provas antigas, e no instante seguinte estava falando sobre a noite passada. Até o tom de voz ele mudou.
- Eu também. – respondi, porque era verdade. Para ser sincera, só havia pensado nisso o dia todo, mas obviamente não disse essa parte em voz alta.
- Pensei muito no que conversamos, , e percebi que o único motivo que nos levou a nos afastar foi por não conversarmos. Ficaram muitas coisas não ditas entre nós, e muitas coisas mal interpretadas.
Eu não podia concordar mais. Também havia chegado nessa conclusão.
- Não quero mais cometer esse erro.
- Claro, eu também não quero.
Eu poderia estar mais ansiosa?
Meu deus, isso estava mesmo acontecendo? A paixonite passageira que tive por , quando éramos crianças, parecia ter voltado com tudo. Era como se eu fosse uma pré-adolescente de novo.
- Então vamos voltar a ser amigos.
Foi como um banho de água fria, com algumas pedrinhas de gelo para completar.
- O quê?
Dessa vez não escondi a surpresa. Como ele ousa? Primeiro me dá aquele beijão, e então diz que já foi apaixonado por mim. Agora ele quer ser meu amigo?
Não que eu estivesse pensando no nosso casamento, na casa que compraríamos no futuro, com quatro quartos, um para cada um dos gêmeos e um para visitas, mas... Caramba!
- Sei que não vamos voltar a ser melhores amigos como antes, mas não precisamos mais nos evitar, não é?
Voltei minha atenção para . Ele me olhava com expectativa, como se sua ideia fosse realmente uma grande ideia. Irrecusável.
- Bem, acho que sim... Espera! – falei antes que ele pudesse encerrar a nossa “conversa” – Você me chamou aqui só para isso?
- Bem, sim, basicamente. – ele disse com a testa franzida, como se não entendesse a minha pergunta.
- Mas você disse que era urgente!
Ele disse que era urgente, caramba! Que urgência tem em entregar cadernos? Nenhuma!
- É porque vou viajar hoje à noite. – disse com a expressão suavizada. Ele havia, finalmente, entendido a minha indignação. – Essa semana vamos participar de um amistoso entre algumas faculdades da região. É meio que um aquecimento para os jogos jurídicos no mês que vem.
Balancei a cabeça em concordância. Não respondi nada, entretanto. continuou falando.
- Os jogos serão em alguma cidade vizinha, não me lembro ao certo qual. Vamos ficar hospedados em um hotel. Eu não queria viajar sem te entregar isso.
Fiquei brava naquela hora. Não sei de onde veio o sentimento, mas ele veio. E, para ser sincera, não fiz questão de disfarçar. A pior parte era que a minha braveza era comigo mesma e com a expectativa que eu mesma havia criado em cima de algo eu mesma criei.
- Você está brava...?
- Também pensei sobre ontem à noite. – eu disse, preferindo ignorar a sua pergunta. – Lembrei do dia em que emprestei meu caderno de ciências para você. Também lembro que não entendia porque você precisava das minhas anotações se sempre preferiu estudar com seu próprio material.
- É porque eu sempre fui um bom aluno.
Tudo bem, agora eu tinha ficado brava com ele. Eu não lhe daria a chance de se exibir pelas suas notas excelentes. Estreitei os olhos antes de continuar:
- De qualquer forma, me lembro de que a última página do meu caderno foi arrancada, a mesma página em que eu havia feito o meu trabalho. Tive que refazer todo o meu trabalho de ciência. Passei a noite toda acordada.
Ele franziu a sobrancelha, provavelmente tentando se lembrar do que eu falava.
- Lembro que fui até à sua casa para brigar com você, mas a sua gatinha tinha acabado de morrer.
- Rechonchuda morreu de velhice. – ele respondeu. ficou chateado por um momento, mas continuei sem dar muita importância.
- Você rasgou o meu trabalho! – confesso que não deveria ter gritado, mas gritei.
Sim, tinha ido até aquela sorveteria para encontrar com com certa expectativa. De quê, exatamente, eu não sabia, mas definitivamente não esperava ouvir apenas que deveríamos voltar a ser amigos. Se já estava decepcionada e, confesso, nervosa com a situação, tudo apenas aumentou com o fato de me lembrar de que rasgara a droga do meu trabalho quando estávamos na oitava série!
O trabalho valia dois pontos, caramba!
- Eu não rasguei! – ele se defendeu. – O bilhete que escrevi a você estava na última página. Eu sabia que você o veria quando fosse entregar o seu trabalho para a professora.
- Então quer dizer que você escreveu um bilhete por cima do meu trabalho?
não sairia impune tão facilmente.
- Eu escrevi de lápis, ok? Exatamente para você poder apagar antes de entregar.
Precisei pensar por alguns segundos no que me foi dito. Não sabia mais como atacá-lo, meus argumentos estavam acabando.
- Espera, então você escreveu um bilhete para mim e depois arrancou ele do meu caderno?
- Não, eu escrevi um bilhete me declarando para você, mas nunca arranquei a página do seu caderno. Por que eu faria isso?
Infelizmente tinha bons argumentos e eu já não tinha como contestá-lo mais.
- Alguém não queria que você fosse ao baile comigo, e por isso deu fim ao meu convite, .
- Isso não tem sentido nenhum. Quer dizer, quem faria isso?
riu fraco, sem realmente achar graça da minha pergunta, antes de responder:
- , talvez?
Foi a minha vez de rir, dessa vez com ironia.
- Impossível. e eu somos melhores amigos há anos e ele jamais faria isso.
deu de ombros.

- Talvez você devesse saber que conversou comigo na época. Disse que vocês iriam ao baile juntos.
Não contive o revirar dos olhos.
- , até agora eu estava acreditando na sua história do bilhete de amor, mas agora isso já virou uma comédia romântica da sessão da tarde.
- Mas é verdade!
- ... – suspirei. – Não pode ser verdade, sabe por quê? Porque nunca me chamou para ir ao baile com ele. Prova disso é o fato de eu ter ido com o Igor, lembra?
tinha uma resposta na ponta da língua, mas se deteve. O corpo, que antes estava inclinado na minha direção, se recostou na cadeira. Ele parecia confuso.
- É verdade...
Balancei a cabeça, sabendo que ele se lembrava da noite do baile, exatamente como eu me lembrava neste momento.
- Nós tínhamos combinado de irmos juntos, lembra? Iriamos o grupo todo: você, , Lucas, Liz e eu. Mas então você e Liz quebraram o nosso acordo e resolveram ir juntos, sozinhos, e não pudemos mais ir em grupo para o baile.
- Mas... Eu só aceitei ir ao baile como par da Liz porque pensei que você já tinha combinado de ir com . Pensei que vocês tinham quebrado o nosso pacto antes.
- Eu nunca faria isso. – me defendi. – Nós éramos um grupo, e iríamos todos juntos. Eu nunca quebraria o nosso acordo.
balançava a cabeça novamente. Era a primeira vez que ele ouvia aquelas palavras, a primeira vez que ele percebia que a versão que ele tinha na sua cabeça, sobre a nossa última noite na oitava série, estava errada.
Era a primeira vez que eu percebia que a minha versão também estava errada. Nós dois acreditamos em histórias que nunca aconteceram, e por isso o nosso grupo de amigos se desfez naquela noite.
- Pelo menos você acredita em mim quando digo que fui apaixonado por você, não é? – ele perguntou. Seus olhos grandes, castanhos claros, me olhavam com intensidade, aguardando pela minha concordância.
- Bem, acho que sim... Talvez.
bufou naquele momento, jogando as costas contra o encosto da cadeira.
- Por que é tão difícil acreditar que eu possa ter me apaixonado por você?
É, por que era tão difícil?
Porque ele era popular, alto e com porte atlético? Porque era engraçado e sabia falar em público, era o preferido dos professores e tinha as melhores notas da turma? Porque ele tinha o habito de namorar meninas lindas, do tipo que são chamadas para trabalhar em agências de modelos e eu só... Bem, eu era apenas uma garota como todas as outras.
- Talvez por que você me ignorou e me ratou como idiota por três anos seguidos?
Ele revirou os olhos.
- Você também me tratou mal nesses últimos anos.
Neguei com a cabeça.
- Eu só respondia às suas grosserias. – eu disse.
- Bem, e eu só reagia à sua indiferença. – ele respondeu.
Percebi que não chegaríamos a lugar nenhum daquele jeito. Especialmente porque eu já não me lembrava de quem havia começado a provocar quem. Não me lembrava de quem havia dado o primeiro passo para nos distanciar. E isso era estranho, muito estranho.
- Eu acredito em você. – disse por fim, porque era a verdade. havia sido apaixonado por mim quando éramos adolescentes, e eu só havia descoberto isso cinco anos depois.
pareceu aliviado.
- Por que isso é tão importante para você? Digo, que eu acredite nas suas palavras?
- Porque, se vamos voltar a ser amigos, não quero que haja nenhum mal entendido entre nós.
Amigos... Claro. queria que voltássemos a sermos amigos. Bem, por que não?
- Caramba, olha a hora! Preciso ir embora. – ele disse após olhar o relógio. – Eu nem arrumei a minha mala ainda!
já havia se levantado, e eu fiz o mesmo. A esperança que senti mais cedo foi todinha embora. Antes que ele fosse embora, entretanto, lhe desejei boa sorte no jogo. Não eram essas palavras que eu queria lhe dizer, e pela sua expressão, pensei que talvez não fossem apenas as que ele queria ouvir.
- Obrigado. – ele disse. Deu as costas para mim, mas voltou no mesmo instante. - Você... Ah... Tem alguma coisa para me falar?
Sim, eu tinha algumas coisas para lhe dizer. Mas naquele momento eu não saberia como ter coragem para falar. Então apenas respondi que não, não tinha mais nada para lhe falar.
balançou a cabeça em concordância e então se afastou e foi embora.


Capítulo 11

Naquela noite, Caio decidiu que deveríamos jantar panquecas. Ele havia descoberto que era filha de chef de cozinha, e disse que não emprestaria nenhuma de suas provas antigas enquanto ela não lhe mostrasse seus dotes culinários.
- Mas eu não tenho dotes culinários! – ela disse.
- Não é possível que você não tenha aprendido nadinha com a sua mãe.
pensou por alguns segundos, então respondeu que poderia tentar fazer algumas panquecas.
- Panquecas serão, então! – Caio disse animado.
Mesmo que Caio e Bartolomeu já tivessem feito as pazes – Caio não queria que os dois estivessem brigados quando Bartolomeu fosse viajar com o time, e eu decidimos que ainda assim dormiríamos na casa dele.
Enquanto Caio degustava o jantar que a sua caloura havia feito para nós, resolvi contar a eles minha conversa com .
- Espera, mas do que você está falando? – Caio perguntou confuso.
Antes que eu pudesse lhe contar a minha história com , preferiu contar a sua própria versão resumida.
- e eram vizinhos quando crianças, e então se tornaram melhores amigos. Depois eles brigaram por algum motivo e nunca mais se falaram. Depois de dois anos sem se verem, eles estão estudando juntos. confessou que era apaixonado por quando mais novo e a beijou ontem. – ela disse depressa. – Continue contando sobre a conversa de mais cedo.
e Caio estavam sentados lado a lado, enquanto eu estava de frente para os dois. Sua atenção estava inteiramente voltada para mim. Caio revezava sua expressão entre confusão e surpresa, mas não pensou duas vezes antes de largar as panquecas de lado e focar toda sua atenção também em mim.
- Continue, por favor. – ele disse.
Imediatamente fiquei tímida com a atenção que recebia, sentia como se estivesse sendo avaliada, mas não poupei nenhum detalhe. Contei-lhes toda a nossa conversa e quando possível, fiz até mesmo vozes diferentes para indicar quando havia dito algo.
- Espera, você está me dizendo que vocês não conversaram nada sobre o beijo? – perguntou com um tom de indignação na voz. Foi nesse momento que percebi que, de fato, não havíamos tocado no assunto do beijo.
- Acho que não... Bem, foi melhor assim. Se vamos voltar a ser amigos, não devemos falar sobre isso.
- E por que não? – Caio perguntou.
Eu tinha certeza que Caio tinha, pelo menos, um milhão de perguntas sobre o meu passado com , e então mais meio milhão de perguntas sobre o nosso reencontro, mas estava sendo forte para segurar sua curiosidade e deixar que eu terminasse de falar.
- Bem, amigos não se beijam, não é? – eu disse como se fosse meio óbvio.
Nenhum dos dois me respondeu. estava concentrada em uma linha de raciocínio particular, e Caio provavelmente estava listando as perguntas que me faria em poucos minutos.
- Acho que ainda pode estar apaixonado por você. – disse por fim.
Se ainda estivesse comendo a minha panqueca, eu teria engasgado naquele momento. - Não acredito nisso.
- , pense comigo. – e então ela inclinou o corpo para frente. – Por que ele diria, depois de anos, que foi apaixonado por você?
Pensei por alguns segundos.
- Para desabafar, talvez? Colocar para fora? Me provocar?
- Ou apenas para ver a sua reação. Afinal, ele ainda é apaixonado por você.
- Duvido.
Neguei balançando a cabeça de um lado para o outro.
- Se isso fosse verdade, ele não diria que quer ser meu amigo de novo.
Ele teria se declarado, ele teria dito que queria ficar comigo. Quer dizer, ainda é assim que se declara para as pessoas, não é? Sei que faz tempo que não namoro, mas acho que as coisas não podem ter mudado tanto nos últimos anos.
- Você já parou para pensar que talvez estivesse apenas esperando uma reação sua? Um sinal? – e diante da minha expressão confusa, ela continuou. – Que você demonstrasse alguma coisa?
- Ela quer dizer que estava esperando uma atitude sua. – Caio falou impaciente com a minha lerdeza.
- Por que eu faria isso? – agora sim eu estava bem confusa. não estava dizendo que ele estava apaixonado por mim? Como eu poderia tomar uma atitude?
- Porque ele se declarou para você, sua tonta! – ela bateu na mesa. – Ele se declarou no sábado à noite, então te beijou. E então, você saiu correndo como estivesse perdendo o ônibus e deixou o garoto lá, sentado na calçada, com cara de pateta!
Eu finalmente estava começando a entender o seu raciocínio, mas ainda assim...
- Ele... Ele não se declarou! – foi a resposta que eu dei. – Pelo menos não de algo que ele esteja sentindo atualmente.
E isso era bem verdade. me falou dos seus sentimentos do passado, quando era adolescente. Não falou nada sobre gostar de mim ainda hoje.
Caio revirou os olhos e bufou sem paciência.
- Para alguém que gosta tanto de comédias românticas, você consegue ser bem tapada às vezes.
- Ei!
- “Ei”, digo eu! Se tivesse que apostar, diria que estava apenas esperando ser retribuído de alguma forma.
- Isso faz sentido, . – Caio disse. – poderia apenas estar esperando que você lhe desse algum sinal indicando que ele poderia prosseguir, de que era recíproco.
Imediatamente pensei no beijo. Foi recíproco. Isso teria sido um bom sinal, não teria?
- Vou te contar a minha história com Bartolomeu, então talvez você entenda o que queremos dizer.
Foi a vez de Caio de ter as atenções sobre si, mas diferente de mim, ele não parecia tímido.
- Quando Bartolomeu e eu começamos a nos aproximar, ele já sabia que eu era gay, então eu apenas precisava de um sinal seu para saber que poderia avançar na nossa amizade.
- Espera. – eu disse estendendo a mão para frente. – Bartolomeu era hétero?
- É claro que não. Ninguém vira gay de um dia para o outro. – ele disse virando revirando os olhos. – Bartolomeu apenas não havia admitido para si mesmo que sempre gostou de homens.
Concordei balançando a cabeça.
- De qualquer forma, um dia ele mandou uma mensagem para mim dizendo que queria me ver, e então quando nos encontramos, deixou claro que gostava de mim como eu gostava dele. Começamos a namorar oficialmente um mês depois.
- Que fofo! – comentou ao final. Caio riu.
- foi quem deu um toque de realidade em Bartolomeu.
- Sério? – perguntei interessada.
- Seríssimo. Acho que estava muito óbvio que eu gostava dele, e apenas meu namorado não tinha percebido ainda. acabou me dando uma ajudinha no final.
Pensei nas palavras de Caio. Se eu deveria retribuir , lhe dar um sinal... Como eu deveria fazer isso? E, mais do que isso, ainda me questionava se , de fato, esperava por um sinal ou meu, ou se tudo isso era apenas coisa da cabeça dos meus novos amigos.


Capítulo 12

Estava distraída mexendo no celular, e por isso não o vi. Ele precisou me chamar duas vezes até que me desse conta de que estava me esperando na porta da faculdade.
- O que está fazendo aqui?
- Não gostou da surpresa?
Fui até ele e o abracei. Parecia que fazia tanto tempo que não nos víamos quando, na verdade, tinha apenas pouco mais de uma semana.
- É claro que gostei, bobo. Apenas não entendo o que está fazendo aqui. Hoje é segunda-feira, não é? – perguntei confusa. Seria possível que já estivesse ficando maluca e perdendo a noção do tempo? – Você faltou à sua aula para vir até aqui?
- Não, apenas saí mais cedo. – ele respondeu. – Já almoçou?
- Ainda não, acabei de sair da aula.
- Então me leve a um bom restaurante. – pediu. – Com um preço acessível a estudantes, por favor.
Sair para almoçar com me lembrava dos velhos tempos, quando almoçávamos às quintas-feiras, único dia da semana que também tinha cursinho na parte da tarde. costumava ir até a escola em que tinha aula, e comíamos no Subway em frente ao colégio.
É claro que estava feliz por poder realizar essa atividade com ele novamente. Eu sentia falta do meu melhor amigo. Entretanto, sair com , neste momento, significava ter que deixar o celular de lado e, consequentemente, não poder acompanhar os stories do Instagram do time de futsal do curso de Direito. O nosso time jogaria em poucos minutos, e assistir os meninos se alongarem e treinarem sem camisa tinha sido uma ótima distração da aula de Filosofia do Direito.
- E aí, o que tem feito? - ele perguntou assim que tomamos nossos lugares.
Levei a um restaurante no quarteirão de baixo. Conseguimos uma boa mesa perto da janela, onde deixei minha bolsa e sua mochila para guardar nossos lugares enquanto fazíamos nossos pratos.
- Ah, você sabe... Apenas indo às aulas. – eu respondi. Não é como se tivesse tempo de fazer muita coisa, na verdade.
- E aquela festa que você foi? - senti as bochechas esquentarem.
- Você lembra que eu havia ficado sem um veterano para me instruir?
- Lembro. Porque o cara que sorteou o seu nome era um babaca.
- Exatamente. – respondi. Não poderia concordar mais. – Adivinhe com quem participei das provas na festa? - levantou as sobrancelhas, como se disse “como é que eu vou saber?”.
- .
Ele ergueu as sobrancelhas de novo. Dessa vez ficou neste estado por um bom tempo, enquanto também ficava em silêncio. Esperei por uma piada, mas esta não veio. Imediatamente me senti desconfortável com a sua falta de reação.
- Você e passaram a noite juntos, então?
- Nós jogamos juntos. – esclareci. E diante do seu silêncio, continuei. – Descobri que ele não é tão babaca quanto pensávamos.
Não contei a ele sobre o beijo. Queria guardar aquilo só para mim. Além disso, não me sentia confortável em contar para sobre isso, o que era estranho, afinal éramos melhores amigos desde sempre, e nunca escondi nada dele.
continuava com a expressão séria, e não entendia o porquê daquilo. Incomodada, e querendo buscar alguma reação sua, falei:
- Sabia que gostava de mim?
- Ele disse isso? - e então tomou um gole do seu suco. – Não leve as coisas que ele fala tão a sério. Você sabe como ele é. – deu de ombros.
Foi nesse momento que senti... Não sei, raiva, talvez? Era a primeira vez, em muitos anos, que sentia algo do tipo por . O sentimento de raiva não se deu apenas pela escolha de palavras, mas pelo tom de desdém que ele escolheu usar.
- Não, eu não sei. – respondi. – Porque ele e eu não conversamos há muito tempo. Eu sei como ele era, e mesmo tendo sido um idiota, sei que ele nunca foi o tipo de pessoa que mente.
odeia mentiras. Lembrava-me claramente do dia em que nos reunimos na casa dele para consolá-lo pelo fato de que seu pai havia largado sua família para ficar com outra mulher, uma namorada que ele mantinha há mais de um ano. Naquele dia, com apenas doze anos de idade, jurou que nunca mais iria mentir sobre nada.
- Parece que vocês dois ficaram muito próximos. Está até defendendo ele.
Estreitei os olhos. estava tentando me provocar? Quando foi que chegamos naquilo?
Como não queria brigar, e precisava esclarecer algo que martelava na minha mente desde que o dia da sorveteria: - disse que deixou de falar comigo porque pensou que eu você estávamos namorando. – eu disse. Esperei alguns segundos, mas não disse nada. – Estranho, não é?
- Hm... Estranho. - estava muito concentrado em comer, tanto que não me olhava mais.
- Ele também disse que chegou a fazer um bilhete se declarando para mim. Disse que queria que fôssemos juntos ao baile, mas esse bilhete nunca chegou até mim.
Novamente não recebi reação sua.
- ... – ele me olhou. – Você tem alguma coisa para me contar?
- Por que eu teria algo para te contar sobre isso? – ele perguntou com a expressão confusa.
Não pressionei, simplesmente porque não queria duvidar do meu amigo. então deixou os talheres de lado, tomou outro gole do seu suco e segurou a minha mão em cima da mesa.
- , acho que você não deveria levar as coisas tão a sério. Digo... já não é a mesma pessoa com quem costumávamos brincar na sua casa.
- Por que eu não deveria levar a sério? É tão improvável assim, o fato de um garoto admitir que foi apaixonado por mim quando criança? – e então ter me dado um beijão no final? Obviamente não disse a segunda parte em voz alta.
- Não acho improvável, apenas acho estranho. Especialmente porque estudamos juntos por mais três anos depois do baile de formatura, e teve inúmeras oportunidades para conversar com você. Por que ele faria isso agora?
- Ele disse que pensou que estivéssemos namorando.
- ... – ele suspirou. – Isso não pode ser verdade, porque durante três anos nós nunca fomos mais do que amigos. claramente sabia disso, e mesmo que não soubesse, acho que três anos é tempo suficiente para descobrir se a garota que você gosta realmente está ou não namorando alguém. Abri a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu.
- Olha, eu não quero brigar, tudo bem? Vim te visitar porque estava com saudades da minha melhor amiga.
nunca havia me dado motivos para duvidar dele. Ele sempre esteve ao meu lado, diferente de , com quem não conversava há anos. Não queria deixar uma frase dita por influenciar na amizade que cultivava com .
Então a raiva foi substituída pelo sentimento de afeto. Mas só foi substituída um pouquinho. Achamos por bem, então, mudarmos de assunto.
- Me diga, você vai voltar para casa na semana que vem? É aniversário da sua mãe, não é?
- É sim... Preciso comprar um presente para ela, aliás.
Fiz uma nota mental para me lembrar de perguntar à minha mãe o que ela gostaria de ganhar.
- Como é? Você não vai fazer um bolo para ela como sempre?
- Eu até queria, mas não sei vai dar tempo. Sem chances de fazer na república, a cozinha é pequena demais. Talvez eu faça quando chegar em casa, mas não sei que dia vou embora.
Se eu conseguisse ir embora na sexta-feira, poderia fazer o bolo à noite. Mas se chegar em casa apenas no sábado, não teria tempo de fazê-lo, já que minha mãe costuma comemorar seu aniversário com um churrasco na hora do almoço.
- Isso significa que ficaremos sem o seu bolo durante os cinco anos em que você morar aqui? O que será dos aniversários da sua mãe?
Naquele momento eu já havia esquecido todo o aborrecimento que havia sentido mais cedo por . Suas palavras engraçadas e seu drama foram o bastante para me fazer rir.
- Não se preocupe, não deixarei você ficar cinco anos sem meus bolos. Eu jamais faria isso com você.
- Obrigado. – ele disse com sinceridade.
No final do almoço, enquanto me acompanhava de volta para o campus, perguntei como estavam sendo suas aulas, quando ele me respondeu que estavam ficando cada vez mais interessantes. E quando me questionou sobre a minha formatura, respondi que não tinha certeza se conseguiria chegar até lá, afinal, em apenas duas semanas de aula já me sentia esgotada.
Ao final do dia, depois de precisar me esforçar para não cochilar na aula – eu precisava começar a ir dormir mais cedo – cheguei à república, encontrando ainda vestindo o pijama que usara para dormir.
- Ainda passando mal? – perguntei a ela.
- Tomei um comprimido para cólica e outro para dor de cabeça. Acho que essa noite vou conseguir dormir melhor.
Balancei a cabeça em concordância. Esse tipo de cólica, do tipo que sentimos todos os meses, eu entendia muito bem.
- Ei, você viu que o nosso time venceu o jogo de hoje?
- É mesmo? Eu não vi!
Imediatamente peguei meu celular. Tinha até me esquecido que nosso time estaria participando de um amistoso hoje à tarde.
- O time chega amanhã cedo, e a comemoração vai ser no período da tarde.
Senti orgulho do nosso time, como se fosse uma torcedora fiel, apesar de sentir um fundinho de arrependimento por não ter tido a oportunidade de não acompanhar cada um dos gols mais cedo.


Capítulo 13

Como se fosse uma celebridade, o time de futsal masculino do curso de Direito foi recebido com aplausos e assobios – e até mesmo alguns confetes de carnaval, devo dizer. desceu do ônibus com um sorriso maior do que o próprio rosto, e deixou claro o quão satisfeito estava por receber tantos parabéns por feito o gol da vitória.
- Você viu que golaço?
- O goleiro nem viu de onde a bola veio!
- Ouvi dizer que ele nem vai precisar fazer as provas finais, os professores já aprovaram ele.
Não acreditei nem por um segundo no último comentário.
Brian, por outro lado, deixou passar um gol muito fácil – segundo alguns alunos –, logo no início do jogo, e por isso teria que treinar o dobro nas próximas semanas – segundo o treinador do time.
- Até eu teria parado aquela bola. – alguém disse.
- Fala sério, foi erro de principiante. – outra pessoa disse.
- “Você vai treinar duas vezes mais que todos os outros jogadores, Brian!”, foi o que o treinador disse. É sério, eu mesmo ouvi! – um terceiro falou.
Não sabia se acreditava nessa última, mas esperava ser verdade, simplesmente para ter o prazer de saber que Brian iria sofrer mais que os outros jogadores.
Apesar de ter sido apenas um amistoso entre faculdades, uma vitória, logo no início do ano, era importante, especialmente para o nosso time que estava se preparando para os jogos jurídicos. Não que eu tivesse ideia dessa informação, mas foi o que ouvi de alguns alunos enquanto afastavam-se dos portões da faculdade, e seguiam o nosso time em direção a um bar próximo dali.
Quer dizer, é claro que todos iriam comemorar. Ninguém iria ter cabeça para ficar na sala de aula ouvindo sobre a Teoria do Crime, quando havia tantas fofocas sobre a viagem e tantos comentários sobre os passes feitos no jogo de ontem.
- Vão, vão! Tomem uma por mim! – disse um professor rindo, enquanto dava dois tapinhas nas costas de um dos jogadores.
Percebi que até mesmo os professores não se importaram com a ideia de ter suas salas de aula vazias.
Quando finalmente Caio encontrou um lugar para estacionar o carro, ainda tivemos que caminhar um quarteirão para chegar até o bar que, devo informar, estava lotado.
- Não sabia que tanta gente é fã de futsal. O nosso time nem tem tantos seguidores nas redes sociais. – comentou.
- Não são fãs, e a maioria aqui nem conhece o time. Estão apenas aproveitando a oportunidade de vir para o bar, no meio da semana, e perder aula sem correr o risco de levar falta ou mesmo ser punido de alguma forma pelos professores.
Caio estava certo. Apesar do tanto de gente lá dentro, as pessoas que rodeavam o time de futsal era bem reduzido. Mas ainda assim, era gente demais, e mal consegui me aproximar para cumprimentar . Pelo menos pude cumprimentar Bartolomeu, que estava sendo ridiculamente paparicado pelo namorado, afinal, o primeiro gol tinha sido dele.
- Com menos de dez minutos de jogo. – Caio repetia. – Dez minutos, minha gente!
Depois de brindarmos algumas vezes – Caio e Bartolomeu várias vezes a mais – decidi ir embora. Já que estava perdendo a aula da parte da manhã, e com certeza não iria para a faculdade na parte da tarde, pensei em aproveitar o dia para ir ao supermercado e talvez ao shopping.
Estudar em período integral acabou me deixando sem tempo para nada, e isso incluía reabastecer o meu lado da dispensa na república e comprar um presente de aniversário para a minha mãe.
- Ei, aonde você vai?
estava do lado de fora do bar, e veio até mim assim que coloquei os pés na calçada.
- Tenho que... Fazer algumas coisas importantes. Não posso deixar para outro dia.
Não é como se eu fosse admitir, em voz alta, que estava indo embora de uma comemoração para ir ao supermercado. Quer dizer, quantos anos eu tinha, sessenta?
- E você, onde estava? – perguntei para não dar chance a de questionar o que de importante eu tinha para fazer naquele momento.
- Fui buscar a minha camiseta do time no carro. Vamos comemorar usando o uniforme. – ele deu um super sorriso.
Foi naquele momento que percebi que era a primeira vez que nos encontrávamos desde a sua volta.
- Parabéns, inclusive. – eu disse. Também quis lhe dar um abraço, mas não o fiz. Me senti insegura em relação a isso.
- Obrigado. – ele ainda tinha o super sorriso nos lábios. – E aí, já deu uma olhada no material que te emprestei?
- Ah... Ainda não. Por que, será que vou encontrar algum bilhete lá no meio? – perguntei brincando.
Pensei, por um instante, se não deveria ter feito aquela brincadeira. Não sabia se o assunto era sensível a ele ou não. Mas apenas fez uma careta, e então riu em seguida.
- É, pode tirar sarro. Eu era mesmo muito cafona.
- Não acho que você era cafona, . – respondi. – Se o que você disse é verdade, acho que você foi muito fofo.
Eu estava dizendo que ele era fofo, mas quem ficou corada na hora fui eu.
- Espera, como assim “se”?
Dei de ombros. Não iria admitir que ainda tinha um fundinho de dúvida sobre a sua declaração.
- É difícil imaginar você sendo romântico.
E isso era bem verdade. era conhecido por ser o queridinho das garotas, mas não conhecido por ser romântico com todas elas.
- Sabe, você poderia se surpreender, .
Na verdade eu havia acabado de me surpreender, e foi com o tom grave da sua voz. Também me surpreendi com a intensidade do seu olhar. Espera, quando foi que havíamos mudado o tom da conversa?
Eu poderia me surpreender, ele disse. Bem, eu não duvidava nenhum pouco disso.
- Preciso ir.
Tentei passar por ele, mas deu um passo para o lado, ficando na minha frente, impedindo a minha passagem.
- Espera, por que você não fica mais um pouco?
- Não posso, preciso mesmo ir.
Eu precisava mesmo? Já nem me lembrava do motivo de ter que ir embora. fazia isso comigo, percebi. De uns dias para cá, quando estávamos juntos todo o resto desaparecia, e então só existia nós dois.
- Me deixa adivinhar, vai passar o dia todo estudando? – ele perguntou com tom de brincadeira. – Agora sim está parecendo a de sempre.
Isso foi outra coisa que percebi. já não usava meu nome composto como forma de me irritar, mas apenas... Apenas dizia meu nome. Ele parecia gostar do meu nome, gostava de repeti-lo.
- Mais ou menos isso. – foi o que respondi, mesmo não sendo verdade, porque não, eu não iria passar o dia estudando, ainda que devesse.
Senti um forte impulso de sair correndo. Precisei controlar minhas pernas para não fazê-lo. A verdade é que precisava mesmo ir, mas não tinha pressa nenhuma nisso. Mas naquela hora... Naquela hora me sentia acuada. Senti-me sendo colocada contra a parede. E não por , mas por mim mesma.
Naquela hora percebi que estava sendo tomada por algum sentimento muito forte. Não era desconfortável, mas era forte. Um sentimento que não conhecia ou, pelo menos, não me lembrava de como era senti-lo. Meu coração batia rápido, minha cabeça tinha mil pensamentos ao mesmo tempo. Na minha barriga, uma festa de borboletas. Quando pensava em , duas coisas vinham à minha mente:
Um, o período em que fui apaixonada por ele, quando mais nova (mesmo que tenha sido um período curto, eu me lembrava bem como era estar apaixonada pelo meu amigo, o qual já era disputado pelas meninas que queriam sentar ao seu lado no refeitório); e dois, o período em que tudo o que conseguia sentir por era a dor por me ver tão distante do meu amigo. Este sentimento, devo admitir, costumava ser predominante em mim. Hoje, entretanto, enquanto seguia para o ponto de ônibus, percebi que, talvez, eu pudesse estar me apaixonando por ele de novo.


Capítulo 14

O final de semana chegou novamente, e com ele o dia da faxina. Por sorte, e eu fomos dispensadas, afinal, tínhamos feito além da nossa parte na última semana. Verônica cumpriu a sua promessa, afinal de contas.
Como de costume, minha mãe me ligou logo antes do almoço, apenas para perguntar como estava me saindo nas aulas e para reclamar que ainda não havia voltado para casa desde que me mudara de cidade.
- Você deveria vir na sexta-feira. – ela disse mal dando tempo para que eu lhe respondesse. – Se vier no sábado só poderá ficar dois dias!
- Mãe, eu tenho aula na sexta-feira. – disse de novo. Não queria começar o semestre faltando. Queria economizar as minhas faltas para uma emergência.
Minha mãe bufou do outro lado da linha.
- Eu estou com saudades, você sabe. Mas você não tem ideia de como seu pai está. Ele está aos prantos!
- Eu não estou aos prantos! – ouvi meu pai gritar de longe.
- Ele está sim aos prantos. – minha mãe afirmou. – Ele sente sua falta, especialmente porque você não fala com ele.
Abri a boca de surpresa pela acusação injusta.
- Eu falo com vocês dois! Você que não passa o telefone para ele!
Minha mãe sempre me ligava do seu celular, já que utilizava os bônus dados pela operadora, e não pagava pela ligação. Meu pai sempre participava das nossas conversas.
- Por que eu passaria o telefone para ele se estamos no viva-voz?
Ainda bem que ela não viu meu rolar de olhos, ou então eu levaria uma bronca. Não iria continuar discutindo com ela. Não chegaríamos a lugar nenhum.
- Mãe, vou tentar ir na sexta-feira, mas não garanto nada. Da última vez que vi, as passagens dos ônibus da noite já tinham acabado, e eu não posso ir mais cedo porque saio da aula às quatro da tarde.
Entrei no site da rodoviária hoje mais cedo. Os únicos ônibus que ainda tinham lugares vagos eram os da manhã, e o das duas da tarde, na sexta-feira. Impossível para mim.
- Além disso, se você vier no sábado de manhã, como pretende, vai chegar em cima da hora para o meu aniversário.
- Mãe...
- Peça carona para , então. – ela me interrompeu.
Quase engasguei com a sua sugestão. De onde tinha vindo aquilo? E, mais do que isso, como é que minha mãe sabia de ?
- Por que eu faria isso?
- Conversei com a mãe dele, e ela me disse que ele viria na sexta-feira. – ela respondeu tranquila, como se saber da rotina de fosse a coisa mais comum do mundo. – Você deveria pedir carona para ele.
- Por que você conversou com a mãe de ?
E por que ela sabia que ele estaria voltando para a nossa cidade neste fim de semana enquanto nem mesmo eu sabia disso?
- Nós sempre conversamos. Não é porque vocês deixaram de ser amigos que nós também deixamos de nos ver.
Não pude contestar aquilo. Quando se mudou para a casa ao lado da nossa, nossas mães se tornaram amigas antes mesmo de nós começarmos a conversar. Quando formamos nosso grupinho de amigos, minha mãe logo fez questão de manter contato com as mães de todos os meus amigos.
Só não sabia que minha mãe ainda mantinha contato com a mãe dele até os dias de hoje. Quer dizer, e eu passamos por momentos difíceis durante o colegial, quando não éramos exatamente amigos, não é mesmo?
- Converse com ele. – ela insistiu.
- Vou ver o que faço, mas não crie muitas expectativas. – eu disse. – E não chore, papai.
- Eu não estou chorando!

--


Não precisei ir atrás de para lhe pedir uma carona. Não que eu fosse fazer isso, de qualquer forma. Ou, pelo menos, não de forma tão direta. Provavelmente eu iria pensar em algum assunto banal para conversar com ele, e então, de forma bastante casual, perguntaria com que frequência ele volta para casa. E então perguntaria como ele volta para casa.
Faria algum drama, nada pesado, mas apenas dizendo como gostaria de visitar meus pais naquele final de semana, mas que as passagens de ônibus tinham acabado, e que eu gostaria tanto de saber se mais alguém também estaria voltando para casa para me oferecer uma carona…
Eu tinha todo o diálogo pronto na cabeça. Bem discreto, eu sei. Nada cara de pau.
Mas então me ligou naquela noite.
- Ei, por que não me disse que precisava de carona pra ir para casa nesse final de semana?
Ele nem mesmo respondeu o meu “alô”.
E como não poderia deixá-lo ferir o meu orgulho, apenas respondi:
- Porque eu não preciso. – eu disse mesmo precisando sim da sua carona. – Eu disse para a minha mãe que posso ir no sábado de manhã.
- Mas se você for no sábado de manhã vai chegar em cima da hora para o aniversário dela.
Por que eu não estava surpresa com o fato de repetir as exatas palavras da minha mãe?
E com o último pingo de orgulho que tinha, apenas na tentativa de me fazer de difícil, quando tudo o que eu queria era não precisar gastar dinheiro comprando duas passagens de ônibus, eu disse:
- Bem, eu não posso faltar na aula da sexta-feira.
- Você pode ir comigo, . Também não pretendo faltar nas aulas de sexta-feira.
- Não quero te atrapalhar...
Pare de se fazer de difícil, ! Por que eu estava me fazendo de difícil? Que queria aquela carona, afinal de contas.
- É claro que não vai me atrapalhar. Além disso, não tem sentido você pagar passagem de ônibus para ir para o mesmo lugar que eu.
- Bem, obrigada.
- Fique com as malas prontas. Vamos assim que as aulas terminarem.
Apenas tive tempo de agradecer mais uma vez antes de se despedir e desligar o telefone sem se preocupar em se despedir.




Continua...



Nota da autora: Mais dois capítulos para vocês, amoras! O que vocês acham que vai ser dessa carona, hein? Será que esses pps vão finalmente colocar os pingos nos is?
Deixem um comentário cheio de amor e indiquem a fanfic para as amigas! ❤️

P.S.: Ainda Lembro de Você agora tem um spin-off. A história se passa anos atrás, quando Daniel e Ana Lara ainda eram amigos. O Spin-off se chama Ainda Lembro de Nós (muito criativo, eu sei), e o link para acessar a fanfic está aqui em baixo!
Até logo
Beijos de luz
Angel





Outras Fanfics:
Longfic:

Ainda Lembro de VocêIt’s Always Been You


Shortfics:

21 MonthsBabá TemporáriaBeautifuly DeliciousBecause of the WarCafé com ChocolateElementalO Conto da SereiaO Garoto do MetrôRumorShe Was PrettySorry SorryWelcome to a new wordWhen We Met

Ficstapes:

05. Paradise 06. Every Road 07. Face 10. What If I 12. Epilogue: Young Forever 15. Does Your Mother Know

MVs:

MV: Change MV: Run & Run MV: Hola Hola



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.

Curiosa pra saber se a autora já enviou atualização da fanfic? Você pode conferir isso na Página de controle!
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